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Centenário de nascimento de DOM FERNANDO GOMES DOS SANTOS

 Edição Especial


Sumário Apresentação ......................................................................................................................... 5

Depoimento 1. Dom Fernando, por ele mesmo: A vida aos 75 anos............................................. 7

Discursos 2. Não se sacia a fome do mundo matando os famintos ....................................... 19 3. Sem violência e sem medo . ................................................................................... 23 4. Vocês são o báculo do bispo................................................................................... 29

Homilias 5. Casa de Deus, casa dos homens............................................................................. 31 6. Farsa de Belém: "A máscara caiu" . . ..................................................................... 35 7. Unidos a Jesus Cristo e aos irmãos........................................................................ 41 8. Dom Fernando e Tancredo Neves......................................................................... 45 Artigos 9. Evangelho para o índio........................................................................................... 49 10. Caminhos do futuro............................................................................................... 53 11. Dia das Mães........................................................................................................... 57 12. Unidos e solidários................................................................................................ 63 13. Ainda prisões.......................................................................................................... 65 14. Tempo de profecia.................................................................................................. 69 15. União Nacional dos Estudantes........................................................................... 81 16. A verdade: condição para evitar a violência...................................................... 85

Mensagens 17. As responsabilidades da Arquidiocese de Goiânia........................................... 89 18. Hora de equilíbrio e coragem............................................................................... 93 19. Herodes, ontem e hoje......................................................................................... 101

Cartas 20. Comunicado ao povo de Deus........................................................................... 105 21. Revista censurada................................................................................................ 107

Entrevistas 22. Entrevista coletiva................................................................................................ 111 23. Igreja, política e partidos..................................................................................... 115

Intervenção 24. No Vaticano, uma voz em favor dos sacerdotes . ........................................... 119

Documento 25. Testamento de Dom Fernando........................................................................... 121

Excertos 26. Fragmentos............................................................................................................ 127


Poemas 1. Poema da morte...................................................................................................... 133 2. A história da casinha.............................................................................................. 136 3. Eu quis ficar de fora............................................................................................... 138 4. Desencontro............................................................................................................ 140 5. Lição da flor............................................................................................................ 141 6. O homem................................................................................................................. 142 7. O dia de hoje........................................................................................................... 143 8. Libertação................................................................................................................ 144 9. Libertai-me, Senhor............................................................................................... 145 10. Só isso.................................................................................................................... 146 11. Poemeto sofrido.................................................................................................... 149 12. Quadrinhas........................................................................................................... 152 13. Vozes do sino........................................................................................................ 157 14. Trovas ligeiras....................................................................................................... 158 15. A fé.......................................................................................................................... 162 16. Confiança............................................................................................................... 163 17. Isolamento e prece............................................................................................... 165 18. Desencontro.......................................................................................................... 167 19. Não pecar contra a luz......................................................................................... 168 20. Ascensão................................................................................................................ 169 21. Angústia e prece................................................................................................... 170 22. O drama da vida.................................................................................................. 171 23. A pedra.................................................................................................................. 173 24. Chegando ao fim.................................................................................................. 175 25. A paz interior........................................................................................................ 176


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Apresentação

Dom Fernando Gomes dos Santos, meu estimado predecessor, é um verdadeiro ícone. Os ortodoxos costumam dizer a respeito de seus ícones que eles, vistos com os olhos do coração e iluminados pela fé, nos abrem para a realidade invisível. Este número especial da Revista da Arquidiocese é uma singela contribuição nossa para que as pessoas possam ver e rever a figura deste homem extraordinário, cidadão comprometido com a história dos pobres e pastor corajoso. E ao olhar para este ícone de humana santidade sejamos conduzidos a abrir nossas almas à contemplação agradecida pela vida de um bispo inesquecível. Escolhemos como linha norteadora do conteúdo deste volume o propósito de oferecer às novas gerações a oportunidade de conhecer Dom Fernando por meio do que ele disse e não pelo que costumamos dizer dele. Os textos são todos da autoria dele e em cada uma das páginas seguintes você vai encontrar, caro leitor, uma palavra forte, clara, iluminada a

respeito da realidade histórica recente do Brasil, dos primórdios da Arquidiocese de Goiânia, da fantástica experiência do Vaticano II e do modo próprio e fascinante como ele sempre lidou com seu ministério na Igreja. Um projeto de publicação intitulado Fala poética, organizado por amigos próximos do arcebispo, veio enriquecer o acervo de expressões de Dom Fernando. Desse modo, o que temos em mãos é uma síntese muito bonita de várias modalidades de sua atuação. O tom profético dos discursos, ungido e corajoso das homilias, sensível e sutil das poesias forma um retrato que enquadra de forma adequada um ícone cristão. Para os amigos de Dom Fernando, estou certo de que será um bálsamo para a saudade e uma oportunidade de reafervoramento fraterno. Para as pessoas que não tiveram a oportunidade de conviver com ele, como no meu caso, é uma grande chance de compreender ainda mais o significado de sua vida e de sua Revista da Arquidiocese 5


palavra. Olhar para este ícone poderá, portanto, ajudar a todos nós na abertura de espírito tão necessária para enfrentarmos os desafios do nosso tempo nos inspirando, saudavelmente, no ardor com que Dom

Revista da Arquidiocese 6

Fernando realizou sua missão e fez bem enorme à Igreja e ao Brasil. Boa leitura. Dom Washington Cruz Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia


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Depoimento

Acervo Arquidiocese de Goiânia

Dom Fernando, por ele mesmo: “A vida aos 75 anos"

Depoimento de Dom Fernando, a pedido da Revista Eclesiástica Brasileira (edição de março de 1985). A capa foi dedicada a “Dom Fernando Gomes dos Santos, defensor et procurator populi” – texto publicado também na Revista da Arquidiocese, n. 4, abril de 1985

Alguns amigos pediram-me um depoimento sobre como vejo, hoje, aos 75 anos, o mundo e a Igreja. O que foi que mudou e até que ponto eu teria mudado, ao impacto das transformações, rápidas e profundas que se processaram nestas últimas décadas. A resposta não me parece fácil, sobretudo quando deve ser dada em forma de depoimento sintético, obje-

tivo e exato, por uma pessoa inserida no mundo e consagrada a Jesus Cristo e à sua Igreja em fase de transição. Pretendo responder sem pretensão e sem julgamento de mim mesmo ou dos outros. Relembro, apenas, alguns fatos que me parecem mais significativos, com o desejo de oferecer a minha colaboração vivida aos que lutem, à luz da fé, pela construção do Revista da Arquidiocese 7


Depoimento

mundo e da Igreja peregrina. Cada fase da vida, da infância à velhice, é cheia de pequenas e grandes coisas, entrelaçadas e difíceis de ser narradas e explicadas ou compreendidas. Ninguém é mero fruto do meio em que vive ou das circunstâncias que o cercam. Mas, inegavelmente, é fortemente influenciado e pode influir, em menor ou maior escala, quer nas pessoas, quer nos acontecimentos. Cada pessoa é única e misteriosa. Ninguém tem condições de julgá-la, porque não dispõe de todos os dados para o julgamento. Só Deus, que tudo sabe, pode julgá-la, porque a conhece, a acompanha e a ama. O julgamento, para ser justo, tem de ser feito com amor.

Coroinha, vigário, bispo

Nasci em Patos, na Paraíba, no dia 4 de abril de 1910. Entre sete e oito anos de idade, fui escolhido pelo meu vigário, Pe. José Neves de Sá, para ser “coroinha”. Saliento esta particularidade, pretendendo significar como ela foi decisiva para aminha vida. Posso dizer que sou fruto de uma casa paroquial. Como coroinha, aprendi, desde cedo, a dedicar-me aos outros. Quando completei 10 anos, entrei para o Seminário da Paraíba (hoje João Pessoa). Lá Revista da Arquidiocese 8

estudei até o segundo ano de Teologia. Concluí os estudos em Roma, no Colégio Pio Latino-Americano. Em 1932, recebi a unção sacerdotal. Roma, no pontificado de Pio XI, marcou de maneira indelével a minha juventude. Era época do fascismo de Mussolini e da Ação Católica de Pio XI, cognominado “fides intrepida” ou “fé corajosa”. Com incrível disposição, condenou os totalitarismos que chegaram a empolgar o mundo, endeusando os seus chefes. Criou a célebre festa de Cristo Rei, como a mostrar que só Jesus Cristo é Senhor. Condenou, igualmente, o capitalismo materialista que faz do lucro a razão de ser de tudo, aviltando o trabalho e oprimindo o trabalhador. Com o testemunho, tão próximo, de Pio XI, posso dizer que minha juventude se forjou na luta em defesa da justiça e contra os regimes totalitários. Ao retornar ao Brasil, fui para Cajazeiras, sede de minha diocese de origem. Durante três anos fui diretor do Colégio Diocesano. Em 1936, fui chamado pelo meu bispo, Dom João da Mata, para assumir a paróquia de Cajazeiras. Abre-se aqui um importante capítulo, cumprindo um ideal sempre sonhado: ser vigário! No ano seguinte, Dom João me transferiu para a paróquia


Depoimento

de Patos. A função era a mesma, com a particularidade de ser, então, vigário de minha terra natal. Durante seis anos dediquei-me à paróquia, com o vigor da juventude e o ardor de quem se sente plenamente realizado. No início de 1943, fui nomeado bispo de Penedo, Alagoas. Ali passei seis anos, durante os quais, entre outros trabalhos, organizei a Ação Católica e procurei despertar a juventude para os ideais da idade nova que surgia. De Penedo passei para Aracaju – então diocese. O Nordeste sofria, naqueles meus primeiros tempos em Sergipe, uma terrível seca. Multidões de flagelados invadiam as cidades em busca de comida. O trabalho que se organizou, na Diocese, para atendimento aos flagelados, foi a base de um intenso apostolado social, que se articulou em torno do Same – uma entidade que criei, para assistência aos mendigos e desamparados, e que ainda hoje funciona em Aracaju. Em 1957, o mesmo Pio XII, que me fez bispo de Penedo e de Aracaju, enviou-me para assumir a recém-criada Arquidiocese de Goiânia, onde permaneço até hoje.­

Transformações e desafios

Muita coisa mudou, nesse perío-

do de mais de 50 anos. Só para se ter uma ideia: naqueles velhos tempos, a energia elétrica, o rádio, a televisão, a geladeira, o asfalto, o automóvel, o caminhão, o avião e tantas outras coisas, ou não eram conhecidas, naquela região, ou estavam apenas chegando. Como era possível, perguntamos hoje, viver sem esses componentes de nosso dia a dia? Entretanto, havia conflitos e lutas de interesses, em todas as áreas (como aliás, continua ocorrendo hoje; felizmente, porém, nos dias atuais, a maioria empobrecida da população tem aumentado sua consciência e sua organização). Diante daquela realidade, é de justiça ressaltar que a Igreja estava presente, para assumir com competência e dignidade sua missão de luz, sal e fermento da sociedade. Para referir-me especialmente ao Nordeste, havia, naquele tempo, bispos jovens, dinâmicos e corajosos, amigos e unidos, da têmpera de João Portocarrero Costa (pioneiro da Ação Católica), Luiz Mousinho, Carlos Coelho, José Delgado, João da Mata, Mário Villas Boas, Severino Mariano, Antônio Fragoso, José Fernandes, Eugênio Sales (então bispo de Natal e que ainda não se tinha ofuscado com sua maneira de entender o cardinalato) e Hélder Câmara, especialista em Revista da Arquidiocese 9


Depoimento

semear as grandes ideias e promover iniciativas arrojadas que modificaram a fisionomia sócio-religiosa do Brasil. Homens como estes empolgaram grande parte do clero e do laicato. Surgiram também as grandes iniciativas, como a criação, em 1952, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fruto da ação perseverante e dos trabalhos realizados por bispos, como aqueles já citados e outros, espalhados por todo o País. A iniciativa contou com o apoio e estímulo do cardeal Montini, que visitou o Brasil, antes de assumir o supremo pontificado, com o nome de Paulo VI. Encontros Regionais – Merecem especial menção os grandes encontros regionais dos Bispos, para o estudo dos problemas mais agudos das respectivas áreas. Um deles aconteceu em Aracaju, reunindo as dioceses sob a influência da hidrelétrica de Paulo Afonso, ainda em construção. Foi uma reunião muito proveitosa. Deve-se a Dom Hélder Câmara a iniciativa desses movimentos, que despertaram o interesse e a colaboração do clero e do laicato. Tiveram, entre outros, o mérito de despertar a consciência nacional para a solução de problemas fundamentais, o que Revista da Arquidiocese 10

haveria de estimular a ação pastoral da Igreja e projetá-la no campo socioeconômico e educacional. A Ação Católica Brasileira, iniciada oficialmente em 1933, no tempo do cardeal Leme, e que adquiriu novas formas e poderosa eficácia, estimulando inclusive a criação da CNBB. Já então era notável o trabalho do laicato: o Dr. Alceu Amoroso Lima (Tristão de Atayde) era o seu Presidente. O Movimento de Educação de Base surgiu como uma das ideias pioneiras e luminosas no campo social, impulsionado pela Igreja, não apenas para vencer a chaga do analfabetismo, como, sobretudo, para dar consciência e promover as multidões esmagadas pela marginalização. Em todos esses movimentos estive presente, deles participando com empenho e decisão.

Vaticano II e Medellín

Em nível mais amplo, de Igreja Universal, tive a grande graça de participar dos dois mais importantes acontecimentos da década de 60: o Concílio Vaticano II e a II Conferência Geral do Episcopado LatinoAmericano, em Medellín. Participei de todas as quatro


Depoimento

grandes sessões do Concílio. Nos plenários (congregações gerais), fiz duas intervenções consideradas importantes. A primeira foi em novembro de 1963, durante a discussão do esquema sobre o governo da Igreja. Usei a palavra em nome de 60 bispos brasileiros, fazendo coro a outros irmãos no episcopado, que queriam ver mais explicitado o princípio da colegialidade episcopal. Critiquei o esquema proposto, sob cuja perspectiva os bispos seriam meros vigários, não só do Papa, mas das próprias congregações romanas, das quais dependeriam nas mínimas coisas. Defendi o reconhecimento explícito de que, longe de só poderem os bispos o que lhes fosse expressamente facultado, só não poderiam eles o que houvesse por bem o Sumo Pontífice reservar a si pessoalmente. (Cf. REB vol. 23, fasc. 4, páginas 968-969). A outra intervenção foi no final da terceira sessão, em outubro de 1964. Discutia-se um esquema de decreto sobre os presbíteros. Notava-se, da parte de alguns poucos padres conciliares, a pressa em votar um esquema visivelmente precário. Falando em nome de 112 bispos – brasileiros e de outros países – propus que o esquema não fosse votado naquela sessão, mas redigido outra vez e levado para a

quarta sessão, para novas discussões. Afirmei, de modo incisivo, que “o texto das proposições constitui uma injúria aos nossos diletíssimos sacerdotes” (...) os quais “esperam de nós algo muito diferente; esperam um texto que exponha com mais penetração a teologia do sacerdócio e que, assim, apresente a verdadeira imagem da vida sacerdotal, segundo a imagem de Cristo Sacerdote, e a verdadeira imagem do ministério sacerdotal segundo a imagem da Igreja plenamente renovada e segundo as legítimas exigências dos homens que, em meio às trevas, procuram o caminho, a verdade e a vida daquele eterno Sacerdote que continua presente nos nossos queridos sacerdotes”. Dois dias depois, efetivamente, a congregação geral dos padres conciliares, consultada, rejeitou que se votasse o esquema, o qual foi devolvido para nova redação e voltaria à discussão no ano seguinte. Em Medellín, Colômbia, participei, em 1968, como um dos dez delegados eleitos pela CNBB, da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que colocou a Igreja, no continente, ao compasso das grandes transformações trazidas pelo Concílio. Nesse memorável encontro, coordenei a comissão encarregada de estudar os Meios de Comunicação Social. Revista da Arquidiocese 11


Depoimento

O movimento militar de 1964 tendo em vista a brutal censura que

É preciso lembrar, também, na década de 60, outro acontecimento, que alterou drasticamente os rumos do Brasil: o movimento militar totalitário, que conseguiu atingir o cerne da nacionalidade, subjugando a nação à prepotência do Estado, que se pretendeu onisciente, com a chamada Lei de Segurança Nacional; onipresente, com Serviço Nacional de Informações (SNI); onipotente, com o predomínio das armas, que obscureceu ou anulou os valores superiores do homem e infringiu, pela violência incontrolável, as nossas tradições mais sagradas. Vão se passar ainda alguns anos até que se possa contar toda a história desses 21 anos de uma tirania, cujos autores, usando um curioso eufemismo, chamaram de “estado de exceção”. Vale lembrar, porém, que, durante essa triste fase da História do Brasil, a Igreja não esteve calada ou omissa. Em 1973, escrevi uma carta pastoral sobre “Como vemos a situação da Igreja, em face ao atual Regime”. Discutida por um grupo de bispos que nos reunimos no Rio de janeiro, essa carta foi distribuída a todos os bispos do Brasil e divulgada em nossa Arquidiocese. A divulgação pela imprensa foi muito restrita, Revista da Arquidiocese 12

existia, no governo do general Médici. (A íntegra desse documento se encontra em meu livro Sem violência e sem medo, edição da Universidade Católica de Goiás, 1982, p. 229-239). Essas reflexões são importantes para entender a ação global da Igreja naquela fase histórica e orientar o apostolado nas diferentes Igrejas Particulares. Foi a fase do fortalecimento e da atualização da Igreja, para suportar e superar os estragos causados pelo despotismo militar. Fortalecida e rejuvenescida, foi grande a sua influência nas Igrejas Particulares.

Em Goiânia

Infelizmente não é possível, neste depoimento, pormenorizar os anos passados em Cajazeiras e Patos, Penedo e Aracaju. É necessário abrir espaço maior à Arquidiocese de Goiânia, onde passei a maior parte dos meus 42 anos de bispo. No dia 16 de junho de 1957, o então Núncio Apostólico, Dom Armando Lombardi, instalou a Arquidiocese de Goiânia, perante o clero e grande multidão, e deu posse ao primeiro arcebispo. Logo percebi que não eram poucas, nem pequenas, as dificuldades


Depoimento

que se abriam diante de mim. Na Arquidiocese, em território, cabia cinco vezes o Estado de Sergipe, de onde eu viera. Praticamente não conhecia nada e ninguém no Estado de Goiás, mas o povo logo se revelou generoso e disposto a ajudar, embora os inimigos tradicionais da Igreja, ousados e presunçosos, parecessem arregimentados e dispostos a impedir qualquer manifestação pública da Igreja. Para eles, a Igreja deveria restringir-se ao ambiente das sacristias. Eu tinha, porém, a incumbência de acompanhar a construção de Brasília. Na época, a área da nova capital federal era parte integrante da Arquidiocese de Goiânia. Tinha de definir a posição da Igreja, em face da movimentação de setores influentes, desejosos de “encampar” as seis faculdades de ensino superior, então sob os auspícios do arcebispo da cidade de Goiás, Dom Emanuel Gomes de Oliveira. Devia viajar muito, com indizíveis sacrifícios, por falta de estradas, para conhecer a Arquidiocese. Precisava com urgência arregimentar os poucos padres, animar os leigos de boa vontade e dar vida nova ao seminário que estava distante, na cidade de Silvânia. Não é possível contar a história pormenorizada de cada um desses

setores. A história do começo de Brasília, por exemplo, merece um capítulo à parte, por ter sido, por assim dizer, a “aventura” mais difícil e ousada em minha vida de bispo. Ainda hoje, é uma história desconhecida ou mal contada. Mas não há tempo a perder. Procuro resumir, lembrando alguns pontos mais relevantes. Reunião Mensal dos Padres e sua evolução – Passados os festejos da posse, presidi a primeira reunião dos 45 padres: uns poucos diocesanos e os outros, de várias ordens e congregações religiosas. Desde aquele dia, ficou estabelecido que haveríamos de nos reunir, mensalmente, nas segundas quintas-feiras. Assim tem sido até hoje, nesses 28 anos de Goiânia. Com uma vantagem, porém. Há anos a reunião não é só de padres, mas de todos os valores da Igreja, nas cidades e nos campos. São autênticas e dinâmicas reuniões da pastoral, em que todos – padres, religiosos e leigos – têm voz e vez. O arcebispo, sempre presente, limita-se, hoje, a dar, no fim, sua palavra de estímulo, fazer algumas advertências, conforme o caso, e anunciar os avisos para o mês seguinte. Tudo o mais é iniciativa dos Revista da Arquidiocese 13


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componentes dos benéficos e salutares encontros. Tenho para mim que este é o segredo do êxito da atual organização da Arquidiocese. Criação do Regional CentroOeste – Com a CNBB, criaram-se os seis primeiros “Regionais” (hoje são 14). O Centro-Oeste, inicialmente, abraçava os Estados de Goiás e Mato Grosso, com suas imensas áreas territoriais, pouco habitadas e com reduzidíssimo número de padres. Mesmo assim, conseguimos fazer pelo menos dois grandes encontros de padres. Episódios curiosos e dramáticos registraram-se nessas reuniões alegres e fraternas. Lembro um apenas, para exemplo: um dos padres, vindo das selvas do Mato Grosso, contou que passou muito tempo sem saber da morte de João XXIII e a eleição de Paulo VI. Saindo para uma longa desobriga, viajou, de canoa, centenas de quilômetros pelos rios da região. Ao regressar, ouviu falar que o Papa estava viajando. “O Papa?”, perguntou. “Sim, Paulo VI”, disseram-lhe. “Mas quem é esse?!” Quando ele nos contou isso, decidimos nos cotizar e oferecemos àquele colega um possante rádio, para que, em suas andanças missionárias, não ficasse tão fora do mundo. O Regional Centro-Oeste conRevista da Arquidiocese 14

tou, no início, com a preciosa colaboração do seu primeiro secretário executivo, na pessoa do Pe. José Pereira de Maria, fiel e perseverante colaborador. Hoje ele é o vigário geral da Arquidiocese e reitor da Universidade Católica de Goiás. Universidade Católica de Goiás Foi criada no dia 17 de outubro de 1959, depois de uma luta muita grande, que custou até o “enterro simbólico” do arcebispo, graças à reação hipócrita dos tradicionais inimigos da Igreja. Hoje é ela o maior centro de irradiação da fé e da cultura do Centro-Oeste, com mais de 10 mil alunos. Comunidades Eclesiais de Base O que hoje se convencionou chamar “Comunidades Eclesiais de Base” ou “CEBs”, tem a sua história. Aqui nesta Arquidiocese, bem antes do Concílio Ecumênico, nasceram com outro nome e foram inspiradas por motivos bastante primitivos (hoje superados). Preocupava-me seriamente a escassez numérica de padres que não sabiam como dar assistência religiosa às comunidades que se multiplicavam. Compreendi que jamais teria padres suficientes para assumir as paróquias que deveriam ser criadas. Foi então que Deus


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me inspirou, como a dizer-me: “Por que não pedir a colaboração dos outros valores da Igreja, entre tantos batizados e crismados?” Desde então, aproveitei-me das reuniões do clero e das religiosas para despertar os leigos e iniciar a formação de comunidades, que, na época, comecei a chamar de “centros comunitários”. Esses centros se multiplicaram e o povo foi se afervorando e criando as diferentes formas do que hoje chamamos “ministérios”. Hoje as CEBs constituem a tônica mais forte do Plano Pastoral da Arquidiocese, vivificadas com as luzes do Concílio e a experiência de muitas dioceses. Também nesse ponto tivemos de enfrentar as iras do regime totalitário, que chamavam as CEBs de “células comunistas”. Ainda hoje, alguns “católicos” dão crédito à nefasta propaganda do regime que, felizmente, está chegando ao fim. Pelo menos é essa a esperança deste País. Um reforço à nossa caminhada: nossa Arquidiocese foi escolhida para sediar o 6º Encontro Intereclesial das CEBs. Será na cidade-santuário de Trindade, de 21 a 26 de julho de 1968. Reforma agrária na Fazenda Conceição – Ao chegar a Goiânia, emba-

lado com os resultados do Encontro Regional em Aracaju (ao qual me referi acima), logo estimulei um grupo de especialistas para iniciarmos a primeira experiência de “reforma agrária”. Foi uma das iniciativas que mais me empolgou. Destinei o que havia de melhor e maior no patrimônio imobiliário da Arquidiocese: a Fazenda Nossa Senhora da Conceição, no município de Corumbá de Goiás. Com a colaboração de muitos, padres e leigos – assistentes sociais, técnicos em agricultura, topógrafos – foi possível dividir a propriedade e distribuíla a 52 famílias, algumas já residentes lá. Todas essas famílias eram muito pobres e tiveram de ser preparadas para o desenvolvimento dos projetos esboçados. Foi uma grande experiência. Mas tudo acabou sem maiores resultados, porque a Arquidiocese foi desmembrada em outras dioceses. A área destinada a essa experiência ficou para um bispo vizinho, que não quis arcar com as responsabilidades de continuar a obra iniciada. Coube à Arquidiocese honrar o compromisso de pagar 50 casas financiadas pelo Banco do Brasil, depois de ter levado a eletrificação e construído, com a colaboração do governo do Estado, o Grupo Escolar; ter construído a Cooperativa, além de outros benefícios. Revista da Arquidiocese 15


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Anos depois, tive conhecimento de que quase nada existe mais do que fora um sonho acalentado com amor e sofrimento. Meios de Comunicação Social – A Igreja possuía em Goiânia, um semanário, chamado Brasil Central. Quando cheguei, logo o transformei em diário, conservando o mesmo nome. Durou poucos anos, por falta de recursos materiais e humanos. No mês seguinte ao da minha posse, saiu o primeiro número da Revista da Arquidiocese, que, ainda circula mensalmente. Tem sido – de acordo com avaliações feitas por pessoas de fora da Arquidiocese – uma importante fonte de informação sócio-religiosa de Goiás, nesses últimos 28 anos. Dois anos depois, em 1959, a Arquidiocese adquiriu a Rádio Difusora de Goiânia, que serviu de base principal para a atuação do Movimento de Educação de Base (MEB), estimulando a alfabetização e o sindicalismo dos trabalhadores rurais de Goiás. A Rádio foi instalada em prédio próprio, devidamente equipado. Aumentou sua potência de 250 watts para 10 quilowatts. Tornou-se, em pouco tempo, a mais influente estação de radiodifusão. Hoje pertence aos padres redentoRevista da Arquidiocese 16

ristas que ampliaram para 25 quilowatts e a mantêm com excelente audiência. Outros programas se distribuem nos jornais, rádios e televisões da cidade, incluindo a transmissão da Santa Missa dominical (por dois canais de TV). Alocuções e entrevistas são transmitidas pelo arcebispo ou por um de seus vigários gerais, nas horas de clamor público ou de fatos extraordinários, sempre em favor dos pobres e oprimidos e tendo sempre em vista o bem da Igreja. Formação do clero e do laicato – A Arquidiocese tem-se empenhado na formação do clero e do laicato, de maneira especial. Seus maiores esforços giram em torno do Seminário e do Centro de Treinamento dos Leigos. O Seminário Santa Cruz é o Seminário Maior da Arquidiocese. Funciona em prédio próprio, bastante amplo, uma área aprazível, cercada de árvores, jardim e horta. Tem capacidade para 25 alunos, entre filósofos e teólogos. O Centro de Treinamento de Leigos (CTL) ocupa hoje o grande prédio construído há tempos para ser seminário. Tem capacidade para 250 pessoas. Um dos seus pavilhões


Depoimento

é hoje destinado ao Seminário Regional que, em 1984, contou com seminaristas de oito dioceses. O CTL recebe leigos para estudos, cursos, encontros diversos e retiros. É considerado uma das instituições mais beneméritas da Arquidiocese, pela obra que realiza na orientação do laicato. Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (Spar) – O Spar tem sido o grande centro de convergência e de irradiação de tudo o que se passa na Arquidiocese no campo pastoral. Dotado de sede própria, que integra o conjunto Catedral – Cúria Metropolitana – Spar, no centro da cidade, constitui o ponto mais dinâmico da Arquidiocese. Hoje o Spar conta com o coordenador da Pastoral, Frei Marcos Sassatelli, que é também vigário geral, e com uma extraordinária equipe de sacerdotes, religiosas e leigos competentes, de rara dedicação e eficiência. No Spar, funcionam oito Comissões que dinamizam as atividades fundamentais, referentes às prioridades do Plano Pastoral, elaborado em Assembleia Arquidiocesana e constantemente estudado nas reuniões e encontros. O Spar produz, também, grande número de boletins e impressos, que são divulga-

dos nas paróquias da Arquidiocese, principalmente nas comunidades da periferia, e que são encomendados, frequentemente por outras Igrejas particulares, do Brasil afora. Grande é, também, o número de cursos ministrados nas comunidades da capital e do interior. A ação do Spar se complementa naturalmente no gabinete do arcebispo, sempre aberto a ouvir a todos, a qualquer hora. Nesses encontros – em sua maior parte, com pessoas pobres, marginalizadas e oprimidas – tem acontecido que, além das palavras de estímulo, recebem, alguma vez, o sacramento da Penitência, sem que ninguém saiba ou perceba. Transformase, assim, em lugar privilegiado de reconciliação e de perdão... O resto é a vida normal e quase rotineira da Arquidiocese: visitas frequentes às paróquias, ao seminário e às comunidades rurais e da periferia. Encontros com as equipes responsáveis pelos setores de apostolado; reuniões mensais com o Conselho dos Consultores e Conselho Presbiteral (em conjunto) e com a Sociedade Goiana de Cultura, mantenedora do espírito que deve animar a Universidade Católica, cada dia mais integrada ao Plano Pastoral da Arquidiocese. Encontros, curso, Revista da Arquidiocese 17


Depoimento

palestras, normalmente encerrados com a palavra do pastor. Além do apoio às greves consideradas justas e pacíficas de professores, estudantes e operários, e à luta permanente contra as irregularidades dos que se julgam donos do povo e são responsáveis pelos desmandos da arbitrariedade de um regime político injusto. Para terminar, creio oportuno tocar em dois pontos que me parecem refletir um dos aspectos polêmicos e difíceis da vida da Igreja de hoje. O primeiro se refere a uma nova terminologia que se criou na Igreja, classificando os seus membros de “progressistas” ou “conservadores”, como se a Igreja estivesse dividida entre essas duas categorias de pessoas. Não sei de nada mais prejudicial e mais distanciado dos ensinamentos do Evangelho e do Magistério Eclesiástico. A coisa chegou a um ponto em que essa discriminação tornouse uma espécie de regra de fé... Em vários casos, não se atende mais às necessidades ou conveniências das Igrejas Particulares. O que parece predominar é o pré-julgamento das pessoas, fruto de informações apressadas que têm prejudicado o clima de confiança, o espírito fraterno e a caridade de Cristo.

