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PA R A A N O VA G E R A Ç Ã O D E PA I S

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N NOVA!

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MODA Jogos de verão ENTREVISTA João Gordo versão papai VIAGEM Berlim em família MÚSICA No show do Pequeno Cidadão PARA CRIANÇAS Design, livros, cinema, tendências e MUITO +

edição PREMIUM VERãO 2009/10 R$12 ISSN 2176-6371

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R$9,90

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sCARTA AO LEITOR

A história da revista que você tem nas mãos começou a ser escrita em um feliz reencontro de amigos. No ano passado, revi a designer - pernambucana da gema - Silvana Catazine. Depois de uma temporada em revistas da Editora Abril, em São Paulo, onde nos conhecemos, ela ganhou o mundo. Passou por Portugal, Londres e agora havia fincado pé na Espanha. Designer e artista visual, Silvana ainda estava “estagiando” numa nova profissão: ser mãe. Com a pequena Valentina nos braços, me contou da dificuldade de encontrar uma revista que refletisse o estilo dos pais contemporâneos. Inquieta como sempre, queria dar um revés nessa história. Assim começou a idealizar a Naif Magazine. Lançada na Espanha no outono de 2008, nossa “filha” de papel rapidamente nos encheu de orgulho. Nem bem tinha nascido, foi selecionada para uma das mais importante feiras de revista do mundo, a Colophon, em Luxemburgo. Depois, aprendeu a falar inglês e começou a mochilar pelos EUA, Japão, Inglaterra, Alemanha... onde também é distribuída atualmente. Logo surgiu o desejo de planejar a segunda filha e criá-la no Brasil. Outro feliz encontro tornou o desejo possível. A publicitária Janaina Pereira abraçou com a gente o projeto. Dividiu o tempo entre seu pequeno Joaquín, de 2 anos, e a nova filha que ajudava a vir ao mundo. O resultado: depois de meses de gestação, você agora tem em seus braços a recém-nascida n.magazine, a revista para pais que, como Silvana e Janaina, desejam uma publicação que fale sua própria língua, que tenha seu estilo, que vá muito além do horizonte rosa e azul-bebê. Moda, arquitetuta, design, tendências, estilo de vida, arte, cultura e uma infinidade de temas que rodeiam o universo infantil vistos sob uma nova ótica. Uma revista que inspira, que resgata a nostalgia da infância, que surpreende. Bem-vindos a n.magazine, a revista para a nova geração de pais. Eduardo Burckhardt Esta edição é dedicada a nossos pais


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72 Teste Bebê canguru

Primeira viagem

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Moda Minigames

Sonhos

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Gastronomia Ferran Adrià para menores

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Vitrine

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Check-in

8 Colaboradores

sSUMÁRIO

entrevista

PERFIS

Música

O polêmico vocalista da banda punk Ratos do Porão e apresentador da MTV conta como a experiência de ser pai mudou a sua vida e o tornou mais sensível.

Conheça seis artistas que estão focando seu trabalho no universo infantil e fazendo design, moda, literatura e animação de primeira linha para crianças.

Entramos com exclusividade nos bastidores do show do grupo Pequeno Cidadão e contamos o que acontece quando pais e filhos dividem os camarins e o palco.

João Gordo

Pense pequeno!

Escola de rock


Portfolio Yeondoo Jung

Descubra os parques, lojinhas, brechós, cafés e bairros mais descolados da efervescente capital alemã a bordo das bicicletas de uma família easygoing

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98 Comic

Bate-papo Joe e Louis Borgenicht

Berlim no pedal

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Cultura Literatura livros

Beleza Praia à vista! Viagem

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Cultura Onde vivem os Monstros

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Social Sorria, você está na Amazônia

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Exposição Art versus malaria

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MODA

DEBAT E

Viajamos à Espanha para fotografar a moda brasileira que vai fazer bonito neste verão - e que parou o tradicional Mercado Central de Valência.

De tecido ou descartáveis: qual dos modelos é menos prejudicial ao meio ambiente? Essa ainda não é uma pergunta tão fácil de responder...

Meu verão europeu

O dilema das fraldas


Ilustração: Andre Neves

sCOLABORADORES

TEXTO ERIKA KOBAYASHI Gosta de desenhar o mundo e a poesia dos encontros com suas letras e não pisa em flores caídas no chão desde criança. Nascida em São Paulo, jå morou no Rio e em Paris e se sente em casa em uma mesa de cafÊ e com uma boa conversa.

FOTOGRAFIA PEDRO LOES Foi assistente de direção antes de ir ao exterior estudar fotografia. Hoje, suas lentes dividem-se entre projetos pessoais e fotos para revistas como Vogue RG e TPM. O cheiro de grama o faz voltar aos tempos de moleque no Rio de Janeiro.

MODA MARCIO BANFI Stylist, artista plåstico e professor de moda, faz publicaçþes, catålogos e desfiles. Trabalhou com o grupo Fischerspooner na Bienal de São Paulo e no Brazil’s Next Top Model. Da infância, lembra do medo de tudo, principalmente da escola.

TEXTO CAROLINA TARR�O Diretora de revistas da Editora Abril por vårios anos, hoje tem uma empresa de comunicação. Desde pequena, gosta de ouvir e ler histórias. Agora, lê tambÊm para seus filhos, Ana e AndrÊ. Sorvete de dulce de leche lembra sua infância na Argentina.

