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n.º 4 / Julho de 2016 / _editorial

Alfredo Tinoco foi ao longo de mais de trinta anos uma voz incontornável no mundo da museologia. A sua postura interventiva, a sua dedicação e disponibilidade para discutir e questionar os caminhos da museologia, são por demais conhecidas, assim como o seu compromisso ideológico em aliar a teoria do fazer museologia com uma postura prática sem qualquer receio de ser epitetado do que é que quer que seja. Falecido em Agosto de 2010, Alfredo Tinoco sendo para nós mais do que uma lembrança, mas uma referência e um exemplo neste querer fazer museologia que praticamos, de há muito que merecia uma evocação nestes Cadernos do Museu da Ruralidade. E merecia-o porque foi com algum espanto que nos finais dos anos oitenta do século passado (!), ouvimos falar diferente sobre museologia. Foi então que percebemos como a museologia comunitária é uma espécie de colmeia onde se trabalha e constrói o discurso museológico interagindo com os públicos, construindo a exposição com a comunidade, respondendo aos novos impulsos e às necessidades emergentes da sociedade. Nos encontros do MINOM (Movimento Internacional para uma Nova Museologia), que então se realizaram em Alhandra e em Portimão, o Tinoco era para nós uma espécie de voz motora do pensamento. Criticando, mas provocando a reflexão de forma lúcida, plena, pausada.

Um exemplo, pelas dinâmicas que provocava sem querer saber de primeiras páginas ou títulos, de medalhas ou vénias. Tratando toda a gente por igual e sabendo acrescentar sempre qualquer coisa a uma conversa. “Uma ocasião”, estávamos numa pastelaria na esquina da Calçada da Ajuda com a Junqueira (se não me engano a Chique de Belém), numa conversa acerca da organização de um encontro do MINOM que ocorreria em 1995, na Margem Esquerda do Guadiana. A manhã estava a meio e no topo da nossa mesa o Tinoco acrescentou aos copos e prato que já aí assentavam arraiais, uma maçã, sacando do bolso uma navalha e começando a descascar o fruto para completar o nosso petisco de meio da manhã. Às suas barbas, cabelo grande e voz rouca, para não falar do meu ar sempre desgrenhado, a lâmina aberta em cima de mesa fez aumentar os olhares de desconfiança da senhora que atendia atrás do balcão. Os dois percebemos o receio que cresceu aceleradamente na senhora. O Tinoco, preocupado, virouse para a senhora e descansou-a com um “não tenha medo, hábito de alentejanos”, e rimos os três. É a estatura de homem e museólogo que nos obriga a evocar aqui a figura de Alfredo Tinoco, num número onde a viagem escrita evoca outra figura maior da nossa cultura: Manuel Ribeiro. Um escritor que soube construir uma obra brilhante, mas ignorada, muito assente no conhecimento profundo das pessoas, dos seus falares, dos seus dizeres e dos seus anseios. Assim como ignorado é muito do nosso “património cultural” onde a indiferença faz escola. Num tempo de falta de referências, é no homenagear Homens com letra maiúscula como o Alfredo Tinoco e o Manuel Ribeiro que podemos ajudar a mudar olhares e a transformar o mundo em que vivemos.

Miguel Rego

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Alfredo

Tinoco

Num relance sobre trinta anos de incremento e manifestação, em Portugal, de uma museologia centrada de modo particular na sociedade, nas comunidades locais, nos seus problemas e expectativas e numa perspectiva de desenvolvimento sustentado escorado no património, é absolutamente incontornável a figura de Alfredo Tinoco (1949-2010), militante activo de muitas causas e em particular do Movimento Internacional para uma Nova Museologia1 (MINOM), tendo sido Secretário-geral da organização internacional deste movimento e Presidente da associação MINOM-Portugal. Partilhamos com ele o empenho em que o museu também se constitua como um instrumento dinâmico da transformação social2, enquanto expressão da relação território-património-comunidade.3

Maria Preciosa Neves e César Lopes

1 | Constituição do Movimento Internacional para uma Nova Museologia, no 2.º Atelier Internacional da Nova Museologia, realizado em Lisboa em 1985. Nesta ocasião, museólogos provenientes de quinze países adoptaram a Declaração de Québec, como ponto de partida do movimento. As suas origens ideológicas invocam a Declaração de Santiago do Chile, adoptada em 1972; 2 | VARINE, Hugues de. A museologia se encontra com o mundo moderno, p. 142 In: JUNIOR, José do Nascimento; TAMP, Alan; SANTOS, Paula Assunção dos (Org.). Mesa Redonda sobre la Importancia y el Desarrollo de los Museos en el Mundo Contemporáneo: Mesa Redonda de Santiago de Chile, 1972, v. 1. Brasília: IBRAM, 2012a 3 | Declaração de Oaxtepec, de 18 outubro de 1984, no México

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_Foto cedida por César Lopes

Museologia, Património, Identidade e Desenvolvimento


Personalidade livre, assertiva, independente, libertária, anarquista, laica, republicana e profundamente comprometida com as comunidades e as pessoas, lutou contra o regime ditatorial português como militante da LUAR, foi refugiado político em França e Bélgica (19721974) integrou, após o 25 de Abril de 1974, a Comissão de Extinção da Ex-Pide/DGS e da Legião Portuguesa, tendo preparado um estudo sobre a Pide e a Informação que constituiria o 3º número da coleção “Para o tribunal que julgue a Pide”. Depois de novembro de 1975, dedicouse ao estudo e investigação nos domínios da Educação, Museologia e Património, Património Cultural e História Local tendo exercido funções docentes no ensino secundário e superior (Universidade Lusófona, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - ISCTE). Ainda na área da Educação e no quadro do exercício da função docente salienta-se o destacamento no Centro Educativo da Bela Vista4 em Lisboa (1997-2002) onde desempenhou a coordenação pedagógica dos 3 ciclos do Ensino Básico em articulação com a Formação Profissional e Pré-Profissional e Atividades extracurriculares, coordenou Projectos e participou na elaboração do Programa de Competências Pessoais e Sociais para os colégios do Instituto de Reinserção Social (Ministério da Justiça). Numa população escolar constituída por jovens marcados pela rejeição do sistema com repetências, insucesso e abandono escolar precoce, baixa autoestima, poucas espectativas, optando por agir em vez de pensar, a relação pedagógica teve como objetivo não só suprir as dificuldades apresentadas pelos alunos, mas desenvolver capacidades de respeito por si próprio e pelo outro, atitudes positivas em relação ao saber e coresponsabilização da sua aprendizagem. Simultaneamente, continuou a colaborar com a escola5, onde era professor efetivo, trabalhando na brochura sobre a vida do patrono Dr. António Augusto

Louro6 e na criação de um núcleo museológico a ele dedicado, dinamizando o trabalho de conservação, exposição e investigação em torno do espólio já reunido. “Nós não queremos apenas que os nossos alunos conheçam os valores da Liberdade, da Cidadania e da Democracia. O que nós queremos é que os cidadãos livres, os democratas intervenientes e com espírito crítico de amanhã, os agentes da mudança, os garantes do nosso futuro comum, sejam os nossos alunos... e que floresçam muitos António Augusto Louro farmacêutico, polígrafo, jornalista, professor do ensino livre, autarca, homem de acção, militante político, modelo de virtudes cívicas, animador cultural e pedagogo, exemplo para os jovens dos nossos dias...” 7 Nesta sequência, promove, em espaços diversos, a figura e a “Acção Pedagógica do Dr. António Augusto Louro” e a sua postura como “grande defensor da instrução, pois sem ela não poderia haver cultura e sem cultura não podia haver liberdade” a propósito das comemorações do “Dia da Árvore”8, evento que também muito acarinhou procurando reabilitar e salientar as marcas do que constituiu um movimento cívico de celebração da natureza, mas também de proclamação e reivindicação dos direitos de cidadania em sentido genérico e, em particular, o direito à educação/instrução.

4 | Centro Educativo da Bela Vista (Instituto de Reinserção Social– Ministério da Justiça) 5 | Escola Básica 2/3 Dr. António Augusto Louro, Seixal 6 | António Augusto Louro - Farmacêutico, político, jornalista e Professor das Escolas Móveis João de Deus. 7 | Palavras pronunciadas pelo Professor Alfredo Augusto Tinoco em 24 de Junho de 1994, por ocasião da inauguração do novo nome da Escola Preparatória do Vale da Romeira 1 - Seixal. 8 | Biblioteca do Museu da Republica e Resistência. Celebração do «Dia da Árvore» com a apresentação da obra «A Acção Pedagógica do Dr. António Augusto Louro» (2004); “100 anos da Festa da Árvore – a 1ª festa da árvore e a acção do pedagogo e activista cultural Dr. António Augusto Louro” (2008); Esc. Sec. Aquilino Ribeiro, Oeiras, “100 Anos da festa da Árvore”, “Festa da Árvore - um movimento cívico”

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“A primeira Festa da Árvore que se realizou em Portugal teve lugar no Seixal no dia 26 de Maio de 1907. Sob o impulso da Comissão Escolar de Beneficência e Ensino da Vila do Seixal e com o apoio da Liga Nacional de Instrução (...) as crianças das escolas do Concelho, nesse dia, plantaram árvores e ouviram lições sobre a importância da natureza, o culto da árvore e a educação cívica.” Considerando que a educação permanente e o desenvolvimento da capacidade crítica e cognitiva contribuiriam para o fortalecimento da identidade, consciência crítica e autoestima, assim enriquecendo a vida individual e colectiva, Alfredo Tinoco proclamava a necessidade de “Aprender, aprender sempre para ser Feliz”9. Património, Museologia e Arqueologia foram os alicerces do estudo, investigação e acção desde a década de 1980. Foram inúmeras as participações, colaborações, orientações, comunicações quer presenciais quer escritas em acções, conferências, encontros, seminários, fóruns, congressos, cursos, ateliers tanto nacionais como internacionais. Foi ainda membro da direcção da Associação de Arqueologia Industrial da Região de Lisboa (AAIRL) e da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial (APAI) realizando trabalhos em Marinha Grande, Seixal, Vila Franca de Xira, Montijo. No âmbito deste último trabalho considerou que “No mundo globalizado em que hoje vivemos, muitos profetizaram, (…) o desaparecimento das identidades locais em beneficio da assunção de uma pretensa identidade global imposta pela uniformização e pela massificação culturais. Nada mais errado, afinal. Quanto mais buscamos o outro e o tentamos compreender, mais necessário se torna identificar as nossas raízes e, consolidar a nossa identidade pessoal e social. É afinal isso o que partilhamos no confronto intercultural.” 10