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O segundo ponto é o que se poderia chamar de fobia do comunismo. Em parte isso se deve, talvez, à mentalidade da chamada Revolução de 64, que condena o comunismo, mas, na prática, adota os métodos de regimes comunistas: é bom ou mau, certo ou errado o que concorda ou discorda com as normas do partido predominante. O pior é que, sem o menor escrúpulo, são chamados “comunistas” ou “subversivos” aqueles que se imagina serem adversários dos donos do poder. Por mais incrível que pareça, essa mentalidade passou para elementos da Igreja, inclusive para alguns de seus responsáveis maiores. Com isso, criou-se a confusão, o mal-estar, a divisão. Quebrou-se o clima de fraternidade e confiança. Creio que é tempo de restabelecer a ordem e o equilíbrio, para que a Igreja restaure, em plenitude, sua credibilidade ameaçada. Esse, em breve pinceladas, o meu depoimento sobre mais de meio século de atividades incessantes, em favor do Povo de Deus. Goiânia, fevereiro de 1985. Dom Fernando Gomes dos Santos Arcebispo de Goiânia


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Discursos

Acervo Arquidiocese de Goiânia

“Não se sacia a fome do mundo matando os famintos e estancando as fontes da vida”

No dia 17 de janeiro de 1981, Dom Fernando discursou aos concluintes dos cursos de Agronomia e Veterinária da UFG. Em sua fala manifestou preocupação com o agronegócio e estimulou os formandos a serem “agentes providenciais” no processo de renovação social. Publicado na Revista da Arquidiocese do mesmo ano

Ser paraninfo da nova turma de concluintes dos cursos de Agronomia e Veterinária da Universidade Federal de Goiás, neste ano de 1981, é missão honrosa e muito árdua, em face das circunstâncias atuais que ameaçam até a integridade do território nacional. As forças manipuladoras do dinheiro pretendem subjugar e oprimir não somente pessoas, como na-

ções. Referimo-nos, especialmente, aos projetos em estudo no Brasil, mais concretamente, nos Estados de Goiás e Minas Gerais. No dia 13 do corrente mês de janeiro, participei de um encontro com o arcebispo de Uberaba e os bispos de Uberlândia, Ipameri, Patos de Minas, Itumbiara, Paracatu, Formosa e o auxiliar de Jataí. Éramos nove Revista da Arquidiocese 19


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bispos, assessorados por padres que trabalham na CNBB e nos Regionais, como coordenadores da Pastoral. O encontro em si reflete a preocupação da Igreja diante de projetos fabulosos que, a título de aproveitamento, sacrifica uma população de aproximadamente 1 milhão de pessoas. Pode-se perguntar a razão desta preocupação dos bispos sobre assuntos que parecem mais da competência de agrônomos e veterinários, vez que se trata do desenvolvimento agropecuário. Começam aqui as implicações e complexidades que envolvem os citados projetos e suas influências de caráter humano, social e pastoral. Como a Igreja exerce uma função essencialmente religiosa em favor do homem todo e como a religião abraça igualmente o homem todo, não pode ser indiferente às circunstâncias que o envolvem. Já dizia Santo Tomás de Aquino que é inócuo pregar a doutrina cristã a quem está morrendo de fome. É preciso, antes, alimentá-lo, restaurar suas forças físicas, para que ele passe a usar de sua capacidade de entender, escolher e aceitar a mensagem do Evangelho. Nosso Senhor Jesus Cristo, em plena missão apostólica, parou a pregação e alimentou o povo, quando percebeu que muitos estavam com fome. Do mesmo modo, a Igreja, em Revista da Arquidiocese 20

nossos dias, tem o direito e o dever de suprir de maneira organizada e enérgica, quando os senhores do dinheiro e os responsáveis pelas nações afastam-se das atribuições que lhes competem e oprimem as pessoas e os povos com projetos absurdos, com o objetivo meramente econômico, sem considerar os valores essenciais das pessoas e as prerrogativas básicas dos cidadãos e das nações. No presente caso, falando à geração nova dos agrônomos e veterinários, é de suma importância mostrar a estreita colaboração da Igreja com aqueles que se vão dedicar ao cultivo da terra, ponto central e decisivo para o desenvolvimento integral – e não apenas lucrativo – das atividades humanas. As questões de distribuição das terras, de produção, de produtividade e comercialização das frutas do campo, constituem, em nossos dias, problemas fundamentais para o equilíbrio da sociedade e do verdadeiro progresso. O mundo está com fome. A solução, porém, não poderá ser matar os famintos e estancar as fontes da vida, mas fazer a terra produzir para alimentar a todos e não apenas os que já estão com suas mesas fartas. Não é lícito desrespeitar a dignidade dos pobres nem colocar as coisas ou o dinheiro acima dos


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valores do espírito que tudo vivifica. É evidente que o agrônomo e o veterinário são chamados a exercer mais do que uma profissão, a missão insubstituível de colaborar com o Estado e com a Igreja na construção do mundo novo que vem surgindo dos escombros da exploração irracional da terra e dos animais, das florestas e dos rios, da atmosfera e dos mares. Juntamente com o agrônomo e o veterinário, pensamos no médico, no sociólogo, no economista e especialistas dos vários ramos da ciência para se reunirem como irmãos que são e membros simultaneamente do Estado e da Igreja. Estas duas instituições são ou devem ser os servidores maiores da sociedade humana. Quando se desviam de sua missão de serviço, a sociedade decai e se corrompe. Quando se rompe a harmonia entre Estado-Igreja, em nossa civilização, cresce a distância entre a Nação e o povo ou entre o povo e Deus. Em ambos os casos, os resultados são a corrupção do dinheiro e dos costumes; a prepotência da força e a escravidão da idolatria.

Prezados afilhados:

O Brasil está ameaçado. Suas terras estão sendo vendidas ou entregues, sob vários pretextos. Não é esta a oportunidade de tratar em profun-

didade do assunto. É hora de advertir, de somar energias e tomar as providências cabíveis a cada cidadão e às instituições responsáveis pelo bem comum, para que não sejam prejudicados ou violados os valores maiores da Pátria comum. Cabe, por fim, um fervoroso apelo aos novos agrônomos e veterinários, que agora recebem os respectivos diplomas, no sentido de atuarem com firmeza e dignidade, de modo a revelarem, em plenitude, a nobre missão a que são enviados. As riquezas do solo podem ser mal utilizadas e a cultura pode ser desvirtuada pela ganância de uns e a prepotência de outros, sob a enganosa promessa de aumentar a produção, quando se sabe que os verdadeiros propósitos das grandes forças econômicas organizadas nas superpotências do dinheiro é aviltar, subjugar e oprimir as multidões famintas que ficarão sempre mais pobres e mais carentes. O desenvolvimento econômico, desumano e cruel, termina destruindo os valores mais altos de nossa cultura, de nossas tradições, de nossa dignidade como Nação, e desembocando no mar das ambições desenfreadas, causadoras das discórdias e das guerras. Este é o quadro desolador, mas Revista da Arquidiocese 21


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real, em que se encontra o mundo em que vivemos. Mas não temos o direito de desanimar. Bem pelo contrário, vamos nos unir sem violência e sem medo. A Igreja não se cansa de proclamar suas esperanças na juventude. Não cessa de apelar para as universidades, no sentido de “formarem verdadeiros líderes, construtores de uma nova sociedade” (Puebla 1054). Em Puebla, os bispos da América Latina pediram que os jovens considerassem a Igreja como “o lugar de sua comunhão com Deus e os homens, a fim de construírem a civilização do amor e edificar a paz com justiça. Convida-os a que se comprometam eficazmente numa ação evangelizadora que não exclua ninguém, de acordo com a situação em que vivem, e tendo predileção pelos mais pobres” (Puebla 1188). São palavras que estimulam a juventude e apontam caminhos para a solução dos nossos problemas. “A integração na Igreja será canalizada através de movimentos juvenis ou comunidades que devem estar integradas na pastoral de conjunto, diocesana e nacional, com projeções para uma integração latino-americana” (Puebla 1118). Os agrônomos e veterinarios, por se colocarem em relacionamento direto com as Revista da Arquidiocese 22

populações rurais, no exercício de sua missão, poderão ser agentes providenciais desse processo de renovação social, desde que se dispuserem: A revigorar a estabilidade e união familiar; Promover a educação e valorização da juventude rural, mostrando-lhe o valor do trabalho junto às escolas; Estimular o interrelacionamento das comunidades sem perder o contato com a universidade que poderá atender melhor aos condicionamentos e exigências da juventude rural, qualquer que seja o curso que preferir. A edificação da nova civilização do amor e da paz é, sem dúvida, a aspiração maior da juventude de hoje. Não será, porém, alcançada sem a cooperação decidida e esclarecida da própria juventude. Tendes, assim, prezados concluintes dos cursos de Agronomia e Veterinária, uma tarefa altamente dignificante e eficaz para que a técnica não se feche em si mesma, prejudicando a criatividade e impedindo o desenvolvimento dos valores humanos. Ao contrário, juntamente com os conhecimentos especializados, sereis “verdadeiros líderes, construtores de uma nova sociedade” mais justa e mais humana.


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Sem violência e sem medo

Discurso proferido por Dom Fernando Gomes dos Santos no lançamento do livro Sem Violência e sem Medo, no dia 30 de novembro, no auditório do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana, hoje Coordenação de Pastoral, e publicado na Revista da Arquidiocese, ano XXV, novembro de 1982

Meus queridos irmãos Estamos realmente numa festa da família. Aqui estamos como irmãos, sem exceção de ninguém, como filhos do mesmo Pai. É com esse sentido fraterno que me sinto mais encorajado, nesta noite. O que viemos fazer aqui? A rigor deveríamos relembrar a história desses 25 anos, que é um tanto com-

plicada, pois, apesar do esforço que se faça, nunca nos lembraríamos de tudo. Muita coisa ficaria escondida nas próprias páginas desta história. Fui convidado para apresentar este livro, que estão dizendo que é meu. Quero contar essa história, para que não tenham nenhuma ilusão: tenho aqui muita coisa escrita desde o tempo de seminarista, no Revista da Arquidiocese 23


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velho Seminário da Paraíba; depois em Roma; desde que me ordenei padre. Primeiramente em Cajazeiras-PB, minha diocese de origem, depois em Patos-PB, minha terra natal, onde fui vigário; Penedo, minha primeira diocese, mesmo pobre, que costumo chamar de meu primeiro amor de bispo. A primeira diocese, mesmo pobre e pequenina, marca a gente. Depois Aracaju – algumas pessoas que aqui estão me fazem lembrar os 8 anos vividos em Aracaju. Finalmente, aqui em Goiânia. Sendo que Goiânia é a metade de minha vida de padre. Vocês não podem imaginar o que isto significa. Não vou aqui contar lamúrias. Acho que sou um homem da providência de Deus e Ele sabe que é com muita sinceridade, que digo isso. Posso dizer que nunca tive nada pré-fabricado; sou fruto dos acontecimentos de cada dia. Naturalmente, a gente estuda, prevê as coisas. Hoje, com a responsabilidade de arcebispo metropolitano, tenho que me unir aos meus irmãos no episcopado, aos caríssimos sacerdotes, às religiosas e aos leigos, para abrirmos caminhos, traçarmos roteiros, sobretudo para a ação pastoral. Sempre digo que o Plano pastoral não é uma lei, porém uma seta indicando os caminhos. Revista da Arquidiocese 24

Pessoalmente me entrego às circunstâncias, acredito em Deus. Ele é a minha fortaleza. Acredito nos amigos e colaboradores. Não posso nunca esquecê-los. Quando se iniciava a preparação das comemorações dos jubileus, pedi ao Mons. Pereira, o vigário geral, e aos outros colaboradores mais próximos, que não me comprometessem, pois já ando muito comprometido. Só não fugi das comemorações porque seria uma omissão, de vez que, juntamente com o meu jubileu de padre, está havendo o jubileu de Prata da Arquidiocese. Tinha a obrigação de colaborar para que esta data fosse festejada, não por mim, mas por vocês. Pedi para comemorar isso de maneira digna e simples. Mais tarde, começo a saber o que está acontecendo e percebendo que estava havendo diversas iniciativas, inclusive essa de publicar um livro, onde estão diversos escritos meus, em diversas épocas, sobretudo e quase tudo na Arquidiocese de Goiânia, como é natural. Senti-me um pouco vaidoso e temeroso, porque meus escritos nem sempre agradaram. Posso dizer a vocês, com a ingenuidade de um irmão, num ambiente familiar, que tenho sido especialista em


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desagradar. Muitas vezes desagradei e poucas vezes agradei. Quando por acaso escrevo algo que me agrada, fico feliz, confortado mesmo. Quando, o que é mais frequente, meus escritos não agradam, sofro muito, calado, mas interiormente confortado, pois Deus sabe que escrevi com a intenção reta de cumprir a missão que Ele me deu. Nem sempre esta missão agrada aos homens, mas alimento a esperança de que isso tenha sido fiel ao meu Deus. Quando vi o livro fiquei muito edificado. Muito bonito e bem feito graficamente. Meus parabéns ao Friedel, com sua equipe da gráfica da UCG e à coordenação. [...] Não poderia deixar de fazer uma referência especial, tratando-se da confecção desse livro, à Universidade Católica de Goiás. Sem a colaboração dedicada, eficiente e desinteressada da Universidade Católica não teríamos a possibilidade de ver esse livro publicado. Quando digo a Universidade Católica, tenho a intenção de abraçar, de uma maneira ou outra todos aqueles que colaboraram, particularmente os membros da Reitoria, e de modo especialíssimo ao Mons. Pereira, que é também o Reitor da Universidade,

homem de visão, homem sensível, homem apaixonado pela história e memória do povo. Fez tudo o que podia para que a Arquidiocese de Goiânia pudesse brindar alguns de seus membros com este livro, que vale – não tanto pelo que o Arcebispo escreveu – mas pelas circunstâncias em que o Arcebispo escreveu. O que significa que eu não teria escrito isso se não confiasse em vocês e se não fosse por amor a vocês. De modo que, a rigor, vocês têm uma parte considerável na elaboração desse livro. [...] Agora, irmãos e amigos, permitam que eu faça uma referência de agradecimento a todos e a cada um, e principalmente àqueles grupos que fazem a Arquidiocese de Goiânia ser o que ela é. Em primeiro lugar o Seminário Santa Cruz, que tem exigido, não só do Bispo, como do Clero e do Povo de Deus, o maior esforço por tantos anos e que hoje está numa fase de experimentação, já com uns frutos muito consoladores. Depois a Cúria Metropolitana, sede do governo da Arquidiocese. O Centro de Treinamento de Líderes, que, na minha opinião, é uma das instituições mais beneficentes da Arquidiocese de Goiânia. Revista da Arquidiocese 25


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Uma instituição modesta e humilde que dedicou-se à formação do laicato católico. Queria também lembrar a Sociedade Goiana de Cultura, cujos diversos membros estão aqui. Desde o início é a instituição mantenedora da Universidade católica, não só sob o aspecto econômico e financeiro, mas, sobretudo, mantenedora do espírito que anima a Universidade de Católica. Os membros de SGC queiram receber as homenagens da Arquidiocese, cada vez mais firmes e fiéis, como têm sido até hoje. Além disso, olho aqui de modo geral para a organização da ação pastoral, e falando em ação pastoral, de maneira resumida, cito o Secretariado de Pastoral. Nestes últimos anos, sobretudo, tem sido centro de irradiação e convergência de todo o trabalho pastoral da Arquidiocese. Deus tem abençoado este trabalho que custou tantos sacrifícios e tanta incompreensão, mas que na verdade, hoje começa a colher os frutos, sobretudo por causa do exemplo e dedicação dos preciosos auxiliares. Falando do Spar, gostaria que os colégios católicos e associações católicas da Arquidiocese, vissem nisso uma referência a cada um deles. Eu gostaria que se aproximassem mais, Revista da Arquidiocese 26

que se integrassem mais dentro deste dinamismo da Arquidiocese. Nesse sentido, tanto os colégios como as organizações católicas cresceram nestes últimos anos. Há dias tive uma alegria muito grande, pois recebi uma visita coletiva de todos os diretores e diretoras dos colégios católicos, hoje coordenados pela AEC. Percebi neste gesto, o espírito novo que os anima e espero que não se esqueçam da visita nem dos compromissos. As organizações católicas são muitas e variadas. Quando me congratular pela capacidade criativa e espero que compreendam que só têm sentido essas organizações, na medida em que trabalham, em conjunto, no mesmo espírito que as anima, em benefício de toda a Igreja Particular de Goiânia. Há outras iniciativas, que embora não diretamente da Arquidiocese ou sob a responsabilidade da Arquidiocese, estão aqui trabalhando, fazendo um bem enorme, como a Comissão Pastoral da Terra, representada aqui pelo Pe. Mário; o CIMI e outras organizações ligadas à CNBB e que ajudam aqui na Arquidiocese. Por fim, meus amigos e queridos irmãos, esta mensagem está muito dentro do meu coração. Quem me


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que cheguemos à casa do Pai. Meus amigos, queiram receber, com essas palavras, o meu reconhecimento, a minha emoção e a minha esperança. A gente vive de esperança que é certeza daquilo que Jesus nos garantiu que ia fazer, que tem sido um conforto nas horas difíceis “Pai, quero que onde Eu estou, estejam comigo aqueles que me seguem”. Que conforto, que certeza absoluta, não obstante todas as nossas fraquezas e pecados. Aqui está a solução. Não são coisas da terra, perecíveis, que alegram o coração de quem quer que seja. Esta é a segurança de que todos estamos marchando, com seriedade e amor, à casa do Pai que está no céu. Muito obrigado a vocês todos!

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conhece desde seminarista, vigário e bispo, sabe que sou atraído pela missão dos vigários, que são a força do bispo, que fazem as vezes do bispo, quer no centro, na periferia ou na zona rural. Edifica-me ver este salão tão querido, tão cheio, e os vigários espalhados no meio do povo. É tão bonito isso. Quando era padre novo, diziam que os padres eram muito cheios de si, e separados do povo. Hoje, ninguém pode dizer isso. Cada vigário é mais ou menos vigário, na medida de seu engajamento com o povo e de seus paroquianos. Recebam por isso, os prezados vigários, meu abraço cordial e, juntamente com vocês, o povo que aqui representam. Continuem a encorajar e animar o Povo de Deus, até

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“Vocês são o báculo do bispo”

Agradecimento emocionado de Dom Fernando à manifestação dos sacerdotes em 4 de abril de 1985, na Missa do Santos Óleos, quando completou 75 anos. Mais de 70 padres estiveram presentes e pediram sua permanência à frente da Arquidiocese até o pronunciamento da Nunciatura Apostólica sobre pedido de um arcebispo coadjutor

Este gesto é profundamente significativo para mim. Realmente estou completando 75 anos de vida e, segundo o desejo explícito do Concílio Vaticano II, quando o Bispo completa 75 anos é convidado a entregar a Diocese ao Papa, como quem diz “já basta, já é tempo, dê lugar a outro”. Isso foi aprovado no Concílio, inclsive por

mim, que participei. Chegou o dia; mas isso não significa que eu, automaticamente, tenha que sair da Arquidiocese, como alguns já têm perguntado. Significa apenas que eu me entrego nas mãos do Pastor comum e espero as providências. Aliás, eu já tomei essa providência: algum tempo atrás, por intermédio na Nunciatura Apostólica, expus Revista da Arquidiocese 29


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claramente, com toda a franqueza, a situação da Arquidiocese de Goiânia. Mostrei as dificuldades, mostrei que Goiânia é hoje uma Diocese complexa, com mais de um milhão de habitantes. Pedi então um arcebispo coadjutor, com direito à sucessão. Pedi que viesse com um pouco de antecedência, a fim de conhecer a Arquidiocese e continuar o trabalho, de acordo com o Plano Pastoral e o Plano de Deus. Por conseguinte vocês estão vendo que não pedi nada para mim. Pedi por amor à Arquidiocese. O Núncio, muito atencioso, fez muitas promessas, como de costume, mas até hoje não deu resposta. Então esse gesto que os Padres acabaram de fazer tem um significado muito grande para mim. Tem um significado de conforto espiritual, sobretudo de conforto espiritual, como quem diz: “Fique tranquilo, nós o sustentamos com a nossa ajuda”. Vocês são como o báculo, o sustentáculo do Bispo. Antes, o Bispo era o sustentáculo do Padre. Agora, na minha velhice, vocês, com sua juventude, sua fortaleza, vocês são o

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sustentáculo do Bispo. Aliás, isto é uma regra de qualquer família organizada: na velhice, ninguém abandona seu pai ou sua mãe; na velhice, ninguém abandona seus irmãos; mas, antes, desdobra de atenções para que o nome da família continue e todos possam chegar a um feliz resultado. É assim que eu compreendo esse gesto e me comovo, fico muito feliz. Vamos pedir a Deus, Nosso Senhor, neste dia de Quinta-feira Santa, que a própria Igreja se encarregue de dar a resposta que o núncio ainda não deu. Eu apenas pedi; também vou ficar tranquilo, aguardando essa resposta que o núncio ainda não deu. Eu apenas pedi; também vou ficar tranqüilo, aguardando essa resposta. Enquanto isso, vamos pedir a Nossa Senhora, nossa Rainha, nossa Mãe e Mãe da Igreja, que conforte, congregue, uma cada vez mais toda a grande e querida família da Arquidiocese de Goiânia. Revista da Arquidiocese, Ano XXVIII, n. 4, abril de 1985


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Casa de Deus, casa dos homens

Na missa pelos três anos da construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Vila Nova, em 23 de setembro de 1981, Dom Fernando, reafirmando constante preocupação com a causa da moradia, fez profundas indagações na homilia: “Deus ficaria satisfeito de ter uma casa no meio dos homens, se seus filhos não têm uma casa para morar?"

Meus irmãos e caríssimos diocesanos. Todos nós estamos, certamente, cheios de alegria espiritual e de muita esperança neste momento, nesta Santa Missa em que agradecemos a Deus o privilégio, a graça de podermos construir, neste local, esta Igreja, este templo vivo. Relembremos as palavras de

Salomão: “Deus escolheu para si este local”. No meio da confusão que vivemos, no meio do barulho da cidade bonita que aí está, Deus escolheu este recanto feliz, para construir no coração da Vila Nova um templo em honra do Sagrado Coração de Jesus. Despertou a coragem, e estímulo de muitas pessoas para que aqui Revista da Arquidiocese 31


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se levantasse este templo. Muitos contribuíram com seus auxílios, generosidade, trabalho para que se levantassem essas paredes. Sabemos da dedicação do Pe. Anacleto, do Pe. Jaime e muitos outros. Fomos apenas instrumentos da bondade do Pai para que aqui se levantasse esta casa de oração, de culto prestado a Deus e de consolação a todos os que aqui viessem fazer suas orações, manifestar seus anseios e desejos. Paremos um instante para meditar. Diz a Sagrada Escritura que o templo sagrado é a casa de Deus e a porta do céu. A casa é o lugar onde a gente mora. Não há uma pessoa, uma família que não tenha o direito de um lugar para morar e Deus quis fazer sua habitação no meio da casa dos seus filhos – supõe-se que seus filhos também tenham casa. Já aqui há uma advertência séria: é justo, meus irmãos, que nós permitamos, que fiquemos indiferentes diante da escassez de moradia para tanta gente? Deus ficaria satisfeito de ter uma casa no meio dos homens, se seus filhos não têm uma casa para morar? Se queremos uma casa para Deus, lembre-se que Deus só quer uma casa se for, no meio de seus filhos. Ele não fica satisfeito enquanRevista da Arquidiocese 32

to tem um templo bonito e ao redor de nós há tantos filhos de Deus que não têm casa para morar. Digo isto porque é o assunto do momento. Meus irmãos, estamos cercados pela miséria, injustiça e crimes. Que adianta os grandes da terra colaborarem inclusive para a construção deste templo, se hipocritamente chegam aqui, oferecendo sua presença e suas promessas enquanto permitem que os outros fiquem sem terra, sem abrigo, com fome? Eu creio que é tempo de o povo de Deus tomar consciência dessas realidades. Sei que muita gente se incomoda com essa atitude da Igreja em dizer essas coisas – que poderia ficar calada e cantar hinos de louvor a Deus porque fizemos uma casa para Ele no meio dos filhos que não têm casa. Olhemos para a situação de Goiânia: é delicada. Querem que seja uma cidade com sinais de progresso humano, porém não toleram que, na cidade propriamente dita, os pobres tenham um lugar para morar. Está certo isso, diante de nossa fé e das convicções religiosas que temos? Não seria justo, que, juntamente com os palácios dos ricos, houvesse um lugar para a casa honesta e


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digna dos pobres? Os pobres são cada vez mais arrastados lá pro fim do mundo, porque não podem “sujar” a cidade com seus casebres e, quando tentam fazer esses casebres, são empurrados pela ganância dos ricos – ou pela fome, do meio rural – são esmagados barbaramente pela polícia, pela força bruta, sob os aplausos dos grandes e, muitas vezes, com a complacência e omissão dos bons, que seríamos nós. Vamos ter coração, vamos ter energia, coragem para dizer que não é assim que se faz. Há lugar para todos, não caiamos na condenação de que fala o profeta Isaías, dirigindo-se aos poderosos da terra. Só tem direito à propriedade quem é rico? Quem é pobre não tem direito a nada? Deus, que é o Senhor de tudo e de todos, não deu a terra a todos e a cada um? João Paulo II, recentemente, nos assegurou que o Direito de posse de terra está em primeiro lugar em favor daquele que sabe utilizar a terra em função do trabalho e do trabalhador. E o que vemos? Homens poderosos, ricos e ladrões que assumem uma carga enorme de áreas e mais áreas de terra, para quê? Para exploração da terra e

para a exploração dos seus irmãos. Nós, cristãos católicos, precisamos tomar consciência dessas responsabilidades. Não sei como uma pessoa, seja sacerdote ou leigo, religioso ou religiosa, pode formar sua consciência enquanto incensa os grandes ladrões e despreza, ou, pelo menos, faz de conta que não existem os pobres do Povo de Deus. Então a gente entende que, quando Deus quis que sua casa aqui fosse construída no meio de seus filhos, antes de ter sua casa, supunha que seus filhos tivessem casa. O Templo, a Igreja é a casa de Deus, construída no meio da casa dos filhos de Deus. Se não podemos resolver o problema, podemos pelo menos abrir o nosso coração e confortar àqueles que estão morrendo à míngua porque não têm um lar, uma casa para morar. É muito bom, nós que temos casa, às vezes muito boa, olharmos de cima para baixo e até levarmos um pouco no desprezo os miseráveis que não têm nada... Quantas vezes, observo em minha casa os marginais, as pessoas que não têm nada, alienadas, às vezes discursando (perturbação da ordem – eles não podem fazer); muitos olham com desprezo aquelas pobres criaturas humanas. Revista da Arquidiocese 33


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Meu Deus, o que eu faço em favor desses meus irmãos, que já não têm mais força para viver com essa dignidade humana? Quando chegará a hora, meus irmãos, de despertarmos a consciência, juntarmos as nossas energias e os nossos recursos e irmos ao amparo daqueles que sofrem o abandono? Vocês devem ter tomado conhecimento do que aconteceu em fins de agosto, aqui na nossa belíssima cidade; veio a prefeitura e arrasou os barracos de algumas famílias, sem o mínimo de respeito. Uma pobre mulher abortou e foi ferida pelos estilhaços da casa que ruía. Essas famílias foram fazer vigília em frente à Prefeitura Municipal. Que aconteceu? Não houve nenhuma solução

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ou ajuda por parte das autoridades. Que os colaboradores desta comunidade continuem a ajudá-los, mas se desprendem de qualquer pretexto, de qualquer ambição que venha dos grandes, dos poderosos, porque eles são falsos, são criminosos porque não amam a Deus, nem amam o próximo, porque amam o seu dinheiro, os seus interesses. No entanto, devemos também rezar por eles, evangelizá-los – que é um dos desafios mais difíceis da hora presente da Igreja. E como evangelizá-los? Compartilhando da opressão? Ou mostrando-lhes a verdade de Deus que os ilumine, inclusive que os faça sofrer no sofrimento de Cristo, porque é o sofrimento que converte?


