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Brigada dos Amaldiçoados

Capítulo 1 – O sonhador Hector acordou de súbito, despertando de um pesadelo. Sentou-se na cama rapidamente e olhou em volta, ainda ofegante. Nada havia mudado no quarto em que dormia na casa dos avós, as paredes ainda possuíam sua cor azulada, os brinquedos ainda estavam arrumados sobre a cômoda, os raios de sol entravam pela fresta da cortina. Ele esfregou os olhos tentando esquecer-se de partes do pesadelo e calçou as pantufas para descer até a cozinha, de onde podia-se ouvir um cantarolar animado. Omar, avô de Hector, acordava muito cedo, lia o jornal e tomava um chá. Depois ia para a cozinha, onde preparava panquecas enquanto cantava. Fazia isso todas as manhãs, no mesmo momento que Judite, sua esposa, levava um tempão no banheiro tomando banho e arrumando o cabelo. Hector desceu ainda sonolento até a cozinha, sentou-se numa cadeira e observou o avô fazer as panquecas cantando algumas músicas. Metade do que cantava eram apenas la-ra-la-ra-la-ra, que ele incluía no meio da canção por não lembrar da letra, mas isso não fazia diferença. Ele cantava e dançava enquanto Hector sorria ao ver a cena. Omar era um senhorzinho engraçado, baixinho e com um bigode branco. Estava vestindo um pijama azul com listras brancas e usava um pequeno par de óculos redondos. Animado pela música, ele levava uma frigideira ao fogo enquanto pratos flutuavam para cima da mesa. Um líquido branco escorria de uma concha e se esparramava na frigideira formando um círculo perfeito. Uma mexidinha na alça para cobrir os locais que ainda não havia massa e pronto, uma panqueca ia dourando rapidamente. Omar ainda tentava o truque de jogá-las para cima na hora de virar, mas ele conseguiu isso somente uma vez, as outras tentativas resultaram em panquecas caídas sobre o fogão, no balcão e uma que foi parar no chão, para o horror de Hector, que não estava acostumado com desperdícios. Mas seu horror com o desperdício durou pouco, pois um gato cinza, velho e gordo veio correndo sabe-se lá de onde e grudou as presas na panqueca, depois tentou levá-la para fora, mas não conseguiu carregar tanto peso. — Observe este preguiçoso – disse Omar.


Como se ele estivesse prevendo, o gato tentou mais uma vez levar a panqueca para fora, mas desistiu. Deitou, escorou a cabeça no disco dourado e foi pegando no sono, até adormecer profundamente com a boca aberta. — Toda manhã é a mesma coisa. – Riu. – Eu sempre deixo uma panqueca cair no chão de propósito para ele. Mas não se preocupe, em algumas horas, ele vai acordar com fome e vai comer a panqueca. Hector riu ao escutar o gato roncar tão alto quanto uma pessoa. Judite chegou na cozinha exatamente no momento em que Omar colocava as panquecas prontas na mesa. Todos sentaram e começaram a comer. Hector ainda trazia em sua face a preocupação com o pesadelo. — Está tudo bem, querido? – perguntou sua avó. – Você parece meio abatido. Não me diga que teve outro pesadelo daqueles? O neto fez um aceno positivo com a cabeça enquanto mastigava uma panqueca. — Não fique assim, Hector, você está seguro agora. Seu pai não será mais um problema para você. Nenhuma criança com dez anos deveria sentir tanta preocupação assim. Hector forçou um sorriso, apesar de sentir um arrepio toda vez que lembrava do pai. Pelo menos, agora estava protegido morando com os avós. Ao acabar de comer, Hector ajudou a retirar a louça suja. Levou os pratos e talheres até a pia, depois foi para a sala onde se sentou no sofá com o olhar perdido. — Omar, por que você não leva Hector para passear? Será bom para que ele se distraía um pouco. — Você tem razão! – respondeu Omar empolgado. – Já estava me esquecendo, hoje vai acontecer o grande jogo entre Dragas da Romênia contra o Pegasus Del Sur. Podemos assistir ao jogo lá no Javali Bisonho, o que acha Hector? O menino ficou de pé e esboçou um sorriso. — Vamos! — gritou agitando os braços. — Posso usar minha camisa do Dragas? — Deve! Hector correu escada acima procurando pela camiseta do time de argobol favorito dos bruxos brasileiros. Em alguns minutos, ele voltava vestindo a camiseta e segurando uma bandeira do time nas mãos.


