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A definição de saúde possui implicações legais, sociais e econômicas dos estados de saúde e doença. Sem dúvida, a definição mais difundida é a encontrada no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde: saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os principais determinantes da saúde incluem o ambiente social e econômico, o ambiente físico e as características e comportamentos individuais da pessoa. Diante desses aspectos, fica claro que a promoção da saúde depende de comportamentos individuais e também de aspectos de dimensão coletiva. Isto implica no entendimento de que a saúde não é nem uma conquista, nem uma responsabilidade exclusiva do setor saúde. Ela é o resultado de um conjunto de fatores sociais, econômicos, políticos e culturais, coletivos e individuais, que se combinam, de forma particular, em cada sociedade e em conjunturas específicas, daí resultando sociedades mais ou menos saudáveis. Nesse contexto, propiciar às pessoas condições dignas de vida é um fator determinante na prevenção contra a ausência de saúde – o que não significa que devemos esperar somente intervenções externas para que, de fato, conquistemos uma boa saúde. Ter saúde é, em última análise, uma escolha. A maneira que você conduz a vida, os hábitos que cultiva e os referenciais de comportamento podem ser verdadeiros aliados ou os grandes vilões na busca por uma vida saudável. Porém, para que possamos fazer escolhas – as melhores escolhas – precisamos, fundamentalmente, de conhecimento. Precisamos saber quais são as novidades na área de prevenção e tratamento, os avanços da ciência e da pesquisa e a opinião dos especialistas. E é neste esforço coletivo na busca por mais saúde e qualidade de vida que o Grupo Diário da Manhã lança a segunda edição do Anuário Mais Saúde, abordando os principais temas relacionados à saúde neste ano de 2015 e as perspectivas e tendências para 2016. Como um grupo editorial de produção de conteúdo, esta publicação é mais uma contribuição do Grupo Diário da Manhã para que seus leitores, a partir do conhecimento, possam fazer as suas melhores escolhas e para os profissionais da área, estudantes e pesquisadores encontrarem mais um canal direto com o seu público. Boa leitura!

“ É neste esforço coletivo na busca por mais saúde e qualidade de vida que o Grupo Diário da Manhã lança a segunda edição do Anuário Mais Saúde, abordando os principais temas relacionados à saúde neste ano de 2015 e as perspectivas e tendências para 2016.”

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Para cuidar da saúde das pessoas, Passo Fundo uniu inovação e atenção. A Prefeitura de Passo Fundo trata a saúde como prioridade. Por isso, entregou 8 novas Unidades de Saúde e desenvolveu uma série de programas que estão levando a saúde para mais perto das pessoas. Os resultados estão aparecendo e são mais um estímulo para a Prefeitura não parar de trabalhar pela saúde.

Cuida da visão de crianças entre 3 e 6 anos, matriculadas nas escolas da rede municipal de Passo Fundo. O grande foco do programa é prevenir e identificar problemas de visão, melhorando o aprendizado das crianças em sala de aula. Além de realizar exames de visão, a Prefeitura entrega óculos para as crianças que necessitam, sem nenhum custo para as famílias.

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Realiza a vacina contra a gripe na casa de pessoas com 60 anos ou mais ou sem condições de locomoção. A partir do programa, também é possível realizar a identificação e o cadastro da população idosa de Passo Fundo que sofre com algum grau de dependência de saúde. Com essas informações, é possível realizar um atendimento ainda mais qualificado e humanizado.

Promove atenção integral à saúde da mãe e do bebê, da gestação até o primeiro ano de vida. O programa alia ações periódicas de saúde e educação, como acompanhamento médico e todos os exames de pré-natal, além de entregar para as famílias o kit enxoval. Graças ao Programa Meu Bebê, Meu Tesouro, o índice de mortalidade infantil em Passo Fundo já reduziu 25%.

Para saber mais sobre esses e outros programas, acesse www.pmpf.rs.gov.br

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Sumário 12 – MEDICINA NUCLEAR: investigar sem invadir 32 – REPRODUÇÃO HUMANA: quando a natureza freia a ciência 39 – MEDICINA DO SONO: você se considera bom de cama? 55 – OBESIDADE: mais peso, menos saúde 60 – DIABETES: 952 milhões de portadores em 2035 64 – CARDIOLOGIA: como está o seu coração? 70 – DERMATOLOGIA: estética atrelada à saude 82 – ENSINO: os passos da formação médica 86 – SAÚDE PÚBLICA: o desafio da eficiência institucional

Ex p e d i e n t e

Fundador Jornalista Túlio Fontoura (1935 1979) Presidente-Emérito Dyógenes Auildo Martins Pinto (1972 1998) Vinícius Martins Pinto (1997 2003) Presidente Janesca Maria Martins Pinto Vice-Presidente Ilânia Pretto Martins Pinto Direção Comercial Unidade Jornal Andressa Beitler ( Erechim) Eliane Debortoli (Passo Fundo) Jussara Sirena (Carazinho) Editor: Nadja Hartmann (6416/DRT-RS) Reportagens: Cristian Puhl, Natália Arend Fotos: Arquivo DM e divulgação empresas e instituições Diagramação e Arte-Final: Éderson Rodrigo Teixeira Arte de Capa: Ederson Rodrigo Teixeira Impressão: Gráfica Passo Fundo Contato: diretoria@diariodamanha.net Matriz: Sete de Setembro, 509, Passo Fundo Fone: (54) 3316-4800 O conteúdo desta publicação está disponível no portal, www.diariodamanha.com

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Medicina Nuclear: investigar sem invadir Uma especialidade médica que utiliza substâncias radioativas com potencial de risco reduzido e meia-vida que não afeta as células sadias do órgão que está sendo investigado, vem ganhando espaço nos hospitais e clínicas de todo o país. A Medicina Nuclear, como explica a médica do Serviço de Medicina Nuclear do Hos-

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pital São Vicente de Paulo (HSVP), em Passo Fundo, e especialista em Medicina Nuclear pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, Mauren Azambuja Gonzalez, faz uso desses materiais em exames de imagem e no tratamento de algumas doenças de forma não-invasiva, minimizando o desconforto do paciente.

Especialidades como a Medicina Nuclear permitem ao médico obter imagens de alta resolução de órgãos do corpo humano a partir da ingestão de radiofármacos – substâncias produzidas com elementos radioativos, como o iodo-131


Auxílio direto no diagnóstico de tumores cancerígenos Considerado um exame não-invasivo, a aplicação dos radiofármacos nos pacientes tem auxiliado diretamente o diagnóstico de diferentes doenças. Um deles – o de cintilografia óssea – permite avaliar a extensão do câncer e mensurar o sucesso do tratamento. Segundo Mauren, neste uso o médico tem a possibilidade de analisar o esqueleto inteiro com apenas um procedimento. “É um exame solicitado segundo as diretrizes científicas seguidas pelos oncologistas. A cintilografia óssea também é usada na avaliação de doenças benignas, como no diagnóstico de fraturas de estresse e de infecções ósseas de difícil identificação ou localização”, comenta. Equipamento utilizado no HSVP para diagnóstico em Medicina Nuclear

“Usamos materiais radioativos específicos para cada órgão ou sistemas do corpo humano, administrados no paciente por injeção, ingestão ou inalação”, diz Mauren

De acordo com Mauren, a Medicina Nuclear originou-se ainda em 1946, quando começaram os tratamentos do câncer de tireóide a partir do uso do iodo radioativo. Mas, foi no final do anos 50 que a ciência desenvolveu o equipamento para registrar as imagens originadas entre a interação dos órgãos do corpo humano com o radiofármaco. “Com o advento desse equipamento, originou-se a cintilografia da tireóide, com o iodo-131. Já nos anos 70, a maioria dos órgãos já podia ser analisada pela Medicina Nuclear”, resgata ela, que

também é mestre em Clínica Médica pela PUC – RS, explicando que a cintilografia é o exame de imagem mais comum desta especialidade. “Usamos materiais radioativos específicos para cada órgão ou sistemas do corpo humano, administrados no paciente por injeção, ingestão ou inalação. Por exemplo, utilizamos uma substância que participa do metabolismo ósseo e registramos a imagem do esqueleto através da cintilografia. É importante reforçar que a exposição a radiação do indivíduo é bastante segura”.

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Evoluções Para a mestre em Clínica Médica pela PUC-RS, o maior avanço da Medina Nuclear, que já é uma realidade no Brasil, foi a criação da tomografia por emissão de pósitrons, conhecida como PET. “A união da tomografia por emissão de pósitrons com a tomografia computadorizada gerou o PET-CT, útil no diagnóstico de doenças cardíacas, neurológicas e, principalmente, oncológicas. A união da tomografia computadorizada à tomografia por emissão de pósitrons tornou o método mais preciso na localização das lesões e na diferenciação entre lesões benignas e tumorais. O médico nuclear e o radiologista analisam o exame juntos”, acrescenta Mauren, revelando que o HSVP irá instalar um equipamento de PET-CT em seu prédio novo. Ela ainda reitera que as pesquisas científicas já comprovaram os benefícios do PET-CT para os pacientes com câncer. “O exame consiste na injeção endovenosa de uma molécula de glicose, similar ao açúcar, marcada com o flúor-18, um elemento que emite radiação. Tumores malignos possuem metabolismo acelerado, em relação aos tecidos sadios do organismo. Os tumores consomem mais glicose que os tecidos sadios, emitindo maior radiação para o equipamento, que faz uma imagem de corpo inteiro, diagnosticando as lesões à distância do tumor inicial, conhecidas como metástases”, explica a médica do Serviço de Medicina Nuclear do HSVP, complementando que o PET-CT tem indicações precisas e o oncologista solicitará o exame quando indicado. “O PET-CT é um avanço enorme na oncologia, pois fornece ao paciente a avaliação correta da extensão da doença, permitindo ainda a avaliação do sucesso dos diferentes tratamentos do câncer”.

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Usos práticos Ainda conforme a médica do Serviço de Medicina Nuclear do HSVP, especialista em Medicina Nuclear pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, a aplicação da especialidade nos tratamentos podem variar de acordo com a instituição de saúde. “No caso do HSVP, por exemplo, usamos a Medicina Nuclear no tratamento complementar de alguns tipos de câncer de tireóide, pois o tratamento inicial deste câncer consiste na sua remoção, através de cirurgia. O iodo-131 é aplicado em doses que exigem internação do paciente, em um quarto construído conforme as normas de radioproteção da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)”, aponta Mauren, complementando que o iodo-131 pode ser usado para causar necrose dos focos do tumor situados no pescoço e que não puderam ser removidos pela cirurgia. Outro tratamento realizado no HSVP é o alívio da dor óssea dos pacientes com metástases ósseas disseminadas causadas, principalmente, por tumores de mama ou próstata (quando o tumor se espalha para o osso, causando dor). “O samário-153 pode aliviar a dor óssea. Os pacientes que respondem ao tratamento podem ter um alívio da dor por cerca de dois meses, mas a resposta é individual. Nesses casos, o oncologista deve solicitar o tratamento e avaliar se não há contra-indicações ao uso do samário-153”, reitera a médica.

Outras indicações Além da cintilografia óssea e do miocárdio, Mauren acrescenta ainda que a medicina nuclear permite diagnósticos nas áreas de: a Cintilografias renais: utilizadas no diagnóstico e controle do tratamento das infecções urinárias e das doenças obstrutivas dos rins. Também avalia a resposta à terapia nos pacientes que precisaram ser operados por obstrução nos rins. A cintilografia renal permite o cálculo da função de cada rim, em separado, auxiliando, por exemplo, na decisão da remoção cirúrgica do órgão.

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Cintilografia da tireóide: empregada no diagnóstico do hipertireoidismo, das tireoidites e dos tumores da tireóide. a Cintilografia pulmonar: para o diagnóstico e controle do tratamento da embolia pulmonar. No pré-operatório da cirurgia pulmonar, auxilia o cirurgião a decidir o quanto do pulmão pode ser removido no procedimento. a Pesquisa de refluxo gastro-esofágico: usada no diagnóstico de refluxo em crianças com pouco ganho de peso e em pacientes que podem apresentar vômitos, sinusites ou pneumonias de repetição.

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O corpo sob uma varredura nuclear A perspectiva de identificar um problema de saúde sem que ele já tenha se manifestado de forma abrupta no organismo é um dos diferenciais da Medicina Nuclear. Diagnosticando uma enfermidade precocemente, o tratamento torna-se mais efetivo, avaliam os especialistas

“Para cada órgão utilizam-se radiofármacos específicos, de acordo com a fisiologia local. Por exemplo, para a cintilografia óssea ou do esqueleto utiliza-se um derivado de fosfato ‘marcado’ ou ligado a um elemento radioativo”, define o coordenador do Serviço de Medicina Nuclear e Imagem Molecular do Hospital Albert Einsten, em São Paulo, Jairo Wagner

Se traçassemos uma linha do tempo de eventos marcantes para a medicina, a descoberta dos Raios-X, em 1895, por Wilhelm Conrad Roentgen, certamente estaria marcada como uma enorme contribuição para o avanço da ciência médica e merecedora do Prêmio Nobel de 1901. Quatro meses depois, Henri Becquerel descobriu a radioatividade natural e em 1913, Georg de Hevesy, introduziu o conceito de marcador radioativo, o que também garantiu um Prêmio Nobel, no ano de 1943. Este conceito mantém-se atual e é o princípio da prática da Medicina Nuclear. Para o coordenador do Serviço de Medicina Nuclear e Imagem Molecular da Sociedade Beneficente Brasileira Israelita Albert Einsten, de São Paulo, Jairo

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Wagner, os diagnósticos por imagem compõem, atualmente, uma das mais importantes áreas médicas e, ao lado de procedimentos como a Radiologia, Ressonância Magnética, Ultrassom e da Tomografia Computadorizada, a Medicina Nuclear destaca-se como uma ferramenta eficaz e altamente resoluta. “Esta especialidade caracteriza-se pela administração ao paciente de uma substância radioativa que se fixa seletivamente em um órgão ou sistema e que aí permanece por um tempo suficiente para que através de equipamentos adequados sejam obtidas as imagens de sua distribuição”, conceitua Wagner. Conforme ele, a medici-

na nuclear teve origem em meados do século XX, logo após a II Guerra Mundial. “Como subproduto da explosão da bomba atômica, o domínio do conhecimento da radiação ionizante começou, então, a ser utilizado para o diagnóstico e o tratamento de diversas doenças do homem”, complementa o coordenador do Serviço no Hospital Albert Einstein, salientando que diferentemente de outros exames de imagem que visam obter informações anatômicas e morfológicas, os procedimentos desta especialidade são realizados com a finalidade de captar dados sobre a função dos diversos órgãos e estruturas do corpo humano.


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Um passo a frente do câncer Ainda de acordo com o coordenador do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Albert Einsten, os exames de PET/CT têm grande aplicação em Oncologia para o diagnóstico, estadiamento, recidiva e avaliação de resposta ao tratamento de diversos tipos de tumores. “As alterações detectadas por PET/CT são em geral mais precoces em relação a outros exames pois ocorrem a nível metabólico, portanto antes de que hajam as alterações morfológicas nas estruturas”, diz ele, revelando que um importante avanço tecnológico surgiu a partir da fusão, em um único aparelho, de PET + ressonância magnética, conhecido como PET/RM. “Há pouquíssimos em uso no mundo devido à complexidade e alto custo do equipamento”. Wagner também cita que outra importante aplicação do uso dos radiofármacos em medicina nuclear associam-se a diferentes tratamentos. “Radioisótopos com características especiais podem ser utilizados para tratamento de doenças da tireóide, para paliação de dores por metástases ósseas, para tratamento de metástases de tumores de próstata, mama e de tumores neuroendócrinos, entre outros”, enumera, observando o fato de que a especialidade é a mais importante representante do que se denomina Imagem Molecular. “Há grandes perspectivas para que no futuro sejam produzidos em um Serviço de Medicina Nuclear radiofármacos tanto para diagnóstico como para tratamento, específicos para um indivíduo, baseados em características genéticas ou moleculares próprias da doença em questão”.

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“Há grandes perspectivas para que no futuro sejam

produzidos em um Serviço de Medicina Nuclear radiofármacos tanto para diagnóstico como para tratamento, específicos para um indivíduo, baseados em características genéticas ou moleculares próprias da doença em questão. É a Medicina Personalizada”, antecipa o coordenador do Serviço de Medicina Nuclear e Imagem Molecular do Hospital Albert Einsten, em São Paulo, Jairo Wagner


“O diagnóstico das doenças neurológicas é desafiador” A evolução da medicina em suas diferentes especialidades atingiu patamares que permite aos profissionais médicos identificar enfermidades que ainda não se manifestaram, mas podem trazer sérios problemas à saúde dos pacientes. É neste princípio básico que a Medicina Nuclear pode ser, de uma forma bastante genérica, dimensionada. Segundo a médica Nuclear do Instituto do Cérebro (InsCer) do Rio Grande do Sul – PUC-RS, Cristina Matushita, foi a partir da introdução clínica de elementos radioativos, como o iodo, por exemplo, que a identificação e a localização precoce de doenças tornou os tratamentos mais resolutos. Em meio a um cenário de intenso desenvolvimento científico e clínico, o Diário da Manhã conversou com uma das médicas nucleares que estão na vanguarda destes estudos. Cristina Matushita reforça a importância da especialidade e revela que a estrutura do InsCer é uma das mais sofisticadas do país, permitindo significativos avanços. Confira a entrevista. Diário da Manhã – Como a tecnologia nuclear é aplicada nos pacientes? Dra. Cristina Matushita – A Medicina Nuclear é uma especialidade médica que realiza diagnóstico por imagem, tratamento radionuclídico e cirurgia radioguiada. Seus exames utilizam métodos seguros, praticamente indolores e não invasivos para fornecer informações que outros exames diagnósticos não conseguem. Normalmente, os materiais radioativos são administrados in vivo, por via venosa, oral, inalatória ou subcutânea e apresentam distribuição para órgãos ou tipos celulares específicos, não havendo risco de reações alérgicas.

Pioneiro na América Latina a produzir e utilizar em pacientes um radiofármaco direcionado para a investigação de distúrbios neurológicos, o Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul – PUC-RS tornou-se referência na pesquisa e aplicação da especialidade

DM – E como se dá a distribuição do radiofármaco pelos órgãos do corpo humano? Cristina – Esta distribuição pode ser ditada por características do próprio elemento radioativo ou, outras vezes, ao radiofármaco (radionuclídio + fármaco), com afinidade por determinados tecidos. A medicina nuclear estuda a distribuição desses radiofármacos no organismo, determinando assim o seu estudo fisiológico. Podemos colocar assim a principal diferença dos outros exames diagnósticos radiológicos para a medicina nuclear: enquanto a radiologia estuda a morfologia, a medicina nuclear estuda a fisiologia.

DM – Estes produtos são eliminados facilmente pelo organismo? Cristina - A radioatividade da maioria dos elementos empregados se reduz pela metade (meia vida) em questão de horas ou dias, dependendo do elemento. A radiação emitida pode ser do tipo alfa, beta e gama na medicina nuclear convencional; e fótons no PET/CT. O tempo de permanência dos materiais radioativos no corpo do paciente é estimado de acordo com a meiavida descrita anteriormente (característica física do elemento) associado ao tempo que cada paciente demora para eliminar (meia-vida biológica) este material, o que, frequentemente, ocorre através das fezes ou da urina.

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escolha do melhor local para realizar uma biópsia, na graduação de lesões malignas, na determinação do prognóstico e sobrevida dos pacientes e em casos onde há dúvida sobre outros exames de imagem.

DM – Esta substância produz algum efeito colateral ao organismo? Cristina – O PET-CT é um exame simples, seguro e indolor. O FDG-F18, a glicose radioativa, não causa nenhum tipo de efeito colateral, podendo ser utilizado inclusive em pacientes diabéticos, desde que estejam com sua glicemia controlada. Por utilizar uma pequena concentração de radiação, em caso de gravidez, a paciente deve discutir a relação risco-benefício com o seu médico para avaliar a real necessidade do exame. Em caso de amamentação, suspender as mamadas por pelo menos 24 horas, se possível. É essencial a capacidade do paciente em permanecer imóvel durante a aquisição das imagens. Em casos especiais, o exame poderá ser realizado após sedação/anestesia.

DM – Estes exames já são regulados pelo SUS e pelos convênios de saúde? Cristina - É importante registrar que o exame está disponível para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). A Agência Nacional de Saúde (ANS) também já regulou o PET/CT nos convênios de saúde para as seguintes aplicações: câncer de pulmão de não pequenas células, linfoma de Hodgkin, linfoma não Hodgkin, câncer colo-retal, avaliação de nódulo pulmonar solitário, câncer de mama, câncer de cabeça e pescoço, melanoma e câncer de esôfago. No SUS, estão regulados para o estadiamento, reestadiamento, avaliação de tratamento em linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin; estadiamento de câncer de pulmão de não pequenas células potencialmente ressecável; e para o câncer de cólon com metástases exclusivamente hepáticas e potencialmente ressecáveis.

DM – Ainda há a possibilidade de identificar o grau de outras lesões? Cristina – Sim, além destas indicações, o PET-CT tem grande utilidade no planejamento da radioterapia, na

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DM – Quais as principais recomendações clínicas oncológicas para utilização deste procedimento? Cristina – Por apresentar resultados significativos quando utilizado na área oncológica, “o PET/ CT é recomendado clinicamente para uma série de tumores”. Entre eles, podemos citar os de pulmão; os do sistema digestivo, como o câncer de esôfago, gastrintestinal e carcinoma colo-retal; câncer de mama; da cabeça e pescoço; melanomas; órgãos genitais; de tireóide; tumores do sistema nervoso central e linfomas.

Foto: Bruno Todeschini/Arquivo Fotográfico/ASCOM/PUC-RS

DM – Qual a ação do FDG-F18? Cristina – O FDG-F18 é uma substância análoga a glicose, que é um açúcar, uma das principais fontes de energia celular. O PET-CT detecta a radiação emitida pelo FDG-F18 transformando-a em imagens e determinando assim os locais onde há presença deste açúcar, demonstrando o metabolismo da glicose. O metabolismo da glicose é importante, pois a grande maioria das células tumorais apresenta um consumo acentuado da glicose, em comparação com as células normais. A grande vantagem do PET-CT é a capacidade de mensurar o metabolismo das lesões, demonstrando a presença de alterações funcionais antes mesmo que ocorram alterações estruturais, permitindo assim o diagnóstico precoce de doenças neoplásicas, o que é essencial para um tratamento mais eficaz.

“O PET-CT apresenta boa

capacidade para identificar mudanças muito precoces associadas a doença de Alzheimer e outras demências neurodegenerativas. A detecção precoce e o diagnóstico vai desempenhar um papel crescente na gestão da doença demencial”, aponta a médica nuclear, Cristina Matushita

DM – Isso pode ter impactos positivos na saúde pública? Cristina – O impacto que pode ocorrer na saúde pública é devido a capacidade do PET/CT de estadiar melhor as lesões, conseguindo detectar precocemente metástases em todo o corpo e/ou avaliar a resposta do metabolismo do tumor ao tratamento proposto, permitindo assim a alteração do tratamento e evitando o desperdício de tempo, tão precioso nestes pacientes.


Diagnósticos ampliados Idealize um método que permita diagnosticar tumores cancerígenos e doenças cardíacas e neurológicas a partir da injeção de um material radioativo no corpo humano. De acordo com o chefe do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Gabriel Blacher Grossman, a Medicina Nuclear enquanto es-

pecialidade começou a ser utilizada clinicamente na década de 50, inicialmente para diagnóstico e tratamento de doenças da tireóide. Porém, o principal impulso ocorreu na década de 80, com a aplicação de um produto chamado Tecnécio-99m, ligado a diversas substâncias com afinidade por órgãos específicos – os conhecidos radiofármacos.

