Outras Impressões

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OUTRAS

O Ceará que o olhar do colonizador não vê FEV. 2022 | VOL. 09 Lente. Espelho. Reflete. | Foto por Luiz Freire

OUTROS RETRATOS A fotografia periférica que desconstrói estereotipos em Fortaleza

ENTREVISTA Sy Gomes: “Falo de vida travesti, mas é da vida, não de morte”

JENIPAPO-KANINDÉ Povo pioneiro na luta da mulher indígena e de jovens LGBTQIA+


REPÓRTERES Ana Luiza Serrão Cínthia Rabelo Gabriela Viana Vitória Queiroz EDITORES Bemfica de Oliva Clarice Nascimento William Barros EDITORES DE ARTE Assis Júnior Bemfica de Oliva Eduardo Silva ARTE FINALISTA Eduardo Silva SUPERVISORA ORIENTADORA Isabel Andrade

Editorial

Capa: Outros Retratos


Entrevista: Quetione-Sy

Pretos Classificados

Afronegócio: Banca das pretas: mulheres constroem negócios com as próprias mãos

Cultura Indígena: Quando elas lideram

Cura e Reza: Do milho à mandioca: a comida que alimenta o espírito

Artigo: Despudor Indigena

Resenha: Um filme para não tirar da cabeça


JORNALISMO À MARGEM

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argem é um verbete com muitas aplicações possíveis. O dicionário diz que é o “espaço situado no contorno externo imediato de algo”. Diz ainda que é como chamam o espaço em branco nos quatro lados de uma página escrita, como esta que você está lendo. De todas, essa talvez seja a acepção mais presente no cotidiano dos jornalistas. Mas não é a única e tampouco a principal. Basta lembrar que o mundo também tem suas margens. Essas, no entanto, nunca estão vazias, não são páginas em branco, e guardam inúmeras histórias nelas escritas. Só que nem todo jornalista é capaz de ler o que está à margem. Para a maioria de nós, vale mais o comodismo de manter o olhar voltado ao que está no centro desde que o mundo é mundo. Outros, por sua vez, lêem as margens por alto. Displicentes, confundem palavras e repassam ao leitor histórias com graves erros de interpretação. A correção só acontece quando a margem invade o centro, toma a caneta em suas mãos, redige e lê em voz alta a sua versão - nunca ouvida - de uma velha história. “Margem”, para o cearense, é “beira”, “beirinha”, “beirada”. É de quem vive “na

beirada” que falamos nesta edição da Revista Impressões, produto do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará. Com nosso olhar voltado para as margens, descortinamos aqui as Outras Impressões. Descortinamos o Ceará que o olhar do colonizador não vê. Assim, a periferia de Fortaleza nos mostra que não quer mais ser pintada com o sangue que estampa as páginas policiais. Mulheres pretas nos dizem que, se no mercado formal, as relegam ao desemprego, elas empreendem e “botam banca”. Da aldeia Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz, vêm exemplos de protagonismo feminino e acolhimento LGBTQIA+. E num terreiro de candomblé, aprendemos que a comida também pode alimentar o espírito. Nesse passeio pelas margens, entre um mergulho e outro, você, que nos lê, recebe o convite de contemplar belas imagens, prosear com uma jovem artista cheia de questionamentos, avistar a Iracema de José de Alencar por outro ângulo, e refletir sobre um filme cearense que não sairá da sua cabeça. Ao final do trajeto, perceberá que toda margem pode ser centro, só depende do ponto de vista.

BOA VIAGEM!


Lente. Espelho. Reflete. | Foto por Luiz Freire

C APA

Outros Retratos


Fotógrafos da periferia de Fortaleza usam seu trabalho para desconstruir os estereótipos de suas origens

Nem Tão Passageira | Foto por Luiz Freire

TEXTO Vitoria Queiroz EDIÇÃO William Barros DESIGN Eduardo Silva

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Um Novo Horizonte | Foto por Luiz Freire

ual a imagem da periferia? A resposta para esta pergunta está em quem a vê. Fotógrafos de comunidades periféricas de Fortaleza têm utilizado os seus olhares como ferramenta de visibilidade para esses espaços, muitas vezes pensados a partir da violência e da pobreza. No lugar dessa visão colonizadora, ganham destaque sorrisos, cores e histórias. Na Barra do Ceará, a falta de saneamento básico forma poças d’água pelas ruas. O fotógrafo e artista visual Luiz

Freire, morador do bairro, olha para o chão e vê refletidas na água, cenas do cotidiano do lugar onde mora. As imagens distorcidas mostram pessoas caminhando em direção ao trabalho e crianças brincando. Luiz aponta a câmera de seu celular e começa a fotografá-las. Foi deste gesto poético que nasceu a série fotográfica “Não estou só de passagem”, um conjunto de imagens que pretende revelar a vida na periferia de Fortaleza a partir do olhar de quem vive nela.

A forma de olhar para ela que não seja esse formato padrão e tradicional. Tentar misturar um cenário de figuras: a presença humana com esses elementos que compõem a falta desse saneamento, seja um resíduo líquido ou um resíduo sólido”, diz Luiz. Com formações pelo Cuca Barra, IFCE e Vila das Artes, o artista visual acredita que a fotografia tem mudado a narrativa de violência construída na Barra do Ceará pela mídia local. Segundo ele, os moradores da periferia podem se tornar agentes culturais de modo a mostrar o seu território com outra perspectiva. “Quando a gente dá um Google e pesquisa Barra do

Ceará a primeira coisa que aparece é violência. Isso é um problema histórico construído pela imprensa. Mas de algum tempo pra cá eu penso que isso tem mudado, seja através da produção de fotografia, seja através de iniciativas da própria comunidade de pensar esse território como um um lugar de acolhimento”, afirma. O estigma de violência também acompanha o bairro Henrique Jorge, comunidade para onde o fotógrafo maranhense Ozeias Araújo se mudou em 2009. Em seu trabalho, o estereótipo abre espaço para memórias de um dia feliz com os amigos, de uma tarde de beleza na laje e do contemplar de um entardecer.


“Só o que tem é fotográfo que chega em local para fotografar, mas não procura conhecer a cultura e as pessoas do local” Ozeias Araújo fotógrafo

Real Sem Romantismo | Foto por Ozeias Araújo

Gigante Pela Própria Natureza | Foto por Ozeias Araújo


Ensaio Simplicidade/simples cidade | Fotos por Leo Silva

VOO

C

om o objetivo de tecer considerações sobre os rótulos que acompanham as periferias, os fotógrafos Leo Silva e Kah Araújo e a artista visual Nágila Gonçalves idealizaram o Carcará Foto Conferência. O projeto, que surgiu em agosto de 2020 para contemplar o mês da fotografia, teve como propósito neste ano debater a respeito das imagens periféricas e anticoloniais. A ave característica do Nordeste foi escolhida pelo seu olhar aguçado, tal qual como o exigido do fotógrafo que precisa estar sempre atento para registrar as melhor

narrativas. “Voar no sentido de levar essas fotografias para outros espaços. É massa a gente está fotografando na periferia, mostrando o pessoal da periferia, mostrando que esses espaços existem” Natural da comunidade Santa Filomena, no Jangurussu, o fotógrafo afirma que há um jogo de interesses por parte daqueles de fora da periferia que a visitam para registrá-la. Segundo ele, as pessoas que não são da comunidade já chegam a esses locais com uma ideia de violência estabelecida, o que dificulta a visualização de outros cenários. “Por exemplo, os fotógrafos que vão à periferia do Rio de Janeiro para fotografar a

