Page 1

A Necessidade da Fundamentação Moral Acção Constitui-se sempre como um problema ético 

Uma vez que as possibilidades de agir são imensas, o ser humano tem de descobrir a melhor forma de o fazer.

Ao longo da história, inúmeros pensadores têm reflectido sobre o problema da escolha de critérios que definam o que moralmente pode ser feito.

Posições adoptadas pelos filósofos quanto aos critérios valorativos   Éticas Utilitaristas  O bem reside em tudo o que é vantajoso para o maior número de pessoas.  O interesse pessoal do sujeito é minimizado em favor do interesse da colectividade.

 Éticas Pragmáticas  Uma acção é boa se funcionar bem, isto é, se se revelar eficaz.  O bom resultado é o critério moral por excelência.

 Éticas Hedonistas  A vida deve consistir na procura de prazer e fuga ao desprazer.  O prazer é o critério que assinala o carácter valioso dos actos humanos.

Ex: Ética de Epicuro

 Éticas Estoicistas  A resignação surge como um critério de vida moral.  É na aceitação da inevitabilidade da dor, do sofrimento e das contrariedades que reside o segredo da vida moral.

 Éticas Racionalistas  O dever surge como critério de uma vida boa.  Cabe à razão a tarefa de discernir o que é bem e o que é mal, o que é justo ou não é justo fazer.

Ex: Ética de Kant

1


Caracterização destas éticas Conforme

dão

mais

relevância

às

consequências da acção ou à intenção ética do sujeito.

Éticas Teleológicas

Éticas Deontológicas O valor das acções avalia-

O valor dos actos morais

se pela intenção do

determina-se pela observação

sujeito.

dos seus fins, resultados ou consequências.

Ética de Epicuro Ética de Epicuro É uma…

Ética Teleológica

Ética do Prazer

Ética Material ou

Ética Hedonista

Materialista Epicuro defende uma ética teleológica e hedonista, pois acredita que o carácter bom da conduta está no objectivo ou fim atingido por ela, sendo o seu principal objectivo a busca de prazer e fuga ao desprazer.

O Epicurismo preocupa-se em

Libertar o homem da angústia

Encaminhar o homem na procura de felicidade

2


Da Cidadania ao Individualismo Crise Política e Social na Grécia Levou à perda da independência, privando os cidadãos de colaborar na organização e destino das cidades gregas. Devido a esta crise, os cidadãos tentaram procurar algo que desse sentido às suas vidas. Por isso, tentaram arranjar formas de se voltarem a sentir livres, encontrando refúgio na liberdade individual, uma vez que a social e política foi perdida.

Epicuro defende que:

O homem verdadeiramente sábio deve prescindir da política, escapando às desilusões por ela provocadas.

Os Epicuristas:   

Afirmam que não irão salvar-se ou ser felizes na religião; São adeptos de uma perspectiva materialista; Negam que os deuses tenham criado e orientado os homens e o mundo, por isso devem afastar-se deles e ficar-lhes indiferente.

Questão Central de Epicuro

Passa de: Cidadão participativo

a

Indivíduo que quer ser feliz Individuo preocupado com o

Cidadão preocupado em

que fazer para encontrar a

realizar-se enquanto cidadão

felicidade.

activo e participante na vida pública.

É o que defende Ou seja,

Epicuro

A vida política cede lugar às preocupações morais.

3


Ética de Epicuro – Uma Ética do Prazer Para os epicuristas a verdadeira sabedoria consiste em viver segundo o princípio do prazer.

Porta de acesso à felicidade O bem supremo identifica-se com o prazer, que é proporcionado pelos órgãos corporais. Contudo, depois de se analisar as consequências de viver segundo este princípio, Epicuro chega à conclusão que: 

Quando fruídos em excessos, os prazeres sensíveis são fonte de desgosto, doença, sofrimento, originando assim o desprazer.

Ou seja, “Tudo o que é em excesso faz mal”

Ex:

Se uma pessoa gosta de beber bebidas alcoólicas e se beber de vez em

quando, por prazer, não faz mal, mas se for em excesso, arrisca-se a ficar alcoólico, sentir o desprazer da ressaca… (pode ficar doente). No entanto, originou-se uma contradição que irá ser esclarecida com a distinção entre prazeres em movimente e prazeres em repouso.

4


Distinção entre prazeres em movimento e prazeres em repouso  Prazeres em Movimento Acto de satisfação de uma necessidade resultante de um desequilíbrio orgânico. Ou seja,

 Acontece sempre que há uma necessidade básica;  É a mera satisfação dessas necessidades. Ex: Beber quando temos sede; Comer quando temos fome.

 Prazeres em Repouso Estado em que se vive quando não há nenhuma necessidade a reclamar satisfação, isto é, quando o organismo está em equilíbrio. .