Nunca tinham visto um sorriso tão grande no rosto do senhor Omar Barba. Ele se apressou em também colocar a camiseta do time, pegou um chapéu e voltou para a sala. Chamou o menino para o acompanhar e saíram. Judite sorria, feliz, enquanto o gato sonhava que conseguia levar a panqueca até a rua. Hector andava apressado, por vezes tendo que parar para esperar o avô que caminhava com certa dificuldade por causa da idade avançada. O bairro onde eles moravam era um típico bairro residencial, com ruas tranquilas e bem arborizadas. Havia um certo ar amistoso entre os vizinhos, que acenavam e cumprimentavam todos alegremente. Apesar de ser uma cidade de bruxos, havia poucos indicativos que poderiam denunciar que ali moravam pessoas capazes de realizar qualquer mágica. Havia bares, cafés, padarias e muitas crianças brincando pela rua. Hector ficava maravilhado com a liberdade que elas tinham para gritar, cantar e pular, coisas que provavelmente iriam irritar seu pai na época em que moravam juntos. Enquanto passavam por uma rua a três quadras de onde moravam, eles pararam diante de uma pequena loja de doces chamada Fino Ronco – Doces Caseiros. Hector sempre achava a placa engraçada, já que retratava um homem muito magro, vestindo roupas azuis com listras pretas, mordendo um doce comprido e fazendo uma careta. — Vô Omar, vamos comprar alguns doces no Fino Ronco? — Ora, por que não fazemos uma aposta? Se o Dragas ganhar hoje, dou a você 50 dobrões para gastar na loja do senhor Fino Ronco. — Mas o senhor está torcendo contra o Dragas da Romênia? — Não, estou apenas aumentando sua felicidade quando ganharmos daqueles bruxos argentinos! Hector riu e aceitou a aposta. Eles foram diretamente até a avenida principal de Vila Vareta, a Avenida dos Alquimistas, e entraram em uma rua sem saída. A rua se iniciava entre duas enormes figueiras e seguia por alguns metros até terminar em um muro completamente pichado com diversos desenhos e palavras indecifráveis. No início da rua, uma placa de madeira anunciava o nome: Rua Sem Fim. No muro, havia um desenho de um velho de costas usando chapéu de palha, camisa vermelha, calça amarela e botas pretas. Havia também a palavra “Convencido”, escrito no canto esquerdo do muro. — Bom dia, Pedro Picho! — saudou Omar.


Imediatamente o desenho do velho de chapéu deu um pulo e se virou. — Ah! Olá, senhor Omar — respondeu a pichação. — O que faz aqui a esta hora da manhã? — Hoje é o grande dia! — anunciou todo sorridente. — Hoje o Dragas vai finalmente ter sua revanche contra o Pegasus Del Sur. — Oh! Isso é realmente empolgante — disse Pedro Picho, depois tirou o chapéu e coçou a cabeça. — Não vai abrir a porta? É um jogo muito importante. — Verdade, eu imagino que seja realmente importante, mas você conhece as regras. A pichação parecia entediada, caminhou alguns metros pelo muro e coçou a barba. — Bem, eu não tenho um motivo melhor para ir até o Javali Bisonho — concluiu Omar. — E eu ainda não estou convencido a abrir a porta! — devolveu Pedro Picho, já um pouco aborrecido. — Eu tenho um bom motivo — intrometeu-se Hector. — Meu avô apostou que me daria 50 dobrões se o Dragas ganhar. Então, preciso ver o jogo para saber o resultado. Pedro Picho pensou um pouco, até que cedeu abrindo um sorriso. — Tudo bem, menino. Não é um motivo tão grande assim, mas tenho certeza de que para você isso é realmente importante, então estou convencido, vou abrir a porta! Hector e seu avô comemoraram, enquanto Pedro Picho, a pichação que precisa ser convencida a abrir a porta da Rua Sem Fim, tirava do chapéu o desenho de uma chave dourada e a colocava numa fenda no muro, que estalou. Parte do muro ficou turvo, como se estivessem olhando para uma bacia cheia d’água. — Podem entrar — permitiu Pedro. Hector e o avô se apressaram para atravessar o portal. Do outro lado, a Rua Sem Fim se estendia por vários metros com suas lojas e estalagens. O menino sempre ficava estupefato ao entrar na rua, pois todas as vezes pareciam uma primeira vez ali. Diante deles, estava uma rua larga de paralelepípedos, com prédios de tijolos vermelhos e amarelos que se iniciavam de um lado da rua, formavam um arco sobre