questão policial, muitas vezes ganham prêmios com essas fotografias. Nós, fotógrafos que estamos nesses espaços, estamos pouco nos lixando para essa questão da polícia. A gente entende que existem outras histórias mais interessantes”, afirma. O desejo de retratar essas histórias está presente desde o seu primeiro trabalho: “Simples Cidade - Simplicidade”, que mostra os rostos, os olhares e as memórias pouco contadas dos moradores do Jangurussu. As narrativas do bairro também ganharam ênfase no documentário “Uma História de Amor, Esperança e Fé”, dirigido por Leo Silva, sobre

o projeto social Meninos de Deus. A iniciativa foi criada pelo ex-jogador e morador do Santa Filomena Paulo Uchôa para resgatar crianças e jovens da violência. “Por que eu focaria em uma questão degradante quando eu posso fotografar e contar a história do meu vizinho que teve um papel importante para a comunidade? Quando eu levo isso para outros espaços as pessoas começam a ver como nas periferias existem histórias fantásticas. Existe a violência, mas a gente não pode deixar se atravessar por isso”, pontua.


A Lágrima e Lama | Foto por Luiz Freire


ENTREVISTA

Questione-Sy Artista visual fala de novo projeto no exterior e critica falta de espaço para pessoas trans em gestão cultural no Ceará Texto William Barros Design Assis Júnior

Sy Gomes conversou com a Impressões no jardim da Livraria Lamarca | Foto por William Barros


S

y Gomes, 22, defende que travestis são como plantas. Começam a vida como duras sementes, embriões daquilo que serão ao brotar. Quando indesejadas, são arrancadas da terra - algumas mal chegam a criar raízes. E fora de seu habitat ideal, morrem. “Quais são os nutrientes que elas precisam para sobreviver? Eu quero aprender com elas”, diz a artista visual cearense. De toda a flora, Sy elege a espécie com a qual mais se identifica: “um baobá gigantesco”. Só mesmo uma árvore tão robusta poderia sustentar em seus galhos, ao mesmo tempo, uma performer, uma produtora cultural, uma cantora e uma compositora. É Sy de “synestesia”, de um só corpo artístico sendo fonte de múltiplas sensações. Como um baobá não passa despercebido, mesmo no jardim da Livraria Lamarca, no bairro Benfica, em Fortaleza, Sy foi abordada por fãs durante esta entrevista. Nesses momentos, a árvore portentosa se mostrou retraída. “Não sei lidar muito bem com esse reconhecimento das pessoas”, admite. O baobá Sy colhe os frutos do sucesso de trabalhos dos últimos três anos. Desde o fim da sua banda, o Projeto Noodles, em 2019, passou a se dedicar mais às artes visuais. Viu a cidade voltar os olhares para o seu “Outdoor Travesti”, em que anunciava: “Procura-sy travestis vivas no estado do Ceará”. De lá para cá, acumula exposições e editais de cultura. Sy levou seu trabalho para o respeitado Salão de Abril e foi curadora de uma exposição no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC) - casa por onde é formada em História. Conquistou espaço na imprensa, mas se diz cansada de ouvir perguntas sobre o genocídio de pessoas LGBTQIAP+. “Meus trabalhos são sobre vida trans, vida travesti, mas são sobre vida, não são sobre morte”, sintetiza. A performer revela ao Impressões que, para sua próxima grande apresentação, terá que deixar o bairro Coaçu, no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza. “Vou performar em Berlim”, diz, animadíssima. Ao longo da entrevista, revê sua trajetória artística, reflete sobre a reação do público aos seus trabalhos e critica a falta de espaço para uma jovem travesti negra na gestão de equipamentos culturais cearenses.


Impressões: Você já se classificou muitas vezes em entrevistas como uma “aficcionada em criar mundos”. Que mundos são esses? Sy: Acho que isso começou com a invenção de nomes para as eras da (banda) Noodles. Cada era tinha suas performatividades específicas. E isso começou a me fazer experimentar outras percepções de mundo mesmo. Enquanto Medusa, eu usava bota, era algo mais punk. Foi uma época

Impressões: Falando em Noodles, li um artigo seu que dá a entender que seu começo nas artes visuais tem relação com o fim da banda. É isso mesmo? Sy: Quando a Noodles acabou, a gente não queria dizer que tinha acabado e por qual motivo tinha acabado. Decidimos não falar. A pergunta que eu fazia era: quando minha banda acabou? Tinha escrito isso em alguns lambes do “Panfletário Sy”. E foi aí que comecei a me intitular Sy e a

sébio. O mergulho na performance me trouxe um pouco de calma. Tanto é, que quando eu voltar pra música, acho que eu vou voltar com essa carga mais calma, e não com uma carga louca. Impressões: O “Outdoor Travesti”, desdobramento do “Panfletário Sy”, é sua obra de maior repercussão. Como foi o processo de construção dele? Sy: Já estava previsto no “Panfletário”.

Sy quis retocar a maquiagem antes de posar para as lentes da Impressões | Foto por William Barros

em que eu escrevia muito sobre o quanto eu tava puta com quem olhava para mim na rua. Essa coisa da Medusa olhar e petrificar. Então, eu tinha essa postura e a vivi por um tempo. Me digo aficcionada mesmo, de viciada, em ficcionalizar as coisas e mudar a mim mesma também.

entender aquilo como uma obra de artes visuais, que eu era uma performer. Depois da banda, fui direto para um projeto com o DJ Perigo, que é outra coisa, outro ritmo. Mas ainda assim, era na noite. Essa época foi massa, mas eu não trocaria atualmente por uma casa no Eu-

Propus ele dentro de um edital da Aldir Blanc e eles financiaram o projeto. A (Ella) Monstra fez as artes, porque eu não tinha nem programa para fazer uma arte de nove metros. Convidei outras pessoas para outras partes, também para distribuir melhor o dinheiro. Uma pessoa fez as


fotos, outra pessoa fez o drone. Mas a maior parte da grana foi para o aluguel do outdoor. Descobri que é muito caro e só dura duas semanas. A gente comprou cinco outdoors. Os locais tinham uma relação de incomodar, por ser muito central, ou de se associar à presença travesti ou trans naquele local. Tinha um próximo a um local onde uma menina tinha sido morta, tinha um no Centro onde sempre tem pista. Queria ter colocado no interior também, mas não deu certo. Foi meu primeiro trabalho de diálogo com a cidade que passou na TV. Foi quando começou o desafio de ter uma imagem mais pública do que eu já tinha. Impressões: E como você recebeu toda a repercussão desse trabalho? Sy: Eu não esperava [a repercussão]. Lembro disso ter me impactado muito. Foram muitos vídeos que recebi, muitas postagens, que às vezes nem falavam que o trabalho era meu. Matérias que saíram muito rápido e não conseguiram falar comigo antes. Tendo que falar com todo mundo, com repórteres e pessoas que não me conheciam mesmo. Foi uma coisa que exigiu muito de mim, tanto que só fui fazer outro trabalho em fevereiro de 2020. Nesse tempo todo, fiquei mal. O outdoor continua sendo um peso bem grande que carrego mesmo. Não só por conta do momento, mas também porque as pessoas se lembram. Impressões: Outro trabalho que fez sucesso foi o “Ioiô não vai votar”, em que você questiona a história dos fortalezenses terem eleito o Bode Ioiô, mas nunca terem eleito uma candidatura trans. Como foi a resposta do público? Sy: Eles ficaram bem confusos, né? Os comentários eram muito loucos. Falavam que não entendiam o trabalho e deslegitimavam. Não diziam que eu tinha maculado o signo da cidade, não defendiam o patrimônio. Questionavam se aquilo era arte ou não. E o que mais pesa são esses comentários do senso comum sobre arte, sobre meu trabalho. Construir uma arte travesti passa por

muitas camadas do desentendimento. A gente não é entendida ou é mal entendida. Mas não me preocupo exatamente com isso, porque meu objetivo não é ser entendida. Meu objetivo é construir esse local de vida, esse local para mim e para as minhas.