Verdadeiro Bem (estado em que se encontra e realiza o prazer)

Porque:

 É duradouro  É estável  Permite a total ausência de dor

5


Três Condições para se Ser feliz segundo Epicuro

Liberdade

Amizade

Tempo para Meditar

Para o sábio epicurista para se viver feliz não é preciso ter grandes exageros, basta-lhe um pouco de pão, um pouco de água, ter onde dormir e amizade. Um homem feliz que cultivando a prudência, a justiça, a temperança e a amizade, certamente conseguirá atingir a ataraxia.

Ataraxia

Estado purificado, imbuído de paz absoluta e equilíbrio perfeito.

Como lidam os Epicuristas com a morte?

Os epicuristas não receiam a morte, pois sendo de natureza material, defendem que a alma morre com o corpo.

Por isso, eles preocupam-se com a vida e não com a morte, pois afirmam que:

“A morte e o homem nunca se encontram.”

6


Ética de Epicuro – Uma Ética Material Todas as éticas teleológicas são materiais, uma vez que o agir bem e o agir mal depende de um conteúdo ou de um bem exterior à acção. 

A acção é boa, se nos aproxima desse bem;

A acção é má, se nos afasta desse bem. Ou seja,

O valor reside nas finalidades alcançadas pela acção ou nas consequências dela resultantes.

Ética Material

Comporta sempre um conteúdo, constituído por dois elementos básicos

A pressuposição de que há coisas

Escolhido o objectivo ou

boas, entre as quais o homem

fim, a ética indica as

selecciona o que mais lhe agrada

normas ou preceitos de

para eleger como bem superior ou

acção para o alcançar.

fim a atingir.

7


Normas Epicuristas “Para obteres o verdadeiro prazer, sê moderado na tua vida.”

Como já dissemos, tudo o que é exagero faz-nos mal, na nossa vida é essencial termos a virtude do “meio termo” e assim evitar que o prazer se transforme em desprazer.

“Quem nada tem nada perde.”

Para os epicuristas, quanto menos tiverem, menos se preocupam com o que não interessa, ou seja, se não tivermos nada não temos nada a perder, por isso estamos “abertos” a arriscar e a lutar por aquilo que queremos alcançar.

“Se não te queres preocupar, não te envolvas em política.” Na época de Epicuro, o contexto sócio-político na Grécia era desastroso, portanto Epicuro centra-se/defende o individualismo.

“Se queres ser necessidades.”

feliz,

reduz

o

número

Para Epicuro quantas menos forem as necessidades mais feliz se é. Ex: Ter um par de sapatos em vez de muitos.

8

das

tuas


Ética de Kant ou Ética Kantiana Kant foi um filósofo do século XVIII e é o pensador mais representativo do iluminismo ou movimento das luzes.

Kant: “ousa pensar” (pretende mostrar que o homem enquanto ser racional tem a capacidade de pensar autonomamente). Ou seja, Ele pretende:  Despertar a razão para lutar contra a ignorância, preconceitos e superstições e todas as formas de autoridade não reconhecidas pela própria razão;  Lutar pela liberdade e emancipação do homem em relação a todas as formas possíveis de opressão mental.

Kant revolucionou o contexto da Moral

Porque a sua ética

Ética de Kant É uma ética.. Racionalista

Deontológica

Autónoma

Formal

Dever (ética da intenção)

9


Comparação entre a ética Kantiana e as éticas já existentes Éticas Anteriores

Ética de Kant

Éticas heterónomas

Ética Autónoma

Éticas Materiais

Ética Formal

Éticas Teleológicas

Ética Deontológica

Da heteronomia à Autonomia Para Kant, o homem não deve reger-se por éticas materiais, isto é, éticas heterónomas, como por exemplo a de Epicuro, pois se assim for o sujeito deixa de ter autonomia da razão, ou seja, não possui uma razão livre para decidir por si, uma vez que as normas da acção visam interesses alheios à acção e razão do sujeito. O homem não pode obedecer aos desejos, apetites e inclinações que estejam associados ao corpo. Pois eles são

Escravizadores da Razão Humana (impedem que a razão escolha o que deve ou não deve fazer).

A Ética de Kant é uma Ética Racional

Tornando-se assim Universal e com capacidade de restituir ao homem o poder de decidir livremente.

10


Ética Racionalista O que devemos fazer

O que não devemos fazer

É essencial para que se torne uma Ética Formal

Para Kant é importante: Que o homem tenha força suficiente para resistir aos desejos e inclinações, pois como já referimos, eles são escravizadores da razão humana.

Concepção dualista do Homem Ajuda-nos a compreender o conceito que Kant estabeleceu como autonomia da razão.

Homem é Corpo

Razão

O homem apresenta, simultaneamente, uma disposição para a animalidade e uma disposição para a Humanidade. Animalidade

Matéria

Humanidade

Corpo

Alma

e

Sensível Exterioridade

Espírito

Inteligível

Sentidos

Interioridade

Razão

 Humanidade – Identifica-se com a parte racional do homem. É a sua dimensão superior, sede de autonomia, da responsabilidade, da liberdade, da consciência, do sentimento do dever, da boa vontade, ou seja, da capacidade de agir moralmente.  Animalidade – Relaciona-se com o homem enquanto realidade empíricosensível, enquanto ser material que dispõe de um corpo dotado de apetites, impulsos, desejos, inclinações e necessidades de ordem biológica.