FOTOGRAFIA DEBBY GRAM Uma das mais inovadoras fotĂłgrafas de moda do Brasil, tem ensaios publicados em revistas nacionais e de paĂ­ses como Argentina e Espanha. A criatividade intensa nĂŁo ĂŠ de hoje: ela e sua irmĂŁ adoravam viver no mundo da fantasia, literalmente.

FOTOGRAFIA Ivan Shupikov Começou fotografando skate hĂĄ 20 anos e divide-se entre ensaios para sites, revistas e publicidade. No tempo livre, fotografa personalidades do mundo alternativo para seu primeiro livro. Sua avĂł “tentandoâ€? ensinarlhe russo ĂŠ a cena preferida da infância.

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DIRETOR EDITORAL EDUARDO BURCKHARDT eduardo@naifmagazine.com DIRETORA DE ARTE/ PROJETO GRà FICO SILVANA CATAZINE \PVPiX]T silvana.catazine@naifmagazine.com ?0A00=>E064A0pš>34?08B DIRETOR CRIATIVO JOSEAN VILAR josean@naifmagazine.com PRODUTORA EXECUTIVA/PUBLICIDADE JANAINA PEREIRA janaina@naifmagazine.com EDITORA ROC�O MACHO rocio@naifmagazine.com EDITOR DE FOTOGRAFIA JAVIER FERRER VIDAL EDITORA DE MODA ANALIA LANFRANCO

COLUNISTAS CAROLINA TARRĂ?O NEIDE OLIVEIRA SANDRINE BAILET COLABORARAM NESTE NĂšMERO TEXTO: Carline Piva, Erika AraĂşjo, Erika Kobayashi, Manuela Nogueira, Marcela Vilas Boas, Neide Oliveira, Rafaella Guerrero, Roger Omar. FOTOGRAFIA: Bruna Sanches, Carline Piva, Debby Gram, Davina Feinberg, Dubes SĂ´nego, Ivan Shupikov, Junior Reis, Pedro Loes, Yendoo Jung , Carlos Gallego ILUSTRAĂ‡ĂƒO: Bwooka, Luis Demano, Remka, Ricar

PRODUĂ‡ĂƒO DE MODA: Marcio Banfi, Cristina Naumovs (direção de arte) REVISĂƒO: Ingo Burckhardt REDAĂ‡ĂƒO Rua Fradique Coutinho, 137 SĂŁo Paulo – SP 05416-010 tel.: (11) 3063-2049

EDITORA EDITORA FLOP LTDA. Avenida AngĂŠlica, 2.582, cj. 11. SĂŁo Paulo – SP 01228-200 tel. (11) 3237-3210 IMPRESSĂƒO: IBEP GrĂĄfica

CAPA FotĂłgrafo: Kristina Fender Estilismo: Christina Kapongo Modelo: Margot Vestido Vintage CABEZA Y CUERPO Flor ACCESSORIZE

A capa faz parte de um projeto artístico de Kristina Fender que incentiva as crianças a inventarem suas próprias fantasias para as fotos.

Em parceria com


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SONHOS

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Sonhei que estava dormindo e começou a fazer muito calor. Saí e o céu estava vermelho. Entrei numa geladeira e fiquei dentro dela por duas semanas. Quando saí da geladeira, o céu ainda estava vermelho, e depois de um ano continuava da mesma cor. Emmanuel, 9 anos / México


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© Ilustrado por Remka © elmonstruodecoloresnotieneboca

SONHOS

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Elmonstruodecoloresnotieneboca é um projeto no qual artistas de todo o mundo desenham os sonhos descritos por crianças. Quer ver o sonho de seu filho ilustrado na n.magazine? Envie um email para elmonstruodecoloresnotieneboca@gmail.com contando a história. Não esqueça de colocar a palavra SONHO no “assunto” do email.


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PRIMEIRA VIAGEM

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pA

arte da esperap

Por Neide Oliveira Ilustraçao Bwooka

Pela primeira vez neste “estado interessante” estou descobrindo que a gravidez é uma sucessão de esperas e dilemas. Tudo começa com o resultado positivo. Com ele na mão, duvido que haja uma futura mamãe que não caia no dilema: conto ou não para todo mundo? São pelo menos dois meses nos quais se espera o desenvolvimento do bebê antes de sair alardeando aos quatro ventos que vem por aí um herdeiro. Depois começam os exames – e os termos técnicos que, como mágica, tornam-se parte do nosso vocabulário do dia-a-dia. Os que detectam síndromes e doenças são esperados com uma apreensão danada. Depois deles, acreditamos que é só curtir a gravidez, certo? Ledo engano. Aí começa uma sucessão de esperas. Esperar para saber qual será o sexo do bebê; esperar que ele se mexa; que um nome incrível caia do céu (e não do RG do tataravô); que aconteçam contrações de treinamento; que o bebê se torne “viável” e possa sobreviver fora do útero caso algo aconteça (toc, toc, toc); que ele cresça na mesma medida que os bebês das amigas ou das estimativas dos sites especializados (dos 30 que estão como “favoritos” no nosso browser); que os médicos sempre nos informem sobre o quão normal (ou surpreendentemente positivo) é o desenvolvimento do bebê; que ele se posicione corretamente; que se manifeste para o nascimento e, UFA!, que o parto não seja tão dolorido quanto todo mundo diz. Entre uma aflição e outra, há ainda questões menores, como o tamanho da barriga, o ganho de peso e tantas outras coisinhas que, espera-se, aconteçam do jeito que esperamos que seja. Mas talvez o que mais me aflija é que, pela primeira vez na vida, as coisas não dependem tanto de mim. Mesmo seguindo todas as regrinhas de uma vida saudável, quem dita o ritmo de tudo é o bebê. Eu ainda não o conheço pessoalmente, mas sei que vou ter que esperar que, no seu ritmo, ele resolva as coisas. Se vou ou não conseguir trabalhar até a véspera do parto, se preciso de pausas mais longas no meio do dia, se vou ter um nascimento normal ou cesária... Tudo vai depender da resposta dessa criaturinha que, nem as caras no mundo deu, já mudou o meu por completo. Minha mãe sempre dizia que suas amigas - ou ela - estavam “esperando” ao invés de se dizer ou avisar que alguém estava grávida. Hoje entendo o porquê.