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Esteve também ligado ao Projecto “Relousal – Programa de Desenvolvimento Integrado e Redinamização do Lousal” e à constituição do Museu Mineiro do Lousal11, projecto desenvolvido com envolvimento da comunidade local após o encerramento da mina, hoje integrado no âmbito de intervenção do Centro Ciência Viva do Lousal. Enquanto membro da Confraria do Pão 12 está na organização do “I Congresso Português de Cultura Mediterrânica”13, integra a sua Comissão Científica, participa nos trabalhos dando expressão, junto dos seus confrades, à ideia de constituição do “Museu Vivo – Confraria do Pão” Trata-se de divulgar e de fazer reconhecer a dignidade e as expressões e os saberes de todas as camadas da população. Um museu nunca está acabado, está sempre em devir. …na perspectiva do Museu Vivo, refiro-me evidentemente, aos saberes científicos e técnicos que temos de guardar e actualizar no Centro de Documentação, mas também aos saberes empíricos, aos saberes práticos, aos saberes-fazer …Tarefa do museu, para além de conservar os objectos, é também conservar os saberes que lhe estão associados, pô-los em colóquio, confrontá-los, disponibilizá-los a quem os quer entender. O trabalho realizado em Monte Redondo com a criação do Museu local - Museu do Casal de Monte Redondo 9 | NEVES, Maria Preciosa, 2015. Alguns apontamentos sobre Alfredo Augusto Domingues Tinoco enquanto professor e investigador. 10 | TINOCO, Alfredo; Sousa, ÉLIA. Património Industrial e Pré-industrial de Montijo. Da Obra à Memória. Edições Colibri/C.M. Montijo 11 | TINOCO, A. (coord.) (1998) - Museu Mineiro do Lousal – Programa Museológico. Lisboa. APAI. 12 | A Confraria do Pão situa-se em Portugal, Alto Alentejo, entre Terena e Reguengos de Monsaraz 13 | A Terra O Homem O Pão - I Congresso Português de Cultura Mediterrânica (Terena, março 2002)


Alfredo Tinoco. Personalidade livre, assertiva, independente, libertĂĄria, anarquista, laica, republicana e profundamente comprometida com as comunidades e as pessoas

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(Leiria) - despoletou o entrosamento da sua actividade nas áreas da Museologia e da Arqueologia Industrial. É no contexto deste museu, referido por Manuel Antunes como a casa mãe da nova-museologia em Portugal14, pioneiro que foi de práticas e experiências enquadráveis como expressão de Novas Museologias e que passou muito do que foi a sua actividade e reflexão para a área da museologia social. Também as Jornadas Sobre a Função Social do Museu15, espaço de divulgação da nova museologia e de encontro e troca de experiências de profissionais e utentes dos museus empenhados na mudança social e cultural, constituiu um campo privilegiado da intervenção de Alfredo Tinoco.

Encontro do Vidro - Intercalar do TICCIH (1989) _Foto cedida por Jorge Custódio (à direita)

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“Na planificação que tenho de fazer da minha vida para todos os anos, uma das primeiras coisas que aponto na minha agenda é a data das Jornadas sobre a Função Social do Museu. E já são 12 vezes que vou olhando para a agenda com ansiedade para ver chegar o dia do reencontro com tantos e tantos companheiros espalhados pelo país.”16 … /… …reflexões e experiências entretanto realizadas tanto na Europa como nas Américas, permitiram chegar ao conceito de MUSEU ABERTO, por contraponto ao do museu tradicional que seria “fechado”, centrado em si próprio e não no território ou na comunidade que o acolhe. Passámos então a entender o museu como uma instituição ao serviço da comunidade e vocacionada para o desenvolvimento. E quando falamos em desenvolvimento queremos dizer desenvolvimento integrado, que congrega em si o crescimento cultural e educativo, o crescimento do bem estar social e pessoal, a promoção da dignidade social, económica e política, a assunção plena da identidade pessoal e social e não apenas o crescimento económico, que, também ele, no entanto, há-de ser uma componente do desenvolvimento.17


Visita de estudo na zona mineira de Blegny (Bélgica)

Universidade de São Paulo (1993)

_Foto cedida por Jorge Custódio

_Foto cedida por Mário Moutinho

Referimos alguns apontamentos da sua intervenção nestas reuniões que poderão ser significativos para os dias de hoje. Assim, nas Jornadas de Montalegre18, em forma de balanço sobre os primeiros vinte anos da prática de reflexão e acção do Movimento Internacional para uma Nova Museologia, de que faz o seu historial, questiona o sentido do debate em curso.

Na museologia acontece-nos de igual modo porque os problemas nunca acabam e constantemente se renovam. É por isso que todos sabemos que o Museu nunca está acabado. O museu e a museologia são áreas do pensamento e da aplicação prática que estão sempre em devir. …/… … passámos do conceito de Museu Convencional que promovia a sacralização do património cultural a um Museu entendido como o lugar em que a presença dos

Afinal, o que temos discutido ao longo destes 20 anos? Eu acho que, felizmente, discutimos sempre o mesmo – O Novo Museu. E o papel que cabe na transformação das sociedades a este Museu de Tipo Novo. E isto é sabido: o mundo é sempre o mesmo, mas continuamente se transforma “tomando sempre novas qualidades” por que aquilo que nele é sempre permanente é a “mudança” como tão bem sintetizou o nosso poeta.

14 | in “Caminhos Da Museologia Em Portugal”. Revista Iberoamericana de Turismo – RITUR, Penedo, Número Especial, p. 142-156, out. 2015. 15 | As “Jornadas Sobre a Função Social do Museu” constituem uma iniciativa do MINOM -Portugal, iniciada em Vila Franca de Xira em 1988. 16 | XII Jornadas Sobre A Função Social Do Museu. Nazaré, 2000 17 | XIII Jornadas Sobre A Função Social Do Museu. Alcoutim, 2001 18 | TINOCO, Alfredo. Museologia: celebração e construção. Actas das XVI Jornadas Sobre a Função Social do Museu. 2008. Montalegre

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Com alunas da UNIRIO (2007) _Foto cedida por Mário Moutinho

objectos não leva apenas ao deleite e à contemplação, mas onde se promove uma relação entre património e público num contexto social e cultural intencionalmente determinado. É por isso que tanto valorizámos o papel científico, cultural e educativo do património e dos museus. …/… Este instrumento de que um poder e uma comunidade se servem para afirmar e reforçar a sua matriz identitária (o espelho) tem de servir igualmente para alterar as condições de vida, melhorar os níveis de bem-estar, conquistar índices de qualidade de vida compatíveis com o desenvolvimento equilibrado e sustentável. É esse o papel social que cabe à museologia contemporânea. E é esse o papel que nos cabe a nós: utilizar esse instrumento para mudar o mundo. Constituíram princípios da sua prática uma perspetiva de recuperação do valor das memórias das comunidades, sua proteção e transformação, geradoras de cultura, desenvolvimento, riqueza e sustentabilidade económica, cultural e democrática, agentes da construção do futuro. Em 2008 durante as Jornadas de Idanha refere:

MINOM - Paços de Ferreira (2009) _Foto cedida por Mário Moutinho

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“O mundo da patrimonialização dos objectos e da sua musealização enfrenta hoje novos desafios. Afinal é esse o nosso quotidiano – enfrentar desafios”. …/… “O valor do objecto patrimonial não está normalmente associado às qualidades físicas do objecto mas antes a um valor acrescentado pelos homens que depende de um conjunto de referências históricas, sociais, económicas, intelectuais, psicológicas, culturais e que varia com as pessoas e os grupos que lhe atribuíram o valor de tal ou tal outra maneira. Isto significa que o património


não é um fim em si mesmo. É um meio. É um recurso que nós temos usado ao longo dos tempos. Usamos o património em diferentes contextos de tempo e de espaço, como recurso seja de rememoração, função primordial dele enquanto nos assegura as noções de continuidade e de mudança, de passado e de presente; como recurso didático, como recurso científico, como recurso turístico. O património tem pois, antes de mais um valor instrumental”. 19 Tal como em 2006 e 2008, vivemos hoje um tempo de grandes interrogações e naturalmente que nos caberá sempre questionar o papel dos museus e dos patrimónios nos actuais contextos sociais e na definição e construção de futuros comuns. Alfredo Tinoco deixounos, mas ficou a sua palavra e marca dos seus gestos. Foi um privilégio termos tido a oportunidade de partilhar muito das suas inquietações. Última nota: no período de 2007/2010 foi, com muito prazer, professor em regime de voluntariado na Universidade Sénior do Seixal, regendo, nos dois primeiros anos, a cadeira “História de Portugal” e, no último, a de “História Regional e Local”.

Os autores Maria Preciosa Neves / Licenciada em Filologia Germânica e Curso de especialização em Política e Educação Ambiental na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Curso de Pós Graduação em Reinserção Social da Universidade Internacional da Figueira da Foz. É membro do MINOM e da CECHAP (Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Património) que tem sede em Vila Viçosa e criado na sequência de trabalho académico realizado por alunos do Alfredo Tinoco sobre a Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz. César Lopes é licenciado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia. No quadro do Museu Nacional de História Natural desenvolveu actividades de gestão cultural, programação museológica, produção e avaliação de exposições. Interessa-se por História das Ciências. É autor de artigos e publicações no âmbito da Museologia. É membro do MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia.

19 | Turismo e Desenvolvimento Local – Função Social do Património. XVII Jornadas sobre a Função Social do Museu. Idanha-a-Nova, 2008

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Museus, Comunidades e PatrimĂłnio Cultural Imaterial

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Paulo Ferreira da Costa


Volvida quase uma década sobre o início do processo de ratificação da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (UNESCO) e, concomitantemente, da definição e implementação das medidas centrais, de carácter legislativo e operacional, para a proteção legal do PCI em Portugal, ambos ocorridos em 2007, são diversos os indicadores sobre o papel decisivo que os museus podem desempenhar no nosso País neste recente campo de atuação patrimonial.

Em primeiro lugar, no que respeita aos processos de salvaguarda que se revestem de maior notoriedade pública, isto é as candidaturas às Listas instituídas pela Convenção, convém recordar que a primeira e, não apenas por esta razão, mais famosa candidatura até ao momento, a do Fado, deve o seu retumbante sucesso ao Museu do Fado e ao papel que lhe foi consagrado neste processo. Totalmente renovado em 2008, no âmbito da preparação da candidatura por parte da Câmara Municipal de Lisboa, o Museu afirmou-se como um agente fundamental no processo, quer pelas suas responsabilidades na implementação do plano de salvaguarda da candidatura, quer, acima de tudo, por, na perspetiva da sua visibilidade pública, constituir uma das principais evidências materiais dessa mesma salvaguarda. Para além da relevância do Museu do Fado como materialização fundamental da candidatura e de locus central na cidade de Lisboa de exibição e atração públi<

Processo de documentação de objetos usados no «Kola San Jon» no terreno, previamente à sua incorporação nas coleções do museu. _Foto: Daniel Meira, Arquivo Fotográfico do Museu Nacional de Etnologia, 2015.

ca sobre o Fado considerado como PCI, assim como de agência de aproximação à e envolvimento da «comunidade do fado» no projeto de patrimonialização deste género musical, em muito contribuiram, naturalmente, todos os meios1 e os parceiros2 que a Câmara Municipal de Lisboa e a EGEAC mobilizaram para a criação da expectativa e a publicitação da aprovação da candidatura, a mobilização dos media e, através destes, da opinião pública em torno da primeira candidatura à UNESCO na área do património imaterial, assim como o facto de o processo ter sido dirigido à inscrição do Fado na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (LRPCIH), que tem efetivamente muito mais notoriedade, quer pela sua designação quer pelos tipos de manifestações de PCI (festividades, rituais, música e canto, dança, teatro, etc.) que constituem o seu objeto, do que a Lista do Património Cultural Imaterial que necessita de Salvaguarda Urgente (LPCISU, integrada maioritariamente por técnicas e ofícios tradicionais). 1 | Expressos, por exemplo, nos mupis e cartazes distribuídos por toda a cidade de Lisboa no dia imediatamente à aprovação da candidatura, em resultado de uma estratégia de comunicação há muito apostada nesse resultado. 2 | Com destaque, por um lado, para Carlos do Carmo e Mariza, figuras públicas incontornáveis escolhidas como representantes da velha e da nova geração de intérpretes do fado e, por outro, pela comissão científica de especialistas responsáveis pela elaboração da candidatura, integrada por Rui Vieira Nery e Salwa Castelo-Branco.

