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ONDA JOVEM

O Instituto Votorantim apóia essa causa.

PROJETO DE VIDA número 1 – março 2005 ano 1 – número 1 – março 2005

E quer ver muitos jovens fazendo sucesso na capa.

PROJETO DE VIDA Como os jovens brasileiros constroem no presente suas perspectivas de futuro


sonar

A recomendação da ONU para adoção do Programa Mundial de Ação para a Juventude faz dez anos

25% dos jovens brasileiros que buscam trabalho estão desempregados 20% DOS BEBÊS NASCIDOS EM 2002, NO BRASIL, ERAM DE MÃES DE 15 A 19 ANOS Somente 45% dos jovens freqüentam a escola no país

NESTE ANO, OS BRASILEIROS ENTRE


Tornar 2005 o Ano Nacional da Juventude é um item de política pública pág. 64

Um projeto rural na Bahia ajuda a fixar os jovens no campo pág. 18 INICIATIVAS EM SÃO PAULO, RECIFE E BELÉM REDUZEM CASOS DE GRAVIDEZ PRECOCE PÁG. 46 Milhares de jovens estudam segundo a pedagogia de três educadores juvenis pág. 14

15 E 24 ANOS SERÃO 35,139 MILHÕES

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âncoras “O projeto de vida envolve a definição do lugar do jovem no mundo e na sociedade.” Margarida Serrão e Maria Clarice Baleeiro,

autoras do livro Aprendendo a Ser e a Conviver (editora FTD)

“Escolhi ter um projeto de vida buscando prazer em estar sempre inquieta, buscando aprimorar o que já se tem ou indo atrás do que está por vir.” 21 anos, fundadora da ONG Interagir

FELIPE BARRA

Renata Florentino,

Cleodemar Viana Alves,

25 anos, estudante de Manaus, integrante da ONG Agência Uga-Uga de Comunicação

“Quero algo mais do que seguir o caminho que a maioria trilha, que é nascer, crescer, casar e ter filhos. Gostaria de testemunhar mudanças sociais e ver os jovens mais participativos.” Carlos Jordaki,

19 anos, estudante paulistano

Albertina Duarte Takiuti,

ginecologista, responsável pelo programa Saúde do Adolescente, do governo do Estado de São Paulo

HENK NIEMAN

“O projeto de vida atrelado à maternidade é uma busca da aprovação grupal. As meninas tentam criar vínculos e prender o namorado.”

ANDERSON OLIVEIRA

“O jovem precisa ter uma oportunidade para conseguir elaborar seu projeto de vida e precisa também conhecer a realidade na qual está inserido. Só assim ele vai conseguir ter um norte.”


“O projeto de vida é a ação do indivíduo de escolher um dentre os futuros possíveis, transformando os desejos e as fantasias em objetivos a serem perseguidos.” Juarez Dayrell,

coordenador do Observatório de Juventude da UFMG

“Treino quatro horas por dia. Para realizar meu projeto, não posso ficar parado. ” Luiz Júlio,

23 anos, estudante carioca, quer jogar basquete na Seleção Brasileira de Deficientes Físicos

“Engravidei para poder sair de casa, ter minha própria família, virar adulta.” H.S.S.

17 anos, estudante carioca, grávida de um “soldado” do tráfico

“Você vê o pessoal chegar no segundo colegial e ainda não saber o que quer ser. A escola tinha de despertar, mexer mais com criatividade, dar mais opções pra pessoa poder procurar dentro dela o que gostaria de ser.” Negra Li,

25 anos, rapper paulistana

“Projeto de vida é um caminho a ser percorrido entre o ser e o querer-ser na vida de cada pessoa.” Antônio Carlos Gomes da Costa,

pedagogo, consultor especialista em juventude e ação educativa

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HAROLDO P. NETO

editorial

Um projeto de comunicação apoiado pelo Instituto Votorantim Projeto editorial e realização Fátima Falcão e Marcelo Nonato Olhar Cidadão – Estratégias para o Desenvolvimento Humano www.olharcidadao.com.br Direção editorial Josiane Lopes Secretaria editorial Sebastião Aguiar Projeto gráfico Artur Lescher e Ricardo van Steen Tempo Design Colaboradores texto: Aydano André Motta, Antonio Carlos Gomes da Costa, Antonio Moreno, Beatriz Portugal, Bronia Liebesny, Cuca Fromer, Daniela Rocha, Edna Kahhale, Iara Biderman, Jairo Bouer, James Allen, Juarez Dayrell, Karina Yamamoto, Sérgio A. P. Esteves, Yuri Vasconcelos, Vasconcelos Quadros, Vera de Sá

ilustração: Cárcamo, Haroldo Paranhos Neto, Marcelo Pitel

MÁRCIA ZOET

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revisão: Eugênio Vinci de Moraes Direção de Layout Silvina Gattone Liutkevicius D´Lippi Editorial Fotolito D´Lippi Editorial Impressão Gráfica Sag Como entrar em contato com Onda Jovem: E-mail ondajovem@olharcidadao.com.br Endereço: Rua Dr. Neto de Araújo, 320 - conj. 403, São Paulo, CEP 04111 001. Tel. 55 11 5083-2250 e 55 11 5579-4464 www.ondajovem.com.br: vem aí um portal para quem quer saber da juventude

RISONALDO CRUZ

ano 1 – número 1 março-junho 2005

foto: Anderson Oliveira, Cristiane Silva, Carlos Cavalcante, Cláudio Nascimento, Davilym Dourado, Edmmar Souza, Felipe Barra, Francisco Valdean, Gustavo Lourenção, Henk Nieman, Karlos Rikáryo, Levi Silva, Lorena Cruz, Luiz Prado, Luludi, Marcelo Elias, Márcia Zoet, Márcio Júlio, Marco Fernandes, Maria Luiza D´Albergaria, Paulo Emílio Andrade, Penna Prearo, Risonaldo Cruz, Sadraque Santos

MARIA LUIZA D’ALBERGARIA

Temos a satisfação de apresentar a revista Onda Jovem, publicação que vem ocupar um espaço editorial focado no segmento juventude, na perspectiva de quem lida com o jovem – educadores, profissionais de diversos setores sociais, especialistas e estudiosos – e do próprio jovem que deseja influir no modo como é percebido pela sociedade. Pela coerência dessa proposta em relação à estratégia adotada pelo Instituto Votorantim, a publicação ganha o seu patrocínio a partir do primeiro número. Esse apoio ao projeto desenvolvido pela empresa Olhar Cidadão reflete nossa crença no potencial da juventude brasileira, cuja força demográfica se destacará nas próximas duas décadas, totalizando uma população inédita de quase 36 milhões de jovens em 2025. A cada edição, Onda Jovem abordará um tema específico, colocando o desenvolvimento integral do jovem como eixo principal, buscando a diversidade de perspectivas e a multiplicidade de abordagens. Por meio de reportagens, ensaios e entrevistas com jovens e profissionais especializados, a publicação pretende trazer para a agenda pública temas que valem reflexões, contribuindo para enriquecer o debate e avançar nas soluções. Esperamos que o conhecimento gerado por esse instrumento estratégico de comunicação seja utilizado por todos os públicos envolvidos direta ou indiretamente nas questões relacionadas à juventude, de modo a aprimorar sua atuação e a beneficiar nossos jovens. Um objetivo que, por si só, justifica o apoio dado pelo Instituto Votorantim à Onda Jovem que se lança agora.

HENK NIEMAN

Caro leitor,

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8 - Navegantes Um grupo de jovens brasileiros comenta seus projetos de vida

14 - Mestres A inspiração de três educadores para a educação juvenil

18 - Banco de Práticas Quatro iniciativas que estimulam a reflexão sobre o futuro

22 - Caminho das Pedras Como a superação de obstáculos ajudou a definir o sucesso da ONG baiana Cipó

26 - Horizonte Global Um projeto muda a vida de jovens bolivianos em Santa Cruz de la Sierra

28 - Sextante O personalismo dos projetos individuais atrasa a construção de um projeto de país

30 - 90 Graus Projeto de vida e família: o contexto familiar é orientador dos planos de futuro

34 - 180 Graus Projeto de vida e escola: a instituição escolar desconsidera o jovem por trás do aluno

38 - 270 Graus Projeto de vida e trabalho: o empreendedorismo é uma atitude a ser moldada

42 - 360 Graus Projeto de vida e mídia: Os meios de comunicação geram falsos modelos de sucesso

46 - Sem Bússola

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é o número

de projetos com jovens que você verá nesta edição

Sonar 02 Pistas do todo e de alguns aspectos da situação juvenil

Âncoras

04

Algumas definições da expressão “projeto de vida”

As estratégias de sobrevivência que geram riscos

52 - O Sujeito da Frase A rapper paulistana Negra Li diz que a gente acaba atraindo o que deseja muito

56 - Luneta

Links

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Notícias sobre juventude e sobre o terceiro setor

Religião: a intensa e variada vida religiosa dos jovens brasileiros

60 - Ciência Cérebro: um lento amadurecimento, que influencia a forma de pensar

64 - .gov.com Fazer de 2005 o Ano Nacional da Juventude é uma das propostas dos poderes públicos

68 - Chat de Revista Quatro jovens debatem, por escrito, a relação entre projeto de vida e felicidade

Fato Positivo 74 Mídia juvenil também é monitorada pela Andi

Navegando

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Um projeto de vida traduzido na arte de rua de Haroldo P. Neto


navegantes

No ano em que somam 35,14 milhões e atingem um recorde de participação no conjunto da população, brasileiros entre 15 e 24 anos falam sobre seus projetos de vida

por_ Yuri Vasconcelos

FUTURO CARLOS JORDAKY, 19 Inconformado com a pouca participação política da juventude, o paulistano quer ser um “mobilizador social” e testemunhar transformações sociais

KARAÍ TUKUMBÓ, 24 E MARIA GIOVANNA, 22 Casados, um filho, planejam viver numa aldeia: ele quer ser cacique dos guaranis; ela procura uma vida espiritualizada, longe das cidades

O índio guarani Karaí Tukumbó, de 24 anos, tem um objetivo na vida: tornar-se o cacique de sua tribo. É um projeto antigo, que surgiu, diz ele, quando tinha apenas 10 anos. “Na cultura do meu povo, crianças dessa idade já começam a pensar no futuro. Eu sempre pensei em ser líder da tribo”, diz Tukumbó, que nasceu numa aldeia perto de Criciúma, em Santa Catarina. O jovem índio de fala mansa explica que seu desejo cresceu à medida que conhecia outras aldeias e via as dificuldades enfrentadas por seu povo. “Por trás da minha decisão está a vontade de trabalhar para melhorar a situação das pessoas da minha comunidade.” O projeto de vida de Tukumbó, cujo nome quer dizer “protetor da casa de reza”, volta-se para a sua coletividade. Ele se considera capaz de ser um agente de melhoria das condições de seu povo. Projetos de vida com esse perfil, porém, não são comuns entre a juventude brasileira. Embora os jovens sejam sempre pródigos em expectativas de mudança, os especialistas dizem que, na prática, eles tendem a se concentrar em projetos voltados para a realização pessoal, com pouco poder de transformação social. Mas qual é, então, o conceito que os jovens têm de seu projeto de vida? Como ele se esboça? O que o determina?

LEVI SILVA

PROPOSTAS DE No ano em que jovens entre 15 e 24 anos pela primeira vez somarão 35,139 milhões – atingindo um recorde e iniciando a grande onda jovem que o Brasil viverá nos próximos 20 anos –, torna-se ainda mais significativo compreender como eles planejam o futuro. Um grupo de brasileiros de diferentes origens sociais, culturas e regiões geográficas expõe aqui suas percepções do tema. Formam um painel diversificado, mostrando que a formulação de um projeto de vida não é uma questão fechada, uma receita pronta, mas algo muito mais complexo e abrangente do que simplesmente pensar “o que vou ser quando crescer”. Entre o sonho e a ação Planejar o futuro profissional está no centro da questão, mas outras dimensões também são levadas em conta quando os jovens estabelecem metas para suas vidas, como o papel >>


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HENK NIEMAN


navegantes

ANDERSON OLIVEIRA

Família, escola e grupo influenciam os projetos de vida, que exigem escolhas baseadas no conhecimento de si mesmo e da realidade

LUIZ JÚLIO, 23 Um acidente mudou seu rumo, mas não eliminou o sonho do garoto de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, de ser um grande jogador de basquete

PAULA JIMENEZ, 24 A bióloga do Ceará está iniciando doutorado em farmacologia marinha e diz que seu projeto tomou corpo ao longo do tempo, aproveitando as oportunidades e o estímulo familiar

a desempenhar na sociedade, as relações afetivas que pretendem criar e o espaço que darão à espiritualidade, entre outras. Como afirmam as educadoras Margarida Serrão e Maria Clarice Baleeiro, autoras do livro Aprendendo a Ser e a Conviver (editora FTD), “o projeto de vida envolve a definição do lugar do jovem no mundo e na sociedade”. É o conhecimento – de si mesmo e da realidade em torno – que orienta as escolhas. Inicialmente, o processo é dirigido pela família, e depois influenciado pela escola e pelas relações de grupo. Aptidões naturais, percalços, golpes de sorte, o imponderável, enfim, também temperam opções de vida. Mas, esboçadas as escolhas, é preciso esforço para a tarefa de realizálas. Um estudo sobre projeto de vida realizado por psicólogos da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, com 400 jovens paulistas da 8ª série ao 3º ano do ensino médio, mostra a dificuldade em concretizar o projetado, algo que exige perseverança e superação de desafios. O índio Tukumbó tem essa clareza: “Não existe uma idade certa para ser cacique, mas sei que estou chegando perto. E tenho me preparado para isso”. Há alguns anos, ele vem freqüentando encontros de lideranças guaranis a fim de aprender quais são as res-

ponsabilidades e deveres de um cacique. Mas nem tudo em sua vida é reafirmação da tradição. Para companheira, ele escolheu a paulistana Maria Giovanna Guimarães, 22 anos, com quem tem um filhinho, Yamandu. De uma família de classe alta de São Paulo, Giovanna por sua vez pretende dedicar-se ao aprimoramento espiritual. Para ela, a questão profissional não é a mais relevante. “Minha meta é conseguir viver em harmonia comigo mesma, praticando meditação e tentando adquirir silêncio interior. Para isso, quero morar perto da natureza, longe da cidade”, diz. Recentemente, o casal se mudou para Santa Catarina, para se estabelecer numa reserva indígena no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. “Sei que não é saindo da cidade que eu vou ter mais paz”, diz Giovanna, chamada pelos guaranis de Kunha Taguá, que significa “aquela que dita o ritmo”. “Mas estou confiante que esse é o meu caminho.”


CARLOS CAVALCANTE

NÁGELA SOUSA, 15

SOBRE

PARA SABER MAIS

SOBRE

A garota de Fortaleza faz planos para seguir uma carreira acadêmica, com apoio da família

PARA SABER MAIS

SADRAQUE SANTOS

Volta por cima Confiança é mesmo elemento fundamental para concretizar um projeto de vida. E se ela pode ser abalada, pode também ser reconquistada. Que o diga o estudante Luiz Júlio de Sousa Pereira, 23 anos, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Há quatro anos, ele sofreu um acidente de trem, que lhe amputou a perna esquerda. Depois de um período de abatimento, Luiz reergueu-se e definiu seus novos objetivos: entrar na faculdade e ingressar na seleção brasileira de basquete de deficientes físicos. Ele sabe que precisará vencer ainda mais obstáculos do que os que se atravessam no caminho de qualquer jovem. “Se tiver força e interesse, as coisas vão acontecer. Treino cerca de quatro horas três vezes por semana e estudo bastante”, afirma Luiz, que está concluindo o 2º ano do ensino médio. “Para realizar meu projeto, não posso ficar parado.” >>

PROJETO VÍDEO CULTURA E TRABALHO REGIÃO DE ATUAÇÃO ÁREA METROPOLITANA DE SÃO PAULO (SP) INSTITUIÇÃO AÇÃO EDUCATIVA (ONG) PROPOSTA Construir possibilidades de inserção dos jovens como mediadores culturais especializados na técnica do vídeo e na linguagem vídeo-cinematográfica JOVENS ATENDIDOS 40 APOIO INSTITUTO CREDICARD E FUNDAÇÃO VITAE CONTATO Rua General Jardim 660 – Vila Buarque – 01223-010 – São Paulo (SP) – Fone: 11/3151-2333 e-mail: acaoeduca@acaoeducativa.org.br

JORNAL UGA-UGA REGIÃO DE ATUAÇÃO ESCOLAS DAS ZONAS URBANA E RURAL DE MANAUS (AM) INSTITUIÇÃO AGÊNCIA UGA-UGA DE COMUNICAÇÃO (ONG) PROPOSTA Incentivar o protagonismo juvenil e promover a educação pela comunicação. Alunos do ensino médio da rede municipal de Manaus participam da produção do jornal, distribuído em mais de 200 escolas JOVENS ATENDIDOS 15 MIL (que recebem diretamente o jornal) APOIO EM 2004, SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE MANAUS CONTATO Rua Diogo Bernardes, 72 – Jardim Espanha 3 Aleixo – 69060-020 –Manaus (AM) – Fone/Fax: 92/642-8013/642-9003 – e-mail: agencia@agenciagauga.org.br

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CLÉO ALVES, 25 Depois de uma adolescência vivida em meio à pobreza e à violência, em Manaus, um projeto social o ajudou a dar uma guinada na própria vida

ÉRIKA DE OLIVEIRA, 21

PARA SABER MAIS

SOBRE

Criada no campo, ela quer ajudar a melhorar a condição dos lavradores capixabas

Uma pesquisa com jovens paulistas confirma que a concretização de um projeto de vida é árdua, exigindo persistência DIVULGAÇÃO

CRISTIANE SILVEIRA DA SILVA

navegantes

A bióloga cearense Paula Jimenez, 24 anos, também tem suado muito para atingir seu maior objetivo: tornar-se pesquisadora na área de farmacologia marinha. “Preciso estudar muitos anos para chegar onde quero”, diz. Filha de uma família de classe média, ela já concluiu o mestrado e está iniciando o doutorado. Seu projeto foi tomando corpo ao longo de sua vida, à medida que as oportunidades foram surgindo. “Mas confesso que recebi forte influência de minha mãe para seguir a carreira de pesquisadora”, diz. A mãe é professora universitária, com vários títulos em educação. A mesma influência familiar é um dos fatores determinantes para a estudante Nágela Sousa, 15 anos,

PROJETO ALIANÇA COM O ADOLESCENTE REGIÃO DE ATUAÇÃO MICRORREGIÃO DO MÉDIO JAGUARIBE, COMPOSTA PELOS MUNICÍPIOS DE ACOPIARA, IGUATU, JUCÁS, ORÓS E QUIXELÔ (CE) INSTITUIÇÃO INSTITUTO ELO AMIGO (OSCIP) PROPOSTA Promover, por meio do protagonismo juvenil, mudanças na percepção e no enfrentamento do quadro econômico e social do Nordeste, com capacitação técnica empresarial, noções de agroecologia familiar e estímulo do espírito de solidariedade e cidadania JOVENS ATENDIDOS 1.000 APOIO INSTITUTO VOTORANTIM, FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, INSTITUTO ALIANÇA COM O ADOLESCENTE E SEBRAE CONTATO Rua 21 de abril s/n, Prado – 63500-000 – Iguatu (CE) – Fone: 88/3581-6575 – Fax: 88/3581-0292 e-mail: eleudson@eloamigo.org.br

esboçar seu projeto de vida. Ela pretende cursar uma faculdade – está em dúvida entre Direito, História e Matemática – e depois seguir a carreira acadêmica. Nágela é filha da funcionária doméstica da família da bióloga Paula, com a qual sempre conviveu intimamente. “Fui influenciada pela minha família para definir esses objetivos”, diz. Ecoando uma convicção generalizada, ela justifica: “O único jeito de conseguir alguma coisa na vida é fazendo faculdade. Conseguir emprego já está difícil hoje em dia, imagine sem ter um curso superior”. Contra a corrente Projetos de vida centrados no indivíduo e construídos a partir das condições e demandas da atualidade são os mais comuns entre os jovens brasileiros. Na pesquisa conduzida pelos psicólogos da PUC, por exemplo, o ideal do homem bem-sucedido economicamente predominou entre os


KARLOS RIKÁRYO

O FUTURO É AGORA

jovens entrevistados. Ser rica, porém, não é a tônica do projeto da capixaba Érica Fernanda Montemor de Oliveira. A estudante, de 21 anos, moradora do trevo de Iúna, localidade rural às margens da rodovia BR-262, no Espírito Santo, quer atuar numa associação de assistência a trabalhadores rurais. “Quem vive no campo tem uma vida difícil. Meus pais trabalham de sol a sol e não vêem a renda do seu trabalho. Quero ajudar pessoas como eles”, diz Érica, que recentemente foi beneficiada pelo programa Nossa Primeira Terra, do governo federal, e recebeu um lote de terra para construir uma casa. É também um projeto transformador que ocupa o amazonense Cleudomar Viana Alves, o Cléo, 25 anos. “Quero poder ajudar pessoas que vivem hoje como eu vivia antigamente.” Ele nasceu num dos bairros mais pobres de Manaus e passou a infância convivendo com roubos, drogas e todo tipo de violência. “Até entrar na Agência Uga-Uga de Comunicação, uma ONG que atende crianças, adolescentes e jovens, eu me encontrava em situação de risco”, diz ele. “Depois que me engajei no projeto, há sete anos, tudo mudou. Consegui escapar do sistema que me expunha à violência e comecei a planejar minha vida. Hoje, percebo que o jovem precisa ter uma oportunidade para conseguir elaborar seu projeto. E necessita também conhecer a realidade na qual está inserido. Só assim, ele vai conseguir ter um norte”. Hoje Cléo é coordenador do jornal Uga-Uga. O paulista Carlos Jordaky Siqueira, 19 anos, tem como objetivo trabalhar em favor da “politização da juventude”, promovendo a integração entre jovens de diferentes classes e tribos. “Quero algo mais do que seguir o caminho que a maioria trilha, que é nascer, crescer, casar e ter filhos. Gostaria de presenciar mudanças sociais e ver os jovens mais participativos”, diz o membro do projeto Vídeo, Cultura e Trabalho, da ONG Ação Educativa. Para Jordaky, “há 30 anos, os jovens iam para a rua e reivindicavam. Hoje, não tem isso. Eles pensam que todas as coisas já foram feitas. Mas estão enganados. É preciso que a juventude seja mais participativa e tenha uma postura mais crítica em relação à sociedade”. Segundo ele próprio, porém, não será fácil concretizar seu desejo. “Além de fazer o que gosto, tenho de pensar na questão financeira e na minha sobrevivência”, observa, realista, para de novo levantar vôo rumo aos sonhos: “Eu sinto que tenho vontade, perseverança e entusiasmo para atingir meu objetivo”.