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CHECK-IN

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pO crème

de la crème da decoração infantilp Por SANDRINE BAILET, de Paris

O setor do design feito especialmente para as crianças está em plena efervescência. Pipocam pelo mundo iniciativas de profissionais inovadores que decidem voltar seu trabalho para a escala mini. Os mais renomados estavam presentes na última edição do Maison & Objet Paris, salão internacional dedicado ao design e à decoração realizado na capital francesa em setembro. Nossa colunista pinçou as melhores tendências e novidades da feira: Jeeves e Wooster: cabeças iluminadas A marca britânica Innermost (innermost.net) surpreendeu a todos com os divertidos lustres de teto Jeeves e Wooster, no formato de chapéu coco e cartola. Segundo seu criador, o designer Jake Phipps, os chapéus são elementos que identificam uma sociedade, uma cultura, uma raça. O modelo coco, por exemplo, é um ícone da cultura britânica. Essas luminárias são perfeitas para o quarto de garotos. Tomara que lancem uma versão feminina! VolumeZero: mini-móveis, maxi-práticos A empresa holandesa Kidsonroof (kidsonroof.com) apresentou na feira a coleção VolumeZero, com móveis de pinus para crianças. As peças são entregues em placas e a montagem é feita sem o uso de parafusos ou pregos. Tudo a um preço muito camarada e com design lúdico. A coleção é composta de uma mesinha, uma cadeira e um banco oferecidos em várias cores e estampados lindos. Pauli: estante ou banco? A marca austríaca Perludi (perludi.com) lançou o mais novo filhote da sua coleção Please Touch! de móveis ecológicos para crianças. Como seus irmãos mais velhos, o móvel Pauli é feito de compensado de bétula revestido por feltro. Com painéis inclinados, seu interior é ideal para guardar livros. Também pode ser usado como banco: os painéis horizontais e transversais servem de assento e encosto. Sobrepondo as peças, vira uma estante quadrada. Tut Tut: autódromo de bolso É o mais recente lançamento da pequena marca alemã Pling Collection (pling-collection.com). Trata-se de um jogo composto de 12 cartas quadradas (9,5cm x 9,5cm) de cartão impresso e de um carrinho de madeira. Como se fosse um quebra-cabeças, as cartas se juntam até formar um circuito de corrida – ou de ruas, depende da imaginação. Tut Tut é ideal para espaços pequenos ou para levar em viagens. Além de seu design ser muito depurado e elegante.


Arte e cultura para vestir e divertir

www.minihumanos.com.br

RJ-21.3239-1768 SP-11.3628-6070


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Brincar de ir à lua é mais bacana quando se tem sua própria nave espacial - e entra nela de verdade! Feitos de papel ondulado, os brinquedos da Isa Toys permitem que a criança entre, saia, abra... interaja. Nave, castelo e casinha podem ser pintados por eles - e levados para todos os cantos.

http://toy-a-day.blogspot.com

mobilesmanufaturas.com.br

isatoys.com

Travessuras de papel

ISA TOYS

Delicados, coloridos e com formas simples, mas mutantes ao sabor do vento ou do toque. Os móbiles idealizados pelas arquitetas Eliane Coelho e Priscila Cañedo, feitos de materiais como madeira, isopor ou pvc, hipnotizam os bebês - e os pais também.

Doce e suave balanço

MÓBIlES E out ras MANUFATURAS

A proposta desse blog é oferecer um toy art por dia, na forma de boneco de papel dobrável. É possível baixá-los em PDF, imprimir e “construílos” com seus filhos em casa. Já pensou fazer uma luta entre Barack Obama e Darth Vader de papel?

Um ano de diversão

Toy a Day

vit rine

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A DE AURÉLIA

Desmontado, ele cabe numa bolsa grande. Entra no carro sem traumas e quebra um tremendo galho em viagens. O Berço Explêndido foi originalmente criado pelo designer Paulo Pelá Rosado como um modelo descartável, em papelão, para ser distribuído em situações de emergência, como desastres ambientais que deixam muitos desabrigados. Depois, ele adaptou o projeto tendo em vista também os pais que precisam de um berço prático para viagens ou emergências. É feito em plástico ondulado e a montagem se dá por meio de encaixes, sem o uso de cola ou grampos. É recomendado para bebês até 9 meses.