Impressões: Você levou uma videoarte para o Salão de Abril, que é um espaço

“Construir uma arte travesti passa por muitas camadas do desentendimento. A gente não é entendida ou é mal entendida. Mas não me preocupo exatamente com isso, porque meu objetivo não é ser entendida. Meu objetivo é construir esse local de vida, esse local para mim e para as minhas” Sy Gomes artista visual

muito nobre para as artes visuais cearenses. Como foi a experiência de ocupar esse local? Sy: Passei de primeira [no edital] e isso levou vários curadores de Fortaleza a olharem para o meu trabalho. Passei a figurar dentro das listas de curadoria de arte contemporânea. Mas eu não entendia por que eu tinha passado, se era uma videoarte tão

simples. A relação com a organização foi problemática. Foram soltando a grana em parcelas. Foi muito chato. Escrevi uma carta para eles, em que dizia que eles tinham falhado nisso, por não perceberem que temos necessidades maiores do que uma pessoa rica que está expondo. Impressões: Recentemente, você esteve do outro lado, como curadora da mostra “Aquilo Acolá”, do Museu de Arte da UFC. Como foi isso? Sy: Foi a primeira curadoria que assinei. Mas tive que fazer a produção toda sozinha. Não vou me colocar no lugar de curadora, porque não me vejo igual a essas pessoas que só assinam listas de artistas. Não estamos no mesmo lugar. As coisas que eu fiz pra essa exposição acontecer não são coisas que um curador da Unifor Plástica faz. Uma travesti, quando faz curadoria, tem que se virar em 400 mil. Esse convite só chega para pessoas negras raramente. Você não pensa em outras pessoas, além de Jane Lima, Jota Mombaça, Musa Mattiuzzi. Quem mais assim? Qual é o universo de pessoas que está produzindo exposição todo ano em museus do Brasil e do mundo? Impressões: E como tem sido essa experiência de viver de arte no Ceará? Sy: É muito foda. Saí de Fortaleza, porque a gente não tava conseguindo pagar o aluguel mais. Vim por causa da bolsa de mil reais do Porto Iracema das Artes. Em algum momento, essa assistência parou. Quando ocorreu o segundo lockdown no estado, entrei de novo nessa tristeza. Tive um trabalho que nem chegou a acontecer. Foi um período bem difícil. Eu e Rodrigo (companheiro de Sy) tivemos que nos virar fazendo bolos.O que nos sustentava era a Larica, a confeitaria que abrimos. Já faz um mês que voltei a morar no Eusébio. A gente foi pra uma casa lá dos meus pais, mas não moramos com eles. Tudo mudou muito. Impressões: Falando em pais, sua mãe é muito presente nas suas redes sociais. Ela


comenta tudo, né? Sy: Minha mãe te pagou pra falar dela? (Risos) Impressões: Fico pensando que ela é uma das suas maiores fãs. Sy: Acho que sim. O Rodrigo também é bem meu fã e meu pai é o mais dedicado a construir minha obra comigo. Minha mãe é muito orgulhosa e aprendeu a amar esse trabalho. Amo minha mãezinha. Não tínhamos uma relação tão boa, de proximidade. Mas depois da minha transição, pós-acolhimento, ela virou a chave junto comigo e viramos amigas. Hoje, tenho uma grande grande amiga e fã. Impressões: Voltando aos seus projetos, uma iniciativa muito importante, da qual você foi co-fundadora, é a “Lookinho”, que promovia essa troca de roupas entre pessoas trans e travestis. Será que além de artista, performer, cantora e tudo mais, dá para incluir algo como “ativista” no seu currículo? Sy: Sim, com certeza. Mas eu nem gosto muito dessa palavra. Acho que ela já foi muito esgotada pela história, assim como militante. Acho que eu sou uma uma pessoa que deseja criar essa floresta, esses espaços de proteção e de coletividade, que deseja gerir melhor os centros culturais do Ceará, junto com as bichas que fazem aquilo. Mas o que a gente está se encaminhando é para o contrário disso, com a cultura no Ceará sendo cada vez mais gerida por iniciativa privada. Impressões: E quais são suas próximas aventuras? O que está aprontando? Sy: Tem uma aventura acadêmica. Eu me inscrevi agora pro mestrado em Artes. Vamos ver! Vai sair aí o resultado em breve. Mas a minha aventura de vida mesmo vai ser Berlim, para onde eu vou em março de 2022. Ao longo de quase duas horas de conversa, Sy não escondeu a empolgação com novo projetos | Foto por William Barros

Impressões: Que incrível! O que vai fazer lá? Sy: Vou performar em Berlim. Lá tem uma travesti que saiu do Brasil há quinze anos. O nome dela é Sani Est. Ela começou a tra-


Terra Prometida, 2020 | Foto por Linga Acácio

Ioiô Não Vai Votar, 2021 | Foto por Jorge Silvestre

balhar como educadora do Schwules Museum, que é o Museu Gay, o Museu Queer. O museu já existe há 45 anos. Muito foda, né? A Sani é co-curadora de uma exposição, que é a “Transmigração”. A proposta é questionar o que travestis, pessoas trans e pessoas não binárias podem fazer por Berlim. Algumas pessoas são convidadas a performar e deixar um vestígio na exposição. E eu vou fazer isso. Já estou com ideias, mas também não vou contar. (Risos) Impressões: Para finalizar, fale um pouco de Sy…

Outdoor Travesti, 2020 | Foto por Muriel Cruz

Como Fazer Essa Semente Brotar, 2020 | Foto por Matheus Dias

“Amo muito ser quem eu sou. Digo que eu sou um artista pirata, que habita a cidade, meio radical, que vai mexendo com as coisas. Falo sobre vida trans, vida travesti, mas é sobre vida, não é sobre morte” Sy Gomes artista visual


A FR ONE GÓC IO

Colagem Afroempreendedoras por Eduardo Silva | Fotos por Cínthia Rabelo, Tainá Cavalcante e do acervo pessoal do Estúdio de Beleza Pró Afro


Banca das pretas: mulheres constroem negócios com as próprias mãos Sem perspectiva no trabalho formal, mulheres pretas do Ceará criam sozinha alternativas para driblar desemprego TEXTO Cínthia Rabelo EDIÇÃO Clarice Nascimento DESIGN Eduardo Silva

