Como produzir mais, melhor e com menores custos - OpAA36

Page 1

www.revistaopinioes.com.br

ISSN: 2177-6504

SUCROENERGÉTICO: cana, açúcar, etanol & bioeletricidade ano10 - numero 36 - Divisão C - abr-jun 2013

como produzir mais, melhor e com menores custos




índice

como produzir mais, melhor e com menores custos Editoria de Abertura:

6

Roberto de Rezende Barbosa

Presidente do Conselho do Grupo NovAmérica

Ensaio Especial:

56

Humberto César Carrara Neto Gerente Agrícola da Usina São João

8 10 14 18 20 24 26 28 30

Pedro Luiz Fernandes

Presidente da Novozymes Latin America

Raffaella Rossetto

Pesquisadora Cientifica da APTA - IAC

Manoel Carlos de Azevedo Ortolan Presidente da Canaoeste e da Orplana

Dib Nunes Jr

Diretor-presidente do Grupo IDEA

Edelclaiton Daros

Professor da UF-PR e Coordenador Geral da Ridesa

Marcos Guimarães de Andrade Landell Pesquisador Científico do IAC/APTA/SAA

Jorge Luís Donzelli

Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do CTC

Auro Pereira Pardinho

Gerente de Marketing da DMB Máquinas

Luis Antonio Ferreira Bellini

Consultor da Bellmec e Coordenador do GMEC

34 36 38 40 44 46 48 50 52

Wilson Agapito

Gerente de Motomecanização da Della Coletta Bioenergia

Samir Fagundes e Marcelo Pierossi

Marketing da New Holland e Especialista Agroindustrial do CTC

Arnaldo José Raizer

Coordenador do Programa de Variedades do CTC

Derli de Sousa Prudente

Gestor de Corte, Transbordo e Transporte da Goiasa

Valmir Barbosa

Consultor da V Barbosa Engenharia

Marco Antônio da Fonseca Viana Presidente do GIFC

Ricardo Amadeu Silva

Diretor-presidente da Transportadora Especialista

José Soares Araújo

Gerente de Manutenção e Transporte da Usina Serra Grande-AL

Luiz Arnaldo Farina Nitsch

Consultor da Sigma Consultoria Automativa

Editora WDS Ltda e Editora VRDS Brasil Ltda: Rua Jerônimo Panazollo, 350 - 14096-430, Ribeirão Preto, SP, Brasil - Pabx: +55 16 3965-4600 - e-Mail Geral: opinioes@RevistaOpinioes.com.br Diretor de Operações: William Domingues de Souza - 16 3965-4660 - WDS@RevistaOpinioes.com.br - Gerente de Marketing: Valdirene Ribeiro Domingues de Souza - Fone: 16 3965-4606 VRDS@RevistaOpinioes.com.br - Vendas: Beatriz Furukawa - 16 3965-4698 - BF@RevistaOpinioes.com.br • Lilian Restino - 16 3965-4696 - LR@RevistaOpinioes.com.br - Apoio a Vendas: Fernanda Aparecida da Silva e Silva - FS@Revista Opinioes.com.br - Jornalista Responsável: William Domingues de Souza - MTb35088 - jornalismorevistaopinioes.com.br - Edição Fotográfica: Priscila Boniceli de Souza Rolo - 16 9132-9231 - boniceli@globo.com - Projetos Futuros: Julia Boniceli Rolo - 2604-2006 - juliaBR@revistaopinioes.com.br - Projetos Avançados: Luisa Boniceli Rolo - 2304-2012 - luisaBR@ revistaopinioes.com.br - Freelancer da Editoria: Aline Gebrin de Castro Pereira - Consultoria Juridica: Priscilla Araujo Rocha - Correspondente na Europa (Alemanha): Sonia Liepold-Mai - Fone: +49 821 48-7507 - sl-mai@T-online.de - Desenvolvimento de Mercados na Ásia: Marcelo Gonçalez - mg@revistaopinioes.com.br - Expedição: Donizete Souza Mendonça - dsm@revistaopinioes.com.br Copydesk: Roseli Aparecida de Sousa - ras@revistaopinioes.com.br - Agência de Propaganda: Agência Chat Publicom - Fone: 11 3849-4579 - Tratamento das Imagens: Luis Carlos Rodrigues (Careca) - Finalização: Douglas José de Almeida - Impressão: Grupo Gráfico São Francisco, Ribeirão Preto, SP - Artigos: Os artigos refletem individualmente as opiniões de seus autores Foto da Capa: Ary Diesendruck Photografers - Fone: 11 3814-4644 - www.arydiesendruck.com.br - Foto do Índice: Usina São João de Araras-SP - Fotografo: Ismar Almeida - Fone: 11 99132-6637 - ismargba@terra.com.br Zaw Comunicações - Fone: 11 98635-3515 - www.communicationadvisors.com - Fotos das Ilustrações: Acervo Revista Opiniões, dos Articulistas e de Ary Diesendruck Photografers - Fone: 11 3814-4644 www.arydiesendruck.com.br - Fotos dos Articulistas: Acervo Pessoal - Tiragem da Edição: 8.000 exemplares - Veiculação: Comprovada por documentos fiscais de pagamento da Gráfica e de Postagem dos Correios - Edição online: Leia online em nosso site a revista original, tal qual como foi impressa. Estão disponíveis todos os artigos de todos os articulistas de todas as edições de todas as divisões desde os seus lançamentos - Home-Page: www.RevistaOpinioes.com.br

Conselho Editorial da Revista Opiniões: ISSN - International Standard Serial Number: 2177-6504 Divisão Florestal: • Amantino Ramos de Freitas • Antonio Paulo Mendes Galvão • Celso Edmundo Bochetti Foelkel • Helton Damin da Silva • João Fernando Borges • Joésio Deoclécio Pierin Siqueira • Jorge Roberto Malinovski • Luiz Ernesto George Barrichelo • Marcio Nahuz • Maria José Brito Zakia • Mario Sant'Anna Junior • Mauro Valdir Schumacher • Moacir José Sales Medrado • Nairam Félix de Barros • Nelson Barboza Leite • Paulo Yoshio Kageyama • Roosevelt de Paula Almado • Rubens Cristiano Damas Garlipp • Sebastião Renato Valverde • Walter de Paula Lima Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Manoel Carlos de Azevedo Ortolan • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Paulo Roberto Gallo • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Roberto Isao Kishinami • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano



editorial

o desafio da busca do lucro na

produção

mecanizada Participação: Equipe NovAmérica

O agronegócio do Brasil vem apresentando um círculo virtuoso há anos, decorrente do aumento mundial da demanda por commodities agrícolas. Com a crise americana em 2012, houve significativa elevação dos ganhos econômicos da produção de grãos e carne, somada à disputa por terras entre os próprios produtores de cana-de-açúcar, fazendo com que o custo da terra – e consequentemente do arrendamento – tivesse um crescimento próximo a 90%, desde 2007. A experiência adquirida durante décadas teve de ser ampliada e ajustada a partir das demandas apresentadas nos últimos cinco anos. O mercado, as relações de trabalho, a cultura e, principalmente, o trato com a terra e o manejo da cana-de-açúcar têm sido transformados com o advento da mecanização. Essas mudanças foram necessárias para um avanço no setor nas questões tecnológicas e humanas, porém não é possível negar a chegada concomitante de outros desafios. Dentre eles, estão os ganhos reais de salários devido à escassez de mão de obra qualificada e à concorrência com outros setores do agronegócio, custos de aprendizado, normas regulamentadoras, aparecimento de novas pragas e doenças e aumento do custo da terra.

a produção de cana-de-açúcar tende a continuar crescendo, devido à necessidade humana por alimentos e por energia limpa, por isso a evolução da mecanização é necessária e irreversível " Roberto de Rezende Barbosa Presidente do Conselho do Grupo NovAmérica

6


Opiniões A disponibilidade de recursos humanos no processo de mecanização está longe de atingir o amadurecimento, pois o número de profissionais que possuem o conhecimento técnico de novas tecnologias ainda não é suficiente para atender às demandas do mercado. Isso leva à geração de custos adicionais em quatro frentes: nas perdas decorrentes da falta de qualificação adequada para a excelência nas operações, danos causados aos equipamentos, inflação dos salários pela disputa por profissionais e necessidade de excedentes de colaboradores em processo de formação.

As normas regulamentadoras de cunhos trabalhista e ambiental, editadas nos últimos anos, trouxeram avanços nas condições de trabalho no campo e na proteção ao meio ambiente, porém agregaram custos às operações. Essas normas que, em sua maioria, não existem em outros países, contribuíram para o Brasil deixar de ocupar o lugar de produtor mais competitivo em custos de produção da cana-de-açúcar. O processo de mecanização da colheita de cana crua fez surgirem condições favoráveis de desenvolvimento de pragas e doenças já existentes que não tinham infestação suficiente para causar grandes danos, e o conhecimento sobre o manejo de controle já estava consolidado. Essa realidade mudou completamente, e o monitoramento e o controle dessas pragas e doenças tornaram-se fundamentais para evitar quedas na produtividade, além do efeito colateral do uso de defensivos agrícolas.

que estão muito aquém de permitir uma operação de qualidade, porque os resultados das lavouras têm apresentado níveis de produção muito abaixo de seus potenciais. Mesmo na colheita, onde esse desenvolvimento vem de muitas safras, ainda há espaço para ganhos, voltados à redução das agressões à soqueira, compactação do solo, redução de perdas e monitoramento de tráfego. Apesar de, nos últimos anos, ter sido lançado um número significativo de novas variedades, ainda não dispomos, na cultura da cana-de-açúcar, dos recursos da transgenia em escala comercial, já consolidada em outras culturas e decisiva em ganhos de produtividade e redução de custo, podendo representar um marco para o setor sucroenergético. Com relação ao preço da terra, nos resta extrair ao máximo os potenciais produtivos, aproveitando os avanços tecnológicos e as condições climáticas, não só no uso de variedades mais adaptadas, como também no bom planejamento de colheita, aliado à adoção de boas práticas de produção. Podemos ter outras oportunidades de ganhos já em processo de amadurecimento, como a utilização da palha da cana-de-açúcar para geração de energia elétrica e o etanol de segunda geração. A pressão pelo aumento dos custos diretos e indiretos continuarão ascendentes, e a redução dos custos de produção só poderá vir com ganhos de produtividade provenientes do desenvolvimento de máquinas e equipamentos, do uso de técnicas da agricultura de precisão, da atualização do quadro varietal, do monitoramento e controle de pragas e doenças e do planejamento adequado das operações de plantio e de colheita. Todo esse cenário só é possível com uma gestão focada nos cuidados e na condução da lavoura, monitorando os fatores que podem influenciar no sucesso do negócio, o que costumamos chamar de “botina no canavial”.

Apesar das condições adversas apresentadas, a produção de cana-de-açúcar no País tende a continuar crescendo, devido à necessidade humana por alimentos (açúcar) e por energia limpa (etanol), por isso a evolução da mecanização é necessária e irreversível. Devemos investir no aperfeiçoamento tecnológico de máquinas e equipamentos, principalmente aqueles voltados ao plantio mecanizado,

7


visão estratégica de mercado

Opiniões

crescimento e investimentos A posição de destaque do Brasil no setor sucroenergético, há tempos, abriu ao País diversas oportunidades de crescimento no mercado de etanol, açúcar e bioeletricidade. Com uma indústria sucroenergética flex, capaz de operar com ciclos de produção alternados optando pela produção de etanol ou açúcar, dependendo das condições do mercado, o País segue rumo à liderança do setor, posicionando-se como detentor de uma matriz energética eficiente e altamente sustentável. No tocante às oportunidades, obviamente, para se tornarem reais, elas demandam uma cadeia estruturada na qual produtores, usinas, fornecedores (de peças, equipamentos, tecnologia) e, sobretudo, governo, compartilhem da mesma ambição e visão. É fato que há um descompasso nessa relação entre os diferentes agentes do setor, mas movimentos recentes, de todos os lados, têm diminuído a distância entre o que querem produtores, usinas, fornecedores e governo. Quanto ao etanol, aos poucos, nosso biocombustível – que ainda será lembrado como um dos nossos símbolos nacionais – vem conquistando reconhecimento por sua eficiência e sustentabilidadee, quem sabe, num futuro não tão distante, venha a ser reconhecido também por sua competitividade frente aos combustíveis fósseis. E, quando digo isso, faço uma menção direta não somente aos benefícios sociais e ambientais advindos do etanol, mas também à remuneração que ainda não alcançou um patamar que beneficie toda a cadeia produtiva. Apesar dos recentes dados do Cepea/Esalq, que revelam que o preço do etanol hidratado aumentou no começo deste ano e que o preço do etanol anidro vem demonstrando estabilidade nos últimos três meses, ainda há muito que se fazer para que ele, nas duas categorias, conquiste mais competitividade, o que atenuaria substancialmente alguns problemas de custo de produção. Para mantermos a competitividade, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento são indispensáveis, pois desempenham papel relevante nesse contexto, possibilitando uma produção maior, melhor e de menor custo. Nesse sentido, acredito que o caminho é estudar, analisar as necessidades do mercado e inovar muito e constantemente, para não ficarmos para trás. Cada um tem que fazer a sua parte. Nós, como fornecedores de tecnologia, há mais de 10 anos, investimos em pesquisa e desenvolvimento de soluções de biotecnologia, buscando agregar mais valor à cadeia produtiva do setor sucroenergético.

a demanda vai aumentar, a produção precisa crescer e o mercado vai, aos poucos, retomar seu vigor de áureos tempos. "

Pedro Luiz Fernandes

8

Presidente da Novozymes Latin America

Caminhar junto com as empresas sucroenergéticas estabelecendo uma relação de troca de informações para entender necessidades específicas e propor soluções sob medida fazem a diferença em produção e custos, o que possibilita um melhor aproveitamento de matéria-prima no processo industrial, refletindo em maior produtividade. Contudo, o desenvolvimento das novas tecnologias e de equipamentos para o setor é apenas uma das peças desse complicado quebra-cabeça. O segmento como um todo, e especialmente aqueles que se dedicam à produção de etanol, carece de regras claras que normatizem o negócio. O governo tem papel fundamental nisso. Iniciativas como o PAISS - Plano conjunto Bndes-Finep de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico, que prevê apoio à inovação tecnológica industrial, são mais que bem-vindas para reavivar a cadeia sucroenergética. Para um segmento que, assim como tantos outros, foi profundamente abalado pelas recentes crises econômicas, de 2008 e de 2012, contar com o fomento a planos de negócios que contemplem o desenvolvimento, a produção e a comercialização de novas tecnologias industriais destinadas ao processamento da biomassa oriunda da cana-de-açúcar surte o mesmo efeito de um bote jogado ao mar para resgatar o náufrago. Dá alento e esperança a um setor que, se não fosse devidamente atendido, muito em breve afundaria por falta de incentivos e respaldo. Abre-se aí uma oportunidade para o crescimento do setor que, além de açúcar, bioeletricidade e etanol de primeira geração, poderá se dedicar a projetos de etanol de segunda geração, tendo, assim, um marco diferencial que, no tempo certo, creio eu, renderá muitos bons frutos. E, por mais dificuldades que o setor enfrente, ainda sou otimista. Dados do IBGE divulgados em fevereiro deste ano sinalizam uma produção de cana-de-açúcar de 738 toneladas para esta safra, o que representa uma elevação de 9,4% na comparação com 2012. E com a expectativa de maior rendimento médio para este ano de mais de 75 Kg/ha, incremento de 5% comparado a 2012, também de acordo com a entidade, fica claro que o aumento de safra deste ano reflete a lenta, mas nem por isso menos importante, recuperação do segmento sucroenergético. Outro indicador de que as coisas vão indo bem é o aumento da mistura de etanol à gasolina, que passou de 20% para 25%. O que significa que a demanda vai aumentar, que a produção precisa crescer e que o mercado vai, aos poucos, retomar seu vigor de áureos tempos.


Gerando energia sustentável para o Brasil e o mundo

Fornecimento para mais de 15 países em todo o mundo ISO 9001:2008 CRCC Petrobrás Fase de implantação ASME ‘‘U’’, ‘‘S’’ e ‘‘R’’

Mais de 120 caldeiras novas fornecidas Mais de 200 retrofits fornecidos

INGENIO AGUAÍ (BOLÍVIA)

Capacidade máxima contínua: 220 t/h Pressão de operação: 67 kgf/cm² Temperatura: 440/490º C

RAÍZEN (IPAUSSU - SP - BRASIL ) - 02 unidades

Capacidade máxima contínua: 175 e 225 t/h Pressão de operação: 100 kgf/cm² Temperatura: 530º C

Certificado NBR ISO 9001

Saiba mais, acesse www.caldema.com.br

INGENIO SAN MARTIN DEL TABACAL (ARGENTINA)

Capacidade máxima contínua: 200 t/h Pressão de operação: 68,3 kgf/cm² Temperatura: 520º C


visão técnica operacional

Opiniões

um novo

cenário

Acredito que só produziremos cana com qualidade, sustentabilidade e alta produtividade quando aliarmos um plano de metas, visando a horizontes a médio e a longo prazo, com expressivos investimentos em tecnologia. Vivemos uma fase de decisões políticas, que muito facilitariam a produção com menores custos, porém pretendo me ater apenas a algumas questões técnicas. Não existem receitas propriamente ditas, mas existem conceitos que precisam ser respeitados. Com cerca de 80% de cana crua no estado de São Paulo, é importante ter em mente que temos uma mecanização muito mais intensa no canavial, o que significa maior tráfego de máquinas, com consequente maior compactação e também a presença da palhada, que modifica o ambiente físico-químico. A mecanização mudou o patamar de produtividade dos canaviais, provocando uma queda, de maneira que tivemos que aprender um novo manejo. O quadro em destaque demonstra o declínio da produtividade obtida durante as últimas cinco safras. Aliados ao problema da mecanização e compactação, baixos investimentos, tivemos também problemas climáticos, que agravaram ainda mais a queda na produtividade.

