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PAINT IT BLACK #1 Punk from the vaults of SUAVE !....................................01 Telefonistas versus apaixonados.........................02 The Blackneedles................07 Maic Milkway........................09 Heat Wave..............................13 3 filmes...................................15 Jardim Colorido...................18 Entrevista com Jun Santos (Modulares)...........................20 Ninguém entende o power pop...........................................26 O surfista leproso................27

Organização e produção: Haline Pichinin Maisa Ferreira Colaboradores: Aryane Rodrigues Bira Bird Caio Braga Coletivo Primitivas Gabi Ortiz Gabriel Guerra Murilo Caixeta Pedro Rodrigues Revisão: Murilo Caixeta Ilustrações e programação visual: Maisa Ferreira


Punk

UAVE !

ults of S a v e h t m fro

Se existiu uma banda responsável pelo retorno do garage às prateleiras das lojas de discos, essa banda foi sem dúvidas o Thee Mighty Caesars. OK, nos EUA a Voxx Records já estava lançando bandas como Pandoras e Crawdaddys antes deles chegarem, os Fuzztones já diziam pra você deixar sua mente em casa antes de colar nos shows, e os próprios The Milkshakes já tocavam Jezebel para alívio dos órfãos das coletâneas Garage Punk Unknowns.Todas essas são bandas incríveis que você deveria ir atrás de conhecer também, mas só os Mighty Caesars levaram a sério esse negócio de garage punk, tocando clássicos obscuros de todas as gerações punks com a mão pesada de quem gosta do que faz, sem se prender ao termo “revival”, coisa que seus descendentes diretos do The Mummies e algumas bandas adjacentes também fizeram, pouco tempo depois. Formada em Chatham,Inglaterra em 1985 por Billy Childish, John Agnew e Graham Day após o fim do The Milkshakes (antiga banda de Childish e Agnew). 1


ALBUMS:

Thee Mighty Caesars – 1985 – Milkshakes Records Beware The Ides Of March – 1985 – Big Beat Records Acropolis Now – 1986 – Milkshakes Records Thee Caesars Of Trash – 1986 – Milkshakes Records Wise Blood – 1987 – Ambassador Punk Rock Showcase – 1987 – Hangman Recs Caesar’s Remains – 1992 – Hangman Recs Don’t Give Any Dinner To Henry Chinaski – 1987 – Hangman Records Live In Rome – 1987 – Big Beat Records John Lennon’s Corpse Revisited – 1989 – Crypt Records Caesar’s Remains – 1992 – Hangman Records

SINGLES

& EPs:

Little By Little – 1986 – Media Burn Records Ten Bears Of The Comanches – 1986 – Empire Records She’s Just 15 Years Old/The Swag - 1988 – Swag Records Cowboys Are Square – 1990 Get Hip Recordings Billy B. Childish – 1995 – Toe-Rag Records You Are Forgiven – 1995 – Sympathy For The Record Industry

COMPS:

English Punk Rock Explosion – 1988 – Crypt Records Caesar’s Pleasure – 1994 – Big Beat Records Surely They Were The Sons Of God – 1995 – Crypt Records 2

Pedro Rodrigues


Telefonistas versus apaixonados: as canções de Soul, Reggae e Folk das décadas de 1960 e 1970.

As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por grandes movimentações sociais e culturais, por cenários de violência, a exemplo da Guerra do Vietnã, e por canções forjadas sob protestos políticos. De um lado, o que se via era uma enorme fúria sendo gritada para quem quisesse ouvir. Do outro lado estavam os então conhecidos “hopeless romantics” (os esperançosos românticos), que buscavam em suas canções abrandar um pouco a vida em melodias suaves, dizendo assim ao mundo que o romântico ainda tinha sua voz. E são desses porta-vozes do amor (e muitas vezes do desespero) que iremos falar. Neste período, as telecomunicações ainda eram limitadas e as ligações telefônicas eram intermediadas por operadores das centrais de telefonia. Esses operadores eram mulheres em maioria esmagadora. Mulheres estas que transferiam as ligações para os diferentes usuários, que depositavam suas fichinhas a fim de matar a saudade de quem estava do outro lado da linha. Musicalmente falando, diversos gêneros musicais e, portanto, diversos artistas citavam as telefonistas em suas canções românticas. De modo geral podemos dizer que o Soul, o Folk e o Reggae possuem várias músicas citando as tais operadoras. É importante dizer que o Reggae nesse período se referia ao Early Reggae, portanto de caráter muito mais romântico que o Reggae Roots, que só se propaga nos idos dos anos 80. 3