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Farsa em Belém: “A máscara caiu”

Homilia da Missa de 24 de junho de 1982, pelos padres franceses Aristides Camio e Francisco Gouriou, acusados de incitar posseiros e processados pela Lei de Segurança Nacional sob alegação do uso de textos subversivos, um dos quais era o Cântico de Maria

Meus irmãos e caríssimos diocesanos Creio que você todos sabem o motivo deste chamamento do bispo para a celebração da Eucaristia, esta noite e esta hora. O Brasil inteiro foi surpreendido com a condenação de 13 pobres posseiros e dos padres franceses, pelo fato de procurarem defender seus mais legítimos direitos. Vive-

mos numa hora em que o pobre, o marginalizado e o oprimido são condenados pelo “crime” de lutar em defesa dos seus direitos mais fundamentais. Na realidade, o que pretendem os senhores do poder, do dinheiro e da força é legitimar um regime sócio-político-econômico que desconhece a dignidade da pessoa humana e atribui valor Revista da Arquidiocese 35


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absoluto ao predomínio do Estado sobre os cidadãos. Chegamos afinal ao que mais poderíamos temer: a corrupção da lei, para levar os juízes a condenar os inocentes. No caso, houve a melancólica aliança do poder e da força, acobertados por dispositivos legais pré-fabricados, feitos sob medida para inocentar os verdadeiros culpados e condenar os injustiçados e oprimidos. Tenho a impressão de que este episódio constitui uma das páginas mais vergonhosas da História do Brasil. É verdade que temos outras páginas tristes: sabemos da história do índio, quando milhares e milhares foram mortos friamente pela cobiça dos senhores de engenho e pelos chamados “bandeirantes”, de ontem e de hoje; sabemos do drama trágico dos negros, trazidos da África para nos ajudar a crescer como nação e que ficaram escravizados, torturados, assassinados. Mas esse fato de hoje, dos posseiros e dos padres que foram condenados oficialmente pela justiça, depois de dez meses angustiantes de martírio – por conseguinte, algo premeditado, friamente elaborado – constitui, no meu modo de ver (e que ninguém se “iluda”), um desafio frontal à Igreja de Jesus Cristo em nossa pátria. Revista da Arquidiocese 36

Não é caso relembrar os episódios desses 18 anos de tirania, de arbitrariedade, de cobertura da mais iníqua das leis que já saíram no Brasil – a chamada Lei de Segurança Nacional, cujo objetivo é destruir a dignidade da pessoa humana e os direitos do cidadão para exaltar, defender as injustiças de um Estado militar e totalitário. O povo brasileiro, por suas mais legítimas e respeitadas entidades, não consegue expressar livremente a sua repulsa a esta lamentável situação. As armas de todos os tipos, inclusive cachorros adestrados, ocuparam a praça onde a multidão pretendia reunirse, clamando por justiça. Tenho a impressão de que agora a máscara caiu, com o desfecho de um processo que durou dez meses. A Igreja fez o que poderia fazer, no sentido de chamar a atenção dos maiores responsáveis por este País: horas de esperança, horas de desespero, horas de ceticismo, até que os tribunais militares, escravizados pelos interesses dos poderosos, que abusam do poder, do dinheiro e da autoridade, terminaram, acintosamente, condenando os inocentes. Vocês vão ver o caso concreto, quando pedir a Dom Tomás Balduíno, que assistiu a tudo e que deu esta alegria de vir celebrar


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conosco, quando ele descrever o que aconteceu em Belém. A minha parte, hoje, é mais de fazer um apelo a quem quer honrar o nome de cristão. Cristão, todo mundo é neste País, inclusive os que perseguem o Cristo verdadeiro, inclusive os que condenam os Padres e Bispos, inclusive os traidores das leis. Esses se dizem cristãos, porém não concordam com as orientações dos pastores legítimos da Igreja de Cristo. Não sei como formam a consciência, – isso não é da minha conta. Todos nós seremos julgados por Deus. Vejo aqui, hoje, os nossos vigários, os nossos agentes pastorais, os representantes das comunidades, das paróquias, das instituições católicas, enfim os que têm a coragem de professar de público a sua fé e negar-se a adorar os ídolos do nosso tempo, mesmo que venham vestidos de todo o dinheiro e de toda a hipocrisia de que está cheia a sociedade de hoje. Tenho a impressão, irmãos, que chegou a hora das grandes decisões. Quem não tiver coragem de se decidir por Jesus Cristo, é melhor, por uma questão de coerência, renunciar ao nome de cristão. O mundo não suporta mais a hipocrisia de cristãos que servem a

satanás e aos seus agentes. Chegou a hora de denunciar aqueles que combatem a Igreja de Cristo, e que, ao mesmo tempo, procuram comprar os ministros de Cristo por qualquer título. Neste ano, que dizem ser de eleições – pessoalmente, desconfio destas eleições, não obstante certas evidências – chegou a hora de cada um perguntar a si próprio , diante de Deus, quais são as pessoas que devem governar este País. Não é mais hora de titubear. Sei que está chegando um momento mais ou menos parecido com os anos de 1968 a 1972, quando o arcebispo de Goiânia que é o mesmo que ainda hoje está aqui, sofreu sérias represálias e foi proibido até de fazer qualquer pronunciamento público. Os donos dos meios de comunicação se envergonham de pronunciar o seu nome, em seus jornais ou em suas rádios, com exceção da Rádio Difusora. Parece que estamos, hoje, chegando novamente a esse tempo. Estou informado, por pessoas fidedignas, que certa imprensa, aqui em Goiânia, já deu ordens de nada se publicar do arcebispo, nem da Igreja – a não ser que seja contra a Igreja. É bom que saibam isso não é mistério, é o que está acontecendo. O que a gente vai Revista da Arquidiocese 37


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fazer? Ficar com medo? Vai melhorar a hipocrisia? A compra e venda de consciências?... Estamos assistindo, enquanto sofremos o drama do Pará, o drama das célebres invasões de Goiânia, em que quantos pobres, inocentes, por cometerem o “crime” de serem pobres, ou de procurar um pedaço de terra para não morrer de fome, são friamente assassinados. Há quem diga que isto acontece, em parte, sob a orientação dos que deveriam manter a ordem. Todos nós sabemos que estamos marchando para essa degringolada da honra, da fidelidade à verdade e da justiça. Não estamos defendendo nem padres nem freiras, estamos defendendo a dignidade da pessoa humana, esteja ela onde estiver. Peço aos caríssimos sacerdotes que não vejam neste pronunciamento do Arcebispo – como alguns, às vezes comentam – mais um ato de imprudência de Dom Fernando. Trata-se aqui, de um apelo à honra, à dignidade, mas sobretudo à fé, à divina esperança e à caridade. O que acontece hoje, pelo o que a gente acompanha pelos jornais – é que o Brasil inteiro, pelas instituições mais representativas, não só da Revista da Arquidiocese 38

Igreja Católica, está sentindo os horrores dessa farsa que foi o processo contra os padres franceses, que eles lembram, pejorativamente, serem estrangeiros, desconhecendo a nossa cultura, desconhecendo a nossa fé e a nossa história, toda ela baseada no heroísmo, na fé, na virtude, na ciência desses padres que vieram de longe e plantam a Igreja de Jesus Cristo em nossa pátria. Meus irmãos, eu peço a vocês que me considerem do jeito que quiserem; quem não acreditar em mim, pelo menos tenha a caridade de rezar por mim; e , se acreditarem que não estou mentindo, diante de Deus e do povo, vamos nos unir com coragem, sem violência e sem medo. É o que eu digo a todos os pobres que vêm, perseguidos e com fome, bater à porta do arcebispo: Unidos a Jesus Cristo e aos irmãos, sem violência – mesmo que façam violência contra nós – e sem medo. Porque o medo está acabando de matar as últimas reservas morais deste País: medo de perder o emprego, medo de não ser agradável aos grandes que abusam do poder para nos esmagar, medo até do medo. Assim não dá... O que Jesus Cristo mais pediu, foi exatamente não ter medo. “Eu venci!”


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Peço que esta Missa seja um ato de adoração ao mistério da Eucaristia, mas seja também um ato de súplica para que Deus tenha compaixão, primeiramente daqueles que nos oprimem. O nosso Mestre nos ensina que devemos rezar e até mesmo amar os que nos perseguem, nos caluniam. Vamos pedir a Deus que tenha misericórdia desses tiranos que estão esmagando 120 milhões de brasileiros. Que Ele conforte a sua Igreja, congregue os seus bispos e seus padres. Faça com que os religiosos e as religiosas se despojem de si, mesmos e de seus preconceitos e se coloquem a serviço da causa comum. Que os leigos, pais e mães de família, jovens ou crianças, unam-se como filhos do mesmo Pai, para darmos testemunho da unidade e da fé. Se assim fizermos irmãos, nós cantaremos a vitória mais depressa do que possamos imaginar. Quem não quiser fazer assim, tenha pelo menos a coerência de se afastar, como os grandes se afastam. (Eu os louvo pela coerência de não virem à Igreja, nesses momentos. Não se apresentam diante de Deus e de seus ministros porque não têm força moral; para não assistirem a cerimônias

como estas; pelo menos nos deixem mais à vontade). Depois, vamos pedir pelos padres franceses, agora condenados, que eu conheci em Brasília, quando fui visitá-los. Achei-os alegres, dispostos, animando aos outros. Também por esses pobres posseiros, que sofreram tortura, a quem procuraram comprar com o dinheiro da iniquidade, além do temor das armas e tantas outras misérias de que está cheio o chamado “processo”. Meus irmãos, chegou a hora das decisões, chegou a hora do poder das trevas, como disse Jesus Cristo. Mas Ele exigiu fidelidade a seus apóstolos: é a hora de também exigirmos das crianças, jovens e adultos, nos unirmos a Cristo, porque só Ele é a nossa vitória. Vamos pedir ao caríssimo Dom Tomás, bispo da Diocese de Goiás, que estava na Pará, no dia do julgamento, que nos mostre a realidade de como as coisas aconteceram, que estamos tendo visagens, para que, diante dos fatos concretos, tomemos a decisão de sermos Povo de Deus, Povo vigoroso, alimentados na fé e vivificados na caridade e operosos nessa divina esperança que nos abre as portas do Céu. Revista da Arquidiocese 39


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Acervo Arquidiocese de Goiânia

Unidos a Jesus Cristo e aos irmãos

Na homilia proferida na festa de Corpus Christi, na Praça Boaventura, Vila Nova, no dia 2 de junho de 1983, Dom Fernando, apesar de adoentado, fez questão de presidir a concelebração. Ele conclamou todos os fiéis presentes a permanecerem “unidos a Jesus Cristo e aos irmãos, sem violência e sem medo!”

Meus irmãos e caríssimos diocesanos: Hoje é o grande dia do Corpo e Sangue de Cristo. No mundo inteiro, em toda a Igreja universal, em todos os países da terra, multidões cheias de fé prestam uma homenagem a este mistério do amor de Cristo que se fez nosso alimento. Neste dia a alma cristã se enche de júbilo espiritual e contempla aquilo que aconteceu muitos anos atrás, naquele dia

em que uma multidão estava reunida para ouvir a palavra de Jesus Cristo. Após certo tempo, Jesus parou e olhou para a multidão. Percebeu que estava com fome e fez um gesto realmente misterioso, realizando o prodígio de alimentar a multidão. Jesus é sensível aos problemas do povo. Da migalha humana, Deus se serve para resolver os problemas humanos. Não é justo que alimentos Revista da Arquidiocese 41


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se percam, não é justo que da mesa dos que têm muito sobrem alimentos, quando está faltando o necessário na mesa dos pobres que não têm pão nem mesa. É inútil pretender ser cristão sem a Eucaristia, sem Cristo. Aqui está o mistério que adoramos e que nesse momento celebramos. Que consequência práticas tirar disso? Primeiramente, creio que não é novidade para ninguém que grande parte do povo está com fome. Não é mistério. É verdade também que uma parte deste povo está vivendo à custa da miséria alheia. Basta considerar esse mesmo espetáculo que aqui vemos: todas as paróquias trouxeram representantes para esta praça. Eu estou observando: quem está aqui nesta praça? A imensa maioria é constituída pelos pobres, moradores dos bairros e das periferias. Há também diversas famílias do centro da cidade, porém a imensa maioria é de pobres. Onde estão os grandes da terra? Onde estão os grandes de Goiás? Onde estão aqueles que fazem promessas fabulosas, tanto mais fabulosas quanto mais mentirosas, em favor do povo? Desaparecerem – e fazem muito bem, pois não adianta Revista da Arquidiocese 42

vir aqui quem não tem fé. Mas o que é triste é que eles olham para nós, para vocês, meus queridos irmãos, como se fôssemos de categoria inferior porque não temos o dinheiro que eles têm, não temos as mordomias que eles têm, nós não nos alimentamos de roubalheira que os alimenta. A consequência é se encher de ódio contra a Igreja Católica. Pensava que as coisas tinham mudado, ou pelo menos melhorado. Recordo-me de que, no ano passado, quando estive aqui conversando com vocês, nesta mesma solenidade, relembrava, meus irmãos, a situação de sofrimento, de angústia. Relembrei o slogan que sempre repito aos pobres: Unidos a Jesus Cristo e aos irmãos, sem violência e sem medo. Nisto está a nossa força e nossa vitória. Este slogan está de acordo com o lema da Campanha da Fraternidade: Fraternidade sim, violência não. Nós todos podíamos esperar que as coisas melhorassem, e havia motivos para isso. Vocês devem se lembrar de 15 de novembro do ano passado, quando o Estado inteiro se motivou para as eleições. Houve as eleições, vieram os resultados, estamos hoje com novo governo, novos legisladores, vereadores etc...Espa-


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lharam pelos quatro cantos do mundo que era uma “era nova”. Houve até quem dissesse que era “um caminho novo”. Não podemos pré-julgar, porém já se foram quase três meses e a coisa não melhorou. O governo continua devendo o salário indispensável para a manutenção das famílias dos seus servidores, não obstante as promessas de que todo o dinheiro que chegasse seria imediatamente empregado para pagar o que deviam. Será mesmo que esse dinheiro não chega de jeito nenhum ou não chega para isso? Será que estamos cegos e não enxergamos que muito dinheiro já chegou e está sendo empregado para outras coisas? Não melhorou sob este aspecto. De ontem para hoje, eu soube, por meio de fontes fidedignas, que, além do problema do desemprego, que podem alegar, que é do país inteiro, que é mesmo; além do problema da fome que está invadindo a casa dos pobres, continua a amargura, a tristeza e a vergonha dos crimes que se cometem no Estado de Goiás por causa das questões de terra; não só em Goiás, mas, sobretudo neste Estado. Ainda hoje pela manhã, soube que mais um bispo foi preso, esta noite, porque defendia os pobres de sua diocese. São des-

sas coisas que praticam para fazer medo, para bater o pé para ver se a gente corre. É inútil querer bater o pé para fazer correr quem acredita em Jesus Cristo. Aqui mesmo, nesses poucos dias, soube da atitude do governador do Estado expulsando posseiros para dar ganho de causa a grileiros e aumentando a angústia da situação social em que vivemos. Não estamos aqui para dizer a vocês nada que possa significar atitude agressiva contra o governo. Mas estou dizendo como Pastor, para que eles compreendam que não somos cegos nem imbecis, enganando-nos. Ninguém suporta mais ser enganado. Nestes dias, também, outros bispos que defendem os pobres, os posseiros, os peões, em suas dioceses, receberam carta de autoridades constituídas neste País, na área federal, xingando, maltratando, caluniando bispos, religiosos, padres e agentes pastorais e tratando-os como se fossem agressores contra o governo, que tudo pode e nada faz. Meus irmãos, é bom sacudir isto na festa do Corpo de Deus, porque sabemos que esse Corpo de Cristo já foi uma vez torturado, condenado e crucificado. Hoje nós entendemos que Ele quis passar por tudo isto Revista da Arquidiocese 43


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para que nenhum de nós se admirasse, se também passasse por esses sofrimentos. O Corpo de Cristo continua sendo torturado na pessoa dos pobres, dos injustiçados, dos que veem suas terras e casas incendiadas. Mesmo assim, este dia do Corpo de Cristo, morto e ressuscitado, nos ensina a ter coragem. Aqueles que ainda não passaram por estas necessidades – não digo que deem graças a Deus por isso, mas deem graças a Deus por terem capacidade de compreender que a salvação de todos vem do sofrimento dos pobres, e sem esse sofrimento ninguém se redime. Meus irmãos que estas palavras sirvam de coragem. Mas não podemos parar aqui. Não seria justo, pois parece que eu estaria dando um conselho de conformismo: “Vamos sofrer, até morrer, e depois vamos para o Céu”. – Não é essa minha intenção. Minha intenção é despertar a consciência dos que estão dormindo, mas também despertar a consciência dos que estão acordados para que nos unamos em defesa da verdade, da justi��a e do verdadeiro amor. Que faremos este ano – tão abençoado, sob certos aspectos, e tão cheio de opressões, sob outros aspectos? A situação econômica do País é calamitosa. Revista da Arquidiocese 44

Já não tem mais o que do Brasil. A situação política é cada vez mais confusa porque aqueles que foram escolhidos pelo próprio povo para orientá-lo e abrir horizontes novos, estão se engolindo uns aos outros, buscando apenas seus interesses pessoais ou grupais sem olhar para o bem comum. Não é possível que isso continue. A situação religiosa e moral também não é boa. Há um desregramento de costumes, há uma corrupção da carne e do sexo. Será que ninguém enxerga isso? Quando os homens se afastam de Deus, Deus os deixa às suas próprias paixões. Pouca gente hoje acredita em Deus, a não ser por palavras. Chega uma hora em que, ou nos socorremos em Deus ou não teremos mais esperança. Irmãos, é hora de agir, de nos congregarmos no mesmo Espírito Santo, é hora de vocês, que são das periferias, das pequenas comunidades e das paróquias, revigorarem a Fé. Não desanimem e continuem o trabalho. Vamos tomar consciência. Vamos, juntamente com os vigários, fazer um trabalho conjunto para mostrar todo o vigor de nossa fé e de nossa Igreja. Não temamos! Não desanimemos! Permaneçamos unidos a Jesus Cristo e aos irmãos, sem violência e sem medo!


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Dom Fernando e Tancredo Neves Homilia de Dom Fernando pronunciada na missa em sufrágio da alma do presidente Tancredo Neves, celebrada na Catedral Metropolitana, no dia 24 de abril de 1985. Foi a última homilia do Arcebispo

Caríssimos diocesanos, Estamos neste momento, celebrando a Santíssima Eucaristia, por um motivo muito especial. Todos nós – o Brasil inteiro – testemunhas do sofrimento e da morte do presidente Tancredo Neves. Algo que impressionou o País... Hoje faz três dias que ele morreu e, ainda em toda parte, há multidões inteiras rezando a Deus por ele. É também nosso dever, como comunidade arquidiocesana, nos reunir, não só para rezar em sufrágio de sua alma, mas, sobretudo – e isso é importante – rezar pelo Brasil. Ninguém desconhece a situação

difícil pela qual estamos passando. Uma confusão muito grande, problemas aparentemente sem solução. E é nesse momento, em que o Brasil se comove diante de um homem, homem de fé, dedicado inteiramente à política, e que, no entanto, soube sempre reafirmar sua fé e terminou dando um belíssimo testemunho de como é possível a gente dar a vida pelo Brasil. Tancredo Neves deixou esse exemplo. Depois, consideremos o que aconteceu – certamente algo de extraordinário: nunca se viu, na História do Brasil, um fenômeno como esse: o povo, multidões de todos os Revista da Arquidiocese 45


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estados, em praça pública, rezando; primeiro, pela sua saúde e, finalmente, sabendo-se da notícia da morte, rezando por seu descanso eterno. Na verdade, o que se vê, o que se pode compreender é um desígnio especial de Deus. O povo inteiro rezando para que Tancredo Neves não viesse a falecer; e, no entanto, Deus o chamou a si – mas depois que ele deu testemunho de sua vida. Somos também testemunhas do sofrimento por que passou, durante dias e dias; foi algo terrível. O povo foi se emocionando e percebendo que, por trás daquele sofrimento, estava um sinal de vida. A morte de Tancredo foi uma segurança de que a morte não venceu, mas, antes, a vida venceu a morte. Nesta missa, vamos nos unir em sufrágio de sua alma, mas, sobretudo, rezar pelo Brasil. Foi com essa intenção que convidei toda a Arquidiocese: para rezarmos juntos, nesta noite, porque há poucos dias mudou o governo. Mas não foi só o governo que mudou, mudou o sistema político que perdurou durante 21 anos. Está mudando a sociedade. Compete a nós seguir esse exemplo e aproveitar desta oportunidade, esta comoção que abraçou o País inteiro e não perderemos a oportunidade. Revista da Arquidiocese 46

Primeiramente, observemos que há qualquer coisa de prodigioso, de extraordinário; depois de 21 anos do chamado “estado de exceção”, o regime se modifica de uma maneira tranquila, pacífica, consciente, sem alteração da ordem, em plena paz, em plena tranquilidade. Vocês viram, nestes três dias, a começar pelo dia 21, como em todos os estados da federação, multidões enormes foram para a rua, numa atitude de prece, de esperança. Alguém me perguntou: “por que Deus não atendeu a oração do povo para que ele não morresse?” Eu disse que entendia que, por detrás de tudo isso, estava uma lição, que, Deus permita, sirva de estímulo a todos nós: na verdade, Deus o chamou, mas atendeu ao fundamental da oração do povo (porque, em última análise, o povo estava rezando pelo Brasil) para que Tancredo Neves concretizasse seu plano de governo, para que ele realmente correspondesse à esperança de todos nós. E Deus tem seus mistérios, o chamou para que a morte dele servisse de edificação para todos nós, brasileiros. Assim, ele ofereceu sua vida – pode-se dizer, tranquilamente – depois de tantos dias de sofrimento. Nós sabemos, meus irmãos, que o preço da


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ressurreição é a morte. Para ressuscitar, é preciso primeiro morrer, assim como Jesus Cristo fez. Ele veio, deu sua vida por nós, se entregou, foi morto, foi sepultado, e depois ressuscitou. Era esta a lição que eu queria que aprendêssemos e levássemos daqui, com uma convicção: Deus está olhando para o Brasil, Deus está a ensinar aos nossos homens públicos, às instituições, às famílias, que é preciso mudar qualquer coisa. O regime de exceção passou e agora esperemos que a sociedade também se transforme. Para isso, precisamos rezar muito e sofrer. Sofrer as consequências daquilo que nós mesmos plantamos. Devemos nos preparar para o que há de vir, na certeza de que Deus advertiu o País. Por quê e para quê isso? Para que tomássemos consciência de que precisamos mudar também. Não podemos nos conformar com este estado de miséria em que se encontra a nação inteira, pela corrupção, pela perversidade, pela desmoralização de nossa moeda, pela insegurança que atinge a todos nós – e os próprios governantes não sabem o que fazer. Ainda ontem declararam que é preciso rezar; eu não me lembro de ter visto um movimento desta natureza em toda a história do Brasil: o

povo entendeu que é preciso rezar, cada um de acordo com suas convicções. Não houve nem diferença de religiões, todos rezando. Recordo que, na última guerra mundial, quando o mundo estava abalado diante do totalitarismo nazista, o primeiro ministro da Inglaterra fez um apelo ao mundo: que a situação era gravíssima e que a única solução era rezar, pedir a Deus para nos libertar de tanta dificuldade. Meus irmãos, vamos rezar nesta hora por Tancredo Neves, um irmão maior, que nos deixou um exemplo extraordinário de como é possível ser político e é possível trabalhar para os interesses terrenos sem desprezar a oração e a vida edificante. Vamos dar graças a Deus pelo exemplo que contamos hoje dentro de nossa própria história. Vamos fazer uma revisão, em todos os setores, para que se inicie uma nova época. A chamada Nova República que não seja um nome vazio. É preciso recomeçar. Vamos dar graças a Deus pelo exemplo que Ele permitiu nos dar, através da vida de um nosso concidadão. Não paremos aí. Olhemos também para nós: seremos capazes de sofrer o que ele sofreu para o bem Revista da Arquidiocese 47


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do Brasil? Chegou a hora: que ninguém se conforme de ficar acomodado; chegou a hora do desprendimento de muita coisa inútil que está absorvendo, prejudicando a nossa liberdade. Meus irmãos, na missa, diante do sacrifício de Jesus, que também morreu por nós e pelo mundo, vamos nos oferecer, revisar, modificar o nosso comportamento. Vamos pedir à juventude para que não se deixe levar por tantas atrações que desperdiçam o seu valor. Vamos pedir a todos que entrem dentro de si. Não percamos esta oportunidade, para que haja um começo de civilização nova, de sociedade nova, da qual nós fazemos par-

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te, e em que cada um é responsável e todos somos responsáveis. Pensemos com seriedade na situação em que o País está, pois, se não juntarmos esforços, quem corre perigo de morrer é o próprio Brasil. Não podemos permitir que o Brasil morra, porque esta não é a vontade de Deus. A vontade de Deus é que todos nós ressuscitemos para uma vida melhor e mais fervorosa. Que a Virgem Santíssima nos abençoe, nos proteja, e que, unidos na oração e nesse esforço coletivo ressurja uma pátria melhor e mais feliz. Revista da Arquidiocese, Ano XXVIII, nº 5, maio de 1985


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Acervo Arquidiocese de Goiânia

Evangelho para o índio

Após a I Assembleia Nacional do Conselho Indigenista Missionário(CIMI), realizada em Goiânia em junho de 1975, Dom Fernando explicou a nova postura da Igreja no relacionamento com os povos indígenas em artigo publicado na Revista da Arquidiocese, em agosto do mesmo ano

Importante encontro realizouse em Goiânia, nos dias 24 a 27 de junho de 1975, promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Participaram diversos bispos, leigos, entre eles índios de diferentes tribos. Os estudos desenvolveram-se num clima de seriedade e estímulo fraterno, em torno de temas inspirados na atual conjuntura

em que se situa o Brasil. A Assembleia não visou com exclusividade a este ou aquele aspecto determinado. Preferiu refletir sobre a realidade global que envolve a problemática do índio. Na abertura do encontro, o padre Vicente César, então ainda presidente do Conselho Indigenista, esclareceu que o índio é uma pessoa adulta que não pode continuar sob tutela, Revista da Arquidiocese 49


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pelo fato de estar situado numa faixa cultural diferente. Ele tem que ser encarado como pessoa humana, no contexto de sua própria cultura. O presidente do CIMI, recémeleito, Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás, acha que as conclusões do encontro correspondem a uma expectativa de pastoral, em termos de Brasil e até de América Latina. Explicitam as questões fundamentais que mais diretamente podem dificultar a promoção do índio e, consequentemente, a sua evangelização. Empenham-se por obter as condições para que uma pessoa seja considerada e tratada como merece. Assim como a “graça supõe a natureza”, assim também a recepção da mensagem de Cristo requer, para ser eficaz, que o missionário esteja atento às circunstâncias concretas em que vive a pessoa a quem se deseja transmiti-la. Sem um mínimo de condições humanas, não há meios de chegar a quem está com fome de pão e de justiça, a Boa-Nova trazida por Cristo. Os índios são os grandes marginalizados, eles os primeiros ocupantes da Terra de Santa Cruz. Quando aqui aportaram as caravelas da Cabral, foram eles que receberam os portugueses. E o fizeram com Revista da Arquidiocese 50

espanto e admiração, mas também com gestos acolhedores, com plena consciência do que estavam fazendo e com simpatia pelos que chegavam. Revelaram, desde logo, sua índole pacífica e solidária. Tudo indica que não partiram deles atitudes agressivas para com os que se tornaram senhores, não só de suas terras como deles mesmos. Foram os novos donos da terra que implantaram o regime de dominação. Dois povos, duas raças, duas culturas entraram em choque. Predominou a mais equipada para a luta. No começo, porém, o índio foi considerado como possível aliado, desde que se deixasse escravizar. Mas ele não aceitou a condição. Preferiu lutar e morrer, de vez que não tinha armas proporcionais às dos novos ocupantes. Até hoje, com outras modalidades, continua o drama das tribos indígenas. Não é essa a oportunidade de relembrar a epopeia dos primeiros missionários, nem de discutir os seus métodos de trabalho. A verdade é que foram eles que ensinaram os nativos a ler, escrever e contar. Foram eles os amigos e defensores dos índios. Tenta-se hoje reconhecer o direito dos primitivos habitantes do Brasil e salvar o pouco que ainda resta


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desses homens bravos e cordatos, que também combateram em defesa da Pátria e continuam lutando pela preservação de sua dignidade e dos direitos de suas tribos. Foram eles que mostraram os primeiros caminhos que levaram os brancos às nossas fontes de riqueza. É justo que hoje se faça alguma coisa para restituir ao índio o que lhe pertence e que se reconheça o seu papel na estrutura da Pátria comum. Esta é a atribuição do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). A reunião de Goiânia concluiu com

bastante lucidez que, para evangelizar o índio, é preciso respeitar e defender a sua cultura. Só então, poderá iluminá-la com a luz do Evangelho. Esse trabalho árduo e incompreendido é também prelúdio do Evangelho, de vez que na expressão de Paulo VI, a justiça é o primeiro degrau da caridade de Cristo, semente e fruto de toda obra evangelizadora. Revista da Arquidiocese Ano XVIII- n. 8 agosto de 1975

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Caminhos do futuro A falta de confiança e de compreensão entre os homens são, para Dom Fernando, um empecilho ao estabelecimento da ordem social e um desafio a ser vencido no contexto das eleições municipais de 1976. O artigo foi publicado na Revista da Arquidiocese de fevereiro do mesmo ano