Utilizados clinicamente desde 1950, inicialmente para diagnosticar e tratar doenças da tireóide, os radiofármacos permitem aos médicos obter imagens de diversos órgãos do corpo, detectando problemas e contribuindo para a escolha de tratamentos mais adequados. Pesquisas avançam para a descoberta precoce de enfermidades neurológicas, como a Demência de Alzheimer, bem como para a melhor identificação de diversos tumores

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Infinitas possibilidades

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“A partir da injeção de um radiofármaco, o paciente é posicionado em um equipamento denominado gama-câmara que irá detectar a radiação emitida pelo órgão a ser estudado. Com esta ferramenta tornou-se possível realizar imagens de diversos órgãos, entre eles as cintilografias miocárdicas”, afirma o chefe do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Moinhos de Vento Foto: Reprodução/Assessoria de Comunicação Hospital Moinhos de Vento

O desenvolvimento científico e tecnológico não se encerra com a resolução de um problema. A cada nova descoberta surgem outras dificuldades que precisam ser sanadas. Por isso, diz Grossman, a pesquisa tende a avançar continuadamente. “Nos últimos anos, a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) foi associado à tomografia computadorizada. O PET/CT tornou-se, a partir da utilização principalmente do isótopo Flúor-18 ligado a uma substância parecida com a glicose (FDG), uma ferramenta fundamental na oncologia para o diagnóstico, estadiamento e definição do tratamento de diversas neoplasias”, relata ele. Além da capacidade de identificar tumores cancerígenos, a Medicina Nuclear, a partir dos radiofármacos e de ferramentas como o PET/CT, tem desbravado novas fronteiras e acelerado estudos que podem ser o futuro do tratamento de problemas neurológicos. “Recentemente, novos radiofármacos com capacidade de diagnosticar mais especificamente doenças como Demência de Alzheimer, Parkinson e diferentes tipos de tumores prometem impulsionar ainda mais o uso da Medicina Nuclear”, conceitua o chefe do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Moinhos de Vento, ponderando, contudo, que, assim como qualquer outra tecnologia, o custo inicial de aplicação pode inviabilizar o acesso a curto prazo. “A utilização da Medicina Nuclear no tratamento de diferentes tumores tem sido objeto de estudo crescente e nos próximos anos diversos cenários clínicos se beneficiarão desta abordagem. Equipamentos com maior capacidade diagnóstica, com o PET associado a equipamento de Ressonância Magnética recentemente foram lançados no mercado, mas o seu custo inviabiliza o seu uso a curto prazo”.

“Recentemente, novos radiofármacos com capacidade de diagnosticar mais especificamente doenças como Demência de Alzheimer, Parkinson e diferentes tipos de tumores prometem impulsionar ainda mais o uso da Medicina Nuclear”, conceitua Grossmann


“Pesquisa clínica com células-tronco não se cobra” Conceituada internacionalmente como referência nos estudos sobre o uso das células-tronco, a presidente do Conselho Consultivo do Instituto de Pesquisas com Células-tronco (IPTC) e coordenadora do Laboratório de Hematologia e Células-tronco da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), Dra. Patrícia Pranke, afirma que todos os avanços envolvendo a aplicação deste material trouxeram esperanças recentes para a cura de diversas enfermidades, mas que ainda é necessário estabelecer padrões e análises demonstrando que os benefícios são infinitamente maiores do que os riscos. “Não podemos anunciar falsas esperanças. Qualquer tratamento super inovador oferecido no mercado não é condizente com o meio científico. Pesquisa clínica com células-tronco não se cobra”, enfatiza

Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal

Presidente do Conselho Consultivo do Instituto de Pesquisas com Células-tronco (IPTC), Dra. Patrícia Pranke

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Células-tronco pluripotentes: o próximo passo em direção ao futuro dos tratamentos Patrícia Pranke, ao lado de uma professora da Universidade de São Paulo (USP), foi a pesquisadora convidada por deputados e senadores para fornecer suporte científico ao Congresso Nacional na redação da lei que aprovou as pesquisas com células-tronco embrionárias humanas em 2005. Mais tarde, ela fez parte do grupo de 22 cientistas convocados pelo Supremo Tribunal Federal para debater a Lei de Biossegurança. O resultado deste esforço foi a liberação pelo STF, em maio de 2008, dos estudos . Nesta entrevista concedida ao Diário da Manhã, Patrícia falou sobre a importância das células-tronco para a medicina e explicou porque as células-tronco pluripotentes (entre elas as embrionárias - CTE) estão sendo consideradas como o próximo passo a ser dado em direção ao futuro dos tratamentos de uma série de doenças. Confira. Diário da Manhã – Por mais que o uso das células-tronco tenha se difundido ainda há muita desinformação nesta área. O são estas células e por que as pesquisas são tão celebradas? Patrícia Pranke – Células-tronco (CT) são células imaturas, bem jovens, que têm a capacidade de se diferenciar e proliferar em vários tipos de tecidos diferentes. O embrião, nos primeiros dias do desenvolvimento embrionário, é um composto de CT que nós chamamos de pluripotentes, ou células-tronco embrionárias (CTE), porque elas têm a capacidade de se transformar em mais de 200 tipos diferentes de tecidos que vão dar origem a um organismo, resultando, no fim deste processo de formação, ao ser

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humano. Quando este organismo começa a formar o feto e este já tem um coração, o fígado, a medula, enfim, todos os órgãos constituídos, as CT deixam de ser pluripotentes, porque sua capacidade de transformação já ocorreu, embora estes órgãos ainda mantenham um potencial de fornecer células para formar tecidos semelhantes. Então, de uma maneira bem simples, células-tronco são células capazes de auto-renovação e diferenciação em muitas categorias de células. Elas também podem se dividir e se transformar em outros tipos de células, além de serem programadas para desenvolver funções específicas, tendo em vista que ainda não possuem uma especialização. E foi isso que despertou tanto o

interesse do mundo científico e, posteriormente, da medicina. DM – Desta forma, de uma maneira geral, há dois grandes grupos de células-tronco? Patrícia – Elas podem ser agrupadas em células-tronco pluripotentes (entre elas as embrionárias – CTE e as células-tronco pluripotentes induzidas ou iPSCs), que são aquelas com capacidade de se transformar em qualquer tipo de células; e as células-tronco adultas, definidas como aquelas que já se transformaram em um determinado tecido ou órgão, mas ainda mantém a sua capacidade de divisão e auto-renovação. As células-tronco pluripotentes induzidas vem sendo obtidas em laboratórios desde 2007.


DM – Isso quer dizer que podemos obter CT de qualquer órgão ou tecido do corpo humano? Patrícia – Nós temos células-tronco em todos os órgãos do nosso corpo. Mas, por que falamos muito nas CT de medula óssea, cordão umbilical e da gordura proveniente de lipoaspiração e não discutimos tanto sobre as que encontramos no fígado, no cérebro e no coração? Se pensarmos em pessoas com doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer e o Mal de Parkinson, por exemplo, que constituem duas áreas bastante atuais de pesquisas com CT, não podemos extrair as células-tronco do cérebro destes pacientes retirando as saudáveis de um hemisfério e as realocando no outro porque se trata de um órgão sólido. O mesmo ocorre com o músculo cardíaco. Há células-tronco no coração, mas eu não posso tratar um infarto substituindo o lado infartado pelo saudável. É um tecido sólido que pode ser lesionado. Por isso, embora praticamente todos os órgãos do corpo tenham um tipo de CT, as chamadas mesenquimais, as que podemos utilizar, provém de fluídos, como é o caso da medula óssea. DM – Qual é o uso potencial das células-tronco na medicina, atualmente? Patrícia – Essa é uma questão que precisa ser avaliada em duas áreas. Uma delas diz respeito àquilo que já está consagrado na medicina. Quando falamos em transplante de medula óssea, que já é realizado há cerca de 50 anos com sucesso, estamos nos referindo ao transplante de células-tronco de um organismo para outro. Isso é avanço consagrado e consolidado no tratamento de doenças hematológicas, como a leucemia, anemia aplásica, linfomas e alguns

problemas de ordem enzimática ou genética. Trata-se de uma lista de enfermidades que são potencialmente tratadas com o transplante de medula óssea, que hoje em dia recebeu a denominação de transplante de células-tronco hematopoéticas, porque, de fato, na maioria das vezes, usa-se mais o sangue periférico do que a medula óssea propriamente dita. Então, este tipo de ação é cientificamente atestada e tem surtido resultado extremamente satisfatórios. Agora, todo o resto que se ouve falar em relação às CT trata-se de pesquisa clínica, que é o que eu faço no Laboratório da UFRGS. DM – A senhora, ao lado de uma professora da USP, contribuiu na redação da lei que promoveu uma série de avanços em biossegurança. Como foi este processo? Patrícia – De certa forma, a professora Mariana Zatz, da Universidade de São Paulo, e eu fomentamos o debate a respeito da construção da lei que resultou na aprovação das pesquisas com células-tronco no Brasil, em um processo iniciado por volta de 2002. Diferente do que ocorria em outros países, como nos Estados Unidos, o Brasil ainda não tinha uma lei nem a favor e nem contra e isso era preocupante, porque poderíamos ter um uso indiscriminado desse material, sem regulamentação e sem compromisso ético. Então, de 2003 a 2005 ficamos trabalhando muito nisso, assessorando os parlamentares diretamente em Brasília, o que culminou com a aprovação da lei em 2005. DM – Foi em relação às células-tronco que o STF organizou a sua primeira audiência pública?

“O cuidado que precisamos ter é de não criar falsas esperanças e promessas nas pessoas que enxergam nas células-tronco a cura para as doenças”, reforça Patrícia Patrícia – A lei foi aprovada no ano de 2005, contudo, na sequência, o então procurador Geral da República, Cláudio Fonteles, ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN?) contra a lei, tentando proibir as pesquisas. Os pesquisadores ficaram inseguros. Criou-se um clima de insegurança muito grande no meio científico e praticamente ninguém trabalhou com células-tronco embrionárias naquele período, até que essa ADIN fosse julgada, o que demorou três anos para acontecer. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, o Supremo promoveu uma audiência pública. Nós, cientistas, fomos convidados a participar. Finalmente, o STF decidiu pela constitucionalidade da lei e foi aí que iniciaram, de fato, as pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil.

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Consagrado como método de tratamento para doenças como leucemia, linfomas e alguns tipos de anemia, o Transplante de Medula Óssea (TMO) evoluiu e, agora, em razão das novas aplicações das células-tronco (CT) passou a ser denominado Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH), abrangendo um número maior de aplicações

Novas aplicações aumentam demanda por doadores Até há alguns anos, tinha-se o conhecimento de que somente a medula óssea era uma boa fonte de células-tronco (CT) para o transplante. Porém, com o avanço da medicina e a busca constante por inovações que possam aumentar a resolutividade dos tratamentos, o procedimento também começou a ser feito com as células do sangue periférico mobilizado ou do sangue do cordão umbilical – identificadas como fontes importantes para a coleta deste material. Os resultados, de acordo com os médicos, costumam ser os mesmos, assim como grande parte do processo. E para pacientes com algumas doenças do sangue, como leucemias agudas e linfomas, esse caminho representa uma ótima opção de tratamento

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e de cura. Tecido líquido-gelatinoso localizado dentro dos ossos, a medula óssea é responsável por fabricar todos os elementos do sangue. É ali que nascem as células-tronco hematopoéticas: somente quando atingem a maturidade, elas se diferenciam em relação às suas funções, tornando-se glóbulos brancos (que combatem infecções), vermelhos (que carregam o oxigênio), e plaquetas (que ajudam na coagulação). A maior parte das doenças do sangue ocorre devido a uma falha nesse mecanismo. Quando essas células sofrem uma mutação, normalmente sem causa conhecida, perdem suas funções e começam a atrapalhar o sistema. O transplante, então, entra como uma opção para combater esse transtorno e repovoar a medula com células saudáveis.


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“As células-tronco são o futuro da medicina”, diz presidente da SBTMO Fundada em 1996, com a proposta de fortalecer as pesquisas relacionadas à aplicação de células-tronco (CT) no país, a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) tem contribuído diretamente na elaboração de normas técnicas para o funcionamento de novas Unidades de Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH). Para a presidente da entidade, a professora Associada da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), coordenadora do Centro de Terapia Celular do RS (CTC - RS) e chefe do Laboratório de Cultura Celular e Análise Molecular de Células Hematopoéticas do Centro de Pesquisas do HCPA, Lúcia Silla, o potencial terapêutico das células-tronco e a posição de vanguarda ocupada pelo Brasil no cenário internacional de pesquisas e estudos a respeito das suas aplicações, permitem afirmar que “estamos diante de um grande salto para o tratamento, a regeneração e a cura de um número bastante amplo de doenças”. Confira os principais trechos da entrevista. Diário da Manhã – O transplante de medula óssea já é uma técnica consagrada na medicina? Lucia Silla – A terapia celular clássica e mais aceita fora do ambiente das pesquisas é o tratamento de células-tronco hematopoéticas, popularmente

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conhecido como o transplante de medula óssea. Neste aspecto precisamos comemorar, porque a técnica vem se aprimorando ao longo dos anos, contemplando um número maior de possibilidades de tratamento, ampliação dos cadastros de doadores e resultados comprovados. Apesar de ser um procedimento complexo, talvez um dos mais complexos da medicina, o transplante vem sendo aperfeiçoado para ser, a cada nova utilização, mais eficaz. Recentemente, obtivemos uma nova conquista para os pacientes com anemia falciforme, um problema hereditário que, de acordo com estimativas do Ministério da Saúde, afeta de 25 a 50 mil pessoas no Brasil. Este tipo de anemia é uma das que levam à morte de forma precoce, além de ser fator de risco para uma série de outras doenças. Então, a tecnologia avançou muito e acreditamos que o índice de cura destes pacientes a partir do transplante de células-tronco possa chegar aos 80%. DM – Há uma esperança em relação ao tratamento oncológico. Estamos no caminho certo? Lúcia – Sem dúvida nenhuma estamos avançando muito nesta área. E temos orgulho de dizer que o Brasil é um dos países que tem se destacado nas pesquisas com resultados espetaculares. O que se visualiza é a possibilidade de regenerar o órgão afetado pelo câncer potencializando as

Presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Lúcia Silla, é otimista em relação aos próximos avanços nos tratamentos com terapias celulares

células-tronco saudáveis. O processo, resumidamente, seria mais ou menos desta forma: da corrente sanguínea do paciente oncológico nós colheríamos sangue e separaríamos as células-tronco que são especializadas em matar as células cancerosas. Tiraríamos esse material saudável do ambiente interno do doente, pois elas não estão atuando em sua defesa, multiplicaríamos in vitro, ou seja, no laboratório e, posteriormente, com as células extremamente ativadas, reintroduziríamos no paciente. Este deve ser um dos avanços mais significativos dos últimos anos. Evidente que ainda há todo um processo laboratorial e de pesquisa clínica, mas a ciência caminha a passos largos para este salto imenso.


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Quando a natureza freia a ciência Decidir ‘se’ e ‘quando’ engravidar é uma prerrogativa da mulher, que opta por dividir com o parceiro a escolha de gerar um filho. Normalmente, há pouca discussão sobre o assunto entre os casais e com frequência, espontaneamente, a primeira gestação ocorre no primeiro ano de união entre os indivíduos. Se o desejo de ambos for ter filhos, mas isso não se concretizou em um período de 12 meses de tentativas, a fertilidade do casal precisa ser avaliada. Segundo a diretora Científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), professora da Faculdade de Medicina da PUC-RS, chefe do Serviço de Ginecologia do Hospital São Lucas da PUC-RS e diretora da Fertilitat – Centro de Medicina Reprodutiva, Mariangela Badalotti, há muita incidência de casos de infertilidade. “Os problemas de fertilidade são mais comuns do que se pensa, tanto nas mulheres quanto nos homens. Atualmente, cerca de 35% das causas prováveis de infertilidade são diagnosticadas no sexo feminino e 35% no masculino; 20% representam fatores associados e 10% não tem causa aparente. O mais importante é que todos esses transtornos podem ser tratados para permitir chances reais de gravidez”, ressalta ela, destacando que a Reprodução Assistida (RA), a especialidade da medicina que se dedica ao estudo, identificação e resolução destes distúrbios, tem permitido que um número cada vez maior de mulheres inférteis sejam mães.

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Por mais que os métodos de Reprodução Humana Assistida tenham avançado para permitir que um número cada vez maior de problemas de fertilidade sejam tratados, a diretora Científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) adverte: não há mágica nesta especialidade. “Conseguimos evoluir em muitos aspectos, porém a idade da mulher ainda é uma barreira que a medicina não ultrapassou”

Mas os benefícios das técnicas não se resumem à elas. “Sobretudo a partir de 2013, o Conselho Federal de Medicina (CFM) assegurou o direito dos casais homoafetivos ao denominado ‘útero de substituição’. Este é um método que gerou muito debate há alguns anos, mas que vem se sustentando pela credibilidade dos profissionais que atuam com reprodução humana. É vedado qualquer tipo de pagamento financeiro à mulher que irá gerar o bebê, por isso se diz que é uma gestação de substituição”, reitera Mariangela, explicando que a fertilização se dá in vitro, com o uso de espermatozóides de um dos indivíduos da relação e o óvulo de uma doadora. A técnica, complementa a diretora Científica da SBRH, também pode ser utilizada por casais heterossexuais nos quais os tratamentos para infertilidade não surtiram resultados. “Neste caso, o espermatozóide do pai é fertilizado no laboratório com o óvulo da mãe, depois introduzido no útero da mulher que se ofereceu par receber a criança. É importante lembrar que nos referimos ao pai e a mãe como sendo aqueles indivíduos com intenção de filiação. O procedimento é éticamente respaldado pelo CFM e representa um avanço importante para milhares de pessoas”, frisa ela,

Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), professora da Faculdade de Medicina da PUC-RS, chefe do Serviço de Ginecologia do Hospital São Lucas da PUC-RS e diretora da Fertilitat – Centro de Medicina Reprodutiva, Mariangela Badalotti

A natureza dita seu tempo Mesmo que o sucesso das técnicas de Reprodução Assistida no Brasil tenha atingido padrões internacionais – o índice é de 74%, segundo o último levantamento – a diretora Científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana faz um alerta: não há mágica nesta especialidade. Com isso, Mariangela quer dizer que embora a ciência clínica tenha evoluído muito desde o primeiro bebê de proveta – em 1978 – e as inseminações artificiais tenham bons números de efetivação, a natureza é quem determina a fertilidade feminina. A idade do óvulo continua sendo um fator limitador para a RA. “Em 1978, quando o procedimento foi realizado pela primeira vez, as chances de surtir resultado positivo eram de apenas 5%. Hoje, atingimos 50% de possibilidade de sucesso em mulheres até 35 anos”, afirma ela, reforçando que esse percentual tende a diminuir com o avanço da idade. “Quando se chega aos 40 anos, esse índice reduz para 35 a 40%. Aos 42, mesmo

com todos os avanços de fertilização assistida, o percentual de sucesso é de 20%. A partir dessa idade, ocorre uma diminuição progressiva e acentuada na obtenção de um resultado esperado pelos casais. A questão da fertilidade é diretamente afetada pela idade da mulher em função do óvulo”. Por isso, Mariangela enfatiza que postergar a gravidez, ao mesmo que tornou-se uma possibilidade em razão dos constantes avanços científicos relacionados a reprodução assistida, deve ser uma escolha baseada no entendimento completo de como se dá o processo. “As pessoas, em sua maioria, acreditam que a reprodução assistida é uma fórmula mágica, basta submeter-se aos procedimentos para que dê certo, independente do momento da vida que se está vivendo”, reforça a diretora Científica da SBRH, salientando que a técnica, em hipótese alguma, é milagrosa. “A fertilidade diminui a partir dos 35, reduz mais aos 37 e sofre um processo vertiginoso de queda a partir dos 40.

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Acesso ampliado aos tratamentos contra a infertilidade As mudanças na estrutura social, os novos espaços conquistados pelas mulheres no mercado de trabalho e a possibilidade de poder programar a gravidez para o momento em que a mulher sentir-se realizada em outros aspectos de sua vida, além dos casos de infertilidade, estão alterando a maneira como a maternidade tem sido abordada. A partir dessas novas composições sociais, o número de pessoas que recorrem aos diversos tratamentos para engravidar no Brasil, e no mundo, tem aumentado ao longo das últimas décadas – assim como o sucesso das inseminações artificais e fertilizações in vitro, os dois métodos mais utilizados na reprodução humana assistida. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgados no segundo semestre do ano passado, a partir de análises com números informados pelas clínicas e hospitais que prestam os serviços, mostram que o país atingiu padrões internacionais de sucesso: 73% - internacionalmente, os resultados devem estar entre 65% e 75%, conforme a Anvisa. Mais do que avanços clínicos e terapêuticos, o indicador de sucesso também é atribuído ao crescimento da oferta no tratamento de problemas de fertilidade, que podem atingir um em cada dez casais no Brasil – cerca de 60 milhões de pessoas, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS). De maneira geral, sem o

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Sem uma legislação específica aprovada no país, as técnicas de reprodução humana assistida são regulamentadas, há mais de 20 anos no Brasil, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Desde 2012, uma Portaria do Ministério da Saúde passou a garantir os tratamentos contra a infertilidade pelo Sistema Único de Saúde. No Rio Grande do Sul, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), através do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, foi uma das primeiras instituições a oferecer os serviços pelo SUS uso de métodos contraceptivos a gravidez deve ocorrer em até um ano. Se isso não se concretizar, a recomendação é buscar orientação médica em hospitais ou clínicas reconhecidas de reprodução humana assistida. Oficialmente desde 2012, esse auxílio da ciência na gestação de casais que, comprovadamente, têm problemas de fertilidade é possível através do Sistema Único de Saúde (SUS). Por meio de uma Portaria, o Ministério da Saúde incluiu os tratamentos contra infertilidade na lista de procedimentos cobertos e garantidos pelo Sistema. Antes desta Portaria, os indivíduos

precisavam passar uma longa lista de espera para serem autorizados. No Rio Grande do Sul, foi o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), através do Hospital Fêmina, um dos pioneiros a se inserir na rede pública para prestar este atendimento. Segundo a ginecologista e obstetra, coordenadora do Ambulatório de Reprodução Humana do Fêmina, Andréa Nacul, os problemas de infertilidade afetam tanto as mulheres quanto os homens e a realização destes procedimentos pelo SUS têm garantido a concretização de um sonho para centenas de casais que já foram atendidos na instituição.


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Complexidades distintas À medida que as mulheres resolvem primeiro consolidar uma carreira profissional para só depois ter filhos, a dificuldade para gerar uma criança vai aumentando. Os óvulos vão envelhecendo e nunca se renovam. Cada vez mais, a idade do homem também se torna um fator preponderante na dificuldade do casal para engravidar. Quando os tratamentos para fertilidade não atingem os resultados esperados, o casal passa pelos procedimentos de reprodução assistida, que variam de acordo com o diagnóstico.

A obstetra reforça que a eficácia de cada método varia de acordo com a paciente e que a aplicação é feita a partir de critérios definidos individualmente. “Normalmente, a técnica da fertilização in vitro é utilizada para casais em que a mulher tenha problemas nas trompas ou endometriose, o que pode dificultar a chegada dos espermatozoides até o óvulo. Também pode ser feita em casos de problemas na produção de gametas no homem”, cita Andréa, observando que as chances de sucesso neste método estão

ligadas à idade do óvulo, pois eles existem na mulher desde a infância e também passam pelo processo de envelhecimento celular. Mulheres com menos de 35 anos tem 60% de chances. Entre 35 e 38 anos, as chances caem para 40%, e continuam a baixar para 30% até os 40 anos, passando para 8% depois. “A gravidez tardia, com a mulher de mais idade, continua sendo uma gestação de risco. O ideal seria que a mulher engravidasse, pelo menos do primeiro filho, antes dos 35 anos”.