Como uma forma de encurtar as distâncias entre os apaixonados, as telefonistas foram citadas nas canções da Motown, importante gravadora de Soul norte-americana. A música intitulada “Operator”, de 1963, foi escrita pelo famoso Smokey Robinson da banda The Miracles, e foi interpretada pela cantora Mary Wells, e posteriormente por Brenda Holloway, ambas da Motown. Nessa canção a narradora procura desesperadamente por seu amado, que ao que tudo indica está do outro lado da linha, mas a telefonista não consegue transferir a ligação, eis então que ela suplica na célebre frase do refrão – “So please, operator put him on the line, I want him on the line” - (“Então, telefonista, o coloque na linha, eu quero ele na linha”).

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Ainda no ano de 1963 o consagrado cantor de soul, e eterno romântico Sam Cooke, grava o álbum de um show ao vivo, que vem a ser considerado mais tarde um dos melhores álbuns da história da música, por livros e revistas especializadas no assunto, a exemplo da revista Rolling Stone. O disco intitulado “Sam Cooke Live at the Harlem Square Club” traz canções interpretadas com muita alma, e muita animação. Na canção “Bring it on home”, Sam Cooke improvisa um começo alternativo para a música, conta que ao brigar com sua namorada, ela o deixa, e numa tentativa desesperada de reatar ele faz uma ligação, mas quem aparece primeiro na linha é a telefonista, Sam Cooke grita então não querer a telefonista, e imortaliza seu desespero nos seguintes versos: “Somebody says: - This is the operator. And I say: - I don’t want you operator, I want my baaaaby” (Alguém diz: - Aqui é a telefonista. E eu digo: - Eu não quero você telefonista, eu quero o meu amoooor). Já no ano de 1965, Bob Dylan, no auge do sucesso de sua musicalidade Folk, compõe a canção “Long distance operator”, no qual implora para a telefonista para transferir a ligação para a sua amada, pois tem uma mensagem a ser dita, e não pode esperar. Finaliza dizendo “Please place this call, you know it's not for fun” 5


(Por favor, faça essa ligação, você sabe que não é de brincadeira). Ainda em 1967, a dupla de Northern Soul, Tony and Tyrone grava a canção “Please Operator” pela gravadora Atlantic Records, na qual o narrador telefona para sua amada dizendo que está a caminho, mas esta responde que não o quer mais, porque ele passou muito tempo longe de casa, no resto da canção o narrador está implorando à telefonista que retorne a ligação para que ele consiga falar novamente com sua amada. Por fim, na década seguinte, no ano de 1973, a cantora de Reggae da gravadora jamaicana Trojan Records, Judy Mowatt compõe a canção “Emergency Call”, e seguindo a mesma linha de desespero emocional de todas as músicas anteriores implora à telefonista que transfira o seu amado para o telefone, pois se trata de uma chamada de emergência, e repete isto até o final da música, fechando assim mais uma canção que retrata de forma incisiva e porque não engraçada, a relação que os apaixonados e românticos tinham com as telefonistas, que sabe-se lá, já estavam cansadas de intermediar tantas brigas de casais. Aryane Rodrigues

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THE BLACKNEEDLES Com 2.792 metros de altitude, o pico das Agulhas Negras fica no Rio de Janeiro. Mas é na pequena cidade de São Paulo que os verdadeiros AGULHAS NEGRAS (Black Needles) se esgueiram entre becos e esquinas, tocando na mesma intensidade do pico carioca. A banda foi montada em 2006. No início como uma dupla: Jonas Morbach e Fred Hila. Um ano depois, tornam-se um trio com a entrada do baixista Jesumiro Batista, formação que persiste até hoje. Os Agulhas Negras têm influência do garage rock dos anos 50 e 60. Assim como seus ídolos, Bo Diddley, Headcoats, Masonics, Link Wray, fazem um rock‘n’ roll cru, criativo, frenético e cara de pau.