“Sei aonde quero chegar e conheço os caminhos que preciso trilhar. Mas nem sempre foi assim. Participar dos programas do Instituto Elo Amigo, em Iguatu, no Ceará, voltado para incentivar o protagonismo juvenil, mudou minha maneira de ver o mundo e pensar meu futuro. Os programas aguçaram meu senso crítico, estimularam minha curiosidade e me ajudaram a desenvolver meu lado empreendedor. Comecei a refletir sobre minha vida. Não fiquei mais tão preso à idéia de cursar uma faculdade, sem mesmo saber para quê, e ampliei meu leque de possibilidades. Hoje, meu projeto envolve três atividades: cursar Administração, consolidar a minha empresa, a Inventtive Tecnologia, de sites e softwares, e apoiar as ações do Elo, do qual agora sou também coordenador. Quero que minha empresa tenha forte atuação social e ajude a desenvolver o capital humano da região. A execução do projeto depende do meu nível de comprometimento e de um bom planejamento. Mas de uma coisa estou certo: a vida fica mais fácil quando temos clareza para onde queremos ir e como fazemos para chegar lá.”

MARCOS ALVES DA SILVA, 20 ANOS, empresário de Iguatu, CE

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FOTO_ MÁRCIA ZOET

mestres


INQUIETOS E CONFIANTES, TRÊS EDUCADORES INSPIRAM UMA NOVA EDUCAÇÃO JUVENIL

A DIDÁTICA DO SONHO por_ Cuca Fromer

“O professor ensina; o educador aprende”, diz Tião Rocha, para explicar por que deixou a sala da Universidade Federal de Ouro Preto para “aprender” com jovens e crianças debaixo de um pé de manga em Curvelo, sertão de Minas Gerais. O fundamental é a “crença no potencial humano”, afirma Abdalaziz de Moura, sobre seu envolvimento com a educação juvenil no sertão pernambucano. A “aflição de não saber como o jovem aprende” foi o que moveu Carmem Capitão a criar um grupo com professores da Zona Leste de São Paulo para buscar respostas. O que Tião, Carmem e Moura têm em comum? A capacidade de perceber que um sonho vira um projeto de vida no momento em que o sonhador acredita nele e age. Cada um a seu modo e em seu tempo, eles acreditaram que a educação é a arma mais poderosa para a realização dos sonhos. Acreditaram e agiram. Foi da necessidade de aprender de Tião que surgiu o CPDC (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento), em 1984. Sentados em uma roda,

Carmem Capitão, professora do grupo Enigmas Juvenis, de São Paulo: “Como a juventude aprende?”

Tião reuniu amigos que, como ele, também buscavam novos caminhos. Assim, em volta da roda, surgiu o projeto Sementinha, com atividades que visavam desenvolver nas crianças a auto-estima e a identidade pessoal, incluindo cuidados de higiene e saúde, além de estimular o respeito mútuo. Da “pedagogia da roda” conclui-se que até é possível uma educação sem escola – debaixo de um pé de manga –, mas que educação boa é feita por bons educadores. Foi também no espaço da roda que surgiu a pergunta fundamental: “É possível uma escola prazerosa?”. A resposta veio com o Bornal de Jogos, uma coleção de mais de 180 jogos educativos, confeccionados por jovens e crianças. Mas foi Denílson que, aos 11 anos, “persistentemente na 1ª série”, permitiu o feliz encontro da escola com o Bornal. O garoto jogava damas divinamente, mas não aprendia uma só conta na escola. Inconformado, Tião resolveu transformar o jogo de damas em operações aritméticas. Em uma semana, Denílson era “outro aluno”. Sua professora quis conhecer o projeto. Assim o Bornal de Jogos chegou à escola de Curvelo e hoje se espalha pelo Brasil e por países como Guiné-Bissau e Moçambique. Um dia, uma professora, dona Margarida, procurou Tião e disse: “Desde que os garotos se animaram a lavar-se, temos gastado muito sabão e a escola não tem dinheiro para isso. É tão fácil fazer sabão. Vamos fazer?”. Nascia ali a “pedagogia do sabão”. Em volta do caldeirão, mulheres, jovens e crianças preparam o sabão. E cozinhando o sabão, conversam, trocam experiências. Na roda do sabão, outras técnicas de produção de baixo custo foram sendo desenvolvidas, ocupando as crianças que iam crescendo. Os jovens começaram a recuperar o artesanato típico da região em fabriquetas de doces cristalizados, licores, papéis, escultura de metal. As propostas do CPDC já se espalham por dezenas de cidades. Em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, MG, a instituição ocupa a Secretaria de Educação. “A cidade está numa UTI pedagógica”, diz o educador. Segundo ele, com

ética, vale tudo para dar às pessoas a possibilidade de construir um projeto de vida. “O importante é investir nos pontos luminosos e não ficar denunciando as mazelas”, aprendeu Tião. Contra as expectativas Quando nasceu o seu quarto filho, Abdalaziz de Moura viu-se diante de um diagnóstico terrível. O garoto, deficiente, não andaria nem falaria, segundo os médicos. Mas, como diz o pai, o fundamental é a “crença no potencial humano”. Hoje, com 18 anos, no curso médio e especializado em informática, o rapaz é autônomo, dono de seu destino. Foi assim que Moura começou em Gravatá, na microrregião da Bacia do Goitá, interior de Pernambuco, um trabalho com famílias de portadores de deficiência. A experiência o levou a outros projetos. É um dos fundadores da Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa), que, desde 1989, propõe que a juventude possa se ver e ser vista como parte integrante e importante da comunidade. “É preciso despertar a confiança, fazer com que o jovem se veja na sua potencialidade”, diz Moura. Mas, para isso, era necessário que os professores das escolas rurais implementassem “uma visão integral das coisas, que ensinassem a geração de renda integrada ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentado das comunidades”. A escola passou, então, a trabalhar com as referências básicas: primeiro,>>

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Tião Rocha, com rapazes que trabalham em uma das fabriquetas do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento que ele fundou em Minas Gerais

Abdalaziz Moura, um dos fundadores da Serta: esforço para mudar a educação rural no interior de Pernambuco

a casa – nome completo dos pais, dos irmãos, quantidade de galinhas, de pés de couve. Com esse material, o aluno forma a sua identidade e aprende a ler, a escrever, e aritmética. Depois, o estudo se estende ao ambiente, ao município, à cultura local. “Ele conseguirá pensar o seu entorno”, diz Moura, para quem o conhecimento provoca a ação, cria novos valores, promove novas relações. “O professor passa a líder, e a juventude passa a ter um papel relevante para si e para a comunidade. O jovem já não precisa partir”, alegra-se Moura, um desses raros homens capazes de dizer: “Sinto-me profundamente feliz e realizado”. Decifrando enigmas Há dois anos, a aflição com questões que enfrentava dentro da sala de aula – como o jovem aprende e o que é significativo no processo educacional? – levou Carmem Cristina Beluzo Capitão, professora de História na Escola Estadual Caetano Miele, na Zona Leste de São Paulo, a se unir com colegas igualmente inquietos. A busca por respostas gerou o Enigmas Juvenis, um grupo de 11 professores de dez escolas da região. A primeira constatação: quase não há informação sobre a educação juvenil. “Pouco se sabe sobre os interesses desses alunos”, observa Carmem. Para conhecê-

los um pouco mais, decidiu-se fazer uma pesquisa sobre os grupos juvenis e as escolas. O objetivo era saber mais sobre os estudantes e também colher subsídios para incluir o tema da juventude no planejamento escolar de 2004. Alguns dos resultados da pesquisa: 82% dos alunos fazem parte de grupos, principalmente esportivos, religiosos e artístico-culturais. Embora a escola seja um espaço de encontro desses grupos, 41% dos jovens acham que a instituição desconhece sua existência. Segundo os estudantes, os temas mais discutidos por eles – esportes, religião, produção artística, sexualidade e preconceito, nesta ordem – são praticamente ignorados em sala. Mas 65% gostariam de desenvolver as atividades de seu grupo na escola. Os professores propuseram, então, novas formas de atuação pedagógica, abrindo espaço para as manifestações dos grupos e a discussão dos


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assuntos de seu interesse. Algumas escolas estimularam a leitura comparada das revistas preferidas dos jovens; outras realizaram festivais de música. Houve dois encontros interescolares. No primeiro, os grêmios estudantis foram convidados a conhecer as propostas do Enigmas Juvenis, para facilitar o trânsito de informações. Depois, foi a vez dos grupos artísticos. “Teve hip hop, axé, sapateado. Uma turma encenou uma peça sobre o preconceito que existe, dentro da própria Zona Leste, em relação à origem dos estudantes”, conta Carmen. “Foi emocionante ver a alegria dos alunos. Agora eles se achegam mais”, diz. É claro que na compreensão desses “enigmas” ainda há tudo por descobrir, mas a caminhada já começou. O que Carmem quer é que seja “a busca de um caminho novo, que dê um respiro aos jovens”. E isso é tudo que um educador precisa querer.

17 SERTA - SERVIÇO DE TECNOLOGIA ALTERNATIVA (OSCIP) REGIÃO DE ATUAÇÃO BACIA DO RIO GOITÁ - PE NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 600 APOIO DIVERSOS PATROCINADORES CONTATO Campo da Sementeira, Rod. PE. 50 – Km 14 – Zona Rural – 55620-000 – Glória do Goitá (PE) Fone: 81/ 3658-1265 – e-mail: serta@serta.org.br

CPDC - CENTRO POPULAR DE CULTURA E DESENVOLVIMENTO (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO MINAS GERAIS; BAHIA, ESPÍRITO SANTO, SÃO PAULO, MARANHÃO, PARÁ. AMAPÁ, GUINÉ BISSAU, MOÇAMBIQUE PROPOSTA Criar um espaço para educação conectado com a realidade local, com o objetivo de promover educação popular e o desenvolvimento comunitário a partir da cultura APOIO DIVERSOS PATROCINADORES CONTATO SEDE Rua Paraisópolis, 80 – Santa Tereza – 31010-330 – Belo Horizonte (MG) Fone: 31/3463-6357 – Fax: 31/3463-0012 – e-mail: cpcd@cpcd.org.br

ENIGMAS JUVENIS - GRUPO DE PROFESSORES DA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO REGIÃO DE ATUAÇÃO ZONA LESTE DA CAPITAL PROPOSTA Reconhecer as culturas juvenis, estudar o processo de aprendizagem do jovem e propor atividades que o motivem e o aproximem da escola NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS AS ESCOLAS SOMAM 3 MIL ALUNOS APOIO ONG AÇÃO EDUCATIVA E DELEGACIA REGIONAL DE ENSINO CONTATO Local dos encontros: Fone: 11/6682-6705 – Fax: 11/6682-7677 – e-mail: nrteleste1@bol.com.br


QUATRO DIFERENTES PROJETOS COLOCAM EM QUESTÃO O QUE FAZER DA PRÓPRIA VIDA

LORENA CRUZ

banco de práticas

An a Luis a D´Alber g aria

Ser o autor e o ator no teatro da vida pressupõe escolhas — e leva à ação. Não por acaso, dois reconhecidos programas de formação juvenil têm essas palavras em seus nomes. Um deles é o Jovens Escolhas em Rede com o Futuro, do Instituto Credicard (braço social das empresas Credicard Administradora de Cartões de Crédito S.A e Orbital Serviços de Processamento de Informações Ltda.), que estimula o empreendedorismo juvenil, não apenas no sentido econômico, mas nas diversas dimensões da vida – cultural, social e pessoal. O outro programa é o Jovens em Ação, iniciativa da Aracati – Agência de Mobilização Jovem e da Ashoka Empreendedores Sociais, que apóia os participantes na elaboração e implementação de um projeto social em sua comunidade, com ênfase no protagonismo juvenil. Ambos servem como âncoras para variados projetos de ONGs espalhados pelo Brasil. Os dois programas têm como princípio resguardar a autonomia dos projetos participantes. Educadores, facilitadores e instituições coordenadoras fornecem o conjunto de conhecimentos e ferramentas necessários para que os jovens desenvolvam um plano de ação, de modo a transformar seus anseios em realidade. Os grupos discutem e planejam o que e como fazer, não só para eles, mas também para os que estão fora da organização. “No exercício da participação social, a juventude se apropria do que a cerca, adquire uma postura pró-ativa em relação a tudo”, diz Carla Duarte, uma das fundadoras da Aracati. “Isso promove a autonomia, a autoestima, o autoconhecimento, a reflexão sobre valores que vão ajudar na elaboração de um projeto de vida”, completa Paulo Gonçalves de Freitas, coordenador do Jovens em Ação. “Em áreas de interesse diversas, como arte, comunicação, cultura, meio ambiente, desenvolvimento local e economia solidária, o pano de fundo é sempre elaborar e realizar um projeto de interesse público e coletivo”, diz Silvia Esteves, coordenadora do Jovens Escolhas. “A metáfora em questão é a construção do próprio projeto de vida”, conclui. Veja a seguir quatro dos projetos apoiados pelos referidos programas.

PAULO EMILIO CASTRO ANDRADE

por_ Iara Biderman

LUIZ PRADO/AGÊNCIA LUZ

ESCOLHAS E AÇÃO


Região sisaleira da Bahia

Projeto Ater Jovens, do MOC - Movimento de Organização Comunitária

Diadema, SP

Projeto Gritos Urbanos, no Espaço Cultural Beija-Flor

Atibaia, SP

Projeto Incentivadores de Consciência Jovens, na ONG Curumim

Belo Horizonte, MG

Projeto O Ato, a Rua, a Lua, na ONG Humbiumbi

Quando concluiu o ensino médio, Daniela Mercês Queiroz, hoje com 19 anos, achava que sua única opção era sair da região sisaleira da Bahia, onde nasceu e cresceu, e cursar uma faculdade. A participação em um projeto do MOC – Movimento de Organização Comunitária – levou-a a encontrar outras perspectivas. O MOC atua na região do semi-árido baiano há 37 anos, com vários grupos etários. Um de seus projetos é voltado para a faixa de 16 a 20 anos: o Ater Jovens, cujo objetivo é formar empreendedores rurais na linha de assis- >>

Imagine o antigo Programa Livre que o apresentador e jornalista Serginho Groisman comandou na TV aberta até o fim dos anos 90. Agora coloque a tônica do programa – jovens se expressando, trocando informações, debatendo – num dos bairros mais periféricos de Diadema, São Paulo. O que você vai ver e ouvir são os Gritos Urbanos. Esse é o nome do projeto realizado pela Fundação Criança em Risco – CARF (Children At Risk Foundation) Brasil, do programa Jovens em Ação, promovido pelas ONGs Aracati – Agência de Mobilização Jovem e Ashoka Empreendedores Sociais. No Espaço>>

Eles ainda são poucos e não têm muitos recursos. Mas o grupo Incentivadores de Consciência Jovem, ligado à ONG Curumim, de Atibaia (SP), não deixa a peteca cair. Querem criar um Centro de Juventude em uma região da periferia da cidade, onde a juventude não tem espaço nem acesso às atividades de cultura, lazer e informação. Cerca de dez jovens, muitos deles já atendidos desde criança na Curumim, sentiram necessidade de um projeto mais específico para a juventude e se mobilizaram para isso. Em 2003, passaram a participar do programa Jovens em Ação, da >>

Na tradição angolana, Humbiumbi é um pássaro que voa alto e chama os outros pássaros para voarem juntos, tão alto quanto ele. Em Belo Horizonte, Humbiumbi – Arte, Cultura e Educação é uma ONG que dá a um grupo de jovens a possibilidade de alçar vôo. No Centro Cultural Maria Lívia de Castro, onde a Humbiumbi desenvolve suas ações, 40 jovens se reúnem no projeto O Ato, a Rua, a Lua, participante do programa Jovens Escolhas em Rede com o Futuro, do Instituto Credicard. >>

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BOAS PRÁTICAS

>> tência técnica e convivência com o semi-árido, integrante do programa Jovens Escolhas em Rede com o Futuro, do Instituto Credicard. Com uma programação de oficinas, viagens de intercâmbio, pesquisas etc., os 47 participantes aprendem sobre agricultura familiar, segurança alimentar, agroecologia e cooperativismo, entre outros temas. A capacitação não é só

>> Cultural Beija-Flor (ECBF), inaugurado em 2001 pela CARF Brasil no bairro Eldorado, de Diadema, no ABC, 20 jovens empreendedores comunitários, trabalhando com 18 jovens bolsistamultiplicadores, além dos voluntários, promovem alternativas de comunicação social com o uso de diversas linguagens artísticas – música, vídeo etc. – e muita interação e debate com o público. A idéia é realizar o programa

>> Aracati – Agência de Mobilização Jovem. O pequeno grupo e suas propostas ganharam contornos mais definidos. A meta de criar o Centro de Juventude não ficou no papel, elaboraram os passos para atingir esse objetivo, da captação de recursos ao tipo de atividade que pretendem promover com a comunidade. Fizeram, por exemplo, uma parceria com uma pizzaria da região: o grupo fornece

>> A proposta é desenvolver o potencial juvenil por meio da educação pela comunicação e promover o empreendedorismo social desses jovens. A produção de programas de rádio (veiculados por rádios comunitárias) e de fanzines (revistas temáticas), além de oficinas de leitura e interpretação crítica da mídia estão entre suas ativi-


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para ser concretizado na comunidade (“a rua”). Em 2004, os jovens elaboraram planos de ação nas áreas de cultura, educação, saúde e esporte e lazer. Agora, as metas são implantar os planos de ação e triplicar o número de participantes – para que muitos mais possam voar, cada vez mais alto.

PARA SABER MAIS

dades. As práticas são formas de capacitação profissional, mas não é isso o fundamental, segundo o coordenador, Paulo Emílio Castro Andrade. “O mais importante é o processo de participação, discussão, construção. No fazer (“o ato”) eles vão entendendo o que é a criação de um projeto de vida.” Eles têm um sonho (“a lua”)

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como palestras, oficinas de teatro, hip hop, capoeira e dança, estão nos planos. “São eles mesmos que definem as ações, o educador só facilita. Querem um centro para jovens feito pelos próprios jovens. Acreditam que podem fazer algo de bom e com isso mudar a visão, em geral negativa, que se tem da juventude da periferia”, diz a pedagoga Ana Luisa Dalbergaria, educadora do projeto.

PARA SABER MAIS

cardápios de papel reciclado e a pizzaria dá metade da renda obtida em uma noite por mês. Uma tentativa de obter espaço em uma antiga estação de trem onde funcionava uma escola municipal fracassou. Mas eles tocam seus eventos onde é possível – como uma tarde de hip hop em uma escola estadual que abre nos fins de semana para o programa Escola da Família. Outras atividades,

ATER JOVENS REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO SISALEIRA DA BAHIA INSTITUIÇÃO MOC - MOVIMENTO DE ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA (ONG) PROPOSTA Formação de jovens em assistência técnica rural e convivência com a região do semi-árido baiano JOVENS ATENDIDOS 47 APOIO INSTITUTO CREDICARD (R$ 300.000) E ONG EVERYCHILD (R$ 30.000) CONTATO www.moc.org.br Fones: 75/221-1393 e 75/626-6502

GRITOS URBANOS/INSTITUTO CULTURAL BEIJA-FLOR LOCAL DIADEMA (SP) INSTITUIÇÃO FUNDAÇÃO CRIANÇA EM RISCO - CARF BRASIL (ONG) PROPOSTA Criar uma programação que dê meios para a comunidade se expressar JOVENS ATENDIDOS 38 APOIO CARF NORUEGA CONTATO www.carfweb.net Fone: 11/4047-2231

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explica Djalma dos Santos, monitor de percussão do ECBF e participante do projeto. É, também, uma forma de “abrir caminhos diferentes para aqueles que não têm acesso, além de proporcionar atividades socializadoras, desenvolvendo iniciativa, respeito, criatividade, tolerância, espírito de equipe e de liderança”, diz Gregory John Smith, fundador da CARF Brasil.

