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APRESENTAÇÃO

O livro on-line “Clube do Choro UK – O Livro” é uma obra produzida com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, realizado a partir da pesquisa in loco feita pela jornalista Nathália Braga sobre o Clube do Choro UK que mensalmente realiza rodas de choro e samba em Londres, na Inglaterra.

O texto narra a história de criação do Clube, bem como como seus eventos são estruturados e realizados. Traz ainda um relato detalhado sobre os eventos que aconteceram no ano de 2013 e apresenta uma perspectiva de planos para o futuro do CCUK e um perfil com o músico fundador, Gaio de Lima.


INTRODUÇÃO

O ritmo afinado, tocado devagar ou ligeirinho, e que deu origem ao samba e a tantos outros ritmos brasileiros, tem conquistado cada vez mais seu lugar na Europa. O choro, que tem origens africanas, mas pode ser considerado como a primeira música urbana brasileira, nasceu nas ruas do subúrbios cariocas, por volta de 1880, quando a cidade ainda era a capital do Brasil.

A música nada mais é do que uma adaptação brasileira do ritmo que era presente nas festas da elite euopeia, do século XIX. Os grupos de choro na época eram compostos pelos ‘chorões’, geralmente um trio composto por flauta, violão - que adotava a performance de um contrabaixo e cavaquinho, responsável pela harmonia musical.

Oficialmente, o termo ‘choro’vem justamente do uso dos baixos do violão que formavam as baixarias, sons melancólicos e tristes, fazendo com o que a palavra choro representasse a forma de tocar essse ritmo. Mas devido à informalidade das rodas de choro realizadas no subúrbio, com o passar do tempo, outros instrumentos foram integrados, o que faz do choro até hoje um dos ritmos mais flexíveis. Com bom senso e respeitando os diferentes sons de cada um, qualquer instrumento pode entrar em uma roda de choro.

O choro é um rico gênero musical brasileiros caracterizado pelo virtuosismo dos músicos e elaboradas melodias e harmonias. Ele tem a diversidade da música brasileira e influências da música erudita, suas composições podem ser consideradas uma transição entre o popular e erudito sendo respeitada e executada por músicos de ambas as áreas.

Este ritmo faz parte do patrimônio cultural brasileiro antes mesmo do samba, mas apesar disso não é tão divulgado como o gênero hoje conhecido como ícone


do Brasil. Para fazer com que esta situação mude e disseminar um pouco mais da cultura brasileira pelo mundo é que atualmente existem na Inglaterra projetos de rodas de choro que visam atrair não só o público brasileiro, mas também imigrantes e britânicos.

Referência no gênero nas terras inglesas, o projeto Clube do Choro UK (CCUK) foi criado pelo músico Gaio de Lima há cerca de cinco anos, que passou esse tempo estruturando o projeto e deixando o mesmo pronto para ser lançado. Em março de 2012, as apresentações começaram e desde então o CCUK vem disseminando as raízes da música brasileira pelo Reino Unido.


Capítulo 1 CHORO IN UK No dia 30 de março de 2012, Londres teve sua primeira roda de choro – pelo menos a primeira realizada em um tradicional pub inglês e por um grupo de músicos que queriam passar a verdadeira experiência do choro brasileiro ao público. Era a primeira roda do Clube do Choro UK.

O projeto foi idealizado pelo músico Gaio de Lima, carioca, nascido e criado na Lapa e que por toda sua vida esteve cercado pela música. Ao vir aperfeiçoar seus estudos em música na terra da rainha, veio a percepção de que faltava o chorinho na capital britânica e em todo o Reino Unido.

Não é à toa que o projeto ganhou o nome de Clube do Choro UK. A ideia nasceu pensando no público da Inglaterra. Foi então que o músico começou a desenvolver ideias para que o choro chegasse à Europa – um projeto que demandaria dedicação e tempo, muito tempo, mais precisamente quatro anos e meio para ser devidamente estruturado.

“Quando cheguei na Inglaterra, cinco anos atrás, tinha um repertório gigante, mas não tinha rodas de choro em cada esquina para poder tocar. Tinha sede, vontade de dividir o que eu sabia. Levei tempo porque queria desenvolver o projeto que não fosse algo só para explorar a nossa bandeira. Queria que as pessoas daqui aprendessem e levassem adiante. Escolas de samba são bem conhecidas e todo mundo pode fazer parte. Com o choro não é diferente, todo mundo pode se juntar e aprender a tocar”, conta Gaio. Com o tempo, o músico começou a participar de projetos musicais variados no mundo do jazz, folk music, world music, experimental, indian, african e outros. Em dois anos morando na Inglaterra, Gaio pode conhecer e assimilar estilos variados de música, originários dos quantro cantos do mundo.


“Foi maravilhoso participar, ver e aprender com tantos músicos fantásticos, tantos lugares diferentes. Só que quando fiz tudo isso eu tinha um plano, e ele não era só de assimilar a cultura deles [dos músicos]. Eu queria que eles assimilassem a nossa. A pergunta era: como? Depois de um tempo, eu descobri.”

Com o contato com outros músicos, foi possível reconhecer aqueles que tinham aptidão para o choro e passar a ensiná-los a tocar o gênero. O plano deu certo e atualmente as rodas de choro tem a presença de 200 pessoas, em média. Para se chegar a este público e reunir músicos dispostos a fazer parte do Clube do Choro UK foi uma longa trajetória.

“Ensinei músicos e outros que já conheciam sobre a música. Foi difícil fazer isso, mas o importante é saber que agora que está feito é para todo mundo. Muitos brasileiros que conheço chegam aqui [na Inglaterra] com o intuito de absorver, mas não de deixar algo. E a gente tem muita coisa para deixar, basta fazer com propriedade e verdade”, fala Gaio.

O objetivo do CCUK é agregar, ensinar e transformar o universo cultural de todo país, principalmente porque é a primeira e única roda de choro mensal existente na história britânica.