N

atália Arruda começou a empreender para fugir da fome e do desespero do desemprego. Durante o período de isolamento social, decidiu investir ainda mais no seu próprio salão de beleza e impulsionar um sonho. “Comecei a atender na sala da minha casa, e então a gente foi crescendo e eu encontrei uma sócia. Um pouco depois, [durante a pandemia da COVID-19] conseguimos um espaço físico, onde se encontra a PróAfro Collab (salão de beleza). Como a gente não podia pagar pedreiro, pintor, eletricista, encanador, a gente meteu as caras no YouTube e nas vivências, e resolveu fazer por conta própria. Eu reformei o prédio todo com as minhas mãos e isso não é exagero”. Hoje, o estúdio de beleza (@ proafrocollab) conta com diversos serviços como tatuagem, design de sobrancelhas,

tratamento e corte de cabelo. A jovem é mais uma afroempreendedora no Ceará. Esse tipo de negócio tem como grande diferencial o seu prefixo “afro”; o termo explicita que a questão racial é parte essencial desse trabalho. A luta contra o racismo, a promoção da identidade negra e o estímulo ao afro consumo são algumas das bandeiras levantadas por eles. No Ceará, 5,9% da população se declara preta e outros 66,2% de cor parda. Em termos econômicos, não há pesquisas sobre o perfil econômico dessa parcela de cearenses. A última pesquisa do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), realizada em 2019, aponta que 59,8% dos pretos estão em trabalhos informais. Ela também aponta que apenas 20,2% dos pretos ou pardos entre 18 e 24 anos frequentam o ensino superior

no Estado. A falta de oportunidades e a baixa escolaridade explica porque a informalidade — e consequentemente o empreendedorismo — é a saída para estas pessoas. O aumento do desemprego em decorrência da pandemia também empurrou muitos cearenses para essa modalidade de trabalho. De acordo com os dados do Portal do Empreendedor, 54 mil pessoas abriram um registro de microempreendedor individual (MEI) no Ceará no ano de 2020. No país, o número de brasileiros desempregados chegou a 13,9 milhões no final de 2020 e atingiu principalmente a população negra, que representava 72,9% da taxa de desocupados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por ano, o afroempreende-

dorismo movimenta cerca de R$ 1,73 trilhão no país. No entanto, esses trabalhadores precisam se esforçar muito mais para atingir maiores patamares, como um retorno econômico lucrativo; por exemplo, apenas 15,8% possuem renda familiar superior a seis salários mínimos. A valorização desse ramo econômico é favorável para a economia do país, ainda que negligenciado pelo Estado.


Brunna mostra produtos da sua marca | Foto por Tainá Cavalcante

PODER PÚBLICO

A

pesar de todos esses números, o que retrata o trabalho dessas mulheres é a solidão e a falta de incentivos. O Estado tem, desde 2010, a Coordenadoria Especial de Política Públicas para a Promoção da Igualdade Racial (CEPPIR), vinculada à Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS). Com função de formular e implementar políticas públicas e de diretrizes para a promoção da igualdade racial, a CEPIR deveria surgir como um espaço de referência sobre o povo preto do Ceará. No entanto, o Governo do Estado e a Prefeitura de

Fortaleza não possuem estudos sobre a realidade dos empreendedores negros, nem mesmo organizam ações voltadas à esse viés. A reportagem solicitou dados no Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE), Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SEDET) e da Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) e, em todos os casos, se repete a ausência de estudos específicos sobre as condições de participação de pessoas negras no mercado de trabalho. Para Martir Silva, membro do Movimento Negro Unificado (MMU) e Coordenadora da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial

(CEPPIR), o debate racial nos ambientes institucionais ainda é muito novo. “A igualdade racial chega no país como ambiente institucional só em 2003, porque foi criada a Secretaria Especial. Ou seja, o identificador começou a surgir e tem apenas 18 anos, é muito recente e [isso explica a ausência de dados, porém não justifica e precisamos mudar]”, afirma. Uma das poucas alternativas para estimular o empreendedorismo feminino é o projeto municipal “Nossas Guerreiras”. Sem recorte de raça, a iniciativa é realizada em parceria com o Governo do Estado e pretende facilitar o acesso a crédito orientado, sem cobrança de juros ou ta xas, para mulheres de Fortale-

za que queiram implantar ou expandir pequenos negócios na cidade, além de dar capacitação e consultorias gerenciais. Porém, beneficiárias de projetos anteriores ainda estão sem receber os recursos prometidos. Brunna Angelica Evarista, proprietária do e-commerce de cosméticos naturais Meu Eco (@meu. eco_), passou, no ano de 2020, em uma seletiva do projeto da prefeitura “Mulher Empreendedora” que prometia ajudá-la a impulsionar sua empresa. O que Brunna não imaginava era tanta demora na liberação desse recurso; infelizmente, até o presente momento, ela não tem uma previsão de quando lhe será entregue o benefício.


Feminino, solitário e ligado à indústria dos cuidados: Esse é o cenário do afroempreendedorismo no Brasil

Crescente nos últimos anos, a forma de negócios ligada ao povo preto é a principal estratégica da população para enfrentar a vulnerabilidade socioeconômica. Pesquisas nacionais apontam qual o perfil dessa atividade laboral. Confira no infográfico o cenário do afroempreendedorismo no Brasil:

40%

dos adultos negros são empreendedores.

61,5%

são mulheres cis e 36,4% são homens cis. 68,25% têm entre 25 e 44 anos. 61,9% possuem ensino superior completo ou mais. 63,2% são “eupreendedores” - seus negócios têm apenas 1 funcionário. Apenas 0,1% das empresas possuem mais de 51 funcionários. Há uma diferença de renda de 40% entre negros e brancos.

10 principais indústrias do afroempreendedorismo: Saúde e estética (14,3%) E-commerce (10,4%) Varejo (10,4%) Marketing e publicidade (8,4%) Consultoria e treinamentos (8,3%) Ensino e educação (7,3%) Alimentação (7%) Mídia e comunicação (6,7%) Financeiro e jurídico (5,6%) Eventos (5,4%)

Brunna é formada em Química, especialista em Fitoterapia e mestre em Tecnologias Sustentáveis, veio do interior do estado para Fortaleza em busca de maiores e melhores chances de estudo e emprego na sua área de formação. Porém foi frustrada com a falta de oportunidades até mesmo na cidade grande.

“Comecei a empreender porque mesmo com um currículo muito bom e com ótimas referências, eu não consegui trabalhar como professora de química. Mandei vários currículos e nada. Então usei meu conhecimento para mudar minha história” Brunna Angelica empreendedora

A jovem criou sua empresa em 2019, superando obstáculos importantes como a falta de apoio financeiro. Mas apesar das enormes dificuldades vivenciadas por uma mulher preta no empreendedorismo, ela conseguiu prosperar no seu negócio e hoje, além de fazer a diferença com seus produtos sustentáveis, também consegue suprir suas necessidades financeiras com a renda da sua empresa.