PARA SABER MAIS

a cada dois meses e trazer a juventude para participar ativamente. A escolha do tema para o primeiro programa realizado já diz muito sobre o “pensar no futuro” dos envolvidos: Vidas – faces e forças de um povo. É uma tentativa de refletir sobre “como é a vida de um brasileiro que luta para ser bem-sucedido, que consegue isso, ou não consegue, e por quê”,

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mundo, repercute nos projetos de futuro dos participantes. A promoção da cultura e de oportunidades de trabalho mudam a idéia de que, para realizar-se, o jovem tem de sair de sua terra. Eles percebem, como aconteceu com Daniela, que é possível viver na roça e transformá-la; estar perto de seus pares e alcançar seus objetivos sem deixar o campo.

PARA SABER MAIS

técnica. “Inclui compreender o universo do desenvolvimento sustentável, das políticas públicas, das relações sociais e de gênero, da dimensão da juventude rural”, diz o antropólogo Márcio Mascarenhas, coordenador do Ater. A valorização da atividade rural unida ao princípio de empreendedorismo juvenil com valores de cidadania, solidariedade e visão crítica do

INCENTIVADORES DE CONSCIÊNCIA JOVEM REGIÃO DE ATUAÇÃO ATIBAIA (SP) INSTITUIÇÃO CURUMIM, ONG PROPOSTA Criar o Centro de Juventude, um espaço de lazer e cultura de jovens e para jovens JOVENS ATENDIDOS 8 APOIO PARCERIA COM O ARMAZÉM DA PIZZA, EM ATIBAIA CONTATO contato@curumim.org.br. Fone: 11/4411-5988

O ATO, A RUA, A LUA. REGIÃO DE ATUAÇÃO BELO HORIZONTE (MG) INSTITUIÇÃO HUMBIUMBI - ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO (ONG) PROPOSTA Criar oportunidades em comunicação e educação para o desenvolvimento JOVENS PARTICIPANTES 40 APOIO INSTITUTO CREDICARD CONTATO ccmlc@uai.com.br Fone: 31/3378-8470 – Fax: 31/3377-2864


RISONALDO CRUZ

caminho das pedras


COMO A SUPERAÇÃO DE DIFICULDADES PAVIMENTOU O SUCESSO DA CIPÓ, ONG BAIANA QUE TRABALHA COM COMUNICAÇÃO EDUCATIVA

VEJO, E FALO!

OUÇO “Era uma vez, três macaquinhos...” A história da Cipó - Comunicação Interativa pode até começar como um singelo conto infantil, mas logo abandona a fantasia para mergulhar fundo na mais complexa realidade social brasileira. Já madura às vésperas dos seis anos de vida, a ONG baiana tem demonstrado com fatos, números e prêmios a sua competência em utilizar tecnologias da comunicação para promover ações de educação e de mobilização social de jovens. Por trás dos objetivos e dos bons resultados conseguidos até agora, porém, existe uma história de dificuldades. A Cipó percorreu um árduo caminho para consolidar sua tecnologia educativa e se tornar a referência nacional que é hoje entre as organizações do terceiro setor voltadas para o público juvenil. “Foram anos de aprendizado, obstáculos e muitos desafios”, diz a jornalista e diretora-executiva da Cipó, Anna Penido. Os macaquinhos que compõem a logomarca da instituição subvertem a tradicional imagem dos bichinhos incapazes de ver, ouvir e falar: têm olhos bem abertos, ouvidos apurados e palavras afiadas, e estão ativos na defesa dos direitos sociais de seu público. Na prática, isso se traduz em programas que partem da Educação pela Comunicação e envolvem sete áreas: melhoria da escola, inserção no trabalho, acesso às tecnologias, garantia de direitos, participação política, acesso à cultura e desenvolvimento pessoal e social. O objetivo geral é impregnar o jo-

por_ Antonio Moreno fotos_ Risonaldo Cruz e Edmmar Souza

vem de valores éticos e humanitários para que ele possa se posicionar como cidadão, sem desprezar o treinamento de habilidades visando ao mercado de trabalho. Nascimento e glória Juntamente com Isabele Câmara e Bárbara Pérsia, Anna Penido fundou a Cipó em 8 de março de 1999. Foi um começo de muitas idéias e pouquíssimos recursos. No primeiro dia, nada funcionou. O fornecimento de luz e água estava suspenso, os poucos equipamentos encomendados não tinham chegado, e o mobiliário não passava de peças de segunda mão precisando de conserto. Mas logo conseguiria o apoio de instituições como a Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), Instituto Ayrton Senna e Unicef. O ano de 2000 marcou o florescimento da organização. Atuante, começou a ocupar espaços com projetos inovadores de ação social, atraindo diversos patrocínios. Passou a contar com 31 profissionais e 17 estagiários. Surgiram novas idéias. Mais jovens foram mobilizados. As duas salas comerciais foram trocadas por uma casa. “Ficou clara a nossa função social”, diz Anna, que resume assim a atuação da Cipó: “Queremos o desenvolvimento integral do jovem. Usamos as tecnologias da comunicação para melhorar leitura e expressão. Investimos na comunicação digital. E garantimos o que chamo de ‘kit básico de cultura’, que é acesso ao teatro, ao museu, a uma atividade cultural. Dos que entram em contato conosco, 90% nunca foram ao cinema”.

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A PERDA DO PRINCIPAL PARCEIRO LEVOU A UMA CRISE FINANCEIRA QUE OBRIGOU A CIPÓ A SE REESTRUTURAR INTEIRAMENTE Pedras no caminho Mas logo a Cipó enfrentaria alguns percalços. O mais drástico deles: em 2001, perdeu inesperadamente o seu principal parceiro, o portal IG, contaminado pela crise que atingiu a internet. “Criou-se um clima de grande instabilidade. Tivemos de fazer ajustes operacionais e ao mesmo tempo buscar novos parceiros. Foi preciso criar estratégias de captação e geração de recursos”, lembra Anna. Os problemas puseram os ideais à prova. “A equipe se uniu mais ainda e se dispôs a doar 10% de sua remuneração para ajudar na manutenção”, conta a diretora. Dando a volta por cima, a instituição seguiu enfrentando os problemas de sempre: a indiferença de alguns órgãos públicos, a resistência de outros às idéias novas, um certo descompasso entre quem decide e quem executa as políticas na área da educação: “Às vezes, você consegue a adesão dos professores e alunos, mas não sensibiliza a Secretaria do Estado, por exemplo. Outras vezes, é o contrário”, observa Anna, para quem “o segredo é não desanimar e estar sempre tentando criar alternativa para as coisas darem certo”. E começaram a dar já no fim de 2001: a Cipó venceu o Prêmio Empreendedor Social Ashoka-Mckinsey. Em 2002, o apoio da Fundação Avina permitiu a mudança para a atual casa no bairro da Pituba e novos projetos foram iniciados, com melhor infra-estrutura.

PARA SABER MAIS

SOBRE

Seguindo em frente No fim de 2003, a Cipó já contava com 86 integrantes, entre profissionais e estagiários, e consolidou sua política de sistematização de conhecimentos e descentralização de decisões. Novos prêmios coroaram esse processo. Ao mesmo tempo, o projeto Estúdio Aprendiz, que coloca estagiários entre 14 e 17 anos no mercado, engrenou uma parceria com a Delegacia Regional do Trabalho. Um total de 114 aprendizes está agora em atividade, acompanhados por educadores. Outro avanço diz respeito à Central Cipó de Notícias, que observa a cobertura da mídia sobre infância e adolescência. No início, havia certa resistência das redações às sugestões de pautas e análises de matérias. “O pessoal ficava

CIPÓ - COMUNICAÇÃO INTERATIVA (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO SALVADOR (BA) PROPOSTA Criar condições para o pleno desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, por meio do uso educativo da comunicação JOVENS ATENDIDOS 947 APOIO 64% DE PARCEIROS NACIONAIS, COMO INSTITUTO TELEMAR E INSTITUTO UNIBANCO; 36% DE PARCEIROS INTERNACIONAIS, COMO UNICEF E SAVE THE CHILDREN. CONTATO Rua Amazonas, 782 – Pituba – 41.830-380 – Salvador (BA) – cipo@cipo.org.br – Fone: 71/240-4477

meio desconfiado. Depois, tudo deu certo, pois estamos promovendo uma causa que interessa a todos”, diz Anna. Entre as iniciativas da Cipó há o Estúdio Mix, que facilita o acesso à cultura a jovens de 13 a 24 anos, por meio de oficinas, visitas e encontros com artistas, e a Kabum!, uma escola de artes e computação gráficas, vídeo e fotografia, desenvolvida pelo Instituto Telemar. Os autores das fotos que ilustram esta reportagem são monitores dela. Já a Escola Interativa busca a melhoria da qualidade das escolas públicas pela capacitação de professores e alunos multiplicadores. Outro projeto de sucesso é o Sou de Atitude, que monitora, via internet, a aplicação das políticas no setor. A tarefa cabe a 15 rapazes e moças, de 17 a 21 anos, como Andreza, de 17, e Gilson, de 20. Eles recebem informações, cadastram e-mails, enviam relatos, muitos deles frutos de um trabalho feito pessoalmente nas ruas. Gilson, por exemplo, resolveu verificar a situação das escolas no bairro do Uruguai, em Salvador. “Descobri que a mais bem cuidada é uma creche criada pelos moradores. As escolas públicas estão em péssimo estado”, relatou a outros internautas. Na área de negócios, a Cipó Produções funciona como uma agência de comunicação, profissional, voltada para o terceiro setor. Produz sites e faz programação visual, como a do Programa Geração, do Instituto Votorantim, para o qual criou a logomarca e o slogan. Lições da crise Até 2003, a Cipó contabilizava 7 mil jovens formados, mais de 50 mil mobilizados e 1.000 professores capacitados. Mas os bons resultados não tranqüilizam inteiramente a direção. “Ainda enfrentamos muitos problemas estruturais. Sonhamos, por exemplo, com uma sede própria e estamos trabalhando para isso. E lutamos sempre para sensibilizar novos parceiros, ampliando assim o alcance do nosso trabalho”, diz Anna. Entre as muitas lições aprendidas nessa trajetória, a diretora da Cipó extrai pelo menos duas que considera muito importantes: “A primeira é que nunca devemos depender de um só parceiro, o que limita nossas possibilidades quando ele resolve sair. A segunda é que é fundamental termos uma equipe formada por pessoas que não trabalhem só pelo salário, mas sobretudo pela causa”. Alunos da Cipó no laboratório de computadores: capacitação profissional Grupo trabalha em mural: desenvolvimento de capacidades e de formas de expressão Garota usa o computador: acesso à tecnologia Uma filmagem no estúdio: o conhecimento técnico habilita para o mercado e para a participação


EDMMAR SOUZA

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RISONALDO CRUZ

EDMMAR SOUZA

RISONALDO CRUZ


horizonte global

VOZES DA BOLÍVIA No Distrito Municipal 8, zona mais pobre de Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais populosa da Bolívia, um grupo de 670 moradores entre 14 e 29 anos está projetando um futuro diferente para suas vidas e sua comunidade. Há dois anos, eles integram a Promoção da Participação Cidadã de Jovens para o Desenvolvimento Comunitário, projeto coordenado pelo sociólogo Miguel Ángel Vespa Jiménez, 28 anos. “As vozes dos jovens são pouco ouvidas pelas autoridades da Bolívia, ainda mais se eles forem de populações pobres”, diz Vespa Jiménez, membro da COIJ (Coordinadora de Organizaciones e Instituciones Juveniles de Santa Cruz), organização dirigida por jovens e para os jovens bolivianos, em atividade desde 1995. Os participantes do programa são todos residentes nas chamadas “zonas vermelhas”, bairros que se destacam por seus altos índices de pobreza e violência, numa

área que foi ocupada por 3 mil desabrigados da enchente do rio Piray, em 1982, e hoje concentra 150 mil pessoas. A maioria é de migrantes, que vivem em condições precárias. Nesse cenário, a implementação do projeto era um grande desafio, mas em sintonia com a proposta da COIJ, de promover o desenvolvimento integral do jovem, criaram-se espaços de participação democrática e aprendizagem para a mudança social. “O objetivo é também fortalecer a juventude, num processo participativo de formação de lideranças nos bairros e comunidades. Para isso, é necessário desenvolver o capital so-


Um projeto põe a participação social no horizonte da juventude de Santa Cruz de la Sierra

cial dos jovens, não apenas no exercício de direitos e deveres, mas garantindo acesso às tecnologias de informação e comunicação e melhoria da educação. Cidadãos com visão crítica e propositiva da realidade podem exigir tudo isso do governo”, diz Jiménez.

SOBRE

Articulando iniciativas Os participantes foram selecionados num universo de 35 organizações juvenis e oito colégios de ensino secundário. “A finalidade era articular esforços para que os jovens trabalhassem com as associações locais, na tomada de decisões políticas – por exemplo, alianças com o Sindicato das Organizações de Moradores do Distrito Municipal 8, para o gerenciamento conjunto do orçamento da cidade. Essa integração deu tão certo que, hoje, 70 jovens são dirigentes de associações de moradores”, diz o sociólogo. A metodologia do projeto está baseada no processo de formação cidadã, com atividades como oficinas, seminários, encontros. A possibilidade de se informar e de debater com seus pares reorienta as perspectivas desses jovens. Eles passam a fazer articulações entre si, ampliando suas capacidades não apenas administrativas, mas também

PARA SABER MAIS

por_ Daniela Rocha ilustração_ Cárcamo

desportivas, artísticas e culturais. “Eles identificaram suas prioridades e uma delas vem sendo executada com êxito: a implementação dos Centros Juvenis de Internet”, diz Jiménez. Muitas atividades vêm sendo realizadas para a geração de renda local, incluindo o funcionamento do cinema comunitário. O projeto tem ainda um enfoque de gênero: mais de 60% dos beneficiários são garotas líderes, com idades entre 14 e 18 anos. Segundo Jiménez, nessa faixa etária as mulheres dos bairros têm um importante papel público, que é fundamental nas articulações. “A própria Rede Social Juvenil é presidida por uma jovem, Silvana Hutado.” Para Vespa Jiménez, nas sociedades latino-americanas, é essencial promover um processo sistemático de formação de líderes do futuro. “É preciso preparar os jovens para o exercício de seus direitos e deveres de cidadãos, e isso somente é possível com informação. Temos de formá-los sobre os valores democráticos profundos, recuperar a ética, a transparência, o princípio do serviço à comunidade como um exercício cotidiano.” É esse espírito que anima os jovens do Distrito Municipal 8 a integrarem-se à juventude boliviana e engajar-se no processo de transformação de seu próprio futuro e da realidade do seu país.

PROMOÇÃO DA PARTICIPAÇÃO CIDADÃ DE JOVENS PARA O DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO INSTITUIÇÃO OPERADORA COORDINADORA DE ORGANIZACIONES E INSTITUCIONES JUVENILES DE SANTA CRUZ - COIJ REGIÃO DE ATUAÇÃO CIUDAD DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA, DISTRITO MUNICIPAL N 8 (ZONA DEL PLAN 3.000), BOLIVIA. TIPO DE INSTITUIÇÃO ASSOCIAÇÃO DE JOVENS, SEM FINS LUCRATIVOS PROPOSTA Incrementar a participação cidadã dos jovens, desenvolvendo capacidades de liderança e de gestão, fortalecendo as organizações juvenis, e promovendo uma efetiva participação de mulheres jovens JOVENS ATENDIDOS 670 APOIO FUNDAÇÃO AVINA, COIJ, SERVIÇO HOLANDÊS DE COOPERAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO, IGREJA CATÓLICA E PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA CONTATO Coordinadora de Organizaciones e Instituciones Juveniles de Santa Cruz – COIJ. Calle Bautista Saavedra N 2.200 – Santa Cruz de la Sierra – Bolivia – Fone: 591/3-346-5069. e-mail: coij@hotmail.com

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SEXTANTE

QUE PROJETO É ESTE? A SUPREMACIA DA PERSPECTIVA PESSOAL SOBRE A COLETIVA AJUDA A EXPLICAR A FALTA DE UM PROJETO DE PAÍS

Tanto tempo lidando com a questão da sustentabilidade e da responsabilidade no plano das empresas tem me permitido compreender a necessidade de desconstruir, de desaprender e de ter acesso a outras referências que não apenas as de mercado para que seja possível pensar – e construir – uma sociedade mais justa e mais equânime. Não há novas perspectivas se insistirmos nos mesmos caminhos, nas mesmas soluções, no mesmo modelo mental e de desenvolvimento que nos trouxeram até aqui. Adotar a sustentabilidade e a responsabilidade como premissas do desenvolvimento, em qualquer plano, mesmo o de uma nação, implica, sobretudo, valorizar o bem comum. Requer uma atitude de respeito a uma outra identidade, de inclusão, com impactos nos planos macroeconômico, microeconômico e, sobretudo, pessoal. Pensar a sustentabilidade reclama uma reconexão com o universo, pois leva para o horizonte afetivo tudo que envolve nossa ação no mundo. Isso é difícil porque o pensamento dominante é este: “Eu tenho objetivos e devo fazer o necessário para alcançá-los, porque há uma enorme oferta no mer-

cado de trabalho e posso ser substituído por alguém mais eficaz”. Alcançar nossos objetivos “a qualquer preço”, para usar o clichê, significa que não consideramos o outro nem o bem comum na nossa realidade imediata. Não há espaço para isso. No meu trabalho, enfrento sempre a questão: “Como estimular a inclusão do outro e do bem comum no horizonte imediato das organizações?”. Somos preparados – e nos preparamos – para dar certo dentro dos padrões de sucesso vigentes. Somos como que projetos pessoais que devem funcionar. A finalidade do processo de educação é nos tornar o mais competitivo possível para o mercado. “Ninguém é insubstituível”, dizem, e isso transforma todos em peças. Substituíveis. A educação cria em nós um sentimento difuso de que precisamos (e podemos!) ser insubstituíveis. Essa educação voltada somente para o mercado tira de foco questões essenciais, como a sustentabilidade, que é um conceito de natureza relacional. Ela é fruto de construções coletivas em torno de dados bem objetivos do mundo físico mas, principalmente, em torno de valores que interessam a todos. Pressupõe inclusão, e também complexidade. Penso que um projeto de país não pode prescindir dessa perspectiva. Sem ela, nem ao menos podemos conceber um legado para as futuras gerações. No plano macroeconômico, são inúmeras as críticas ao modelo de desenvolvimento global, principalmente em tópicos como eqüidade social e sustentabilidade ambiental. A desigualdade entre os povos está assentada em valores que não interessam ao conjunto de uma sociedade em permanente vir-a-ser; o planeta tem

por_ Sérgio A. P. Esteves Diretor-presidente da consultoria AMCE Negócios Sustentáveis e um dos coordenadores dos Fóruns Empresariais promovidos em parceria pela AMCE/FGV e CES -Centro de Estudos de Sustentabilidade

recursos finitos e não suportaria um comportamento predador indefinidamente. As regras do jogo atual não podem ser estendidas a todos e, nesse sentido, não se sustentam. Contudo, a construção de modelos econômicos que valorizem a eqüidade não será possível enquanto estivermos empenhados em garantir nosso emprego em uma sociedade com cada vez menos empregos formais. E o jogo social atual valoriza iniciativas únicas, projetos pessoais, tanto para grandes corporações como para indivíduos: a vida se tornou uma espécie de projeto personalista. Em qualquer posição da pirâmide social, vivemos um modelo caracterizado pelo “pensar em mim”. Nas empresas, é comum que as pessoas sigam ordens, concordem ou não com elas. As justificativas são várias, e até legítimas. Mas seguir ordens não é suficiente como código de conduta. Precisamos, em vez disso, construir e fortalecer uma interioridade, um posicionamento pessoal a partir de valores que expressem a nossa identidade. E essa construção precisa ser suficiente para dizermos, quando necessário: “Não vou nessa, não é a minha, não quero ser cooptado nem cooptar”. Isso é importante porque o trabalho é o veículo de desenvolvimento humano por excelência. É por meio dele que expressamos a nossa espiritualidade, que diminuímos nossa área de sombra e aumentamos a nossa área de luz, que nos asseguramos de estar a serviço de algo que vale o esforço. Por isso é tão relevante que as pessoas possam fazer do seu trabalho uma contribuição ao desenvolvimento do país. É uma espécie de contrapartida.


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ED VIGIANNI/SAMBAPHOTO

O fato de o jovem não dispor de ambientes adequados para refletir sobre a relevância de sua contribuição é preocupante. De fato, ele se vê pressionado pelo mote contemporâneo do imediatismo e por ameaças, por vezes fantasiosas, de que se ficar pensando em “trivialidades” vai ficar para trás. Isso abala a formação de sua interioridade e destrói muitas de suas potencialidades, da sociedade e do país. Construir e fortalecer uma interioridade significa, portanto, construir e fortalecer a afirmação da individualidade no coletivo, no desenvolvimento do espaço comum. Significa superar o padrão escolar formal, a mergulhar em outras possibilidades, expandir horizontes, reinventar nossa percepção de mundo. Interagir, estabelecendo conexões sólidas com o bem comum. A partir dessa conexão, penso que será mais factível um projeto de país. Acho que já não basta a máxima segundo a qual tudo dará certo se cada um fizer a sua parte. Só há parte quando se tem algum acordo em relação ao todo. Não temos esse acordo, e o todo está apenas esboçado na Constituição. É necessário assentá-lo como realidade. Não temos um projeto de país, mas podemos nos mobilizar para tê-lo. Se há várias possibilidades de futuro, precisamos examiná-las e escolher as melhores alternativas para a sociedade. Sobretudo, devemos fortalecer a democracia, e isso se faz por meio de nossa ação no mundo. O que acontece conosco, e às vezes nos desanima a seguir lutando por algo, não são problemas seus ou meus, mas de todos. Precisamos, pois, investir na mudança da realidade que experimentamos a partir da nossa própria mudança. Esse é um belo, e viável, desafio.


