Tudo o que a floresta produz - OpCP49

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Opiniões www.RevistaOpinioes.com.br ISSN: 2177-6504

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira ano 14 • número 49 • Divisão F • set-nov-2017

tudo o que a floresta produz




tudo o que a floresta produz

índice

Editorial de abertura:

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Pedro Duschenes e Gustavo Utrabo Diretores da Aleph Zero Arquitetura

Ensaio especial:

52

Moacir José Sales Medrado

Diretor Geral da Medrado e Consultores

Novos produtos:

41 43 46

Desireé Soares da Silva

Pesquisadora Industrial do ISI-Biomassa

Leonardo Pimenta e Tiago Segura Gerentes da Eldorado Brasil

Energia da biomassa florestal:

Biorrefinarias:

8 11 14 16 19 22 24

Ticiane Rossi e José Otávio Brito

Jorge Colodette e Fernando Borges Gomes Professor da UF-Viçosa e UF-Rural do Rio de Janeiro

Washington Luiz Esteves Magalhães Pesquisador da Embrapa Florestas

Celso Edmundo Bochetti Foelkel

Mônica Caramez Triches Damaso Pesquisadora da Embrapa Agroenergia

Vinicius Lobosco

Pesquisador Senior de Biorrefinarias da Suzano

Patrícia Raquel Silva Zanoni

48 50

32 34

Gerente de Produto e Processo da Fibria

Angélica de Cássia Oliveira Carneiro

Professora de Energia da Madeira da UF-Viçosa

Francides Gomes da Silva Júnior

Professor de Tecnologia de Celulose da Esalq-USP

Hjalmar Fugmann

Presidente da Voith Paper América do Sul

Carvão vegetal:

Pesquisadora da Embrapa Florestas

Paulo César Pavan

Gerente de Planejamento Florestal da Duratex

Celulose e papel:

Consultor e Escritor Especialista em Florestas

Madeiras nobres:

Pós-doutoranda da USP e Diretor Exec do IPEF

27 30

Anderson Lins Machado

36 39

Roosevelt de Paula Almado

Gerente Pesquisa Florestal ArcelorMittal BioFlorestas

Adriana Maugeri

Diretora Executiva da AMS

Sylvio de Andrade Coutinho

Presidente da Floresteca Agroflorestal

Ricardo Ribeiro Tavares Presidente da ABPMA

Editora WDS Ltda e Editora VRDS Brasil Ltda: Rua Jerônimo Panazollo, 350 - 14096-430, Ribeirão Preto, SP, Brasil - Pabx: +55 16 3965-4600 - e-Mail Geral: Opinioes@RevistaOpinioes.com.br n Diretor Geral de Operações e Editor Chefe: William Domingues de Souza - 16 3965-4660 - WDS@RevistaOpinioes.com.br nAssistente do Editor Chefe: Carolina Damico Maranho Silli - 16 3965-4660 - CS@RevistaOpinioes.com.br nCoordenadora Nacional de Marketing: Valdirene Ribeiro Souza - Fone: 16 3965-4606 - VRDS@RevistaOpinioes.com.br nVendas: Lilian Restino - 16 39654696 - LR@RevistaOpinioes.com.br • Priscila Boniceli de Souza Rolo - Fone: 16 99132-9231 - boniceli@globo.com nJornalista Responsável: William Domingues de Souza - MTb35088 - jornalismo@ RevistaOpinioes.com.br nProjetos Futuros: Julia Boniceli Rolo - 2604-2006 - JuliaBR@RevistaOpinioes.com.br nProjetos Avançados: Luisa Boniceli Rolo - 2304-2012 - LuisaBR@RevistaOpinioes. com.br nConsultoria Juridica: Priscilla Araujo Rocha nCorrespondente na Europa (Augsburg Alemanha): Sonia Liepold-Mai - Fone: +49 821 48-7507 - sl-mai@T-online.de nExpedição: Donizete Souza Mendonça - DSM@RevistaOpinioes.com.br nCopydesk: Carolina Damico Maranho Silli - 16 3965-4660 - CS@RevistaOpinioes.com.br nEdição Fotográfica: Priscila Boniceli de Souza Rolo - Fone: 16 99132-9231 - boniceli@globo.com nTratamento das Imagens: Luis Carlos Rodrigues, Careca - LuisCar.Rodrigues@gmail.com - 16 98821-3220 nFinalização: Douglas José de Almeira nArtigos: Os artigos refletem individualmente as opiniões pessoais sob a responsabilidade de seus próprios autores nFoto da Capa: Acervo Revista Opiniões nFoto do Índice: Acervo Revista Opiniões nFotos das Ilustrações: Paulo Alfafin Fotografia - 19 3422-2502 - 19 98111-8887- paulo@pauloaltafin.com.br • Ary Diesendruck Photografer - 11 3814-4644 - 11 99604-5244 - ad@arydiesendruck.com.br • Tadeu Fessel Fotografias - 11 3262-2360 - 11 95606-9777 - tadeu.fessel@gmail.com • Acervo Revista Opiniões e dos específicos articulistas nFotos dos Articulistas: Acervo Pessoal dos Articulistas e de seus fotógrafos pessoais ou corporativos nVeiculação Comprovada: Através da apresentação dos documentos fiscais e comprovantes de pagamento dos serviços de Gráfica e de Postagem dos Correios nTiragem Revista Impressa: 4.000 exemplares nExpedição Revista eletrônica: 11.000 usuários cadastrados - Cadastre-se no Site da Revista Opiniões e receba diretamente em seu computador a edição eletrônica, imagemn fiel da revista impressa nPortal: Estão disponíveis em nosso Site todos os artigos, de todos os articulistas, de todas as edições, de todas as divisões das publicações da Editora WDS, desde os seus respectivos lançamentos nAuditoria de Veiculação e de Sistemas de controle: Liberada aos anunciantes a qualquer hora ou dia, sem prévio aviso nHome-Page: www.RevistaOpinioes.com.br South Asia Operation: Opinions Magazine-India: Specific publication on agricultural, industrial and strategic issues of Indian regional market. Editorial language: English. Advertising language: English and Hindi n Business Researcher: Marcelo Gonçalez - +91 9559 001 773 - MG@RevistaOpinioes.com.br nMarketing Researcher: Eliete Aparecida Alves Goncalez - +91 9580 824 411 - EG@RevistaOpinioes. com.br nChief Editor Assistant: Gabrielle Gonçalez - +91 9580 824 411 - GG@RevistaOpinioes.com.br n

Conselho Editorial da Revista Opiniões: ISSN - International Standard Serial Number: 2177-6504 Divisão Florestal: • Amantino Ramos de Freitas • Antonio Paulo Mendes Galvão • Celso Edmundo Bochetti Foelkel • João Fernando Borges • Joésio Deoclécio Pierin Siqueira • Jorge Roberto Malinovski • Luiz Ernesto George Barrichelo • Marcio Nahuz • Maria José Brito Zakia • Mario Sant'Anna Junior • Mauro Valdir Schumacher • Moacir José Sales Medrado • Nairam Félix de Barros • Nelson Barboza Leite • Roosevelt de Paula Almado • Rubens Cristiano Damas Garlipp • Sebastião Renato Valverde • Walter de Paula Lima Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Manoel Carlos de Azevedo Ortolan • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Paulo Roberto Gallo • Pedro Robério de Melo Nogueira • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Roberto Isao Kishinami • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano



editorial de abertura

utilização da madeira na arquitetura O uso de uma determinada técnica está atrelado à disponibilidade de material, aos problemas climáticos encontrados e à rede capaz de coletar/produzir e distribuir os elementos necessários. Quanto melhor o resultado em termos estéticos e ambientais, mais precisa é a conexão entre problema, material e técnica. A madeira como elemento construtivo primordial é um exemplo claro dessa lógica. Pode-se intuir uma relação psicológica quase ancestral com a imagem da árvore. Ela é a síntese daquilo que provê ao ser humano alimento e proteção, que surge do solo úmido como que por mágica e que pode ser facilmente conformada em abrigo. Em 2013, surgiu a oportunidade de explorarmos mais intensamente a madeira na arquitetura com o convite de Marcelo Rosenbaum para o projeto das novas moradas dos alunos de internato – vindos de pontos distantes em torno de Formoso do Araguaia, estado do Tocantins – da Escola de Canuanã, mantida pela Fundação Bradesco. O passo inicial configurou-se através de um olhar imersivo sobre as relações imanentes, principalmente: quem eram os habitantes locais e como respondiam aos desafios climáticos existentes. Em nossa primeira visita à Ilha do Bananal, entre o Rio Araguaia e Javaés, importante reserva ecológica ao sul do estado do Tocantins, nos deparamos com tradições construtivas distintas e de tempos sobrepostos: a materialidade vegetal da habitação indígena, a taipa de mão do vernacular rural disseminado pela colonização portuguesa, e a construção de alvenaria e vidro da capital moderna. A casa do indígena é a resposta intrincada à natureza local.

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Ela é construída com o ritmo e a linha ortogonal do tronco de madeira disponível e a leveza da trama da folha e da palha de buriti, mas sua substância principal é a sombra e o vento. É através desses elementos que a construção indígena responde ao rigor do clima quente e úmido: a sombra protege do sol e o vento sopra o calor do corpo. Seu desenvolvimento é gradual ao longo de milhares de anos, pois é fundado em um princípio de não separação: cultura x natureza x religião. Assim, uma modificação em determinado elemento significa a reestruturação dos demais, o que implica em uma conexão muito grande entre comunidade, material disponível e os desafios climáticos presentes. Por sua vez, o pequeno produtor rural, constrói sua casa com métodos trazidos pelos colonizadores portugueses, mas também com influência dos materiais e técnicas indígenas. Sua habitação combina terra e madeira, tanto na solução híbrida da taipa de mão, na qual o barro é combinado a uma trama leve quanto na parede de adobe (tijolo de barro seco ao sol) travada estruturalmente com elementos em madeira que suportam muitas vezes uma cobertura de palha ou de folha de palmeira. Apesar do uso de técnicas de origem estrangeira, as casas apresentam microclima interno agradável, pois o barro cru possui bom isolamento, elevada inércia térmica, e permite que as paredes “respirem”, auxiliando no controle da temperatura e umidade. Apesar da relação positiva entre técnica construtiva e local, essas técnicas vernaculares são vistas pela população em geral como atraso, em preferência por outros elementos entendidos como progresso, caso do concreto, do aço, do vidro e do ar condicionado. O não entendimento do correto uso de cada material leva ao preconceito frente às técnicas mais antigas, mesmo que as novas não se adequem de maneira eficiente trazendo problemas de conforto térmico e maior impacto ambiental.

Pedro Duschenes e Gustavo Utrabo Diretores da Aleph Zero Arquitetura

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Opiniões Outro desdobramento de nossa exploração no uso de materiais e da interação entre limites percebidos, ocorreu em 2014 quando projetamos uma residência localizada no interior de São Paulo, na qual combinou-se o uso da madeira ao do aço. Nesse caso, ambos operam como elemento estrutural em um sistema misto, mas a madeira assume função importante de composição atmosférica permeando soluções diversas da casa: piso (assoalho), esquadria (portas e janelas), revestimento de parede (lambril) e mobiliário (bancadas, mesas e cadeiras). Através da combinação, objetivou-se criar tensão entre meios entendidos como naturais e aqueles aparentemente artificiais como o aço dos pilares, vigas e gradis. Buscamos compreender o caráter emocional que o material poderia propiciar ao espaço, assim, ao longo do projeto, houve grande interação relativa aos locais que seriam articulados pela madeira e aqueles nos quais sobressairia a estrutura em aço. No térreo, o forro foi suprimido, deixando-se o steel deck aparente em contraste com os barrotes de madeira que o suportam. Os elementos verticais posicionados ao longo do percurso foram reforçados pela presença da madeira acoplada ao pilar em cruz, de modo a criar-se um ritmo de marcação do módulo de 4,90 m. Na cota do primeiro pavimento, optou-se por usar na estrutura somente elementos metálicos reforçando a separação entre um térreo naturalizado e um pavimento superior artificial, que flutua sobre um plano de vegetação alinhado à cota mais alta da rua. Essas experiências apontam caminhos diversos nos quais a madeira pode aparecer como elemento extremamente versátil, eficiente e belo. Trata-se de um material intimamente ligado à história humana e com potencial imenso de desenvolvimento futuro e de mitigação dos impactos causados pela construção civil, uma vez que sua produção seja amplamente planejada e fiscalizada. A tecnologia disponível e os sistemas construtivos em desenvolvimento, nos entusiasmam a explorar cada vez mais intensamente essa técnica em novas configurações e escalas diversas. n

Pode-se intuir uma relação psicológica quase ancestral com a imagem da árvore. Ela é a síntese daquilo que provê ao ser humano alimento e proteção, que surge do solo úmido como que por mágica e que pode ser facilmente conformada em abrigo. "

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Leonardo Finotti

É nesse cenário, de conflito entre os diversos tempos, que se deve atuar. Pareceu-nos indispensável, constituir arquitetonicamente uma conversa entre o mundo indígena, o do produtor rural, o contemporâneo ocidental e, principalmente, o mundo da criança para quem o edifício deveria adquirir status de lar. Em um processo colaborativo com estudantes, professores, pais e funcionários, propôs-se uma grande cobertura na qual se distribuem ao redor de pátios, os programas de moradia no térreo e estudo/lazer no pavimento superior. A cobertura em telha termo-acústica é sustentada por estrutura de vigas e pilares em madeira laminada colada, com módulo 5,90 x 5,90 m. É a estrutura de madeira a principal articuladora dos elementos de marcação do espaço que cria a transição gradual entre dentro e fora. Sob a grande sombra, o pavimento superior utiliza fechamentos leves em madeira ripada, enquanto o térreo caracteriza-se por paredes em solo-cimento (fabricado no próprio local) cujo travamento se dá em conexão com a estrutura em madeira. A estratégia adotada cria uma edificação que trabalha com o vento e a sombra como elemento de resfriamento e o bloco de solo cimento como isolamento e inércia térmica, assim como proteção e abrigo. Sob o ponto de vista construtivo, desde o principio se trabalhou com a madeira como elemento estrutural, norteando pré-dimensionamentos e soluções, uma vez que a usina de concreto mais próxima ficava distante, a pelo menos 50 km da obra. A estrutura em madeira laminada colada, usinada e instalada pela ITA Construtora, permitiria ainda, uma solução pré-fabricada de grande agilidade de montagem de forma a diminuir o tempo de obra. A solução torna-se ainda mais pertinente ao comparar-se o índice de energia incorporada e emissão de carbono na produção da madeira em relação ao aço e concreto. Dessa forma, além do atendimento ao programa, a obra atende a funções distintas: demonstrar a validade das técnicas presentes na região, de modo que se olhe para as mesmas como avanços e não como atraso; e possibilitar, no uso do edifício, o diálogo entre tempos e mundos distintos.


biorrefinarias

Opiniões

oportunidades de integração O grande desafio da civilização para se tornar uma sociedade mais sustentável está não somente na intensificação do uso de recursos renováveis em substituição aos combustíveis fósseis, mas também em como utilizá-los de forma racional e integral. Nesse contexto, surge o conceito de biorrefinaria, que visa a conversão de biomassas em uma gama de produtos, tendo como premissas o baixo desperdício e as mínimas emissões. Esse conceito é idealmente aplicado à indústria que processa matérias-primas obtidas de fontes renováveis (cana-de-açúcar, madeira, bambu, etc.) em produtos de maior valor agregado (combustíveis avançados, materiais e produtos químicos). Esse conceito é, portanto, análogo ao praticado nas refinarias convencionais, as quais obtêm múltiplos produtos a partir do petróleo. Assim como o que ocorre nas petroquímicas, ao se obter múltiplos produtos a partir de uma matéria prima em comum, há uma maximização do valor desta, o que aumenta a sustentabilidade industrial e também colabora para a saúde financeira dos empreendimentos. Uma visão comum dos setores acadêmicos e industriais é a de que um dos segmentos mais adequados à implantação das plataformas de biorrefinaria é a indústria de polpa celulósica, pelo fato de possuir grande experiência e consolidadas tecnologias na produção, colheita, transporte, armazenamento e no processamento de grandes volumes de biomassa lignocelulósica (madeira).

Além disso, as unidades industriais de conversão da madeira em polpa celulósica já possuem a infraestrutura para a desconstrução da biomassa por processos químicos que estão dentro de padrões e normas consolidados internacionalmente. Mas, para que a indústria de polpa celulósica se transforme de fato em uma plataforma de biorrefinaria, ainda é necessário modificá-la, tornando a sua infraestrutura ainda mais complexa e convertendo-a em uma verdadeira unidade de desconstrução de biomassas com múltiplas possibilidades e rotas tecnológicas. Baseando-se no modelo de uma indústria de polpa celulósica, na qual a madeira é a principal matéria-prima, é possível criar um exemplo de plataforma de biorrefinaria, que contemple mínimas perdas de biomassas e obtenção de múltiplos produtos. Para isso, toda a logística de industrialização da madeira deve ser contemplada, incluindo usos de resíduos oriundos da colheita e do pré-processamento da madeira, bem como resíduos dos processos fabris. Envolvendo assim, a composição majoritária da madeira – celulose, hemiceluloses, lignina e extrativos – e os potenciais usos de seus componentes, utilizando-se do conceito da biorrefinaria florestal. O aproveitamento integral da madeira já começa na colheita florestal na qual uma fração significativa de resíduos (pontas, galhos, cascas etc.), hoje mal aproveitados, poderá render produtos de alto valor agregado.

inúmeras aplicações de alto valor têm encorajado empresas a investirem em instalações para extração de lignina do licor negro kraft mundo afora "

Jorge Luiz Colodette e Fernando José Borges Gomes

Professor Titular da UF-Viçosa e Professor Produtos Florestais da UF-Rural do Rio de Janeiro, respectivamente

No pré-processamento da madeira são também geradas quantidades substanciais de resíduos que hoje são utilizados para produção de vapor/energia por queima direta, mas que teriam potencial para aplicações de maior expressão. Os cavacos industriais como conhecemos hoje, ou de uma outra forma e tamanho, a depender do processo de desconstrução de biomassa escolhido, ;

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PONSSE ELEPHANTKING

EFICIÊNCIA IMBATÍVEL O FORWARDER PONSSE ELEPHANTKING é projetado para condições extremamente exigentes e para as cargas mais pesadas. Com uma força de tração imbatível, um poderoso motor, e a surpreendente capacidade de carga de 20 toneladas. O forwarder PONSSE ElephantKing garante transporte eficiente da madeira em áreas planas e locais difíceis, com grande declividade, e em longas distâncias.