Foto: Divulgação/Grupo Hospitalar Conceição

Avanços importantes Realizada no Brasil desde 1983, a fertilização in vitro foi uma revolução da ciência à serviço da reprodução humana. Utilizado pela primeira vez no mundo em 1978, na Inglaterra, o método, pontua a coordenadora do Ambulatório de Reprodução Humana do Hospital Fêmina, tem evoluído consideravelmente e permitindo que as taxas de fertilização cresçam ano a ano. Um destes avanços, avalia Andréa, refere-se a vitrificação dos óvulos, também conhecida como criopreservação. “Isso aperfeiçoou as técnicas de congelamento dos óvulos, permitindo que ao ser desvitrificado apresentem a mesma capacidade de fertilização de um gameta feminino fresco”, revela.

Andréa Nacul coordena o Ambulatório de Reprodução Humana do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, um dos primeiros a garantir tratamentos contra a infertilidade pelo SUS no Estado. “Até em função disso, há uma lista de espera considerável”, comenta ela

Problemas mais frequentes Os casos mais frequentes tratados no Ambulatório de Reprodução Humana do Hospital Fêmina, uma das unidades que compõem o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, de acordo com Andréa, estão relacionados, no sexo feminino, ao ciclo anovulatório – quando a mulher não ovula –; e a alterações na anatomia das trompas uterinas, o que impossibilita o encontro do óvulo com o espermatozóide. Entre os homens, o problema mais comum refere-se aos padrões alterados no sêmen.

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“A infertilidade afeta cerca de 10% dos casais”, afirma vice-presidente da SBB Criada em 1995 com o objetivo de estimular a produção e a troca de informações sobre bioética no Brasil, a Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) é, atualmente, uma das entidades nacionais que discute os avanços e os desafios relacionados à Reprodução Assistida (RA) no país. Desde que uma Portaria do Ministério da Saúde incluiu os tratamentos contra a infertilidade e os métodos de RA na cobertura obrigatória do Sistema Único de Saúde (SUS), os dirigentes da SBB vem procurando ampliar o diálogo com a sociedade, desmistificando diversos conceitos equívocados sobre o assunto. Para falar sobre o panorama geral da RA no país, o Diário da Manhã conversou com o segundo vice-presidente da SBB, Gerson Zafalon Martins. Ex-editor da Revista Bioética, produzida pelo Conseho Federal de Medicina (CFM), Martins também é membro da Câmara Técnica de Bioética e da Câmara Técnica de Morte Encefálica do CFM. “O avanço do conhecimento científico a respeito da Reprodução Humana já permite solucionar vários casos de problemas nesta área”, afirma ele. Confira a entrevista.

Diário da Manhã – Quais os principais dilemas envolvendo a reprodução assistida (RA)? Gerson Zafalon Martins – A questão básica em relação à fertilização in vitro (Fiv), que é um dos métodos mais importantes relacionados a reprodução humana assistida, decorre da criação de seres humanos, pois se está criando embriões humanos vulneráveis em todos os sentidos. Estes embriões serão implantados, descartados, congelados ou utilizados em pesquisas. Outro dilema bioético é a utilização da barriga solidária, que acrescenta ao casal uma terceira pessoa, que pode gerar conflitos mesmo sendo a mãe, a avó ou outro parente. DM – A RA tem crescido bastante no país, muito por causa dos problemas de fertilidade. Martins – É uma realidade. Há estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicando que apenas no Brasil esses problemas afetam cerca de 10% dos casais. Então, a infertilidade humana é um problema de saúde, com implicações médicas e psicológicas, e é legítimo o anseio de superá-la. Reprodução Assistida é o nome que se dá para os tratamentos oferecidos a casais com problemas de infertilidade. Na reprodução assistida há os tratamentos de baixa complexidade, mais simples, como a inseminação intrauterina; e os mais complexos, como a fertilização in vitro, mais conhecida como bebê de proveta.

2º vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), Gerson Zafalon Martins

DM – O que a Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece em relação a este método de fertilização in vitro? Martins – Segundo as normas do CFM, a reprodução assistida é para casais com problemas de infertilidade, sendo proibida a fecundação de oócitos (óvulos) humanos, com qualquer outra finalidade que não a procriação humana. As técnicas e os métodos de RA não podem ser aplicadas com a intenção de selecionar o sexo (presença ou ausência de cromossomo Y) ou qualquer outra característica biológica do futuro filho, exceto quando se trate de evitar doenças ligadas ao sexo do filho que venha a nascer. Neste aspecto, a Resolução do CFM prevê o diagnóstico genético pré-implantação de embriões. Apenas nesta exceção, as técnicas de reprodução assistida podem ser utilizadas acopladas à seleção de embriões submetidos a diagnóstico de alterações genéticas causadoras de doenças.

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DM – E o Brasil tem crescido no índice de sucesso das fertilizações in vitro? Martins – Segundo os dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os tratamentos de reprodução assistida no país, em 2013, alcançaram boas taxas de fertilização, revelando a eficácia do serviço oferecido no Brasil. A média nacional em 2013 foi de 74% de sucesso, dentro dos padrões de qualidade sugeridos na literatura internacional, que variam entre 65% a 75%. DM – Além desse percentual, há novidades na rede pública de saúde. Martins – Em dezembro de 2012, o Ministério da Saúde passou a oferecer o tratamento para infertilidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a sociedade deve mobilizar-se para facilitar a oferta desses programas. DM – Mesmo com esses avanços não há uma legislação específica no país? Martins – Não há legislação brasileira específica regulamentadora da reprodução assistida (RA). A Lei n° 11.105/05, conhecida como Lei de Biossegurança, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvem organismos geneticamente modificados, mas não a reprodução assistida. No seu Artigo 5o, esta Lei diz que é permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento. O Conselho Federal de Medicina (CFM), autarquia que fiscaliza e normatiza a prática médica, editou a Resolução nº 2013/2013, adotou as normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida como dispositivo deontológico a ser seguido pelos médicos.

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“O CFM e a SBB não utilizam o termo ‘barriga de aluguel’, que sugere comércio, mas sim adotou a nomenclatura de ‘barriga solidária’, pois a doação temporária do útero não poderá ter caráter lucrativo ou comercial”. DM – No país há a figura da barriga solidária. Qual o propósito? Martins – O CFM e a SBB não utilizam o termo ‘barriga de aluguel’, que sugere comércio, mas sim adotou a nomenclatura de ‘barriga solidária’, pois a doação temporária do útero não poderá ter caráter lucrativo ou comercial. O CFM prevê que as clínicas, centros ou serviços de reprodução humana podem usar técnicas para criar a situação identificada como gestação de substituição, desde que exista um problema médico que impeça ou contraindique a gestação na doadora genética ou em caso de união homoafetiva. As doadoras temporárias do útero devem pertencer à família de um dos parceiros num parentesco consanguíneo até o quarto grau (primeiro grau – mãe; segundo grau – irmã/avó; terceiro grau – tia; quarto grau – prima). Em todos os casos é preciso respeitar a idade limite de até 50 anos.

DM – Isso vale, então, para os casais homoafetivos? Martins – Considerando que o Pleno do Supremo Tribunal Federal (STF), na sessão de julgamento de 05 de maio de 2011, reconheceu e qualificou como entidade familiar a união estável homoafetiva, o CFM permitiu e normatizou aos médicos o uso das técnicas de reprodução assistida para relacionamentos homoafetivos e pessoas solteiras, respeitado o direito da objeção de consciência do médico. Em relação à clonagem, é importante ressaltar que a legislação brasileira não permite qualquer forma de clonagem em humanos, que também é proibida mundialmente.


Você se considera bom de cama? O argumento não pode ser utilizado para justificar aquela preguiça habitual, mas alguns de seus comportamentos que costumeiramente são tachados como acomodação podem estar associados a falta de uma noite de sono bem dormida. Se você acorda frequentemente cansado, irritado, desatento e apresenta queda no rendimento das atividades cotidianas, cuidado: a qualidade do tempo que você está dormindo deve estar comprometida.

Acordar frequentemente cansado, desatento, irritado e passar o dia com sonolência são indicativos de que a qualidade do seu sono pode estar comprometida. Dormir bem, afirmam os especialistas, é tão importante para a saúde quanto ter uma alimentação saudável e praticar exerícios regularmente

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Problemas do sono afetam cerca de 45% da população mundial Segundo o médico neurologista do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia (SNN), coordenador do Programa de Residência Médica em Neurologia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)/Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) e médico do Sono, com formação pela Associação Brasileira do Sono (ABS), Alan Christmann Fröhlic, os problemas do sono constituem uma epidemia que afeta cerca de 45% da população mundial. “Os distúrbios, incluindo a insônia, a síndrome das pernas inquietas, a privação do sono e disfunções respiratórias, como a apneia obstrutiva, por exemplo, resultam na perda de qualidade do descanso noturno, podendo levar a inúmeros problemas de saúde como hipertensão, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e diabetes”, afirma ele, reforçando que uma noite mal dormida tem reflexos diretos na falta de atenção, na redução da concentração e da produtividade no traba-

lho, além de diminuir o rendimento escolar e aumentar os riscos de acidentes de trânsito. Apesar de essencial para a saúde, o sono nem sempre foi valorizado como fator preponderante na qualidade de vida dos indivíduos. Com o avanço das pesquisas mostrando as implicações de uma noite mal dormida e a popularização da Medicina da Sono, cresceu o número de pessoas interessadas em descobrir os motivos pelos quais esta necessidade fisiológica não estava surtindo bons resultados. “O sono foi durante muitos anos deixado de lado, enquanto na sociedade a cultura de ‘deus ajuda, quem cede madruga’ sempre foi bem vista. Hoje, sabemos que o sono, em tempo e qualidade satisfatórios, é um dos pilares da saúde. Dormir bem é tão importante quanto ter uma dieta saudável ou fazer atividade física regular”, ressalta Fröhlic.

Conjunto de especialidades Conforme o neurologista, esta especialidade da medicina corresponde a uma área de atuação que trata das diversas doenças relacionadas ao sono, associada a outras especialidades médicas, como a neurologia, psiquiatria, pneumologia, otorrinolaringologia, clínica médica e pediatria. “As doenças do sono sempre existiram, mas, como especialidade médica, a Medicina do Sono é jovem. Isto certamente está ligado a diversos estudos que mostram os prejuízos na vida diária que uma noite mal dormida pode causar, tanto em adultos quanto nas crianças”, aponta o médico do Sono. Fröhlic relata ainda que os distúrbios do sono ocorrem em todas as idades e são mais comuns do que se imagina. “A apneia

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do sono, por exemplo, afeta aproximadamente 5% dos adultos e até 20% dos idosos. Infelizmente, esta doença tratável é pouco diagnosticada, implicando em graves complicações devido a sonolência diurna, como perda de produtividade e acidentes de trânsito”, diz ele, destacando que as consequências da privação de sono não terminam nestas dificuldades enfrentadas no dia a dia. O risco de quem dorme mal desenvolver doenças mais graves é maior quando comparado ao de pessoas que costumam ter noites regulares de sono. “Os distúrbios também estão associados a um maior risco de doenças cardiovasculares, como derrame cerebral, infarto cardíaco, diabetes e hipertensão”, alerta o médico.


O diagnóstico precoce é a maneira mais eficaz de iniciar o tratamento de qualquer distúrbio do sono. Conforme o médico neurologista do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia (SNN) e médico do sono, Alan Christmann Fröhlic, isso permite ao médico estabelecer a melhor maneira de trabalhar com a resolução do problema

Distúrbios mais comuns O médico neurologista revela que os diferentes distúrbios de sono podem ser agrupados em quatro principais: roncos, engasgos ou paradas respiratórias (apneias) durante o sono; sonolência, cansaço excessivo, dor de cabeça, irritabilidade, falta de concentração ou memória durante o dia; insônia, caracterizada pela dificuldade de iniciar ou manter o sono; e os movimentos ou comportamentos anormais durante o repouso, como falar, gritar, levantar, caminhar, mastigar ou ranger os dentes (bruxismo). A insônia, um dos distúrbios mais frequentes na população brasileira, precisa ter os seus sintomas principais – dificuldade para adormecer ou em manter o sono, acordar precocemente pela manhã e despertar com a sensação de que o sono não foi reparador ou teve má qualidade – associados

a consequências ou dificuldades de funcionamento durante o dia. É preciso, segundo o médico o profissional, estar atento a estes sintomas que afetam a qualidade do sono, porque é durante este período que vários hormônios que regulam o organismo, com funções vitais para a saúde, são liberados. Quem sofre de insônia, por exemplo, tem um risco maior de desenvolver ou agravar doenças cardiovasculares, como infarto ou derrame, além de experimentar transtornos cognitivos e de memória. “Crianças com insônia podem ter dificuldade de aprendizado e problemas de comportamento. Indivíduos que têm dificuldade para manter uma noite de sono, sem interrupções, também têm taxas maiores de hipertensão, diabetes, obesidade e outras doenças crônicas”, reitera.

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Mapeando sonhos Três fases que A partir da coleta de informações sobre a rotina e os hábitos diurnos e noturnos do indivíduo, o médico pode solicitar a realização de uma polissonografia. “Durante o exame, vários sensores e fios são colocados no corpo do paciente e conectados a um equipamento que permite, posteriormente, a análise dos parâmetros fisiológicos do sono, como as ondas cerebrais, a respiração, os batimentos cardíacos, a oxigenação e os movimentos corporais. Em alguns casos, o paciente pode também ser filmado durante o sono”, explica o médico neurologista do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia (SNN), Alan Christmann Fröhlic, acres-

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centando que o exame é totalmente seguro e não apresenta nenhum risco, uma vez que o objetivo é observar o sono habitual do paciente. “Este teste dura a noite toda e o paciente permanece acompanhado de um técnico em polissonografia”. Segundo ele, assim como em todas as áreas da medicina, na do Sono, os equipamentos de polissonografia têm evoluído constantemente, com mais tecnologias que permitem o refinamento no diagnóstico das doenças do sono. “Além disso, existem várias pesquisas sobre o sono nos campos da Genética, Radiologia e Imunologia, o que traz a possibilidade de novos métodos de diagnósticos”, avalia.

se alternam

a Sono leve (estágios 1 e 2): está presente em aproximadamente metade da noite. É um período entre a vigília e o sono profundo, quando podemos ter alguns abalos musculares (mioclonias) e ocorre a diminuição da frequência cardíaca, respiração e temperatura corporal. a Sono profundo (estágio 3): ocorre em 25% da noite. É o momento em que nosso cérebro está com atividade diminuída e é mais difícil despertarmos. O sono profundo é responsável pela restauração dos músculos, da massa óssea, dos órgãos e do sistema imunológico. A maior parte ocorre na primeira metade da noite. a Sono dos sonhos (estágio REM): ocorre em um quarto da noite, mais na segunda metade e perto do amanhecer. É o momento em que sonhamos. A atividade do cérebro é semelhante àquela quando estamos acordados, mas nossos músculos ficam completamente paralisados. É importante para nossas funções cognitivas, como a memória e o aprendizado.


Insones da madrugada, uni-vos (para voltar a dormir)! Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Homens e mulheres. Eles podem roncar, elas ter insônia. Em pequenas localidades interioranas ou em grandes metropóles, o percentual de indivíduos com distúrbios de sono tem aumentado consideravelmente. Dados do Instituto do Sono, ligado a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP), com sede em São Paulo, mostram que mais de 50% da população mundial apresenta pelo menos um transtorno do sono, uma vez que existem mais de 100 deles. Referência em pesquisa, diagnóstico e tratamento destes problemas, o Instituto do Sono foi fundado em 1992 com o objetivo de tornar-se pioneiro no país na investigação dos fatores que provocam estes distúrbios e quais os tratamentos mais eficazes para solucioná-los. A preocupação é totalmente justificável. Dormir bem é essencial para a qualidade de vida e a proteção do organismo. “Atualmente, muitos trabalhos mostram que dormir pouco, ou seja, menos do que seis horas de sono, pode ser fator de risco para muitas doenças, como cardiovasculares, endócrinas, obesidade, diabe-

tes e até mesmo mortalidade precoce”, explicou ao Diário da Manhã o neurologista e médico do Sono da Academia Brasileira de Neurologia, doutor em Ciência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e neurofisiologista Clínico pela Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica, Luciano Ribeiro Pinto Junior. Segundo ele, noites mal dormidas decorrem de duas causas principais: ou dormir pouco, menos do que se precisa; ou dormir mal, referente a uma qualidade do sono ruim, como ocorre em casos de apneia do sono. “Transtornos respiratórios do sono, incluindo a apneia do sono, as insônias, os distúrbios do ritmo circadiano e a sonolência excessiva diurna estão entre os principais problemas e cada um deles têm causas diferentes”, argumenta.

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Acesso ampliado ao SUS Fotos: Assessoria de Comunicação HUSM

Com o aumento dos estudos revelando os prejuízos que distúrbios do sono provocam na saúde das pessoas, cresceu também a necessidade de se ampliar o atendimento e estender os exames à rede pública. Recentemente, o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) tornou-se a primeira instituição pública federal a disponibilizar as polissonografias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no interior do Estado De acordo com a pneumologista do HUSM, exames de polissonografia são totalmente indolores

Além de passar pela anamnese com um médico do Sono, que coleta informações sobre a rotina do paciente buscando identificar padrões de comportamento, o diagnóstico dos distúrbios é feito a partir de um exame indolor, não invasivo e que não provoca nenhum efeito colateral. “A polissonografia é um registro de uma noite de sono realizada num laboratório específico, onde o indivíduo dorme ligado a sensores que vão registrar vários parâmetros do sono. Em geral, o exame é feito por um técnico habilitado, que fica acordado acompanhando todas as reações do paciente e assegura a boa qualidade do registro”, explica a pneumologista responsável pelo Laboratório do Sono da HUSM, Alessandra Bertolazi. Todas estas ferramentas de investigação tornaram a polissonografia o principal método para diagnosticar os distúrbios do sono. Mas, em função do custo, realizar

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o procedimento ainda é praticamente inacessível para a maioria dos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) para iniciar o tratamento – no Rio Grande do Sul, poucas instituições hospitalares fazem o exame pela rede pública ou mantém convênios com clínicas particulares para encaminhamentos, o que aumenta a fila de espera e prolonga o sofrimento das pessoas que enfrentam as consequências da privação do sono. Em Santa Maria, na região Central do Estado, esta realidade pode começar a ser alterada – e positivamente. De acordo com a pneumologista responsável pelo Laboratório do Sono do HUSM, a instituição será o primeiro hospital federal público no interior gaúcho a disponibilizar a polissonografia pelo SUS, atendendendo a uma demanda que, conforme Alessandra, é bastante expressiva. “Já tínhamos uma demanda reprimida

por não termos o exame disponível pelo SUS. A partir do início do funcionamento do Laboratório do Sono, temos atendido um grande número de pacientes de Santa Maria e região. Existe já uma demora na realização do exame e a previsão é que em breve tenhamos um segundo aparelho funcionando para que possamos dar mais agilidade no atendimento”, projeta. A oficialização de que o HUSM implantaria o equipamento se deu ainda em fevereiro deste ano, quando houve a adaptação do espaço físico para receber o material. Segundo a pneumologista responsável pelo Laboratório do Sono, os pacientes da rede pública que forem encaminhados para o HUSM irão passar por uma triagem para, então, se necessário, realizarem o procedimento. “Os exames são agendados após a consulta e o tratamento, em uma etapa posterior, é orientado de forma individualizada”, ressalta a profissional.


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Estamos dormindo menos do que há uma década Dormir bem é essencial não apenas para ficar acordado no dia seguinte, mas para manter-se saudável, melhorar a qualidade de vida e até aumentar a longevidade. Para a médica especialista em Medicina do Sono pela Academia Americana de Sono, médica do Instituto do Sono de São Paulo e doutora em Ciências Médicas pela Universidade Federal de São Paulo, Luciana Palombini, durante muito tempo esta foi uma área pouco reconhecida da medicina, embora as pesquisas sobre os distúrbios do sono e os seus efeitos no organismo tenham iniciado por volta da década de 60. “Distúrbios como a insônia e a apneia do sono, por exemplo, embora sejam bastante frequentes na população brasileira, não são diagnosticados e tratados adequadamente porque não fazem parte da clínica geral”, afirma ela, complementando que o índice de indivíduos que têm redução de produtividade e doenças que se agravam a partir destes distúrbios demanda uma atenção maior ao tema.

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A pesquisa sobre o comportamento e os padrões de sono de crianças e adolescentes, que vai coletar informações e dados pela internet até dezembro de 2015, é coordenada pela neuropediatra, professora da Faculdade de Medicina da universidade e coordenadora acadêmica do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer) – PUC-RS, Magda Lahorgue Nunes

Nana-neném Um estudo que integra a tese de doutorado da fisioterapeuta Geciely Almeida, no Programa de Pós-Graduação em Pediatria e Saúde da Criança da PUC-RS, quer identificar padrões, características e reflexos destes problemas em crianças e adolescentes, com idades que vão do primeiro mês de vida aos 19 anos de idade. A pesquisa, que vai coletar informações e dados pela internet até dezembro de 2015, é coordenada pela neuropediatra, professora da Faculdade de Medicina da universidade e coordenadora acadêmica do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer) – PUC-RS, Magda Lahorgue Nunes. Segundo Magda, a geração atual dorme menos do que a passada. “E isso tem sido registrado também entre as crianças e adolescentes, que estão em fase de desenvolvimento e têm o sono como uma das necessidades fisiológicas mais importantes para o crescimento saudável”, alerta a

coordenadora acadêmica do Instituto do Cérebro, um dos centros de pesquisas mais avançados no país. “O objetivo do estudo que estamos produzindo é identificar como é a qualidade do sono de uma forma geral, incluindo horários de dormir e acordar, horas de sono e diversas características como insônia, pesadelos, apneia e sonambulismo, entre outros”. Segundo Magda, a necessidade de sono vai se modificando ao longo da vida, sendo maior nos recém-nascidos. “Nos primeiros meses de vida onde o sistema nervoso central passa por importantes modificações e ocorre o maior pico de desenvolvimento, a necessidade de horas de sono é maior. Um recém-nascido, por exemplo, passa a maior parte do tempo dormindo”, ressalta ela, indicando que a prevalência de distúrbios de sono em crianças e adolescentes, a partir de estudos internacionais, varia entre 5 e 40%, dependendo da metodologia aplicada.


Transtornos de ansiedade afetam 25% da população mundial

Vivenciar sensações de medo, angústia, pavor ou receio diante de situações desconhecidas é uma reação natural do ser humano. Na história da evolução, foram estes instintos que ajudaram o homem a antecipar-se a ataques de animais ou a morte por frio extremo, entre outras situações. No entanto, quando esses sentimentos persistem por longos períodos de tempo, interferindo nas atividades do dia a dia, a ansiedade deixa de ser natural e passa a ser um distúrbio que merece atenção

Geralmente associada à antecipação de uma situação desconhecida ou que provoque receio, medo ou expectativa no indivíduo, a ansiedade é uma característica que faz parte da personalidade do ser humano, tendo sido, inclusive, importante para a sobrevivência dos nossos ancestrais diante de ameaças como a possibilidade de um ataque animal, por exemplo. Preocupar-se com eventos assim mantinha o corpo em estado de alerta. Esse esquema de reação ficou gravado no cérebro humano e até hoje entra em ação quando estamos diante de situações que o nosso sistema nervoso central interpreta como sendo de risco. O problema, explica a médica psiquiatra, Ph.D em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Terapeuta Cognitiva pelo Instituto Beck da Philadelphia, Daniela Zippin

Knijnik, é que se esse estado de atenção se torna crônico ou provoca crises espontâneas, como ataques de pânico ou fobias sociais, a reação deixa de ser natural e positiva. “Existe a ansiedade funcional, um estado necessário para a sobrevivência e evolução da espécie, na qual o corpo entra em estado de alerta diante de uma situação ameaçadora e se prepara para reagir. Precisamos de algum grau de ansiedade para pensar no presente e planejar nosso futuro. Por outro lado, existe a ansiedade disfuncional ou patológica, que gera sofrimento intenso, dificuldades na tomada de decisões, medo, apreensão e preocupações exacerbadas”, define. Segundo Daniela, a ansiedade pode se manifestar a partir de três esferas diferentes: a fisiológica, a cognitiva e a comportamental, cada uma delas com reflexos dis-

tintos na maneira como o indivíduo reage às situações a que está exposto. “Na fisiológica, o corpo reage fisicamente. Sentimos taquicardia, falta de ar, sensação de sufocamento, brancos na mente, voz embargada e rubor facial são os sinais mais comuns. Na esfera cognitiva, desenvolvemos linhas de pensamento catastróficas ou premonitórias, como se fosse possível prever o futuro. O pensamento se torna disfuncional”, relata a psiquiatra, acrescentando que a terceira esfera, a comportamental, se caracteriza pela tentativa de evitar determinadas situações geradoras de medo ou ansiedade. “O indivíduo evita ir ao mercado onde teve o seu primeiro ataque de pânico, recusa convites de colegas de aula por medo de ser julgado negativamente ou perder sua capacidade de agir diante de determinada situação”.