A participação de todos os cidadãos na vida pública é um dever cívico e um direito inalienável de cada membro da sociedade. Para assegurar esse dever e esse direito é que existe o governo. Por outras palavras, o governo é o organismo de que dispõe uma sociedade organizada para que os cidadãos não sejam contrariados nos seus direitos e possam cumprir com tranquilidade os seus deveres. A missão do governo não se processa arbitrariamente, mas está subordinada a estruturas jurídico-polí-

ticas. Destinam-se estas a oferecer a todos, sem discriminação, a possibilidade efetiva de participarem, livre e ativamente, cada um de acordo com suas possibilidades e aptidões, nos seguintes pontos fundamentais: a) no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política; b) na gestão dos negócios públicos; c) na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições; d) na eleição dos governantes. Esses pontos citados na Constituição Conciliar Gaudium et Spes, Revista da Arquidiocese 53


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nº 75, mostram, sem maior esforço, como é importante o livre exercício do voto consciente dos cidadãos. Sem ele, a pessoa estaria à mercê das ondas ou dos ventos, sem possibilidade de afirmar-se, sem meios de contribuir politicamente para o bem comum. Seria um membro atrofiado, como um corpo estranho em sua própria casa, como uma criança em perene minoridade. O voto de que falamos não é apenas a cédula que se deposita na urna, por ocasião das eleições. É o dever de pronunciar-se, de concordar ou discordar, conforme pareça melhor para o bem de todos. É o direito de ouvir e de ser ouvido, de informar e ser informado a respeito da vida, da família, da profissão, dos negócios, do relacionamento com Deus e com os homens, dos postulados da verdade, da justiça e do bem. Esses direitos e deveres fundamentais não podem ser cassados, de vez que não está ao alcance de nenhuma autoridade impedir ou dificultar o uso de prerrogativas que definem a pessoa. Somente o arbítrio e a violência conseguem asfixiar e oprimir o homem. Quando acontecem tais abusos, é sinal de que a sociedade está desgovernada e de Revista da Arquidiocese 54

tal modo debilitada ou corrompida que se torna incapaz de assumir o seu destino. Essas considerações parecem oportunas nesta hora em que preparamos para as eleições municipais. Não há razão para temê-las. O governo, segundo os pronunciamentos oficiais, considera-se aparelhado para coibir possíveis excessos e assegurar a liberdade responsável dos cidadãos. O povo está cada vez mais consciente de que as coisas não podem continuar como estão. A corrupção generalizada, a insuportável carestia dos gêneros de primeira necessidade, a soma desmesurada dos gastos supérfluos, o predomínio do econômico sobre os valores morais, as contradições gritantes entre os pronunciamentos do governo e o comportamento de certos órgãos ou agentes oficiais, as divisões internas nos quadros partidários, a instabilidade social que se reflete nas famílias e nas instituições, são sintomas desagradáveis e ao mesmo tempo promissores de que as coisas têm que mudar, até porque, sob esses aspectos, não podem continuar como estão, nem podem mais piorar, sem a destruição ou ruína total. Por outro lado, é justo considerar


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compreender que governo e oposição não são termos contraditórios, mas elementos que se completam e se reclamam, com as duas mãos que se juntam para o trabalho comum, em favor da pátria. É urgente que o Brasil se eleve acima das querelas partidárias para vencer o que talvez seja hoje o seu maior inimigo: a luta surda e ingrata de valores contra valores. A soma deles é que dá paz, tranquilidade e vigor, face aos grandes desafios de um mundo conturbado, à espera de um raio de sol que ilumine os caminhos do futuro. Revista da Arquidiocese Ano XIX – n. 2 – fevereiro de 1976

Acervo Arquidiocese de Goiânia

o aspecto positivo de muita coisa boa que se tem feito e do muito que se deseja fazer. Em resumo, está faltando o clima de confiança entre governantes e governados, de compreensão entre os homens, de colaboração de todos em favor do desenvolvimento integral e integrado dos valores da Pátria que não residem nas riquezas materiais, mas nos seus homens. Bastaria que o governo como tal se colocasse acima dos partidos. Afinal, o governo é de todos e para todos. Se fosse apenas de um partido para aniquilar o outro, deixaria de ser governo para ser suporte ou a semente das intermináveis convulsões internas. Já é tempo de se

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g Dia das Mães

Na comemoração da data das mães de 1976, Dom Fernando deixa um recado importante às mulheres e ressalta a necessidade de valorização do papel institucional da família

Menos mal que na sociedade consumidora e agressiva que aí está, desafiando os valores, rebentam, aqui e acolá, sinais de reconhecimento e estímulo às legítimas aspirações humanas. O dia dedicado às mães é como um desabafo, uma válvula de escape que deixa entrever o que se passa no íntimo dos corações. Por trás da sofisticação, da hipocrisia, das pressões de toda ordem, o que realmente motiva e consola é a elevação de propósitos da humanidade sofredora e oprimida.

O Dia das Mães é um exemplo que mostra as duas faces da mesma realidade. De um lado, a preocupação exagerada pelos interesses, nem sempre elevados, que se aproveita das esperanças em desespero das multidões carentes, para tirar o máximo proveito nos negócios, nos divertimentos duvidosos, na exploração da mulher. De outro lado, é a autenticidade da mulher que se esforça por libertar-se das teias transparentes que revelas a sua beleza, mas comprometem o seu decoro. É o empenho da Igreja em mostrar o lugar e a missão da mulher na obra Revista da Arquidiocese 57


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de restauração. É o conjunto de aspirações da parte superior da pessoa que deseja reencontrar-se com dignidade. Se houvesse sincera disposição de honrar e dignificar as mães, além dos sugestivos slogans e das poesias líricas em sua homenagem, haveria também conjugação de esforços para ajudá-las a cumprir a nobre missão que lhes foi confiada. A sociedade não permitiria o desfile degradante da nudez luxuosa de umas, nem a procissão da miséria vestida de andrajos em que outras se encontram. Não falamos apenas da nudez camuflada nos minivestidos ou da escassez dos recursos indispensáveis à subsistência. Referimo-nos ainda ao nudismo interior que se despe dos valores do espírito e a manifesta-se na frivolidade das palavras e atitudes. Referimo-nos à miséria moral que se generaliza entre ricas e pobres, como reflexo de uma civilização suicida que se gloria do progresso estonteante das coisas e parece insensível ao aviltamento da honra das pessoas. São frequentes, nos jornais e revistas e mais frequentes ainda nas cenas televisivas, a fotografia das duas faces que retratam a imagem do mundo em transição. Em parte, Revista da Arquidiocese 58

isso é decepcionante. Mas não deixa de ser uma esperança. As coisas chegam a tal grau de saturação que, em diversos lugares e circunstâncias, percebem-se sintomas de restauração. Dir-se-ia que a humanidade está cansada e entediada de tanto desasseio físico e moral. Surpreendentemente, observa-se como o processo de libertação está se tornando mais visível e quiçá mais eficiente e rápido de baixo para cima. São as pequenas comunidades dos bairros pobres e dos povoados humildes que dão o exemplo do que será a sociedade de amanhã. As mães pobres e virtuosas, com seus esposos e filhos, tomam dia por dia mais consciência de sua dignidade e de sua missão. Nas chamadas classes elevadas também se nota um esforço digno de louvor. Não é muito raro o abraço fraterno de mães ricas e pobres, na obra comum de elevação do nível cultural, moral e religioso da diferentes camadas da sociedade. As reflexões à luz do Evangelho, envolvidas em preces, penetram por toda parte. Organizações como os Cursilhos e o Movimento Familiar infiltram-se e influenciam ricas e pobres. Os institutos religiosos e as associações dispõem-se a ultrapassar a


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faixa estreita da piedade meramente pessoal e colocam-se a serviço das comunidades. As igrejas cristãs começam a rezar juntas e a somar iniciativas em benefício de todos. Como convencer os responsáveis pelas empresas, os administradores, os políticos, os parlamentares e, mais que todos, os que assumem cargos de direção e governo, de que é no ambiente familiar e no relacionamento humano das pequenas comunidades que se reconhece e se desenvolve o valor da vida e do trabalho? Assim como a procura da unidade é hoje o ponto de convergência das igrejas, assim também o respeito e a consideração às pessoas e instituições deveriam ser a preocupação constante, sincera e patriótica dos que assumem a responsabilidde de governar. A Nação não é apenas o governo, mas a soma de tudo e

de todos os que a constituem. Governantes e governados são como partes de um todo, igualmente responsáveis, respeitadas as condições e missões de cada um, sempre em função do crescimento harmonioso do corpo social. Na base das estruturas humanas está a família. Por isso, o Dia das Mães e o Dia dos Pais revestem-se de singular importância. Afinal, não são eles os primeiros e mais eficientes educadores do Homem? Sem mães e pais bem orientados, estimulados e respeitados, sucumbirá a Pátria, que subsiste na medida em que soma, eleva, defende e consolida a integridade de todos os lares. Revista da Arquidiocese Ano XIX – n. 5 maio de 1976

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Como explicar? Neste artigo, publicado na Revista da Arquidiocese de agosto de 1977, Dom Fernando denuncia “o arbítrio que não respeita a Lei” e as ameaças que pairam contra “os valores que sustentam o edifício social”

Vivemos dias de preocupações e ameaças. Seria longa a lista dos atentados aos direitos e à dignidade de pessoas e instituições. Indicaremos alguns, desses últimos dias, conforme o noticiário da Imprensa. Rumores insistentes, baseados em informações merecedoras de crédito, anunciaram a iminente expulsão do Brasil do sr. bispo de São Félix, em Mato Grosso, Dom Pedro Casaldáliga. Esta é a terceira ou quarta vez que se intenta consumar mais um ato arbitrário e injusto contra o dedicado apóstolo dos indefesos peões e índios da região. Como nas outras ocasiões,

não se fez esperar a solidariedade da Igreja. Basta ler “O Estado de S. Paulo”, em sua edição de 30.07.77, página 9, e outros jornais do mesmo dia. O caso do Padre Romano Zufferey, assistente eclesiástico da Ação Católica Operária do Nordeste, continua sendo notícia, ameaçado de expulsão do País, por dedicar-se à defesa dos operários oprimidos e injustiçados. O ministro da Saúde expõe o seu plano de distribuição gratuita de anticoncepcionais, pretendendo, segundo afirma, “a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros”, sem maiores considerações éticas, Revista da Arquidiocese 61


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biológicas e sociais. Sobre o assunto, a CNBB, refutando mais uma vez a insensatez da iniciativa oficial, declarou que o problema da miséria não se resolve com pílulas e sim com justiça social, com profundas e radicais medidas de saneamento moral. Domingo, 31.07.77, em Goiânia, membros da benemérita Ação Misereor desembarcaram no Aeroporto Santa Genoveva e passaram pelo vexame de serem interrogados e vistoriados por agentes da Polícia Federal, como se fossem intrusos, espiões ou subversivos. Homens sérios e educados, ficaram surpreendidos pela maneira deseducada e inamistosa como foram recebidos em Goiânia, depois de terem desembarcado sem atropelos ou suspeitas no Aeroporto Internacional do Galeão, satisfeitas as exigências legais. São eles representantes de organizações da Europa que colaboram de maneira correta e generosa na promoção humana e social dos países do chamado Terceiro Mundo. As dioceses e prelazias do Brasil muito devem a estas organizações supervisionadas pelos respectivos Episcopados, com plena aprovação dos bispos do Brasil. Estes fatos comprovam a desorientação e fraqueza do sistema que se caracteriza pela hostilidade, não só à Igreja, como aos valores que sustenRevista da Arquidiocese 62

tam o edifício social. O desequilíbrio é de tal ordem que chega ao excesso de oficializar ou legalizar o crime, a corrupção, os pontos mais graves que ofendem à moral e degradam os costumes de uma nação qu se vê cada dia mais entregue ao arbítrio que não respeita a lei, ou se deixa conduzir por leis ocasionais, pré-fabricadas, à margem do direito e do bom senso. Ontem foi a dissolução do casamento civil. Hoje, a violação do direito à concepção. Amanhã será a legalização do aborto com suas consequências contra a vida, as normas de convivência humana, a violação pura e simples do direito de ser livre, de realizar a nossa razão de existir. Como explicar tantas e tamanhas aberrações perpetradas, segundo dizem, em defesa do homem, da raça, da própria nação que se prepara, nos planos oficiais, a tornar-se uma “grande potência”? De tudo se conclui que o corpo está enfermo, enlouquecido, porque a doença localiza-se na cabeça. Menos mal que o corpo social é diferente do corpo físico. Neste, a cabeça não pode ser mudada... Revista da Arquidiocese Ano XX – n. 8 , agosto de 1977


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Unidos e solidários Na convocação para a Assembleia Geral da Arquidiocese, Dom Fernando dirige-se às lideranças pastorais em artigo publicado na Revista da Arquidiocese , em outubro de 1977. A finalidade do texto é trazer esclarecimentos sobre o assunto central da Assembleia: evangelização e catequese

Nos dias 29 e 30 vamos nos encontrar. É a Assembleia Geral da Arquidiocese. O assunto central é evangelização e catequese, escolhido também para tema da Assembleia Regional da CNBB, em Goiás. É grande o interesse de todos os valores da Arquidiocese. Não é fácil explicar o que seja evangelizar ou catequizar, nesta hora de confusão, injustiça, corrupção e violação dos direitos divinos e humanos. Consequentemente, não é para admirar o clima de irresponsabilidade que dificulta o cumprimento dos

deveres. O medo, a falta de convicções, a insegurança interior são, ao mesmo tempo, efeito e causa de muitos males que perturbam a vida das pessoas e a estabilidade social. Por tudo isso, é muito grande o desejo de acertar o caminho que devemos seguir. Peçamos, antes de tudo, que o Espírito de Deus nos una cada vez mais e nos diga como devemos agir. Juntos e solidários, membros da mesma família de Deus, iniciemos a marcha... Não podemos distinguir, a ponto de separar, evangelização e catequese. Revista da Arquidiocese 63


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As duas se completam. Uma exige a outra. Ninguém evangeliza sem evangelizar-se também, cada dia, a cada instante. Isto quer dizer que pregar ou anunciar o Evangelho não é a mesma coisa que ensinar uma lição aos alunos. É crescer constantemente na aceitação e vivência da mensagem evangélica. É comprometer-se definitivamente com Jesus Cristo, segui-lo, não se afastar dele, porque Ele é a Luz e o Caminho. Quem não se lembra da vela que acende outras velas? Evangelizar é algo parecido. Ao mesmo tempo que o evangelizador transmite a mensagem, continua com ela no coração e na vida, qualquer que seja a idade, as suas circunstâncias, os seus conhecimentos, as suas virtudes... qualquer que seja o seu estado de saúde, sejam quais forem os seus erros, as suas falhas, os seus pecados. Tudo se trans-

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forma e se eleva à luz viva do Cristo que perdoa, liberta, santifica. Catequizar é a maneira de traduzir, nos atos de cada dia, o Evangelho recebido, transmitido e vivido na família, no trabalho, nos divertimentos, no exercício da profissão ou da missão em favor de todos. Com a graça de Deus e o esforço generoso de cada um dos participantes, descobriremos os meios, os métodos, a maneira prática de agir, na medida das possibilidades e da capacidade de cada um. Todos juntos, sem preconceitos ou receitas pré-estabelecidas ou impostas, seguiremos o caminho que o divino Espírito Santo nos indicar, em favor do Povo de Deus. Revista da Arquidiocese Ano XX – n. 10 outubro de 1977


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Ainda prisões

Dom Fernando foi um defensor incansável da liberdade e da justiça. Publicou na Revista da Arquidiocese de novembro de 1977 mais um artigo sobre a opressão policial exercida sobre os jovens

Tem-se a impressão de que alguns setores de influência estão convencidos de que o atual regime não poderia subsistir sem alimentar o clima de medo. De vez em quando recrudesce a onda de prisões, aparentemente sem justificativa. Prendem por prender, como a demonstrar que a espionagem é permanente e onipresente. Em lugar de espionagem deveria haver vigilância, necessária inclusive

para os negócios e para a economia doméstica. Quando acompanhada da oração, é até um preceito divino que nos livra do mal, Não merece o nome de vigilância a espionagem mesquinha, desleal, arbitrária e cruel. Outro dia, segundo nos informaram, um senhor foi preso a caminho do trabalho. A família inquieta não conseguiu descobrir onde se encontrava. Imaginamos a aflição da esposa e dos filhos. No dia seguinte, é Revista da Arquidiocese 65


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restituído ao lar por elementos desconhecidos que pediram desculpas à família, declarando candidamente que aquele senhor foi preso “por engano”. E tudo ficou por isso mesmo, como se nada houvesse acontecido. Se alguém tentasse pedir explicações, a resposta seria talvez mais incisiva: “Guerra é guerra!” Esta saída “estratégica” vigorou em algum tempo. Parece que agora estão mudando o disco, ou adotando outros subterfúgios. Seria exagero afirmar que poucas famílias neste País não tenham passado pelo vexame de ver um de seus membros atormentados por algum tipo de tortura? Tão sofisticado é o processo que, em muitos casos, o flagelo moral, psicológico, econômico ou mesmo físico, torna-se até motivo de agradecimento da vítima, diante da “boa vontade” dos opressores que reconhecer o “engano” ou que a prisão foi apenas um ato de rotina “para averiguações”. No mês passado foram presos alguns estudantes. Quatro deles da Universidade Federal. Membros de suas famílias e alguns colegas procuraram a Assembleia Legislativa, a Ordem dos Advogados e o arcebispo, à guisa de esclarecimentos e Revista da Arquidiocese 66

apoio. Depois de alguns dias foram libertados. Ninguém sabe por que foram presos, nem por que foram soltos. E a vida continua, no eterno regime de exceção. Prende-se por exceção. Solta-se por exceção. Governa-se por exceção. A exceção virou regime vigente. A pedido de alguns estudantes, o arcebispo celebrou no horário costumeiro, às 8 horas do domingo, na Catedral, pelos estudantes vítimas dessas exceções. Na homilia referiuse a esses casos que atormentam a vida e perturbam o trabalho. Entre as considerações que fez, lembrou o perigo de quem se especializa em fazer medo aos outros. Declarou que se trata de atitude altamente nociva e antievangélica. Jesus repetiu muitas vezes: “Não tenhais medo”. Realmente o medo, de si mesmo, já é um tormento. O mais grave, porém, é que pode levar ao desespero. Nesse caso, as consequências podem ser terríveis porque terminam sendo um confronto entre a dignidade humana e a fragilidade das armas opressoras. A vitória será inevitavelmente do homem, desde que ele aja com destemor e sem violência. Todo mundo sabe que a violência armada é uma das mais fortes expressões do medo. Em últi-


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ma análise, é luta bruta do medo de uns contra o medo de outros. Felizmente, delineia-se nos horizontes a esperança de dias melhores para um País que, hoje, deseja acima de tudo liberdade com responsabilidade e condições para trabalhar sem ameaças que apresentam, paradoxalmente, em nome da “segurança”. Não há motivo para ter medo dos estudantes e da juventude em geral. Até quando seremos incapazes de ver que a juventude está em fase de transição, deixando a atitude fácil e frágil de gritar desordenadamente contra tudo “o que não quer” e arregimentando-se para dizer “o que quer? Embora haja jovens desiludidos e revoltados que nada querem e por isso entregam-se a uma série de vícios e protestos, a grande maioria, cada dia maior, esclarecida e consciente, começa a pensar, a refletir, a orar, a decidir-se a querer a verdade, a justiça, o amor honesto e digno. Compete aos pais, aos educadores, aos adultos conscientes, às igrejas e instituições e sobretudo aos responsáveis maiores pelo bem

comum da Pátria, estimular, desanuviar, confiar e discernir as coisas. Até porque, dentro de 10 a 15 anos, serão os jovens de hoje os responsáveis pelos destinos do País. A opressão policial não educa, não corrige, não eleva. Ao contrário, revolta, estimula o crime, degrada a pessoa. No dia em que for permitido aos jovens se pronunciarem livremente, estimulando neles o senso de responsabilidade e participação na vida da família, da escola, da universidade, do País, segundo as suas aptidões, veremos de quanto bem eles são capazes. Esta será, talvez, a verdadeira distensão, a autêntica abertura, impacientemente esperada, para a restauração do Estado de Direito. Sem os jovens ou contra os jovens, todas as medidas “acauteladoras” serão meros paliativos para disfarçar a “medocracia” (domínio do medo, pelo medo e para o medo) ou alimentar intenções não menos temerárias. Revista da Arquidiocese Ano XX – n. 11 – Novembro de 1977

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Tempo de profecia

Dom Fernando, em artigo, publicado na Revista da Arquidiocese em abril de 1979, fala sobre a figura e a missão do profeta, que serve como elo entre a mensagem de Deus e os anseios do povo. Por meio desse homem escolhido, diz o arcebispo, o Senhor mostra que quer uma sociedade diferente

Quem é o Profeta

O profeta é um homem chamado por Deus para transmitir ao povo sua mensagem, para falar em nome do Senhor. Antes de tudo, porém, o profeta é alguém do povo, alguém que participa bem de perto dos dramas de seus patrícios, sobretudo dos mais oprimidos e marginalizados. Além disso, o profeta tem intimidade com Deus. Ele conhece Deus

na experiência da vida e mantém com ele um diálogo constante. Ao apelo de Deus ele não sabe, nem pode resistir. Amós declara: “O leão ruge, quem não temerá? O Senhor falou quem não profetizará?” (Amós 3,8) A vocação de Jeremias nos apresenta um homem que tem intimidade com Deus e que procura inutilmente sair-se de um compromisso bastante pesado: “Foi-me dirigida a palavra do Revista da Arquidiocese 69


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Senhor nestes termos: antes de formá-lo no seio materno, lhe conheci; antes de seu nascimento lhe santifiquei e estabeleci profeta das nações. Respondi: Ai, ai, ai Senhor Deus, eu não sei falar porque sou jovem. Mas o Senhor disse-me: não diga: sou jovem; mas vá àqueles a quem eu lhe enviar e não os tema, porque estou com você para protegê-lo, palavra do Senhor”. (Jeremias 1,4-10). Sendo o profeta o mensageiro de Deus, ele denuncia as cumplicidades do mal, os abusos do poder e qualquer tipo de injustiça, em qualquer lugar em que se encontrem. Ele é o defensor dos oprimidos, dos fracos, dos marginalizados. Ele se coloca ao lado dos pequenos: é a voz dos que não têm voz. O profeta é chamado para servir aos últimos, aos marginalizados, não aos reis, aos poderosos, porque é justamente dos humildes, dos insatisfeitos com a situação que virá a libertação, a salvação. Por isso os profetas animaram o movimento dos pobres na busca da libertação. E justamente por isso os profetas foram sempre considerados elementos perigosos pela ordem constituída, pelos poderosos que sentiam-se desmascarados por estes homens de Deus. Revista da Arquidiocese 70

Justamente por ser a missão do profeta tão difícil e perigosa, Jeremias diz que foi seduzido pelo Senhor “o Senhor é forte, mais forte do que eu, e pode mais” (Jeremias 20,17-19). Ao mesmo tempo, o profeta tem a certeza da presença contínua do Senhor que o sustenta e o apoia. Os poderosos “pelejarão contra você, mas não vencerão, porque estou com você, para livrá-lo, diz o Senhor” (Jeremias 1,17-19).

Mensagem do Profeta

a) A Aliança de Deus com o seu povo O profeta lembra sempre ao povo a aliança que foi celebrada com o Senhor, aliança que agora deve ser revivida, alimentada, fortalecida. Esta aliança foi realizada nos tempos de Moisés. De um lado há o Senhor Javé que escolheu o povo de Israel, não pelos méritos que tinha, mas por um amor profundo. “Eu sou o Senhor, que lhe tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 20,2). Do outro lado, o povo que recebe de Deus, além da libertação do Egito, uma lei que mostra como deve ser o relacionamento com Deus e com os irmãos: “Eu sou o Senhor, seu Deus...” (Êxodo 20,1/7).


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Depois que Moisés transmitiu ao povo as palavras do Senhor, o povo afirma seu compromisso de aliança: “faremos tudo o que o Senhor disse...” (Ex. 24,7). Em seguida, Moisés toma o sangue das vítimas e derrama uma parte sobre o altar que representa Deus, e parte sobre o povo que tinha acabado de expressar seu “Sim” à aliança. Este gesto significa que a aliança é selada, Deus se compromete a acompanhar, proteger seu povo e o povo se compromete a ser fiel ao seu Deus. No momento de crise em que estão vivendo, os profetas se deparam diante de perguntas angustiantes: Por que acontecem tantos males? Será que Deus se esqueceu de seu povo? Qual a verdadeira causa da derrota do povo? Os profetas querem ajudar a descobrir as causas do mal, da derrota. Eles têm uma certeza: Não é o Senhor que abandona seu povo... Ele é fiel! “Mas disse o povo: o Senhor desamparou-me, o Senhor esqueceu-se de mim? Porventura pode uma mulher esquecer-se do seu menino de peito...? E mesmo que ela se esquecesse, eu não o esqueceria nunca, diz o Senhor...”

(Isaías 49,14-15). As palavras dos profetas tornam-se uma denúncia. A causa das derrotas está no povo que é infiel e por isso perde a proteção de Deus e atrai sobre si desastre e morte, acabando com os privilégios que tinham sido garantidos. É na falta de fidelidade à aliança que encontramos a raiz do mal, de toda derrota. Os profetas lembram com comparações bonitas o amor de Deus para com seu povo e a traição do povo. O profeta Ezequiel, no capítulo 16 apresenta o povo de Israel como esposa, que depois de ter recebido o amor e favores do esposo, o Senhor, trai vergonhosamente. b) Deus, Pai do povo Denunciando o rompimento da aliança entre Deus e o povo, os profetas mostram que Deus, apesar de tudo, continua sendo Pai. O profeta conhece profundamente o Senhor, mantém com ele um relacionamento de intimidade e por isso pode manifestar aos outros a grandeza e bondade de Deus. Deus é aquele que manda sobre a natureza, é ele o Senhor de todas as coisas, dos homens e da história, é ele que dirige o destino de todos os povos. Revista da Arquidiocese 71


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Lutando contra a influência dos cultos pagãos, o profeta insiste na impotência dos falsos deuses e na vaidade dos ídolos... “onde estão os deuses, que você fabricou para si? Levantem no tempo de sua aflição” (Jeremias 2,27-28). Durante o exílio, quando tornavase mais fácil duvidar da potência de Deus e, seguindo os exemplos dos outros povos, aderir ao culto dos ídolos – culto esse sem compromissos – a palavra do profeta é particularmente dura: “Estas estátuas assemelham-se a palmeira e não falam... não podem andar...” (Jeremias 10,1). Juntamente com a crítica contra os falsos deuses, o profeta reafirma sua fé num só Deus: “Eis o que diz o Senhor: Eu sou o primeiro e o último e fora de mim não há outro Deus” (Isaías 44,6). O profeta fala de Deus como um pastor, um amigo, um esposo, o pai do povo. Apesar de ficar muito acima dos homens, Deus está sempre perto deles com sua ternura e amizade. É justamente descobrindo a amizade e bondade de Deus, que se fortalece no profeta a consciência do pecado, da própria infidelidade: “Então eu disse: Ai de mim que estou perdido, porque sou um homem de láRevista da Arquidiocese 72

bios impuros e habito no meio de um povo impuro?” (Isaías 6,5). “As suas iniquidades criaram um abismo entre Deus e vocês, seus pecados os afastaram de Deus” (Isaías 59,2). “Ai de vocês que estão carregados de toda espécie de pecado... Ai de vocês que ao mal chamam de bem e ao bem mal, que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, que tem o amargo por doce e o doce por amargo...” (Isaías 5,18. 20). O comportamento do povo deverá mudar, deverá voltar à fidelidade aos mandamentos, que infelizmente são esquecidos e violados. O comportamento do povo será então: praticar a justiça com os irmãos, relacionar-se com Deus por amor, e não por medo. O profeta Miqueias declara: “Já lhe foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de você: que pratique a justiça, que ame com ternura e que caminhe com humildade diante do seu Deus” (Miqueias, 6,8). c) A verdadeira religião Os profetas mostram ao povo como deve ser a verdadeira religião. A primeira condição é buscar o Senhor: “Eis o que diz o Senhor à casa de Israel: procurem-me e viverão” (Amós 5,4). O que significa na prática procurar