A mecanização, necessária pela falta ou pelo alto custo da mão de obra, implica compactação da linha de cana, e esse é um conceito-chave para garantir maior longevidade e produtividade do canavial. Precisamos combater ao extremo a compactação e o pisoteio das máquinas nas linhas de cana. Para evitar a compactação, ou adaptamos as máquinas ao canavial ou adaptamos o canavial às máquinas. Um conceito que vem sendo sedimentado aos poucos é o controle do tráfego. Parece muito claro que é necessário impedir a compactação das linhas de cana e que o canavial deverá conter os espaços determinados para o rodado, as entrelinhas, que serão eternamente entrelinhas e que permanecerão sempre compactadas. O espaço para as linhas de cana deverão, por sua vez, representar um ambiente perfeito para o desenvolvimento das raízes, descompactado, adubado, corrigido em profundidade, rico em matéria orgânica. Claro que esse novo desenho da canavicultura mecanizada necessita de linhas retas, que permitam o mínimo possível de manobras, para que as máquinas tenham eficiência e rendimento, um trabalho de engenharia que não pode esquecer a conservação do solo, permitindo a máxima infiltração da água. A agricultura de precisão é imprescindível nessa nova forma de cultivar a cana e precisa de investimentos em desenvolvimento e aplicação.

A agricultura de precisão é imprescindível nessa nova forma de cultivar a cana e precisa de investimentos em desenvolvimento e aplicação. "

Raffaella Rossetto Pesquisadora Cientifica da APTA-Programa Cana-de-Açúcar do IAC

A ideia da canteirização do canavial, onde os talhões serão um conjunto de enormes canteiros, está de acordo com o conceito de controle de tráfego. Na canteirização, o rodado das máquinas sempre compacta a entrelinha, e apenas os canteiros são preparados para o plantio da cana. Esses canteiros podem ter, por exemplo, 1,20m de largura, contendo uma linha dupla espaçada de 90cm e o espaçamento entre linhas de 1,5m.

10



visão técnica operacional

Dependendo do tipo de solo, os canteiros podem ter um preparo profundo, e aqui se verificam inovações em implementos que preparam o solo até um metro de profundidade, aplicando corretivos a 60cm e incorporando palhada na camada de 30 e 40cm. Esse conceito está de acordo com a diminuição do impacto ambiental, uma vez que apenas parte do terreno é movimentada, minimizando as perdas de CO2 (um dos gases de efeito estufa), decorrentes do preparo do solo. A incorporação da palhada também garante que o carbono fique menos propenso a perdas como CO2. É necessário, entretanto, avaliações mais prolongadas desse sistema de produção. Outro cuidado essencial é com a escolha da variedade mais indicada para o ambiente de produção e o preparo e multiplicação das mudas. É imprescindível que se comece um canavial com mudas sadias, de boa procedência, vigorosas. O IAC desenvolveu um sistema para produção de mudas pré-brotadas, altamente interessante e economicamente viável. Chama-se sistema MPB e vem sendo adotado por várias usinas, com grande sucesso. A presença da palhada modifica o ambiente físico-químico para o cultivo da cana e, com isso, toda a adubação. Apesar de ser uma barreira física para a incorporação do fertilizante, a palhada recicla rapidamente o potássio, e, com isso, é possível descontar o teor desse elemento contido na palhada, da recomendação de adubação potássica. A presença da palhada também promove um ambiente com umidade que favorece a proliferação de raízes superficiais, que, supostamente, utilizariam nutrientes aplicados na superfície. Não se sabe ainda a eficiência de absorção dessas raízes, fato ainda não estudado. As fotos abaixo demonstram a quantidade de palha, formando uma camada de proteção no solo, e as raízes superficiais facilmente encontradas nos canaviais após a deposição de palhada.

O colchão de palha formado pela colheita sem queima e a proliferação de raízes de cana logo abaixo da palhada.

12

Opiniões Com relação à adubação, o caminho para maior sustentabilidade e menores custos será a agricultura de precisão e a recomendação de taxas variáveis, adubando quantidades necessárias em locais distintos. O início de tudo é um bom mapa de análises de solo, georrefenciado e que permita o conhecimento do solo e das taxas de fertilizantes que serão aplicadas. O segundo ponto é o desenvolvimento de máquinas que apliquem dois ou mais nutrientes em taxas variáveis, que já existem no mercado, porém carecem de calibrações e adequações a condições particulares. A adubação realizada sob os conceitos da agricultura de precisão racionalizará o uso de fertilizantes e insumos e contribuirá para a questão ambiental, um dos pilares da sustentabilidade. Principalmente para o nitrogênio, a agricultura de precisão representará um grande avanço. Como a análise do solo para o nitrogênio não representa o potencial que o solo pode fornecer, alguns sensores que “leem” o crescimento e a cor verde das plantas poderão indicar a quantidade de N a ser aplicada em cada metro linear de cana. Em relação ao N, as perdas por volatilização da amônia e também as perdas de óxido nitroso representam perdas econômicas e ambientais, que devem ser evitadas, visando à sustentabilidade do sistema. Existe no mercado uma máquina que permite a aplicação da ureia sobre um canavial com palhada, através do jato sob pressão. Essa aplicação facilita que a ureia ultrapasse a palhada e atinja o primeiro centímetro de solo, minimizando as perdas por volatilização. Finalizando, gostaria de salientar que o manejo trata de um conjunto de operações que se inicia bem antes do plantio e todas as operações somadas têm sua importância para o resultado final. Acredito que todos almejam recuperar a produtividade de anos anteriores e ultrapassá-la. Na sede do Centro de Cana do IAC em Ribeirão Preto, pode-se verificar uma demonstração do patamar de produtividade que as variedades de hoje permitem. Cana com 6m de altura, como o verificado na foto abaixo, indica produtividades acima de 400 t/ha. Nossa média de cerca de 70 t/ha necessita ser implementada através de um manejo moderno e sustentável, com investimentos e com o apoio irrestrito à pesquisa técnico-científica.



avisão eicasestratégica operacional

Opiniões

inovar

para crescer

O setor sucroalcooleiro é um dos setores com maiores taxas de crescimento e inovação tecnológica da área agrícola. Porém, nos últimos anos, perdeu muito em competitividade. O custo de produção cresce de forma acentuada, e a produtividade agrícola tem números abaixo do esperado. Com safras menores, deixamos de produzir açúcar, etanol e energia elétrica, o que traz déficits ao mercado financeiro do País. Além disso, a queda na rentabilidade reduz a oferta de empregos, causando impactos negativos na sociedade.

Fatores como doenças, pragas, seca, florescimento, idade avançada, compactação do solo assombram nossos canaviais, desestimulam os investimentos na atividade e aumentam o endividamento de alguns grupos produtivos. Paralelo a isso, as incertezas do mercado e a falta de planejamento estratégico vêm agravando cada vez mais essa situação. Vale ressaltar que o setor demanda, urgentemente, por investimentos, e a ausência de políticas públicas para o estabelecimento de um plano de ação, que incentive a construção de novos projetos greenfields, está induzindo à verticalização da produção.

Moléculas e ingredientes ativos modernos, seletivos e com baixa toxicidade para o homem e seguros para o meio ambiente são soluções práticas para uma agricultura produtiva e sustentável. " Manoel Carlos de Azevedo Ortolan Presidente da Canaoeste e da Orplana

Diante desse cenário e da expansão da lavoura sobre novas áreas de cultivo, existe a necessidade de viabilizar a produção de uma forma sólida e sustentável. Aspectos sociais, econômicos e ambientais devem estar alinhados na busca pela excelência. O desafio de produzir cada vez mais, aumentar a rentabilidade das lavouras e produzir produtos com responsabilidade requer investimentos em novas tecnologias. Através do aperfeiçoamento de técnicas tradicionais e da introdução de novas tecnologias, podemos alcançar resultados favoráveis, que viabilizem o nosso negócio. O uso de tecnologias com o objetivo de redução de custos de produção e incrementos de produtividade é o caminho para a superação da crise e a sobrevivência do setor sucroenergético. Inovar é preciso.

14



visão estratégica operacional Inovação tecnológica é o conjunto de processos e técnicas implantadas pelo setor produtivo, por meio de pesquisas e investimentos, que visa ao aumento da eficiência do processo produtivo ou ao aprimoramento do produto final. A cada dia, precisamos incorporar as exigências de sustentabilidade na cadeia produtiva. Produtos certificados e produzidos com alto padrão de qualidade são cada vez mais exigidos pelo mercado interno e externo. Não sobreviverá quem não se adequar à nova realidade. Na área agrícola, precisamos produzir mais na mesma área. O setor precisa ser mais agressivo e dedicar-se a pesquisas mais avançadas nas áreas de melhoramento genético, biotecnologia, nutrição e adubação, manejo dos solos, planejamento de lavoura, plantas daninhas, tecnologia de fertilizantes, fitopatologia, entomologia e engenharia agrícola. Aperfeiçoamento e desenvolvimento de máquinas e implementos e de práticas como plantio e colheita mecanizada é extremamente necessário. A mecanização da lavoura deve ser encarada de frente. Especificamente nesse assunto, o setor tem que avançar de forma madura e inteligente. As dificuldades de atendimento às exigências da NR 31, o aumento do custo e a escassez da mão de obra, a antecipação do fim da queima da palhada da cana para a colheita e a expansão do setor em novas áreas justificam essa necessidade. O desenvolvimento de novas variedades pelos programas de melhoramento genético podem incorporar maiores produtividades às lavouras de cana-de-açúcar. Realizar um adequado manejo varietal, com materiais modernos, mais produtivos e adaptados às mais adversas situações de cultivo, contribui significativamente para o crescimento do setor. Para otimizar o manejo varietal, é fundamental identificar o potencial produtivo dos solos. A classificação e o enquadramento desses solos nos ambientes de produção permitem a realização de manejos mais específicos. A biotecnologia contribui para o desenvolvimento de cultivares que atendam às exigências e às demandas do setor. Através da transgenia, a biotecnologia promove o desenvolvimento de plantas mais resistentes aos estresses bióticos e abióticos. Canas modificadas geneticamente podem, num futuro próximo, trazer benefícios associados ao aumento de lucros. Podemos diminuir os gastos com defensivos agrícolas se tivermos, no mercado, a opção de cultivares resistentes a praga e a doenças. Temos o exemplo na soja, no milho, no algodão e em outros. Com materiais genéticos mais produtivos e consequentemente mais responsivos a adubações, o mercado de fertilizantes deve aprimorar seus produtos. As pesquisas devem explorar mais os estudos em relação aos fertilizantes formulados com micronutrientes, principalmente boro, zinco, molibdênio e manganês. As respostas são duvidosas, e os produtores, carentes de informação. Moléculas e ingredientes ativos modernos, seletivos e com baixa toxicidade para o homem e seguros para o meio ambiente são soluções práticas para uma agricultura produtiva e sustentável. O controle químico, através do manejo correto de defensivos agrícolas é uma ferramenta importante, que faz toda a diferença.

16

Opiniões Manter a cultura no limpo, livre de mato e pragas, é essencial para o estabelecimento e a manutenção da lavoura. Tão importante quanto, o controle biológico é uma opção inteligente. Mais barato e menos impactante para o meio ambiente deve ser sempre considerado. O estudo de novos parasitoides pode resolver problemas de controle de algumas pragas, devido à resistência, por exemplo, a produtos químicos. Atualmente, em função do aumento da produção de cana-de-açúcar e da necessidade mais frequente de antecipação das safras, torna-se cada vez mais comum, no setor sucroalcooleiro, a aplicação de maturadores e inibidores de florescimento. Esses produtos permitem disponibilizar para a indústria matéria-prima de boa qualidade, além de auxiliar na flexibilidade da colheita. As empresas devem investir em pesquisas visando ao desenvolvimento de produtos seguros e seletivos. Antecipar, acelerar a maturação da cana e inibir florescimento sem reduzir produtividade e afetar a brotação das soqueiras é uma tecnologia moderna que auxilia o produtor e aumenta a rentabilidade da produção agrícola. A prática da agricultura de precisão deve ser explorada rapidamente. Reduzir custos através da diminuição de perdas e de aumento da eficiência de insumos agrícolas é estratégico e sustentável para o setor. Máquinas e implementos com GPS e pilotos automáticos podem melhorar a qualidade de plantios, cultivos e colheitas, aumentando a longevidade do canavial. O sistema MPB (mudas pré-brotadas) para a instalação de viveiros sadios e multiplicação rápida de variedades, hoje, é uma realidade, e essa prática deve ser expandida. A produção de mudas sadias, livres de doenças, produzidas em viveiros certificados, onde todos os cuidados fitossanitários são realizados, nos dá a segurança e o conforto para a multiplicação das variedades nos próximos plantios. Ambientes favoráveis a patógenos e falta de cuidado disseminam doenças e causam prejuízos para a produção. Investir em pesquisas e tecnologias em biomassa é essencial para aumentarmos a produção de etanol. O etanol celulósico, chamado etanol de segunda geração, feito a partir da palha e bagaço da cana-de-açúcar, restos do processo atual, é visto atualmente como a principal alternativa de aumento da oferta do produto sem crescimentos significativos de área plantada. Também gerar energia elétrica sustentável através da utilização da palha da cana-de-açúcar, procedente da colheita mecanizada, tem grande importância econômica. As unidades industriais podem tornar-se autossuficientes e até mesmo lucrar com o excedente. Gestão de pessoas voltada para uma administração moderna e transparente, envolvendo novas técnicas de comunicação e ensino, favorece a capacitação e o treinamento de pessoas e faz a diferença em empresas que buscam a competitividade. Final e extremamente importante, faz-se necessário o intercâmbio entre as unidades produtivas, os centros de pesquisa e as associações de produtores. A troca de experiências e a difusão da tecnologia são tão importantes quanto a própria geração de tecnologia. A integração e a união do setor é a chave para o sucesso.



otimização dos ambientes de produção a eicas

Opiniões

a longa e difícil transição Ultimamente, só se falou da queda da produtividade dos canaviais e dos motivos que levaram a isso. Vários fatores são apontados para explicar esse fato, sendo que a crise de preços baixos que levou à redução de investimentos em manutenção e renovação da lavoura e as seguidas estiagens dos três últimos anos são considerados os mais significativos. Entretanto há outros fatores que também merecem ser destacados pela sua importância e interferências sobre a produtividade dos canaviais, os quais se referem à intensificação da mecanização do plantio e da colheita. Essas práticas cresceram rapidamente em todo o Centro-Sul, onde se produz 87% de toda a cana brasileira. A transição da produção semimecanizada para a mecanização total das diversas fases do processo produtivo ainda é o maior desafio do setor, pois poucas empresas estão conseguindo executar essas operações com qualidade. O plantio mecanizado saiu dos ínfimos 7% em 2005 para algo próximo de 35% das áreas de renovação e expansão, e a colheita mecanizada, dos 25% para cerca de 80% dos canaviais atuais do Centro-Sul. Devido às crescentes dificuldades impostas ao sistema produtivo da cana-de-açúcar pelas leis, decretos e ações judiciais relacionadas com meio ambiente e, principalmente, às queimadas de cana e após a edição da rigorosa NR31 pelo Ministério do Trabalho (agentes das mudanças), as empresas sucroenergéticas e produtores de cana tiveram pouquíssimo tempo para se adaptar às mudanças necessárias e continuar operando. Atualmente, o plantio mecanizado tem três modalidades: o completo (sulca, distribui as mudas colhidas mecanicamente, aplica defensivo e cobre a muda), o parcial (que só distribui as mudas colhidas com máquina) e, agora, está surgindo o híbrido, que corta a muda com a colhedora, porém a distribuição se faz manualmente. Em todos três sistemas, há problemas de danos aos toletes, gasto excessivo de mudas e uso de mão de obra ainda elevado no sistema híbrido. Entretanto o que mais preocupa é a elevada quantidade de falhas que o plantio mecanizado geralmente deixa na formação dos canaviais. O pior de tudo é que essas falhas, na safra 2012/13, podem atingir facilmente 20% da área plantada e se arrastam por cinco cortes. São áreas sem cana e que não produzem nada. Aliás, é sempre importante lembrar que a colheita mecanizada contribui para o agravamento dessa situação, através do pisoteio e do arranquio das touceiras de cana. Tudo isso se reflete na redução da produtividade e no aumento dos custos de produção. Para minimizar o problema de falhas no plantio mecanizado, deve-se aprimorar a retirada de mudas (que devem ser novas, com menos de

11 meses) e melhorar a qualidade das operações, passando, obrigatoriamente, pela capacitação da mão de obra envolvida no processo. No caso da colheita mecanizada, as leis e as ações judiciais para eliminação das queimadas apressaram o seu processo de implantação, sem tempo hábil para se realizar adaptações e especialização das equipes. A carência de mão de obra para colheita manual da cana acelerou ainda mais o processo. O número de colhedoras em operação no País já gira em torno de 7 mil máquinas, substituindo por volta de 500 mil trabalhadores rurais. Em menos de sete anos, a colheita mecanizada cresceu mais de 300%. Isso ocasionou uma falta de pessoal especializado em manutenção e operação das máquinas. A má qualidade dos serviços trouxe um aumento significativo de perdas no campo e nos custos de produção (hoje superior a R$ 73,00/ton de cana), além de interferir na qualidade da matéria-prima e no stand dos canaviais. Com o aumento da mecanização da colheita, aumentaram as perdas de cana, as impurezas vegetais e as falhas nos canaviais. Em média, há redução de 6 kg de ATR por tonelada de cana e 5 toneladas de cana por hectare, em relação às médias históricas dos canaviais do Centro-Sul antes de 2008. Para minimizar essas perdas, é necessário investir pesado no aprimoramento da operação das máquinas, na sistematização das lavouras, na redução do tráfego pesado sobre a linha de cana, no planejamento da colheita, na implantação de sistemas de limpeza a seco para retirar, ao máximo, as impurezas minerais e vegetais da matéria-prima. São, todavia, soluções parciais, mas que ajudam muito a melhorar o resultado final. Essas perdas podem ser reduzidas à metade com essas mudanças, e o setor pode melhorar sua renda em, aproximadamente, R$ 3 bilhões. Não há como resolver em 100% esses problemas, pois há limitações na tecnologia das máquinas, que também precisam ser aprimoradas. O que se nota no momento é que o setor passa por extraordinária mudança, em que essas recentes tecnologias, no processo produtivo, se mostram gradativas e difíceis de implantar. Essas mudanças devem ser acompanhadas por alterações no processo de preparo do solo, no espaçamento da cultura e de variedades mais adaptadas à mecanização do plantio e da colheita, para elevar os resultados obtidos. Só depois que esse período de adaptação conseguir avançar em direção à qualidade dos serviços e a novas tecnologias de produção é que se espera um ganho significativo na produtividade e na competitividade das empresas canavieiras.

o número de colhedoras em operação no País já gira em torno de 7 mil máquinas, substituindo por volta de 500 mil trabalhadores rurais " Dib Nunes Jr.