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Mais comum do que se imagina Neste momento, relata a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada quatro pessoas no mundo pode estar com uma sensação de aperto no peito, sentindo o coração bater mais rápido e com as mãos suando, além de um medo inexplicável ou preocupação obsessiva com algo que ainda nem aconteceu. Esses são alguns dos sintomas das crises de ansiedade, um dos transtornos mentais mais incidentes da atualidade e, assim como os demais, bastante difícil para quem o enfrenta. Dependendo do grau, estes pensamentos tiram o sono do indivíduo, deixam-o mais predisposto a sofrer de enfermidades cardiovasculares e o privam de sair de casa quando o medo atinge níveis incontroláveis. “De acordo com a OMS, a prevalência dos transtornos de ansiedade na população é de 25%, sendo que o de fobia social é o mais prevalente, acometendo cerca de 10% da população ao longo da vida”, aponta a terapeuta cognitiva, relatando que o diagnóstico destes distúrbios é meramente clínico e que fatores externos também devem ser levados em consideração. “Condições como hipertireoidismo e a interação de medicamentos broncodilatadores e corticoides, em pacientes asmáticos; e o uso de substâncias psicoativas e o consumo exagerado de cafeína e estimulantes, como os energéticos, também precisam ser observados”.

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“De acordo com a OMS, a prevalência dos transtornos de ansiedade na população é de 25%, sendo que o de fobia social é o mais prevalente, acometendo cerca de 10% da população ao longo da vida”, aponta a Ph.D em Psiquiatria pela UFRGS, Daniela Zippin Knijnik

Um transtorno paralisante Há diferenças entre ficar ansioso diante de uma situação que representa ameaça real e ter esse sentimento como um traço patológico na personalidade. Pessoas com ansiedade generalizada costumam avaliar as situações cotidianas a partir de uma visão ameaçadora, interpretando as informações que recebem através de um estímulo que as permita reagir defensivamente sempre que se sentirem, ainda que equivocadamente, acuadas. Por isso, pontua a Ph.D em Psiquiatria pela UFRGS, os sintomas podem variar de paciente para paciente. “Os sintomas podem ser perceptíveis,

especialmente nos casos de ataques de ansiedade (ataques de pânico). No entanto, alguns pacientes não referem sintomas fisiológicos, apenas alterações cognitivas e/ou comportamentais”, afirma Daniela, citando como exemplo um portador de ansiedade social que, ao ser convidado para dar uma palestra, enfrenta a situação social com bastante desconforto. “O sintoma cognitivo o faz ter pensamentos negativos: todos perceberão que não domino o tema, que sou um fracasso. Isso o leva a falar rapidamente e sem olhar no olho da plateia, denotando um sintoma comportamental”.


Se a tristeza persistir, o médico deverá ser consultado Você pode estar deprimido e não saber. E isso não é nenhum pouco incomum. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que até 2030, a depressão vai se tornar a doença mais comum a afetar a população mundial. Atualmente, de acordo com a OMS, o problema atinge cerca de 350 milhões de pessoas mundialmente, sendo a principal causa de incapacidade em todos os países. No Brasil, o Ministério da Saúde aponta que, aproximadamente, 35 milhões de brasileiros sofrem do distúrbio que, gradativamente, vem perdendo o estigma e o preconceito para configurar-se como uma questão de saúde pública. “Depressão é a tristeza que não tem fim, é insidiosa, por vezes difícil de identificar. As pessoas, muitas vezes, não percebem que estão doentes”, conceitua a psicóloga, psicoterapeuta, especialista em Psicologia Clínica e Mestre em Ciências Sociais, Sonia Sebenelo. Para ela, que está à frente da presidência da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, a depressão pode ser caracterizada como um sintoma social contemporâneo, que precisa ser entendida a partir de uma ótica que considere o período vivido pela

sociedade. “A subjetividade contemporânea é, hoje, caracterizada pelo hedonismo, pelo imperativo do gozo que se associa ao dever de ser feliz. O sujeito atual nega a dor, seja na relação que mantém com o próprio sofrimento ou naquela que interage com o sofrimento do outro”, observa. A psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF) e Preceptora da Residência e Psiquiatria no Hospital da Cidade (HC), Bruna Chaves Lopes, reforça o entendimento de que a depressão tende a se tornar a doença mais comum na população também por questões associadas as características atuais da sociedade. “Estamos vivendo um momento de maiores exigências e menos tempo. A cobrança individual e coletiva da sociedade nos coloca em uma situação de busca constante de mais e melhor. As frustrações são inerentes a esse processo, porém não parece que somos preparados para elas. As doenças comportamentais tendem a refletir essa situação”, reflete ela, comentando que é necessário se levar em consideração que os métodos de diagnósticos e o acesso a saúde também contribuíram para um

Sentir-se triste é uma reação natural do ser humano diante de situações em que a frustração da perda supera a expectativa da vitória. Mas, a medida em que esse sentimento começa a ser acompanhado por uma desmotivação constante, perda de interesse em atividades que antes lhe eram prazerosas e se o seu cotidiano vai deixando de fazer sentido, não espere para procurar ajuda profissional

Presidente da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, Sonia Sebenelo

aumento na prevalência dessa doença. “A depressão é uma patologia que tem sua definição a poucas décadas, contudo sem essa denominação ela já existia e afligia milhares de pessoas”.

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Mas eu tinha tanto prazer nestas atividades... O médico do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e integrante da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), Marcelo Basso de Sousa, defende que a depressão precisa ser tratada a partir de uma visão patológica e não como um estado emocional passageiro caracterizado por tristeza. “O paciente deprimido apresenta sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no seu funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da sua vida. Para alguns indivíduos com episódios leves, o funcionamento pode parecer normal, mas exige um esforço acentuadamente aumentado”, avalia ele, acrescentando que um dos sintomas que costuma estar sempre presente é a perda de interesse ou prazer em atividades que eram agradáveis. “Em algumas pessoas, há uma redução significativa nos níveis anteriores de desejo sexual. Também podem ocorrer queixas de dores ou mazelas corporais em vez de sentimentos de tristeza”. Sousa aponta ainda que o transtorno depressivo está entre as doenças que mais incapacitam no mundo, segundo a OMS. Aproximadamente 10 a 25% das mulheres e 5 a 12% dos homens apresentarão o

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transtorno em algum momento da sua vida. Além disso, pode chegar a 15% o percentual dos indivíduos com transtorno depressivo grave que cometem suicídio. “Em algumas situações, o número de indivíduos afetados pode ser significativamente maior. Até 20 a 25% das pessoas que enfrentam tratamentos de diabetes, infarto do miocárdio, carcinomas ou acidente vascular encefálico, por exemplo, desenvolvem o transtorno depressivo”, relata o psiquiatra, indicando que “esta é uma questão importante, pois o tratamento é mais complexo, e o prognóstico menos favorável quando também existe a depressão”. De acordo com ele, a causa do transtorno costuma ser atribuída a uma interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. “O transtorno depressivo é de 1,5 a três vezes mais comum entre parentes de primeiro grau de pessoas com este transtorno do que na população geral”, pontua Sousa, observando que os primeiros episódios depressivos frequentemente se seguem a um estressor psicossocial severo, como a morte de um ente querido ou divórcio. “Também o uso de substâncias como álcool ou cocaína pode ocasionar e agravar sintomas depressivos”.

“O transtorno depressivo é de 1,5 a três vezes mais comum entre parentes de primeiro grau de pessoas com este transtorno do que na população geral”, indica o psiquiatra do Serviço de Psiquiatria do HCPA, Marcelo Basso de Sousa

Uma doença ainda estigmatizada Depressão não é tristeza. É uma doença que precisa de diagnóstico, tratamento, acompanhamento médico e apoio familiar para ser superada. Quando o problema se instala, se não for tratado corretamente, costuma levar vários meses ou anos para desaparecer – além de ter grandes chances de retornar. Segundo o psiquiatra do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Marcelo Basso de Sousa, quem já teve um episódio na vida, apresenta cerca de 50% de possibilidades de manifestar outro; quem teve dois, 70% e, no caso de três quadros bem caracterizados, esse número pode chegar a 90%.


Tristeza, por favor vá embora... Quando Vinicius de Moraes e Toquinho entoaram o verso de uma canção que contava a história de uma desilusão amorosa, talvez não pudessem conceber que a vontade manifestada sobre uma dor de amor pudesse traduzir o que desejam os pacientes que enfrentam diariamente os sintomas e os efeitos da depressão. Para Bruna, é preciso que, primeiro, se entenda a diferença entre a tristeza saudável e necessária para o desenvolvimento emocional do indivíduo daquela que tem caráter patológico. “O termo depressão tem sido empregado para designar tanto um estado afetivo normal como a tristeza, quanto um sintoma, uma síndrome e uma (ou várias) doença(s)”, explica a psiquiatra, frisando que sentimentos de tristeza e alegria fazem parte do mundo afetivo da vida psíquica normal. A professora da Faculdade de Medicina da UPF conceitua que a tristeza constitui-se na resposta humana universal às situações de perda, derrota, desapontamento e outras adversidades. “É a partir do diálogo com um

profissional – a conversa ainda é a melhor ferramenta de diagnóstico para esta doença – é que se torna possível identificar, junto com o paciente, se o que está se passando com ele é uma situação de adaptação ou uma patologia que necessite de uma intervenção. “O nosso instrumento de trabalho é a palavra, portanto dependemos do relato do paciente e dos familiares. Muitas vezes, o paciente está muito doente a ponto de comprometer sua capacidade de comunicação e até de buscar ajuda para o problema. Esses fatores associados a desesperança e falta de iniciativa dificultam a condução do tratamento”, pontua Bruna.

Foto: Gelsoli Casagrande

Para Bruna, é preciso que, primeiro, se entenda a diferença entre a tristeza saudável e necessária para o desenvolvimento emocional do indivíduo daquela que tem caráter patológico

“Em uma viagem que fiz, me dei conta que numa livraria haviam expostos muitos livros que ensinavam como ser uma mulher de sucesso, como conquistar um bom emprego, como ser magra, etc. Parece que existe manual para tudo e que problemas complexos tem soluções em 50 páginas. Quando, então, nos deparamos com uma dificuldade emocional que não tem bula, o adoecimento é a via de escape”, comenta a psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da UPF, Bruna Chaves Lopes

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Cérebro adicto: As drogas acionam o sistema de recompensa no cérebro, gerando uma satisfação praticamente imediata ao usuário. O problema é que esta sensação de prazer, afirmam os especialistas em dependência química, é efêmera. Para mantê-la o indivíduo terá que dar preferência ao consumo destas substâncias, mesmo que isso atrapalhe outros setores de sua vida

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Quando o prazer provoca dependência Prazer e recompensa são dois instintos tão primitivos e importantes na sobrevivência do homem que a evolução os manteve praticamente inalterados. Comer, dá prazer. Fazer sexo, também. Experimentar uma sensação gratificante é bastante prazeroso. Toda vez que o nosso cérebro é submetido a estímulos agradáveis e transmite essa sensação para o corpo todo, o sistema de recompensa interno é acionado e o organismo passa a priorizar a necessidade de recebê-los com mais frequência e maior intensidade. E é justamente por alimentar esta

cadeia no cérebro que as drogas provocam tantos prejuízos, explica a especialista em Dependência Química e em Psicoterapia e coordenadora do Departamento de Dependência Química da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), Fernanda de Paula Ramos. “O mecanismo de ação de cada droga no cérebro é diferente e envolve circuitos neuronais bastante complexos. O que há de similar é que parece que elas ativam um sistema de recompensa cerebral. Quando ativado, temos a liberação de neurotransmissores que nos propiciam a sensação de prazer que o usuário almeja”,

pontua ela. Segundo Fernanda, a interferência das drogas neste mecanismo produz uma espécie de curto circuito cerebral, provocando uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir o seu uso compulsivamente. “Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário”, reflete a psiquiatra, esclarecendo que a dependência química é um Transtorno Mental especificada pelos manuais médicos DSM V e CID 10.

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Uma questão de saúde pública Fernanda afirma ainda que a doença é um grave problema de saúde e não uma questão moral ou de falta de caráter. “O dependente tem um padrão de consumo de droga compulsivo, apesar dos problemas que isso acarreta na sua vida. Este indivíduo tem uma doença que afeta o cérebro e gera esse comportamento, precisando de tratamento”, defende a psiquiatra, revelando que as drogas geram repercussões sociais, financeiras e de saúde significativas. “O álcool, por exemplo, é responsável por cerca de 70% das mortes violentas e até 60% dos acidentes de trânsito. O tabaco é uma das maiores causas de morte no mundo, gerando diversos gastos para a saúde pública”. No mundo todo, relata ela, o álcool e o tabaco são as drogas mais consumidas. “No Brasil, aproxima-

damente 16% da população tem um padrão nocivo de ingestão de bebidas alcoólicas e 17% são tabagistas. Álcool e tabaco estão entre os 10 maiores fatores de morbi-mortalidade no mundo”, apresenta a representante da APRS, que também é diretora Clínica de um centro de reabilitação para adictos no Estado, esclarecendo que a literatura médica convencionou denominar de Transtornos Adicitivos todos os problemas que se manifestam com um padrão compulsivo apesar dos danos causados na vida do indivíduo. “Assim, existem pessoas com transtornos alimentares (comem compulsivamente ou deixam de comer por uma preocupação exagerada de engordar), problemas com jogos, compras ou sexo compulsivos e dependência de internet”.

“A maioria das drogas é mais consumida por homens do que por mulheres. No entanto, esse padrão vem mudando nos últimos anos e as meninas vêm aumentando o uso de álcool e de tabaco”, destaca a coordenadora do Dpto. de Dependência Química da Associação de Psiquiatria do RS

Entre estigmas psicossociais A dependência química também tem alterado o perfil dos indivíduos que buscam tratamento no Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP), em Porto Alegre, uma das mais antigas instituições no país a tratar pacientes com distúrbios e transtornos mentais. O atual diretor técnico do Hospital, Gilberto Brofman, ao fazer um apanhado histórico das questões relacionadas à saúde mental no país, afirma que ainda há uma grande prevalência na sociedade do número de casos de doenças psiquiátricas clássicas, como a esquizofrenia e a depressão crônica, por exemplo. Mas, pontua ele, os medicamentos psicotrópicos que passaram a ser ministrados a partir dos

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anos 1960, com maior profusão na década seguinte, aliada a Reforma Psiquiátrica e a Lei Antimanicomial, alteraram os protocolos clínicos e estabeleceram novos padrões de tratamento. “Os antipsicóticos melhoraram os serviços oferecidos aos doentes mentais, porque tornaram possível controlar os sintomas e amenizar os surtos de violência e agressividade que impediam a convivência social destes indivíduos”, avalia o diretor Técnico do HPSP. Com esse avanço na farmacologia, o Hospital, gradativamente, foi reduzindo o número de pessoas institucionalizadas para tratamento. Segundo Brofman, de um total de cinco mil

pessoas que chegaram a residir na instituição, pouco mais de 160 ainda permanecem internadas. “Esse número atual tende a reduzir, porque nossas internações respeitam novas orientações clínicas, com tempo de permanência de 21 dias, em média”, ressalta, ponderando que os pacientes que estão hospitalizados no São Pedro “vão terminar seus dias conosco, pois são, em sua maioria, indivíduos idosos, muitos com problemas de demência, outros que perderam totalmente o contato com os familiares e ainda há os que enfrentam transtornos mentais graves e que não têm condições de serem acompanhados em ambiente externo”.


Mais peso, menos saúde O combate às gordurinhas extras que vão se acumulando na região da cintura não tem apenas cárater estético. Aliás, quando o assunto é obesidade, a aparência do indivíduo é uma preocupação secundária para os médicos. O desenvolvimento de doenças crônicas e as altas taxas de mortalidade decorrentes do excesso de peso transformaram o problema em uma pandemia com reflexos globais na saúde pública Por que as pessoas estão engordando tanto no Brasil e no restante do mundo? De onde vem essa necessidade desenfreada pela ingestão de açúcares e gorduras trans? Perder peso é tão mais difícil do que adquiri-lo? Estas e outras tantas perguntas relacionadas a obesidade têm levado pesquisadores em todos os países a debruçarem-se detalhadamente em questões envolvendo áreas como a do metabolismo humano, fatores genéticos e aspectos culturais e econômicos para que possam obter avanços no controle e no combate a um problema que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já definiu como o principal desafio em saúde pública a ser enfrentado pelos países.

Refrigerante: um dos ‘vilões’ da atualidade

Obesidade tornou-se pandemia

Considerada um fenômeno global, a obesidade tornou-se uma pandemia, afirma o membro da Câmara Temática de Endocrinologia do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) e endocrinologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Rogério Friedman. E a reversão deste conceito perverso atribuído ao problema está longe de ocorrer. “Os fatores por trás desta pandemia vão além daqueles que consideram a comida industrializada como o principal vilão. Há muitas mudanças culturais em curso, com as populações se tornando mais sedentárias, abandonando formas tradicionais de alimentação e ingerindo cada vez mais alimentos calóricos, entre eles, os industrializados, lanches e guloseimas, mas não só estes”, pontua. Segundo ele, onde há aumento na frequência da obesidade entre a população, cresce, consequentemente, a incidência de doenças crônicas responsáveis pela elevação da mor-

bidade e da mortalidade associadas ao excesso de peso. “E esse quadro tende a se agravar em função dos índices que mostram como a obesidade tem afetado crianças e adolescentes. Uma mudança comportamental e cultural é a primeira ação que deve ser pensada para que possamos começar a mudar este cenário”, reflete Friedman, revelando que em alguns países, 1/3 das crianças já são obesas. “No Brasil, o excesso de peso já afeta em torno de 20% das crianças e adolescentes”. “Os fatores por trás desta pandemia vão além daqueles que consideram a comida industrializada como o principal vilão. Há muitas mudanças culturais em curso, com as populações se tornando mais sedentárias, abandonando formas tradicionais de alimentação e ingerindo cada vez mais alimentos calóricos”, pontua o endrocrinologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e membro da Câmara Temática de Endrocrinologia do Conselho Regional de Medicina do RS, Rogério Friedman.

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Praticidade nada saudável

Praticamente não há mais espaço na agenda dos brasileiros para sentar-se à mesa e apreciar uma refeição equilibrada e saudável. A rotina cotidiana tem se consumido entre as horas de trabalho, estudo e o tempo que se leva no deslocamento de um local para o outro. O problema do trânsito, que até pouco tempo atrás afetava apenas os moradores das metrópoles, migrou também para as cidades de médio porte, o que reduziu ainda mais a possibilidade de se manter hábitos que sustentavam uma vida alimentar balanceada. E se não há condições de as refeições serem realizadas em casa, tampouco se tem a preocupação de levar para a rua a tradição de ingerir alimentos benéficos para a saúde. Alimentar-se bem se tornou uma atividade relegada a um segundo plano. Como efeito, acompanhando uma tendência mundial, os brasileiros estão experimentando uma epidemia dificil de ser digerida: a da obesidade. Para o coordenador de Especialidades Cirúrgicas do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Artur Seabra, enquanto os índices de mortalidade por desnutrição entraram em declínio em quase todos os países na última década, os números da obesidade não param de subir. A praticidade do comer rápido logo se transformou em dano.

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“Os alimentos industrializados, principalmente o hábito da alimentação baseada no chamado fast food sob a alegação de sua praticidade no dia-a-dia, é um dos fatores importantes para o aumento da população que se enquadra nos critérios de sobrepeso e obesidade. A repercussão deste hábito alimentar inadequado se torna ainda mais expressiva quando se associa ao sedentarismo”, defende ele. Seabra relata que há uma série de estudos e protocolos estabelecendo relações diretas entre o crescimento do número de mortes por doenças relacionadas à obesidade. “Além das mais conhecidas, como diabetes e hipertensão, outras enfermidades importantes também estão diretamente relacionadas, como, por exemplo, diversos tipos de câncer (principalmente de mama), alterações da fertilidade, apneia do sono e distúrbios urinários”, cita o coordenador de Especialidades Cirúrgicas do Moinhos de Vento, complementando que o aumento populacional também é um dos fatores que contribui para que a incidência da obesidade seja cada vez maior. “Além do crescimento absoluto da incidência de doenças relacionadas à obesidade, proporcional ao aumento da população, parece estar havendo um incremento adicional a estes números e diversos fatores tem sido estudados”.

O aumento do consumo de alimentos industrializados e a falta de uma rotina adequada de refeições tem elevado os índices de obesidade no país. O custo com problemas de saúde decorrentes do sobrepeso já atinge cerca de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, de acordo com dados do Ministério da Saúde

Para o coordenador de Especialidades Cirúrgicas do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Artur Seabra, enquanto os índices de mortalidade por desnutrição entraram em declínio em quase todos os países na última década, os números da obesidade não param de subir


Crescimento de 200% entre crianças e adolescentes Não são apenas os adultos que enfrentam os problemas oriundos da má alimentação. Se nas mulheres os fatores hormonais contribuem para que a obesidade seja mais prejudicial para a saúde delas, nas crianças e jovens é o período de formação corporal e de personalidade que acarretam tantos prejuízos. De acordo com Seabra, estatísticas oficiais tem demonstrado um expressivo crescimento nos percentuais de sobrepeso e obesidade nas faixas etárias de cinco a nove anos e de 10 a 19 anos, comparados com percentuais de décadas passadas. “Em alguns casos, ocorreu aumento de até 200% nestes dados”, mostra ele.

Um estudo divulgado em maio deste ano pelo Ministério da Saúde mostrou que a população brasileira é a terceira com os maiores índices de excesso de peso entre os países do Brics – grupo que compreende os países emergentes –, com um percentual de 52,5%, atrás apenas da África do Sul (65,4%) e da Rússia (59,8%). Os indicadores foram extraídos da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas e apontam ainda que o sobrepeso atinge 38% dos jovens com idade entre 18 a 24 anos. A proporção de pessoas com mais de 18 anos com obesidade, no entanto, é um dado preocupante apontado pela pesquisa - chega a 17,9%, embora tenha se mantido

estável nos últimos anos. A realidade negativa dos números tem obrigado os governos, inclusive o brasileiro, a promoverem ações de combate e controle da doença. “A questão, contudo, é que muitas políticas existem, mas as suas aplicações ficam muito no campo teórico, como o acesso à educação e saúde, por exemplo”, pontua Seabra. Apesar desse acesso considerado deficitário, dados do Ministério da Saúde citam ainda que o custo com o tratamento de doenças relacionadas à obesidade já consome cerca de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país – o que equivale a aproximadamente R$ 110 bilhões.