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o Senhor? “... Procurem a justiça, a mansidão, para ver se podem achar abrigo no dia do furor do Senhor” (Safonias 2,3). “Eu lhe mostrarei, ó homem, o que o Senhor requer de você: é que pratique a justiça, que ame a misericórdia e que ande solícito com o serviço do seu Deus” (Miqueias 6,8). “Aprendam a fazer o bem, procurem o que é justo, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão e à viúva” (Isaías 1,17). O que Deus quer é uma religião verdadeiramente vivida como condição indispensável para a nova aliança: “Eu farei nova aliança com a casa de Israel e Judá... imprimirei a minha lei nas suas entranhas, escrevê-las-ei nos seus corações, serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31,31-33). Os grandes, apoiados pelos sacerdotes, reduziam a religião a ritos e cultos. O povo ia ao templo, oferecia sacrifícios, rezava, mas o coração não acompanhava esses atos, a vida de todos os dias continuava cheia de roubos, ódio, injustiça, aproveitamento dos pequenos, dos fracos. Os profetas denunciam essa hipocrisia religiosa, lembram que “religião” deve abraçar a vida toda, deve orientar o comportamento dos homens no templo, em casa, no re-

lacionamento com os outros... “Pois é o amor que eu quero e não os sacrifícios: à vontade de Deus e não o culto” (Oseias 6,6). “De que me servem suas numerosas vítimas? – diz o Senhor – já estou farto delas... aborreço suas festas... mesmo que vocês multipliquem suas orações, não as atenderei, porque suas mãos estão cheias de sangue... tirem a malícia de seus pensamentos, parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem, procurem o que é justo, socorram o oprimido” (Isaías – 1,11-17). A prática da justiça, o seguir fielmente a orientação nos mandamentos, a mudança contínua de vida, é a verdadeira religião, e torna-se uma garantia de proteção de Deus, garantia de uma vida feliz para o povo. d) Deus tem confiança no seu povo O profeta é um homem otimista. Ele acredita no cumprimento das promessas de Deus. O castigo, o mal que chega para o povo com exílio, com derrotas, não é a última palavra de Deus. Apesar de todas as traições do povo, Deus não quer sua derrota. “Detestem o mal, amem o bem e restabeleçam a justiça nos tribunais, talvez o Senhor Deus terá compaixão da minoria do povo de Israel” (Amós 5,15). Revista da Arquidiocese 73


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Esta minoria, o resto de Israel, é o grupo marginalizado, dos pequenos, que sobrevive depois de cada derrota, isto é, os que ficaram, em Israel depois da queda de Samaria, os que foram exilados na Babilônia depois da queda de Jerusalém, a comunidade que voltou para Israel depois do exílio. Esta minoria que escapa do perigo será a semente para um novo povo: “... com os coxos, com os marginalizados, formarei uma nação forte” (Miqueias 4,7). Esta minoria dará origem a uma época de prosperidade. Os dispersos de Israel voltarão para a terra que se tornará próspera. A prosperidade será total e não só espiritual. O povo de Israel, que vivia da agricultura, encontrará uma terra rica. O povo se libertará finalmente da opressão, acabando com todos os seus inimigos. “Então a chuva cairá sobre semente que vocês terão semeado; o pão, que a terra produzirá, será abundante e substancioso; naquele dia o gado terá um imenso pasto. O Senhor atará as chagas do povo e curará as marcas produzidas pelo chicote” (Isaías 30,23-36). “Não existirá mais o opressor, desaparecerá aquele que humilha os pequenos, serão destruídos todos os que tramam para fazer a iniquidade, aqueRevista da Arquidiocese 74

les que com a palavra tornam os outros culpados, aqueles que compram os juízes” (Isaías 11,9). A imagem da prosperidade, do bem-estar é completada com a perspectiva da paz. “Transformarão as espadas em arados, as lanças em foices; um povo não mais levantará a espada contra outro povo, nem daí por diante treinarão para a guerra” (Isaías 2,4). Esta minoria, o resto de Israel, dará origem a um povo novo, formado pelos pobres, pelos marginalizados. No novo testamento encontramos esta minoria nos pastores que acolhem o Cristo, em Ana e Simeão, e em Maria. “Porque o Senhor valorizou a pobreza de sua serva” (Lc 1,48). Minoria são também os apóstolos que darão origem ao povo-igreja. Porém é em Cristo que se concretiza essa minoria, essa semente de novo povo. É em Cristo que se realizará a visão do profeta Isaías: “Do povo hebreu nascerá um homem. Nele repousará o Espírito do Senhor, com sabedoria, fortaleza entendimento e compreensão do Senhor. Não julgará conforme as aparências, nem tomará decisões pelo que ouve dizer. Fará justiça aos pobres tomando a defesa dos oprimidos. A sua palavra espancará o


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violento e matará o opressor. Ele será justo e fiel. Acabará com a opressão do homem pelo homem, e então haverá verdadeira fraternidade na terra” (Isaías 11,1-9). e) Deus quer uma sociedade diferente Os profetas veem claro qual é o plano de Deus, o mundo que Deus quer construir. Tendo essa clareza, eles querem construir uma sociedade humana, justa, diferente daquela em que estavam vivendo. Por isso eles são os defensores dos direitos fundamentais do homem: direito às garantias pessoais (como o salário) e a um governo que defenda os interesses dos pobres. Por isso eles têm palavras de fogo contra os grandes, os poderosos que oprimem os pobres, que enriquecem com esforço de seus trabalhadores. “Ouçam estas palavras, vacas gordas... vocês que oprimem os fracos e esmagam os pobres... dias virão mais infelizes para vocês” (Amós 4,1-4). Numa época de grande crescimento econômico, os profetas descobrem e denunciam a origem das riquezas... “Pois todos são adúlteros, um bando de traidores. Mentiras e não verdades dominam o país. Passaram crime a ou-

tro, e não me conheceram... o irmão só pensa em perder seu irmão, e todo amigo anda com falsidade. Cada um deles ri de seu próximo... acostumaram-se a dizer mentiras... cada fala de paz com seu próximo, mas o íntimo prepara-lhe uma armadilha” (Jeremias 9,1-8). Desse jeito Acab consegue ampliar sua propriedade. Elias ao saber do fato enfrenta o rei com palavras de fogo: “No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o sangue seu... Todo membro da família de Acab que morrer na cidade, será devorado pelos cães, e o que morrer no campo, será comido pelas aves do céu” (1 Reis 21,19-24). Condenados são também os juízes que prestigiam os opressores, negando os direitos dos pobres. São condenados os ricos que vivem no luxo fazendo grandes festas... fruto da opressão dos pobres. “Escutem vocês que pisam os pobres, dizendo: aproveitemos do dia da festa para abrirmos nossos depósitos e deste jeito, cobrar mais caro, alterando as medidas e os pesos, falseando a balança para roubar, compraremos os necessitados por dinheiro e os pobres por um par de sandálias. Venderemos até a comida estragada”. (Amós 8,4-6). Os profetas condenam também a grilagem da terra. Revista da Arquidiocese 75


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Estamos no tempo do profeta Elias. O rei Acab quer ampliar sua chácara e procura convencer o vizinho, Nabot, com dinheiro e promessas, para que lhe entregue o terreno. Nabot responde negativamente. Então a rainha Jezabel faz com que o pobre posseiro seja acusado injustamente por duas pessoas. “Vieram então os dois miseráveis, colocaram-se diante de Nabot e fizeram publicamente a seguinte deposição: Nabot blasfemou contra Deus e contra o rei. Depois disto levaram-se para fora da cidade, onde foi apedrejado e morreu” (1 Reis 21,13). Os profetas reprovam em nome de Deus a vida pervertida das cidades, as injustiças sociais, a falsa segurança que os homens procuram encontrar em cultos onde a pessoa não se compromete... “Eu aborreço e rejeito suas festas; não me é agradável o cheiro de seus sacrifícios” (Amós 5,21). Diante destas desordens, diante dessa maneira de viver, o profeta alerta para outros valores que farão daquele um povo novo. Só a procura da justiça, da igualdade, da solidariedade com os mais fracos, do amor, da verdade e da paz, poderá criar o homem novo. A mensagem de Deus que chega ao povo pelos profetas é uma menRevista da Arquidiocese 76

sagem de justiça, verdade, solidariedade, amor. Este homem novo se realizará numa sociedade nova, livre de toda opressão. “Eu lhe darei um novo coração, e derramarei neles um novo espírito, e tirarei deles o coração de pedra e darlhes-ei um coração de carne, para que andem nos meus preceitos e guardem as minhas leis e as cumpram; e para que sejam o meu povo e eu seja o seu Deus” (Ezequiel 11,19-20). Será a “minoria” de pobres, oprimidos, exilados, marginalizados a construir essa sociedade nova. É em Cristo que se realizará plenamente o homem novo. O homem novo não é um indivíduo, mas todo o povo. Deste jeito o profeta anuncia um ideal de igualdade e fraternidade e luta para instaurar na sociedade de amanhã um clima verdadeiramente humano em que pudessem viver todos os filhos de Deus.

O Profeta se compromete

O profeta não fica na janela a observar os acontecimentos. Ele não se limita a falar sobre as coisas que se passam, a transmitir a palavra de Deus. Ele se compromete com a Palavra de Deus. Ele se compromete com a luta


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do povo. Ele está presente nos acontecimentos mais importantes da história social e política do povo. O fato de ser homem de Deus, de anunciar sua mensagem, faz com que o profeta participe ativamente das lutas do povo. Por sua participação ativa, o profeta é condenado, perseguido, marginalizado... Um exemplo disso é o profeta Jeremias. Ele ficou sempre presente nos acontecimentos de seu tempo num período trágico que terminou com a queda do reino de Judá. Ele pregou, ameaçou, anunciou de antemão a ruína de Israel. Alertou os reis a não se ligarem a nações estrangeiras. Ele queria que o povo confiasse mais em si e no seu Deus. Chegou a ser acusado de subversão pelos militares. Foi perseguido e foi preso. A história de Jeremias se repete na história de muitos profetas. Na carta aos Hebreus encontramos o elogio destas testemunhas: “Outros ainda sofreram insultos, foram açoitados, acorrentados, aprisionados. Foram apedrejados, serrados (este suplício teria sido infligido ao profeta Isaías pelo rei Manasses) e queimados. Morreram assassinados com golpes de espada. Levaram vida errante, vestidos com peles de carneiros ou couro de

cabra; oprimidos, maltratados, sofreram privações. Eles, de quem o mundo não era digno, vagueavam pelos desertos e pelas montanhas, pelas grutas e cavernas da terra” (Hebreus 11,36-38). Por tudo aquilo que descobrimos até agora, podemos dizer que o profeta faz parte de um movimento que procura manter viva a esperança da libertação. Procura manter viva a palavras de Deus luta para que ela não fique esvaziada e abstrata. Convida constantemente à fidelidade, à justiça e à luta para mudar a situação. Junto com a pequena minoria, o profeta é o agitador, o perturbador do povo – sobretudo de seus dirigentes – quer ficar tranquilo. O profeta denuncia o pecado do povo. Por isso, porque incomoda, o profeta é combatido por todos e, sobretudo pelos grandes, pelos ricos, pelos poderosos... O profeta quer que surja uma nova religião, a religião libertadora. Uma religião que se fundamenta na justiça, na santidade – isto é no conhecimento verdadeiro de Deus – na paz, na alegria, no amor, na bondade; uma religião preocupada em construir um mundo novo, conforme a vontade de Deus. Revista da Arquidiocese 77


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O Profeta hoje em dia

Depois de termos lembrado o que foram os antigos profetas, o que fizeram, podemos afirmar que há profetas hoje em dia! Já o profeta Joel dizia: “Naqueles dias e naqueles tempos espalhei o meu espírito sobre todos” (2,28-29). São Paulo lembra que: “na Igreja, Deus pôs tudo no lugar certo: em primeiro lugar, os apóstolos; em segundo os profetas; em terceiro os mestres da Igreja” (1 Coríntios 12,28). Os cristãos, a comunidade cristã, são profetas, porque neles foi derramado o Espírito de Deus que os torna capazes de divulgar a vontade de Deus entre os homens, para testemunhar e transmitir sua palavra. Os cristãos sabem que a Palavra de Deus não está guardada num livro, ela vive nos acontecimentos. Os cristãos, reunidos em comunidade, iluminados pela Bíblia, orientados pelos apóstolos, procuram descobrir nos acontecimentos qual a vontade de Deus, qual a mensagem que Deus quer transmitir. É desse jeito que os cristãos são profetas. O cristão é profeta quando procura transmitir a Palavra de Deus no bairro, no trabalho. O cristão é profeta quando, por Revista da Arquidiocese 78

exemplo, unindo-se aos vizinhos, debatendo com eles e sendo iluminado pela Bíblia, descobre que deve fazer um abaixo-assinado para a melhoria do bairro ou para erigir um salário mais justo. É profeta quando se une com os vizinhos para construir a casa de uma viúva ou de um companheiro de trabalho. É profeta quando se une com os companheiros para exigir justiça no trabalho. Ele é profeta porque consegue ler nos acontecimentos a vontade de Deus. Ele é profeta porque luta para construir um mundo novo. Ele é profeta porque tem certeza na frente, a história na mão, aprendendo e ensinando uma nova lição. Os profetas criticam e questionam. Criticam e questionam a Igreja, porque a Igreja corre sempre o risco de acomodar-se, achar que tudo está certo, que nada deve ser mudado, melhorado. Durante séculos na Igreja a Missa foi celebrada em latim. Ninguém entendia... houve profetas que se levantaram e criticaram... não foram logo escutados. Alguns foram combatidos, mas no fim foram eles que venceram. Durante séculos a Igreja apoiou os ricos, os exploradores. Houve, porém sempre profetas que


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questionaram tudo isso... O profeta questiona sempre o modo de agir e pensar que está havendo na Igreja. O profeta, porém, não critica só a Igreja, o que acontece dentro da Igreja. Ele critica tudo aquilo que é contra o plano de Deus. Denuncia o racismo, a exploração, a falta de respeito pela vida, as precárias condições de vida. A comunidade cristã deverá se unir para olhar o que se passa ao redor, para descobrir se está de acordo com o plano de Deus. E se não está de acordo, a comunidade cristã deverá ser profeta, criticará não só com palavras, mas unirá seus esforços para acabar com aquilo que está errado para construir algo diferente, novo. Como poderemos reconhecer os profetas? Como poderemos reconhecer se a comunidade cristã é profeta? Reconheceremos os profetas pela humildade, pela coerência de sua vida, pelas obras de justiça e paz que fazem e que ensinam a fazer. Os profetas procuram promover a todos e lutam contra o desejo de poder ou de dinheiro. Os profetas

têm compromisso ativo de promover e libertar os homens de todas as prisões, visando construir um mundo novo, um mundo mais justo. Nesta construção teremos a colaboração não só dos católicos, mas dos crentes, dos ateus... porque o Espírito do Senhor suscita profetas também fora dos limites da Igreja. Justamente porque promove a justiça, a igualdade, o profeta não é aceito pelos poderosos, por todos aqueles que não querem mudar nada, que estão interessados em que as coisas continuem do jeito que estão. Muitas vezes os profetas são perseguidos, sempre marginalizados pelos poderosos. Se alguém é muito estimado e valorizado pelos poderosos, significa que não é profeta. Repete-se então o drama de todos os antigos profetas, para serem fiéis à palavra de Deus, enfrentam lutas, oposições, perseguições. Todos nós, então somos chamados a ser profetas. Qual será a nossa resposta? Qual será a nossa atuação? Revista da Arquidiocese Ano – XXII – n. 4 – abril 1979

Revista da Arquidiocese 79


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União Nacional dos Estudantes

Dom Fernando, neste artigo publicado em junho de 1979, manifesta seu apoio a iniciativas estudantis e faz alguns lembretes aos universitários

Recebi a visita de alguns jovens universitários da Universidade Federal de Goiás que solicitaram o apoio da Arquidiocese ao movimento que se processa em todo o País, visando o ressurgimento da UNE. Simpatizei com a maneira simples e franca como me falaram, sem demonstrar sinais de contestação às instituições. Pretendem, segundo eles, a união dos estudantes para a defesa de seus direitos, melhoria das condições do ensino universitário e participação no estudo dos problemas nacionais.

Respondi que, em princípio, o pensamento da Igreja coincidia com esses objetivos. Tentaria dirigir-lhes uma palavra de incentivo relembrando alguns pontos do próprio magistério da Igreja, referente à juventude e à universidade. Aproveitei a oportunidade para sugerir que a nova UNE atualize seus métodos e não se afaste dos objetivos almejados, não só pelos universitários, como por todos os que depositam neles as melhores esperanças da sociedade nova que se está a construir. Revista da Arquidiocese 81


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Citei certos métodos envelhecidos e contraproducentes, como o de pichar os edifícios, que só servem para criar suspeitas, enfraquecendo o movimento. Não estamos mais na década dos anos 60 e ninguém quer reviver aqueles dias tumultuados. O próprio governo dá a impressão de estar convencido da fragilidade das armas e do arbítrio, sobretudo no campo das ideias e da educação. Se a nova geração deseja merecer o apoio dos valores deste país, propomos aos universitários em geral alguns lembretes: 1. Que o universitário seja sujeito (e não objeto) do seu próprio desenvolvimento e também se coloque a serviço do desenvolvimento integral (e não meramente econômico) da comunidade, (cf. Puebla, 834). 2. Todo homem, como pessoa, tem o direito inalienável a uma educação que corresponda ao seu próprio fim, caráter, sexo, e que se adapte à cultura e tradições nacionais. Ao mesmo tempo, se abra à convivência fraterna com outros povos, favorecendo a união verdadeira e a paz na terra (Concílio, GE, 1). 3. A universidade deve formar verdadeiros líderes construtores de uma nova sociedade. Isso implica por parte da Igreja, dar a conhecer Revista da Arquidiocese 82

a mensagem do Evangelho nesse ambiente, e fazê-lo de maneira eficaz respeitando sempre a liberdade acadêmica (cf. Puebla 858). Isto significa que não é lícito, em qualquer empreendimento humano, abstrair de Deus que se revela em Jesus Cristo, único Senhor e mestre (Mt 23,8). Como conseguir dos universitários objetivos tão altos e dignificantes, se não dispõem de uma organização capaz de congregá-los e impulsioná-los, em todo o País? Um dia, faz mais de 10 anos, um militar de alta patente, veio ter comigo, preocupado com os movimentos estudantis da época. Revelou-me que muitos universitários faziam curso na Rússia, na China, em Cuba. Pretendia com estes argumentos justificar a guerra contra os estudantes e quiçá sugerir uma atitude adesista da Igreja à ação adotada pelo governo. Fiz-lhe, apenas, estas considerações: Não seremos nós os maiores responsáveis por esta situação? Será mesmo que só o comunismo tenha capacidade de motivar os estudantes para que se organizem com entusiasmo eficiência? Em seguida, procurei mostrar-lhe em que consistia a missão da Igreja que condena o comunismo, mas não


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tem medo dele, nem dos que abusam desse nome para criar suspeitas e até promover agressões contra os que se dedicam com fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. Com relação aos estudantes, a atitude da Igreja não pode ser de guerra contra os universitários, mas de confiança e estímulo, para que eles mesmos assumam a sua promoção e busquem os caminhos que lhes pareçam justos e atualizados para a construção do futuro condizente com nossa cultura e nossas tradições cristãs. O ilustre militar não insistiu. Compreendi que ele não tinha condições de decidir nada, face ao regime a que estava submisso. A verdade é que muita coisa mudou daí para cá. Os universitários cresceram não apenas em número, como em consciência do seu valor e da sua dignidade. O atual governo dá sinais promissores, enquanto parece admitir caminhos mais abertos. Prefiro dar-lhe um crédito de confiança. Reconheçamos, porém, que é chegada hora de acreditar também nos estudantes. Impedir, com pressões psicológicas ou medidas de represália, as justas aspirações de se unirem para elevar o nível das Universidades e de participarem na busca de soluções dos problemas

nacionais seria uma atitude injustificável e temerária. Permitam relembrar o que disse na UFG, no dia 22/12/1977: “Sonho, como todos os que reconhecem ser homem ‘centro e ponto culminante de todas as coisas’ (GS, 12), com a Universidade integrada ao povo, participando de sua vida e fazendo com que o povo também participe de algum modo, da vida da Universidade. Esse intercâmbio de experiências, realizados com dedicação e amor, quebrará barreiras e preconceitos, revelará a inteligência e a capacidade criadora do homem simples e ensinará muita coisa que os laboratórios mais sofisticados não sabem nem podem descobrir” (Cf. Revista da Arquidiocese, janeiro 1978, pág. 60). Não vejo razão para o governo desconfiar dos estudantes ou oporse ao ressurgimento da UNE. Será por causa da sigla, para mim altamente expressiva? Por que ver fantasmas nas sombras do passado? O atual ministro da Educação, Prof. Eduardo Portella, merece apoio e confiança. Sua cultura e seus pronunciamentos revelam o educador emérito, conhecedor dos problemas estudantis. Saberá, por certo, superar os obstáculos e Revista da Arquidiocese 83


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Acervo Arquidiocese de Goiânia

oferecer ao mundo universitário e ao país a solução capaz de revigorar o ensino superior. E o conseguirá, na medida em que decidir-se a agir, não tanto para, mas com os estudantes unidos e organizados, em nível nacional. Para tanto, é necessário que os estudantes sejam coerentes com os elevados objetivos a que se propõem. Da parte da Igreja, é-nos grato reafirmar o que disse João Paulo II: “A Igreja é chamada a uma constante renovação de si mesma, ou seja, a um constante rejuvenescimento. Este serviço humilde deve fazer com que os pastores e os adultos da Igreja mudem qualquer atitude de desconfiança ou de incoerência

Revista da Arquidiocese 84

para com os jovens”. (cf. Puebla, 940) Vamos, pois, universitários de Goiás e do Brasil, unidos! Com firmeza e perseverança, sem ressentimentos ou preconceitos, sem medo e sem violência, que se restaure, não apenas a UNE, como sobretudo o espírito de comunhão e participação que deve animar também a Universidade, polo estratégico e dinâmico da civilização nova que vem surgindo (cf. terceira parte do documento de Puebla). Goiânia, 18 de maio de 1979. Revista da Arquidiocese Ano XXII – n. 6 – junho de 1979


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A verdade – condição para evitar a violência Atentados praticamente simultâneos contra bispos de vigorosa postura pastoral são apontados por Dom Fernando como parte de uma represália à Igreja, trama “bem urdida, visando, inutilmente, atemorizá-la”

Não deixa de impressionar o fato de quatro atentados contra a Igreja e pessoas da Igreja, no espaço de onze dias. No dia 20 de dezembro, uma bomba destruiu o altar do S.S. Sacramento, em Nova Iguaçu (RJ); no dia 22 é assaltada a residência de Dom Luciano Mendes, em São Paulo (SP); no dia 25 a casa de Dom Estevão Avelar é violada em Uberlândia (MG) e no dia 31 do mesmo mês, o Sr. Cardeal de Porto Alegre (RS), Dom Vicente Cherer, é barbaramente torturado,

sequestrado e deixado em lugar deserto, como fizeram com Dom Adriano Hypólito, bispo de Nova Iguaçu, há cerca de três anos. A impunidade desses crimes tem sido uma constante, até agora. Se considerarmos a situação global do País, esses fatos são cada dia mais frequentes contra pessoas de todas as categorias sociais. Não se pode, só por isso, concluir que haja algo organizado especificamente contra a Igreja. Se considerarmos, porém, os aspectos “coincidentes” nos crimes Revista da Arquidiocese 85


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cometidos contra lugares e pessoas da Igreja, praticamente em todos Estados da Federação, há indícios de que se trata de uma trama bem urdida, visando inutilmente, atemorizá-la. Dom Adriano, Dom Luciano Mendes, Dom Estêvão Avelar, Dom Vicente Scherer, são bispos colocados em postos de relevo e conhecido pela vigorosa atuação pastoral, destemidos denunciadores e vítimas da violência e do terrorismo. Resta saber a quem interessa o terror. Não se trata, simplesmente, de atribuí-los ao extremismo da direita ou da esquerda. Deve haver causas mais profundas para haver extremismos. No caso, ambos são mestres no uso de armas, do medo, dos assaltos e do terror. E o fazem uns contra os outros e até uns em nome dos outros, para criar confusão e confundir pistas. Não basta que haja assaltos ou sequestros para atribuí-los a direitistas e esquerdistas. Nada impede que elementos da direita, usando o nome de cristão, destruam um altar do Santíssimo Sacramento e atirem no chão as hóstias consagradas, ou elementos comunistas ofereçam flores a um cardeal e se declarem aliados da Igreja Católica. Revista da Arquidiocese 86

Tudo tem acontecido em favor da gigantesca Babel dos nossos dias. Por toda parte surgem apelos para acabar com a violência, tanto do terrorismo, como da represália oficial. Uma das esperanças deveria ser a ação enérgica, sem radicalismos, do próprio Governo. Infelizmente, é o próprio Governo que dá a impressão de amparar-se mais nas armas sofisticadas do que na força moral que deve vestir a autoridade. A raiz da violência está na violação dos direitos da pessoa e das instituições. A vigorosa Mensagem de João Paulo II, no Dia Mundial da Paz, relembra que a Verdade é a força da Paz e que a “Não-Verdade” não é apenas a mentira, embora a violência esteja “embebida na mentira”. Consiste também na hipocrisia, nos conchavos políticos, nas estratégias premeditadas para ocultar os verdadeiros intentos dos que deixam de cumprir o dever ou de denunciar a injustiça contra o bem comum. A situação em que se abre a década dos anos 1980 apresenta-se trágica e alarmante, se nos deixamos abater pela onda de insatisfação, de terror, de desrespeito. Compete não somente à Igreja, mas a todas as pessoas e instituições,


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tomar consciência da gravidade dessas ocorrências e juntar os esforços para ir às causas, às raízes desses males. Antes de tudo, é necessário que os nossos governantes não se radicalizem, não teimem em conservar ou aprimorar os modelos e métodos que estão em vigor. Qualquer coisa deve estar errada no governo que pretende evitar os males com medidas descabidas e, evidentemente, ineficazes. Como se pode conter o incrível aumento do custo de vida, se o governo é o primeiro a aumentar violentamente, desde o preço do combustível, ao preço de uma carta simples que se põe no Correio? O resultado é rebaixar de tal modo o poder aquisitivo de nossa moeda, a ponto de, mesmo com o aumento salarial, não haja mais condições para comprar gêneros de primeira necessidade. Paradoxalmente, até o pobre, que não tem o que comer, levado pela irreprimível e sugestiva propaganda comercial, com as facilidades das prestações e os engodos dos prêmios lotéricos, arriscam o indispensável, na esperança de obter “casa nova com carro na garagem”, certamente pago pelo próprio consumidor. São, a meu ver, crimes contra a economia

popular, vestidos de impunidade, que servem apenas para aumentar a inflação. Se se fizesse uma avaliação criteriosa dessas pequenas e grandes coisas que corroem a economia nacional, talvez se chegasse à conclusão de que há toda uma estrutura política, econômica e social, superada e nociva que envenena a sociedade. As consequências são estas que aí estão afligindo a todos, de uma maneira ou de outra: uns morrem de fome, outros entram em desespero, outros afogam-se irremediavelmente nos seus escrúpulos, frutos das negociatas que os envolvem. Mesmo assim, são muitos os que lutam pacificamente para a restauração da ordem social preconizada pelo Evangelho. No dia em que nos unirmos em defesa da Verdade, sem subterfúgios, com disposição firme e com métodos cristão e eficazes, veremos ressurgir a desejada paz de Cristo, no Reino de Cristo que está no meio de nós e nos conforta com a vitória da Justiça. Goiânia, 5 de janeiro de 1980. Revista da Arquidiocese Ano XXIII – n. 2 fevereiro de 1980 Revista da Arquidiocese 87


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Acervo Arquidiocese de Goiânia

As responsabilidades da Arquidiocese de Goiânia

Em abril de 1958, durante o auge do cenário desenvolvimentista do Brasil, Dom Fernando inicia seu trabalho em Goiânia e estabelece as principais diretrizes de ação na Arquidiocese naquele momento, pedindo a união de todos em prol dos objetivos a ser alcançados

Iniciamos nosso episcopado em Goiânia sob o signo do chamado “desenvolvimento econômico”. O Brasil está sendo sacudido pelo frêmito, já hoje irreprimível, do progresso, da expansão e da riqueza. Procura, por isso, o seu centro de equilíbrio para expandir-se harmoniosamente. Goiás, com sua privilegiada situação geográfica e suas imensas

reservas naturais, sente que chegou a hora de realizar sua vocação. Tudo é novo e tudo toma proporções imensas nesse velho celeiro do ouro e das esmeraldas. A Igreja, também agora e aqui, deve cumprir sua missão de mestra e condutora do povo brasileiro, como soube cumpri-la em todos os momentos decisivos de nossa história. Revista da Arquidiocese 89


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Quem não se lembra do fervor dos padres franciscanos celebrando a primeira Missa nas terras de Vera Cruz? Ou do zelo dos padres da Companhia de Jesus, ensinando o Brasil a ler, a rezar e a cultivar os campos? Ou da ação desassombrada dos nossos bispos e sacerdotes na luta contra o herege invasor, contra a ganância da Corte, contra os inimigos do altar e do trono, bem como em favor da independência da Pátria e da libertação dos escravos? Como ontem, deve-se ao apostolado humilde e heroico do sacerdote católico, a obra civilizadora dos nossas sertões. Hoje, quando Goiás faz brotar do seu seio a futura capital do Brasil, é necessário que seus padres e seus filhos fiéis à Santa Igreja Católica continuem a obra do passado e se antecipem às exigências do futuro. É por essa razão que não nos cansamos de apelar para a vossa compreensão e generosidade. Muito temos a fazer, para que não nos culpem os vindouros de chegarmos atrasados. Nesta primeira Mensagem de Páscoa que vos dirigimos, convocamosvos a reunir todos os vossos esforços sobretudo nesses três objetivos: 1. União das forças católicas Para dissipar as trevas da confusão Revista da Arquidiocese 90

e coordenar a todas os objetivos comuns em defesa da fé católica e dos bons costumes. Na Pastoral Coletiva dos Bispos desta província eclesiástica, de dezembro último, estão normas claras e seguras para ação coordenada e eficiente. 2. Construção do nosso Seminário Maior Esta é, sem dúvida, a maior e mais urgente necessidade da Arquidiocese. Precisamos de padres. Nossas paróquias não podem continuar privadas da assistência religiosa. Deveis considerar com especial empenho esse nosso angustioso apelo. Nossa maior alegria seria, pois, iniciar, sem perda de tempo, a construção do majestoso edifício destinado à formação do clero goiano. Com as orações e os generosos auxílios da família católica e das organizações religiosas da Arquidiocese, poderíamos marcar a passagem dos bispos do Brasil por esta Capital, em julho próximo, com a pedra fundamental do Seminário Maior de Goiânia. Fica a sugestão, como um convite à vossa fé. 3. Universidade Católica Nas páginas acima, pomos em relevo a responsabilidade da Igreja