ELAS POR ELAS

E

nquanto o estado é omisso nas políticas de equidade racial, as mulheres pretas lutam, sozinhas, para se erguer e ajudar uma as outras. É o que Natália tenta fazer no ProAfro Collab. Atualmente, o salão promove cursos de trancismo para quem deseja iniciar uma trajetória profissional nessa área. Para ela, essa medida é uma forma de ajudar mulheres que, como ela, não tiveram amparo social. “Acima de tudo, eu quero deixar oportunidades para as próximas gerações de pretos. Eu quero que a Pró Afro escancare portas e janelas de forma que essa cidade nunca viu. Quero gerar oportunidades que talvez fiquem até pequenas demais pra essa cidade. Eu quero que as mulheres pretas tenham tudo que eu não tive”, desabafa. Já Laíssa Limeira, 26, encontrou no cooperativismo uma forma de ajudar outras mulheres pretas do seu bairro, o Grande Lagamar, a complementarem a renda pessoal. Laíssa é voluntária da FavelAfro (@favelafro), uma cooperativa de costureiras assessorada pela Fundação Marcos de Bruin, instituição fundada em 1992 e que atua pelo desenvolvimento econômico do bairro. Lá, trabalham seis mulheres: Walnice de Souza, Dilma e Raimunda Oliveira, ambas aposentadas, ficam na produção, costurando os produtos. As outras três, Jaqueline Silva, Thayane Dantas e a própria Laíssa, ficam na administração e no comando das redes sociais. “Inicialmente a gente começou a produzir bolsas com o material reciclado que a

Colagem Afroempreendedoras 2 por Eduardo Silva | Fotos por Cínthia Rabelo, Tainá Cavalcante e do acervo pessoal do Estúdio de Beleza Pró Afro

gente tinha disponível: pernas de calças jeans. Depois começaram a chegar mais ajuda, as pessoas começaram a doar algum tipo de material e a gente começou a expandir e confeccionar outros tipos de produtos, como estojos, mochilas e ecobags”, comenta Laíssa. Durante a pandemia, as mulheres do FavelAfro ganharam um edital da prefeitura de confecção de máscaras de pano. Foram feitas mais ou menos 2.000 máscaras. Já no final do ano de 2021, estavam confeccionando absorventes de pano para distribuir na comunidade, fruto de outro edital, dessa vez da Nossa Cara — Mandata coletiva de mulheres pretas eleitas à vereança de Fortaleza pelo PSOL. O dinheiro da venda dos produtos e do lucro dos editais é distribuído entre as costureiras do projeto, moradoras do Lagamar e é usado para complementar a renda da casa. A maioria dos produtos são feitos com material doado e reciclado e são vendidos pelo instagram do projeto (@ favelafro) ou no espaço físico, localizado na Fundação Marcos de Bruin, no Grande Lagamar. Laissa contou que tentou expandir a venda para feiras, como a feira-negra, mas diz que o espaço físico é muito limitado. “Também tentei outras feiras, mas nunca deu certo. Teve uma tentativa bem frustrante: entrei em contato com uma feira, de pessoas brancas, lá na Aldeota, para a gente começar a expor por lá. Mas senti um enorme preconceito vindo dessas pessoas, dificultaram muito a participação e eu desisti”, desabafou Laíssa.


PRETOS CLASSIFICADOS Inspirada em iniciativas como Instagram “Profissionais Negros Ceará” (@profissionaisnegrosce), a revista Impressões publica uma seção dedicada à divulgação de serviços prestados por pessoas pretas. Confira abaixo os Pretos Classificados! MASSOTERAPIA

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C ULTU RA IN DÍGEN A

Quando elas lideram Aldeia Jenipapo-Kanindé é pioneira no fortalecimento da mulher indígena e no acolhimento da juventude LGBTQIA+ TEXTO Ana Luiza Serrão EDIÇÃO Clarice Nascimento DESIGN Eduardo Silva

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a terra da Lagoa Encantada, no município cearense de Aquiraz, a 30 km de Fortaleza, a transição entre o mar e o sertão abriga a aldeia indígena Jenipapo-Kanindé, que conta com cerca de 120 famílias distribuídas em 2 mil hectares. Em meio às dunas que circundam o Morro do Urubu, o cenário de natureza se une com naturalidade às casas, onde tradições e vivências transmitem o legado cultural do grupo. O povoado possui um diferencial entre as outras comunidades indígenas: a sua liderança se dá por meio de uma tríade de caciques mulheres; uma decisão pioneira no Brasil, que teve início na dedicação, no conhecimento e na força da Cacique Pequena, 77 anos, intitulada doutora da mata. Segundo a cientista social Raquel da Silva Alves, 23 anos, indígena, neta da Cacique Pequena e uma das representantes da juventude da aldeia, os territórios indígenas têm tido um maior protagonismo feminino ao longo dos anos. Raquel explica que a comunidade Jenipapo-Kanindé foi a primeira do Brasil a escolher uma cacique mulher, em 1995, a qual

decidiu compartilhar também o cacicado com duas de suas filhas: Cacique Irê e Cacique Jurê. A escolha veio há mais de dez anos, em um momento crucial, pois, na época, a saúde da matriarca estava debilitada e, assim, ela fez questão de manter o futuro legado feminino. “O protagonismo da minha avó, significou muito para outras mulheres. O legado dela não ficou só no território indígena, mas se espalhou de forma muito positiva para outros territórios, porque, quando a Cacica Pequena recebeu o encargo de cacique, foi um período em que as mulheres não tinham esse apoio das própriasindígenas. Nesse período, a figura masculina também não aceitava que mulheres tivessem esse poder, essa participação política dentro do movimento indígena. E, depois que a Cacique Pequena entrou, a gente percebeu as mulheres participando mesmo, tanto dentro como fora dos seus territórios, representando seu povo, o que é muito importante”, detalha a jovem. Apesar do ineditismo do cacicado feminino, a cientista social destaca que as mulheres


Raquel Alves

indígena/cientista social

“Eu vivi sem aprender a ler essa temporada todinha. Eu fundei esse lugar sem saber ler, só com a força e a coragem divina e com a sabedoria que Deus nos dava. Depois que levantou-se o colégio aqui é que eu fui estudar. Estudei quatro anos, me formei e agradeci muito a Deus por eu ter sido uma mulher forte, sábia, sem ter letra no papel e nem na escrita, ter uma sabedoria vindo de cima”.

Cacique Pequena liderança indígena

Raquel da Silva Alves | Foto por Ana Luiza Serrão

“Quando eu falava que o meu território era liderado por mulheres, se espantavam. Hoje é natural… quem indicou que deveria ter uma mulher como representante foi o próprio povo [Jenipapo-Kanindé], não houve estranhamento interno”

|Cacique Pequena | Foto por Ana Luiza Serrão.

indígenas sempre estiveram presentes no movimento, no entanto, muitas vezes, essas participações ficavam invisibilizadas tanto no meio indígena quanto nos territórios não indígenas. “Nós mulheres sempre fizemos parte do movimento. Não para fora, por um tempo era mais dentro da aldeia, mas nós sempre seguramos a barra dentro do território quando os caciques homens precisavam sair. Por muito tempo, a nossa participação foi invisibilizada. Por isso, hoje a gente luta para que essa visão de invisibilidade possa sair”, diz Alves. Já em relação aos outros grupos indígenas, comandados majoritariamente por homens, Raquel explana que, quando a Cacique Pequena assumiu o cargo, ela não foi aceita de imediato, tendo que passar por um ritual para que esses homens a considerassem forte o suficiente para ocupar a posição de liderança da aldeia. Esse papel exige desde representar o povo nas lutas até a busca de direitos para a comunidade. É a voz maior que dita as normas. “Se tem algo relacionado à comunidade e que precisa ser resolvido, ela que dá a palavra final, ela escuta a comunidade e dá o posicionamento dela. O conhecimento que ela tem nem uma pessoa com pós-doutorado vai ter. É muito amplo… o saber dela é mais forte”. Cacique Pequena pontua que, mesmo quando não sabia ler, conseguiu diversas conquistas para a comunidade Jenipapo-Kanindé, como posto de saúde, escola, Centro de Referência da Assistência Social (Cras), pousada e museu.