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Sem perder o ritmo, no ano de 2008 lançaram um compacto homônimo pelo selo português Groovie Records. Então divulgaram suas músicas na primeira turnê europeia (ainda em 2008), onde fizeram portugueses, espanhóis e franceses agitarem ao som de Personal Tales of Love, Lonely Avenue e etc... Em 2010, a banda soltou o LP Bury My Heart, com 10 músicas que seguem o mesmo estilo do álbum anterior: rápidas, precisas, cruas, cruéis. Lançado pelo selo franco-inglês Disques Chupacabra, este disco os levou para sua segunda e suada turnê europeia. Desta vez, além de uma nova visita aos países da turnê anterior, eles tocaram na Inglaterra, Holanda, Alemanha, Bélgica e atearam fogo em Israel Tel-a-Viv e Jerusalém! O segundo disco já está gravado, mas ainda não tem nada para lançamento, resta a nós, meros mortais, cruzarmos os dedos pra que esse disco saia logo do forno!! Os Agulhas Negras (Blackneedles) são: Fred Hila - bateria, Jonas Morbach - guitarra e voz e Jesumiro Batista - baixo 8

Haline Pichinin


entrevista:

MAIC MILWAY

• Oi Maic! Gostaríamos de saber um pouco mais sobre você! Há quanto tempo se dedica a ilustração e ao design gráfico? Nos conte um pouco sobre sua trajetória, o que te despertou interesse pelo desenho? Olá, sou Maic da Cidade do México, sou designer gráfico e ilustrador e há 10 anos tenho me dedicado à ilustração, explorando diferentes estilos e técnicas, mas apenas há 3 anos me iniciei profissionalmente. Creio que tenho interesse pelo desenho em meu sangue, já que desde pequeno gostava de copiar os desenhos dos quadrinhos e revistas, me chamava a atenção como um desenho podia expressar tanto; aí surgiu o interesse de me dedicar mais à ilustração, desenvolver as habilidades e criar meu próprio estilo; inicialmente comecei com pequenas obras sobre papel e técnicas básicas, ilustrações que dava de presente, pequenos personagens, etc, aquilo que pedem a um amigo quando ele sabe desenhar, hahaha. 9


• E seus cartazes? Como surgiu a ideia de trabalhar os temas mods e skins? E os que ilustram clássicos da música inglesa e jamaicana? Os cartazes são muito importantes, já que são a apresentação formal de meu trabalho. A ideia surgiu inicialmente de uma canção e de adornar a parede de meu quarto: “Black is soul”, do The Imperials. É uma música que eu sempre gostei. Ao escutá-la, comecei a esboçar sobre uma folha, me agradou o resultado e o digitalizei. Estava pronto e então o subi para a internet. Meus amigos gostaram muito dele e, sem saber, alí estava o primeiro cartaz oficial. Trabalhar com o tema de mods e skinheads é algo fundamental nos cartazes. Primeiro, porque adoro o estilo de vida; e segundo, é como fazer um tributo, é como dizer “que permaneça presente”. Igualmente, os clássicos da música inglesa e jamaicana têm um papel muito importante, amo a música, as histórias que têm por trás, e o que faço é simplesmente interpretar graficamente algumas delas. Tenho amigos mods e skinheads e sempre é agradável escutar que um pôster que eu fiz lhes lembra certa aventura, certo amor, ou simplesmente que seu tema favorito está estampado no papel. • Quais são suas influências visuais? Seus artistas favoritos? A pintura clássica, desde o surrealismo elaborado até outra vertente, como a pop art, sem dúvida o que sempre gostei, mas que tudo tem sido a caricatura; é como dizer visualmente: “Hey! Sorria”. Tenho bastantes artistas favoritos, todos eles têm me influenciado em aspectos diferentes. Não saberia a quem mencionar, já que todos têm diferentes estilos e admiro aspectos de cada um.


• Existe alguma diferença na maneira como o público em geral e o público underground vê seus trabalhos? Sim, existe. Meus trabalhos são dirigidos a um público específico, no qual se refletem aspectos como seu estilo de vida, a música que escutam, suas roupas, etc... e esse lado não é conhecido pelo público em geral. Esse público específico os adotam e os fazem seus, já que certas ilustrações lhes remontam a certos momentos de suas vidas. Um claro exemplo disso seria o cartaz de “My best girl”. Não é necessário ser um público underground para ter uma garota especial. • Para você, o que é mais trabalhoso: a tipografia ou o desenho? A tipografia, já que esta é a que transmite a mensagem legível. Trato de não variar muito na tipografia que ocupo, me foco mais na ilustração. Certamente, considero que a escolhendo corretamente em conjunto com a ilustração pode-se chegar a um grande impacto visual. • Seus trabalhos são feitos todos no computador, 100% digitais, ou você faz antes um esboço à mão? Defendo a ideia de que, para um bom trabalho, é necessário começar com papel e lápis. Sempre realizo esboços em folhas, o que é funcional, porque, às vezes, de tudo que eu desenho, sai uma ideia mais concreta. • No que você está trabalhando agora? Algum projeto futuro? No momento estou trabalhando numa série de postais que tenho planejado terminar nos próximos meses. Eles terão fragmentos de canções e uma ilustração que os reflita; e, no futuro não descarto a ideia de fazer uns toy arts. • Gostaría de acrescentar algo mais? Claro! Sempre me perguntam o porquê dos personagens estarem sorridentes. A resposta é simples: o que eles refletem é um gosto pela vida que levam, o orgulho e felicidade que os brinda a música e ser mod ou skinhead. Maisa Ferreira 11