18

Diretor-presidente do Grupo IDEA



pesquisa e desenvolvimento

Opiniões

está tudo aí

para quem quiser ver

Extremamente interessante a pauta deste número da Revista Opiniões: “Como produzir mais, melhor e com menor custo”. Esse assunto veio em um momento único para o setor sucroalcooleiro, para poder refletir sobre o que está acontecendo em relação à cultura da cana-de-açúcar. Em prazo muito curto, todo o sistema de produção passou por mudanças drásticas, como a mecanização da colheita e plantio, a não queima dos canaviais, o aparecimento de nova doença e aumento da incidência das antigas, o descontrole de pragas controladas por controle biológico, períodos climáticos instáveis por anos seguidos, refletindo em queda acentuada de produtividade, além de desequilíbrios econômicos, levando, enfim, ao momento de, como diz um grande de treinador de futebol, “precisamos ir ao vestiário, para vermos o que está acontecendo e arrumar a casa”. Mas vamos voltar ao tema e ressaltar qual o papel das universidades federais que compõem a Ridesa, nesse contexto. A meu ver, foi fundamental a continuidade da pesquisa que a Ridesa proporcionou ao setor, ao absorver o Planalsucar, principalmente na obtenção de variedades de cana-de-açúcar. Até a sua extinção, o Planalsucar liberou dezenove variedades, entre elas a RB72454, que foi a variedade mais cultivada no mundo e a de maior tempo em cultivo em extensas áreas, além de preparar um grande número de clones para tornarem futuras variedades. Gostaria de lembrar que, a partir de agora, o texto que segue não existiria, caso a Ridesa não tivesse absorvido o Planalsucar. Seriam para o setor anos difíceis, como veremos adiante, em que não se consegue mensurar quais os danos econômicos para este e para o País.

Quando da entrada da Ridesa, em pesquisa com cana-de-açúcar, houve questionamentos sobre a sua competência em dar andamento ao trabalho do extinto Planalsucar. (Aliás, onde estão esses senhores agora? Isso precisava ser dito.) " Edelclaiton Daros Professor da UF-PR e Coordenador Geral da Ridesa

20

Quando da entrada da Ridesa, em pesquisa com cana-de-açúcar, houve questionamentos sobre a sua competência em dar andamento ao trabalho do extinto Planalsucar. Talvez até pelo desconhecimento do potencial que existe em uma universidade, prefiro essa explicação, a da tentativa de desacreditar a universidade junto ao setor. (Aliás, onde estão esses senhores agora? Isso precisava ser dito.) Até 2013, a Ridesa liberou 59 variedades de cana-de-açúcar, sendo 35 oriundas do trabalho iniciado pelo Planalsucar, ao qual demos continuidade e fomos capazes de avaliar, selecionar e indicar para cultivo a variedade RB867515, atualment a mais cultivada em escala mundial;



pesquisa e desenvolvimento a RB855156, que antecipou a safra pela sua precocidade e serviu de progenitora para tantas outras variedades, e outras que têm ou tiveram áreas expressivas nas unidades produtoras de açúcar e etanol, tais como RB835054, RB835486, RB835089, RB83102, RB855453, RB855113, RB855536, RB845210 e RB863129. As 24 variedades restantes são oriundas do trabalho exclusivo da Ridesa, a partir de 1991, do qual se destacam as variedades RB92579, que impactaram a produtividade do Nordeste em mais de 30% e está em franca expansão na região Sudeste, e a RB966928, que, a exemplo da mãe RB855156, trouxe a riqueza e a precocidade em ambientes restritivos, sendo, atualmente, a segunda em intenção de plantio na safra 2013. Destacam-se ainda as variedades RB928064, RB93509, RB925211, RB965902, RB931003, RB98710 e RB99395. Portanto, ao longo desses 42 anos de pesquisa, sendo 19 anos do Planalsucar e 23 anos da Ridesa, foram liberadas para plantio 78 variedades que, em muito, contribuíram para a expansão do setor, dando garantia e segurança em relação às características agroindustriais das variedades. Expandimos em área de atuação para abranger todos os estados produtores, pelo menos com uma universidade fazendo pesquisa com cana-de-açúcar nessas unidades da federação; novos professores e pesquisadores foram incorporados para consolidação dos PMGCAs/ Ridesa; passamos a ser referência no Brasil e no mundo, como um grande programa de melhoramento genético da cana-de-açúcar, com muita dedicação e trabalho, e representamos, hoje, mais de 60% de variedades RB cultivadas no Brasil. Todo esse trabalho foi fruto da parceria entre o setor sucroalcooleiro e a Ridesa, recursos que, ao longo dos 22 anos, foram suficientes apenas para a manutenção do que se considera mínimo, valor modesto quando comparado com outros programas financiados pelo setor, e pelo resultado obtido, algo que deu muito certo nessa parceria público-privada. Essa foi a nossa contribuição ao tema proposto, na obtenção e na liberação das variedades RB, fundamental e muito importante na consolidação do setor. Gostaria de lembrar que, se nós não tivéssemos dado andamento ao programa Planalsucar, nada do que foi dito existiria, já que as variedades que citamos não estariam em cultivo no País. Porém voltemos à pauta: gostaria de lembrar a frase do saudoso jogador Garrincha, na Copa do Mundo de 1958, quando o presidente da CBF lhe apresentou um plano absolutamente mirabolante de como passar pela defesa do time adversário e marcar os gols necessários para vencer a partida: “Vocês já combinaram com os russos, não é?” E aí eu faço minhas as suas palavras: “vocês já combinaram com a cana-de-açúcar?” Enquanto a área orçamentária tiver poder de decisão em relação à área agrícola e seu manejo, onde passa a ser mais importante o custo e não o rendimento da lavoura, eles poderão revogar a lei que diz maior produtividade, menor custo, (economia em escala, equilíbrio em investimento e produtividade...), passando a ser verdade “menor investimento e a cana-de-açúcar que se vire para produzir...”. Eles imaginam menor produtividade e menor custo,

22

Opiniões e penso que conseguiram. Devemos considerar que estamos manejando uma lavoura semiperene, com, no mínimo, cinco cortes; em alguns momentos, parece que o custo do etanol e do açúcar é culpa da planta cana-de-açúcar, e aí vai sem adubo, com meia dose de adubo, sem herbicidas, com transbordo com o dobro do peso de recolhimento para baixar custo. Calcula-se que o uso da torta tem raio médio, quando todo técnico sabe que o seu uso independente do raio médio, ela aumenta em muito a produtividade. Estima-se a produtividade e faz-se adubação de nitrogênio, (custo) fundamental para a produtividade, em função do esperado em termos de produção, e, se houver um ano favorável, e com potencial, nos limitamos à produtividade pela dose do nutriente. Professor aprende sempre. Em uma palestra de um grande amigo, aprendi que produzir cana-de-açúcar é igual a fazer um bolo de fubá, em que preciso de dois ovos e não seis, que coloco 500 gramas de farinha e não 2 quilos por estar barata, ou seja, olhem como é simples, nem mais, nem menos, tudo colocado na medida certa. Agora, pergunto: qual é a medida certa para a cultura da cana-de-açúcar? Os programas de pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar, atualmente, estão voltados, quase exclusivamente, para obtenção de variedades, porque existe uma lei de proteção, em que podem cobrar royalties, como se a variedade fosse resolver todos os nossos problemas; e lembrem-se: as Organizações Tabajaras não fazem melhoramento genético da cana-de-açúcar. Temos um desafio pelo tema proposto: Como produzir mais – sem pesquisa; melhor – sem pesquisa; e com custo menor – sem pesquisa. Precisamos ter juízo neste momento e rever a pesquisa com a cana-de-açúcar no País, com programas completos em todas as áreas de conhecimento, com instituições trabalhando junto em suas competências, para tentarmos resolver os problemas do setor e não das instituições. Se começarmos agora, talvez, em dez anos, tenhamos alguma resposta. Estou sendo otimista. Penso que essa é a única cultura, cuja parte significativa da pesquisa é financiada pelos produtores, principalmente na obtenção de variedades; que a meu ver não consegue resolver sozinha o problema das unidades de produção de açúcar e etanol. Precisamos, urgentemente, estabelecer um programa em escala nacional em todas as áreas de pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar, para que possamos dar segurança a esse setor e ao País. Esse é o nosso desafio; penso que, nas universidades e nas instituições de pesquisa, temos competência para encaminhar uma solução dos problemas e auxiliar na consolidação efetiva do setor sucroalcooleiro no País, produzindo mais, melhor e com menor custo. Porém quem financia a pesquisa é o setor sucroalcooleiro, e este também precisa repensar as suas prioridades e os seus investimentos em pesquisas, pois só variedade não resolve o problema de produzir mais, melhor e com menor custo. Assim, com esse espírito, por que não reunir todas as unidades de pesquisa e produção e fazer um programa nacional de pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar, preservando as suas competências? O desafio está lançado. Gostaria de terminar com uma frase de uma música de Chico Anísio e Arnold Rodrigues: “Não há considerações gerais a fazer, está tudo aí para quem quiser ver”.



pesquisa e desenvolvimento

Opiniões

a volta às origens No complexo agroindustrial da cana-de-açúcar, 70% dos custos referem-se às operações agrícolas, portanto o seu peso no equilíbrio desse negócio é fundamental para viabilizá-lo. Poucos anos atrás, os brasileiros se orgulhavam de produzir o açúcar mais barato do mundo, decorrente das boas produtividades alcançadas, fruto das novas tecnologias produzidas em três décadas de investimento sistemático em P&D, tanto pelo setor privado como pelo público. Então, por que chegamos à situação atual de custos elevados e de baixa produtividade? Naturalmente, parte dessa questão é respondida por esses dois fatores citados, ou seja, baixa produtividade leva-nos ao aumento do custo por unidade produzida. Mas o que nos levou às baixas produtividades? Para tal, temos que considerar os cenários introduzidos na última década, principalmente o processo de mecanização da colheita e, mais recentemente, o de plantio. As interações no mundo biológico são menos previsíveis do que na indústria, por exemplo, e, dessa forma, dimensionar todo o reflexo de mudanças como as citadas é um exercício de grande complexidade. No caso da colheita mecânica, que trouxe como consequência positiva a eliminação do uso do fogo, produziu o que chamamos de “sistema cana crua”, um ambiente inusitado até então para os técnicos e para a planta “cana-de-açúcar”, que passou a desfrutar de uma condição bastante nova de desenvolvimento. No primeiro momento, o que se observou é que o sistema não funcionava de maneira uniforme para as variedades e as regiões então cultivadas. Nas regiões mais frias, como o norte do PR, a palha pode constituir-se grande problema para a brotação, ou mesmo amplificar os efeitos de uma geada. Nas regiões mais quentes, como GO, a palha foi um benefício, aumentando o material orgânico devolvido ao solo, redundando em ganhos de produtividade. No entanto pragas como a cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata) e o “bicudo da cana” (Sphenophorus levis) ganharam uma importância relevante, gerando perdas de produtividade e aumentando o custo de produção. Sabemos, no entanto, que a elevação do custo de produção também ocorreu por outros fatores, externos ao campo, ligados às questões normativas, ambientais, trabalhistas, etc. Nesse mesmo período, de introdução desses novos cenários, ocorreu uma grande expansão da cultura, atendendo aos estímulos econômicos. Esse crescimento acelerado não respeitou indicadores biológicos importantes, e muitos, para atender ao nível de crescimento planejado, tiveram que realizar plantios sem maiores cuidados nos aspectos fitossanitários, utilizando-se, por vezes, daquilo que seria matéria-prima, como mudas para estabelecimento de novos plantios. Essa ação acabou produzindo um efeito nefasto para os nossos canaviais, ampliando os problemas fitossanitários, como o carvão (Sporisorium scitamineum) e o raquitismo da soqueira (Leifsonia xyli), principalmente.

Voltar às antigas boas práticas de formação de viveiros e mudas pautadas em um bom planejamento e execução do manejo varietal, proporcionará impactos relevantes na produtividade " Marcos Guimarães de Andrade Landell Pesquisador Científico do Instituto Agronômico Campinas/APTA/SAA

24

O carvão, doença produzida por um fungo, teve o aumento do potencial de inóculo, decorrente do abandono de práticas de formação de viveiros, e passou a ser problema, inclusive para variedades que estavam plantadas há mais de quinze anos e que, até então, não haviam apresentado indicações de suscetibilidade. O raquitismo da soqueira, produzido por uma bactéria, reduziu silenciosamente a produtividade de nossos canaviais, principalmente nos cortes mais avançados e em regiões mais restritivas, como aquelas onde ocorreu a grande expansão da última década. Por fim, a adoção de novas cultivares como um processo natural de incremento de produtividade, fato que se tornou bastante comum na década de 90 e responsável por grandes ganhos nesse período, acabou não ocorrendo de maneira normal, e, assim, todo o esforço de programas de melhoramento consolidados e eficientes, como os do CTC, Ridesa e IAC, não foram plenamente aproveitados. Das dezenas de variedades lançadas no período 2004 a 2010, desenvolvidas para os diversos nichos de produção do Brasil, poucas efetivamente foram utilizadas. Esse diagnóstico responde, em parte, à pergunta "como produzir mais, melhor e com menores custos". Voltar às antigas boas práticas de formação de viveiros e mudas pautadas em um bom planejamento e execução do manejo varietal, com certeza, proporcionará impactos relevantes na produtividade de nossos canaviais. Nessa direção, o Programa Cana IAC produziu o sistema MPB (Mudas Pré-Brotadas), que tem como objetivo promover a rápida expansão de novas variedades de cana-de-açúcar a partir de mudas matrizes, comprovadamente livres de doenças, utilizando-se de um método que poderá ser adotado por qualquer produtor, seja ele pequeno ou grande. O sistema MPB tem taxa de multiplicação que permite que uma tonelada de cana seja o suficiente para o plantio de um hectare, sessenta dias após o início da produção de mudas. Com taxas semelhantes a essa, podemos transformar uma única tonelada de muda no plantio de mais de 300 hectares, 17 meses após o início da produção dessa muda. Assim, a adoção rápida de novas variedades poderá incorporar, de maneira dinâmica, ganhos relevantes na produtividade. A análise dos dados de aproximadamente 15.000 parcelas do banco de dados Caiana-IAC indica que o grupo varietal lançado nos últimos oito anos pelos programas de melhoramento brasileiros apresenta produtividade 11,2% superior às variedades lançadas no período anterior, no caso, de 1994 a 2002. A adoção de novas variedades associada aos cuidados fitossanitários, como termoterapia e a prática do roguing, são fundamentais para manter a expressão do potencial biológico desses genótipos, já selecionados e criados no contexto do plantio e da colheita mecânica. Práticas como essas, antigas, poderão ser as responsáveis pelos novos patamares produtivos dos canaviais brasileiros.



pesquisa e desenvolvimento

variedades modernas é a

solução Advoga-se que a produtividade da cana está “estacionada” e que é necessário medidas para a mudança nesse quadro. Concordo. O que fazer? "

Jorge Luís Donzelli Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do CTC

Recentemente, participamos de uma reunião na qual vieram à tona discussões acaloradas em torno do assunto produção/produtividade de cana-de-açúcar. Advoga-se que a produtividade da cana está “estacionada” e que é necessário medidas para a mudança nesse quadro. Concordo. O que fazer? Interessante notar que as soluções milagrosas foram as primeiras a aparecer com o remédio completo para o “problema de produtividade”. Dezenas de sugestões aparecem e, claro, há sempre a necessidade da compra de um produto que irá resolver todos os problemas. As propostas são muito elaboradas, e as planilhas rodam soluções de todos os tipos. Felizmente, os argumentos frágeis e dados mal conduzidos encarregam-se de solucionar grande parte dessas questões. Claro, temos profissionais sérios e comprometidos, mas temos também falta de conhecimento das tecnologias consagradas e, aqui, já reside parte da solução. Essas tecnologias, se bem utilizadas por esses mesmos profissionais, são soluções de aplicação imediata. Não há substituto para um preparo de solo bem realizado, um planejamento de viveiros e uma escolha de variedades adequada ao seu ambiente de produção edafoclimático e um consequente plantio com mudas de qualidade. Entretanto, devemos lembrar que sempre há três lados na questão da produtividade: o solo, o clima e o manejo agronômico, aí embutida a introdução de variedades modernas. Normalmente, as discussões e as posições tendem a juntar-se em algum desses cantos. Primeiro ponto: há os que advogam, por exemplo, que a recente expansão da cultura para áreas com solos mais pobres e de regime de chuva mais restritivo representa grande parte do problema. De fato, quando comparada com a região de Ribeirão Preto, tradicional produtora de cana-de-açúcar, as regiões de Goiás e de Mato Grosso representam um novo desafio. Enquanto Ribeirão Preto pode contar com solos, em média, de melhor potencial de

26

produção (ambientes A e B), em Goiás e em Mato Grosso, a cultura de cana-de-açúcar tem ocupado áreas de pastagens com pouco ou nenhum trato e de solos, via de regra, de baixo potencial de produção (ambientes D e E). Note que, mesmo quando sob o mesmo regime hídrico, a produção potencial de 5 cortes é maior nos solos melhores, conforme figura abaixo.

