O checklist de uma floresta plantada - OpCP54

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Opiniões www.RevistaOpinioes.com.br ISSN: 2177-6504

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira

ano 16 • número 54 • Divisão F • dez-fev 2019

o checklist

de uma floresta plantada




índice

o checklist de um floresta plantada

Editorial de abertura:

6

Rosana Clara Victoria Higa

Pesquisadora da Embrapa Florestas

Seleção das espécies:

15

Luciana Duque Silva

Professora de Silvicultura e Manejo da Esalq-USP

Propagação assexuada:

18 Gestão do plantio florestal:

8

10

13

Luiz Carlos Estraviz Rodriguez

Professor de Economia Florestal da Esalq-USP

Vice-Presidente Melhoramento da FuturaGene

20 22

Pesquisador do IPEF

Coordenadora de Projetos da Consufor

Eleandro José Brun

Professor Silvicultura e iLPF da UTF-PR

Alexandre de Vicente Ferraz

Coordenador Executivo do PTSM do IPEF

Eduardo Ciriello

Diretor da Futuro Florestal

Marcos Glück Rachwal e Josiléia Zanatta Pesquisadores da Embrapa Florestas

Produtividade:

32 36

Controle de pragas:

26

Adriane Roglin

C

Solos:

Melhoramento: Paulo Henrique Müller da Silva

Diretor da Medrado e Consultores Associados

25 30 34

Gêneros e espécies:

Material genético: Eduardo José de Mello

Moacir José Sales Medrado

Nutrição florestal:

Luís Renato Junqueira

Coordenador Executivo do PROTEF do IPEF

Itamar A. Bognola e Atus V. Lemos

Pesquisador Embrapa Florestas e Consultor da Suzano

Prevenção incêndios: Marcos Giongo e Jader Cachoeira Professores da UF-Tocantins e CEMAF

Plantio em áreas especiais:

38

André Gustavo Nave

Diretor da Bioflora Tecnologia da Restauração

Manejo de ervas daninhas:

40

Rudolf Woch

Diretor de Inovação da Apoiotec

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A combinação bruta do desempenho e tecnologia.

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editorial de abertura

o clima no checklist das florestas plantadas O clima surge como uma das prioridades quando pensamos em checklist das florestas plantadas. O Zoneamento ecológico esquemático para reflorestamento no Brasil (Golfari, L. & Pinheiro Neto, F.A), publicado em 1978, precedido pela Escolha de espécies de eucalipto potencialmente aptas para diferentes regiões do Brasil (Golfari, L.; Caser, R. L.; Moura, V. P. G), publicado em 1970, são provas dessa atenção. Outros trabalhos dessa natureza deram continuidade ao assunto, incorporando novas técnicas e informações decorrentes da escassez de informações em algumas áreas do território brasileiro, como já salientavam os autores dos trabalhos citados. Mais recentemente, as “mudanças climáticas” tornaram-se objeto de consideração relacionado com o clima. Cabe ressaltar que o clima é definido pelo IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change, como “o clima médio”, descrito estatisticamente como a média e a variabilidade estatística de parâmetros relevantes, como temperatura, precipitação e vento. O clima é, geralmente, descrito como uma média de 30 anos. Por conseguinte, entende-se por alterações climáticas a alteração da média e/ou a variabilidade ao longo do tempo.

Além disso, as alterações climáticas podem também ser expressas em termos da ocorrência e/ou gravidade de eventos climáticos extremos, que costumam causar danos muito mais severos − normalmente, um evento raro que tem menos de uma em cada dez chances de ocorrência baseado em observações históricas e pode durar uma temporada ou mais. Como observado anteriormente, o clima é um termo amplo que precisa ser definido mais especificamente, antes de se avaliar a vulnerabilidade e o risco de plantações florestais. Assim, é importante perguntar “o que é vulnerável a quê” e avaliar a possível exposição da floresta ao risco climático, assim como a capacidade de a floresta se adaptar a esse risco. Mais do que apenas uma sobreposição das preocupações tradicionais da silvicultura, as incertezas associadas a esses efeitos apontam para a necessidade de ajustes nas práticas silviculturais, que, em grande parte, são baseadas em conhecimento científico atualmente existente. Uma grande quantidade de literatura publicada sobre o assunto está disponível, principalmente nos últimos anos, mas estudos retrospectivos são incapazes de avaliar os efeitos do clima futuro no desenvolvimento, no crescimento e na tolerância das árvores a déficits hídricos do solo. O aumento da mortalidade, observada em várias partes do mundo, tem sido atribuído à seca acompanhada de temperaturas mais quentes - a “seca mais quente”, ou hotter-drought.

Enfrentar com sucesso os desafios das mudanças climáticas exigirá uma nova ciência, com práticas que ainda não existem e não podem ser desenvolvidas isoladamente. "

Rosana Clara Victoria Higa Pesquisadora da Embrapa Florestas

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Opiniões Temperaturas mais altas diminuem a umidade do solo, aumentam a demanda de umidade atmosférica e tornam os resultados das secas mais devastadores. Secas eventualmente ocorrem em todos os lugares, e as mais curtas, com maior frequência do que as mais longas, podem se tornar letais sob o aquecimento. Isso explica o impacto observado em plantações florestais, em alguns anos, no cerrado brasileiro. Florestas que já estão estressadas ambientalmente, devido aos efeitos diretos da mudança climática, são mais vulneráveis aos seus efeitos indiretos e podem apresentar níveis sem precedentes de mortalidade por insetos e doenças, até mesmo por pragas e patógenos endêmicos que, normalmente, causariam danos em níveis insignificativos. Deve ser considerado ainda que uma grande quantidade de árvores mortas é uma predisposição a incêndios sem precedentes, em tamanho e gravidade. Uma das ferramentas usadas para entender esses riscos são as projeções futuras do clima. Embora a direção ascendente da mudança da temperatura média global seja fácil de prever, respostas variáveis dentro de diferentes componentes do sistema climático dificultarão a previsão precisa de condições em escala regional e local. As limitações inerentes aos modelos climáticos globais podem aumentar quando se reduz a escala de tempo e regiões específicas. Modelos baseados em nicho usam relações estatísticas entre distribuições geográficas atuais, atributos ambientais de espécies e projeções futuras do clima. Nessa abordagem, o clima no qual uma espécie ou ecossistema é encontrado atualmente (envelope climático) é caracterizado, e sua localização, identificada em um mapa (nicho climático da espécie). Como os modelos de envelope climático são modelos estatísticos, eles não descrevem a relação causal entre os parâmetros do modelo e os resultados. Assim, eles não podem classificar o ambiente futuro corretamente. Portanto esses modelos devem ser usados com muita cautela, uma vez que podem gerar mapas que não correspondem à realidade presente, de viabilidade climática de uma espécie. Além disso, como usar esse tipo de ferramenta para uma silvicultura baseadas em clones? Em materiais genéticos que foram selecionados para em condições climáticas distintas das atuais? Modelos fisiológicos que simulam respostas das árvores e florestas às mudanças climáticas são mais precisos, mas mais complexos que modelos de nicho climático. Um exemplo é o modelo 3-PG (Physiological Principles for Predicting Growth). Os modelos fisiológicos são tecnicamente complicados e exigem treinamento e experiência significativos para parametrizar os modelos e usá-los. Os padrões de precipitação também são importantes para as florestas, mas são mais difíceis de simular e prever. A precipitação pode variar tremen-

damente em pequenas áreas geográficas, dificultando a obtenção de registros precisos de observação apenas da precipitação regional e, muito menos, para desenvolver modelos preditivos precisos. Topografia, umidade, direção e velocidade do vento, albedo e outros fatores complicam ainda mais a modelagem em escala regional da precipitação futura. O fenômeno El Niño também influencia fortemente os padrões de precipitação em todo o mundo, mas ainda não há consenso sobre seu provável comportamento no futuro. Efeitos das mudanças climáticas ainda estão fora da experiência e do conhecimento dos gestores florestais atuais, e a magnitude e a velocidade com que estão ocorrendo são essencialmente sem precedentes. Isso torna a situação mais desafiadora, pois a base de conhecimento de práticas silviculturais atuais foi construída nos últimos dois séculos, período de relativa estabilidade climática. Enfrentar com sucesso esses desafios das mudanças climáticas exigirá uma nova ciência, com práticas que ainda não existem e não podem ser desenvolvidas isoladamente. Os silvicultores precisam de ferramentas de apoio à tomada de decisão que lhes permitam integrar avaliações de vulnerabilidade com estratégias de ação, para estabelecer prioridades baseadas em decisões mais bem fundamentadas possível. Os efeitos ecológicos das mudanças climáticas de longo prazo podem ser particularmente abruptos, em escalas regionais e locais, quando os limiares fisiológicos ou físicos são ultrapassados. As variáveis-chave, que são necessárias para entender como a floresta funciona, muitas vezes não foram medidas; ou se foram, não foram devidamente interpretadas. A necessidade de medi-las cientificamente torna-se cada vez mais necessária e urgente e tem sido considerada como prioritária em muitos órgãos de pesquisa. Para concluir, resta perguntar “como se precaver dessas incertezas e enfrentá-las”? Sem dúvida, a silvicultura do futuro dependerá da existência de material genético adaptado ao ambiente do futuro. Para garantir a existência de material adaptado, é preciso conservar genes, que, no futuro, poderão ser fundamentais para a sobrevivência da espécie. A diversidade genética dentro de uma espécie é o resultado de muitos processos dinâmicos envolvendo a interação genótipo x ambiente e fornece a base ecofisiológica para cada espécie se adaptar às condições climáticas futuras. A conservação da variabilidade intraespecífica é a chave para o sucesso da formação das florestas do futuro e deve ser priorizada tanto pelo setor público, como pelos silvicultores interessados na sustentabilidade de seus empreendimentos. E isso vale para todos os tipos de “florestas plantadas”, ou seja, tanto para as plantações com finalidades industriais, como para as plantações visando restaurar Reservas Legais.n

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gestão do plantio florestal

o tripé da

sustentabilidade

Se os seus interesses estão voltados para a sustentabilidade econômica da atividade produtiva florestal na propriedade rural, seja bem-vindo a esta reflexão. Desempenho econômico vai além da simples relação com o mercado e deve considerar o tripé que, pela simplicidade com que é definido em inglês, apoia-se em três pês: people, planet e profit. Os plantios florestais homogêneos, como os de produção monoespecífica, ou os heterogêneos, como os sistemas de produção agroflorestal, de restauração de áreas degradadas e de recuperação de áreas de reserva legal ou

preservação permanente, são opções que o produtor rural avalia quando planeja as atividades na sua propriedade. Os heterogêneos, entretanto, são menos polêmicos quando avaliados em termos de sustentabilidade, e, por esse motivo, trataremos aqui apenas dos plantios homogêneos de uma única espécie. Os plantios florestais homogêneos, quer seja pela forma e extensão, ou ainda pela duração dos ciclos de produção, se destacam na paisagem rural brasileira. São, em geral, plantios florestais de alto rendimento, manejados para fins industriais que desafiam a silvicultura a evoluir e a buscar soluções mais rentáveis, que se harmonizem também com as questões sociais e ambientais.

O futuro do setor produtivo florestal depende de uma convergente estratégia de conciliação da produção com os temas ambientais e sociais. A sociedade e o planeta agradecerão. "

Luiz Carlos Estraviz Rodriguez Professor de Economia e Planejamento Florestal da Esalq-USP

Para buscar essa harmonia, vamos começar pelo terceiro pê (profit), de tratamento mais objetivo e básico, antes de avaliarmos as demais dimensões da sustentabilidade. Buscam-se regimes de manejo que maximizem o potencial produtivo da terra sem degradá-la, caso contrário, haveria desperdício e subutilização.

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Opiniões Cultivar a terra no limite da sua capacidade produtiva, entretanto, é meta bastante desafiadora. Implica descartar processos de produção que esgotem ou afetem negativamente a capacidade produtiva da terra. O monitoramento disso é caro e demanda comprometimento com sistemas de produção mais sofisticados. Por exemplo, é princípio básico do ordenamento florestal que, para não exaurir o recurso terra, se meça regularmente o crescimento médio anual das árvores. Na prática, quando conduzidos ciclos sucessivos florestais, busca-se a idade de colheita que maximize o crescimento médio anual, sem a exaustão do recurso terra no longo prazo. Para que essa idade seja definida, são mantidas tabelas de volume que revelam o crescimento do plantio florestal. Em seguida, opta-se pela idade que maximiza o volume médio anual (este calculado, em qualquer momento, pela simples divisão do volume observado pela idade), ou pela idade que maximiza o desempenho financeiro dos investimentos feitos. No Brasil, pelas dádivas de um clima ameno e de uma natureza pródiga, os ciclos de produção florestal são curtos e têm idade ótima, que maximiza tanto o critério volumétrico como o critério financeiro. Essa característica dos nossos plantios florestais de rápido crescimento foi bem estudada na década de 1990, e o leitor interessado é convidado a buscar literatura daquela época. Consideremos, agora, os outros dois pês (planet e people). Tratemos de um exemplo que ilustra bem a importância de uma equilibrada discussão que contorne os desafios impostos pelo uso racional e sustentável da terra. Temos quase 8 milhões de hectares plantados com florestas no Brasil. Se considerarmos os plantios industriais manejados para a produção de celulose, pode-se dizer que quase todos são colhidos próximos à idade que maximiza o volume médio anual, também conhecido como incremento médio anual (IMA). Pois bem, o IMA médio nacional observado nesses plantios gira, atualmente, em torno de 35 metros cúbicos por hectare por ano (m3/ha/ano). As previsões de demanda de celulose para os próximos 30 anos são crescentes, e a pressão para que o Brasil aumente a sua área com florestas plantadas é imensa. Segundo análises que temos conduzido, espera-se um crescimento de 65% nos níveis de produção de madeira em tora no Brasil, para fins industriais até 2050, provocados por um aumento estimado no consumo de 72%. Isso significa passar dos 131 milhões de m3 produzidos hoje para 210 milhões de m3 em 2050. Esse aumento na demanda interna brasileira por madeira para fins industriais, proveniente de plantios florestais, somente poderá ser atendido por uma combinação de expansões.