festa

HEAT WAVE Eu estava isolada na Floresta Nacional de Ipanema. Já era o 6° dia e eu que vivo no concreto já estava precisando respirar poluição. Eu sabia que haveria uma festa naquela noite. Teria que pegar alguma carona até a rodoviária de Sorocaba e depois um ônibus para a capital. Já estava anoitecendo e minhas chances de carona estavam indo para o ralo. Depois de muita persistência eu consegui chegar à Praça da República. Não tinha onde dormir, onde comer...Me hospedei no hotel mais perto da festa e ignorei a fome. Deixei as malas no hotel e segui o caminho indicado pelo GPS para o Espaço Cultural Walden. Menos de 5 minutos de caminhada e já me sentia em casa. Esteticamente, as pessoas aparentavam gostar das mesmas coisas que eu. Fui recepcionada por uma loira muito bonita que me indicou uma escadinha. Descendo, vi um palco com os amigos Skywalkers tocando músicas que adoro. Tive dúvidas se eu deveria ficar no cantinho ou ir logo para a frente do palco como eu sempre faço. Neste caso, eu fiquei metade em um lugar e metade no outro. Nos dois locais tive impressões diferentes da festa. No cantinho perto da cabine de som eu pude perceber o ambiente em si. As paredes com escritos, o teto baixo...Parece que estamos em um quarto de tão aconchegante que é. Pertinho do palco, pude perceber a qualidade do som e que não existem divisões físicas entre palco e plateia. Somos todos um corpo só em um quarto aconchegante que é parte de uma casa minúscula frente à grandiosidade das construções de SP, mas com virtudes que eu ainda não havia conhecido nesta cidade. No final do show fui presenteada com algumas horas de discotecagem de Soul e novamente a dúvida...devo ou não dançar? Esperei que alguém começasse para eu poder acompanhar. 13


Entre danças e conversas a noite passou e lembrei que ainda tinha fome. Descobri que não tinha nenhum lugar aberto por perto para comer, então segui para o hotel para esperar o café da manha...Me senti revigorada e pronta para poder voltar para a Floresta e cumprir a minha missão. A Heatwave é uma das melhores festas que já fui na minha vida. Seu único defeito é ser tão longe da minha casa. Serviço: Heatwave - Festa Mensal no Espaço Cultural Walden http://www.fubap.org/wilsera Organizadores: Wilson Farina e Fabio Barbosa Gabi Ortiz

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filmes

Leonard Chess, filho de imigrantes poloneses, funda, em 1947, na cidade estadunidense de Chicago, a Chess Records, primeira gravadora destinada exclusivamente ao blues afro-americano. Artistas como Muddy Waters, Chuck Berry, Little Walter, Etta James, Willie Dixon e Howlin' Wolf são alguns dos que se destacaram gravando sob o selo da gravadora entre os anos 40 e 60. Como prêmio para os artistas que mais vendiam discos, Chess costumava dar como recompensa um Cadillac novo a cada um - carro símbolo de luxo e status -, fato que fez com que a gravadora ficasse conhecida como “Cadillac Records”, alcunha que dá nome ao filme em questão. Ray Charles Robinson, nascido no norte da Florida e criado pela mãe solteira, teve que se acostumar desde cedo a se virar sozinho, ultrapassando as dificuldades como a morte traumática do irmão mais novo e a cegueira adquirida ainda na infância. É talvez devido à doença que acaba por desenvolver uma habilidade extraordinária com o ouvido, o qual lhe serve de olhos e lhe confere extrema sensibilidade musical. A música de Ray Charles não necessita de demais apresentações, com uma carreira ascendente nas décadas de 50 e 60, o que acaba abrindo espaço no filme “Ray” para se destacar o poder de controle do artista sobre todos os aspectos de sua vida particular e profissional, o que o torna um músico de extremo sucesso e glamour representado pelo seu poder de sedução e pelo crescimento de seu patrimônio. 15