PROJETO DE VIDA E FAMÍLIA

90º

O AFETO QUE FORMA por_ Edna Peters Kahhale e Bronia Liebesny fotos_ Penna Prearo

A FAMÍLIA PODE SER A CATALISADORA DE PROJETOS DE VIDA MAIS AUTÔNOMOS OU UM ELEMENTO DE PRESSÃO PARA A REPRODUÇÃO DO SISTEMA

Sem dúvida, juventude é o termo consagrado para denominar o período entre a infância e a idade adulta. Isso se deve sobretudo à antropologia, sociologia e psicologia, que durante anos esmiuçaram as peculiaridades desse período. Da pré-adolescência à idade da autonomia, estendidas dos 10 aos 25 anos, temos o espectro mais amplo da juventude. Essa nomenclatura também ajuda a desmistificar a adolescência como um período em que “todos são iguais”, com características próprias da idade, universais no tempo e no espaço, cultural e socialmente, como querem a própria medicina e a psicologia mais tradicionais. Vários estudiosos afirmam que a adolescência é uma criação histórica, portanto, não é uma fase natural do desenvolvimento humano. É uma construção que responde às necessidades sociais e econômicas do desenvolvimento do capitalismo. Ou seja, criou-se uma etapa como passagem do mundo infantil para o mundo “adulto”, inexistente em sociedades com outra organização de produção. Tem-se


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“Fui criada na roça, em Goiás, e não fui à escola. Cedo, comecei a trabalhar em casas de família e me casei. Meu marido arrumou emprego e viemos para São Paulo, com um filho pequeno; o caçula nasceu aqui. Para poder educar meus filhos, eu me ofereci para trabalhar numa creche, em troca de vagas, mas acabei contratada. Quando os meninos faziam o primário, eu não podia ajudar, mas valorizava, ensinava a respeitar a professora. Eu já vi mãe mandando filho bater em professor. Quando entraram no ginásio, achei que precisava acompanhar. Trabalhava numa copa de hospital e fiz o supletivo do primário e depois do ginásio. Comecei o curso de auxiliar de enfermagem, mas não agüentei a prática; voltei ao trabalho doméstico e sou babá. Meus filhos concluíram o segundo grau e estão bem empregados. Tenho muito orgulho deles. O mais velho é funcionário público, concursado, tem casa própria e começou a faculdade de Administração. O caçula é metalúrgico, faz cursos, já foi promovido. Acho que os pais têm obrigação de educar, ensinar a viver: aconselhar, dar carinho, mas dar bronca também, vigiar as companhias. E dar estudo. A ignorância humilha e desencaminha.”

GUSTAVO LOURENÇÃO

90º

ROSA ANA CASTRO SILVA, 54 Babá em São Paulo, é mãe de Oxir, 29, e Euler, 27

ESTUDOS MOSTRAM QUE O JOVEM SE IMAGINA NO FUTURO PERPETUANDO O MODO DE VIDA ADULTO COM O QUAL TEM CONTATO SISTEMÁTICO estendido essa passagem de um simples “ritual de iniciação” para um processo mais complexo. Esse fato é decorrente de dois fatores: o maior conhecimento do homem e as cada vez mais intrincadas relações dos homens entre si e a natureza, que geram processos simbólicos e socioeconômicos nada simples. Por exemplo, a necessidade de melhor qualificação para inserção profissional em algumas áreas de trabalho. Isso se dá pelo sistema formal e não entre “mestre e aprendiz”, o que, portanto, exige um período maior de escolarização. A juventude abrange, então, um extenso período da vida na sociedade ocidental, sem características imanentes que a caracterizem, mas resultantes da forma como cada so-


ciedade está organizada e (im)possibilita sua inserção nela. Nessa etapa, a sociedade espera que o jovem construa projetos para seu futuro: quem será e o que fará? Ele deve produzir sua vida cotidiana e futura e o faz a partir de uma rede de relações sociais e afetivas, na qual ele se perceba ao mesmo tempo como único e pertencente ao grupo. É nesse processo de relações diversificadas e variadas que o jovem interioriza valores e constrói formas próprias de perceber e estar no mundo: é assim que se constitui como sujeito. Para que possa construir seu projeto, é importante que ele consiga apropriarse das multideterminações que o impelem para um projeto específico. A família – como espaço de cuidados e de afetos – é crucial nessa etapa “multideterminada” por escolhas e projetos. Mas, a família dessa mesma sociedade ocidental, sobre a qual falamos, tem reproduzido variados modelos e ideais sociais do que é ser criança, jovem e adulto. Assim, ela pode ser catalisadora de projetos mais autônomos quando questiona e abre espaços para reflexão e crítica dos valores da ideologia dominante. Por outro lado, ela poderá ser um elemento de pressão e de reprodução dessa ideologia ao determinar o que o jovem deve escolher para sua vida, muitas vezes almejando recons-

A família pode contribuir para que o jovem se assuma como construtor de seu futuro. Um exemp[lo de atividade catalisadora é a construção coletiva da história familiar, permitindo a cada um perceber de onde veio e para onde vai, o que gostaria de superar ou criar para o futuro

33 truir a história da própria família através das novas gerações. Pode reforçar valores de competitividade; de individualidade, em detrimento do grupo; de não reconhecimento do Outro, como sujeito digno de respeito. Enfim, reforçando o individualismo. Os estudos mostram que os jovens se imaginam no futuro perpetuando o modo de vida adulta atual, com o qual têm contato sistemático e sem crítica. Isso significa que o jovem não se vê como sujeito da sua própria ação. Aos familiares e aos profissionais responsáveis pela constituição de espaços de percepção de mundo e crítica pelos jovens, cabe pensar ações sobre as quais eles possam refletir e ressignificar esses valores, de modo a se responsabilizarem pela construção de uma opção no conjunto social, com projetos próprios. Para isso é necessário criar oportunidades para que as pessoas se relacionem de modo a se perceberem – a elas e ao Outro – como indivíduos autônomos, com direitos e deveres. Que possam refletir sobre suas escolhas inseridas num contexto mais amplo do que seu cotidiano, ampliando suas análises, ponderando sobre as alternativas de trabalho e de inserção social. Além disso, o jovem deve ter acesso a informações que lhe permitam levar adiante suas propostas.

Se a família puder propiciar um espaço para as ações propostas, ela estará contribuindo para que o jovem assuma um papel ativo como sujeito de seu processo de escolhas e de construção de um projeto de futuro. Para concluir, um exemplo de atividade que pode ser útil na criação do início desse processo: a família construir coletivamente sua história, de sorte que todos percebam de onde vieram e para onde vão, o que gostariam de superar ou criar para o futuro. Muitos encontros agradáveis acontecem por causa dessa atividade, a qual facilita divisar a construção de alternativas criativas, permitindo a todos os membros se constituírem como sujeitos. Edna Peters Kahhale e Bronia Liebesny são professoras do curso de Psicologia Social da PUC-SP, com estudos sobre família, juventude e projeto de vida


PROJETO DE VIDA E ESCOLA

180º

POR UMA PEDAGOGIA DA JUVENTUDE A ESCOLA PRECISA RECONHECER O JOVEM POR TRÁS DO ALUNO E ADAPTAR A ELE SEUS PROCESSOS EDUCATIVOS

por_ Juarez Dayrell

Uma reflexão sobre a questão do projeto de vida no âmbito da juventude e o papel da escola nesse processo exige que se esclareça, antes de mais nada, o que se compreende a respeito da categoria juventude, quase sempre considerada um dado da natureza. Acredito que ela deva ser entendida, ao mesmo tempo, como uma condição social e uma representação. De um lado, há um caráter universal dado pelas transformações do indivíduo em determinada faixa etária, na qual completa o seu desenvolvimento físico e enfrenta mudanças psicológicas. Mas a forma como cada sociedade e, no seu interior, cada grupo social vai lidar e representar esse momento é muito variada. Não existe uma juventude, mas sim juventudes, no plural, enfatizando, assim, a diversidade de modos de ser jovem na nossa sociedade. Nesse sentido, se queremos compreender esses meninos e meninas com que atuamos, é necessário antes de tudo conhecê-los em sua realidade, descobrindo como eles constroem, cada um à sua maneira, a sua experiência. A vivência da juventude, desde a adolescência, tende a ser caracterizada por experimentações em todas as dimensões da vida subjetiva e social. O jovem tornase capaz de refletir e de se ver como um indivíduo que

participa da sociedade, recebendo e exercendo influências, e é este o momento em que sua inserção social acontece. Período que pode ser crucial para o seu desenvolvimento pleno como adulto e cidadão, sendo necessários tempos, espaços e relações de qualidade que possibilitem a cada um experimentar e desenvolver suas potencialidades. É nesse processo, permeado de descobertas, emoções, ambivalências e conflitos, que o jovem se defronta com perguntas como: “quem sou eu?”, “para onde vou?”, “qual rumo devo dar à minha vida?”. Questões que remetem à identidade e ao projeto de vida, duas dimensões que aparecem interligadas e são decisivas durante seu amadurecimento. O projeto de vida pode ser entendido como a ação do indivíduo de escolher um dentre os futuros possíveis, capaz de transformar os desejos e as


HENK NIEMAN

35 fantasias que lhe dão substância em objetivos passíveis de serem perseguidos, representando, assim, uma orientação, um rumo de vida. Os projetos podem ser individuais ou coletivos; podem ser mais amplos ou restritos, com elaborações a curto ou médio prazo, segundo o campo de possibilidades. Quer dizer, dependem dos contextos socioeconômico e cultural concretos em que cada jovem se encontra inserido, e que circunscrevem suas experiências. O projeto possui uma dinâmica própria, transformando-se na medida do amadurecimento dos próprios jovens ou das mudanças no campo de possibilidades. Um projeto de vida se realiza na junção de duas variáveis. A primeira diz respeito à identidade, ou seja, quanto mais o jovem se conhece, experimenta as suas potencialidades individuais, descobre suas preferências, aquilo que sente prazer em fazer, maior será a sua capacidade de elaborar o seu projeto. Falar de identidade, não significa trazer à baila um “eu” interior natural, como se uma capa fosse colocada pela sociedade sobre o núcleo interno com o qual nascemos. Ao contrário, trata-se de uma construção que cada um vai fazendo por meio das relações com o mundo e com os outros. A construção da identidade é


180º

“Eu tinha 17 anos, estava no 2º colegial da Escola Eulália Malta, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, e meus projetos profissionais iam da computação à oceanografia. Durante um projeto desenvolvido na nossa escola em 2002 e 2003, com diversas oficinas, um grupo de 25 alunos, de várias idades, do “Eulália” e de outras escolas da região, teve a idéia de criar a Oficina de Quadrinhos. Depois que terminaram as oficinas, eu e três amigos (Marcelo de Lima Felix, 19; Julien Crouzillard, 19; e Renato Rodrigues da Silva, 22) montamos em minha casa um espaço onde produzíamos páginas para a web e trabalhos gráficos. Hoje, já alugamos uma casa e criamos um portal – o Icult (Instituto Cultural) –, com um guia cultural da região de Embu e Taboão da Serra. O portal exibe nossos quadrinhos e animações e divulga outros artistas. As oficinas de quadrinhos feitas na escola deram um rumo novo à minha vida. Minhas prioridades, agora, são fazer a faculdade de Engenharia Eletrônica, criar um estúdio de desenhos animados e produzir revistas em quadrinhos.”

MARCOS FERNANDES/AGÊNCIA LUZ

A ELABORAÇÃO DE UM PROJETO DE VIDA É FRUTO DE UM PROCESSO DE APRENDIZAGEM E O MAIOR DESAFIO É APRENDER A ESCOLHER

HENRIQUE CESAR GALLO, 20 Quadrinista e web-designer, de Embu das Artes (SP). Seu trabalho pode ser visto em www.cite10.com.br

antes de tudo um processo relacional, ou seja, um indivíduo só toma consciência de si na relação com o outro. É uma interação social, o que aponta para a importância do pertencimento grupal e das suas relações solidárias para o reforço e garantia da identidade individual. Fica evidente o valor do grupo de amigos, das esferas culturais, das atividades de lazer, da escola, entre outros, como espaços que contribuem na construção de identidades positivas. Outra variável que interfere na elaboração do projeto de vida é o conhecimento da realidade. Quanto mais o jovem conhece a realidade em que se insere, compreende o funcionamento da estrutura social com seus mecanismos de inclusão e exclusão e tem consciência dos limites e das possibilidades abertas pelo sistema na área em que queira atuar, maiores serão as suas possibilidades de elaborar e de implementar o seu projeto. As duas variáveis demandam espaços e tempos de experimentação e uma ação educativa que a possa orientar. A elaboração de um projeto de vida é fruto de um processo de aprendizagem, durante o qual o maior desafio é aprender a escolher. Na sociedade contemporânea, somos chamados a eleger, a decidir continuamente, fazendo desta ação uma condição para a sobrevivência social. A escolha também é objeto de aprendizagem: aprendemos a praticá-la e a nos responsabilizar pelo que escolhemos. Um e outro se aprendem fazendo,


errando. Essas são condições para a formação de sujeitos autônomos. Cabe perguntar: onde nossos jovens estão exercitando isso, aprendendo a escolher? Quais os espaços que vêm estimulando a formação de jovens autônomos? É tarefa do mundo adulto e de suas instituições garantir aos jovens momentos e situações em que se coloquem como interlocutores, promovendo uma relação intergeracional. As pesquisas vêm mostrando, porém, que a instituição escolar, principalmente a escola pública, não vem cumprindo esse papel. A escola pouco conhece o jovem que a freqüenta, a sua visão de mundo, os seus desejos, o que faz fora da escola. Ao mesmo tempo, predomina uma representação negativa e preconceituosa em relação à juventude. O jovem é visto na perspectiva da falta, da incompletude, da desconfiança, o que torna ainda mais difícil para a escola perceber quem ele é de fato. Mas já existem muitas experiências que apontam para uma nova postura da escola na relação com os jovens, com algumas características que devem ser ressaltadas. Um primeiro aspecto é reconhecer e lidar com ele como sujeito. Implica percebê-lo como realmente é, além da sua condição de aluno. É um indivíduo que ama, sofre, se diverte, pensa a respeito das suas experiências, interpreta o mundo, tem desejos e projetos de vida. Torna-se necessário escutá-lo, considerá-lo como interlocutor válido e, na perspectiva

do protagonismo juvenil, tomá-lo como parceiro na definição de ações que possam potencializar o que já traz de experiência de vida. Levar em conta o jovem como sujeito é adequar a escola a uma “pedagogia da juventude”, em que se consideram os processos educativos necessários para lidar com um corpo em transformação, com os afetos e sentimentos próprios dessa fase da vida e com as suas demandas de sociabilidade. Implica também adequar o ritmo dos processos educativos, dinamizando-os com metas e produtos que respondam à ansiedade juvenil por resultados imediatos. É fazer da escola um espaço de produção de ações, de saberes e relações. É acreditar na capacidade do jovem, na sua criatividade e apostar no que ele sabe e quer saber. Desse modo, a escola se torna um centro juvenil, um espaço de encontro, de estímulo à sociabilidade, onde os jovens têm a chance de descobrirem-se diferentes dos outros e, principalmente, de aprenderem a respeitar essas diferenças. Um espaço de aprendizagem das regras e vivências coletivas e do exercício da participação. Todos esses são aspectos centrais na construção de identidades positivas e na elaboração de projetos de vida. E aqui vale ressaltar a centralidade da relação dos jovens com seus professores. Estes são a expressão de uma geração adulta, portadora de um mundo de valores, regras, projetos e utopias a ser proposto aos alunos. Cabe a eles se colocarem como interlocutores destes, diante de suas crises, dúvidas e perplexidades. Assim, a escola se efetiva como um espaço de diálogo entre os jovens e o mundo adulto, contribuindo na construção de referências positivas. No trabalho com os jovens, a força propulsora tem de ser o desejo. Professores e alunos com vontade de descobrirem novos caminhos, novas relações, novos conhecimentos. O envolvimento dos professores é o primeiro passo para qualquer proposta que pretenda estabelecer um entendimento maior com os alunos, fazendo da escola um espaço onde eles “possam ser mais”, como dizia Paulo Freire. Será reencontrada, assim, a vocação da escola como um espaço de formação humana.

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Juarez Dayrell é sociólogo, professor da Faculdade de Educação da UFMG e coordenador do Observatório da Juventude da UFMG


PROJETO DE VIDA E TRABALHO

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por_Antonio Carlos Gomes da Costa foto_Henk Nieman

APRENDENDO A EMPREENDER A INICIATIVA PROFISSIONAL, EM QUALQUER CAMPO, EXIGE COMPETÊNCIAS QUE PRECISAM SER DESENVOLVIDAS 39 O homem – segundo a socióloga argentina Cláudia Jacinto – nasce duas vezes: a primeira, quando sai de dentro da mãe. Nesse momento se nasce para a família e para a população. O segundo nascimento ocorre na adolescência: a pessoa em desenvolvimento nasce para si mesma e para a sociedade. Nesse segundo nascimento, três instituições emergem como fundamentais: a família, a escola e o trabalho. Para os jovens integrados econômica e socialmente, a família funciona como uma rede de proteção. Ser que se procura e se experimenta nos vários domínios da existência em sua caminhada para o mundo adulto, este jovem encontra na família um anteparo efetivo e poderoso. Já com os que estão excluídos social e economicamente passa-se o contrário. É o núcleo familiar que passa a contar com sua ajuda como parte de sua estratégia de sobrevivência. Com a escola passa-se algo semelhante. Para os que estão mais integrados, ela é o centro, o eixo estruturador de suas vidas. Para os jovens em desvantagem socioeconômica, a escola é uma presença secundária, pois, como já vimos, o compromisso principal desses jovens já não é mais com a atenção e, sim, com a luta pela sobrevivência.

E o trabalho para os jovens integrados é projeto: orientação vocacional, escolha do vestibular a ser prestado, da carreira a seguir. Para o jovem em desvantagem, não: o trabalho tornase o eixo ou o elemento central de sua vida. Se perguntarmos a um officeboy o que ele é, certamente sua primeira resposta, mesmo que ele estude à noite, não será estudante. A adolescência, porém, é uma fase determinante. Nela o jovem avança, aos poucos, sob duas construções socioexistenciais da maior importância: a da identidade e a de um projeto de vida. Na formação da identidade, ele deve aceitar a si mesmo e se compreender, condições vitais para


“O meu envolvimento com programas como o Escola da Família, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo – que, ao lado de parceiros está desenvolvendo atividades com a comunidade de Carapicuíba, em escolas da região –, é fruto de experiências anteriores, que me trouxeram até aqui. Sou formada em Dança pela Unicamp e, entre 1997 e 2003, criei e implementei um projeto, chamado Acolhendo a Dança, para profissionalização de filhos de cortadores de cana-deaçúcar em Cardoso, Paulo de Faria e Orindiúva, municípios no noroeste do estado. Foram beneficiadas perto de 500 crianças, que aprenderam a redimensionar seus sonhos e a reorientar o seu destino, o de futuros cortadores de cana como seus avós e seus pais. O aprendizado da disciplina, a busca do saber e a valorização da ética nos ensinam a ser criativos com base nos recursos disponíveis.”

LULUDI/AGÊNCIA LUZ

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ANDRÉA CUONO, 32 ANOS Coordenadora de Área do Programa Escola da Família em 16 escolas da cidade de Carapicuíba (SP)

a aquisição de auto-estima, autoconceito, autoconfiança e visão desejante em face do futuro. Essas conquistas criam as condições básicas para a efetivação de um projeto de vida, ou seja, do caminho a ser percorrido entre o ser e o querer-ser na vida de cada pessoa. A melhor definição do jovem bemsucedido nisso (identidade e projeto) que encontrei está na letra do samba “Aquele Abraço”, do atual ministro da Cultura, Gilberto Gil: “Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço, a Bahia já me deu, graças a Deus, régua e compasso”. “Meu caminho pelo mundo” é, justamente, o projeto de vida traçado pelo próprio jovem. A “Bahia” é a educação que recebeu, as influências construtivas que sobre ele foram exercidas pela família, a escola, a comunidade e os meios de comunicação. A “régua” é o instrumento que ajuda a unir dois pontos: o caminho entre o ser e o querer-ser na vida de cada um. E, finalmente, o “compasso”, que desenha a figura de 3600, serve como símbolo de uma visão do todo. Vê-se, portanto, que o jovem que queremos ver é aquele capaz de fazer escolhas fundamentadas, analisar situações e tomar decisões diante delas A expressão “graças a Deus” funciona como uma abertura à dimensão transcendente da vida: crenças, princípios, valores, convicções profundas, que servem de bússola ao ser humano nos momentos difíceis da vida. Esse é o perfil de um jovem empreendedor. Ser empreendedor – mais do


MAIS DO QUE TER UM NEGÓCIO PRÓPRIO, SER EMPREENDEDOR É TER SONHOS E SER CAPAZ DE CONCRETIZÁ-LOS

que apenas abrir um negócio próprio (dimensão muito importante do empreendedorismo, sem dúvida alguma) – é ter sonhos e ser capaz de trabalhar e lutar para transformá-lo em realidade, quer abrindo um negócio, construindo uma carreira vitoriosa numa empresa, numa organização pública ou numa organização social sem fins de lucro. O importante é que o jovem transforme seu potencial em habilidades, competências e capacidade e as coloque a serviço de sua visão de si mesmo e do mundo, empenhando-se em concretizar seus sonhos. Na formação de um jovem empreendedor vale muito mais o que ele é do que o que ele sabe. Por isso, é importantíssimo construir itinerários formativos capazes de desenvolver

competências em termos de habilidades básicas e de gestão, como: > analisar uma situação em seus diversos ângulos; > propor soluções e avaliar soluções propostas por outras pessoas; > comunicar-se com pessoas e instituições fora de seu mundo cotidiano; > tomar decisões fundamentadas sobre qual curso de ação seguir em face de uma determinada situação real; > planejar e aprender a lidar com pessoas, tempos, materiais e recursos financeiros; > administrar o próprio tempo, aprendendo a dividir-se entre atividades de natureza distinta; > dar e receber instruções, ordens e orientações; > liderar e deixar-se liderar; > criticar e ser criticado; > coordenar atividades em grupo; > aceitar diferentes pontos de vista e interesses; > improvisar diante de situações imprevistas, agindo de acordo com os princípios, valores e interesses de seu grupo; > discernir os valores implicados e vividos em uma determinada situação; > buscar coerência entre teoria e prática; > exercitar a transparência no uso dos recursos grupais; > prestar conta de seus atos ao grupo, aos destinatários de suas ações e a seus educadores;

> assumir as conseqüências de suas ações positivas e negativas; > desenvolver a tolerância para com as falhar e limitações humanas; > aprender a lidar com êxitos e fracassos; > decidir em grupo e de forma democrática; > desenvolver espírito solidário e ação cooperativa. Finalmente, a essas habilidades deverão ser acrescentadas aquelas específicas requeridas para o exercício de uma ocupação, serviço ou profissão no mundo do trabalho. Na medida em que formos capazes de atuar nesta linha para e com os jovens, estaremos contribuindo para a formação das pessoas, dos cidadãos e dos profissionais de que o Brasil necessita para dar certo.