Panelinhas, bulezinhos, frigideirinhas... Uma cozinha completa no diminutivo, com direito até a um fogãozinho de papelão! Brincar de casinha ganha todo um charme com os artigos dessa marca. Para as filhas se divertirem e as mamães lembrarem de seu tempo de criança.

bolaoito.com.br (sob encomenda)

adeaurelia.com.br

Soninho vapt vupt

BERÇO EXPLÊNDIDO

Brincadeiras de antigamente

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ENT REVISTA

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LADO

B

Vocalista da banda punk Ratos de Porão, apresentador da MTV, polêmico e boca suja, João Gordo conta como a experiência de ser pai o tornou uma pessoa mais sensível e menos politicamente incorreta — nas devidas proporções Por ERIKA KOBAYASHI Fotos IVAN SHUPIKOV


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ENT REVISTA

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E

xtravasar a emoção do nascimento do primeiro filho gritando “Puta que o pariu!” não é para qualquer pai. Mas quando o pai em questão é João Gordo, a filha recém-nascida nos braços foi a deixa para ele destilar seu humor ácido. “Qualquer outra mulher teria ficado ofendidíssima, mas entendi o que ele quis dizer”, diz a produtora Viviana Torrico, mulher de João Gordo e mãe de Victoria, hoje com 5 anos. Ela ri, diz que apenas levantou a mão sinalizando: “Olha, estou aqui, eu sou a mãe…”. João também sorri. Os dois contam a história na frente dos filhos, Victoria e Pietro, 4 anos, que brincavam no outro canto da sala, pois João é assim mesmo, verdadeiro e sem papas na língua. Mentira e hipocrisia passam longe quando o assunto é a educação dos filhos: “A gente tem a política de que falar a verdade é sempre a melhor política”, diz o músico. Ele tenta estimular os filhos a seguirem o exemplo do pai: “filho bonzinho é igual a papai bonzinho”. O “papai bonzinho” (para o desespero dos radicais do movimento punk que o acusam de ter virado a casaca) é presente e preocupado: fez cirurgia de redução do estômago para poder ser pai, tenta cuidar da saúde (a entrevista aconteceu antes de

ele partir para uma temporada num spa com a filha para enxugar parte dos seus 148 quilos), não joga lixo no chão, assiste Pernalonga e canta Ramones com as crianças. Aos 45 anos, João Gordo assume que não acreditava na instituição família porque faltava a compreensão em casa. Agora ele tem. Essa história de você ter se regenerado depois de casar e ter filhos é papo da mídia ou é verdade? Bom, antes de casar com a Vivi, eu estava chegando no fundo do poço. Ela teve mó coragem porque eu, naquela época, não tinha a mínima condição de nada…Só de enlouquecer, só isso. E de morrer cedo. Mas e aí? Achei que minha profissão de louco tinha acabado… Agora que eu achei uma mulher que eu amava, era hora de montar uma família. Foi o que aconteceu. Foi tudo planejado. Por mais louco que as pessoas achem que o João Gordo deva ser. As pessoas mal sabem que a gente é uma família ponta firme pra caramba com as crianças, saca? Super presente. Pelo nosso padrão de Família Addams, as pessoas acham o


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perfis

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Pense pequeno!

Eles são grandes artistas com parte do seu trabalho focado no universo infantil. Donos de propostas de sucesso em moda, televisão, literatura e design, conquistaram um mercado que de pequeno não tem nada. Falam a mesma língua que a nova geração de pais e provam que é possível ir além do convencional na elaboração de produtos para crianças. Por RAFAELLA GUERRERO e EDUARDO BURCKHARDT Fotografia pedro loes

metralhadora criativa

“Meu sonho é estampar o mundo”. A designer Sabrina Arini, de 29 anos, dispara essa frase em meio ao turbilhão de palavras que processa por minuto. Elétrica, é com a mesma velocidade, própria de quem vive em uma constante profusão de ideias, que ela vem cumprindo sua meta. Suas estampas de colorido intenso e formas arredondadas fazem os olhos fixarem-se de imediato em carteiras, azulejos, relógios, adesivos, imãs, bolsas, luminárias, cosméticos... um mundo de artigos. Porém , o xodó de Sabrina são as peças de papelão feitas para crianças por seu estúdio, o Jaya!. Nos banquinhos, mesas reduzidas e maletas, ela abriu mão do seu colorido tradicional para dar vazão à criatividade dos pequenos, que podem pintar os desenhos de monstros divertidos, animais, flores e formas orgânicas. As peças fizeram tanto sucesso que, nem um ano depois de sua criação, foram parar no MoMa, o conceituado Museu de Arte Moderna de Nova York. “ Foi um choque, e me deu incentivo para produzir mais e mais”, diz. Sua mais recente coleção, de banquetas de papelão em forma de bichos, comprovam que Sabrina segue, mesmo, com a criatividade a mil por hora.