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biorrefinarias passarão por uma unidade de desconstrução com vistas a separar de maneira pura os principais componentes da madeira. Essa unidade seria o coração da unidade industrial, mas até o presente não existe uma técnica concreta e eficiente para vencer tal desafio. As técnicas conhecidas e comprovadas de polpação da madeira, que são basicamente aquelas desenvolvidas no curso de mais de 100 anos de pesquisas, certamente não fazem muito bem a separação completa dos componentes da madeira. Ao fazê-la de maneira ineficiente, deixam grandes quantidades de resíduos que podem, em princípio, ser aproveitados de forma eficaz, utilizando-se do conceito de biorrefinaria. Naturalmente, as técnicas de separação dos componentes da madeira têm evoluído muito nos últimos anos com o desenvolvimento dos líquidos iônicos, dos solventes eutéticos (DES) e outros solventes verdes tais como a gama valerolactona (GVL), com enorme potencial de separar os componentes da madeira de forma seletiva, porém ainda figuram como promessas. Uma vez desenvolvidas técnicas seletivas de separação dos componentes principais da parede celular, seria em princípio possível praticar os mesmos conceitos hoje empregados nas petroquímicas, tendo como material base a madeira em vez do petróleo. No caso da celulose, o componente principal da parede celular, é possível a obtenção de materiais em escalas micrométricas e nanométricas tais como filamentos de celulose (CF), celulose nanofibrilada/microfibrilada (CMF/CNF) tradicional e modificada por oxidação (TCMF/TCNF) e por lignina (LCMF/LCNF), celulose nanocristalina (CNC), etc. Por outro, com uma celulose mais pura seria possível avançar para além de seus derivados tradicionais tais como éteres, ésteres e xantatos utilizados na indústria têxtil e de filamentos, ampliando-se largamente o uso da celulose de madeira na indústria têxtil. Os grandes avanços, porém, deverão surgir na utilização da celulose como uma fonte de glicose para inúmeras aplicações na indústria química, com a produção de produtos de alto valor agregado tais como os químicos (GVL, HMF, ácidos succínico, levulínico, lático e propiônico, aerogéis), e também produtos de menor valor agregado tais como os biocombustíveis (etanol, butanol e biojet fuel). Das hemiceluloses, quando extraídas na forma polimérica, será possível preparar aditivos para a fabricação de papel, produzir biofilmes, carboximetilxilanas, hidrogéis, etc. Quando extraídas na forma monomérica/oligomérica as hemiceluloses podem ser usadas na fabricação de produtos químicos de alto valor tais como furfural (um produto que não é fabricado de derivados de petróleo), xilitol e outros produtos químicos valorosos. Por outro lado, os oligômeros derivados de hemiceluloses podem ser usados em aplicações de alto valor nas indústrias farmacêutica e nutracêutica. Monômeros de hemiceluloses tais como xiloses, manoses e galactoses podem também ser usados na fabricação de biocombustíveis. A lignina, por sua vez, já ocupa um papel de destaque nas estratégias de biorrefinaria, principalmente devido ao seu amplo espectro de utilização e grande volume de estudos já realizados.

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Para alguns tipos de lignina, como a obtida pelo processo de polpação sulfito e denominada de lignosulfonatos, já há um mercado consolidado com “1001” aplicações. Para a lignina kraft há também uma grande possibilidade de aplicações que contemplam usos na obtenção de materiais (fibras de carbono, carbonos técnicos, bioplásticos, adesivos, etc.), produtos químicos (lignosulfonatos e dispersantes, fenóis, BTX, etc.), combustíveis (syngas, bio-óleos, bioquerosene, etc.) e como ligante na produção de materiais energéticos (pellets, briquetes, etc.), por exemplo. Essas inúmeras aplicações de alto valor têm encorajado empresas a investirem em instalações para extração de lignina do licor negro kraft mundo afora, com três unidades já em funcionamento e uma em fase de construção no Brasil, com previsão para o ano de 2018. Note que para fazer tantos produtos a partir da lignina kraft é necessário que ela seja grandemente modificada, utilizando-se técnicas de fracionamento e purificação, despolimerização, remoção de odor, remoções de sódio e enxofre, descoloração, melhoria de solubilidade, etc. Muitos avanços científicos são ainda necessários para viabilizar a lignina em grande escala. Por fim, os extrativos também possuem uma ampla gama de utilizações já consolidadas no mercado, bem como possibilidades de novas aplicações, e isso se deve principalmente à sua composição química muito complexa e variada (ácidos graxos, terpenos, álcoois, açúcares, etc.). Exemplos de algumas classes de extrativos que já possuem aplicações industriais são a terebintina, breu, taninos, suberina, látex, etc. Com novos produtos a serem obtidos dos extrativos, por exemplo, é possível a obtenção de biocombustíveis como o biodiesel. Na verdade, existe uma planta em operação na Finlândia produzindo o biodiesel (BioVerne) a partir do tall oil extraído de madeiras de coníferas, cuja resina permite também a obtenção do dimetil éter (DME). O DME poderá ser um importante substituto para o diesel derivado do petróleo. Outros produtos de grande valor obtido das resinas de coníferas são os ácidos graxos e resinosos que, quando separados, podem gerar produtos de altíssimo valor agregado. Álcoois graxos são também de grande valor para a indústria de cosméticos e farmacêutica. A venda do CTO (tall oil cru) proveniente das madeiras de coníferas – popular sabão –, é uma prática da nossa indústria que precisa ser evitada, em favor de usos mais tecnológicos. De fato, o que observamos hoje junto à indústria de polpa celulósica é um olhar atento a todas as possibilidades que a integração das plataformas de biorrefinaria pode proporcionar, já sinalizado por meio de plantas demonstrativas e até mesmo em escala industrial, somando esforços para aumentar a eficiência energética e minimizar perdas; contudo, essas iniciativas são ainda muito isoladas e fechadas. Espera-se que, em um futuro próximo, as indústrias de polpa celulósica possuam uma tecnologia mais aberta, focando em parcerias que tenham premissas inovadoras e possam promover um uso mais eficiente dos recursos renováveis, incluindo o uso de todas as perdas potenciais e a obtenção de produtos de alto valor agregado que maximizem o retorno e a sustentabilidade dos empreendimentos.n


Opiniões

lignina e nanocelulose A nova tendência para o futuro é a bioeconomia, que é assentada sobre os conceitos de biorrefinaria. A biorrefinaria consiste em um conjunto de operações unitárias e de processos para aproveitar os constituintes da biomassa e produzir não apenas biocombustíveis, mas também produtos e substâncias da química verde. A maioria das pesquisas em biorrefinaria é focada na desconstrução da biomassa vegetal complexa e, em seguida, na construção de novas moléculas úteis como combustíveis (bioetanol, biodiesel, etc.), químicos (vanilina, ácido succínico, etc.), e produtos (nanocelulose, compósitos, etc.). Em geral, a biorrefinaria produz um grande volume de produtos de baixo valor agregado que ajudam a manter a escala de produção; e muitos produtos em pequeno volume, mas de alto valor agregado, que podem aumentar e viabilizar a rentabilidade da biorrefinaria. No Brasil, um dos candidatos naturais a fazer parte dessa tendência é a indústria de papel e celulose, que, atualmente, já podem ser consideradas uma biorrefinaria incompleta.

a qual já tem um mercado enorme, sendo empregada em produtos como papel e embalagens, tintas, explosivos, tecidos, entre outros. Todavia, esse outro recurso natural sustentável, a lignina, tem sido usado principalmente para a geração de energia. Para ser considerada uma biorrefinaria, uma indústria de polpação de madeira deverá, entre outras opções, começar a produzir outras substâncias químicas a partir da lignina. Não apenas para seguir uma tendência, mas principalmente para melhorar a sua rentabilidade. Muitos pesquisadores no mundo todo e também empresas têm empenhado esforços para aumentar o leque de produtos que essa lignina pode oferecer. Com certeza muitas opções podem ser vistas em artigos científicos nacionais e internacionais. As abordagens são as mais distintas e ; criativas.

até dois anos atrás, sempre foi voz corrente no setor empresarial que se podia fazer tudo com a lignina, menos obter lucro "

Washington Luiz Esteves Magalhães Pesquisador na Embrapa Florestas

A polpa de celulose é o principal produto dessas fábricas. A celulose é o polímero natural mais abundante na natureza e está presente principalmente nos vegetais. Industrialmente, sua maior fonte são os plantios florestais. Entretanto, existe outro polímero natural – em segundo maior volume na natureza – que também ocorre nas plantas, porém formado por anéis fenólicos, distinto da celulose. Uma indústria de polpação tem como maior objetivo separar a lignina da celulose,

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biorrefinarias Porém, até dois anos atrás, sempre foi voz corrente no setor empresarial que se podia fazer tudo com a lignina, menos obter lucro. Esse problema parecia particularmente pior para o principal processo que usamos no País, o kraft (cozimento alcalino com sulfeto). Essa lignina técnica não é solúvel em água e dificulta o desenvolvimento de novos produtos e químicos por uma reação química mais simples e econômica. Chamaremos essa lignina técnica apenas por lignina, embora ela não seja exatamente como a encontramos nos vegetais. Entretanto, a criatividade humana parece não conhecer barreiras e o desafio foi abraçado com paixão. Processos de precipitação dessa lignina a partir do licor negro – nome vulgar dado ao líquido com alta alcalinidade formado após a polpação da madeira –, alguns já comerciais e outros modificados em escala piloto ou de laboratório trouxeram novas perspectivas. A purificação dessa lignina, por precipitação seletiva ácida ou por solventes, tem permitido separar as moléculas de lignina e, dessa forma, propor aplicações de maior valor agregado. Esse recurso natural tem encontrado aplicações das mais surpreendentes, desde a substituição parcial ou total de fenóis em adesivos, passando por aditivos antioxidantes e surfactantes, até aplicações em áreas como exploração de poços de petróleo. Um grupo de pesquisa, do qual fazemos parte, está estudando, por exemplo, novas aplicações como medicamentos contra o câncer e também outras aplicações no agronegócio para substituir alguns agroquímicos. Ou seja, é possível que haja aplicações em larga escala e também em pequena escala com altíssimo valor agregado. Mesmo a celulose, principal produto nessa indústria, pode encontrar novas aplicações surpreendentes. Com o avanço da nanotecnologia, as fibras de celulose podem ter suas dimensões reduzidas de tal sorte que suas propriedades já tão conhecidas sofram incríveis transformações. Existem, até o momento, três principais maneiras de se diminuir as dimensões das fibras: usando-se ácido forte (ou enzimas) para hidrolisar parcialmente as regiões mais sensíveis da celulose; dissolvendo em solventes especiais e fazendo uma eletrofiação; e, finalmente, uma desfibrilação mecânica. O método de hidrólise ácida controlada foi o primeiro processo a ter um aumento de escala industrial, realizado por uma empresa canadense. A eletrofiação ainda não passou de uma pequena escala piloto, mas já provou ser possível tecnicamente. E, em nossa opinião, a desfibrilação mecânica de fibras de celulose será a que vai ter o maior impulso e crescimento, já com diversos investimentos, até mesmo no Brasil, por grandes empresas. É um processo de fácil escalonamento e também o mais sustentável.

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Opiniões A celulose pode ser produzida por vários métodos mecânicos, sendo uns mais eficientes em energia e outros menos. Também pode ter a adição de substâncias químicas ou enzimas, resultando em produtos que já estão sendo chamados de CNF, MFC, ou celulose nanofibrilada, dependendo do processo usado na fabricação, mas ainda não se chegou a um consenso sobre a nomenclatura. O grande charme do mundo nanométrico, em que os materiais têm dimensões da ordem de 10-9 do metro, advém da energia superficial dos objetos. Quanto menor o tamanho, maior será a quantidade de moléculas na superfície quando comparadas às que ficam no interior. E isso causa uma mudança surpreendente de comportamento desses materiais, a ponto de eles não mais se parecerem com o mesmo material em uma escala macroscópica. Essa mudança pode ser de uma simples cor, de propriedades elétricas, magnéticas, dureza, química, etc. E, claro, essa alteração de comportamento causa uma dificuldade enorme de manipulação desses objetos para que consigamos aproveitar no desenvolvimento de novos produtos, que exige uma tecnologia especial chamada de nanotecnologia. No caso da nanocelulose, por exemplo, é muito difícil mantê-la em tamanho tão reduzido sem o auxílio de um meio líquido. Isso dificulta sua manipulação quando desejamos reforçar materiais que não têm afinidade com água, por exemplo, no reforço da maioria dos polímeros termoplásticos. Mas, por outro lado, aumenta a segurança das pessoas e do meio ambiente no manuseio desse material. As aplicações já estão surgindo e a primeira delas é no reforço de papel, principalmente de embalagens. Mas provavelmente veremos aplicações em alimentos, como parte de embalagem comestível, controladores de viscosidade e também como alimento funcional por permitir melhora do trato intestinal e ajudar – como toda fibra – na diminuição de colesterol, triglicerídeos e glicose. Aplicações médicas estão surgindo em muitos laboratórios, existem muitas pesquisas em que essa celulose é aplicada como um molde biodegradável para o crescimento de células tronco. No setor eletroeletrônico muitas são as pesquisas, desde supercapacitores a telas flexíveis de televisores e filmes condutores. Em nosso grupo já trabalhamos com liberação lenta de biocidas e de fertilizantes, operação de grande aplicação no agronegócio. Mas, claro, as aplicações e possibilidades não param por aqui. A imaginação é o limite. Enfim, esses recursos sustentáveis, lignina e celulose, estão disponíveis e temos que desenvolvê-los para aumentar a lucratividade de nossas empresas do setor de base florestal, aproveitando aquilo em que nós somos imbatíveis, os mais eficientes produtores de biomassa florestal do planeta. n



biorrefinarias

biorrefinarias integradas: ficção ou realidade? Há quase duas décadas, o setor brasileiro de produção de celulose e papel incorporou e tem praticado os necessários e desejados conceitos em busca da sua sustentabilidade. Entretanto, em anos mais recentes, esse conceito se expandiu no setor, pela introdução da visão da sustentabilidade do negócio ou da empresa dentro de seu pilar econômico. Essa preocupação com o futuro do negócio tem seus justificados motivos. O setor sempre tem convivido com eventuais crises de excesso de oferta de seus produtos, que acabam refletindo-se em deteriorações de preços de venda, os quais acabam oscilando entre picos e vales. Também a se somar a isso, tem ocorrido significativa redução nos mercados de alguns tipos de papéis como:

jornais, impressão e escrita, alguns papéis especiais (cigarros e rótulos), etc. Os impactos das tecnologias em mídia digital e os padrões de consumo da sociedade estão causando apreensões em relação ao futuro da indústria, ou de pelo menos, alguns de seus segmentos de mercado. O resultado dessas tendências tem sido a busca de alternativas de negócios, que possam estabilizar as metas de produção e comercialização, garantindo, assim, o crescimento da empresa e a sua sustentabilidade. Por essas e outras razões, temos visto milhares de estudos sendo realizados em empresas, universidades e institutos de P&D, os quais vêm sendo publicados e apresentados em artigos de revistas, livros, congressos, teses acadêmicas, etc. Todos têm buscado estudar produtos adicionais a serem obtidos a partir das fontes de biomassa florestal – em geral, de forma integrada com a produção de celulose e/ou papel – por isso, tem-se denominado esses novos modelos de produção como biorrefinarias integradas. Esse nome acabou se consagrando em função das expectativas de serem produzidos inúmeros biomateriais e biocombustíveis a partir da biomassa florestal, da mesma forma como acontece com as biorrefinarias de petróleo. existem fortes evidências de que as empresas líderes do setor brasileiro de celulose e papel já incorporaram estratégias para atuações de alguma forma no modelo de biorrefinarias "

Celso Edmundo Bochetti Foelkel Consultor e Escritor Especialista em Florestas

Apesar de charmoso e muito divulgado atualmente, o conceito de biorrefinarias não é novo no setor. Biorrefinarias integradas existem há décadas em fábricas de celulose sulfito, uma vez que esse tipo de industrialização tem dificuldades para a recuperação do licor residual da polpação. Com isso, as empresas desse setor foram forçadas a encontrar utilizações para seus condensados; e licores residuais.

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Opiniões Com muita criatividade e inovações tecnológicas, foram sendo desenvolvidos, por esse setor de celulose sulfito, diversos produtos para outros mercados, tais como: lignosulfonatos, ácido acético, fermentos e proteínas para rações, terebintina, metanol, etanol, etc. Esse tipo de arranjo produtivo acabou não vingando nas fábricas que se valem do processo kraft frente às oportunidades de recuperação térmica e química do licor preto kraft em sua quase integralidade. Entretanto, com a modernização tecnológica das fábricas de celulose kraft de última geração, tanto a energia elétrica como o vapor têm excedido as necessidades das fábricas geradoras dos mesmos. Com isso, já há alguns anos essas fábricas kraft mais modernas passaram a comercializar excedentes de eletricidade e/ou vapor para empresas próximas, em geral, para fabricantes de insumos para a própria fábrica, a saber: dióxido de cloro, soda cáustica, gases para uso industrial, carbonato de cálcio precipitado, sulfato de alumínio, etc. O excedente de eletricidade também tem sido comercializado em parceria com o sistema elétrico nacional. Dessa forma e, timidamente, o conceito de biorrefinarias integradas acabou sendo gradualmente robustecido nas fábricas de celulose kraft, integradas ou não com a fabricação de papel. As oportunidades não se concentram apenas na produção de eletricidade e vapor. Existem inúmeras outras possibilidades para a industrialização de resíduos de biomassa florestal (cascas, toras finas, cavacos desclassificados, serragem, etc.). Também ocorrem usos industriais ou agrícolas para os resíduos dos processos de industrialização (lodos, metanol, terebintina, tall oil, lignina, rejeitos da polpação, etc.). As empresas estão atualmente trabalhando muito fortemente na introdução de unidades produtivas adicionais e que não interfiram (ou até mesmo, melhorem) os processos críticos e vitais de sua fábrica de celulose e/ou papel. A ideia é agregar valor ao negócio desde que a fábrica de celulose mantenha-se produtiva e eficiente, passando a atuar como a fábrica âncora desses novos arranjos produtivos. Esses novos produtos podem ser consumidos pela própria fábrica de celulose e/ou papel, ou então, podem servir de matéria-prima para outros parceiros industriais, como empresas do setor químico, energético, alimentício, etc. entre as etapas e oportunidades mais promissoras encontram-se as seguintes: • Identificação de fontes de biomassa potencialmente disponíveis em quantidades e qualidades para garantir continuidade das operações das biorrefinarias e da fábrica de celulose e/ou papel. Dentre elas, destacam-se os resíduos florestais e industriais e as florestas especialmente plantadas para servir de suprimento para essas unidades. • Extração de lignina do licor preto kraft para uso interno (energético) ou para venda a clientes da

indústria química. Isso permite que fábricas com gargalos de produção na caldeira de recuperação possam ter sua produção de celulose aumentada pelas reduções na restrição de queima de sólidos nessa caldeira. • Produção e comercialização de outros produtos químicos ou energéticos obtidos a partir de seus próprios resíduos, por exemplo: metanol, terebintina, tall-oil, péletes ou briquetes, biogás, bioóleo, dimetil éter, furfural, etanol de segunda geração, xiloses, enzimas, etc.; • Produção e comercialização de eletricidade e/ou vapor para empresas localizadas próximas (arranjos produtivos ou clusters) ou negociação com o sistema elétrico nacional. • Produção de novos e valiosos derivados de celulose: celulose nanofibrilada e nanocristais de celulose. • Produção de novos e valiosos derivados das hemiceluloses: álcoois, xilitol, plásticos verdes, enzimas, etc. • Produção de inúmeros outros produtos químicos ou energéticos a partir da biomassa florestal, através de processos físico-químicos, térmicos ou bioquímicos. No momento atual, existem fortes evidências de que as empresas líderes do setor brasileiro de celulose e papel já incorporaram estratégias para atuações de alguma forma no modelo de biorrefinarias, integradas ou não a fábricas âncoras. Isso já está acontecendo a partir do modelo mais simples (venda de eletricidade e/ou vapor) e já existem modelos mais complexos e sofisticados em processo de implantação ou de protótipos: extração de lignina, produção de bioóleo, produção de nanoceluloses, etc. Ainda faltam outras oportunidades para serem conquistadas. Entretanto, o setor já superou a fase inicial de descrença ou de suposição de que os processos novos não eram promissores ou não agregariam valor ao negócio. Por essa razão, as biorrefinarias já estão se convertendo em realidade, superando a fase de ficção. A vantagem maior é que cada empresa pode selecionar opções distintas, pois as oportunidades são inúmeras. Dessa forma, o risco de supersaturação de um determinado produto novo e entrante nos mercados pode ser minimizado. Visão, ousadia e criatividade não estão faltando no setor. Resta apenas que a gestão das empresas consiga materializar as necessárias parcerias para desenvolvimento desses arranjos produtivos em modelos de biorrefinarias com adequados níveis de agregação de valor. As coisas não acontecem nem tão rápido e nem todas de uma só vez. O esforço das empresas já pode ser notado. Os passos de cada uma delas vão precisar de alicerces muito bem estruturados em termos de pesquisas, patentes, estudos tecnológicos e mercadológicos para que o sucesso possa ser atingido. Estamos confiantes nisso.n

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biorrefinarias

Opiniões

um leque de

oportunidades

Coautor: Emerson Léo Schultz, Pesquisador da Embrapa Agroenergia

Antigamente, quando se falava em produtos de origem florestal, as pessoas eram levadas a refletir no uso tradicional dessa biomassa, ou seja, somente na indústria moveleira, geração de energia e produção de papel.

