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PALAVRAS O EDITOR NORUEGUÊS NO TOPO DO ELEVADOR DE SANTA JUSTA REVISTA  5/JUL/14


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PALAVRAS O EDITOR NORUEGUÊS NO TOPO DO ELEVADOR DE SANTA JUSTA REVISTA  5/JUL/14


CULTURA

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NOS PASSOS DE PESSOA Ficou conhecido em março, quando abriu uma loja em Oslo onde só vendia o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, aumentando a procura por uma obra até então desconhecida na Noruega. Agora, Christian Kjelstrup está em Portugal, a vender mais livros e a conhecer a Lisboa do poeta português TEXTO DE MARIA JOÃO BOURBON FOTOGRAFIAS DE TIAGO MIRANDA REVISTA  5/JUL/14


LUGARES DE PESSOA CHRISTIAN A LER A VERSÃO NORUEGUESA DO “LIVRO DO DESASSOSSEGO” NO ELÉTRICO 28  E SENTADO À MESA DO POETA NO CAFÉ MARTINHO DA ARCADA, NO TERREIRO DO PAÇO

REVISTA  5/JUL/14


Q

“Querida Lisboa, Querido Fernando, desde o primeiro minuto em que aqui cheguei, sinto-me feliz.” A mensagem pode agora ser lida no livro de dedicatórias do Martinho da Arcada, o mais antigo café lisboeta, que Fernando Pessoa frequentava bastante nos últimos anos da sua vida. A assinatura, por baixo, é do editor norueguês Christian Kjelstrup, de 40 anos, que abriu em março uma loja pop-up em Oslo — na qual só vendia o “Livro do Desassossego” — e aterrou agora em Lisboa para uma visita pela cidade de Pessoa. Alto e simpático, Christian chega com um sorriso na cara e uma T-shirt onde se vê, bem destacado, o poeta português. O Terreiro do Paço, a Rua dos Douradores (uma das mais sujas de Lisboa, mas com uma magia que só Pessoa lhe poderia dar), o elétrico 28 (que o poeta usou inúmeras vezes), o Largo de São Carlos (a sua primeira morada), o café A Brasileira e a Casa Havaneza, no Chiado, o Largo do Carmo e o elevador de Santa Justa são locais por onde o norueguês passa, neste fim de tarde lisboeta, descobrindo e percorrendo os passos de Pessoa. Christian já havia estado em Lisboa, com apenas 15 anos, durante o Inter-Rail que fez pela Europa. Foi a primeira viagem sem pais e, jovem como era, rumou diretamente às praias do Algarve. Na altura ainda não conhecia Pessoa e,

a Lisboa, dedicou apenas dois dias. “Que feliz estou por voltar a Lisboa e vê-la agora com os olhos de Pessoa!”, exclama. “É bom vir com um propósito: estou aqui por ele.” Na realidade, foi uma conferência na Casa Fernando Pessoa, a primeira sobre a poesia inglesa do escritor português, organizada pelo investigador Patricio Ferrari, que o trouxe a Lisboa. Christian participou, não na qualidade de investigador, mas como testemunha de Pessoa no seu país. Já que vinha à cidade do poeta, pensou: porque não trazer a ideia de Oslo para Lisboa? Durante as três últimas semanas, dormiu uma média de três horas por noite para preparar a sua vinda, tentando encontrar um espaço onde pudesse abrir a Livraria do Desassossego. Tentou fazê-lo dentro do elétrico 28, mas seria a loja de Catarina Portas, A Vida Portuguesa, no Chiado, que acabaria por lhe ceder parte do espaço para vender a edição de Jerónimo Pizarro do “Livro do Desassossego”. Apesar de considerar que a iniciativa faz todo o sentido em Lisboa, o colombiano com nacionalidade portuguesa Jerónimo Pizarro considera que “o editor norueguês deveria ter incluído as diferentes versões do livro”. Já o investigador argentino Patricio Ferrari realça que amanhã, quando a loja encerrar, se saberá se o conceito também funciona em Lisboa.” E acrescenta que, no futuro, “seria ainda melhor dedicar uma loja inteiramente a Fernando Pessoa, um minicentro cultural do poeta”, no qual se vendessem vários livros e organizassem tertúlias e iniciativas próximas do cidadão comum. VIVER UMA PAIXÃO Christian não se recorda como encontrou Fernando Pessoa pela primeira vez, lembra-se apenas que o deverá ter lido pela primeira vez por volta dos 23 anos. Já nessa altura abdicava, por vezes, de almoçar, para ter dinheiro para comprar livros. Foi através do “Livro do Desassossego”, em norueguês, que o descobriu. “Gostei do livro desde a