Quando a cirurgia é a solução A obesidade e seus fatores de risco para a mortalidade encontram na cirurgia bariátrica a última opção de tratamento. Segundo o coordenador de Especialidades Cirúrgicas do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Artur Seabra, esta nunca é a primeira solução para o problema. “Na realidade, podemos considerá-la como a última opção, visto que em todos os protocolos científicos a opção pela cirurgia só poderá ocorrer se as demais alternativas terapêuticas, com abordagem clínica e comportamental, tiverem sido aplicadas e não tiverem obtido o resultado esperado”, afirma ele, ressaltando que mesmo com toda a estrutura de apoio, em equipe multidisciplinar, se não houver a plena adesão do paciente a um novo modelo de vida, em todos os seus aspectos, as chances de sucesso diminuem consideravelmente. Parte de um programa de emagrecimento, as cirurgias são garantidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS),

mas dependem de uma série de avaliações multidisciplinares, sobretudo quando o paciente é jovem. Seabra comenta que, atualmente, dois procedimentos são os mais utilizados no mundo. Um deles, o Bypass Gástrico, conhecida por cirurgia de Capella, ou Fobi-Capella, reduz a capacidade volumétrica do estômago e faz, complementarmente, um desvio no trajeto do alimentos, modificando, também a absorção dos alimentos ingeridos. “Nesta técnica, o estômago é ‘dividido em dois’,

sem ocorrer a retirada de uma das suas partes. Esta ainda é a cirurgia mais realizada no mundo todo”, define o coordenador de Especialidades Cirúrgicas, explicando que o outro procedimento que é muito realizado é a Gastrectomia Vertical (ou Sleeve). “Esta técnica realiza a redução da capacidade do estômago, sem modificar a absorção, retirando a porção excluída do estômago. Ambas tem ótimos resultados e a escolha por uma delas está relacionada a fatores de cada paciente”.

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“A obesidade já é considerada uma pandemia” Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de indivíduos no mundo sofrem de sobrepeso, dos quais 670 milhões enfrentam o pesadelo da obesidade. O número total já representa em torno de 30% da população mundial e, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), deve atingir metade dos habitantes do planeta em 2030. Vinculado ao Hospital São Lucas da PUC-RS, o Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica (COM/HSL/PUCRS) tornou-se referência no sul do país para a identificação e o tratamento dos distúrbios do peso e na realização de cirurgias bariátricas. Desde 1999, de acordo com o cirurgião e diretor da instituição, Cláudio Corá Mottin, milhares de pessoas passaram pelo acompanhamento multidisciplinar oferecido no complexo do Centro, obtendo resultados satisfatórios na diminuição do peso e redução da morbidade e mortalidade provocadas pelas doenças associadas à obesidade. “O combate a esta doença poderia evitar muitos problemas sociais e econômicos, mas o tratamento envolve pessoas, famílias, hospitais e, consequentemente, o governo”, afirmou Mottin ao Diário da Manhã, nesta entrevista exclusiva. Acompanhe.

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“Vencer a obesidade é resultado de mudanças em hábitos alimentares e também na prática de exercícios, que resultam não apenas em alterações estéticas, mas em saúde. Ingerir mais calorias do que necessita e não gastá-las é a fórmula que pode levar à obesidade”, enfatiza o cirurgião e diretor do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas da PUC-RS


Diário da Manhã – Pela primeira vez na história da humanidade nós temos mais pessoas obesas do que desnutridas. Que fatores podem explicar esse crescimento ? Cláudio Corá Mottin – A mortalidade por desnutrição caiu no mundo inteiro e, de fato, aumentaram consideravelmente as consequências atribuídas ao excesso de peso na população. Mas, não é só isto. Hoje, a obesidade é um dos grandes problemas de saúde pública mundial, em países desenvolvidos e emergentes, além do fato de que o acúmulo de gordura corporal é o principal fator de risco para doenças como as cardiovasculares e o diabetes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só na Europa morrem todos os anos cerca de 250 mil pessoas em decorrência dos maus hábitos alimentares. No Brasil, 20% da população está obesa grau I, o que representa ao menos 40 milhões de brasileiros. DM – O conceito de obesidade também sofreu alterações ao longo dos anos ou os níveis ainda são determinados pelo Índice de Massa Corporal (IMC)? Mottin – Atualmente, o moderno conceito de obesidade, definido em 2013, inclui parâmetros mais precisos do que a medição do Índice de Massa Corporal (IMC), pois calcula especificamente o porcentual de gordura no corpo, numa importante mudança de paradigma. Em indivíduos sadios este indicador varia de 10 a 20% em homens e de 18 a 28% nas mulheres. DM – Essa influência genética pode ocorrer ainda durante a gravidez? Mottin – Hoje já sabemos que o peso da mãe pode definir o futuro da criança. Engordar muito durante a gestação favorece o desenvolvimento de tecido adiposo e de gordura no primeiro ano de vida da criança. É ruim quando a mãe engravida muito acima do peso, mas quando ela engorda excessivamente durante a gestação também podemos ter complicações, pois há sinalizações que fazem com que o hipotálamo do bebê ordene: armazene energia. E isso significa estocar gordura.

pode transformar parte dessa glicose em gordura. Outros hormônios, como a grelina, leptina e irisina, começam a ter seu papel desvendado, mas ainda é cedo para afirmar sua relação direta com o problema. Uma pessoa obesa pode produzir mais ou menos um hormônio, mas não se pode dizer com certeza se isso é uma causa ou um efeito da obesidade. DM – Como resposta aos tratamentos terapêuticos que não surtem efeito no emagrecimento, há as cirurgias. Mas, como todo processo, são inúmeros os riscos envolvidos. Mottin – Via de regra, a recomendação para a cirurgia é que o paciente esteja com obesidade severa, ou ainda com doenças associadas como a hipertensão e o diabetes melito entre outras. A obesidade ainda influi na incidência de refluxo gastro-esofágico, apnéia do sono, infertilidade, além de cânceres do aparelho digestivo, mama e próstata, entre outros. A indicação cirúrgica é o último passo para o tratamento do obeso. DM – A medicina evoluiu em métodos cirúrgicos, mas a redução do estômago ainda é o procedimento mais realizado? Mottin – O método mais comum no Brasil é o bypass gástrico, que consiste na diminuição do tamanho do estômago, inicialmente com capacidade de 1,5 a 2,5 litros para 30/50 ml e se faz um desvio do intestino de, em média, dois metros no total. A parte excluída do estômago continua dentro da cavidade abdominal do paciente produzindo suco digestivo, porém sem passagem para comida. Em princípio, as cirurgias são pelo método laparoscópico, porém podem ser feitas também por método aberto. Outras técnicas utilizadas para emagrecimento são a gastrectomia em manga (Sleeve), banda gástrica, o balão intra-gástrico realizado por endoscopia e as derivações bileopancreáticas.

DM – Os hormônios também contribuem para a obesidade? Mottin – A ciência tem avançado no entendimento do problema desde que foi descoberta a ligação dos hormônios da glândula tireoide e da insulina com a regulação da velocidade do metabolismo e do acúmulo de gordura no corpo, respectivamente. É importante destacar que a obesidade ocorre por vários fatores. Um hormônio que está comprovadamente ligado à obesidade é a insulina. Ele é responsável por estocar glicose dentro das células e, em excesso,

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Diabetes: 952 milhões de portadores em 2035 O Diabetes Mellitus (DM) é um dos principais problemas atuais de saúde pública e atinge, hoje, cerca de 382 milhões de pessoas em todo o mundo, afetando cerca de 5,9% da população adulta mundial e sendo responsável por 3,8 milhões de mortes no mundo. A OMS calcula que a doença será a 7ª principal causa de morte em 2030. A Internacional Diabets Federational (IDF) fechou 2014 apresentando um dado alarmante sobre o diabetes. Até 2035, a Federação estima que 952 milhões de pessoas sejam portadoras de diabetes em escala mundial se medidas preventivas não forem tomadas. No Rio Grande do Sul atualmente, os pacientes chegam a 500 mil pessoas. O alto índice não é exclusividade do Estado, e se repete no restante do país. Segundo o Ministério da Saúde, na mais recente Pesquisa Nacional de Saúde feita em 2013 mostra que o diabetes atinge 9 milhões de brasileiros – o que corresponde a 6,2% da população adulta. As mulheres (7%) apresentaram maior proporção da doença do que os homens (5,4%) – 5,4 milhões de mulheres contra 3,6 milhões de homens. A previsão é de que este número aumentará de 25 a 50 % no decorrer dos próximos anos devido, entre outras causas, à longevidade progressiva da população. Segundo o diretor técnico da Clínica de Endocrinologia do Mãe de Deus Center de Porto Alegre, Balduino Tschiedel, o mundo todo registra o aumento da prevalência da doença. “Tudo indica que nós estejamos em uma curva ascendente, e não vejo como mudar isto no curto e médio prazo. Se você olhar as projeções para o mundo, elas são cada vez mais alarmantes. A curva de crescimento do diabetes é sempre maior que a curva de natalidade”, alerta. Existem diferentes formas de diabetes, sendo as mais conhecidas o diabetes mellitus tipo 1 (DM1, antigamente conhecido como diabetes mellitus insulino-dependente ou de início juvenil) e tipo 2 (DM2, também conhecido como diabetes mellitus não insulino-dependente ou de início adulto).

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Em 20 anos, quase dois bilhões de pessoas devem ser portadores de diabetes, segundo a Federação Internacional de Diabetes. Hoje já é possível assistir um aumento significante de pacientes portadores de diabetes tipo 2 relacionado com a obesidade, e que vem atingindo pessoas cada vez mais jovens

“Tudo indica que nós estejamos em uma curva ascendente, e não vejo como mudar isto no curto e médio prazo. “ diretor técnico da Clínica de Endocrinologia do Mãe de Deus Center de Porto Alegre, Balduino Tschiedel.

Responsabilidade compartilhada Da mesma forma que no inicio da década de 90 a população brasileira assistiu a uma maciça campanha de prevenção a AIDS, na imprensa, em ações ligadas a religiões e ao governo, Tschiedel acredita que só uma grande campanha que engaje vários atores sociais pode ser capaz de reverter o aumento dos casos de diabetes relacionados com o estilo de vida. “Eu acho que a sociedade organizada deve se mobilizar. Primeiro o governo tem que atuar dando condições para que as pessoas se movimentem mais nas ruas, e aí tem que ter segurança também. Depois, tem que promover campanhas maciças de encorajamento de atividade física.”.


Cada vez mais jovens O aumento da incidência de diabetes tipo 2 em crianças está diretamente relacionada com a obesidade.

Ao mesmo tempo em que cresce o número de portadores adultos do diabetes tipo II em escala global, cada vez mais crianças e adolescentes apresentam o diagnóstico da doença, que está diretamente relacionado com o estilo de vida. No Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul, há um número crescente de pacientes jovens com idades entre 14 e 15 anos. Hoje os pacientes portadores do diabetes tipo II são tratados no Instituto representam cerca de 4% dos atendimentos. O aumento da incidência do Diabetes tipo 2, tanto em adultos e principalmente nos mais jovens, encontra resposta na mudança do estilo de vida dos pacientes. “O diabético tipo 2 nesta idade, é classicamente o perfil dos personagens do documentário Muito Além do Peso, mas de forma exacerbada, porque além da obesidade já apareceu o diabetes”, exemplifica.

Os primeiros sinais e o diagnóstico precoce Se no começo a doença é silenciosa para o leigo, para o médico ela dá sinais. Entre os principais sintomas está a necessidade de passar a urinar durante a noite, fungos nos genitais ou fungos nas unhas, cansaço, coceira pelo corpo. “Isso tudo faz pensar que o quadro metabólico está se deteriorando, e faz supor senão o aparecimento do diabetes já do pré-diabetes”. O estágio do pré- diabetes - que tem uma área de latência que entre o normal e a doença, é apontado pelo Dr. Bauduino Tschiedel como o momento ideal para o paciente ser diagnosticado. No pré-diabetes, com mudança do estilo de vida ainda pode haver uma volta ao quadro de normalidade metabólica, e o paciente pode afastar a doença.

DM1

O diabetes tipo 1 (DM1) é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta produtoras de insulina. Isso acontece por engano porque o organismo as identifica como corpos estranhos. A sua ação é uma resposta autoimune. Este tipo de reação também ocorre em outras doenças, como esclerose múltipla, Lupus e doenças da tireóide. Segundo Tschiedel, sabe-se também que este tipo de diabetes tem aumentado a sua incidência. Ele contabiliza um acréscimo de 3% a cada ano. Este tipo de diabetes não tem relação com o estilo de vida do paciente, e os motivos para o crescimento da doença ainda são pesquisados. “Uma das ideias é que como os pacientes estão vivendo mais, com uma vida praticamente igual ao não diabético, ele está passando mais seus gêneses e isso favoreceria mais a pré-disposição genética, nas pessoas que estão nascendo”, observa. Em relação ao diabetes na infância e na adolescência, DM1, acredita-se que sejam diagnosticados 65 mil novos casos a cada ano e a freqüência de casos nos EUA é de 1,93 por 1000, dos 5 aos 17 anos. Extrapolando-se estes dados, pode-se dizer que existam em torno de 9000 crianças e adolescentes com esta patologia, no Rio Grande do Sul.

DM2

Já o diabetes do tipo 2 possui um fator hereditário maior do que no tipo 1. Além disso, há uma grande relação com a obesidade e o sedentarismo. Estima-se que 60% a 90% dos portadores da doença sejam obesos, e a incidência da doença é maior após os 40 anos. Uma de suas peculiaridades é a contínua produção de insulina pelo pâncreas. O diabetes tipo 2 é cerca de 8 a 10 vezes mais comum que o tipo 1 e pode responder ao tratamento com dieta e exercício físico.

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A tecnologia como aliada na atenção aos idosos Durante o último século, a longevidade humana no Brasil vem avançando de uma forma muito rápida, o que tem feito aumentar significativamente o número de idosos no país. Assim, a pirâmide etária brasileira vem sofrendo constantes modificações, visto que à medida que se tem mais idosos, as taxas de natalidade só diminuem. No Rio Grande do Sul, então, que tem a cidade de Veranópolis como a capital nacional da longevidade, estes índices ganham destaque: enquanto em 1980 a expectativa de vida brasileira era de 72 anos, a mesma média gaúcha batia à porta da casa dos 77 anos de idade. Já nos anos 2000, a mesma média, agora para ambos os níveis, ganhou cinco anos a mais. Por outro lado, pesquisas recentes, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Estatísticas (IBGE) mostram que a taxa de natalidade é de 1,8 filhos por casal, isto é, um casal não chega a repor o que eles mesmos significam para a sociedade atual. A médica geriatra, Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Seção Rio Grande do Sul (SBGG/RS), Berenice Maria Werle, destaca várias novidades na tecnologia que vêm auxiliando e facilitando o trabalho do geriatra no cuidado com os idosos. “Embora dentro do consultório a gente não possa notar tanto a influência da tecnologia, em termos de facilidades no dia a dia da prática, ela implica em muitas coisas”, observa.

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Da administração simplificada de medicamentos ao uso do meio virtual: como a tecnologia tem se mostrado útil no amparo de pacientes idosos

São inúmeros os utensílios com os quais o médico pode contar. “Desde alguns suportes, que ajudam a levantar e transportar pacientes obesos ou que não têm condições de levantar da cama, devido a sequelas ou a algum tipo de demência, até aos novos colchões de ar, que ajudam tanto na prevenção quanto no tratamento de úlceras por pressão. Esses colchões de ar vão trocando os pontos de apoio e são muito úteis no dia a dia desses pacientes”, enfatiza ela. De acordo com Berenice, as medicações também foram alvos da tecnologia: os medicamentos conhecidos como patch têm sido de grande importância para a geriatria. “Podemos considerar que certos tipos de medicamentos também são inovações tecnológicas. Antigamente só tínhamos medicações via oral. Já hoje em dia nós temos algumas que podem ser usadas na forma de adesivos, que nós chamamos de ‘patch’. Elas são mais fáceis de administrar, principalmente em pacientes com algum tipo de demência, porque não dependem de que a pessoa possa engolir”, exemplifica a médica. Ela também comenta que a chegada forte da tecnologia fez com que os profissionais não só usassem das novas tecnologias, mas também passassem a fazer uso de recursos mais antigos, em prol da profissão. A hidratação subcutânea é um bom exemplo de recurso que não é especificamente uma inovação tecnológica, mas é algo que facilita no cuidado e, de uns tempos para cá, vem sendo mais usado pelos geriatras,


Avanços e diferenciais no atendimento aos pacientes Para atender a demanda de pacientes oriundos de Passo Fundo e das regiões norte do Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina, o Hospital da Cidade dispõe de serviços especializados que acompanham todos os avanços da assistência hospitalar. A nova área física, inaugurada em 20 de julho de 2014, atende pacientes de mais de 150 municípios da região. O Edifício Centenário do Hospital da Cidade possui 11 andares, onde funcionam a Central de Consultas Especializadas, Centro de Diagnósticos, Centro Cirúrgico, Centro de Endoscopia, Serviço de Hemodinâmica, cinco postos de enfermagem, Laboratório de Análises Clínicas, Unidades de Ensino e Pesquisa e Unidades de Terapia Intensiva Adulto e Neonatal. Outro ponto forte do Hospital da Cidade é a Central de Consultas Especializadas na qual, por valores especiais de uma tabela social e em um local amplo e confortável, profissionais de 35 especialidades médicas estão à disposição da comunidade. A agilidade na realização das consultas e possibilidade de encaminhamento imediato para exames ou para os procedimentos terapêuticos são as principais características deste serviço. Com tecnologia de ponta e estrutura moderna o Laboratório de Análises Clínicas do Hospital da Cidade se consolida em qualidade e precisão diagnóstica. Em funcionamento desde 2006 como serviço próprio, o LabHC foi ampliado e reestruturado em 2014, passando a atuar em uma nova área física de 700 m², no nono pavimento do Edifício Centenário. Entre as principais mudanças destacam-se a aquisição de equipamentos modernos, que duplicaram a capacidade de realização de exames. O Laboratório de Análises Clínicas é

o maior laboratório em área física da região e atende a demanda externa de clínicas e consultórios privados, dos ambulatórios internos da instituição, exames solicitados pelos postos de internação do Hospital da Cidade e Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes, além de quatro unidades de saúde municipais, o que representa mais de 60 mil exames por mês. A Unidade de Terapia Intensiva do Hospital da Cidade constitui-se em um complexo com 18 leitos. Conta com recursos mais complexos para atender as necessidades dos pacientes, com estrutura física e funcional de ponta, sem descuidar de instalações adequadas aos familiares que acompanham a evolução de pacientes. A UTI- A do Hospital da Cidade é uma das poucas no estado a oferecer leitos com isolamento respiratório, além de Central de Monitorização 24H. A preocupação com a manutenção da qualidade nos serviços, privacidade, segurança e bem-estar dos pacientes é constante, para isso oferece suporte assistencial com uma equipe multiprofissional es-

A mais antiga instituição médico-hospitalar de Passo Fundo, chegou em 2014 ao seu centenário e olha para o futuro em busca de avanços e novidades para atender os pacientes pecializada no tratamento de casos de extrema complexidade. Inaugurada em 20 de julho de 2015, a UTI Neonatal do HC atende recém-nascidos de zero a 28 dias de vida. A unidade conta com dez leitos em funcionamento, que atendem a todos os convênios. O atendimento na UTI Neonatal é realizado através de uma equipe multidisciplinar, que envolve médicos, profissionais de enfermagem, fisioterapia, nutrição, fonoaudiologia, psicologia, além da equipe de residência médica. A unidade conta com Central de Monitorização 24Horas, sala de consultas para as informações mais sigilosas sobre o paciente, além de proporcionar maior contato dos pais com os bebês.

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Como está o seu coração? Exames de ressonância magnética cardiovascular e as cintilografias do miocárdio, somados aos eco cardiogramas em 3D, são alguns dos métodos de diagPreocuparnósticos mais avançados que estão possibilitando -se com uma aos profissionais de cardiologia conhecer de forma alimentação bastante profunda o funcionamento do músculo resbalanceada, ponsável por bombear sangue por todo o corpo hupraticar exermano, num ritmo compassado e frequente que varia cícios físicos entre 70 e 80 batidas por minuto em um indivíduo regularmente saudável, distribuindo oxigênio e permitindo o funcionamento dos demais órgãos. e reduzir os Foi por meio destas evoluções protagonizadas pela fatores de medicina nas últimas décadas que os médicos desrisco como o cobriram, por exemplo, que eram os impulsos elétabagismo, tricos os responsáveis pela manutenção da atividapor exemplo, de cardiológica, dando origem, posteriormente, aos são atitudes marca-passos artificiais cuja função é reestabelecer fundamentais as contrações musculares para manter o bombeapara manter a mento do sangue. “Não há dúvidas quanto a importância da pesquisa clínica e dos avanços tecnológicos saúde cardíaca no diagnóstico de problemas cardíacos. Houve um tempo em que o coração, apesar de toda a sua importância, era pouco conhecido em seu interior. Isso dificultava e diminuía a resolutividade dos tratamentos”, aponta o cirurgião cardiovascular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Orlando Weber. “Hoje, a cirurgia O chefe do Departamento de Diagnóstico do Instituto de cardíaca é o ponto final de todo o tratamento. Cardiologia do Rio Grande do Sul, Iran Castro, assegura que Antes de chegarmos a mesa de operações, todos os tratamentos aplicados atualmente são fruto de porém, buscamos formas terapêuticas e clípesquisas clínicas intensas e com resultados comprovanicas para combater estas enfermidades. damente eficazes, o que tem sido vital para a redução dos Embora tenham ocorrido inúmeros avanços índices de mortalidade dos pacientes com cardiopatias, nesta área, a intervenção cirúrgica em paembora as doenças cardíacas ainda sejam as que apresencientes cardiopatas ainda é bastante delicatam maiores taxas de incidência na população. “Todo esse da”, argumenta o cardiologista do HCPA, uma progresso no diagnóstico e tratamento é extremamente das maiores instituições do Estado no trataimportante, mas os indicadores do Ministério da Saúde remento de doenças cardiológicas. velam que as enfermidades cardiovasculares continuam sendo a primeira causa de morte entre os brasileiros. Isso também decorre do fato de que a nossa população está, felizmente, ficando mais velha. Ou seja, o envelhecimento e a elevação na expectativa de vida fez aumentar também o número de pessoas com doenças crônicas”, avalia. Castro comenta que entre as doenças crônico-degenerativas, a cardiopatia isquêmica é uma das com maior índice de mortalidade em razão de suas complicações. “Em quase metade dos casos a primeira manifestação da doença é a morte súbita ou infarto agudo do miocárdio. Por esta razão são importantes os “check-ups” e exames preventivos para que a doença seja detectada e tratada antes de causar daChefe do Departamento de Diagnóstico do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, Iran Castro nos irreversíveis”.

Uma caixa de mistérios

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Coração sob bombardeio Uma das ações que podem reduzir os índices de mortalidade por doenças cardiovasculares, fala o cardiologista e o diretor da Unidade de Coronariopatia Aguda do Instituto do Coração (Incor) do Hospital de Clínicas – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP), diz respeito à importância da prevenção. “Qualquer pessoa na faixa etária acima de 50 ou 60 anos tem pelo menos 50% de chance de morrer por doenças cardiovasculares. E, dentre estas doenças, o infarto agudo do miocárdio é, de longe, a mais relevante. Por isso, a importância da prevenção”, declara. Foto: ASCOM/Incor HC/FMUSP

“Pessoas que já tenham apresentado problemas cardíacos exigem atenção especial antes de iniciar qualquer atividade física”, frisa Pastore

Epidemiologia das doenças cardiovasculares Foto: ASCOM/Incor HC/FMUSP

Coordenando a área de Coronariopatia do Incor/HC-FMUSP, José Carlos Nicolau, destaca que nos últimos anos houve uma mudança no perfil epidemiológico das doenças cardiovasculares bastante significativos, motivado, sobretudo, pelo envelhecimento da população no Brasil. “Se levarmos em consideração que as doenças cardiovasculares afetam 50% da população acima dos 60 anos já podemos perceber os impactos disso na realidade hospitalar brasileira”, argumenta ele, comentado que a evolução nos diagnósticos e nos tratamentos está permitindo que os pacientes infartados tenham uma melhora significativa na qualidade de vida. “E o mais importante: estamos conseguindo reduzir a mortalidade. Na década de 60, por exemplo, 30% das pessoas que eram vítimas de infarto, morriam. Graças ao progresso médico e científico, esse percentual é de 5 a 7%”.