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gast ronomia

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FERRAN ADRIa PARA MENORES Com a assinatura do aclamado chef espanhol, a Fundação Alícia, perto de Barcelona, desenvolve projetos científicos e educativos para tornar a alimentação das crianças mais saudável Por Marcela Vilas boas

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uando a espivetada Alice persegue o Coelho Branco até o País das Maravilhas, descobre um mundo enigmático e cheio de surpresas. Dona de uma curiosidade imensa, a personagem criada pelo britânico Lewis Carrol em 1865 foi a inspiração para unir as palavras “alimentação” e “ciência” e nomear o centro de pesquisas gastronômicas comandado pelo chef catalão Ferran Adrià. Não por acaso. Basta passar pelas paredes envidraçadas da Fundação Alícia, localizada a 60 quilômetros de Barcelona, para constatar que, apesar de devidamente espanholizado o nome, muito da curiosidade da Alice de Carroll permeia as pesquisas realizadas no complexo. E o melhor: crianças são bem-vindas para desbravar esse País das Maravilhas modernizado. Pioneiro da gastronomia molecular, Ferran Adrià ficou mundialmente conhecido pelo uso de novas tecnologias para desconstruir pratos tradicionais e descobrir sabores e texturas. Para chegar a criações inusitadas, o chef e sua equipe passavam meses numa cozinha/laboratório desenvolvendo aparatos e testando técnicas que resultavam nas famosas espumas salgadas e gelatinas quentes, iguarias servidas a um seleto público em seu restaurante, o El Bulli. Porém, em 2004, Adrià recebeu o convite para ampliar seu campo de ação e, de certa forma, ceder seus conhecimentos em benefício de uma alimentação melhor para todos. O chef uniu sua experiência em novas tecnologias


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música

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Arnaldo Antunes observa seus filhos no camarim do Centro Cultural São Paulo: “Percebi um amadurecimento grande deles por conta do projeto”


Família, videogames, fama, nervosismo e muita, muita diversão: entre com a gente nos bastidores do show do grupo Pequeno Cidadão, o fenômeno em música infantil do momento Por Manuela Nogueira Fotos Junior Reis e Bruna Sanches

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m show de rock está prestes a começar. A bateria, os nove microfones, o teclado, as três guitarras e o baixo já estão a postos no palco do Centro Cultural São Paulo. Mais de 350 pessoas enchem a plateia, algumas ficam de pé em suas cadeiras, outras sentam-se pelo chão. As luzes se apagam e uma apresentadora anuncia a chegada da banda. É quando entram em cena os músicos Edgard Scandurra, Arnaldo Antunes, Antonio Pinto e Taciana Barros. Tudo normal, não fosse por um detalhe: eles vêm acompanhados de seus filhos. São sete crianças e um acima dos 20 anos, as verdadeiras estrelas do espetáculo. Foi a última apresentação de 2009 do grupo que se formou há pouco de mais de sete meses. A ideia de juntar a turma toda foi de Taciana. “Eu queria registrar esse momento de amor”, diz. “Já pensou que bacana quando eles revirem as fotos e vídeos daqui a dez anos?” Taciana não queria apenas fazer música para seus filhos, mas também com eles. Então falou com os outros músicos, já amigos de longa data, e assim surgiu o Pequeno Cidadão, uma das melhores novidades da música infantil brasileira nos últimos anos. Todas as faixas do CD contam com a participação de pelo menos uma criança. Uma das canções foi composta

pela Manu, de 9 anos. Daniel, o mais velho, de 21, também fez a sua. A faixa Anjinho já existia antes da banda: Taciana a escreveu para ninar Luzia, sua filha. É nesse tom familiar que assuntos como largar a chupeta, não ter medo de lagartixa e cumprir suas obrigações são abordados com muito senso de humor, palavras fáceis e solos de guitarra. No show, os filhos cantaram, dançaram e alguns até arriscaram tocar um instrumento. A apresentação durou quase duas horas. No final, quando grande parte da plateia já tinha invadido o palco e a proporção de criança para adulto estava por volta de 20 por 1, todo mundo pediu bis. E o show rolou por mais uns vibrantes 15 minutos, momento em que alguns pais juntaram-se aos filhos para engrossar o coro é sinal de educação / fazer sua obrigação / para ter o seu direito de pequeno cidadão. CAFÉ COM LEITE Cerca de cinco horas antes desse final apoteótico, os preparativos começavam na casa da Taciana. Dalva e Catarina, suas sobrinhas, estão almoçando – elas fazem apresentações de circo durante algumas canções – enquanto Luzia assiste à TV. Perto das três da tarde, Manu e Juca, os filhos de Antonio Pinto, chegam com a babá. A expectativa do show parece não afetar ninguém. Eles brincam e conversam como se aquele fosse

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música

Escola de rock

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Preparação para o show: treino de voz, maquiagem e concentração, mas sem deixar de lado as brincadeiras típicas de qualquer criança

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música

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um dia qualquer. E provam que não é nem um pouco aceitável dividir apenas dois Nintendo DS entre cinco pessoas. Logo depois, é a vez de Arnaldo chegar com os filhos de Edgard Scandurra: Joaquim e Estela, a mais nova do grupo, com 5 anos. Fica nítido que o relacionamento entre eles extrapola os compromissos profissionais. A maioria das crianças estudou na mesma escola. Arnaldo é padrinho de Joaquim Scandurra e Manu e Juca Pinto são vizinhos de muro de Luzia Barros. Entre a garotada, o comportamento é o mesmo observado em qualquer pátio de colégio. Eles se dividem basicamente em dois grupos: meninos e meninas. Juca (que já aprendeu a escrever seu nome, mas ainda não P-e-q-u-e-n-o C-i-d-a-d-ão) e Joaquim passam a maior parte do tempo juntos, jogando videogame. As meninas também se unem, conversam sobre o que fizeram no dia anterior, um sábado (Manu tinha ido à Galeria do Rock comprar um tênis novo), e elaboram comentários sobre a maquiagem e o figurino uma das outras.