A palavra-chave do CCUK é dividir. Fazer com que a música - que sempre foi um meio de comunicação – fosse compartilhada. Mais do que isso: que as pessoas se sentissem parte dela, assim como naturalmente o choro faz parte do cenário carioca.

Para propagar estes objetivos e ideais, uma das estratégias usadas foi a criação da website do grupo (www.clubedochoro.co.uk), em que é possível encontrar vídeos de eventos anteriores e informações sobre o clube. Mas mais do que uma ferramenta de divulgação, o site foi pensado para contribuir com a ideia geral


de disseminação do projeto. “Se o inglês não souber o que está acontecendo durante nossa apresentação, é muito difícil que ele participe, ele vai ficar no canto dele, pois é naturalmente mais reservado. Mas a ideia é fazer com que eles participem”, ressalta Gaio. O projeto do CCUK em seu primeiro ano aconteceu de março a novembro de 2012. Na última roda de choro, Gaio de Lima cortou seus cabelos como forma de arrecadar verbas para instituições de caridade. A ação foi relacionada com a vida pessoal do músico, que perdeu a mãe para o câncer e desde antes de seu falecimento ensinava cavaquinho para crianças com câncer na Casa de Apoio à Criança com Câncer de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

Durante a apresentação, o público podia cortar um pedaço do cabelo estilo dread de Gaio e, a cada pedacinho cortado, fazer uma doação. O dinheiro foi distribuído para duas instituições: Casa de Apoio à Criança com Câncer no Rio de Janeiro e Children With Cancer UK (Crianças com Câncer Reino Unido, na livre tradução para o português) - esta segunda localizada na Inglaterra.

“O propósito é fazer ações como esta todo ano e trazer um artista ou músico de fora na próxima vez para fazer o mesmo gesto em prol de outras duas instituições. Assim, as crianças do Brasil e também da Inglaterra terão um pedacinho a mais de mim e todos aqueles que contribuírem com a iniciativa. Choro também faz sorrir (risos)”, explica Gaio. Ao final do primeiro ano de rodas de choro, veio uma conquista. Quando do início das apresentações, o projeto ainda não contava com nenhum recurso público e foi levado adiante com a ajuda de voluntários e renda das noites de roda. Todos os voluntários que participavam e ainda participam das rodas de choro e de samba dedicam horas, muitas vezes dias de trabalho, para que a organização


dos eventos seja feita da melhor maneira possível. É notável e também repetidamente citado pelo fundador do CCUK que cada voluntário é fundamental para que o projeto funcione.

O grupo de voluntários está sempre em constante mudança, alguns estão sempre chegando, enquanto outros seguem o caminho com outros projetos. Seja como for, em uma mistura de brasileiros com estrangeiros, estas pessoas estão ali para aprender mais sobre música, cultura e todas as referências que o Brasil tem a oferecer. E o interculturalismo nas relações pessoais é sempre presente. Assim, o trabalho voluntário torna-se uma rica experiência para músicos, estudantes e pessoas de todas as áreas disponíveis a fazerem parte do CCUK.

Mas mesmo com ajuda humana, era necessário apoio financeiro para que o projeto se desenvolvesse ainda mais. E em 2013 o Clube do Choro UK foi reconhecido pelo British Arts Council (Consulado Britânico de Artes, na livre tradução para o português).

Também recebeu o prêmio International Awards, que reconhece instituições que promovem a cultura brasileira no Reino Unido. “É uma felicidade, o reconhecimento de muito trabalho que tem sido feito já um bom perído e via continuar sendo feito, independente de prêmios. É algo alcançado por todos. Dou toda essa credibilidade a todos que estão no Clube do Choro UK”, afirma Gaio.


CAPÍTULO 2 ESTRUTURA DO PROJETO

A filosofia do CCUK é dividir, informar e expandir a cultura brasileira tendo o choro como foco. Para isso, o clube realiza rodas de choro que acontecem mensalmente. Durante todo o mês, o evento é divulgado em redes sociais e também para a impressa local e brasileira, a fim de atrair o público.

No dia do evento, os trabalhos começam cedo. São promovidos workshops para que interessados em aprender a tocar um instrumento ou até mesmo aperfeiçoar a técnica participem e desenvolvam suas habilidades musicais.

Já no fim da tarde tem início a aula de dança, que atrai brasileiros e estrangeiros interessados em aprender alguns passos que podem ser usados durante a roda.

Mas o momento em que todo o público se concentra para ouvir a música é quando a noite começa. A programação é dividida em sessões: banda da casa, a roda de choro, convidado especial e roda de samba.

A banda da casa é formada por um grupo mais experientes de músicos que mostram como o choro é tocado. Eles estão lá para tocar os destaques do repertório e apresentar o gênero ao público, visto que o número de pessoas que participam do evento pela primeira vez é grande.

Além de apresentar o choro, a banda da casa também mostra o jeito certo de se tocar choro àqueles que desejam fazer parte da roda, que é o segundo momento do evento. Entre as canções que fazem parte do repertório estão: “Gadu Namorando”, de Alcyr Pires Vermelho & Ladislau P. Silva; “Doce de Coco” e “Vibrações”, de Jacob do Bandolim; “Cochichando” e “Ai Seu Pinguça”, de Pixinguinha e “Fogo Na Roupa”, de

Altamiro Carrilho. Além de “Velhos


Chorões”, de Luciana Rabello; “K-ximbinho do Sherlock” e “Clube do Choro”, de Gaio de Lima e “Na Glória”, de Raul de Barros.

Os membros da banda da casa são músicos que abraçaram a causa do choro em suas vidas e estão presentes com certa frequência nos eventos do CCUK. No entanto, não há um número fixo de pessoas que fazem parte da banda da casa e, na verdade, o termo “banda” é mais usado para nomear a apresentação.