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No entanto, num terceiro plano de questões que devem ser consideradas no exemplo do Fado como case-study evidente de sucesso de patrimonialização no campo do PCI existe ainda um outro precedente museológico que deve ser tido em consideração, que consiste na exposição Fado, Vozes e Sombras. Concebida por Joaquim Pais de Brito, que em 1993 tinha assumido a direção do Museu Nacional de Etnologia, consistiu numa das três exposições mais marcantes na história e visibilidade pública deste museu, quer pelos recursos financeiros substanciais que puderam ser reunidos para a sua concretização, no quadro simultâneo do investimento nos Museus Nacionais que o recém-criado Instituto Português de Museus então realizava e dos meios extraordinários disponibilizados por Lisboa 94’ Capital Europeia da Cultura, evento que enquadrou a realização da exposição e que permitiu que durante mais de um ano uma equipa alargada procedesse à investigação e à produção de novos conhecimentos sobre o tema. Inovadora a diversos títulos (pelo seu objeto e conceito, pela metodologia da pesquisa de que resultou, pelo discurso museográfico, assim como pela arquitetura expositiva e pelos meios técnicos utilizados, em particular no que respeita ao uso do som e da imagem em movimento), a exposição teve um enorme impacto público, em particular na comunidade fadista. Este impacto público carece ainda na atualidade de ser devidamente compreendido, por diversas razões. Em primeiro lugar, pelo facto de a exposição ter sido realizada num momento em que o fado conhecia uma profunda crise, tendência que pouco depois se inverteu, com a multiplicação de novos intérpretes e a exploração de renovações do próprio género musical. Em segundo lugar, pelo facto de, na sequência da realização da exposição Fado, Vozes e Sombras no Museu Nacional de

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Etnologia (1994) e da sua itinerância no Rio de Janeiro e em São Paulo (1995), no âmbito da sua promoção internacional realizada pelo ICEP, ter sido inaugurada em 1998 a primeira versão do Museu do Fado, em grande medida inspirado naquela exposição e com recurso a objetos para ela identificados e reunidos pela primeira vez. Independentemente das repercussões concretas que a exposição Fado, Vozes e Sombras tenha tido no novo ciclo de valorização e adesão pública a este género, é inegável, contudo, o papel que desempenhou na patrimonialização inerente à sua «musealização» e, muito concretamente, na circunscrição da cultura material que atualmente se reconhece como integrante do «património» do fado ou a ele associado3.

Capa do catálogo da exposição «Fado, Vozes e Sombras», realizada em 1994 pelo Museu Nacional de Etnologia, na edição que acompanhou a itinerância em S. Paulo e no Rio de Janeiro.

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3 | Foi ainda a exposição Fado, Vozes e Sombras que gerou a imagem que nas últimas duas décadas se impôs como o novo ícone visual do fado, destituindo deste estatuto «O Fado», de José Malhoa, pintado em 1910 e pertencente à coleção do Museu da Cidade. Esse novo ícone, que começou a ser utilizado como tal ainda em 1994 – concretamente na capa da Discografia do Fado, duplo CD editado pela EMI / Valentim de Carvalho – e que desde então circula em edições e merchandising diverso, consiste precisamente na ilustração de Stuart utilizada para capa do catálogo da exposição e para os mupis e cartazes de promoção da exposição.


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Para além do processo do Fado, deve ser sublinhado que, das restantes cinco candidaturas de PCI apresentadas pelo Estado Português à UNESCO até março de 2016, três implicaram igualmente o envolvimento de museus, em graus de intervenção diversa. Num primeiro caso, o da candidatura da Dieta Mediterrânica, inscrita em 2013 na LRPCIH em resultado de iniciativa do Ministério da Agricultura, foi decisivo o envolvimento do Museu Municipal da «comunidade representativa» (assim designada para efeitos da candidatura), o município de Tavira, em particular no que respeita a ações de investigação e de promoção pública daquela expressão cultural, traduzidas em edições e exposições sobre a Dieta Mediterrânica. Contudo, nos restantes dois casos, as candidaturas resultaram diretamente da iniciativa de museus municipais e das ações de investigação e de divulgação por eles promovidas, ainda que, formalmente, as entidades responsáveis pela apresentação das candidaturas tenham consistido nas respetivas Câmaras Municipais, tal como ocorrido com o Fado em 2010. São estas as candidaturas relativas à Louça Preta de Bisalhães, de que foi responsável o Museu Municipal de Vila Real, apresentada pelo respetivo Município em 2015 e que previsivelmente será objeto de inscrição na LPCISU em finais de 2016, e ao Figurado em Barro de Estremoz, de que foi que foi responsável o Museu Municipal de Estremoz, por seu turno apresentada pelo Município de Estremoz à LRPCIH em 2016. Em ambos os casos, a apresentação à UNESCO destas candidaturas decorreu da prévia inscrição no Inven-

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tário Nacional do Património Cultural Imaterial, respetivamente no registo de salvaguarda urgente e no registo de inventário, tipos de proteção legal de PCI à escala nacional homólogos aos da LPCISU e da LRPCIH da UNESCO. A iniciativa de proteção legal de manifestações de PCI à escala nacional, com vista ao seu registo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) e no quadro jurídico instituído pela Lei de Bases do Património Cultural e respetiva legislação de desenvolvimento4, consiste precisamente num segundo tipo de ação em que os museus se têm vindo a envolver em Portugal, fruto do papel consignado aos museus em matéria de salvaguarda de PCI naquele quadro legal, por seu turno reflexo das políticas e medidas concretas desenvolvidas a partir de 2007 pelo então recém-criado Instituto dos Museus e da Conservação e o seu Departamento de Património Imaterial5.

4 | Decreto-Lei n.º 139/2009, de 15 de junho, com as alterações introduzidas pelo Decreto -Lei n.º 149/2015, de 4 de agosto, e Portaria n.º 196/2010, de 9 de abril. 5 | No quadro da promoção dos museus portugueses em matéria de salvaguarda do PCI que se procurou realizar desde 2007, devem destacar-se, para além do papel consignado aos museus no quadro jurídico nacional para o PCI (2009-2010), as seguintes ações: o desenvolvimento de software para gestão e documentação integrada de bens culturais móveis, imóveis e imateriais (v. nota 9); a realização de Ações de Formação sobre PCI no quadro do programa de formação anual da Rede Portuguesa de Museus desde 2008; a realização de Cursos de «Inventário de Património Imaterial» em colaboração com a Universidade Aberta entre 2012 e 2016, dirigidos em grande medida a profissionais de museus; a concepção do «Kit de Recolha de Património Imaterial» (2011) e da correspondente «Base de dados» desenvolvida em colaboração com a Direção-Geral de Educação em 2014, ambos dirigidos à utilização pelos serviços educativos de museus, sendo indicadores de todas estas ações os recursos disponíveis no sítio de internet do INPCI.


Máscara, feita a partir de lata uma lata de óleo marca “Mobil”. Usada pelos rapazes, no Carnaval. Recolhida em Podence, Macedo de Cavaleiros, Bragança, em 1969, por Ernesto Veiga de Oliveira. Museu Nacional de Etnologia. N.º de Inv.: AR.526 _Foto: José Pessoa, Arquivo de Documentação Fotográfica / Direção-Geral do Património Cultural

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Ficha de pesquisa etnográfica elaborada por Jorge Dias em 1952. Integra o conjunto de 14.000 fichas do Catálogo do arquivo do Centro de Estudos de Etnologia, constituído entre 1947 e finais da década de 1980, e que cuja digitalização foi realizada pelo Museu Nacional de Etnologia entre 2015 e 2016, com vista à sua futura disponibilização em linha, como recurso para pesquisas na área do PCI.

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Para além dos referidos registos no INPCI relativos à Louça Preta de Bisalhães e ao Figurado em Barro de Estremoz, concretizados em 2015, contam-se, até ao momento, os registos relativos à Festa de N. Senhora da Penha de França, iniciativa do Museu da Vista Alegre (Fábrica da Vista Alegre) em Ílhavo, e às Endoenças de Entre-os-Rios, iniciativa do Museu Municipal de Penafiel, ambos concretizados também naquele ano. Também em 2015 o Museu da Marioneta (EGEAC, Câmara Municipal de Lisboa) apresentou o pedido de inscrição no INPCI do Teatro de Dom Roberto. Não tendo resultado de ações de museus, três outros registos no INPCI concretizados até ao momento envolvem, contudo, também ações de salvaguarda de PCI em contexto museológico, quer em matéria de divulgação (realização de edições, exposições, ações educativas, etc.), quer em matéria de salvaguarda de bens culturais móveis associados às manifestações de PCI. São estes os registos das Danças Tradicionais da Lousa (2014), da Confeção de Palitos do Lorvão (2015) e da Bateira Avieira (2016). Quer no caso das candidaturas às Listas da Convenção UNESCO 2003, quer no caso dos pedidos de registo no Inventário Nacional, uma das vertentes fundamentais do papel dos museus na promoção da proteção legal do PCI reside na produção de conhecimento e nas ações de investigação e prática etnográfica desenvolvidas pelos próprios museus, por vezes ao longo de décadas, e em resultado de constituição de coleções, realização de exposições, temporárias ou permanentes, e que constituem um factor de fundamental importância para a solidez e o rigor científico dos processos de processo de inventariação/ candidatura.

No entanto consideramos que o papel determinante dos museus na iniciativa de proteção legal (à escala nacional ou internacional) e de salvaguarda efetiva do PCI decorre precisamente da sua proximidade com a respetiva comunidade patrimonial (usualmente de âmbito municipal), de que o museu se constitui como interlocutor, mediador e representante no processo de patrimonialização propriamente dito, e na sua capacidade de, no quadro ético preconizado pela UNESCO e pelo quadro jurídico nacional para o PCI, se constituir como veículo da voz das comunidades, grupos e indivíduos que se constituem como detentores concretos do PCI6. Naturalmente, deve ser ainda destacada a importância que o museu assume à escala local, na qualidade de agente operacional do respetivo município, não apenas na organização do processo de inventariação/candidatura, mas também na própria implementação do plano de salvaguarda (exigido quer no registo no Inventário Nacional, quer na inscrição nas Listas da UNESCO) da manifestação cultural que constitui objeto do processo de patrimonialização. Para além das evidentes potencialidades de que se revestem nos processos de registo no Inventário Nacional e de subsequentes candidaturas à UNESCO, e que confirmam as expetativas que pressupuseram em 2008 a realização do Ciclo de Colóquios «Museus e Património Imaterial»7, os museus portugueses podem desempenhar funções de salvaguarda de PCI em vários outros

6 | Vd. Costa, Paulo Ferreira da “Património Imaterial: entre as comunidades e as organizações”, Revista Património, n.º 1, Lisboa, Direção-Geral do Património Cultural, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2013, pp. 154-159. 7 | Vd. Costa, Paulo Ferreira da (Coord.), Museus e Património Imaterial: agentes, fronteiras, identidades, Lisboa, Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. e Softilimits, S.A., 2009 (disponível em linha em www.matrizpci.dgpc.pt).