As Dreamettes, um grupo fictício de R&B das décadas de 60 e 70 composto por três vozes femininas, é convidado por um empresário a fazer backing vocals para um cantor de soul, o que alavanca o sucesso das garotas. Com o intuito de dar um visual mais pop e de despontar a carreira do grupo de forma independente, o produtor promove a entrada de uma quarta integrante na equipe que, apesar de menos talentosa, acaba se destacando por sua beleza, o que provoca a revolta da antiga vocalista líder. O musical “Dreamgirls” com diversas referências a artistas da gravadora Motown, como o grupo The Supremes -, aborda os primórdios da música pop como vemos hoje em dia, na qual qualidades como imagem e glamour valem mais do que o talento do artista. Estes três filmes com a temática musical abordam a relação entre os artistas a fama e o poder. Em Ray o poder e a fama tornam Ray em um pegador sem limites e um artista cada vez mais megalomaníaco. Em Dreamgirls a fama e o poder são conquistados pela beleza física em detrimento do talento musical. Algo bastante comum no mainstream atual. Por fim em Cadillac, a fama e o poder são representados por um carro luxuoso. O exercício de assistir estes filmes me levou a algumas reflexões que vou tentar bagunçar a seguir: O que sobrou da música? Onde estão as gravadoras? Qual a nossa relação com os artistas? Qual é o Cadillac que nos aprisiona? A pós modernidade deixa todos estes temas tão confusos e imaginar meus filhos vendo o filme da vida da Lady Gaga é algo bastante pertubador. A estética retro da pós modernidade ignora todos os percalços e imperfeições vividas em outrora, e transforma isso em um produto físico que pode ser desde um Cadilac em miniatura em uma estante, até uma coleção de vinis com prensagem de época. Outras formas de produto mais abstratas estão nos cabelinhos geometricamente cortados - tais como o da que vos fala -, até o delineador revivido por tantas meninas nascidas há menos de 30 anos. Os produtos acima estão nas lojas, basta comprar e viver. As casas 16


noturnas retros são sempre bem frequentadas. Estamos diariamente engajados em reproduzir um tempo que se foi tão rápido como uma viagem alucinógena. Todo mundo é retro e retro é legal. Esta esquizofrenia de tentar reviver algo que já passou nos dias atuais é exemplificado pelos filtros do instagram e outras quinquilharias que compramos. Basta uma visita a qualquer lojinha de 1,99 para ver que retro é a moda inquestionável. Tudo bem, isto é só consumo... O que todos falam é que não são consumistas, não é verdade? É a melhor fuga para uma prisão, tal como a da heroína em Ray e do Cadillac em Cadillac Records. Mas, e como fica a nossa cabeça, que se divide em dois tempos? Ao mesmo tempo em que somos retros, não andamos nas ruas para encontrar velhos amigos. Amigos que sempre marcamos com curtidas em suas redes sociais. Não vamos a qualquer birosca comer qualquer comida se isto não tiver um apelo estético que nos promova por alguns segundos. Só isso explica o tanto de fotos de cupcakes que vi nos últimos tempos. Qual a nova comida retro da moda? Produto também podemos categorizar como um engajamento pessoal em reviver aspectos da moral e costumes desta época nos dias de hoje - apenas quando isso convém...Deste texto, nada concluo, apenas me sinto mais estimulada a abandonar redes sociais e estar mais na rua, tomando chuva e vendo amigos. Tentando entender a sensibilidade e sutilezas destas pessoas que podem ou não gostar das mesmas coisas que eu. Pois a estética é algo muito raso e efêmero. Ela invariavelmente serve como um símbolo de contato inicial, mas é necessário muito mais para manter as pessoas unidas. É necessário se entender a diversidade das pessoas com seus cheiros, gostos, defeitos e qualidades. E, principalmente, com uma boa trilha sonora, que, para mim, é o agregador mais eficiente de todos os tempos. Gabi Ortiz e Murilo Caixeta

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Pati Plie é graffiteira, desenvolve projetos como Arte-educadora na rede de CEUs, faz parte do coletivo Metamorfose Social promovendo ações culturais nas periferias dos bairros da zona leste, começou a pintar em sua adolescência, as primeiras pinturas foram em camisetas tendo como tema bandas de Rock. A partir daí o desenho e a criação foram ganhando formas e plataformas diferentes. Partiu para a rua! Pati com suas personagens transmite para o muro experiências e sentimentos, seu graffiti é caracterizado pelos movimentos, simplicidade e pela delicadeza feminina unindo duas artes, a Dança e o Graffiti, que cada vez mais emerge dos becos e invade as cidades com diversas linguagens.

