A floresta plantada e os serviços ambientais - OpCP32

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www.revistaopinioes.com.br

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ISSN: 2177-6504

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira ano 10 - Divisão F - número 32 - jun-ago 2013

a floresta plantada e os serviços ambientais


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índice

a floresta plantada e os serviços ambientais 6

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Diretor Florestal da Eco Brasil Florestas

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Ensaio Especial: Walter de Paula Lima

Professor Sênior da Esalq/USP

Centros de P&D:

Governo Federal:

Editorial: Nelson Barboza Leite

Antônio Carlos Hummel

Diretor-Geral do Serviço Florestal Brasileiro

Renato de Oliveira Brito

Coordenador de Sustentabilidade do MAPA

Produtores de Floresta:

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Robson Oliveira Laprovitera

Gerente de Meio Ambiente da International Paper

Germano Aguiar Vieira

Diretor Florestal da Eldorado Celulose e Papel

Confederação Nacional: Gilman Viana Rodrigues

Presidente da Comissão Nacional de MA da CNA

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Silvio Frosini de Barros Ferraz

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Fábio Feldmann

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Presidente executiva da Bracelpa

Jorge Roberto Malinovski

Professor de Sistemas de Colheita da UF-PR

Sérgio Gomes Tôsto

Pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

Mudanças Climáticas: Secretário do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas

Sustentabilidade Sara Juarez Sales

Coordenadora de Sustentabilidade da Eco Brasil

Pgto por Serviços Florestais:

Entidade de Classe: Elizabeth de Carvalhaes

Professor de Manejo Bacias Hidrográficas da Esalq-USP

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Mário Eduardo Pardini Affonseca Superintendente da Sabesp

Marcelo Morgado

Consultor especial em Núcleo de Estudos Urbanos

Editora WDS Ltda e Editora VRDS Brasil Ltda: Rua Jerônimo Panazollo, 350 - 14096-430, Ribeirão Preto, SP, Brasil - Pabx: +55 16 3965-4600 - e-Mail Geral: Opinioes@RevistaOpinioes.com.br Diretor de Operações: William Domingues de Souza - 16 3965-4660 - WDS@RevistaOpinioes.com.br - Gerente de Marketing: Valdirene Ribeiro Domingues de Souza - Fone: 16 3965-4606 VRDS@RevistaOpinioes.com.br - Vendas: Beatriz Furukawa - 16 3965-4698 - BF@RevistaOpinioes.com.br • Lilian Restino - 16 3965-4696 - LR@RevistaOpinioes.com.br • Daliane Simão dos Santos 16 3441-0343 - DSS@RevistaOpinioes.com.br - Apoio a Vendas: Fernanda Aparecida da Silva e Silva - FS@Revista Opinioes.com.br - Jornalista Responsável: William Domingues de Souza - MTb35088 jornalismoRevistaOpinioes.com.br - Edição Fotográfica: Priscila Boniceli de Souza Rolo - 16 9132-9231 - boniceli@globo.com - Projetos Futuros: Julia Boniceli Rolo - 2604-2006 - JuliaBR@RevistaOpinioes. com.br - Projetos Avançados: Luisa Boniceli Rolo - 2304-2012 - LuisaBR@RevistaOpinioes.com.br - Freelancer da Editoria: Aline Gebrin de Castro Pereira - Consultoria Juridica: Priscilla Araujo Rocha Correspondente na Europa (Alemanha): Sonia Liepold-Mai - Fone: +49 821 48-7507 - sl-mai@T-online.de - Desenvolvimento de Mercados na Ásia: Marcelo Gonçalez - MG@RevistaOpinioes.com.br Expedição: Donizete Souza Mendonça - DSM@RevistaOpinioes.com.br - Copydesk: Roseli Aparecida de Sousa - RAS@rRevistaOpinioes.com.br - Agência de Propaganda: Agência Chat Publicom - Fone: 11 3849-4579 - Tratamento das Imagens: Luis Carlos Rodrigues (Careca) - Finalização: Douglas José de Almeida - Impressão: Grupo Gráfico São Francisco, Ribeirão Preto, SP - Artigos: Os artigos refletem individualmente as opiniões de seus autores - Foto da Capa: Acervo da International Paper - Foto do Índice: Acervo da Cenibra - Lagoa Luzia - Pingo D'agua, Minas Gerais - Fotos das Ilustrações: Acervo Revista Opiniões e dos específicos articulistas - Fotos dos Articulistas: Acervo Pessoal Veiculação: Comprovada por documentos fiscais de pagamento da Gráfica e de Postagem dos Correios - Edição online: Leia online em nosso site a revista original, tal qual como foi impressa. Estão disponíveis todos os artigos de todos os articulistas de todas as edições de todas as divisões desde os seus lançamentos - Home-Page: www.RevistaOpinioes.com.br

Conselho Editorial da Revista Opiniões: ISSN - International Standard Serial Number: 2177-6504 Divisão Florestal: • Amantino Ramos de Freitas • Antonio Paulo Mendes Galvão • Celso Edmundo Bochetti Foelkel • Helton Damin da Silva • João Fernando Borges • Joésio Deoclécio Pierin Siqueira • Jorge Roberto Malinovski • Luiz Ernesto George Barrichelo • Marcio Nahuz • Maria José Brito Zakia • Mario Sant'Anna Junior • Mauro Valdir Schumacher • Moacir José Sales Medrado • Nairam Félix de Barros • Nelson Barboza Leite • Paulo Yoshio Kageyama • Roosevelt de Paula Almado • Rubens Cristiano Damas Garlipp • Sebastião Renato Valverde • Walter de Paula Lima Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Manoel Carlos de Azevedo Ortolan • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Paulo Roberto Gallo • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Roberto Isao Kishinami • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano


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editorial

a silvicultura de toda a

sociedade A

silvicultura brasileira deixou de ser, há muito tempo, uma simples atividade agrícola. É muito mais. Alimenta enorme cadeia produtiva e gera inúmeros serviços à sociedade. Daquela atividade voltada exclusivamente à produção de madeira, inúmeros benefícios adicionais foram sendo observados na medida em que o profissionalismo foi se instalando no setor. Proteção de recursos hídricos, conservação da biodiversidade, empregos de qualidade, integração com comunidades são alguns dos inúmeros benefícios gerados pela silvicultura. Mais recentemente, passou até a instrumento de marketing dos programas de sustentabilidade de grandes empresas. Novidade, de fato, é ser usada como plataforma dos programas de sustentabilidade. As demais atribuições são inerentes à silvicultura bem-feita. Dos tempos dos incentivos fiscais, quando teve uma grande alavancagem, aos dias atuais, a atividade apresentou significativas mudanças.

Cria enorme perplexidade o descaso com que a silvicultura é tratada dentro do Governo Federal. Não há quem assuma a responsabilidade pelas definições de suas políticas públicas. " Nelson Barboza Leite Diretor Florestal da Eco Brasil Florestas

Com pesados investimentos em pesquisas, a produtividade saltou de 15/20 metros cúbicos/ ha/ano para mais de 50 em algumas regiões. Esse desenvolvimento tecnológico proporcionou musculatura para o setor crescer, desenvolver-se e aprender a valorizar, permanentemente, a pesquisa, as experimentações, a ciência florestal. E a silvicultura competitiva transformou-se também em excelente alternativa de negócio.

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Opiniões A competitividade deu oportunidade para que empresas brasileiras se transformassem em líderes no mercado internacional, e o bom negócio serviu como atrativo para inúmeros produtores independentes. É, indiscutivelmente, a atividade rural que mais se preocupa com o Código Florestal e com respeito às questões sociais e ambientais. Esses aspectos ficaram consolidados com os processos de certificação florestal e mais valorizados ainda pelos acordos internacionais que tratam da sustentabilidade dos processos produtivos e dos quais o Brasil é signatário. No entanto, com toda essa riqueza de contribuições, a silvicultura brasileira vive paradoxos preocupantes. A quantidade de exigências legais que recaem sobre o setor, a apatia do Governo Federal na definição de políticas públicas e a quantidade de obrigações marginais que vão se tornando regras no dia a dia dos silvicultores são algumas das preocupações que impactam no brilho competitivo e econômico da atividade. Não há dúvida de que, para que a silvicultura cresça e continue atrativa para pequenos, médios e grandes empresários, é imprescindível que se mantenha interessante do ponto de vista econômico. Sem viabilidade econômica, a silvicultura vai se limitar às obrigações legais das grandes indústrias. Um jogo em que todos perdem: os que a desejam como negócio e os que se beneficiam de seus serviços sociais e ambientais. Os custos marginais adicionados à formação das florestas crescem continuamente e não acrescentam nenhum valor ao processo produtivo e aos serviços prestados à sociedade. Quanto às exigências legais, é flagrante a diferença entre o que se cobra da silvicultura e o que se cobra de outras culturas. Essa diferença – para um, tudo, e, para outros, quase nada – fez até com que muitos passassem a defender ferrenhamente o Ministério da Agricultura como endereço institucional do setor. Cria enorme perplexidade o descaso com que a silvicultura é tratada dentro do Governo Federal. Não há quem assuma a responsabilidade pelas definições de suas políticas públicas. E, nesse vazio institucional, criam-se exigências e penduricalhos legais que não contribuem em nada para aumentar o valor das florestas. Com respeito à disponibilização de financiamentos, outra grande diferença: para a atividade agrícola, orçamentos crescentes, negociações de dívidas e vamos que vamos...

Para a silvicultura, poucas alternativas e com enormes dificuldades. Fala-se em financiamentos, mas só quem se atreveu a procurá-los pode imaginar as dificuldades para se obter. Dificílimo para o grande e de um sacrifício desanimador e quase impossível para o médio e pequeno produtor. Na verdade, a silvicultura vive e se desenvolve sem financiamento. E as dificuldades se sucedem. Talvez a silvicultura tenha se transformado em símbolo de grandes e poderosas empresas e, com isso, carrega obrigações e responsabilidades incompatíveis com a atividade. A grande indústria que consome madeira tem sido obrigada a credenciar-se aos mais diversos certificados: de manejo florestal, de qualidade, de respeito às legislações trabalhistas e ambientais, etc. Em contrapartida, mais recentemente, a floresta tem servido como instrumento para programas de sustentabilidade. Tem sido, em muitos casos, a inspiração e o grande mote para as estratégias comerciais. Essa é uma constatação louvável e não cabe nenhuma recriminação. Mas há de se determinar o limite em que, de fato, tudo isso contribui para o enriquecimento técnico, econômico, social e ambiental do empreendimento florestal. Para o pequeno produtor, a sustentabilidade vai um pouco além da porteira da fazenda, enquanto, para a grande indústria, a sustentabilidade roda o mundo. Desse contexto, surgem importantes questionamentos: como fazer para contemplar esses interesses, sem discriminar a silvicultura do grande e a do pequeno produtor? Como manter a silvicultura isenta de penduricalhos improdutivos? Como fomentar a silvicultura para geração de serviços ambientais e sociais sem perder o valor econômico? Será que não estamos no momento de reiterarmos o velho pleito por um nicho institucional próprio? Há muitos que não perdem a convicção de que a silvicultura só terá suas questões resolvidas quando isso acontecer. Um ministério? uma secretaria especial? ou o redesenho e o fortalecimento do Serviço Florestal Brasileiro? Há muitos que não perdem a esperança de que isso aconteça. Daí, com certeza, vamos ter uma silvicultura cada vez mais à disposição e a serviço de toda a sociedade.

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governo federal

Opiniões

florestas nativas e plantadas: boas políticas, boas práticas!