As quatro mais prováveis são: 1. ocupação de áreas com florestas naturais; 1. conversão de áreas com plantios agrícolas para áreas com plantios florestais; 3. recuperação de pastagens degradadas com plantios florestais; e 4. aumento da produtividade dos atuais plantios florestais. Evidentemente, a primeira alternativa é indesejável por impactar negativamente o planeta, um dos alicerces que constituem o tripé da sustentabilidade. A segunda e a terceira opção envolvem mudanças no uso da terra. Para que ocorram essas mudanças previstas nos cenários 2 e 3, produtores rurais precisariam receber estímulos de mercado ou incentivos do governo. Nesses casos, novos mecanismos são necessários para o gradual ajuste das propriedades rurais às exigências do Código Florestal. Condições de financiamento da produção, por exemplo, terão que oferecer horizontes, carência e encargos mais adequados à natureza dessas atividades. É uma pena que, para esses fins, ainda faltem políticas públicas, pois a recuperação de áreas degradadas pela sua conversão para plantios florestais traria desenvolvimento e geração de empregos, promovendo assim o pê de people, no tripé da sustentabilidade. A quarta opção é, na minha opinião, a mais promissora. A melhoria da produtividade nas atuais áreas já ocupadas com plantios florestais, aproximando-as do máximo potencial produtivo sustentável, reduz fortemente a pressão sobre as demais áreas já ocupadas pelo agronegócio e sobre as áreas ainda preservadas com florestas naturais. Nos estudos que estamos conduzindo, avaliamos o efeito de eventuais aumentos do IMA médio nacional para níveis mais próximos do máximo potencial produtivo dos atuais plantios florestais industriais. Como exemplo, verificamos que a elevação de 35 para 45 m3/ha/ano na produtividade média nacional desses plantios resultaria numa menor área total plantada em 2050. Essa diferença seria da ordem de 700 mil hectares, ou algo próximo à área hoje plantada com eucaliptos na Bahia, o terceiro maior estado em área florestal plantada no Brasil. Precisamos de soluções que levem a produtividade dos plantios florestais brasileiros para o mais alto nível potencial de produção sustentável. Teremos que melhorar os processos produtivos, tornando-os 1. adaptáveis, conforme evoluem as técnicas silviculturais; 2. resilientes aos impactos provocados pelo uso intensivo da terra; e 3. reversores de tendências em situações onde a exaustão do recurso eventualmente se manifeste. O futuro do setor produtivo florestal depende de uma convergente estratégia de conciliação da produção com os temas ambientais e sociais. A sociedade e o planeta agradecerão. n

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material genético

Opiniões

transgenia em plantações florestais:

para quando?

A agricultura se beneficia dos cultivos transgênicos há quase duas décadas. Em países que são grandes produtores de grãos, como os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina, os plantios são, em sua quase totalidade, feitos com sementes geneticamente modificadas. A soja transgênica começou a ser plantada em pequena escala no Brasil, em 1997, e, atualmente, 95% do plantio dessa leguminosa é realizado com sementes geneticamente modificadas. Os números são impressionantes: 67 países já adotaram os plantios transgênicos, totalizando uma área cultivada de 190 milhões de hectares no mundo.

A área plantada com sementes geneticamente modificadas cresceu 112 vezes em 22 anos. Não há registro de adoção de tecnologia tão rápida e abrangente na história da agricultura moderna. No Brasil, os transgênicos ocupam 50 milhões de hectares, o que representa 75% da área agrícola plantada no País. Segundo relatório da ISAAA (International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications) de 2018, no período de 1996 a 2016, o aumento de produtividade proporcionado pelos transgênicos representou um ganho de US$ 186 bilhões para os produtores de todo o mundo. Cerca de 17 milhões de pequenos produtores adotaram essa tecnologia e tiveram aumentos significativos em sua renda. inovações tecnológicas que tragam soluções para as necessidades da sociedade, de forma responsável, serão fundamentais. O estudo de ciências que suportam o desenvolvimento da transgenia no eucalipto tem avançado, de forma significativa, nos últimos anos. "

Eduardo José de Mello

Vice-Presidente de Operações e Melhoramento Genético da FuturaGene

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material genético O Brasil possui, aproximadamente, 6 milhões de hectares de área plantada com eucalipto e é referência no cultivo dessa espécie. Temos a maior produtividade e a vantagem competitiva no cenário internacional. Alcançamos esse patamar excepcional usando o que há de mais moderno em termos de tecnologia. Nossas florestas plantadas estão cada vez mais parecidas com plantios agrícolas. Sabemos fazer, de forma primorosa, o reconhecimento das características locais onde os plantios serão realizados, temos material genético de alta qualidade, capacidade para preparar o solo e fertilizar com precisão, além de monitorarmos, com eficiência, a qualidade, as pragas, as doenças, entre outros aspectos relevantes para o cultivo florestal. Apesar disso, ainda não conseguimos incluir, em nossos plantios, os benefícios que a transgenia traz à agricultura. Isso ocorrerá algum dia? Acredito que sim. Principalmente se considerarmos os desafios que a humanidade enfrentará nas próximas décadas, como o aumento da demanda por madeira, resultante do crescimento populacional e dos padrões de consumo de uma crescente classe média. Nesse contexto, inovações tecnológicas que tragam soluções para as necessidades da sociedade, de forma responsável, serão fundamentais. O estudo de ciências que suportam o desenvolvimento da transgenia no eucalipto tem avançado, de forma significativa, nos últimos anos. Temos também, no Brasil, um grupo seleto de empresas que atuam nesse desenvolvimento. Uma análise dos dados públicos encontrados no site da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) indica que cinco empresas estão desenvolvendo a tecnologia do eucalipto geneticamente modificado (GM) e que mais de 100 experimentos já foram autorizados. O melhoramento genético do eucalipto demanda tempo e recursos. Estima-se que o tempo necessário para o melhorista conseguir um clone comercial seja de 15 a 20 anos. O desenvolvimento de um clone comercial transgênico deve consumir tempo semelhante. Em 2015, a CTNBio aprovou, de forma inédita no mundo, o primeiro eucalipto geneticamente modificado. Esse eucalipto foi desenvolvido pela empresa FuturaGene, subsidiária da Suzano Papel e Celulose, em trabalho iniciado em 2001, e apresenta produtividade superior ao clone original não modificado. Após a aprovação pela CTNBio, que atestou a biossegurança desse eucalipto GM, foram iniciados cruzamentos controlados para gerar novos clones GM, adaptados a diversas regiões do

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País, por meio de melhoramento convencional. Esses novos clones GM de segunda geração estarão prontos para plantios em maior escala nos próximos anos. No portfólio de projetos das empresas brasileiras que atuam nesse desenvolvimento, as principais características encontradas são: resistência a herbicida, tolerância a insetos, produtividade, qualidade da madeira e tolerância a estresses ambientais. Dessa forma, podemos vislumbrar que, no futuro, nossos plantios de eucalipto apresentarão todas essas características melhoradas pela biotecnologia, ou parte delas, o que contribuirá para o País manter sua posição na vanguarda da eucaliptocultura mundial. Uma aposta com grandes chances de acerto é que o próximo produto a ser aprovado para uso comercial será o eucalipto GM resistente a herbicida, já que a tecnologia está sendo pesquisada por diversas empresas no Brasil. Essa foi a primeira tecnologia a ser adotada na agricultura há 22 anos e ainda é amplamente utilizada. Após todo esse tempo de uso, pode-se atestar sua biossegurança e grandes benefícios para o produtor. Com o eucalipto, espera-se o mesmo sucesso, uma vez que essa cultura requer tratos culturais intensos nos primeiros anos pós-plantio. O eucalipto também é reconhecidamente uma espécie muito sensível ao herbicida glifosato. Bastam algumas gotas, ocasionadas por falhas na aplicação, para que a produtividade seja afetada ou até cause a morte da planta. No eucalipto resistente ao herbicida, isso não mais ocorrerá. Com o fim das perdas por falhas na aplicação, ganhos em produtividade também deverão ocorrer, a exemplo do que foi observado na agricultura. Serão geradas múltiplas oportunidades de ganhos operacionais com a mecanização da aplicação do herbicida, gerando importantes conquistas para o setor. Os dados da CTNBio mostram que uma razoável plataforma de pesquisa para tolerância a herbicida já está implantada no campo nas estações experimentais das empresas desenvolvedoras. Isso nos faz acreditar que, na próxima década, essa tecnologia deverá estar à disposição dos produtores. Inovações no processo de transformação genética, o domínio da edição gênica e a possibilidade de reduzir o ciclo de seleção com uso de seleção genômica tendem a reduzir drasticamente esse tempo, e, talvez, possamos contar com eucaliptos melhorados por meio de técnicas laboratoriais mais cedo do que imaginamos. Mas isso é tema para outra edição da Revista Opiniões. n


Opiniões

melhoramento

a garantia da conservação genética Os programas de melhoramento genético buscam genótipos (clones ou sementes) que gerem plantios comerciais uniformes e produtivos para fornecimento de matéria-prima. No entanto reduzem a variabilidade/diversidade genética com o avanço das gerações de melhoramentos, o que, operacional e economicamente, é facilmente justificado. Porém amplia o risco de vulnerabilidade às condições estressantes que serão agravadas com as mudanças climáticas, pois aumentam o estresse abiótico e alteram a intensidade de ocorrência dos estresses bióticos. Não é comumente abordado, mas também existem efeitos devastadores na base genética das espécies vegetais devido às ações antrópicas, que podem ter as mais diversas motivações. A conservação é uma preocupação mundial, provavelmente o melhor exemplo seja a construção e a manutenção do acervo do banco de sementes de espécies cultivadas em Svalbard, na Noruega, o maior e mais completo do mundo, que é apoiado pela FAO. Mas por que devemos fazer a manutenção da base genética no setor florestal? Como justificar o investimento? Como realizar a conservação? A diversidade genética é importante por diversos motivos e é fundamental para alcançar as metas do setor produtivo, independente da espécie, pois permite: 1) gerar ganhos genéticos; 2) atenuar os impactos dos estresses; 3) melhorar a qualidade da matéria-prima; e 4) manter espécies perdidas nos centros de origem/diversidade.

fenotípica é herdável, ou seja, será transmitida para a próxima geração. Deve-se destacar que a produtividade é uma característica com muitos genes envolvidos e também que existe grande quantidade de espécies florestais com as quais podemos trabalhar, sendo que algumas têm ampla diversidade dentro da própria espécie. No caso do setor florestal, o aumento da produtividade pode ser obtido pelo aumento do incremento médio e também pelo aumento da tolerância ou da qualidade da madeira. Atenuar os impactos dos estresses: atualmente, o setor florestal está se deparando com diversos desafios, como secas mais prolongadas, distúrbio fisiológico, “novas” pragas/doenças, etc. Quais serão os desafios do futuro? Não é possível prever, mas, com certeza, ocorrerão. Um “exercício” fácil de ser realizado é voltar no tempo e pensar em dois ou três ciclos de eucalipto atrás (de 15 a 20 anos) e responder algumas perguntas: 1. Quais eram os estresses que ocorriam? 2. Alguém conhecia o percevejo bronzeado (Thaumastocoris peregrinus), a vespa-da-galha (Leptocybe invasa), o psilídeo de concha (Glycaspis brimblecombei), talvez o Gonipterus spp?

A diversidade genética é importante por diversos motivos e é fundamental para alcançar as metas do setor produtivo, independente da espécie, pois permite: 1) gerar ganhos genéticos; 2) atenuar os impactos dos estresses; 3) melhorar a qualidade da matéria-prima; e 4) manter espécies perdidas nos centros de origem/diversidade. "

Paulo Henrique Müller da Silva Pesquisador do IPEF

A conservação genética é parte estratégica para garantir a segurança das culturas agrícolas e florestais cultivadas, lembrando que os cultivos são dinâmicos, e acontecem mudanças ao logo do tempo. Ganhos genéticos: é o aumento da produtividade, sendo a meta de todos os programas de melhoramento. Para isso, é necessária a realização da seleção e da recombinação dos genótipos. O ganho será diretamente relacionado à variabilidade genética existente na população trabalhada, pois apenas uma fração da variação

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melhoramento A incerteza do futuro é acentuada com os diversos cenários de mudanças de clima. Um exemplo prático: há 15-20 anos, o material mais indicado para melhorar a tolerância à seca nos plantios comerciais era o Eucalyptus camaldulensis, lembrando que a origem em Petford (QLD) é a que apresentava melhor crescimento. Com a ocorrência das pragas atuais, diminuiu o interesse pela espécie por ser muito susceptível, apesar de existir grande variação dentro da espécie, que possui ampla distribuição natural e que poderia ser trabalhada por um número maior de instituições. Qualidade da matéria-prima: procura constante de melhoria visando aumentar a eficiência no uso da matéria-prima e que está diretamente relacionada ao processo produtivo, sendo impactada pelos avanços tecnológicos do processo e das características do produto final. Aproveitando o exercício de voltar no tempo, pergunta-se: Qual era a densidade adequada para produção de celulose uma ou duas décadas atrás? As espécies do gênero Corymbia poderiam ser utilizadas para celulose? Qual será a característica desejada no futuro? Pois é, atualmente, existe a procura por material tolerante aos diferentes estresses e com maior densidade (Ex.: Eucalyptus cloeziana, em que ocorre o distúrbio fisiológico), materiais diferentes dos comerciais, mas que podem viabilizar a plantação comercial em algumas regiões. No entanto qual foi o investimento nesses materiais ao longo das últimas décadas? Quais instituições trabalharam na conservação, no melhoramento de populações ou mesmo na obtenção de clones? Perdas de espécies, centros de origem/diversidade: muitas vezes, ocorrem perdas por causas antrópicas ou mesmo catástrofes naturais. Um exemplo: a utilização de uma das populações de conservação de Eucalyptus urophylla, da Estação Experimental de Ciências Florestais de Anhembi, pertencente à Universidade de São Paulo, para recompor a vegetação da região de origem que foi devastada por uma erupção vulcânica. A conservação fora da região de origem pode ser, às vezes, a única forma de conservação para algumas espécies. Na agricultura ou na silvicultura, a conservação é fundamental, e existem diferentes formas de conservação, como banco de sementes, pólen, propágulos vegetativos em condições controladas. Pode ser realizada em campo, sendo in situ ou ex situ. A conservação in situ refere-se àquela realizada no próprio local de ocorrência natural da espécie. Para as espécies dos gêneros Eucalyptus ou Pinus, por não ocorrerem naturalmente no País, a conservação tem que ser ex situ. Para as espécies de ciclo longo, o ideal é que seja em campo, pois os genótipos podem recombinar-se e gerar novas combinações, ocorrendo, assim, a manutenção da base genética e adaptação, sendo a parte estratégica da conservação genética para os programas de melhoramento.

