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King Size: a Canção como (D)Obra Mat t e o B o n f i t t o Unicamp

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u tenho a sensação de que o som age, E eu amo a atividade do som. O que ele faz, quando se torna mais alto ou mais baixo, quando ele se torna mais ou menos intenso. E quando se torna mais longo e mais curto. Fico completamente satisfeito com isso, eu não preciso que um som fale comigo. John Cage sobre o Silêncio 1 Construindo o Olhar

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Quando fechamos os olhos, criamos, talvez, condições para perceber de maneira mais sutil como os sons agem sobre nós. Concentramos, assim, a nossa atenção para acessar a profundidade desse processo em vários níveis, não somente temporalmente mas também espacialmente. Buscar reconhecer o poder do som… perceber a intensidade que emerge das infinitas articulações possíveis entre os sons… captar sensivelmente a manifestação dessas articulações sonoras... No vídeo John Cage on Silence, o compositor americano fala sobre a relação entre o som e a música. Quando se refere a essa última, ele diz: “Quando ouço o que chamam de música, me parece que alguém está falando. Falando sobre seus sentimentos e sobre suas ideias, falando de relacionamentos. Mas quando eu ouço o som do tráfego, o som do tráfego aqui na Sexta Avenida, por exemplo, eu não tenho a sensação que alguém está falando (…).”2 Já na epígrafe citada acima, quando reflete sobre o som, ele reconhece um aspecto fundamental. Cage diz: “eu não preciso que um som fale comigo.” Faço dessa distinção entre som e música feita por Cage a nascente dessa reflexão/ensaio. Nesse caso, o desafio é dialogar com um material artístico específico – King Size – criado pelo diretor suíço Christoph Marthaler. Buscarei, assim, deixar-me levar pela articulação interna, pelos fluxos e intensidades desse material a fim de tentar perceber a sua singularidade. Ao reconhecer a diferença entre som e música, Cage abre múltiplas questões que envolvem desde modos de percepção até o próprio existir, em termos amplos e profundos. Mas, ao mesmo tempo, ele nos faz repensar sobre o fazer artístico, através da relação entre artista e obra, da intencionalidade que permeia os processos criativos e da materialidade como camada fundamental da criação. Desse modo, como sugerido na passagem citada, a música é vista por ele como sons atravessados por intenções que, de certa forma, podem reduzir a potencialidade desses mesmos sons, percebidos enquanto matéria, matéria essa que existe e pode se manifestar para além de qualquer intenção, significado e sentido. É aqui, nesse ponto, que uma conexão parece possível entre Cage e Marthaler. 1 “I have the feeling that a sound is acting, and I love the activity of sound. What it does, is it gets louder and quieter, and it gets higher and lower. And it gets longer and shorter. I’m completely satisfied with that, I don’t need sound to talk to me.” Tradução do autor. Citação extraída do vídeo John Cage on Silence. 2 “When I hear what we call music, it seems to me that someone is talking. And talking about his feelings or about his ideas, of relationships. But when I hear traffic, the sound of traffic here on Sixth Avenue for instance, I don’t have the feeling that anyone is talking […].” Tradução do autor. Citação extraída do vídeo John Cage on Silence.

Catalogo Mitsp 2018  

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