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ualquer abordagem sobre florestas, seja nativas ou plantadas, em áreas urbanas ou rurais, deve considerar que, no contexto de discussão de uma economia verde, existem as seguintes tendências: aumento da pressão para redução do desmatamento, incremento do mercado de carbono, necessidade de conservação da biodiversidade; reconhecimento da floresta como prestadora de serviços ambientais; mudanças climáticas afetando o desenvolvimento e a distribuição das espécies florestais e aumento da governança sobre as florestas. Além disso, floresta é um componente-chave para a atividade de outros setores (por exemplo, o da construção civil e o da siderurgia), sendo a madeira um insumo produtivo vital para a discussão da sustentabilidade futura do planeta. É ensinado, desde as primeiras letras, que as funções ecológicas da floresta proveem os fundamentos da vida na Terra, regulando o clima e os recursos hídricos e servindo de habitat para plantas e animais. As florestas também proporcionam produtos essenciais, como madeira, alimentos, forragem e fármacos, além de oferecer oportunidades de recreação, renovação espiritual e outros serviços. Então, por que o abastecimento dos bens e serviços das florestas, atualmente, corre perigo ou não é devidamente valorizado ou reconhecido? Um proprietário rural não passa um trator de esteira na sua plantação de soja, no entanto passa sobre áreas de florestas. Tudo é uma questão de dar valor, e essa é nossa árdua tarefa. E, nesse contexto, fazemos alguns comentários sobre o setor florestal brasileiro. Esse setor, compreendido por florestas nativas e plantadas, públicas e privadas, é bastante heterogêneo em questões de produtividade, tecnologia, recursos humanos, requerimentos específicos e outros aspectos. Contudo é homogêneo quando o assunto é carência de políticas públicas de fomento à produção. Talvez em razão de um distanciamento do poder público e, por outro lado, pelo foco no comando e no controle, no caso de florestas nativas, o setor apresenta problemas. A centralidade na fiscalização gerou absurdos, como os de proprietários com “medo” de plantar árvores e das consequências futuras. Os problemas do setor se referem a regramentos confusos e burocráticos, normas e requisitos diferenciados entre os estados, sobreposição de competências entre órgãos, estatísticas embaralhadas e com a falta de um endereço de interlocução na esfera federal (ou a multiplicidade desses endereços), de transparência e de diretrizes políticas que norteiem ações sinérgicas entre diferentes ministérios. Como resultado, as florestas brasileiras são pouco valorizadas economicamente, e o Brasil vive uma (falsa) disputa entre

Esse setor, compreendido por florestas nativas e plantadas, públicas e privadas, é bastante heterogêneo em questões de produtividade, tecnologia (...) Contudo é homogêneo quando o assunto é carência de políticas públicas de fomento à produção. " Antônio Carlos Hummel

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Diretor-Geral do Serviço Florestal Brasileiro

diferentes setores da economia pelo espaço para produção, recentemente trazida à superfície nos debates em torno do novo Código Florestal. A opção política pelas florestas como parte da equação de desenvolvimento do País deve estar traduzida em uma Política Nacional de Florestas que preveja diretrizes norteadoras para o setor, planos decenais de desenvolvimento, investimentos, ações estruturantes, entre outras. Essa deve ser uma política única, que reúna os setores de florestas plantadas e nativas e suas inegáveis sinergias, finalizando um processo separatista que nada acrescentou e que reduziu as forças do setor. A meta maior deve ser o aumento da competitividade em uma economia de baixo carbono e respeito às diretrizes ambientais. Devemos pensar em um novo paradigma para as florestas brasileiras: produzir para preservar, gerar valor para promover o desenvolvimento socioeconômico. Nesse sentido, é importante que essa política de florestas seja acompanhada de mecanismos de extensão e fomento florestal que possam dinamizar e tornar o setor atrativo, melhorando sua competitividade, tanto interna quanto externamente. Esse fomento deve ser explícito, apoiado em lei e com recursos bem definidos. Devemos escapar das armadilhas das boas intenções desacompanhadas de instrumentos legais de ação. O País precisa de uma Lei de Fomento Florestal, por exemplo, com instrumentos econômicos apoiando manejo, plantios comerciais e restauração florestal. Finalmente, o Serviço Florestal Brasileiro tem o intuito de discutir e demonstrar, de forma objetiva, que o setor florestal é um importante componente da economia do País, com inter-relações fortes com vários outros setores e com espaço para um salto grandioso de qualidade na próxima década, caso ações estruturantes sejam colocadas em curso. As potencialidades de receitas, emprego, redução de pobreza, conservação e fixação do homem no campo podem ser exponenciais se as oportunidades postas no atual momento forem aproveitadas. Queremos assumir um papel proativo no fortalecimento da gestão florestal como instituição âncora de uma futura política florestal brasileira, sem desconsiderar o pluralismo e as interfaces com outras instituições que o setor impõe. Iniciamos ações estruturantes (aliás, básicas e muito esperadas), como o Inventário Florestal Nacional, concessões florestais na Amazônia, Cadastro Nacional de Florestas Públicas e a estruturação de um Sistema Nacional de Informações Florestais. Estamos fazendo o “dever de casa” que já nos foi conferido, mas queremos muito mais competências.



governo federal

agricultura sustentável

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onservar a biodiversidade e prover meios de geração de renda e de uma existência digna no campo está entre os papéis do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA ao desenvolver suas políticas. Para tal, prover meios para o desenvolvimento e implementação de uma agricultura de baixa emissão de carbono, de alta produtividade e que conviva adequadamente com o meio ambiente, são outros desafios para que a agricultura possa reforçar ainda mais sua atuação no combate aos efeitos indesejáveis da mudança climática global. O MAPA, através de sua Pasta de Sustentabilidade Ambiental da Assessoria de Gestão Estratégica, entende que a manutenção da biodiversidade não está afeita apenas aos órgãos de meio ambiente. Ressalte-se que a perda contínua de biodiversidade poderá trazer implicações negativas para a própria agricultura. Apesar disso, para muitos isso soava a discurso político que, na prática, cederia espaço para uma agricultura convencional que não fosse sustentável. Insistimos em nosso propósito, até porque sempre acreditei no diálogo como uma maneira de transformar pensamentos divergentes em um único caminho, em fazer do “não” uma oportunidade de um “sim”.

Acreditamos que o uso de modelos agrícolas convencionais, que se apoiem na utilização não sustentável dos recursos naturais, não garantirão a produção sustentável de alimentos para a população do planeta, futuramente. A continuar assim, teremos futuros problemas em relação à continuidade de poder prestar serviços ambientais por parte dos produtores rurais. Assim sendo, o estabelecimento de agroecossistemas diversificados (sistemas agropecuárioflorestais), o uso de tecnologias de baixa emissão de carbono (integração lavoura-pecuária – iLP; sistema plantio direto; plantações florestais comerciais; manejo florestal de uso múltiplo e baixo impacto), a recuperação de áreas degradadas (independente da causa geradora) são necessidades imperiosas para um novo ciclo de modernização efetiva da agricultura brasileira. É certo que ainda existem dificuldades para o desenvolvimento de tais agroecossistemas, mas pesquisas contínuas realizadas pelas instituições de pesquisa agropecuária nacional vêm disponibilizando resultados que nos asseguram a possibilidade de estabelecer uma estrada rumo ao desenvolvimento sustentável de nossa agricultura. É certo que a construção de uma estrada do desenvolvimento sustentável de nossa agricultura não requer apenas tecnologias, mas também políticas que assegurem a sua aplicação, a comercialização dos produtos por elas gerados

Afinal, mais que uma cooperação internacional entre ministérios, esse é um projeto entre governos. "

Renato de Oliveira Brito Coordenador Geral de Sustentabilidade Ambiental do MAPA

e a manutenção dos serviços ambientais. Especificamente, somente o serviço ambiental de polinização agrícola tem seu valor estimado em mais de US$ 200 bilhões por ano para a economia global de alimentos. Portanto é urgente o estabelecimento de políticas públicas que possibilitem a produção de alimentos associada à manutenção de importantes serviços ambientais, como proteção dos cursos d´água, para suprir água limpa em quantidade suficiente, manutenção da capacidade produtiva dos solos; armazenamento intensificado de carbono, para combater as consequências negativas da mudança climática global; polinização das culturas, dentre outros. Essa urgência é maior por ainda haver no País muitas propriedades com passivos ambientais, na maioria das vezes causados por desconhecimento de tecnologias ambientalmente amigáveis, por falta de educação para o desenvolvimento rural

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Opiniões sustentável, mas também – principalmente no caso dos pequenos agricultores familiares pobres – por falta de recursos financeiros para a readequação das propriedades frente à nova realidade mundial. Em função disso, o MAPA foi buscar na cooperação internacional com o governo do Reino Unido recursos para o estabelecimento do projeto Agricultura Sustentável para o Desenvolvimento Rural. O projeto é uma façanha sem igual na história do MAPA, por ser um projeto de fundos não reembolsáveis e de vulto expressivo, equivalente a 25 milhões de libras ou cerca de R$ 80 milhões. Além disso, foi o único projeto brasileiro aprovado em 2012 pelo Fundo Internacional do Clima do Reino Unido. Certamente, por ser um projeto que possibilita que também pequenos e médios produtores possam ser inseridos no âmbito do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (Plano ABC), onde produtores de maior porte já se inserem através do crédito do Programa de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono – Programa ABC. Além disso, o projeto é importante por contribuir para a adequação das propriedades entre 4 e 20 módulos fiscais ao novo Código Florestal. O projeto apoiará as seguintes tecnologias: recuperação de pastagens degradadas; plantações florestais comerciais; sistemas agrossilvipastoris (agropastoril ou integração lavoura-pecuária - iLP, silviagrícola e silvipastoril); manejo florestal; recuperação de Áreas de Preservação Permanente, e recomposição de Reserva Legal.

O gerenciamento do projeto será feito pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que informa ser este o maior recurso de projeto a ser administrado pelo banco, nessa área, na América Latina. Esse projeto será implantado nos biomas mata atlântica e Amazônia, com foco em pequenos e médios agricultores, para difusão de modelos sustentáveis de agricultura e para recuperação de áreas degradadas por uso agrícola, pecuário ou florestal inadequados. Os estados a serem beneficiados serão Pará, Rondônia e Mato Grosso (bioma Amazônia) e Bahia, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul (bioma mata atlântica). Eles foram selecionados por também possuírem agricultura familiar expressiva e infraestrutura facilitadora para o desenvolvimento do projeto, em seus quatro anos de duração. O projeto tem como meta recuperar áreas degradadas e implantar unidades demonstrativas e multiplicadoras de tecnologias agropecuárias de baixa emissão de carbono em 41.560 hectares de 3.710 propriedades. Para tal, treinará 560 técnicos e 3710 produtores; custeará a assistência técnica por um a dois anos, a depender da tecnologia apoiada; e estabelecerá uma rede de referência de propriedades rurais que tenham se adequado ambientalmente ao novo Código Florestal. Acreditamos que essa será apenas uma primeira oportunidade para a expansão do trabalho de cooperação entre Brasil e Reino Unido. Por isso, certamente, colocarei a experiência que obtive em minha passagem por organismos internacionais e minha dedicação ao MAPA a serviço desse projeto. Afinal, mais que uma cooperação internacional entre ministérios, esse é um projeto entre governos.


produtores de florestas

a performance do

Opiniões

capital natural

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desempenho dos negócios é medido por indicadores, que comparam métricas e períodos na trajetória de uma dada companhia. Dessa mesma forma, a sustentabilidade do manejo florestal pode ser compreendida como a performance do capital natural ao longo do tempo, podendo ser mensurada pelo emprego de indicadores. Para exemplificar essa opinião, convido o caro leitor a conhecer um pouco do manejo florestal da International Paper do Brasil (IP) e tirar suas próprias conclusões ao final do artigo. Cultivando eucaliptos no interior paulista há 50 anos, a performance econômica da IP é surpreendente. Nas mesmas terras em que se manejam florestas por décadas, a produtividade quase triplicou, demonstrando a contínua evolução do manejo florestal e uma administração responsável de recursos naturais em caráter renovável. Por outro lado, e, com razão, há quem diga que não basta apenas ser produtivo, é preciso que o manejo seja competitivo em custos. Nesse quesito, a IP, como empresa global, compara o desempenho de suas unidades com negócios semelhantes em várias partes do mundo e conclui que o seu manejo florestal no Brasil propicia um custo de fibra posta fábrica altamente competitivo. Ainda assim, em nosso mundo globalizado contemporâneo, essa contínua agregação de valor pelo capital natural não se pode resumir apenas ao plano econômico.