ela, para depois terminar do outro lado da calçada, formando um verdadeiro túnel de estabelecimentos. De forma que se você entrasse em uma loja numa calçada e subisse todos os seus andares, acabaria saindo do outro lado da rua. Era um local bastante movimentado, onde bruxos de várias partes do país fervilhavam em busca de descontos e artigos que não eram encontrados em outro local. As janelas e placas das lojas pendiam das laterais dos prédios, sobre a cabeça de todos, que tinham que ficar torcendo o pescoço para lerem o que diziam ou voar de vassoura para enxergar as vitrines no topo deste grande túnel de prédios retorcidos. Omar e Hector foram rapidamente até o Javali Bisonho e entraram pela grande porta de madeira com a cabeça de javali acima deles. Estalagem muito conhecida pelos bruxos de Vila Vareta, o Javali Bisonho construiu sua fama por transmitir os jogos do Dragas da Romênia ao vivo para os torcedores, que sentiam muito orgulho do grande número de brasileiros que atuavam num dos melhores times de argobol do mundo. Era uma estalagem de estilo medieval, com grandes mesas de madeira, candelabros prateados ornados com filetes de ouro, uma grande lareira e sofás confortáveis, onde os clientes poderiam acompanhar os jogos projetados por um feitiço num imenso vitral na lateral do lugar. Avô e neto abriram caminho entre os torcedores com camisetas do time e rostos pintados de vermelho e laranja, as cores do Dragas, e se sentaram em uma mesa ao lado de uma grande armadura prateada. Alguns minutos depois, o vitral da lateral da estalagem ficou escuro, para depois passar a transmitir imagens de um bruxo vestindo terno e um chapéu pontudo. — Estamos ao vivo aqui no estádio Magie Bleue, em Paris, onde hoje o Dragas da Romênia enfrenta os argentinos do Pegasus Del Sur pelo Campeonato Mundial de argobol, refazendo a final do último campeonato onde os argentinos levaram a melhor. Hector e o avô roíam as unhas enquanto o narrador anunciava a lista de jogadores de ambos os times, para em seguida mostrar imagens deles entrando em campo montados em vassouras velozes. Os torcedores fizeram uma grande algazarra durante todo o jogo, gritando de felicidade a cada gol marcado e praguejando contra o juiz a cada gol sofrido, até que no final o artilheiro do Dragas conseguiu marcar um gol quando estava quase sem ângulo, levando os torcedores à loucura.


