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O melhor dos dois mundos

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á quem diga que não existe algo de melhor em dois mundos distintos. Há quem acredite que isso não pode dar certo e é uma ilusão extrair algo de dois mundos. Quiçá impossível! Sabe o que é legal? Calar a boca do povo e provar que sim, é possível! Enquanto mídias digitais e gratuitas, os periódicos têm o seu papel bem definido que é divulgar, manifestar opiniões, informar e levar esta informação até onde pode alcançar, para qualquer lugar. Mesmo com as barreiras linguísticas, sempre existirá um que entende o que você está falando. Diante disso, poderia haver competição. Sim, ela existe. Uma competição do bem, claro, pois a missão é levar o que nem sempre chega à boa parte das pessoas. A missão é única: mostrar o que está sendo feito. E por querer mostrar este trabalho é que a Rock Meeting e a Hell Divine mostram o melhor delas, dos supracitados dois mundos. Como? Resolvemos criar a “Meeting Hell” para mostrar como é o nosso mundo. O mundo dos produtores, das redações, das gravadoras e outras publicações; o que os músicos pensam sobre determinado assunto, polêmicas. O assunto girando no sol: a música. Informar não é apenas escrever e publicar. É necessário ter coragem. Sim, coragem, uma vez que não são todos que transformam as críticas em atitudes benéficas, desde que elas tenham fundamento, óbvio. Insultos e falácias não são críticas, são atitudes invejosas de quem nunca conseguiu chegar onde quis. Por falar em críticas, as queremos e queremos todas elas. É nosso termômetro para pensar nos próximos passos. Acertar. Corrigir. Ousar. Passo importante para exibir “o melhor dos dois mundos”! Por Pedro Humangous e Pei Fon


7 anos trabalhando com os melhores

minds that rock

www.metalmedia.com.br


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8. Revistas de Heavy Metal no Brasil 20. Produtor de eventos 28. Produtor Musical 38. Correspondente 50. Gravadoras (Die Hard) 60. Artista Gráfico 68. Metal Open Air 72. Por onde anda 76. 5 cd’s para sair da mesmice 84. I Wish

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Staff Editores Colaboraram Pedro Humangous Mauricio Melo Pei Fon João Messias Jr.

Diagramação Pei Fon

Capa e Logotipo Gustavo Sazes

Designer Alcides Burn

Revisão Flávia Pais


Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Revista de Heavy Metal no Brasil “A informação em transformação” Antes do surgimento da internet, os meios impressos dominavam a cena. As revistas de Heavy Metal eram as únicas fontes de informação para o público. Nessa era digital que vivemos, muita coisa mudou. A forma como consumimos informação e música está mudada e em constante transformação. Revistas como Rock Brigade, Rock Hard Valhalla e Roadie Crew foram literalmente a bíblia do headbanger por muitos anos e serviram de inspiração para as versões digitais existentes no Brasil como Hell Divine e Rock Meeting. E como fica essa convivência atualmente? Existe espaço para todos? Conversamos com Eliton Tomasi, Claudio Vicentin e Ricardo Batalha pra entender como era no passado, como está no presente e o que pode vir pela frente num futuro próximo em relação a esse mercado. Vale a pena conferir! Por Pedro Humangous | Foto Divulgação/Arquivo Pessoal

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A Roadie Crew começou em 97, pouco antes desse “boom” da era digital. Como vocês corriam atrás de material naquela época? Era muito difícil conseguir entrevistas com as bandas ou discos para resenhar? Claudio Vicentin: Logicamente que no começo foi difícil. Não pelo fato de estarmos em um momento em que as comunicações eram mais complicadas, mas porque éramos um veículo novo e do Brasil. As gravadoras desconfiavam. Com o tempo, mostrando o trabalho sério e profissional tudo foi se tornando normal. Ricardo Batalha: Realmente foi muito difícil. Nada a ver com o que ocorre atualmente, com o volume absurdo de material que é lançado semanalmente e chega tanto pelos Correios, como em formato digital para download. Não tem nem como começar a comparar. Entrevistas eram uma lutas para se conseguir. Como éramos todos colaboradores, já que não era uma revista e sim, um fanzine em preto e branco, com poucas páginas e sem nenhum nome no meio, havia mais dificuldade. Vale lembrar que na época existiam outras publicações mensais no mercado. A Roadie Crew começou como um fanzine e a primeira edição saiu em agosto de 1994, quando ocorreu o primeiro “Monsters Of Rock” em São Paulo. Passou a ser uma revista em maio de 1998, com a edição n° 8 e manteve-se inicialmente com frequência bimestral até a edição n° 25, quando passou a ser publicada mensalmente. Eliton, você foi editor da extinta Rock Hard/Valhalla, uma das publicações mais legais no Brasil, sendo a maior “concorrente” da Roadie Crew (que ainda se mantém na ativa). Como era ter uma revista de Heavy Metal no Brasil