“Qualquer pessoa na faixa etária acima de 50 ou 60 anos tem pelo menos 50% de chance de morrer por doenças cardiovasculares. E, dentre estas doenças, o infarto agudo do miocárdio é, de longe, a mais relevante”, reitera o diretor da Unidade de Coronariopatia Aguda do Incor HC/FMUSP

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Mulheres: coração não é tão simples quanto pensa Vai se exercitar? Cuidado Os benefícios dos exercícios físicos para a saúde são inúmeros e incontestáveis. Caminhar, correr, andar de bicicleta, natação ou musculação. Combater o sedentarismo é a recomendação número um dos médicos para uma vida saudável. Mas, antes de se dedicar ao esporte ou a qualquer atividade é preciso procurar um cardiologista para verificar se o seu coração – e o sistema cardiovascular – está pronto para entrar em ação sob estresse. Quem faz o alerta é o diretor da Unidade Clínica de Eletrocardiologia de Repouso do Instituto do Coração do HC-FMUSP, Carlos Alberto Pastore. “Pessoas que já tenham apresentado problemas cardíacos exigem atenção especial antes de iniciar qualquer atividade física. O início do trabalho está sujeito a uma avaliação criteriosa. Se já

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houve um infarto de consequências mais graves, é imprescindível verificar que tipo de atividade o coração pode suportar”, adverte ele, acrescentando que como regra geral, a orientação é caminhar, o que raramente apresenta contraindicações. A preocupação de Pastore se justifica – ainda mais se a decisão dar início ao exercício ocorrer no inverno, pois as temperaturas baixas exigem mais do coração. Nesta época, os vasos sanguíneos tendem a ficar naturalmente mais contraídos, o que compromete a circulação. Assim, o sangue oxigenado tem dificuldade de chegar ao coração, fazendo com que o músculo cardíaco precise trabalhar mais para que o coração funcione de maneira adequada. Com vasos mais estreitos, aumenta também a pressão arterial, sobrecarregando ainda mais o coração.

O chefe do Departamento de Diagnóstico do Instituto de Cardiologia do RS frisa que as mulheres também precisam estar atentas aos sintomas porque, de acordo com ele, a cardiopatia isquêmica costuma ser mais grave no sexo feminino em razão dos hormônios, entre outros fatores. A probabilidade de uma mulher morrer em consequência de um infarto é, em média, 50% maior do que a de alguém do sexo masculino. E a maior incidência de risco acontece com mulheres na menopausa: a probabilidade é de duas a três vezes maiores que em mulheres na mesma faixa etária que ainda possuem ciclo menstrual. “A incidência entre homens e mulheres é praticamente a mesma, mas nelas as consequências têm sido mais severas”, observa Castro. Segundo o diretor da Unidade de Coronariopatia Aguda do Instituto do Coração (Incor) do Hospital de Clínicas – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP), José Carlos Nicolau, as coronariopatias nas mulheres costumam ocorrer com uma diferença de cinco a sete anos em relação aos homens. “A proteção hormonal no sexo feminino começa a reduzir a partir da menopausa. Por isso, até esta idade infartos do miocárdio são mais frequentes nos homens. Depois, a incidência costuma se aproximar muito”, reforça Nicolau, apontando que pelo menos 1/3 da população morre devido a doenças cardiovasculares. “Esse indicador é mais alto entre pessoas acima dos 60 anos, em ambos os sexos”.


Risco para a saúde cardiovascular dos brasileiros Quando você terminar de ler este parágrafo, pelo menos dois óbitos por doenças cardiovasculares terão ocorrido no Brasil. Pode parecer exagero, mas um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o país está entre os 10 com a maior incidência de mortes por problemas cardíacos no mundo. A cada dois minutos, um óbito é registrado em decorrência direta ou indireta dessas enfermidades. Para falar sobre este assunto, o Diário da Manhã conversou com a chefe do Serviço Médico de Cardiologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Dra. Carisi Anne Polanczyk. Chefiando uma equipe multidisciplinar no tratamento das doenças cardiovasculares, Carisi reforça a necessidade de se prestar mais atenção à saúde preventiva, minimizando os fatores de risco, como o consumo excessivo de gordura trans e eliminando o tabagismo. Confira a entrevista: Diário da Manhã – A OMS aponta que o Brasil está entre os 10 países com a maior incidência de mortes por doenças cardiovasculares no mundo. Quais são as que mais matam os brasileiros? Dra. Carisi Anne Polanczyk – As doenças cardiovasculares são responsáveis por 29,4% de todas as mortes registradas no país em um ano. Mais de 308 mil pessoas faleceram, principalmente, de infarto e acidente vascular cerebral (AVC), isso significa 1 óbito a cada 2 minutos por doença cardiovascular. Entre as doenças cardiovasculares mais comuns estão o infarto, a insuficiência cardíaca, o acidente vascular cerebral e a hipertensão arterial. Contudo, apesar de ser a principal causa de morte no Brasil, esse índice de doenças cardiovasculares vem caindo nas últimas

Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o Brasil está entre os 10 países com a maior incidência de mortes por doenças cardiovasculares no mundo. Pelo menos 30% delas, de acordo com a OMS, poderiam ser evitadas a partir de mudanças nos hábitos cotidianos da população.

“O envelhecimento da população contribui para o aparecimento das doenças cardiovasculares. Além disso, dispomos cada vez mais de métodos auxiliares no diagnóstico e isso também contribui para a maior incidência”- Chefe do Serviço Médico de Cardiologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Dra. Carisi Anne Polanczyk

décadas, sendo que a redução foi maior nas regiões Sul e Sudeste e na faixa etária acima de 60 anos.

um após os 75 anos, com tendência a superar o sexo masculino em idades avançadas.

DM - Esses problemas cardíacos, como infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e outras doenças isquêmicas, são mais comuns em homens ou mulheres? Dra. Carisi - Cerca de 60% são homens, com média de idade de 56 anos. Dados epidemiológicos do Framingham Heart Study, um dos mais antigos sobre o assunto, mostram que a doença cardiovascular é mais incidente em homens, com morbidade seis vezes maior do que as mulheres, na faixa etária de 35 a 44 anos. Entretanto, após os 45 anos a frequência no sexo feminino acelera rapidamente e a diferença é reduzida ao fator de

DM – A incidência das doenças cardiovasculares nas mulheres decorre, sobretudo, da idade? Dra. Carisi – A coronariopatia na mulher é dependente da idade e manifesta-se cerca de cinco a 10 anos mais tardiamente do que no homem. Este dado sugere, então, que o grande marco para o seu aparecimento é a menopausa, com consequente queda dos hormônios ovarianos e a transição definitiva dos anos reprodutivos para os não-reprodutivos. Nesse estágio, a dita proteção do sexo feminino se perde, elevando-se em quatro vezes o risco de doença, quando comparada com a fase pré-menopausa.

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“Quanto aos cuidados preventivos, a eliminação dos fatores de risco modificáveis deve ser estimulada como a cessação do tabagismo”

DM – A evolução nos métodos de diagnóstico tem dado mais resolutividade aos tratamentos? Dra. Carisi – A principal e mais temida doença cardiovascular é a doença isquêmica, que pode ser diagnosticada através de vários métodos, tais como eletrocardiogramade esforço, cintilografia miocárdica, ecocardiograma de estresse, tomografia de coronárias, ressonância cardíaca e cateterismo. Para o diagnóstico precoce, o paciente deve procurar seu cardiologista para que o profissional solicite o exame mais indicado no seu caso. Além disso, as pessoas devem ficar atentas a alguns sintomas, como a dor torácica, falta de ar, cansaço, menor tolerância ao exercício, edema de membros inferiores (inchaço), síncope (desmaio), são sinais de alerta que devem ser investigados. DM – Há componentes genéticos que influenciam? Dra. Carisi – O componente genético é, sim, importante na doença cardiovascular, mas geralmente associado a outros fatores de risco como tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia. Há uma preocupação maior quando parentes de primeiro grau tiveram infarto, principalmente se antes dos 60 anos de idade. Além disso, existem outras doenças cardíacas com um forte componente hereditário, como casos de miocardiopatias e predisposição para arritmias.

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DM – O fator comportamental é preponderante, então? Dra. Carisi – As causas das doenças cardiovasculares até podem ser de origem genética, hoje é reconhecido que elas são poligênicas, mas fortemente influenciadas pelo fator comportamental, sobretudo aqueles associados aos fatores de risco, como o tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias, sedentarismo, obesidade, história familiar positiva, consumo excessivo de álcool. Quanto aos fatores genéticos e doenças como o diabetes e a hipertensão, devem ser tratados com objetivo de minimizar os efeitos deletérios a longo prazo. Medidas como a proibição de fumar em locais públicos e a redução do nível de sódio nos alimentos industrializados são fundamentais como prevenção em nível populacional. DM – Há perspectivas para a aplicação de terapias celulares ao tratamento de doenças cardiovasculares? Dra. Carisi - Como forma de tentar prolongar a sobrevida desse grupo de pacientes, muitas vezes terminais do ponto de vista cardiovascular, vem surgindo pesquisas recentes com relação a células-tronco. Contudo, os estudos até o presente não demonstraram de forma inequívoca o seu benefício nas cardiopatias avaliadas. Mais estudos são necessários para estabelecer o papel do transplante de células na prática clínica e para tornar sua administração mais adequada e eficaz. * Contribuíram para esta entrevista as médicas cardiologistas Déboro Loro e Thais Arrais.


Doenças iguais, tratamentos melhorados Se o complexo corpo humano pudesse ser simplesmente comparado a um edifício, os médicos cirurgiões conseguiriam, atualmente, trocar tubos e conexões entupidos sem ter que, necessariamente, quebrar a parede. A alusão é simplória, mas para um grupo de profissionais médicos que atuam no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em Passo Fundo, e compõem o Instituto Vascular de Passo Fundo (INVASC), resume o que a evolução da tecnologia e da técnica cirúrgica representa para os pacientes que precisam ser submetidos aos procedimentos. Criado em 2012, o INVASC surgiu a partir da intenção dos cirurgiões vasculares, Júlio Cesar Bajerski e Rafael Stevan Noel, em promover tratamentos vasculares de excelência para Passo Fundo e região. A partir do ingresso dos médicos Omar Toufic Mounzer, Adolfo Lara Brkanicht, Jaber Nashat Saleh e Mateus Picada Corrêa, o Instituto tornou-se a maior equipe de Cirurgia Vascular em número absoluto de cirurgiões no Estado do Rio Grande do Sul. “Nosso grupo é responsável por mais de 1200 procedimentos vasculares por ano, sendo 40% deles complexos e 70% deles endovasculares. Todos os membros do grupo são preceptores do Programa de Residência Médica em Cirurgia Vascular do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP)”, afirmam eles. Prestando serviços a pacientes vindos de centenas de municípios de diversas regiões do Estado, os cirurgiões vasculares reforçam que toda a estrutura do HSVP consolida o hospital e o município de Passo Fundo como referência estadual em qualidade no atendimento. “Conseguimos oferecer todas as técnicas e todos os equipamentos possíveis, tanto para diagnóstico quanto para o tratamento, incluindo os procedimentos cirúrgicos de alta complexidade. E como o hospital atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), os avanços estão à disposição de todos”, destaca Bajerski, complementando que o trabalho da equipe é beneficiado por essas condições. “Não apenas na nossa área de atuação, mas em todas as outras que a envolvem, porque qualquer cirurgia demanda a interação de um setor com outro”.

O perfil das doenças que ainda apresentam as maiores taxas de incidência entre os brasileiros continua o mesmo de algumas décadas atrás. O que mudaram, afirmam os médicos, foram os tratamentos e a possibilidade de realizar grandes procedimentos em cidades de porte menor daquelas em que estão instalados os maiores centros de saúde do país

Foto: ASCOM/HSVP

Criado em 2012, o INVASC surgiu a partir da intenção dos cirurgiões vasculares, Júlio Cesar Bajerski e Rafael Stevan Noel, em promover tratamentos vasculares de excelência para Passo Fundo e região

Aterosclerose: a doença do futuro? Na opinião dos médicos cirurgiões do INVASC, uma das doenças que deve se sobressair nos próximos anos está relacionada ao aumento dos casos de obesidade no país. A aterosclerose, afirmam eles, pode ser a enfermidade com a maior taxa de incidência em adultos e idosos em razão de uma das suas causas estar também atrelada a um efeito de co-morbidade provocado pelo excesso de peso: o colesterol. Segundo os profissionais, a aterosclerose é uma condição em que ocorre o acúmulo de placas de gordura, colesterol e outras substâncias nas paredes das artérias, o que restringe o fluxo sanguíneo e pode levar a graves complicações de saúde. Suas manifestações dependem do local que a doença compromete primeiro. Entre elas estão: infarto ou angina quando acomete as artérias coronárias; dor e claudicação em membros inferiores quando acomete as pernas e, por fim, acidente vascular cerebral quando compromete as carótidas.

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Fotos: Divulgação / Sociedade Brasileira de Dermatologia

Dermatologia: estética atrelada à saúde Já dizia o sociólogo francês, Jean Baudrillard, que a contemporaneidade é a era de se prezar pelo objeto, e nomeou tal fenômeno como “a coisificação do mundo”. Muito se adere a práticas, se adquire objetos e se faz uso deles e de serviços pela aparência das coisas, mas pouco pela utilidade funcional que têm. Com o corpo, seguindo a mesma lógica de avaliação, não é diferente. Assim, a dermatologia vem cada vez mais ganhando notoriedade pelas suas funções ligadas à cosmiatria, que, em suma, é a parte relacionada à estética, de modo a passar uma visão um tanto quanto errônea sobre a referida área da Medicina. Mas apesar de transmitir essa visão estereotipada, especialistas afirmam que é justamente neste âmbito que a dermatologia vem ganhando avanços nos últimos anos. “Realmente, o que é ligado a essa área estética, tem progredido muito dentro da especialidade. Nós temos várias técnicas, vários estudos, em termos de procedimentos dermatológicos, além de equipamentos modernos, inclusive com

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Cada vez mais em alta, a estética faz com que as atividades dermatológicas ganhem evidência, entretanto, há muito mais atuação da dermatologia por trás dessas questões: dermatologia é sinônimo de saúde

laser, para realizar os tratamentos voltados para a área da estética”, destaca o membro da Comissão de Ética e Defesa Profissional da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Doutor Vicente Pacheco Oliveira. Mas é preciso saber que a área de abrangência da dermatologia não fica por aí, como lembra Pacheco: “esta área não se restringe à cosmiatria. A dermatologia é uma especialidade clínica e cirúrgica, então há o tratamento de diversas dermatoses”. De acordo com ele, a pesquisa é constante em todas as áreas, pois “a dermatologia é uma especialidade intimamente ligada à clínica médica, à Medicina geral, digamos assim. E nisso sempre, continuamente, tem havido progressos e pesquisas de novos medicamentos e novos tratamentos. Enfim, existe uma evolução que nem sempre é muito divulgada e reconhecida, sendo muito voltada à parte vista, pela mídia e pela população, apenas como uma especialidade de estética”, pontua ele.


Dermatologia também é... Como já visto anteriormente, está enganado quem pensa que dermatologia diz respeito apenas à estética. Há o tratamento clínico de doenças sérias, que partem da responsabilidade do dermatologista. “Atualmente, o dermatologista também trabalha muito no tratamento de tumores cutâneos, inclusive na parte dos diagnósticos desses tumores, e isso representa boa parte do avanço constante na especialidade, embora o tratamento de doenças em si não tenha a notoriedade que deveria”, relembra o doutor. A dermatologia é responsável por dar conta de doenças de pele, como a hanseníase, pênfigos (fogo selvagem) e leishmaniose,

que sempre foram tratadas por profissionais da área e continuam sendo, da mesma forma. Conforme Dr. Pacheco, a falta de divulgação dos processos dermatológicos executados em prol da saúde, colabora para que tais fatores sejam pouco conhecidos. “A procura sempre acaba sendo maior pela parte da cosmiatria, mas a dermatologia nunca deixou de ter os profissionais que fazem diagnósticos dermatológicos de doenças clínicas, tumores cutâneos; que fazem cirurgias. Isso nunca deixou de existir, dentro da dermatologia. Só que essa parte não é tão divulgada, tão reconhecida pela população e pela própria mídia”, considera.

“A dermatologia é uma especialidade intimamente ligada à clínica médica. E nisso sempre, continuamente, tem havido progressos e pesquisas de novos medicamentos e novos tratamentos”

Domínio no setor privado Além de a cosmiatria ganhar um público muito maior do que a dermatologia que visa à saúde propriamente dita, Dr. Pacheco confirma que a procura por avaliação e acompanhamento de um dermatologista ocorre em números muito maiores no setor privado do que em instituições públicas. Acontece que ainda são poucos os profissionais da área contratados pelos poderes públicos, de modo com que a disponibilidade destes profissionais à população seja um tanto quanto restrita, apesar de que, conforme o doutor, esta realidade vem mudando gradualmente nos grandes centros de saúde. “A especialidade ainda

acaba sendo muito mais buscada na área privada, porque a ação ocorre muito mais em clínicas e em consultórios, do que na área pública. Mas eu vejo que no geral, em especial nas cidades maiores, nos postos de saúde especializados e clínicas especializadas, já se tem uma tendência um pouco maior de contratação de dermatologistas. Mas creio que o ideal seria se houvesse uma contratação maior, fazendo com que que os setores públicos, sejam federais, estaduais ou municipais, enfatizassem a dermatologia de uma forma melhor para que a população tivesse mais acesso a esses profissionais”, argumenta o dermatologista.

Doutor Vicente Pacheco Oliveira, membro da Comissão de Ética e Defesa Profissional da SBD

A SBD A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) é a única instituição reconhecida oficialmente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Médica Brasileira (AMB) como representante dos dermatologistas no Brasil. É uma das maiores sociedades médico-dermatológicas no mundo, com mais de 7.500 associados. Está presente em 23 estados brasileiros por intermédio de suas Regionais, bem como em 78 hospitais universitários credenciados à instituição. Fundada em 5 de fevereiro de 1912, a SBD comemora nesta data o Dia do Dermatologista. Em 2012, a SBD completou 100 anos, tornando-se a terceira sociedade médica mais antiga do país.

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Projeto do HSVP aumenta as chances de cura do câncer infantil No Brasil, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer já representa a primeira causa de morte, por doença, entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. Este dado aponta para um problema de saúde pública, que merece atenção da população e dos profissionais de saúde. O câncer infantil não é prevenível, sendo o diagnóstico precoce o grande aliado para o combate da doença. Nas últimas décadas, o progresso no tratamento foi extremamente significativo, visto que hoje, em torno de 70% das crianças e adolescentes acometidos de câncer podem ser curados, se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados. A partir destes dados e com o foco no diagnóstico precoce, o Centro de Oncologia Pediátrico do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) de Passo Fundo criou o projeto de educação continuada “Atenção, pode ser câncer!”, que busca através de fascículos contínuos levar informação e conhecimento para profissionais da saúde. Neste mês

de julho, o projeto lança o segundo fascículo que traz o tema “Câncer Infantil: o vilão está atrás das grades?”. O projeto que tem apoio da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS) e é coordenado pelo médico oncologista pediátrico do corpo clínico do HSVP, Dr. Pablo Santiago, pretende abrir um canal de discussão sobre as neoplasias na infância e adolescência. Os fascículos escritos por especialistas da área, são encaminhados trimestralmente para profissionais de saúde das regiões norte e noroeste do estado, além de estarem disponíveis no site da SPRS. “Recebemos no HSVP pacientes de várias cidades e muitos, em estágio avançado da doença. Por isso, precisamos reforçar as informações para o atendimento primário, para que os profissionais alertem-se sobre o câncer e possam diagnosticá-lo logo no seu início. O câncer ainda é um tabu e muitos pensam nele como uma doença incurável. Porém , hoje em dia as chances de cura chegam a 70%,

TROCA DE CONHECIMENTOS Para tornar os conteúdos mais acessíveis e fomentar o diálogo, os fascículos receberam QR Codes, um código de barras que pode ser escaneado pelos celulares através da câmera fotográfica. Esse código, após a decodificação, mostra o link que irá redirecionar o acesso ao blog do Grupo Regional

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de Estudos em Leucemias e Hemopatias da Infância, onde é possível ler, comentar e opinar sobre o conteúdo disponibilizado nos fascículos, além de sugerir assuntos para os próximos. O conteúdo também está disponível no site da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, www.sprs.com.br

Foto Assessoria de Comunicação HSVP/Caroline Silvestro

Dr. Pablo Santiago oncologista pediátrico do HSVP

quando o diagnóstico é realizado precocemente”, pontua Santiago. No segundo fascículo do projeto, a Oncologista Pediátrica e professora do Departamento de Pediatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Dra. Mariana Michalowski, traz informações acerca dos avanços do tratamento e a cura do câncer. Ela destaca em seu artigo que, para aumentar os índices de cura e diminuir a taxa de mortalidade, os pediatras ou médicos generalistas devem conhecer os principais sinais de alerta do câncer infantil e caso tenham alguma suspeita, encaminhar o paciente ao especialista. “Recebemos avaliações bastante positivas da Sociedade de Pediatria e também dos profissionais que receberam os fascículos. As sugestões e opiniões a nós encaminhadas também são importantes para o andamento do projeto”, avalia Pablo, reforçando ainda que, a relevância do projeto reside no aumento das taxas de cura quando realizado o diagnóstico precoce.


Câncer de Mama: Pesquisa mostra mudança de comportamento das mulheres O câncer de mama é o tipo de câncer que mais acomete as mulheres em todo o mundo, seja em países em desenvolvimento ou em países desenvolvidos. Cerca de 1,67 milhões de casos novos dessa doença foram esperados para o ano de 2012, em todo o mundo, o que representa 25% de todos os tipos de câncer diagnosticados nas mulheres. Suas taxas de incidência variam entre as diferentes regiões do mundo, com as maiores taxas em 2012 na Europa Ocidental (96/ 100 mil) e as menores taxas na África Central e na Ásia Oriental (27/ 100 mil). Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA), para 2015 são esperados no Brasil 57.120 casos novos de câncer de mama, com um risco estimado de 56,09 novos casos a cada 100 mil mulheres. Embora os número de mulheres portadoras da doença e as projeções de novos casos sejam altas, uma recente pesquisa realizada pela Bayer em parceria com a Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP) nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre revela um novo cenário do câncer de mama que mostra uma mudança transformadora no comportamento feminino em relação a doença. De acordo com o estudo, 55% das entrevistadas conhece alguém que já teve câncer de mama. Na pesquisa, os dados são otimistas e apontam que 56% das entrevistadas já fez exames de rastreamento para detectar alterações na mama. O estudo trouxe um

cenário bastante positivo no combate à doença. Cerca de 90% das mulheres entrevistadas acredita na cura para o câncer de mama e 80% delas acha que, com diagnóstico precoce, é possível aumentar a chance de cura. De acordo com a médica radiologista e docente da Universidade Federal Paulista, Susan Goldman, o novo comportamento é reflexo de mais informação. “As mulheres estão extremamente bem informadas, e eu poderia dizer que isto está acontecendo em qualquer nível populacional, sobre a realidade da prevalência do câncer de mama. Isto é realmente animador porque nem todas as mulheres - em especial aquelas da população de mais baixa renda, não tem acesso direto a um médico que vá pedir um exame. Mas o que nós estamos notando nos consultórios é que a grande maioria das mulheres está pedindo para realizar a mamografia, e isto é muito importante”, conta. A informação das mulheres vai além da realização do autoexame,

Estudo mostra que 56% das entrevistadas fazem exames para detectar a doença. Para especialista, a mudança de comportamento está relacionada com o acesso à informação

repetida maciçamente nas campanhas de conscientização. A Dra. Susan explica que o autoexame tem um significado simbólico. No momento em que a mulher se palpa ela lembra que tem uma mama que precisa ser cuidada. Com as mulheres lembrando-se deste cuidado, aciona a necessidade de procurar um posto de saúde, e buscar um médico. “E as mulheres vão querer fazer a mamografia, porque a grande maioria delas, como mostra a pesquisa, conhece alguém que já teve câncer de mama”.