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e dos católicos, na hora presente. Se queremos ser dignos da missão que nos foi confiada, devemos intensificar o apostolado do pensamento, isto é, encher de ideias nobres e elevadas a inteligência e o coração da juventude. É este o papel da Universidade. Por elas, a Igreja salvou o mundo do barbarismo. Por ela, bem orientada, centro de cultura e irradiação de virtudes, a Igreja salvará novamente o mundo do materialismo contemporâneo, fazendo triunfar a verdadeira ciência e os autênticos valores do espírito. Roguemos ao Senhor Jesus, nesse dia de seu triunfo, que ilumine a inteligência dos mestre e dos alunos de nossos estabelecimentos de ensino superior, para que, em breve, se abram as portas da Universidade Católica do Brasil Central, nesta formosa e católica cidade de Goiânia. Por fim, temos a alegria de comunicar-vos oficialmente que, de 3 a 11 de julho próximo, estarão reunidos, nesta capital, os eminentíssimos senhores cardeais, os excelentíssimos e reverendíssimos senhores arcebispos e prelados do Brasil e mais o excelentíssimo e reverendíssimo senhor núncio apostólico. Três objetivos congregam o nosso episcopado, em Goiânia: 1. Retiro Espiritual dos Bispos,

de 3 a 6 de julho; 2. Visita dos bispos a Brasília, no dia 7 de julho; 3. Reunião geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 8 a 10 de julho. Para todos, esta visita dos pastores da Igreja significa uma grande graça e uma bênção, elevada honra e distinção para Goiânia, feliz oportunidade de levar o nome de Goiás e a notícia de seu progresso e de suas imensas possibilidades a todos os recantos da Pátria. Devemos, pois, estar à altura do grandioso acontecimento. Graças a Deus, têm sido numerosas e confortadoras as demonstrações de júbilo que nos chegam de todas as classes e instituições, e unânime tem sido a preocupação de prestarmos aos ilustres visitantes as mais expressivas homenagens de nossa hospitalidade e de nosso reconhecimento. O excelentíssimo senhor governador do Estado, num gesto de compreensão de suas altas funções e de simpática sintonização com o povo que dirige, não somente pôs à disposição da Arquidiocese o prédio para hospedagem dos bispos, como tem-se empenhado, com todos os seus ilustres secretários de governo, no sentido de proporcionar a melhor acolhida à hierarquia eclesiástica do Brasil. Revista da Arquidiocese 91


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Somos gratos a instituições como o IBGE, à imprensa falada e escrita, às instituições de classes e às excelentíssimas famílias que, num gesto de alta educação cívica e religiosa, têm oferecido, generosamente, sua valiosa colaboração. Ao caríssimo clero secular e regular e às prezadas irmãs religiosas de todas as congregações, manifestamos nosso particular agradecimento pela inestimável ajuda e pelos incansáveis trabalhos a que se têm dedicado, para que nada falte aos venerandos pastores da Igreja. Convidamos, desde já, os Poderes constituídos – o Executivo, o Legislativo, o Judiciário – com seus diferentes órgãos, as Forças Armadas, as instituições sociais, as excelentíssimas famílias, o clero arquidiocesano, as ordens e congregações religiosas, Ação Católica, associações e obras camponesas, responsáveis pelas empresas comerciais e industriais, e o povo em geral, para a soleníssima cerimônia de encerramento da Reunião Geral dos Bispos, no dia 11 de julho, em que, às 9 horas, na Catedral Metropolitana, será celebrado o pontifical de Ação de Graças. Será esta a única cerimônia programada coma participação do povo, naqueles dias de oração e de Revista da Arquidiocese 92

estudo. Por isso mesmo, devemos emprestar-lhe o melhor de nosso entusiasmo e de nossa fé. Como seriamos felizes, se, naquele dia, pudéssemos apresentar, devidamente aparelhada, pelo menos esta capela-mor de nossa Catedral em construção! Com estas palavras de fervor e esses planos de ação, queremos manifestar-vos nossos propósitos de bem servir à comunidade arquidiocesana e estreitar, cada vez mais, os laços que devem unir os fiéis ao seu pastor, e o pastor aos fiéis que, por disposição divina, lhe foram confiados. É no dia da Páscoa da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo que se concentram todas as lutas e todas as vitórias da Igreja. Por isso, escolhemos este dia para externar-vos as nossas esperanças e pedir-vos a vossa colaboração para a tarefa divina de consolidar e difundir o Reino de Deus, nesta amada Arquidiocese de Goiânia. Com votos de santas e felizes festas pascais para as vossas almas, para os vossos lares e para os vossos trabalhos, vamos conceder-vos, em nome do Vigário de Cristo, o Santo Padre Pio XII, a bênção papal. Cristo, nossa Páscoa, nos conceda a sua paz!


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“Hora de equilíbrio e coragem” Às vésperas do golpe de 1964, o arcebispo fala, em sua mensagem de Páscoa, sobre o momento de mudança por que passa o País e o mundo, a partir de uma ênfase sobre o papel do leigo na construção da justiça e da fraternidade

Coube a esta geração assistir à mudança social na América Latina. Assistimo-la não apenas como espectadores, mas sobretudo como protagonistas de uma evolução que altera fundamentalmente a sociedade e a cultura dos povos em desenvolvimento. É o mundo inteiro que se transforma, graças ao avanço prodigioso da ciência e da técnica que proporcionou à humanidade novos dados para o conhecimento do universo e novos condicionamentos para a vida do homem nesta terra. Mas o fenômeno se torna agu-

do e delicado no continente latinoamericano, sobretudo no Brasil. Qual a razão dessa mudança? Será ela produzida por forças ou elementos de fora, ou será um processo que vem de dentro, como uma exigência necessária e inevitável, para que possam subsistir a sociedade e a cultura dos povos? Não temos dúvida em afirmar que a mudança social que ora se processa é muito profunda para ser causada apenas por forças ou elementos de fora. É orgânica, vital, irrevogável. Um corpo estranho e Revista da Arquidiocese 93


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nocivo, que entra no organismo vivo, sofrerá a ação enérgica de todas as forças conjuntas daquele organismo, até ser expelido. No caso da América Latina, não se trata, propriamente, de algum “corpo estranho”, mas de uma “situação de fato” que, no correr do tempo, produziu um tal desequilíbrio social que, hoje, aquela “situação de fato” se torna insustentável, não por causa de fatores externos (que também existem e atuam eficazmente), mas por uma questão de sobrevivência do homem e da sociedade.

Situação brasileira

Analisemos, para exemplo, o que acontece com a população do Brasil. Setenta por cento do povo brasileiro vivem à margem da vida social, política, econômica e cultural do País. Não têm nenhuma participação no poder, lutam economicamente para conseguir apenas o necessário à subsistência e continuam na área do analfabetismo. São, por conseguinte, populações marginais em relação ao desenvolvimento da Nação. Aconteceu, porém, e não podia deixar de acontecer, que esses 70% de marginais em relação ao resto do País acabaram criando o seu “mundo”, a sua própria cultura, sem Revista da Arquidiocese 94

quase relações com o exterior e , praticamente, sem merecer a menor consideração da minoria restante que decide os destinos da vida nacional. Se muitos se deixaram acomodar no conformismo da miséria, a maioria continuou alimentando a esperança de melhores dias, com a coragem, a persistência, o bom humor, a inteligência operosa e criadora que caracterizam o nosso homem do campo. Prova disto é a extraordinária manifestação dos nobres anseios da alma popular, traduzida na poesia, na arte, na música folclórica.

Meios de comunicação

Eis que, quase repentinamente, dois fatores preponderantes atingem as massas rurais: o extraordinário crescimento demográfico e a incrível facilidade de comunicações. O primeiro aproximou os camponeses, em muitas áreas do país, pela densidade populacional por quilômetro quadrado; o segundo os fez entrar em comunicação com o resto da sociedade. Vale aqui uma referência à epopeia dos caminhões que cruzam em todas as direções, abrindo estradas, cortando as matas, ultrapassando os rios, antecipando-se à ação do governo e aguçando a inteligência dos técnicos. Outra menção honrosa


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se deve ao avião pioneiro que encurtou as distancias do Centro-Oeste e à incomparável eficácia do rádio que leva as notícias do mundo ao casebre de cada roceiro. É evidente que esses fatores de desenvolvimento teriam que modificar, como de fato estão modificando, a sociedade rural. O aumento de população trouxe, em consequência, problemas novos e graves. “Para a família rural, o aumento do número de filhos não importa em crescimento de renda. Muito ao contrário. É, com efeito, praticamente impossível aos pequenos proprietários e mais ainda aos trabalhadores rurais aumentar a superfície das terras que eles cultivam, dado o obstáculo muitas vezes intransponível das grandes propriedades territoriais. De outra parte, a ignorância das técnicas que permitem a melhoria do solo ou a luta contra a erosão reduziu progressivamente a produtividade das terras. Em tal conjuntura, quando uma melhoria de situação se torna quase impossível, a reação se manifesta por uma mobilidade geográfica, um êxodo rural enorme para as cidades. Faltando possibilidade de emprego, estas populações rurais vão aumentar as massas marginais urbanas” (Cf. Comunicado

Mensal – n. 137-138 – pg. 52)

“Suprimir não é resolver”

Quanto à facilidade de comunicações, as transformações se tornam ainda mais exigentes, porque atingem não apenas a situação econômica, como as influências de ordem social e cultural. O homem do campo, pelo fato de ser pobre e analfabeto, não deixa de ser homem, com todas as prerrogativas essenciais da pessoa. Hoje, ele entra em contato com os meios mais adiantados: conhece, compara, julga conclui e se dispõe a uma ação mais escalrecida e mais coordenada, em favor dos seus direitos. É inútil pretender esconder o problema ou querer simplificá-lo, “uma vez que suprimir não é resolver”, na expressão de Paulo VI. O mundo rural deseja e exige uma elevação de nível porque está tomando conhecimento de valores, até antes ignorados pelos homens que o constituem. É certo que a transmissão desses valores não se faz de modo uniforme, dependendo das facilidade de comunicação, das condições psicológicas e sobretudo da idade das pessoas que mais facilmente os vão descobrindo. Neste particular, é impressionante observar que cerca de 40% da população Revista da Arquidiocese 95


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latino-americana tem menos de 15 anos. Imagine-se a influência que exerce na juventude rural o “descobrimento” dos valores “novos” que chegam ao campo!

Hora de equilíbrio e coragem

Acontece com as sociedade o que acontece com os rios, na época das enchentes. A água nova vem arrastando tudo o que encontra no caminho e termina perturbando o sossego do rio, que se avoluma e se apressa, até voltar à calma, renovado e perene. Assim é a história das transformações sociais. O que mais importa, nestas horas de transição, é o equilíbrio, o bom senso, a decisão corajosa e firme dos responsáveis pelos destinos da comunidade. Responsáveis, não são apenas os detentores dos Poderes da República, mas também as elites do pensamento e da ação, os chefes de família, os dirigentes das organizações de classe, das instituições e dos setores de influência. Se estes homens se perturbam ou se encastelam nos seus postos, sem a visão clara dos problemas, a sociedade entra em crise aguda pela incapacidade de seus chefes, pela doença da cabeça que enlouquece o corpo todo. Gera-se, então, a perturbação da ordem social, com todas as suas imprevisíveis consequências : confusão nas ideias e consequente Revista da Arquidiocese 96

com o surgimento de religiosidades acomodadas às circunstâncias; expansão econômica desequilibrada, sistemas políticos instáveis...

Responsabilidade dos líderes

E se os chefes, os líderes, os responsáveis não estiverem à altura das realidades novas que se criaram por força da evolução natural? Surgirão, sem dúvida, os falsos líderes, os agitadores, os oportunistas. É esta a hora que estamos vivendo. Nestas circunstâncias, é fácil recordar princípios certos e imutáveis, mas é difícil aplicá-los com isenção de ânimo, quando estão em jogo os nossos interesses ou as nossas posições. É fácil vociferar contra a desordem e a anarquia, mas é difícil ter a coragem de ir até às causas dos desequilíbrios, para extirpá-las. É fácil atribuir todos os males sociais ao comunismo, como se já estivéssemos sob o jugo do totalitarismo vermelho, mas é difícil pôr fim às injustiças sociais, ao egoísmo e à ganância que geram e alimentam o comunismo. É fácil usar e abusar do nome da Igreja, das encíclicas pontifícias e do prestígio das nossas tradições católicas, mas é difícil cumprir os mandamentos de Deus, seguir as diretrizes da hierarquia e sobretudo viver autêntica e plenamente a vida cristã,


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única solução verdadeiramente eficaz para que os homens acertem o caminho que devem seguir.

Divisão e perplexidade

O que vemos é uma Pátria dividida, uma Nação estrangulada. Poderes da República em desarmonia ou em luta aberta e inglória. O capital e o trabalho em antagonismo sistemático e demolidor das energias produtivas. As Forças Armadas divididas e perplexas ante as paixões dos grupos de irmãos que se ameaçam e se odeiam. A própria Igreja, ou melhor dito, bispos, sacerdotes e líderes católicos, dolorosamente, como que arrastados pelas ondas de agitação, desperdiçam forças e energias preciosas. Por outras vezes, a fortaleza do Espírito Santo é substituída pela prudência da carne. Outras vezes, é a emotividade que apaga as luzes da razão e da fé, deixando pastores e rebanhos à mercê das facções em luta, dando a impressão de que a Igreja está comprometida com uns ou com outros. Para onde vamos? No meio da confusão generalizada, da derrocada dos princípios básicos, ou nos entregaremos à tirania do mais ousado, ou teremos que fazer uma revisão séria e sincera do nosso comportamento, em face das realidades

de uma situação social nova.

Solução: o Evangelho

Se nós cristãos não nos dispusermos a levar o fermento do Evangelho ao mundo contemporâneo, a consequência será o caos, a destruição total. O cristianismo é para o mundo o que a alma é para o corpo. Reconheçamos que os nossos anseios de verdade, de justiça e de liberdade não serão satisfeitos, apenas, com os recursos da ciência e da técnica, por mais preciosos que eles seja. Antes, esses recursos, bem orientados, são meios utilíssimos – e hoje indispensáveis – ao nosso aperfeiçoamento espiritual. Mas o que realmente e plenamente satisfaz às nossas aspirações mais íntimas e profundas é o domínio do mundo criado, no sentido de subordiná-lo aos nossos ideais de vida; é a solidariedade entre os homens, compreendida como vivência comunitária; é a união de todos a Deus, Autor do homem e do universo, sem o qual não haverá fraternidade entre os homens, nem subordinação das coisas aos nossos ideais, mas decomposição e morte, pela utilização dos elementos da natureza em função do ódio, da violência e das guerras de extermínio. Ora, o cristão é exatamente aquele que aceitou o Evangelho de Jesus Revista da Arquidiocese 97


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Cristo e se comprometeu a vivê-lo na sua vida particular, familiar, profissional e pública. Se a sociedade vai mal é porque não estamos sendo coerentes com o Evangelho, não obstante nos dizermos cristãos. Tenhamos, pois, a coragem de examinar de frente o magno problema!

Papel do leigo

O Santo Padre Paulo VI, em discurso proferido na Basílica de São Pedro, no dia 3 de janeiro último, expõe de maneira atualizada e magistral qual seja a missão do leigo, na hora presente, isto é, a missão dos cristãos que vivem no mundo, conscientes de sua fé e de suas responsabilidades como membros duma dupla sociedade: a sociedade “Igreja” e a sociedade “Cidade”. Diz o Papa: “Os leigos católicos estão investidos desta função, que se tornou extraordinariamente importante, e, num certo sentido, indispensável: servir de ponte”. Isto quer dizer que é por intermédio dos leigos que a comunidade temporal e profana pode gozar dos benefícios da religião cristã. Não se trata, evidentemente, de favorecer a qualquer forma de domínio da Igreja sobre o mundo, ou qualquer tipo de clericalismo. Bem ao contrário, trata-se de tornar o leigo consRevista da Arquidiocese 98

ciente de “uma capacidade e mesmo uma responsabilidade que lhe são próprias” para colocar a vida religiosa em comunhão com a vida profana. Par isto, o Santo Padre põe em relevo algumas normas que merecem a maior atenção: 1º – “O fiel não pode esquecer que é deste mundo, exatamente para permanecer membro participante da comunhão do Corpo Místico, bem como o homem deste mundo não pode suprimir toda lembrança e todo engajamento da consciência cristã, a fim de ter a liberdade de se consagrar a fundo às exigências de sua profissão profana”. 2º – O leigo deve levar o seu testemunho cristão ao terreno de sua profissão; e levar o seu testemunho profano ao terreno da vida católica. “Esta última afirmação, diz o Papa, pode parecer nova e ousada, enquanto que o testemunho cristão levado ao campo profano é uma afirmação muitas vezes, e magnificamente, ilustrada, especialmente nos lugares onde se reconhece que os leigos católicos são adultos e onde se especifica a missão que lhes cabe no mundo moderno. Mas, corretamente compreendida, a afirmação relativa ao testemunho da vida temporal, em relação à informação sobre a vida temporal que


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deveis trazer para a esfera eclesial, se mantém perfeitamente bem e acaba por aparecer o que é, essencialmente: um apelo que a Igreja dirige ao laicato católico para que este a informe de todos os inúmeros problemas da vida profana, mais conhecidos pelos leigos do que pelo clero”. 3º – Os leigos podem ser “os sinaleiros mais vigilantes, os informantes mais diligentes, as testemunhas mais qualificadas, os conselheiros mais prudentes, os advogados mais esclarecidos, os colaboradores mais generosos a respeito das múltiplas necessidades do nosso mundo, das numerosas possibilidades de bem, dos assuntos tão diversos, a respeito dos quais vossa vida profana vos dá uma experiência direta e vossa existência, uma competência indiscutível. (...) Pode-se dizer que, de cada setor de vossas profissões, podeis indicar ao Magistério e ao ministério da Igreja problemas novos, muito interessantes e muito vastos, que não convém ser tratados empiricamente, em termos de velhos manuais, mas que é necessário considerar à luz de análises sistemáticas e científicas que os leigos católicos podem utilmente fornecer. (...) Para certas atividades, tal papel torna-se verdadeira colaboração em planos

de extremo interesse: escolar, administrativo, jurídico, social, jornalístico, artístico, caritativo... Quantas coisas a Igreja espera de vós!”

Teologia do laicato

Não sabemos se o mundo terá ouvido palavra mais autorizada, mais esclarecedora, mais “avançada” a respeito da missão do leigo, em toda a história da Igreja. Consideramos este discurso do Santo Padre como o roteiro mais seguro para as próximas declarações do Concílio Ecumênico a respeito do laicato católico. Numa síntese admirável, aí está o resultado de todos os esforços da Igreja, nessas últimas décadas, pela chamada Teologia do Laicato. Aí está, sobretudo, uma das mais expressivas manifestações da renovação da Igreja em nossos dias. Por meio dos leigos cheios de Deus, atuando no mundo com uma capacidade que lhe é específica, com uma responsabilidade que lhe é própria, é a mesma Igreja que penetra e vivifica as mais diferentes atividades humanas e sociais, fazendo o mundo retornar aos caminhos da ordem, da justiça e da paz.

Exortação final

Neste dia da Páscoa, entre as alegrias da Ressurreição e as amarguRevista da Arquidiocese 99


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ras de um mundo conturbado, nos dirigimos aos caríssimos sacerdotes como aos nossos mais íntimos colaboradores, num apelo cheio de amor e confiança: estejamos à altura de nossa sagrada missão. Com humildade e a fortaleza do Espírito Santo, levemos a palavra do Vigário de Cristo a todos os fiéis. Confiemos aos leigos aquilo que lhes pertence. Cumpramos o nosso dever sacerdotal de orientá-los, de formá-los, de confiar neles coma mesma confiança que o Santo Padre neles deposita. Quanto a nós, sejamos os ministros, isto é , aqueles que têm a missão de servir, discípulos e continuadores do Mestre que não veio “ministrari, sed ministrare”. Aos religiosos e religiosas que constituem uma das mais eficientes fontes de energia espiritual para o mundo moderno, unam-se a nós e ao clero, sem vacilações, para que a Santa Igreja possa utilizar-se de sua incomparável capacidade de doação, em favor dos pobres, dos enfermos, dos injustiçados, das populações desprovidas dos recursos ordinários da assistência religiosa, da catequese necessária e urgente, sem a qual nenhuma esperança poderemos ter no futuro cristão das gerações novas.

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Por fim, nossa palavra de esperança e de confiança no laicato católico, no sentido de que todos os fiéis, nas diversas profissões, ouçam e atendam ao apelo fervoroso da Igreja. Vinde, senhores, senhoras, rapazes, moças e crianças. Vinde, a Igreja vos fala porque tem necessidade de vós, “mas, sobretudo, por causa da vocação que ela lê em vossas almas a uma vida cristã plena; da elevação sobrenatural que ela reconhece no fiel, marcado pelo sinal de irmão e soldado de Cristo, devido à vossa aspiração de exercer, no campo católico, funções e responsabilidades de adultos, para o que ela vos educa e vos convida; por causa, enfim, da confiança que mereceis e que, vos abençoando, ela vos testemunha”. Eis a resposta da Igreja ao mundo de hoje. Eis a medicina espiritual para a reabilitação de uma sociedade enferma e debilitada que outra coisa não deseja senão o Amor e a Paz. Que o Senhor Ressuscitado nos conceda o seu Amor e a sua Paz! Revista da Arquidiocese Ano XXIII – n. 2 dezembro de 1984


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g Herodes, ontem e hoje

Em sua mensagem do Natal de 1981, Dom Fernando faz um paralelo entre os poderosos do tempo de Jesus e os dos tempos modernos: "OHerodes de hoje, como o de ontem é ambicioso, hipócrita e medroso"

“A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado, e toda Jerusalém com ele” (Mt 2,3). Estas palavras escritas por Mateus, logo no início do seu Evangelho, refletem a angústia dos poderosos da terra. Angústia que parece aumentar em nossos dias. A notícia foi levada a Herodes com a chegada a Jerusalém dos “magos que vieram do Oriente”. Quem eram esses magos? Ainda hoje não se sabe quem eram eles. Tratava-se certamente de homens tementes a Deus que, levados pela fé e guiados por misteriosa estrela

decidiram visitar o Deus Menino, nascido em Belém. Passando por Jerusalém, perguntaram como fazer para chegar à pequenina cidade. Foi o suficiente para suscitar uma série de suspeitas. Herodes, insuflado pelos seus assessores, perturbouse. Mandou chamar os magos e os recebeu bem. Chegou mesmo a dar aparência de concordar em prestar homenagem ao Menino: “Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo”. Na verdade, o que Herodes pretendia era matá-lo. Revista da Arquidiocese 101


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A lição é muito esclarecedora para demonstrar que os poderosos de hoje nada têm de original. Possuídos de orgulho e cobiça, abusam de sua missão e transformam-se em tiranos. Assim tem ocorrido na história, até os nossos dias. Coisa terrível é o poder, quando endurece potentados e os enche de pavor, de inveja e de ódio, predispondo-os a toda sorte de injustiças! Hoje, como nos dias de Herodes, o mundo inteiro está perturbado?: “Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações? Erguem-se, juntos, os reis da terra e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e o seu Cristo. Quebremos seu jugo, disseram eles, e sacudamos para longe de nós as suas cadeias! Aquele, porém, que mora nos céus, se ri. O Senhor os reduz ao ridículo. Dirigindo-se a eles, com cólera, os aterra com o seu furor.” (Sl 2,1-5) Os que se julgam senhores do mundo estão dominados pelas forças da iniquidade. Sentem, porém Revista da Arquidiocese 102

que não têm condições de abafar a voz dos anunciadores do Evangelho, que se torna cada dia mais atuante. Consideremos o que acontece ao redor de nós, no hoje de nossos dias. O que vemos? Quais as notícias que nos chegam? De longe ou de perto, a situação é a mesma: rumores de guerra, perspectiva de iminente catástrofe nuclear. No Brasil, as forças econômicas e políticas, fora do contexto da realidade global, como se atuassem em outro planeta, estão enroladas no vaivém conflitante de interesses mesquinhos e não se dão conta da inanição em que se encontra a imensa maioria do povo. O governo, alienado e insensível, absorve o seu tempo e o dinheiro do povo formulando projetos fabulosos, acumulando empréstimos e abrindo as comportas da riqueza nacional em troca de mais dinheiro para as mordomias e gastos supérfluos. Tudo é orgia, tudo é ganância. Tudo é esbanjamento e esvaziamento de uma nação rica que teima em tornar o seu povo despido e faminto. O Herodes de hoje, como o de ontem, é ambicioso, hipócrita e medroso. Tem pavor de perder o poder, calculando que responderá por crimes, quando destronado.


Mensagens

Amedronta-se com a simples notícia de uma Criança que nasceu... e que hoje se chama o Pobre, o Posseiro, o Índio, o Negro, o Faminto, o Lavrador sem terra, o Operário. Se um dia todos eles se unirem, serão mais fortes do que os exércitos aguerridos e mais eficientes do que as bombas de nêutrons. Estas matam as pessoas sem destruir as coisas. Eles, os pobres e marginalizados, nada destroem, mas são capazes de salvar seus irmãos e restaurar a ordem da criação. Temos que nos voltar para o Menino de Belém, mesmo que devamos percorrer grande distância, como fizeram os magos. Levamos conosco o que somos e o que temos, para oferecer tudo ao Senhor. Nisso todos seremos valorizados: riqueza ou pobreza, saúde ou doença, alegria ou tristeza, vitórias ou fracassos, são apenas cir-

cunstâncias que não atingem nossa dignidade, nossa capacidade de ser livres, de amar, de elevar-nos. No Natal deste ano, devemos nos unir no mesmo espírito de solidariedade fraterna, pedindo a Deus perdão dos nossos pecados, de nossas infidelidades, de nossos corações duros. Com esse gesto estaremos atraindo a misericórdia divina que nos quer salvar e libertar dos crimes que inundam a terra. Teremos, então, condições de ouvir e seguir o chamamento de Jesus nascido em Belém que, sofrendo, sendo perseguido e perdoando, nos oferece a Paz; e, morrendo, nos deu a Vida. Revista da Arquidiocese Ano XXIII – n. 2 dezembro de 1984

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Cartas

Acervo Arquidiocese de Goiânia

Comunicado ao Povo de Deus

As prisões arbitrárias feitas no início da década de 1970, em nome da Segurança Nacional, motivaram Dom Fernando a escrever mensagem divulgada no Regional Centro-Oeste. A publicação foi feita na Revista da Arquidiocese de janeiro de 1972

Temos ouvido o grito silencioso de algumas famílias, angustiadas com a maneira como foram presos seus filhos. O fato está se tornando conhecido furtivamente na cidade, não obstante a ordem de silenciá-lo. O terror cresce na medida em que é abafado pelas ameaças de represália. Em face deste desrespeito à ordem jurídica, consideramos que o nosso si-

lêncio poderá ser omissão culposa do cumprimento de nossa missão. Não nos compete julgar os motivos que levaram à prisão os filhos daquelas famílias. Não sabemos se eles são ou não criminosos, ou se atentaram contra a Segurança Nacional. Sabemos, apenas, que foram detidos de maneira que nos parece injusta. É este aspecto que fere a sensibilidade cívica e Revista da Arquidiocese 105


Cartas

moral dos cidadãos. Vivemos todos apreensivos com os atos de terrorismo que se sucedem: roubos, sequestros, arrombamentos, mortes. O governo os denuncia ou permite que sejam tornados públicos. A Nação inteira os repele e lamenta que o desassossego, a intranquilidade, a insegurança perturbem e prejudiquem o trabalho construtivo em que governantes e governados estão empenhados. Perguntamos, por isso, por que, em se tratando de prisões, não se cumprem os dispositivos legais. Temos, afinal, uma Constituição. Além de tudo – e isto é muito importante – somos um Povo que toma consciência de si mesmo e marcha para o futuro que está a construir com entusiasmo. São várias e valiosas as iniciativas do

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governo e de instituições particulares que estimulam ou promovem o crescimento do País. Que os órgãos de vigilância e defesa da ordem interna cumpram o seu dever de tranquilizar a todos é o que se deseja e espera. Porém, não seria justo nem humano que agentes de organismos oficiais estimulassem com o exemplo o que pretendem combater, somando “ao terrorismo da subversão o terrorismo da repressão”. Há crimes e criminosos? Mas não é justamente por isso que se estabelecem as normas da justiça? Não cremos que os responsáveis por esses órgãos tenham chegado à conclusão de que o crime se combate com outro crime, a violência com outra violência, o mal com outro mal. Seria o retorno à barbárie, o retrocesso à lei de talião.