Antigamente, quando se falava em produtos de origem florestal, as pessoas eram levadas a refletir no uso tradicional dessa biomassa, ou seja, somente na indústria moveleira, geração de energia e produção de papel. "

Mônica Caramez Triches Damaso

Pesquisadora do Laboratório de Processos Bioquímicos da Embrapa Agroenergia

Essa concepção está em plena transformação. Diferentes fatores são os responsáveis, tais como: instabilidade econômica, novas formas de consumo e pressões ambientais para minimização do descarte de resíduos e reuso de efluentes. Além desses, há a necessidade crescente de diversificação dos produtos a serem obtidos em um mesmo local ou a partir de um mesmo processo produtivo. Dessa forma, a integração de diversos processos de conversão de biomassa – químicos, termoquímicos e bioquímicos – aumenta o aproveitamento dessa matéria-prima, possibilitando a diversificação de produtos. Essa integração é conhecida como biorrefinarias, que é análoga às refinarias convencionais de petróleo, porém que usam como matéria-prima, a biomassa, que é renovável, em substi; tuição ao petróleo, de origem fóssil.

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biorrefinarias Atualmente, em meio a tantas questões de instabilidade econômico-financeira mundial e de interesses políticos e estratégicos, a flexibilidade na obtenção de diversos produtos é ponto de destaque. Dependendo da demanda do mercado e do interesse por produtos com maior valor agregado ou de questões de demanda energética, existe a possibilidade de a empresa redirecionar ou focar sua produção. O exercício a ser feito trata-se de utilizar ao máximo as frações de cada biomassa, valorizando as qualidades mais importantes de cada uma. No Brasil, dois setores industriais estão mais alinhados e podem ser mais facilmente adaptados como biorrefinarias: a indústria sucroalcooleira energética e a de papel e celulose. Embora as pesquisas em sua maioria ainda estejam em nível de laboratório, elas vêm sendo aprofundadas por vários grupos em universidades e centros de pesquisa, como a Embrapa. Empresas do setor de papel e celulose em todo o mundo têm investido nesse novo conceito. No Brasil, esse panorama não é diferente, empresas como Suzano Papel e Celulose, Klabin e Fibria estão trabalhando com plantas-piloto dentro desse propósito. A biomassa florestal é constituída de celulose, hemicelulose, lignina e extrativos, possibilitando a obtenção de diferentes produtos. Os polissacarídeos celulose e hemicelulose, que são utilizados para a produção de polpas branqueadas e não branqueadas, também podem ser utilizados para obtenção de diferentes produtos, como compostos químicos e biocombustíveis. A remoção de hemiceluloses da madeira picada antes da polpação pode ser uma das vertentes, embora elas sejam necessárias para a própria qualidade da polpa celulósica. O desafio é desenvolver tecnologias otimizadas de pré-tratamento que forneçam duas correntes: uma de hemicelulose e outra lignocelulósica, sendo a segunda para produção de polpa de celulose. Dependendo do valor agregado do produto que será obtido e da flutuação do valor de mercado da polpa celulósica, a sua própria utilização pode ser cogitada. Dentre os compostos químicos e biocombustíveis que podem ser obtidos a partir dos referidos polissacarídeos, estão os álcoois, polióis e ácidos orgânicos. Polióis são amplamente utilizados nas indústrias alimentar, farmacêutica, e na medicina. Na indústria alimentar, os polióis são usados como adoçantes naturais aplicados em produtos alimentares light e diet. Ácidos orgânicos têm sido tradicionalmente usados na indústria alimentar. Contudo, o mercado de produção de ácidos orgânicos tem sido expandido,

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visto que esses constituem um grupo chave entre os compostos químicos, conhecidos como building blocks, que podem ser utilizados para obtenção de produtos químicos e materiais de forma mais sustentável. Os resíduos florestais, como galhos, cascas e pedaços de madeira inadequados para produção de papel e celulose, podem ser obtidos em processos termoquímicos, como por meio da pirólise e da gaseificação. De um modo geral, o processo de pirólise pode ser classificado em: pirólise lenta ou carbonização, cujo principal produto é o carvão vegetal, bastante usado na indústria siderúrgica, mas também pode ser usado como condicionador de solos; e pirólise rápida, sendo que o produto obtido em maior quantidade é um líquido conhecido como bio-óleo. Pesquisas estão sendo desenvolvidas para convertê-lo em biocombustíveis e produtos químicos renováveis. Na gaseificação, a biomassa é convertida em gás combustível, constituído de hidrogênio (H2), monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e outros componentes, podendo ser usado para produção de energia e, se purificado, para obtenção de produtos químicos. A mistura de hidrogênio e monóxido de carbono é conhecida como gás de síntese, que pode ser utilizado para produção de metanol, hidrocarbonetos e hidrogênio. O licor negro oriundo da polpação kraft, tem sido usado majoritariamente para produção de energia nas caldeiras, mas também poderia ser usado em processos de gaseificação. No entanto, em virtude de ser uma mistura rica e complexa de componentes inorgânicos e orgânicos, tem sido alvo de muitos estudos visando recuperar e “purificar” a lignina presente no licor, visando agregação de seu valor comercial. Uma forma muito interessante de valorizar esse resíduo consiste em utilizar a lignina recuperada para obtenção de macromoléculas de valor agregado, que atualmente são obtidas a partir do petróleo, como fibra de carbono, polímeros modificados, adesivos e resinas, bem como fenol, tolueno e benzeno. Além disso, alguns resíduos florestais podem ter componentes de alto valor agregado em sua composição. Por exemplo, extratos da casca de Eucalyptus grandis e Eucalyptus urograndis são abundantes em compostos químicos promissores para o desenvolvimento de novos agentes bioativos. Dessa forma, a aplicação de diversos processos à biomassa florestal, incluindo resíduos e coprodutos, em uma biorrefinaria, obtendo-se produtos químicos e biocombustíveis, pode aumentar a sustentabilidade da cadeia florestal brasileira. n


Opiniões

a importância e a oportunidade da

geração de tecnologia

O ganho de produtividade no setor agrícola brasileiro desde a década de 1970 é impressionante. Esse é o fator principal a explicar o aumento da produção agrícola brasileira, que também experimentou expressivo aumento em outros fatores de produção, como terra, maquinário, insumos, etc. Saímos da condição de país importador de produtos agrícolas e com crises de abastecimento na década de 1980, para nos tornarmos o maior exportador de produtos agropecuários. Essa transformação não ocorreu por acaso. Além de o País dispor de uma grande quantidade de terras aráveis, ele conseguiu fazer com que houvesse a incorporação das tecnologias desenvolvidas no processo de produção, além de integrar os produtores dentro da cadeia de valores. De fato, o Brasil investiu 1,8% do PIB agrícola em pesquisa e desenvolvimento, a maior taxa na América Latina e, de longe, a maior entre os níveis observados nos países em desenvolvimento.

Também temos dificuldade em esparramar as vantagens do agronegócio para outras áreas intensivas em tecnologia do setor agrícola. Temos poucas start-ups desenvolvidas no setor que exportam tecnologia. Que somos grandes importadores líquidos de tecnologia no setor não é surpreendente, mas a enorme vantagem competitiva não parece estar nos proporcionando evolução em áreas tecnológicas associadas a ele. Uma das prováveis razões para tal afirmação é que a tecnologia do processo kraft foi desenvolvida há muito tempo. Além disso, os grandes provedores de tecnologia se consolidaram e mantêm sua estrutura de desenvolvimento perto das suas bases originais. Algumas desvantagens decorrem desse fato. O desenvolvimento de tecnologias é altamente intensivo em mão de obra extremamente qualificada e de altos salários. Outra desvantagem é o fato de o desenvolvimento ser feito com foco em outro tipo de biomassa, com uma adaptação menos provável para o eucalipto.

parece que está havendo desenvolvimento considerável de novas tecnologias que poderiam fazer do País um exportador de tecnologia no futuro, com consideráveis impactos socioeconômicos "

Vinicius Lobosco

Pesquisador Senior de Biorrefinarias da Suzano - Papel e Celulose

Essa observação inclui o setor florestal, que também experimentou crescimento de produtividade como chave do aumento da produção brasileira. O Brasil é hoje o maior fornecedor mundial de celulose de mercado, fruto de um crescimento extremamente robusto (6,5% anuais entre 2006 e 2016). No entanto, o País ainda alavanca pouco para além das commodities. Se as pesquisas para obter clones melhores fez com que a produtividade brasileira saltasse de cerca de 15 m3/ha/ano para cerca de 40 m3/ha/ano atuais (uma das maiores produtividades mundiais), nossos esforços para conquistar o mercados a jusante ainda são pequenos tanto no setor florestal como no ; agronegócio como um todo.

Mano heiros Florestais Associados

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biorrefinarias Por outro lado, a oportunidade que já se esboçou no horizonte é que a grande atenção que a sustentabilidade tem tido nos últimos quinze anos está a proporcionar o desenvolvimento de novas tecnologias que ainda não estão dominadas. Há, então, possibilidades de desenvolvimento tanto de tecnologias como de fornecimento de produtos de maior nível de industrialização; bem como sermos detentores de tecnologia de processos como toda a possibilidade de puxarmos o desenvolvimento de fornecedores locais. Isso pode, de fato, estar ocorrendo. Para tentar responder a essa questão, fiz uma análise do que era a visão do desenvolvimento há cerca de dez anos para analisar se algumas tecnologias novas estão sendo desenvolvidas no Brasil. A perspectiva é o processo kraft de desconstrução da madeira. Essa visão foi feita com base nas apresentações feitas no Nordic Wood Biorefinery Conference de 2008, uma conferência nórdica sobre biorrefinaria que ocorre a cada um ano e meio. Ainda que vários processos de biorrefinaria já fossem existentes, esse conceito tinha se fortalecido há cerca de meia década. Uma releitura dessa visão de futuro aponta que, algumas expectativas, de fato, se realizaram, ainda que não somente relacionadas à biomassa de madeira. O primeiro a ser implementado foi o processo de obtenção do chamado eteno verde para a produção de polietileno, este produzido a partir de etanol – atualmente feito com o de primeira geração –, é, portanto, de fonte renovável. A tecnologia foi aprimorada pela Braskem baseada no processo inicial desenvolvido pela Salgema lançado em 1982, época de ouro do Proálcool. Esse processo foi provavelmente o maior projeto de inovação da Braskem até hoje lançado. A empresa teve (e ainda tem) grande projeção internacional por causa desse processo e produto, que tem cerca de 80% de sua produção exportada, em claro contraste com a produção de PE de fonte fóssil que só é exportado marginalmente. O sucesso econômico foi limitado, no entanto. A Dow e a Mitsui tinham um projeto conjunto de 1,5 bilhão de dólares para fazer algo similar, mas com produção de etanol integrado à produção do eteno e à planta de polimerização, que acabou por ser adiado indefinidamente. O segundo processo de grande relevância foi a produção do chamado bioetanol, o etanol produzido a partir de celulose e hemicelulose de bagaço ou da palha da cana. Foram construídas duas unidades, uma pela Granbio em São Miguel dos Campos-AL, e outra pela Raízen em Piracicaba, interior de São Paulo. Há significativos atrasos nos projetos, mas o sucesso virá com a perseverança dos envolvidos. A tecnologia em nenhum dos dois casos é brasileira, ainda que haja grande ganho de know-how e potencial de desenvolvimento para toda a cadeia de produção. Foram apontados problemas com o pré-tratamento da biomassa, uma possível consequência do desenvolvimento ter sido feito com matéria-prima diferente da utilizada aqui.

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Opiniões O CTC desenvolveu tecnologia local e anunciou a implementação de uma planta de demonstração na Usina de São Manoel, no município de mesmo nome no interior de São Paulo. A partir da biomassa da madeira, essa tecnologia não se desenvolveu. Finalmente, a Suzano, empresa para a qual trabalho, está construindo uma planta de extração de lignina e seu posterior beneficiamento em sua unidade de Limeira, também no interior de São Paulo. A planta de 20 mil toneladas/ano é de tecnologia totalmente nacional e deverá entrar em funcionamento em agosto de 2018. Esse trabalho foi feito com o desenvolvimento de diversos fornecedores locais e teve a ajuda de diferentes institutos de pesquisas nacionais e alguns internacionais. O processo requereu desenvolvimento tecnológico de vários fornecedores e, além disso, foi especialmente desenvolvido para extração de lignina kraft de eucalipto. A minha leitura é que mesmo a visão de quase dez anos sendo curta para a verificação de tendência, parece que está havendo desenvolvimento considerável de novas tecnologias que poderiam fazer do País um exportador de tecnologia no futuro, com consideráveis impactos socioeconômicos. No entanto, o ambiente de desenvolvimento ainda pode ser consideravelmente melhorado. Recentemente foi analisada – processo no qual participei ativamente – a implantação do Centro Tecnológico em Celulose e Papel encabeçada pelo MCTI através do CGEE. Um dos principais objetivos do centro seria o desenvolvimento de tecnologias que despontam atualmente como promissoras. O projeto ainda não foi para frente por questões orçamentárias. É de grande importância para o setor que o centro seja implementado em tempo hábil para que a janela de oportunidade atual seja aproveitada. Além disso, dado o grande risco e importância da primeira planta industrial demonstrativa de cada processo na implementação de tecnologia desenvolvida no País, é essencial que bancos de fomento e agências financiadoras de pesquisa participem mais ativamente, incluindo financiamento parcial a fundo perdido, distinguindo pela origem da qual foi realizado. O impacto da escolha da origem do desenvolvimento da tecnologia é muito grande e é determinante para que ele permeie pelos diversos locais envolvidos. Ele possibilita que fornecedores locais desenvolvam produtos de maior nível tecnológico e que colaboradores e pesquisadores locais trabalhem com processos na fronteira do desenvolvimento. Esses aspectos não são – e não devem ser – levados em conta pelo investidor, que é normalmente conservador e naturalmente tende a ficar com os grandes fornecedores, que podem dar maiores garantias. A internalização dessas externalidades positivas deve ser feita com recursos públicos, assim como é feito nos países em que também ocorre desenvolvimento no setor agrícola. n


Tissue Innovation Center, São Paulo

Voith Paper Nosso papel é inovar, sempre! Sempre à frente do seu tempo no processo de fabricação de papel, a Voith continua inovando por meio de seus centros de pesquisa e desenvolvimento, como o Tissue Innovation Center, em São Paulo, o mais moderno e completo. A Voith dedica-se constantemente a estudos de novas tecnologias para oferecer as melhores soluções, que proporcionem a redução do consumo de recursos na fabricação de papel e celulose. Voith Paper, a parceira tecnológica para o papel do futuro.


biorrefinarias

processos termoquímicos Coautor: Erich Gomes Schaitza, Pesquisador da Embrapa Florestas

Desafios como mudanças climáticas e expectativa de depleção de reservas fósseis têm compelido a humanidade a repensar seu modo de produzir e consumir. Para tal, urge que se amplie a possibilidade de utilização de recursos renováveis, tais como a biomassa florestal. Dentre as principais rotas de conversão disponíveis, a termoquímica tem sido a mais amplamente empregada. Ela compreende basicamente os processos de combustão direta, pirólise lenta, pirólise rápida e gaseificação. De forma geral, o termo “pirólise” compreende a decomposição térmica de material carbonoso em condição de ausência ou baixa concentração de oxigênio.

Como resultado, são geradas três frações básicas: sólida, líquida e gasosa, cujas proporções podem ser alteradas de acordo com variáveis, como tipo de processo, temperatura e tempo de residência. O mais intuitivo exemplo é a carbonização, também chamada de pirólise lenta, que há milhares de anos vem sendo utilizada para produção de carvão. Envolve temperaturas baixas a intermediárias (300-500 ºC) e altos tempos de residência (da ordem de dias), visando priorizar a formação da fração sólida (carvão vegetal). Recentemente uma variante dessa tecnologia tem despertado crescente interesse, é a chamada pirólise rápida. Como o nome sugere, é realizada em altas taxas de aquecimento e baixos tempos de residência (de 1 a 5 segundos), associados a temperaturas por volta de 500 ºC. Nesse caso, o objetivo principal é obter maior produção da fração líquida, denominada genericamente de bio-óleo, com menores proporções de carvão e gases. Por consequência dos processos de degradação térmica ocorridos, uma variedade enorme de compostos é

urge que se amplie a possibilidade de utilização de recursos renováveis, tais como a biomassa florestal. Dentre as principais rotas de conversão disponíveis, a termoquímica tem sido a mais amplamente empregada. "

Patrícia Raquel Silva Zanoni Pesquisadora da Embrapa Florestas

gerada, o que aumenta consideravelmente as possibilidades de aplicação desse produto. Basicamente, o bio-óleo é composto por diversas classes de hidrocarbonetos oxigenados, além de uma quantidade apreciável de água. Pode ocorrer separação de duas fases líquidas distintas, sendo a fração oleosa designada como bio-óleo e a aquosa, extrato ácido. A complexidade da mistura também torna desafiadora a tarefa de caracterização dos produtos, requerendo equipamentos e métodos avançados de análise. Outro agravante é o fato de se tratar de um produto “vivo”, com reações contínuas de polimerização e oxidação, que demandam estudos de estabilidade e envelhecimento do produto. Inspiradas por exemplos internacionais, as empresas brasileiras de papel e celulose têm apostado na tecnologia de pirólise rápida para agregar valor a alguns de seus resíduos, como cascas ou partículas finas de eucalipto. Estão disponíveis no mercado equipamentos com tecnologias variadas, ofertados por fornecedores nacionais ou internacionais. ;