“A ideia é sempre modificar porque não estamos tentando criar uma banda. Estamos criando uma roda e a concepção de roda não tem um número fixo. Existem sim pessoas que sempre participam, entre eles posso citar Andrew Woolf, a Rachel e o Jonathan Craise, todos eles ingleses. Temos também o Juliano Chiori, o Vander Pio que é brasileiro, e eu (risos). A ideia é exatamente essa: misturar, náo é só um ou outro”, explica Gaio. (ver se os nomes estão ok, por favor. Se achar que é melhor não citar estes porque não estou citando todo mundo, podemos tirar)

Em seguida, acontece a roda de choro, em que todos que querem tocar podem participar. Neste momento, o público em geral tem a liberdade de levar seu instrumento, sentar perto dos músicos que já ali estão e acompanhá-los a tocar as músicas.

Não é preciso ser profissional ou saber tocar perfeitamente cada canção, afinal o intuito é partilhar da experiência e o repertório é variado. “É uma responsabilidade muito grande carregar nomes como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga e muitos outros. Tem de ter muito cuidado para não confundir as pessoas e entregar a informação de forma adequada, sucedendo na propagação e incentivo à pesquisa do choro”, ressalta Gaio.


Uma das formas de disseminar o choro e seus grandes nomes é por meio da página na Internet que o clube mantém. É possível encontrar partituras das músicas tocadas nas rodas, além de informações sobre o gênero e curiosidades.

Entre as canções estão “Acerta o passo”, de Pixinguinha e Benedito Lacerda; “André de Sapato Novo”, de André Victor Corrêa; “Chorando Baixinho”, de Abel Ferreira; “Santinha”, de Anacleto de Medeiros, entre outras.

Na terceira parte da noite, é a vez do convidado especial dar seu show e mostrar sua percepção de choro. Este convidado pode ser tanto do Brasil quanto da Europa. Entre os que já passaram pelas rodas do CCUK estão Marco Sacramento, Vitor Celestino, Marcos Tanuri e Dirceu Leite.

O padrão de show é diferenciado, afinal, não há um momeneto específico em que ele entra em cena. O artista participa de todo o evento e começa a tocar já com a banda da casa, depois na roda, inclusive tocando com aqueles que não são profissionais, e só então é apresentado ao público como convidado da noite.

Esse modelo quebra a tradição de palco e plateia, uma vez que artista e público estão fazendo parte da mesma roda. “O artista encontra um público estrangeiro preparado para recebê-lo e participar com ele na roda. Ou seja, duas culturas aprendem alguma coisa e as pessoas se sentem completamente realizadas na parte acadêmica, cultural e de entretenimento. E quem sai ganhando é a música brasileira, o que me deixa muito contente (risos)”, afirma Gaio.

Desde que a roda de samba foi integrada ao Clube do Choro UK, após o convidado especial é que começa o samba, onde o público dança, vibra e canta junto com os músicos ao som de nomes como Geraldo Pereira, Candeia, Cartola, Cyro Monteiro, Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Geraldo Babão, além de composições de autoria do próprio Gaio de Lima.


Em todas as noites em que o samba entrou em cena, a atmosfera de euforia e vibração era sempre a mesma. Enquanto alguns davam um show na dança, outros tentavam arriscar alguns passos, mesmo que tímidos e desajeitados. No fim das contas, o sorriso no rosto das pessoas era a recompensa e o indicativo de que integrar choro com samba tinha sido um passo certo no desenvolvimento do projeto. Workshop Durante toda a história do CCUK, os workshops tem sido ministrados com o intuito de propagar o conhecimento do choro. O curso foi projetado para melhorar tanto a técnica do instrumento quanto o entendimento da cultura do choro.

Entre os instrumentos que são trabalhados nos workshops estão cavaquinho, violão, bandolim, pandeiro, clarinete, flauta, piano, além da parte vocal. Durante as sessões, o objetivo varia de acordo com o instrumento. No pandeiro, por exemplo, é aprender variações mais comuns usadas no gênero. Já no violão de 6 e 7 cordas, o participante aprende a sincronizar linhas de baixo e progressões de acordes.

Os eventos são divulgados durante as rodas de choro e também na Internet e acontecem uma vez por mês em estúdios localizados na área central de Londres.

A grande parte dos alunos são estrangeiros que não sabem português, mas que se interessam em participar dos workshops pela experiência que vivenciam durante as rodas.


Capítulo 3 AS RODAS DE CHORO Eram pouco mais de 12h quando encontrei com membros do Clube do Choro UK, em um café perto da igreja St Mary’s, perto da estação de metrô Baker Street. Poucas áreas carregam tantas referências inglesas como Baker Street que tem um parque da monarquia (Regent’s Park) e dois museus que vivem lotados de turistas: o de escultura de cera Madame Toussauds e o do famoso personagem de detetive inglês Sherlock Homes. Era uma tarde ensolarada, porém fria. Naquele dia, 30 de março, seria a primeira apresentação do CCUK no ano de 2013. Também seria a primeira roda desde que o clube foi reconhecido pelo Arts Council England (Consulado de Artes da Inglaterra, na livre tradução para o português).

O apoio financeiro colabora para a realização dos eventos e o selo do Arts Council England é uma grande conquista para todos os envolvidos com o Clube do Choro UK. Sinal de que o trabalho está sendo feito no caminho certo.

Além da expectativa pela abertura da temporada de eventos, era também a a estreia da roda de choro na igreja católica St Mary’s – a ideia era ter mais espaço para o público do que no antigo local de apresentações, o pub The Globe, que também fica próximo a Baker Street.

E se para os mais religiosos a ideia de ter uma roda de choro e um bar dentro de uma igreja soa estranha, na Inglaterra não é difícil encontrar igrejas que alugam o espaço para a realização de eventos que não sejam religiosos.


Saindo do café, atravessamos a rua e fomos direto para a igreja: tinha muito trabalho a ser feito e não havia muito tempo pela frente. Cerca de 10 voluntários trabalhavam no dia para ajudar na organização do espaço, disposição dos móveis, montagem do bar e do restaurante.

A primeira roda de choro de 2013 teve direito à feijoada e delícias típicas brasileiras, deixando o evento verde-amarelo em todos os aspectos. Para os ingleses mais receosos a provarem o prato, o típico fish and chips (peixe com batata popular na Inglaterra) também foi servido.