Iuri Alves Gomes |Foto por Ana Luiza Serrão

RESPEITO E ACEITAÇÃO

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este cenário, o vanguardismo Jenipapo-Kanindé acontece também no meio LGBTQIA+. Para Iuri Alves Gomes, 23 anos, indígena, neto da Cacique Pequena e estudante de biologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a homosexualidade não é um problema para a comunidade. “Tem gays, lésbicas e bissexuais. Dentro da juventude, a gente criou um campo para falar sobre isso para fortalecer mais ainda essa questão da homosseualidade dentro da aldeia. A gente não tem nenhuma interferência, consegue participar e estar em todos os espaços”, explica. “Eu não tive dificuldades, foi muito natural, o espaço onde eu estou, a minha família… a vó em si era uma das pessoas que eu tinha muito medo de contar, mas ela aceitou super bem. Não tive nenhum problema em relação a isso. E eu me senti acolhido. É uma sensação de perten-

cimento quando você se assume homossexual. Eu continuei pertencendo ao meu povo. Eu não fui expulso da comunidade por ser gay, continuei dançando o meu toré, pedindo forças aos encantados para continuar na luta. Isso foi muito importante. Acrescentou bastante na minha vida”, prossegue Iuri. No entanto, o jovem comenta que a questão ainda é um tabu em muitas outras comunidades indígenas. “Teve uma comunidade que a gente visitou que eu fiquei pensando ‘como assim não tem LGBTQIA+ aqui?’, a gente não sentia a presença deles lá”. No meio não indígena, Iuri diz que nunca sofreu preconceito por ser homossexual, mas sim por ser indígena. “Não sofri preconceito por ser homossexual, mas mais por ser indígena, por ser branco, por usar óculos e ter aparelho. No campo universitário, a gente sofria bastante em relação a isso”, explica. “É esse estereótipo que eles [não indígenas] nos dão. Um simples óculos já é muita coisa para eles. Um simples celular que eu uso já é muita

coisa. ‘Você não é indígena porque tem celular, tem aparelho’. Uma vez eu estava em um ensaio fotográfico na aldeia, e aí o cara chegou e disse que quem tinha aparelho não precisava sorrir. ‘Pode ficar sério, porque índio não usa aparelho’. Tenho isso na minha cabeça até hoje… e é porque é um cara que trabalha com o movimento indígena”, descreve o estudante. A cientista social Raquel da Silva Alves explica que a questão da decolonialidade está muito ligada a isso. “A gente tem que construir e se reconstruir dentro desse processo. Para que haja respeito, tem que haver respeito dentro do espaço familiar. As pessoas precisam crescer entendendo que aquele espaço, aquela cultura precisa ser respeitada. O que a gente percebe no nosso país e na nossa sociedade é que a cultura indígena não é ensinada como um espaço que deveria ser respeitado. Na escola, começa o desrespeito maior ainda. Nossa cultura é tida como folclorizada. Nem procuram entender o significado de um cocar, de uma

pintura. Fazem o cocar com E.V.A [tipo de material sintético], saias com E.V.A e penas artificiais. Fantasias. Isso é um desrespeito”. Para combater o preconceito e fortalecer o conhecimento sobre as práticas indígenas, a comunidade Jenipapo-Kanindé tem realizado atividades de conscientização nas escolas e entre os próprios jovens indígenas, a fim de que eles mantenham a tradição futuramente, sentindo-se livres e fortes para serem o que são sem medo ou sofrimento. Indígenas. Mulheres. Gays. Lésbicas. Bissexuais. Heterossexuais. E mais. Afinal, a pluralidade de culturas e vivências sempre existiu no Brasil, e esse povo, que vive próximo à Lagoa Encantada, respeita e vivencia isso.


OPINIÃO

Despudor indígena Objetificação do corpo feminino e o tabu da sexualidade chegaram às aldeias indígenas junto com os colonizadores TEXTO Clarice Nascimento DESIGN Assis Júnior

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or muitos anos, o romance Iracema foi considerado a “Lenda do Ceará”. A história fantasiosa sobre o surgimento do primeiro cearense, Moacir, usa da poesia para embelezar a relação entre os indígenas e os colonizadores. A obra do romantismo indianista descreve a sexualidade indígena pelo olhar do branco. Iracema é filha do velho pajé Araquém e guardiã do segredo da jurema. Ela se apaixona pelo colonizador português Martim Soares Moreno. O caso dos dois é um amor proibido. A calorosa paixão faz a índia pôr de lado sua cultura e crenças, rompendo com o povo Tabajara, ao violar o segredo da jurema. Já Martim é descrito como um bom colonizador, pacífico e encantador. Sem interesses obscuros, ele é sonhador e romântico. “Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta.” Para o antropólogo Estevão Rafael Fernandes, o processo de colonização apagou o conhecimento dos povos indígenas sobre suas sexualidades. Foram os colonizadores que trouxeram o tabu e a vergonha para as tribos. A nudez dos indígenas era vista como vulgar e fonte de pecado pelos europeus. Esse conceito de corpo sexual veio da cultura europeia, assim como liberdade sexual masculina e a proibição do corpo feminino. É dessa forma também que José de Alencar descreve Iracema. Sua virgindade é colocada como sinal de poder e proteção dentro da tribo, isso que a faz guardiã. É seu dever servir aos Tabajaras nos rituais da lua nova. Esse corpo virgem cheio de

Arikba, a mulher de Makunaimî |Arte por Jaider Esbell

tabus e preconceitos é descrito a partir da visão colonizada de Alencar. Junto da antropóloga Barbara Arisi, Estevão aponta que o preconceito contra outras sexualidades desembarcou nas Américas com os europeus. Há indícios de uma diversidade de práticas sexuais no Brasil muito antes da colonização. A homossexualidade, transgeneridade e o não-binarismo já existiam por aqui. Foi então que os europeus utilizaram-se da catequização

para converter os indígenas. Sob os padrões cristãos, sua sexualidade foi sendo moldada e o pudor foi naturalizado. No entanto, engana-se quem pensa que a sexualidade livre dos indígenas deve ser vista de forma erótica. Suas práticas sexuais são subjetivas e afetuosas, com base no amor e no prazer. Indo ao contrário do que foi feito no passado, deixemos que eles falem sobre seus desejos.


C U RA E R EZ A

Do milho à mandioca: a comida que alimenta o espírito Tanto para o candomblé, como para cosmologia indígena, a comida é um elemento sagrado capaz de conectar pessoas TEXTO Gabriela Viana EDIÇÃO Bemfica de Oliva DESIGN Assis Júnior

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m um terreiro de candomblé, não é qualquer pessoa que pode preparar e manusear o alimento. A Yabassé, “mãe da cozinha”, é a pessoa com iniciação devida para preparar e transformar os insumos extraídos da natureza em comida. Seu poder religioso é muito grande dentro da comunidade, afinal ela é quem coordena todos os momentos da cozinha, tanto o que acontece num dia de festa num barracão, por exemplo, quanto aquilo que se dá secretamente dentro do quarto de santo. Assim, no terreiro, a fé se materializa na dança, no canto, mas também no dendê, nos grãos, nas frutas e em diversos outros alimentos. Mãe Kelma de Yemojá, integrante do Coletivo Ayoká, especialista em cultura africana e afro-brasileira e mestra em educação brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que no candomblé tudo é sagrado, do ato de plantar ao ato de comer. Assim, nutrir-se do mesmo alimento que um Orixá é

respeitar o corpo, o templo sagrado dado pela natureza. “Quando a gente come, está comungando com o nosso sagrado. As coisas são conectadas. Ao comer uma comida produzida no terreiro, uma comida do Orixá, você está entrando em sintonia com aquela força ancestral, você afirma sua identidade com a ancestralidade africana.” Segundo Mãe Kelma de Yemojá, para as religiões afro-brasileiras é impossível separar a comida da fé. Isso porque é no ato de comer que os que creem entram em comunhão com forças ancestrais e comungam com o sagrado.