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Estes são alguns de seus trabalhos, pintou na Exposição Coletiva Vira-Latas em 2013, produziu o Projeto Jardim Colorido em 2012, na Virada Cultural de 2010 participou da exposição coletiva que decorarão as vidraças da Pinacoteca do Estado. Em dezembro de 2012, organizou o projeto Jardim Colorido com mais artistas, um evento que contou com a participação de várias bandas do garage brasileiro (Blackneedles, Deoders, Haxixins...) enquanto as bandas tocavam, os artistas grafitaram a praça toda onde aconteceu o evento! Vale ressaltar que o evento era gratuito, numa praça pública da zona leste de sp. Atualmente tem também direcionado sua arte à moda, influenciada pelo clássico vintage e pelo street contemporâneo, suas peças criam uma atmosfera autêntica. Pati Plie corta, costura, pinta e borda! Haline Pichinin 19


entrevista:

Jun Santos

vocalista, guitarrista e compositor da banda Modulares

• Salve Jun! Primeiro, queria dizer que achei foda demais você topar essa entrevista pro zine ‘Paint It Black’ (que inclusive vai ter seu lançamento, também, em São Paulo). O Modulares, pra mim, tá entre as 3 melhores bandas brasileiras atualmente. Acompanho vocês desde o início, desde os primeiros sons. Mas me conta aí meu caro, como foi o início da banda? O que o motivou a começar? Sei que o Laboratório-SP já estava de final... Pois é, valeu Caio... pra mim é um prazer, adoro essa cultura dos zines desde sempre, impresso ou não, mas tendo a "atitude de fanzine" já considero pra caramba... Então Caio, a Modulares começou realmente meio que em um período de hiato do Laboratório-SP, o nosso vocalista estava indo morar em Curitiba e eu fiquei meio que sem saber o que rolaria depois, mas já tinhamos algumas músicas para um próximo disco do Laboratório-SP. Então, o que fiz? Recrutei de volta o fantástico baixista Almir Navarro (ex- Laboratório-SP) e como já tinha o Fábio Barbosa ali comigo, resolvemos registrar algumas dessas músicas de forma ao vivo no estúdio mesmo, e o resultado ficou bem legal e daí começamos a pensar em "nova banda" mesmo. Foi um processo bem natural mesmo... • Foram essas as músicas do EP "Na Contramão"? Exatamente. A única que compomos para esse Ep foi Novas Linguagens, que tem a brilhante participação do Sandro Garcia nas guitarras... • To com ele aqui em mãos. Nessa época ainda eram um trio, certo? Mas o Sandro Garcia chegou a fazer parte efetivamente da formação? O cara com certeza deve ser uma grande influência para vocês.(N.E.: Sandro Garcia, para quem não sabe, é o ex-baixista dos Charts, integrou o Faces & Fases, uma das primeiras bandas mods brasileiras e hoje toca no Continental Combo)


Sim, nessa época ainda éramos um trio ainda... fizemos bastante shows, até fora de São Paulo, com esse formato power trio... O Sandro sempre participou, efetivamente, das coisas feitas pela Modulares, porque os primeiros 2 Eps foram gravados no estúdio dele, o Quadrophenia, nós só ensaiamos lá até hoje hehe, então de certa forma sempre esteve presente ali como referência musical e com ajuda técnica e na produção dos 2 primeiros Eps... Ele participou de uma segunda formação da banda, quando na mesma época entrou o Pedro Carvalho na segunda guitarra... Com o Sandro na formação gravamos nosso segundo Ep, o MOD ULA RES, que é um grande ep, na minha modéstia opinião... • E na minha opinião, é o melhor lançamento da banda. Hahahe Cara, e como está a formação hoje em dia? Que diferença fez no estilo da banda com a entrada de uma segunda guitarra? E o baixo, finalmente vai seguir com o Rafael Roque? haha valeu Caio... realmente é um grande Ep... Bem hoje em dia eu costumo dizer que estou na banda dos meus sonhos... e aqui não vai demérito nenhum as outras que toco e/ou já toquei... Mas para mim, tudo que sempre quis de uma banda eu tenho na Modulares... Hoje a formação é: Jun Santos: Voz/Guitarra, Pedro Carvalho: Guitarra/Voz, Rafael Roque: Contrabaixo/Voz e Fábio Barbosa Bateria. O Fábio, o Pedro e o Rafa são muto mais que amigos...eles respeitam a cada nova canção, se dedicam a todas sabe? Eu sempre fico meio emocionado quando me refiro a eles, são meus maiores ídolos, sou muito fã de cada um deles. E bem, espero que essa seja, finalmente, a nossa formação definitiva né? (risos). • hahahehah Eu acho que essa formação muito forte. Cada um ai traz uma bagagem muito boa para a banda. Nem dá para falar agora das milhares de bandas que já tocaram e/ou ainda tocam. hahehe! Tomara que continuem...