A estrutura da igreja tinha, além do salão principal, um mesanino, e um andar subsolo com cozinha e salas livres. Enquanto a feijoada era preparada, a sala livre foi usada para aulas de danças.

O público começou a chegar às 17h para as aulas de dança, que aconteciam na sala livre. No salão principal, últimos detalhes como checagem da acústica do som, disposição das cadeiras e organização das mesas estavam sendo feitos por Gaio de Lima e toda a equipe.

Passava um pouco das 18h quando Gaio pegou o microfone e, com um sorriso no rosto, declarou que estava aberta a temporada de eventos em 2013 e que as rodas aconteceriam na St Mary’s Church dali para frente. “Bem-vindos a nossa tempotada de 2013. Estamos muito felizes em fazer isso e peço a todos que venham mais para perto, bem pertinho, para eu eu sinta a energia de vocês”, convidou o carioca.

O público que estava sentado em cadeiras espalhadas pelo

ambiente foi

convidado a chegar mais perto da mesa principal onde os músicos estavam sentados em volta, formando a roda.


Imediatamente dava para se ouvir o som das cadeiras sendo movidas para mais perto da banda da casa, que já estava começando a tocar. Ingleses, espanhois, poloneses e pessoas de outras nacionalidades da Europa se juntaram aos brasileiros naquele momento: a bandeira que predominava ali era a da música brasileira, era a do choro.

O som do cavaquinho com o bandolim começou a ecoar por toda a igreja. Violão de 6 cordas, violão de 7 cordas, flauta, violino e pandeiro compuseram a roda neste dia. A primeira música tocada pela banda da casa foi o “hino” do CCUK. Composta por Gaio, a canção convida todos os presentes a dizerem “Clube do Choro” como um coro animado.

A ideia é que todos, crianças, jovens, adultos e idosos, possam participar da roda. Mesmo aqueles que são apenas espectadores conseguem compartilhar da alegria que é estar em um roda de choro na Inglaterra.

“Are you guys having fun?” (“Vocês estão se divertindo?”), pergunta Gaio, por diversas vezes ao público. Uma mistura de “yessss” com “siiiim” ecoa pelos quatro cantos da St Mary’s Church toda vez que a pergunta é feita.

A noite segue ao som de Pixinguinha, Waldir Azevedo, Benedito Lacerda e outros artistas que são relembrados enquanto o púublico, dança, vibra e se emociona.

São cerca de 200 pessoas presentes no local, ouvindo choro, formando fila para pegar uma bebida no bar e um prato de feijoada, que foi servida em um dos intervalos da apresentação. E se Londres é uma cidade cosmopolita, a roda de choro vem para unir toda essa multiculturalidade.

Muitos ali estão pela primeira vez em um ambiente com influências brasileiras, outros acompanham o CCUK desde outros eventos. O que importa é que a


mistura de nacionalidades traz ao Clube do Choro UK a oportunidade de realizar sua missão, mesmo que seja aos poucos, que é a de dividir e compartilhar a música brasileira no Reino Unido.

O relógio marca 22h quando é hora de começar a se despedir do que foi uma noite memorável. Apesar de ser liberal quanto ao uso do espaço, o horário para que o igreja esteja vazia e sem mais nenhum barulho é rígido: 23h. Nem um minuto a mais e nem a menos, assim como manda a pontualidade britânica.

O chorinho segue por mais alguns minutos até que a roda se despede do público e já anuncia o próximo evento, que acontecerá dali a um mês. Pela empolgação do público, dá para dizer que o Clube do Choro UK deixou um gostinho de quero mais.

No mês seguinte, em abril, é uma data especial para o choro: o aniversário de Pixinguinha, data que deu origem ao Dia Nacional do Choro, em 23 de abril. Devida sua importância para o gênero, a página na Internet do Clube do Choro UK traz em suas rodas muitas canções do mestre, além de uma breve biografia de sua história.

“Alfredo Da Rocha Viana Jr, nasceu no Rio de Janeiro em 1899. Tocava uma enorme variedade de instrumentos, mas realmente se distiguiu na flauta e saxofone. Ele tirava melodias mais antigas do Choro e as misturava com contemporâneas harmonias do Jazz e ritmos brasileiros. Isso fez com que o Choro se popularizasse pelo Brasil e exterior.

Nascido em uma família musical, seu pai era um flautista professional. Ambos realizavam Rodas de Choro regulares em casa. Primeiro, ele estudava flauta com Irineu de Almeida e até 1912 tocava na Lapa, no Rio. Foi logo oferecido uma vaga como flautista na orquestra de “Cine Rio Branco Movie Theatre” acompanhando filmes mudos. Tocou lá até formular a banda – “Os Oito


Batutas” com seu irmão e amigos – foi quando tornaram mais populares do que os filmes sendo exibidos no teatro. O repertório da banda incluia folk brasileiro, Samba, Maxixe, Valsa, Polca e Tango brasileiro. Durante este período, o termo “CHORO” não foi largamente usado. Mas, sem dúvida, as canções seriam eventualmente classificadas a este gênero.

A imagem dos músicos negros bem-sucedidos não era tão popular em todos bairros e a banda trabalhou muito para promover-se devido dificuldade social e racial. Até 1921 tiveram tours patrocinados para a Europa e Estados Unidos, fornecendo exposição mais ampla, com estilo e arranjos próprios com uso de trombone e trompete. Ao regressarem para o Brasil imediatamente assinaram um contrato com a RAC Victor. Exposto às influências internacionais, a composição de Pixinguinha floresceu e a banda encurtou seu nome para “Os Batutas”.