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Opiniões A principal aplicação pretendida para o bio-óleo tem sido como combustível. Esse pode ser usado diretamente em alguns equipamentos da própria fábrica, como caldeiras ou fornos de cal, em substituição a óleos combustíveis derivados do petróleo. Em contrapartida, algumas características inviabilizam a sua utilização direta em motores de combustão interna. Grande quantidade de água, baixo pH, elevada acidez, alto teor de compostos oxigenados e baixo poder calorífico são alguns dos obstáculos. Para melhorar a qualidade do bio-óleo, é possível empregar processos de desoxigenação auxiliados por catalisadores. No intuito de reduzir custos adicionais com esse processo, estratégias alternativas podem ser adotadas. Uma delas é o fornecimento do bio-óleo bruto a refinarias de petróleo, para incorporação em baixas proporções nas unidades de craqueamento catalítico fluidizado (FCC). Tais plantas são responsáveis pela produção de gasolina e diesel e, como resultado, pode ser obtido um combustível parcialmente oriundo de fontes renováveis, que permita a diminuição global de custos e de emissão de gases de efeito estufa. Com o objetivo de impulsionar a adoção da tecnologia de pirólise rápida, as universidades e instituições de pesquisa, como a Embrapa, unem forças com o setor produtivo para ampliar as perspectivas de uso dos produtos. Nesse sentido podem ser citados: estudos de aplicação do bio-óleo para tratamento preservativo de madeira e produção de fibra de carbono; estudos de separação de frações com interesse para indústrias químicas diversas como a alimentícia; obtenção de resinas fenólicas; aplicação do extrato ácido como adjuvante no controle de ervas daninhas; e uso dos finos de carvão para produção de briquetes, carvão ativado e fertilizante. Ressalta-se ainda a importância da avaliação de impactos da adoção da nova tecnologia, incluindo estudos de toxicidade dos produtos. A gaseificação é outro processo termoquímico que tem sido reavaliado como alternativa frente às pressões ambientais. A biomassa, normalmente na forma de cavacos de madeira, é queimada em um tanque fechado ou reator, a altas temperaturas (800-1200 ºC). Como o próprio nome do processo sugere, grande parte do material é convertida em gás, composto de monóxido de carbono, hidrogênio, metano e outros gases inertes. Além do gás, é gerada uma fração sólida residual de cinzas e carvão. O gás pode ser usado tanto para queima quanto diretamente como combustível para motores à combustão. De fato, os motores a gasogênio são anteriores aos motores a diesel ou gasolina e já chegaram a ser muito usados em momentos de indisponibilidade de outros combustíveis, no Brasil e no exterior. Ao invés de parar em um posto de gasolina, o motorista buscava uma pilha de cavacos para abastecer seu veículo. Em gaseificadores de larga escala, o ar pode ser substituído por oxigênio ou por vapor d’água superaquecido, com consequente redução da quantidade de nitrogênio. Nesses processos, há incremento significativo do poder calorífico do gás, com aumento da proporção

de metano, monóxido de carbono e hidrogênio. Algumas vezes, o gás resultante passa a ser chamado de gás de síntese – ou pelo seu apelido syngas –, uma vez que esse gás mais rico pode ser matéria-prima para a sintetização de outros produtos. Usar o gás de madeira como combustível de veículos não é muito prático, pois seriam necessários tanques muito grandes para viajar a grandes distâncias. Por outro lado, há um grande potencial para o uso de gás em atividades estacionárias, com motores à combustão. Talvez o principal uso potencial seja a geração de energia elétrica, acoplando-se um reator a um motor de combustão e a um gerador elétrico. Em escalas pequenas, na faixa de capacidades de geração de dezenas a uma ou duas centenas de quilowatts, a gaseificação pode ser uma alternativa economicamente viável, devido ao baixo custo de investimento inicial. Em sistemas maiores, na faixa de capacidades acima de 1 MW, há sistemas movidos à caldeiras e turbinas, amplamente usados no mercado e, provavelmente, com menor custo de geração de energia. No passado, essa alternativa não foi tão bem explorada pela inexistência de equipamentos que agregassem reatores de gaseificação, motores de combustão e geradores em sistemas compactos e ajustados de geração de energia. Hoje, já há vários sistemas nessa fase que começaram a ser usados em todo o mundo. O consumo de madeira é de aproximadamente 1,5 kg de madeira seca ao ar por quilowatt/hora gerado. Realizando uma análise do custo para produção de energia elétrica com um gerador de 18 kW da AllPower Labs, concluímos que o custo nivelado de energia estava em aproximadamente R$ 0,45/KWh. No nosso caso, esse custo foi similar ao da energia fotovoltaica e menor do que o valor do KWh pago a companhias elétricas por consumidores urbanos. Um ponto positivo desses sistemas é que, quando usados com motores de combustão modernos com a presença de catalisadores, independente de o gás ser produzido com o uso de ar, oxigênio ou vapor superaquecido, as emissões de gases SOx e NOx são baixas e seriam consideradas aceitáveis na Califórnia ou na Europa, locais bem mais exigentes do que o Brasil. Em escalas maiores, é possível diminuir a quantidade de madeira necessária para gerar a mesma energia; seja pela maior eficiência de reatores e motores maiores ou mesmo pelo uso de diferentes agentes de gaseificação, com a obtenção de gases mais ricos. Ainda há vários problemas para o pronto estabelecimento de pequenos sistemas de geração de energia elétrica por gaseificação. Não há sistemas nacionais prontamente disponíveis em prateleiras no mercado. Há empresas que montam sistemas, mas nem sempre há arranjos ideais entre gaseificador, motor e gerador, como nos sistemas importados. Gaseificadores pequenos exigem o uso de biomassa seca, a teores de 10-15% em base úmida, sendo necessária a pré-secagem dos cavacos de madeira. Finalmente, esses sistemas, mesmo que pequenos, requerem uma logística razoável para serem supridos de forma constante. n

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biorrefinarias

Opiniões

o protagonismo da indústria florestal na sociedade

O protagonismo da indústria florestal na sustentabilidade do planeta pode ser explicado por: a. Legado: o reconhecimento que lhe é devido pelo valor e benefícios gerados; b. Compromisso ambiental e social: a responsabilidade no desenvolvimento de novos negócios com respeito ao meio ambiente e às pessoas, com práticas de manejo florestal, novos produtos e processos de produção que contribuam ainda mais para construção de um mundo mais sustentável; c. Compromisso com os stakeholders: a transformação da indústria florestal não advém apenas daquilo que pode entregar à sociedade em termos de sustentabilidade do planeta, mas sustentabilidade do próprio negócio, fortalecendo e prolongando os genuínos interesses de todos os stakeholders. O legado da indústria florestal – e da Fibria em particular – se baseia na riqueza gerada e compartilhada, na preservação e restauração dos serviços ecossistêmicos (recuperação de áreas degradadas e plantios de espécies nativas), na consequente fixação de carbono e no desenvolvimento social das comunidades vizinhas.

Essas conquistas são suportadas pelo crescente consumo de papel no mundo. Há fatos e informações que comprovam esse valor que a indústria florestal tem gerado à sociedade global. De acordo com dados da Indústria Brasileira de Árvores – Ibá, a indústria florestal brasileira é composta por 7,8 milhões de floresta plantada e 5,6 milhões de hectares de floresta nativa. Essa indústria preserva e/ou recompõe 0,7 hectare de floresta nativa para cada 1,0 hectare de floresta plantada. Esse conjunto de ativos, estocado e circulante de carbono, representa 4,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO, as florestas no mundo armazenam um volume de carbono de 2 a 3 vezes superior ao existente na atmosfera, e a manutenção ou o aumento de estocagem via florestas é tão efetivo que 70% dos países que publicaram seus planos de mitigação de carbono incluíram como ação o investimento em florestas e/ou redução do desflorestamento. Quando passamos para produtividade, vemos em dados publicados que a produtividade de florestas plantadas no Brasil, nessa década, é quase o dobro do que a registrada na década de 1990. O consumo específico de produtos químicos na atividade florestal, por sua vez, é cerca de 20 vezes menor quando comparado ao de outras culturas.

Celulose microfibrilar pode suprir a crescente demanda de vestuário no mundo. Tecnologias disruptivas mostram-se capazes de substituir fibra de algodão com polpa de madeira usando 1% da água requerida na cadeia do algodão, 80% menos energia, e sem produtos químicos tóxicos. "

Paulo César Pavan

Gerente de Produto e Processo da Fibria Celulose

Na indústria de celulose, podemos ilustrar o benefício da evolução tecnológica no consumo específico de água e na gestão energética. Em pouco mais de vinte anos constata-se com dados de projetos reais que a geração específica de efluentes no branqueamento foi reduzida em 20%; a geração específica de energia em caldeiras de recuperação aumentou quase 20%; e o consumo específico de combustíveis fósseis em fornos de cal apresentou redução de 10%. Nesses exemplos já se observa parte do legado devido à indústria florestal, baseado em entendimento de responsabilidade;e avanço tecnológico.

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biorrefinarias Em relação ao compromisso ambiental e social, a indústria florestal tem um papel transformador, e pode oferecer à sociedade alternativas mais sustentáveis de consumo. O setor tem avançado lenta, mas assertivamente, com pesquisas e inovações para fornecer à sociedade novos materiais, produtos químicos e combustíveis – todos derivados da biomassa da madeira. Podemos listar uma série de iniciativas, como: • Madeira para Construção: ainda muito pouco explorada no Brasil se comparado à América do Norte e Europa. Os mais recentes avanços fazem uso do CLT (cross laminated timber), usado sozinho ou complementando estruturas parciais de concreto na construção de prédios que já alcançam 18 andares. Nesse uso, cada m3 de madeira mantém cerca de 1 ton de CO2eq estocado, além de evitar o lançamento de 1 ton de CO 2eq na produção do cimento/concreto; ou seja, 2 ton de CO2eq de benefício para cada m3 de madeira usado. • Polpa solúvel, polpa para papel e seus derivados como celulose microfibrilar (MFC) podendo suprir a crescente demanda de vestuário no mundo. Tecnologias disruptivas mostram-se capazes de substituir fibra de algodão com polpa de madeira usando 1% da água requerida na cadeia do algodão, 80% menos energia, e sem produtos químicos tóxicos. • Nanocelulose, CNC, MFC, nanomaterial acessível em escala comercial, que pode ser produzido e funcionalizado por diferentes processos. Essa classe de materiais vem sendo investigada e utilizada como material funcional em medicina reparativa, eletrônica, mas também substituindo insumos não renováveis como agentes de modificação de reologia. • Lignina: maior fonte de aromático de origem renovável, sub-produto dos processos de polpação e, atualmente, queimada para geração de energia. A lignina pode ser desenvolvida e usada para dar origem a alternativas renováveis para produtos derivados de petróleo como combustíveis, resinas, aditivos de borracha, blendas termoplásticas e vários outros. • Celulose e/ou Hemicelulose: tradicionalmente usados para produção de papel e em suas formas isoladas na indústria química e têxtil. Esses polímeros são agora considerados em rotas biotecnológicas para produzir álcoois e ácidos orgânicos para suprir uma demanda crescente por feedstocks renováveis para várias indústrias. • Terebintina: resina derivada de coníferas, extensivamente usada como solvente, como aditivo em várias indústrias e cada vez mais como precursora na produção de diesel. • Em várias diferentes composições, a madeira – ou ainda os resíduos florestais – vem sendo utilizada em processos termoquímicos como gaseificação e pirólise para gerar combustíveis gasosos e líquidos, que podem ser utilizados diretamente em aplicações industriais ou convertidos a combustíveis drop-in, produtos químicos, ou voltados à indústria de alimentos. Nesses exemplos que ilustram o amplo espectro de aplicação da biomassa florestal, observamos quanto maior pode e deve ser o protagonismo da indústria florestal em suprir a sociedade com alternativas renováveis, carbono-neutro ou carbono-negativo. Além de um compromisso ambiental, há nisso uma oportunidade

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econômica objetiva. A evolução tecnológica que permeia esses processos ocorre em alta e crescente velocidade. Muitas rotas surgem e se viabilizam em curto espaço de tempo, demandando uma abordagem muito mais dinâmica para serem acompanhadas. Incentivos governamentais – ou mesmo a taxação de carbono – podem ter papel relevante para acelerar os investimentos necessários. Entretanto, a maior dificuldade nessa transformação aparenta ser a resistência que uma indústria tradicional e madura apresenta frente a novas oportunidades de negócios e novos mercados, que implicam maior risco diante do que tradicionalmente tomam. Um desafio adicional que se coloca como parte dessa transformação é o de conseguir conectar-se ao novo e exuberante centro de gravidade da inovação, que migrou das grandes corporações para microempresas, startups, empreendedores etc. Tentativas de se fazer essa conexão de forma eficiente estão em curso. Para ilustrar, vale citar o caso da Fibria, que lançou recentemente uma plataforma de inovação aberta, Fibria Insight (www.fibriainsight.com), que já apresenta dois desafios divulgados. Por fim, chegamos ao último ponto: o que essa indústria deve fazer para manter sua relevância, sua competitividade e a sustentabilidade do negócio, resguardando os interesses de seus stakeholders num horizonte mais longo de tempo. Cadeias de valor tradicionais estão se desmanchando em velocidade crescente pelo advento de novos modelos de negócio, disruptivos, que envolvem tecnologia da informação, capacidade de processamento, conectividade, sensoriamento, automação, economia do compartilhamento, fenômenos de mídias sociais etc. Indústrias tradicionais devem, portanto, transformar-se igual e rapidamente para não assistirem sua decadência. Ilustrando isso, vemos que apenas 12% das empresas listadas pela revista Fortune 500 em 1955 figuravam na mesma lista em 2015. Também em 1955 a permanência média de empresas no índice S&P 500 era de 33 anos e projeta-se que em 2026 será de 14 anos. Da atual lista S&P 500 espera-se que 50% delas sejam substituídas nos próximos dez anos. Parece ser inegável que o negócio florestal, como ativo biológico e fonte de matéria-prima renovável, vai ganhar importância ao longo do tempo. Difícil, entretanto, é chegar à mesma conclusão para a indústria de celulose, por exemplo. Players relevantes na indústria global de papel já estão se redefinindo e considerando polpa e papel como apenas um dos seus vários negócios a partir de biomassa florestal. Tecnologias emergentes podem desafiar os importantes mercados de papel para embalagem, papel de impressão e, por que não, papel tissue? É, pois, imperativo que a transformação esperada pela sociedade seja vista não apenas como uma oportunidade, mas, antes de tudo, como uma antecipação às ameaças aos mercados seculares da indústria de papel. Cabe a nós assumirmos o protagonismo numa velocidade compatível à velocidade de mudança no mundo, aumentando a base florestal e as aplicações dessa nobre biomassa. n


energia da biomassa florestal

Opiniões

floresta:

soluções para melhor viver

Na Duratex, nossos resultados devem-se à boa produtividade das florestas cultivadas de eucalipto. Com o foco na qualidade do produto, na regularidade do fornecimento e o estabelecimento de parcerias, buscamos a padronização e excelência de nossas operações. Para isso, algumas especificações vêm sendo adotadas. A destinação do uso da floresta não é exclusiva para o abastecimento das nossas indústrias, que produzem painéis e pisos laminados de madeira. A companhia também disponibiliza madeira para o mercado em forma de toras e cavacos para diversos segmentos, como celulose e papel; serrarias e empresas que utilizam biomassa em seus processos produtivos para obter vapor e gás quente; e para a geração de energia, como as usinas e as indústrias químicas e alimentícias. Em 2016 foram comercializados 2,6 milhões de m³ de madeira. Atualmente, cerca de 80 mil m³/mês de madeira para geração de cavaco são expedidos. Em quatro anos, houve um aumento de doze vezes no volume produzido de cavaco de madeira de eucalipto.

Para a produção do cavaco, são utilizadas árvores inteiras de eucalipto e não há utilização de resíduos florestais. Praticamente 100% da produção é picada diretamente dentro do caminhão que realizará o transporte até o consumidor final, o que garante maior poder calorífico, ou seja, maior quantidade de energia por unidade de massa ou de volume. A picagem direta garante também menos impurezas e contaminantes, que afetam diretamente o desempenho do produto. Outro ponto é o controle de umidade, condição importante de eficiência. Após a derrubada das árvores, elas permanecem no talhão por cerca de 30 dias, e depois são empilhadas por mais 60, totalizando 90 dias de corte e de tempo estático para secagem. Dessa forma, a umidade se mantém ; entre 30% e 35%.

O cavaco de madeira é uma biomassa florestal que gera energia limpa (...) A título de comparação, o gás natural pode emitir 29 vezes mais Gases de Efeito Estufa que o cavaco e o óleo BPF, até 40 vezes mais. "

Anderson Lins Machado

Gerente de Planejamento Florestal e Controle de Operações da Duratex

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energia da biomassa florestal Em períodos chuvosos é necessário um tempo maior de aproximadamente 120 dias no campo para secagem antes de se picar a árvore inteira. O tempo varia em função da região da floresta e do material genético das árvores. A granulometria do cavaco também deve ser considerada. Ela pode variar conforme a necessidade do consumidor e pode ser ajustada diretamente no picador de madeira. Hoje, ainda há a opção para a queima em suspensão ou no grelhado. A madeira destinada às serrarias, que utilizam eucalipto, também está em crescimento. Em Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro, um volume de madeira pouco expressivo em comparação ao cavaco, porém regular, é comercializado. A maioria dessas empresas ainda utilizava a madeira de pinus, que está se esgotando na região. Como alternativa, elas estão se adaptando ao eucalipto. A Duratex é pioneira no fornecimento de madeira para serraria nesse local, que atualmente demanda um volume mensal em torno de 18 mil m³/ mês. A companhia também tem projetos no Estado de São Paulo, na região de Lençóis Paulista. Nota-se um consumo inicial e observa-se que as serrarias também estão se adaptando à madeira de eucalipto, realizando a troca dos pinus, que também está cada vez mais escasso na região e tende ao esgotamento nos próximos anos. Já na comercialização de madeira e produtos derivados, outro diferencial é o contrato de longo prazo, que garante abastecimento das plantas industriais das empresas. A garantia vem do padrão e da disponibilidade de florestas e fornecimento contratado até o ano de 2025. Todas as operações – desde o viveiro até o picador e o carregamento – são próprias e mecanizadas, o que gera confiabilidade e padronização na produção. Quando do início da comercialização, houve grandes investimentos em equipamentos para colheita e picagem de madeira. Também há investimentos constantes nos processos de manejo, visando à manutenção e ao aumento da demanda. Essas condições trazem especificidade ao produto e aumentam sua eficiência, com garantia de maior receita a menor uso do recurso. Reduzindo, assim, seu preço e melhorando a qualidade, pois hoje, no Brasil, a madeira para energia é a lenha – um produto informal e sem especificação, oriundo, muitas vezes, de florestas nativas. O cavaco de madeira, por exemplo, é uma biomassa florestal que gera energia limpa e, consequentemente, menos Gases de Efeito Estufa (GEE) se comparado a outras fontes, como o gás natural e o óleo BPF – derivado do petróleo. A título de comparação, o gás natural pode emitir 29 vezes mais GEE que o cavaco e o óleo BPF, até 40 vezes mais.

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Opiniões

Não há dúvida de que é um produto de menor impacto frente a seus substitutos. Ao utilizar cavaco, o consumidor está aderindo à Política Nacional Brasileira para Mudanças Climáticas e às recentes metas da COP-21. Além de tudo o que foi mencionado, o processo de manejo florestal da Duratex é certificado, há mais de 20 anos, pelo FSC – Forest Stewardship Council, o que garante que a madeira produzida nas áreas cobertas pelo certificado seja proveniente de fontes responsáveis, manejadas de forma ambientalmente adequada e socialmente benéfica. A Duratex foi a 1ª empresa da América do Sul e a 10ª no mundo a conquistar a certificação. Os desafios são variados. Cito alguns como a necessidade de desenvolvimento de políticas e incentivos que fomentem o mercado, no que tange as alternativas energéticas mais limpas; e de padronização do produto. A volatilidade do preço de energia vendida no mercado spot também é preocupante. O Brasil é dependente do fornecimento de energia elétrica que vem de recursos hídricos e, em períodos chuvosos, o preço da energia não é competitivo para fontes de biomassa. Dessa forma, a pressão pela baixa do preço é grande, apenas nos períodos de seca é que a biomassa é atraente. O mercado sazonal traz insegurança a esse segmento. Ainda há a competição com fontes de combustíveis fósseis não renováveis. Infelizmente, o mercado de madeira ainda aumenta o desafio para quem opera de forma legal. No entanto, somos otimistas com relação ao aumento do consumo de produtos florestais e trabalhamos para a superação de desafios e inovação da cadeia produtiva. As florestas da companhia, que antes se destinavam exclusivamente ao fornecimento de toras para processo visando à produção de painéis, hoje está em busca das necessidades do mercado e do uso múltiplo, com foco no seu máximo aproveitamento. Para assegurar esses produtos, contamos com uma base florestal que destina 24% da sua área para conservação ambiental. Além dos produtos citados, também é realizada a extração e comercialização da resina de pinus e há parcerias com apicultores locais para a produção de mel. A utilização da floresta pelas comunidades do entorno para atividades de lazer como ciclismo e pescaria autorizada, por exemplo, também evidencia a geração de valor para as pessoas que vivem próximas à companhia. É possível verificar a grandiosidade da floresta quando observamos tudo o que ela produz. Benefícios econômicos, sociais e ambientais; a geração de emprego e renda; o bem-estar social; a conservação do solo, da fauna e flora, entre outros. O objetivo da diversificação do uso e da abertura para a comercialização vai além da regulação do volume de madeira gerado. O foco é agregar valor e gerar rentabilidade aos negócios que são criados. É preciso garantir alternativas seguras e limpas. n



energia da biomassa florestal

pellets Não é de hoje que se fala e se relata a incansável busca por fontes alternativas de energia às fósseis tradicionalmente utilizadas. Essa se tornou uma questão extremamente importante para o futuro do desenvolvimento sustentável econômico mundial. Nesse contexto, a peletização, ou seja, o processo de compactação da biomassa visando produzir um combustível sólido granulado com propriedades mais homogêneas e com densidade energética – quantidade de energia por unidade de volume – superior à da matéria-prima que lhe deu origem, se torna atrativa e vem ganhando espaço a cada dia.