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planos, sobejamente identificados já em inúmeros estudos, nacionais e estrangeiros. Para além das ações de maior visibilidade, traduzidas na realização de exposições, edições e diversos outros instrumentos da atuação museológica, e de ações de natureza propriamente educativa, destinadas quer à sensibilização pública para a necessidade de salvaguarda de determinada manifestação cultural da comunidade, quer à formação de novos detentores e a assegurar a efetiva viabilidade futura dessa prática, fora do quadro dos processos de proteção legal acima referidos, consideramos dever ser sublinhada a relevância da ação dos museus em três planos específicos que, não se traduzindo em ações de salvaguarda de PCI propriamente dito, traduzem-se na produção e preservação de informação sobre este, ou na preservação dos testemunhos materiais a ele associados.

O primeiro destes planos consiste na preservação e promoção do acesso à documentação disponível nos arquivos do museu, ou por este passível de ser reunida junto da comunidade ou de outras organizações locais, relativa a manifestações culturais, existentes na atualidade ou já descontinuadas. Tal informação – consubstanciada em registos fotográficos, fílmicos, sonoros e escritos –, reveste-se de uma particular importância como recurso para a compreensão da dinâmica e características das manifestações culturais de âmbito local e regional, para a documentação de uma manifestação de PCI, em particular no plano da sua diacronia, usualmente a componente de mais difícil caracterização precisamente pela frequente escassez de fontes documentais na própria comunidade patrimonial. O segundo plano desta intervenção dos museus consiste na produção ou atualização de conhecimento e informação, através da prática etnográfica e do uso dos meios de registo mais adequados, em particular o audiovisual8, sobre as «práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões» (Convenção UNESCO 2003, n.º 1 do Art.º 2.º) associadas aos objetos que constituem as suas coleções. Conscientes da absoluta impossibilidade de tal metodologia de trabalho poder ser aplicada ao total ou mesmo a parte significativa das coleções de um museu, consideramos, contudo, que a prioridade deverá ser dirigida aos casos de novas incorporações obtidas em contexto de terreno. Em 2015 o Museu Nacional de Etnologia procedeu à aplicação desta metodologia a propósito da doação de um tambor e de um navio processional utilizados na prática do

8 | Vd. Costa, Paulo Ferreira da, “Registar o Imaterial: o audiovisual como instrumento de salvaguarda por excelência”, in Fio da Memória: Operários da Fábrica da Pólvora, Câmara Municipal de Oeiras, Museu da Pólvora Negra, 2008, pp. 27-33.

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de 34 museus que participam neste catálogo coletivo, os primeiros resultados, ali também disponíveis em linha, de aplicação desta metodologia com vista à documentação de objetos previamente incorporados devem-se ao Museu Dr. Joaquim Manso, relativamente a objetos associados a uma festividade religiosa da Nazaré e a uma técnica tradicional local de preservação de pescado.

Cardadores de Ílhavo. _Foto: Benjamim Pereira, Arquivo Museu Nacional de Etnologia.

Kola San Jon na comunidade do bairro do Alto da Cova da Moura, objetos que foram documentados in situ, em contexto de utilização pelos detentores daquela prática tradicional, previamente à sua incorporação na coleção do Museu, por ocasião da festa realizada pela comunidade em junho de 2015, encontrando-se o registo de inventário de «património cultural imaterial» do Kola San Jon associado aos registos de inventário das peças doadas na base de dados do Museu9, podendo todos esses registos ser consultados publicamente no catálogo em linha MatrizNet (www.matriznet.dgpc.pt). Do conjunto

9 | Matriz 3.0, software que permite a documentação integrada de bens móveis, imóveis e imateriais, desenvolvido entre 2009 e 2011 como instrumento de promoção da ação dos museus no campo do PCI.

Finalmente, o terceiro plano de intervenção em matéria de salvaguarda de PCI é também o central e o mais evidente na missão de qualquer museu: a própria recolha, salvaguarda e divulgação dos testemunhos materiais de uma determinada comunidade, eles próprios indissociáveis das «práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões» que lhes estiveram na origem, conferem sentido pleno e cujo conhecimento é indispensável para o cumprimento daquela mesma missão. Trata-se de uma evidência que nos remete, afinal, para uma outra: a da necessidade de uma abordagem holística e integrada à compreensão das práticas culturais de uma comunidade, não excessivamente compartimentada entre expressões materiais e imateriais.

O autor Paulo Ferreira da Costa / Com formação em Antropologia, Paulo Ferreira da Costa é desde 2015 diretor do Museu Nacional de Etnologia, onde excerceu funções de Técnico Superior entre 1993 e 2001. Foi Chefe da Divisão do Património Imóvel, Móvel e Imaterial na Direção-Geral do Património Cultural (2012-2014), Diretor do Departamento de Património Imaterial do Instituto dos Museus e da Conservação (2007-2012) e Director de Serviços de Inventário do Instituto Português de Museus (2002-2007).

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Manuel Ribeiro Escritor de Albernoa Manuel Ribeiro nasceu na aldeia de Albernoa (Beja) no dia 13 de dezembro de 1878 e faleceu em Lisboa no dia 27 de novembro de 1941. Passou a sua vida por um período conturbado da nossa vida coletiva: o Ultimato inglês de 1890 que provocou a agitação e repulsa da sociedade portuguesa, cimentando a ideia da decadência de Portugal. É neste contexto que surge a Geração de 90 fundamentalmente marcada pelo nacionalismo de reação à humilhação do Ultimato1. A convulsão da sociedade portuguesa agrava-se até 1910 e continua durante a República. Com a entrada de Portugal na 1ª Guerra Mundial a situação económica piora grassando a fome nas cidades. Continua a instabilidade política que culmina com o golpe de Estado de 1926 que levaria Salazar ao poder. Aqui se inicia um período de poder das finanças, de fechamento do país às ideias novas e a tudo o que contrariava o pensamento dominante. É este o período da nossa história em que viveu Manuel Ribeiro.

Carlos Pedro

_Fotos pertencentes ao arquivo pessoal do escritor Manuel Ribeiro, propriedade da Câmara Municipal de Beja (localização - Biblioteca Municipal de Beja José Saramago)

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Manuel Ribeiro passa a sua infância na aldeia que o viu nascer e a adolescência e juventude entre Albernoa e Beja onde faz o liceu. Ainda jovem liceal publica os primeiros poemas na imprensa regional. Assume-se, por esta altura, convictamente livre-pensador e republicano. No virar do século, seguindo uma sugestão de Fialho de Almeida, vai para Lisboa estudar medicina. Frustrado este intuito, trabalha como tradutor e entra em contacto com o livre ensino e os anarquistas. Continua a sua colaboração com várias revistas e vai firmando a sua reputação como poeta. Em 1903 Manuel Ribeiro começa a trabalhar na CP. Nesta altura partilha já do ideário anarquista. Lança-se na militância sindical iniciando, na altura em que a monarquia caminha para o seu fim, uma colaboração intensa com a imprensa anarco-sindicalista. Este combate agudiza-se após a implantação da República. Em 1919 é diretor de “A Batalha” jornal da Confederação Geral dos Trabalhadores. Ainda nesse ano é fundador da Federação Maximalista Portuguesa que dará origem ao Partido Comunista Português. É também neste período que Manuel Ribeiro inicia a sua aproximação ao catolicismo. Em outubro de 1920 será preso recolhendo aos calabouços do Limoeiro. Em março de 1921, Manuel Ribeiro surge no grupo fundador do Partido Comunista Português, vindo a ser diretor do seu jornal “O Comunista”. Entretanto, a publicação do seu romance “A Catedral”, em maio de 1920, em que o autor ensaia uma espécie de síntese entre catolicismo e comunismo, lança forte polémica. Esta situação, a juntar ao fato de ter sido despedido da CP e às convulsões que afetaram os primeiros tempos do PCP, fazem com que Manuel Ribeiro recolha ao convento da Cartuxa de Miraflores para descansar, ainda sem intuitos religiosos. Em 1921 passa uma temporada de recolhimento no Convento da Cartuxa de Burgos.

Manuel Ribeiro

1 | Recorde-se que “A Portuguesa”, atual hino nacional, surge em 1890 como canção patriótica de reação ao Ultimato

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é também um ativista que intervém, que defende aquilo em que acredita, muitas vezes pagando por isso um preço pessoal elevado. É uma figura injustamente esquecida que marcou o seu tempo. Mas Manuel Ribeiro foi também um dos grandes escritores do seu tempo. E, também como escritor, injustamente esquecido. Tanto mais que Ribeiro é o escritor mais lido nos anos 20. O seu romance “A Catedral”, publicado em 1920, vendeu 16 000 exemplares. “O Deserto” (1922) vendeu 12 000 e “A Ressureição” (1923) vendeu 13 000 exemplares. Os romances da sua Trilogia Nacional (“A Colina Sagrada” de 1925, “A Revoada dos Anjos” de 1926 e “A Planície Heróica” de 1927) venderam, cada um, cerca de 6 000 exemplares.

A Planície Heróica

Manuel Ribeiro na Cartuxa de Burgos (1921)

Assume o seu catolicismo aproximando-se dos círculos católicos. Mas assume um catolicismo preocupado, defendendo o sindicalismo, os valores da diferença e da democracia. Nos anos 30 aproximar-se-á de uma frente democrática de oposição ao regime salazarista. Manuel Ribeiro é um pensador reconhecido pelos seus pares, pela sua escrita e pelo seu pensamento, mas

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Editado pela primeira vez em 1927, A Planície Heróica viria a conhecer mais quatro edições sempre pela Guimarães Editores, a última das quais em 1979. Em 1996 sairia uma sexta edição pela editora Vega. Este romance deu origem ainda a um filme realizado por Perdigão Queiroga, em 1953. Esta é uma obra passada na aldeia natal de Manuel Ribeiro (Albernoa, cerca de 20 quilómetros a Sul de Beja), considerada como fazendo parte das raízes históricas do neo-realismo e também uma espécie de antítese de “A Cidade e as Serras” de Eça. O protagonista deste romance é um padre que chega, vindo do norte, a uma terra estranha marcada ainda pelas vicissitudes anticlericais. É um padre da nova geração, marcado pela vocação, ao contrário dos padres antigos que encaravam o sacerdócio como uma ocupação que permitia fazer uma vida normal e até enricar.