Até o final dos anos 20, Pixinguinha dirigiu a Orquestra Brasileira e demostrou sua habilidade para fornecer os novos arranjos musicais. Antes, os músicos do Choro utilizavam a partitura para piano, mas ele desenvolveu partituras com as partes construídas propositalmente para instrumentos específicos e individuais. Por ampliar habilidades de músicos, ele se tornou responsável pela profissionalização dos músicos brasileiros. A música dele progrediu pelos anos 30, 40 e 50 mas sofreu com o desenvolvimento de estilos contemporâneos tais como Rock & Roll.

Em resumo, o Choro estava se tornando antiquado, mas ele ainda fazia ocasionais aparições na TV assim como Jacob do Bandolim. Em 1973 morreu enquanto estava em um batismo na igreja. Seu aniversário no dia 23 de abril é celebrado anualmente no Brasil como Dia Nacional do Choro”, diz o texto.


Sendo assim, a noite de sábado do dia 20 de abril, foi de festa. Novamente, com um público de aproximadamente 200 pessoas, a igreja St Mary’s foi palco para celebrar o choro e o aniversário de um de seus grandes nomes.

Com direito até a bolo de aniversário e a “parabéns a você”, Pixinguinha foi homenageado

por

brasileiros,

ingleses

e

pessoas

de

tantas

outras

nacionalidades que estavam ali. Para quem não conhecia o músico, as canções tocadas durante a roda deram a oportunidade para tal.

Seja para quem já era fã de Pixinguinha ou para quem o conhecia pela primeira vez, tanto a data de seu nascimento quanto o Dia Nacional do Choro tiveram um motivo extra de celebração: era a primeira vez que ambas as datas eram comemoradas em terras britânicas.

Roda de samba O mês de maio chegou e a cinzenta Londres foi se despedindo do inverno e se preparando para receber o verão, que no continente europeu tem início em junho. É nessa época que a cidade fica mais alegre, as pessoas sorriem mais e o céu fica mais azul.

A euforia ficou completa com o anúncio de mais uma novidade do Clube do Choro UK: a roda de samba passaria a fazer parte dos eventos mensais promovidos pelo clube.

A roda de samba dentro do Clube do Choro UK é a segunda fase do projeto de difusão da cultura brasileira no Reino Unido. “Assim como a bossa nova veio do samba, o samba carioca, gafieira e outros gêneros do Brasil vieram do choro. Nossa missão é mostrar isso tudo com muita clareza e certamente sem estereótipo para a comunidade nacional e internacional.

Nós do Clube do

Choro UK lutamos por uma revolução cultural em que apresentamos a cara do


Brasil como ele é em sua íntegra através da música, dança, culinária e principamente educação, que naturalmente nos leva à integração”, afirma Gaio.

Segundo ele, a roda de samba foi criada para atender pedidos de brasileiros que pediam por músicas cantadas. “Foi exatamente pensando nas rodas de choro do Brasil, onde é sempre muito natural as pessoas começarem tocando música instrumental, aí vira uma seresta e começa o samba. A maioria do público que a gente tem é inglês. Uma forma muito fácil de conseguir atrair o público brasileiro que mora aqui [no Reino Unido] era através da música cantada. Tem mais brasileiros vindo nas rodas, todo mundo canta e dança. As pessoas se conectam. Estamos tentando fazendo com que esa tradição do Brasil se torne referência”.

O flyer de divulgação do evento anunciava: “Com raízes no Rio de Janeiro e África e reconhecido pelaUnesco como patrimônio da humanidade, a roda de samba chega em Westminster. Antecipado pelo choro, este ícone da identidade nacional brasileira cresceu no período final da escravidão no Brasil. Como os escravos recém-libertados mudando para o Rio, levaram com eles novos ritmos para a cidade e com isso a roda de samba foi crescendo pela cidade, sendo também influenciada pelo choro”.

O dia escolhido para a estreia do Clube do Samba UK foi, tipicamente, o último sábado do mês, 25 de maio. E a igreja St Mary’s talvez nunca tenha recebido um evento tão animado. Como de costume, a noite começou com a banda da casa se apresentando, seguida pela roda de choro e terminou com a roda de samba.

Durante a apresentação, o público se emocionou com composições de Waldir de Azevedo, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth e Pixinguinha. Com ritmos mais acelerados, outras vezes mais lentos, o choro preparava os ouvidos de quem ali estava na expectativa de participar de uma roda de samba pela primeira vez.


O ritual de comes e bebes seguia a tipicalidade brasileira com feijoada sendo servida no salão principal da igreja. Entre os intervalos da música, as pessoas comiam e conversavam e a atmosfera não poderia lembrar mais o Brasil – o público nem lembrava que do lado de fora fazia frio.

Quando a música retomou, o ritmo começou a ficar mais acelerado e já havia palavras acompanhando a melodia. Era a primeira roda de samba do CCUK que estava começando.

Não demorou muito para que as poucas cadeiras que ainda estavam ocupadas ficassem vazias: as pessoas dançavam, independente do nível de habilidade. Enquanto alguns casais davam um show de samba no pé, muitos estrangeiros olhavam admirados e tentavam, com muita empolgação, copiar os passos dos brasileiros.

“Não posso ficar nem mais um segundo com você, sinto muito amor mas não pode ser”, esta e outras letras de Adoniran Barbosa, Geraldo Pereira, Cartola, Nelson Cavaquinho e outros eram cantadas em coro pelos brasileiros que ali se encontravam. Quem olhava para a roda se contagiava com a animação dos músicos e o som dos instrumentos que por eles eram tocados. A atmosfera entregava que a estreia do samba misturado com choro não deixaria mais de fazer parte do Clube do Choro UK. Foi uma mudança que veio para ficar e, aliás, mais mudanças viriam dali para frente.

Nova casa Quem estava lá pela primeira vez talvez não tenha se dado conta, mas certamente o fiel público do CCUK pode perceber a relação entre o novo espaço para as apresentações e o caminho que o projeto estava traçando. Depois de dar


uma pausa no mês de junho, as rodas de choro e samba voltaram no mês de julho, em pleno verão inglês e em nova casa.