“A cozinha é o coração do candomblé. E você não anda sem o coração”

Mãe Kelma Yemojá religiosa

Segundo ela, um erro na cozinha de santo pode comprometer todo o processo de consagração que acontece no terreiro. Assim como o acerto na cozinha pode reforçar o sentido positivo de tudo que vai se suceder ali. “A cozinha, portanto, é o lugar onde tudo acontece, é de onde tudo parte. É da cozinha que sai o axé, a força, a existência consagrada no terreiro”, explica. Em Iorubá, axé significa energia sagrada, a força vital presente naquilo que integra a natureza e que, consequentemente, permite que haja a existência de tudo. É a partir das relações de troca entre os seres que essa fonte de vida permanece pulsante. Entre as religiões de matrizes indígena e africana, uma das formas mais marcantes de se reverenciar e manifestar respeito aos Encantados, às Divindades e aos ancestrais é no ato de retribuir e devolvê-los tudo o que a natureza oferece aos seres deste plano. Assim, ritualizar o preparo e oferecer alimentos é tam-

bém uma forma de respeitar a natureza enquanto útero da Terra, fonte de toda a vida. A comida no prato, na folha, na cuia ou na cumbuca também é sinônimo de resistência, troca, complementaridade e conexão entre as pessoas que consagram essas crenças e tudo que é sagrado.

DAR-RECEBER-RETRIBUIR

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as religiões afro-brasileiras, o sistema de dar-receber-retribuir o alimento compõe um ritual de agradecimento aos ancestrais e de reconhecimento do poder de divindades na concessão de dádivas. “Oferecer comida e bebida é uma prática muito antiga e faz parte do desenvolvimento do pensamento religioso”, é o que explica Patrício Carneiro, mestre em Antropologia e professor na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), de Redenção, no Ceará.


Mãe Kelma prepara o milho e o coco na boca do fogão | Fotos arquivo pessoal Mãe Kelma de Yemojá

Carneiro conta que a tradição e a cultura alimentar foram de suma importância para que as populações africanas, trazidas para as Américas na condição de escravizados durante a diáspora africana, conseguissem resistir. Segundo ele, uma marca muito forte das religiões afro-brasileiras é justamente a preocupação com o outro. “Alimentar o outro. Nutrir o outro. Porque são religiões onde o corpo possui uma importância muito grande, afinal, esse era o único bem que a população sequestrada da sua terra possuía: seus corpos”, explica. Além disso, nessas crenças, os corpos são os templos das divindades. É por meio dos corpos que os seres divinos se juntam às pessoas para se divertir, para dançar, para transmitir mensagem, para trazer sua força e se fazer presente. Assim, manter o corpo nutrido, forte, limpo com banhos especiais e de purificação, pintar-se, enfeitar-se e se cobrir com roupas bonitas e adereços simbólicos são partes essenciais dos ritos.

CONEXÃO ANCESTRAL E COM A NATUREZA

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atheus Tremembé, jovem liderança indígena e pesquisador da cultura alimentar dos Tremembés pontua que, no contexto de tradições cosmológicas indígenas, a relação de um povo com os saberes e sabores, dos costumes e das tradições é repassadas pelos troncos velhos,

ou seja, seus antepassados, desde a antiguidade. Nas festas tradicionais e nos rituais, como a Festa do Murici e do Batiputá, realizada pelo povo Tremembé, a comida é centralidade, porque é nela que o povo encontra conexão com o território sagrado, com os astros, com a terra e com os ancestrais.

“É a partir do ato de se alimentar que o corpo se nutre de forças espirituais e da cura”

Matheus Tremembé indígena/pesquisador

Matheus conta ainda que um dos rituais mais marcantes em sua etnia é o do alimento ancestral, quando cada família do território apresenta uma comida ou prato que era consumido pelo seu antepassado, pelo seu encantado, pelo seu tronco velho. E é justamente no ato de consumir aquilo que a natureza dá, que esse povo se torna guardião do território. Por serem crenças intrinsecamente ligadas às forças da natureza, elas contribuem não só para a saúde espiritual e corporal daqueles que as seguem, mas também para a proteção e vida dos meios naturais e de territórios. “São nos ritos e nas celebrações que fortalecemos, defendemos e resistimos nos nossos territórios. A comida fortalece a nossa relação em defesa dos animais, em defesa das plantas, em defesa das raízes, dos troncos, dos peixes e

por isso ela possibilita essa relação entre as aldeias também. O alimento constrói o sentimento de festa, de celebração”, reforça Matheus Tremembé.

O ATO DE CUIDAR COMO UMA MANIFESTAÇÃO SAGRADA

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yriam Melchior, pesquisadora e professora do departamento de Gastronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) discorre que os povos originários, mais precisamente os indígenas, e seus rituais envolvendo a comida, foram essenciais para a manutenção da natureza e para a tradição alimentar no território nacional. Isso porque, na colonização, europeus recém-chegados ao Brasil enxergavam o espaço natural como um ambiente a ser espoliado, e os indígenas como “primitivos”. Assim, por meio de estudos antropológicos, históricos e de memória social, é possível observar a desvalorização de alimentos, como o milho e a mandioca, pelos colonizadores, que vinculavam essas comidas aos animais e aos escravizados. Por outro lado, os povos originários buscavam práticas que cultivavam tais alimentos e preservavam o espaço em que eram semeados. “Enquanto a lógica do colonizador observa as coisas, a terra e os alimentos segundo uma noção objetificante, quase sempre voltada para exploração e o lucro, as sociedades e comunidades tradicionais dos povos originários acumulam saberes que não destroem a biodiversidade”, finaliza a pesquisadora.


MILHO: O CEREAL SAGRADO QUE CRUZOU O ATLÂNTICO DUAS VEZES

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mbora todas pertençam a uma mesma espécie (Zea mays), são conhecidas mais de 150 variações de milho. Com tamanhos, cores, e sabores distintos, o cereal é cultivado há algo entre 8 e 10 mil anos. Originalmente, o milho é uma variação do teosinto, uma planta que foi domesticada pelos povos mesoamericanos. Sua cultura se expandiu, então, a norte e ao sul do continente. Num primeiro momento, os invasores europeus evitavam o consumo do milho. Eventualmente, porém, a planta foi levada à Europa, junto com a batata. De lá, o cereal seguiu com os colonizadores

para outras regiões, chegando inclusive à África. O milho é chamado, na língua iorubá, de àgbàdó. Ao longo dos séculos, o milho juntou-se a outros alimentos com fins ritualísticos dos diversos cultos que, na diáspora africana no Brasil, viriam a se agrupar no candomblé e na umbanda. Deste modo, o cereal foi ressacralizado: considerado pelos mexicas um presente de Quetzalcóatl. Foi levado à Europa como uma cultura de fácil plantio e retorna a Abya Yala com as populações africanas escravizadas. Suas diferentes variações têm usos distintos: o milho branco (àgbàdó funfun) é

usado em pratos oferecidos, principalmente, para Oxalá e Yemojá; o vermelho (àgbàdó pupa) é servido a Exu, Oxóssi, Logum-Edé e Ogum; o milho-alho (àgbàdó kékeré), de coloração amarela forte, em preparos para Obaluaiyé, Nanã e Oxum; e o milho verde, por fim, oferecido para Oxóssi e Yewá. A depender do caso, as receitas podem ser usadas como oferendas, nos quartos de santo e congás, ou como parte de ebós. Os preparos culinários são feitos usando grãos e espigas do milho. Outras partes, porém, também têm funções. As folhas, por exemplo, podem ser usadas para defumação, e

na lavagem de assentamentos para Exu. Da palha, enrolam-se cigarros que são oferecidos a Zé Pelintra, entidade da umbanda e do catimbó. Do cabelo podem ser feitas oferendas a Oxóssi e Yansã, com pedido de prosperidade, além de ebós de proteção. É comum, também, entre o povo de terreiro, o uso de um amuleto feito com a espiga e a palha do milho, que é pendurado à porta da cozinha. O objetivo é trazer fartura de alimentos à casa e, quando o amuleto estiver secando, deve-se trocá-lo por outro, feito com uma espiga fresca.