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Cartas

Acervo Arquidiocese de Goiânia

Revista Censurada

Carta circular de Dom Fernando redigida em 30 de junho de 1974. Nela o arcebispo denuncia aos fiéis e aos assinantes da Revista da Arquidiocese a censura a que a publicação esteve submetida entre 1973 e 1974, devido à negativa da Polícia Federal de responder ao pedido de registro que, nessa época, era exigido por lei

Aos que a presente Carta virem, Esperança e Paz no Senhor. O primeiro número da Revista da Arquidiocese circulou em julho de 1957, um mês após a instalação da Arquidiocese de Goiânia. Já se foram 17 anos. Durante esse período, por motivos de ordem gráfica, não pôde sair nos meses de março de 1968 a setembro de 1969, sendo substituído

pelo Boletim. A partir de outubro desse ano, até junho de 1973, circulou mensalmente. Trata-se de uma revista séria, de circulação restrita, destinada a informar os membros de uma instituição e registrar, para a história sócio-religiosa de Goiás, os acontecimentos de maior relevância. Nela estão transcritos algumas alocuções do Santo Padre e docuRevista da Arquidiocese 107


Cartas

mentos da Santa Sé, os atos da Arquidiocese e os pronunciamentos do episcopado goiano e da CNBB, noticiário das dioceses e paróquias, bem como algumas declarações e atos oficiais do governo que mais de perto orientam ou influenciam a vida social do Estado de Goiás. Provavelmente constitui hoje um dos mais completos documentários sobre a história religiosa e social desta região, nesses três últimos lustros. Por que deixou de circular? A partir de julho de 1973, até hoje, a Revista da Arquidiocese deixou de circular porque não obteve até a presente data qualquer resposta aos ofícios ou cartas endereçados pelo arcebispo e pelo diretor da Revista ao Departamento de Censura e Diversões Públicas, requerendo o registro. Diversas outras providências foram tomadas, sem resultado, para conseguir-se alguma decisão, permitindo ou proibindo a circulação da Revista. O silêncio por vezes considerado como sinal de aprovação tácita – “quem cala parece consentir” no caso presente tem sido considerado, por alguns, como ameaça velada, sob pretexto – quem sabe? Revista da Arquidiocese 108

– de medida de Segurança Nacional. A própria gráfica receia possíveis represálias, caso venha a editar a Revista sem o registro no referido Departamento. Não podemos aceitar essas alegações. Custa-nos admitir que a situação esteja de tal modo instável, social e politicamente, que a modesta e despretensiosa Revista da Arquidiocese represente um mínimo sintoma de perigo ao atual Regime. Preferimos, por isso, esperar pacientemente, convencidos de que a paciência é testemunho de segurança e de esperança. Passaram-se, entretanto, 12 meses na expectativa de oferecermos aos leitores uma palavra mais consoladora, para explicar o motivo desse ano de eclipse do órgão da Arquidiocese. Afinal, temos ainda o apoio da Constituição do Brasil que, no seu Art. 150 § 8º, assegura: “A publicação de livros, jornais e periódicos independe da licença da autoridade. Não será, porém, tolerada a propaganda de guerras, de subversão da ordem pública ou de preconceitos de raça ou de classe”. Não aceitaríamos, sem veemente protesto, que qualquer


Cartas

órgão de censura chegasse ao excesso de interpretar o que está escrito na Revista, durante os seus 16 anos de existência, como propaganda de guerras, de subversão da ordem pública ou de preconceitos de raça ou de classe”. Bem ao contrário, tem sido sempre coerente com a doutrina cristã que inspira as normas da Arquidiocese e o estilo da Revista, cujo lema é: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). Mas admitamos, para argumentar, que o termo “subversão” seja interpretado como tudo o que não concorda incondicionalmente com a filosofia do regime político vigente. Mesmo nessa hipótese – e ninguém no Brasil escapa, hoje, a essa possibilidade – não seria mais decente e honroso negar claramente o registro da Revista, com a declaração dos motivos, para que nós

pudéssemos nos defender? Não cremos que o direito de defesa tenha sido abolido e não seria honesto ocultar os motivos de uma punição para impedir a justa defesa. Onde estamos, posto que, mesmo sem indício de acusação, somos obrigados a ver a Arquidiocese impedida de comunicar-se por um dos mais indispensáveis meios ao cumprimento da sua missão? Por que o citado Departamento de um órgão oficial, há um ano, nega-se a dar despacho ao requerimento que lhe foi endereçado? Queiram os assinantes da Revista da Arquidiocese, bem como os irmãos no episcopado, as paróquias, comunidades menores, movimentos e organizações de apostolado, compreender a razão por que não têm recebido a referida Revista.

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Cartas

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Entrevista

g Entrevista coletiva

Após viagem ao Nordeste, no dia 3 de setembro de 1981, Dom Fernando concede entrevista coletiva para falar sobre a situação grave do País após investida contra a Igreja, com a prisão de dois padres

Seguem os principais trechos da entrevista do arcebispo de Goiânia:

Como o senhor vê a situação hoje, com relação à prisão dos dois padres? Eu estou muito preocupado com a situação que se criou no Brasil de hoje. Me recordo que há menos de um mês estive em Recife para as festas de Dom Hélder Câmara, e lá havia cerca de 40 bispos. Comentando a atual situação, chegou-se à conclusão que toda onda de represália recrudesceu, e que a Igreja podia se preparar porque teria muito

a sofrer porque o governo não quer compreender o que é a Igreja e nem a atitude da Igreja. Isso, em si, não é novidade. Então, ele interpreta de acordo com sua cartilha. Por exemplo, essa opção preferencial pelos pobres. Evidentemente, se é preferencial não é exclusiva, mas eles não se conformam com isso porque a opção exclusiva deles é pelos ricos. De forma que o conflito está na raiz de tudo isso. Quando cheguei a Goiânia, à proporção que fui me inteirando da situação concreta, verifiquei que a coisa veio mais depresRevista da Arquidiocese 111


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sa que se esperava. Esse conjunto de declarações agora contra a Igreja: o coronel Passarinho passou da conta e acha, conforme sua consciência, que é um bom católico, e a prova de que é bom católico é sua amizade com os padres, bispos e cardeais. É um critério afetivo, muito carinhoso, mas não sei se é o mais seguro para se julgar a convicção de uma pessoa. Assim, estou vendo isso com muita apreensão, porque se há todo esse mal-estar por parte de um governo cada vez mais arbitrário, é sinal de que a Igreja está certa. Dom Fernando, frente a esses problemas e à prisão dos dois padres franceses, a Igreja vai adotar uma estratégia de ação? A Igreja não tem estratégia de ação diante dos casos consumados. A Igreja vai absorver consequências, porque se vê que isso tudo foi coisa arranjada. É possível que os dois padres sejam expulsos do Brasil, para isso eles prepararam a Lei dos Estrangeiros. O que podemos fazer absorver as consequências. Agora, não vamos ceder. O governo pode prender bispos, padres e leigos agentes de pastoral que quiser, mas isso vai apenas encorajar a Igreja, porque assim ela está cumprindo o seu dever. Revista da Arquidiocese 112

O senhor acha que estas prisões dos missionários e as outras prisões ocorridas em Salvador podem ser sintomas de um fechamento por parte do governo? Isso significa um golpe? Para se franco, acho que o governo está procurando uma pretexto para acabar com esse negócio de abertura – uma aventura que ele fez - , mas está percebendo que as consequências não são tão favoráveis a ele como imaginava. Então, está procurando um pretexto para isso, e, conforme alguns bispos já disseram, o bode expiatório tem que ser a Igreja. Está sacudindo tudo dentro da Igreja, que é mais uma demonstração, no meu modo de raciocinar, de que ele não quer eleições. Porque não se pode admitir que o governo queira eleições livres, num país como o nosso, quando ele se joga frontalmente contrário à Igreja, que é sem dúvida nenhuma, mesmo sociologicamente, a maior força política do país. Há poucos dias atrás, o senhor previu que a Igreja iria sofrer muito. O senhor acha que essas prisões e as declarações do coronel Passarinho e do major Curió seriam início desse sofrimento? Era o que eu estava falando, a coisa


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aconteceu mais depressa do que eu imaginava. Mas não sabia como vinha, sabia que veio muito mais rapidamente. Pois como é que se explica essa coincidência desses pronunciamentos contrários à Igreja? Tenho a impressão que a entrevista do coronel Passarinho foi uma oportunidade de ele dar um recado do governo à Igreja. Então, nós aceitamos o recado, aliás, lamentamos que foi dado de uma maneira pouco gratificante, mas isso é problema dele. Mas aceitamos e confirmamos que estamos dispostos a seguir a linha da Igreja. Agora interpretem da maneira que quiserem. Se quiserem interpretarem como subversão, que interpretem, mas a Igreja, não é de agora, fez uma opção pelos pobres, pelos marginalizados e pelos oprimidos. Ninguém vai afastá-la disso. Não há de ser pela força bruta, como é o caso da polícia de Goiás que está fazendo estas barbaridades aqui, que nós vamos ficar com medo de polícia. O senhor acredita que apesar dessas pressões e desse fechamento haverá eleições? Vou dar uma opinião estritamente pessoal. Eu ainda não acredito em eleições em 1982, embora veja algumas evidências nesse sentido. O que acontece é que não entra na mi-

nha cabeça que o governo permita eleições se tiver certeza de que vai perder. Então, o que faz, ele arranja meios para não haver eleições, por exemplo, quando viu que estava perdendo terreno na área política, ele começou com os casuísmos. Os casuísmos são feitos para dificultar a vitória das oposições e para facilitar a vitória do governo. Mas acontece que o povo já não suporta mais esses casuísmos. Assim, o governo há de procurar um pretexto para justificar uma atitude mais enérgica. E o bode expiatório, como se disse, é a Igreja. Um conflito sério com a Igreja fará com que o governo tome suas precauções, dizendo que a Igreja é subversiva e que a Igreja está insuflando. Quer dizer, inventa e interpreta, à sua maneira, os maiores absurdos contra a Igreja, para justificar amanhã, quem sabe, um golpe, que será contraproducente porque ele desconhece que a Igreja está realmente firme na sua ação e até o povo simples está tomando consciência do seu valor e não estão mais dispostos a ceder. Nós temos visto, em diversas ocasiões, essa demonstração da vitalidade da consciência do povo. E isso não tem nada a ver com a Igreja, mas tem muita coisa contra o governo. Revista da Arquidiocese 113


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Entrevista

Entrevista a O Popular

Acervo Arquidiocese de Goiânia

Igreja, política e partidos

Respostas por escrito a questionamentos de um repórter político mostram a posição do arcebispo de Goiânia sobre a relação entre Igreja e partidos políticos. Veja a íntegra desta entrevista que foi publicada na Folha de

Goiás e em O Popular (edições de 21-09-1981)

Que explicações o senhora daria sobre as denominadas “cartilhas políticas” que, segundo setores do governo, estão condicionando o povo a votar contra o partido oficial? As chamadas “cartilhas políticas”, quanto é do meu conhecimento, não passam de um esforço generoso e inteligente de algumas dioceses, no sentido de colaborar na formação cí-

vica dos cidadãos. Não conheço todas elas, mas as que conheço não levam o povo a votar contra ou a favor do partido oficial ou de qualquer outro partido. Até porque a preocupação maior é exatamente convidar o povo a tomar consciência de suas responsabilidades, do valor do voto, de modo a convencer cada cidadão a votar em quem considerar merecedor de sua preferência. Revista da Arquidiocese 115


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Autoridades do governo acusam setores da Igreja de insuflar posseiros e invasores a ocuparem propriedade privadas. Como se processam em realidade tais fatos? Se as autoridades do governo acusam setores da Igreja de insuflarem posseiros e invasores a ocupar propriedades privadas, trata-se de mais uma atitude provocadora por parte dessas autoridades. Na verdade, a Igreja tem feito, com atitudes claras e insofismáveis, é protestar contra a maneira violenta, injusta e desumana como certos elementos, quer da polícia partidária dominante, quer mais frequentemente da polícia, pretendem resolver pela força os problemas das invasões, desconhecendo ou marginalizado as elementares medidas da competência do poder judiciário. O senhor pensa que esteja reaberta a crise entre Igreja e Estado? Sempre houve e sempre haverá crises entre governo e a Igreja. Trata-se da maneira de interpretar os problemas sociais e do modo de agir, na ordem prática. O governo, sobretudo num regime de força, entende que deve aproveitar-se da máquina poderosa de que dispõe, para dar soluções simplistas Revista da Arquidiocese 116

aos problemas humanos. A Igreja vê esses problemas à luz da verdade e da justiça, conforme os ensinamentos evangélicos. Surgem assim conflitos, às vezes com consequências graves. Como o senhor analisa as acusações de autoridades militares à instituição da qual o senhor é um dos representantes? Infelizmente tem havido acusações de autoridades militares, não só contra pessoas da Igreja, como também contra a ação pastoral, em casos especiais. Como bispo católico, sofro nessas ocasiões porque, conhecendo de perto alguns dos acusadores e participando como corresponsável da ação pastoral da Igreja no Brasil, vejo claramente os lamentáveis equívocos em que se encontram os acusadores. As Comunidades Eclesiais de Base vêm realmente atuando no campo político-partidário? Que as Comunidade Eclesiais de Base atuem no sentido de formar a consciência cívica e política de seus membros é certo. Digo mais, é um dos objetivos das CEBs, à luz do Evangelho. Que as Comunidades Eclesiais de Base, fiéis à


Entrevista

orientação da Igreja se filiem ou atrelem neste ou naquele partido político, não é verdade. Ao contrário, seria rebelar-se contra sua própria razão de existir. Isto, porém, não impede, antes as obriga a conhecer cada partido e cada candidato para que cada um de seus membros tenha condições de votar consciente e livremente, buscando o bem da comunidade maior que é o Estado. O senador Jarbas Passarinho disse que solução para o problema agrário está na aplicação do Estatuto da terra. o senhor concorda com isto? Se o senador Jarbas Passarinho acha que a solução para o problema agrário está na aplicação do Estatuto da terra, concordo plenamente com ele. Agora, sou eu quem faz a pergunta: por que ele, com o poder e o prestígio que tem junto ao governo, não apressa a hora da libertação das multidões sem terra e sem meios de sobreviver? Em nível de política goiana, como o senhor vê os partidos existentes?

No nível da política vejo os partidos políticos existente como um esperança para o Estado de Goiás. Como seria bom se esses partidos políticos se respeitassem nas suas divergências e se unissem no objetivo comum de procurar, acima de tudo, o bem deste Estado. É verdade que a Igreja tem certa predileção pelo Partido dos Trabalhadores? Posso assegurar que a Igreja não tem predileção ou preferência pelo PT ou qualquer outro partido. Cada cidadão procure conquistar a preferência dos eleitores, se deseja merecer os votos. Seria bom também que o PDS e outros partidos aprendessem a respeitar a posição da Igreja e se abstivessem de acusações ridículas e infundidas contra pessoas e setores da Igreja. Essas provocações geram atitudes que terminam criando equívocos ou insatisfação no seio do eleitorado consciente, ou poderão forçar a Igreja a defender-se das acusações, dando lugar a interpretações de que é contrária ao partido do governo.

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Intervenção

Acervo Arquidiocese de Goiânia

No Vaticano, uma voz em favor dos sacerdotes

Intervenção de Dom Fernando em defesa dos sacerdotes, registrado nos anais do Concílio Vaticano II motivou a revisão do texto, que era discutido durante a terceira sessão da reunião, realizada de setembro a novembro de 1964

(...) Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia, no Brasil (falou em nome de 112 bispos do Brasil e de outras nações): “O esquema, mesmo em sua nova redação, causou a nós e a muitos outros padres conciliares uma grande desilusão. Julgamento que o texto das proposições constitui uma injúria aos nossos diletíssimos sacerdotes que trabalham

conosco na vinha do Senhor. Se o Concílio Vaticano II disse coisas tão belas e sublimes, quando tratou dos bispos e dos leigos, por que agora, ao se tratar dos sacerdotes, diz tão pouco e de modo tão imperfeito? Não ignoramos a reta intenção daqueles que elaboraram o esquema em exame, mas até a louvamos. Só deploramos o resultado. As premissas estabeleRevista da Arquidiocese 119


Intervenção

cidas na relação sobre o proêmio, segundo as quais o texto teria valor para ambos os cleros, tiveram uma infeliz consequência: não foram bem considerados nem o clero secular nem o regular. Além disso, o modo paternalista de falar não se harmoniza absolutamente com o modo teológico e verdadeiramente pastoral dos demais esquemas e não raramente estabelece para os sacerdotes coisas que não ousamos estabelecer para nós mesmos, como, por exemplo, as questões da pobreza, da vida comum, da fuga da vaidade, da simplicidade no vestir, da procura de títulos etc... Os nossos queridos sacerdotes esperam de nós algo de muito diferente. Esperam um texto que exponha com mais penetração a teologia do sacerdócio, e que assim, apresente a verdadeira imagem da vida sacerdotal, segundo a imagem de Cristo Sacerdote, e a verdadeira imagem do ministério sacerdotal segundo a imagem da Igreja plenamente renovada e segundo as legítimas exigências dos homens que, em meio às trevas, procuram

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o caminho, a verdade e a vida daquele eterno Sacerdote que continua presente nos nossos queridos sacerdotes. Portanto propomos, veneráveis padres conciliares, e insistentemente vos pedimos, eminentíssimos moderadores, que, depois que a questão for considerada com muita reflexão, o texto em exame não seja submetido à votação, mas seja redigido um novo, mais condigno, que seja discutido e votado na próxima quarta sessão do Concílio” (alguns aplausos). “Entregaremos à Secretaria do Concílio outras observações redigidas por escrito sobre a questão. Mas, veneráveis padres conciliares, não nos deixemos levar pela pressa. Aos nossas sacerdotes, chamados conosco para trabalhar pelo Senhor, devemos pelo menos este testemunho de amor e de veneração.” (aplausos) Extraído de: Concílio Vaticano II. Vol. IV – Terceira Sessão (set./nov. 1964) compilado pelo Pe. frei Boaventura Kloppenburg pág. 164 (ver página 160)


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Documento

Acervo Arquidiocese de Goiânia

Testamento de Dom Fernando

Dom Fernando deixou legado espiritual valioso, que serviu de conforto após sua morte: o testamento escrito em 27 de agosto de 1977, lido na missa do 30º dia da sua partida, na Catedral. O Evangelho de João 16,33;17,8.14.22-24, que o arcebispo intitula A Divina Esperança faz a abertura do texto

Identificação

Eu, Fernando Gomes dos Santos, nasci na cidade de Patos, Estado da Paraíba, aos 4 de abril de 1910. Sou filho legítimo de Francisco Gomes dos Santos e Venerando Gomes Lustosa, já falecidos. Fui batizado e crismado na igreja paroquial (hoje Catedral) de Nossa Senhora da Guia, em minha terra natal. Recebi

a primeira Comunhão no dia 24 de maio de 1917, na mesma igreja. Depois do curso primário, ministrado por meu pai e depois na Escola do Professor Alfredo Cabral, estudei no Seminário da Paraíba de 1921 a 1929, desde o curso de Admissão até o segundo ano de Teologia. Foi em Roma que concluí os meus estudos eclesiásticos, na Universidade Revista da Arquidiocese 121


Documento

Gregoriana, como aluno do Colégio Pio Latino-Americano. Recebi o sagrado Presbiterato no dia 1º de novembro de 1923. Celebrei a primeira Missa no dia 2 de novembro do mesmo ano, no túmulo dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. Ao voltar de Roma, exerci o sagrado ministério na minha diocese de origem: nas cidades de Cajazeiras (1933 a 1936) e de patos (1937 a 1943). Fui então eleito bispo de Penedo, aos 9 de janeiro de 1943. No dia 4 de abril deste ano, ao completar 33 anos de idade, recebi a sagrada unção sacramental do Episcopado, na referida igreja de Nossa Senhora da Guia, sendo sagrante Dom Moisés Coelho e consagrantes Dom José de Medeiros Delgado e Dom Mário de Miranda Vilas Boas. Durante a minha vida de Presbítero, tive como único bispo diocesano Dom João da Mata Andrade e Amaral, meu grande amigo e benfeitor, já falecido. Que Deus o tenha no céu. Depois de Deus, meu Criador, de Jesus Cristo meu Redentor e do Espírito Santo que me tem iluminado e conduzido, não obstante as minhas fraquezas e infidelidade, devo o que sou particularmente aos meus santos pais e, de modo muito especial, à minha querida e virtuosa mãe. Revista da Arquidiocese 122

Sou grato aos Superiores, Mestres e Colegas dos Seminários da Paraíba e do Pio Latino-Americano. Deles recebi os conhecimentos da ciência, os exemplos da virtude e o estímulo para a vida, no exercício do sagrado mnistério. + Fernando Gomes dos Santos

Testamento

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém Adorando a Santíssima Trindade, professando a fé no mistério de Deus Uno e Trino, crendo firmemente na Igreja de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, Filho de Deus vivo, e verdadeiro homem, nascido da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, nosso Salvador que se entregou para libertar-nos do pecado e da morte, delaro que: 1. Fui recebido no seio da Igreja pelo Batismo; nela cresci pela Crisma; a ela me consagrei como Sacerdote e Bispo por mercê de Deus, sem merecimento de minha parte. 2. Nesta igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, unido ao Santo Padre o Papa, aos Bispos e Presbíte-


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ros em união com ele, aos membros vivos do Corpo de Cristo, quero viver e morrer. Assim espero da misericórdia divina, não obstante os meus pecados, dos quais me arrependo e me confesso, pedindo a Deus mos queira perdoar, como deles me acusei e pedi perdão no Sacramento da Penitência. Se outros pecados cometer por causa de minha grande fraqueza e ingratidão, ou se defeito tiver havido nas confissões já feitas ou por fazer, rogo a Deus excite em mim a mais perfeita contrição e dor, pelos méritos infinitos de Jesus Crucificado, ao menos na hora de minha morte e sobretudo naquele momento “do qual depende a eternidade”. 3. Peço perdão à comunidades e às pessoas a quem tenha escandalizado ou desedificado por palavras, gestos, ações ou omissões, bem como a quem tiver ofendido, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente. 4. Não guardo qualquer ressentimento da pessoa alguma e de todo o coração perdoo a quem me tenha ofendido.

5. Dediquei a minha vida, de modo especial, a serviço da missão que me foi confiada como servo de Javé, meu Senhor e meu Deus. Peço agora a Ele que a receba como Ofertório e Holocausto pela vitalidade e renovação de Sua Igreja, pela Pátria muito amada, para que o Brasil reencontre caminho da Justiça e da Paz que só Jesus Cristo sabe e pode dar; pelo mundo conturbado, para que ouça os apelos do Evangelho, admiravelmente anunciado pelo Magistério da Igreja, pelos mártires sacerdotes e leigos do nosso tempo, por exemplo de vistude de todos que sofrem em defesa da justiça e do bem. 6. Espero merecer a graça inefável de aceitar de bom grado a morte, animado pela divina Esperança de ir à casa do pai que está no Céu, a qualquer momento, no lugar e nas circunstâncias que só Deus conhece. 7. Tenho ainda a intenção de oferecer a Deus a imolação de mim mesmo pela salvação dos meus entes queridos e por aqueles a quem devia ter feito maior bem.

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Documento

8. Não sou possuidor de nenhum bem terreno. Considero-me apenas usuário do necessário à minha subsistência e ao exercício da missão que me foi confiada. Se alguma coisa constar em meu nome, em qualquer casa bancária, ou em poder de pessoas ou instituições, nada me pertença. A razão de ter feito alguma economia como provisão para o futuro incerto ou de ter registrado alguma coisa em meu nome, deveuse a circunstâncias ocasionais ou a exigências legais. Portanto, se alguma coisa ainda estiver em meu nome, pertence, de pleno direito, à Arquidiocese de Goiânia, porque tudo foi adquirido em função ou por motivo do sagrado ministério. 9. Os objetos de meu uso pessoal que forem úteis à Arquidiocese, tais como livros, alfaias, objetos religiosos, a ela pertencerão. Os outros poderão ser distribuídos a familiares e amigos, como pequenas lembranças. Roupas, calçados, utensílios domésticos, talvez possam ser dados aos mendigos, meus bons inquecíveis amigos, sobretudo em Aracaju. Revista da Arquidiocese 124

10. Fiel, pelo poder de Deus, à minha vocação e aos compromissos livre e conscientemente assumidos, nunca tive nem tenho nenhum descendente e os meus ascendentes estão falecidos. Pessoalmente não tenho dinheiro, dívida ou compromisso de ordem financeira. De nada disponho, de acordo com o item 8, para legar às minhas irmãs e meus sobrinhos, a não ser uma apólice de Seguro de Acidente, caso seja renovada anualmente. Até agora tem sido feita em favor de minha irmã Maria Mercedes Gomes de Andrade. 11.Não obstante as minhas deficiências, fraquezas e falhas, sempre me consagrei com tudo o que sou e com tudo o de que dispus, à Santa Igreja e ao sagrado ministério. Isto não significa, porém, menos amor e dedicação aos meus parentes, amigos e benfeitores. A todos quero testemunhar a minha grande estima e a minha gratidão. 12.Espero encontrar no Céu as minhas irmãs Urbana (Niná), Apolônia, Leonides, o meu irmão Gérson, tantos sobrinhos e amigos, os que me ajudaram


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no apostolado, juntamente com meus queridos pais já falecidos, além de nove irmãozinhos que se foram, logo após o batismo. 13. Às minhas irmãs Lourdes, Amália e Mercedes; aos meus sobrinhos, sobrinhas, cunhados e parentes, bem como à velha Luzia Maria de Jesus Rodrigues, extraordinário modelo de virtude, que todos consideramos membros da família pelos anos vividos conosco e pela dedicação que prestou à nossa santa mãe, nos últimos instantes; desejo-lhe todo o bem a felicidade no seio do Pai. Lá nos encontraremos todos, pela misericórdia de Deus. Peço-lhes que sejam perseverantes e fiéis no cumprimento de seus deveres para com Deus e para com o próximo; que suportem com coragem e muito amor os sofrimentos; que alimentem a certeza da divina Esperança do Céu, sobretudo nas horas de abatimento moral, de desânimo, de incompreensão ou de injustiça a que estão sujeitos os que peregrinam nesta terra. 14. Sou grato a todos que me fizeram o bem e edificaram com

suas virtudes. Agradeço aos que me fizeram sofrer e aos que me advertiram dos perigos. De modo muito especial, agradeço aos que me injuriaram e caluniaram – como é dura e cruel a calúnia! – porque, fazendome sofrer mais, ajudaram-me a ser humilde e abater o meu orgulho. Agradeço às pessoas caridosas e apostólicas que colaboraram comigo no ministério sagrado: Agentes Pastorais, Ministros Extraordinários da Eucaristia, Catequistas, Religiosos e Religiosas, Sacerdotes e Leigos. Confio em que não deixarão de rezar por mim. Os seus nomes estão escritos no Livro da Vida. 15. Aos Santos Padres Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e seus sucessores, o testemunho de minha fidelidade e de meu amor à Cátedra de Pedro; o reconhecimento de sua Autoridade Universal, de sua incomparável missão, conferida por Jesus Cristo, de confirmar na fé os Irmãos, ser sinal e instrumento da Unidade da Igreja, mensageiro da Paz e defensor da Justiça. Revista da Arquidiocese 125


Documento

16. Aos Bispos e Presbíteros, em união com o Papa, de modo especial aos admiráveis e queridos Bispos do Brasil, congregados na CNBB e no Regional CentroOeste, o agradecimento comovido pela ajuda prestada a este irmão menor. 17. Aos caríssimos Padres de Goiânia, Aracaju, Penedo, Cajazeiras e Patos, agradeço os exemplos que me deram de vida e dedicação ao serviço do Povo de Deus. Peço-lhes que me perdoem tudo quanto disse, fiz ou deixei de fazer em prejuízo do crescimento na fé e da edificação das comunidades que me foram confiadas. 18. Na Cúria Arquidiocesana e na “Revista da Arquidiocese”, encontram-se dados e informações sobre a vida desta Arquidiocese. Peço aos meus colaboradores mais próximos que me perdoem as falhas e levem aos meus sucessores o valor e as virtudes do Clero, dos Religiosos e Religiosas, do Laicato católico e de todo o Povo Goiano.

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19. Aos demais colaboradores e amigos, aos caríssimos Vigários e Seminaristas, aos que mais de perto sofreram minhas impaciências e negligências, com a homenagem de minha gratidão, a súplica de suas orações. 20. À Virgem Maria, Mãe de Deus, minha mãe, minha Rainha, minha esperança e meu refúgio, entrego-me e confio que me socorra, sobretudo na hora da morte. Jesus, Maria e José, assisti-me na última agonia e alcançai-me a graça inefável da perseverança final. – Meu Jesus, vós sois minha Vocação. Lembrai-vos de mim e mandai-me ir para vós. “Não olheis os meus pecados, mas a fé que anima a Vossa Igreja”. – “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”. – Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Goiânia, 27 de agosto de 1977. + Fernando Gomes dos Santos Revista da Arquidiocese Ano XXVIII – nº 6 e 7 junho/julho , 1985


Excertos

Acervo Arquidiocese de Goiânia

g Fragmentos

Durante a missa dos funerais de Dom Fernando, representantes de diversos setores pastorais da Arquidiocese de Goiânia leram excertos de pronunciamentos feitos pelo arcebispo. Os fragmentos foram publicados na Revista da Arquidiocese de junho/julho de 1985

Justiça e Paz

“Em caso de conflito entre a lei e a justiça, o óbvio é que seja modificada a lei, uma vez que a justiça é intocável... Mais do que escravos da lei iníqua, sejamos arautos da justiça e amantes da verdade... Anuncia a Verdade, sem sombra de medo, e denuncia o erro, a injustiça, a arrogância.”