Desde que as apresentações tiveram início, em março de 2012, no pub The Globe, tinha-se a ideia que uma hora seria preciso ampliar o espaço em que os eventos eram realizados para receber mais convidados. Em 2013, a nova temporada de apresentações começou na igreja St Mary’s Chruch. Era chegada a hora de o Clube do Choro UK dar passos ainda mais largos.

Era o início da parceria com a Cecil Sharp House Folk, em Camden Town – ainda próximo à área onde as rodas aconteciam antes, em Baker Street. O local é parte da English Folk Dance and Song Society (Sociedade Inglesa de Dança e Música Folk, na tradução livre para o português).

Além da tradição do local, a decoração clássica é um capítulo à parte. E a expectativa não poderia ser melhor: a união do clima intimista com a boa estrutura para receber o público prometiam ser o cenário perfeito para uma noite de muita música, dança e comida do jeitinho brasileiro.

“Estamos muito entusiasmados. O local é perfeito para hospedar nossos eventos e tem tudo a ver com a nossa atmosfera descontraída, o que é essencial para continuarmos passando adiante de forma genuína o nosso jeito de celebrar”, disse Gaio de Lima na ocasião do evento.

Assim como no evento do mês de maio, a roda de samba estava confirmada. “Nossa missão é mostrar o samba e o choro com muita clareza e certamente sem estereótipo para a comunidade nacional e internacional. Nós, do Clube do Choro UK, lutamos por uma revolução cultural em que apresentamos a cara do Brasil como ele é em sua íntegra através da música, dança, culinária e principamente educação, que naturalmente nos leva à integração”, ressaltou Gaio.


Integração essa que seria colocada em prática já no evento de 27 de julho em que o dia todo foi dedicado à música. No começo do dia, foram ministrados workshops com foco em variados instrumentos musicais como pandeiro, cavaquinho, violão e outros, para que pessoas com qualquer nível de habilidade musical pudessem aprender a tocar. No fim da tarde, a aula de dança contagiou os alunos que esperavam ansiosos para se dançarem ao som de choro e samba.

Na ocasião do evento, o fundador do CCUK expressava toda a confiança que depositou nestes anos de projeto. “Finalmente, e agora muito bem estabelecida, aqui está a sua casa do choro e samba no Reino Unido. É só entrar pois a casa é sua”.

Com mais de 150 pessoas presentes, a noite marcou a parceria do Clube do Choro UK com a Cecil Sharp House, integrando o choro cada vez mais ao cenário musical inglês.

Para

realizar

a

primeira

roda

no

novo

local,

tudo

foi

preparado

minunciosamente. Os preparativos começaram cedo com a organização das mesas e cadeiras, bem como a disposição dos equipamentos de som.

A mesa central com cadeiras em volta acolheria Gaio e os músicos da banda da casa e que mais tarde participariam da roda. Mais uma vez, voluntários participavam dos preparativos e se certificavam de que tudo estava pronto para receber o público, que a cada roda parecia que se tornava cada vez mais miscigenado e também mais fiel às rodas.

Era 18h e o sol ainda brilhava lá fora – no verão inglês não escurece antes das 21h. Prova de que dia de sol, calor e samba não é só no Brasil. A luz solar ainda invadia o salão da Cecil Sharp House quando Gaio pegou o microfone e anunciou que mais um evento estava por começar. Naquele dia, o sol foi


embora antes do choro e do samba, mas a energia do lado continuou a mesma até o fim da noite.

O último sábado de agosto foi dia 31 e foi quando a última roda de que participei aconteceu. Chovia um pouco, mas o temporal de verão não abalou a vontade de 200 pessoas se deslocarem de suas casas para irem até Camden Town. Muita música, pessoas alegres e comida brasileira.

Na última música da noite, a cozinheira Rita, que tinha preparado a feijoada, declarou emocionada, ao ouvir “Trem das Onze”, de Adorinan Barbosa. “Essa música me lembrava a minha mãe, que era carioca mas faleceu em São Paulo. Muito obrigada Gaio e ao Clube do Choro UK por me trazer essa lembrança hoje”, se emocionou. Ao fim da participação de eventos ao decorrer do ano, o entendimento da filosofia do Clube do Choro UK: “We are what we share” (nós somos aquilos que compartilhamos, em português).


Capítulo 4 WE ARE WHAT WE SHARE Em todas as rodas de choro e todos os eventos de que Gaio participa, é comum ouvi-lo repetir o slogan do CCUK por diversas vezes. “We are what we share”, que em português significa “Nós somos aquilo que compartilhamos”.

Mais do que um slogan, a frase é a filosofia do Clube do Choro UK. Um estilo de pensar e de realizar projetos, algo que é compartilhado por todos que participam de alguma forma do CCUK – seja músicos, voluntários e até mesmo o público.

A ideia é que o CCUK deixe uma herança no Reino Unido, que compartilhe com ingleses, europeus e pessoas do mundo todo, as raízes da música brasileira, o choro. Ao ter entre seus membros pessoas de diferentes nacionalidades, não só deixa o projeto com uma característica multicultural, mas também transmite um pouco da cultura brasileira para estes países.

Diferente do que muitos pensam, a filosofia do “We are what we share” não surgiu com a criação do Clube, mas, sim, já é algo que o fundador Gaio de Lima já carrega em sua vida há muito tempo.

Quando ele ainda era criança e morava em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, sua mãe trabalhava em dois empregos como faxineira para dar conta das despesas do mês.

Dona Mariete era semi-analfabeta, mal sabia escrever seu próprio nome em um pedaço de papel. A dupla jornada como faxineira garantia o sustento da família, mas sem muitas regalias. Não era comum, por exemplo, que Dona Mariete


desse a Gaio uns trocados para comprar qualquer coisa que fosse, nem mesmo doces.

Certa vez, porém, Gaio, que ainda era um menino, ganhou alguns trocados da mãe quando os dois estavam caminhando pela rua. Ao passar por um bar, ela disse que o menino poderia ir comprar alguns doces ali mesmo se quisesse.