Todos comemoraram criando luzes coloridas com suas varinhas e soltando confete por todo o lugar, enquanto Omar Barba, com um grande sorriso no rosto, tirou uma nota de 50 dobrões e a entregou para seu neto. — Acho que temos um encontro marcado com o senhor Fino Ronco, não acha? Hector guardou o dinheiro no bolso e abraçou o avô, pegando-o pela mão e o puxando para fora da estalagem o mais rápido possível. Eles saíram da Rua Sem Fim, dando tchau para Pedro Picho, e voltaram para o bairro onde moravam. Lá, mais uma vez, pararam diante da placa da loja do Fino Ronco. — Vamos logo — disse Omar, tão empolgado quanto o neto. — Vamos entrar de uma vez. O avô foi na frente, abriu a porta da loja, o que fez tocar um pequeno sino em algum lugar acima de suas cabeças. Por fora, a loja parecia uma casa comum, até mesmo muito pequena. Se não fosse a placa e o letreiro, jamais alguém iria suspeitar que ali funcionava uma fábrica de doces caseiros. A porta, porém, se abriu para um imenso salão, com prateleiras de cerca de cinco metros de comprimento feitas de madeira já envelhecida. Nas prateleiras, inúmeros potes de vidro, dos mais variados formatos, guardavam doces coloridos, reluzentes, saltitantes e qualquer outro adjetivo que um garoto de dez anos poderia imaginar. Hector ficou de boca aberta, olhando para todos os lados enquanto Omar tirava o chapéu e pendurava em um cabideiro atrás da porta. Ele caminhou pelas prateleiras tentando imaginar quais doces seriam vendidos em cada pote, porém nenhum deles tinha qualquer tipo de etiqueta ou embalagem. — Fino Ronco? — gritou Omar. Não houve resposta. Eles caminharam pelas prateleiras, em direção ao caixa, no fundo da loja, cerca de cinquenta metros adiante. Ao chegarem, perceberam que o caixa estava aberto, com dinheiro jogado por cima do balcão e doces espalhados por todo lado. No chão, em meio a alguns pacotes, um homem magro, com o mesmo uniforme da placa, dormia de boca aberta agarrado a um pote de balas coloridas. Ele roncava de forma tranquila, emitindo uma espécie de apito agudo a cada respiração. — Ah, Fino Ronco… — O avô, apático, estendeu a palma da mão em direção ao dorminhoco. — Fino Ronco! O homem deu um pulo, enfiou uma pazinha no pote de balas, jogou tudo num pacote de papel e estendeu em direção à parede.


— Aqui está… — disse confuso. Hector riu. — Senhor Fino Ronco —começou Omar calmamente —, quem quer que o senhor estivesse atendendo já foi embora. Fino Ronco se virou, levantou a sobrancelha esquerda e largou o pacote sobre o balcão. — Eu sei — respondeu. Depois escorou a mão no balcão e, num pulo, passou para o outro lado, quase caindo em cima de Hector. – Me desculpe. Não sabia que estava acompanhado por um infante. — Infante? — estranhou Hector. — Sim, infante, criança, pequeno, baixinho, garoto… você! — explicou Fino Ronco esticando um dedo extremamente longo e fino em direção ao nariz de Hector. — Lembra-se do meu neto Hector? — perguntou Omar, todo orgulhoso. — Ah, sim, aquele que é filho da megera — respondeu Fino Ronco sem a menor cerimônia, depois pegou uma pazinha e um pacote de papel. — O que é megera? — indagou Hector ao avô. — Uma palavra muito engraçada que o senhor Fino Ronco acabou de inventar — disse sem graça. — Penso que o senhor Fino Ronco deva ter esquecido que sua mãe é minha filha. — Não, não esqueci — falou, pegando agora uma imensa escada que estava atirada no chão de um dos corredores. – Você, senhor Omar Barba, é que se parece demais com esta loja: por dentro é um doce, mas por fora não quer chamar atenção. Dizendo isso, ele apoiou a escada em uma das prateleiras, subiu alguns degraus e a escada partiu em altíssima velocidade até parar bruscamente no fim da prateleira, depois fez uma curva, passou para o outro lado e deslizou novamente até Fino Ronco desaparecer da vista deles. De algum lugar da loja, pode-se ouvir um grito: — E o que vão querer desta vez? — Nós queremos dez Abelhas de Mel, dois Pingos de Flor de Açúcar e três Bolinhos de Chuva — gritou em resposta Omar. — Sua vó adora os Bolinhos de Chuva do Fino Ronco — complementou para o neto. Houve um barulho. A escada correu novamente, passou de uma prateleira para outra, até ressurgir, apressada e sozinha, diante deles.