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O trabalho de conservação ou mesmo de melhoramento de populações é algo que tem sido deixado de lado ao longo das últimas décadas, talvez por não gerar produtos em curto prazo. O trabalho de conservação deve ser realizado por tempo indeterminado, pois o objetivo é perpetuar as espécies ou as populações que devem ficar disponíveis para os programas de melhoramento. Diversas instituições públicas e privadas no País realizaram ou realizam trabalhos de conservação genética de eucalipto e pínus, os programas de conservação genética são estabelecidos a partir de populações com boa base genética. Mas, com o passar do tempo e a falta de diretrizes em escala nacional, o trabalho com a maioria das espécies acaba sendo deixado de lado, sendo trabalhadas apenas as espécies mais plantadas em larga escala. Muitas populações com espécies de eucalipto e pínus foram cortadas, pois a espécie não apresentava interesse, no momento do corte, para a instituição. Muitas vezes, o banco de germoplasma foi transformado em madeira de serraria para melhorar o fluxo de caixa da instituição em um momento de crise. A maioria dos trabalhos de melhoramento genético florestal no Brasil ficou a reboque das empresas que avançaram com o Eucalyptus urophylla e E. grandis (pura ou em combinações híbridas). As outras espécies ficaram em segundo plano, sendo pouco trabalhadas e, por muitas vezes, sendo descartadas sem a correta avaliação de seu potencial. Materiais que poderiam estar mais bem adaptados às condições edafoclimáticas brasileiras atualmente, apenas com um pouco mais de investimento. Assim, hoje, teríamos materiais mais adequados para os atuais desafios, sem a necessidade de retornar à região de origem. Cabe destacar que muitos materiais já não são mais acessíveis na origem. No setor florestal, os trabalhos de conservação devem ser conduzidos concomitantemente com os programas de melhoramento, utilizando as ferramentas da biotecnologia. O trabalho, preferencialmente, deve ser conduzido com diversas instituições e, no mínimo, em escala nacional. Deve ter como meta abranger um grande número de espécies com potencial para as diversas condições edafoclimáticas e usos, sem perder de vista as características de cada espécie e que as populações de conservação são a segurança de diversidade que podem ser acessadas a qualquer momento, para garantia do setor. Não podemos prever o futuro, apenas temos a certeza de que teremos mudanças e, ao contrário de muitas culturas agrícolas, precisamos de muito tempo para mudarmos os genótipos comerciais, sendo que voltar ao passado para recuperar o germoplasma perdido não é possível. n


Opiniões

seleção das espécies

plantar florestas:

risco ou desafio

O Brasil é conhecido internacionalmente como um país com excelente potencial edafoclimático para o cultivo de florestas plantadas, mas, para os nossos produtores rurais, a definição da espécie a ser cultivada e o local geram incertezas quanto à aposta de seu capital financeiro no setor. Ainda com essas incertezas, na última década, houve um movimento de mudanças com relação às espécies florestais cultivadas e aos sistemas de produção utilizados; as espécies dos gêneros eucalipto e pínus, bem como o sistema em monocultivo, passaram a não ser mais os “únicos” a atraírem o interesse de produtores. Espécies como a teca (Tectona grandis), o mogno-africano (Khaya spp.) e o cedro-australiano (Toona ciliata) tiveram suas áreas de cultivo ampliadas significativamente, e, em muitos casos, as espécies florestais passaram a ser cultivadas em consórcio com culturas agrícolas e também com a criação de animais.

A expansão de áreas cultivadas com florestas plantadas, em locais onde não havia muita experiência com a silvicultura, também ocorreu, como nos estados do Piauí, Maranhão, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Experiências negativas foram registradas, por uma combinação de fatores, como a escolha inadequada da espécie e/ou material genético, da aplicação incorreta das técnicas silviculturais necessárias para o bom desenvolvimento do cultivo, ou o atraso na realização das atividades, e até mesmo pela ausência de mercado consumidor. Então, o que temos de informações para minimizar as incertezas dos produtores e evitar experiências negativas? Conhecemos os fatores que limitam a produção: clima, solo, material genético e a interação entre eles. As características climáticas que impõem maior limitação

Informações existem, nem sempre o produtor as encontra de maneira que se facilite a tomada de decisão. Para evitar surpresas negativas, o ideal é conhecer experiências de outros produtores em áreas com características edafoclimáticas semelhantes "

Luciana Duque Silva

Professora de Silvicultura e Manejo de Florestas Plantadas da Esalq-USP

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seleção das espécies ao desenvolvimento de algumas espécies, no Brasil, são a ocorrência de geadas e de déficit hídrico. Solos com altos teores de areia, quando comparados a solos com maior teor de argila, e solos considerados rasos reduzem a produtividade das plantações florestais. A disponibilidade de materiais genéticos superiores, em termos de adaptação, crescimento e características relacionadas ao produto desejado, seja ele madeira, seus derivados ou produto não madeireiro, depende do desenvolvimento de bons programas de melhoramento genético, e, para isso, necessitam de uma ampla base genética da espécie para a realização de recombinações, intraespecífica e, em alguns casos, interespecífica. Esses são aspectos a serem observados pelo produtor antes da sua decisão. De forma geral, algumas espécies de eucalipto, as espécies de pínus tropicais, a teca, o cedro-australiano e o mogno-africano, não toleram geadas; em áreas com ocorrência de geadas, como nos estados do Sul do Brasil, as espécies mais recomendadas para cultivo são: Eucalyptus viminalis, Eucalyptus dunnii, Eucalyptus benthamii, Pinus taeda e Pinus elliotii, ou, no caso do eucalipto, clones híbridos testados, que tenham em seus cruzamentos essas espécies. Quando o fator limitante é o déficit hídrico, a maioria das espécies apresentam limitações de crescimento e/ou de sobrevivência. Nesses casos, é necessário que sejam realizadas seleções de materiais genéticos e/ou desenvolvimento de híbridos, mais resistentes a essa condição, porém esse problema pode ser, em alguns casos, minimizado e até mesmo sanado com a redução da densidade do plantio, podendo ser realizado consórcio com culturas agrícolas para que se obtenham melhores ganhos econômicos. Estamos desenvolvendo um projeto interinstitucional, com o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, no qual identificamos materiais genéticos com aptidão de cultivo para regiões com ocorrência natural de cerrado. Os resultados preliminares mostram que estão sendo utilizados mais ou menos 30 clones de eucaliptos, para plantio nessas áreas. A maioria desses clones são híbridos de E. urophylla, E. camaldulensis, alguns de E. brassiana e de E.grandis, e a capacidade de adaptação, crescimento e sobrevivência nessas áreas é muito variada: no estado do Piauí, por exemplo, identificamos apenas 3 clones com bom potencial produtivo; no Tocantins, Goiás, Mato grosso e Mato Grosso do Sul, esse número foi maior, e, entre os híbridos identificados, se destacam os cruzamentos em que são utilizados E. urophylla e E. camaldulensis − não necessariamente que ambos tenham sido utilizados para a geração do híbrido. Nas áreas plantadas com as espécies que atualmente vêm sendo denominadas “madeiras

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Opiniões nobres”, se destacam: mogno-africano em regiões dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e São Paulo; cedro-australiano, em Minas Gerais, tem se destacado, com o cultivo de clones geneticamente selecionados e protegidos, essa cultura apresenta potencial de plantio em algumas regiões de São Paulo e Goiás, mas é recomendada a realização de testes em campo antes da expansão para essas regiões; a teca apresenta bom potencial de cultivo no estado do Mato Grosso, porém mostra redução de produtividade quando plantadas em solos rasos e pobres. Algumas espécies de pínus tropicais, como P. caribea var. hondurensis, P. caribea var. caribea e P. tecunumanii, continuam a ser cultivadas nos estados de São Paulo e Minas Gerais; após o corte raso, a reforma da área tem sido realizada, utilizando mudas seminais e clonais, ambas oriundas de materiais genéticos selecionados, para a produção de resina e madeira. Informações existem, nem sempre o produtor as encontra sistematizadas, de maneira que se facilite a tomada de decisão. Para evitar surpresas negativas, o ideal é conhecer experiências de outros produtores em áreas com características edafoclimáticas semelhantes ao local do futuro plantio e não optar pela aquisição de mudas apenas com base no preço, mas sim buscar uma fonte idônea e que esteja devidamente regularizada no MAPA. Vale destacar que a definição do material genético e o local correto de plantio não são os únicos fatores que definem o sucesso de um empreendimento florestal, pois a distância da propriedade ao mercado consumidor e/ou a quantidade e a qualidade do produto a ser ofertado podem tornar a produção inviável economicamente. Assim, antes de iniciar o cultivo, é de suma importância avaliar se o material genético a ser utilizado na plantação atenderá às características do produto que se deseja comercializar, pois, ainda que se atinja boa produtividade na área definida para o plantio, a produção pode não ter boa aceitação ou valorização pelo mercado-alvo. Alguns materiais genéticos de espécies como eucalipto e pínus foram desenvolvidos para atender a mercados específicos (celulose e papel, carvão e derivados de resina); isso não significa que seja possível obter bons rendimentos com o plantio desses materiais, quando se deseja obter produtos que requerem outras características. Estima-se que, atualmente, 30% das áreas plantadas com florestas estão em áreas de produtores independentes; uma boa alternativa para esses produtores é o múltiplo uso dessas culturas e/ou a utilização de outras culturas consorciadas. Essas alternativas devem resultar em menor risco ao investimento, visto que atenderá a diferentes mercados e, em uma possível redução de valor de um dos produtos, o produtor terá maior segurança. n


17 mcamkt.com.br


propagação assexuada

ferramenta para o avanço do plantio comercial de

espécies nativas

O Brasil tem vocação natural florestal e é um grande fornecedor de produtos provenientes da floresta (madeira, frutos, óleos e resinas) e serviços ambientais. O patrimônio florestal brasileiro é imenso, tratando-se de, aproximadamente, 500 milhões de hectares de florestas nativas e cerca de 8 milhões de florestas plantadas. No quadro atual de plantações florestais comerciais, destacam-se as espécies de eucalipto, pínus e acácia-negra, seguida pela produção comercial de teca. As espécies nativas do Brasil, excetuando-se a seringueira e o paricá, podem ser consideradas pequenas sombras no território das plantações florestais comerciais. Em função disso, muito pouco se publicava sobre espécies nativas em comparação com as espécies florestais exóticas; quando isso ocorria, eram publicações sobre levantamentos florísticos e fitossociológicos, ou recuperação ambiental. A lembrança do valor econômico das espécies nativas, até o final do século passado, apenas estava presente nos bancos das escolas florestais, em alguns campos experimentais das universidade brasileiras, nas notícias de exploração ilegal de madeiras e em um, ainda, pequeno número de abnegados profissionais e de produtores que acreditavam na possibilidade da plantação florestal comercial de espécies nativas, na agrofloresta e nos consórcios ou nos sistemas agroflorestais convencionais de baixa a alta complexidade biológica. Neste século, várias ações visando à valorização das espécies nativas estão tomando corpo, com destaque para as seguintes: Plano Nacional de Silvicultura com

Espécies Nativas e Sistemas Agroflorestais – Pensaf; Lastrop (Laboratório de Silvicultura Tropical, uma iniciativa da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – Esalq); Pacto pela restauração da Mata Atlântica; Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa); Programa de Conservação Genética e Melhoramento de Espécies Florestais Nativas da Universidade Federal de Viçosa; Projeto Verena; e a Coalizão Brasil (segmento floresta). Em todas as propostas citadas, parece estar claro que, independente da necessidade de políticas públicas de apoio, da participação de agências de fomento e das empresas florestais, é importantíssimo o estabelecimento de uma rede de sistemas de produção florestais e agroflorestais regionalizados, de um forte programa nacional de melhoramento genético e de um eficiente sistema de banco de dados e de monitoramento. Neste artigo, faremos um recorte para tratar da importância da propagação assexuada como uma das ferramentas para a expansão das plantações florestais comerciais. Para tal, nos apoiaremos em afirmações científicas de que, apesar de a maioria dos estudos de propagação das espécies florestais nativas do Brasil serem voltados para a propagação sexuada, esta apresenta limitações para várias espécies nativas. Limitações decorrentes do grande número de espécies com sementes recalcitrantes e, também, por outros fatores, como produção irregular ou baixa de sementes, dificuldades de localizar matrizes de espécies raras, dificuldade na definição da época ideal de colheita das sementes, entre outros. O Brasil tem vocação natural florestal (...) O patrimônio florestal brasileiro é imenso, tratando-se de, aproximadamente, 500 milhões de hectares de florestas nativas e cerca de 8 milhões de florestas plantadas. "

Moacir José Sales Medrado Pesquisador Científico aposentado da Embrapa e atual Diretor da Medrado e Consultores Agroflorestais Associados

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Opiniões A propagação assexuada se constitui, portanto, numa forma de superação de tais dificuldades e, além disso, em uma ferramenta auxiliar no resgate e na conservação de recursos genéticos florestais, além de serem utilíssimas como apoio na formação de plantios florestais comerciais de espécies nativas. A propagação assexuada, no entanto, quase não tem sido utilizada com finalidade de apoio à formação de plantios florestais, devido ao posicionamento de muitos profissionais que a julgam uma ferramenta a ser utilizada, somente, para o estabelecimento de pomares clonais como etapa do melhoramento, ou para multiplicação de materiais já melhorados. Como são poucos os materiais nativos melhorados, e a propagação assexuada de materiais superiores de plantios seminais não é valorizada ou incentivada, os plantios são realizados a partir de sementes, apresentando, por isso, uma variação fenotípica muito grande que afasta os potenciais plantadores, até mesmo pelo aspecto visual. É necessário, portanto, que se discuta uma nova estratégia menos rígida, que costumamos denominar de estratégia do “entroncamento” ou trunking strategy, em que a estrada da propagação vegetativa pura e simples (estrada secundária) se junta, em determinado momento da viagem comercial, com a estrada do melhoramento clássico (estrada principal), em um entroncamento científico. Costumo dizer que a estrada da propagação vegetativa é uma estrada de uso temporário, aproveitada ou construída de forma rápida, que considera como sua base, “sua brita”, apenas a propagação de materiais superiores não melhorados, mas selecionados de plantios seminais existentes. Ela visa permitir que produtores e empresários possam trafegar com relativa segurança até que a estrada principal estabelecida, com base em um bom projeto científico tecnológico, seja construída. Apesar de simples, deverá ser uma estrada com leito uniforme e não uma estrada cheia de desníveis perigosos, como tem sido a “picada” atual, cuja base é formada por sementes que originam plantios desuniformes que deixam inseguros quem tenciona trafegar por ela. É óbvio que a estrada secundária, temporária, exigirá que todos andem em uma velocidade menor que a liberada quando da construção da estrada principal, mas será, certamente, mais atrativa e rápida do que a “picada” original. A construção dessa estrada secundária deverá considerar como base os plantios “seminais” e os resultados dos trabalhos de propagação vegetativa elaborados por nossos cientistas nas universidades, nas instituições de pesquisa e na iniciativa privada. Vejam, no excelente trabalho Vegetative propagation and application of clonal forestry in Brazilian native tree species (https://bit.ly/2KOdSKP), quantas espécies já foram estudadas. Além desse, existem centenas de outros trabalhos que poderão contribuir para a construção da base da estrada.