Dona Mariete ficou do lado de fora do bar, só observando Gaio de longe. Quando ele chegou na porta, viu um homem, provavelmente um mendigo, sentado e pedindo dinheiro. “Olhei para o mendigo, olhei para o doce, olhei para a minha mãe que estava com um sorrisão branco do outro lado da rua me olhando e dei o dinheiro para o mendigo”, lembra o músico.

Ao voltar para perto da mãe, Gaio explicou que preferiu dar o dinheiro ao mendigo pois assim ele poderia comprar algo para comer, ainda que soubesse o quanto a mãe tinha trabalhado para conseguir aquele dinheiro extra.

“Minha mãe olhou para mim, com aquele sorrisão brancão, me deu um abraço e falou para eu olhar para trás”, conta. Quando o fez, tudo o que o garoto viu foi o homem levantando, fazendo forças para se manter de pé e cambaleando entrou no bar para comprar duas garrafas de cachaça para então voltar ao lugar em que estava e beber.

Gaio, que ficou sem entender o que tinha acontecido, olhou para a mãe buscando alguma explicação. “Minha mãe era analfabeta mas tinha PHD na vida – ela falava as coisas certas na hora certa. Ela olhou para mim e falou: meu filho, a próxima vez que você quiser ajudar alguém, quiser compartilhar algo que você realmente acredita tenha certeza, mas certeza mesmo de que você está realmente compartilhando porque você quer ajudar e não porque você quer se beneficiar daquilo”, relembra, emocionado.


O que ela estava tentando dizer que seu próprio filho estava tentando se mostrar ao entregar o dinheiro para o mendigo. Porque se ele estivesse realmente preocupado com o homem, teria comprado algo para que ele comesse, dando algo que realmente fosse ajudá-lo.

“We are what we share é isso. É o que fazemos todo dia, 24 horas. Na nossa vida selecionamos grupos de pessoas para dividir algo: amigos, família, namorado. É natural. A partir do momento que nos conscientizamos que qualquer coisa que fazemos tem um certo impacto na vida de outras pessoas, ao pensar sobre isso, as coisas tem um impacto maior, tanto na sua vida quanto na delas, porque aí passamos a fazer o melhor. Já que vai ter esse impacto, de uma forma ou outra, que seja o melhor”, declara.


Capítulo 5 PLANOS PARA 2014

Um projeto em constante evolução, o CCUK em 2014 tem planos de levar o choro para comunidades na Inglaterra, no projeto Choro com Tea, (choro com chá, em português).

O objetivo é realizar eventos fora de Londres durante dois finais de semana de cada mês. Assim, não só o choro vai ser disseminando na Inglaterra mas também irá atrair público para as rodas de choro que acontecem na capital britânica.

O chá é uma verdadeira tradição inglesa e o Clube do Choro UK quer unir a tradição com a música, oferecendo o chá da tarde em seus eventos que irão acontecer em cidades pequenas da Inglaterra.

O projeto prevê visitas a centros de cultura e lazer das comunidades a fim de apresentar o CCUK para pessoas que moram mais afastadas da área central de Londres, mostrar que o projeto existe e que todos podem fazer parte se assim desejarem. Haverá venda de chá e parte dos lucros serão direcionados para instituições de caridade.

“A ideia não é fazer um show e ir embora. Vamos nesses lugares para deixar algo. Deixar uma mensagem para o público destas áreas mais afastadas dizendo: o choro também é seu, é feito por ingleses que nem você, você pode ter aqui na sua comunidade se você quiser”, explica Gaio.

Outro projeto que já vem sendo pensado há tempos e quem em 2014 deve ser concretizado é a gravação do CD do Clube do Choro uk. O material será uma reunião das principais músicas de choro e com algumas músicas de samba também.


O CD será gravado com a banda da casa, mas deve contar com a participação de convidados especiais que participaram da trajetória do clube. Serão gravadas composições originais, com algumas canções de compositores renomados. A grande missão é fazer com que ambos, Choro com Tea e CD, caminhem juntos.

“Vai ser o primeiro CD do CCUK e vai representar todos estes anos de trabalho, mostrando que estamos aqui para ficar”, diz Gaio.

Mais do que isso, o objetivo com o CD é produzir um material com qualidade no trabalho gravado, selando o compromisso do Clube do Choro UK com a indústria da música no Reino Unido.

Além disso, os lucros gerados com as vendas do disco facilitará o investimento em outras iniciativas, como tornar o choro acessível e conhecido em outros países.


Capítulo 6 PERFIL GAIO DE LIMA

Não é difícil descrever Gaio de Lima se você já ouviu falar da palavra versatilidade. Músico criativo nascido na cidade do Rio de janeiro, o berço da bohemia carioca. Bandolinista de mão cheia, gozador de um vasto repertório de choro e samba com muita naturalidade, passa toda essa bagagem através de melodias pelo seu bandolim e uma autêntica voz “malandriada”. Tamanha é a autenticidade que está fazendo história na Europa e representando o nosso Brasil. Para conhecer um pouco mais a sua história, é preciso voltar aos meados dos anos 1980, época em que Gaio teve seu primeiro contato com a música através dos discos de vinil de seu avô e todos tipos de gêneros musicais que escutava nas ruas de Santa Teresa e Lapa, além do subúrbio do Rio de Janeiro, onde passava os finais de semana visitando familiares. Um belo dia, já na década de 90, o músico, então garoto, viu seu vizinho tocando baixo na varanda. E a curiosidade pelo o que o vizinho fazia representa até hoje o ponta pé inicial da sua carreira.

Mesmo sem nenhum conhecimento musical, apenas com o dom e o que tinha ouvido de música até ali, Gaio foi convidado para tocar baixo elétrico na Cathedral de São Benedito do Rio de Janeiro. Anos depois, ainda na escola, aprendeu a tocar flauta doce, instrumento que passava horas e horas tirando música de ouvido. Foi assim que conheceu um senhor que lhe ensinou seus primeiros acordes no cavaquinho.