Antônio Carlos Gomes da Costa é pedagogo, consultor especialista em juventude, desenvolvimento social e ação educativa, autor de vários livros sobre esses temas

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PROJETO DE VIDA E MÍDIA

360º

SONHOS DE UMA NOIT OS MODELOS DE SUCESSO VEICULADOS PELA MÍDIA SÃO DISTORCIDOS E NÃO INFORMAM PARA A TOMADA DE DECISÕES NA VIDA REAL

Quando se pensa na construção de um projeto de vida, vários fatores apresentam um peso expressivo na formação da identidade, dos valores, dos sonhos e das ambições. O ponto de partida é a educação recebida em casa. Depois, os diversos aprendizados na escola, a companhia dos amigos, as influências da sociedade e, não podemos esquecer, a interferência que a mídia exerce em todo esse conjunto. O Brasil é hoje um dos países em que crianças e jovens passam mais tempo na frente da televisão. Segundo o Ibope, em setembro de 2004, entre os telespectadores de 4 a 17 anos, o tempo gasto com TV foi, em média, de 4 horas e 25 minutos por dia. De acordo com a pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, feita pelo Instituto da Cidadania com jovens de 15 a 24 anos, 91% dos entrevistados assistem a TV de segunda a sexta-feira (a taxa é de 87% nos fins de semana). Em comparação, 49% desses jovens dizem que lêem jornais (51% não têm esse costume) e 67% lêem alguma revista (31% dizem que não têm esse hábito).


por_Jairo Bouer foto_Penna Prearo

TE DE TV

Com tanta televisão ligada, é inegável que esse meio de comunicação mexa com o imaginário dos jovens, interferindo em padrões de comportamento, noções de sucesso e conceitos de felicidade. De fato, a TV parece ter um peso importante nas construções emocionais e afetivas que vão influenciar na elaboração do projeto de vida dos jovens. Mas também não podemos responsabilizar a mídia, isoladamente, por tudo que é veiculado. O objetivo dos meios de comunicação é atender aos anseios expressos pela sociedade, respondendo às expectativas de seu público e, com isso, aumentando sua audiência. Ou seja, existe uma relação de mão-dupla: os meios oferecem programas, personagens, temas e debates, tes-

tam a resposta do telespectador e, sendo aceitas, mantêm suas pautas. No caso de resposta negativa, as pautas e os programas são substituídos. A TV não pode ser entendida sem se levar em conta o meio sociocultural em que ela está inserida. De alguma forma, a TV que a gente vê reflete a sociedade em que a gente vive. Se pode influenciar na formação de valores e conceitos, ela também, em alguma extensão, funciona como um espelho dos sonhos e ambições de uma população. É o momento de se

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pensar: de fato, qual a televisão que a gente quer? Para isso, é fundamental que adultos e educadores estimulem a leitura e a audiência crítica do jovem em relação à mídia. Nem tudo o que se vê e o que se lê é a melhor tradução do que acontece.

“Por estar já há dez anos no Projeto Cala-Boca Já Morreu – no qual, além de criticar a mídia, também produzimos informação e comunicação, fazendo rádio, jornal, TV, vídeo e internet –, eu não consigo me esquecer da forma como as influências se estabelecem pelos meios de comunicação. Quando você entende que os valores são definidos por poucos, tudo, então, se torna relativo e passa a ser visto como mais um ponto de vista. Quando muda o ponto, muda-se a vista. Essa consciência faz toda a diferença: abre outro panorama para o problema da influência da mídia em nossa vida e cria a possibilidade de escolhermos com tranqüilidade o que queremos fazer. É claro que ninguém está totalmente livre da influência, em especial da TV e do rádio, que atingem praticamente toda a população. Mas, no projeto, temos um jeito diferente de fazer as coisas. Os programas de TV, por exemplo, são produzidos por e para crianças e adolescentes. Nesses dez anos se criou uma “metodologia Cala-Boca Já Morreu”, na qual temos como princípio que todas as pessoas decidem tudo o que vai para o ar. Naturalmente, nos grupos há os que gostam de falar e intimidam os que falam menos, mas nós damos um jeito de todos se manifestarem.”

HENK NIEMAN

Capa da revista São inúmeros os exemplos de comportamento que a mídia expõe como “modelos” para seu público, atribuindo valores positivos a eles, como uma receita para a busca da felicidade. Os padrões de sucesso veiculados não só nas ficções mas também nas publicações de comportamento voltadas para jovens são peças que ajudam a

ÍSIS LIMA SOARES, 18 Estudante, é líder do Conselho Gestor do Projeto Cala-Boca Já Morreu (www.portalgens.com.br/cala-boca), no bairro do Jaguaré, em São Paulo (SP)

montar projetos de vidas. Valores e atitudes tidos como desejáveis e louváveis são exibidos como um caminho a ser seguido para que se consiga ser bem-sucedido. E há incontáveis distorções nesse processo. A começar pelos padrões estéticos. Personagens (em sua função ficcional ou não) desejáveis são os que têm corpos magros, sem flacidez e bronzeados. Pele lisa, cabelos sedosos, mantendo asséptica distância da oleosidade e das espinhas típicas da juventude. Claro, tudo seguindo o velho padrão europeu de traços finos – se tiver cabelos e olhos claros, melhor. Gordinhos raramente são desejáveis. Funcionam para situações cômicas, mas não para cenas tórridas de amor. Não se levam em conta aspectos relacionados à saúde, mas ao julgamento “feio” ou “bonito”. À estética, tudo. À saúde, quase nada. A vida afetiva também é “contemplada” pelos extremos: os relacionamentos podem ser “contos-de-fadas” ou “o inferno na Terra”. Na primeira categoria, casais que enfrentam a tradicional jornada do herói: vencem preconceitos, inimigos e barreiras sociais e emocionais e conseguem viver felizes para sempre. Na segunda classe, casais que não se suportam, que vivem em meio a traições, falsidade, ciúmes e sofrimento. Obviamente, o modelo a ser buscado pelos jovens é o do conto-defadas. Cria-se então uma idealização dos envolvimentos emocionais: tudo tem de sair certinho; brigas e desentendimentos são sinais de fracasso. Ninguém explica que casais precisam discutir (sem haver nisso um julgamento negativo) para resolver suas diferenças, e que é necessária uma dose extra de tolerância e paciência para respeitar os limites do outro. Do campo afetivo para o sexual é um pulo. Casais apaixonados devem fazer sexo perfeito, com orgasmos intermináveis em lindas noites de luar, imunes a fantasmas como doenças, gravidez indesejada, falta de sincronia e, acima de tudo, falta de experiência. Rapazes ideais não sofrem de ejaculação precoce nem de falta de ereção. A mocinha não fica nervosa,


O BRASIL É UM DOS PAÍSES EM QUE SE PASSA MAIS TEMPO DIANTE DA TV E É INEGÁVEL QUE ELA MEXE COM O NOSSO IMAGINÁRIO com falta de lubrificação e nunca sente dor no momento sublime. Depois de tórridas e perfeitas cenas de sexo bombardeadas em novelas, séries e filmes, como justificar que a chance de uma primeira vez perfeita é muito menor do que a de uma certa confusão que vai se acertando com o tempo? Superada a falta de experiência, quem há de convencer os jovens que as complicações continuam, sim, depois do casamento? Outro exemplo da idealização que compõe o repertório de modelos de sucesso é o financeiro. Herói que se preze não passa apertos com dinheiro. Pode até enfrentar algumas dificuldades, mas nada desesperador. De preferência, terá uma profissão de “doutor” – médicos, dentistas, engenheiros, advogados e executivos têm meio caminho andado para o sucesso. Cantores e atores, então, têm uma estrela estampada na testa e muita grana no bolso. Só resta pensar o que farão os jovens (na verdade, a maioria dos brasileiros) que não tiveram acesso ao ensino superior, que não puderam virar “doutores”. Operadoras de telemarketing podem

esquecer a fórmula da felicidade? Domésticas, mecânicos, padeiros, atendentes do comércio, operários e manicures só serão felizes se ganharem na loteria ou se forem selecionados para um reality-show? Caminhos diversos Apesar de ainda tímidas, já há iniciativas muito interessantes que tentam romper com esse modelo idealizado de projeto de vida veiculado pela mídia. Canais educativos e publicações alternativas expõem informações da “vida real” para armar o jovem na hora de tomar suas decisões. Alguns programas questionam o modelo de sucesso veiculado na grande mídia e perguntam qual é o jovem que a TV precisa retratar. A idéia de que programas educativos são sempre chatos está desaparecendo: a tendência é cada vez mais unir entretenimento e informação. Além disso, a sociedade gradativamente passa a cobrar a representação das diversidades. O movimento negro tem feito progressos nesse sentido, ao pressionar para que protagonistas de novela sejam vividos por atores afro-descendentes. Pouco a pouco, personagens homossexuais também entram na tela como “pessoas comuns”, e não como alvos de chacotas.

Um exemplo positivo de iniciativa que une diversão e informação são os projetos da ONG sul-africana Soul City (www.soulcity.org.za). A instituição capta recursos, recruta experts e produz ficções com base educativa para exibição em meios de massa. A ONG compra espaços no rádio e na TV, o que lhe garante independência na produção. As séries são feitas com rigorosos estudos junto ao público, testando a eficiência (educacional e comercial) das tramas. Por aqui, vale a penar prestar atenção em trabalhos desenvolvidos pelas TVs Educativas (Cultura, TVE), canais universitários e no Canal Futura. Para terminar, vale perguntar novamente: até que ponto não somos também responsáveis pelas idealizações e construções equivocadas veiculadas pela grande mídia e que papel podemos ter na busca de uma nova fórmula?

Jairo Bouer é psiquiatra, colunista do caderno Folhateen da Folha de S. Paulo e apresentador de programa Ao Ponto no Canal Futura

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DAVILYM DOURADO

sem bússola

ESTRATÉGIAS DE

A ASSOCIAÇÃO COM O CRIME E A OPÇÃO PELA GRAVIDEZ PRECOCE SÃO PROJETOS DE RISCO OU A PORTA QUE SE ABRE PARA QUEM NÃO VÊ OUTRA SAÍDA? Eles cresceram às carreiras, driblando nas vielas de terra os perigos variados da comunidade popular do Rio de Janeiro onde nasceram, um morro famoso mundo afora pela sua escola de samba – a Mangueira. Apesar da proximidade, não gostam do ritmo, como descobriram, entre outros pontos em comum, ao se conhecerem na adolescência: ele prefere o funk; ela, evangélica, raramente sai à noite. Hoje, ela está grávida de um filho dele. O que, a olho nu, parece apenas um acidente de percurso, fruto

da inexperiência juvenil, é uma situação emblemática, permeada de sinais de alerta. Os dois estão com 17 anos. O menino, W. O., freqüenta a 8a série de uma escola municipal; a menina, H. S. S., cursa com boas notas o 1o ano do ensino médio num colégio estadual e trabalha em um consultório na Zona Sul carioca. W. também tem seu emprego – é soldado na tropa teen que controla o comércio de drogas na Mangueira. Vivem, ambos, uma história que ilustra como o meio social faz muitos jovens traçarem projetos de vida que terminam por inviabilizar um futuro melhor. Às vezes, qualquer futuro. Engravidar na adolescência, para as meninas, e envolver-se com o crime, entre os meninos, tornaram-se

Muro furado à bala no bairro de Sapopemba, em São Paulo: a violência vitimiza principalmente os rapazes, seduzidos pela atração do crime, que oferece remuneração alta e confere poder perante a comunidade


por_Aydano André Motta

SOBREVIVÊNCIA 47

formas de obtenção de status, num país de poucas perspectivas sociais. Por todo o Brasil, a história se repete, com as características de cada região. Das garotas que desde o fim da infância se prostituem por alguns trocados no Norte aos meninos que passam o dia ensaiando malabarismos circenses nas esquinas cariocas; das meninas que engravidam para segurar os namorados nas favelas do Nordeste aos jovens assaltantes de rua das capitais do Centro-Sul, todos, com menos ou mais consciência, adotaram alternativas de risco como estratégia de sobrevivência. Falsa liberdade Na Mangueira, quando soube do namoro da filha, a mãe de H. pareceu antever a tempestade, mas adotou a tática errada – passou a espancar a garota, tentando reprimir o namoro. Em vão. “Engravidei para poder sair de casa, ter minha própria família, virar adulta”, conta a menina, baixando a voz num reflexo. “Ele está trabalhando e prometeu ficar comigo”, diz ela, que despreza os

riscos enfrentados pelo pai de seu filho. “Lá é tranqüilo, e ele sabe se cuidar”, afirma, ignorando as alarmantes estatísticas da mortalidade de rapazes tombados pela violência urbana. W. fala pouco, nem sequer sorri quando é parabenizado pelo filho que vai nascer. Ano passado, ele ficou dois meses numa unidade para menores infratores na Zona Norte do Rio, mas voltou ao “emprego”, sem medo nem culpa. “Sei que isso aqui não dura muito, e se der mole posso dançar. Só


DAVILYM DOURADO

Garota paulistana, grávida do segundo filho aos 18 anos: dos partos feitos no Brasil, 24% são de mães adolescentes. Nem sempre fruto da desinformação, a gravidez também é vista como chance de criar laços e mudar de posição

quero juntar um dinheiro, até para ficar com ela direito. Agora, tô sempre ligado”, afirma, admitindo a mudança de sua imagem perante a comunidade. “Sou respeitado como homem, deixei de ser criança”, constata, a pistola às costas, enfiada na bermuda, que vai até o joelho. Ser “respeitado” como adulto é a chave do problema desses jovens, ensina a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, responsável pelo programa Saúde do Adolescente, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. “Eles são inseguros. Tentam

construir uma auto-imagem – justamente quando o corpo passa por profundas modificações –, pois necessitam da aprovação de seu grupo”, diz ela. O mesmo vale para a vida sexual. Albertina explica que os adolescentes fazem sexo não por desejo, mas pelo medo de não agradar – temor, aliás, presente em todas as faixas sociais. “Temos jovens que nos procuram angustiadas porque não conseguem engravidar”, diz a médica, que vê o projeto de vida atrelado à maternidade como uma busca da aprovação grupal. “Assim, elas criam vínculos e tentam prender o namorado.” De todos os partos feitos no Brasil, 24% são de mães adolescentes. “E a gravidez se repete em quase metade das jovens”, contabiliza Albertina. Estética libertadora O artista plástico Antonio Veronese dedicou 16 anos de sua vida à dura batalha pela recuperação de menores infratores como W., usando a arte como arma contra o buraco sem fundo do crime que espreita os jovens das favelas. Ele criou o Libertarte, para ensinar pintura a detidos no Centro João Luís Alves, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio. “Quando um menino vê que é capaz de fazer algo que seja objeto de admiração dos outros, ele se reavalia”, diz o pintor. Ele encontrou, em atividades que incluíam também idas a teatros, museus, óperas e exposições, uma forma de levar alguma sensatez à insana rotina dos jovens delinqüentes. “Descobri, nesse contato, uma rea-

lidade que vai muito além da nossa imaginação. Propus a pintura como ferramenta, para eles denunciarem sua realidade. Abria-se um horizonte para as crianças, que elas nem sequer imaginavam existir, e assim restauravam a auto-estima e a dignidade. Tenho certeza: estética é remédio”, escreveu Veronese, que interrompeu o projeto por causa de uma mudança para Paris, onde vive atualmente. Também freqüentadora do Centro João Luís Alves, a psicóloga Márcia Fayad cruzou, incontáveis vezes, com jovens tentando encontrar no crime um projeto de vida. Ela aponta a conjugação da educação com um emprego digno como a fórmula para evitar essa triste escolha. Márcia coordena o programa Justiça pelos Jovens, desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e pelo Centro de Estudo e Atendimento São Domingos Sávio, que tem 60 participantes entre 16 e 24 anos. Muitos oriundos do tráfico de drogas, eles trabalham no Arquivo Geral de Justiça e na Vara de Execuções Penais – e são, geralmente, ótimos funcionários.


EM PLENA TRANSFORMAÇÃO, O JOVEM QUER SER APROVADO PELO GRUPO E VISTO COMO ADULTO. ACREDITA QUE O CRIME DÁ STATUS E QUE A GRAVIDEZ CRIA VÍNCULOS

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Solidão e fé F. S. N., 22 anos, é um desses trabalhadores. Aos 13, ele entrou para a quadrilha que vendia drogas e assaltava nas cercanias de Bangu, Zona Oeste do Rio. A agressividade mal dirigida e o sonho de consumir produtos de grifes juntaram-se numa fórmula explosiva. “No dia que me entregaram um 38, eu me senti seguro”, diz sobre o primeiro revólver. F., então, largou o colégio e alistouse. “Virei soldado.” Viciado, foi detido duas vezes, aos 15 e aos 17 anos. “Pensava assim: se eu morrer, não tenho nada a perder”, conta o rapaz, que chegou a empunhar o troféu dos criminosos – o fuzil AR-15 – e sentiu o “coração se encher”.

Mais do que a polícia ou a perspectiva da morte, porém, a solidão era a grande adversária do seu modo de vida – e a ela juntou-se a fé. “Um dia recebi uma Bíblia e ouvi um obreiro dizer: ‘Jesus te ama’”, conta sobre sua epifania. Hoje, fiel de uma igreja evangélica, está noivo, cursa a 7ª série e, sentado num banco do corredor do Fórum carioca, se enxerga “curado”. “Voltei a morar com minha mãe, tenho carteira assinada e vou me casar. O que mais posso querer?” Horizontes perdidos Finais felizes como o de F. são raros. Em Belém, é grande o número de meninas que, ainda crianças, começam a se prostituir. O sexo é a solitária alternativa de sobrevivência – muitas vezes, incentivada por mães igualmente órfãs de horizontes. “Mães e avós por vezes aliciam as próprias filhas e netas”, relata Graça Trapasso, coordenadora do Movimento República de Emaús, de atendimento a meninas em situação de risco. “A escola é muito precária, os índices de analfabetismo e de evasão são enormes”, observa Graça, alertando que o problema começa a atingir também os meninos. A ONG tem conseguido resultados na assistência às adolescentes, na busca de emprego e quase sempre evitando a segunda gravidez. Mas o caminho é longo. >>

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PROJETO JUSTIÇA PELOS JOVENS OPERADORES TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E ONG SÃO VICENTE DE PAULA. REGIÃO DE ATUAÇÃO RIO DE JANEIRO PROPOSTA Oferecer a jovens encaminhados pela Segunda Vara da Infância e Juventude sua primeira experiência profissionalizante, com bolsa-auxílio de R$ 267,00, vale-transporte e tiquete-refeição JOVENS ATENDIDOS 60 APOIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CONTATO Av. Rodrigues Alves, 731A – Santo Cristo – Rio de Janeiro (RJ) – Fone: 21/3213-4763/3213-4719

CASA DO ADOLESCENTE OPERADOR SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE DO SÃO PAULO REGIÃO DE ATUAÇÃO ESTADO DE SÃO PAULO TIPO DE INSTITUIÇÃO PROGRAMA DE POLÍTICA PÚBLICA PROPOSTA Orientar adolescentes para evitar a gravidez precoce e sobre o risco de doenças sexualmente transmissíveis. Presta assistência a mães e pais adolescentes JOVENS ATENDIDOS 17 MIL EM 10 ANOS APOIO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. CONTATO Rua Ferreira de Araújo, 789 – Pinheiros – São Paulo (SP) – Fone: 11/3819-2022


A ARTE É FERRAMENTA PARA QUE O JOVEM EM SITUAÇÃO DE RISCO DENUNCIE SUA REALIDADE E RESTAURE A AUTO-ESTIMA. ESTÉTICA É REMÉDIO

VIDA DE REPÓRTER “São conversas delicadas, por vezes tensas, com freqüentes olhares para o lado, numa vigilância obsessiva do mundo em volta. Seja no Fórum do Rio ou no pé de uma favela na Zona Norte da cidade, encontrar jovens em situação de risco é uma experiência invariavelmente marcante. Com o casal – H., grávida de W., soldado do tráfico –, a conversa foi na entrada do morro. Da mesma idade, ela parece muito mais madura do que ele. W. começou a conversa arrogante, quase hostil, mas rapidamente baixou a guarda. Não dá sinais de ter entendido que será pai, mas saboreia o status dado pela arma que carrega. Mesmo que não haja futuro. Deveria aprender com as lições de F., o rapaz salvo pela fé, que trabalha no Fórum carioca. Comecei a entrevista em tom baixo, na intenção de poupálo de constrangimentos com as lembranças. Sem dizer nada, ele não concordou e deu seu próprio tom. Alegre, afável, descreveu sua trajetória com voz firme e decidida, exibindo o orgulho dos que foram ao inferno – e voltaram. Por telefone, Chirlene, a ex-prostituta de Belém, também se impôs. Quando sugeri uma forma de protegê-la da exposição, não permitiu o uso das iniciais. Exigiu o registro de seu nome completo, como que para informar ao mundo que é uma cidadã.”