MANDIOCA, A RAIZ DE 10 MIL ANOS

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Frutos, grãos e farinhas são indipensáveis em celebrações de diversas etinias indígenas no Brasil | Fotos arquivo pessoal Matheus Tremembé

acaxeira, aipim, maniva, mandioca... Há diversos nomes para se referir à espécie Manihot esculenta. A maior parte dos termos vem de idiomas originários - “maní-oca” e “maní’iwa” remontam a uma história, atribuída à cosmovisão tupi, de uma garota chamada Maní, cujo túmulo teria dado origem ao primeiro pé de mandioca. Estima-se que o cultivo de mandioca tenha começado há cerca de 10 mil anos atrás, com espécimes identificados em toda a extensão do Brasil. Desde então, o plantio disseminou-se por grande parte do território de Abya Yala, com cultivos registrados até o sul do México. Após a invasão européia, a mandioca foi levada a outros locais do mundo. No século XVI, a planta foi levada à África, e de lá chegou também à Ásia - hoje, os maiores produtores mundiais são Nigéria, Tailândia e República Democrática do Congo. Fora da lógica industrial, a mandioca segue como importante traço cultural em inúmeros povos originários. Somente entre as etnias brasileiras, são mais de 40 tipos de preparos com o ingrediente. Versátil, a raiz da mandioca origina receitas tão distintas quanto o beiju, a farinha (que, por si só, tem uma série de variações), a goma de tapioca ou o tucupi. Também merece destaque a maniçoba, cujo principal ingrediente é a maniva (folha de mandioca) cozida. Há, ainda, bebidas feitas de mandioca: o cauim, fermentado, é feito com pedaços de mandioca mastigados, que são colocados por alguns dias em um recipiente fechado e aque-

cido, que resulta em um líquido de teor alcoólico suave. Às pessoas que possam julgar desagradável beber algo que foi mastigado por outra pessoa, cabe lembrar que uma grande variedade de vinhos é feita de uvas pisoteadas. A tiquira, por sua vez, é um destilado que começa com a fermentação de beijus. A massa resultante desse processo é destilada e, por fim, cozida com folhas de tangerina, resultando em uma bebida com tom azulado ou arroxeado. A tiquira, cuja produção segue majoritariamente artesanal até hoje, é chamada pelos fabricantes de “a verdadeira cachaça brasileira”, uma vez que a aguardente de cana-de-açúcar chegou ao País com os portugueses. No âmbito contra-hegemônico, a mandioca tem duas finalidades de suma importância. Embora não seja um alimento com uso ritual muito difundido, as celebrações de colheita da raiz constituem importante momento de confraternização nos grupos étnicos que seguem com seu cultivo. Para além disso, como o consumo de derivados da mandioca segue altamente popular em todos os estratos sociais, e os preparos mais tradicionais são elemento de reconciliação com a cultura ancestral.


RESE NH A

Saulo Chuvisco ocupa a escola e passa a denunciar descasos | Foto Divulgação

Um filme para não tirar da cabeça “Cabeça de Nêgo” renova cinema cearense e reflete fielmente o espírito de seu tempo Texto William Barrosos Design Assis Júnior

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drama “Cabeça de Nêgo”, que Déo Cardoso levou aos cinemas e ao streaming em 2021, é um filme do Ceará para o mundo. Pautas urgentes, como racismo e precarização da educação, são discutidas em bom “cearensês”, com todos os “mah” a que se tem di-

reito. A fuga do eixo Rio-São Paulo, presente nessa escolha, é marco de uma trajetória iniciada nos anos 2000. Desde então, Déo, Karim Aïnouz, Halder Gomes e outros têm feito o Ceará ser visto como lugar onde se faz cinema de qualidade. Mas nas

entrelinhas, a escolha do cenário pode dizer mais do que isso. Saulo Chuvisco, interpretado com muita naturalidade por Lucas Limeira, ocupa a escola e mobiliza colegas pela internet após sofrer racismo na sala de aula de uma instituição arruinada pelo desca-


so público. Tudo isso na capital do estado que se vangloria de ter sido o primeiro a abolir a escravidão e que se orgulha de liderar nacionalmente os rankings de “Escola Nota 10”. “Nota 10 para quem?” É o que nos perguntariam, caso falassem, as paredes sujas da Escola Major Altair Andrade. E nada escapa ao raio-x da obra de Déo - da merenda estragada ao diretor corrupto, ótimo papel de Carri Costa. A instituição é fictícia, mas o retrato é fiel à realidade de muitas escolas brasileiras.

“Cabeça de Nêgo” é um filme sobre seu tempo. Conversa diretamente com o espírito questionador, engajado e insurgente das novas gerações. Isso está bem ilustrado nas cenas de mobilização dos estudantes e na sequência de confronto entre os jovens e a polícia. A transição do drama para a ação ocorre na hora certa.

Destaque ainda para a reverência que o filme presta a nomes da luta antirracista, como Angela Davis, Marthin Luther King, Malcom X e Lélia Gonzales. Eles são citados em diálogos que soam didáticos demais para quem já os conhece, mas que podem instigar a quem os ignora. Poeticamente, os rostos desses pretos históricos são projetados nas paredes da

Jéssica Ellen interpreta a professora Elaine, com quem o protagonista troca ideias sobre os Panteras Negras | Foto por Marcos Khirano/Divulgação

escola na primeira noite de ocupação. A passagem é embalada pelo rap “Sorrisos e Lágrimas”, em que Emicida e Rael cantam: “Vi pelo mundo afora / Que a vida é como uma pessoa boa / Cê só nota quando vai embora”. Os grandes homenageados são os Panteras Negras, organização antirracista dos Estados Unidos que inspirou a revolução de Saulo. Além de frases e da figa que simboliza o grupo, o protagonista se espelha no programa criado pelos panteras e lista dez pontos a serem corrigidos na escola, em troca do fim da ocupação. No melhor pedaço do roteiro, os estudantes descobrem que o líder incluiu um 11º ponto - o leitor terá que assistir ao filme para saber qual é. Em 85 minutos, o longa ainda encon-

tra espaço para criticar a cobertura da imprensa que retrata movimentos sociais como baderneiros, para discutir o papel do professor na formação social e para instigar reflexões: “A escola expulsa, o crime acolhe. A escola precisa ser mais atrativa do que o crime”. Com tantas qualidades, “Cabeça de Nêgo” é um filme para não tirar da cabeça.

CABEÇA DE NÊGO

Direção: Déo Cardoso Produção: Corte Seco Fimes Onde assistir: Globoplay Duração: 85 min


Nem Tão Passageira | Foto por Luiz Freire