“Me lembro até hoje”, diz ele, “ eu estava tocando Aquarela Brasileira na flautinha doce e aquele senhor começou a me acompanhar no cavaquinho. Não entendia como, mas sabia que ele estava tocando comigo e me apaixonei pelo


som do instrumento. Não imaginava que a música me levaria tão longe. O ritimo que ele me ensinou eu guardo até hoje na memória: taco taco taco tataco taco tataco taco. Ensino este ritmo a todos os mues alunos aqui na Inglaterra e eles aprendem”.

Seu avô, tamborinista, fazia parte da velha guarda da Mangueira, o que era mais uma oportunidade para Gaio ser levado para junto da música, em alguns dos ensaios em que seu avô o convidava para tocar na quadra da Estação Primeira de Mangueira. E foi assim, participando de bandas de bailes, rodas e grupos de samba e choro da Lapa e nos subúrbios do Rio de Janeiro, que Gaio teve a oportunidade de aprender diversos instrumentos com muitos bambas da época. E não só tocar, mas também compor. Em cada esquina, em cada roda na bohemia, ele aprendeu prestando muita atenção nos conselhos dos mais velhos. “Tudo que sei de música agradeço aos mais velhos, que tiveram sempre muita paciência para me ensinar”, afirma.

Na sua busca insaciável pela música, Gaio passou a conhecer e ter acesso a muitas rodas de choro, como também à função de outros instrumentos da música brasileira, inclusive o bandolim. “Quando vi que podia fazer os mesmos solos que eu tinha aprendido no cavaquinho no bandolim, realmente fiquei muito contente e corri atrás para conseguir um bandolim para mim”, lembra.

Vindo de uma família muito pobre e morando entre duas favelas - o morro do Fallet e o morro da Coroa - a vida não dava muitas condições para o menino se dedicar à música. E para completer a “novela”, sua mãe diagnosticada com câncer não podia trabalhar. Sendo assim, era Gaio que carregava a responsabilidade de sustentar a casa, já que a pensão que sua mãe recebia não dava para quase nada.

Gaio de Lima trabalhava, estudava e quando saia da escolar ia direto tocar. “Me lembro que trabalhei de office-boy e o único lugar que eu tinha para estudar era


na parte de trás do ônibus. Pedia para o trocador do ônibus me deixar passar por baixo da catraca, porque assim sobrava um dinheirinho para eu levar para casa e comprar pão e leite para o cafá da manhã do dia seguinte. Me lembro que conheci muitos músicos praticando dentro do ônibus, vinha gente de tudo quanto é canto me pedindo pra cantar o samba “x” ou “y”. Eu gostava daquilo”.

Por gostar de matemática, tentou apostar na carreira de contador e fez um curso de técnico em contabilidade, porém, recusou-se a trabalhar em escritórios. “Não conseguia ficar preso dentro de um escritório contando o dinheiro dos outros, com tanta música boa para tocar lá fora! Ficava deprimido. Nunca fiquei muito tempo em empregos, eram no máximo quatro meses até eu já estar na noite de novo. Quando acabava o dinheiro, eu arranjava outro trabalho, afinal, tinha de cuidar da minha mãe. Já diz o ditado: mãe é uma só”. Em 2000, realmente se firmou como bandolinista. Estudou na Escola de Música Villa-Lobos, fez curso técnico em bandolim – época em que já tocava nas rodas de samba e choro de Santa Teresa e Lapa. Estudou técnica com o bandolinista Henry Lentino e Paulo Sá (Dr. em bandolim), harmonia e percepção na Escola de Música IanGuest (Cigan) e depois no projeto Escola Portátil de Choro.

Como também tocou muito samba suburbano em sua carreira, teve a oportunidade de apresentar-se com artistas consagrados da música brasileira, como: Beth Carvalho, Carlos Caetano, Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Almir Guineto. Em sua jornada como compositor, a primeira banda que gravou sua músicas foi o Grupo Fundo de Quintal, e consequentemente outros grupos do Rio de Janeiro.

Com muita garra, conseguiu estudar italiano por dois anos no Consulado Italiano de Copacabana. “Não tinha um tostão para pagar o curso, então conversei com o diretor geral do Consulado. Expliquei minhas condições


financeiras e disse a ele que tinha planos de estudar na Itália, mas que seria impossível ganhar uma bolsa de estudos no país se eu não falasse a língua. Ele me olhou e disse: ‘tudo bem, você paga somente R$10 por mês, mas tem que ter as melhores notas e fazer uma apresentação aqui no Consulado. E claro, aceitei com um sorriso escancarado na mesma hora”.

Em 2007, dois anos depois que o câncer de pulmão levou sua mãe, Gaio de Lima chega à Inglaterra. “Aprendi a falar inglês aqui e foi dificil, mas porque sempre tive essa vontade louca de me expresser adequadamente em todos os ambientes que frenquentei, acho que isso ajudou”. Gaio percebeu que no cenário musical europeu as pessoas só conheciam o Brasil pela bossa nova, forró, sambas de escola de samba e olodum.

“Quando cheguei aqui, eu tinha um repertório de choro e samba gigante, mas dificil de ter gente para tocar com propriedade. Não existia um pedacinho de Lapa e criar um seria quase impossível...mas só quase”.

Na Inglaterra, Gaio de Lima tem um diploma de Musicianship in Jazz e começou em 2013 seu mestrado em Estudos Africanos. “Minha vida é aprender. E nessa busca pelo conhecimento algumas pessoas dizem que também aprendem comigo”. Ele também faz parte de projetos musicais variados e trabalha em várias áreas no cenário musical britânico, se apresentando em casas de jazz, teatros e festivais.

Seu projeto de vida é destruir fronteiras. “Não consigo viver em um mundo em que as pessoas pensam nas linhas imaginárias que dividem a gente, a linha de países. Isso é ficção cinetífica para mim (risos). Essas linhas foram marcadas e agora todo mundo acredita que isso faz uma diferença entre as pessoas. Uma das formas mais fáceis de destruir isso é usando a arte”, acredita o músico.


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