O tema central é o conflito entre o idealismo da fé e as forças da terra, sempre presentes e telúricas. É um romance que se lê como se fosse um filme, pese embora algum esforço necessário para imaginar um mundo que desapareceu. As descrições das paisagens, dos sítios, dos pormenores, as situações, os personagens, os diálogos, tudo é tão real e tão realista como só um grande escritor sabe fazer. E assim nos revela a vida daquelas gentes levando-nos a perceber aquela sociedade. Mas este romance regionalista é importante também pelo retrato que faz desta região naquela época porque a ação é passada no momento da escrita. E aquele é um momento importante da história de região: é naquela altura que uma paisagem de charneca coberta de mato a perder de vista vai dando lugar à paisagem que conhecemos hoje. A charneca é arroteada, o mato queimado e, no seu lugar, começa a surgir uma terra agrícola trabalhada e semeada. A sua fase inicial de culturas diversas estava já, nos anos vinte do século passado, a dar lugar à monocultura do cereal. É, por isto, um momento marcante desta zona. E, ao longo do livro, vão surgindo descrições de como este território era antes destes grandes arroteamentos, de como mudou, de como se foi alterando a relação com a terra, da propriedade e do trabalho. E Manuel Ribeiro tem consciência dessa importância e da marca profunda que essa mudança deixou nas gentes que a protagonizaram: a palavra “charneca” e derivadas surgem 126 vezes ao longo da obra. Este romance, assim escrito, só o poderia ser por alguém que nasceu e cresceu na terra de que fala e que, por isso, a conhece intimamente. Diz o próprio Manuel Ribeiro acerca de quando, estudante em Beja, ia a Albernoa:

(…) Eu distribuía cumprimentos e ria me mai las bôas velhinhas que me tinham embalado na infancia. “Olha o

Balè como está crescido! Parece um home! Ó hoje ó cando eu o benzia de afito e de lua!” dizia uma. “E eu que o passi p’la toalha de Nossa Senhora por causa das bruxas… assim ficou elle tão deblezinho!” dizia outra. Um velhote sentado ao sol perguntava-me se eu estudava para padre e no meio d’aquella alegria rude e franca sentia-me contente, o peito satisfeito e amplo como um filho desencaminhado ao entrar no lar.2 E este é o grande valor deste romance: o de ser escrito por quem conhece o que descreve porque lá viveu e porque viveu aquilo de que fala. Isto reflete-se também no uso, nos diálogos, da “fala” e das expressões populares, o profundo conhecimento do meio e das gentes, da sua mentalidade, dos seus valores. E é toda esta riqueza que surge nesta obra, tão injustamente esquecida. Daí que este livro seja também uma importante fonte etnográfica. Contém referências e descrições de montes, casas, gastronomia, trabalhos agrícolas (ceifas, trabalhos de eira, ranchos de algarvios da serra que vinham ceifar), vegetação e coberto vegetal, fabrico de carvão, etc. Das muitas passagens que poderíamos selecionar pelo seu interesse etnográfico, escolhemos algumas relacionadas com duas temáticas: a arquitetura em sentido amplo (o monte3, as ruas, as casas de habitação, os edifícios de apoio) e a alimentação. Cada excerto inclui um comentário explicativo com glossário. O número de página no final de cada excerto refere-se à 6ª edição (editora Vega, Lisboa, 1996). As palavras sublinhadas, geralmente termos regionais, remetem para explicações no comentário do excerto correspondente ou em comentário anterior. 2 | Manuel Ribeiro “Farpeando - O Natal na Minha Aldeia III”, Nove de Julho, 31-12-1898, pag. 1, referido em Gabriel Rui Silva, Manuel Ribeiro – O Romance da Fé, ed. Licorne, Lisboa, 2010, pp. 48 e 49 3 | Monte aqui na aceção de aglomerado de pequena dimensão, equivalente áquilo que noutras regiões do país é o lugar. Monte pode também ser o conjunto de construções, de habitação e de apoio, que são a sede de uma exploração agrícola.

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“Esbandalhada por altos e baixos ao calhar da terra que adregava haver, e a dois passos da ribeira que dormia todo o santo Verão em mansos pegos, a Carregosa repartia-se por pequeninos grumos de povoado, o Monte -Igreja, a Vigia, a Aldeia-de-Cima, que por alguns estirados fios de moradias mais recentes começavam a unir-se e a ajuntar-se. Os moles solões barrentos tinham-se ido com os tempos e por dentro da povoação esburgava-se a talisca xistosa, dessoldando-se em delgadinhas folhas lisas, brandas e cor de cobre. Sobre estas soleiras ásperas e por corcovas resvaladiças, arrebanhavam-se as casas, rústicas e humildes todas, alvíssimas, uma no tom cru e cegante da cal, outras velhuscas, cor do chão, com seus bardos e muros podres de quintalórios, donde se debruçavam, às vezes, figueiras verde-escuras, esparralhadas. Por todos os lados, secura, bolor, desolação; montureiras, medas de lenha, cortes, quinchosos, carros rústicos de azinho, torvos novelos emaranhados de enchapotas. Em baixo, num barranco, onde o chão mais fresco se tinha outrora revestido de mimos verdes, a vaga derramada do povo sem terra subvertera figueirais, árvores de pomar, faias e canaviais. Aí e pelas chapadas, onde a dureza dalgum senhorio amansara um pouco, os lares dos pobres tinham jorrado vertiginosamente, num pululamento de cogumelos. Cada um fizera a sua moradia: casa de fora, dois repartimentos de lado e a casa de dentro para o quintal. Janelas eram raras, e casa que as mostrava não as abria nunca. A mesma tradição moirisca que ocultava nos rebuços os rostos das mulheres cerrava as habitações à indiscrição de fora.” (p. 28) Comentário: esbandalhada: espalhada, dispersa; adregava haver: havia; grumos de povoado: núcleos de povoado; corcovas: sinuosidades do terreno; velhuscas: com ar velho (referidas assim por não estarem caiadas); montureira ou monturo: local onde se acumula estrume, 26 — cadernos do museu / museu da ruralidade

lixo doméstico e dejetos; quinchoso: pequeno quintal murado; enchapotas: ramos finos das azinheiras resultantes da poda das árvores. Eram usados como lenha fina para atear o fogo; chapada: encosta ligeira, pouco declivosa. “Tinham passado o pontão das hortas e da outra banda, por caminho áspero e talisquento, no flanco do córrego, costearam palheiros, casebres de taipa, bardos de lenha, muros tisnados e enchapelados de tojos, velhas montureiras de palhuços curtidos, e um cheiro errante e crepuscular de lenha queimada.” (p. 18) Comentário: pontão: local de atravessamento de um curso de água; talisquento: talisca é um termo regional que denomina um tipo de xisto que se desagrega em pequenas lascas; córrego: corte no terreno em forma de pequena vala resultante da escorrência da água da chuva; costear: contornar, passar próximo; bardo: molho, feixe; enchapelado: coberto no topo. Descrição de um conjunto de instalações e construções que se situam no limite da localidade. “Era o quintal um cercado de velhas taipas talisquentas, cor de cobre, com o pocilgo de piorno, o forno e seu poial muito bem caiados, uma figueira esbandalhada, acabadinha de anos, o pereiro airoso, e alfobres rente às paredes com bardinhos baixos de lenha, para as umbelíferas culinárias, onde se botavam as cinzas do lar que fazem bem aos alhos. Por cima do muro, ao correr da taipa, lá se acamavam fiadas de tojo que, em secando, endurece os picos finos e é todo ele uma sarça espinhosa, que não se lhe pode tocar. Nenhum murinho deixava de mostrar este espesso colmo hirsuto, por mor das chuvas e


Manuel Ribeiro no escritĂłrio com o jornalista Francisco Augusto Direitinho (1922)

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por via dos cães, e para a cambada dos moços pequenos se não engar na fruta (…)” (p. 93) Comentário: piorno: arbusto espontâneo semelhante à giesta com hastes maleáveis; acabadinha de anos: velha; alfobres: pequenos canteiros bem estrumados e preparados para receber sementeira ou plantação; umbelíferas culinárias: salsa e coentros; por mor das chuvas: os muros de taipa, sendo de terra apenas batida, têm de ser protegidos do embate das gotas de chuva; engar: cobiçar. “Padre Dionísio ficou espantado da extensão e largueza da horta, estendida por um vale abaixo, viçosazinha e fresca do plantio e do arvoredo frondoso, ele figueiras, nespereiras, alfarrobeiras e amendoeiras; ele árvores de pomar de toda a casta, seu bocado de bacelo, um grande meloal, e o hortejo miúdo para a panela, só por graça, que o legume é que reinava mais, e colhiamse famosas semeaduras de grãos de muito bom cozer. E flores! Pois havia flores!” (p. 176) Comentário: bacelo: parreiras. “Na casa de fora, rente às paredes muito alvas, alinhavam-se cerimoniosas cadeiras de bunho, pintalgadas berrantemente de grandes rosas vermelhas; um baú de coiro, com seu tapilho, descansava sobre um par de bancos, e num canto uma mesa com coberta branca até aos pés expunha ingenuamente velhos brinquedos de feira, búzios, vieiras, flores de papel e o relógio de madeira rematado em ângulo agudo. No meio da casa, ladrilhada a lambaz, estava a mesa posta em ar solene, à espera do senhor prior.” (p. 18)

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Comentário: bunho: planta vivaz que cresce em zonas alagadas e que é usado para fazer esteiras e o assento das cadeiras; bancos: as arcas não assentavam diretamente no chão mas sim sobre dois apoios corridos a que se chamam bancos; lambaz: ladrilho de barro vermelho grande. As casas tradicionais tinham muito pouco mobiliário. O que era tecido (vestuário, roupa de cama, etc.) era guardado em arcas, geralmente de couro ou pele de cabra. Também havia arcas chapeadas. “A estevinha e a enchapota crepitavam na lareira, seguindo-se logo o rechinar duma tigela de fogo.” (p. 59) Comentário: esteva: arbusto muito abundante na região; rechinar: onomatopeia que se refere ao ligeiro chiar que a panela faz quando está ao lume a ferver. As plantas usadas para fazer fogo e algo que lhe está associado: cozinhar. “Padre Dionísio, que depois da sopa de pão limpara um bom prato de grãos com carne de porco e se metera razoavelmente por um frango cerejado, dava-se já por satisfeito, quando a Sra. Felizarda rompeu de dentro com uma linguiça inteira, assada no borralho, que ele teve de provar ainda, para não dar desgosto àquela hospitaleira gente.” (p. 21) Comentário: borralho: conjunto das brasas e da cinza quente. Esta é uma refeição de “dia de festa”, não é uma refeição de um dia normal.


“O pároco saboreou com apetite as virtualhas sóbrias da mesa rústica, o queijinho de cabra e os tassalhos de rechonchudo paio, as azeitonas e a água-mel por cima, que lhe deixou na boca o suave e esquisito aroma dos nectários silvestres.” (p. 68)

Comentário: saracoteio: azáfama; lêveda: fermentada; chamiceiros: indivíduos que andavam colhendo mato que vendiam para combustível. Quando se tratava de cozer o pão as mulheres levantam-se mais cedo ainda.