A performance do amanhã não seria proporcional ao desafio que nos imprimimos hoje? Será que estamos medindo nossa performance e ajustando sua trajetória na devida gama de indicadores que permeiam a sustentabilidade? " Robson Oliveira Laprovitera Gerente de Meio Ambiente da International Paper

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produtores de florestas Voltemos agora nossa atenção à performance ambiental desses empreendimentos da IP no Brasil. Em termos de impactos positivos no contexto das mudanças climáticas, a fixação do carbono pelas florestas desempenha papel relevante. Na IP, boa parte das árvores que estão sendo plantadas, hoje, pela empresa, são capazes de fixar 16% a mais de carbono do que aquelas que estão sendo colhidas. O uso da biomassa como fonte de geração de energia e vapor na indústria também aumentou em 155%, com o advento de uma nova caldeira que substituiu o gás natural por madeira a partir de 2013. Falemos agora sobre biodiversidade. Quando esse assunto adentra o universo do manejo florestal em regiões tropicais, uma das principais preocupações dos silvicultores é quanto à quantidade e à qualidade do habitat oferecido à fauna silvestre. Nesse sentido, nos últimos sete anos, a taxa de ampliação de habitat natural na empresa foi de 19%. A qualidade do habitat acompanhou esse processo de expansão, em que a biodiversidade florística alcançou 170 espécies nas áreas onde se iniciou o processo de restauração. Por conseguinte, a fauna silvestre vem respondendo positivamente a essas ações. Comparando períodos recentes de observação de mamíferos de médio e grande porte numa dada área, verificou-se um aumento de 21% nos vestígios da presença dessas espécies, e 30% nas espécies classificadas como vulneráveis, em termos de ameaça de extinção, o que demonstra que os habitats naturais estão sendo capazes de oferecer abrigo, alimentação e condições de procriação a animais que beiram o topo da cadeia alimentar. Esse zelo pela biodiversidade fez com que 30% das áreas naturais da empresa fossem classificadas como “Florestas de Alto Valor de Conservação”, segundo os

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Opiniões critérios da certificação FSC, por possuírem atributos de relevante interesse ecológico. Para valorizar ainda mais os serviços ambientais prestados por essas áreas, a empresa, atualmente, conserva 13% das florestas de alto valor de conservação como RPPN, em que uma delas foi reconhecida, em 2010, pela FAO como caso exemplar de manejo florestal sustentável na América Latina. As plantações de eucalipto da empresa também desempenham um papel importante na conservação da biodiversidade, pois, como florestas, facilitam a permeabilidade ecológica na paisagem e constituem também o home range de diversas espécies da fauna. Aliás, o manejo das plantações está diretamente associado à performance ambiental. Vejamos, agora, a influência do manejo sobre a água. A IP no Brasil possui uma bacia hidrográfica experimental onde, após ampliar as áreas de Reserva Legal existentes nas adjacências das Áreas de Preservação Permanente, reduzir as densidades de estradas em 20% e ampliar a distância da entrelinha de plantio, a razão entre vazão e precipitação total anual saltou de 17% (média do primeiro ciclo) para 30% (média dos quatro anos após as ações de manejo). Esse resultado surpreendente, que também é afetado por fatores como a intensidade, duração e a distribuição das chuvas ao longo dos anos, demonstra a oportunidade que ações como essas, de melhoria no manejo florestal, podem assumir no aumento da produção de água. Importante ser dito que a produção da bacia não se alterou significativamente de um ciclo para o outro, considerando também a introdução de novo material genético. Esse manejo foi replicado em uma propriedade, numa abordagem “hidrosolidária” em conjunto com uma comunidade local circunvizinha, onde a alocação das áreas de Reserva Legal, com foco na produção de água, foi definida com a comunidade, e o manejo da plantação de eucalipto, que vem dando certo na bacia experimental, também foi aplicado em parte da área. Essa abordagem de engajamento das partes interessadas internas e externas, que afetam o manejo florestal e são afetadas por ele, também faz parte da natureza da IP Brasil. A empresa possui várias maneiras de medir a sua performance social, incluindo ações de engajamento com seus profissionais e liderança, no emprego de métodos e indicadores preventivos de saúde e segurança. Como medidas que incentivam o empreendedorismo local, melhorando a economia e gerando renda, a expansão do fomento florestal da IP atingiu 23% nos últimos dois anos, e a produção de mel junto à cooperativa de apicultores locais vem ampliando-se ano a ano, e projetamos que a produção de mel em 2013 virá a ser, ao menos, cinco vezes superior à produção de 2011. Encontramo-nos, agora, ao final do artigo, e a indagação a ser feita é: a sustentabilidade do manejo florestal não seria, então, uma medida da performance do capital natural, trabalhado pela silvicultura e pelo manejo, ao longo do tempo? A performance do amanhã não seria proporcional ao desafio que nos imprimimos hoje? Será que estamos medindo nossa performance e ajustando sua trajetória na devida gama de indicadores que permeiam a sustentabilidade? Como sabemos, são as perguntas que movem o mundo. Concluo que a IP já se vem movendo há bastante tempo.


Jodinaldo Ubiracy de Azevedo Pinheiro – há 18 anos na Sabesp

Agora os rios das bacias Sorocaba e Médio Tietê, Tietê-Jacaré, Piracicaba, Capivari e Jundiaí estão mais limpos. O Governo do Estado de São Paulo, por meio da Sabesp, concluiu as obras de coleta e tratamento de esgotos em 4 cidades do Médio Tietê.

Obras entregues: • • • •

ra ob ue ntreg

Boituva: Estação de Tratamento de Esgotos Campos de Boituva e Anhembi: Estação de Tratamento de Esgotos na sede do município obra Conchas: Estação de Tratamento de Esgotos na sede do município Laranjal Paulista: Estações de Tratamento de Esgotos na sede do município e no Distrito de Laras

E vêm mais por aí: Obras de implantação do Sistema de Esgotamento Sanitário, com a construção de Estações de Tratamento de Esgotos nos municípios de Agudos, Dourado, Araçariguama, Águas de São Pedro, Alumínio, Boituva (Pau D’alho), Capela do Alto (Bairro do Porto), Cesário Lange, Anhembi (Piramboia), Ibiúna (Paruru) e São Roque.


produtores de florestas

os serviços

ambientais

O

do ecossistema

plantio de florestas no Brasil começaram há mais de um século. Com os recursos naturais da mata atlântica reduzindo rapidamente, o plantio de algumas espécies tornou-se alternativa viável para suprir a crescente demanda por madeira. A década de 70 foi marcada pela política de incentivos fiscais para o reflorestamento com pinus no sul dos País e eucalipto em São Paulo e Minas Gerais, principalmente. Formamos, nesse momento, uma grande base florestal com espécies de rápido crescimento que sustentou grandes indústrias siderúrgicas a carvão vegetal, celulose e, mais recentemente, painéis de madeira reconstituídos. Muito se investiu em pesquisa em silvicultura dessas espécies, consolidando seu uso em plantios comerciais. O Brasil detém, hoje, as melhores tecnologias na silvicultura do eucalipto, atingindo marcas superiores a 50m³/ha por ano de produtividade, em rotações de seis ou sete anos. As pesquisas têm avançado na área florestal, que tem demonstrado resultados positivos nos aspectos econômicos, ambientais e sociais, garantindo um processo sustentável por meio de: • Diminuição da pressão sobre florestas nativas; • Reaproveitamento de terras degradadas pela agricultura e pecuária; • Recomposição das áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente, estabelecendo corredores para a biodiversidade. • Sequestro de carbono; • Proteção do solo e da água; A demanda de madeira vem aumentando nos últimos anos e tende a continuar crescendo. Algumas alternativas que vêm sendo adotadas por empresas florestais são: fomento florestal, parceria e arrendamento. Dessa forma, estimula-se o uso múltiplo da fazenda com um aspecto benéfico de geração de renda aos proprietários, sendo também uma alternativa por parte das empresas que reduz a necessidade de aquisição de terras. Atuamos em Mato Grosso do Sul, estado da federação com área de 35.712.496 ha e geograficamente divido em quatro mesorregiões que, por sua vez, têm suas subdivisões baseadas em atributos do “Zoneamento Ecológico Favorável” referente ao uso do solo, ou seja: as áreas destinadas para projetos florestais no MS estão localizadas na mesorregião Leste, que ocupa área de 8.277.683 ha, 23% da área total do estado.

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Essa região caracteriza-se pela predominância de grandes propriedades voltadas à pecuária, atividade que soma 87% das áreas produtivas. As áreas de lavoura temporária ocupam 9%, e as florestas plantadas, menos de 2% de área produtiva, sendo os outros 2% destinados a horticultura, floricultura e lavoura permanente. A Eldorado Brasil é uma empresa brasileira de base florestal que concentra suas atividades, nessa região, na formação de florestas plantadas de eucaliptos e na produção de celulose, onde utiliza matéria-prima 100% renovável. A produção é exportada para os principais mercados produtores de papel localizados na América do Sul, América do Norte, Europa e Ásia. Trabalhamos em um planejamento de longo prazo, que organiza as atividades num horizonte de 21 anos, bem como os programas e as ações desenvolvidas para dar sustentabilidade ao projeto. A empresa demonstrou, recentemente, cumprir com todas as qualificações necessárias para ser certificada no FSC - “Forest Sterwardship Council”. Essa conquista foi atingida em novembro de 2012, um mês após a inauguração da fábrica. Serviços ambientais do ecossistema: O conceito de bens e serviços tem origem nas ciências econômicas. Bens são definidos como tudo aquilo que seja útil ao homem, com ou sem valor econômico – exemplos: madeira, alimentos, resinas, óleos, água e outros. Os serviços são prestações de assistência ou realização de tarefas que contribuem para satisfazer as necessidades humanas, sejam elas individuais ou coletivas – exemplos: sequestro de carbono, regulação do clima, regulação do ciclo hidrológico, controle de erosões e outros. Os principais bens e serviços que os ecossistemas florestais fornecem são: • Fonte de matérias-primas: madeira, combustíveis e fibras; • Fonte de material genético; • Controle biológico; • Alimento – frutos, sementes; • Produtos farmacêuticos; • Recreação, ecoturismo e lazer; • Recurso educacional; • Controle de erosão, enchentes, sedimentação e poluição; • Armazenamento de água em bacias hidrográficas, reservatórios e aquíferos; • Controle de distúrbios climáticos como tempestades, enchentes e secas;


Opiniões • Proteção de habitats utilizados na reprodução/ emigração de espécies; • Regulação dos níveis de gases atmosféricos poluentes; • Regulação de gases que afetam o clima; É importante ressaltar que bens e serviços não são exclusivos de florestas nativas, muitos deles potencializados pelas florestas plantadas, já que estas atuam indiretamente nesse sistema, ao atender à demanda de madeira da sociedade, preservando na proporção de 1 ha plantado para cada 10 ha de desmatamento evitado nas florestas nativas. Importância ecológica das florestas: Quando falamos de florestas plantadas, se pensa em como conservar a biodiversidade. Alguns estudos relacionados à fauna e à flora são importantes indicadores da qualidade ambiental de uma determinada área. O desenvolvimento de atividades produtivas pode impactar o meio ambiente, tanto de maneira positiva – quando promove a conservação de ambientes antes degradados, quanto de forma negativa – quando alguma atividade causa algum risco ao ambiente. O bom plantador de floresta assegura a conservação ambiental e, através de boas praticas de manejo, promove a melhoria do ambiente e a preservação do ecossistema, que, na visão atual, inclui áreas de produção e área de proteção da água, do ar e da biodiversidade. Tão importante quanto a gestão operacional é a gestão socioambiental, e ela ocorre a todo o momento no desenvolver de cada uma das atividades; assim, além das normas e recomendações ambientais contidas em procedimentos, algumas ações estruturadas são realizadas para garantir que todos os processos estejam não só de acordo com a legislação ambiental, mas que possam também agregar valor ao mundo e contribuir para a sustentabilidade do negócio no longo prazo. A economia das florestas plantadas: As florestas plantadas são essencialmente importantes para a economia brasileira. Todos os setores produtivos estão direta ou indiretamente ligados aos produtos florestais, como a indústria de base, que usa carvão vegetal como fonte de energia, a construção civil, que utiliza madeira, e a agricultura, que necessita dos serviços ambientais fornecidos pelas florestas. Estima-se que o setor florestal, atuante nas cadeias produtivas de energia (lenha e carvão), madeira sólida, papel e celulose, painéis, serviços ambientais e produtos não madeireiros, seja responsável por 4% do PIB brasileiro e pela geração de aproximadamente seis milhões de empregos.

O valor social das florestas plantadas: Tanto as florestas naturais quanto as plantadas são instrumento de inclusão social. O manejo comunitário é um tema que vem sendo estudado, divulgado e colocado em prática, como forma de as comunidades tradicionais utilizarem economicamente a floresta de forma organizada para que possam aumentar sua renda e melhorar suas condições de vida. O fomento florestal de florestas plantadas tem sido colocado como uma alternativa para pequenos proprietários rurais em regiões tradicionalmente agrícolas. A floresta está dentro da nossa vida a todo momento, em casa, nos utensílios domésticos de madeira, no papel higiênico, no papel toalha, na embalagem dos alimentos, na esponja de aço que lava a panela e no aro da geladeira e da bicicleta produzidos por siderúrgica a carvão vegetal, esse mesmo carvão que utilizamos no nosso churrasco dos finais de semana e também no aço inox, comum em cada ambiente em que vivemos. Nos parafusos, arames, cabos, tintas, resinas e tubulações usadas em construções diversas. Além desses, são inúmeros outros usos da madeira que torna difícil viver sem floresta.

O bom plantador de floresta assegura a conservação ambiental e, através de boas praticas de manejo, promove a melhoria do ambiente e a preservação do ecossistema " Germano Aguiar Vieira Diretor Florestal da Eldorado Celulose e Papel

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confederação nacional a eicas

Opiniões

pagamentos por

serviços ambientais

Quando do relacionamento entre pessoas, com profissionais ou instituições, a expressão “pagamento por serviços...” é a radiografia da definição do valor que deverá ser pago por alguém que está demandando o serviço e cobrado por quem o oferece. Saltam, imediatamente, no debate, os questionamentos clássicos, como a frequência, a duração, a qualidade, a garantia do(s) serviço(s), etc. No meio rural, as regras legais que tratam da preservação ambiental, depois de inúmeros périplos legislativos, passaram a se alojar na legislação ambiental, que passou a ter sua identidade maior na denominação “Código Florestal”. Inúmeros preceitos basilares compõem o “Código Florestal”, desde percentagens de áreas a serem preservadas, intocabilidade de áreas predeterminadas para reserva, até conservação e proteção dos cursos d’água, com faixas marginais de isolamento e reposição de espécies nativas. Os principais valores quantitativos são os percentuais da área da propriedade, obrigatoriamente intocáveis, daí as denominações “reserva legal”, “preservação permanente” e outras.