primeira linha. Pessoa tem certos detalhes e características que captaram a minha atenção.” Foi anotando e sublinhando o livro, de tal forma que ele ficou completamente azul, obrigando-o a comprar outro. No entanto, confessa que nunca o leu do princípio ao fim, preferindo abri-lo numa página ao acaso e descobrir algo novo. “Isto só é possível porque não existe um enredo”, explica. “A maioria dos livros publicados tem um enredo e é esse tipo de livros que as pessoas normalmente procuram. Mas Fernando Pessoa, na forma como escreve, é muito mais realista. Na vida real não existe um enredo, existem sensações, experiências.” E acrescenta: “Com outros autores, por vezes, pensamos: ‘eu podia ter escrito isto!’ Com Pessoa não. Ele sai tanto da sua zona de conforto, escreve de tal forma o que lhe vai na alma, que só uma pessoa tão inteligente e sensível poderia escrever assim. Existe apenas uma fina camada entre ele e o mundo.”

DURANTE TRÊS SEMANAS DORMIU TRÊS HORAS POR NOITE PARA TENTAR ENCONTRAR UM ESPAÇO EM LISBOA ONDE PUDESSE ABRIR A LOJA DO DESASSOSSEGO, UMA LIVRARIA DE EXISTÊNCIA FUGAZ, QUE FECHA AMANHÃ

POEMAS PORTA A PORTA É por esta razão que considera o “Livro do Desassossego” o melhor livro do mundo. E que, espontaneamente, toma iniciativas para o divulgar aos outros. Em 2001, reuniu em Oslo um grupo de cerca de 20 pessoas, às quais declamou vários poemas de Pessoa em inglês. E, há cerca de oito anos, decidiu andar de porta em porta a ler excertos do “Livro do Desassossego”. No geral, foi bem recebido, ainda que algumas pessoas o mandassem embora, pensando que se tratava de um louco. “O que é feito do vendedor ambulante que vai ao encontro das pessoas?”, questiona. “Normalmente existem sítios estanques para se vender e ler literatura. Eu queria mudar isso, torná-la mais próxima.” Foi também nessa altura, ao ver, no estádio perto de sua casa, o apoio incondicional que os fãs davam às suas equipas, que resolveu expressar-se de forma semelhante. Decidiu que queria o seu ídolo num cachecol e, por isso, mandou fazer 100 com o nome “Pessoa”, REVISTA  5/JUL/14

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ALDOUS EVELEIGH, Inglaterra “Quando descobri Pessoa, não sabia que era tão famoso”, recorda Aldous, de 63 anos. “Adorei os poemas dele, mas pensava que era um pouco obscuro.” O primeiro contacto foi nos anos 90, quando o amigo Zbigniew Kotowicz lhe pediu para ilustrar a capa e o interior do livro “Fernando Pessoa: Voices of a Nomadic Soul” (“Vozes de uma Alma Nómada”). Durante o processo criativo, realizou tantos esboços e desenhos que ficou com vários rostos, perspetivas, almas de Pessoa. Dali podia sair uma exposição, que realizou em Londres. Com a ajuda da amiga Paula Rego conseguiu expor “Identity Parade” (1996) na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. “Uma experiência muito interessante”, garante. “Foi incrível ver a quantidade de pessoas que faziam vários quilómetros para ver a exposição", que acabaria por migrar para França, Bélgica, Alemanha e Suíça. Mais do que um fã incondicional, considera-se um entusiasta à descoberta de Pessoa.