Comentário: tassalhos: bocados grandes; água-mel: derivado do mel que resulta da limpeza das ceras do cortiço, mas também da colmeia, que é reduzido ao lume e que contém mel e vestígios de pólen e própolis. É ligeiramente doce e tem um sabor a caramelo. Este almoço ocorre no campo durante os trabalhos da ceifa. É um almoço ligeiro mas “remediado”. “Uma ocupação caseira que o detinha muitas vezes, e novidade para ele, era ver fabricar o pão. As mulheres erguiam-se cedíssimo, com escuro ainda, e amassavam, até já com sol, num enorme alguidar de barro vidrado, a amassadura da semana. Quando ele se levantava via ainda o saracoteio dos corpos e o vaivém dos braços enterrando-se na massa até ao cotovelo, batendo-a a punho fechado, fustigando-a desalmadamente tempos sem fim, para ficar bem lêveda. Depois a Sra. Felizarda ia lavar e aquecer o forno, queimando lá dentro braçadas de rama de azinheira, que ele com as terras abertas pouca esteva havia e nem esses pobres chamiceiros papa-léguas a alcançavam já para cozer o pão em Beja. Começava então Conceiçanita a tender os pães. De mangas arregaçadas, braços morenos à vela enfarinhados, salpicadinhos de neve, colhia a massa do alguidar, dava-lhe o jeito redondinho do pão sobre uma tábua polvilhada de farinha, e dispunha estes grandes novelos de neve no tabuleiro com seu panal alvíssimo, formando graciosos alvéolos com a toalha repuxada, e lá os ia acamando e aconchegando a um e um, até ficar o tabuleiro que nem um favo.” (pp. 109 e 110)

O autor Carlos Pedro / Antropólogo. Trabalhou, enquadrado no Campo Arqueológico de Mértola, sobre a tecelagem tradicional da lã e nos projetos “Poejo, Mantas e Pão: um estudo em etnotecnologias” e “Mudança Social e Práticas Alimentares no Concelho de Mértola 1960/1990”, ambos financiados pela JNICT. Recentemente colaborou na “Monografia sobre Ervidel - contributos para a sua história” (2016). Bibliografia SILVA, Gabriel Rui (2010), Manuel Ribeiro - O Romance da Fé, Lisboa, ed. Licorne RIBEIRO, Manuel (1996), A Planície Heróica, Lisboa, ed. Vega

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Memórias das

Transumâncias Campo Branco

Miguel Rego

_Foto: Rui Tremoceiro

no

Uma exposição que recupera “tempos passados”

Nas transumâncias que chegavam aos Campos de Ourique, o Merino Branco era o ovino de eleição. Sobretudo pela sua lã. Grande extensão do seu velo e boa qualidade das fibras.

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A geografia das transumâncias Inaugurada em Fevereiro, no âmbito do Festival Entrudanças, e fechando as suas portas em Outubro, depois da Feira de Castro, decorre no Núcleo da Oralidade do Museu da Ruralidade, em Entradas, a exposição “Memórias das transumâncias do Campo Branco”. Esta exposição é uma viagem evocativa ao fascinante mundo de pastores, tecedeiras e roupeiros, feita através de alguns objectos e fotografias. O visitante pode aqui sentir o doce suave da lã, os sons ternos da planície de chocalhos, campainhas e esquilas, reconhecer os gestos milenares de artes em extinção, como a do tosquiador, a da tecedeira ou a do cardador.

Mas se o “objecto” é nesta exposição o modo de chegarmos às vivências das práticas do dia-a-dia nesta região de transumâncias, como era o Campo Branco, aqui podemos também perceber o porquê da importância das transumâncias nas comunidades da região e, sobretudo, conhecer as rotas dos gados, as profissões e artes associadas. Paralelamente, esta exposição é também um chamar de atenção pelo património que se perde diariamente, assim como o esquecimento que se abate sobre expressões e práticas centenárias. Depois de terem desaparecido da Feira de Castro as “vendedeiras” de mantas do Lombador, vão sendo cada vez menos os tosquiadores de tesoura, acabam-se as queijadas de requeijão, poucos são aqueles que ainda saboreiam o almece com café, as pedras soltas dos currais da Perdigoa pouco mais são que monturos de coisa nenhuma.

Às portas do Campo Branco, terra de transumâncias e de regressos de gados, Entradas (Castro Verde, Portugal) era o ponto de passagem obrigatório dos rebanhos e manadas que tinham como destino os Campos de Ourique. Aqui chegavam às portas do Outono para uma invernada suave que duraria até Abril. O fenómeno centenário de passagem de gados vindos das beiras, sobretudo da Serra da Estrela, da meseta espanhola ou das serras do Algarve, trazia consigo falares e cantares diferentes, maneiras de fazer distintos, mas também uma cultura pastoril milenar que se repetia nos objectos, nos elementos decorativos, no saber-fazer de mantas de lã, do queijo ou no recortar da chapa para os chocalhos ou chocalhetas que identificavam e assinalavam o sítio onde os gados pastavam. Nas entradas dos Campos de Ourique residiu, ao longo de gerações, uma cultura que é identitária de uma comunidade pastoril praticamente extinta, representativa de um tempo em que as fronteiras eram determinadas pelo olhar universal dos homens simples dialogando com a simplicidade crua da natureza. A transumância é um fenómeno ancestral de movimento de gados, sobretudo ovino e bovino, num regime de sazonalidade, na procura de pastagens ricas. Em Portugal, uma das mais importantes (e a mais longa) rota de transumância trazia aos Campos de Ourique (no Sul de Portugal) os gados da Serra da Estrela. Começavam a chegar em Outubro e, em Abril, saíam de regresso às zonas altas, percorrendo mais de 400 quilómetros. Mas da meseta castelhana chegavam também às margens do Guadiana os rebanhos “sorianos”. Muitas vezes, andavam mais de 800 quilómetros durante um mês para

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se alimentarem nas margens do Guadiana, tidas como das mais ricas pastagens para invernar os gados. Para além dos animais de carga, que traziam os pertences dos pastores, família e os ajudantes de pastor (os zagais), vinham os cães pastores e algumas cabras. Estas serviam para fornecer de leite os pastores e os seus cães. Desses movimentos oscilatórios entre os campos extensos e de pouca densidade populacional do Campo de Ourique e as serranias geladas das Beiras, pouco resta actualmente. Ficou a memória documental e alguma documentação escrita que eterniza esse fenómeno histórico que teve o seu auge no período filipino (1580-1640) quando as fronteiras administrativas entre Portugal e Castela se dissimularam na sua dimensão regional e local.

Em Portugal, uma das mais importantes (e a mais longa) rota de transumância trazia aos Campos de Ourique (no Sul de Portugal) os gados da Serra da Estrela. Começavam a chegar em Outubro e, em Abril, saíam de regresso às zonas altas, percorrendo mais de 400 quilómetros.

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“...-chocalhos ou chocalhetas que identificavam e assinalavam o sítio onde os gados estavam.”

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Os Campos de Ourique, terras pobres de pastagens ricas Neste processo de transumância de gados, os Campos de Ourique têm um papel extraordinariamente importante. São um território cujos limites geográficos foram variando ao longo dos séculos, desde o século XIII até ao fim do século XIX, altura em que a expressão cai em desuso e perde alguma das funções administrativas que detinha. Aqui podem incluir-se, de forma grosseira, os territórios de Almodôvar, Ourique, Panóias, Castro Verde, Padrões, Messejana, Alvalade, Sines, Santiago do Cacém, Garvão, Entradas, Casével, Alcaria Ruiva, Aljustrel, Vila Nova de Milfontes e Colos. Terras bravas e de poucas explorações agrícolas, parcas de gente, este imenso território de aproximadamente 5000 km2, desde cedo que se torna destino privilegiado de grandes rebanhos e de extraordinárias receitas. Não é por acaso que enquanto o senhorio das vilas dos Campos de Ourique pertenciam à Ordem de Santiago, as rendas das pastagens e do montado eram exclusivamente para o Rei. No limite da Perdigoa, monte situado entre Entradas e Castro Verde, fazia-se a monta do gado de fora da Comarca de Ourique, logo desde o início do mês de Março para que, até Abril, todo o gado saísse para as zonas de serra. Ao longo dos séculos o imposto foi variando. Mas em média, pagava-se 4 carneiros por cada rebanho de ovelhas e uma vaca por cada 50/60 vacas. No entanto, os gados vindos de Espanha, após a Restauração, pagavam em média por cada rebanho, para além da dízima _Foto: Rui Tremoceiro

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Detalhes da exposição “Memórias das transumâncias do Campo Branco” (Núcleo da Oralidade do Museu da Ruralidade, Entradas)

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do gado nascido, quatro reais por cada 100 ovelhas e 10 reais por cada cento de gado bovino. As passagens para o gado (canadas) eram determinadas pelas câmaras municipais (para que não surgissem conflitos com os proprietários locais) e o tempo de passagem estava igualmente estabelecido. O máximo de dias permitido à passagem das ovelhas em Ourique, Almodôvar, Castro Verde, Alvalade, Aljustrel, Milfontes não podia ser superior a dois. Em Entradas e Padrões, três dias, em Mértola e Padrões 4 dias.

des que, de forma leve, ainda hoje identificamos no queijo “tipo Serpa” ou no queijo da Serra da Estrela, mas também nas mantas de lã alentejanas ou nas capas das serranias beirãs, nas queijadas de requeijão de Castro Verde ou nas meias de linha destas terras de planuras.

O merino, ovelha destas terras de diversidade

As grandes transumâncias terminaram nos anos 40 e com elas as grandes pontes culturais que ligavam as terras da Beira com o Alentejo e que se encontravam na alimentação (as migas), nos motivos decorativos das mantas ou nalgumas músicas de temática pastoril. Desses momentos da cultura das transumâncias há vários autores importantes da língua portuguesa que se lhe referem, dos quais trazemos Fialho de Almeida (1857-1911) e Ferreira de Castro (1898 – 1974).

Nas transumâncias que chegavam aos Campos de Ourique, o Merino Branco, predominante na região a partir dos Filipes substituindo a ovelha campaniça, era o ovino de eleição. Sobretudo pela sua lã. Grande extensão do seu velo e boa qualidade das fibras. Impôs-se por isso mesmo ao longo dos séculos (terá sido introduzida na Península Ibérica durante os séculos XII/XIII e é hoje cerca de metade do efectivo ovino nacional).

O primeiro, com um pequeno excerto que nos fala da vida de sofrimento das mulheres destas terras pobres, cujo papel educativo, social e económico era fundamental para sustentar a estrutura social da comunidade. Utilizando a lã, como matéria-prima, as mulheres tecedeiras faziam as mantas “alentejanas” que haveriam de vender na Feira de Castro, para ajudar às receitas extraordinárias da casa.

O Merino Branco é um animal bem revestido de lã. O velo muito extenso e tochado, com madeixas cilíndricas ou quadradas, é regularmente homogéneo. Aqui chegava em Outubro, quando as ervagens frescas começavam a romper, partindo em abril, quando os regatos começavam a calar-se, adivinhando as securas do verão dos Campos de Ourique.

