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Augusto Pinochet

Claudio Blanc


Sindicato dos Padeiros de S찾o Paulo

Presidente: Francisco Pereira de Sousa Filho (Chiquinho Pereira) Coordenador: Aparecido Alves Ten처rio (Cid찾o) Curador: Claudio Blanc www.padeirosspmemoria.com.br


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Augusto Pinochet

Augusto Pinochet Ugarte, o ditador chileno que, entre 1973 e 1990, foi responsável por milhares de mortes e pela adoção da tortura como medida de contenção de seus oponentes, faleceu em 10 de dezembro de 2006. Paradoxalmente, nesse dia celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Seria uma ironia do destino, uma forma de a História registrar um “já vai tarde” para o mais brutal governante do Chile? Filho de um fiscal da alfândega, Pinochet nasceu em 25 de novembro de 1915, na pitoresca cidade portuária de Val Paraiso. A 3


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influência feminina acabou sendo marcante em sua vida. O futuro ditador foi estimulado pela mãe a seguir a carreira militar. Mais tarde, a esposa Lucia, filha de um político proeminente,

encorajou

suas

ambições com relação ao poder. O jovem Pinochet fez carreira num exército baseado nas tradições prussianas de disciplina e lealdade à constituição. No início da década de 1950, ao liderar a repressão ao Partido Comunista Chileno, ele acabou se envolveu nas lutas políticas que chacoalhavam o país. Foto do casamento de Pinochet

Por conta da sua aparente

falta de ambição política, Pinochet foi capaz de subir num momento conturbado da história recente do Chile. No começo dos anos 1970, ele chegou ao posto de general sob o governo de esquerda da Unidade Popular, liderado por Salvador Allende. 4


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Sua postura de obediência e disciplina conquistou a confiança de Allende. Em 1973, com a eleição de Allende para a presidência do Chile, foi promovido a comandante-em-chefe. O presidente achava que o futuro ditador o apoiava. Foi um erro fatal. Literalmente. Poucos meses depois, em setembro, Allende descobriu o quanto estava enganado. Foi morto no golpe de Estado liderado por Pinochet como chefe da junta que unia todas as alas das forças armadas chilenas. As ações de Pinochet vieram a encarnar o regime militar que se desenvolveu naquele país. Na caça às bruxas que se seguiu ao golpe, mais de três mil simpatizantes de Allende foram assassinados. Milhares sofreram torturas terríveis. Uma jornalista inglesa relatou que, durante as sessões a que foi submetida, os sádicos torturadores colocaram eletrodos em sua vagina e a eletrocutaram continuamente, mesmo depois de ela ter dito tudo o que os militares queriam. Um número ainda maior de pessoas foi exilado ou se exilou espontaneamente para fugir do terror promovido por Pinochet. Com o caminho livre de inimigos, o ditador fechou o Parlamento Chileno, proibiu toda e qualquer atividade política e sindical e, em 1974, nomeou a si mesmo presidente da nação.

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Salvador Allende com Fidel Castro

Para o bem do povo

Pinochet se via como um patriota, um cavaleiro da justiça, que resgatou seu país do caos e da ameaça comunista. Na década de 1970, muitos chilenos pareciam concordar com esse ponto de vista, especialmente porque sob o ditador a economia se recuperou e a estabilidade foi conquistada. Mas sob o véu da falsa tranquilidade, sempre houve oposição à sua ditadura. Volta e meia eclodiam protestos, sufocados de forma severa. Em 1986, ao retornar para Santi6


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ago de um final de semana na praia, o carro onde viajava com seu neto foi metralhado e atingido por uma granada. No entanto, por causa da perícia de seu motorista, Pinochet saiu ileso. Até então, o ditador subestimara a extensão do descontentamento que seu governo gerava. Dois anos depois, não houve mais dúvidas: os chilenos não o queriam. Certamente, nunca o quiseram. Sob a constituição promulgada por sua própria ditadura militar, em 1988 houve um plebiscito para decidir sua continuidade no poder. Para sua surpresa e decepção, ele perdeu. O plebiscito pavimentou o caminho para o fim da ditadura e o retorno do governo civil. Em 1990, Pinochet deixou, embora relutantemente, a presidência, mas continuou como comandante-em-chefe do exército. Com essa posição, ele conservou poderes para interferir contra processos contra membros de sua força de segurança suspeitos de desrespeitar os direitos humanos de seus concidadãos durante a ditadura de 17 anos. Pinochet também continuou a barrar quaisquer iniciativas políticas radicais. Depois de oito anos nesse cargo, o ditador deixou o posto de comandante-em-chefe. Os chilenos, porém, não tiveram tanto motivo para se alegrar. Imediatamente, ele assumiu uma cadeira de senador vitalício, a qual havia criado para si mesmo. Pinochet pare7


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cia intocável, fugindo das consequências de seu passado sanguinário. O que ele não contava é que a justiça viria do exterior. Numa viagem que fez à Inglaterra para cuidar de problemas de saúde, foi detido em Londres, após as autoridades locais terem recebido um pedido de extradição da Espanha.

Pinochet, em tempos de glória.

Pinochet ficou mais de um ano sob custódia. Só teve permissão de retornar ao Chile em março de 2000, depois que o Secretário de

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Assuntos Domésticos Jack Straw afirmou que o ex-ditador não estava bem de saúde para enfrentar um julgamento. Entrementes, durante a ausência do antigo líder do regime militar, o primeiro presidente socialista desde Allende, Ricardo Lagos, assumiu a liderança do Chile. O país ardia com o desejo de exorcizar o passado recente. As cortes chilenas invalidaram a imunidade do antigo ditador e, em 2001, a Suprema Corte chilena determinou que Pinochet deveria ser julgado por Fotomontagem do ditador encarcerado

encobrir abusos aos direitos

humanos durante seu governo, sendo condenado à prisão domiciliar por seis semanas. Humilhado, o ex-todo-poderoso foi encaminhado para o departamento de polícia, onde foram tiradas as famosas fotografias criminais de frente e de perfil. No entanto, para decepção de muitos, 9


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em julho de 2002, todas as acusações contra Pinochet foram retiradas. A Corte Suprema havia decidido que ele estava mentalmente incapacitado de enfrentar um julgamento. Quatro dias depois, Pinochet renunciou sua posição de senador vitalício, afirmando que já não tinha mais saúde par mantê-la. Inconformados, seus inimigos continuaram a buscar justiça. Finalmente, em novembro de 2006, Pinochet foi indiciado por causa da execução, em 1973, de dois guarda-costas do presidente Allende e condenado uma vez mais à prisão domiciliar. A sentença saiu logo depois do 91º aniversário do ex-ditador, quando procurou justificar seus atos através de uma mensagem à nação. “Hoje, quando me aproximo do fim dos meus dias, quero dizer que não nutro rancor contra ninguém, que amo meu país acima de tudo e que assumo a responsabilidade política por tudo o que foi feito (durante a ditadura militar), cujo objetivo não era outro senão tornar o Chile ainda maior e evitar sua desintegração”, afirmou o aparentemente arrependido Pinochet. Mas, para conquistar esse objetivo, o custo em sangue derramado valeu a pena? Talvez a resposta esteja na ironia da data da sua morte, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Era como se o destino estivesse presenteando a todas as pessoas e fa-

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mílias injustiçadas por esse homem, dando a eles um motivo real para celebrar.

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