Sim, exatamente... o Fábio me veio de um The Charts, The Gasolines, o Rafael veio de um Os Skywalkers, Os Migalhas, o Pedro é tipo um dos primeiros caras da cena hardcore no Brasil, sabe..muita bagagem mesmo Caio... • Isso, com certeza, leva inúmeras influências para o som e estética da banda. Fico imaginando o tanto de bandas e discos que vocês têm que "peneirar" no "saco" de influências. hehahe Jun, tem coisas que parecem meio óbvias, que vocês tem influências da cena Mod Revival inglesa, de bandas brasileiras com os Charts, e tal. Mas eu queria mesmo era saber o que vocês andam ouvindo ultimamente. O que tem feito parte dos alto-falantes de vocês? Volta e meia você posta alguma banda mais desconhecida. Enfim, dê uma repassada em suas influências... Com certeza, muitas referências, musicais principalmente... o legal é que já nos conhecemos há muito tempo, de shows e tal... então sempre estivemos meio que no mesmo rolê, que sempre rolavam basicamente as mesmas músicas, enfim... Ah sim, claro..nossas referências no geral são essas mesmo que você citou, obviamente cabe ali pitadas de garage-punk dos anos 60, Soul, Powerpop em geral... mas olha Caio, respondendo por mim, nunca fico ouvindo a mesma coisa sempre...a música é cíclica, sabe? Sempre tem coisas novas aparecendo, banda no mundo inteiro...existem muitas bandas com referências Mod por ai, mas as pessoas parecem estar sempre acomodadas, digo o grande público... nunca querem ir atrás do novo, ficam sempre nos mesmos... Ultimamente tenho ouvido muita banda de uma nova safra de bandas que existem por ai, coisas que vão do powerpop, passando pelas garagens, chegam ali em um Mod Revival bem explícito... As minhas favoritas são: The Riots, uma banda da Rússia que acabei


de encomendar o disco deles, em vinil...tem o The Ace, banda de Leeds que acompanho ja desde quando eram Freebooting Profiteers, tem a The Moons... Aqui no Brasil tem a The Tries, gosto muito do show deles, o Mescaline Duo dos brothers Mario e Rubão, fiquei impressionado com os caras... e Os Savages de Curitiba, a primeira banda efetivamente de garagem da Cidade... • Pois é, Jun. Eu acho que dá pra sacar pela variedade de homenagens a outras bandas que vocês costumam fazer nos shows. Desde clássicos como Creation até algo como The Nerves. Vocês tão sempre variando o set. Ah sim, disso não abrimos mão mesmo. Olha, a coisa mais legal de estar em uma banda é poder tocar as músicas de artistas que você admira ou sempre admirou...isso é o que faz valer a pena, se divertir, have fun! Po, desde o Laboratório-SP eu toco versões de bandas e artistas que adoro... a lista é grande viu?? (risos) • hahaahahahah sei disso. E olha, tu falou aí dos Tries. Uma noite com Modulares e The Tries nos palcos é pra nenhum fan de powerpop botar defeito. Hehehe Não tem erro. Noite garantida Sim, fizemos umas das melhores noites desde que toco com o Modulares com o The Tries no Berlim!! Foi demais!! Uma grande festa... E também lá na Serralheria, que inclusive você e a Maisa estavam, também foi bem legal...acho que The Tries é a banda que mais tem a ver com a Modulares aqui em São Paulo hoje em dia... • Isso. To falando aqui por experiência própria. Hahaheheha Grande noite. Vocês têm feito muitos shows por São Paulo, Jun. E como tá a repercussão fora da cidade? Já tão rolando contatos para mais shows fora? E contatos fora do Brasil? Aliás, não só para shows, mas já to meio que sabendo em off aí de prováveis lançamentos que devem sair logo logo. Heheheheh O que você pode nos adiantar?