A solução, nesse caso, é plantar variedades modernas adequadas à região, melhorar os tratos culturais, via fertilização e correção de solo, e adequar a época de plantio e de colheita. Logicamente, seguindo sempre um plano de safra, efetuado dentro de parâmetros bem definidos para a região. Segundo ponto: junte-se à análise que, em Goiás e em Mato Grosso, o regime de distribuição de chuvas é concentrado de novembro a março e, consequentemente, um período mais prolongado de seca, que, normalmente, inicia-se em maio e termina no final de outubro. Basta comparar essa situação, representada pelo balanço hídrico da região de Itumbiara (GO) com o balanço hídrico da região do norte do Paraná (Maringá), onde praticamente inexiste déficit, para verificar que as práticas agronômicas e as variedades devem ser diferentes (conforme as figuras seguintes).


Opiniões

Esses quadros fazem a comparação de déficit hídrico entre o norte do Paraná, cidade de Maringá, regime climático I, e Goiás, na cidade de Itumbiara, regime climático IV, ambos segundo a classificação CTC. Em muitas dessas regiões, inclusive no cerrado brasileiro, importaram-se tecnologias usadas no Sudeste, e praticamente sem nenhum estudo mais profundo, com técnicas e épocas de plantio dependentes de regimes hídricos completamente diferentes. É fundamental que avaliemos as bases científicas para a implantação de novos manejos, adequados a cada região. O desespero do produtor canavieiro chega ao ponto de importar tecnologias dos produtores de grãos e tentar adaptá-las à cana-de-açúcar. Em terceiro lugar, há o problema do planejamento varietal, que se tem revelado muito mais um plantio da variedade que se tem “à mão” do que propriamente uma escolha racional e técnica. Verifica-se que usinas que há alguns anos eram líderes de produtividade agrícola hoje não estão mais apontando entre os dez melhores produtores, mesmo nas regiões tradicionais. Esse fato é ainda mais claro nas áreas de expansão. Há um nítido distanciamento desses produtores do plantio de variedades mais modernas,

mostrando uma clara inadequação de seu plantel varietal às suas necessidades de manejo. Um exemplo desse quadro é o incremento da mecanização, mais particularmente da adoção de plantio e colheita mecânica. Na década de 90, o setor tinha, aproximadamente, 20% de sua área colhida mecanicamente, e o plantio mecânico praticamente inexistia. Hoje, essas realidades são mais presentes, e variedades selecionadas há mais de vinte anos são o carro-chefe do plantel varietal de muitas empresas. O Centro de Tecnologia Canavieira empenha-se em mudar esse quadro. O lançamento da Série 9000, especialmente selecionada para o cerrado brasileiro, é, dentre outras tecnologias de manejo agronômico (ambientes de produção edafoclimático, recomendações de nutrição da cana-de-açúcar, controle fitossanitário, etc.), a principal forma de colaborar com o setor no desenvolvimento de tecnologias de última geração. Avançadas técnicas de hibridação e seleção são empregadas no desenvolvimento das variedades CTC, que contam, ainda, com a biotecnologia como uma ferramenta excepcional na introdução de características que devem revolucionar o mercado de variedades de cana-de-açúcar no Brasil.

27


plantio mecanizado

Opiniões

não nos esqueçamos do básico Plantar cana sempre foi um processo dominado pelos produtores da cultura, e o uso de variedades, insumos e outros componentes voltados ao incremento da produção sempre foram observados e aderidos ao processo produtivo. Como sempre acontece, o que proporciona melhoria de produtividade, ou mais precisamente, melhoria na rentabilidade do negócio logo é incorporado por outros produtores e, em pouco tempo, torna-se prática corriqueira dentro do processo. Entre as tecnologias aderidas ao cultivo da cana-de-açúcar, o plantio mecanizado ainda é a que mais dúvidas traz a quem precisa incorporá-la à sua rotina de produtor. A principal razão para isso foi o tempo para o aprendizado e para o domínio da técnica, que, devido à falta de mão de obra braçal e às normas regulamentadoras, não permitiram que a tecnologia fosse bem absorvida e dominada pelos usuários. E, como já diziam nossos avós, “a pressa é inimiga da perfeição”, os resultados de muitas áreas plantadas mecanicamente mostram que esse plantio ainda tem muito a melhorar. As melhorias a serem implementadas no plantio mecanizado da cana não estão restritas apenas às plantadoras que, muitas vezes, é onde os maiores avanços aparecem, mas sim nas práticas envolvidas em todo o processo. Muitas vezes, ficamos ávidos por utilizar uma nova técnica, esperançosos em solucionar nossos problemas e nos esquecemos de realizar o básico, da maneira mais simples, como sempre fizemos e sempre deu certo. Embora o plantio mecanizado seja uma tecnologia diferente para se plantar a cana, o preparo de solo bem feito e o uso de mudas de boa qualidade são práticas que sempre nortearam um ótimo resultado no estabelecimento da produção e da longevidade do novo canavial. E a atenção a esses conceitos básicos é ainda mais necessário quando se trata do plantio mecanizado da cana-de-açúcar. É preciso que os gestores do negócio estejam focados em conscientizar as pessoas envolvidas no processo para não se esquecer de realizar o simples, para que o processo como um todo tenha o resultado diferenciado. Das tecnologias em uso atualmente no plantio mecanizado da cana-de-açúcar, a mais recente é a utilização de fungicidas, tecnologia esta que tem contribuído de forma muito positiva para a melhoria na formação do novo canavial. Além de combater uma série de doenças causadoras de podridões dos rebolos, o produto contém estimulantes que proporcionam maior atividade no metabolismo celular, aumentando o enraizamento e o perfilhamento da planta, o que permite que a cultura se desenvolva mais rapidamente desde o início, competindo favoravelmente com as doenças, em condições adversas e diminuindo sensivelmente o índice de falhas no canavial. Essa tecnologia veio esclarecer muitas dúvidas existentes no início do uso do plantio

Ao tirarmos a terra da linha de cana onde estavam as falhas, encontrávamos o rebolo, mas as gemas não haviam brotado. O resultado disso era, então, atribuído ao dano mecânico nas gemas ... agora, sabemos que se tratava de fungos de solo que atacaram os rebolos "

Auro Pereira Pardinho

28

Gerente de Marketing da DMB Máquinas

mecanizado, quando éramos chamados por usuários para explicar o porquê de tantas falhas no canavial. Ao tirarmos a terra da linha de cana onde estavam as falhas, encontrávamos o rebolo, mas as gemas não haviam brotado. O resultado disso era, então, atribuído ao dano mecânico nas gemas, ocasionado pela colhedora de mudas mal preparada, ou mesmo pelas esteiras da plantadora que distribuem os rebolos no sulco de plantio. Agora, sabemos que se tratava de fungos de solo que atacaram os rebolos, e estes apodreceram antes de as gemas brotarem e darem chance para a planta continuar, por conta própria, fazendo fotossíntese e absorvendo os nutrientes aplicados no solo. Acredito que, com o uso dessa tecnologia da maneira adequada, poderemos até reduzir o consumo da quantidade de mudas (rebolos) por hectare plantado, o que ainda é exagerado pela grande maioria dos usuários do plantio mecanizado da cana-de-açúcar. Porém, como tudo no plantio mecanizado acontece às pressas, muitas vezes, o fungicida tem sido utilizado da maneira menos indicada, ou seja, o produtor simplesmente adiciona o produto no tanque de inseticidas contra as pragas de solo onde normalmente já são misturados vários produtos químicos. Dessa forma, além de possível incompatibilidade entre produtos, quando o jato da pulverização atinge os rebolos, estes já estão depositados no sulco, recebendo o produto apenas em parte deles. Para o melhor resultado, o rebolo tem que ser totalmente protegido com a calda fungicida, como um banho de imersão, o que não é muito fácil promover na plantadora, além de se tornar uma prática de alto risco de contaminação. A solução encontrada foi desenvolver um kit para promover um banho nos rebolos no momento em que eles estão descendo pelas bicas da plantadora e antes de caírem no sulco de plantio. O kit desenvolvido especificamente para a plantadora PCP 6000, mas facilmente adaptável a qualquer plantadora de cana do mercado, consiste em um tanque de 600 litros de capacidade, 2 bombas, sendo uma para agitação da calda e outra para a pulverização, e 3 bicos tipo cone cheio acoplados em cada uma das bicas da plantadora, que pulverizam a calda fungicida nos rebolos em três pontos, enquanto descem pela bica da plantadora. Assim, quando os rebolos caem no sulco de plantio, estão totalmente protegidos pela calda fungicida, e, se todos os demais cuidados foram tomados, certamente o resultado do plantio mecanizado será de alta qualidade. Certamente, outras tecnologias surgirão para contribuir cada vez mais para a melhoria do plantio mecanizado da cana-de-açúcar, porém os princípios básicos envolvidos na composição de todo o processo produtivo precisam ser considerados como prioritários para a rentabilidade, a manutenção e o desenvolvimento do negócio.



motomecanização

Opiniões

a evolução tecnológica na

motomecanização

Para falar de evolução, é importante localizá-la dentro de um intervalo de tempo definido, e, em se tratando de mecanização agrícola do setor sucroalcooleiro, a grande evolução ocorreu nas últimas três décadas, com a adoção da colheita mecanizada e, mais recentemente, com o plantio (dito) mecanizado. Até meados da década de 90, a mecanização da colheita era conhecida por uma parte do setor apenas, sendo que poucas empresas adotavam essa tecnologia. Os baixos custos da colheita manual, as poucas exigências trabalhistas e a consciência ambiental ainda se formando permitiam ao setor se acomodar e aguardar as novidades vindas de usinas um pouco mais arrojadas e consideradas boas referências e que, corajosamente, bancavam seus projetos e punham em prática suas ideias. Buscava-se, e continua-se buscando, novidades em outros países, principalmente na Austrália, que tem em seus produtores de cana grandes “inventores”, que, suportados por uma política de preços da matéria-prima altamente favorável, podiam se aventurar em projetos caros, que encantavam e desafiavam os visitantes brasileiros.

custos fizeram com que nosso setor, a partir da metade da década de 90, entrasse afoitamente no processo de colheita mecanizada. No início dessa fase, entendia-se que o processo de colheita mecanizada começava com a compra da colhedora, não se preocupando com detalhes como a escolha da lavoura, a sistematização, o preparo do solo, o talhonamento das áreas e os sistemas de transbordamento para o transporte. Enfim, não havia, por uma boa parte das empresas, uma visão clara de todo o processo, e isso aliado à ânsia e ao receio de ficarem “para trás” fizeram com que algumas usinas pagassem caro por sua precipitação sem nenhum planejamento. Já o plantio dito mecanizado, por sua vez, está começando a sua “carreira” de uma forma um pouco mais planejada. A sua adoção vem sendo feita pelas usinas de uma forma mais lenta e com pressões externas diferentes das que levaram o setor a adotar a colheita mecanizada. Considero que o plantio chamado “mecanizado” ainda tem grandes desafios a serem vencidos. Discordo que tenhamos um sistema de plantio mecanizado. Temos, sim, um sistema “semimecanizado”, pois todos os equipamentos

Discordo que tenhamos um sistema de plantio mecanizado. Temos, sim, um sistema semimecanizado, pois todos os equipamentos comercialmente disponíveis no mercado dependem muito da atenção do operador para evitar falhas na deposição das “sementes” de cana. " Luis Antonio Ferreira Bellini Consultor da Bellmec e Coordenador do GMEC

Ainda hoje, a Austrália, já não tão favorecida assim, mantém a tradição de desenvolver e implantar tecnologias na lavoura de cana que permitem atingir patamares de produtividade na colheita acima de 1.800 ton/colhedora/ dia, enquanto, no Brasil, essa média não chega a 500 toneladas. Diferenças de topografia e nível técnico/cultural explicam (um pouco) essa enorme diferença, além do fato, é claro, de nossos colegas do outro lado do mundo não terem passado pela forte expansão que o setor vem experimentando nos últimos anos, no lado de cá do planeta. As pressões trabalhistas, ambientais e, principalmente, de

30

comercialmente disponíveis no mercado dependem muito, ainda, da atenção do operador para evitar falhas na deposição das “sementes” de cana. Qualquer desatenção pode levar a falhas que, se não forem identificadas e corrigidas a tempo, contribuirão para importante perda da produtividade do canavial. Grande parte dessa dificuldade na distribuição dos toletes nos sulcos está relacionada, principalmente, com o seu formato e dimensão. Seu tamanho, de 30 a 40 cm, o transforma num “objeto” difícil de ser depositado de forma rápida e homogênea nos sulcos.



motomecanização

Onde: C = Ponto de corte D = Distância dos pontos de referência ao de corte Hc = Erro no controle de posição. Ideal Hc = 0 Pr = Ponto de referência para o controle de altura

O grande volume de toletes nos compartimentos de carga das plantadoras não tem “fluidez”, forma um emaranhado parecido com as comportas de galhos feitas pelos castores nos rios. Essa falta de fluidez das “sementes” de cana implica uma falta de homogeneidade na distribuição. Ora se depositam “sementes” demais, ora de menos; por isso ocorrem falhas indesejáveis ou os excessos na deposição, gerando altos custos. Com um medo mais do que justificado de falhar, a prudência manda que exageremos na dose, elevando os custos. Num plantio convencional (manual), 1 hectare de muda é suficiente para plantar de 5 a 6 hectares. No plantio “semimecanizado”, essa relação cai para 2 ou 3 hectares. O custo do plantio dispara, encarecendo sensivelmente e fazendo muita gente pensar bem antes de adotar a mecanização também do plantio. Por um período muito curto nos últimos 4 ou 5 anos, o setor se animou com uma nova tecnologia de plantio que prometia o que muita gente sonhava, plantar cana como se planta uma lavoura de grãos, com baixo consumo de mudas, alta produtividade dos equipamentos e baixa demanda de potência das máquinas. Foi um sonho. A tecnologia conhecida como Plene deixou todos num nível de expectativa poucas vezes vista no setor. Foi realmente uma bela novidade, porém surgiram problemas que inviabilizaram o projeto. Mas foi um passo importante, que deve servir para mostrar um novo caminho para um plantio realmente mecanizado. É quase impossível pensar em colheita mecanizada e plantio mecanizado sem pensar nas implicações de qualidade e custos que essas duas práticas ainda carregam como “subproduto”. A qualidade da colheita depende diretamente das práticas de implantação do canavial, da qualidade da operação e da adequação das colhedoras. Há necessidade de uma evolução em todas essas etapas, urgententemente. As quebras de produção das últimas safras no Brasil foram influenciadas pelo clima, é lógico, mas todos que conhecem o setor de uma forma mais abrangente têm uma visão clara de que o abandono das boas práticas de motomecanização contribuiu muito para esse cenário. Novos métodos de sistematização, curvas de nível mais planas, eliminação de ruas cruzadas, as chamadas “matação”, têm

32

Opiniões contribuído para uma maior produtividade da colheita, já que as máquinas tendem a perder menos tempo com manobras. Implementos que nivelam o solo, tipo “plainas”, vêm dando excelentes resultados quando se quer uma colheita mais rente ao solo e livre de impurezas minerais. A mais recente das práticas agrícolas adotadas promete uma revolução na forma de colher e de se trafegar na lavoura. O chamado plantio de “espaçamento combinado” ou “duplo alternado”, que instala duas linhas de cana numa mesma rua e deixa as entrelinhas, que podem ser pisoteadas exatamente sob os rodados das colhedoras e dos transbordos, vem despertando o interesse de grandes grupos e também de tradicionais produtores de cana. É uma tecnologia que, aliada à “agricultura de precisão” (outra evolução importante), promete reduzir muito os custos de colheita, pois os equipamentos percorrerão distâncias menores para colher quantidades de cana maiores. Nesse cenário, falta ainda uma evolução maior nas colhedoras. As máquinas que colhem hoje essas ruas mais adensadas são concebidas para colher uma linha e, por falta (no Brasil) de equipamento mais adequado, foram “adaptadas” para colher duas linhas. Essa adaptação foge do conceito inicial do projeto das caixas de corte de base das máquinas, que foram concebidas para colher as canas que passam entre os dois discos de corte, e não na sua periferia, como acontece com essas máquinas adaptadas. A dificuldade nesse tipo de espaçamento exige mais atenção e qualidade do operador, mas todos sabemos da carência escandalosa de mão de obra especializada em todas as áreas. Os fabricantes sabem disso e, certamente, estão buscando novas alternativas. Nessas condições, ou se reduz a velocidade da máquina, diminuindo a produção, ou se convive com uma perda que pode passar de 10%. Os ganhos decorrentes das ruas adensadas não podem servir de consolo para essa perda. Ou, como disse um amigo meu: “na calculadora da produtividade, só devem existir teclas de + (soma) e de x (multiplicação)”.