Tais serviços serão de mensuração, o que supera aquela questão da obrigatoriedade. Vislumbra-se, pois, uma decisão do proprietário rural de migrar de sua atividade clássica, produtiva, para a de ampliar áreas de preservação e/ou implantação de unidades florestais que se incorporam ao obrigatório, aumentando, portanto, a presença de espécies e modelos prescritos nos espaços compulsórios. Como tal decisão implica redução do espaço exploratório convencional, fica condicionado que, para estimular tal opção, é indispensável a compensação pecuniária para o adepto dessa decisão. Daí a denominação “pagamento de serviços ambientais”, o PSA. Há programas públicos, como o “Bolsa Verde”, que remuneram tais projetos, com dotações orçamentárias, o que permite a leitura que ao Poder Público interessa o “serviço” e nele está disposto a investir. O setor privado também tem comparecido às mesas de propostas. Se é “pagamento”, o valor haverá de ser atraente para quem vai oferecer o produto, no caso, “serviços ambientais”. Indispensável considerar que a população global não para de aumentar e que

A “sustentabilidade” é o grande resultado procurado e que esperamos conquistar. "

Gilman Viana Rodrigues Presidente da Comissão Nacional de Meio Ambiente da CNA

No caso da rubrica “reserva legal”, os percentuais variam de 20% a 80% de cada propriedade, guardando relação com a localização do imóvel. Para “preservação permanente”, a variável é a largura da faixa de proteção que varia conforme a classificação dos corpos d’água. A aplicação de tais medidas, ou princípios, são instrumentos robustos de “serviços ambientais” e, é importante considerar, não são geradores de benefícios para os proprietários rurais como produtores, mas, sim, como cidadãos, pois são benefícios para todos os indivíduos, das pequenas comunidades, das grandes comunidades, dos estados, do País, do mundo. Todavia, em virtude da legislação, tais serviços são disponibilizados gratuitamente e de forma permanente. A partir da última versão legal, prazos serão adotados em busca de pleno atendimento aos quantitativos. Estamos, agora, diante de um outro painel, um painel de “procura e oferta”, que requer a participação das duas partes envolvidas que, obviamente, terão que manifestar suas propostas: a) de “pagar”; b) de “gerar “. Isto é, pagar e gerar o produto “serviços ambientais”.

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toda administração pública, com muita propriedade, almeja e cria instrumentos para que o padrão de vida das pessoas passe para patamares superiores. Esses dois fatores levam ao crescimento da demanda por alimentos, que requer solo para o seu desenvolvimento e, naturalmente, para sua expansão. Certamente, estamos no limiar de uma atividade indispensável para promover a existência do meio ambiente sustentado e o abastecimento alimentar. O fator decisivo para a convergência se chama “conhecimento”, pois não há como aumentar a oferta de alimentos sem expandir a área, se não houver intenso uso de tecnologia. Igualmente, para a boa gestão dos “serviços ambientais” a serem oferecidos, a rota passa, obrigatoriamente, pelo viés tecnológico. Hoje, o quesito “semente de espécies nativas” tem forte presença como fator de dificuldade para a expansão sobre o produto “mudas”, mas é um início de atividade que a sociedade necessita e haverá de ter seu tempo de colheita de resultados. A “sustentabilidade” é o grande resultado procurado e que esperamos conquistar.



entidade de classe

florestas plantadas: múltiplos usos e segurança alimentar

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ais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo têm, nas florestas e nas plantações florestais, uma fonte de alimento, energia e renda. Essa estimativa da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - FAO, foi uma das bases da primeira Conferência sobre Florestas e Segurança Alimentar dessa entidade, realizada em maio deste ano, em Roma. A iniciativa de juntar dois temas aparentemente distintos, colocando-os em primeiro plano, dá uma dimensão do reconhecimento das florestas como importante vetor para o desenvolvimento humano, sem deixar, no entanto, de ser o maior símbolo de preservação do meio ambiente. Os reflexos que as recomendações da FAO podem causar, principalmente nas populações mais carentes nos mais diversos países do mundo, representam uma mudança na forma de buscar soluções para questões de nutrição e segurança alimentar. A organização propôs formas de integrar o conhecimento dos sistemas agroflorestais e transformá-lo em decisões políticas em nível nacional e internacional. Nesse contexto, as plantações florestais também assumem um papel de extrema relevância no cenário mundial, pois reforçam os debates sobre sustentabilidade em organizações privadas e governamentais, que passam a enxergar as florestas como ativos estratégicos para o desenvolvimento sustentável do planeta. Para o setor brasileiro de celulose e papel, que mantém as florestas plantadas mais produtivas do mundo, essa visão é fundamental. Afinal, a indústria de base florestal passa a ser valorizada como primordial para garantir insumos de primeira necessidade para a população – entre eles, a oferta de papéis de todos os tipos. E as práticas do setor começam a ser compreendidas como uma agroindústria que usa recursos provenientes de fontes renováveis: as florestas plantadas. Um negócio que consegue compatibilizar, positivamente, produção, preservação e conservação do meio ambiente. Esse novo olhar tem implicações diretas na

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perenidade dos negócios do setor, que exigirão investimentos na ampliação da área de florestas plantadas. No Brasil, a expectativa é expandi-la em 45%, passando dos atuais 2,2 milhões de hectares para 3,2 milhões de hectares, até 2020. Com os novos plantios, o setor terá condições de aumentar sua produção de celulose em 57% e a de papel em 30%, chegando, respectivamente, a 22 milhões de toneladas e a 12,7 milhões de toneladas. A despeito do saldo da crise econômica e do tempo ainda necessário para que o mercado mundial se recupere totalmente, as expectativas de crescimento da demanda global por produtos florestais desafiam o setor a crescer. Além disso, a competitividade do setor brasileiro de florestas plantadas é incontestável, se comparada aos demais players globais. Razão pela qual elas ocupam o centro do planejamento estratégico das indústrias e da agenda de negociações da Bracelpa, com metas de curto e longo prazos. Nesse sentido, o setor tem se posicionado proativamente nos debates sobre a valorização do carbono florestal, no contexto da economia verde, e sobre biotecnologia, que pode abrir novos horizontes para a produção florestal. Além disso, a Associação tem reforçado a importância das certificações florestais como ferramenta de gestão para a sustentabilidade e como instrumento para assegurar bom posicionamento comercial das empresas nos mercados mais exigentes. O manejo florestal sustentável, apoiado pelo desenvolvimento tecnológico e genético, é um dos pilares da competitividade global do setor nacional e garante ao Brasil posição de destaque entre os principais produtores mundiais de celulose e papel. No País, as florestas plantadas desse setor apresentam excelentes níveis de produtividade – maior rendimento de celulose por metro cúbico de madeira por hectare a cada ano (m³/ha/ano) –, quando comparadas às de outros países. A produtividade média das florestas de eucalipto atinge 44 m³/ha/ano, enquanto a das florestas de pinus chega a 38 m³/ha/ano.


Opiniões Estreitar relacionamento do setor com os órgãos certificadores, sobretudo o Forest Stewarship Council (FSC) e o Programa Nacional de Certificação Florestal (Cerflor), que representa no Brasil o Programme for the Endorsement of Forest Certification Systems (PEFC), é uma meta que está sendo alcançada. Legítimos representantes da sociedade civil, esses órgãos têm ganhado respeito e credibilidade, orientando o consumo responsável e determinando os mercados mais verdes. Por isso, temos destacado as práticas de sustentabilidade do setor em fóruns internacionais, o que é imprescindível para conquistar protagonismo e liderança nas negociações sobre o futuro das plantações florestais. O Brasil está, hoje, na vanguarda em relação ao uso múltiplo das florestas plantadas – produção de energia e de biocombustível, biotecnologia, nanotecnologia, além da produção de celulose e papel – e quer debater essas tendências com todos os públicos de relacionamento dos órgãos certificadores. De fato, as florestas são recursos estratégicos para o desenvolvimento sustentável e essenciais para a sobrevivência do homem. Por isso é imprescindível reforçar também a importância das florestas plantadas para o desenvolvimento socioeconômico e a preservação ambiental: o cultivo garante o fornecimento de insumos e possibilita a diminuição das desigualdades sociais, além de gerar emprego e renda, melhorando a vida de pessoas de centenas de comunidades de diversos países. Segundo a ONU, as florestas abrigam cerca de 80% da biodiversidade terrestre e contribuem de forma expressiva para o equilíbrio climático,

Vale lembrar que o uso múltiplo das florestas é uma das aplicações da nanotecnologia, ciência que estuda a matéria em escala atômica e molecular e tem como princípio básico a construção de novas estruturas e materiais a partir dos átomos. Assim, as árvores são um recurso inesgotável e renovável. Acredita-se que, nos próximos anos, haverá uma nova geração de produtos florestais, muitos deles mais duráveis, mais leves, mais fortes e mais resistentes à água.

as árvores já são fontes de mais de cinco mil produtos do nosso dia a dia, como móveis, ferramentas, produtos médicos, cosméticos, produtos de limpeza, entre muitos outros itens (nos quais se incluem) os biocombustíveis " Elizabeth de Carvalhaes Presidente executiva da Bracelpa

armazenando grandes volumes de gases de efeito estufa. Além dessas funções naturais, seu uso múltiplo nos próximos anos levará a uma nova realidade, na qual o setor de base florestal será fundamental para atender a demandas relacionadas ao crescimento populacional mundial. Um bom indicador, nesse sentido, é o fato de que as árvores já são fontes de mais de cinco mil produtos do nosso dia a dia, como móveis, ferramentas, produtos médicos, cosméticos, produtos de limpeza, entre outros itens, sem contar sua aplicação na produção de biocombustíveis, o que as torna uma alternativa verde ao petróleo.

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centros de desenvolvimento do conhecimento

Opiniões

plantios florestais: transformando vilões em mocinhos Os plantios florestais, especialmente os de eucalipto e pinus, foram, e, em alguns casos, continuam sendo, tidos como vilões para o meio ambiente. Esse estereótipo vem sendo atribuído às espécies exóticas arbóreas em geral por diversos motivos culturais, falta de informação e alguns tropeços do passado, comuns ao desenvolvimento tecnológico de qualquer processo produtivo. Primeiramente, a cultura florestal no País é recente, sendo que florestas ainda são vistas exclusivamente como ecossistemas naturais, incluindo todos os seus atributos estéticos e, logicamente, suas funções, tão importantes para a conservação da água, dos solos, da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em geral. Essa “cegueira” florestal só pode ser corrigida com o tempo, com a incorporação na cultura nacional da ideia de que florestas também podem ser plantadas e manejadas comercialmente, trazendo muitos benefícios, conceitos já secularmente incorporados em países com tradição florestal. Os plantios florestais, embora sejam ecossistemas simplificados, também são denominados de florestas, mas florestas plantadas e com todas as suas limitações nos atributos e nas funções anteriormente citadas. Embora haja uma distinção clara e técnica entre os dois ecossistemas, culturalmente existe uma grande confusão, a qual pode causar diferentes situações conflitantes, como denúncias equivocadas a respeito de corte de árvores (plantadas para esse fim), comparações estéticas das florestas e a falsa expectativa de se buscar funções da floresta nativa em uma floresta com finalidade comercial. Essas confusões, comuns ao público em geral, aliadas à falta de informação sobre impactos e benefícios das florestas plantadas, têm sido agravadas por situações pontuais de impacto, especialmente na água, devido a erros no processo de aprendizado do manejo florestal de espécies de rápido crescimento, falta de planejamento e não atendimento à legislação ambiental. O cenário citado, mais frequente no passado recente (expansão dos plantios na década de 70), embora menor, ainda persiste em poucas regiões do País, mas ecoa do passado sempre que existe uma situação de conflito. Nos últimos 40 anos, é evidente que houve imensos avanços no manejo de florestas plantadas em termos de aumento de produtividade e sustentabilidade desses ecossistemas em geral, pelo avanço tecnológico, melhoramento genético, legislação ambiental, certificação ambiental entre outros. Apesar disso, ainda existe uma diversidade grande de técnicas de manejo, em função do gradiente de acesso à tecnologia da cadeia produtiva envolvida. Esses avanços no manejo florestal, hoje, nos permitem afirmar que não existe floresta “ruim”, nem este ou aquele “vilão”, mas o que ainda existem em pequenas proporções são florestas plantadas mal manejadas por diversos fatores e que, sim, nesse caso, podem causar algum efeito não desejado.