11


Segundo Kant, temos que “seguir” a nossa racionalidade e não o nosso corpo.

Porque Animalidade

Vs.

Racionalidade Temos que nos guiar pela

Nunca nos vai realizar

racionalidade, para nos

como pessoas.

realizarmos como pessoas.

A racionalidade tem que prevalecer sobre a animalidade para sermos humanos

Ética Kantiana – Uma Ética do Dever É essencial o respeito pelo dever

É o único orientador das acções morais. O homem pratica três espécies de acção:  Acção contra o dever;  Acção conforme ao dever;  Acção por dever.

Acção contra o dever É uma acção destituída de valor moral. Ex: * Vender um colar, dizendo que é de ouro, cobrar pelo preço do ouro, com desconto… e depois a peça ser uma imitação. * Roubar… e deixar outra pessoa ser acusada.

Acção conforme ao dever É uma acção que não tem valor moral, porque é um meio para alcançar um fim exterior à acção.

Aparentemente não é contra o dever, mas não tem valor moral.

12


Ex: Ajudar os outros mas para benefício próprio (projecção pessoal ou alívio da consciência); Fazer solidariedade só para aparecer na televisão (tem o fim de benefício próprio); Dar dinheiro a instituições só para ficar bem visto.

Acção por dever São as verdadeiras acções morais, pois o valor reside na própria acção. São praticadas por respeito ao dever, são um fim em si mesma e não são um meio para obter uma recompensa. Ex: Ajudar os outros, porque queremos mesmo ajudar, sabemos que é esse o nosso dever. Ajudar idosos a atravessar a estrada, sem ter a intenção de receber algo em troca.

Comparação entre as Éticas já existentes e a Ética Kantiana Éticas Anteriores Acção

Ética Kantiana

Fim exterior

Acção = Fim em si mesma

Sede de

valor moral Éticas Deontológicas

Éticas Teleológicas

Éticas Formais

Sede do valor moral

Éticas Materiais

Éticas do Dever

Éticas de Fins

Éticas Intencionalistas

Éticas Consequencialistas

A acção é boa se atinge

A acção é boa se for feita por dever

um fim bom. Ex: Ética de Epicuro Implica que seja uma

Ética Deontológica

O homem só age bem se actuar por dever isto é... Agir por respeito à lei moral

13


Ética Kantiana – Uma ética Formal

O imperativo moral (qualquer das formulações) é vazio de conteúdo. Ou seja, Não estabelece nenhuma norma particular para esta ou aquela acção, mas sim a forma que deve presidir a qualquer das nossas acções.

Quando uma ética é Formal significa que:

Existência de Imperativos que não

Verificamos a inexistência

dizem como se deve agir, em

de um Bem exterior à

particular, é vazio de conteúdo, mas

acção.

é universal.

Imperativos Morais da Ética Kantiana São a Priori, ou seja, a sua validade não depende da experiência.

Esta anterioridade e independência em relação à experiência ou às acções concretas conferem às regras morais: 

Um carácter incondicional e universal Surgindo assim como aconselhamentos válidos para todas as pessoas, seja em que caso for. Fazendo com que tenham

Uma aplicação Universal

14


Ética Universal – Objectivo de Kant Kant pretendia ultrapassar o carácter particular das éticas materiais, com regras fundadas na experiência.

Porque razão as éticas a posteriori não possuem validade universal? Em tudo na nossa vida há excepções. Por exemplo, nós sabemos que não devemos beber muitas bebidas alcoólicas, no entanto há pessoas que o fazem e a qualquer altura podemos encontrar uma dessas pessoas, por isso as éticas derivadas da experiência não possuem validade universal.

Imperativo Categórico Princípio por que se rege a Ética de Kant

Consolida o carácter formal

Evidencia a ideia do

e universal da ética kantiana.

Homem como fim e não como meio.

Ou seja,  Não devemos instrumentalizar as pessoas, usandoas como um meio;  Devemos respeitar o Homem como um valor absoluto, portador de uma dignidade intrínseca.

15


Diferença entre uma Ética Formal e uma Ética Material Ética Material

Ética Formal

A posteriori

A priori

Hipotética

Categórica

Heterónoma

Autónoma

Carácter Particular

Carácter Universal

Crítica de Kant à Ética de Epicuro Kant defende que o homem não se pode deixar levar pelos interesses de ordem biológica, pois assim perderá a sua autonomia de ser racional e livre. Enquanto isso, Epicuro defende exactamente o oposto, uma vez que defende uma ética do prazer.

Crítica à Ética Kantiana

A ética Kantiana acaba por ser cruel, fria e difícil de cumprir, uma vez que o ser Humano é um ser afectivo e Kant acaba por desprezar este factor.

16

Éticas de Epicuro e Kant  

Epicuro e Kant

Advertisement