motomecanização

Opiniões

a busca da excelência Nos últimos anos, o objetivo dos envolvidos em motomecanização tem sido propiciar soluções para que a produção de cana seja maior, com melhor qualidade e, principalmente, com menores custos. Para que isso possa ser alcançado, alguns tópicos deverão merecer especial atenção, pois como a cana-de-açúcar é uma cultura semiperene, o início do trabalho começa na escolha da área a ser plantada, que deverá ser mecanizável, pois a substituição do homem pela máquina é um caminho sem volta. A etapa inicial do preparo de solo é fundamental, pois se esse trabalho for mal executado ficará comprometida, a formação do canavial. Atualmente, a utilização de ferramentas e técnicas modernas tem contribuído, e muito, para que a tarefa seja bem executada em todos os seus detalhes. Com tais recursos, consegue-se um preparo de solo de maior qualidade, e, consequentemente, a eliminação de torrões na mínima quantidade e tamanho, evitando-se bolsões de ar, subsolagens nas profundidades ideais para a cultura e distribuição de fertilizantes e corretivos nas dosagens certas e nos locais corretos, além do controle do tráfego desnecessário na área, que vão garantir uma homogeneidade das linhas de cana após o plantio, ou seja, o tch (tonelada de cana por hectare) se mantém em todo o talhão e não em “manchas”. Na operação de plantio, o que mais chama a atenção é a evolução do aprendizado pelas usinas e pelos fornecedores de equipamentos no plantio mecanizado, com o uso de equipamentos de maior disponibilidade, com logística mais eficaz de mudas, com a evolução na preparação dos equipamentos de colheita de mudas e na sua distribuição no solo, utilizando-se sensores, câmeras de vídeo e monitores. O plantio semimanual ou “esparrama” ainda é utilizado em maior escala – aprimorados com novas técnicas para aumentar a qualidade e o rendimento operacional. Na operação de plantio, a principal ferramenta é a agricultura de precisão, em que o uso de piloto automático com sinal RTK e georreferenciamento estão cada vez mais difundidos. Softwares específicos auxiliam no planejamento da área; muitas vezes, os mapas de sulcação saem direto do escritório para o piloto automático do trator, buscando-se a otimização do campo, ganhando mais área plantada, ou seja, mais linhas de sulco no mesmo espaço anterior, paralelismo de sulcação, exclusão de linhas mortas ou “morredores”, que atrapalham a colheita mecanizada, planejamento de tiros para que não sejam curtos e tampouco muito longos, evitando manobras excessivas da colhedoura e/ou pisoteios em manobras de transbordos quando completam a carga, evitando compactações desnecessárias que prejudicam diretamente a soqueira na próxima brotação.

No nível gerencial, o treinamento principal está voltado à gestão de pessoas e processos, pois, para “produzir mais, melhor e com menores custos”, o capital humano ainda é nossa melhor ferramenta. Wilson Agapito

34

Gerente de motomecanização da Della Coletta Bioenergia

Devemos evitar canaviais que tenham pouca longevidade, já que os custos de formação da lavoura precisam ser diluídos ao longo dos anos de corte. Para isso, a utilização das técnicas avançadas está fazendo grande diferença, como, por exemplo, a utilização do piloto automático. Após o trator de sulcação ou da plantadeira gerar o mapa de plantio, seus dados serão carregados no piloto automático da colhedoura, para que se evite o “erro de perder a linha”, e, como consequência, evitar o pisoteio das soqueiras. A colheita mecanizada é uma realidade e, se for conduzida com uma gestão eficaz, os resultados serão efetivamente satisfatórios. Equipamentos mais ajustados e flexíveis às opções de lavoura plantada estão cada vez mais em evidência, como bitolas de tratores e transbordos, otimizadores de colheita em áreas de baixo tch (toneladas de cana por hectare) que aumentam a produção das máquinas, colhedouras ajustadas aos variados espaçamentos de plantio. Outro fator que se busca é aumentar o tempo de aproveitamento das colhedouras, reduzindo paradas, seja por motivos mecânicos ou operacionais, utilizando-se ferramentas de gestão em que a manutenção passa a ser constante, alcançando o aumento da disponibilidade e a redução de custos na entressafra. O que volto a enfatizar é que ainda não existe colhedoura que seja capaz de corrigir um solo mal preparado e um plantio que não tenha passado por operação de quebra lombo, impossibilitando, assim, a redução de impurezas minerais e perdas na colheita. No transporte da cana colhida, seja mecânica ou manualmente, também se buscam excelências para que os resultados de custos sejam melhores. Aqui, cabe a utilização de ferramentas como computadores de bordo com transmissão de dados via GPRS, de onde operadores logísticos monitoram a utilização dos recursos, otimizando a frota de maneira que a eficiência operacional seja grande e erros menores. Para conseguirmos que as áreas sejam produtivas e as operações sejam eficientes, com custos controlados, de nada adianta investir em modernas tecnologias, se quem vai operá-las não for capacitado. Portanto é essencial o investimento em treinamento do corpo gerencial e operacional, envolvendo operadores do sistema, motoristas e mecânicos – com atenção para operações como regulagem de implemento na operação de preparo de solo, manejo correto da muda no plantio, uma regulagem do cortador de base da colhedora, a utilização do caminhão que transporta cana, etc. No nível gerencial, o treinamento principal está voltado à gestão de pessoas e processos, pois, para “produzir mais, melhor e com menores custos”, o capital humano ainda é nossa melhor ferramenta.



colheita do palhiço

palha: outra

Itaipu? a quantidade de palha disponível ... seria suficiente para fornecer energia elétrica durante o ano inteiro para, aproximadamente, 10 milhões de residências "

Samir Fagundes e Marcelo Pierossi Coordenador de Marketing da New Holland e Especialista em Tecnologia Agroindustrial do CTC, respectivamente

A cultura da cana-de-açúcar tem como característica uma grande habilidade em produzir biomassa, seja na forma de fibra (bagaço historicamente utilizado pelo setor) e caldo, seja como palha (folhas); entretanto a utilização econômica dessa biomassa ainda não é prática adotada por um número significativo de usinas e fornecedores de cana. Estudos mostram que a energia contida nas folhas da cana-de-açúcar é praticamente a mesma presente no caldo (que será convertido em açúcar e/ou etanol) e no bagaço (convertida em energia térmica e elétrica para o processo industrial e/ou vendida como excedente à rede de distribuição de energia elétrica). Esses dados apenas reforçam a ideia de que a utilização da palha pode trazer às usinas uma excelente fonte adicional de receita ao caixa das unidades, tema central desta edição da Revista. Em termos absolutos, estudos realizados pelo CTC mostram que cada tonelada de colmo de cana-de-açúcar produz, aproximadamente, 140 kg de palha em base seca, e, considerando-se os valores de produção de cana da região Centro-Sul do Brasil, na safra 2012/13, igual a 532 milhões de toneladas, a quantidade de palha disponível nesses canaviais é igual a 74 milhões de toneladas. Essa quantidade de palha seria suficiente para fornecer energia elétrica durante o ano inteiro para, aproximadamente, 10 milhões de residências. Além da aplicação como combustível para queima em caldeiras e geração de vapor e/ou energia elétrica, outra importante aplicação da palha de cana é como insumo para a produção do etanol celulósico, na qual a palha pode ser utilizada diretamente no processo de hidrólise e/ou substituir o bagaço como combustível na caldeira, liberando-o para ser hidrolisado e transformado em etanol. Entretanto, apesar de seu enorme potencial de utilização, o recolhimento da palha requer conhecimento e tecnologias específicas para essa finalidade.

36

Esse conjunto de tecnologias e conhecimentos deve contemplar toda a cadeia de recolhimento, começando no campo e terminando na indústria. O primeiro passo é determinar a quantidade de palha que poderá ser removida dos canaviais mantendo a sustentabilidade da produção canavieira. Isso implica conhecimento de como o solo e o clima de cada local reagem aos diferentes níveis de palha remanescente com relação a dois fatores: erosão e produtividade. Com relação à erosão, estudos mostram que a cobertura tem relação direta com as perdas de solo. Nos solos com coberturas vegetais superiores a 60%, praticamente não há perdas de solo por erosão da chuva. A produtividade da cana está diretamente relacionada com o ambiente de produção, ou seja, nos solos com maior disponibilidade de água e nutrientes, a produtividade será maior. Entretanto a resposta da produtividade à quantidade de palha remanescente varia de acordo com os ambientes, sendo mais sensível em ambientes mais restritivos. Definida a quantidade de palha a ser removida, a próxima etapa será recolhê-la. Existem duas rotas para a realização dessa tarefa: a primeira consiste no transporte da palha junto com a cana nos equipamentos de transporte rodoviário. A colheita da cana é realizada com a diminuição da rotação dos sistemas de limpeza da cana, e a cana é colhida com maiores percentuais de palha. Nesse sistema, é recolhida palha com teores de umidade em torno de 40 a 45%. Na outra rota, temos a opção de recolhimento através do enfardamento da palha, opção mais viável do ponto de vista econômico quando os volumes de palha e respectivas distâncias são maiores. No enfardamento da palha, a colheita é realizada normalmente, com sistemas de limpeza operando de modo regular, e a palha separada da cana é depositada no solo, onde permanece por um tempo para que sua umidade diminua até atingir 10


Opiniões a 15%. O tempo necessário para essa secagem varia em função da região e da época do ano, sendo, em média, de 7 a 10 dias. Quando a umidade ótima é atingida, iniciam-se as operações agrícolas relacionadas ao enfardamento: aleiramento, enfardamento, recolhimento, carregamento dos fardos e transporte rodoviário. O aleiramento consiste no agrupamento da palha em leiras triangulares, com espaçamento de 5 linhas de plantio de cana, e o modo como é realizado impacta na quantidade de impurezas minerais, adicionada ao fardo e no desempenho operacional da enfardadora, operação subsequente. A enfardadora recolhe a palha contida na leira, compactando-a em fardos retangulares de dimensões 0,9 x 1,2 x 2,4m e peso aproximado de 450 kgf, amarrados por um conjunto de seis barbantes longitudinais. Esses fardos são depositados no solo conforme são produzidos, e uma carreta recolhedora de fardos realiza o carregamento automático, agrupando-os em pilhas, que serão descarregadas nos carreadores, facilitando o carregamento nos equipamentos rodoviários. Essa operação é de fundamental importância, pois evita o pisoteio excessivo dos canaviais e consequente compactação dos solos. A última etapa das operações de campo é o carregamento dos fardos nos equipamentos rodoviários, através da utilização de guincho frontal, que pode ser montado em tratores agrícolas ou em manipuladores telescópicos (telehandlers),

para, então, transportá-los até a usina. A melhor opção de transporte de fardos é o rodotrem, formado por dois semirreboques e um cavalo mecânico, composição que pode transportar até 68 fardos por viagem. Com a chegada dos fardos na usina, são necessárias diversas operações para a adequação do material à sua utilização, seja como combustível ou como matéria-prima para o etanol celulósico. Dentre essas operações, podemos citar o descarregamento dos fardos, a possibilidade de seu armazenamento, a remoção de impurezas minerais e a trituração até atingirmos a granulometria adequada. Soluções industriais para a realização dessas operações estão sendo desenvolvidas e, em breve, estarão disponíveis ao mercado. Portanto a utilização da palha da cana-de-açúcar é uma potencial fonte de renda para as usinas e fornecedores de cana, porém diversos fatores devem ser considerados na elaboração de um projeto nesse sentido, sempre respeitando a visão de sistema de recolhimento, no qual existe uma relação entre as operações presentes no processo. Sistemas agrícolas para o recolhimento de palha já se encontram disponíveis no mercado, e o CTC está trabalhando para garantir a sustentabilidade do processo, através da recomendação da quantidade de palha que pode ser removida sem causar danos à produção, além de desenvolver solução de processamento industrial.

37


variedades

Opiniões

melhoramento genético e manejo varietal Para atender às demandas domésticas de alimentos e de energia, além das perspectivas globais de uso de biocombustíveis, o Brasil precisa duplicar a produção de cana-de-açúcar nos próximos 20 anos e, até mesmo, triplicar a produção de etanol. Para commodities alimentícias e energéticas, não basta apenas produzir mais, é preciso produzir melhor, ou seja, com menores custos e de forma sustentável. Temos enormes desafios pela frente. Nas últimas três décadas, elevamos a produtividade agrícola da cana na taxa de 1,3% ao ano. Nos próximos 20 anos, investir em tecnologia e inovação será essencial, pois teremos mais que dobrar as taxas atuais de crescimento. Recursos produtivos, capacidade empresarial, domínio dos processos e conhecimento não nos faltam. Desafiador é transferir de forma eficaz os pacotes tecnológicos, oriundos de empresas, centros de pesquisas e universidades. Desafiador é viabilizar os melhores projetos e as ferramentas adequadas para os produtores, aumentando a eficiência em toda a cadeia produtiva. No CTC, encaramos a pesquisa de forma integrada e multidisciplinar, buscando as melhores soluções. Utilizamos as melhores tecnologias da genética de plantas, o conhecimento gerado em mais de 40 anos do programa de melhoramento e as melhores ferramentas do manejo varietal. A moderna variedade CTC de cana é desenvolvida para as necessidades do mercado, dentro dos sistemas atuais de produção, com o conhecimento preciso dos ambientes edafoclimáticos. O alicerce do programa de melhoramento de cana do CTC está no seu germoplasma, um dos mais diversificados do mundo. Explorar de forma eficiente esse patrimônio é objetivo dos projetos relacionados ao uso do germoplasma, do banco de dados, das técnicas de hibridação e da avaliação das populações iniciais. Os milhares de genitores estão caracterizados para componentes de produção, qualidade, tolerância às doenças e potencial das progênies geradas. A utilização de software próprio, permite a escolha dos parentais ideais e simula os melhores cruzamentos para cada região produtora de cana-de-açúcar. Depois de produzidas as novas plantas por sementes sexuadas, os processos de seleção inicial e geração de novos clones são realizados a “céu aberto”. Desde o plantio, os experimentos são testados com uso de mecanização e manejo de cana sem queimar. As informações geradas e as análises genético-estatísticas contribuem para a tomada de decisão nos processos de seleção clonal. O programa desenvolvido para obtenção e melhoramento de plantas com maior biomassa e maior teor de fibra, a denominada cana energia, também já colhe seus frutos no CTC.

Esse cenário permitirá ao País seguir adiante, com o uso competente dos recursos e do conhecimento no setor sucroenergético. Vamos continuar a produzir mais e melhor, pois não há desenvolvimento possível e sustentável sem energia. " Arnaldo José Raizer

38

Coordenador do Programa de Variedades do CTC

Novas cultivares CTC já podem atender à futura demanda da indústria, ou seja, uma cana de menor exigência, com maior produção de matéria seca. Novas plantas, com constituição específica, que tenham mais palha, mais biomassa, mais carbono e celulose, a serem transferidas ao etanol de segunda geração e para oferta como energia renovável. O programa de melhoramento genético é estabelecido, inclusive, para utilizar as ferramentas da biotecnologia, como os marcadores moleculares. O objetivo é acelerar etapas, melhorar a assertividade na seleção e diminuir tempo, recursos e custos. Às vezes, alguns limites de melhoria de produtividade são de difícil superação, mas já existem trabalhos de biotecnologia usando, como plataforma, as melhores variedades CTC. Trata-se da transgenia, que agrega genes que vão conferir ganhos na produção de açúcar, na tolerância à seca e na resistência às pragas, que são fatores limitantes em diversas regiões canavieiras. As variedades de cana são a base de toda produção do setor sucroenergético nacional; elas fornecem a matéria-prima essencial para movimentar as agroindústrias canavieiras. Sendo o Brasil um país de dimensões continentais, as áreas ocupadas pela cultura da cana-de-açúcar abrangem diferentes tipos de solo e clima, estando sujeitas às diferentes formas de manejo empregadas pelas unidades de produção. É por esses motivos que o CTC descentralizou o seu programa de melhoramento, criando os polos regionais, onde as variedades são produzidas para gerar aumentos reais de produtividade, proporcionando ganhos significativos de ATR/ha. Essa estratégia de melhoramento genético já produziu os primeiros frutos, com a recente liberação da Série 9000, desenvolvido para os ambientes de produção do cerrado – tolerantes à seca, de baixo florescimento e com alta adaptação ao solo e aos climas daquela região. Viabilizar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento é o que vem mobilizando o CTC para implantar as melhores tecnologias. Dentre elas, a genética da cana-de-açúcar continuará sendo a propulsora dos incrementos nas produtividades agrícola e industrial. O objetivo do melhoramento de plantas, manipulando de forma inteligente o genoma, é justamente obter, por técnicas modernas, plantas que atendam às nossas necessidades por matéria-prima, alimentos, novos produtos e energia renovável. Esse cenário permitirá ao País seguir adiante, com o uso competente dos recursos e do conhecimento no setor sucroenergético. Vamos continuar a produzir mais e melhor, pois não há desenvolvimento possível e sustentável sem energia.



custos de produção e movimentação

Opiniões

um novo desafio para o

transporte de cana

A evolução da canavicultura no Brasil ocorreu em escalas pouco vistas em outros setores da agricultura. Saímos de sistemas produtivos arcaicos, com pouca tecnologia e produtividades agrícolas baixas, para uma agricultura moderna, com alto grau de mecanização, automação e ganhos significativos em produtividade. Esse cenário teve como divisor de águas o Proálcool, a partir da década de 70, que incentivou a implantação de novas unidades produtoras de álcool; houve a criação de empresas voltadas para a produção de tecnologia; foram desenvolvidas novas variedades de canas, mais adaptadas e produtivas, e novas técnicas de cultivo foram incorporadas ao processo. Mais adiante, os apelos ambientais contrários à queima da palha e os sociais para acabar com o trabalho do corte manual da cana vieram sacramentar de vez a evolução dos processos produtivos de cana no Brasil. Toda essa evolução mudou, inclusive, a visão que a sociedade tinha do setor, deixamos de ser o “patinho feio” da agricultura brasileira, taxados de exploradores do trabalho humano, de degradadores ambientais, e passamos a ser a vitrine mundial na busca por fontes de energia renovável de baixo custo. Chegar até aqui não foi fácil, mas tornou o setor forte. Empresas novas foram criadas, com filosofias de trabalho modernas. Fusões e incorporações de empresas brasileiras do setor sucroenergético com outras de referência na economia mundial, ligadas ao petróleo, como Shell, BP e Petrobras, e multinacionais ligadas agronegócio,John comoDEERE Bunge, PauloaoHermann Cargill, LDC, contribuíram para incorporação dePresrasil novas formas de gestão do negócio, o que veio consolidar a profissionalização dessa atividade. Para se ter uma ideia dessas mudanças, na safra 2012/13, com dados atualizados até novembro, no Centro-Sul, cerca de 82% de toda a colheita foi feita mecanicamente, dos quais cerca de 74% com cana crua, avanços muito acima dos inicialmente esperados.