essa “cegueira” florestal só pode ser corrigida com o tempo, com a incorporação na cultura nacional da ideia de que florestas também podem ser plantadas e manejadas comercialmente " Silvio Frosini de Barros Ferraz

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Professor de Manejo de Bacias Hidrográficas da Esalq-USP

Particularmente, na quantidade de água dos riachos que drenam os plantios, tema mais frequente nas discussões sobre impacto dos plantios, vários estudos mostram que os plantios reduzem a vazão a jusante, mas, observando-se a disponibilidade hídrica regional e com manejo adequado, podem-se controlar esses efeitos, minimizando-os. Ao contrário, em regiões com disponibilidade hídrica adequada, a cobertura dos plantios florestais associados às áreas de vegetação nativa, quando manejados adequadamente, são capazes de equilibrar melhor os fluxos hidrológicos e auxiliar na conservação da biodiversidade retida nos ecossistemas nativos. Nesse caso, estamos falando de uma mudança de paradigma importante e histórico que já pode ser observado em florestas plantadas bem manejadas, em que o ecossistema, composto por plantios e vegetação nativa são capazes de produzir e, ao mesmo tempo, conservar, ao invés de causarem impactos. A afinidade florestal e a baixa intensidade de manejo já tornam os plantios florestais com potencial de conservação, diferentemente dos sistemas agrícolas que apresentam grande contraste em relação à vegetação florestal nativa e alta intensidade de manejo. Mesmo assim, os sistemas agrícolas não são vistos como “vilões” por questões históricas e culturais, apesar de, frequentemente, apresentarem maiores impactos do que os plantios florestais e oferecerem menores possibilidades de serviços ecossistêmicos do que os primeiros. Mas, então, o que é preciso para tornar os plantios verdadeiros mocinhos? É necessário encarar o desafio de planejar florestas para que sejam produtivas e também capazes de conservar o solo, a água, a biodiversidade, enfim, os serviços ecossistêmicos. Existem inúmeros casos em que já se podem observar em campo os resultados de um bom manejo florestal; é preciso que estes se tornem cada vez mais frequentes e mostrem seus benefícios, pois já é tempo de uma mudança de percepção para que as florestas plantadas sejam vistas com outros olhos. Esse desafio, atualmente, reflete também um momento ímpar na engenharia florestal, na qual é necessário integrar os conhecimentos de biologia, solos, clima, hidrologia e economia para encontrar as melhores soluções locais de manejo florestal, para manutenção da produtividade que estejam em sintonia com a busca pela sustentabilidade. O momento que mais vem exigir da engenharia florestal é também motivo de orgulho para uma das únicas profissões que têm, em suas raízes, o conceito de sustentabilidade na prática e que têm, neste momento, a oportunidade de mostrar quão é capaz de “engenheirar” plantios florestais produtivos e responsáveis por materiais reconhecidamente essenciais na vida das pessoas, mas com capacidade de oferecer serviços ambientais. Esses plantios, então, poderão ser reconhecidos, cada vez mais, numa sociedade mais madura como “mocinhos”, enterrando de vez os “vilões” do passado.



centros de desenvolvimento do conhecimento

a floresta plantada e suas

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interfaces ambientais

uando se fala de florestas plantadas, dependendo do leitor, várias são as interpretações. Podem levá-lo a lembrar-se, por exemplo, da produção ou da sustentabilidade do meio ambiente. Desejo, aqui, traçar alguns comentários relacionados à interatividade entre essas duas formas de visualização dos plantios florestais. Lembrando a história recente dos povoamentos homogêneos no Brasil, ele se iniciou com o advento dos incentivos fiscais e de reposição obrigatória nos idos da década de 1970, quando não era foco principal a interatividade entre a produção e o meio ambiente. Os anos se passaram, e muitos projetos daquela época foram adquiridos e incorporados a grandes projetos verticalizados, e vários sofreram modificações e adequações ao longo do tempo. Iniciei com esse preâmbulo para, a partir de agora, discorrer sobre o assunto que escolhi para este artigo; “a infraestrutura florestal”, para a qual, nos projetos antigos, não se dava a real importância, pois o objetivo era plantar, e não se vislumbravam as necessidades para a colheita. Como herança desse tempo, muitas empresas ainda têm talhões em forma e tamanho inadequados, estradas para fins florestais com grandes problemas relacionadas com densidade e qualidade, e muitas vezes necessitando de reorganizações em sua malha viária. A questão da rede viária – planejamento, construção e uso – é de fundamental importância quando relacionamos a produção com o meio ambiente, pois, em uma escala de interferência, ela é aquela que mais o agride. Uma estrada mal implantada pode influenciar negativamente tanto o solo, pela potencial erosão, como também a água, pelo carreamento de material, que afetará sua qualidade.

A melhor forma de preservar é saber usar. "

Jorge Roberto Malinovski Professor de Sistemas de Colheita da UF-PR e Diretor da Malinovski Florestal

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O estabelecimento inadequado de uma estrada também causa um dano irreversível à paisagem, o que também é negativo do ponto de vista ambiental. Hoje, muitas empresas já colocaram em seus manuais a necessidade do “manejo da paisagem”, onde o desenho das estradas deve estar em consonância com a topografia da região, assim como o planejamento do corte das florestas. Uma rede viária bem organizada reduz riscos e garante abastecimento fabril, e os cuidados com ela devem ser relevantes. As estradas não passam somente nas áreas de produção, mas, como integram áreas, passam por “Reserva Legal”, como também em “Áreas de Preservação Permanente”, que possuem maiores restrições legais para sua construção e uso. É mais comum, hoje em dia, as empresas procurarem melhorar a rede viária existente do que buscar novas alternativas, principalmente em áreas de relevo mais ondulado, devido às questões de ordem burocrática acabarem prevalecendo sobre as questões técnicas. Voltando ao passado, muitos projetos organizaram sua rede viária pensando somente no transporte de madeira utilizando caminhões de baixa tonelagem, o que, hoje em dia, não faz sentido, pois a maioria do transporte de toras se faz com caminhões de alta tonelagem, o que implica, indubitavelmente, melhorar a qualidade das estradas, tanto seu piso, como – e principalmente – as rampas e os raios de curva. Muitas vezes, não é possível usar o traçado existente, e se fazem necessários estudos de novas alternativas no total, ou, normalmente, em trechos.


Opiniões Para que a rede viária florestal não seja a “vilã”, quando relacionamos os fatores de produção com o meio ambiente, se faz necessário um criterioso uso de parâmetros técnicos, tanto para o planejamento como também para a construção e a manutenção das estradas. Esse ponto, hoje, é bastante discutido nas empresas, e muitas já têm normatização a respeito, mas, em minha opinião, falta ainda muito a se fazer, pois existe certa lacuna de planejamento, construção e uso em várias empresas do setor. Também se podem relacionar aqui as estradas que serão usadas em uma fazenda/projeto que, via de regra, não ligam diretamente a área de produção com a indústria, pois passam por áreas de vizinhos, estradas públicas, entre outras, nas quais, muitas vezes, o padrão de qualidade não é o mesmo, e as empresas necessitam adequá-las ao seu meio de transporte. Notam-se, por exemplo, vizinhos que não aceitam “deságue”, proveniente de drenagem das estradas, em sua propriedade. Então, o que fazer? Normalmente, se procuram acordos, mas nem sempre se consegue o esperado. Outro ponto a se considerar nesse contexto é a formação de poeira, que, muitas vezes, se torna problema para o tráfego de caminhões que passam por vilas, povoados ou casas à beira das estradas. Como resolvê-lo? As empresas costumam regar com água, mas algumas leis estaduais estão restringindo cada vez mais essa prática, relacionando a captação de água com a vazão do córrego/riacho, o que está aumentando bastante o custo da operação. Outra forma para minimizar o problema é a utilização de produtos químicos (enzimas, cal, entre outros), mas ainda com poucos resultados técnicos/econômicos comprovados. As estradas devem garantir toda a cadeia produtiva da madeira: o plantio, a manutenção, a colheita, o seu transporte e a guarda da propriedade, de fundamental importância no negócio com floresta plantada; assim, ela deve, além de garantir sua função, estar em consonância com a manutenção da produtividade e a sustentabilidade do meio ambiente. Assim, ela deve ser encarada de forma técnica/econômica e ambientalmente adequada, e daí vem a pergunta: qual é o custo aceitável das estradas na composição do custo da madeira? Essa pergunta pode ter diversas interpretações. Primeiro, esse valor será debitado na empresa como “custo” ou “investimento”. Algumas empresas colocam “rede viária básica” (implantação) como investimento, e a “rede viária complementar” (colheita), como custo. Segundo, a interpretação de que estrada é só custo, e terceiro (menos usada) é que a estrada é investimento. As estatísticas de custos no Brasil colocam que a média do custo da rede viária é de US$ 1 a US$ 2 por metro cúbico produzido, que compreende tanto a construção como a manutenção, porém esse valor dependerá muito da sua densidade e da sua qualidade. Hoje, se discutem a “densidade aceitável de estradas”, a porcentagem de cascalhamento relacionado com garantia de abastecimento, o tamanho de talhões e, principalmente, os desenhos e as técnicas construtivas que garantam o transporte, mas que estejam em consonância com a sustentabilidade do meio ambiente. Portanto a rede viária adequada é a “chave” para o sucesso do negócio florestal proveniente de florestas plantadas no Brasil. Esse tema é bastante relevante, e, para melhor discuti-lo, acontecerá, em outubro deste ano, o Encontro Brasileiro sobre Infraestrutura Florestal, que abordará praticamente tudo o que apresentamos aqui. Para finalizar, gostaria de deixar uma pequena reflexão: “A melhor forma de preservar é saber usar”.

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centros de desenvolvimento do conhecimento

Opiniões

funções ecossistêmicas e

serviços ecossistêmicos

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entendimento da dinâmica dos ecossistemas requer um esforço de mapeamento das chamadas funções ecossistêmicas, as quais podem ser definidas como as constantes interações existentes entre os elementos estruturais de um ecossistema, incluindo transferência de energia, ciclagem de nutrientes, regulação de gás, regulação climática e do ciclo da água. Tais funções, que são consideradas um subconjunto dos processos ecológicos e das estruturas ecossistêmicas, criam uma verdadeira integridade sistêmica dentro dos ecossistemas. O conceito de funções ecossistêmicas é relevante, pois, por meio delas, são gerados os serviços ecossistêmicos. De modo geral, uma função ecossistêmica gera um determinado serviço ecossistêmico quando os processos naturais subjacentes desencadeiam uma série de benefícios, direta ou indiretamente, apropriáveis pelo ser humano, incorporando a noção de utilidade antropocêntrica. Em outras palavras, uma função passa a ser considerada um serviço ecossistêmico quando apresenta possibilidade/potencial de ser utilizado para fins humanos. Dentre muitos serviços ofertados, podem-se citar a provisão de alimentos, a regulação climática, a formação do solo, etc. São, em última instância, fluxos de materiais, energia e informações derivados dos ecossistemas naturais que, combinados com os demais capitais (humano, manufaturado e social), produzem o bem estar-humano. As funções e os serviços ecossistêmicos nem sempre apresentam uma relação biunívoca, sendo que um único serviço ecossistêmico pode ser o produto de duas ou mais funções, ou uma única função pode gerar mais que um serviço ecossistêmico. A natureza interdependente das funções ecossistêmicas faz com que a análise de

seus serviços requeira a compreensão das interconexões existentes entre os seus componentes, resguardando a capacidade dinâmica dos ecossistemas em gerar seus serviços. Além disso, o fato de que a ocorrência das funções e dos serviços ecossistêmicos poder se dar em várias escalas espaciais e temporais torna suas análises uma tarefa ainda mais complexa. A vida no planeta Terra está intimamente ligada à contínua capacidade de provisão de serviços ecossistêmicos. A demanda humana por eles vem crescendo rapidamente, ultrapassando, em muitos casos, a capacidade de suporte dos ecossistemas em fornecê-los. Urge, então, não apenas o esforço de compreensão da dinâmica inerente aos elementos estruturais dos ecossistemas, mas também é de fundamental importância entender quais são os mecanismos de interação entre os fatores de mudança dos ecossistemas e sua capacidade de geração dos serviços ecossistêmicos, bem como seus impactos adversos sobre o bem-estar humano. A despeito de sua grande variedade, as funções ecossistêmicas podem ser agrupadas em quatro categorias primárias, quais sejam: a) funções de regulação; b) funções de habitat; c) funções de produção; e d) funções de informação. As funções de regulação estão relacionadas à capacidade de os ecossistemas regularem processos ecológicos essenciais de suporte à vida, através de ciclos biogeoquímicos responsáveis pela composição química da atmosfera, dos oceanos e da biosfera como um todo. Estão também relacionadas à capacidade de minimizar severos efeitos de desastres e eventos de perturbação natural/não natural, como: (a) capacidade de filtragem e estocagem de água, que regulam sua disponibilidade ao longo das

uma função passa a ser considerada um serviço ecossistêmico quando apresenta possibilidade/potencial de ser utilizado para fins humanos, como a provisão de alimentos, a regulação climática, a formação do solo, etc. "