Esse combustível granulado, denominado pellets, pode ser produzido a partir de um amplo portfólio de matérias-primas, tais como os resíduos dos processamentos primários ou industriais de culturas agrícolas ou florestais. O aproveitamento da biomassa “residual” para a produção de pellets agrega valor a essa fonte energética e evita o passivo ambiental do seu descarte de maneira indevida no ambiente. Além das biomassas residuais, chama atenção, particularmente no Brasil, o potencial de produção de biomassa dedicada exclusivamente para esse fim, como exemplo as florestas plantadas de rápido crescimento, chamadas “florestas energéticas”. Cabe considerar que em 2016, segundo dados do IBÁ, a área ocupada por florestas de eucalipto para diferentes segmentos totalizou 5,7 milhões de hectares, com uma produtividade média de 35,7 m³/ha ao ano, destacando o Brasil no ranking mundial de produção florestal. A produção de pellets é um processo relativamente simples, todavia, a qualidade do produto pode ser bastante variável de acordo com as propriedades inerentes à própria biomassa e aos fato; res relacionados ao processo de produção. em 2016, o Brasil produziu 75.000 t de uma capacidade instalada de 275.750 t, provenientes de 13 fábricas operando (...) vale salientar que os últimos dados mostram a existência de 23 fábricas, porém 10 delas em status de projeto ou stand by. "

Angélica de Cássia Oliveira Carneiro Professora de Energia da Madeira da UF-Viçosa

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Opiniões A densidade, os teores de cinzas e de umidade são algumas das principais propriedades a serem avaliadas da matéria-prima, enquanto a utilização de vapor e de aditivos aglutinantes são os principais fatores do processo. Devido a essa variabilidade, foi criada uma série de normas que estabelecem as propriedades, os procedimentos e os padrões dos pellets a serem atendidas em função da sua destinação final, destacando as normas DIN-EN (europeias), ISO 17255/2014 e ISO 18122/2015. Nesse sentido, pode-se observar o crescente e cada vez mais competitivo mercado de pellets. Os empresários brasileiros interessados em investir nesse mercado devem começar a prospectar a otimização da matéria-prima, bem como do processo produtivo de pellets, tendo como objetivo principal atender aos padrões de qualidade atribuídos pelas normas internacionais de comercialização desse produto. Nesse cenário, principalmente no que se refere à qualidade dos pellets, as universidades e demais centros de pesquisas podem desempenhar um papel fundamental, avaliando diferentes biomassas, parâmetros de compactação, bem como a aplicação da técnica de torrefação dos pellets. Um exemplo são os trabalhos desenvolvidos pela Universidade Federal de Viçosa/LAPEM, com pellets torrificados e técnicas para reduzir o teor de cloro na biomassa, visto que a sua quantidade presente na biomassa de eucalipto pode vir a inviabilizar o seu uso, principalmente para atendimento ao mercado externo, que é o de uso residencial. O objetivo geral dessas pesquisas é conseguir produzir pellets com índices de qualidade satisfatórios para atender tanto o mercado interno quanto à exportação. De maneira geral, o que se busca são pellets com alta densidade energética e durabilidade mecânica, além de baixos teores de umidade, cinzas e de componentes químicos indesejáveis para o uso combustível, tais como cloro, enxofre e nitrogênio. Quanto ao mercado, vale ressaltar que a Europa destaca-se como maior produtor e consumidor de pellets para atendimento à demanda de energia tanto residencial quanto industrial para geração de calor e eletricidade, detendo, em 2016, aproximadamente 58,29% da produção, seguida pela América do Norte, com 32,13%. Já as outras regiões, contribuem com 9,58% da produção. Em 2016 houve um crescimento de 5,25% na produção mundial de pellets de madeira utilizados como combustível, de forma que, em 2016, essa produção alcançou 28,6 milhões de toneladas, fomentada pela expansão do consumo europeu. No Brasil, em 2014, a produção de pellets foi de aproximadamente 49.000 toneladas, sendo que, dessas, 24.368 toneladas foram destinadas ao mercado externo. Já em 2016, o Brasil produziu 75.000 toneladas de uma capaci-

dade instalada de 275.750 toneladas, provenientes de 13 fábricas operando, concentradas, principalmente, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tendo preços de venda variando de R$550,00 a R$ 700,00/ton. Vale salientar que os últimos dados mostram a existência de 23 fábricas, porém 10 delas em status de projeto ou stand by. Apesar de muitas fábricas estarem operando abaixo da capacidade produtiva, o setor está se estabelecendo em vista dos investimentos e acordos firmados pelas grandes indústrias de base florestal no País e da demanda externa por energia renovável respeitando os acordos do clima estabelecidos, ou seja, a redução do consumo de combustíveis fósseis. Desse modo, cada vez mais é possível observar a movimentação de substituição da matriz dos combustíveis fósseis pelos pellets, diminuindo a dependência dos mesmos e colaboração para minimizar os impactos do clima, além da competitividade nos custos. Ainda existem vários obstáculos para o desenvolvimento da produção de pellets no Brasil em escala industrial, destacando-se o déficit em infraestrutura de transporte, visto que predominantemente utiliza-se o sistema rodoviário como principal meio de transporte de cargas ligando os principais polos produtivos ao sistema portuário. Além disso, há toda a burocracia para exportação, falta de matéria-prima certificada e a descentralização dos resíduos; a falta de incentivo a estudos técnicos e científicos mais aprofundados; falta de incentivos governamentais fiscais ou subsídios; linhas de crédito específico e escala de produção insuficiente para conseguir baixar os custos fixos para aumentar a competitividade. Apesar dos desafios existentes para a consolidação de uma cadeia produtiva de pellets no Brasil, as oportunidades, em contrapartida, são muitas. É notório que o Brasil destaca-se como país emergente no cenário internacional de pellets, uma vez que há disponibilidade de matéria-prima florestal e de resíduos agroflorestais e industriais para tal finalidade em decorrência da sua abundância – devido à aptidão para estabelecimento de culturas agrícolas e florestais favoráveis pelas condições edafoclimáticas. Além disso, vale citar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305) que estabelece destinação ambientalmente adequada de resíduos incluindo a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o aproveitamento energético, sendo essa última, uma forma de incentivo à utilização dos resíduos para produção de pellets. Nesses cenários, existem perspectivas positivas de franco crescimento para o setor a curto, médio e a longo prazo, tanto para o mercado interno quanto para o externo. n

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celulose e papel

Opiniões

o papel do papel O tema “Tudo o que a floresta produz” nos remete aos conceitos de uso múltiplo da floresta e uso múltiplo da árvore, uma vez que existe diferença entre esses conceitos. Quando se considera a floresta, é necessário incluir, além dos produtos potenciais, os aspectos ligados aos serviços ambientais. Os textos apresentados nessa edição da Revista Opiniões deixam claro o quão versátil e generosa é e tem sido a árvore no que tange a disponibilização de produtos úteis à humanidade ao longo de sua história. Quando se considera a madeira como matéria-prima para a produção de polpa celulósica, deve-se enfocar efetivamente que a madeira é uma importante fonte de fibras, elemento principal da polpa celulósica destinada à produção de papéis. A polpa celulósica tem como principal aplicação a produção de diversos tipos de papéis que estão presentes no nosso cotidiano sem que percebamos isso. Mesmo com o avanço inequívoco da tecnologia digital, substituindo de forma intensa a mídia impressa, vemos o aumento do consumo de papel e, consequentemente, da produção de polpa celulósica. Essas observações estão relacionadas a alguns aspectos tais como ao aumento da população mundial e ainda ao fato de o uso do papel não estar vinculado apenas à impressão e escrita, seu uso mais evidente. Devemos destacar que, entre os principais usos do papel atualmente, está a produção de embalagens e de papéis com fins sanitários ou tissue.

Do ponto de vista econômicosocial o consumo de papéis de embalagens é um importante indicador que guarda relação direta com a intensidade das atividades econômicas de uma determinada sociedade "

Francides Gomes da Silva Júnior

Professor de Tecnologia de Celulose e Papel da Esalq-USP

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Do ponto de vista econômico-social o consumo de papéis de embalagens é um importante indicador que guarda relação direta com a intensidade das atividades econômicas de uma determinada sociedade; já o consumo de papéis sanitários está relacionado à renda per capita de uma população e outros aspectos sociais correlatos, como as políticas de acesso à saúde e saneamento básico. Tais observações ficam evidentes quando as estatísticas de consumo per capita de papel são analisadas, por exemplo, em alguns países do continente africano, ficando evidente que parte significativa dessa população não tem acesso a papéis higiênicos. Situações como essa certamente também estão presentes em nosso País. A produção de papéis de embalagem e de sanitários com elevada qualidade requerem fibras com características específicas e distintas, recomendando-se respectivamente fibras longas e fibras curtas; essa distinção está diretamente relacionada às espécies florestais destinadas à obtenção de tais fibras. As coníferas dão origem às polpas de fibra longa – deve-se mencionar que, anatomicamente, as coníferas apresentam traqueídes – e as espécies de folhosas dão origem a polpas de fibra curta; traduzindo para nossa realidade de florestas plantadas temos as de pinus e de eucalipto, que, respectivamente, dão origem a polpas de fibra longa e fibra curta. Essa diferenciação também é observada nas características dessas madeiras que, por sua vez, apresentam intensos reflexos nos processos industriais de produ; ção de polpa celulósica.


A tecnologia empregada na produção de polpa celulósica, market pulp, já está bem estabelecida, o que, no entanto, não significa que não existam desenvolvimentos sendo implementados. Nos últimos 15 anos, temos observado o aumento da capacidade de linhas de produção de polpa celulósica, sendo possível considerar como um módulo padrão, as linhas de fibra com capacidade de produção entre 1,5 e 1,8 milhões de toneladas de polpa celulósica por ano. Esses aumentos de capacidade estão atrelados a desenvolvimentos especificamente na área de engenharia de equipamentos e de controle de processos. Além dos aspectos mencionados relacionados ao aumento da capacidade, observa-se também que as empresas produtoras de polpa celulósica têm enfatizado a potencialidade de obtenção de diferentes produtos a partir de unidades tradicionais de produção de polpa celulósica, sem comprometer quantitativamente e qualitativamente a produção de market pulp. Essa visão é o que efetivamente caracteriza as unidades de produção de polpa celulósica como verdadeiras biorrefinarias. A utilização de madeira oriunda de florestas plantadas e certificadas na produção de polpa celulósica em grandes unidades de produção leva, por uma questão de escala, a disponibilização potencial de alguns coprodutos florestais, tais como casca oriunda do processo de descascamento e cavacos não classificados. Dessa forma, pode-se considerar que um pátio de madeiras produz cavacos classificados para produção de polpa celulósica, cavacos não classificados e ainda casca e resíduos do processamento de toras.

Considerando-se a eficiência média de descascamento e classificação de cavacos em unidades modernas de produção de polpa celulósica com capacidade de produção de 1,5 milhões de toneladas por ano, obtém-se a geração de, aproximadamente, 70.000 t/ano de cavacos não classificados e 360.000 t/ano de casca e resíduos. Convencionalmente os cavacos não classificados e a casca de resíduos são destinados à queima em caldeiras de biomassa para geração de vapor e potencialmente energia elétrica. Como alternativa, os cavacos não classificados poderiam ser utilizados para a produção de pellets para comercialização no mercado internacional. Considerando apenas os “produtos” obtidos no pátio de madeiras, suas aplicações na produção de polpa celulósica, pellets e energia, e os respectivos volumes e preços médios de mercado, nota-se que a produção de polpa responde por aproximadamente 96% da receita anual de uma unidade de produção de polpa celulósica. Os pellets e a energia obtida da casca, por parcelas praticamente iguais, totalizam 4%. Deve-se destacar que nesses cálculos preliminares não se considerou a energia obtida a partir da queima do licor negro em caldeiras de recuperação. Os pontos abordados anteriormente mostram que a produção de polpa celulósica de mercado, market pulp, é revestida de inúmeros aspectos que envolvem questões sociais e de sustentabilidade ambiental, além do âmbito técnico e econômico. Esse setor de produção é o que mantém em destaque esse importante e desafiador segmento industrial tradicionalmente ligado ao setor florestal. n

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celulose e papel

modelo das empresas de tecnologia É possível que você esteja lendo este artigo em uma revista impressa, um dos múltiplos usos atuais do papel. Dos antigos povos do Egito e Oriente Médio até hoje muita coisa mudou e não somente na composição e qualidade do material utilizado para transmitir conhecimentos e informações. Além da leitura, o papel é também matéria-prima em embalagens, móveis e pallets, higiene e beleza, construção, decoração, brinquedos e tantos outros materiais que a imaginação e as pesquisas têm permitido aplicar. Tudo começa e depende das florestas – essa compreensão tem de estar consolidada na mente de todos os profissionais que atuam na cadeia de papel e celulose. Pode parecer básica e simplista, mas esconde certa complexidade e, às vezes, um conflito de interesses que leva a decisões prejudiciais ao mercado e às próprias empresas em longo prazo.

Existiu, ou ainda existe, a ideia de que o consumo do papel vai acabar por conta da tecnologia, o que tem se provado uma ideia equivocada. Ao contrário, observa-se o aumento da produção e consumo de papel e celulose, em parte, com novos modelos e destinações. A tecnologia, a mesma que seria a causa da derrocada do segmento, possibilitou, em verdade, a propagação do uso do papel para outras aplicações, como por exemplo, em embalagens resistentes a líquidos ou materiais que podem até se transformar em cadeiras ou pallets. Voltando à questão de que tudo em nosso mercado começa e depende das florestas, é fundamental ressaltar a importância de depreender esforços no sentido de assegurar a preservação desse bem natural que, se bem manejado, é eterno. Infelizmente, existe a disseminação de informação incorreta de que a produção de papel no Brasil se utiliza primordialmente (e de forma não sustentável) destes nossos recursos naturais – as matas nativas.

Existiu, ou ainda existe, a ideia de que o consumo do papel vai acabar por conta da tecnologia, o que tem se provado uma ideia equívocada. Ao contrário, observa-se o aumento da produção e consumo de papel e celulose, em parte, com novos modelos e destinações "

Hjalmar Fugmann

Presidente da Voith Paper América do Sul

A verdade não poderia estar mais distante disso. No território brasileiro, a área total de florestas plantadas é de cerca de 7,8 milhões de hectares, sendo que desses, 2,6 milhões correspondem ao plantio florestal do setor de celulose e papel, segundo dados do Ibá – Indústria Brasileira de Árvores. Contudo, se periodicamente são desenvolvidos novos usos para o papel, como garantir a sustentabilidade das florestas e do ambiente? Isso não significaria o aumento dos danos causados à natureza que a sociedade tanto tem se esforçado para reduzir? Posso afirmar que é possível aliar ambos os aspectos a alternativas modernas dentro e fora de nossas porteiras. Dentro das porteiras, o Brasil é um exemplo a ser seguido. Nossa matéria-prima é oriunda de florestas plantadas especificamente para esse fim, com uso de técnicas de conservação ; do solo e do bioma.

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Opiniões A seleção e adaptação de espécies de alto rendimento para as diferentes condições climáticas do Brasil nos tornam altamente produtivos. Da porteira para fora, o caminho surgiu principalmente por meio do desenvolvimento de tecnologia, com especialistas que se debruçaram sobre problemas-chave e desenvolveram soluções inteligentes e viáveis para a indústria de papel e celulose. Hoje em dia, a carga tecnológica nos equipamentos, serviços e processos envolvidos nessa produção é algo que parecia inimaginável há duas ou três décadas. Ainda há um enorme espaço para aprimorar os processos já instalados, com mudanças nos equipamentos obsoletos ou nas lacunas de melhoria. Entretanto, os esforços e estudos compreendem uma gama cada vez maior de soluções que permitem o uso de um volume menor de recursos naturais para a fabricação de todos os tipos de papéis. É possível, por exemplo, produzir papel com a mesma qualidade, reduzindo consideravelmente o consumo de energia (em até 30%), ou ainda, economizar água e fibras para obter o mesmo produto final. Já existem no mercado soluções bastante completas para renovação do parque de equipamentos instalados, exigindo menores investimentos, oferecendo prazos de implantação mais enxutos e baixa interferência na rotina da fábrica. São aspectos que pesam positivamente nos resultados das empresas e também no balanço ambiental. Um dos principais objetivos atuais é ter uma linha de soluções totalmente integrada, que reúne a otimização da performance com maior estabilidade no controle do processo, a manutenção preditiva inteligente e baseada em monitoramento em tempo real e um toque de futurismo, com a identificação de serviços imprescindíveis antes mesmo que suas necessidades sejam percebidas. Uma fábrica equipada com essa tecnologia tem baixíssimas taxas de desperdício, torna-se mais competitiva frente aos concorrentes e, portanto, aumenta sua capacidade produtiva com reduzido impacto ambiental. Assim como tecnologias que há poucos anos pareciam distantes dos campos, como uso de GPS, drones e agricultura de precisão – as quais atualmente fazem parte do dia a dia da indústria –, avanços que mais lembram filmes de ficção científica estão sendo integrados nas enormes máquinas de papel e celulose. Já existem empresas de ponta trabalhando com intervenções de especialistas por videoconferência e utilizando-se de realidade aumentada para manutenção desses equipamentos. Ganha-se tempo, eficácia e eficiência ao assimilar tais práticas. Evidentemente, não é possível comparar a dinâmica de tais mudanças com a velocidade imprimida por empresas de tecnologia como Google, Amazon e Facebook, em termos de novos desenvolvimentos, mas vivemos em um momento global, que demanda aperfeiçoamentos e inovações em ciclos cada vez mais curtos e alta taxa de resiliência. Seja qual for o seu segmento de negócio, cresce quem conseguir acompanhar esse modelo de observar o comportamento dos clientes, aprender com eles e oferecer soluções que melhorem suas experiências e gerem ganhos perceptíveis. É aquela sensação de ser surpreendido com algo que parece ter sido feito sob medida, de uma maneira aparentemente simples, fácil de acessar e de custo adequado.