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Eliton Tomasi - Valhala | Rock Brigade


naquela época? Eliton Tomasi: Era bem diferente. As revistas impressas eram a principal (quase única) fonte de informação sobre o assunto. Não havia internet e redes sociais. Você conhecia uma banda nova (ou antiga) lendo resenhas e entrevistas nessas revistas. Depois você corria para a loja de discos. O mercado funcionava como um mecanismo mais ajustado. Hoje em dia as revistas impressas talvez sejam um dos últimos recursos ao qual o fã recorre para conhecer bandas e lançamentos. Mercadologicamente, é muito caro produzir uma revista impressa diante da pouca demanda. Por isso que hoje temos apenas uma revista em circulação, quando já tivemos quatro ou cinco. Quando vocês ainda estavam na ativa, a concorrência era grande certo? Como era lidar com esse tipo de “briga” pelo leitor? Quais estratégias adotavam para se diferenciar? Eliton Tomasi: Pois é, como disse, chegamos a ter cinco ou mais publicações sendo lançadas na mesma época. Além da Valhalla e Roadie Crew, tínhamos a Rock Brigade (certamente a mãe de todas as publicações especializadas), Strike, Dynamite, Slammin, Metalhead, Comando Rock. Na época da Valhalla sempre apostamos em buscar pautas diferenciadas, pensar fora da caixa e evitar o óbvio. Tínhamos seções e matérias especiais. Também buscamos expandir nossa abrangência editorial não falando apenas de Heavy Metal e Classic Rock, mas todos os segmentos do Rock ‘N’ Roll, com gente especializada em cada assunto. Também sempre nos preocupamos muito com a qualidade dos textos, conteúdo visual e arte. Acho que tudo isso, somado a linguagem própria de se comunicar, deu uma identidade bastante forte à Valhalla na época.

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Foto: Sebastian Cauvet

Ricardo Batalha - Roadie Crew

Qual era a média de tiragem da Rock Hard/Valhalla? Era muito difícil fazer a revista chegar em todos os cantos do país? Quais eram as dificuldades encontradas por vocês no âmbito geral? Eliton Tomasi: A média eram 30 mil exemplares por edição/mês. A tiragem era sempre baseada na demanda pela distribuidora (durante todo nosso tempo no mercado trabalhamos com a Fernando Chinaglia). Quanto mais vendia, mais a distribuidora impulsionava a editora a atender a demanda e expandir a tiragem e abrangência. Primeiro começava com uma tiragem mais tímida que abrangia os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Com o tempo você ia expandindo até cobrir o Brasil todo, chegando até a exportar para Portugal. Então éramos sempre motivados a divulgar bastante

a revista, produzir bom conteúdo para que pudesse vender mais e assim podermos expandir a tiragem. Acredito que esse mercado de publicações impressas era muito mais forte antes da internet aparecer, certo? Hoje em dia, com uma tiragem menor do que em anos anteriores, como vocês avaliam esse mercado de nicho? Quais as dificuldades encontradas para se manterem ativos na cena? Claudio Vicentin: Para tudo nesse mundo existe adequação e por sermos mercado de nicho sofremos menos com isso. E tem mais, por sermos uma publicação de Heavy Metal, nossa tiragem não teve uma diminuição considerável. As assinaturas nunca tiveram queda,

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apenas crescem a cada ano. Nós, fãs de Metal, somos fieis e queremos os produtos. A dificuldade hoje vem muito mais da economia do país do que por motivo da internet. A internet na verdade só nos ajuda a termos mais contato com nossos leitores e fãs de Metal. Além disso, temos a parte comercial que é muito importante para a manutenção de toda a estrutura e não podemos esquecer que publicidade também é informação. Ricardo Batalha: Escuto há anos que a revista vai acabar, que ninguém mais liga para publicações impressas e que na internet tem tudo que precisam. Realmente, eu não entraria em nenhuma revista impressa que fosse começar agora, mas a Roadie Crew ainda está aí. Além de publicações que foram saindo de cena, também vimos sites muito bons infeliz-