Sérgio Gomes Tôsto

Pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

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centros de desenvolvimento do conhecimento estações climáticas; (b) capacidade de absorção de água e resistência eólica da vegetação; (c) a capacidade de proteger o solo, que previne o fenômeno da erosão e da compactação, beneficiando diretamente as funções ecossistêmicas que dependem desse recurso em boas condições naturais, como as (re)ciclagens de nutrientes vitais ao crescimento e à ocorrência das formas de vida. Essas funções se traduzem também em serviços ecossistêmicos de assimilação e reciclagem de resíduos (orgânicos e inorgânicos) através de diluição, assimilação ou recomposição química. As florestas, por exemplo, filtram partículas presentes na atmosfera, enquanto alguns ecossistemas aquáticos podem funcionar como “purificadores” para alguns dejetos da atividade humana. As funções ecossistêmicas relacionadas à reprodução vegetal, como a polinização, que resulta das atividades de algumas espécies, tais como insetos, pássaros e morcegos, se traduzem também em serviços ecossistêmicos essenciais para a manutenção da produtividade agrícola. Do mesmo modo, a cadeia de presas e predadores dos ecossistemas naturais próximos a áreas agrícolas oferecem o serviço ecossistêmico de regulação biológica que reduz a instalação de pragas nas culturas agrícolas. Funções de habitat são essenciais para a conservação biológica e genética, contribuindo para a preservação de processos evolucionários. De Groot et al. (2002) citam as funções de refúgio e berçário, sendo a primeira delas concernente ao fato de que ecossistemas naturais fornecem espaço e abrigo para espécies animais e vegetais,

Opiniões

contribuindo para a manutenção da diversidade genética e biológica. A segunda relaciona-se ao fato de que muitos ecossistemas, principalmente os costeiros, possuem áreas ideais para a reprodução de espécies, proporcionando a sua perpetuação. As funções de produção estão ligadas à capacidade de os ecossistemas fornecerem alimentos para o consumo humano, a partir da produção de uma variedade de hidrocarbonatos, obtidos através de processos como a fotossíntese e o sequestro de nutrientes e através de ecossistemas seminaturais, como as terras cultivadas, entre outros produtos, como madeiras, ceras, colas, gomas, tintas naturais, gorduras, folhagens, etc., além de recursos genéticos, medicinais e ornamentais. As funções de informação relacionam-se à capacidade de os ecossistemas naturais contribuírem para a manutenção da saúde humana, fornecendo oportunidades de reflexão, enriquecimento espiritual, desenvolvimento cognitivo, recreação e outros tipos de experiências proporcionadas pelo contato com a natureza. Nessa categoria, incluem-se conhecimento estético, recreação, (eco)turismo, inspiração cultural e artística, informação histórica e cultural, além de informações científicas. Essas funções são profundamente ligadas aos valores humanos, o que, muitas vezes, dificulta a sua correta definição e avaliação. m um cenário de contínua degradação dos ecossistemas, o alcance do desenvolvimento sustentável requer um melhor entendimento da medida da dependência humana com relação serviços ecossistêmicos e, por conseguinte, da vulnerabilidade do bem-estar humano em relação às mudanças nos ecossistemas.


mudanças climáticas

Opiniões

pagamento por serviços ambientais:

uma esperança

que se cumpre

D

esde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992, o tema da biodiversidade entrou na agenda dos tomadores de decisão. E hoje está presente, de certo modo, também na sociedade, como se verifica na cobertura de imprensa de maneira geral e especialmente na mídia televisiva, que constantemente faz matérias sobre os temas, enfocando os mais diversos aspectos: unidades de conservação, fauna e flora regionais e, mais recentemente, a questão da biodiversidade e da cultura gastronômica. Esse avanço é inquestionável se lembrarmos que a expressão “diversidade biológica” foi cunhada em 1980 por Thomas Lovejoy, um biólogo norte-americano e grande conhecedor do Brasil. Em 1988, foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, que veio a se tornar uma das iniciativas mais importantes na discussão do futuro do planeta, ao reunir a ciência produzida no mundo sobre mudança do clima e divulgá-la em relatórios frequentes. Com isso, o IPCC, órgão subsidiário da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, tornou-se um importantíssimo ator social na discussão sobre mudança do clima e uma referência obrigatória para governos, empresários, sociedade civil e, fundamentalmente, para a opinião pública.

No caso da biodiversidade, infelizmente não fomos capazes, à época, de criar o “IPCC da biodiversidade”, que veio a acontecer tão somente em 2010, em Nagoya, com a denominação de IPBES - Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. É sempre bom assinalar que os EUA, já em 1992, colocaram muitas restrições à Convenção da Diversidade Biológica, sendo que ela não foi ratificada pelo Senado daquele país, o que retirou densidade política desse tratado internacional, pois, sem a principal potência, a maior economia e o maior comprador do mundo, a implementação da Convenção se torna mais difícil. Mas, nessas décadas, há que se mencionar que a Convenção teve um papel relevante no aprimoramento dos conceitos de biodiversidade, na discussão da conservação in situ através das Unidades de Conservação, no reconhecimento dos saberes dos povos tradicionais. E, talvez o mais importante, na premissa de que nenhuma estratégia de desenvol-

a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, convocada ... pela ONU ..., envolveu mais de 1.300 especialistas em todo o mundo, assinalou a importância da biodiversidade e a urgência de ações para sua conservação " Fábio Feldmann

Secretário Executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e Biodiversidade

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mudanças climáticas vimento pode prescindir da conservação da biodiversidade. Com a realização da Avaliação Ecossistêmica do Milênio, convocada pelo ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, em 2005, algumas conclusões se tornaram fundamentais. A Avaliação, que envolveu mais de 1.300 especialistas em todo o mundo, assinalou a importância da biodiversidade e a urgência de ações para sua conservação. Suas conclusões alertaram o mundo para o fato de que quase dois terços dos ecossistemas mundiais estão sendo degradados em razão da nossa maneira de viver. A partir dessa realidade, os desafios envolvendo o aquecimento global, a poluição na terra, na água e no ar, a escassez de recursos naturais e a aniquilação da biodiversidade, entre outras mazelas, não vão afetar apenas as gerações futuras, mas já estão afetando a nós mesmos. Mais recentemente, com a publicação do TEEB - The Economics of Ecosytems and Biodiversity, que teve como autor principal o economista indiano Pavan Sukhdev, foi corroborada a ideia da importância da biodiversidade e a necessidade de se criar mecanismos de pagamento pelos serviços ambientais. E quais são eles? Água limpa, controle de enchentes, polinização, sequestro de carbono, estabilização de encostas, dentre outros. Mas a ideia de serviços ambientais deve ser reconhecida como uma radical mudança de enfoque da relação da humanidade com a natureza: de uma visão utilitária de que a natureza seria um estoque infindável de recursos naturais para uma visão mais holística e que procura entender a natureza como um conjunto de processos ecológicos dos quais dependemos pelo oferecimento dos serviços ecossistêmicos. O principal desafio certamente é tornar essa mudança de visão operacional e prática. Exemplifico: tramitam na Câmara dos Deputados mais de trinta projetos instituindo o pagamento por serviços ambientais, tendo sido designado o Deputado Arnaldo Jardim como relator da matéria. Mas existem algumas perguntas básicas a serem feitas antes de se instituir o pagamento por serviços ambientais: é possível definir com clareza quais são eles? É possível mensurar os serviços ambientais para, posteriormente, estabelecer valores para o seu pagamento? Quais as fontes para o pagamento desses serviços ambientais, públicas ou privadas?

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Opiniões Para responder a essas questões, devemos buscar inspiração em algumas experiências em curso. Um bom exemplo brasileiro foi instituído no sul de Minas Gerais, no município de Extrema, sendo este uma parceria da ONG The Nature Conservancy - TNC, Agência Nacional de Águas - ANA, Prefeitura Municipal de Extrema-MG, Instituto Estadual de Florestas -IEF e o Governo do Estado de Minas Gerais. A iniciativa, batizada de “Conservador das Águas”, tem por objetivo implantar o conceito de pagamentos por serviços ambientais. No caso desse projeto, a Prefeitura Municipal de Extrema, junto com os parceiros, está compensando financeiramente os produtores rurais que se comprometem a adotar práticas sustentáveis de conservação de água e solo, como o cercamento de nascentes, plantio de matas ciliares, adequação de estradas rurais, construção de barraginhas, dentre outras. Os benefícios decorrentes de tais ações podem ser vistos com a implementação de microcorredores ecológicos, a redução da poluição decorrente dos processos erosivos, bem como a proteção dos recursos hídricos da bacia. O projeto ganhou o “Prêmio Internacional de Dubai 2012 de Melhores Práticas para Melhoria das Condições de Vida”, promovido pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (Habitat/ONU), em parceria com a Municipalidade de Dubai/Emirados Árabes. Já no campo empresarial, a ideia mais revolucionária foi dada por Pavan Sukhdev em seu livro recém-lançado no Brasil, "Corporação 2020: como transformar as empresas para o mundo amanhã". O brilhante economista sustenta que as empresas deveriam desenvolver novas modalidades de contabilidade, passando a incorporar as externalidades negativas e positivas de suas atividades. Seguindo essa estratégia, a empresa Puma, no ano de 2011, em seu Relatório de Sustentabilidade, faz uma tentativa de se definir uma matriz na qual se colocam os custos ambientais para a produção de tênis, tais como emissão de gases de efeito estufa, uso de água, uso do solo, geração de resíduos e poluição no ar. O Brasil, país megabiodiverso, com uma sociedade civil bem organizada, uma capacidade científica reconhecida e um setor empresarial cosmopolita, poderia exercer um papel de liderança nesse campo, experimentando modelos e arranjos institucionais inovadores, que pudessem contribuir para enfrentar os limites planetários que a ciência aponta.


mudanças climáticas sustentabilidade

Opiniões

economia

verde N

os próximos dois anos, o mundo estará discutindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em que o setor florestal tem fundamental importância. O ano de 2015 será de decisões, como a implantação dos ODSs, os resultados obtidos na Rio+20 e, no futuro, políticas multilaterias sobre florestas. Estes foram, entre outros, assuntos tratados no 10° Fórum das Nações Unidas para as Florestas, realizado em Istambul, em abril. Além dos ODSs, a ONU tem por preocupação a agenda posterior a 2015 no que se refere aos padrões de produção e consumo, economia verde, financiamentos e contabilidade do capital natural. O setor florestal brasileiro é referência em produção florestal sustentável, tanto no fornecimento de produtos florestais madereiros e não madereiros quanto por seu potencial em fornecer serviços ambientais a partir de suas florestas. Será importante sua atuação e liderança em 2015 e pós 2015, demonstrando ao mercado internacional seu potencial em exercer uma de suas principais características: ser uma atividade econômica que contribui com a construção de uma economia verde. Igualmente importante é a oportunidade de divulgar o potencial da silvicultura brasileira a investidores comprometidos com o desenvolvimento sustentável, uma vez que essa atividade está alinhada aos principais compromissos internacionais, dentre eles o Pacto Global.

nos próximos dois anos, o mundo estará discutindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em que o setor florestal tem fundamental importância. " Sara Juarez Sales

Coordenadora de Sustentabilidade da Eco Brasil Florestas

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sustentabilidade Com mais frequência, tais investidores, signatários do Programa de Investimentos Responsáveis (PRI), vinculado às Nações Unidas, participam na implantação de políticas empresariais, fomentando e coordenando a criação de comitês de sustentabilidades, contribuindo com o monitoramento de impactos e dependência dos recursos naturais; na avaliação de riscos e oportunidades relacionados ao negócio; na redução de emissões e de utilização de recursos naturais e no monitoramento da opinião das partes interessadas. Acompanho experiência semelhante e tenho, nas ferramentas para promover essa gestão, um desafio. O envolvimento de investidores aproxima empresas florestais de menor porte ou em implantação das ferramentas de estruturação de estratégias para a sustentabilidade, ferramentas estas que avaliam o cenário atual de atuação da empresa, definem uma visão futura de sucesso, posicionam a empresa em seus investimentos em inovação e na sua inserção à nova economia verde. A definição de uma visão de futuro não apenas proporciona a implantação de modelos de gestão estratégicos dimensionados para o momento financeiro do negócio, como também define a curva de posicionamento da empresa em função do tempo, nas diferentes etapas de implantação da sua política de sustentabilidade, facilitando a comunicação e o entendimento pelos diferentes stakeholders sobre seus propóstios. Contextualizado, posicionado, com visão de futuro e missão, o empreendimento define seus objetivos, metas, indicadores para a cadeia de valor, estrutura seu radar de desempenho e seu cockpit de gestão em sustentabilidade. Implantar modernas ferramentas de gestão estratégica pode ser óbvio para grandes empresas do setor florestal, mas prematuro para outras, menos capitalizadas. No entanto um escopo básico pode ser abordado na construção de políticas consistentes de sustentabilidade, tendo a silvicultura como sua promotora. Elenco aqui alguns pontos, que podem ser implantados por empresas com diferentes desempenhos socioambientais e econômicos:

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Opiniões • Estabelecer diretrizes básicas e exequíveis de organi-

zação e monitoramento do manejo florestal pautadas nos princípios, nos critérios e nas melhores práticas dos certificados socioambientais, mesmo que não certifique. • Identificar e preservar fragmentos florestais com alto valor de conservação que possam conectar-se com outros fragmentos e/ou comunidade do entorno, servindo à preservação da biodiversidade ou ao uso sociocultural, costumário ou de segurança alimentar. • Agregar valor e comunicar as boas práticas identificadas nos diferentes processos de manejo florestal (manutenção de vias, construção de passagens molhadas, contenção de processos erosivos, retirada de madeira de baixo impacto, proatividade no relacionamento com vizinhos, logísitica de baixo impacto, organização de documentos legais entre outros). • Tratar o combate ao fogo e seu histórico de contenção como uma das melhores práticas e esforços de prestação de serviços ambientais da silvicultura. • Desenvolver capacidade interna para identificar desafios e oportunidades na construção de uma visão de futuro sustentável, como também para estabelecer processos e análise crítica sobre impactos sociais e ambientais, influência dos stakeholders e de aspectos relevantes da sustentabilidade. Tive a oportunidade de vivenciar a construção da agenda socioambiental dentro de reuniões operacionais, e a participação dos colaboradores florestais é um diferencial surpreendente. Nessas reuniões, foram tratados diferentes temas sociais e ambientais, entre os quais, a implantação de processo de restauração de áreas degradadas, em que os colaboradores tiveram atuação fundamental no desenvolvimento de empresas prestadoras de serviços para a adequação das propriedades à legislação ambiental, retirada de exótica de Áreas de Preservação Permanete e para a própria restauração. A transferência de tecnologia pelas áreas operacionais florestais é muito intensa e nem sempre é mensurada. O mesmo ocorre com fomentados e arrendamentos, principalmente, na obtenção de certificação ambiental ou adequação à legislação ambiental. Ao redor da silvicultura, se desenvolvem empresas que prestam algum tipo de serviço socioambiental, que, sob sua influência, praticam as principais políticas do manejo florestal, gerando empregos, empregos verdes e renda. Essa influência reflete-se também nas cidades onde os colaboradores vivem e se relacionam, surgindo entidades sociais e cooperativas a partir de atitudes voluntárias. Na agenda de gestão municipal, está inclusa a utilização de ferramentas já há algum tempo adotadas pela iniciativa privada, como a contabilização de suas emissões, agendas estratégicas e relatório de sustentabilidade, planejamento técnico e processos participativos. Segundo a Bracelpa (2013), o setor conta com 220 empresas com atividade em 540 municípios, localizados em 18 estados. A maior parte desses municípios conta com a atividade florestal, setor que pode contribuir muito, principalmente na formação de capital social e na transferência de tecnologia em planejamento e gestão territorial. Quem sabe transferir as melhores práticas de gestão seja um caminho de cooperação entre poder público e setor florestal, para a construção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável…



pagamento por serviços ambientais

o pagamento por serviços ambientais

na prática

A

existência da vida na Terra só é possível graças aos serviços que a natureza nos presta, ao ar que respiramos, à água vital que bebemos, aos alimentos e aos frutos que alimentam todas as formas de vida do planeta e, principalmente, da humanidade há milênios. Além de tudo isso, o equilíbrio da natureza é que regula o clima da Terra, o ciclo de evaporação da água necessário à formação das nuvens, que são tidas como rios voadores, que levados pelo vento, se transformam em chuvas, se infiltrando nos solos, alimentando os lençóis freáticos, depois os rios, sustentando a vida harmoniosa de milhares de seres há milhões de anos no planeta. Mas o homem interfere nesses processos, desequilibrando seu funcionamento normal, sem saber que isso compromete a vida do planeta e, por conseguinte, a sua própria existência. O senso de preservação da natureza, da água e dos recursos naturais deveria estar no DNA do homem, mas, infelizmente, ele fica adstrito ao sabor das conveniências econômicas e políticas em circunstâncias onde a opção pela preservação acaba perdendo o jogo, sempre. A preservação de áreas de nascentes com matas ciliares é obrigação legal dos proprietários rurais. No entanto, muitas vezes, esses proprietários têm dificuldade em cumprir com as diretivas legais, preferindo cair na ilegalidade para ganhar seus sustentos. Essa escolha sempre tem um preço muito alto para todos nós.

Além de incorrer em multa por infringir a legislação ambiental, uma área de preservação permanente desmatada é uma verdadeira chaga no coração da propriedade rural. Assoreamento, erosão, perda da camada fértil do solo e diminuição da quantidade de água nos corpos hídricos desnudos são apenas alguns dos sinais percebidos nessas áreas, impedidas de cumprirem com seu papel natural. A médio e longo prazos, o prejuízo trazido ao proprietário rural e à população que depende do serviço ambiental (como no caso da captação de água para abastecimento público) ultrapassa, em muito, o lucro ilícito obtido pelo fruto do uso das áreas de preservação. Existem, em reduzido número, e é preciso exaltar, alguns proprietários rurais que resistem ao assédio de lucro fácil e ainda buscam preservar, em sua propriedade rural, áreas maiores do que a demandada pela legislação ambiental. São esses heróis que precisam ser recompensados financeiramente por sua digna atitude, ainda que não atribuam um valor monetário aos serviços ambientais que prestam à humanidade. Existem mecanismos de controle para monitorar essas atividades, tais como licenciamento, repressão com multas, entre outros, para penalizar quem desrespeitar as normas legais do uso e ocupação do solo. Mas isso não está surtindo o resultado desejado, muitas vezes pela inoperância dos sistemas e pela impossibilidade física e institucional dos poderes públicos para controlar

A médio e longo prazos, o prejuízo trazido ao proprietário rural e à população que depende do serviço ambiental ultrapassa, em muito, o lucro ilícito obtido pelo fruto do uso das áreas de preservação. " Mário Eduardo Pardini Affonseca

Superintendente da Unidade de Negócio Médio Tietê da Sabesp Da esquerda para a direita, o Superintendente da Unidade de Negócio Médio Tietê da Sabesp, Mário Eduardo Pardini Affonseca; o Prefeito de Botucatu, João Cury Neto; e a Diretora-presidente da Sabesp, Dilma Pena.

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Opiniões e fiscalizar o acesso aos recursos e seu uso em territórios extensos, e, infelizmente, as agressões se multiplicam na medida em que cresce o desmatamento para dar lugar a pastos e plantações. Assim, surge o PSA, Pagamento por Serviços Ambientais, como solução não baseada na repressão, mas no envolvimento, no incentivo e na compensação aos proprietários rurais que preservem as áreas de mananciais em suas terras. É uma iniciativa que está ganhando corpo ao redor do mundo e, cada vez mais, proprietários rurais têm procurado essa fantástica alternativa de sustentabilidade para seu negócio e, por conseguinte, para a natureza, desejosa de atitudes de respeito. No Brasil, a cidade de Extrema, em Minas Gerais, foi a pioneira em PSA, com o projeto sendo desenvolvido pela prefeitura do município, contemplando três metas: qualidade do saneamento, preservação e recuperação da cobertura vegetal nativa e, por último, a conservação do solo e das nascentes. Os excelentes resultados já podem ser mensurados e são exemplos, para todo o País, de que o projeto é viável. Mas quem deve pagar pelo PSA? Há controvérsias: moralmente, todo cidadão deveria pagar, já que os outros seres não praticam a “mercancia”, isto é, não transigem com moeda de troca. Pode parecer absurdo, mas não é, pois somos todos beneficiários desses serviços ambientais, mas só os humanos consomem e não dão nenhuma contrapartida substancial à natureza, o que agora pode fazê-lo, através do desembolso de dinheiro mesmo. Outros acham que é o poder público que deve arcar com essas despesas, pois a ele cabe zelar pelo nosso bem-estar, uma vez que já pagamos impostos. A discussão irá longe se não nos conscientizarmos de que é uma obrigação de toda a sociedade, primeiro em reconhecer a importância do PSA e depois exigir de todos, com urgência, uma política mais séria, com posturas mais concretas em relação aos recursos naturais. O município de Botucatu saiu na frente no estado de São Paulo e é pioneiro em receber o Pagamento por Serviços Ambientais. A prefeitura municipal, no ano de 2010, por ocasião da renovação do contrato de concessão dos serviços de saneamento básico com a Sabesp, elaborou um projeto que foi inserido no contrato, no qual a empresa destina 1% do total de sua arrecadação no município para pagamento de serviços ambientais aos proprietários rurais de Botucatu que desenvolvem ações de preservação de nascentes e mananciais, pré-cadastrados no programa. A Unidade de Negócio Médio Tietê, com a destinação à prefeitura desses recursos financeiros que serão repassados a proprietários rurais para utilização exclusiva em proteção ambiental, estará – além dos benefícios imediatos que trará aos produtores, tais como a geração de empregos em diversas atividades profissionais correlatas, no manuseio consciente da terra – também, em médio prazo, propiciando o restabelecimento de matas ciliares em importantes áreas de mananciais e córregos de nossa comunidade, protegendo os entornos das degradações oriundas das ações humanas impensadas, com reflexos diretos na qualidade da água, e, a longo prazo, teremos a recomposição dos ecossistemas e de toda a biodiversidade da fauna e flora da região. Isso tudo garante o equilíbrio tão necessário que a natureza necessita para cumprir seu papel na manutenção da vida em todas as suas formas, nuances, beleza e esplendor.

Reconhecer para preservar Será que avanços na área do meio ambiente são conquistados apenas encontrando formas de punir aqueles que agridem a natureza? Fiscalizar é preciso, mas por que não reconhecer também as boas práticas? É com esse pensamento que Botucatu dá um passo significativo para a conservação e a preservação do nosso ecossistema. No último dia 20 de maio, a Câmara Municipal de Botucatu aprovou, de forma unânime, a Lei Complementar 1.045, proposta pelo Executivo Municipal, que institui o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PM PSA). A lei prevê o repasse de recursos financeiros àqueles (principalmente produtores rurais) que apresentarem projetos que tenham como finalidade a conservação, a manutenção, a ampliação, a melhoria ou a restauração dos serviços propiciados pelos ecossistemas naturais que são imprescindíveis para a manutenção das condições necessárias à vida. A prioridade será a preservação e a recuperação dos mananciais de abastecimento de Botucatu. Isso, a médio e longo prazo, garantirá ao município um aumento na quantidade e na qualidade da água de abastecimento. Em Botucatu, os recursos a serem aplicados no PSA provêm do contrato de renovação de serviços entre a Prefeitura de Botucatu e a Sabesp - Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, que destina 1% do seu faturamento mensal ao Fundo Municipal de Pagamento por Serviços Ambientais. É imprescindível lembrar que esse Fundo Municipal será administrado por um conselho com representantes do Poder Público, da Sabesp e da sociedade civil, representada por membros do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. Ou seja, a concretização desse belíssimo projeto apenas reforça a nossa ideia de que juntos somos mais fortes. Definitivamente, avançamos muito, principalmente no que tange à educação ambiental, porque acreditamos que o exemplo pode ser semeado e multiplicado. Mas essa iniciativa ímpar no estado de São Paulo, demonstra que Botucatu é mesmo especial, justificando, dessa maneira, o primeiro lugar obtido, em 2012, no programa “Município Verde Azul”, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Botucatu é reconhecida pelas boas escolas e indústrias, mas também pela preciosa natureza que temos ao redor de nossa Cuesta. Sem falar no Aquífero Guarani, um dos maiores mananciais de água doce subterrânea do mundo que está bem debaixo de nossos pés. Por isso precisamos reconhecer esse presente que nos foi dado por Deus. Assim, esse programa pode ser uma das formas de preservar, às nossas gerações futuras (filhos, netos, bisnetos...), o berço em que nascemos. João Cury Neto, Prefeito Municipal de Botucatu


visão científica dos serviços ambientais

água e floresta: um binômio indissociável

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á forte correlação entre florestas e qualidade/quantidade da água disponível para pronto uso, base para vários projetos de PSA existentes. Estimativas apontam que o benefício dos ecossistemas no tocante à qualidade da água é da ordem de US$ 2,3 trilhões/ano. Busca-se uma correlação mais clara entre a qualidade da água em bacias de drenagem com certa cobertura florestal e o custo de tratamento, notadamente pelo menor consumo de produtos químicos. Embora evidente que, em geral, águas aduzidas com melhor qualidade exigem tratamento mais simples e barato, o tema é bastante complexo. Exploremos alguns tópicos relevantes: • O florestamento de bacias hidrográficas efetivamente protege o manancial. A erosão determina, em geral, cerca de 80% dos problemas de qualidade em microbacias. Entretanto a relação entre o percentual de área com vegetação florestal e o custo do tratamento não é linear – 40% de mata não significa custo duas vezes menor que 20%. Esclareço recorrendo a um exemplo extremo: proteger apenas uma margem de um rio não traz ganho na escala esperada, pois, da outra margem, podem ser carreados contaminantes e sedimentos em grandes quantidades. Da mesma forma, sob perspectiva geral, a vegetação nas cabeceiras e trechos à montante é mais efetiva que à jusante. Estudos realizados em microbacias revelam tal conexão, mas há resultados aparentemente díspares, pois características de solo e de relevo têm influência significativa no balanço hídrico e na qualidade do eflúvio. Pontos isolados sem vegetação podem assumir papel muito relevante, assim como uma simples clareira ou bananal clandestino no sub-bosque podem determinar significativa perda de solo mais desagregado. Estima-se que, em explorações flo-

não se deve encarar o PSA como uma panaceia capaz de, sozinho, frear a devastação florestal "