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Câncer de Pulmão: cigarro continua sendo vilão Diretor do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, Carlos Barrios.

O câncer de pulmão era considerado uma doença rara até o início do século XX. Desde então, sua ocorrência aumentou rapidamente, tornou-se a mais frequente na população mundial e a causa mais importante de morte por câncer no mundo. Segundo levantamento do INCA, a última estimativa mundial apontou uma incidência de 1,82 milhão de casos novos de câncer de pulmão para o ano de 2012, sendo 1,24 milhão em homens e 583 mil em mulheres. O Instituto estima que até o final de 2015 6.400 casos novos de câncer de pulmão entre homens e 10.930 entre mulheres, um total de 27.330, serão diagnosticados. O consumo de cigarros representa , na maioria das populações, mais de 80% dos casos de câncer de pulmão, segundo o diretor do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, o médico Carlos Barrios. Com relação ao gênero, os homens apresentam maiores taxas de incidência do que mulheres. Na entrevista abaixo, Bairros fala sobre o papel do Brasil nos protocolos de pesquisa que testam novos tratamentos, as novidades no diagnostico e a incidência da doença no país.

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Tabagismo continua sendo o principal vilão do Câncer de Pulmão. Segundo estimativas do INCA, até o fim de 2015, mais de 27 mil pessoas serão diagnosticadas com a doença

Quanto a incidência: os casos são registrados mais em homens ou mulheres? Aproximadamente no Brasil temos 27.000 novos casos de câncer de pulmão todos os anos. Segunda causa de câncer com 16.400 casos/ano em homens e quarta causa de câncer com 10. 430 casos/ano em mulheres.55% dos casos novos de câncer de pulmão ocorrem em países em desenvolvimento. As taxas mais elevadas estão na América do Norte. - O que há de novo nos tratamentos e no diagnóstico para o câncer de pulmão? No diagnostico apontaria duas coisas fundamentais: a primeira, o uso do PET scan, que é um teste de imagem que nos ajuda a melhorar nossa capacidade de encontrar a doença em diferentes lugares do corpo e consequentemente auxilia na melhor definição do tratamento. A segunda são testes moleculares que nos ajudam a identificar alterações genéticas específicas (isto principalmente nos pacientes que não fumam) que auxiliam na seleção de tratamentos dirigidos para cada alterações e trazem melhores resultados. No tratamento, a onda do momento é a imunoterapia que está oferecendo

resultados muito positivos para um grupo de pacientes quando a quimioterapia que é o tratamento convencional, não funciona mais. As perspectivas de futuro são positivas para alguns pacientes, mas os desafios também são muito importantes devido ao alto custo destes novos tratamentos. - Qual o papel que o Brasil desempenha nos tratamentos atuais? O Brasil desempenha um papel fundamental por participar ativamente nos protocolos de pesquisa que ajudam a testar estes novos tratamentos antes de serem aprovados. Pacientes brasileiros se beneficiam sobremaneira ao participar destes estudos, pois recebem drogas de ponta antes mesmo de estarem disponíveis em qualquer outro lugar do mundo. É uma pena que o processo regulatório de aprovação destas pesquisas seja tão moroso no Brasil, pois isto afetas aos projetos daqui e com isso todo o benefício potencial que vem com eles. Existe um projeto de lei que descentraliza o processo de aprovação de estudos que esperemos seja aprovado e venha a aumentar as chances de pacientes brasileiros se beneficiarem das pesquisas clínicas.


Produção científica brasileira é destaque internacional “A pesquisa consegue explicar como dois córtices com o mesmo grau de dobras, como o do porco e o do babuíno, podem ter números de neurônios completamente diferentes, dez vezes maior do que o outro; e também como o córtex humano, com três vezes mais neurônios do que o do elefante, tem duas vezes menos dobras”. A neurocientista Suzana Herculano Houzel e o físico Bruno Motta, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desvendaram uma das crenças que circulava entre a comunidade que pesquisa aspectos ligados ao desenvolvimento do cérebro humano, de que o córtex cerebral de mamíferos - parte do cérebro responsável pela cognição se dobra e em consequência disto aumenta o número de neurônios. Com a pesquisa da dupla brasileira foi possível mostrar que o córtex tem sua forma como é conhecida, por razões físicas, em consequência da pressão que acontece ao longo do seu desenvolvimento. Abaixo, Suzana explica o estudo que teve repercussão em publicações internacionais como a renomada Science, e fala sobre os desafios de fazer pesquisa científica no Brasil

A ciência sempre associou as dobras do córtex cerebral com o número de neurônios. O que essa descoberta muda? Suzana Herculano - Houzel: Sempre se trabalhou com a hipótese de que o córtex cerebral se dobraria conforme ele ganhasse neurônios, mas isto era apenas uma intuição. Esta não era uma ideia baseado em dados, já que a relação entre o número de neurônios no córtex cerebral e a sua superfície, espessura e seu volume. Mas sim, no principio que todos os córtices teriam a mesma relação entre o número de neurônios e a superfície, e na observação de que, com mais dobras, cabe uma superfície maior em um mesmo volume – como um lençol cada vez maior enrodilhado dentro de um cesto de roupa suja.

A sua pesquisa consegue comprovar que estas ideias sobre o córtex cerebral estavam erradas? Suzana: O nosso trabalho vem há dez anos mostrando que este não é o caso. Mostramos que o número de neurônios não determina a extensão ou volume do córtex e, agora, tivemos dados suficientes para colocar a hipótese tradicional à prova. Conseguimos mostrar que a razão pela qual o córtex se dobra é física, e não relacionada ao seu número de neurônios. A pesquisa consegue explicar como dois córtices com o mesmo grau de dobras, como o do porco e o do babuíno, podem ter números de neurônios completamente diferentes, dez vezes maior do que o outro; e também como o córtex humano, com três vezes mais neurônios do que o do elefante, tem duas vezes menos dobras.

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As dobras do córtex podem ter alguma relação com funções como a inteligência? Suzana: A pesquisa comprova que não há uma relação direta com o número de neurônios, o grau de dobras, a área cortical e sua espessura. Sendo assim, a função do córtex depende do número de neurônios disponíveis, então não deve haver relação entre o grau de dobras e a capacidade cognitiva. Mas um cérebro dobrado deve ser vantajoso de alguma forma: para uma mesma extensão de córtex, há uma menor espessura possibilitando que o córtex se dobre mais – isso poderia favorecer funções especializadas em áreas do cérebro diferentes e minimiza o volume do órgão, otimizando a passagem de sinais. Quais foram as conclusões sobre o cérebro humano? No que ele se diferencia de outros seres? Suzana: No início da minha carreira, uma das contradições da área era o fato de termos uma notável capacidade cognitiva do que qualquer animal, mas não termos o maior cérebro, nem o mais dobrado. Isso, no entanto, só é um paradoxo se acreditarmos que o tamanho do córtex ou suas dobras são proporcionais ao número de neurônios – uma suposição comum na época, mas que como falamos no início não tinha embasamento científico. A partir de novas pesquisas, fomos atrás dessas comprovações: conseguimos mapear quantos neurônios

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há nos cérebros de espécies distintas e apresentamos que, entre os primatas, o cérebro humano é apenas mais um, embora com um número de neurônios que nenhuma outra espécie tem, por canta da capacidade energética. Ou seja, de fato o córtex dos seres humanos não é o mais extenso, o mais fino, nem o mais dobrado, e também não tem o maior tamanhão. Mas sim, apresenta o número absoluto de neurônios, mesmo se formos usar um córtex duas vezes maior como o do elefante: temos em média 16 bilhões de neurônios, contra apenas 5,6 bilhões do animal. A hipótese é que este número de neurônios corticais dos humanos é a explicação mais simples para nossa superioridade cognitiva, mesmo que não seja a única diferença entre nossa espécie e as outras.

Em um momento de corte nos repasses, como está o cenário da produção científica nacional? Suzana: O cenário é ruim e precisa de mudanças. Os recursos que dispomos são poucos, porque existe uma cultura, de que é melhor dar um pouquinho para um grande número de pesquisadores do que financiar de verdade os que são realmente produtivos. Ainda precisamos lidar com legislação arcaica, que encarece estratosfericamente os insumos e equipamentos estrangeiros de que precisamos e não são produzidos no Brasil. Tudo custa mais caro e leva meses para ser liberado na alfândega. Por isso, é impossível competir com países onde reagentes chegam ao laboratório no dia seguinte. Ou seja, a ciência brasileira é limitada em sua base, desde as perguntas que podem ser colocadas. O Brasil está anos-luz atrás de outros países – e, naturalmente, isso leva a uma evasão de cérebros. O Ciências Sem Fronteiras, neste sentido, será um tiro no pé a longo prazo, pois os jovens descobrirão como é melhor fazer pesquisa no estrangeiro. A questão é que a ciência não dá retorno imediato. É preciso reconhecer a importância da ciência e tecnologia para a soberania nacional. Um país realmente soberano é um país que não precisa importar conhecimento. Pátria educadora é a que valoriza seus intelectuais, seus cientistas e professores, e faz deles exemplos para seus jovens – e não uma pátria que nos trata como profissionais supérfluos e dispensáveis.


Cresce demanda por exames de ressonância magnética No Brasil, a tecnologia começou a ser difundida nos grandes centros urbanos na década de 90 e, a partir dos anos 2000, se popularizou entre os profissionais da área de saúde. Atualmente, entre os diagnósticos por imagem, o exame de ressonância magnética está entre os mais confiáveis. Em Carazinho, conforme o médico Robson Rottenfusser, só na Radiologia Carazinho, empresa na qual o especialista atua, mensalmente são realizados cerca de 200 exames. “Hoje a ressonância é um dos melhores exames que se tem. É feito por recomendação específica do médico. É sem dúvidas um dos melhores exames para se verificar alterações ortopédicas, coluna e neurológicas, porque tem uma alta definição da forma-

ção das estruturas. Hoje a ressonância é melhor do que os outros exames de imagem. Ela permite pela sua qualidade, diagnosticar mais facilmente as possíveis causas de dor e alterações no paciente”, comenta Rottenfusser. Conforme o profissional, o uso da ressonância é mais comum nos casos de atendimentos ambulatoriais, uma vez que para os casos de emergência, utiliza-se na maioria das situações do exame de tomografia, por ser este mais rápido na sua realização e resultado. Segundo Rottenfusser, o exame de ressonância leva entre 20 e 25 minutos para ser realizado e antes de ser iniciado é feita um pré entrevista com o paciente, pois há algumas contra indicações caso o paciente

Fotos DM/Alessandro Tavares

Médico Robson Rottenfussor e equipe.

use marca passo ou algum tipo de prótese, por exemplo. O especialista revela que em Carazinho, o exame de ressonância tem sido mais demandado por pacientes que apresentam algum tipo de sintoma relacionado ao sistema músculo esquelético. O médico comenta que feito o exame, o resultado de uma res-

sonância leva cerca de 48 horas para ser concluído, uma vez que a interpretação das imagens é feita por dois médicos especialistas. O profissional destaca ainda, que o exame também pode ser utilizado com crianças e, nestes casos, a maior parte das aplicações tende a apurar eventuais alterações neurológicas.

Tomografia computadorizada O proprietário e diretor da Radiologia Carazinho, médico Adolfo Gibbon, atua no município e Região, desde 1978. Segundo ele, naquela época, o Raio X era o exame de diagnóstico mais solicitado. “De lá pra cá estamos sempre acompanhando o desenvolvimento tecnológico. Hoje temos uma gama grande de exames que usam a imagem como diagnóstico e a ressonância hoje é conside-

rado o melhor destes”, comenta Gibbon. O profissional também revela que até o final deste ano a empresa pretende estar operando o aparelho de tomografia computadorizada. Gibbon, que há quase quatro décadas atua no segmento, comenta que em nível de região, a ultrassonografia é o exame que continua tendo maior procura, porém a demanda por exames de ressonân-

cia tem sido crescente. “Atualmente é o exame que oferece as imagens de melhor qualidade e resolução. Daqui para frente temos é que ficar atentos quanto à novas tecnologias que o mercado venha a oferecer” ressalta Gibbon. A Radiologia Carazinho conta com os trabalhos de quatro médicos, uma enfermeira padrão, além de uma equipe de 15 colaboradores, especialistas em diversas áreas.

Adolfo Gibbon, diretor da Radiologia Carazinho.

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Auxílio magnético ao coração A utilização de exames não invasivos para diagnosticar as doenças cardiovasculares tem ampliado a resolutividade dos tratamentos e possibilitado a identificação de pequenos detalhes que, na soma dos fatores e condicionantes, reduzem o risco de morte dos pacientes ao permitir uma atuação clínica mais efetiva e rápida. Quando se trata de coração, todo segundo faz diferença. “Os avanços direcionados para o diagnóstico dos problemas cardíacos têm apresentado melhorias bastante expressivas, inclusive capazes de maximizar os resultados dos tratamentos aplicados”, afirma o médico da Seção de Tomografia e Ressonância Cardíaca do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor/FMUSP), Carlos Eduardo Rochitte. Doutor em Cardiologia pela USP, Rochitte é pós-doutor especialista em Ressonância Magnética Cardiovascular (RMC) pela Johns Hopkins University, uma das mais conceituadas instituições de ensino e pesquisa médica no mundo. Para ele, da implementação do eletrocardiograma à administração de substâncias radiotativas na busca pelos diagnósticos precisos, a medicina tem evoluí-

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do sistematicamente na procura de soluções para enfrentar – e, em alguns casos, antecipar – os problemas de saúde. “E nesse patamar, a ressonância magnética tem apresentado resultados extremamente satisfatórios com nenhum risco aos pacientes, pois utiliza ondas de radiofrequência e um forte campo magnético para obter informações detalhadas dos órgãos e tecidos internos do corpo sem ter de lançar mão da radição ionizante”, explica, destacando que este método de diagnóstico, caracterizado como não invasivo, é avaliado como “padrão ouro da ciência médica” moderna. Fundamentalmente, defende o cardiologista do InCor/FMUSP, a possibilidade de diagnosticar as doenças cardíacas a partir dos exames por imagem de alta resolução alavancou os tratamentos a partir do aumento da sua resolutividade. “Todos os métodos têm suas parcelas de contribuição, pois evoluíram muito e de forma rápida. O avanço tecnológico é anual, com lançamentos de métodos e produtos aperfeiçoados e que produzem significativas melhorias nos diagnósticos. Mas, é claro que os métodos mais novos, como a RMC, por exemplo, respondem melhor às necessidades atuais”, argumenta Rochitte.

Destaque no campo das imagens, a Ressonância Magnética Cardiovascular (RMC) permite uma maior precisão nos detalhes do músculo cardíaco ao mesmo tempo em que minimiza os riscos para o paciente submetido ao exame FOTO: Divulgação/Assessoria de Comunicação InCor/FMUSP

“Em um dos casos, a ressonância permite que façamos uma avaliação de quanto o músculo cardíaco foi comprometido e o que permanece saudável depois do infarto, otimizando o protocolo de tratamento”, detalha Rochitte


Hipertensão atinge 30% da população adulta A hipertensão é a causa principal mundial de mortes e afeta tanto homens como mulheres. Apesar de 30% de a população adulta sofrer de hipertensão, acima de 140/90 mmHg, um terço delas desconhece sua condição. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), um terço da população que recebe tratamento contra a hipertensão deixa de aderir ao tratamento e não consegue manter a pressão abaixo de 140/90 mmHg. Apesar de ser mais comum em homens, as mulheres acima de 65 anos também são vítimas hipertensão. Com a doença os portadores de hipertensão enfrentam uma série de outras consequências fazerem parte de suas rotinas. O risco de infarto do miocárdio aumenta, assim como as chances se sofrer um acidente vascular cerebral e doenças renais. Em casos graves hipertensão também é responsável por causar cegueira e insuficiência cardíaca. O risco de desenvolver qualquer destas complicações é maior em hipertensos, principalmente se coexistirem outros riscos, como uso de tabaco, obesidade e diabetes.

Segundo o Ministério da Saúde, 21% da população é portador de hipertensão. Para tratar casos extremos da doença em que a medicação já não é eficiente, a Anvisa liberou no final de 2012 a utilização da Denervação Renal, que há dois anos vem sendo feita no RS

Prevalência Nas Américas, de norte a sul, hipertensão e as suas doenças correlacionadas são uma das principais causas de morte em homens e mulheres. Todos os anos milhões de pessoas padecem em razão das consequências da hipertensão e doenças cardiovasculares. A hipertensão tem tratamento e pode ser bem controlada seguindo instruções médicas e adotando hábitos de vida saudável. Muitos países nas Américas obtiveram sucesso controlando

a hipertensão e alcançaram redução na mortalidade por doenças cardiovasculares na população. Já no Brasil, segundo dados coletados pelo Ministério da Saúde, na Pesquisa Nacional da Saúde, feita em 2014 em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o país acompanha os números mundiais de portadores de hipertensão com 31,3 milhões de brasileiros, que representa, 21,4% da população.

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Denervação Renal: procedimento reduz a pressão arterial dos pacientes A hipertensão arterial essencial não tem cura, mas deve ser tratada para impedir complicações. A menos que haja uma necessidade evidente para uso de medicamentos imediato, como no caso de pacientes com níveis de pressão arterial acima de 180/110 mmHg, a recomendação da SBH é que a maioria dos pacientes deve ter a oportunidade de reduzir sua pressão arterial através de tratamento não farmacológico, por meio de medidas gerais de reeducação, também conhecidas como modificações no estilo de vida. Para casos de pacientes em casos extremos da doença, em que os medicamentos já não surtem efeito, um novo tratamento com alto índice de resolutividade começou a ser oferecidos aos pacientes. Desde novembro de 2013, Hospital Mãe de Deus de Porto Alegre - segunda instituição do país a adotar a técnica da Denervação Renal, vem realizando as cirurgias no Estado. “Em menos de 24 horas, os pacientes submetidos ao procedimento já apresentavam redução da pressão arterial”, informa o médico cardiologista Alexandre do Canto Zago, coordenador da equipe responsável. A denervação renal consiste na introdução de um cateter pela artéria da perna do paciente (virilha), muito parecido com o método empregado para o implante de stents, na desobstrução das artérias do coração. Mas, ao contrário do que é feito nos pacientes cardíacos, na denervação renal o cateter é conduzido até a artéria do rim, um dos principais órgãos responsáveis pela regulação da pressão no corpo humano. Ao atingir o local desejado na ar-

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téria, o cateter é aberto e através de eletrodos em sua ponta libera pequenas descargas elétricas na parede do vaso, realizando uma espécie de cauterização. Com isso é interrompida a comunicação entre o rim e o cérebro. Uma das causas da pressão alta é justamente o erro de comunicação entre os dois órgãos, onde o primeiro informa equivocadamente que o nível da pressão arterial está baixa, quando na verdade é o contrário. “Neste quadro, o cérebro manda um comando aos rins para reter mais água com o objetivo de aumentar o volume de sangue, assim como produzir uma substância que causa estreitamento das artérias do corpo – estes são os principais mecanismos de elevação da pressão arterial. O bloqueio desse fluxo de informações entre rim e cérebro promove a redução dos níveis pressóricos”, explica Zago.

“Trata-se de um importante avanço no tratamento da hipertensão arterial, contribuindo com os medicamentos em uso corrente ou mesmo substituindo medicamentos que ocasionam efeitos colaterais intoleráveis ao paciente. Acredito que logo adiante teremos a técnica difundida no país e capaz de atender a um número cada vez maior de pacientes”. - Médico Cardiologista Alexandre do Canto Zago

Recuperação rápida A recuperação do paciente costuma ser rápida. Ele pode receber alta em 48 a 72 horas, retornando então às suas atividades normais. Já os resultados positivos podem ser notados logo após a intervenção. O cateter utilizado para denervação renal, chamado de cateter dedicado, é diferente do utilizado para em eletrofisiologia para a cauterização do sistema elétrico do coração. O aparelho possui quatro eletrodos de baixa potência, ideal para a cauteriza-

ção do sistema elétrico das artérias renais, o que promove maior segurança e precisão à intervenção. Somente no final de 2012, que a utilização desse novo dispositivo foi autorizada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Conforme o Dr. Zago, a nova técnica está no momento indicada para casos severos de pressão alta, onde os medicamentos prescritos pelo médico não são suficientes para o controle adequado da doença.


Sedentarismo: principal inimigo Em abril deste ano, logo após o IBGE publicar a pesquisa sobre o sedentarismo no Brasil, a Sociedade Brasileira de Hipertensão emitiu um alerta. A pesquisa revelou que 46% dos adultos – um total de 67,2 milhões – são sedentários. Para a entidade, além do sedentarismo, o estresse, maus hábitos alimentares, excesso de peso e a idade são fatores de risco para a hipertensão, que tem estimativa de acometer 5 a 10% da população com até 18 anos, ou seja, 7 milhões de crianças e adolescentes e cerca de 30% da população adulta, chegando a mais de 50% na terceira idade. Já o estresse, por exemplo, está associado diretamente às doenças do coração e à hipertensão arterial – só no Brasil, 70% da população economicamente ativa sofre deste mal. Nas crianças e adolescentes a hipertensão já está francamente associada ao excesso de peso e sedentarismo.

“O sedentarismo, entre outros agravantes, é um dos fatores de risco para a hipertensão. Assim, o nosso objetivo é conscientizar a população da importância da atividade física e alimentação saudável para o controle de doenças crônicas e cardiovasculares”, afirma Dr. Fernando Almeida, nefrologista membro da SBH.

FONTE: SOCIEDADE BRASILEIRA DE HIPERTENSÃO

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Os passos da formação médica A formação médica acadêmica, vigente no Brasil desde 1808, é um campo que vem cada vez mais se modificando ao tempo e às novas tecnologias. A aplicação prática da profissão avança conforme avança a complexidade das doenças e, consequentemente, o ensino deve se ajustar a essas demandas. É por isso que nas últimas décadas, as escolas médicas se esforçaram para cumprir o que é indicado nas Diretrizes Curriculares, estabelecidas ainda em 2001. Quem conta isso é o professor Assistente Doutor do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que atualmente é Diretor Presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), Sigisfredo Luis Brenelli. Ele explica que as instituições tiveram a necessidade de tornar os currículos mais flexíveis, para que se obtivessem formas de ensino mais efetivas. “As escolas médicas flexibilizaram mais seus currículos, buscando uma maior aproximação e integração com os serviços de saúde. Buscaram métodos pedagógicos mais ativos, estimulando os estudantes a serem mais independentes na busca do conhecimento e sistemas de avaliação mais elaborados, que se preocupavam com a formação mais do que com a punição”, destaca Brenelli. O professor cita os principais obstáculos desse processo de educação médica. “Os desafios de uma instituição, se fizer de maneira certa, são muitos: capacitar seu corpo docente; buscar novos e adequados espaços para o ensino, sejam eles na assistência ou nos laboratórios; criar mecanismos de avaliação formativa; discutir e dinamizar seu projeto pedagógico constantemente; e pensar no seu corpo discente, desde novas fórmulas para o ingresso até na qualidade técnica e ética da formação desses futuros médicos”.