Com tal base, o leito poderá ser construído, com certa facilidade, clonando-se materiais superiores escolhidos nos plantios já feitos, ou em plantios a serem estabelecidos nas diversas regiões, especificamente para tal finalidade. É importante ressaltar que essa é uma estratégia paralela àquela a ser aplicada nos trabalhos de seleção e de avaliação clássicos, e o número de espécies poderá ser maior. É uma estratégia, sob nosso ponto de vista, adequada para atrair produtores/empresários para o plantio de espécies nativas que ainda não foram trabalhadas em algum programa de melhoramento; quem sabe algumas das seguintes espécies: Araucaria angustifolia, Bertholletia excelsa, Calophyllum brasiliense, Cariniana estrellensis, Cordia goeldiana, Cordia trichotoma, Handroanthus heptaphyllus, H. impetiginosus, Hymenaea courbaril, Platymenia foliosa, Piptadenia gonoacantha, Zeyheria tuberculosa, dentre outras. Tais plantios poderão garantir uma performance produtiva maior das espécies em relação aos feitos com mudas “seminais”. Dessa forma, os produtores poderão garantir plantios mais uniformes, ganhos de forma mais rápida, enquanto trabalhos de melhoramento clássico estarão sendo feitos com tais espécies futuramente. A estrada do melhoramento clássico, por sua vez, é a estrada principal, que considera como sua base elementos como a biologia reprodutiva, a estrutura genética das espécies, o tamanho efetivo das populações, a variação genética entre e dentro de populações e como práticas construtivas os ensaios comparativos de espécies, os ensaios de procedências e progênies e, somente por fim, a propagação vegetativa e a produção de sementes nos pomares. Na estrada do melhoramento clássico, deverão estar aquelas espécies que já contam com um grande número de informações e que estão em um estágio além do pré-melhoramento. Deverá ser, portanto, um grupo bem pequeno, rigorosamente estabelecido. A forma de fazer essa seleção tem sido, exaustivamente, discutida no âmbito de vários grupos de trabalhos. Para a seleção, além do estágio de melhoramento atual, devem ser considerados o avanço já obtido na área de propagação vegetativa, o valor comercial da espécie, sua demanda efetiva, além da consideração sobre o estado da arte em relação à mesma. Arriscaríamos ficar ao lado daqueles que apontam a seringueira e a erva-mate como duas das principais. É importante que, uma vez selecionada a espécie e estabelecidas as populações, se proceda à realização dos testes de procedências e progênies, que é primordial para a comparação de várias populações e/ou progênies dentro de populações, para avaliar as possíveis diferenças de comportamento silvicultural ligadas às respectivas diferenças genéticas. n

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gêneros e espécies

a espécie adequada A seleção de espécies para plantações florestais com finalidade econômica é uma etapa fundamental para o sucesso da atividade, uma vez que são muitos fatores a serem analisados na concepção do plantio, desde as premissas econômicas que definem os produtos que se desejam produzir (lenha, carvão, energia, painéis, madeira de serraria e laminação, óleos essenciais, sementes, resinas, látex, etc.), assim como escala do empreendimento, análises de mercado e logística, que são premissas importantes que devem ser exaustivamente testadas e analisadas paralelamente às análises técnicas, de forma a elaborar um projeto robusto e o mais realista possível, minimizando os riscos da atividade florestal, que tem como característica principal o prazo de maturação dos investimentos. As análises técnicas levarão em consideração os produtos e o mercado a ser atingido, de forma a selecionar a espécie e o material genético (quando disponível) para melhor atender à produção e ao mercado, seguindo para a fase de campo, com a análise de aptidão das áreas que se pretende plantar, avaliando as condições de fertilidade e uso do solo, topografia, bioma, clima, acesso, infraestrutura, entre outros aspectos, reunindo as informações necessárias para confirmar a viabilidade das espécies pré-selecionadas para o projeto, e buscar estimar com mais segurança o potencial de crescimento e produção das espécies naquelas condições. Com o aumento do interesse de se investir em florestas plantadas de “madeira nobre” para serraria e laminação, por parte de produtores rurais e de investidores de diversos perfis, que buscam alto retorno, no médio e longo prazo, com essa atividade popularmente batizada como “poupança verde”, aumentou, consideravelmente, a busca por novas alternativas de espécies que produzam madeira de qualidade e possuam boa aptidão silvicultural que possam ser cultivadas com relativo sucesso dentro de ciclos que variam de 15 a 30 anos.

Vale destacar que ainda é preciso reduzir a burocracia na regulamentação do cultivo de espécies nativas, que é um grande fator que limita o desenvolvimento desse setor. "

Eduardo Ciriello

Diretor da Futuro Florestal

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Essa demanda vem proporcionando a implantação de inúmeros plantios de diferentes escalas, testando diversas espécies em todas as regiões do País, ao longo dos últimos 20 anos, e se intensificando nos últimos 5 a 10 anos, apresentando resultados muito distintos entre os plantios e regiões, que comprovam a necessidade de uma boa análise preliminar do plantio ao avaliar as melhores espécies a serem plantadas e o pacote tecnológico a ser utilizado. As espécies que atualmente estão em evidência no setor são os dois mognos-africanos (K. senegalensis e K. ivorensis/grandifoliola), o cedro-australiano e a teca, entre as espécies exóticas introduzidas no País, sendo que o mogno-africano, devido ao seu grande potencial de crescimento e adaptação a diferentes condições, vem sendo o grande destaque da atualidade, com pelo menos dois grandes empreendimentos sendo implementados nos próximos anos, que podem, juntos, superar mais de 30 mil hectares de plantios projetados. Essas espécies exóticas citadas são provenientes de regiões tropicais com clima quente e úmido e são pouco ou não tolerantes a geadas e a chuvas anuais abaixo de 1.000 a 1.200 mm, com estação seca não superior a 3-4 meses, dessa forma são mais restritas ao seu cultivo em estados da região Sul e parte do Sudeste e Centro-Oeste, devido à ocorrência de geadas, e a regiões do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, devido a zonas de menor pluviosidade e estiagem prolongadas.


Opiniões Nas condições de estiagem prolongada, somente o mogno-africano da espécie Khaya senegalensis é recomendado, pois ocorre naturalmente nas savanas africanas e suporta pluviosidades de 600 a 800 mm anuais e períodos de estiagem de até 7 meses, já apresentando resultados positivos em regiões do semiárido e de zonas de estiagens prolongadas, como no sul do Piauí e oeste da Bahia. Para situações de ocorrência de geadas, o cedro-australiano vem apresentando certo grau de tolerância, desde que sejam geadas de menor intensidade e ocorrências, assim como do estágio de desenvolvimento da muda no momento da sua ocorrência; apesar disso, a recomendação é de se evitarem essas condições. Referente a material genético clonal, existem, hoje, no mercado, materiais superiores bem testados de teca e de cedro-australiano e diversos testes implantados de materiais de mogno-africano. Nos materiais de teca, os diversos clones disponíveis apresentam homogeneidade de plantio excelente e ganhos de produtividade de 20% a 30% sobre os materiais seminais, sendo que a espécie é bastante exigente em boa fertilidade do solo, temperatura e pluviosidade acima de 1.200 mm. Os materiais clonais de cedro-australiano disponíveis estão proporcionando a retomada dos plantios dessa espécie no País, uma vez que os materiais seminais apresentam heterogeneidade muito grande e alta susceptibilidade a pragas e a doenças, fatos que inviabilizaram muitas iniciativas com a espécie no passado; dessa forma, a recomendação é a utilização desses materiais clonais disponíveis nos novos plantios e sempre buscando, preferencialmente, áreas de boa aptidão, com solos de média a boa fertilidade. As espécies exóticas têm se destacado nesse setor devido ao seu bom desenvolvimento e à sua adaptação nas condições do País e, principalmente, às restrições burocráticas e legais que existem sobre o cultivo e a exploração de espécies nativas para fins de produção de madeira, sobretudo quando visa ao corte e à supressão dos indivíduos, apesar de já existir, na legislação brasileira, a legalidade desses cultivos para fins comerciais. Porém o “mito” dentro do setor e dos produtores rurais ainda persiste e afugenta os projetos com espécies nativas. Vale destacar que ainda é preciso reduzir a burocracia na regulamentação do cultivo de espécies nativas, que é outro grande fator que limita o desenvolvimento desse setor. Dentre as espécies nativas de potencial madeireiro, podemos citar o guanandi, jequitibá-rosa, louro-pardo, araribá (C. tomentosum, C. robustum), ipê-felpudo, vinhático, canafístula, ipê-roxo, ipê-amarelo, freijó (C. alliodora), castanheira e mogno-brasileiro como as espécies de bom potencial produtivo e silvicultural, que vêm sendo plantadas e testadas em diversas condições e sistemas de cultivo (homogêneos e heterogêneos) e apresentam bom desenvolvimento para as regiões tropicais.

Para as regiões subtropicais, poderíamos citar o louro-pardo e a canafístula como espécies mais tolerantes ao frio, e a araucária e a bracatinga como espécies com bom potencial produtivo para essas regiões. Dentre as espécies nativas, temos ainda o paricá como um grande exemplo de sucesso no País, que tem muito ainda a desenvolver no quesito de melhoramento e ampliação de uso para painéis e compensados, mostrando que possuímos um enorme potencial na silvicultura de espécies nativas, a que devemos dedicar mais atenção e esforços. Quanto aos modelos produtivos, temos desenvolvido e implantado plantios heterogêneos, consorciando de 2 a 6 espécies na mesma área produtiva, e acreditamos ser esta uma nova fronteira tecnológica a ser desenvolvida nesse setor, ao priorizar modelos que potencializem positivamente a interação entre as espécies, proporcionem menor risco de ocorrência de pragas e de doenças, produzam diferentes produtos na mesma área, diversifiquem os ciclos de produção, aumentem a produtividade, melhorem a forma de fuste, reduzam a necessidade de manejo de podas e desramas, viabilizem espécies que possuam limitações aos plantios homogêneos, como o louro-pardo, a canafístula e os ipês, entre outras inúmeras vantagens. Atuando de forma pioneira nos plantios de espécies nativas desde 2003, podemos notar que, apesar dos 15 anos de história, ainda enfrentamos, no nosso dia a dia, o esforço na desmitificação dos cultivos de nativas para fins comerciais nas áreas produtivas e, atualmente, assumimos o compromisso e a bandeira de que a restauração da Reserva Legal seja concebida inserindo o retorno econômico, desenvolvendo e implantando modelos de plantios, consorciando espécies nativas e exóticas na mesma área, de forma a maximizar a produção e promover a restauração ambiental, aplicando técnicas de manejo florestal adequado e atingindo os indicadores ambientais requeridos e as restrições que a Reserva Legal possui. Acreditamos que essa iniciativa é peça fundamental na adequação ambiental das propriedades rurais do País, aliada ao desenvolvimento e ao fortalecimento do setor florestal de espécies alternativas, demonstrando que floresta pode ser rentável e dar lucro ao produtor rural, ao mesmo tempo que atende à legislação e promove a sustentabilidade ambiental e econômica das propriedades rurais, no médio e no longo prazo. Existem muitas oportunidades no desenvolvimento e na produção das espécies alternativas de madeira nobre, sejam elas nativas ou exóticas. São inúmeras demandas de pesquisa a serem conduzidas com elas e um amplo horizonte na área de melhoramento genético, uma vez que ainda se encontram no seu estágio inicial de domesticação e com grande potencial de ganhos de produtividade com as primeiras etapas do melhoramento. n

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Opiniões

solos

o papel do solo nas adaptações Quando se fala em enfrentamento das mudanças do clima, é necessário lembrar que há duas formas de contribuir para esse objetivo: através da redução das emissões de gases de efeito estufa (dióxido de carbono - CO2, metano - CH4 e óxido nitroso - N2O) e adaptando sistemas produtivos para que eles sejam menos impactados pelos efeitos diretos e indiretos das mudanças do clima. As estratégias de adaptação podem ser baseadas em melhoramento genético ou em modificações adaptativas nos sistemas de produção/manejo silvicultural. O plantio de florestas é considerado uma estratégia para amenizar o efeito das mudanças do clima. Essa afirmação é baseada principalmente na capacidade das florestas em absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, via processo de fotossíntese, e incorporar na biomassa vegetal. O carbono da biomassa vegetal posteriormente pode ser imobilizado em produtos florestais, como papel, móveis e construções. Cada produto tem um tempo de vida útil, que deve ser considerado na contabilidade final do carbono sequestrado pelos plantios florestais. Além de contribuir diretamente com a fixação do carbono em produtos florestais, as florestas plantadas também possuem capacidade de absorver metano atmosférico pela atividade de microrganismos metanotróficos no solo. O metano é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento 21-25 vezes maior que o CO2 e vem sendo o gás mais emitido pelo setor agrícola no Brasil. Monitoramentos da rede de pesquisa Saltus, coordenada pela Embrapa Florestas, tem confirmado que os plantios florestais são capazes de retirar da atmosfera entre 100 e 150 kg de CO2 equivalente por hectare.

Outra forma como as florestas contribuem para a retirada de CO2 da atmosfera é com o acúmulo de matéria orgânica no solo (MOS). A MOS é formada basicamente por carbono (em média 58%). O aumento e/ou a manutenção dos conteúdos de carbono no solo são imprescindíveis ao processo de mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Os estoques de matéria orgânica do solo são continuamente alimentados pelos resíduos vegetais e animais aportados ao solo. Ao mesmo tempo, a dinâmica de decomposição da matéria orgânica do solo é influenciada pelo clima, tipo de solo, seu uso e manejo. Quando há baixa entrada de resíduos ou excessivo revolvimento do solo, a tendência é que os estoques de matéria orgânica declinem e o sistema passe a contribuir positivamente às emissões de CO2. Uma série de estudos tem indicado que os solos de plantios florestais tanto podem atuar como dreno de carbono ou fonte de carbono à atmosfera. Normalmente, a conversão de uso agrícola do solo para plantações florestais tem incrementos de carbono, que variam de 15 a 25%. Em regiões de elevado potencial produtivo, plantios de pínus incrementaram em 20% o estoque de carbono do solo em relação à mata nativa. O acúmulo de carbono no solo de plantios florestais é duplamente importante no enfrentamento das mudanças do clima. O motivo número um refere-se à retirada do CO2 do ambiente; o motivo dois está relacionado ao papel que o carbono do solo pode desempenhar na amenização dos efeitos das mudanças do clima, ou seja, ajudando na adaptação dos sistemas de manejo. É consenso que as mudanças do clima produzirão alterações que devem aumentar a ocorrência de eventos extremos, como secas, incêndios e chuvas intensas. De modo geral, as chuvas intensas têm pouca influência sobre a produção florestal diretamente. Plantios florestais promovem adições de carbono ao solo muito significativas, portanto é necessário direcionar essa vantagem para melhorar a produção e a capacidade produtiva do sítio florestal. "

Marcos Fernando Glück Rachwal e Josiléia Acordi Zanatta Pesquisadores da Embrapa Florestas

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solos Por outro lado, as secas e os incêndios florestais podem restringir e afetar a produção florestal de grandes áreas, até mesmo de regiões. No passado muito próximo, podemos recordar o longo período de estiagem que ocorreu em SP e, mais recentemente, em MG, sendo estes os dois estados com maior área de floresta plantada do País. Nesse cenário, é importante preparar ambientes produtivos mais resilientes, ou seja, que consigam suportar maiores variações nas condições climáticas, sem comprometer o suprimento dos meios de produção. Aí que vem a importância da matéria orgânica nos solos, contribuindo na adaptação dos sistemas produtivos e amenizando os efeitos de estiagens curtas em regiões nas quais esses fenômenos não ocorrem sistematicamente. O papel do solo na adaptação de sistemas produtivos frente à mudança climática sempre ficou em segundo plano. Normalmente, quando se pensa na contribuição dos solos no enfrentamento das mudanças climáticas, a primeira imagem que vem é a capacidade de mitigar gases de efeito estufa, notadamente o CO2, através do acúmulo de carbono no solo. Atualmente, com a maior ocorrência de eventos extremos, as questões de adaptação de sistemas já permeiam as discussões e os projetos de pesquisa de forma mais equitativa. Considera-se mais importante destacar a busca de estratégias de adaptação com benefícios também de mitigação. O aumento da matéria orgânica no solo também contribui para a retenção de água, o que, associado ao menor revolvimento do solo, melhora a estrutura do solo, permitindo que maior quantidade de água precipitada penetre nele, ao mesmo tempo que aumenta o tamanho do reservatório de água disponível. Isso ocorre porque a matéria orgânica é capaz de reter até vinte vezes a sua massa em água. Para se ter uma ideia melhor da importância da matéria orgânica para a retenção de água, lembremos que, no primeiro metro de um solo com textura argilosa (Latossolo), podem estar armazenados mais de 150 toneladas de carbono na forma de matéria orgânica. A cada 0,1% de aumento no conteúdo de carbono dessa camada, 3.000 litros a mais de água podem ser armazenados no solo em associação à MOS. Esse efeito depende da textura do solo, de modo que solos mais arenosos tendem a se beneficiar mais do incremento de matéria orgânica do que os argilosos. Os benefícios da MOS na retenção de água ainda podem ser potencializados pelo efeito dela sobre a agregação do solo, melhorando a porosidade e a conectividade de poros, facilitando a infiltração e recarga e armazenamento da água no perfil do solo. Com essa perspectiva, várias iniciativas internacionais têm incentivado a adoção de projetos para incrementar os estoques de carbono nos solos. Entre eles, podemos citar o 4 por 1000, Circasa (Coordination of International Research Cooperation on