Marcelo Morgado Consultor especial em Núcleo de Estudos Urbanos

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Opiniões restais, 90% dos sedimentos tenham origem nas estradas e carreadores. Além disso, o regime de chuvas afeta muito a erosão. Chuvas intensas e curtas são as determinantes para o carreamento de particulados. Infelizmente, elas podem coincidir com períodos de aplicação de fertilizantes e também lavar herbicidas e pesticidas. Em resumo, recompor/ manter a vegetação nativa junto às margens (mata ripária) e adotar boas práticas de conservação de solo (plantio em curvas de nível, barreiras de sedimentos etc.) influenciam mais que o percentual de cobertura, inclusive na absorção de poluentes e de nutrientes como fosfatos, que deflagram a eutrofização. O que é difícil é estabelecer uma fórmula clara com parâmetros de qualidade dos corpos d’água, permitindo conceber um pagamento justo/objetivo por tais serviços ambientais. Isso decerto não impede um acordo político entre as partes envolvidas, privilegiando-se a recomposição de áreas mais vulneráveis e conduzindo ao aprendizado mútuo; • As condicionantes da saúde pública não permitem que os processos de tratamento sejam concebidos e ajustados de forma a depender estritamente da água afluente, o que implicaria riscos inaceitáveis. Ou seja, não se pode, a título de economizar produtos químicos, comprometer a confiabilidade no atendimento de limites legais. As ETAs devem ter processos com grande inércia e robustez para compensar flutuações de qualidade da água aduzida; • Nem sempre é certo que águas cada vez mais limpas resultem em custo de potabilização cada vez menor. No caso de baixa turbidez, com ausência de agentes nucleantes para favorecer a floculação, pode ser necessário mesmo dosar substâncias como a bentonita para desempenhar tal papel. Pode também ser necessário usar processos que consomem mais energia, como a flotação por ar difuso, em que microbolhas de ar induzem à separação de fase, criando empuxo para subir os flocos de sujidade a serem removidos; • Mananciais a fio d’água, em bacias florestadas têm o inconveniente de alta cor, proveniente de taninos e ácidos húmicos, oriundos da decomposição de serrapilheira. Muitos usuários se dispõem a beber, com satisfação, tais águas sem tratamento, quando em incursões por parques, mas não aceitam a mesma água em suas torneiras. Isso obriga as concessionárias a adotar processo mais sofisticado para remover cor. Tais considerações são relevantes quando se discute transferir para o Brasil modelos como os subsídios concedidos por Nova Iorque para a zona de mananciais de Catskill, Delaware e Croton, constituída em 75% por florestas. Tal caso emblemático enseja importantes ensinamentos e de fato foi bem-sucedido nas condições locais, tendo sido alardeado pela mídia. Isso acabou por gerar falsas expectativas ao projetá-lo como solução global. O projeto envolve diversos mecanismos, incluindo aquisição de áreas mais sensíveis para implantação de UCs de uso integral e benefícios tributários diversos para boas práticas e turismo rural, num programa total de US$ 1 a 1,5 bilhão em 10 anos, dos quais as transferências diretas a proprietários representam apenas US$ 40 milhões. Assim, não se pode generalizá-lo, pois sequer existe no Brasil a massa de recursos para subsidiar proprietários rurais no sentido de não derrubar as matas de suas terras, quando, na outra ponta, eles têm o retorno do agronegócio.

Por outro lado, florestas temperadas são bem mais aptas a processos de recomposição na medida em que contam com menor biodiversidade e com técnicas de sucessão florestal e manejo para aproveitamento econômico mais conhecidas e de uso corrente. Caso a remuneração para a floresta de pé não seja atrativa o suficiente, se comparada com a exploração agropecuária, não há como esperar que prevaleça em regiões onde esta é priorizada frente a outros usos da terra. Há que acrescer, ainda, as razões de ordem cultural, que, pelo Brasil afora, associam mata a “terreno sujo” e tornam proprietários impermeáveis aos argumentos da maior disponibilidade hídrica, abrigo de espécies que combatem pragas, etc. Cabe destacar que a necessidade de monitorar diligentemente o cumprimento de obrigações assumidas em PSAs para se fazer jus à receita exige custos importantes para órgãos de fiscalização, em detrimento das ações de repressão ao corte clandestino. Estas, se forem levadas a cabo com rigor, alcançam resultados concretos, conforme atesta a experiência recente na Amazônia, com redução do desmatamento. Portanto não se deve encarar o PSA como uma panaceia capaz de, sozinho, frear a devastação florestal. Ele é mais uma opção no repertório de ações/políticas públicas, no qual a repressão a práticas ilegais continua sendo a via preferencial para a realidade brasileira. Por outro lado, os mecanismos de mercado podem vir a ser muito eficientes caso se incentive e se torne mais fácil o retorno financeiro pelo manejo sustentável de madeira, frutos, resinas, fármacos e outros bens da biodiversidade. Estancando-se a absurda e acelerada devastação da floresta amazônica, as madeiras-de-lei deverão atingir preços elevados. O enriquecimento e o plantio consorciado com essências nativas e exóticas para posterior abate por manejo podem estimular a recomposição florestal. Isso, porém, implica superar os entraves burocráticos no licenciamento e monitoramento dos projetos, que encarecem e dificultam sua viabilização. Para o bioma mata atlântica, é imperativo ampliar o percentual mínimo preservado para 15%, conforme preconizado pela ONU, visando assegurar sua sobrevivência a longo prazo, sem depleção genética. Por isso é essencial investir na recomposição e na regeneração natural assistida, mais do que simplesmente manter os remanescentes isolados. Como estes são esparsos, incentivar projetos para conexão de fragmentos via corredores ecológicos pode induzir desenvolvimento econômico, já que se trata de uma atividade intensiva em mão de obra. Além disso, gera mais empregos que os associados à mera manutenção do status quo da cobertura vegetal, via PSA, que requer contratar vigilantes e mão de obra braçal para manter cercas e aceiros. Outra crítica cabível ao PSA é de ordem teórica, pois tem por base a limitada visão neoclássica da economia ambiental de incorporar externalidades, que está sendo superada pela mais abrangente economia ecológica. A conservação das florestas é, enfim, parte fundamental da estratégia para assegurar o abastecimento público de água a longo prazo e a manutenção da qualidade dos mananciais. Para tanto, se requerem ações locais, sem perder de vista a dimensão global, em que é central o papel das florestas na regulação do clima e na mitigação da maior ameaça que a humanidade já enfrentou: o aquecimento global.

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ensaio especial

Opiniões

plantações de árvores ou florestas plantadas? Depende do que queremos. Se o objetivo for o clássico “máxima produtividade no menor tempo”, então prevalece o enfoque “revolução verde” de cultura de árvores. Nesse sentido, melhor mesmo é o setor florestal produtivo ir logo para o Ministério da Agricultura. Assim escapa das “restrições” ambientais, que, na agricultura, parecem não ser tão contundentes. De quebra, ainda sairia lucrando, ganhando mais área para plantar, pois já não seria mais necessário ocupar apenas 50 ou 60% de cada fazenda florestal, como o setor deliberadamente o faz hoje, visando agregar valores ambientais ao seu manejo, em termos de biodiversidade, água e outros serviços do ecossistema. Com isso seria também possível diminuir custos, não precisando mais contar com profissionais da área de meio ambiente, biologia, monitoramento, certificação etc. E ainda se faria justiça, tornando finalmente verdadeira a afirmação de que se trata de um “deserto verde”.

síveis e dos atributos e processos ecológicos e hidrológicos relacionados com a perpetuação dos serviços ambientais e a resiliência ecológica. Por outro lado, inclui também a adoção de práticas de manejo adaptativo, num processo de melhoria contínua alimentada pelas informações obtidas no monitoramento das ações, na constante busca da perfeição. Até por isso é também bom adotar a estratégia de florestas plantadas. Porque ela não nos deixa ficar acomodados, mas nos ensina que é preciso melhorar sempre. A sustentabilidade não existe. O que existe é a sua busca constante. Ao longo de mais de 25 anos do programa de monitoramento hidrológico de plantações florestais em microbacias experimentais, coordenado pelo IPEF, aprendemos muita coisa. Aprendemos, por exemplo, que, durante sua fase de rápido crescimento, as florestas plantadas apresentam um consumo de água diferenciado, relativamente a uma floresta natural ou a uma área de vegeta-

Como disse alguém, de perto ninguém é normal. "

Walter de Paula Lima Professor Sênior do Depto. de Ciências Florestais da Esalq/USP

Em contrapartida, podemos fazer uso do nosso discernimento e procurar fortalecer o enfoque de “florestas plantadas”, ao invés de “plantios florestais”, mudança essa que não significa apenas um jogo de palavras, mas fundamentalmente de conceito. Há os que não gostam da expressão, por acharem que floresta plantada não é a mesma coisa que floresta, em seu sentido ecossistêmico. Mas quem vê dessa forma quem sabe é porque só está vendo a plantação e não o contexto, a paisagem. Como disse alguém, de perto ninguém é normal. A aparente harmonia espontânea da natureza se caracteriza, na realidade, por mudanças constantes, em respostas aos padrões naturais de flutuações, assim como à ocorrência de ciclos ocasionais de perturbações. Existem as diferentes zonas climáticas, e, dentro de cada zona climática, por sua vez, fatores geológicos e topográficos subdividem a paisagem em porções ainda menores, além do que as variações da rocha mãe são responsáveis pela diferenciação dos tipos de solos, fortalecendo, dessa maneira, a heterogeneidade biótica. E é esse mosaico de heterogeneidade que caracteriza a paisagem e que possibilita o fornecimento dos serviços ambientais ou serviços do ecossistema. E, nesse mosaico, há espaços para tudo, inclusive para a produção agrícola e florestal. Dessa forma, optar pela estratégia de manejo de florestas plantadas significa, em primeiro lugar, planejar a ocupação dos espaços produtivos de paisagem em sintonia com a preservação dessa heterogeneidade, garantindo a proteção das áreas sen-

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ção de pequeno porte. Isso é um fato já evidenciado em várias partes do mundo e não deve ser escondido, nem temido. Mais do que isso, aprendemos, também, que essa característica hidrológica das florestas plantadas pode ou não resultar em impacto negativo, dependendo das condições de solo e de clima onde elas estão plantadas. Ou seja, não é a floresta plantada em si a única responsável por eventual impacto hidrológico, mas sim o resultado de interações dela com o solo e com o clima. Portanto, não é uma regra universal. Em algumas situações, principalmente quando o plano de manejo não leva em conta a disponibilidade climática natural de água, até o mito “seca o solo” pode, eventualmente, se materializar. Mas onde o solo é profundo e o balanço hídrico climático é caracterizado por razoável excedente hídrico, essa diferença no consumo de água causada pelas florestas plantadas nem é sentida. E, ainda muito mais importante, aprendemos, também, que é possível estabelecer planos de manejo diferenciado para cada situação e, assim, evitar os eventuais impactos sobre a água. E, finalmente, aprendemos, ainda que uma floresta plantada de idade avançada é também capaz de exibir a mesma relação harmônica que sabemos existir entre uma floresta natural e a água, num claro sinal de retorno, com o devido tempo, da estabilidade hidrológica e conservação da água na escala das microbacias. Receita não há, apenas ingredientes, em que se incluem, principalmente, planejamento, manejo, competência, desassossego, comprometimento, coragem!


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