Os custos de produção da cana são distribuídos, em média, na proporção de 40% para a área agrícola, 17% para a indústria, 14% para a administração e impostos e 29% para o pagamento de cana de fornecedores e arrendamentos de terra. "

Derli de Sousa Prudente

40

Gestor de Corte, Transbordo e Transporte da Goiasa

Novos desafios agora se apresentam. Da euforia dos anos 2000 até hoje, muita coisa mudou. Os custos de produção da cana a partir de 2007/08 subiram por demais. Estudos apresentados pela Esalq/USP no II Seminário de Informações Econômicas do Setor Sucroenergético mostram que esses custos na região Centro-Sul do Brasil apresentaram um crescimento, nas últimas seis safras, de 56%, nas regiões de expansão e de 89% nas regiões tradicionais de cultivo, isso para cana produzida pela própria usina. Índices muito acima dos da inflação medida pelo IPA (Índice de Preço por Atacado) no período. Os custos de produção da cana são distribuídos, em média, na proporção de 40% para a área agrícola, 17% para a indústria, 14% para a administração e impostos e 29% para o pagamento de cana de fornecedores e arrendamentos de terra. Esses números, sem dúvida alguma, nos mostram que o grande desafio do setor é a redução dos custos de produção da matéria-prima. A falta de uma política clara para o setor aliada a uma recessão mundial em 2008 tiraram das usinas a capacidade de investimento, e, com isso, as lavouras foram tremendamente penalizadas, com quedas significativas de produtividade, e isso foi determinante para a crise que vivemos hoje. A mecanização da colheita também teve, inicialmente, um papel fundamental na redução das produtividades agrícolas, pela falta de variedades mais adaptadas a essa realidade, sistematizações de canaviais inadequadas, falta de conhecimento técnico especializado, mão de obra sem capacitação. O setor pagou caro pelo aprendizado. Foi, e ainda está sendo, um grande desafio conciliar produtividades agrícolas com colheita mecanizada. A sistematização das lavouras para diminuir manobras, aumentar o cumprimento das linhas de cana, visando melhorar o rendimento operacional das máquinas sem perder produtividade, é básico e exige, em muitos casos, a quebra de



custos de produção e movimentação paradigmas relacionados ao preparo e à conservação do solo, por exemplo. Passados os problemas iniciais, hoje, esses impactos negativos nos canaviais estão sendo gradativamente revertidos, e, acreditam os especialistas, em três safras, estaremos com produtividades nos patamares alcançados na época do corte manual. O transporte de cana, que tem um peso significativo na formação dos custos agrícolas nas usinas, também passou por uma evolução muito grande, acompanhando toda a modernização ocorrida no setor sucroenergético. Na década de 80, os caminhões transportavam cerca de 45 toneladas de cana inteira e queimada por viagem e, hoje, com os modernos cavalos tratores de até 540 CV, chegam a transportar, em média, 68 toneladas de cana picada por viagem. Para operacionalizar toda essa capacidade de transporte, sistemas gerenciais, computador de bordo, GPS, centrais de logísticas destinadas a promover a maior eficiência da frota e diminuição dos custos operacionais são incorporados à rotina das empresas. A necessidade de equipes treinadas, capacitadas, com metas definidas de produção, de disponibilidade mecânica, consumo de combustível e uma remuneração compatível com meritocracia passam a ser determinantes ao sucesso do negócio. Hoje, as usinas, na sua maioria, utilizam, no transporte de cana, o sistema de rodotrem (cavalo-trator mais reboques), pela versatilidade operacional, maior capacidade de transporte por unidade tratora, facilidade para desacoplar os reboques, permitindo-se ter um sistema bate-volta eficiente na lavoura e na indústria, otimizando toda a frota. Esse modal de transporte foi evoluindo em tamanho e capacidade até chegar às atuais caixas de reboque com 93 m³ e composições de 6 eixos com 184 m³. Se considerarmos a densidade da cana de 400 kg/m³, teremos mais de 73 toneladas de cana de capacidade líquida e Peso Bruto Total Combinado (PBTC) acima de 100 toneladas. E, agora, temos um grande problema para resolver. Apesar de a capacidade máxima de tração (CMT) dos cavalos-tratores chegar a 150, 200 toneladas em alguns modelos, e os reboques estarem dimensionados para esse volume de transporte, existe o conflito com a Lei da balança, que limita o PBTC em 74 toneladas. O que fazer diante desse cenário? Desenvolver novos equipamentos em alumínio, ou aços especiais, com suspensão pneumática, que permitam transportar mais cana dentro dos limites estabelecidos? Qual o custo disso? Teremos, com esses equipamentos, condições de transportar o que transportamos hoje? Acho difícil. O que faremos com os equipamentos hoje em operação, que não são poucos? É sabido que, se essa frota rodar com a ociosidade necessária para atender à Lei ao pé da letra, será preciso um incremento na frota de transporte de até 40%, segundo estudos preliminares, e, com isso, um aumento de custo fabuloso. A necessidade de investimentos imediatos será um grande problema, já que a maioria das usinas está descapitalizada. Os fornecedores de equipamentos, com certeza, não terão como atender a tamanha demanda em curto prazo. A mão de obra, hoje já escassa, será um grande limitante. Haverá um significativo aumento do volume de tráfego nas rodovias, além de outros impactos. Um agravante desse problema são ações movidas por algumas Regionais

42

Opiniões

da Justiça do Trabalho contra unidades produtoras, principalmente no sul de Goiás e Triângulo Mineiro, que exigem a imediata aplicação dos limites de PBTC de 74 toneladas, alegando a falta de segurança do trabalhador que conduz essas composições de transporte de cana. Sabemos ser a capacidade desses cavalos-tratores e reboques bem maiores que os limites estabelecidos pela Lei, e estudos mostram que são seguros, mas a Justiça não entende assim e está estabelecendo multas diárias altíssimas a essas unidades, pelo descumprimento da determinação. Em 2010, já antevendo esse problema, o consultor Luiz Nitsch, profissional referência no setor, junto com a Usina Goiasa e a GM, desenvolveram uma proposta de adaptação dos atuais reboque e semirreboque, passando de 6 para 9 eixos. O objetivo era adequar a composição cavalo-trator mais reboques aos limites de peso por eixo definido pela Lei e permitir manter ou perder pouco da capacidade de transporte das composições atuais, reaproveitando os equipamentos que temos atualmente. Esse projeto foi levado adiante, e a composição está trabalhando, já há duas safras na Goiasa, com excelente desempenho. Recentemente, essa composição foi exposta e apresentada em palestra proferida pelo citado consultor, Luiz Nitsch, no 15º Seminário de Mecanização e Produção de cana-de-açúcar, realizado recentemente na cidade de Ribeirão Preto. A Lei da balança limita o PBTC em 74 toneladas, como é sabido, mas, ao mesmo tempo, determina o peso máximo por eixo permitido nas composições, sendo 6 toneladas para eixos com rodado simples e 8,5 toneladas para eixos com rodados duplos. O protótipo desenvolvido, quando observada a determinação de peso por eixo, está em conformidade com a Lei, mas o PBTC vai para 99,5 toneladas; então, precisaremos homologar a composição no Denatran. Falando assim, parece simples, lógico, e estaríamos resolvendo uma série de problemas, dentre eles: • Adequação à Lei; • Manutenção ou perda da pouca capacidade de transporte. Hoje, se transportam irregularmente 68 toneladas de cana por viagem; poderíamos, nesse modelo, transportar 62 toneladas, obedecendo ao limite de peso por eixo; • Reaproveitamento dos equipamentos existentes, com investimentos módicos em adaptação, e • Diminuição da necessidade de investimentos em aumento de estrutura de transporte. Acontece que, na prática, a realidade é bem diferente: o processo de homologação dessa composição, apesar de alguns esforços, está parado. Acredito que nem todas as usinas perceberam a gravidade do problema, e, por isso, a busca por soluções ainda ocorre de forma isolada e tímida. Há pouco tempo, a Unica junto com o CTC deram início a um movimento em busca de soluções jurídicas e operacionais para o problema, foram criados alguns grupos de trabalho, mas ainda não vimos resultados práticos. Questões como essa precisam ser antevistas, e a solução só virá com a união do setor, articulação de propostas, entendimento com governos, fabricantes, senão, a curto prazo, esse problema, que já existe e chegou a algumas unidades de forma contundente, atingirá todo o setor, e não estaremos prontos para enfrentá-lo.



planejamento e operação do plantio e da colheita

planejar sim,

improvisar não!

Improvisar em uma atividade simples muitas vezes leva ao insucesso. Imagine em uma atividade complexa como uma agroindústria de cana. A preparação para o crescimento, incluindo a redução da rotatividade de pessoas e a valorização do conhecimento e do aprendizado, está na raiz dos aumentos de produtividade e produção. O crescimento e a evolução não têm acontecido quando há ruptura, mas sim quando há continuidade e aprendizado. Isso se complementa com treinamento e consolidação de equipes. Agrícola e indústria é um só processo. Estão separados apenas porque a fase agrícola tem de ser ao sol e chuva, e a fase indústria tem de ser à sombra e seco, no barracão. Essa integração tem dois momentos mais críticos, no planejamento e na colheita. No planejamento, a projeção de demanda e datas deve respeitar o que é realizável em cada um dos processos. Metas desafiadoras devem ser lançadas no ensaio, metas viáveis devem ser comprometidas na produção. Sendo ainda nosso foco a produção de açúcar e álcool a partir de ART, nossa produção pode ser expressa por uma equação como Produção = (AT/(L+1) + Aa - Av) x TCH x ART, que relaciona área total cultivada, longevidade do canavial, área de cana de ano, área de viveiro, produtividade em t/ha e teor de ART. A área total cultivada (AT) é muitas vezes o fator mais restritivo. Isso resulta na forte competição por área nas regiões de indústrias de cana. Essa competição ocorre porque a cultura da cana-de-açúcar processa quantidades de produção muito grandes. Por exemplo, a cultura da soja colhe cerca de 5 t/ha de grão seco e vale cerca de R$1.100,00/t. Por outro lado, a cana-de-açúcar colhe 90 t/ha de material vivo e vale R$60,00/t. Por essa característica, de grandes volumes e perecível, a logística é fundamental para o negócio da cana. Por isso, para ser competitiva, exige que as áreas de produção agrícola sejam próximas da indústria, daí a elevada concentração ao redor da fábrica e a sensação do “mar de cana”. Essa característica, por ser da natureza do negócio, já acontecia no Recôncavo Baiano no século XVI e continua ainda hoje.

Agrícola e indústria é um só processo. Estão separados apenas porque a fase agrícola tem de ser ao sol e chuva, e a fase indústria tem de ser à sombra e seco, no barracão. " Valmir Barbosa

44

Consultor da V Barbosa Engenharia

A concentração da cultura ao redor da indústria é um fator positivo para a sustentabilidade do negócio, pois reduz o impacto dos transportes e viabiliza a reutilização e a reciclagem dos resíduos de volta ao campo. Sobre a longevidade da soqueira, podemos considerar que ela é o principal patrimônio biológico da empresa e depende dela cerca de 80% da produção. A longevidade é resultado do plantio e do trabalho de manutenção da soqueira. A qualidade do plantio não pode ser negligenciada como tem acontecido nos últimos anos, em nome do cumprimento de metas semanais, momentâneas e muitas vezes equivocadas. A manutenção da soqueira depende de tecnologias e da educação de pessoas. Mais do que treinar e estabelecer procedimentos, é preciso desenvolver nos funcionários hábitos dirigidos para o respeito e a preservação da soqueira. É preciso investir no desenvolvimento e na aquisição de tecnologias para o tráfego sem pisoteio. Em um experimento realizado na Usina Santa Elisa, em 1996-98, foi avaliado o efeito do pisoteio, que indicou perdas de até 30% da produtividade no corte seguinte. Isso pode ser observado em qualquer canavial onde houve pequenos trechos com pisoteio. Para possibilitar o tráfego sem pisoteio, o desenho das linhas de plantio tem que ser adequado. Atualmente, ainda em muitos casos, o tráfego tem sido fortemente prejudicado pela intensa presença de curvas de nível embutidas. O controle de erosão pode ser mais eficaz por uso de outras práticas. A facilidade de tráfego quando as linhas de cana têm um desenho lógico proporciona grandes reduções de custos pelo aumento de rendimento das operações e ganhos de produtividade da cana pela sua realização na “hora certa” e pelo menor pisoteio. Os tratos de soqueira, relativos à nutrição e à proteção fitossanitária, são operações com menor trabalho mecânico e maior trabalho “biológico”, por isso são mais discretos e sujeitos a desatenção. É necessário planejamento e acompanhamento atencioso, caso contrário, os tratamentos fora da hora serão ineficazes e resultarão em perda de produtividade.


Opiniões Esse mau resultado será percebido com o custo alto, ou quando não haverá mais tempo ou na colheita de menor produtividade. Sobre a área de plantio cana-de-ano, seja de outono-inverno ou de primavera, pode-se considerar o canavial como um painel solar. Cada semana sem cana para fixar a energia incidente representa desperdício de energia solar. Quando realizado o plantio de cana-de-ano, a área de reforma produz cana no mesmo ano, com produtividade por área colhida menor, mas com maior produção totalw e menor tempo de pay-back do plantio. Sobre a área de viveiro, é preciso reduzir o consumo de mudas e, assim, fazer sobrar mais cana para a indústria. A redução do consumo de mudas pode ser por melhoria da qualidade das mudas, por melhoria dos equipamentos, da operação e do desenvolvimento de outras tecnologias. Essas melhorias podem ser por ações simples, como usar uma chapa lisa na entrada da colhedora e uma correta profundidade de cobrição da muda no sulco. Boa contribuição tem sido pelo uso de fungicidas, hoje bastante eficazes. Outras técnicas antigas, como gemas isoladas e mudas pré-brotadas, que podem ser melhoradas pela mecanização e tratamento químico, são muito interessantes e devem receber investimentos para serem viabilizadas. A produtividade, além da relação direta com a produção, é um dos mais importantes fatores para a redução do custo unitário. Grandes ganhos de produtividade de cana podem ser obtidos apenas pela melhor qualidade e timing das operações de rotina, sem aumento de custos.

Outros aumentos de produtividade requerem investimentos, que devem ser justificados pela relação custo-benefício. O teor de ART da cana depende de 5 componentes: genética, ciclo anual, controle fitossanitário, uso de maturadores e limpeza na colhedora. Produzir melhor, tratando-se de commodities, é assegurar o fornecimento conforme expectativa do mercado. Isso implica, no curto prazo, executar os processos normais de produção com planejamento, disciplina e rigor técnico. Com atenção para ajustá-los às variações do ambiente climático, financeiro, etc. E, no longo prazo, implica adotar tecnologias sustentáveis, com uso racional de recursos e adequada qualidade de vida de pessoas e famílias envolvidas. Os custos devem ser analisados como custo unitário, seja de uma operação ou do produto final. E sua otimização pode ser pela redução de custos totais ou por aumentos de produtividade. No contexto atual, dois componentes complexos dos custos devem receber atenção: as produtividades de cana e uma mudança na postura de planejamento, valorizando a busca por soluções racionais ao invés de corte de custos. Mudanças de relações trabalhistas e novos serviços exigidos do setor, especialmente nas áreas financeiras, trabalhistas e ambientais, resultaram em aumentos de custos que, na verdade, devem ser entendidos como aumento de valor. Por fim, produzir mais, melhor e com menores custos pode ser realizado quando a empresa tem um forte equilíbrio entre o planejamento e a operação.


irrigação e fertirrigação

um grupo de estudo que nasce grande O Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-Açúcar (GIFC) surgiu por iniciativa de um grupo de fornecedores de equipamentos para irrigação e de uma empresa de consultoria, interessados em difundir o uso da irrigação em cana-de-açúcar, por entender que essa prática poderia contribuir para a recuperação da produtividade agrícola e da quantidade de sacarose de nossos canaviais, índices que têm sofrido quedas históricas nos últimos anos, principalmente na região Centro-Sul do Brasil. Num primeiro movimento, foi formado um grupo de estudo denominado a Cana Pede Água. Após um ano de existência, baseados nas muitas reuniões realizadas, esse grupo sintetizou toda a massa de informação recolhida sobre os diversos temas ligados à pratica da irrigação de cana no Brasil, evidenciando, de forma clara, as dificuldades que o produtor encontra para iniciar ou aprimorar a prática racional e economicamente viável da irrigação e/ou da fertirrigação de cana. Essas reflexões geraram uma série de questionamentos que culminaram em uma lista de perguntas, ainda sem respostas, que precisavam ser elucidadas para que a irrigação conseguisse ser um diferencial de produção e produtividade no País, contribuindo de forma efetiva para se recuperar os níveis de produtividade de cana anteriormente apurados, considerando as condições edafoclimáticas regionais. As questões de destaque foram: 1. Como deve ser o manejo da cana irrigada para gerar mais sacarose? Cortar a irrigação 30 dias (ou mais) antes da colheita é o melhor caminho? E como usar os maturadores? Quais os maturadores que dão melhor resposta à cana irrigada? 2. Cana irrigada é mais suscetível a pragas? Os controles de pragas a serem feitos são os mesmos para cana de sequeiro? 3. Cana irrigada é mais suscetível a doenças? Há diferenças quanto à cana de sequeiro? 4. O fato de a cana irrigada fechar mais rápido e se poder controlar a umidade para uso dos herbicidas reduz o custo de controle de daninhas? 5. Há vantagens adicionais da quimigação (levar químicos ao canavial com a irrigação) frente ao manejo tratorizado da cana de sequeiro? 6. A colheita mecanizada impacta mais ou menos o canavial irrigado? Há mais perdas? E impurezas vegetais e minerais? A velocidade de trabalho da colhedora será menor? 7. Há vantagem na partição da nutrição nitrogenada da cana irrigada? Pode-se reduzir o custo com adubação através da maior eficiência de sua distribuição?