Galochas coloridas, meia-calça arrastão e flores no cabelo – tudo combinandinho – compõem o modelito das garotas. Elas ainda usam sombras brilhantes no canto dos olhos. Os rapazes, desde já mais práticos, vão de bermuda e camisa bem larga. Todos alimentados, vestidos, prontos. Está na hora de ir para o show. São quase quatro da tarde quando a van deixa a casa de Taciana. REUNIÃO DE PAIS Arnaldo é o único representante dos artistas adultos que acompanha as crianças nesse momento. Taciana, Edgard e Antonio já estão desde cedo no Centro Cultural fazendo a passagem de som. Nas primeiras apresentações, todos os integrantes, inclusive os filhos, participavam do processo, mas a ideia foi abortada para evitar acidentes. “Eles se desgastavam muito, ficavam nervosos. Quanto mais em cima da hora chegarem, melhor”, explica Taciana. Outros cuidados são tomados para não atrapalhar o cotidiano dos filhos. Para começar, em alguns programas de


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música

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TV só os pais participaram. De olho no calendário escolar, as apresentações em São Paulo acontecem sempre aos fins de semana e as poucas viagens que fizeram foram para o interior do estado. Dentro da van, ainda nenhum sinal de tensão-pré-exposição-pública. Todo mundo vai tranquilo, ouvindo música, conversando e, claro, jogando o inseparável videogame. Arnaldo tenta cochilar, mas Estela insiste em bater duas bonecas contra sua cabeça. Ele não se importa. “É uma satisfação muito grande fazer esse trabalho.” O compositor diz que tem percebido um amadurecimento dos filhos por conta do projeto. “No começo, Tomé não queria participar dos shows, tinha medo de errar na frente dos outros. Agora ele se apresenta numa boa e sua autoconfiança está melhorando.” Seu outro filho, Braz, em compensação, surpreendeu Arnaldo com tamanha desenvoltura. “Não esperava que ele se saísse tão bem. Ele canta sozinho uma música quase inteira!”, conta.

po GRUPO pequeno “ cidadão não é nenhum sandy & junior. p ” Arnaldo Antunes,

sobre a cautela com a exposição das crianças na mídia


VIAGEM 48

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VIAGEM

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Duas gêmeas de seis anos, pais easygoing, um par de bicicletas e uma cidade efervescente para desbravar. Pedale junto com essa família pelos bairros mais descolados da capital alemã Por Rocio macho Fotografia javier ferrer VIDAL

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bicicleta quase não faz esforço para percorrer as ruas que mais parecem tapetes. Na garupa, do alto das suas cadeirinhas, Fedra e Mina sentem o vento aliviando o calor do verão europeu. Um passeio sem pressa, no ritmo delas, com um roteiro aberto às descobertas que podem surgir ao virar de uma esquina. Foi assim que o fotógrafo Javier Ferrer Vidal e a produtora de moda Analia Franco decidiram conhecer e apresentar para suas gêmeas a multifacetada Berlim, uma cidade que merece ser apreciada na agradável velocidade da bicicleta. Vinte anos após a queda do famigerado Muro, a capital alemã ainda está descobrindo sua identidade, num paradoxo entre o antigo e o que de mais novo surge no campo das artes e do design. Zonas da antiga Alemanha Oriental, como Mitte, foram tomadas por galerias de jovens artistas, bares e restaurantes descolados. Na região de Schöneberg, reduto de intelectuais e da comunidade gay desde o início do século XX, jovens famílias circulam por suas lojinhas coloridas, mercados de rua e cafés e hotéis de design. Por conta desse entorno cool e da proximidade de belos parques, foi por ali que Javier, Analia e suas filhas decidiram fincar sua “base” em Berlim. E até toparam dormir amontoados em uma mesma cama gigante do Quentin Design Hotel - que estava com falta de quartos familiares -, o que acabou virando uma festa para Fedra e Mina, que


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MODA

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Meu verao europeu Fotograf ia JAVIER FERRER VIDAL

Produção de moda ANALIA LANFRANCO

MARTINA Saia BALANGANDÃ Biquíni L’ÉT É


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MODA

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MINIGAMES Fotografia Debby Gram Produção de moda Marcio Banfi Direção de arte Cristina Naumovs


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BIANCA Viseira e munhequeira AMERICAN APPAREL Camiseta COLCCI Saia BABOLAR para CENTAURO Tênis REEBOK Raquete WILSON para CENTAURO CATERINA Camiseta ADIDAS vintage acervo stylist Saia ELESSE para CENTAURO Tênis ASICS Bolinha WILSON para CENTAURO Raquete WILSON para CENTAURO