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Divulgação / Secretaria ABEM

Enfrentando inúmeros desafios dia após dia, a Medicina tem o constante dever de se reinventar e contornar as dificuldades, formando profissionais capazes de suprir as demandas da comunidade

Diretor Presidente da Associação Brasileira de Educação Médica, Sigisfredo Luis Brenelli

Hospital-Escola

Apesar de o Brasil ter adotado um sistema de atendimento à saúde que não seja centrado somente no hospital, o ambiente hospitalar ainda é vital para a formação do médico. O Diretor Presidente da ABEM pontua que, ao mesmo tempo em que o ensino deve deixar de ter bases hospitalocêntricas, que é quando a própria formação tem destaque nas dependências hospitalares, não se pode ser “hospitalofóbico”,

com relação ao método de ensino. “Buscamos maior integração com a sociedade e com a atenção básica, onde estão os principais problemas de saúde. Porém, o hospital é um importante cenário onde o processo de ensino-aprendizagem também deve ocorrer. Ele tem a facilidade de oferecer maior tempo para o estudante raciocinar e desenvolver técnicas necessárias à formação”, considera o professor.


Medicina de Família e Comunidade: a carência de profissionais da área Uma culpa não só dos planos pedagógicos, que carecem de incentivo aos jovens profissionais para atuar na área, mas, conforme Brenelli, há uma série de fatores interferentes, que fazem com que os profissionais recém formados não queiram trabalhar neste campo tão importante da Medicina. O professor salienta que a política de ensino que se tem hoje é justamente para aumentar o número de especialistas em Medicina de Família e Comunidade. Conforme ele, essa é a especialidade com maior número de vagas para a residência médica, das quais a maioria não está preenchida. Para Brenelli, essa estatística se deve a vários fatores distintos, sendo eles: “as dificuldades próprias da atenção básica que, no meu ponto de vista, é a área mais complexa, pois envolve muitos saberes para além dos biológicos, sem contar questões como a falta de planos de carreira, a fragilidade dos contratos de muitos municípios e a falta da infraestrutura, que têm afastado os jovens médicos desse campo importante”. “Não adianta aumentar o número de vagas e creditar a culpa apenas para os projetos pedagógicos que não incentivam os estudantes para essa área: acredito que o problema é muito mais profundo e a sociedade ainda não conseguiu discuti-lo adequadamente”, pondera. Uma visão semelhante apresenta o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF), que também é especialista em Medicina de Família e Comunidade, Júlio Augusto de Souza Mota, que cita o sistema europeu de formação e atuação médica. Segundo ele, nos países da Europa, as estatísticas são satisfatórias, pois “praticamente metade dos formados em Medicina vão para atenção primária; são médicos de família. Na Inglaterra, de cada 10 alunos que terminam a faculdade de Medicina, cinco vão ser médicos de família, o que é uma proporção adequada”, argumenta Mota. Ele ainda fala que vê muitos alunos –mais

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF), especialista em Medicina de Família e Comunidade, Júlio Augusto de Souza Mota

do que cerca de 10 anos atrás- se interessando pela área de Medicina de Família e Comunidade, mas, assim como Brenelli, defende que o plano de carreira, entre outros fatores, não é algo que motive o médico a seguir para este lado da profissão. “Hoje eu posso dizer, pelo perfil dos nossos alunos, que tem muito mais formandos que têm afinidade e gostariam de trabalhar na questão primária do que 10 anos atrás. Por que o pessoal não vai? Essa é uma questão pragmática mesmo. O pessoal tem uma preocupação com carreira, com os filhos, com o futuro, e o plano de carreira desta área não é mesmo muito atrativo”, observa ele.

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O perfil do médico brasileiro A amplitude e a complexidade da sociedade atual justificam o novo perfil do profissional da Medicina no Brasil: “o perfil é muito variado”, afirma Brenelli. De acordo com ele, “o novo profissional, inseguro por tantas situações, pela insegurança administrativa, política e econômica, busca superespecialidades, onde vê um campo de trabalho adequado e segurança para sua sobrevivência. Pensa-se muito na qualidade de vida”, descreve.

Ele ainda menciona que a figura do profissional médico, frente à sociedade, tem mudado com o decorrer do tempo. “Por anos entendemos e buscamos no médico uma figura quase eclesiástica: tinha que trabalhar muito, sempre à disposição e não podia receber pelos serviços. Uma imagem romantizada que se deteriorou no século XX e XXI, quando o governo cria o serviço civil obrigatório”, relembra ele.

A Medicina e os números brasileiros Arte: Infogram

Atualmente, no Brasil formam-se mais médicos nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiros, Unidades federativas que também são as que mais recebem formados para a residência médica. O maior índica de empregabilidade ainda é para a rede publica, principalmente nas prefeituras, para os recém formados. Brenelli enfatiza que a grande maioria vai trabalhar na urgência e emergência, “embora ainda não estejam devidamente capacitados para isso”, opina, e acrescenta: “temos imenso trabalho para formar o médico que a sociedade almeja e tem direito. Nisso tudo, o governo abre uma escola nova por semana... Conseguiremos manter a qualidade técnica e ética que queremos? Existe infraestrutura física e humana para tantos cursos? Serão eles capazes de formar médicos adequados?”, indaga o professor. Atualmente, são 256 instituições de ensino que oferecem formação em Medicina, das quais ofertam, em média, mais de 23 mil vagas por ano, dentre instituições privadas, federais, estaduais, municipais e públicas. Confira nos gráficos a seguir mais informações sobre as escolas médicas brasileiras:

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O papel das parcerias na formação profissional Visando ao bem estar da população e da própria equipe médica da instituição, o Hospital de Caridade de Carazinho (HCC), no interior do Rio Grande do Sul, tem mantido desde 2011 uma parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF), que oferece estágios curriculares e extracurriculares para o curso de Medicina da Universidade. A disponibilização dos estágios representa um avanço para o HCC e para a Comunidade de Carazinho e região e é fruto de muito trabalho de toda a equipe envolvida. Os estágios extracurriculares de alunos do 3º e 4º ano ocorrem em duplas, diariamente de segunda a quinta-feira das 19h às 22h, sempre com a supervisão de preceptores, os quais são médicos do próprio Corpo Clínico do HCC: Dr. Gerson Luis Urnau, que é também o Coordenador do estágio, Dr. Darlan Martins Lara, Dr. Luciano Alt e Dra. Adriana Rahman. Os doutorandos, alunos de medicina do 5º e 6º ano, na forma de internato em Ginecologia/

Obstetrícia e Clínica Médica também auxiliam no atendimento aos pacientes internados e nas intercorrências dos pacientes, nas 24 horas diárias que permanecem no HCC, sob a forma de estágio curricular. Para o vice-presidente do HCC, Jocélio Cunha, a parceria constrói uma relação onde todos ganham, mas especialmente o paciente. “O paciente pode contar com atendimento médico imediato a qualquer hora do dia caso ocorra algum tipo de intercorrencia em seu tratamento; os alunos ganham conhecimento e a experiência valiosa de poder estar dentro de um ambiente hospitalar, vivenciando todo tipo de situação que pode acontecer em suas vidas profissionais; a Instituição ganha por poder contar com futuros médicos os quais criam identidade e carinho pela nossa comunidade”, pontua Cunha. Durante o internato, os alunos realizam diversas atividades, dentre as quais e em especial o acompanhamento de pa-

Vice-presidente do HCC, Jocélio Cunha e Reitor da UPF, José Carlos Carles de Souza comemoram resultados da parceria entre a instituição e a universidade firmada em 2011

cientes da Maternidade sob a orientação dos plantonistas da obstetrícia durante todo o período da manhã. Durante a tarde é reservado horário para estudo e pesquisa, e durante a noite, os estagiários cumprem plantão de sobreaviso, assim sendo, em caso de intercorrências são chamados pela equipe de enfermagem e, após contato, com a preceptoria ou com o médico assistente do paciente podem executar condutas e ou procedimentos.

Residência médica Além disso, desde março de 2015 o HCC possui residência médica em clinica médica em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (IFSul), através da Faculdade de Medicina do Campus de Passo Fundo. A médica residente do HCC é a Dra. Lorena Dornellas, formada em 2011 pela Universidade Federal do Mato Grosso. A residente cumpre uma jornada de 60 horas semanais de

atividades com a preceptoria dos médicos do próprio Corpo Clínico da Instituição em diversas das sub áreas da clínica médica. O médico Coordenador da residência médica no HCC é o Dr. Darlan Martins Lara e o Supervisor da residência em Clínica Médica é o Dr. Gerson Urnau. A preceptoria da residência também conta com o conhecimento e acompanhamentos dos médicos: Luciano Alt, Adriana

Rahman, Wernher Schwambach, Silvia Senger, Monica Muller, Isabel Rochembach, Silvano Pauletti de Moura e Roselei Graebin. “O início da residência médica é um marco para a Instituição, é o inicio de um novo modelo de Hospital. O HCC e a comunidade de Carazinho e região só tem a ganhar com este importante passo dado pelo HCC no cenário de ensino”, conclui o vice-presidente do hospital.

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Faculdade de Medicina da UPF é referência no país Passo Fundo é considerado o terceiro maior polo de saúde da região Sul do Brasil, atendendo a demandas de praticamente todos os municípios gaúchos e de outras centenas de Santa Catarina e do Paraná. Dentre os vários fatores que contribuíram de forma decisiva para se alcançar esse patamar de desenvolvimento, com reflexos na economia da cidade e na qualificação da prestação de serviços, está a criação da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF). Do final da década de 1960, quando o curso foi criado, até hoje, muitas conquistas puderam ser comemoradas pela comunidade e pelos mais de 1.900 profissionais formados. Hoje, a Faculdade de Medicina da UPF é referência no país. O conceito máximo obtido no último Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), numa escala de um a cinco, certifica a qualidade e a excelência acadêmica do curso. O Enade é aplicado e gerenciado pelo Ministério da Educação (MEC-INEP) e tem como objetivo aferir o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas diretrizes curriculares do respectivo curso de graduação e de dimensionar habilidades e competências em sua formação. A tradição e a excelência do curso de Medicina da UPF nesse sentido vêm sendo destacadas pelas aferições oficiais há vários anos, o que o coloca entre os melhores do país.

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Foto: Leonardo Andreoli

Referência na formação de profissionais, curso se destaca em avaliações oficiais há vários anos

Diretor da Unidade Acadêmica, Gilberto Borges Bortolini

Perfil do egresso O diretor da Unidade Acadêmica, Gilberto Borges Bortolini, destaca que o perfil do egresso da UPF está orientado para o desempenho profissional em serviços de saúde públicos ou privados, podendo atuar na atenção à saúde em diferentes níveis e locais, como unidades básicas de saúde (UBS), comunidade, ambulatórios gerais, clínicas de saúde, hospitais, urgência e emergências ou pronto-socorros que envolvam atenção à saúde. O egresso do curso também pode atuar de forma autônoma, em empresa própria, ou prestando consultoria, em pesquisa e saúde complementar. Bortolini explica que, para chegar ao perfil generalista, humanista, crítico, reflexivo e ético, e para atender às exigências legais, o curso passou por reformas curriculares sucessivas, contemplando as exigências do MEC, possibilitando a inserção precoce do aluno no sistema de atendimento à saúde e beneficiando a comunidade. O coordenador do curso, Jose

Ivo Scherer, enumera as diferentes possibilidades que contribuem com a formação do acadêmico, como a participação em estágios voluntários, cursos, minicursos e eventos comunitários, e nas atividades do Centro Universitário de Saúde Coletiva (Ceusc), que propicia atuação em feiras de saúde, oficinas de prevenção de doença e de promoção da saúde. Para atender à qualidade educativa, os investimentos são constantes nos processos de ensino, tais como na formação continuada dos docentes, na pesquisa , na extensão, na infraestrutura e na internacionalização, possibilitando aos acadêmicos a realização de intercâmbio em diferentes países. A graduação, sempre atenta à viabilização e à qualificação das práticas profissionais, mantém convênio com dois hospitais-escola, o São Vicente de Paulo e o da Cidade, em Passo Fundo, e com o Hospital de Caridade de Carazinho. Na estrutura, destacam-se, também, o Laboratório de Habilidades, os ambulatórios, as clínicas e a Biblioteca Biomédica.


Atenção primária: o desafio da saúde pública no Brasil

Garantir o direito à saúde universal, gratuita e de qualidade é um dever do Estado, compreendido pelos três entes federados que o compõem: Municípios, Estados e a União. Mas, foi somente a partir da Constituição Federal de 1988 que todo cidadão residente no Brasil passou a usufruir desta segurança estabelecida constitucionalmente. Autarquia federal, vinculado ao Ministério da Previdência e Assistência Social, o INAMPS foi criado pelo Regime Militar, em 1974, com a finalidade de prestar atendimento médico e odontológico aos trabalhadores – e seus dependentes – que contribuíam com a previdência social. Apesar de também ter estrutura administrativa criada, o Ministério da Saúde era integrado ao da Educação e não possuia financiamento próprio. Diante deste cenário, a crise econômica que afetou a Previdência nacional, na década de 1970, suscitou debates sobre a necessidade de se estabelecer uma política de

saúde que unisse a União aos Estados, descentralizando o financiamento. Era a base para a criação de um sistema que universalizasse o atendimento e que viria a se tornar, em 1988, por lei, mas com efeitos práticos a partir de 1990, o Sistema Único de Saúde (SUS). “Esse foi um grande avanço na história do nosso país, porque estabeleceu acesso gratuito, público e universal à saúde, que passou a ser considerada um direito de todo e qualquer cidadão. Mas, junto com o bônus vieram os ônus, porque o Brasil se tornou um dos poucos países, com mais de 100 milhões de habitantes, que adotou um sistema de saúde com acesso universal. O grande desafio, que surgiu a partir disto, foi a obtenção de um financiamento adequado para este sistema”, reconhece o professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), especialista em Medicina da Família e Comunidade e médico na Rede Pública de Saúde, Júlio Augusto de Souza Mota.,

Direito assegurado pela Constituição Federal, o atendimento integral e gratuito à saúde é uma das principais atribuições do Sistema Único de Saúde (SUS), criado praticamente junto com a Carta Magna do país, em 1988. De lá para cá, o maior convênio de saúde pública do mundo passou por diferentes fases, mas todas baseadas no mesmo problema: o financiamento da rede. Agora, além da questão econômica, o SUS enfrenta outro desafio ainda maior, que é o de melhorar e ampliar as assistências primárias à saúde apontando que a universalidade trouxe um problema tão grande quanto os benefícios, que é o do financiamento. “O subfinanciamento é uma doença crônica do SUS”. Mota destaca ainda que ao mesmo tempo em que se estabeleceu o SUS como referência, não se promoveu as ações iniciais previstas quando da sua criação, que era o fomento da rede de atenção básica e primária. “Historicamente, nunca tivemos uma rede assistencial organizada para dar conta dessa universalidade. E isso é perceptível em todos os setores, mas na atenção primária ela é muito mais evidente”, opina o profissional, ponderando que a forma de se fazer saúde pública no país ainda é recente, quando comparado a programas aplicados em outros países, sobretudo os desenvolvidos.

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Aumento da expectativa de vida amplia desafios da saúde pública

Foto: Clóvis S. Prates

Para o chefe do Serviço de Emergência de Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Ricardo Kuchenbecker, apesar da situação crônica de sub-financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) desde a sua criação, os avanços obtidos a partir da universalização dos serviços de saúde no país precisam ser ressaltados. “Os efeitos benéficos da sua implantação podem ser observados na redução das doenças infecciosas imunopreveníveis associadas às campanhas de vacinação, a redução da mortalidade infantil, o atendimento pré-hospitalar em situações de trauma, o atendimento das pessoas vivendo com HIV/aids, o acesso a medicamentos para doenças crônicas como diabetes e hipertensão, por exemplo”, enumera o médico. Kuchenbecker também avalia que as transformações sociais impõem novos desafios na ges-

tão do SUS, que necessita ser aperfeiçoado para atender as demandas que crescem em um ritmo maior do que a capacidade de prover recursos para satisfazê-las. “Há, no entanto, outros desafios: a transição demográfica foi muito rápida gerando maior percentual de idosos entre a população. Esta mudança impõe novos desafios assistenciais e de prevenção. Conciliar essa agenda com uma prioridade relacionada com a violência e os agravos gerados pelo trânsito não é fácil”, comenta ele, frisando que o aumento da expectativa de vida é um enorme desafio em termos de novas demandas assistenciais e de prevenção e também em relação aos custos. “A cronicidade de algumas doenças impõe uma reorganização no modelo de atendimento. É preciso construir alternativas à hospitalização”.

“Geramos internações em excesso, com tempo de permanência elevado, com descontinuidade no tratamento. Situações como essa ocorrem nos atendimentos públicos e privados”, fala o chefe do Serviço de Emergência do HCPA, Ricardo Kuchenbecker

O desafio da “eficiência institucional” Diante de um quadro econômico instável e deficitário, com queda na arrecadação de tributos, a saúde gaúcha entrou em crise. Hospitais filantrópicos e santas casas argumentam que a suspensão do pagamento de valores referentes aos meses finais de 2014 e a diminuição dos percentuais destinados às instituições em 2015 inviabilizam a prestação dos serviços. O governo, contudo, reforça que a situação econômica do Estado impede a renovação de contratos e o subsidiamento de acordos feitos

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ainda na gestão anterior. Médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), João Gabbardo dos Reis está diante de um dos maiores desafios de gestão posto a um titular da Secretaria Estadual de Saúde (SES): ajustar os recursos disponíveis com as demandas dos serviços essenciais – que crescem a revelia do orçamento. “Nosso objetivo é buscar uma melhor eficiência institucional, ampliando e qualificando a prestação de serviços ao cidadão. E iremos trabalhar incansa-

velmente para isso”, declara ele. Segundo o secretário de Saúde, em 2015, apesar de todas as dificuldades financeiras enfrentadas pelo Rio Grande do Sul, o governo manteve a aplicação dos 12% de sua receita na área da saúde, assim como a legislação determina. “O desafio é adequar esse orçamento com os nossos gastos. Um descompasso nessa relação foi o que acarretou com que nossa atual gestão arcasse com uma dívida muito grande com prestadores de serviços e fornecedores”, comenta Gabbardo.


Pilar estrutural no setor público A prefeita de Não-Me-Toque, Teodora Berta Souilljee Lütkemeyer, defende que a saúde pública compõe, ao lado da educação e da segurança, os pilares fundamentais e estruturantes de uma administração municipal. Por isso, no município conduzido pela gestora, a Secretaria de Saúde é uma das que mais articulam projetos e ações junto ao Executivo. “Trabalhamos muito focados em estabelecer padrões de gestão e qualidade no serviço que oferecemos para a nossa população. E a saúde é uma área em que não podemos medir esforços para atender as demandas”, comenta. Conforme Teodora, para prestar um atendimento qualificado toda a rede precisa estar capacitada. “E diante da situação econômica vivida por todos os municípios brasileiros torna-se imprescíndivel que possamos melhorar esse serviço sem elevar custos. A gestão eficiente dos recursos está entre as nossas primeiras prioriedades”, reforça ela, complementando que

diversas iniciativas estão sendo pondo em práticas para garantir a prática deste raciocínio. “Ainda em julho deste ano, iniciamos um curso envolvendo todos os servidores da Rede Municipal de Saúde. Em parceria com o SENAC, vamos realizar, até o mês de outubro, módulos de aperfeiçoamento profissional e técnico para mais de 100 servidores. Nós acreditamos que os maiores beneficiados disso serão os nossos municípes”. É pensando na população que a prefeita de Não-Me-Toque observa a necessidade de se aumentar a promoção de eventos e programas que sirvam de estímulo para a saúde preventiva. “Investir em prevenção é praticar uma política de longo prazo, porque os resultados são para o futuro. É, com certeza, uma preocupação nossa, porque muitos atendimentos de urgência e emergência podem ser evitados se conseguirmos trabalhar preventivamente”, reflete Teodora, destacando que essa é uma preocupação que vem ganhando espaço nas discussões em todos os municípios. “Os programas de

Prefeita de Não-Me-Toque destaca que investir em atenção básica de saúde é trabalhar pensando no futuro da população

Estratégias de Saúde da Família (ESF’s) são relativamente recentes e, por isso, ainda precisam ser incentivados, sobretudo no que diz respeito a mudança de cultura e comportamento da própria população, porque se criou o hábito de as pessoas irem até os hospitais para qualquer sintoma, quando poderiam encontrar este mesmo atendimento nas unidades de saúde próximas de sua residência”.

Mais de 38 mil atendimentos em um ano Responsável por executar as ações em saúde planejadas em conjunto com a prefeita, o secretário de Saúde de Não-Me-Toque, Marco Antonio da Costa, reforça a intenção de promover ações em saúde preventiva e destaca que o município tem investido não apenas na Atenção Básica, mas também em outras esferas com o objetivo de melhorar os serviços oferecidos a população. “Muitos dos nossos programas são postos em prática já com a ótica da prevenção. Podemos citar, por exemplo, as academias

de Saúde, o programa de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e os grupos de doentes crônicos (diabéticos/hipertensos/depressivos), além dos cuidados com gestantes e idosos e um grande programa de saúde bucal, lançado nas escolas em 2015”, enumera o secretário, analisando que “a saúde preventiva visa não apenas a prevenção de doenças, mas também a melhora da qualidade de vida das pessoas”. Com uma população total estimada em 16.894 habitantes, a Rede de Atenção Básica Muni-

cipal realizou, em 2014, 38 mil consultas médicas. Ainda de acordo com Costa, ainda foram realizados 32 mil exames laboratoriais; 5.411 vacinas aplicadas; 25 mil visitas domiciliares por agentes de saúde e 1.275 viagens para outros municípios para transportar 8.531 pacientes. “Em medicamentos, o Município investiu R$ 760.000,00 e mais de R$ 1.500.000,00 foram aplicados em melhorias na infraestrutura de janeiro de 2013 a maio de 2015”, finaliza o secretário.

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Crescimento acelerado desafia sustentabilidade da saúde suplementar Foto: Divulgação/Unimed do Brasil

Administrar um setor em que as demandas crescem em descompasso com os recursos financeiros disponíveis para supri-lás é um desafio para todo gestor. Assim como a rede pública de saúde enfrenta problemas de financiamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a suplementar também experimenta um cenário de dificuldades econômicas no qual o aumento exponencial do número de pessoas conveniadas acendeu o alerta dos planos de saúde. Para o vice-presidente da Unimed do Brasil, uma das maiores redes de assistência médica do país, congregando mais de 350 cooperativas e prestando atendimento para mais de 20 milhões de pessoas, Orestes Barrozo Medeiros Pullin, é preciso concentrar esforços na sustentabilidade da saúde suplementar, rediscutindo o modelo de remuneração para os profissionais médicos e incentivando o desenvolvimento de um programa estrutural, eficaz e moderno que atue na prevenção da atenção básica, a exemplo do que acontece em países Europeus. “Nos últimos anos, o crescimento bastante significativo do número de novas adesões fez com que os planos de saúde tivessem um aumento também expressivo nas despesas, inclusive acima dos índices inflacionários”, relata ele, complementando que as operadoras estão “praticamente andando em círculos, porque precisam atender a demanda crescente da

população, adequando os serviços às mudanças ocorridas no perfil epidemiológico de algumas doenças e na expectativa de vida dos segurados, que está bem maior no Brasil”. Pullin reforça que acompanhar os avanços tecnológicos e as suas implicações na elevação dos custos operacionais e de procedimentos é outro ponto que precisa ser discutido neste processo. “Os aumentos nas tarifas dos planos tem respeitado uma lógica que mostra o quanto as despesas também estão maiores, porque há uma série de questões que estão relacionadas nesta conta”, observa, frisando que a manutenção sustentável de toda essa cadeia é a preocupação mais latente das operadoras no país.

Para o vice-presidente da Unimed do Brasil, Orestes Barrozo Medeiros Pullin, é preciso concentrar esforços na sustentabilidade da saúde suplementar

Para o vice-presidente da Unimed do Brasil, Orestes Barrozo Medeiros Pullin, a ascensão social das classes C e D é um dos fatores que estimulou a ampliação do número de pessoas com acesso aos planos de saúde: em 2005, eram 35,4 milhões de brasileiros atendidos. No final do ano passado, a ANS contabilizava 50,8 milhões de usuários

*Fontes: ANS

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