8. Quais são as variedades de cana mais responsivas à irrigação? Os ambientes de produção interferem na escolha das variedades de cana a serem irrigadas? 9. Quanto uma cana que não enfrenta a restrição de falta de água pode produzir a mais que uma cana de sequeiro? Quais fatores tornam-se as principais restrições com a água atendida? 10. O cálculo do déficit hídrico muda significativamente, considerando dados médios decendiais em comparação com os dados mensais? 11. Cana irrigada apresenta mais ou menos ATR do que a cana de sequeiro? 12. O comportamento de queda de produtividade corte a corte da cana de sequeiro é igual ao da cana irrigada ou é menor? 13. Se a soca da cana irrigada apresenta sua maior taxa de crescimento pouco antes de ser cortada com 12 meses, por que ela não é cortada com 13 meses ou até mais? 14. A definição do espaçamento de cana para ganho de produtividade é relevante para canaviais irrigados? Quais os melhores espaçamentos para a cana irrigada? 15. A cana irrigada minimiza a diferença entre diferentes ambientes de produção, ou seja, é uma solução para os ambientes D e E? 16. A cana irrigada produz mais palha do que a cana de sequeiro? Se sim, quanto? 17. A cana irrigada é mais apta para projetos de cogeração via bagaço e palha? 18. Para se atingir o potencial produtivo da cana irrigada é necessário que o solo esteja sempre úmido, ou seja, que a Evapotranspiração Potencial da Cana (ETpc) esteja sempre 100% atendida? 19. Caso a cana não necessite ter sempre sua ETpc em 100% para atingir sua produtividade potencial, quanto abaixo dos 100% seria o limite técnico-econômico (ou seja, qual a eficiência ideal de atendimento da ETpc)? 20. Pode-se traçar um paralelo entre a eficiência de atendimento da ETpc e a eficiência de funcionamento do sistema de irrigação escolhido? 21. No caso da cana, além de se irrigar o canavial ao longo de todo o seu ciclo produtivo, há outras alternativas econômicas a serem consideradas, tais como: a. irrigar o canavial no último mês antes de colher; b. irrigar o canavial a ser colhido no final da safra; c. irrigar o canavial colhido no meio da safra para acelerar sua brotação; d. irrigar o viveiro de mudas para ter 2 colheitas por ano; e. irrigar o canavial a ser reformado para se obter mais um corte no início da safra seguinte e reformá-lo logo em seguida.

O GIFC atualmente com 29 participantes, dentre consultores, fornecedores de cana e representantes de 83 usinas, aproximadamente 20% das usinas do País. " Marco Antônio da Fonseca Viana

46

Presidente do GIFC - Grupo de Irrigantes e Fertirrigantes


Opiniões A partir desse momento, o grupo entendeu que o trabalho de estudo, análise e divulgação das melhores práticas de irrigação deveria contar com a participação de produtores de cana e técnicos da área de irrigação. Assim, convidou alguns dos participantes das muitas discussões havidas para formalizar a montagem de um grupo que tivesse por meta discutir de maneira profunda esse polêmico e importante tema, o que culminou na formação do GIFC, atualmente com 29 participantes, dentre consultores, fornecedores de cana e representantes de 83 usinas, aproximadamente 20% das usinas do País. O GIFC é uma associação sem fins lucrativos, que reúne representantes das empresas fabricantes de produtos e subprodutos derivados da cana-de-açúcar, produtores de cana-de-açúcar, além de profissionais liberais, consultores, instituições de pesquisa e prestadores de serviço ligados à irrigação e fertirrigação de cana-de-açúcar sem vínculo com fabricantes de sistemas, peças e acessórios de irrigação e/ou fertirrigação. Seu principal objetivo é promover, incentivar e fomentar a evolução dos conhecimentos de toda e qualquer forma de irrigação e fertirrigação de cana-de-açúcar. O grupo de estudo do GIFC entende que irrigação da cana, observando as condições edafoclimáticas regionais por meio da definição dos ambientes de produção e seus respectivos manejos de épocas de plantio e colheita, associada às práticas de adubação e, em especial, de demais tratos culturais e do manejo varietal adequado, certamente resultará em benefícios acima dos já conseguidos até agora em regiões já tradicionalmente usuárias de irrigação e fertirrigação. Temos como premissa que precisamos apren-

der como usar toda água disponível na natureza, oriundo do solo, chuvas e/ou transferida dos mananciais para o solo e/ou para as plantas, de acordo, principalmente, com a evapotranspiração potencial regional e, inclusive, microrregional. Os resultados desses experimentos poderão responder ao questionamento inicialmente listado, bem como direcionarão as boas práticas nas operações da irrigação de canaviais e ajudarão a entender melhor a importância e a influência da irrigação de cana para a sociedade brasileira de forma geral. A primeira reunião do GIFC, realizada em fevereiro de 2013, na sede do IAC de Ribeirão Preto, teve a intenção de dar sustentação aos trabalhos da nossa equipe técnica, que começa a se formar. Profundos estudos sobre irrigação e fertirrigação, desenvolvidos no Brasil e no exterior, tem sido apresentados nestas reuniões mensais, com a participação de cientistas como Marcos Landell, Hélio do Prado, do indiano Soman Padmanabhan, bem como de representantes do Governo Federal, expondo informações efetivamente práticas sobre o regime de isenção de impostos federais na aquisição de sistemas de irrigação. Com ações dirigidas como essas, o GIFC busca conduzir seus trabalhos de forma a orientar os futuros experimentos de campo e direcionar, de forma prática, os investimentos em tais sistemas. No site "www.gifc.agr.br", está sendo disponibilizada uma biblioteca virtual, com as produções desse grupo de estudo. O GIFC não deseja ser um mero promotor de palestras, mas sim de divulgação do aproveitamento desse recurso, que entendemos ainda não ter sido devidamente explorado de forma agronomicamente correta, economicamente viável e ambientalmente responsável na produção de cana-de-açúcar: a água!


logística

Opiniões

logística: problema ou solução A área de transporte e logística merece atenção especial das usinas. É diferencial de competitividade para as empresas que fazem uma boa gestão, gerando mais produtividade com menores custos operacionais. Desde o plantio, corte, carregamento e transporte da cana-de-açúcar (CCT), transporte e logística de insumos, até a distribuição do produto acabado, a logística impacta em mais de 30% dos custos globais das usinas. A boa performance logística começa na homologação dos fornecedores; um bom programa de desenvolvimento de fornecedores (PDF) traz garantia de qualidade e alta performance. Possibilita a visibilidade antecipada dos custos conforme tabelas pactuadas e estudo de volume, bem como garantia de um alto nível de serviço conforme as necessidades da empresa.

Colaboradores motivados e capacitados são muito mais eficazes e produzem muito mais. Na minha visão, o comprometimento dos fornecedores de equipamentos também é um fato importante para se obter redução de custos e melhora de produtividade. Eles devem comprometer-se efetivamente com seus clientes, garantindo os resultados ofertados na proposta comercial, além de assessoria e acompanhamento técnico para garantir ao cliente a “produtividade oferecida na venda do equipamento”. A boa aplicação, operação eficaz e manutenção adequada são fundamentais para extrairmos o melhor da tecnologia de cada equipamento adquirido. Uma empresa sustentável busca parcerias sustentáveis através de relações sustentáveis; essa visão aprofundada dos for-

Para produzir mais, melhor e com menos custo em 2013, não existe fórmula mágica. O que precisamos é formar parcerias estratégicas e aproveitar o que parece ser uma safra promissora. " Ricardo Amadeu Silva Diretor-presidente da Transportadora Especialista

Orçamentos bem planejados, mensurando-se todas as bases da operação e possíveis variáveis, exigem planejamento antecipado e integração de todas as áreas da empresa. Muitas usinas estão dando atenção de qualidade para esse tema, incluindo em seu planejamento estratégico, e já começam a colher bons frutos da logística bem planejada. Penso que as usinas devam se integrar mais. Vejo a possibilidade de muitos ganhos com a aplicação de uma logística compartilhada, tanto na área de insumos, como com parcerias estratégicas no escoamento da produção. E, principalmente, quando as unidades de negócios estão localizadas dentro de um mesmo cluster regional. Existem muitos casos de sucesso no CCT, transporte de insumos e logística de produto acabado, que podem se “somar” à expertise de cada um e trazer ganhos para todos. A competitividade das empresas dependem fundamentalmente do planejamento e da gestão dos processos. Em tempos de escassez, é necessária alta performance, que só alcançaremos com a capacitação dos colaboradores e dos parceiros, o desenvolvimento de pessoas e a retenção de talentos, premissas para melhorar a produtividade com baixos custos em todas as áreas da empresa. E isso não é diferente no transporte e na logística.

48

necedores do setor bioenergético tem importância adicional também para separar o joio do trigo dentro dessa cadeia produtiva. A logística eficaz é integrada, e a boa comunicação na logística elimina muitos gargalos, riscos, atrasos nos cronogramas e gastos desnecessários. Facilita a redução de estoques dos almoxarifados e garante a satisfação dos clientes e a estabilidade da empresa. A economia pode superar os 20% em toda a cadeia produtiva. Infelizmente, vivemos em um país em que o setor bioenergético convive com enormes gargalos de infraestrutura, falta de regulamentação e de fiscalização, problemas portuários, alto custo dos insumos, alta carga tributária e falta de incentivo. O transporte e a logística representam 10% do PIB do Brasil, e, anualmente, são perdidos mais de R$ 22 bilhões nas estradas, com mais de 30 mil mortes, impactos sociais e ambientais. A frota sucateada e as estradas ruins causam um grande impacto em nossa safra, portanto não podemos esperar ajuda vinda através do poder público. Para produzir mais, melhor e com menos custo em 2013, não existe fórmula mágica. O que precisamos é formar parcerias estratégicas e aproveitar o que parece ser uma safra promissora.



manutenção e transporte

Opiniões

gestão por processos, eis a questão Questão de percepção, cada crise em evidência do setor sucroalcooleiro sempre se posiciona como sendo a mais terrível, mais tenebrosa e avassaladora de todas. É evidente que maiores danos ocorrem quando, coincidentemente, são comprovados prejuízos nos dois principais pilares de sustentação: produção e preço. Caso da situação atual, embora, historica e surpreendentemente, venha surgindo, no final dessas fases, como consequência, oportunidades “milagrosas” que proporcionam a retomada do setor. Se bem que a proporcionalidade do agravamento dessas crises tem respaldo na diversidade de suas causas regionais: clima, solo, topografia, preços, logística. Portanto a cura jamais poderá acontecer com um único medicamento. Atirar no que se vê e acertar no que não se vê muitas vezes tem sido interpretado como descobrir novos caminhos para garantir a sobrevivência ou mesmo a retomada do sucesso. Na maioria das vezes, a solução ou parte dela está imperceptível, omissa no dever de casa. Então, diante dessas situações adversas, fazer diferente, analisar ociosidades, retirar alguns fatores de produção da inércia, investir no princípio da melhoria contínua, ou seja, esquecer o infortúnio, antes motivar, inovar com otimismo, confiante sempre na recuperação. Acreditamos, sim, na intervenção criteriosa de reorganização dos processos, reestruturando suas matrizes, atividades e tarefas, principalmente no que diz respeito ao critério de distribuição de responsabilidades e fluxo de informação e comunicação. Isso constitui o marco inicial, a base de sustentação para se promover a evolução e seu enxugamento.

Para esse sistema de reconhecimento, o mais coerente seria a distribuição de quatro faixas, em que, para a primeira, não haveria incentivo; na segunda, o incentivo seria baixo; na terceira; seria o valor considerado normal; estabelecido para meta; e, na quarta, com um reconhecimento superior bem atrativo. Os processos, com todas as suas características e peculiaridades, se tornam indispensáveis algumas ferramentas da qualidade, sendo consideradas facilitadoras no momento da execução e, por consequência, contribuir para redução ou total eliminação do retrabalho em algumas tarefas. As mais usadas são: brainstorm (tempestade de ideias), fluxograma (esquematiza a sequência das ações), diagrama de pareto (eliminando as duas maiores causas que geram problemas na tarefa, ficarão resolvidos 90% deles), histograma (determina frequência ideal para execução de uma tarefa), malha cliente x fornecedor (planilha de avaliação que, além de expressar a satisfação do cliente com relação ao seu fornecedor, também melhora a comunicação entre ambos). O desenvolvimento dos processos deverá ser direcionado no sentido de contribuir não apenas para o desenvolvimento econômico, mas ser organizado de tal modo a cumprir a responsabilidade social, atendendo aos requisitos da normalização, seja ela nacional (ABNT), regional (Mercosul), ou internacional (ISO). Nesse cenário, atenção especial deverá ser direcionada para normas de segurança do trabalho e saúde do trabalhador, incluindo, nos procedimentos operacionais, detalhes específicos em consonância com os requisitos da norma.

a proporcionalidade do agravamento dessas crises tem respaldo na diversidade de suas causas regionais: clima, solo, topografia, preços, logística. Portanto a cura jamais poderá acontecer com um único medicamento. " José Soares Araújo Gerente de Manutenção e Transporte da Usina Serra Grande de AL

As descrições de todas as etapas deverão ter revisões compartilhadas com toda a equipe e elaboradas através de consenso. As novas metas de produção e produtividade deverão ser definidas com clareza, facilmente mensuráveis, justas e flexíveis, para atender às adversidades durante a execução do seu planejamento, de modo a manter a equipe motivada, sempre acreditando na possibilidade de atingir os resultados almejados. Essas metas constituem a chave principal dos processos, como geradoras de subsídios para elaboração do plano de recursos: transporte, máquinas, insumos, materiais e mão de obra. O sistema de reconhecimento é indispensável para manter o interesse das equipes que se destacaram com os melhores resultados.

50

Quando se analisa com mais profundidade, tanto no dimensionamento de recursos como no acompanhamento dos resultados de todos os processos, logo se percebe que as tarefas feitas por número maior de pessoas apresentam um grau de dificuldade mais elevado na sua condução, um maior índice de inconformidade e resultados mais variáveis. Portanto, para que os objetivos determinados na planilha de gestão dos processos sejam resultados promissores, indispensável fazer investimentos em treinamentos e se certificar, através de ferramentas de aprendizado, de que a equipe está preparada, não só para executar as tarefas do processo, como está motivada para contribuir para a eficácia dos processos e para a redução de custos. Faça acontecer e espere pra ver. Eu já vi.



a lei da balança

Opiniões

atividade

complexa

Algumas usinas, principalmente em Goiás, Minas Gerais e São Paulo, de uma hora para outra, começaram a sofrer sanções, e até interdições, pelo poder publico, via DRT, devido ao tráfego de suas composições de transporte de cana, cujo peso total combinado (PBTC) conflita com a Lei da balança, constituindo fator de insegurança para o trabalhador-motorista. O próprio ticket da balança da usina serve como prova, e o fiscal do DRT é acompanhado de forças policiais, portando armas de grosso calibre. (Em usinas, existem trabalhadores e não bandidos!)

Mas... e a tara do equipamento, ao redor de 10-12 toneladas? É a tara que, somada à carga líquida, gera o conflito com a Lei da balança. Tais equipamentos foram homologados pelo Contran e comercializados às centenas no Brasil. O empresário canavieiro adquiriu de boa-fé tais equipamentos, pelas razões já citadas. Ao rigor da Lei, esses implementos rodoviários já nasceram “ilegais”. Bem, e agora? Será muito improdutivo, caro e difícil de controlar o tráfego desses equipamentos, com a caixa de carga “semicheia” ou reduzir o tamanho das caixas de

O próprio ticket da balança da usina serve como prova, e o fiscal do DRT é acompanhado de forças policiais, portando armas de grosso calibre. (Em usinas, existem trabalhadores e não bandidos!) " Luiz Arnaldo Farina Nitsch Consultor da Sigma Consultoria e Assessoria Automativa

Paciência, nossa legislação complicada, e mais ou menos democrática, permite isso. Não se pode ignorar o fato de que o setor canavieiro, nos últimos dez anos, investiu pesada e gradualmente em rodotrens, cuja configuração se adapta muito bem à modalidade chamada “bate-e-volta”, no legítimo direito de tentar reduzir os seus custos de corte, transbordamento e transporte (CTT) atualmente já quase beirando um terço do preço da tonelada colocada nas esteiras transportadoras da indústria. Os rodotrens “grandes”, cujas caixas de carga de 11,8m e 12,5m de comprimento, por 4,2m de altura e 2,4m de largura, acomodam, quando cheias, mais de 90mᶟ de cana picada. Como cada mᶟ de cana picada pesa de 350 a 450 quilos, dependendo da variedade e da “arrumação”, já era sabido, desde a concepção do projeto, que a carga líquida, naqueles implementos rodoviários, sem muita dificuldade, estaria ao redor de 34 toneladas. Pela Lei da balança, um implemento rodoviário, suspenso por quatro eixos, poderia transportar, no máximo, aquelas exatas 34 toneladas.