“Entre Carregueiro e a fronteira algarvia, porque o terreno exausto pouco rende, exercem as populações desde tempos imemoriais, para viver, a tecelagem do linho, estopa e lãs, em teares caseiros, produzindo panos que durante séculos serviram ao consumo provincial. /…/ Quem vai à Feira de Castro aí topa o resumo das indústrias caseiro-pastoris do Campo Branco /…/. Mantas alentejanas em lãs sem preparo, às riscas brancas e pretas,/…/ alforjes de trapo, ou couro, ou lã que usa o maltês com duas pochas para guardar os pães da comedia/…/. Na esquálida planície de entre Carregueiro e Sabóia,

O aproveitamento da lã e o fabrico de queijo foram as principais fontes de rendimento destas comunidades pastoris, criando-se uma geografia de sazonalida-

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“O aproveitamento da lã (...) nas mantas de lã alentejanas ou nas capas das serranias beirãs, nas queijadas de requeijão de Castro Verde ou nas meias de linha destas terras de planuras.”

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não há casinha onde o tear não quede ao canto, para os serões da lareira inverniça, ou para a tristeza daqueles dias de chuva em que a lavoura não dá faina, e tem de se ficar em casa a ouvir o vento fanfar na telha-vã. Essas pobres tecedeiras /…/ que à noite pedem ao tear o suprimento do pão que a seara de três a quatro sementes lhes recusa.” Almeida, Fialho in “Saibam quantos…”, 1912 Por sua vez, Ferreira de Castro traz-nos uma noção de uma jornada de transumâncias nas serranias beirãs. “(...) Era a época em que, anualmente, se iniciava a transumância, levando-se o gado para longínquas campinas, onde a invernia se fizesse sentir menos. O primeiro rebanho a abalar, para a viagem de cinco, seis dias, que tanto exigia a caminhada dali até à Idanha, fora o do Canholas, com ovelhas de mais quatro pastores. Outros partiram depois (...) eram quase trezentas ovelhas, brancas e negras, mosaico que cobria toda a largueza da estrada, a caminho da terra baixa. À frente e aos lados, mantinham guarda o “Lanzudo” e outros cães, menos o “Piloto”, que fora considerado débil para a longa jornada. Atrás marchavam Horácio, o Tónio, o Aniceto, o Libânio, o filho do tio Jerónimo, e um burro por cada homem. Os onagros transportavam bardos e ferradas; e os seus alforges, com alimentos no fundo, guardavam espaço para recolha de cordeiros que dessem em nascer, como sempre acontecia, durante o trânsito. As ovelhas ora marchavam lestas e muito juntas no seu passo curto, se os gritos ou pedradas a isso impeliam; ora abriam clareiras no rebanho e cortavam à esquerda e à direita, à cata do pasto vizinho da estrada. Às vezes, os seus focinhos orientavam-se para a folhagem que tinha dono sempre pronto a barafustar contra as ladras; e, por mor dessas queixas e até de multas policiais, outras pedras e

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outros berros caíam sobre as famintas, que retomavam o caminho, na esperança de serem, além, mais felizes. (...) Finalmente, ao sétimo dia, vencida a estrada imensa, cruzando vales, grimpando serras, os condutores do rebanho transumante, todos sujos, cara negra de barba, corpos esgotados pela andança, viram, ao longe, as campinas da Idanha, seu último objectivo.”

A Herdade da Perdigoa Próximo de Entradas, a Herdade da Perdigoa aparece em vária documentação (COSTA, 1996, 84), como o local de contagem dos gados que vinham para os Campos de Ourique, antes de se “internarem pelas zonas de montado de Castro-Ourique-Garvão, no sentido do Litoral Alentejano”. Estrutura rectangular com uma área aproximada de 6500 m2, construída em pedra solta, é hoje pouco mais que um amontoado de ruínas, junto à Ribeira de Terges, ladeando o antigo caminho de Beja. No interior de um rectângulo maior, aparecem vários pequenos compartimentos que serviriam, entre outras funcionalidades, para acolher o procurador do montado que recebia os impostos. Neste fenómeno histórico-económico tão importante para a região Sul de Portugal durante mais de 600 anos, o Curral da Perdigoa é dos poucos vestígios materiais da cañada dos Campos de Ourique. A alteração da paisagem agrícola, o emparcelamento da propriedade a que se assistiu sobretudo a partir do segundo quartel do século XIX, assim como o recente processo de encerramento de antigos caminhos de uso rural, levaram ao desaparecimento quase irreversível de todos os vestígios de caminhos de passagens de gado, assim como da quase totalidade dos vestígios associados às transumâncias.


O autor Miguel Rego / Licenciado em Arqueologia e Graduação em Estudios de Tercer Ciclo, pela Universidad de Huelva. Coordenador do Museu da Ruralidade (Castro Verde) e Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Castro Verde.

Pormenor de um dos muros do Curral da Perdigoa

O que fazer com o Curral da Perdigoa Integrado na propriedade da Perdigoa, sem qualquer função que não a de tocas de coelhos, o “velho” curral da Perdigoa precisa ser protegido, valorizado e promovido, na perspectiva de se assumir como monumento único, depositário das memórias das transumâncias, factor histórico e económico diferenciador da construção desta região do Alentejo. A sua pouca distância da actual casa agrícola, assim como a beleza da paisagem onde se integra, faz do conjunto (onde se entrecruzam o património arqueológico, o património natural e o património arquitectónico) um elemento de extraordinária importância para o património do concelho de Castro Verde e mesmo da Região do Alentejo.

Bibliografia http://casadasbestas.blogspot.pt/2007/11/ aos-pastores-transumantes.html consultada em 22/2/2016 http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2009/09/16/a-republica-vista-porfialho-de-almeida/ consultada em 22/2/2016 http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/classificacao-de -bens-imoveis-e-fixacao-de-zep/ consultada em 26/2/2016 CASTRO, Ferreira de, A Lã e a Neve, Guimarães Editores, Lisboa, 1990 COSTA, João José Alves, O termo de Castro Verde, Câmara Municipal de Castro Verde, Castro Verde, 1996 MORAIS, J. A. David, “A Transumância de gados serranos e o Alentejo” in Coleccção Novos Estudos Eborenses, 3, Câmara Municipal de Évora, Évora, 1998 NEVES, Francisco Correia das, Da Serra da Estrela ao Campo de Ourique – memorial da antiga transumância, ACOS, Beja, 2001 NUNES, Francisco, O Livro da Câmara de Panóias – A Estrutura Agrária do Campo de Ourique nos séculos XVII, XVIII e XIX , Ed de Autor, Ourique, 2002

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Repositório Oral do Museu da Ruralidade de Castro Verde O

A abertura do núcleo da oralidade do Museu da Ruralidade, em Entradas (Castro Verde), em 2011, foi um passo determinante para o processo de valorização do projeto “Ruralidades” que tem vindo a ser desenvolvido continuamente, pelo município, quer no apoio a grupos corais, quer no esforço de recuperação do fenómeno da extinção da viola campaniça como no apoio à divulgação de formas de expressão musicais pouco conhecidas, como é disso exemplo o despique, o baldão e os bailes de harmónica.

Armanda Salgado

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Ainda que a constituição de um repositório oral não seja nova no panorama nacional, apresentando-se o “e-Museu MEMORIAMEDIA” um projeto exemplar, neste domínio, a verdade é que a riqueza e diversidade cultural do concelho de Castro Verde em termos de património cultural imaterial (PCI) obrigou a uma sistematização e reflexão sobre as manifestações deste património, impondo-se a sua integração na prática museológica, como uma mais-valia para o próprio discurso museográfico.

O museu é detentor de um centro de documentação que suporta e complementa o seu programa científico, na qualidade de museu de território e museu rural, o qual apresenta um fundo bibliográfico constituído não só por livros, periódicos, documentos diversificados, assim como uma centena de Dvd’s e Cd’s com registos sonoros e filmes de manifestações do PCI do concelho. Assim, a ideia de constituição de um repositório oral, no museu em Castro Verde, nasce do trabalho de cooperação entre a universidade de Évora e o município de Castro Verde, com o duplo objetivo de devolver à comunidade castrense as manifestações do PCI e que por direito lhe pertence e define, e ainda, de dar a conhecer ao público em geral este património. Para o efeito, e após uma primeira inventariação realizada pela equipa do museu, está a ser construída uma matriz que permitirá caracterizar o PCI pelos respetivos domínios: 1) tradições e expressões orais, incluindo a língua como vetor do património cultural imaterial; 2) Práticas sociais, rituais e eventos festivos; 3) conhecimentos e práticas relacionados com a natureza e o universo: e, 4) Competência no âmbito de processos e técnicas tradicionais.

Paralelamente, iniciou-se o trabalho em termos de conceção da estratégia de comunicação nos social media, com o intuito de assegurar a visibilidade do trabalho desenvolvido na unidade museológica. Na verdade, a existência de um projeto na web social revelou-se, desde o início, fundamental, para renovar a relação que a comunidade detém com as coleções e para garantir a projeção desejada. Facto é que à semelhança da maior parte dos museus do Alentejo, também o museu da Ruralidade não possui uma página web e, por isso, as redes sociais, apresentaram-se como uma oportunidade única de fomentar as relações a longo prazo com a comunidade. A estratégia comunicacional materializou-se nas seguintes etapas: 1) Criação de contas em diferentes perfis nas redes sociais: Facebook, Twitter, Google+, Pinterest e Youtube; 2) Implementação do projeto comunicacional do Museu da Ruralidade, tendo-se procedido à divulgação das coleções nas redes sociais, tirando partido das potencialidades de cada uma delas: Facebook (catálogo das coleções e registos textuais), Pinterest (albúns de fotografia); Youtube (Vídeos e música e realização de storytelling e Postcasts);

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Centro de Documentação do núcleo da oralidade do Museu da Ruralidade, em Entradas (Castro Verde)

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3) Monitorização e avaliação e avaliação do projeto de comunicação; 4) Organização de um ciclo de formações aos parceiros da Rede de Museus do Distrito de Beja (RMDB) com o objetivo de garantir a correta aplicação, manutenção e desenvolvimento do modelo de comunicação em todas as vertentes (física e online). O estudo, a valorização e a projeção do património imaterial do Museu da Ruralidade de Castro Verde, na qualidade de laboratório experimental de um projeto mais abrangente, no âmbito de um trabalho de pósdoutoramento sobre a usabilidade dos social media, para a promoção do PCI no Baixo Alentejo, espera, desta forma, dar resposta ao repto lançado pela convenção Da UNESCO de 2003. Apresenta-se, na verdade, como uma proposta para integrar este património na prática museológica, e ainda como uma possível estratégia, na sociedade contemporânea, para superar a “Crise de identidade institucional e simbólica” do museu em pleno século XXI (Brigola, 2008). Ao atribuir-se maior atenção às relações que se estabelecem entre os objetos e as pessoas, através da valorização da memória, em detrimento de uma abordagem centrada em demasia na cultura material, poder-se-á estar a assistir a uma mudança de paradigma (Carvalho, 2011), que passará por uma definição do papel dos museus na atualidade em termos de marketing potenciando assegurar relações a longo prazo com o público.