ISA CASTANO

PESSOAS QUE MOSTRAM PESSOA

Desenhos com alma

Fotografias poéticas CARINE BRINKMAN, Holanda “Fernando Pessoa é estudo para uma vida”. Quem o diz é Carine Brinkman, holandesa de 45 anos, que o descobriu apenas há dez, quando um amigo lhe ofereceu um livro de poemas traduzido. Ficou imediatamente fascinada com a sua escrita, a sua história... E veio a Lisboa. Visitou a cidade do poeta e, como gostava muito de fotografia, tirou várias. Sem querer, transformara a poesia de Pessoa em imagens e resolveu ir, por iniciativa própria, à Casa Fernando Pessoa saber se estariam interessados na realização de uma exposição. Assim nasceu “O Mistério das Cousas”, que juntava as suas fotografias, montadas em estendais, a alguns poemas. Vários holandeses vieram especialmente para ver a exposição, que esteve patente em Lisboa (2012) e no Porto (2013). Quando regressou à Holanda, o seu interesse não esmoreceu e começou a falar de Pessoa aos outros, a oferecer livros a amigos e conhecidos, a contactar investigadores da área. Os poemas foram a alavanca para entrar no universo pessoano, mas é o “Livro do Desassossego” que considera ser a sua obra incontornável. “É bom estar desassossegada, sair da minha zona de conforto”, conclui.

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que vendeu numa livraria. E assim foi andando, de missão em missão, de iniciativa em iniciativa, até chegar a março deste ano, mês em que tirou durante uma semana o letreiro “Aluga-se” de uma loja vazia na capital norueguesa. O resto da história já é conhecido: de 22 de Março a 2 de abril, a Livraria do Desassossego esteve aberta e vendeu 1600 exemplares do livro de Fernando Pessoa (atribuído por muitos ao heterónimo Bernardo Soares), com um êxito que o surpreendeu. “A maioria das pessoas na Noruega não conheREVISTA  5/JUL/14

cia o livro”, recorda. “O desafio era tornar acessível um escritor complicado, torná-lo mais próximo daqueles que à partida não o leriam.” E, de certa forma, conseguiu-o, ao ver entrar na sua loja pessoas dos mais variados meios, desde polícias a pedreiros. “Por causa da loja, o livro tornou-se um best-seller, pelo menos tendo em conta o contexto deste tipo de livros na Noruega”, acredita. No final da semana, o seu projeto já era tão conhecido que teve que organizar a “Noite Pessoa” num estádio em Oslo, onde estiveram

presentes mais de 700 pessoas a ouvir os discursos e sessões de leitura sobre o poeta português. Na sequência disto, outro Christian, o editor que traduzira o livro para norueguês em 1997 (Christian Rugstad), mandou imprimir mais 500 exemplares. Mas, afinal, o que tem Fernando Pessoa para ser amado por tantos estrangeiros e suscitar neles este tipo de manifestações? “O caso de Pessoa é diferente de todos os outros, pois ele começa por ser um poeta que não é um, mas vários, desde a sua própria confis-

são: sou um poeta dramático que escrevo dramas, não em personagens, mas em gente (ou em almas), pois os meus heterónimos (...) são outros nomes, de outros autores, com suas próprias biografias, suas próprias características, seus modus operandi (...), constituindo, em verdade, uma família, criadora de uma obra poética personalíssima.” É assim que a investigadora brasileira Cleonice Berardinelli, o ‘papa’ dos estudos pessoanos no Brasil, explica as razões que tornam Pessoa tão universal. Patricio Ferrari destaca igualmente a identificação