— Vamos atrás dele, Hector. Os dois caminharam pelos corredores procurando Fino Ronco, que foi encontrado em pouco tempo deitado com as pernas e braços esticados. — Não se preocupe. Ele já está acostumado a pegar no sono e cair estatelado da escada, vai ficar bem. O que sempre me preocupa é se ele dormiu antes ou depois de pegar todos os doces; se não pegou tudo, temos que ficar aqui esperando ele acordar e terminar de pegar. — Mas não podemos subir na escada e pegar os doces? — indagou Hector, rindo. — Jamais. Somente Fino Ronco sabe onde estão os doces. Além do mais, se outra pessoa retirar um doce do pote, ele imediatamente apodrece. Um pequeno toque mágico do nosso amigo Fino Ronco. Por sorte, na mão do homem estavam três pacotinhos de papel, já fechados. Omar pegou os pacotes e colocou alguns dobrões na mão de Fino Ronco. Foram até a porta, onde Omar pegou seu chapéu e saíram da loja. Do lado de fora, Hector não se continha de felicidade vendo os pacotes. — Bem, eu não devia lhe dar doces antes de almoçar, mas que mal tem? — questionou Omar abrindo um dos pacotes. Em sua mão estavam pequenas abelhas marrons, feitas de chocolate. Elas se mexeram, bateram asinhas e voaram rápido até desaparecerem no céu. — Onde elas foram? — perguntou Hector, preocupado em perder seus doces. — Veja isto! Omar assoviou e abriu a boca. Então, uma abelha veio voando rapidamente e se jogou dentro da boca dele. Ele fechou e mastigou. Seus olhos se fecharam ao saborear o famoso doce de Fino Ronco. — Adoro o gosto de mel que fica na boca! — Agora eu! — É só assoviar e abrir a boca. Nesse momento, ele percebeu que não sabia assoviar. Tentou algumas vezes emitir algum som, mas tudo o que fazia era assoprar soltando um pouco de saliva. Tentou mais uma vez, um pequeno assobiozinho saiu tímido para depois sumir. Uma abelha veio apressada e bateu com força no nariz de Hector, explodindo em vários


pedaços no seu rosto. Um pequeno ferrão de canela ficou espetado em seu nariz. Ele riu, pegou os pedaços e colocou na boca. O sabor era realmente divino, uma mistura de chocolate, mel e mais alguma coisa que fazia Hector se sentir feliz. — São realmente bons — afirmou com o rosto todo sujo. — Mas difíceis de comer. — Não tem problema, elas ficarão voando por perto por alguns dias. Treine um pouco, mas, quando conseguir, não esqueça de abrir bem a boca. — O que tem nos outros pacotes? — Bem, temos Pingos de Flor de Açúcar, mas não podemos comer aqui. Temos que colocar o pingo num prato com água para uma flor de açúcar brotar de dentro dele. São sobremesas lindas e deliciosas. — E o outro? — falou Hector encantado. — O Bolinho de Chuva? Veja você mesmo, pegue um. O neto colocou a mão no pacote de papel e retirou um pequeno bolinho dourado sem nada de especial, mas, quando foi morder, percebeu que algo começou a acontecer: uma pequena nuvem se formou sobre o bolinho e passou a chover gotas de chocolate que foram espalhando uma grossa camada de cobertura sobre o bolinho. — Espere terminar toda a chuva para ter o máximo de cobertura — explicou Omar, que não se continha ao ver a surpresa no rosto do neto. A chuva foi passando e o bolinho tinha tanta cobertura que o chocolate escorria pelos dedos e pingava no chão. Hector mordeu o bolinho, mastigando a mistura mágica e sentindo-se nas nuvens. Mordeu mais algumas vezes até acabar, limpando as mãos sujas na roupa. Partiram dali em direção a casa, onde, a esta altura do dia, Judite devia estar preparando o almoço.