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soil Carbon Sequestration in Agriculture) e PINEMAP (Pine Integrated Network: Education, Mitigation, and Adaptation project). O objetivo comum dessas iniciativas é atingir taxa de crescimento anual dos estoques de carbono nos solos que permita contribuir para frear o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e, ao mesmo tempo, que contribuam de forma positiva na melhoria dos fatores de produção, melhorando a fertilidade do solo e a sustentabilidade do sítio. Como o próprio nome já indica, o projeto 4 por 1000, quer induzir o incremento anual de 0,4% no estoque de carbono de solos agrícolas (inclusive as pradarias e pastagens) e florestais mundialmente, o que chegaria a 1,2 bilhão de toneladas de carbono por ano. Plantios florestais promovem adições de carbono ao solo muito significativas, portanto é necessário direcionar essa vantagem para melhorar a produção e a capacidade produtiva do sítio florestal. Uma situação preocupante nesse aspecto refere-se ao crescente uso dos resíduos florestais da colheita para a cogeração de energia. Essa prática, inicialmente, pode não refletir perdas nos estoques de carbono no solo, principalmente naqueles com teores de argila mais elevados. Contudo, em solos arenosos, estudos recentes já têm indicado que, no segundo ciclo de rotação, com a retirada dos resíduos de colheita, já se tem perdas significativas nos estoques de carbono e na sustentabilidade do sítio florestal. Além disso, a remoção dos resíduos reduz a ciclagem de nutrientes e a atividade biológica, desfavorecendo a qualidade química e física do solo e comprometendo a sustentabilidade e a resiliência do sistema. Portanto essa prática precisa ser criteriosamente dimensionada pelas equipes técnicas, a fim de evitar impactos negativos na capacidade de produção do sítio florestal. Por ocasião da 24º Conferência da ONU sobre Clima, em Katowice, na Polônia, a organização alemã Germanwatch fez uma análise de quanto os países perdem anualmente com eventos relacionados a mudanças do clima. O Brasil desponta entre os 20 países que mais perderam recursos nos últimos 20 anos, chegando a mais de US$ 1,7 bilhão anualmente. Diante do cenário, é importante e premente que as alternativas viáveis e duplamente vantajosas de mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças do clima sejam definitivamente colocadas como prioridades no setor florestal, minimizando danos futuros. O incremento de carbono no solo proverá um ambiente mais resiliente, de modo que os cultivos florestais sejam menos afetados pelas variações meteorológicas relacionadas às mudanças do clima. Ao mesmo tempo, outras estratégias de adaptação e de mitigação devem ser buscadas, pois o acúmulo de carbono no solo é finito. n


nutrição florestal

Opiniões

fertilizantes de liberação

controlada

As florestas plantadas representam cerca de 7,8 milhões de hectares, compostas, em sua maioria, pelos gêneros Pinus e Eucalyptus, distribuídos de Norte a Sul do País e englobando diversas classes de solos e condições climáticas distintas. A variabilidade dessas condições edafoclimáticas é percebida claramente na produtividade dessas florestas plantadas ao final da rotação. Quando se trata de solos destinados à produção florestal, em sua maioria, eles são de baixa fertilidade natural, associados a condições de degradação intensa. Dessa forma, o manejo nutricional torna-se uma ferramenta indispensável ao silvicultor na condução de uma floresta de alta produtividade. O manejo nutricional é de grande relevância em qualquer fase da floresta plantada. É uma parte essencial, mesmo antes da implantação. O monitoramento deve ser frequente, tanto do solo quanto da própria planta, a fim de equilibrar a quantidade de nutrientes em cada fase do desenvolvimento.

A atividade precursora no manejo nutricional para a implantação de uma floresta é a análise de solo, cuja função é a identificação da real necessidade quanto à reposição de nutrientes. Antes da implantação de uma floresta, o solo pode ter sido utilizado para fins pecuários, agrícolas ou até mesmo florestais; cada uma dessas atividades tem um processo operacional distinto, afetando, de maneira singular, a estrutura física e química do solo. Dessa forma, o resultado da análise de solo trará um direcionamento para o melhor manejo nutricional a ser executado na área. Nesse contexto, a adubação na atividade florestal vem ganhando espaço e importância, principalmente no que tange à aplicação de novas tecnologias no campo, sempre buscando o equilíbrio entre custo, produtividade e sustentabilidade. Dessa forma, é possível realizar uma breve comparação entre dois tipos de adubação disponíveis no mercado: adubação convencional e adubação de liberação controlada.

antes de o silvicultor escolher a melhor opção para seu ativo florestal, é importante que seja realizada uma análise econômica de toda a operação, a fim de identificar qual a opção de adubação que melhor se adapta à sua realidade "

Adriane Roglin

Coordenadora de Projetos da Consufor

A planta mostra sinais claros quando existe a deficiência nutricional em diferentes estágios de desenvolvimento, por exemplo, pela variação na coloração das folhas, pelo retardo no crescimento ou até mesmo pela alta taxa de mortalidade.

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nutrição florestal A adubação convencional, amplamente conhecida e utilizada pela maioria das empresas do setor florestal, de maneira geral, apresenta uma rápida dissolução no solo. Essa adubação pode ser subdividida em duas fases: a primeira fase é conhecida como adubação de base, quando frequentemente é utilizada uma formulação de NPK com predomínio de Fósforo, aplicada somente na subsolagem ou subsolagem e pós-plantio. Na segunda fase, ou fase de adubação de cobertura, a aplicação pode ser parcelada em uma ou mais vezes entre o 2° e 24° mês, variando de acordo com a condição de solo e necessidade nutricional do gênero florestal, compostas por nitrogênio e/ou potássio, associada a um ou mais micronutrientes (exemplo: cálcio, boro e magnésio). No decorrer do desenvolvimento das florestas, necessidades nutricionais complementares podem ser identificadas mediante o monitoramento frequente dos plantios. Em geral, as perdas por lixiviação, imobilização ou volatilização podem ser consideradas altas para a adubação convencional, variando de 30% a 70%, de acordo com cada nutriente e condição de solos. A fim de compensar as perdas de cada nutriente, eventualmente, podem ser recomendadas dosagens até cinco vezes superiores à necessidade real das plantas. A outra forma de adubação é a de liberação controlada, uma tecnologia que vem sendo utilizada de forma gradativa pelas empresas do setor florestal. O uso em pequena escala ou em versões de testes tem por objetivo conhecer e entender o mecanismo de liberação dos nutrientes ao longo da rotação, assim como analisar o desenvolvimento das plantas e a resposta em relação à produtividade. A disponibilidade desse tipo de fertilizante é na forma de cápsula, envolta por polímeros, películas ou resinas. Esse encapsulamento permite a liberação contínua e gradual dos nutrientes segundo as necessidades da planta, seguindo uma curva exponencial. Essa liberação pode variar de acordo com a especificação de cada produto e da interação da cápsula com a umidade e a temperatura do solo. Além disso, o encapsulamento visa proporcionar a redução das perdas de nutrientes para o meio via volatilização, lixiviação, erosão e imobilização, perdas essas que impossibilitam ou reduzem a absorção de determinado nutriente pelas plantas ao longo de seu desenvolvimento. Em termos de dosagens, não existe um padrão, ou seja, pode variar de acordo com a região, material genético, condição de solo, clima e formulações disponíveis no mercado; de maneira geral, se encontram dosagens entre 500 e 900 kg/ha. O tempo médio de liberação dos nutrientes pode ocorrer entre 2 e 16 meses, entretanto a velocidade

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de liberação dos nutrientes pode variar com a espessura da camada da cápsula, associada às condições ambientais. Vale ressaltar que a principal vantagem desse novo conceito para o setor florestal é a redução do número de aplicações em campo, porque as camadas são programadas para romper em um período mais prolongado, ou seja, no momento certo da deficiência nutricional, ao longo do desenvolvimento da planta (sem intervalos de deficiência e picos de oferta de nutrientes). Essa redução na frequência de aplicações e o ajuste na quantidade de adubo ao longo do processo de adubação, agregado ao constante monitoramento dos plantios, podem auxiliar na aplicação de uma quantidade ideal de produto. Adicionalmente, é valido destacar que o acompanhamento nutricional da parte aérea da planta, via análise foliar, é fundamental para verificar a quantidade de nutrientes absorvidos. Dessa forma, pode-se constatar se houve a disponibilização dos nutrientes do solo para a planta no momento adequado. Nesse contexto, em termos de desvantagens desse método de adubação, podemos citar uma eventual dosagem incorreta ocasionada por erros de análises de solo e/ou foliar, ou seja, qualquer ajuste de necessidades adicionais de nutrientes ao longo da rotação existente tornar-se-ia inviável pelo fato de o produtor não saber ao certo em qual estágio de liberação o produto se encontra. Dessa forma, esse complemento poderia ser feito, preferencialmente, no próximo ciclo de adubação, com o mesmo tipo de adubação, ou durante o mesmo ciclo, com a adubação convencional. Mas, mesmo assim, para efeitos de tomada de decisão, o que vai pesar serão os custos associados à operação. Em resultados preliminares do uso dessa tecnologia de adubação disponíveis no mercado atualmente, houve uma contribuição no aumento do sistema radicular, uma maior tolerância ao estresse hídrico, um melhor equilíbrio hormonal e nutricional, além de um potencial aumento da produtividade. No que tange aos custos de produção, pelo nível tecnológico e o tipo de material empregado, esse produto é mais caro em relação aos adubos convencionais. Ou seja, quando comparada à adubação convencional, a dosagem pode até ser menor ou igual, mas os custos associados à aquisição do produto e a aplicação são fatores primordiais na tomada de decisão. Por fim, entende-se que ambos os formatos de adubação são bons e funcionam dentro de suas limitantes técnicas e operacionais. Contudo, antes de o silvicultor escolher a melhor opção para seu ativo florestal, é importante que seja realizada uma análise econômica de toda a operação, a fim de identificar qual a opção de adubação que melhor se adapta à sua realidade. n


controle de insetos e pragas florestais

Opiniões

evoluindo

o manejo de pragas florestais

O setor florestal vem se expandindo e se destacando como um dos principais setores industriais para nosso país. Possui uma participação relevante no PIB, gera milhares de empregos, contribui com milhões de tributos e impostos. Adicionalmente, possui um sério compromisso com a preservação do meio ambiente e respeito às comunidades locais. No quesito produtividade, nossas florestas plantadas são motivo de orgulho e de entusiasmo. Somos líderes globais em produtividade, principalmente quando se trata do cultivo do eucalipto, com uma margem considerável para demais países. É possível encontrar diversos trabalhos e pesquisas evidenciando o grande salto de produtividade de nossas florestas desde a década de 1970. Esse feito é fruto de muito trabalho, seriedade e, principalmente, investimento em pesquisa. Transformamos nossos métodos de produção, desde o viveiro até a colheita, avançando em todas as fases do manejo florestal.

Apesar de nossa liderança, alguns índices indicam que, já há alguns anos, estamos estagnados em um mesmo patamar de produtividade. Será que alcançamos nosso limite de produtividade? Dados históricos também revelam que isso já aconteceu em outras ocasiões, sendo superadas por algum avanço ou tecnologia, na sua maioria frutos do melhoramento genético ou manejo florestal. Em alguns casos, se ouve que o ataque de pragas e doenças não é tão significativo, pois, depois disso, as árvores ganham novas folhas e continuam a crescer. Contudo esse pensamento não considera os efeitos desse ataque na produção final de madeira, que é sempre prejudicada. Uma floresta que sofreu infestação por pragas, sobretudo em sua

O monitoramento é a chave para um manejo integrado efetivo e responsável, gerando informações de qualidade para tomada de decisões assertivas no tempo correto "

Luís Renato Junqueira

Coordenador Executivo do PROTEF, Programa Cooperativo sobre Proteção Florestal do IPEF

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controle de insetos e pragas florestais fase jovem, necessitará de mais tempo para garantir a produção desejada, ou algum reforço nutricional, na tentativa de acelerar seu crescimento. Tanto uma alternativa quanto a outra levarão a um aumento do custo de sua produção. O atual manejo de pragas ainda apresenta alguns desafios a serem superados, com conceitos e práticas sofrendo mudanças após os anos 2000, devido à introdução de 3 novas pragas exóticas do eucalipto no País. Nesse quesito, o Brasil não se encontra em situação diferente de outros países que cultivam o eucalipto; praticamente todos eles sofrem com as mesmas pragas exóticas. A mudança entre o manejo de pragas nativas para pragas exóticas trouxe diversos desafios e novas abordagens a serem exploradas. No que toca ao controle biológico, no manejo de pragas nativas, é possível encontrar diversos inimigos naturais adaptados e, muitas vezes, específicos a esses insetos, contudo a introdução de agentes exóticos gera uma dinâmica totalmente diferente, em que esse agente chega a uma nova região e encontra clima favorável, alimento disponível e ausência de controladores naturais, culminando em um aumento expressivo de sua população. Além dos impactos diretos da introdução de novas pragas exóticas, como a perda de produtividade, elas podem impactar também nas exportações e no comércio exterior, uma vez que os países com ausência dessa praga passam a impor certos requisitos e critérios para importação de algumas mercadorias e materiais. A forma mais efetiva para o controle de pragas exóticas é a utilização do controle biológico clássico, buscando inimigos naturais específicos, na sua maioria parasitoides, no centro de origem da praga. Essa tática busca, no médio a longo prazo, alcançar um equilíbrio entre praga e inimigo natural, evitando, assim, que cause danos aos plantios. Um exemplo desse modelo de trabalho é a utilização do parasitoide de ovos Cleruchoides noackae no controle da praga percevejo bronzeado. Após diversas liberações do parasitoide em áreas com ataque da praga, ele se estabeleceu de forma efetiva e, em grande áreas, vem promovendo, ano após ano, redução na área infestada e sua severidade de ataque. Apesar de sua eficiência, a implantação do controle biológico clássico é um processo delicado e deve ser conduzido com critério e seriedade. O primeiro passo é selecionar um agente de controle eficiente, que seja específico para a praga a ser controlada. Essa é uma característica importante, pois garante que esse novo inimigo natural não irá interferir no desenvolvimento da entomofauna nativa. Além disso, o processo de quarentena é outro passo crucial, realizando a limpeza