Neste contexto, uma pergunta chave que as pessoas envolvidas na produção florestal devem fazer aos fornecedores é: “o que vocês podem fazer para reduzir permanentemente o impacto ambiental, sem afetar negativamente a produção?” As companhias que responderem a essa provocação da melhor maneira são as mais apropriadas para assumirem, ou manterem, a posição de líderes globais em seus respectivos segmentos. O Brasil merece se orgulhar de sua produtividade e tecnologias adotadas na produção de papel e celulose. Somos os maiores produtores de polpa de eucalipto no mundo e o quarto em volume total de polpa, com o parque fabril mais produtivo do mundo. Isso é ótimo, pois, aliada à nossa capacidade de produção agroflorestal, nos dá vantagem em relação aos demais países. Mas é arriscado acomodar-se e deixar tal liderança nos fazer perder a velocidade da inovação. Países como Estados Unidos e nosso vizinho Peru estão investindo na renovação dos equipamentos com alternativas de ponta. A verdade é que a inovação deve ser prática constante, mesmo em mercados tradicionais como o nosso. E é a disciplina e a constância que fazem a diferença, nesse contexto. Ao mesmo tempo, assim como não se pensava em armazenar líquidos em embalagens de papel em um passado recente e o fazemos hoje com naturalidade, o que o futuro nos reserva? Há estudos para desenvolvimento de papéis moldáveis, tridimensionais, híbridos, e até mesmo para aplicações e finalidades, nas quais hoje o papel ainda não consegue suprir demandas adequadamente. Garantir a sustentabilidade das florestas e do ecossistema ao qual elas pertencem é uma demanda e um dever mundial, cada vez mais cobrado por toda a sociedade. Mais do que isso, é uma necessidade absoluta na busca por qualidade de vida da humanidade em um futuro próximo. Ao mesmo tempo, permanece o desafio do aumento do consumo frente à restrição dos recursos naturais. Mesmo já sendo chamado de ambientalmente amigável, visto que sua reciclagem requer um tempo consideravelmente menor quando comparado a outras matérias-primas, é essencial aliar inovação no uso do papel à sustentabilidade ambiental em um mercado que precisa das florestas e tem seus produtos finais presentes em todos os cantos do mundo. Falo como executivo de uma das maiores empresas globais no fornecimento de equipamentos para a indústria de papel e celulose e posso afirmar que, de nossa parte, as opções em inovação das tecnologias e dos processos, além do fornecimento de serviços de alto valor agregado, continuarão como prioridade. Faço o convite para conhecer o que existe disponível nesse mercado e como essas soluções podem transformar o modo como se aproveitam os recursos naturais e humanos, tornando cada vez mais real a aspiração a um futuro verde e próspero. n

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carvão vegetal

Opiniões

florestas são muito mais que árvores! Tudo o que os cultivos florestais manejados pelas empresas proporcionam, ultrapassa simplesmente o mero ato de produzir madeira. Elas atuam desenvolvendo os pilares da sustentabilidade, dentre os quais a Responsabilidade Social, especialmente para as comunidades das regiões onde atuam colaborando na busca de soluções viáveis para os seus problemas. Florestas são muito mais que árvores, a começar pela emaranhada e complexa relação entre os componentes bióticos e abióticos que formam o ecossistema florestal. A partir do início do século XX, a sucessão ecológica passa a ser tema dos pesquisadores mostrando que o ecossistema tende sempre a evoluir, a mudar a sua composição, e que essa evolução apresenta fases características. A sucessão constitui-se em uma série de mudanças temporais e direcionais, envolvendo a composição das espécies e o estado do ecossistema. Florestas se constituem em sistemas complexos, que têm a capacidade de trocar entre diferentes modos de se estruturar, à medida que as condições ambientais são alteradas. Há muito se fala sobre os benefícios do ecossistema florestal, mas parece que tais benefícios são tão comuns, – talvez pelo fato de nunca nos terem faltado – que para a maioria passam despercebidos. Provavelmente alguns darão a devida importância quando os mesmos chegarem ao limite da escassez ou forem totalmente perdidos. "

Roosevelt de Paula Almado

Gerente de Pesquisa Florestal e MA da ArcelorMittal BioFlorestas

Informalmente sabe-se que “floresta” é qualquer vegetação que apresente predominância de indivíduos lenhosos, na qual as copas das árvores se tocam formando um dossel. Em uma visão mais técnica e segundo a UNFCCC - United Nations Framework Convention on Climate Change, "Floresta é uma área de no mínimo 0,05-1,0 ha com cobertura de copa (ou densidade equivalente) de mais de 10-30%, com árvores com o potencial de atingir a altura mínima de 2-5 metros na maturidade in situ.

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Uma floresta pode consistir tanto de formações florestais fechadas (densas), nas quais árvores de vários estratos e suprimidas cobrem uma alta proporção do solo, quanto de florestas abertas. Povoamentos naturais jovens e todas as plantações que ainda atingirão densidade de 10-30% e uma altura entre 2 e 5 metros são incluídos como floresta, assim como áreas que normalmente fazem parte da área florestal e que estão temporariamente desflorestadas como resultado da intervenção humana, como a colheita ou causas naturais, mas cuja reversão da floresta é esperada.” Há muito se fala sobre os benefícios do ecossistema florestal, mas parece que tais benefícios são tão comuns, – talvez pelo fato de nunca nos terem faltado – que para a maioria passam despercebidos. Provavelmente alguns darão a devida importância quando os mesmos chegarem ao limite da escassez ou forem totalmente perdidos. Comprovado cientificamente como regulador e mantenedor de serviços ambientais essenciais à humanidade, o ecossistema florestal, quando preservado, contribui para a ma; nutenção da biodiversidade.


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carvão vegetal O mesmo tem reflexos diretos na agricultura, silvicultura e produtos da pesca, ciclos hidrológicos naturais estáveis, solos férteis, um clima equilibrado e inúmeros outros serviços vitais do ecossistema dependem da conservação da diversidade biológica. A produção de alimentos, a polinização, o controle de pragas, a provisão de nutrientes, a diversidade genética, a prevenção e controle de doenças e a biodiversidade mantêm ativa a indústria do turismo. Abordando mais especificamente os cultivos florestais com espécies de rápido crescimento – em especial os gêneros Eucalyptus e Corymbia, no âmbito das empresas florestais que produzem carvão vegetal, – a complexidade do manejo florestal extrapola a relação altura x diâmetro, na qual a facilidade, velocidade e exatidão correlacionam a estimativa de volume e representam apenas parte de todos os benefícios que os cultivos podem e fornecem hoje em uma escala diretamente proporcional aos seus stakeholders. Pensando no tema “tudo o que a floresta produz”, destaca-se a flexibilidade do manejo florestal, no qual várias peças podem ser montadas partindo-se do princípio do produto desejado. Interação entre espécies, espaçamento e consequentemente o produto que acompanha a tendência do mercado. Madeira! Madeira para serraria, madeira pra carvão, madeira para tratamento, madeira para diversas finalidades. A propriedade agrícola é um bom exemplo. Várias culturas arranjadas para as quais o mercado dita o que é melhor plantar, colher e criar. A implementação dos SAFs – os sistemas agroflorestais cujo objetivo é o uso racional e o manejo dos recursos naturais que integram consorciações de árvores e culturas agrícolas, também é uma opção à produção e obtenção de renda e certificam a possibilidade do uso múltiplo e diversificado das árvores. Destaca-se ainda a produção de produtos não madeireiros como óleos essenciais e mel, além de outros serviços diretos como a educação ambiental e o turismo conservacionista. De tudo o que a floresta produz, o carvão vegetal destaca-se por ser uma das principais fontes de energia da matriz energética brasileira, porém tem uma eficiência de produção de até 35%. Em outras palavras, a cada 100 quilos de madeira pode-se produzir cerca de 35 quilos de carvão. Os outros 65% se caracterizam por serem gases não condensáveis e licor pirolenhoso. Ainda é muita energia perdida, por isso projetos de melhoria contínua vem sendo desenvolvidos pelas empresas produtoras de carvão vegetal no Brasil. A floresta renovável, através da produção de carvão vegetal, vem despertando o senso de investigação das equipes operacionais, técnicas, acadêmicas

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e governamentais produzindo iniciativas para aproveitar a fumaça em seus processos buscando tornar a atividade mais eficiente em termos de aproveitamento dessa energia residual que hoje é liberada para a atmosfera. Dentre as iniciativas, destacamos o Queimador de Fumaça que consiste em uma câmara de combustão que queima os gases residuais do processo de carbonização, transformando o metano em dióxido de carbono. Essa transformação reduz o impacto ambiental desse gás residual em 21 vezes, relacionado com o impacto do metano no dióxido de carbono. Esse processo de queima transforma o gás residual a 110 °C em uma maior quantidade de gás a 900 °C, o que se torna um calor residual renovável. Também vale destacar o Secador de Madeira – um equipamento que funciona como uma estufa. Nele, a madeira que será carbonizada é armazenada e recebe o calor residual do processo acima mencionado para diminuir a sua umidade. Assim, a madeira mais seca quando carbonizada reduz a necessidade de energia para remover a sua umidade dentro do forno durante o processo de carbonização. Como o combustível desse processo é a própria madeira, através desse processo é possível aumentar a eficiência energética em até 30%, além de aumentar a produtividade e a rentabilidade da atividade em até 10%. A madeira mais seca, promovendo uma maior produtividade, reduzindo a queima de carvão, também contribui para a melhoria da qualidade do produto, pois o carvão vegetal tem um tamanho de grão maior (<15% de finos) e menor incidência de incêndio de descarga (menor porcentagem de umidade e de finos). Por último, destaca-se a Cogeração de Energia, a qual também se beneficia do calor residual gerado pelo Queimador de Fumaça. Um recuperador de calor recebe esse calor residual e também ar atmosférico, que se torna superaquecido. Uma turbina a gás adaptada comprime esse ar atmosférico antes de entrar no recuperador de calor e o recebe depois do trocador de calor comprido e superaquecido, quando é expandido, gerando energia elétrica. Podemos considerar que, a cada mil toneladas de carvão vegetal produzidas, é possível gerar 1 MW elétrico, aumentando a eficiência energética da produção de carvão vegetal em cerca de 14%, além de aumentar a rentabilidade da empresa com a venda dessa energia para outras empresas do grupo ou para o grid. O potencial da ArcelorMittal BioFlorestas é de 30 MW elétricos. Essa iniciativa foi realizada em parceria com a Cemig – Companhia de Energia de Minas Gerais através do programa de incentivo a pesquisa da Aneel. n


Opiniões

um futuro melhor para a

indústria de árvores

O estado de Minas Gerais é o maior produtor brasileiro de carvão vegetal oriundo de florestas plantadas. Com o reconhecimento de sua importância no cenário nacional e a certeza do caráter decisório que seu desenvolvimento trará para o setor florestal nos próximos anos, é que a necessidade de otimizar o presente e planejar o futuro emergiu entre os principais produtores florestais de Minas Gerais. Embora líder na produção de carvão vegetal, o mercado mineiro é amplamente diversificado, sendo representado por praticamente todos os segmentos da indústria de base florestal. O estado possui vocação natural para o setor e reconhecida expertise em desenvolver florestas de qualidade que abastecem uma indústria nacional e internacional intensiva em madeira. Possui uma malha logística atraente; recursos naturais adequados que permitem obter a produtividade almejada; diversidade de produtores experientes; grande parte dos maciços florestais certificados; investimentos em pesquisa e melhoramentos genéticos diferenciados que são responsáveis por

uma grande parcela dos clones de eucalipto que o mercado brasileiro utiliza. Por fim, o ambiente receptor do desenvolvimento em bases sustentáveis e duradouras é propício, porém, está ávido por ajustes que permitirão a sua decolagem. Apesar dos aspectos atrativos, da vocação natural e do ambiente propício, por que o setor foi tão impactado nos últimos anos em Minas Gerais? Esse questionamento ocupa a agenda e os debates do setor produtivo em diversos fóruns e foi compartilhado com o governo do estado que assistiu a estagnação do setor e a fuga de investimentos significativos que reduziram o volume de negócios, e, consequentemente, as divisas estaduais nos últimos anos. Porém, não há mais tempo para discutir uma combinação de probabilidades que deram causa, é hora de movimentar as forças privadas e governamentais para mudar o questionamento: Como retomar o desenvolvimento em bases duradoras? A resposta é simples, investir em diagnósticos precisos, simulações de cenários, planejamentos de médio e longo prazo, ação direcionada e monitoramento constante.

Para vencer cenários desestimulantes é preciso coragem e determinação para fazer até mesmo o que ninguém ainda fez, para tocar as feridas com o objetivo de fechá-las para proporcionar a renovação. "

Adriana Maugeri

Diretora Executiva da AMS - Associação Mineira de Silvicultura

A Associação Mineira de Silvicultura e o Governo do Estado de Minas Gerais iniciaram a elaboração do Plano Estratégico Setorial que consiste no cruzamento de visões da iniciativa privada e do governo para viabilizar a manutenção e o desenvolvimento do setor e de sua cadeia de valor com alcance de longo prazo. O principal resultado esperado será a manutenção da posição de liderança, por meio de um trabalho técnico robusto e especializado que subsidie a tomada de decisões viabilizando o desenvolvimento setorial configurado em um plano de estado que represente de fato o interesse público coletivo. O direcionador inicial desse trabalho é conhecer profundamente o setor florestal no estado com suas características e comportamento peculiares. ;

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carvão vegetal Como exemplo, no segmento de carvão vegetal, mais de 70% de toda produção é de responsabilidade de pequenos e médios produtores que, por outro lado, são os proprietários das menores parcelas de florestas plantadas. Entender como se dão essas relações e práticas é essencial para traçar caminhos sólidos. Outro exemplo é o desafio de manter a produção de carvão para abastecimento da indústria, porém viabilizando formas de gradualmente reduzir a dependência desse consumo. Após o embalo da última e maior crise que enfrentamos, vários produtores que apostaram no promissor mercado para o eucalipto em meados de 20082009, desistiram progressivamente de manter seus plantios. Havia na época uma confiança dos produtores que seriam exitosos em um proclamado “apagão florestal”. Será que a ameaça do apagão ainda sobrevive? Questões como essa, somente um amplo diagnóstico e um mapeamento profundo do mercado serão capazes de orientar para uma resposta conclusiva. Um fato positivo e de aprendizado que a crise trouxe é o reforço à máxima: “Silvicultura não é atividade para aventurar-se”. Representamos uma atividade que nos recepciona com a necessidade de sete anos de fluxo de caixa negativo para realizar seus investimentos e que, muito ao contrário do que é divulgado nos rincões desse País por quem não conhece nossas árvores, trata-se de uma cultura que o manejo adequado é essencial para produzir madeira com apetite de comercialização. O simples estímulo ao plantio – sem a assistência técnica adequada, linhas de investimento ajustadas e análises reais de demanda e oferta – já mostrou, em Minas e, em outros estados brasileiros, que não é uma estratégia a ser repetida. A lição foi clara, pois deixou cicatrizes. É momento de abordar pontos que incomodam alguns, mas que são fatores cruciais de sucesso. São eles produtividade, mecanização, transporte, relações comerciais, retorno de investimentos, segurança jurídica, política degradante de preços, déficit hídrico, carga tributária, mão de obra rural, licenciamento ambiental, gestão fundiária e, pesquisa e inovação, para ser sucinta. O Plano Estratégico da Indústria de Base Florestal do Estado de Minas Gerais tem como objetivos gerais: incremento da comunicação setorial, licenciamento simplicado, políticas públicas de incentivo, segurança jurídica, gerenciamento de crises, diversificação do mercado (produtos e demanda), recuperação de áreas degradadas, contribuição à política brasileira sobre mudança do clima, investimento em pesquisa e desenvolvimento, e fortalecimento da associação setorial. O diferencial desse Plano é que ele apresenta a primeira Avaliação Ambiental Estratégica – AAE, integrada a um planejamento de um setor privado no estado e provavelmente no País nessa configuração – uma vez que a ferramenta da AAE ainda é pouco difundida e utilizada no Brasil, embora conste em algumas normas vigentes e outras propostas no nosso ordenamento jurídico. Por meio da AAE, é possível o uso racional das informações para promover uma análise integrada dos aspectos da atividade econômica, dos territórios regionais, dos recursos naturais e do potencial de desenvolvimento socioeconômico almejado, transcritos aqui de forma resumida, pois suas possibilidades são bem mais amplas.

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A partir dessa análise, por exemplo, é possível determinar em um estado, em seus múltiplos territórios, aptidões econômicas dentro de nosso setor que uma vez implantadas serão otimizadoras sociais e ambientais, impulsionando o desenvolvimento local e regional. Um empreendedor florestal e/ou industrial terá, previamente à tomada de decisão, informação disponível sobre qual região é mais propícia à implantação do empreendimento pretendido e, por sua vez, quais mecanismos do governo serão oferecidos para estimular a sua implantação, a qual é vista nesse contexto como um investimento sustentável parceiro e já creditado pela sociedade que é parte fundamental da elaboração da AAE. O Plano proporcionará ao estado, ajustes normativos legais que orquestrarão o estímulo inteligente ao desenvolvimento desse setor. Concluindo, no Plano Estratégico da Indústria de Base Florestal do Estado de Minas Gerais, a AAE tem a função de bússola do planejamento integrado da iniciativa privada e do estado. Outro destaque que não pode deixar de ser mencionado é que tanto a AAE, quanto o Plano, serão construídos em bases técnicas imparciais, robustas e multidisciplinares, com alto grau de especialização e, sem dúvida, serão argumentos seguros contra aqueles que por desconhecimento insistem em promover os plantios florestais como atividades degradantes. Contra informação técnica comprovada e de qualidade não há argumentos sem embasamentos do mesmo nível. Para vencer cenários desestimulantes é preciso coragem e determinação para fazer até mesmo o que ninguém ainda fez, para tocar as feridas com o objetivo de fechá-las para proporcionar a renovação. Qualificando a informação, a análise e o planejamento, consequentemente o diálogo e a negociação também acompanharão essa evolução, e é o que o setor buscará juntamente com o estado de Minas Gerais. Certamente ao longo do próximo ano já teremos os primeiros produtos desse inovador trabalho, fruto dessa parceria proveitosa e, sem dúvida alguma, será um marco divisor para um novo futuro que plantamos hoje, já planejando seriamente nossa colheita. A Associação Mineira de Silvicultura está trabalhando e dando vida a um antigo anseio do setor em escala nacional, é a aposta integral dos produtores sérios e comprometidos que acreditam e investem, mesmo com tantas dificuldades e obstáculos, no estado que tem nas florestas plantadas uma de suas maiores vocações e que é orgulho para o Brasil. Aqui, o setor está totalmente inter-relacionado entre pequenos, médios e grandes produtores e consumidores. Não há benefícios gerados que não serão absorvidos por todos os elos e compartilhados com a sociedade. Certamente novos mercados serão formados e diversificados com menor dependência e com maior qualidade naquilo que já somos reconhecidos. Minas Gerais está reescrevendo sua história e será ainda mais reconhecida, por que não, como: “Minas e Florestas Gerais”? n


novos produtos

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biomassa lignocelulósica: grande potencial e muitos desafios Muito se pesquisa e pouco se aplica industrialmente. A busca mundial pela redução dos efeitos da utilização de recursos fósseis e pela sustentabilidade motiva-nos fortemente a viabilizar a pesquisa acadêmica no setor industrial. Nesse artigo, irei comentar sobre a transformação eficiente da biomassa visando à tão sonhada sustentabilidade no Brasil. Nosso País apresenta múltiplas condições para tornar-se a maior potência na substituição de fontes fósseis por matérias-primas renováveis, apresentando diversas vantagens que se destacam, como irradiação solar, clima, áreas disponíveis para agricultura, agroindústria consolidada e produtiva e uma abundante biodiversidade. Devido a essas características naturais, o Brasil é hoje um dos países com maior participação de fontes renováveis na sua matriz energética.

Em 2030, essa participação deverá alcançar os 45%, sendo que 18% deverão ser dedicados à bioenergia (consumo de biocombustíveis) e, assim, o País cumprirá as metas estabelecidas no acordo da COP21 em Paris, 2015. A pressão para reduzir os Gases de Efeito Estufa (GEE) tende a ser cada vez maior e, como consequência disso, a madeira e outras biomassas, por serem recursos renováveis, deverão mostrar-se cada vez mais atraentes. Desse modo, os conceitos de sustentabilidade e biorrefinaria vão ganhando força no cenário atual dos setores de papel, celulose e biocombustíveis, que atravessam atualmente uma fase sem precedentes no investimento de recursos destinados à P&D. Sabe-se que a biomassa lignocelulósica é estruturada basicamente por três polímeros; celulose, hemicelulose e lignina; outros compostos em pequenas quantidades como grupos acetil e minerais estão também presentes, formando uma arquitetura complexa. Na indústria de celulose, esse polímero é eficientemente aproveitado para a fabricação de diferentes tipos de papel. No entanto, a hemicelulose e a lignina são queimadas para geração de energia da própria unidade de produção. O potencial desses polímeros pode ser melhor explorado direcionando-os para algo mais rentável, já que a hemicelulose e a lignina possuem açúcares e compostos fenólicos, respectivamente; que podem ser precursores de uma plataforma de produtos de va; lor agregado cuja origem é na petroquímica.