A autora Armanda Salgado / Bolseira Pós-Doc na Cátedra da UNESCO em Património Imaterial e Saber-Fazer Tradicional: interligar patrimónios da Universidade de Évora (2016-); Bibliotecária no Campo Arqueológico de Mértola (2009 - 2015); Membro integrado do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora (2009-); Membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da BAD (2012-). Referências bibliográficas BRIGOLA, J. C. (2008). A crise institucional e simbólica do museu nas sociedades contemporâneas: síntese da lição. Museologia.pt, 2, 155-161. CARVALHO, A. (2011). Os museus e o património cultural imaterial: estratégias para o desenvolvimento de boas práticas. Lisboa: Colibri; Évora: Cidehus. (Biblioteca estudos & colóquios; 2). MEMORIAMEDIA – e-Museu de Património Imaterial. Consultado em Maio 9, 2016, em http://www.memoriamedia.net. GONZÁLEZ FERNÁNDEZ-VILLAVICENCIO, Nieves (2012). Social media marketing o marketing digital? [Em linha]. [Consult. 1 Mar. 2016]. Disponível na Internet: <URL: Disponível em: http://www.nievesglez.com/2013/03/socialmedia-marketing-o-marketing.html UNESCO (2003). Convenção para a salvaguarda do património cultural imaterial. Consultado em Maio 14, 2016, em http://www.unesco. org/culture/ich/doc/src/00009-PT-Portugal -PDF.pdf

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_Projecto Cadernos da Poesia, apresentado em Casével

O polo da Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, em Casével, acolheu, no passado dia 5 de Maio, a apresentação do projecto Cadernos da Poesia. A revista, que se pretende tenha uma periodicidade semestral e cujo primeiro número deverá ser lançado em Outubro de 2016, por altura da Feira de Castro, pretende albergar poesias e poetas, divulgar livros e trabalhos de investigação em torno da poesia e de outras formas de expressão popular, para além de ser um instrumento de promoção do saber-fazer tradicional e dos rituais de comunidade. Nascido da cooperação entre o Museu da Ruralidade e o projecto “Conto com a Poesia”, da Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, que se desenvolve no Polo da

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Biblioteca em Casével, Cadernos da Poesia pretende ser um exercício de diálogo entre a palavra dita, a oralidade, as fórmulas de comunicação tradicionais e a palavra escrita, assumindo-se como um instrumento de valorização, promoção e divulgação do saber-fazer tradicional e os novos mecanismos de comunicação. Cadernos da Poesia procura mostrar, estudar e conhecer poetas e poetisas do mundo rural de ontem e mostrar momentos, episódios e tempos de partilha, em torno da poesia, que fazem os tempos de hoje. Desde o início do projecto do Museu da Ruralidade que a poesia popular, enquanto forma de expressão privilegiada das comunidades rurais e representativa de uma fórmula tradicional de comunicação entre indivíduos, está no


Nestas planuras onde a palavra dita foi, e é, tantas vezes, uma arma de revolta, de dizer verdades e de recusa do esquecimento. âmbito da intervenção deste “museu de território/museu de comunidade”; deste projecto de musealização que vamos construindo em Castro Verde. Em 2009, ocorreu o lançamento do livro de Manuel Martins Mira, “Poeta Escondido com verdade na rima” e no ano seguinte, em 2010, “Poetas de Casével”, uma colectânea de poesias de Maria Isabel Pereira Calado, Assunção das Neves Aires Pinto e António Silvestre Rosa. Em 2011, no ano do centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, “Morada da Poesia – poetas celebram Manuel da Fonseca”, é uma homenagem ao poeta alentejano que inclui textos de dez outros poetas, trabalho este coordenado por Luís Filipe Maçarico e Miguel Rego. Em 2015, é lançado “Quadras do Campo Branco”, uma colectânea de autores de Messejana construída por Maria Vitória Ruas, no mesmo ano em que se realiza na aldeia dos Aivados o I Encontro de Poetas Populares, evento cuja segunda edição decorreu já este ano no âmbito do programa de evocação do primeiro aniversário do Polo do Museu da Ruralidade “Aivados – Aldeia Comunitária”. Entretanto, em 2013, começou no Polo de Casével da Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca o projecto “Conto com a Poesia”, um encontro semanal de amantes de poesia que lêem, ouvem, declamam, constroem e desconstroem textos poéticos. Este é um novo projecto que ajuda a construir o conceito de Museu da Ruralidade, museu de território que se vai construindo.

Ao longo destes sete anos, a poesia foi nome maior em muitas outras iniciativas da Biblioteca Municipal, do Museu da Ruralidade, da Câmara Municipal. Com a apresentação do número 0 dos Cadernos da Poesia, pretende-se dignificar e mostrar poetas e poesias, textos poéticos, iniciativas em torno da poesia popular que vão acontecendo nestas terras campaniças. Nestas planuras onde a palavra dita foi, e é, tantas vezes, uma arma de revolta, de dizer verdades e de recusa do esquecimento. Os Cadernos da Poesia começam aqui um caminho em que, acima de tudo, procurarão mostrar a arte do dizer campaniço.

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_II Colóquio da Rede de Museus Rurais do Sul Santiago do Cacém foi o palco do II Colóquio da Rede de Museus Rurais do Sul, que decorreu no passado dia 5 de Maio. Com a participação de cerca de meia centena de pessoas, entre as quais o Presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, Álvaro Beijinha e o Vereador da Cultura, Norberto Barradas, o programa deste segundo colóquio procurou dar particular destaque às artes e saberes ligados à pesca, no interior sul, e a importância das memórias manuais e artefactuais na construção do modus vivendi do mundo da ruralidade. D’ Os barcos do Ardila à Pesca, pescadores, barcos da Lagoa de Santo André, trazidos, respectivamente por António Martins, do Museu de Santo Amador e por Dina Calado, passando pelos barcos e cabanas de pescadores, replicados em miniaturas pelo Senhor Júlio José, este foi um encontro onde não se deixou de abordar a importância dos Museus Rurais enquanto espaço de saberes tecnológicos, do passado e do presente, uma intervenção a cargo de António Nabais, da APOM. Os museus da Vidigueira e de Avis, através das suas responsáveis Luísa Costa e Paula Freire, mostraram a diversidade temática e territorial que enforma a Rede de Museus Rurais do Sul, onde a partilha na investigação e na divulgação de conhecimento são premissas maiores deste trabalho em rede e que tem na investigação em torno do Carro Cantador, que aqui foi trazida por José Matias, do Museu da Abela, um bom exemplo.

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António Nabais (APOM)

A Rede de Museus Rurais do Sul é um projecto de parcerias com berço em Castro Verde, por iniciativa do Museu da Ruralidade, e que teve na génese o Núcleo Museológico de Alcaria de Javazes (Mértola), o Museu Rural de Pias (Serpa), o Museu Arqueológico e Etnográfico de Santa-Clara-a-Nova (Almodôvar), o Museu da Farinha (S. Domingos – Santiago do Cacém), o Museu do Trabalho Rural (Abela – Santiago do Cacém), o Museu da Ruralidade (Entradas – Castro Verde) e o Núcleo Rural de Ervidel (Aljustrel). Esta plataforma de museus rurais tem como principal objectivo a criação de uma rede de partilha de conhe-


cimentos e experiências que funcione como espaço de trabalho para os técnicos dos museus rurais permitindo assim que se facilite, agilize e torne mais abrangente o trabalho realizado pelos museus onde esses técnicos desenvolvem as suas competências. O modo de funcionamento da Rede de Museus Rurais do Sul assenta na realização de sessões de trabalho de periodicidade trimestral que se reproduzam em colóquios, seminários, reuniões informais, com o objectivo de provocar a criação de trabalho científico conjunto, a divulgação das actividades dos museus e a avaliação dos métodos de trabalho de cada um deles. Num tempo em que impera o individualismo e em que cada um se fecha nos seus afazeres e interesses pessoais, esta Rede procura ser um contributo para que cada um dos museus, e os seus técnicos, possam chegar mais próximo da comunidade onde estão inseridos e, em conjunto com outros projectos museológicos, reflectir de forma mais aprofundada e mais abrangente a sua intervenção, na perspectiva de que essa reflexão será mais fácil, mais participada, mais trabalhada e mais diversa. A Rede de Museus Rurais do Sul deve procurar, desta forma, construir uma política de comunicação entre museus que seja o desenvolvimento de uma teia de entreajudas que trarão mais valor ao mundo rural, que trarão a dignificação e a repescagem das memórias mais recentes das comunidades, mas sobretudo, conseguir a valorização dos actores e das geografias e espaços de socialização e de identidade (incluindo os das diásporas) que são parte indispensável para a construção do mosaico de valores de que os museus rurais, ou espaços de representação museográfica da ruralidade, devem ser reflexo: no que mostram, no que invocam, no que provocam.

Visita ao Museu do Trabalho Rural (Abela)

Entretanto, foram já marcados os próximos colóquios da rede e que decorrerão no Museu de Coruche, em Novembro, em Alcaria de Javazes (Mértola) em Fevereiro, tendo como tema base a gastronomia e no dia 5 de Abril, dia nacional dos moinhos, no Museu da Farinha, em S. Domingos (Santiago do Cacém), tendo como tema a molinologia.

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_O meu presépio deu cor ao Natal em Entradas e Almeirim O meu presépio foi uma iniciativa promovida pelo Museu da Ruralidade em Entradas e em Almeirim, e que pretendeu envolver os colaboradores de cada uns dos polos museológicos deste museu do território – ecomuseu de Castro Verde: o Núcleo da Oralidade e A Minha Escola.

Entradas

Entradas

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Ao longo dos últimos três meses de 2015, o Grupo da Meia, em Entradas, criou o seu presépio de Natal, em tecidos (novos e velhos) e em materiais reciclados, à volta do quadro tradicional do menino Jesus, José e Maria (um trabalho em barro da autoria de Vanda Palma). Esse conjunto era composto por três grandes quadros que pretendiam evocar um mundo de ruralidade onde o religioso ganha dimensões diversas, consoante a época do ano. O primeiro quadro, a oriente, os Reis Magos chegam com as tradicionais oferendas de ouro, incenso e mirra. O azul forte do painel e o palácio de inspiração arábica, contrastam com a ambiência rural e simples dos restantes quadros que invocam os campos de rebanhos e trigos. Um discurso cromático onde se entrecruza a memória imaginada de todos nós e a história de um tempo de ontem, onde não faltaram as famosas searinhas de trigo das meninices de antanho. Entretanto, em Almeirim, a criação do presépio decorreu durante os meses de Novembro e Dezembro. O quadro representado foi o da típica gruta enriquecida com figuras simples de animais e pastores feitas em tecidos e em materiais reciclados, à volta da tradicional ima-


gem do menino Jesus, José e Maria. A gruta estava encimada pela estrela que permitiu aos Reis Magos, vindos do Oriente, encontrar o Menino, para lhe oferecerem os tradicionais ouro, incenso e mirra. Entretanto, as árvores do pátio do polo do Museu da Ruralidade, “A minha Escola” foram decoradas com bolas e estrelas feitos com materiais recicláveis. Estes dois presépios tiveram a colaboração de quase três dezenas de colaboradores e foi coordenado por Ana Morais, estagiária PEPAL no Museu da Ruralidade. Esta é uma iniciativa que se pretende repetir em 2016, envolvendo desta vez outras localidades do concelho.

Entradas

Almeirim

Almeirim

Almeirim

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Cadernos do Museu / 4  

Publicação semestral do Museu da Ruralidade - Castro Verde / Julho de 2016

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