AYDANO ANDRÉ MOTTA, 40 ANOS, nascido em Niterói, há 19 anos é jornalista no Rio de Janeiro

Foi assim com Chirlene Oliveira de Melo, que aos 13 anos saiu de casa em Benguí, periferia de Belém, apaixonada por um menino e oprimida pela violenta oposição da mãe. “Fui morar com ele, mas a família dele não aprovou e acabei na rua.” Seu endereço na adolescência: o terminal rodoviário de São Brás. “Roubava e saía com velhos de 40, 50 anos. Transava por R$ 10.” Viciou-se. “Aos 17 anos, conheci outro menino na rua. A gente se apaixonou e eu engravidei”, conta ela, que em menos de um ano perdeu o companheiro, assassinado. O crime a fez deixar a rua, mas antes ela experimentou o respeito pela sua nova condição. “Quando os taxistas sabiam que eu estava grávida, não queriam ir comigo e até me ajudavam, me davam comida”, ela conta. Chirlene teve mais dois filhos, de pais diferentes, também meninos de rua e hoje, aos 20 anos, trabalha na República de Emaús. “Tenho emprego decente, um marido e uma casa. Sou feliz porque confiam em mim, mas meus filhos não conheceram os pais”, diz. Informação e opção O grupo e a figura parental – seja do traficante, do namorado, do patrão ou do professor – são os fatores mais importantes nas escolhas juvenis, ensina a ginecologista Albertina Takiuti. Em relação à gravidez, por exemplo, em São Paulo nem sequer existe a desinformação que ainda grassa no Norte do Brasil. “As meninas, mesmo as do meio rural, conhecem até a pílula do dia seguinte”, diz ela. “Mas querer que elas sejam apenas resistentes às condições


SOBRE

PARA SABER MAIS

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O poder do crime nas comunidades populares se concretiza na exibição das armas, que se tornam objeto de desejo para os jovens em busca do respeito de seus pares

PARA SABER MAIS

SAMBAPHOTO

adversas de seu meio é difícil.” É preciso tratar tudo, da prevenção ao ato, como atitudes de carinho e responsabilidade. “Também alertamos para a barra pesada que é ser mãe”, diz. “Amo meu filho, mas passo cada sufoco”, reconhece J. L. M., 18 anos, mãe de um menino de três anos. Moradora do Jardim Ângela, periferia de São Paulo, ela foi abandonada pelo pai da criança no início do ano – ameaçado de morte por traficantes da região – e cria o filho com a ajuda da mãe. Ainda não arrumou emprego, mas ganhou o respeito da comunidade. “Os meninos da boca não mexem mais comigo”, diz: “Mas não posso mais ir às baladas”. Os esforços necessários para se criar um filho são uma desagradável surpresa também para as grávidas adolescentes de Recife, atendidas pela ONG Casa de Passagem. “É um problema social, provocado inclusive pela busca de status”, diz a psicóloga Thelma Torres, gerenteexecutiva da entidade. “As meninas querem um provedor que, elas imaginam, vai dar também sustentação social. É o mito da Cinderela.” A Casa de Passagem procura apontar um outro futuro, no caminho da conscientização, porque o problema, observa Thelma, gera uma desorganização social que atinge a todos. “No início, o jovem pai fica, mas pula fora assim que vê a dificuldade de sustentar uma família”, diz a psicóloga. A ONG busca ensinar uma profissão às jovens, mas Thelma lembra a importância do envolvimento de todos na solução dos problemas sociais. Eles, afinal, têm o tamanho do Brasil.

PASSAGEM PARA A VIDA, COMUNIDADE E CIDADANIA E INICIAÇÃO AO TRABALHO OPERADOR CASA DE PASSAGEM (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO METROPOLITANA DE RECIFE (PE) PROPOSTA Processo socioeducativo orientado inserir crianças, adolescentes e jovens na família, escola, comunidade e no mundo do trabalho. Articula seu trabalho de promoção social com protagonismo político JOVENS ATENDIDOS 350 POR DIA, NA SEDE DA INSTITUIÇÃO APOIO OXFAN, NOVIB, MISEREOR, CHRISTIAN AID, CHRISTIAN WORLD SERVICE, ITINERANT VOLENS, OAK FOUNDATION, POMMAR/USAID PARTNERS, DEUTSCHER CARITASVERBAND/GTZ, BNDES, PROGRAMA CAPACITAÇÃO SOLIDÁRIA E TIM. CONTATO Rua Treze de Maio, 55 – Recife (PE) – Fone: 81/3423-3839/3223-3314.

MOVIMENTO REPÚBLICA DE EMAÚS OPERADOR REPÚBLICA DE EMAÚS (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM (PA) PROPOSTA Socorrer crianças em situação vulnerável ou vítimas de violência e combater a prostituição infanto-juvenil. Lutar contra o trabalho infantil e a violência sexual JOVENS ATENDIDOS 1.553 APOIO SAN FERMO, ISCOS, UNICEF, PARROCCHIA D S MARIA, PICCINI SIMONETTA, WCF TXAI, KINDEREN, TERRA DOS HOMENS, CORDAID, SKN, OIT, THE PARTHEENON, STC, EMBAIXADA DA ITÁLIA, CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, PETROBRAS, INFRAERO, SECRETÁRIA EXECUTIVA DO TRABALHO E PROMOÇÃO SOCIAL DO ESTADO DO PARÁ, SECRETARIA DE SAÚDE DE BELÉM E FUNDAÇÃO PAPA JOÃO XXIII. CONTATO Travessa Apinagés, 743 – Condor – Belém (PA) – Fone: 91/272-2449/272-9154

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o sujeito da frase

“A GENTE É QUE NEM ÍMÃ!” A rapper Negra Li acredita que quando se quer muito uma coisa, ela vem, mesmo em meio à guerra contra o preconceito

por_Vera de Sá fotos_Henk Nieman


Ela foi a primeira mulher do rap brasileiro a assinar contrato com uma grande gravadora, divulgou seu CD de estréia com o parceiro Helião em programas de grande audiência na Globo “Guerreiro & Guerreira”, a faixatítulo, foi incluída na trilha da novela Começar de Novo) e está no elenco de Antonia, filme que Tata Amaral começa a rodar em fevereiro. Aos 25 anos, quase dez fazendo rap, Negra Li, que ainda divide o mesmo quarto com a irmã na casa da mãe, em Vila Brasilândia, periferia de São Paulo, se diz “uma sobrevivente”. Preconceito, machismo, armadilhas usuais no caminho de uma mulher negra e pobre, no entanto, não são questão de endereço: “Se existe um lugar, a periferia é o melhor. A gente tem orgulho do lugar onde mora”. Voz quase sempre grave, que poucas vezes se eleva, Negra Li fala sem pressa. Nascida Liliane de Carvalho, ela é a caçula de um time de duas irmãs e três irmãos (“O mais velho está preso porque foi pego com droga”). Herdou a religiosidade da família evangélica e fez o ensino básico numa escola particular como bolsista. Acredita que “a gente é que nem um ímã” capaz de atrair o que se deseja muito. Negra Li teve uma aproximação mais formal com a música ao entrar para o coral da Universidade de São Paulo, em 2000, mesmo ano em que gravou o hit pop “Não É Sério”, com o grupo Charlie Brown Jr., entoando o refrão: “Na tevê, o que eles falam sobre o jovem não é sério”. Contralto, há um ano e meio começou a freqüentar uma escola de música, com a mensalidade paga por um amigo. Acha que “a música pode mudar o mundo” e que “tem uma responsabilidade”. Por conta talvez deste último credo, já divulgou como sua a história exemplar vivida pela irmã Lilian,

53 que ouviu o cochicho da examinadora ao sair de uma entrevista de emprego: “Mas tem de ser bonita”, traduzindo a pouca chance que tinha de conseguir a vaga por ser negra. “Feia é o que eu não sou”, a réplica de Negra Li, já não é dublagem: “Eu nunca fui feia”, diz essa admiradora de Nelson Mandela. Onda: Música e cinema eram seu projeto de vida? Negra Li: Desde criança ficava em frente ao espelho, punha xale na cabeça, fingia que o desodorante era microfone, ficava imitando apresentadora. Cinema é uma coisa que eu sabia que uma hora ou outra ia chegar na minha vida. Porque a gente é que nem um ímã: quando a gente quer muito uma coisa, acho que ela vem. As coisas também acontecem comigo porque eu nunca me deslumbrei com nada, sempre tive a maior calma. Não tem aquela coisa de querer ser rica: eu gosto de morar onde eu moro, de ser pobre, sabe? Tem uma certa alegria que o rico quer muito, mas o pobre é que tem, aquela alegria de viver assim no bairro, todo mundo se conhece, todo mundo se fala, se cumprimenta. Há uma certa liberdade que só sendo da periferia pra saber. E a periferia quer aquilo que o rico tem, que é o dinheiro, a vida boa.

Negra Li, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, onde participou de um workshop para o novo filme da diretora Tata Amaral, sobre hip hop: “Eu sabia que o cinema ia chegar na minha vida. Mas as coisas acontecem comigo porque eu nunca me deslumbrei. Gosto de morar onde eu moro”, diz, referindo-se à Vila Brasilândia, na periferia de São Paulo


Você incorporou a história da sua irmã para ilustrar o preconceito racial. Foi algo que te afetou especialmente? Realmente, acontece muito com a gente, o preconceito com o negro, não vêem a beleza dele. E eu sofri isso muito na escola. Naquelas brincadeiras de beijo-abraço-aperto de mão, os caras não se interessavam em me beijar. E eu nunca fui feia! Mas acho que eles não enxergavam, sei lá. Como eles eram meninos, a gente não pode julgar. Mas na televisão sempre passou a figura loira, os olhos claros, e a criança vê uma coisa assim pra se apegar. Até hoje, andando com amigas minhas, elas brancas e mais feias do que eu, vejo os caras mexerem mais com elas do que comigo, entendeu?

um grafite, numa dança: o jeito que os breaks dançam é uma atitude de se impor.

E a cultura hip hop, o que ela representa? É que nem um Quilombo dos Palmares, é um refúgio pra um certo tipo de pessoas que são do mesmo estilo, que vivem o mesmo tipo de vida, que é o da periferia. São pobres, não só negros, mas todos aqueles que se sentem injustiçados, que se incomodam e querem ter um grito de guerra, querem falar. Acho que é um movimento muito importante pra nós porque resgata, tira os jovens das drogas, as meninas da prostituição. Os jovens, em vez de ficarem pensando um monte de besteiras, se ocupam, fazem seu grupinho de dança, de break, compram seu disco, vão ser DJs. É uma cultura que abrange quatro elementos: o MC, que é o mestre de cerimônias, o cara que agita a festa, o DJ, o break e o grafiteiro. Essa é uma maneira da gente não ficar só se lamentando e de fazer acontecer alguma coisa que a gente queira, nem que seja na pintura de

entra num lugar dominado por homem, tem de provar duas vezes mais. É por isso que eu não aderia à roupa curta, me vestia como eles, calça larga... pra ser respeitada. Era uma forma de me defender.

Como foi sua vivência do lado mais difícil da periferia? Quando eu era criança, muitas vezes fui pra debaixo da cama por causa de tiroteio. Durante anos eu convivi com o universo masculino, o machismo, demais, no meio dos rappers. Acho que a mulher, quando

> A chance de a mulher ficar no meio do caminho é maior? É. Mulher não tem aquela liberdade que o homem tem. Se ela ficar grávida, é ela que carrega na barriga, é ela que tem de cuidar da criança. Muitas mulheres deixaram seus sonhos pra trás porque tiveram um filho ou porque são dominadas por um namorado ou um marido. Então,


“O hip hop é como um Quilombo dos Palmares, refúgio para os pobres da periferia, para os que se incomodam e querem ter um grito de guerra. O jeito do break dançar é uma atitude de se impor”

eu me sinto uma guerreira por não ter tido esse tipo de problema, por não ter me perdido. Não vendi meu corpo, e por mais que em casa tenha passado vontade das coisas, nunca quis traficar. Eu sou uma guerreira por ter resistido a essas tentações. E uma sobrevivente. Hoje, o que mais te perturba na situação da periferia? Meu sobrinho foi pro hospital com febre, mal, e o médico disse que era intoxicação porque comeu ovo durante uma semana. Isso que é o mais duro: ver uma criança que não pode ter uma alimentação à pampa. E isso já vai influenciar em como ele se sai na escola. Se não se alimentar direito, não vai conseguir estudar direito e como vai ser o futuro dele? A maioria dos negros é pobre, já está comprovado, e se não têm uma boa alimentação, não têm nem prazer de estudar. Eu mesma não me vejo numa faculdade. Meu poder de concentração não é daqueles. Admiro muito quem lê livros e livros... Eu não consigo e acho que muitos negros e pobres também não. O rap tem um sentido de protesto, de denúncia. Você, contratada por uma grande gravadora, se apresentando na Globo, não tem medo de ser absorvida? Eu não tenho medo porque dentro de mim eu sei o que eu quero. Eu não faço música por fazer, eu tenho um sentimento no meu canto, tenho toda uma responsabilidade e tenho de agradecer a Deus pelo dom que ele me deu. E tenho de compensar isso de alguma forma. Não gosto de música vulgar, jamais cantaria

Depois do sucesso gravado com Charlie Brown Jr., em que cantava “o jovem não é levado a sério”, Negra Li lançou seu próprio CD, com o parceiro Helião, e chegou às novelas da Globo, sem medo de ser absorvida por um grande esquema. Sobrevivente da violência, do machismo e do preconceito, ela sabe o que quer: “Não faço música por fazer. Tenho uma responsabilidade no meu canto”

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uma coisa vulgar. Acho que hoje as crianças já estão aprendendo coisas que não era hora delas aprenderem. Eu acho que a música é capaz de mudar o mundo. Nas escolas devia ter a matéria “Música”. Eu sempre afirmo que a gente tem de estudar a música pra ser respeitado por todos os gêneros musicais, pro rap ser levado a sério. A música mexe muito dentro da gente. Como você imagina que poderia ser uma política honesta para o jovem da periferia? Eu acho que uma pessoa que é muito boa, que quer o bem pra todo mundo, não entra na política. Então, vai ser difícil a gente ter uma política honesta, perfeita. Todo mundo pensa no seu dinheiro; dinheiro é todo o problema.

O quanto a escola atual está distante da realidade do jovem? O jovem devia ter opções na vida, uma escola devia ser completa, devia ensinar também o que o jovem quer aprender. Mas está distante, parece que eles não querem deixar a gente inteligente o suficiente pra não eleger alguém que vai nos enganar mais tarde. Acho que devia ter aula de música, esporte... e ensinar a ser um profissional. Você vê o pessoal chegar ao segundo colegial e ainda não saber o que quer ser. Acho que tinha de despertar, mexer mais com criatividade, dar mais opções pra pessoa poder procurar dentro dela o que ela gostaria de ser.


luneta

A JUVENTUDE MANTÉM UMA RELAÇÃO INTENSA E VARIADA COM A RELIGIÃO

por_Beatriz Portugal fotos_Gustavo Lourenção

AMIGOS DA FÉ


A religião é a parcela do ideal num projeto de vida, acreditava, já no século 19, o historiador francês J. Ernest Renan. Se a definição pode permanecer válida ainda hoje, sem dúvida a relação entre as pessoas e a religiosidade mudou muito ao longo do século 20. Por isso é natural que se indague qual é o real envolvimento da juventude contemporânea com a religião. Segundo os especialistas, trata-se de um relacionamento intenso e movimentado: a religião está, sim, presente no dia-a-dia da maioria dos jovens brasileiros, mas é comum que eles mudem de uma denominação para outra, freqüentem mais de uma igreja e às vezes acabem adotando uma maneira muito própria de combinar diferentes crenças. Segundo a antropóloga Regina Novaes, pesquisadora do Instituto Superior de Estudos Religiosos (Iser), esse panorama ficou claro na pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, que ela coordenou para o Instituto da Cidadania. “A religião ocupou um lugar surpreendente entre os assuntos que os jovens gostariam de discutir, não só com os pais, mas também com os amigos e com a sociedade”, diz. E essa posição de destaque apareceu várias vezes. Quando se perguntou, por exemplo, o que os jovens mais gostam de fazer no fim de semana, entre várias opções, uma das preferidas foi ir à igreja, seja à missa ou ao culto. Entre os entrevistados, 65% se declararam católicos e 20%, evangélicos, sendo 15% pentecostais e 5% não pentecostais. Os jovens sem religião somaram 10%, dos quais 9% afirmaram, no entanto, acreditar em Deus. Somente 1% identificou-se como ateu e agnóstico. Mas Regina Novaes chama atenção para uma outra informação: “Depois dos evangélicos, os brasileiros sem religião são os que mais crescem no conjunto da população e, sobretudo, entre os jovens”. Liberdade e imediatismo E como os jovens fazem suas opções? “É preciso considerar que, além da família, hoje há outros agentes influenciando as definições religiosas. Numa pesquisa que desenvolvi no Rio de Janeiro, em 2002, constatamos que a família inspirava mais de 50% dos entrevistados. Para os demais, a decisão tinha outras justificativas: ‘motivos pessoais’; ‘influência de amigos’ e de ‘agentes religiosos’. Ou seja, os jovens desta geração estão sendo chamados a fazer suas escolhas em um campo religioso mais plural e competitivo”, diz Regina. Essa realidade não significa que os pais, automaticamente, se tornaram liberais em relação às escolhas dos filhos. “Não há dúvida de que as coisas mudaram. Cada vez existem mais famílias divididas entre diferentes religiões. Mas não sei se é possível dizer que as diferenças são aceitas. O que

Jovens católicos lêem a Bíblia em reunião de estudos no Centro de Juventude Anchietano, em São Paulo (na página oposta e abaixo); rapaz evangélico assiste a show gospel (abaixo, à direita)

se vê é que muitas vezes essa cisão gera conflitos”, diz Ronaldo de Almeida, professor de Antropologia da Universidade de Campinas e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Antes, as pessoas aderiam a sistemas religiosos fechados. Hoje, essa questão está mais embaralhada e, ao mesmo tempo, associada a demandas da vida cotidiana”, diz Almeida. Para ele, as religiões mais tradicionais estariam direcionadas para projetos de vida de longo prazo, ou seja, preocupadas com a formação de um homem e uma mulher maduros, com a família, com os valores morais. Em contrapartida, as religiões contemporâneas estão concentradas em questões mais imediatas: a possibilidade de abrir um negócio, comprar uma casa, viabilizar os estudos. “Há um uso da religião que, se não é instrumental, é cada vez mais imediato.” Espaços juvenis Que as igrejas se transformaram é fato. Hoje elas surgem com forças e formas de atuar diferentes daquelas do passado. Nas décadas mais recentes, o rápido crescimento das igrejas evangélicas, associado ao amplo uso dos meios de comunicação, foi sucedido por uma reação da Igreja Católica, em parte graças à expansão do chamado movimento carimástico. Nos dois casos, a participação juvenil é expressiva. Para Ronaldo Almeida, a criação de espaços de lazer e

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entretenimento é uma das principais estratégias das igrejas para atrair a juventude: “Nessas situações, em que há música, shows etc., o importante é a sociabilidade: criam-se redes de amizade, as pessoas namoram, se casam. Hoje, gospel é mais que um estilo de música, é o que identifica o comportamento do jovem religioso; e existe o gospel católico também”. Por tudo isso, é comum encontrar dirigentes jovens nos segmentos religiosos dirigidos à juventude. Segundo Cristiane Henrique da Silva, aproximar-se da religião foi decisivo para a definição do seu projeto de vida. Aos 15 anos, ela começou a freqüentar um grupo de jovens da renovação carismática, da Igreja Católica. Aos 24, tornou-se missionária. Hoje, aos 28, é diretora do programa PHN, da TV Canção Nova. O programa é apresentado pelo cantor Dunga, que explica: “PHN significa Por Hoje Não (vou pecar) e é assistido em todo o Brasil por 12 milhões de jovens. O objetivo é evangelizar usando todos os meios de comunicação”.