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N.MAGAZINE

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O DILEMA DAS FRALDAS

Qual é o modelo menos prejudicial para o meio ambiente: as plásticas descartáveis ou as de tecido? Atenção, responder a essa pergunta não é tão fácil quanto parece... Por Neide Oliveira Ilustração SILVANA CATAZINE


pestudos indicam que não “ há diferença significat iva entre o impacto ambiental causado pelo uso de fraldas de t ecido ou os modelos descartáveisp ”

ALTERNATIVAS Possíveis soluções aparecem com frequência tanto do lado dos ambientalistas como da indústria. Nos EUA e Austrália, por exemplo, os pais já contam com a praticidade do Diaper Service. São lavanderias que alugam e entregam fraldas de tecido para as famílias, creches e hospitais e recolhem as peças sujas. Segundo os especialistas, a lavagem em grande escala pode minimizar o gasto de água e energia e a emissão de poluentes se comparada à lavagem que seria realizada em casa. Atualmente, há um Diaper Service em cada estado americano. Uma alternativa que tem ganhado força são os modelos ecológicos. Geralmente com desenho idêntico ao das descartáveis, são fabricadas com produtos menos poluentes. Existem modelos produzidos em plástico biodegradável, com matéria-prima que provém de reservas renováveis e com a parte absorvente livre de cloro. Também há no mercado fraldas que se decompõem em até 150 dias. Outra opção que começa a atrair simpatizantes são as fraldas com uma capa, impermeável ou não, que pode ser preenchida com compressas absorventes descartáveis de material menos agressivo ao meio ambiente. No Brasil, o modelo biodegradável ainda não existe, mas a segunda opção, sim. A engenheira química Bettina Lauterbach, fundou há três anos a única fábrica de fraldas de pano do país, a Fralda Bonita, e patenteou o modelo que pode ser recheado com tecidos absorventes ou mesmo as papeletas descartáveis. As compressas podem ser usadas até quatro vezes - em caso de xixi. Para se ter uma idéia, a compra de 40 unidades equivale ao uso de 5.500 fraldas descartáveis, já que as de pano podem ser reutilizadas cerca de 200 vezes. “Além do menor impacto ambiental, há consequências até mesmo no psicológico das crianças, que aprendem mais cedo a usar o banheiro”, explica Bettina. REAPROVEITAMENTO A capacidade de reciclagem ainda é mínima frente à montanha de fraldas utilizadas em todo o mundo. A empresa canadense Knowaset é uma das poucas que processa fraldas. Ela tem estações de reciclagem no Canadá e na Holanda, além de projetos implantados na Inglaterra e na Ásia. A filial holandesa tem capacidade de processar 70 mil toneladas de fraldas por ano. Cada tonelada reciclada equivale a uma economia de 8.700 litros de água, 400 quilos de madeira ou 145 metros cúbicos de gás natural. As peças são lavadas e os materiais transformados em telhas e outros objetos de plástico. A estimativa é que, nos próximos 5 anos, mais de 20 estações de reciclagem sejam implantadas na Europa. Seria essa a alternativa para o fim do dilema?

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n.magazine

As fraldas descartáveis pareciam uma evolução natural às de tecido. Surgiram como uma bênção para os pais em tempos em que cada minuto vale ouro. Porém, com a massificação desses modelos, o sinal vermelho dos ambientalistas começou a piscar. Segundo dados da associação americana Real Diaper Association, as fraldas plásticas usadas correspondem a 4% do lixo sólido nos Estados Unidos, e 92% delas vão para os aterros sanitários sem passar por nenhum processo de reciclagem. Estima-se que uma fralda demore entre 250 e 500 anos para se decompor e os componentes químicos que contém são poluentes. Diante desse cenário nada alentador, uma retomada das clássicas fraldas de tecido começou, ainda que modestamente, a se desenhar. Porém, pesquisas recentes comprovam que, ao contrário do que se imagina, elas não são totalmente inocentes. Essas fraldas devem ser lavadas a cada dois dias pelo menos, principalmente na máquina de lavar roupa, e a temperaturas mais elevadas que as roupas comuns devido ao perigo de contaminação com fezes. Tantos cuidados demandam mais energia e têm seu preço para o meio ambiente: além da água que se gasta para lavar, os detergentes utilizados no processo são contaminantes. Pesquisadores da Agência de Meio Ambiente do governo inglês analisaram a fundo o tema durante quatro anos e chegaram a uma conclusão desanimadora: não há diferença significativa entre o impacto ambiental causado pelo uso de fraldas de tecido ou descartáveis. Segundo o estudo Life cycle assessment of disposable and reusable nappies in the UK (Análise do ciclo de vida das fraldas reutilizáveis e descartáveis no Reino Unido), publicado em 2005, o uso de fraldas, de um modo geral, contribui para o aquecimento global, o aumento do buraco de ozônio, o esgotamento das reservas não renováveis e a contaminação da água, entre outros problemas. Segundo o estudo, trocar o bebê durante dois anos e meio, independente do tipo de fralda, equivale à emissão de dióxido de carbono de um carro que rodou de 2.000 a 3.500 quilômetros.