Considerando esse conjunto de boas perspectivas, somos levados a acreditar que a indústria de papel e celulose tenha maior potencial para tirar o conceito de biorefinaria do papel. "

Desireé Soares da Silva

Pesquisadora Industrial do Instituto Senai de Inovação em Biomassa – ISI Biomassa

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novos produtos Diante desse cenário, uma oportunidade surge para um novo segmento de mercado na indústria de celulose. A lignina possui um alto poder calorífico, cerca de 98% desse polímero contido na biomassa é queimado, apenas 2% é recuperado e processado para a síntese de químicos. Apesar do grande potencial da lignina como fonte de compostos aromáticos, ainda existe uma barreira tecnológica a ser superada para quebrar eficientemente a estrutura química desse complexo polimérico em produtos químicos básicos (benzeno, tolueno, xileno, fenóis, vanilina, etc). Países como Noruega (Borregaard Lignotech) e Canadá (Tembec) fazem parte da reduzida porcentagem que contribui para o desenvolvimento de produtos químicos à base de lignina renovável e para a sua aplicação em diversos segmentos. Já no Brasil, a Suzano recentemente inaugurou uma planta piloto de extração de lignina na sua unidade de Limeira, sendo a primeira da América do Sul e liderando essa iniciativa no País. O setor florestal brasileiro possui a segunda maior cobertura com cerca de 7,8 milhões de hectares de eucalipto, pinus e outras espécies plantadas, posicionando o Brasil como o maior produtor e o maior exportador de celulose de fibra curta do mundo. Como consequência, a expectativa para este ano é que o País salte do 4º para 2º lugar em produção mundial de celulose, ultrapassando o Canadá e a China, segundo dados estimados pelo Ibá – Indústria Brasileira de Árvores, e que confirmam o grande potencial de expansão do setor. Em Três Lagoas (MS) encontra-se a maior planta de celulose do mundo, a Fibria, que, da mesma maneira que a Suzano, vem colocando esforços na exploração da lignina. Nesse município encontra-se também a Eldorado que recentemente foi comprada pela Paper Excellence, pertencente ao grupo Asian Pulp, o que sinaliza a entrada dos chineses no mercado brasileiro. Além disso, a biotecnologia vem contribuindo e evoluindo para o desenvolvimento do setor, agregando valor a diversos segmentos, como exemplo na produção de nanocelulose e adesivos sintéticos a partir de lignina. É ainda importante mencionar que alguns estudos para 2030 mostram que o EtOH de segunda geração mais barato pode ser potencialmente produzido a partir de eucalipto. Considerando esse conjunto de boas perspectivas, somos levados a acreditar que a indústria de papel e celulose tenha maior potencial para tirar o conceito de biorrefinaria do papel. Por outro lado, o setor sucroenergético enfrenta os mesmos desafios tecnológicos em relação ao aproveitamento da lignina e açúcares provenientes da hemicelulose. Apesar de existirem atualmente diversas plantas pilotos e plantas de demonstração para conversão de açúcares C5 e C6 em etanol (EtOH 2G),

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muitas pesquisas na área de desestruturação da biomassa, engenharia genética de leveduras e enzimas estão sendo priorizadas para preencher alguns gaps tecnológicos. Em paralelo, existe um grupo reduzido de pesquisas voltadas à recuperação da xilose e arabinose da hemicelulose para síntese de novos bioprodutos, como xilitol, arabitol, furfural e outros furanos, porém sem previsão a curto prazo para viabilização econômica em escala industrial. A tecnologia de EtOH 2G também utiliza a lignina para a cogeração de energia da mesma maneira que o bagaço de cana-de-açúcar da tecnologia de EtOH 1G, o que viabilizou a transformação do setor sucroalcooleiro em sucroenergético. O conceito de cogeração de energia com lignina vem sendo aplicado de maneira industrial na primeira planta de EtOH 2G do hemisfério Sul, a BioFlex 1, em Alagoas. O Brasil, sendo o primeiro produtor de açúcar e o segundo maior produtor de etanol no mundo, possui biomassa abundante e de baixo custo para tornar-se pioneiro no desenvolvimento de bioquímicos a partir dela. Grandes multinacionais como Coca-Cola e Pepsi Cola têm investido na fabricação de materiais de origem renovável, como é o caso das garrafas PET (Polietilenotereftalato), produzidas até 100% a partir de açúcares C5 e/ou C6. Espera-se que na próxima década, as indústrias brasileiras consigam viabilizar a utilização de rotas inovadoras para geração de novos bioprodutos. Apesar do gargalo que sabemos que hoje existe no processo de separação eficiente de celulose, hemicelulose e lignina, acredito que a ciência brasileira está caminhando para alcançar o know how suficiente no desenvolvimento e otimização de tecnologias que permitam a separação desses compostos e a sua utilização na produção de bioquímicos renováveis. Nesse âmbito é importante destacarmos o avanço do Brasil em pesquisa nas últimas décadas, de acordo com dados do Thomson Reuters, passou a ser o 13º no ranking mundial, com aproximadamente 40 mil trabalhos publicados em revistas indexadas. Saltando, assim, mais de 10 posições em duas décadas. Entretanto, no quesito inovação o Brasil ainda ocupa a posição 70º de acordo com dados da Cornell University (2015), o que significa que a maior parte da pesquisa básica publicada não está sendo efetivamente aplicada na indústria, o que reflete no baixo número de patentes depositadas. A grande distância que parece existir entre o mundo da academia e a indústria ainda faz parte da nossa cultura, o que está começando a ser mitigado com algumas iniciativas do governo como a criação de institutos de pesquisa e inovação (ISI Biomassa) voltados à efetiva aplicação da ciência brasileira. n


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potencial

da biomassa florestal

Nos últimos anos, a falta de chuvas escancarou o problema hídrico no Brasil, fazendo com que cidades interrompessem, durante longos períodos, o fornecimento de água para a população. Além disso, por sermos um país cuja matriz energética é baseada na energia hidrelétrica, os preços da energia elétrica dispararam. Esse aumento nos preços fez com que alguns segmentos industriais, especialmente o de celulose e papel, definitivamente abrissem os olhos para um negócio bastante rentável: a venda de parte da energia gerada a partir de biomassa.

As fábricas de celulose mais modernas já são autossuficientes na geração e consumo de energia. Porém, os últimos projetos têm considerado a energia elétrica como um coproduto bastante rentável, diferentemente de projetos anteriores, nos quais a energia vendida era a excedente. A geração de energia elétrica a partir da biomassa é um campo em expansão no Brasil. A chamada “energia verde”, oriunda de fontes renováveis, traz consigo um grande apelo ambiental, cada vez mais requisitado pela sociedade.

A chamada “energia verde”, oriunda de fontes renováveis, traz consigo um grande apelo ambiental, cada vez mais requisitado pela sociedade. "

Leonardo Rodrigo Pimenta e Tiago Edson Simkunas Segura Gerente de Controle Técnico e Especialista de Projetos de Tecnologia e Inovação da Eldorado Brasil

Nesse contexto, diferentes fontes de biomassa para a queima em caldeiras e geração de energia têm sido utilizadas e estudadas. Pensando especificamente em uma fábrica de celulose, os principais materiais utilizados como biomassa são as cascas e os rejeitos do processo de picagem da madeira. ;

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novos produtos

Opiniões

Atenta a esse mercado ascendente, a Eldorado iniciou um estudo sobre a utilização de resíduos florestais para queima em caldeiras de biomassa e geração de energia. Dentre esses resíduos estão incluídos, além da casca das árvores, os galhos, as folhas, os tocos e as raízes. Cascas, galhos e folhas normalmente são depositados sobre o solo após o processo de colheita e descascamento no campo, facilitando sua coleta e processamento. Por outro lado, as raízes se localizam abaixo do solo, enquanto os tocos ficam parcialmente enterrados, o que dificulta sua remoção. Tipicamente, as raízes e os tocos permanecem na área após a colheita, causando um impedimento físico para as operações de preparo de solo para o plantio florestal subsequente. Além disso, estima-se que cerca de 12% da biomassa produzida em uma área florestal corresponda a raízes e tocos, ou seja, há uma parcela importante de biomassa produzida que não é aproveitada. Pensando no aproveitamento energético desses materiais, iniciamos um estudo para a remoção das raízes e tocos do campo em áreas nas quais a brotação não seria conduzida. Esse material foi testado e apresentou potencial energético muito similar ao da madeira. Considerando os custos envolvidos no processo, que vão desde a remoção das raízes e tocos até o transporte dessa biomassa processada ao destino final, e a rentabilidade estimada com a venda de energia elétrica, esse tema já está consolidado dentro da empresa: é rentável utilizar as raízes e os tocos para a geração de energia elétrica. Durante uma reunião para discussão do assunto, surgiu uma ideia: como os tocos e as raízes são materiais lignocelulósicos, por que não testá-los para a produção de celulose? Fizemos diversos testes laboratoriais e os resultados foram surpreendentes. Inicialmente, realizamos as análises de caracterização desses materiais, com especial atenção para a análise química. Observamos que as raízes e tocos apresentam teores de extrativos e lignina, compostos indesejáveis para a produção de celulose, ligeiramente superiores à madeira comercial, usualmente utilizada. PROPORÇÃO EM MASSA DE UMA ÁRVORE

Madeira

81,5%

Casca

5,9%

Raiz

6,9%

Toco

5,7%

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Consequentemente, a madeira comercial apresenta uma maior fração de carboidratos (celulose e hemiceluloses), o que é desejável para o processo. Após essa caracterização, foram realizadas as simulações de produção de celulose. Esperávamos que as raízes e cepas apresentassem um rendimento extremamente baixo nesse processo, porém não foi isso que observamos. Apesar de apresentarem um rendimento mais baixo comparado ao da madeira comercial, os resultados dos cozimentos desses materiais foram satisfatórios. Também branqueamos e analisamos a qualidade das polpas, considerando seus aspectos morfológicos e de resistência físico-mecânica. Houve um consumo de químicos um pouco maior no branqueamento das polpas de raízes e tocos em comparação à polpa de madeira comercial, mas a diferença não foi exorbitante. As polpas branqueadas de raízes e tocos apresentam características bastante interessantes, como alto bulk (volume específico), baixo teor de vasos e alta opacidade. Nos ensaios mecânicos, essas polpas se mostraram menos resistentes à tração, rasgo e estouro que a polpa de madeira comercial. Assim, concluímos que raízes e tocos, se removidos da área florestal colhida, podem ser utilizados para a geração de energia elétrica ou produção de celulose. Porém, alguns pontos de atenção devem ser considerados. O primeiro deles é o impacto da remoção desses materiais na área florestal. A retirada das raízes e tocos ocasiona, inicialmente, um impacto físico no solo, que deve ser corrigido durante seu preparo. Há também o impacto relacionado com a retirada de nutrientes que seriam oferecidos ao solo durante o processo de decomposição das raízes e dos tocos. Esse ponto deve ser considerado na fase de correção e adubação, quando os nutrientes removidos devem ser repostos. O segundo recai sobre a especial atenção que deve ser dada à qualidade dos cavacos produzidos a partir de raízes e cepas. Um fator importante que esperávamos e realmente observamos ao longo dos estudos é a considerável quantidade de terra e areia que esses materiais trazem do campo. No processo de coleta e processamento das raízes e cepas, a picagem será realizada em picadores móveis na floresta, sendo que, para a remoção do excesso de terra e areia, os cavacos picados passarão por um processo de peneiramento. Apesar da separação desses resíduos indesejáveis ser bastante eficiente nesse processo, os teores remanescentes nos cavacos ainda são superiores aos tolerados para a produção de celulose. Dessa forma, diversos métodos para aumentar ainda mais eficiência da remoção de terra e areia dos cavacos estão sendo estudados. Nossas estimativas mostram que, se utilizarmos raízes e tocos para produzir celulose, a área florestal anual requerida por uma empresa de celulose seria reduzida entre 6 a 12% em comparação ao modelo atual, que utiliza apenas a madeira comercial no processo produtivo. Nesse cenário, o reaproveitamento dos resíduos será, cada vez mais, uma excelente ferramenta para o máximo aproveitamento da biomassa produzida pela floresta, trazendo ganhos operacionais e financeiros para as empresas. n



novos produtos

cores

que a floresta produz

Há milhares de anos, os corantes naturais foram a principal fonte de cor para diversas utilidades humanas, tendo sido empregados como pigmentos em artes rupestres, em tingimento de tecidos e até em pinturas corporais. A produção, comercialização e distribuição dos corantes naturais desempenharam um papel social, econômico e cultural importante, até meados do século XIX. Entretanto, com o advento dos corantes sintéticos, uma rápida substituição dos corantes naturais teve início. Como consequência, as pesquisas, a produção e a comercialização dos corantes sintéticos cresceram, devido às características de melhor qualidade, reprodutibilidade, menores custos e maiores facilidades para sua obtenção.

Hoje, os corantes sintéticos perfazem a maior parte das matérias-primas para prover cor na indústria de alimentos, cosméticos, fármacos e têxtil. Embora a maioria dos corantes sintéticos sejam classificados como seguros, os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos de origem natural, por causarem menores danos à saúde humana e ao meio ambiente. Esse fato está intrinsecamente relacionado a diversos valores demandados pela sociedade moderna, envolvendo a sustentabilidade, produtos verdes e ecológicos. Visando atender a esse novo nicho de mercado, as indústrias alimentícias, cosméticas, papeleiras e têxteis estão aumentando o uso de corantes naturais. Atualmente há uma série de produtos, principalmente alimentícios, que já utilizam corantes naturais tais como bebidas, molhos, sopas, maione; ses, sorvetes, temperos, massas etc. Embora a maioria dos corantes sintéticos sejam classificados como seguros, os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos de origem natural, por causarem menores danos à saúde humana e ao meio ambiente. "

Ticiane Rossi e José Otávio Brito

Pós-doutoranda em Tecnologia Têxtil na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e Diretor Executivo do IPEF - Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais, respectivamente

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Opiniões As plantas constituem-se na mais importante fonte de corantes naturais e diferentes espécies têm sido investigadas quanto à forma de extração do produto, toxicidade e solidez da cor – capacidade da cor de se manter no produto final –, questões fundamentais para o tingimento e o desenvolvimento de corantes alternativos aos sintéticos. Uma característica importante desses produtos é que, em sua grande maioria, eles podem ser facilmente obtidos por simples extração em água e solventes orgânicos neutros. Nesse contexto, as florestas apresentam um enorme potencial, especialmente considerando-se o território brasileiro, pela rica biodiversidade que apresenta. As possibilidades incluem os componentes arbóreos e os não arbóreos, compreendendo as partes lenhosas, folhas, frutos, sementes e flores. Ao se propor a obtenção de corantes naturais a partir de florestas, surge a oportunidade de se agregar valores adicionais de negócios, que não ficam restritos apenas à obtenção de madeira como fonte de matéria-prima. Por sinal, no caso brasileiro, é importante lembrar que os corantes naturais obtidos de florestas têm importante relação com a própria história do País. A principal referência é a madeira de Pau-brasil (Caesalpinia echinata), importante fonte de corante vermelho no século XVI. Foi por conta do seu corante que a madeira dessa espécie possa ter sido a nossa primeira commodity a ser exportada para a Europa. Dentre as formas de se obter matéria-prima para a geração de corantes da floresta, podemos citar os sistemas agroflorestais (SAFs). A partir da consorciação de espécies de diferentes plantas, de diversos portes e distintos ciclos de vida. É possível, também, ter a geração de produtos diversificados, disponibilizados de acordo com a necessidade do mercado consumidor. No caso dos corantes naturais, poderiam ser cultivadas plantas que produzem distintas cores, e que possuam diferentes ciclos de colheita. Um adequado sistema de manejo poderia ser alinhado às indústrias têxteis, por exemplo, no sentido de definir as cores da estação para os consumidores. Outra alternativa de cultivo de plantas que produzem cor poderia ser realizada na Reserva Legal. Dependendo da região, e sem que se perca as outras finalidades desse tipo de floresta, a escolha de espécies para a composição da área poderia ser concentrada, em maior escala, na visão da obtenção de um determinado tipo de cor. Para ilustrar, pode ser citado o urucum, já amplamente cultivado no Brasil para produção do corante alimentício "coloral".

Em outras regiões poderia ser cultivado o genipapo, que produz corante azul a partir do seu fruto verde; e a acácia negra, que produz corante marrom, já amplamente cultivada para produção de taninos visando diversas outras finalidades. Os extrativos provenientes de madeira são também uma fonte importante de corantes naturais e, nesse contexto, destacam-se os resíduos do processamento mecânico dessa matéria-prima lenhosa. Há uma grande disponibilidade desse tipo de resíduo em nosso País que, por não ter uma disposição final adequada, em geral, causa importantes problemas ambientais. Estudos conduzidos na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo – Esalq/USP indicaram que os resíduos de várias madeiras, notadamente amazônicas, apresentam grande potencial como corantes naturais para tingimento têxtil em algodão e papel, com características de boa permanência da cor à luz. Uma outra alternativa refere-se à obtenção de corantes naturais a partir das folhas de eucalipto. Os resultados em escala de aplicação na indústria têxtil demonstraram pleno sucesso dessa prática, conforme estudos também conduzidos no âmbito da Esalq/USP. Sabemos que o Brasil é um dos países em que o eucalipto tem sido amplamente utilizado e, respeitados os limites ecológicos relacionados à extração de suas folhas, haveria um grande potencial de oferta dessa matéria-prima para obtenção de extratos substitutivos de corantes sintéticos. Cabe, por fim, um comentário sobre o fascínio e a beleza da colheita, extração e aplicação dos corantes naturais, seja em tecidos, cosméticos, alimentos ou papel. Artistas e artesãos têm preferido esse tipo de corante, não apenas por agregar valor ao seu produto final, mas, sobretudo, pelo brilho e tons que as cores da floresta manifestam aos olhos humanos. Tal alinhamento com as cores da natureza é um apelo que transcende os sentidos da visão, que recupera o espírito de uma ciência tradicional, antes perdida, que discretamente se mantém num contínuo caminhar pelo saber popular. Há uma grande expectativa de que o movimento de retorno aos corantes naturais de origem florestal se expanda de maneira mais abrangente, levando a uma abertura de mercado, relacionada não apenas com a consciência humana em relação ao ambiente, mas, acima de tudo, em respeito à própria vida em si e da intrínseca relação entre florestas e humanidade. n

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madeiras nobres

Opiniões

cultivo e mercado da teca

A teca é uma árvore nativa das florestas tropicais da Ásia que se adaptou muito bem em plantações ao longo das regiões de clima equatorial e tropical em todo o planeta, incluindo o Brasil. Por ser uma espécie bastante resistente e rústica, está entre as espécies florestais tropicais de alto valor comercial mais utilizadas para reflorestamento comercial no mundo. A Teca é uma árvore de grande porte, nativa da Tailândia, Índia, Myanmar e Laos; originária de florestas tropicais de monção situadas entre 10º e 25º N, podendo alcançar até 60 metros de altura. Ela tem sido plantada na Ásia e Oceania há mais de 4 séculos, no século passado foi introduzida na África e na América Latina. Mas foi a partir da década de 1980 que a espécie começou a ser plantada de forma mais intensa na América Latina, portanto, a partir do ano 2000 começaram os primeiros cortes rasos. Atualmente, a produção comercial de teca concentra–se em regiões da Ásia Tropical, seguida pela América Latina e depois África. Sendo que a América Latina vem ganhando muito espaço no mercado devido à redução da oferta da Ásia e África. Tradicionalmente, a oferta de teca tinha como origem as florestas nativas da Ásia que foram se esgotando e atualmente, suas últimas reservas nativas de boa qualidade estão em Myanmar, que recentemente tem sofrido boicotes da União Europeia, pois está deixando de atender os requisitos do Regulamento relativo à madeira da União Europeia, que trata da sua legalidade e rastreabilidade. As poucas florestas nativas no restante da Ásia estão protegidas para conservação. O Brasil tem a maior área plantada da América Latina, são 87.502 ha de plantações de teca, espalhados pelos Estados de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Acre, Goiás, Minas Gerais, dentre outros. O Mato Grosso seguido pelo Pará, concentram mais de 90% da área plantada no País. O IMA – Incremento Médio Anual ao longo de 20 anos é de 12-15 m3/ha/ano, entretanto, com a expansão de plantações clonais de teca no País,