RELIGIÃO É UM DOS TEMAS QUE OS JOVENS MAIS GOSTAM DE DISCUTIR


Carioca, nascida em uma das favelas do Complexo do Alemão, Cristiane conta que tinha poucas perspectivas. “Mas a religião nos leva a ter conceitos bons, a definir o essencial: a opção pelo bem.” Antes de ter essa percepção, aos 15 anos, “tinha aquela idéia de que os religiosos eram bitolados, papahóstias e achava que ia ser induzida, quando não aceitava que ninguém me induzisse a nada”. Sobre sua descoberta religiosa, a motivação inicial não foi a fé, mas a alegria: “Fiquei impressionada ao ver jovens sorrindo, se abraçando e cantando”. Sobre seu trabalho: “Nossa intenção é formar os jovens para pensar assim: é preciso fazer a minha parte, fazer o bem”. Prioridades e credo próprio “A qualidade espiritual é uma referência importante na definição do projeto de vida, juntamente com o comprometimento social. A espiritualidade é o valor maior das pessoas e deve permear todas as áreas de nossas vidas”, diz Jesus Marcelo Galheno, 28 anos, presidente do Conselho da Mocidade Evangélica do Distrito Federal, que promove a evangelização juvenil nas cidades-satélites, como Ceilândia. Galheno explica que os jovens são convidados a participar de cultos nas igrejas e nos núcleos de comunhão. “Ali, lançamos o desafio aos que querem se somar a nós na busca de métodos que produzam o crescimento espiritual e social e na formulação de projetos que combatam a ociosidade.” Além dos cultos, ele diz, rapazes e moças participam de visitas a casas de recuperação de viciados e lar de idosos; de apresentações com cantores evangélicos; de simpósios e seminários. Editam ainda a revista Gospel, com tiragem de 10 mil exemplares e artigos sobre questões religiosas, lazer e saúde. Nas atividades mais festivas, muitos jovens estão procurando simplesmente diversão, admite Galheno. Mas ele acha que não se devem confundir prioridades. “Religião é sentimento, é espiritualidade. Ela pode nos alienar ou nos libertar. Alienar, se deturpada, inclusive por conduzir muitos ao fanatismo e ao preconceito.”

Jovens da igreja Renascer, em São Paulo, durante apresentação de cantores de gospel (na página oposta); detalhe das pulseiras no braço de uma garota evangélica e jovens católicos estudando a Bíblia: igreja é também espaço de sociabilização

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Do grupo dos sem religião, Ana Rosa Inoue Sardenberg, paulista, 23 anos, acredita que numa perspectiva de vida mais ampla a religião não tem a força que se pretende atribuir a ela. A estudante de Economia, que trabalha com produção de filmes e vídeos, foi batizada na Igreja Católica e aprendeu com a mãe a doutrina budista, mas não é praticante. “Vejo os jovens se aproximarem da religião mais por uma necessidade social de pertencer a um grupo”, diz, sem descartar a possibilidade de mais tarde optar por uma prática religiosa. Por enquanto, Ana Rosa acha suficiente cultivar princípios: pensa que a crença em valores profundos, baseada na razão e não na fé, às vezes atua tão fortemente como guia de conduta que acaba por ter a força de uma religião.


ciência

A IDADE DA RAZÃO O MODO DE PENSAR JUVENIL É CONDICIONADO PELO AMADURECIMENTO DO CÉREBRO, QUE É MAIS LENTO DO QUE SE PENSAVA. MAS HÁ OUTROS FATORES EM JOGO por_Karina Yamamoto ilustração_Marcelo Pitel

Fazer escolhas entre o que é certo e errado, planejar o futuro e se colocar no lugar do outro são, sim, atitudes mais difíceis aos 15 anos do que aos 25, e não se trata apenas de ter maior ou menor experiência de vida. Por quê? Essa é uma questão que também a neurociência tenta responder. Segundo pesquisas recentes, falar ou fazer algo de forma impulsiva, um comportamento típico da juventude, pode ter outro ingrediente além da vontade pura e simples do jovem. Biologicamente, ele ainda está amadurecendo também o seu aparato cognitivo, orientador da tomada de decisões.


O debate agora é sobre o quanto a maturidade social tem relação com o amadurecimento biológico – ou mais especificamente com uma determinada região do cérebro, o chamado córtex frontal. Um estudo concluído em 2004 pelo National Institute of Mental Health, NIMH (Instituto Nacional de Saúde Mental), órgão de saúde americano, indicou que essa área se desenvolve durante toda a segunda década de vida. A pesquisa usou imagens do cérebro feitas nos últimos 15 anos, acompanhando o crescimento de 13 crianças, dos 4 aos 21 anos. Os dados sugerem que o córtex frontal está próximo do amadurecimento completo somente aos 20 anos. E essa é a região do cérebro ligada ao que os cientistas chamam de funções cognitivas superiores, tais como relacionar informações entre si, fazer escolhas éticas, prever a reação do interlocutor. É o que, no fim, nos torna capazes de defender valores ou evitar uma gafe.

Ciência e sociedade Informações sobre o cérebro podem embasar decisões de políticas públicas ou mesmo punições legais. Organizações norte-americanas de defesa dos direitos dos jovens, por exemplo, tentam livrá-los da pena de morte utilizando esse argumento. “Os lobos frontais, regiões envolvidas na regulação das emoções, no planejamento e no controle dos impulsos ainda estão amadurecendo durante a adolescência”, diz, em entrevista por e-mail, o psicólogo Laurence Steinberg, professor da Universidade de Temple, na Filadélfia, Estados Unidos. Para o americano, que é autor do livro The Ten Basic Principles of Good Parenting (Os Dez Princípios para Ser um Bom Pai, ainda sem tradução para o português), é preciso levar em conta a maturidade biológica. “Não acho que os jovens devam ser punidos da mesma maneira que os adultos”, defende.

Isso quer dizer que não há como exigir responsabilidade de quem ainda não chegou aos 20 anos? Não é disso que se trata, até porque estão envolvidos outros fatores – individuais e sociais. “Não dá para justificar as atitudes juvenis unicamente pela base fisiológica”, diz o neurologista Paulo Bertolucci, professor da Universidade Federal de São Paulo. Bertolucci concorda que, antes dos 15 anos, nem todos têm condições plenas de fazer escolhas éticas e de colocar-se no lugar do outro. Mas, a partir dessa idade, já existem condições para isso. “Esse indivíduo já tem maturidade mínima para conviver em sociedade”, diz.

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AS CÉLULAS CEREBRAIS PASSAM POR IMPORTANTES TRANSFORMAÇÕES QUÍMICAS E FÍSICAS A PARTIR DA ADOLESCÊNCIA

Mas, nem mesmo a médica americana Judith Rapoport, que participou do estudo do NIMH, se arrisca a relacionar diretamente maturidade psicológica e desenvolvimento do córtex frontal. “Nossos dados são muito limitados para afirmar isso”, afirmou Rapoport a Onda Jovem. “Nosso cérebro está mudando durante toda a nossa existência.” A verdade é que é impossível criar regras ou rótulos quando se trata do complexo desenvolvimento humano. A estudante de psicologia Liliana Prado Lima, de 22 anos, é um exemplo. Aos 13 anos, uma de suas melhores amigas começou a usar drogas. Além de não embarcar na mesma viagem, seus conselhos levaram a garota a admitir o vício e a procurar ajuda. “Depois, ela me agradeceu o apoio”, conta. Como dizer que ela não soube julgar a situação?

Maturidade biológica O funcionamento do cérebro ainda é um campo a ser desbravado, mas hoje já se sabe muito sobre esse órgão. É consenso que, durante a adolescência, os neurônios (as células cerebrais) passam por uma mielinização. Trata-se do aumento de uma substância (a mielina) ao redor de uma região da célula nervosa (axônio) responsável pela transmissão do impulso elétrico e, conseqüentemente, por tudo que se passa no cérebro. “A mielinização acontece entre os 10 e os 20 anos”, diz o neurologista Gilberto Xavier, da Universidade de São Paulo. “Antes do processo, a velocidade do impulso elétrico fica entre 2 e 5 m/s e, depois dele, pode chegar a 100 m/s.” Isso nos dá mais agilidade mental. Outro acontecimento importante nessa fase é a perda, por falta de uso, de uma série de conexões entre os neurônios, as sinapses. Nos primeiros anos de vida, há tudo por aprender e estamos formando sinapses o tempo todo. Durante a puberdade, é como se houvesse uma faxina, em que o organismo descarta aquelas que não nos servem mais. “O processo de perda de sinapses é influenciado pelas experiências”, explica Laurence Steinberg. Como as conexões que permanecem são as mais utilizadas, novos estímulos intelectuais são muito bem-vindos. “Devemos tentar melhorar a nossa capacidade de resolver problemas buscando novos desafios, inclusive de natureza emocional”, diz o neurorradiologista Edson Amaro Júnior, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Aí vale todo tipo de atividade, de planejar compras de supermercado a praticar esportes.


63 Mais experiência, menos regras Mas os aspectos neurológicos não são tudo. Para a psicóloga Henriette Tognetti Penha Morato, da Universidade de São Paulo, é preciso levar em conta a singularidade da situação dos jovens. “Eles estão numa fase em que querem ir além, estão se exercitando como responsáveis, mas querem aprender pela experiência e não pela norma”, diz ela. O conflito surge quando o adulto tenta impor suas regras e valores, uma vez que o adolescente se apresenta para ele como “possibilidade de ser o que ele não foi ou não quis ser”, nas palavras de Henriette. A negociação é o melhor caminho. O fato é que não há respostas prontas – da biologia ou da psicologia – para ultrapassar essa etapa da vida. Não há como evitar o embate entre a busca do que se pretende ser e as exigências da realidade. Mas há um ponto em que todos os especialistas concordam: ao entender melhor como a juventude pensa, os adultos podem explorar mais os aspectos positivos da relação. Para Steinberg, “cabe aos pais e educadores proporcionar um ambiente favorável e seguro para que o jovem possa fazer escolhas cada vez mais complexas, exercitando sua responsabilidade”.


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GOVERNO CRIA SECRETARIA E CONSELHO DA JUVENTUDE. E O LEGISLATIVO TAMBÉM PROPÕE POLÍTICAS PARA O SEGMENTO

NAÇÃO JOVEM por_Vasconcelos Quadros

O ano de 2005 pode ser dos mais importantes para os jovens brasileiros na ocupação de um espaço próprio na agenda de políticas públicas. Além da sua transformação em Ano Nacional da Juventude, segundo uma das propostas feitas pela Comissão Especial de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados, o governo federal determinou a criação, no início de fevereiro, de dois órgãos especiais para cuidar do tema: a Secretaria Nacional da Juventude e o Conselho Nacional de Juventude, instituídos por Medida Provisória que deve entrar na pauta do Congresso neste início de ano legislativo. Na mesma oportunidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Pró-Jovem), com orçamento, para 2005, de R$ 300 milhões, destinados a atender 200 mil jovens que moram nas periferias das metrópoles. As iniciativas do Legislativo e do Executivo tentam responder a um diagnóstico de especialistas e edu-


cadores, segundo o qual os problemas enfrentados pela juventude são uma demanda social específica, que exige um conjunto de políticas públicas capaz de gerar perspectivas melhores para um contingente calculado em 35 milhões de pessoas, na faixa de 15 a 24 anos – o equivalente a 20% da população do país. “Não há mais espaço para fragmentações. A juventude precisa de uma política própria”, diz Iradj Eghrari, diretor-executivo da Ágere, ONG de Brasília que atua com jovens. Atualmente, 49 programas federais, de 16 ministérios, atendem à faixa juvenil de forma parcial ou exclusiva, mas não há articulação entre eles. Eghrari lembra que uma resolução da ONU, de 2003, já recomendava a adoção de uma política exclusiva, que diferencie a juventude de outros segmentos. “Há vários estudos e trabalhos importantes sobre o assunto em mãos das autoridades”, diz ele. Entre esses documentos, um dos mais amplos é o Projeto Juventude, coordenado pela ONG Instituto da Cidadania, e que inclui a maior pesquisa já feita com jovens no Brasil. Cesta de propostas Instalada em maio de 2004, a Comissão Especial de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados encerrou os trabalhos em novembro apresentando um relatório que, além de incluir um esboço sobre o segmento, propõe projetos de lei e faz sugestões ao governo. “O momento histórico, a agenda que está sendo criada e a mobilização social em curso colocam a juventude como o centro das preocupações”, diz o de-

putado Reginaldo Lopes (PT-MG), que presidiu a comissão. Além da transformação de 2005 no Ano Nacional da Juventude, as propostas no âmbito do Legislativo incluem a criação de um plano nacional de ação, com duração mínima de dez anos; a elaboração do Estatuto da Juventude; uma Proposta de Emenda Constitucional para incluir o jovem no capítulo dos direitos fundamentais da Constituição, e a instituição de uma comissão permanente para o tema na Câmara. Ao governo federal, os deputados recomendam a realização de conferências nacionais e já pediam a instituição do conselho e da secretaria anunciados pelo Executivo, ambos vinculados à Secretaria Geral da Presidência da República e com poderes para articular as ações governamentais. O objetivo, segundo Lopes, é tratar o jovem como alvo de uma política global que supere o atual estágio, em que ele é visto como coadjuvante de outros grupos e, por essa razão, alcançado apenas parcialmente pelos programas públicos. O programa Pró-Jovem, lançado pelo governo, pretende atingir, em 2005, 200 mil participantes, moradores das periferias das grandes cidades, ao custo de R$ 300 milhões

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O PROJETO JUVENTUDE, DOCUMENTO COM PROPOSTAS E INDICAÇÕES DE POLÍTICAS PÚBLICAS COORDENADO PELO INSTITUTO DA CIDADANIA, INCLUI UMA PESQUISA SOBRE OS JOVENS BRASILEIROS QUE PODE SER ACESSADA NO SITE WWW.PROJETOJUVENTUDE.ORG.BR Projeto Juventude Em seus trabalhos, a comissão da Câmara promoveu conferências com instituições ligadas aos jovens e reuniu sugestões da sociedade, entre as quais o Projeto Juventude, do Instituto da Cidadania. Baseado em uma pesquisa inédita sobre o universo juvenil e discutido com diferentes públicos ao longo de um ano, o projeto é um conjunto de indicações e propostas que define a juventude como um novo segmento social, gerador de uma demanda especial de políticas públicas. O contingente situado na faixa dos 15 a 24 anos representa mais que o dobro da população idosa e, em 2005, a mais populosa geração de jovens que se tem notícia na história do país – algo como uma Argentina inteira. Realizada entre junho de 2003 e junho de 2004, a pesquisa que embasa o projeto ouviu 3,5 mil jovens e abordou as principais questões que os afetam, como trabalho, segurança, educação, saúde, cultura, sexualidade, lazer e direitos. O levantamento mostra que 84% dos jovens vivem em áreas urbanas e que sua maior preocupação é a violência. O documento, com base no diagnóstico extraído da pesquisa, propõe uma diretriz às ações públicas. “O carro-chefe é um elenco de políticas públicas com quatro eixos: trabalho, educação, cultura e participação”, diz a socióloga Helena Abramo, consultora especial do projeto. Segundo Abramo, o diferencial em relação a outros estudos é que este propõe um formato de inserção em que o trabalho – outra grande preocupação deste público – esteja vinculado à formação escolar e ao tipo de atividade que o jovem já vem procurando realizar. Essas ações devem despertar um estilo de participação com sentido social. Para tanto, o documento sugere que não haja apenas um modelo de inserção, mas diferentes módulos, permitindo a opção pelo que mais se adapte a cada realidade. Entre junho e setembro de 2004, uma versão preliminar do documento foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, às mesas da Câmara e do Senado, a governadores, prefeitos e entidades de diversos perfis que trabalham com a juventude. No total, já foram distribuídos 4 mil exemplares do estudo.

Embora o projeto já tenha sido concluído, Helena Abramo diz que eventuais lacunas ainda podem ser preenchidas no debate aberto com a sociedade. Demandas e propostas não contempladas pela versão original ainda podem ser incluídas nas discussões que serão travadas agora no âmbito do Legislativo. Lançada em meados do ano passado, a versão provisória do projeto foi sendo alterada pela dinâmica do debate. Abramo cita, como exemplo, a contribuição dada por um grupo de jovens que trabalha com saúde mental.


Transformar 2005 em Ano Nacional da Juventude é uma das propostas incluídas no relatório da Comissão Especial de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados, que sugere ainda a elaboração de um estatuto da juventude

O grupo demonstrou que, ao contrário do que sugeria um dos parágrafos do texto, o enfoque de um programa de lazer e esporte não poderia ser justificado exclusivamente em função do combate à disseminação das drogas, mas pela necessidade geral da juventude. Uma outra proposta levou à inclusão de um capítulo sobre jovens com deficiência física. “Eram sugestões pertinentes, que produziam avanço no conteúdo”, diz Helena Abramo. Pró-Jovem No governo federal, o estudo encontrou pronta acolhida. Foi criado um grupo interministerial e o ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, foi designado para coordenar a estruturação da política nacional que tem no Projeto Juventude sua espinha dorsal. Segundo Dulci, o estudo “é uma análise bem fundamentada e criteriosa do universo juvenil, extremamente útil”. Muitas das

sugestões foram incorporadas pelo governo no Pró-Jovem. Embora a meta do programa para 2005 – definida pelo ministro como realista – seja atingir 200 mil participantes, o contingente alvo são cerca de 1,5 milhão de jovens, habitantes das periferias das grandes cidades. Os objetivos são que os integrantes acelerem os estudos para concluir o ensino fundamental, recebam qualificação profissional de 1.200 horas/ aula sobre cursos adequados ao mercado da região onde vivem e participem também do programa de inclusão digital. Para tanto, receberão uma bolsa mensal de R$ 100,00 e, como contrapartida, prestarão serviços comunitários. A proposta será executada em parceria com prefeituras. A expectativa agora é sobre os desdobramentos práticos que terão essas iniciativas e as demais propostas e temas de interesse dos jovens, para que este se transforme de fato no ano da juventude brasileira.

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chat de revista

QUATRO CONVIDADOS CONVERSAM SOBRE A RELAÇÃO ENTRE PROJETO DE VIDA E FELICIDADE A palavra inglesa “chat” quer dizer conversa, bate-papo, e deu nome a uma forma de conversação típica da internet, em que as pessoas se comunicam por escrito, em tempo real. Onda Jovem também tem sua sala de bate-papo, mas no tempo próprio das revistas, com mais espaço para a reflexão. A seção estréia com quatro convidados. A carioca Suélen Cristina Brito, 19 anos, estuda Pintura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à noite trabalha no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, onde cursou o pré-vestibular. Bernardo Ferreira da Luz, 21, cursa o 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná e coordena o centro acadêmico da faculdade; Marcos Antônio da Silva, 21, paulistano, é auxiliar de escritório na PricewaterhouseCoopers, onde se empregou depois de uma passagem de oito meses pela Febem; cursa o 3º ano do ensino médio, é casado e tem uma

FELIPE BARRA

GENTE QUER SER FELIZ! filha, Fernanda, de 3 anos. E Renata Florentino, 19, estudante de Ciências Sociais na Universidade de Brasília, é uma das fundadoras da ONG Interagir – Protagonismo Juvenil, da qual coordena o boletim on-line Falando de Política. Durante um mês, em diferentes etapas, eles refletiram e se questionaram sobre a relação entre projeto de vida e felicidade. Onda Jovem propôs as perguntas iniciais e depois os participantes conversaram entre si. Leia, a seguir, os principais trechos deste “chat de revista”: Onda: Qual é o seu conceito de felicidade? BERNARDO: É estar de bem com a vida, um bem-estar físico, psíquico, social, espiritual. Isso inclui o lado afetivo. Acho ainda que algumas conquistas intelectuais são necessárias para a inteira felicidade, porque é com o conhecimento e a parceria das pessoas que realizamos o que queremos, incluindo mudar a realidade social do país, o que eu acho que é de extrema necessidade para a felicidade de todos. SUÉLEN: Na minha visão, a felicidade está presente em todos os momentos. É saber que estou viva e capacitada para desbravar este mundo, mesmo com todas as dificuldades e problemas. Está ligada a situações principalmente do meu cotidiano (vida pessoal, trabalho, faculdade etc.), mas também a situações do meio em que estou inserida, do mundo.


RENATA FLORENTINO, 19 Estudante de Ciências Sociais na Universidade de Brasília, é uma das fundadoras da ONG Interagir – Protagonismo Juvenil

BERNARDO FERREIRA DA LUZ, 21 Cursa o 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná e é o coordenador geral do Diretório Acadêmico Nilo Cairo

SUÉLEN CRISTINA BRITO, 19 Estuda Pintura na Universidade Federal do Rio de Janeiro e trabalha no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, no complexo da Maré, onde mora

MARCOS ANTÔNIO DA SILVA, 21 Paulistano, é auxiliar de escritório na PricewaterhouseCoopers. Cursa o 3º ano do ensino médio, é casado e tem uma filha de 3 anos

FRANCISCO VALDEAN

DAVILYM DOURADO

MARCELO ELIAS

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“A plenitude é algo muito complexo” SUÉLEN BRITO MARCOS: Felicidade é estar perto da minha filha, pois não sei o que seria de mim sem ela! É poder ter um emprego que me possibilite dar à minha família uma vida digna, diferente da que eu tive. É ter aprendido que ir pra escola é superimportante para o meu desenvolSUÉLEN vimento intelectual. Felicidade é poder olhar pra trás e ter orgulho de mim, saber que cometi erros e que hoje sou um cidadão honesto e trabalhador. RENATA: Uma visão comum de felicidade é estar “satisfeito”. Saciado e conformado com o que se tem. É algo quase que inatingível, que virá no momento em que todos os problemas estiverem solucionados. Ah, esse dia que nunca chega. Escolhi ter um projeto de vida um pouco diferente, buscando prazer em estar sempre inquieta, buscando aprimorar o que já tenho, ou correndo atrás do que está por vir.