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Opiniões

do material importado, evitando que, juntamente com o inimigo natural, ingressem outros organismos indesejáveis, como fungos, bactérias e até outros insetos. Apesar da importância do controle biológico clássico, deve-se ressaltar que, em muitos casos, alguns insetos nativos, em sua maioria predadores, passam a se alimentar da praga, oferecendo um auxílio no controle dela. Como é o caso do percevejo nativo Podisus nigrispinus, que preda com eficiência larvas e adultos do gorgulho-do-eucalipto. Além de insetos, existem diversos casos de fungos entomopatogênicos presentes no ambiente, que também oferecem controle dessas pragas, principalmente em condições de temperatura e umidade que os favoreçam. Casos como esse reforçam a necessidade do conhecimento dos organismos presentes nas áreas, na busca por potenciais agentes de controle. Além dos novos conhecimentos gerados e dos desafios impostos pelas pragas exóticas, é relevante que o “básico” seja sempre bem executado. Não podemos nos esquecer dos prejuízos que as formigas cortadeiras, assim como os surtos de lagartas desfolhadoras, podem causar. Apesar de o manejo para muitas pragas nativas estar bem consolidado, temos que estar sempre atentos. Grande parte do sucesso de qualquer tática de controle vem do monitoramento. O monitoramento é a chave para um manejo integrado efetivo e responsável, gerando informações de qualidade para tomada de decisões assertivas no tempo correto. Essas informações são imprescindíveis para se definir a melhor forma de controle e, em muitos casos, a decisão pelo não controle. Apesar dos avanços no manejo integrado de pragas, sua eficiência depende também da interação da fitossanidade com demais áreas do conhecimento florestal, como melhoramento genético, certificação, manejo, etc. A interdisciplinaridade está cada vez mais presente na rotina dos profissionais, não havendo espaço para se isolar em apenas uma área do conhecimento. Novas introduções de insetos e patógenos exóticos têm aumentado no mundo em um ritmo preocupante, a tendência é que novas pragas e doenças apareçam nos próximos anos. Nosso papel como profissionais passa pelo maior engajamento nesse assunto, levando informações para mudar essa situação, que é muito preocupante. Por fim, a melhor forma de controle para qualquer praga ou doença exótica é sua prevenção; para tanto, precisamos estabelecer esse assunto como matéria prioritária junto aos órgãos fiscalizadores e legisladores, buscando sua compreensão quanto ao risco para as florestas plantadas e aos impactos gerados para o nosso país. n


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nutrição florestal

adubos de liberação lenta

em florestas plantadas

A busca pela superação do desafio de fornecer alimentação, moradia e condições adequadas de vida a uma população mundial crescente tem norteado as ações dos pesquisadores há séculos. São vários os temas de pesquisa que têm sido trabalhados na busca de resultados concretos, em laboratórios, nos viveiros e nas florestas. A missão de estabelecer florestas plantadas com qualidade tem motivado pesquisas, há várias décadas, no Brasil, unindo esforços de universidades, instituições de pesquisa e de empresas, com apoio de órgãos de fomento públicos e privados. Um dos principais desafios nesse sentido tem sido, sem sombra de dúvida, o de proporcionar uma correta nutrição às árvores, após o plantio, em um local onde as condições já não são tão controláveis como no viveiro ou no laboratório. Essas são as condições de campo, onde os efeitos aleatórios do ambiente podem ser benéficos ou, em muitos casos, adversos ao bom crescimento das plantas. Nesse meio, um desafio frequente refere-se às perdas de fertilizantes ocorridas após a sua aplicação, quando o sistema radicular das plantas ainda não teria capacidade de absorção de toda a dose aplicada, antes que ocorram perdas. A eficiência de uma adubação é função da qualidade do fertilizante, do tipo de solo, da época, da forma, da localização e da uniformidade da aplicação e, ainda, pela umidade do solo, espécie e manejo aplicado à floresta. Caso esses fatores não sejam corretamente levados em conta, a resposta das plantas à adubação pode não ser a esperada, assim como as perdas de adubo podem ser ambientalmente indesejadas.

Entre as tecnologias mais modernas de adubação, o uso de fertilizantes de liberação lenta (FLL) pode ser uma solução. Existem três tipos básicos de FLL: grânulos solúveis em água; materiais inorgânicos lentamente solúveis; materiais orgânicos de baixa solubilidade, que se decompõem por ação biológica ou por hidrólise química. Os grânulos solúveis em água são apresentados na forma de produtos com liberação por períodos que vão de 1 a 18 meses, na maioria dos casos. Pela lógica, o uso de FLL deveria apresentar como o seu principal case de sucesso as florestas plantadas, por aspectos como o crescimento relativamente mais lento das árvores em comparação às culturas agrícolas, permitindo um aproveitamento dos nutrientes liberados a taxas controladas no tempo, de forma proporcional ao crescimento radicular. Porém, em uma análise de estudos já realizados, percebe-se que ainda existe um caminho a ser trilhado, no sentido de estabelecer sistemas de fertilização florestal baseados em FLL, com economicidade, além da praticidade já apresentada. O que falta, então, para que FLL se tornem rotina na fertilização de florestas plantadas? Antes de tudo, é preciso mencionar que resultados experimentais, em nível de floresta, ainda são poucos no Brasil, sendo coincidentes em algumas variáveis e diferenciados, com certa margem de desvio, em outras. Resultados encontrados para materiais genéticos de Eucalyptus em região com solo arenoso de baixa fertilidade não apresentaram diferenças de sobrevivência e de crescimento

A partir do momento em que tivermos resultados conclusivos para uma rotação completa, ao menos, repetidos em diferentes locais do Brasil, teremos mais segurança em qualquer ação nesse sentido. "

Eleandro José Brun

Professor Silvicultura e iLPF da UTFPR - Universidade Tecnológica Federal Paraná

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Opiniões das plantas adubadas com fertilizante convencional e FLL, em aplicação parcelada ou única, até os 18 meses de idade, mostrando que os FLL se igualam em eficiência aos convencionais. Outros estudos com eucalipto, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, têm mostrado que os FLL têm sido tecnicamente similares aos convencionais, variando em função do clima local (umidade e temperatura do solo são os principais agentes de degradação dos grânulos e consequente liberação dos nutrientes). Em estudo comparativo quanto à eficiência de fontes de fósforo de liberação lenta e imediata (fosfato natural e superfosfato) realizado com solo argiloso na UTFPR, em Dois Vizinhos, o crescimento do Pinus elliottii se mostrou sem diferenças na fase inicial, mas, com o avanço da idade, os tratamentos com aplicação de FLL se mostraram mais eficientes, pela capacidade de fornecimento de nutrientes a longo prazo, em comparação aos solúveis. Tanto em nível experimental quanto de relatos de silvicultores, no Paraná, não houve percepção de diferenças significativas de crescimento da erva-mate em função da aplicação de FLL, com crescimento similar aos tratamentos adubados com fertilizantes convencionais. Apesar de haver relatos, com base experimental, em áreas agrícolas, de aumento de eficiência (maior produção das culturas, tais como soja, milho, algodão, entre outras), aliado à redução de custos com adubação, esses fatores ainda não são tão claros em se tratando de florestas plantadas. Em viveiros florestais, há estudos mostrando a eficiência dos FLL em diversas espécies, tanto exóticas quanto nativas, em que a liberação dos nutrientes às raízes, em uma escala de alguns meses, tem sido algo de grande importância para a nutrição adequada e o bom crescimento da muda durante o período de viveiragem, diminuindo a necessidade de um grande número de aplicações em cobertura. Nos trabalhos de pesquisa existentes, com dados de campo, a principal resposta buscada, o crescimento, tem se mostrado compatível entre os fertilizantes convencionais e de liberação lenta. Variações são relatadas nos teores foliares, principalmente quando se trata de K, nutriente de comportamento fisiológico variável já conhecido. Mesmo assim, muitos pesquisadores afimam que, a não ser em situações mais extremas, pequenas variações de teores nutricionais foliares, desde que não impliquem perdas de crescimento, são aceitáveis sob um ponto de vista de eficiência. Também devem ser analisados, uma vez que o principal foco de muitas pesquisas tem sido a diminuição das perdas de nutrientes após a aplicação do adubo no solo, os diferentes comportamentos que cada nutriente apresenta, conforme as condições do solo em que ele é aplicado. Atenção deve ser dada a solos arenosos, onde a probabilidade de perdas por lixiviação é maior, mesmo com a aplicação de adubos encapsulados (visando à liberação lenta), mesmo esse aspecto ainda carecendo de estudos mais abrangentes.

Quanto se trata de P, um dos nutrientes mais limitantes ao crescimento de florestas plantadas no Brasil, mesmo com aplicações crescentes do nutriente, após o solo atingir um equilíbrio entre adsorção e disponibilização, não se tem incrementos constantes de disponibilidade. Esse fato reforça a importância de que, teoricamente, FLL teriam um papel importante nessas situações, pela liberação gradual do P às raízes, não necessitando, nesses casos, da aplicação de doses elevadas e, consequentemente, antieconômicas, de fertilizantes. Porém são situações que necessitam, ainda, de maiores estudos. Considerando a similaridade de eficiência entre os fertilizantes convencionais e de liberação lenta, na maioria dos estudos já publicados ou com base na experiência operacional em muitas empresas e propriedades rurais, uma das principais vantagens do uso de FLL seria, sem sombra de dúvida, o menor número de aplicações e a consequente menor necessidade de mão de obra, algo de extrema escassez no meio rural, nos últimos anos. Porém, mesmo com essa redução na mão de obra, há que se considerar que os preços mais elevados praticados nos últimos anos para os FLL têm feito com que muitas empresas e silvicultores tenham dúvidas sobre a viabilidade econômica em se optar por fertilizantes solúveis (convencionais) ou de liberação lenta. Em um levantamento realizado junto a empresas na região sudoeste do Paraná e seus fornecedores, os preços de FLL foram, pelo menos, 80% (variando até 270%) mais caros do que os convencionais. Tal fator tem feito com que, ao menos onde ainda é possível ter acesso à mão de obra, silvicultores estejam optando por manter o uso de fertilizantes solúveis convencionais ou até, em alguns casos, esteja ocorrendo um retorno ao uso de fertilizantes convencionais. Empresas florestais consultadas sobre o assunto, assim como consultores autônomos e cientistas, demonstram ainda muita cautela em recomendar o uso de FLL, uma vez que os poucos experimentos já realizados têm apresentado dados de crescimento inicial. A partir do momento em que tivermos resultados conclusivos para uma rotação completa, ao menos, repetidos em diferentes locais do Brasil, teremos mais segurança em qualquer ação nesse sentido. Enquanto isso, também, novas tecnologias deverão surgir, a ponto de tornar os custos dos FLL mais acessíveis aos silvicultores brasileiros. Concluindo, após análise de casos de uso de FLL em florestas plantadas, entende-se que ainda é gritante a necessidade não somente de continuidade, mas de intensificação das pesquisas, não apenas para a obtenção de produtos mais acessíveis economicamente como também para o aprimoramento de doses, técnicas e número de aplicações, numa gama mais variada de espécies, tanto exóticas quanto nativas, assim como resultados para diferentes regiões bioclimáticas do País. Sem isso, qualquer recomendação de uso para florestas plantadas ainda apresenta alguma margem de insegurança. n

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Opiniões

produtividade

a importância da característica do sitio

na produtividade florestal

É notório que, em qualquer propriedade rural de uma empresa florestal, seja ela pequena ou grande, deva-se levar em consideração a variabilidade espacial e temporal existente quanto à produtividade. Porém quase sempre os objetivos principais estão centrados na busca da otimização dos recursos a serem aplicados e, consequentemente, na diminuição dos custos e dos impactos ambientais. O conceito de produtividade florestal ou agrícola é muito amplo. Não é apenas o conceito da quantidade de um determinado produto produzido por unidade de tempo ou espaço físico (hectare, por exemplo). Conceitualmente, podemos adotar três definições: produtividade potencial, produtividade atingível e produtividade real. Em cada uma dessas definições, existe um grupo de fatores que as sustentam: a produtividade potencial, que tem como influência a base genética (capacidade de adaptação ao ambiente) das plantas, bem como radiação solar, temperatura, CO2 e disponibilidade plena de água; a produtividade atingível, que é influenciada pelas características do sítio, como solo (disponibilidade de nutrientes, profundidade efetiva, classe textural etc.), regime hídrico (esse com grande variação temporal), relevo e altitude; e a produtividade real (medida pelo inventário florestal), que tem, como principais fatores redutores, a presença/convivência com plantas daninhas, as doenças e os ataques de pragas. Somado a esses fatores, e não menos importante, tem-se o manejo silvicultural − esse com a devida qualidade dos tratos culturais, como peça fundamental para

o sucesso de um programa de produção florestal. Tais definições e termos estão interligados e conectados como engrenagens de um motor, sendo que qualquer descompasso pode gerar “ruídos” no desempenho (desenvolvimento da floresta), ou seja, menor produtividade com maior custo por metro cúbico. Também é importante aprofundar os conhecimentos das inter-relações entre clima, geologia, relevo, altitude e solo, trazendo informações relevantes para entender a funcionalidade de cada ambiente, com impactos significativos no tipo de manejo a ser adotado (exemplos: profundidade na subsolagem, tipos de espaçamentos e fertilizações etc.). Enfatizando a caracterização do sítio, para a busca da maior produtividade florestal, é importante entender suas diferentes condições ambientais, visando agrupá-las, através de critérios de similaridade, e associar a elas o material genético com melhor aptidão local. Isso poderá minimizar os riscos e potencializar os ganhos quanto à variação espacial e temporal. Dentro dessa ênfase, quais seriam os passos para desdobrar a caracterização de um sítio, a fim de se obter a produtividade florestal atingível? O conceito de produtividade florestal ou agrícola é muito amplo. Conceitualmente, podemos adotar três definições: produtividade potencial, produtividade atingível e produtividade real. "

Itamar Antonio Bognola e Atus Ventura Lemos

Pesquisador da Embrapa Florestas e Consultor Extensionista Tecnologia Florestal da Suzano, respectivamente

Com relação ao solo, é importante que as empresas florestais não foquem apenas no conhecimento da fertilidade ou da textura da camada superficial (quando muito até 40 cm de espessura). É preciso saber, de forma minuciosa, os atributos físico-hídricos, mineralógicos e morfológicos dos horizontes e/ou camadas

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superficiais e subsuperficiais, até pelo menos 100 cm de profundidade (quando o solo permitir – se ele não for raso ou pouco profundo), tais como: o tipo de argila (se é de alta ou baixa atividade); a cor – que traduz, de forma rápida, por exemplo, a situação de drenagem no perfil, se o solo tem potencial para maior ou menor adsorção e dessorção de fosfatos; se os horizontes têm pouca ou muita matéria orgânica; a espessura e o tipo de horizonte A; a profundidade efetiva; a consistência; a permeabilidade; a presença ou não de cascalhos (concreções); e as camadas compactadas e/ou adensadas. Todos esses atributos do solo contribuem para definir as zonas homogêneas numa propriedade florestal, ou seja, as produtividades dos sítios e suas diferenciações. Verifica-se que as grandes e médias empresas florestais não têm medido esforços para elaborarem mapas pedológicos detalhados de suas propriedades rurais, a fim de se obter os principais fatores potenciais ou limitantes, os quais influenciem um determinado sítio a alcançar boas produtividades. No entanto, apesar desses estudos detalhados de solos de suas propriedades, muitas vezes elas optam por reagrupar algumas características específicas de solo e clima em poucas Unidades de Manejo Operacionais (UMOs). O resultado disso é que o mapeamento detalhado dos solos, cuja razão principal é caracterizar bem o sítio florestal, é distorcido, podendo afetar negativamente as potencialidades do referido ambiente num determinado momento.