Hector sentia-se feliz morando com os avós. Omar era um brincalhão de primeira, sempre entretendo o neto com doces, brinquedos encantados ou com suas panquecas. Judite não ficava para trás, mimava o neto sempre que podia com bolos, chocolate quente e histórias divertidas de sua época de juventude, quando era uma respeitada funcionária da Federação Mágica do Brasil. — Vô Omar, no que o senhor trabalha? — questionou Hector em um momento de descontração.


— Ora, eu já me aposentei há muitos anos. Mas por que a pergunta? — Vó Judite vive contando histórias de quando trabalhava na Federação, mas o senhor nunca me contou nenhuma história sobre seu trabalho. O que o senhor fazia? Neste momento, Omar Barba ficou um pouco desnorteado. — Eu… eu — gaguejou ele, olhando para todos os lados como se a resposta fosse lhe saltar às vistas. – Bem, Hector, a verdade é que eu tinha um trabalho muito perigoso. Nada de bom eu poderia contar sobre isso sem que você ficasse preocupado. Posso lhe dizer que também trabalhava para a Federação, mas minhas histórias não são tão atrativas quanto às de sua avó. Omar tirou o chapéu, coçou a cabeça e olhou para Judite, que sorriu com a resposta. — Gostaria de saber porque vou entrar para a escola ano que vem e não sei no que vou trabalhar quando me formar. — Ora, mas é essa a sua preocupação? — Riu Judite. — Querido, você ainda tem sete anos de escola até escolher a profissão que irá exercer. Você não precisa escolher uma já no seu primeiro ano. — Além disso, no último ano da escola você provavelmente terá uma feira de profissões, onde serão apresentadas aos alunos várias possibilidades de carreiras — explicou Omar. — Como sua avó falou, não precisa se preocupar com isso agora. — Mas me preocupo, pois não quero ser que nem meus pais — disse Hector melancólico. — Quero ser como vocês. Os avós de Hector se entreolharam e ficaram comovidos. Judite foi até o neto e o abraçou. — Querido, não precisamos ser como nossos pais — falou ela. — Nós temos o livre-arbítrio para sermos quem quisermos, e isso é algo muito animador, pois podemos escolher nosso caminho independente do que aconteceu no passado. — Livre o quê? — perguntou Hector confuso. — Livre-arbítrio! Quer dizer que você pode tomar suas próprias decisões. Pense nisso e não fique preocupado com o rumo que seus pais tomaram, pense no seu próprio caminho daqui para frente. Judite deu um beijo na testa do neto e só então percebeu que já estava tarde. Ela pediu para que ele fosse para a cama e lhe desejou uma boa noite. Obedecendo a


sua vó, ele foi para o seu quarto e, alguns minutos depois, já estava dormindo profundamente.

Hector se sentiu amedrontado por uma estranha sensação de que era observado. Sentou-se na cama, suando frio, ouvindo barulhos estranhos que vinham do sótão acima do quarto. Ele saiu sem fazer barulho e caminhou pelo corredor até uma escada de madeira que descia de um alçapão. Ele sabia que ali era a entrada do sótão, mas nunca tinha ido até lá. Estava escuro e frio, mas algo dizia que deveria criar coragem para ver que sons estranhos eram aqueles que ele escutava. Subiu a escada e abriu o alçapão. O sótão estava escuro, com apenas alguns feixes de luz que vinham do poste do outro lado da rua e que entravam por uma pequena janela iluminando objetos espalhados cobertos por teias de aranhas. Passando pelo alçapão, ele o fechou. Caminhou examinando os móveis e objetos abandonados ali pelos avós. Havia uma infinidade de peças, como sapatos velhos, caixas de botões e quadros antigos, mas havia coisas maiores, como cadeiras quebradas e alguns baús de madeira; tudo muito empoeirado e com aspecto esquecido, exceto por um grande baú de madeira decorado com tiras de couro, que parecia estar impecável. Por estar impecável, esse baú se destacou dos demais que podiam ser vistos ali. Hector foi até ele e se ajoelhou para abrir a pesada tampa que estava destrancada. Dentro do baú, havia algumas fotos antigas de seus avós, além de um grande tecido cuidadosamente dobrado. Hector pegou o tecido e puxou para fora, tentando deixá-lo diante de um dos feixes de luz para que pudesse enxergar. Era uma grande capa verde-escura, com um brasão bordado do lado direito com as letras F.M.B. — Isto parece uma… — Hector investigava a capa, sem conseguir falar em voz alta o que pensava. Ele ouviu passos atrás de si. Ficou com medo e largou a capa, jogando-se contra os baús que estavam em um canto escuro. — Hector? — chamou uma voz masculina. O garoto se encolheu agarrando os joelhos e gritou desesperadamente. — Hector, se acalme, sou eu.