Poemas com música

PEPINO MARGIOTTA 

MARIANO DEIDDA, Itália “Não se pode falar sobre Lisboa sem falar de Fernando Pessoa, nem de Pessoa sem falar de Lisboa”, afirma o italiano Mariano Deidda, de 53 anos, com convicção. Por isso mesmo, o músico italiano — que descobriu o poeta português em 1989, através de uma tradução do “Livro do Desassossego” de António Tabucchi — veio a Lisboa, nos anos 90, para percorrer todos os locais nos quais sabia que o autor português havia estado. Depois disso, já voltou a Portugal e à capital variadas vezes, para dar concertos, depois de se ter estreado na Expo-98. O seu projeto “Deidda canta Pessoa” conta já com cinco discos, entre eles “Mensagem” (2013), dedicado à obra com o mesmo nome. Para ele, “não existe no mundo um escritor que tenha inventado tanto, com tanta multiplicidade e tão projetado no futuro” e é por isso que interpreta os seus textos e poemas, que lhe está a tentar dedicar uma praça ou rua italiana ou até que já participou, vestido de Pessoa, nas marchas populares de Lisboa. E reconhece o legado do poeta na sua música: “Eu contribuo para dar a conhecê-lo ao mundo, ele é o meio pelo qual dou a conhecer a minha música.”

Leitura aos quadradinhos LAURA PÉREZ-VERNETTI, ESPANHA “Tal como Pessoa, também eu tenho várias personalidades gráficas”, garante Laura, ilustradora catalã de 55 anos. Foi isso — e o facto de ser um dos seus autores preferidos — que a levou a querer traduzir a história e a poesia de Pessoa para a linguagem da banda desenhada. Utilizando o quadro do escritor português retratado por Almada Negreiros como ponto de partida, Laura desenhou a personalidade e biografia de Pessoa, a preto e branco, ilustrando ainda poemas dos heterónimos, a cor. Demorou dois anos até o finalizar, publicando-o em Espanha em 2011 e em Portugal em 2012. Já não era a primeira vez que passava obras de outros escritores para banda desenhada, mas este foi o seu maior livro, com 48 páginas. E também o de maior sucesso, quer em Espanha quer no nosso país, uma vez que “há uma resposta total à figura de Pessoa”. Tendo o poeta português como um dos seus autores preferidos, já realizou exposições e participou em conferências sobre o tema, como oradora. A razão é simples: “Mostrar um autor que admiro. É uma motivação pessoal.”

das pessoas com o desdobramento pessoano. “Também nós temos múltiplas personalidades quando viajamos, consoante o país em que estamos, a língua que falamos”, sublinha. “A sua multiplicidade fascina. Mas esta é uma multiplicidade que se manifesta não só na sua personalidade, como também nos seus diversos interesses e escritos” — poesia, política, sociologia, astrologia, etc. — que atraem curiosos e investigadores das mais variadas áreas. Fernando Pessoa é um escritor da cidade. “Se pensarmos em

“SE PENSARMOS EM LISBOA E NUM ESCRITOR PARA ESSA CIDADE, DIFICILMENTE NÃO PENSAREMOS EM PESSOA”, REALÇA JERÓNIMO PIZARRO

ADRES SALVAREZZA 

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Lisboa e num escritor para essa cidade, dificilmente não pensaremos em Pessoa”, realça Jerónimo Pizarro. Múltiplo, Pessoa “faz interessar cada vez mais o mundo não português por Portugal”. Já o investigador americano Richard Zenith destaca a sua universalidade e a qualidade da sua obra: “Quando o lemos, parece que somos nós que estamos ali, que ele fala por nós. É um autor que vai muito à alma” e, inclusive, “escreve a própria alma”. São, porventura, estas as principais razões que motivam os fãs do universo pessoano (como os

dos textos de cima) a empenharem-se na divulgação de Pessoa. Christian tem uma razão simples: “Este é o melhor livro do mundo!” E será isso motivo para perder o sono com ele? Talvez. Já dizia o escritor, no seu desassossego: “Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspeto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas”. R expresso@revista.impresa.pt REVISTA  5/JUL/14

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Nos Passos de Pessoa  

"Ficou conhecido em março, quando abriu uma loja em Oslo onde só vendia o "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, aumentando a procura...

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"Ficou conhecido em março, quando abriu uma loja em Oslo onde só vendia o "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, aumentando a procura...

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