Vale lembrar também que o verdadeiro uso das UMOs só ocorrem quando os silvicultores compreendem, de forma clara, seu uso, o que exige ações de extensão e educação de conceitos, prática adotada na Suzano desde 2016 e que tem revertido em excelentes aprimoramentos do manejo devido à visão crítica dos que estão na frente de plantio. Assim, visando minimizar os erros nas junções das classes de solos em unidades de manejo, seria interessante promover a comparação de mapas da produtividade na colheita, em diferentes anos. Esse comparativo é importante no processo de identificação das UMOs, pois uma parte do agrupamento seria gerada pela variabilidade espacial, e a outra parte, pela variabilidade temporal. De certa forma, a variabilidade espacial é atribuída a fatores que são constantes, enquanto a temporal, a fatores cíclicos. Como exemplo, podemos citar: uma área de baixada, num ano seco, pode ser o local com maior produtividade; em outro ano, mais chuvoso, essa mesma UMO de maior produtividade poderá ter uma queda acentuada, devido ao excesso de água para as plantas. Portanto muitos fatores estão interligados para a definição dos diferentes sítios produtivos. Porém há grande probabilidade de que o conhecimento detalhado do meio físico auxiliará na compreensão das variabilidades espaço-temporais da produtividade florestal. Além disso, a incorporação de novas informações, ao longo do tempo, poderá mostrar que uma “simples” característica de solo poderá redefinir as UMOs de uma determinada propriedade rural. n

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nutrição florestal

os desafios

atuais da silvicultura brasileira

De 1990 a 2010, a produtividade em plantações de eucalipto aumentou em mais de 60%, saltando de 25 m3 ha-1 ano-1 para cerca de 40 m3 ha-1 ano-1. Essa conquista foi mérito dos genótipos desenvolvidos pelos programas de melhoramento e do aprimoramento das técnicas silviculturais, como a adoção do cultivo mínimo (manutenção dos resíduos florestais sobre os talhões, buscando manter pelo menos 70% da superfície de solo protegido). No entanto observa-se que a produtividade vem decaindo de forma gradativa nos últimos 8 anos (ex. 36 m3 ha-1 ano-1 em 2016). De acordo com os especialistas, parte dessa redução da produtividade se deve ao avanço das plantações florestais para regiões pouco exploradas pela silvicultura e, consequentemente, pouco adaptadas às novas condições edafoclimáticas.

Aliado a isso, a crise econômica mundial (20082009) fez com que as empresas brasileiras reduzissem os investimentos na silvicultura como um todo, praticando inclusive uma talhadia (condução de brotações) pouco planejada e criteriosa, o que provocou consideráveis perdas de produtividade nos anos seguintes. Hoje, o setor tem o grande desafio de, pelo menos, manter a produtividade florestal e, quem sabe, aumentá-la no futuro próximo. Nos últimos 15 anos, a área ocupada por plantações de eucalipto no Brasil aumentou em cerca de 70%; por outro lado, a área com as plantações de pínus reduziu em aproximadamente 15%, devido, principalmente, à sua substituição por espécies do gênero Eucalyptus (ex. E. benthamii). A expansão das plantações de eucalipto ocorreu principalmente nas regiões do Centro-Oeste brasileiro, tal como no De modo geral, apenas 20% das atividades silviculturais são mecanizadas no Brasil, com destaque à pratica de preparo de solo. Muitas iniciativas vêm ocorrendo via interação universidade-empresa, para pesquisar formas de mecanizar o plantio e a irrigação de mudas "

Alexandre de Vicente Ferraz

Coordenador Executivo do PTSM, Programa Cooperativo sobre Silvicultura e Manejo do IPEF

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Opiniões estado do Mato Grosso do Sul, e áreas das regiões Norte e Nordeste (ex. Tocantins e Maranhão, respectivamente). Essas regiões são, de modo geral, caracterizadas por apresentar chuvas concentradas em determinado período do ano (verão) e por altas temperaturas, o que acarreta elevada evapotranspiração e demanda hídrica pelos povoamentos florestais. A ocorrência de longos períodos de estiagem e as mudanças climáticas têm assolado os reflorestamentos por todo o Brasil, ocasionando mortalidade de árvores “adultas” (com mais de 3 anos) em grandes extensões de cultivo, seja por causa da falta de água ou, até mesmo, pelo surto de pragas e doenças. Muitas empresas do setor, juntamente com as universidades e os institutos de pesquisa, já estão procurando desenvolver genótipos mais adaptados às regiões de expansão florestal, envolvendo inclusive programas de melhoramento cooperativos de outros gêneros (ex. Corymbia). Por outro lado, no que tange à fertilidade do solo, muitos povoamentos têm apresentado sintomas de carência de boro (seca do ponteiro), cobre e zinco (tortuosidade do tronco) no Brasil. Acredita-se que a carência desses elementos no solo possa estar relacionada ao baixo teor de matéria orgânica nas áreas recém-implantadas (áreas de pastagem degradada) e à escassez de água, o que dificulta a difusão desses elementos no solo e sua respectiva absorção pelas plantas. A aplicação de fertilizantes boratados é consideravelmente bem consolidada no setor florestal, tanto em relação às doses (3 a 5 kg ha-1) quanto às fontes (ex. ulexita) e à forma de aplicação em cobertura. Todavia a aplicação de cobre e zinco é realizada ainda de forma empírica e preventiva, havendo pouco critério em sua recomendação. Algumas empresas e instituições de pesquisa (ex. Programa Cooperativo sobre Silvicultura e Manejo – PTSM/IPEF) têm desenvolvido estudos para delimitar os reais benefícios da fertilização com cobre e zinco, suas principais fontes no solo (ex. resíduos florestais) e o respectivo papel desses elementos na produtividade e na fitossanidade dos povoamentos florestais. É importante destacar que a fertilização é responsável por aproximadamente 30% dos custos de implantação/reforma de povoamentos florestais e, ao mesmo tempo, fundamental para a manutenção ou o aumento da produtividade em volume de madeira. Um grande desafio para essas empresas tem sido a redução dos custos de produção, dada a sua elevação nos últimos anos. Por isso muitas delas têm diminuído a intensidade de parcelamento durante a fertilização e, consequentemente, o número de operações. Em alguns casos (ex. em solos mais argilosos), determinadas empresas já estão aplicando grande parte dos fertilizantes no momento do plantio, ou seja, na fertilização de base.

Logicamente, essa prática deve ser realizada com critério e precaução, considerando o tipo de solo, o índice pluviométrico, a taxa de crescimento das plantas, entre outros fatores, de modo que se evite problema de mortalidade das mudas, devido ao aumento da salinidade próxima à rizosfera ou a perdas de nutrientes por lixiviação. Muito se tem falado sobre o uso de fertilizantes de liberação lenta ou controlada para a redução do número de operações com a fertilização florestal. De modo geral, esses fertilizantes não alteram a salinidade do solo quando aplicados em grande quantidade no momento do plantio e, ao mesmo tempo, possuem alta qualidade quanto às formulações (misturas granuladas), garantias e escoabilidade durante sua aplicação em filete contínuo, garantindo baixa segregação dos nutrientes e homogeneidade durante sua distribuição na área de plantio. Outro aspecto relevante nos últimos anos é a necessidade de mecanizar as atividades silviculturais no Brasil, tendo em vista a baixa disponibilidade de mão de obra qualificada e a necessidade de reduzir custos, como com encargos e rescisões contratuais, considerando a elevada rotatividade dos colaboradores no setor terceirizado. De modo geral, apenas 20% das atividades silviculturais são mecanizadas no Brasil, com destaque à pratica de preparo de solo. Muitas iniciativas vêm ocorrendo via interação universidade-empresa, para pesquisar formas de mecanizar o plantio e a irrigação de mudas, cujos resultados demonstram ser promissores quanto aos rendimentos e à qualidade das operações. Apesar disso, a silvicultura sofre ainda com a falta de investimentos em busca de máquinas/implementos apropriados e tecnologias de precisão. Muitos equipamentos são oriundos da agricultura e adaptados para a realidade florestal, o que acarreta baixa disponibilidade mecânica e elevada demanda por manutenções. Em muitos casos, as empresas fabricantes de máquinas afirmam que o mercado florestal é pequeno perante outros segmentos agrícolas e, por isso, não se justificam elevados investimentos no desenvolvimento de máquinas específicas para a área de silvicultura. Além disso, o próprio setor florestal relativiza os impactos financeiros da silvicultura sobre os custos de produção, dada sua diluição ao longo do ciclo (5 a 7 anos). Isso também tem colaborado para o baixo investimento em P&D e na mecanização das atividades florestais. Apesar dos desafios atuais, o Brasil continua sendo destaque internacional no setor de florestas plantadas. Cabe a nós, silvicultores, exercitar a criatividade e pesquisar novas técnicas de produção, garantindo o suprimento de madeira e almejando novos patamares de produtividade florestal. n

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prevenção e combate aos incêndios florestais

planejamento e perspectivas

Empreender no ramo de reflorestamento ou plantio de florestas requer, antes de tudo, o planejamento. Para tanto, a informação sempre será a pedra angular, e o monitoramento das áreas é o fator-chave para se alcançarem os melhores resultados. Na última década, a tecnologia tem se destacado com inovações, a fim de suprir as lacunas de informações confiáveis e rápidas, de modo que o monitoramento das florestas plantadas tem ganhado importantes aliados, permitindo que sejam definidas as melhores práticas no manejo, que abarcam desde a adoção de ações preventivas até a escolha do momento de corte. No que tange à prevenção, a silvicultura há que sempre se suprir de ferramentas adequadas para as condições locais, cujo propósito é evitar a ocorrência de incêndios florestais, ou, caso ocorra, de informações que permitam a adoção da técnica de combate elaborada para a situação in loco. Nesse contexto, o sensoriamento remoto, aliado aos sistemas de informações geográficas e de geoprocessamento, cuja aplicação é crescente em áreas florestais, foi a vanguarda tecnológica das mudanças estruturais quanto ao monitoramento de florestas naturais e um forte aliado no manejo de florestas plantadas. As imagens de satélite, das mais variadas características e, consequentemente, para múltiplos usos, permite, por exemplo, estimar as características dendrométricas dos povoamentos em tempo reduzido e com menor custo. Em se tratando de prevenção a incêndios florestais, a base de informações oriunda de dados remotos, obtidos por imagens de satélites, fotografias aéreas, imagens de radar e/ou laser, facilita a obtenção de dados, dentre outros, de acúmulo de material combustível e modelagem de risco de incêndios florestais, bem como informações das propriedades físicas da área dos respectivos plantios.

Apesar dos avanços, as imagens de satélite ainda possuem certas limitações que estão sendo contornadas com o desenvolvimento de sensores, como câmeras RGB, termais, radar e laser, cada vez mais acessíveis aos diversos usuários e de forma que possam ser embarcados em aeronaves não tripuladas, tipo drones e/ou VANTs, permitindo a obtenção de informações mais confiáveis, no tempo que se necessita, repetidas vezes, e, principalmente, cada vez com menores custos. Nesse cenário, exemplificamos o uso da tecnologia a laser, Light Detection and Ranging (LiDAR), no setor florestal, que tem sido aplicada desde meados de 1985. Até recentemente, esse sensor era grande e pesado e só podia ser embarcado em avião ou helicóptero, gerando altos custos para sua utilização. Entretanto, devido à eficiência de seu sistema, seus desenvolvedores o aprimoraram e, hoje, há versões compactas e bem mais leves, permitindo que sejam acoplados aos VANTs/drones de maneira segura, barateando custos e facilitando sua utilização. O LiDAR pode fazer o levantamento na presença de nuvens e à noite; sua principal aplicabilidade está na possibilidade da detecção de cada árvore, bem como a obtenção da altura dela (e outros parâmetros), além de conseguir dados do estrato subarbóreo (serapilheira) da área de interesse. Sua aplicação também permite estimar parâmetros das copas das árvores e do combustível de cobertura (biomassa), que podem ser usados na criação de um modelo de previsão do comportamento do fogo. O aparato tecnológico atualmente existente e em constante atualização tem modificado a forma de manejar os plantios florestais. A evolução dos softwares, algoritmos, computadores dotados com alta capacidade de processamento de dados, bem como a atual fase da inteligência artificial, tem facilitado a obtenção de dados, com maior rapidez, acurácia e menor custo. a informação sempre será a pedra angular, e o monitoramento das áreas é o fator-chave para se alcançarem os melhores resultados "

Marcos Giongo Alves e Jader Nunes Cachoeira

Professores da UF-Tocantins e Coordenador e Professor do CeMAF - Centro de Monitoramento Ambiental e Manejo do Fogo, respectivamente

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Gestão Florestal Da mesma forma como se desenvolveu o LiDAR, os sensores multiespectrais, que só existiam a bordo de satélites, e hiperespectrais (a mais recente inovação da espectroscopia) também já podem ser acoplados em RPA e permitem que o usuário identifique características espectrais que não são visíveis para câmeras comuns ou para o olho humano. Além disso, eles ajudam a visualizar a distribuição espacial dos parâmetros de vegetação de uma floresta plantada, por exemplo, identificando pontos relevantes para a tomada de decisão. Um dos propósitos mais comuns dos dados de imagem multi ou hiperespectrais é fornecer informações sobre a vegetação em um contexto agrícola, silvicultural ou natural. Essas informações, como estado de saúde, teor de clorofila e demanda de nitrogênio, teor de água, informações estruturais, etc., ficam ocultas nos dados de refletância. Ao analisar as propriedades da vegetação, esses índices permitem a recuperação de informações específicas, como status de vitalidade, teor de clorofila, que está diretamente relacionado à demanda de nitrogênio, teor de água, matéria seca ou índice de área foliar, para agricultura e silvicultura. Essas informações são úteis para se saber os níveis de risco que podem acorrer nos plantios, desde acúmulo de material combustível (risco de incêndio), saúde das plantas, necessidade de fertilizantes ou defensivos e estresse hídrico. Ultimamente, as empresas de base florestal vêm concentrando seus esforços na implantação de sensores

em Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (RPAS – drones ou VANTs). De forma mais prática, a utilização de sensores RGB de alta resolução, aerotransportado por RPA, para obtenção de estimativa da vegetação, torna o sensoriamento remoto um instrumento benéfico em levantamentos de campo e com resultados precisos e acurados, demonstrando a potencialidade da fotogrametria. Como os incêndios florestais estão sempre no topo das preocupações, a comunidade científica, o setor empresarial e a gestão pública têm se unido para conjugarem esforços a fim de promoverem tecnologias para suprir as lacunas de cada necessidade. A aplicabilidade de sensores tem inovado as estratégias de tomadas de decisão na adoção de meios preventivos, corretivos, ou ambos. Sensores, conjugados com a tecnologia de drones, podem detectar incêndios florestais em seus estágios iniciais e monitorá-los em tempo real, com alta precisão, permitindo ações de combate. As inovações são constantes. À medida que aumentamos ou melhoramos nossa capacidade e forma de vermos e compreendermos o que está à nossa volta, também evoluem os sistemas, equipamentos, softwares, automatização de rotinas e outras infindáveis técnicas. Todo esse aparato tecnológico estará, num futuro bem próximo, alinhado e alicerçado pela inteligência artificial. Portanto prevenção, produção, desenvolvimento e planejamento continuarão de “mãos dadas”. n