Como vocês acham que seu projeto de vida se reflete na “felicidade geral da nação”? MARCOS: Sou um exemplo vivo para meu irmão, meus colegas e, principalmente, para minha filha. Exemplo de que podemos acertar o rumo de nossas vidas, corrigir nossos erros e viver de forma digna. Não tenho vergonha de dizer que estive na Febem, porque hoje me sinto um modelo de recuperação. Aprendi com meus erros a andar no caminho certo. BERNARDO: Acho que um projeto de construção da sociedade se reflete em melhoria para toda a população; isso não é pensar apenas no meu próprio umbigo, como a maioria pensa. RENATA: Um caminho está sempre numa superfície. E nela, muitos caminhos se cruzam. Às vezes, por acaso, às vezes, por escolha. Na busca por interrogações, podem-se encontrar tanto elaboradas crises existenciais como as mais simples perguntas, feitas por quem se dispõe ou é obrigado a explorar o mundo um pouco mais. Essas é que são minhas dúvidas, que se abrem para outros caminhos.

E está dando certo? RENATA: A construção do meu conceito de felicidade veio da constatação de que outro não daria certo comigo. Assim, consigo manter a motivação e a persistência para sempre enxergar o passo a mais que pode ser dado. É claro que muitas dúvidas atravessam esse caminho, mas a cada dia vejo que é o mais coerente com meus desejos e realizações.

“A felicidade não é separado do projeto

MARCOS: Estou atingindo meu projeto de felicidade, sim, graças à oportunidade que tive quando saí da Febem, ao encontrar um emprego. Conheci pessoas legais, que acreditaram em mim e na minha recuperação. Meu objetivo agora é fazer uma carreira e por isso tenho me dedicado aos estudos.

SUÉLEN: Esse reflexo depende da minha atuação e comunicação. Como o meu objetivo está sempre ligado ao meu fazer, vejo que interfiro em meu meio também pela expressividade da arte. E a maneira como cada projeto de vida se reflete no país, está de acordo com o que vocês pretendem?

BERNARDO: Para se chegar ao que eu quero, o caminho é árduo. Como futuro trabalhador da saúde, penso em um serviço público eficiente para 100% da população, na saúde, na educação e em todas as necessidades básicas. Um Estado atuante ao máximo. SUÉLEN: Meu projeto não caminha exatamente como eu quero, mas de acordo com a vida, e por isso tem altos e baixos. A plenitude é algo muito complexo e percebo que a minha felicidade, e meus projetos, nunca chegaram a um estágio pleno, mas sim satisfatório, momentâneo. A partir das conquistas realizadas, aparecem mais objetivos, que vão se transformando.

BERNARDO: Talvez ele não se reflita como eu desejaria, mas acho que cada um pode contribuir para a mudança coletiva, e não desistir no meio do caminho, pensando que não fazemos diferença. RENATA: Creio que meu projeto de vida não se reflete, mas busca interferir no país. Talvez, o país se reflita no meu projeto. Por mais que eu acredite na potencialidade de ações individuais, é certo que o ambiente que nos cerca pode dinamizar ou tolher muitas iniciativas. BERNARDO


MARCOS: Gosto de contar para a moçada na mesma situação que eu que o crime não compensa. Diminuir a criminalidade vai melhorar a vida de todo mundo. Estou satisfeito com o que tenho conseguido alcançar, mas quero ir mais longe ainda. Mas o que faz uma pessoa feliz pode não fazer a outra feliz. Então, por que nos preocupamos em correr atrás de um padrão de felicidade imposto pela sociedade? SUÉLEN: Acho que sou eu que dito a minha felicidade, mas sei que sofro influências.

SUÉLEN: Ela aparece em diversas etapas, às vezes de forma mais intensa ou não. Mas, com certeza, sempre que finalizo um trabalho, todos os sentimentos se fundem em um só, na felicidade.

RENATA: Será que não é a gente que se impõe um modelo de felicidade? Ou, de repente, nos impomos ser felizes!

BERNARDO: Acho que a felicidade não é um componente separado, deve correr sempre junto ao projeto de vida. Não penso que ela virá depois de algumas conquistas. A vida não deve ser feita só de futuro, mas também de presente. Gosto de estar sempre de bem comigo mesmo e com as pessoas ao meu redor.

BERNARDO: É porque somos criados nessa cultura capitalista, vivendo sempre a expectativa de ter mais. Mas não precisamos nos submeter ao que não nos alegra. Somos livres para pensar diferente e acho que devemos construir a felicidade com o coletivo. E como vocês pensam que podem colaborar para melhorar nossa sociedade?

MARCOS: A felicidade é a base de tudo! Sem ela não consigo correr atrás do que estou buscando. Se vejo minha filha triste, parece que tudo fica mais difícil. Felicidade é tudo!

um componente de vida”

SOBRE PARA SABER MAIS

RENATA

MARCOS

FALANDO DE POLÍTICA - BOLETIM ON-LINE DO INTERAGIR - PROTAGONISMO JUVENIL (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO NACIONAL PROPOSTA Disseminar informação como elemento fundamental para nortear e embasar atitudes e visões, projetos e ações, incluindo trabalhos de acompanhamento e envolvimento – mais do que um repasse de informações, formação de atitudes NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS MAIS DE 1.200 ORGANIZAÇÕES E JOVENS RECEBEM O BOLETIM APOIO FUNDAÇÃO FRIEDRICH EBERT CONTATO SCN Quadra 5, Bloco A, Edifício Brasília Shopping,Torre Norte, sala 1.327 – 70713000 – Brasília (DF) – www.protagonismojuvenil.org.br e-mail diretoria@interagir.org.br – Fone: 61/3036-9675

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PARA SABER MAIS

RENATA: Como ongueira de coração e vocação, creio que por meio de ações articuladas posso melhorar ao menos questões específicas, no caso, as ligadas à participação juvenil. Na minha opinião, a felicidade aparece numa etapa específica do ciclo de execução do projeto vida. O que vocês acham?

SOBRE

MARCOS: Acho que meu exemplo de vida e recuperação é a minha maior colaboração. Além disso, trabalho no Programa de Cidadania da Pricewaterhouse.

PARA SABER MAIS

SUÉLEN: Argumentando, com minhas idéias e com meus trabalhos, porque eles sempre expressam minhas idéias.

SOBRE

BERNARDO LUZ CAPACITAÇÃO DE JOVENS EM SITUAÇÃO DE RISCO, viabilizado pela PricewaterhouseCoopers em parceria com a Associação de Apoio ao Projeto Quixote do Departamento de Psiquiatria, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) REGIÃO DE ATUAÇÃO SÃO PAULO PROPOSTA Capacitação, para o mercado de trabalho, de jovens em situação de risco, que passam a ter a chance de serem independentes e capazes de dirigir o próprio destino de forma digna. Inclui o acompanhamento psicopedagógico e social dos jovens e suas famílias JOVENS ATENDIDOS 10 POR TURMA APOIO PRICEWATERHOUSECOOPERS E ASSOCIAÇÃO CAMINHANDO JUNTOS CONTATO Av. Francisco Matarazzo, 1.400 – Torre Torino – 05001-903 – São Paulo (SP) – Contato: Mila Guimarães (mila.guimaraes@br.pwc.com) – Fone: 11/ 3674-3687

CURSO PRÉ-VESTIBULAR COMUNITÁRIO, DO CEASM - CENTRO DE ESTUDOS E AÇÕES SOLIDÁRIAS DA MARÉ (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO BAIRRO MARÉ, COMUNIDADES MORRO DO TIMBAU E NOVA HOLANDA, NO RIO DE JANEIRO (RJ) PROPOSTA Propiciar o acesso de moradores ao meio universitário com o objetivo de intervir na realidade atual do bairro, provocando mudanças, conjugando utopias pessoais e coletivas JOVENS ATENDIDOS APROXIMADAMENTE 400 POR ANO APOIO LIGTH, CARE, MINASGÁS CONTATO Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM Praça dos Caetés, 07 – Morro do Timbau – Maré – 21.042-050 – Rio de Janeiro (RJ) – Fone/Fax.: 21/2561-4604/ 2561-3946 – www.ceasm.org.br – e-mail contato@ceasm.org.br


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DIVULGAÇÃO

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UM MANUAL PARA MONITORAR POLÍTICAS Nos dias 5 e 6 de outubro deste ano, cumprindo resolução aprovada em 2003, duas reuniões plenárias da 70ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, serão dedicadas à revisão da situação da juventude no mundo e à avaliação das conquistas obtidas pelos países-membros na implementação do Programa Mundial de Ação para a Juventude (PMAJ), dez anos depois da sua adoção. Para que uma avaliação de tal porte fosse feita, a ONU criou um manual que ajuda a monitorar as ações do governo e da sociedade para a promoção das condições de vida dos jovens. O manual, traduzido e distribuído, no Brasil, pela Interagir – Protagonismo Juvenil, ONG criada por moças e rapazes de Brasília, contém métodos de avaliação das ações e também ferramentas para o desenvolvimento do trabalho das organizações. Em outubro, nas reuniões na ONU, os governos e organizações nacionais terão seus relatórios avaliados. Nesses documentos, porém, estarão registrados tanto o que cada um fez quanto o que pensam os jovens a respeito dessas realizações. No caso brasileiro, além dos órgãos de governos, 35 organizações procuraram a Interagir e se dispuseram a fazer as avaliações em suas respectivas áreas de ação. O Itamaraty está reunindo as contribuições e já elabora o relatório a ser apresentado à ONU, com base em reunião realizada em novembro com jovens de

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diversas ONGs e movimentos sociais. Segundo Camila Godinho, responsável pelas Relações Internacionais na Interagir, as organizações devem entregar em março seus relatórios, que serão consolidados e encaminhados à ONU pelo Itamaraty em abril. E todos os países receberão os relatórios impressos em maio. Camila lembra que em março, nos dias 25 e 26, em Brasília, haverá mais uma oportunidade de se discutir a avaliação no Fórum do Protagonismo Juvenil, no qual cerca de 600 jovens do Brasil inteiro estarão debatendo as políticas públicas para o segmento e também apresentando contribuições. A Interagir pode ser contatada pelo site www.interagir.org.br.

A VEZ DAS PARCERIAS Um modo vantajoso de atuação para todos os envolvidos, o trabalho em parceria é cada vez mais importante e também estudado pelo terceiro setor. Tanto que, além do lançamento do site da Aliança Capoava, somente com informações sobre trabalho conjunto e um inédito mapeamento das publicações brasileiras sobre parcerias e alianças entre organizações da sociedade civil e empresas, a Iª Conferência Internacional do Instituto Ethos, de 10 a 7 de junho, em São Paulo, também se debruçará sobre o tema Parcerias para uma Sociedade Sustentável. A Aliança Capoava, criada em 2002, reúne o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), a Ashoka Em-

preendedores Sociais e a Fundação Avina. O site que eles desenvolveram já reúne 106 obras de diversos gêneros sobre parceria. São artigos on-line, periódicos, livros, materiais de congressos e seminários, publicações institucionais, relatórios de pesquisa, teses e dissertações. “Esperamos que o site ajude a construir um diálogo permanente sobre a produção de conhecimento no tema e que novos trabalhos nos

sejam enviados”, diz Cristina Meirelles, coordenadora da Aliança Capoava. As etapas de implementação do site prosseguem neste ano, segundo Cristina. Em fevereiro acontecem os “salões de encontros”, reunindo representantes de instituições que já trabalham em parceria com novatos interessados em aprender com eles. Informações disponíveis no site www.aliancacapoava.org.br.


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LUZES SOBRE O CAMPO

DIVULGAÇÃO

Até o ano 2000, a produção acadêmica sobre a juventude rural era rara. De lá para cá, o quadro mudou: dos 51 trabalhos divulgados entre 1990 e 2004, 86% foram publicados nos últimos cinco anos. Os dados constam do inventário feito pelo setor de Estudos e Pesquisas do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD), sob a coordenação do professor Nilson Weisheimer, da Universidade de Santa Cruz do Sul (RS). Os resultados devem ser apresentados em um seminário nacional sobre o assunto, ainda neste semestre, no Rio de Janeiro. Entre os temas estudados, os mais freqüentes são a atuação do jovem no sistema de agricultura familiar e sua inserção no trabalho agrícola. Weisheimer está produzindo ainda um catálogo de referências bibliográficas sobre a juventude rural, para ser acessado na internet. Contribuições podem ser enviadas ao NEAD (www.nead.org.br). Também recentemente foi criado o Grupo Temático de Juventude Rural do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf). O grupo, com representantes de diferentes entidades, deve discutir políticas para o segmento.

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ESPAÇO PARA NOVOS TALENTOS

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Uma das propostas de Onda Jovem é abrir espaço para a produção de novos fotógrafos e ilustradores. Desta edição participam, entre outros, estudantes como Levi Silva, 14 anos, que fotografou Carlos Jordaki para a reportagem Propostas de Futuro (pág. 8). Ele é um dos alunos do Projeto Olho Mágico (www.fotosite.com.br/olho_magico), do fotógrafo Davilym Dourado, que tem apoio do Fotosite e da Escola de Fotografia Riguardari. Já o carioca Anderson Oliveira, 22 anos, fotografou Luiz Júlio Pereira, para a mesma matéria, a convite da agência Imagens do Povo, um projeto do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro (imagensdopovo@observatoriodefavelas.org.br), que também promove cursos. A agência mantém um banco de imagens de temática social, aberto aos participantes dos cursos. Estudante de Design Gráfico, o paulistano Marcelo Pitel já vem atuando em sua área. A ilustração para a reportagem A Idade da Razão (pág. 60) é “um estudo da criação em linguagem digital”, diz Pitel, que aponta, entre suas influências, os brasileiros J. Carlos (1884-1950) e o contemporâneo Cássio Loredano.


Fato Positivo

O MONITORAMENTO DESENVOLVIDO PELA ANDI MOSTRA QUE A PRODUÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DIRIGIDA AOS JOVENS ESTÁ AVANÇANDO

UMA MÍDIA MAIS JOVEM A imprensa brasileira tem evoluído positivamente no que diz respeito à amplitude e à qualidade da cobertura produzida para a juventude. A constatação está registrada no boletim Radicais Livres, editado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e recentemente reformulado para aprimorar o monitoramento das publicações juvenis, como suplementos de jornais, revistas e programa de TV, considerados estratégicos para a informação e a formação dos jovens. Esse avanço não é fruto do acaso, mas certamente se relaciona com os 12 anos de atividade da própria agência, que consolidou sua tecnologia de monitoramento e influência sobre a mídia inicialmente voltada para o público infantil.


PÚBLICO NOVO

MUDANÇA CULTURAL

PARA SABER MAIS

SOBRE

Mas não é tão fácil mostrar em números a importância de um trabalho como este. O diretor-editor, Veet Vivarta, atribui ao trabalho da Andi, por exemplo, a discussão na imprensa sobre o trabalho infantil doméstico. O livro Crianças Invisíveis, sexto volume da série de estudos Mídia e Mobilização Social, editada pela agência, é oferecido às universidades e a jornalistas para mostrar que quase meio milhão de crianças e adolescentes trabalham como empregados domésticos (leia quadro). “Não produzimos notícias, mas procuramos pautar os meios de comunicação para explorar temas ligados ao Estatuto da Criança e do Adolescente”, diz Vivarta. “A introdução do assunto no diaa-dia da imprensa assegura legitimidade às soluções propostas e à legislação em vigor”, diz. “Hoje, as redações já reconhecem a importância do tema.” Criada em 1992, por iniciativa dos jornalistas Âmbar de Barros e Gilberto Dimenstein, a Andi já estabeleceu uma rede nacional, com a participação de ONGs, de dez estados, que atuam na área de comunicação. O modelo foi adotado para a criação de uma rede internacional que inclui oito países da América Latina.

Avesso

Na prática, além de apontar aos profissionais das redações a importância de abordar temas como trabalho infantil, gravidez precoce ou acesso à universidade, a Andi conecta repórteres a fontes qualificadas de informação e ainda analisa o noticiário, identificando os temas cobertos ou esquecidos pelos meios de comunicação. O monitoramento, iniciado em 1996 e incluindo hoje 60 jornais e revistas, permite constatar mudanças. Exemplos: em 1996, os principais veículos da mídia impressa publicaram 10.700 reportagens sobre crianças e adolescentes; em 2003, o número subiu para 105 mil. No biênio 1996-97, a violência foi o assunto mais explorado no noticiário sobre jovens; em 1998, a educação dominou as pautas jornalísticas.

A Coordenação de Mídia Jovem, criada em 1997, também vem ampliando suas atividades. O núcleo coordenado por Carina Paccola edita o boletim Radicais Livres, que acompanha, analisa e divulga dados sobre 20 jornais e cinco revistas dirigidos aos jovens, apresentando críticas e sugestões sobre as reportagens. Antes divulgado semanalmente, o boletim tem agora periodicidade mensal, aprofundando sua abordagem. Na edição de estréia do novo formato, em novembro de 2004, Radicais Livres noticiava que os suplementos juvenis de jornais veiculados no mês de setembro haviam alcançado um Índice de Relevância Social de 76,3%. O índice indica a quantidade de reportagens que contribuem para a formação cidadã dos leitores, em relação ao total de matérias. Nas revistas, porém, o índice ainda é baixo: 33,7%. Para a TV, foi desenvolvido um projeto específico, que vai além do noticiário, analisando também a programação de lazer. “A mídia que fala para o jovem precisa ser fortalecida e não pode ser vista apenas como meio de entretenimento ou de publicidade”, diz o editor Veet Vivarta. – colaborou James Allen.

A contratação de meninas com menos de 16 anos como empregadas domésticas é ilegal e deve ser combatida com a participação da sociedade e a instituição de políticas públicas para assegurar sua volta à família e à escola. A obrigação de trabalhar em período integral numa época da vida que deve ser destinada ao estudo e ao desenvolvimento pessoal fatalmente afeta um projeto de futuro. No Brasil, são quase 5,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhadores e praticamente a metade (48,6%) nem sequer recebe salário. Mas quando se fala de trabalho infantil doméstico, as dificuldades de analisar o problema são maiores, pois há poucos estudos sobre o assunto. Especialistas e jornalistas da Andi que produziram a pesquisa e o livro Crianças Invisíveis destacam inclusive a falta de clareza legal sobre o assunto. Essa impressão de normalidade com que jovens são contratadas para trabalhar como empregadas domésticas é atribuída ao cenário brasileiro de desigualdade social e pobreza, o que justificaria que uma mãe entregue a filha a uma família para não vê-la passar fome. Uma justificativa que as condena à invisibilidade seja como garotas ou trabalhadoras.

AGÊNCIA NACIONAL DOS DIREITOS DA INFÂNCIA - ANDI REGIÃO DE ATUAÇÃO NO BRASIL DISTRITO FEDERAL, MS, AM, BA, PE, RN, SE, MA, MG. NA AMÉRICA LATINA ARGENTINA, BOLÍVIA, COLÔMBIA, COSTA RICA, GUATEMALA, NICARÁGUA, PARAGUAI E VENEZUELA TIPO DE INSTITUIÇÃO ASSOCIAÇÃO CIVIL DE DIREITO PRIVADO, SEM FINS LUCRATIVOS PROPOSTA Contribuir para a construção, nos meios de comunicação, de uma cultura que priorize a promoção e a defesa dos direitos da criança, do adolescente e do jovem JOVENS ATENDIDOS A ANDI ATUA PARA QUE SEJA APERFEIÇOADA A COBERTURA DA MÍDIA SOBRE OS ASSUNTOS RELACIONADOS A TODOS OS JOVENS APOIO ÓRGÃOS DA ONU, COMO A UNESCO E A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT); GOVERNO FEDERAL E ESTATAIS, COMO A PETROBRAS; ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS, COMO KELLOG’S, AVINA (SUÍÇA) E SAVE THE CHILDREN, E NACIONAIS, COMO INSTITUTO AYRTON SENNA, ETHOS E INSTITUTO VOTORATIM CONTATO SDS Edifício Boulevard Center, Bloco A, Sala 101 – 70391-900 – Brasília (DF) – www.andi.org.br

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PROJETO DE VIDA, UM PÔSTER DE RUA Uma das vertentes da arte de rua contemporânea, o pôster ou cartaz, é uma evolução do grafite e por isso chamado pósgrafite. Em vez de pintado diretamente na parede, geralmente é produzido com serigrafia sobre folha de jornal, depois fotolitado e impresso para ser colado onde for possível. O pôster pode obter parte de seu efeito pela multiplicação, e seu objetivo é introduzir a expressão artística nas frestas da cidade, disputando lugar nas ruas com as mensagens publicitárias. Desenhista desde menino e “colando” desde 2000, Haroldo Neto, 24 anos, o autor desse pôster, é um dos integrantes do SHN, trio de artistas urbanos paulistas formado ainda por Eduardo Saretta e Daniel Cucatti. Recém-formado em arquitetura, Haroldo trabalha em Americana (SP) e é vocalista da banda de rock Margüebes. Sobre o pôster feito para Onda Jovem, ele diz: “A idéia é enfrentar o mundo, conhecendo como ele é, sempre atrás de seus projetos e desejos, com responsabilidade e autoconfiança”. Seu projeto de vida: “Conciliar o trabalho e a arte. Com meu trabalho eu financio a minha arte”.


ONDA JOVEM

O Instituto Votorantim apóia essa causa.

PROJETO DE VIDA número 1 – março 2005 ano 1 – número 1 – março 2005

E quer ver muitos jovens fazendo sucesso na capa.

PROJETO DE VIDA Como os jovens brasileiros constroem no presente suas perspectivas de futuro


Onda Jovem #1