Aos oprimidos

“Se, um dia, o pobre, o posseiro, o índio, o negro, o faminto, o lavrador sem terra, o operário se unirem, serão mais fortes do que os exércitos aguerridos e mais eficientes do que as bombas de nêutrons. Estas matam as pessoas sem destruir as coisas. Eles, os pobres e marginalizados, nada destroem, mas são capazes de salvar seus irmãos e restaurar a ordem da criação.” Revista da Arquidiocese 127


Excertos

Família

“A família existe, não tanto em função de si mesma, mas a serviço do mundo. Sua missão é ser sinal e instrumento de salvação da humanidade inteira, mediante Jesus Cristo, único Salvador. Por isso a família denuncia e anuncia, compromete-se na transformação do mundo em sentido cristão...”

Professores

“Coragem, professores! Que tudo se faça sem medo ou desfalecimento, sem ódio ou violência, mas unidos pela mesma causa comum em favor de vocês mesmos, de suas famílias, das escolas e da sociedade. A palavra de ordem a ecoar em todos os recantos deveria ser esta: no amor de Cristo, Salvador e Libertador, vamos, unidos, defender a justiça.”

Operários

“A Pastoral Operária não quer outra coisa senão colocar-se a serviço da classe trabalhadora. Ela não é um grupo sindical ou político, mas é a presença dos trabalhadores dentro da igreja e a presença da Igreja entre os trabalhadores. Que a Pastoral Operária possa ser efetivamente assumida em todas as Revista da Arquidiocese 128

nossas paróquias. Que seus agentes, cheios de fé e coragem, possam, com seu testemunho cristão, esparramar esperança em nosso mundo do trabalho. E que os trabalhadores, integrados à Pastoral Operária, consigam irradiar, entre seus companheiros de labuta, a fé que os anima na construção do Reino de Deus – um Reino de justiça e liberdade para todos.”

Universidade

“... Confiamos nos jovens universitários, como acreditamos que a Universidade de amanhã ressurgirá dos escombros da Universidade de hoje, sufocada pelo dinheiro e pelas coisas que podem obstruir os grandes ideais da liberdade e da fé... ...É uma empresa difícil, mas compensadora. O meu grande sonho, depois que se conseguiu a criação da Universidade e a Pastoral da Arquidiocese de Goiânia. Não conseguimos ainda o ideal, falta muita coisa. Peço aos caríssimos dirigentes da Universidade, aos caríssimos Reitores e alunos de boa fé, que se integrem cada vez mais ao Plano de Pastoral da Arquidiocese, porque a única maneira de sermos fiéis e alcançarmos os ‘cem anos que não acabem mais’.”


Excertos

Posseiros

“Não há uma pessoa, uma família que não tenha direito de um lugar para morar. E, se Deus quis fazer sua habitação no meio da casa dos seus filhos, supõe-se que seus filhos também tenham casa. Eu creio que é tempo de o Povo de Deus tomar consciência destas realidades. Sei que muita gente se incomoda com essa atitude da Igreja em dizer essas coisas – que poderia ficar calada e cantar hinos de louvor a Deus porque fizemos uma casa pra Ele no meio dos filhos que não têm casa... Olhemos para a situação de Goiânia: é delicada. Querem que seja uma cidade com sinais de progresso humano, porém não toleram que, na cidade propriamente dita, os pobres tenham um lugar para morar.”

Juventude

“Além de ser um grupo mais numeroso na sociedade, a juventude apresenta-se hoje, como uma força nova, consciente de si mesma, enriquecida de ideias e valores próprios, com seu próprio dinamismo interno... Particularmente sensível aos problemas sociais, a Juventude impacienta-se e clama por reformas básicas, a curto prazo, sobretudo diante de situações ‘cuja injustiça brada aos céus’...”

Terra

“Chegará o dia, e já está chegando, em que a terra, nas cidades e nos campos, será respeitada e melhor distribuída e a legislação fundiária terá de ser modificada. Quem duvidar verá, se ainda não for possível esperar, que a Justiça Divina se manifestará e libertará o seu Povo.”

Comunidades Eclesiais de Base

“Hoje as CEBs constituem a tônica mais forte do Plano Pastoral da Arquidiocese, vivificadas com as luzes do Concílio e a experiência de muitas dioceses. Também nesse ponto tivemos de enfrentar as iras do regime totalitário, que chamavam as CEBs de ‘cédulas comunistas”, Ainda hoje, alguns ‘católicos’ dão crédito à nefasta propaganda do regime que, felizmente, está achegando ao fim. Pelo menos é essa a esperança deste País. Um reforço à nossa caminhada: nossa Arquidiocese foi escolhida para sediar o 6º Encontro Intereclesial das CEBs...” Revista da Arquidiocese Ano XXVIII – nº 6 e 7 junho/julho, 1985 Revista da Arquidiocese 129


Acervo Arquidiocese de Goiânia

g Poemas

Poemas

Dom Fernando também escrevia poesias. Antes de sua morte, cogitava-se a edição de um livro com os seus escritos poéticos, o que não chegou a ser realizado. Nesta edição especial, oferecemos uma coletânea dessas poesias

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Poemas

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Poemas

Poema da Morte g

(Poesia-profecia escrita por Dom Fernando em setembro de 1972)

Tudo foi tão rápido! De repente, o espaço sumiu, o tempo acabou. – Não sei como foi. Entrei com a vida no Infinito. – Não sei como foi. O corpo sumiu, para onde não sei. – Desnudo, liberto, tomei consciência de ser alguém. Por isso, talvez, senti-me tão bem! Julguei ser seguro como se todos e tudo, os homens, o mundo, estivessem comigo no Infinito. – Descrever não se pode. Não há frio, nem calor... Nada se sente, é diferente! A gente não ouve, não sofre, não geme, não tem fome, nem sede, não come, não bebe. Sem tato, sem dor, Revista da Arquidiocese 133


Poemas Artigos

sem cheiro, sem gosto, sem grito, sem choro, sem nada que impeça a liberdade na glória dos filhos de Deus. – O infinito consiste em ver e amar. Basta ver, intuir, Conhecer sem cessar, por amor, para amar. – Amar é morrer sem se acabar. Morrer é amar. Só isso, mais nada! – Libertação total Da inveja e do ódio, do ciúme e do medo. – No infinito não há aventura ou calúnia, conivência, omissão, injustiça, opressão. Morrer é tão bom! – Tudo isso foi sonho? Será profecia? Ficou na lembrança... – Um sonho, talvez, que me trouxe alegria, me alimenta a Esperança! – Quem me dera morrer de repente,

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Poemas

sem dar trabalho, mas trabalhando na missão, como agente da Redenção. – Morrer é tão bom! Para ver Sem sombra, sem véu, a face de Deus, na Casa do Pai que mora no céu! Revista da Arquidiocese Ano XXVIII – nº 6 e 7 junho/julho, 1985

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Poemas

A história g

da casinha

Da casa grande bem perto era uma vez a casinha, bem pequenina por certo. Vestida de branco, parecia o sorriso franco do arvoredo rendado. Nela morava o chacareiro com sua mulher e seus filhos. Era também carroceiro a conduzir arroz e milho para vendê-los na cidade vizinha. Aquela casinha, no alpendre, tinha um banquinho para acolher os amigos. Na frente um jardim, cheirando a jasmim. Então fundou-se a Escola para mostrar a juventude rural os caminhos do amor, do trabalho, do bem. Vieram os diretores, os professores, as religiosas também, alegres, ativas, servidoras de Cristo no cultivo da Vinha.

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Poemas

Cedendo a casa às irmãs o chacareiro se foi, conformado, saudoso, mas contente ao saber que cedia seu lugar para que os filhos dos outros se pudessem educar... Para melhor servir a causa do ensino, mudou-se o destino daquela casinha. Ela também cresceu, para abrigar maior número de freiras. Pressurosas, ligeiras, derrubaram paredes construiram mais celas. Pois não é que também elas tiveram que ir embora, depois da casa ampliada! Hoje a casinha pequena é grande, bonita, arrumada. Mas ao vê-la se tem pena... Agora é casa fechada, sem nada, sem ninguém. Dezembro, 1973 Revista da Arquidiocese 137


Poemas

Eu quis ficar de fora g Vivemos nos ajudando Anos mais anos seguidos. Uma só pessoa formando Por todos éramos tidos. Pensando do mesmo jeito As mesmas coisas querendo, Julgamos sempre bem feito o que estávamos fazendo. Mas eles foram mudando E julgaram-se importantes. Não viram estar cavando Entre nós fossos gritantes. Um abismo bem profundo, Desde a simples aparência A nossa visão do mundo. Perturbou a convivência... Sozinho, quase isolado, Sem ódio dos que me firam, Tenho sofrido calado As calúnias que me atiram. Diz-se que ao incomodado É que compete ir-se embora. Perplexo, desencantado, Desejei ficar de fora...

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Poemas

Depois de tanto pensar Supliquei ao meu Senhor Isso tudo superar Humilde, com muito amor. A todos os que me ferem, Lhes darei mais amizade, Querendo aos que me querem, Como manda a Caridade. Que seja sempre bendita Esta minha decis達o: Enquanto Deus me permita. Irei cumprindo a miss達o... Dezembro, 1973

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Poemas

Desencontro g Meu olhar está cansado De tanto olhar para lá... O meu amigo esperado Não chegou. Quando virá? Vive então sempre ocupado? Ou, quem sabe, ele estará Querendo ser convidado, Mas o convite... onde está? Esta na mútua amizade Pelo amor se aprofundando, Sem qualquer formalidade. Não pode ser mais assim, Um do outro se afastando Num desencontro sem fim. Dezembro, 1973

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Poemas

Lição da g

flor

A seus espinhos perguntou a flor Porque estavam ali, em redor dela. Responderam que estava, por amor, Só para vê-la e prá ficar com ela. A delicada flor, mimosa e bela, Deixou que se exalasse o seu odor. Num gesto carinhoso, muito dela, A todos aqueceu no seu calor. Os espinhos parecem agressivos. Para quem viu, porém, aquela cena, Bem ao contrário, são contemplativos... Aquela flor ensina a muita gente Tornar melhor a vida e mais amena, Seus espinhos beijando, complacente! Junho, 1975

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Poemas

O homem g O homem em mistério vive imerso. O que há dentro dele ninguém sabe. Em qualquer um de nós cabe o universo. Entretanto, em si mesmo ninguém cabe. Mesmo assim, em sentido bem diverso, Muito embora o mistério não acabe, O homem é cantado em prosa e verso, Por privilégios ter de que se gabe. Senhor do cosmos, deve concertar, Na mais sublime sinfonia do bem, Tudo o que existe, o céu, a terra, o mar. Realizando a vocação do amor, As coisas cabem nele... ele porém Cabe somente em Deus, seu Criador.

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Poemas

O dia de hoje g Não pensar mais no dia de ontem, nem no dia de amanhã. Que me baste o dia hoje com suas alegrias e tristezas, com as palavras inúteis que os homens proferem; com a sinceridade que às vezes me fere e fere também os outros, mas sempre adverte dos erros e desvios, das infidelidades, dos juízos apressados, das confidências hipócritas. Que o dia de hoje seja vivido na alegria, na verdade, na justiça, na paciência dinâmica que me perturba por fora e me corrige por dentro. Que o dia de hoje seja pleno e proveitoso para entender os outros, para suportar a mim mesmo, para dar graças a Deus e louvar o meu Senhor! Outubro, 1979 Revista da Arquidiocese 143


Poemas

Libertação g Quem desconhece as fonte da bondade E as riquezas do humano coração Não percebe a grandeza da amizade E, por vezes, ofende o próprio irmão... No mundo existe, assim, certa maldade: Agentes que se dizem “de exceção”, Usando as armas da arbitrariedade, Implantam o regime da opressão! Mas Deus libertador falou assim: “A Esperança jamais enganará, Bem depressa o perverso terá fim”. Vamos unidos – vem, ó irmão! Fazer o mundo novo que trará Justiça – Paz, Amor – Libertação”

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Poemas

Libertai-me, Senhor! g É triste, muito triste, a minha vida, Sinto que estou perdendo as esperanças. Não tenho forças nem amor à lida, Apenas vivo de velhas lembranças. Atravesso uma fase indefinida, Bem distante dos dias de bonanças. Sozinho estou, com alma ressentida, Um marginal das bem-aventuranças. Terá sentido a vida neste exílio Somando, sem poder, tanto martírio? Vinde, Senhor Jesus, em meu auxílio. Fazei-me ouvir mais claro a vossa voz. Libertai-me de vez deste delírio De dor, de tanto sofrimento atroz! Julho, 1970

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Poemas

Só isso!! g Aquela, rocha, Aquele penhasco, Aquela coisa dura no meio do mar... Os homens consideram Símbolo da firmeza Da segurança, Da força. Aquela pedra parece A imagem do poder... Do poder petrificado, Do poder que não pode... Pode somente Desafiar os ventos, Irritar as ondas Que se deixaram atrair Pela grandeza da pedra Ou pela inveja da pedra. Se aquela pedra vivesse Se o penhasco vivesse E sentisse A sua solidão Ele é pedra arrogante Mas não passa de pedra... Só isso...

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Poemas

Aquela pedra sou eu, No meio dos ventos e das ondas, Vendo os homens passarem: Aqueles a quem ajudei, Aqueles por quem sofri, Os que me deviam ajudar... Todos fogem de mim Para que eu seja somente Uma pedra, No meio do mar... Só isso! Ó Jesus, Tu és como pedra, Tu é a Pedra! Na tua solidão, Sentes também o martírio de estar só. Os homens se afastaram de ti Te desprezaram, Trairam, Negaram. Mesmo assim Quiseste salvar-nos Pela terrível lei do Amor... Na pobreza, Na renúncia, Na Esperança...

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Poemas

Que seria do edif铆cio, Da casa, Do mundo, Sem a fidelidade da pedra? Que seria da cidade dos homens, Da tua pr贸pria Igreja De todos, de tudo, Sem Ti Que 茅s Pedra? Senhor, Que eu te compreenda, E seja fiel. Tira-me tudo, Se quiseres... Mas deixa-me contigo. Isso me basta, S贸 isso! Agosto, 1954

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Poemas

Poemeto sofrido g A torre da Catedral ali está, apontando o infinito. É firme, impávida, altaneira, mas imóvel e parada. Não é fácil ser torre. É belo subir, mas é triste parar na subida e ficar sozinha lá no alto... Será que vale a pena estar lá em cima e não poder inclinar-se para ajudar os caídos? Vale a pena mostrar o céu sem ter condições de conquistá-lo? Antes ser pássaro, humilde, pequeno, mas livre, ligeiro, voando, cantando, na perene aventura de dar testemunho de liberdade.

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Poemas

Minha vida tem sido mistério oscilante de torre a passarinho. Passarinho na torre, passarinho no chão... Torre considerada arrogante, pesada, agressiva... Mas não passo de um marco surgindo da terra para dizer aos homens o que não lhes agrada... que é preciso subir que é preciso elevar-se. Hoje envelhecido, sofrido, estou parecendo o dia de ontem... Agora me dou conta de que parei no espaço, preso na terra debaixo de nuvens. Evaporou-se o tempo e com ele tudo se foi Os amigos – oh! os amigos agora... onde estão? Em lugar de glórias e saudades Revista da Arquidiocese 150


Poemas

tenho lutas e fadigas, lágrimas escondidas, gemidos abafados pelo vozerio que me cerca. Carrego responsabilidades nos meus ombros cansados. Quero libertar-me de mim mesmo Desprender-me da terra, ir além dos nevoeiros, sem presunção nem fraqueza, antes, com muito amor, para doar-me de vez. Não sou pássaro nem torre. Sou apenas eu mesmo, sofrendo, amando, pedindo perdão e perdoando... Estou morrendo na vida e vivendo da morte que é minha aurora de ressurreição! Dezembro, 1975

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Quadrinhas g ABRAÇOS Abraços! Eis um gesto acolhedor, Testemunho expressivo de afeição. Pena é que nas sutis vestes do amor Também possa abrigar-se a traição. AMIGO Não é para ninguém nenhum desdouro Procurá-lo com empenho mais profundo: Quem encontra um amigo acha um tesouro Que vale mais que tudo neste mundo. AMIZADE Amizade é do amor viva expressão. Simples, afável, desinterressada. Não procura a si mesma – é doação... Livre, espontânea, sempre renovada. AMOR Amar e ser amado por alguém É condição que todo amor requer. Por isso, coisa ruim é querer bem a quem recusa o bem que e gente quer. CALÚNIA A calúnia dos males é o maior, Que fere e dilacera, que consome, Matando, sem parar, o bem melhor Que temos nesta vida: o nosso nome.

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INGRATIDÃO A ingratidão é dor que dilacera O coração do amigo mais querido. Como borrasca em plena primavera. Transforma a vida em campo ressequido. TRISTEZA Tristeza é dor oculta dentro d’alma Que, por vezes, reflete-se no olhar. É chaga interior, serena e calma. Que vai matando a gente devagar... SAUDADE A saudade é presença disfarçada Do amor que está oculto ou bem pra lá.... Fez ver o que não vê e alvoroçada Sente dentro de si quem longe está. FÉ Virtude que nos leva à eternidade É pela Fé que vemos o invisível. Nela testemunhamos a verdade Que está fora do tempo perecível. ESPERANÇA Na Esperança a certeza que fruímos Do que virá... depois que tudo for. Mais ainda: por ela possuímos Toda verdade, a paz e todo amor. CARIDADE O próprio Deus em nós, a Caridade Nos liberta do medo e da opressão. Revista da Arquidiocese 153


Poemas

É síntese perfeita de bondade Que faz tratar o outro como irmão. PRUDÊNCIA Difícil a virtude da Prudência, Pois sua rival o mesmo nome toma... Não pode ser fraqueza ou indolência Quem das virtudes a virtude soma. FORTALEZA A Fortaleza é paz interior. Não se perturba, não se atemoriza. Tranquila e firme, agindo sem rancor, Tudo suporta, tudo valoriza. CORAGEM Não consiste em ser fraco nem ser forte, É fruto da justiça e da verdade. Tudo supera e vence a própria morte, Coragem é virtude da equidade. BONDADE A síntese dos dons mais desejados, Da Caridade a chama mais visível, Derrete corações petrificados, Pois a Bondade é mesmo irresistível. PERDÃO De todo gesto humano, o mais divino É perdoar a ofensa do inimigo, Compartilhar do louco o desatino Calar a ingratidão do seu amigo.

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A VIDA E O TEMPO A Vida, como o Tempo, continua. Aos trancos e barrancos, vai seguindo. Mas o Tempo nem para nem recua... A Vida cada dia vai se extinguindo. HOMENS Os homens, em geral, são muito bons Mas há também alguns que são cruéis: Trovões rompendo a sinfonia dos sons. Raios cortando os laços mais fiéis. COISAS Estão ficando as coisas muito ousadas Tomando sempre mais nosso lugar: As pessoas estão coisificadas De tanto as coisas personalizar. SONHOS Por causa da inveja e do egoísmo Ficamos inseguros e tristonhos... Girando só em nosso egocentrismo A vida toda se evapora em sonhos... LOUCURAS Há loucuras por falta de bom tino, Como as que no amor tem sua guarida. As primeiras perseguem mau destino, As outras dão sentido à própria vida. SOLIDÃO A solidão é fonte de energia, Mas é também refúgio do egoísmo. Revista da Arquidiocese 155


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A vida ou a morte, a paz ou a nostalgia Fazem dela fraqueza ou heroísmo. SOLIDÃO Solidão! Meu deserto ou meu jardim. Seu silêncio é de paz ou de rancor... O seu isolamento é para mim Tranquila segurança ou vil temor. VORAGEM Estou sendo atirado na voragem Do temor, do desânimo e do medo. É preciso voltar, com mais coragem, A lutar e vencer tamanho enredo.

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Vozes do sino g As vozes do sino São gritos de bronze Pedindo silêncio São pancadas de ferro Batendo nas almas Com açoite de fé Às vezes os sinos Acordam, convidam... São vozes eternas Que ficam zunindo Chamando o infinito, Sem nada dizer. As vozes do sino Penetram os espaços Do mundo das almas... E ficam lá detro Fazendo silêncio Para uni-las a Deus Aracaju, abril de 1956

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Trovas ligeiras g PLANETA DOS HOMENS Porque tantos crimes Cometidos nesta terra? – Nela estão os homens... CORAGEM A noite mais densa Será sempre passageira – O sol voltará SER BOM Aprenda a ser bom Contemplando a natureza... – A flor, por exemplo! CALÚNIA Atiraram pedras Contra as flores do pomar – Assim a calúnia! RETROCESSO Sem paz, sem justiça Prostituição do poder – Progresso às avessas! SENTIDO DA VIDA A morte é passagem Para a vida em plenitude – Divina Esperança.

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IRMÃ DALVA Na curva da estrada Uma emboscada de amor... – Jesus a esperava! PROVETA Bebê de proveta... Serão humanos os homens De laboratório? COINCIDÊNCIA Nem bem nasce o sol As nuvens vão lhe contar Notícias da noite... LIÇÕES DE PAULO..... Morte do Papa Multidões em prece O mundo inteiro em velório – Morreu Paulo Sexto. MORTE FELIZ Na vida e na morte A mesma tranquilidade Da paz que pregou! JUSTIÇA Para haver justiça Amor é o primeiro passo – Amar é difícil?

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MUNDO SEM GUERRA Que seja atendido O apelo do grande Papa: – “Nunca mais a guerra!” PAZ Para a paz do mundo O que falta todos querem: – Amor e Perdão! ECUMENISMO Unir as igrejas Em torno do mesmo Cristo... – Mundo de irmãos! VIDA Lutou como herói Para defender a vida. – Morrendo, está vivo! EVANGELIZAÇÃO Seu maior empenho, Evangelizar o mundo – Deu sentido à história! PEDIDO DA LUA Ao sol disse a lua: – Me dê luz pra iluminar A noite dos homens POBREZA As mãos de tão jovens Se apossam das riquezas... Revista da Arquidiocese 160


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– Há falta de mãos? Doença sem cura Mais que velhice, parece “cansaço da vida”. Por que desânimos, Não é a cruz que liberta? – Depois vem a vida! Dedicou a vida aos outros, fazendo o bem – Morreu ajudando. PIRILAMPO Insulto ou carícia? Milhares de vagalumes Beliscando a noite...

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A fé g Que lindo, contemplar daquele monte, O conjunto dos seres reunidos! Distante, além, nos longes do horizonte, Céu e terra parecem-nos unidos. Bem diferente é ver daqui da ponte, A confusão dos seres resumidos... Mesmo as águas que vêm da mesma fonte Se dispersam nos campos ressequidos. Neste contraste está grande mistério De Deus que ao homem deu, sobre o universo, Toda a força e poder e todo império. Na fé, portanto, está sua vocação: Ou tudo realiza, ou, ao inverso, Se destrói, corrompendo a Criação! Roma, 20 de fevereiro de 1930

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Confiança g Senhor! Tu me deste Bons auxiliares. Falta-me, entretanto, O que mais desejo: Merecer de todos eles, Não o respeito cauteloso, Mas a confiança generosa. Talvez a provação que me fere Seja providência amorosa, De teu coração de amigo. Não queres que eu pereça Na cegueira, Na vaidade tola, Dos que confiam em si. Senhor, que eu compreenda: A culpa não é deles Sou eu quem não confia Plenamente em ti... Por isso me procuro, Quando devia procurar- te... Com humildade, Com amor. Enfim, quem sou eu? Revista da Arquidiocese 163


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Nada sou, nada posso, Sem ti, meu Senhor! Aracaju, 12 de abril de 1953

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Isolamento e prece g Um a um, Eles estão saindo. Estou ficando com alguns que não saem... E com os poucos que são fiéis. Serei eu a causa? Talvez seja o pretexto Para a fuga Dos insatisfeitos... Eles não encontram, Em parte alguma, O que falta a si mesmos. O que mais me aflige Não é tanto a saída, Mas a marcha, A penosa caminhada Dos que não encontram lugar. Senhor! Não te peço que eles voltem Nem que outros fiquem. Peço-te que os sigas, Que lhes mostre o caminho, Até que te encontrem. Peço-te que me dês Mais amor Para cumprir, Com fidelidade, Revista da Arquidiocese 165


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Com eles ou sem eles, Mas sempre contigo, A tua vontade. Aracaju, 20 de outubro de 1953

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Desencontro g Meu olhar está cansado De tanto olhar para lá... O meu amigo esperado Não chegou. Quando virá? Vive então sempre ocupado? Ou, quem sabe, ele estará Querendo ser convidado, Mas o convite... onde está? Está na mútua amizade Pelo amor se aprofundando, Sem qualquer formalidade. Não pode ser mais assim, Um do outro se afastando Num desencontro sem fim. Dezembro, 1973

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Não pecar contra a luz g Estou cansado de esperar A reforma que não vem – É que ela está vindo Sem se anunciar Parece até que nem anda O que está caminhando... – Reformar é discernir O que é mutável Do que não pode mudar O dia que vai surgir, A noite que vai chegar Quem poderá impedir? – Reformar é liberta-se e libertar Da miséria, da fome, da opressão, mas, sobretudo do egoísmo que leva a pessoa a se aniquilar E assumir com decisão O que à vida conduz. É deixar a noite ser noite, Sem temer a escuridão. É deixar o dia ser dia, sem pecar contra a luz! Setembro, 1972

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Ascensão g Já na mente de Deus eu era alguém, Antes que fosse de qualquer idade... Venho de lá, do mais remoto além, Trazendo em mim, em germe, a eternidade. A vida me foi dada como um bem Que resume de Deus toda a bondade. Um mistério inefável que contém A mais forte expressão da caridade. Pela força do amor que tudo encerra, O mundo transforma, vencendo o mal Eis o que me compete, nessa terra. Minha vida, portanto, é vocação Que me leva à conquista do ideal Mais humano e sublime de ascensão! Goiânia, 28 de abril de 1968

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Angústia e prece g

Não suporto o pesar de pensar nele. Os seus olhos cegaram, E mais nada ele vê. Ele zomba de tudo Ou então fica mudo Em mais nada ele crê. Estou cansado de esperar por ele. Um ruído que ouço, Um zumbido que soa, Uma sombra de alguém, Tudo é barulho atoa... Não é ele que vem. Jesus, eu quero muito a ele, E mais ainda a tua Igreja. Consente que ele tenha A visão do abismo. Faze que ele veja, Faze que ele venha! Ouve, Senhor, por ele, a minha prece. É um bispo que clama Por teu padre, Senhor. É teu povo, lá fora, Tua Igreja que implora Um milagre do amor! Penedo, 13 de junho de 1948

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O drama da vida g Peregrinos na terra A gente vai vendo O drama que encerra A vida vivida. Sonhando ou sofrendo, Lutando ou dormindo A gente vai indo Vivendo na vida – Para onde, para quê? Uns sabem, outros não sabem. – Gemendo ou cantando, Sorrindo ou chorando, Com lar ou sem lar, Com fome ou sem fome, No calor ou no frio, A gente vai indo Dentro da vida – Quando a vida começa não para mais... O jeito é viver, Querendo ou sem querer Pois a vida me visita Mas nunca...1 – Quem não conduz a vida É levada por ela. – Para onde, para quê? – Os que sabem responder Dão sentido à vida,

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Trecho suprimido no original

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A plenificam do ser e do ter – Os que não sabem Se distraem na estrada Para não ver a vida... E deixam a vida correr. – Pobre de quem não vê a vida E deixa a vida passar... – Desse jeito, A gente nem sente, E a vida se vinga Acabando com a vida da gente... – Mas, mesmo assim, Vivendo sem vida. A gente, na vida, Vai indo, vai indo... Setembro, 1972

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A pedra g No caminho houve uma pedra. Era a pedra do meu caminho. Pensei em retirar a pedra do caminho, Mas o caminho ficaria sem pedra... – Como é vazio o caminho sem pedra! Preferi ficar com a pedra E perdi o caminho, Minha vida parou Petrificou-se Vida sem caminho, Vida de pedra. Resolvi deixar a pedra E atirei-a lá fora. Ficou, então, apenas o deserto.. Sem pedra e sem caminho! Em desespero, busquei no deserto O caminho que perdera, A pedra que deixara.... Depois, muito depois, Encontrei a pedra, a outra, Sentada no deserto Esperando por mim. E a pedra me disse: Revista da Arquidiocese 173


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– Eu sou o caminho, Eu sou a pedra. Desde então esta pedra Não foi mais pedra no meu caminho. Ficou sendo Minha pedra Meu caminho Minha vida. Goiânia, 2 de setembro de 1960

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Chegando ao fim g A vida me sorriu, em tempos idos... Alegre trabalhei, sempre venci Com vigor e com ânimo incontidos, Por Cristo, o bom combate combati. Cidades e cidades percorri, Levando a Boa Nova aos mais sofridos. – Passou, porém, o tempo que vivi Devotado aos ofícios mais queridos. Ao clarão duma Igreja renovada, Um mundo novo vem surgindo agora Dos restos duma idade ultrapassada. É triste alguém sentir que chega ao fim Depois da noite, vendo a luz da aurora... Será, meu Deus, que morrerei assim? Na chácara Nossa Senhora da Guia, 18 de abril de 1968

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Paz interior g O mundo é triste quando se está triste, Alegre, quando a gente está feliz. O problema, portanto, só existe Dentro, “no coração”, como se diz. Afortunado aquele que resiste À tentação de ser um infeliz, Pois a tranquilidade ainda consiste Na vitória de quem não se maldiz. Virtuoso quem guarda na lembrança Os encontros felizes do caminho, Que alimentam a chama da esperança. Esperar é ungir com muito amor A ferida agudíssima do espinho Que nos perturba a paz interior. Goiânia, 4 de abril de 1968

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