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Opiniões

plantio em áreas especiais

plantio de espécies comerciais

em área degradada, app e rl

Num mundo em que se discute cada vez mais a sustentabilidade dos processos produtivos, o controle das alterações das mudanças climáticas, a proteção dos recursos hídricos e a diversificação das fontes de renda do produtor, é fundamental que o elemento árvore esteja presente no planejamento de produção rural. De maneira geral, nas regiões com histórico antigo de agricultura, as florestas nativas, antes existentes nas propriedades, sempre contribuíram para a implantação das estruturas produtivas, tais como fornecimento de mourões, vigamentos para as edificações, cocho para os animais, polinizadores para as áreas agrícolas e, até mesmo, alimentos e produtos medicinais. No entanto, na maioria dos casos, não houve uma preocupação com a conservação e o manejo dessas florestas que perderam muitas de suas espécies nobres, restando, atualmente, florestas altamente degradadas e de baixa serventia econômica para o proprietário. Embora o Código Florestal de 1965 já permitisse o manejo de áreas de reserva legal (RL) para a exploração florestal sustentada, conservando a biodiversidade e os processos ecológicos presentes em uma floresta nativa, somente após as mudanças promovidas pela Lei 12.651/12, também conhecida como “Novo Código Florestal” (NCF), esse assunto veio à tona e começou a ser aplicado não só na reserva legal, mas também na área de preservação permanente (APP) e nas áreas de baixa aptidão agrícola degradadas por seu manejo histórico inadequado. A possibilidade de restauração florestal com aproveitamento econômico criou uma forma de o produtor se beneficiar de um passivo histórico que vem sendo cobrado cada vez mais pelos órgãos ambientais e pela sociedade.

É comum o proprietário achar que a restauração é apenas um plantio de árvores e, por isso, acaba tendo que refazer inúmeras vezes o mesmo trabalho. "

André Gustavo Nave

Diretor da Bioflora Tecnologia da Restauração

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Para a utilização dessas áreas de APP e RL, é preciso atenção para algumas regras impostas pelo NCF e pelo Programa de Regularização Ambiental (PRA), que estão sendo definidas para cada estado: número mínimo de espécies, possibilidade ou não de uso de espécies exóticas intercaladas com as espécies nativas, uso de Sistemas Agroflorestais (SAFs), etc., são exemplos de regras a serem respeitadas, evitando problemas futuros. Vale ressaltar que a utilização da APP é permitida apenas para o pequeno proprietário, ou seja, que tenha menos de 4 módulos fiscais. Ele é isento da complementação da RL, caso não tenha. Em nenhum caso, será permitida a supressão da vegetação já existente para substituição por outros sistemas florestais produtivos. Nas áreas agrícolas degradadas, a restrição de uso é bem menor, já que são áreas de produção, sendo possível trabalhar com uma ou poucas espécies, nativas ou não. Para que esse tipo de manejo florestal possa ser implantado de forma segura, é importante apresentar um projeto técnico ao órgão ambiental responsável e receber sua aprovação. A produção florestal pode seguir dois caminhos básicos: o primeiro são os produtos florestais não madeireiros, como frutas, mel, ingredientes medi-

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cinais, palmito, óleos, temperos, resinas, chá, etc.; o outro caminho é a linha de produtos madeireiros, como lenha, madeira para construções, mourões, móveis, etc. De forma geral, o pequeno proprietário acaba aderindo a um sistema misto (madeireiro e não madeireiro), contendo, principalmente, espécies com ciclos curtos de retorno financeiro. Já os grandes proprietários ou empresas rurais costumam optar por produtos madeireiros que, apesar de terem ciclos mais longos, são de baixo manejo e necessitam de pouca mão de obra. Para a escolha das espécies que estarão contempladas no projeto de restauração econômica, alguns parâmetros são muito importantes para o sucesso, entre eles estão: a. afinidade que o produtor tem com a espécie; Espécies

Espaçamento

Nativa ou exótica

3 a 6 metros

Madeireiras

2 a 4 metros

Nativa ou exótica

3 a 6 metros

Palmito

2 a 4 metros

Nativa ou exótica

3 a 6 metros

Frutífera

2 a 4 metros

Nativa ou exótica

3 a 6 metros

Espaçamento entre linhas

3 a 4 metros

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b. adaptação regional da espécie; c. valor comercial ou de consumo próprio; d. conhecimento sobre o manejo das espécies escolhidas; e. comportamento e espaçamento das espécies na comunidade florestal formada; f. resistência ao sombreamento, doenças, pragas, entre outras. Outro aspecto a ser levado em consideração é o planejamento do arranjo entre as espécies escolhidas, conforme seu comportamento de crescimento e as possíveis competições entre elas. O ideal é que as espécies ocupem espaços ou “nichos” diferentes dentro do sistema, por meio de um planejamento tridimensional, ocupando inclusive estratos de diferentes alturas (Figura). Independente de qual sistema for adotado, o importante para que dê certo é realizá-lo com muita seriedade. É comum o proprietário achar que a restauração é apenas um plantio de árvores e, por isso, acaba tendo que refazer inúmeras vezes o mesmo trabalho. As florestas (nativas ou exóticas) necessitam de cuidados básicos, como limpeza ou retirada de espécies competidoras, fertilização específica, controle de formigas e cupins, manejo de condução, etc. Para que isso aconteça da forma correta, é fundamental buscar orientação e capacitação técnica, por meio de profissionais experientes na área. n

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manejo de ervas daninhas

Opiniões

plantas daninhas em florestas plantadas As plantas daninhas apresentam alta competitividade na obtenção de nutrientes, água e luz, em função de uma série de características, entre elas velocidade e variabilidade de germinação de sementes e propágulos em vários ambientes e diferentes épocas do ano, seu porte, arquitetura, desenvolvimento radicular e eliminação de substâncias alelopáticas. Portanto, quando ocorrem no ambiente de produção florestal, interferem negativamente no desenvolvimento dos plantios comerciais. A interferência pode reduzir o crescimento em altura e diâmetro, além de comprometer a uniformidade dos estandes, acarretando perdas expressivas de produtividade. Refletir sobre um checklist para florestas plantadas no que diz respeito a manejo de plantas daninhas, nos direciona a considerar todos os fatores que interferem nas relações entre as florestas plantadas, os ambientes de produção, métodos de controle, recursos disponíveis, custos envolvidos, demandas ambientais, entre outros. Denominamos de manejo integrado de plantas daninhas, MIPD, a interação entre esses fatores na definição do processo decisório. Etapas do MIPD a. Caracterização ambiental: Nesse aspecto, é preciso entender as condições a que estão submetidas as florestas plantadas e seu entorno. O tipo de solo, sua fertilidade, além de fatores como pH, capacidade de troca catiônica e características físicas (teor de argila e matéria orgânica) influenciam na capacidade de desenvolvimento das florestas plantadas e seu fechamento. Por outro lado, de modo análogo, podem favorecer o crescimento da população de plantas daninhas. Em função das caraterísticas físico-químicas dos herbicidas, sua dinâmica e comportamento também são influenciados pelas caraterísticas físicas dos solos.

Entender o manejo e o hábito de crescimento da espécie florestal, em função das caraterísticas ambientais, é fundamental para definir uma estratégia de manejo para plantas daninhas. "

Rudolf Woch

Diretor de Inovação da Apoiotec

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A topografia da região também é fator decisivo nas determinações dos planos de controle das plantas daninhas. Regiões como as do Vale do Paraíba, em SP, e outras no Vale do Aço, em MG, não permitem operações mecanizadas em função do relevo acidentado, diferente de áreas como a costa leste do MS, onde praticamente todas as áreas são mecanizáveis. O maior fator de restrição de crescimento de plantas é a falta de água. Assim, o regime hídrico, em termos de volume e distribuição de chuvas, tem influência expressiva sobre a população de plantas daninhas e sobre o crescimento das florestas. Entender os movimentos de entrada de água no sistema de produção ao longo do ano e dos ciclos de produção pode ser um fator determinante na adoção de diferentes opções de manejo. A temperatura e fotoperíodos podem oscilar ao longo do ano e, por vezes, dentro do mesmo dia de trabalho. Com isso, há interferências importantes na germinação de banco de sementes, na capacidade de realização de fotossíntese pelas plantas e na ação de determinados herbicidas pós-emergentes. Regiões que estão mais sujeitas a ocorrência de pragas e doenças que causam desfolha, possibilitam a incidência solar nos solos e, com isso, o ressurgimento de plantas daninhas. A identificação das plantas daninhas, em termos de tipos, espécies, resistência a herbicidas, densidade populacional, estágio fenológico e porte, interfere na escolha dos métodos de controle dento do MIPD. Uma planta de regeneração do cerrado, com alto porte em períodos muito secos, precisa de operações mecânicas de controle, diferente de um banco de sementes de gramíneas em período chuvoso, que pode ser controlado com herbicidas pré-emergentes.


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Opiniões 41


manejo de ervas daninhas Em função das dimensões continentais do Brasil, encontram-se diferentes biomas, que estão sujeitos a situações ambientais particulares. Por exemplo, a dinâmica das populações das florestas plantadas e das plantas daninhas é muito diferente na região do Dom Elizeu, no PA, no período mais chuvoso, quando comparada a Três Lagoas, no MS, no período seco, ou a Telêmaco Borba, no PR, no inverno com geadas. b. Espécie florestal: As florestas plantadas têm hábitos de crescimento e manejos quanto à nutrição e aos espaçamentos muito diferentes. Com isso, uma floresta de eucalipto pode apresentar o fechamento de dossel total aos 8 meses de idade; em contrapartida, uma floresta de pínus plantada no mesmo espaçamento pode levar 3 anos para o mesmo nível de sombreamento sobre o solo. Outro aspecto está no manejo da floresta: quando se promovem desbastes ao longo do crescimento da cultura, como no caso do cedro-australiano ou do mogno-africano, novas exposições do solo acontecem, possibilitando novas infestações de plantas daninhas. As diferentes espécies também podem suportar diferentes pressões de convivência com plantas daninhas. Estudos de período de convivência e faixas de controle podem auxiliar nas decisões para cada cenário. Entender o manejo e o hábito de crescimento da espécie florestal, em função das caraterísticas ambientais comentadas acima, é fundamental para definir uma estratégia de manejo para plantas daninhas. c. Recursos disponíveis: O controle de plantas daninhas, em geral, pode ser realizado com operações mecânicas, como capina manual, coroamento, roçada manual ou mecanizada, gradagem, uso de rolo faca, correntões, tratores com lâminas frontais, reabaixadores de cepas, lâminas, etc.; ou químicas, com o uso de herbicidas, que podem ser pré-emergentes ou pós-emergentes, com aplicações manuais ou mecanizadas. Tanto em métodos mecânicos como em químicos, a mão de obra é um dos fatores de produção fundamentais, a capacitação e a disponibilidade de mão de obra podem, por vezes, direcionar manejos, com custos mais elevados ou tecnicamente menos adequados, em função da força de trabalho ofertada. Em geral, o emprego de operações mecânicas no controle de plantas daninhas é disponível em todas as áreas de produção florestal. O tipo de operação e a intensidade de uso podem variar em função de caraterísticas regionais, conforme o estudo ambiental destacado na etapa anterior. Sob o ponto de vista de controle químico de plantas daninhas, existem, no Brasil, algumas culturas com suporte fitossanitário insuficiente, ou seja, algumas das culturas florestais não têm herbicidas registrados para compor o MIPD. À exceção do eucalipto e do pínus, as demais culturas florestais podem ser consideradas com suporte insuficiente. Na tabela a seguir, estão algumas das principais espécies plantadas no Brasil, a quantidade de marcas comerciais e de princípios ativos registrados.

42

Opiniões Espécie florestal

Número de produtos comerciais

Número de princípios ativos

Eucalipto

97

21

Pínus

71

11

Seringueira

15

4

2

2

Mogno

SR

SR

Cedro

SR

SR

Teca

SR

SR

Paricá

SR

SR

Araucária

SR

SR

Acácia-negra

SR – sem produtos registrados

Para aquelas onde o uso de herbicidas é possível, é preciso levar em conta as características físico-químicas dos produtos, como solubilidade, pka, koc, kow e pressão de vapor. Esses fatores definem a dinâmica dos ativos ou seus subprodutos no ambiente, como sua persistência de se manter nos locais de interesse, seja nos solos ou plantas, seu potencial de contaminação ambiental e de migração para fora das áreas-alvo. Aspectos de performance em controle de plantas daninhas, como espectro de controle (folhas estreitas e/ou folhas largas), posicionamento (pré ou pós-emergência), risco de efeitos fitotóxicos nas culturas de interesse, momento de aplicação (pré ou pós-plantio), potencial de perdas por deriva, entre outros, devem ser levados em conta para definição de qual produto pode ou deve ser usado em cada cenário. Em geral, as aplicações de herbicidas são realizadas com pulverizadores. O objetivo dessas máquinas é a distribuição uniforme, contínua e na quantidade necessária de um tratamento químico nas áreas-alvo. Do ponto de vista de tecnologia de aplicação, é possível definir um novo checklist, abordando os principais fatores de interferência nos objetivos da pulverização, como homogeneidade das caldas, seleção correta das pontas de pulverização, sistemas de filtragem, dimensionamento de bombas, regulagens de altura de aplicação, pressão e vazão, além da capacitação e da adequação da mão de obra envolvida. d. Matriz de decisões: A partir dos fatores discutidos, é possível construir matrizes de tomada de decisão para diferentes fases das florestas, desde a limpeza de áreas para plantio, operações de manejo de daninhas no plantio, até operações de manutenção florestal. Na matriz de decisão, é possível construir diferentes caminhos de MIPD, indicando rotas, com quais operações mecânicas ou químicas, em que época do ano, com quais herbicidas e em que doses, definir quanto tempo será possível manter a floresta livre de competição com plantas daninhas e prever quais operações futuras deverão acontecer. Dessa forma, é possível estabelecer os caminhos críticos em termos de custos e eficácia, encontrando as melhores soluções para cada espécie florestal, aliadas aos objetivos de produção sustentável. n


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