Neste momento, Omar fez o porão se iluminar usando um feitiço com a varinha que trazia consigo. Hector levantou-se rapidamente e abraçou o avô, depois chorou. — Pensei que fosse meu pai. Fiquei com muito medo. — Acalme-se, querido, seu pai não virá até aqui importunar você. O menino concordou com a cabeça e fungou algumas vezes tentando engolir o choro. — O que fazia aqui, Hector? Escutei alguém mexendo nas minhas coisas, então suspeitei que fosse você. — Eu não queria mexer nas suas coisas, mas escutei um barulho… — Na próxima vez que escutar algo estranho, vá me chamar. Você ainda nem tem uma varinha, o que faria se tivesse tido problemas? — Não pensei antes de agir. — Tudo bem, você não fez por mal. Omar juntou a capa verde-escura do chão e a dobrou com um misto de cuidado e respeito. Depois voltou a colocá-la no baú e fechou a tampa lentamente. — Então, você era… — disse Hector tentando formular uma pergunta. — Sim, eu era um Prior — respondeu Omar Barba, orgulhoso. — E um dos bons! O avô abriu um sorriso. Fazia tempo que queria contar para o neto que ele tinha feito parte do Priorado dos Magos, bruxos ligados à Federação Mágica do Brasil, responsáveis por investigar, prender e interrogar bruxos das trevas. Omar, porém, não achava que o neto era maduro o suficiente para ouvir as histórias que ele tinha para contar. — Eu fui um Prior durante muitos anos — contou Omar finalmente. — Estava na linha de frente quando bruxos caíram para as trevas e ficaram maus. Eu tenho tantas histórias para lhe contar, Hector, mas não posso. Algumas delas são terríveis demais, outras ainda estão sob sigilo da Federação. Então, peço que entenda isso e não faça perguntas cuja as respostas não consigo lhe dar. Hector pareceu entender seu avô e, ao invés de enchê-lo de perguntas, preferiu abraçá-lo por longos minutos. — Obrigado, vô Omar. — Obrigado por quê?


— Porque agora já sei o que quero ser quando me formar. Omar guardou o sorriso, depois se abaixou para ficar na altura dos olhos do neto. — Que bom que pense em seguir a mesma profissão que exerci. Realmente fico muito emocionado por isto. Mas não se precipite. Nós, bruxos, precisamos de gente valorosa em várias áreas, e o Priorado dos Magos é uma parte muito perigosa do nosso mundo. Peço que não pense nisso, ao menos por enquanto. Como sua avó e eu lhe falamos mais cedo, você ainda tem muitos anos para pensar nisso. Omar bagunçou os cabelos do neto e pediu para que ele voltasse para cama. Mais uma vez, houve um barulho no sótão. — Olhe, é aquele barulho novamente — disse Hector. Neste momento, Meu, o gato de Omar, saía de dentro de uma caixa com cara de poucos amigos. — Você precisa se acostumar com uma coisa, Hector: numa casa onde mora um gato, todo barulho tem o mesmo culpado. Os dois riram e desceram pelo alçapão. Meu, o gato, voltou para dentro da caixa, onde iria dormir por mais algumas horas.

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