A Teca é uma árvore de grande porte, nativa da Tailândia, Índia, Myanmar e Laos; originária de florestas tropicais de monção situadas entre 10º e 25º N, podendo alcançar até 60 metros de altura. "

Sylvio de Andrade Coutinho

Presidente da Floresteca Agroflorestal

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o IMA poderá elevar a valores médios de até 18 m3/ha/ ano e ainda atingindo em certas condições, máximos de 24 m3/ha/ano. O crescimento e a alta qualidade estão relacionados ao solo profundo, bem drenado e com pH neutro a levemente ácido, rico em cálcio; a temperatura anual média entre 22 ºC e 27 °C, e, 1.500 a 2.500 milímetros de precipitação, com estação seca definida de 3 a 5 meses e com até 50 milímetros de chuva. A facilidade de secagem da madeira de teca, bem como sua boa estabilidade dimensional, fazem dessa espécie, adequada ao seu processamento em serraria. Além disso, a madeira possui fibras retas e textura mediana que lhe conferem facilidade para ser trabalhada. Sua madeira é considerada nobre, utilizada na construção naval, pelo fato de ser resistente às condições climáticas, como sol excessivo e chuva, e também à água do mar. É muito requisitada também para o uso em pisos, decks, móveis decorativos, tanto no interior como no exterior das casas, sendo apreciado para aplicações de luxo, devido à coloração marrom viva e brilhante do cerne, que contrasta com a tonalidade esbranquiçada do alburno. Outra extensa aplicação da teca é em esquadrias, portas e janelas, na qual sua estabilidade dimensional e coloração são muito apreciadas. Devida à qualidade superior da madeira de teca em relação às espécies tradicionais, contribui para que o alto preço da madeira em relação às demais espécies de florestas plantadas. Os preços variam muito em função da qualidade da madeira, definida pela forma, tamanho e percentual de cerne presente nas toras produzidas. Muito importante destacar que, apesar da madeira de teca plantada ter uma qualidade e preço inferiores das de florestas nativas, a madeira de teca plantada já tem um mercado consolidado ao redor do mundo e que segue crescendo a taxas bastante animadoras. Atualmente são comercializados mais de 1,5 milhão de metros cúbicos por ano de florestas plantadas de teca em toras ao redor do mundo, das quais a Ásia é ; o maior comprador.


O manejo da teca consiste na realização de 3 a 4 desbastes até que se chegue ao corte final entre 16-22 anos. A frequência e intensidade dos desbastes variam muito de acordo com a estratégia e condição de cada plantio, mas de forma geral nenhuma receita relevante é esperada antes dos 10 anos de idade. Portanto, um dos principais fatores que restringem o aumento dos plantios de teca ao redor do mundo é a dificuldade ao acesso a longo prazo. Nesse contexto, o plantio de teca no Brasil deve ser considerado uma alternativa na produção de madeira tropical de qualidade e vem ao encontro da necessidade do mercado internacional, pois são produzidas através de plantios sustentáveis, de origem legal, manejados de forma responsável e produzidas de forma mais eficiente, garantindo produtos de qualidade e com suprimento contínuo ao mercado. Os quadros ao lado apresentam as principais características e vantagens da madeira de teca plantada. A TRC - Teak Resources Company, uma empresa derivada da Floresteca, é pioneira no plantio de teca em larga escala no Brasil. Com florestas com mais de 20 anos de idade, já em em fase de corte final, a TRC faz a gestão florestal de mais de 40.000 hectares de teca no Brasil e é considerada a maior produtura mundial de teca plantada de capital privado. Está presente em toda a cadeia da produção de teca plantada, desde a produção de mudas clonais, todas as atividades silviculturais, incluindo a colheita, transporte e beneficiamento de toras através de serraria própria. n

TRABALHABILIDADE E DURABILIDADE Excelente estabilidade Excelente maquinabilidade Fácil furação Fácil lixamento Fácil colagem Fácil acabamento Fácil tingimento Alta resistência a fungos e insetos Alta resistência às intempéries

PROPRIEDADES FÍSICAS E QUÍMICAS Densidade de massa

660 kg/m3

Contração radial

2,1%

Contração tangencial

4,6%

Contração volumétrica

6,7%

Dureza janka paralela

5600N

Flexão - resistência

92,0 MPa

Flexão - módulo de elasticidade

9307 MPa

Compressão paralela fibras - resistência

47,0 MPa

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madeiras nobres

Opiniões

mogno africano no Brasil Assim como o povo brasileiro recebe de braços abertos imigrantes de todo o mundo, o solo brasileiro é um bom anfitrião para várias espécies de plantas e árvores da flora mundial. De modo hospitaleiro, o pesquisador da Embrapa do Pará, Prof. Ítalo Falesi, recebeu há mais de 40 anos, um cônsul da Costa do Marfim, que lhe presenteou com as primeiras sementes de mogno africano da espécie Khaya ivorensis, predizendo que se tornaria o “ouro verde” do Brasil. Dessas sementes foram geradas quatro belas árvores, que só conseguem ser abraçadas em toda sua circunferência, por mais de três pessoas. Cresceram na Embrapa, plenamente adaptadas ao clima tropical do Pará, e generosamente até hoje fornecem as sementes que se espalharam por todo o Brasil para formarem novos plantios e inúmeras mudas de clones. Muitos me perguntam o porquê da escolha dessa espécie e sempre respondo baseado em minha filosofia de que: negócios têm de ser investigados antes do investimento. Viajei bastante por todo o Brasil junto com alguns companheiros que também queriam investir em florestas e acabou que nos tornamos os fundadores da Abpma (Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano). Após uma pesquisa comparativa, levamos em conta o período de crescimento até o corte, as despesas de implantação, o valor da madeira no mercado exterior

Assim como o povo brasileiro recebe de braços abertos imigrantes de todo o mundo, o solo brasileiro é um bom anfitrião para várias espécies de plantas e árvores da flora mundial. "

Ricardo Ribeiro Tavares

Presidente da Assoc Bras Produtores de Mogno Africano - ABPMA

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e a comparação entre as propriedades madeireiras de madeiras nobres – inclusive o mogno africano Khaya senegalensis muito plantado aqui no Brasil – e por ser superior em todos os quesitos, fizemos a opção pelo mogno Khaya ivorensis. A espécie não nos tem decepcionado, com expectativa de crescimento superior à esperada, bom incremento de madeira e a maioria das árvores com fuste retilíneo. Como toda espécie tropical, gosta de água e necessita de projetos irrigados em regiões com menos de 800 mm de chuva ao ano. Em terrenos com quantidade de chuva razoável, tem progredido bem e até no sul do país existem vários plantadores cujas florestas vêm crescendo a olhos vistos, mesmo tendo sofrido geada em alguns anos. Portanto, pelo que temos acompanhado, todo o território brasileiro tem se mostrado receptivo para com a espécie, desde que respeitadas as diferenças pluviométricas regionais. Defendemos sempre o plantio de mogno consorciado com outras culturas agrícolas e pecuárias. Isso levará à democratização do plantio, pois tendo gerado recursos com o produto consorciado, até o pequeno produtor pode ter renda que suporte o tempo de maturação da madeira do plantio até o corte. O trato que se usa para um é o mesmo que agrada ao outro. Temos visto vários tipos de consórcio e a escolha vai depender da vocação agrícola da região. ;


A IMA está se reinventando • Desenvolvimento de novas cadeias de negócio no setor florestal • Mercado de madeira para espécies tradicionais e novas espécies • Parcerias nacionais e internacionais no desenvolvimento das cadeias de geração de energia a partir de biomassa de eucalipto e de produtos sólidos de madeira

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Comparando-se o mogno africano com o mogno brasileiro – que foi tão conhecido de todos por ter sido plenamente usado nos anos 1980 – o primeiro mostrou-se imune às pragas que sempre atacaram-no, produzindo árvores sadias em todas as regiões. A madeira possui uma cor suave comparada a do mogno brasileiro, e vem tendo uma grande aceitação por parte de todos os envolvidos no setor produtivo. É possível ver no site da Abpma, a criação do Mahog Project que envolve todo o trabalho de divulgação que está sendo feito pelo design para a formação do mercado nacional, através da apresentação da madeira para os mais renomados designers do Brasil, deixando-os livres para opinar e divulgar sobre suas propriedades e características físico-mecânicas. Estima-se hoje a quantidade de 25.000 hectares plantados dessa espécie, um número ainda longe do nosso objetivo de nos tornarmos o maior produtor de mogno africano do mundo. O mercado só é forte quando a oferta do produto existe por longo prazo. Enquanto a maioria dos plantios brasileiros está em fase de crescimento, o mercado interno está sendo formado e estamos cuidando bem da “reputação” da madeira para que, quando estiver pronta, possa ser comercializada ao melhor preço de retorno para os investidores.

Gestão Florestal O mercado externo para o mogno Khaya ivorensis sempre existiu. Esse mercado é abastecido pelas árvores de florestas nativas da África e pode ser acompanhado pelo site do Itto para quem quiser saber preços da madeira, tanto em toras quanto de madeira serrada. Grandes investidores internacionais estão observando o Brasil para investirem no plantio de mogno africano. São grandes projetos para plantação de muitos hectares e investimentos em plantios já existentes. É bem clara a alta lucratividade que pode gerar a madeira. Temos ainda alguns anos para analisarmos com calma o mercado, escolhermos o que irá agregar mais valor a todo nosso empreendedorismo e para escolher a melhor vocação para a madeira e a melhor lucratividade. O mercado mundial anseia por produtos limpos, certificados, principalmente neste setor madeireiro que é tão observado e fiscalizado, no qual não cabe mais depredação irracional da natureza. A demanda mundial por madeiras limpas só cresce, fazendo o caminho contrário do estoque madeireiro nativo, que só diminui. Portanto, as florestas plantadas são o caminho, e o mogno africano se apresenta como uma das melhores opções. n

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ensaio especial

Opiniões

como fortalecer o subsetor de

“madeira nobre”

Dados do WWF, de meados desta década, indicam que o crescimento da população mundial até 2050 somado às políticas de desmatamento líquido zero, poderão triplicar a demanda por madeira de floresta natural manejada (FNM) e de plantação florestal comercial (PFC), gerando uma demanda de cerca de 250 milhões de hectares de PFC; dos quais, 26,6 milhões somente na América Latina e Caribe. O Brasil tem 8 milhões de hectares com PFC, a maioria com pinus e eucalipto. Espaço que pode ser no mínimo duplicado caso se efetive o cenário posto pelo WWF, abrindo espaço para o crescimento de segmentos da cadeia produtiva, além da produção de papel e celulose, como o da produção de madeiras de espécies nativas e introduzidas, substitutas de madeiras oriundas de FNM.

Muito em função do cenário apresentado, inicia-se no Brasil um movimento importante para a ampliação de PFC de “madeira nobre”. Um esforço que, apesar de contar com empresas e associações, ressente-se de um planejamento estratégico que possa evitar a repetição de problemas ocorridos no passado, como o episódio do quiri. Neste artigo, teceremos algumas considerações sobre aspectos que julgamos importantes para um futuro exitoso do subsetor de produção de “madeira nobre” no País. Primeiramente, é imprescindível definir o que significa “madeira nobre”. Acredito que deva ser aquela com propriedades técnicas especiais, como durabilidade natural e boas propriedades de usinagem, incluindo qualidades estéticas que a tornem adequada para usos de alto valor comercial. E aí incluo, em um primeiro grupo, espécies tradicionais de silvicultura conhecidas, como a teca (Tectona grandis) e outras, de silvicultura em razoável desenvolvimento no País, como mogno africano (Khaya ivorensis e Khaya senegalensis), cedro australiano (Toona ciliata) e cedro indiano (Acrocarpus fraxinifolius). Um segundo grupo poderá incluir um número mínimo de espécies potenciais relacionadas nas listas da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente – Abimci, e do International Tropical Timber Organization – Itto. A segunda reflexão deve considerar o modelo organizacional do subsetor, uma vez que é impossível impulsionar uma atividade tão importante, a partir de iniciativas individuais. Nesse caso, vale refletir o posicionamento do subsetor de “madeira nobre” como fazendo parte do Ibá – Industria Brasileira de Árvores, da Abimci ou de um outro modelo com base em associações específicas (produtores de teca, mogno e cedro) congregadas em ; uma Federação Nacional de “Madeira Nobre”.

A certificação pode encurtar o caminho da conquista do mercado externo (...) além da valorização da madeira e da abertura de mercado, ela pode ser positiva na redução do número de intermediários "

Moacir José Sales Medrado

Diretor Geral da Medrado e Consultores Agroflorestais Associados

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ensaio especial Existem vantagens e desvantagens nos três casos e isso deverá ser o núcleo de uma reflexão do subsetor. Além dessas considerações gerais, alguns aspectos importantes devem ser considerados no âmbito do subsetor, em especial os seguintes: indicação de espécies por tipo de demanda, normatização e normalização incluindo a classificação da madeira, certificação florestal, e planejamento estratégico para o subsetor. É importante considerar, prioritariamente na seleção de espécies, as demandas dos consumidores florestais. Relacionadas às espécies – nativas ou introduzidas – potenciais para cada tipo de demanda, deve-se selecionar, dentre elas, as que atendam a um maior número de segmentos, que tenham silvicultura conhecida e que constem das relações dos mercados nacional e internacional de espécies de alto valor comercial. A normatização da produção de madeira serrada é outro ponto essencial para o desenvolvimento sustentável do subsetor de “madeira nobre” e, por isso, é importante a iniciativa da Comissão de Estudos (CE) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (Abnt) para madeira serrada em discutir um texto base da norma técnica considerando aspectos importantes como: a) terminologia da norma; b) requisitos; e c) métodos de ensaio da norma de madeira serrada para construção civil. Melhor ainda saber que, além da construção civil, estarão sendo atualizadas as normas para móveis. Esse trabalho contribuirá para o aumento do uso da madeira no mercado nacional e, também, para inserir os produtos madeireiros no escopo do financiamento junto aos órgãos oficiais. Vale salientar que cerca de 80% da produção nacional ainda é destinada ao mercado interno, sendo a maior parte utilizada pela construção civil. A classificação de madeira é outro ponto importante, sendo urgente que passe a ser um assunto do domínio não somente da “academia”, das serrarias, dos profissionais da área de sistemas inteligentes (ver software “Neurowood” que orienta a separação das madeiras boas das ruins na própria esteira), mas, também, das empresas florestais produtoras de matéria-prima. É impossível profissionalizar o subsetor se produtores de matéria-prima desconhecem o sistema de classificação de seu produto. Quanto à certificação, não se admite mais o crescimento de setores, portadores de futuro, que não se adequem às exigências de processos de certificação, inclusive da cadeia de custódia. Somente assim, o consumidor terá condição de escolher dentre os produtos ofertados, aquele não originado de exploração predatória e que tenha sido produzido de forma planejada para impactar, minimamente, o meio ambiente. A certificação pode, inclusive, encurtar o caminho da conquista do mercado externo no qual já é tida como uma atividade rotineira. Além da valorização da madeira e da abertura de mercado, ela pode ser positiva na redução do número de intermediários, aproximando o produtor do comprador final. Ao se pensar na utilização da madeira para fins mais nobres é importante aprimorar a produção da matéria-prima. Para tal, além do avanço nas áreas de tecnologia da madeira e do melhoramento genético é importante a melhoria do padrão silvicultural.

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Opiniões Dentre as atividades silviculturais é importante destacar o desbaste e a desrama. Não é possível pensar no crescimento da atividade de produção de madeira de alto valor sem a produção de madeira clear (livre de nós) de boas dimensões, de uma espécie com mercado garantido. O desbaste, ao invés de beneficiar, pode se tornar um problema para a obtenção de madeira de qualidade, isso porque muitos produtores florestais utilizam, em seus empreendimentos, sistemas copiados de livros, manuais ou de colegas cujos plantios se localizam em sítios diferentes dos seus. É preciso entender que o regime de manejo, e aqui se inclui o desbaste, depende da espécie e do sítio no qual ela está plantada. Vale ressaltar, também, que o aproveitamento da madeira de desbaste, salvo casos especiais, somente será importante quando em polos madeireiros que permitam um volume de madeira de desbaste suficiente para garantir o estabelecimento de empresas com a finalidade, direta ou indireta, de aproveitamento industrial de tal tipo de madeira, visando à produção de energia de biomassa, moirões, postes tratados ou produção de artefatos de pequeno porte para exportação, inclusive. A desrama é outro aspecto a ser considerado. A grande maioria dos produtores ainda não percebeu que desrama não significa, somente, cortar o ramo. Desrama exige programa englobando vários fatores, dentre os quais se sobressaem: a) qualidade do sítio; b) definição do sortimento; c) estabelecimento prévio do núcleo nodoso; d) determinação do número de árvores a serem desramadas; e) idade da desrama; e f) posição sociológica da planta; e g) altura da desrama. Por último, é indispensável o fortalecimento do planejamento estratégico do subsetor de “madeira nobre”. Isso poderá ser iniciado com um fórum constituído por instituições incluindo, além dos produtores florestais, representantes de outros grupos interessados, como exemplo: empresas de comércio de madeira, serrarias, certificadoras, bolsa de valores, polos moveleiros, empresas de construção em madeira, Conselho Nacional de Secretários Estaduais do Planejamento (Conseplan), Associação Nacional de Prefeitos e Vice Prefeitos da República Federativa do Brasil (Anpv), Abnt, Abimci, e Ibá. Em um fórum dessa magnitude será possível estabelecer estratégias e apontar rumos para o subsetor, a partir da discussão de aspectos importantes como: a) definição do que venha a ser “madeira nobre”; b) mercados para produtos manufaturados para construção civil – uni e multifamiliar – e para outros tipos de demanda; c) definição das principais espécies a serem plantadas e apoiadas com zoneamento, financiamento e seguro rural; d) localização potencial de polos de produção; e)estratégias para aproveitamento de madeiras de desbaste dos polos produtores; f) inovação – do ponto de vista das árvores e das indústrias –; g) modernização de serrarias visando ao maior rendimento da matéria prima; h) definição de modelo de representação das associações de produtores do subsetor, no setor florestal; e i) implicações do manejo florestal sustentável de FNM sobre a produção de “madeira nobre” produzida em PFC. n C

M

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Aplicação 1

Aplicação 2

Use Esplanade ®

REDUZA PELO MENOS

UMA APLICAÇÃO

Aumente sua eficiência. Aprimore seu sucesso.

Os benefícios de Esplanade® garantem mais eficiência no controle de plantas daninhas em pré emergência e melhor desenvolvimento inicial de sua floresta. Esplanade®, a mais recente inovação cujas principais vantagens são: - Novo ingrediente ativo que controla um amplo espectro de plantas daninhas; - Proporciona redução de ao menos uma aplicação durante o manejo florestal de plantas daninhas; - Maior residualidade quando comparado aos demais produtos registrados para o mesmo uso em florestas de pinus e eucalipto; - Redução do impacto no meio ambiente : menor consumo de água, menor emissão de carbono e muito mais.

Descubra Esplanade no Esplanade.bayer.com.br ®

Sempre leia e siga as orientações da bula antes de usar.


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