P.S.: não vejo a hora de ouvir os Modulares em vinil... É Caio, infelizmente, estamos ainda fazendo muitos shows "caseiros"! Mas a coisa está mudando, já tivemos algumas propostas no passado para tocarmos fora do País, mas não rolou por absoluta falta de grana mesmo...não é algo tão simples assim ir tocar na Europa ou E.U.A (risos)... No Brasil, nosso último show fora foi em Brasília/DF, mas assim, é muito esporádico... já tentamos agilizar algo por Curitiba, Ponta Grossa, Porto Alegre...vamos ver, acho que logo menos, sai alguma coisa para fora do Estado... vamos aguardar... Bem, o que posso adiantar até o momento é que estamos começando a ensaiar músicas novas que iremos lançar o mais brevemente possível...... O formato de lançamento ainda é meio cedo para falar algo mais concreto, mas com certeza vem ai as melhores coisas feitas pela banda...por enquanto é só isso mesmo que eu garanto (risos)... Estamos preparando também algumas novidades, como camisetas da banda, botons novos e adesivos, em breve maiores informações... E sim, eu também, não vejo a hora de ouvir o Modulares em vinil, um compacto duplo talvez? Um Lp talvez, quem sabe um dia né? (risos). • ahahhaahhah po, compacto ou LP, todos são bem-vindos. sim, vamos cruzar os dedos e aguardar... • Jun, meu caro amigo, vamos ficando por aqui, porque se deixar a gente fica o dia todo. hehehehe Me diz uma coisa antes, onde é possível conseguir material dos Modulares? Fisicamente falando. Ou então, como fazer para ouvir na internet... Sei que uma demo-version de 'Conspiração de Círculos e Setas' já tá lá no youtube. hehehe sim, se deixar vai longe o negócio (risos)... mas olha só, não temos nada oficial lançado fisicamente... quem se interessar por material da banda, só enviar e-mail para:


modulares13@gmail.com Daí damos um jeito de enviar via Correios mesmo um cd-r com capinha oficial e tal... sem problemas. na internet, que saiba não tem nada para download, mas em breve vamos colocar todos os 3 Eps para download na nossa Fan Page do Facebook... Sim, "alguém" soltou uma versão de ensaio dessa música ali no Youtube e a resposta foi bem positiva, é apenas um aperitivo para o que vem por aí... Aguardem!! Sempre um prazer trocar uma ideia contigo meu caro... e parabéns ai pelo Zine, e que ele tenha uma longa vida!!!!!! Abraços. Jun. • Grande Jun!! O prazer é meu. Valeu pela disposição pra trocar essa ideia. No vemos por aí. Lembrando que o zine será lançado também em SP, no dia 15/03, na festa Heatwave #6. Apareça lá. Abração! Caio Braga

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Ninguém entende o power pop

A atual tentativa do TRIES é composta por: Ciro Jarjura, bateria e backing, Fernando Hound, baixo e backing, Gabriel Guerra, guitarra e voz, e Isadora Frota, teclado, backing e pandeirola.

De onde veio? Quando? Quem são as bandas que representam o estilo? Volta e meia, essas dúvidas aparecem na cabeça de quem ouve falar de power pop. Mas mais do que não conhecer, muitas pessoas não entendem o ritmo. THE TRIES surgiu em 2011 com uma ideia clara: representar o power pop na capital paulista e no país no qual ela está incrustada, mais conhecido como Brasil. De lá para cá, passou por numerosas formações e tentativas (daí o nome) de mostrar um som que acabou ficando até que bem característico: misturou influências do rock dos anos 60, do punk rock do final dos 70s, da música mod revival dos 70s e 80s, fora outras sonoridades que nem o diabo sabe de onde vieram. No final da história, não se sabe se o TRIES ajudou ou piorou a entender o power pop. O que a gente sabe é que tem que ter 26


pop – precisa de melodia, ritmo, ser dançante e um pouco grudento – mas também tem que ser power – precisa ser forte e marcante. Foi isso que a banda tentou fazer no primeiro EP de seis músicas intitulado Lights, camera and action, nas dezenas de shows em São Paulo, no interior paulista e até em uma aventura pela Argentina, e é isso que tentam mostrar as cinco músicas gravadas no estúdio Submarino para o segundo EP, que está prestes a ser lançado. De resto, é melhor ouvir THE TRIES. Gabriel Guerra www.facebook.com/thetries www.soundcloud.com/thetries


SOBRE Este zine tem como tema algo sobre a cultura underground. Nesse primeiro número temos uma miscelânea de textos e entrevistas sobre música, cinema, artes visuais, entre outros. Sua construção é feita de forma colaborativa e a venda tem como objetivo apenas custear a produção. Dedicado a todos os amigos e familiares dos participantes pelo apoio, e a todos que se identificam, produzem e apoiam manifestações subculturais. CONTATO: zinepaintitblack@gmail.com


BSB < > SP MARÇO 2013


Paint it Black #1  

contato: zinepaintitblack@gmail.com

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