52

carga para 9.6m, para ficar dentro dos limites de peso legais, muitas das quais foram “espichadas” para 12,5m há algum tempo. Caramba, é quase surreal! Assim, é imperiosa uma flexibilização da Lei para quem já tem e opera tais veículos. Foram feitos muitos, racionais e competentes estudos de redução de peso dos implementos rodoviários, utilizando-se novas ligas metálicas, novas suspensões desprovidas de feixes de molas convencionais, eixos e freios fundidos em ligas leves, etc., mas tudo isso, além dos incrementos nos custos envolvidos e redução das cargas líquidas, quando comparadas às ora transportadas, somente serviriam para novas aquisições. E como ficam as centenas de composições hoje em uso? O problema é complexo, e, num importante seminário de mecanização, realizado recentemente, um conceituado advogado de Ribeirão Preto, que ali estava convidado para palestrar sobre o novo regime de descanso dos motoristas, deixou claro, que esse affair com a Lei da balança é



a lei da balança bem mais amplo e complexo que o assunto dos motoristas, gerando muito trabalho para seu escritório. Todavia existe uma possível solução técnica exequível e já bem testada: uma usina goiana, de administração arrojada e competente, mas que foi atingida pelas sanções, decidiu patrocinar nossa recomendação de ensaio, gastando pouco mais de R$ 87.000,00 para modificar um desativado e velho rodotrem, de 9,8m , “espichando-o” e dotando-o de doze eixos, ao invés dos tradicionais nove eixos. A Lei da balança preconiza que eixos triplos próximos- despejem 25,5t de peso no solo. (Aliás, já é comum, atualmente em nossas rodovias, verem-se os chamados “bitrenzões”, rodando com dois conjuntos de eixos triplos.) Com essa configuração, destacada no desenho, os rodotrens poderiam trafegar com 64t de carga líquida, mais a tara, legalmente. Mas (sempre existe um “mas”), o Contran teria de homologar que o PBTC dessa composição fosse para 96T, 22t a mais do que o máximo permitido pela Lei, que é de 74t. Atualmente, os rodotrens das usinas de grande moagem já rodam com PBTC’s iguais ou próximos das 96t. Não se perceberam, até agora, danos específicos nos pisos asfálticos das rodovias (a “buraqueira”, quando presente, se deve à má qualidade do piso) ou qualquer abalo em obras de arte, e, muito menos, neles próprios (pneus, eixos, suspensão, etc., – tais composições trafegam em estradas próprias, de terra, a maior parte do tempo, sendo que, em metade das viagens da jornada diária, vazias.) Mas, sob a ótica da Lei atual, quando carregadas, estariam excedendo os valores limites, permitindo atuações e sanções. O rodotrem-protótipo, além do escopo da legalidade, mostrou várias vantagens técnico-operacionais, das quais destaco:

54

Opiniões • Freia muito melhor (são três eixos adicionais para brecar a mesma carga líquida); • Desapareceram os problemas de quebras de molas; • A durabilidade dos pneus aumentou muito mais do que se poderia supor (o peso por pneu ficou bem abaixo dos índices de carga máximos permitidos), e o arrasto, nos tandens de três eixos, também surpreendeu pelo seu baixo coeficiente; • a estabilidade lateral ficou muito melhor; • a dificuldade de manobras em carreadores e pátios de transbordagem não aumentou. • os cavalos mecânicos de 520 CV não “perceberam”, em nada, as alterações executadas nos implementos rodoviários, apesar de um aumento nas suas taras. Dessa forma, com um investimento de médio valor, é perfeitamente possível modificar os rodotrens atuais, enquandrando-os na Lei e transportando as mesmas cargas líquidas anteriores. A essa altura do campeonato, digo, safra, as empresas não podem ter seus custos aumentados ainda mais – se, por exemplo, uma determinada empresa tiver 24 rodotrens para transportar sua safra e tiver que rodar, por força da Lei, dentro do peso de balança, terá de, na melhor das hipóteses, adicionar mais oito composições à sua frota. Sem falar dos 24 motoristas, mais os folguistas, mais o pessoal da manutenção e o subuso dos cavalos mecânicos, atualmente com potências entre 420 e 540 CV, para arrastar os PBTC’s vingentes por enquanto. Tudo isso posto, será que não vale a pena nos unirmos e arregimentarmos forças para levar ao governo nosso legítimo pleito de flexibilização da Lei da balança para o setor canavieiro? Não será fácil, sem a menor dúvida, mas, por acaso, o nosso ramo de negócio esteve fácil algum dia?



ensaio especial

começar

Opiniões

de novo

Para uma abordagem prática e objetiva da proposta “como produzir mais, melhor e com menores custos”, é necessário entender alguns vetores que atuam na equação Produção x Custos e o que nos fez perder o status de líderes mundiais em custos. Quero abordar o tema Volume (produção), Qualidade (melhor) e Custos, sem perder de vista que nossa fonte de receita é uma commodity que não aceita, no seu valor, o simples repasse de custos crescentes de produção de sua matéria-prima. Estamos falando de processo de produção agrícola de uma gramínea, a cana-de-açúcar, em larga escala, portanto sofrendo influência direta de clima e de regime de chuvas, na qual a irrigação plena ainda não é uma prática adotada; portanto, como clima é um fator incontrolável pelos meios de produção, proponho isolá-lo da abordagem. O que temos, então, de fatos novos nessa cultura secular e que podem ter algum efeito relacionado na equação citada são: 1. intensificação da mecanização; 2. incidência de regulatórios. Pretendo, então, uma abordagem ao tema proposto pela interferência desses dois vetores elencados. A mecanização de colheita, apesar de não ser uma prática nova nem desconhecida, nunca havia sido aplicada com tal intensidade e regularidade como nas últimas safras.

Eram raras as empresas que a utilizavam na totalidade de suas áreas, tampouco em toda a extensão da sua safra. Muitas unidades ainda se davam (e que ainda se dão) ao luxo de escolher época e local de colocar sua “escola na avenida”. Quanto ao plantio mecânico e suas derivações, como o híbrido, é prática nova que está sendo implantada de forma intensa e sem as adequações necessárias em sua logística, seus terrenos e parque de máquinas. São inevitáveis e inquestionáveis os danos aos rizomas, a compactação, as perdas de matéria-prima e o teor de impurezas que a colheita mecânica, mesmo quando racionalmente aplicada, provoca nas lavouras, mormente se obrigada a operar em solos úmidos e terrenos não preparados e/ou adequados para a prática. Como também inquestionável e até agora inevitável, o consumo de mudas que o plantio mecânico exige, admitindo-se que podemos conseguir uma qualidade de plantio (stand de plantas) desejável. Mas percebam que, para todas as modalidades de plantio mecânico, um processo é único: a colheita mecânica de mudas e, impreterivelmente, em épocas de chuvas, portanto aqui se aplicam os efeitos tratados no parágrafo da mecanização da colheita sobre os rizomas, sobretudo sobre nosso mais sensível canavial, os campos de mudas. Sem nenhuma apologia ao passado de operações manuais, mas o que temos aqui são vetores que afetam de forma negativa, reduzindo a qualidade e a produção/volume, e desconsiderar esse fato pode ser perigoso para sua estratégia.

Analisem que toda a evolução de tecnologia de construção de veículos e equipamentos rodoviários, bem com as técnicas e padrões de construções viárias, se submetem passivamente à uma NORMA (...não é LEI) de 4 décadas e não se abre questão sobre o fato. " Humberto César Carrara Neto

Gerente Agrícola da Usina São João Açúcar e Álcool

Como também importante notar que países com mais histórico de mecanização de plantio adotam a prática de manejar seus campos de mudas, de forma a obter um material mais fibroso, com menor diâmetro e alta densidade de gemas/m de colmo, o que propicia um baixo consumo de mudas/ha. Precisamos buscar alternativas químicas e/ ou físicas para adequação de nossa muda, pois uma avaliação da taxa de conversão hectare colhido de muda/hectare

56


informe publicitรกrio

MAY 15th 2013

ISO DATAGRO NEW YORK SUGAR & ETHANOL CONFERENCE 2013

THE WALDORF ASTORIA HOTEL

Sugar Surplus Weighing on the Market? 7MQYPXERISYW -RXIVTVIXEXMSR 4SVXYKYIWI )RKPMWL 7TERMWL

(IPIKEXIW

7TIEOIVW

TECHNICAL EVENT OF THE NEW YORK SUGAR DINNER

PROGRAMME: PANEL 1| MOVING CLOSER TO CRUSH CAPACITY IN BRAZIL: LOCAL AND GLOBAL IMPACT / MAIN DRIVERS OF THE 13/14 BRAZILIAN CROP PANEL 2 | GLOBAL STRATEGIES FOR SUGAR AND ETHANOL: MORE INTEGRATED MARKETS? PANEL 3 | NEEDED LIQUIDITY IN ETHANOL AND SUGAR FUTURES IN BRAZIL: POSSIBLE TO ACHIEVE? PANEL 4 | FLAGS TO WATCH ON ANOTHER SURPLUS YEAR IN SUGAR PANEL 5 | RFS-2 TARGETS AND THE CHANGING REGULATION ON BIOFUELS IN THE US -- CONSEQUENCES TO ETHANOL TRADE PANEL 6 | CONTAINER SUGAR EXPORTS -- FUTURE TRENDS AND CONSTRAINTS PANEL 7 | MACROECONOMICS OF SUGAR: EXTERNAL & DOMESTIC ENVIRONMENT PANEL 8| NEW CHALLENGES IN THE FREIGHT MARKET -- IMPACT ON SUGAR / ETHANOL COMPETITIVENESS PANEL 9 | ASIAN SUGAR SUPPLY AND DEMAND: PROSPECTS UNTIL 2020

SPONSORS

APOIO SUPPORT

ORGANIZATION

ORGANIZAร ร O

SPECIAL SUPPORT

WEB PARTNER

MEDIA PARTNER

OFFICIAL AIRLINES

GRO

www.isodatagroconferences.com

PARTNER HOTEL


ensaio especial plantado e a valorização dessa muda, baseada em produção industrial cessante, vai nos remeter à dimensão do problema. Desconsiderar que a mecanização de colheita foi fortemente impulsionada por um regulatório, o plano de eliminação de queimadas, e que outros, tais como áreas de vivência, sanitários móveis, NR 31, levantamento e monitoramento de flora e fauna, lei da balança, enlonamento de cargas, proibição de terceirizações, certificações, etc., estão e estarão influenciando de forma positiva, aumentando os custos de produção. Novamente, não quero negativar as importantes conquistas que produziram bem-estar e segurança no trabalho para nossos colaboradores, tampouco os benefícios ambientais conquistados para nossas comunidades, mas desconhecê-los e desconsiderá-los vai nos colocar, enquanto profissionais executores, em uma desconfortável condição passiva de aceitação e de extinção de um fórum onde necessariamente se deve discutir, não se devemos aplicá-los, mas de que forma e em que tempo. Explico-me melhor exemplificando um regulatório que brevemente nos assolará. A lei da balança, que na verdade não é lei mas norma, que nos coloca como transgressores, quer seja pela tipificação da composição de transporte utilizada (rodotrem), como pela carga que o mesmo carrega. Estima-se que a sumária aplicação de uma normatização de 1960, implicará em custos adicionais de 20 a 30% no transporte da matéria-prima. Ora, em que fórum estamos discutindo a capacidade e a categoria das obras de arte e o pavimento de nossas rodovias, a capacidade de tração e frenagem de nossos caminhões, a possibilidade de se operar com composições múltiplas de 12 eixos sem colocar em risco o condutor e transeuntes? Analisem que toda a evolução de tecnologia de construção de veículos e equipamentos rodoviários, bem com as técnicas e padrões de construções viárias, se submetem passivamente a uma NORMA (...não é LEI) de 4 décadas e não se abre questão sobre o fato. Quero concluir o raciocínio proposto sob duas ópticas, mecanização e regulatórios, que produzir mais e melhor resume-se em retirar mais açúcares e fibras com qualidade por unidade de área e que a intensificação da mecanização, apesar de imperativa, é contrária à tese. Temos que tratar de mitigar os efeitos que a prática impõe, procurando, num ambiente de P&D, a disponibilização de variedades mais adaptadas e menos sensíveis à agressão mecânica, a práticas de manejo de mudas e de equipamentos dosadores de gemas que reduzam o volume de mudas consumido, ao mesmo que, no ambiente “caseiro”, no dia a dia de nossas empresas, desenvolvermos e aplicarmos boas praticas preservacionistas e espaçamento de plantio com

58

Opiniões georreferenciamento de forma a se localizar a zona de agressão fora do espaço de exploração agronômica. Ainda na linha do aumento de volume e dentro do ambiente de P&D, a transgenia, a seu tempo, certamente irá trazer grande contribuição. Mas vamos nos debruçar mais sobre o vetor mecanização intensiva para explorar um “filão” importante na busca da produtividade com menores custos, sem muito tecnicismo e sem muita pirotecnia, orientado pela maneira “caseira” de análise de fatos, admitindo-se que uma máquina está disponível para o trabalho durante 24 horas/ dia e, sob os ensinamentos de Mialhe com o seu “Máquinas Agrícolas, Ensaios e Certificações” de 1996, convido-os a revisitar o conceito de Eficiência Global, ou Capacidade Operacional de Longo Tempo, que reflete o quanto das 24 horas de um dia, estamos conseguindo efetivamente produzir resultados operacionais. Ou seja, quantas horas do dia uma colhedora põe cana sobre um transbordo, quantas horas do dia uma plantadora lança rebolos ao sulco ou um caminhão transporta peso sobre seu chassi? Temos recursos tecnológicos disponíveis e com custos acessíveis para que essa medição seja feita sem um exército de apontadores e digitadores e de forma automática, de forma que não custará ficarmos “corados de vergonha” ao descobrirmos o quão longe estamos da otimização dos ativos mais significativos da empresa. Quando efetivamente enxergarmos esses números, uma tempestade de ideias e perguntas aflorarão nas mentes mais criativas, do tipo: por que o tanque de insumos é tão pequeno? Por que o reabastecimento é tão lento? Por que tantos tempos auxiliares ou ociosos? Por que faço tanto transporte de máquinas entre fazendas? Por que levo uma máquina de cada vez? Por que tanta curva? Por que tiros tão curtos? Por que...? Considero o vetor “Logística de Operações” um canal ainda mal explorado pela gestão na equação Produção x Custos no nosso segmento e vejo, aqui, uma janela de oportunidade frente a um cenário com poucas chances de grandes ganhos. Devemos também explorar o vetor Regulatórios de forma mais construtiva e contributivo, sem esquecer que nossa força motriz é uma commodity que não aceita o simples repasse de custos adicionais, mas também sem negar que tecnologias evoluem tal e como as necessidades e conquistas socioambientais; portanto é imperioso a criação de fóruns representativos para discussões e adequações de normas, bem como de sua aplicação nos meios produtivos. Longe de preconizar uma postura retrógrada, mas também distante de uma postura passiva onde a culpa já nos foi imputada em cartórios, é imperioso criar ambiente para se discutir a aplicação de normas retrógradas que não captaram os desenvolvimentos tecnológicos dos sistemas que se propõem controlar.


Especializada em leasing operacional e aluguel de caminhões, utilitários, automóveis e ônibus para empresas, a Rodobens Leasing e Locação oferece a opção financeira mais econômica para compor a sua frota. Possui parceria estratégica com todas as montadoras e implementadoras, e oferece serviços de gestão especializada para sua empresa economizar e ter mais eficiência. E tem mais: ganho de escala, possibilita a remuneração do capital, economia na gestão da frota, sem riscos na venda dos seminovos.

Conheça as principais vantagens: • Sem entrada; • Parcelas fixas menores que o FINAME*; • Reduz o custo fixo; • Evita descapitalização; • Mais disponibilidade da frota.

Possibilidade de dedução de tributos*: PIS e COFINS LEASING E LOCAÇÃO

*De acordo com o regime tributário da empresa e produto escolhido pelo cliente.

Atendimento em todo Brasil:

11 2192 3000

Conheça nosso site:

www.rodobens.com/leasingelocacao

LEASING E LOCAÇÃO

Sujeito a análise cadastral. Imagens meramente ilustrativas.

Mais economia para a sua usina. Mais vantagens para a sua frota.


Quando a logística é boa, de longe já dá pra ver os resultados.

Para acelerar o crescimento do seu Agronegócio, conte com a Logística da JSL S/A. Através de serviços personalizados, você dispõe do aluguel de máquinas e equipamentos diversos, profissionais treinados, desenvolvimento de projetos específicos para as diversas fases de sua operação e toda a infraestrutura de uma empresa que há 56 anos investe no desenvolvimento de soluções logísticas integradas e customizadas. Conheça os Serviços da JSL!

• Serviços Dedicados à Cadeia de Suprimentos • Gestão e Terceirização de Frotas/Equipamentos • Transporte de Passageiros • Transporte de Cargas Gerais

Tel.: (11) 2377-7000 jsl@jsl.com.br

www.jsl.com.br


Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.