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Bem-vindos a Wonderland O artista plástico coreano Yeondoo Jung interpretou ao pé da letra desenhos feitos por crianças numa série de fotografias que revela todo o lirismo do imaginário infantil Por ROGER OMAR


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PORT FOLIO

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“I Want to Be a Singer”

Peixes voadores, flores do tamanho de edifícios, casas de ponta cabeça... Com lápis e papel na mão, as crianças idealizam em seus desenhos um mundo sem amarras, com uma lógica própria. Eles foram o ponto de partida do coreano Yendoo Jung para o projeto artístico Wonderland. Depois de coletar as imagens feitas por alunos de 5 a 7 anos de uma creche, Jung reuniu sua equipe de arquitetos e estilistas para dar vida aos cenários e situações mágicos criados pelas crianças. Duas regras não poderiam ser quebradas: eles tinham que tentar chegar o mais próximo possível dos desenhos infantis e as fotografias finais não sofreriam montagens nem alterações digitais. Um ano para a preparação do conceito, cinco meses de trabalho de campo e mais três meses para fazer as fotografias foi o tempo empregado para homenagear a expressão artística mais espontânea e barata da infância: o desenho. Yeondoo Jung conversou com n.magazine sobre este trabalho: Como surgiu a ideia de Wonderland? É difícil fotografar algo invisível como o pensamento ou o desejo. E um desafio ainda maior é captar as fantasias de uma criança. Não há realidade em seus desenhos, nem composição, nem gravidade, e as cores não se correspondem. Queria fotografar algo que fosse impossível de fotografar. Então tive a ideia de reunir ilustrações em uma creche. Depois, pedi a um estilista que fizesse réplicas exatas das roupas dos desenhos. Considero que as ilustrações são a ideia que as crianças têm do mundo e as fotografias o ponto de vista adulto.


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^ FENoMENO MONSTRUOSO

O conto infantil que já encantou gerações de crianças em vários países chega ao Brasil em dose dupla: um livro recém-lançado e um filme que vem por aí


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Quando um grupo de crianças visitou a Casa Branca recentemente, o presidente Barack Obama tinha que selecionar um livro para ler a seus pequenos compatriotas. Não por acaso, sacou um exemplar do Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are). A obra-prima escrita e ilustrada pelo americano Maurice Sendak em 1963 é considerada um marco na literatura infantil. Com apenas nove frases e imagens que provocam a imaginação, o livro ganhou alguns dos principais prêmios literários e foi traduzido para mais de 20 idiomas. Mais que isso: marcou gerações de crianças mundo afora, que cresceram sonhando com a história do garoto Max que se aventura numa ilha habitada por criaturas selvagens. A escolha de Obama é apenas um dos fatos que ilustra a febre que acompanha o lançamento do filme baseado no livro de Sendak. Dirigido por Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich), Onde Vivem os Monstros estreou nos EUA em outubro encabeçando a lista dos mais vistos no país. A estreia no Brasil, prevista para janeiro, foi antecedida pelo lançamento do livro (veja ao lado). Uma boa pedida para os pais é apresentá-lo aos filhos e deixar a imaginação dos pequenos voar antes de que os personagens “ganhem vida” na tela grande – e tornem o caminho inverso menos interessante.

Poucos autores conseguiram compreender tão bem quanto Maurice Sendak o universo infantil e transpor para o papel os pensamentos de uma criança. Onde Vivem os Monstros entra naquela categoria de livros que não arrebanha apenas fãs, mas fanáticos. Pululam na internet sites e fóruns que escarafuncham qualquer informação sobre o texto, o autor e, agora, o filme. Entusiastas que fazem as nove frases e a dezena de imagens ganharem novas vidas. É o caso do americano Cory Godbey, que vive na Carolina do Sul. Inspirado pela atmosfera mágica criada por Sendak, ele criou o blog Terrible Yellow Eyes (terribleyelloweyes.com) - Terríveis Olhos Amarelos, em português – numa referência a um fragmento do livro. O site recebe contribuições de ilustradores de todos os cantos do mundo, que reinterpretam em desenhos a história de Max. “O livro influenciou minha maneira de entender a arte e de me expressar nos desenhos, e o site é um tributo a ele”, diz Godbey. E o que achou do filme? “É magistral, perfeito”, sentencia. É esperar para ver – e quem sabe também ser fisgado pelas criaturas selvagens.

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LEIA ANTES DE ASSISTIR Pais, mães e suas regras são, na maior parte do tempo, um intransponível obstáculo no caminho das imperiosas vontades das crianças. Nesta história, o intrépido Max, encarnado em sua fantasia de lobo, se permite soltar as amarras e viver a liberdade total. Ele navega por dias e noites até chegar a uma terra de criaturas selvagens (wild things), dominá-las e ser coroado rei. Então, dá início à “bagunça geral”. Nesse momento de anarquia, até as imagens, rebeldes, tomam conta das páginas, “engolindo” as palavras do livro. A questão é que, paradoxalmente, experimentando a absoluta falta de restrições, Max percebe o quanto sente falta do aconchego. Com frases bem-medidas e imagens que atiçam a imaginação, o livro Onde Vivem os Monstros (Editora Cosacnaify) consegue falar dessas profundas questões num diálogo de igual para igual com as crianças. O livro foi adaptado para os cinemas (foto maior) e reinterpretado por ilustradores (acima)

Por Carolina Tarrío


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