mente saírem do ar por falta de aporte financeiro, desistência mesmo de lutar por algo que, embora bem feito, não trazia o resultado esperado. Entretanto, quem está na ativa, com frequência e habitualidade, tende a se sobressair. Uma pena que a cultura dos cliques somente em coisas polêmicas tenha se alastrado ao Heavy Metal e que hoje em dia vale mais a manchete que a pesquisa profunda. As pessoas não querem saber se o autor foi atrás da pauta, apurou os fatos e fez com seu próprio esforço. É triste ver que hoje poucos querem produzir e que poucos sem importam que seja um control C + control V de notícia traduzida. Vendo assim, parece não ser mais necessário uma boa equipe e um trabalho profissional, já que hoje qualquer fã que tenha um tradutor se acha “expert”. Veja, muita gente que inicia

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Claudio Vicentin - Roadie Crew

os trabalhos e tem intenção de fazer algo mais profissional e sério, sofre com isso. Ainda assim, mantenho o que sempre falei: quem pensa só com cabeça de fã não consegue trabalhar bem.

tão tem mais tempo nesse meio também na ativa de forma intensa. Enxergo essa renovação nas pessoas que leem a Roadie Crew, assinam a revista. Vejo também cada vez mais fãs curtindo novas bandas, as pessoas querem buscar novas bandas e usam a revista para isso. Ricardo Batalha: Podem ter sido diversos fatores, do financeiro à falta de interesse. Conheço muita gente boa que simplesmente preferiu jogar a toalha – e em muitos casos até apoiei a decisão, porque realmente não é fácil trabalhar num meio tão ingrato e pequeno. O cenário em termos de lançamento está aquecido e até inchado, ainda que todos estão cansados de saber dos problemas que todas as bandas passam para poder chegar até o resultado final.

Hoje vocês são praticamente a única revista impressa (de forma contínua) de Heavy Metal no Brasil e desempenham um papel importantíssimo na “educação” dos headbangers. O que acham que pode ter acontecido para que as demais encerrassem suas atividades? Qual sua avaliação do cenário recente/atual? Claudio Vicentin: Vejo que existe uma ótima renovação e manutenção. Vemos novos fãs indo aos shows e os amigos de sempre que es-

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O tempo é cada vez mais valioso em nossos dias. Pessoas não compram mais discos ou não dedicam mais alguns minutos para ouvir suas bandas favoritas, em um álbum completo por exemplo. Ouve-se de tudo um pouco no modo “shuffle” do ipod e no fundo não se conhece nada, ficam no conhecimento raso. Acredito que a mesma coisa vem acontecendo com as publicações impressas como jornais e revistas certo? O fã tem preguiça de ler textos mais complexos e extensos, preferindo viver de imagens cômicas ou textos de 140 caracteres, encontrando seu lugar atrás da tela do computador e reclamando de tudo. Será que o futuro da música, seja ele em áudio ou visual, está comprometido em sua essência? Estamos em uma fase de transformação da indústria fonográfica? Claudio Vicentin: Não podemos generalizar. Para muitas pessoas o tempo é valioso. Quando estão lendo um jornal ou uma revista, se informam curtindo aquele momento. Muito se fala há anos que a internet vai acabar com jornal, com revistas, TV, etc. E isso não acontece porque na verdade o impresso traz credibilidade. E essas maneiras de receber informação se interagem. Podemos estar no meio de transformações, mas o que o leitor quer mesmo é uma boa história então cada um que faça sua parte. A Roadie Crew sempre aprofundou assuntos, nunca teve entrevistas pequenas e as seções também são bem informativas e é isso que nossos leitores querem, além da credibilidade. Ainda tenho muitos amigos que adquirem CDs e escutam com calma, leem as letras, curtem o encarte e aquele momento é valioso para eles. Existem outros que compram LPs e singles. Se a banda é boa, vende. Se não, está

Eliton, como era o respaldo do público durante esses anos da revista? O que aconteceu para que tomassem a decisão de encerrar as atividades? Eliton Tomasi: O respaldo sempre foi muito bom. Comecei a revista quando tinha 18 anos de idade. Era um fanzine de 10 páginas com xerox de má qualidade. Tudo que aprendi, seja do meio musical, jornalístico/editorial, foi com a revista. O começo foi ingênuo e romântico, mas sempre com a pretensão de evoluir. E foi com esse espírito que conquistamos leitores e anunciantes, o que permitiu que permanecêssemos por 11 anos no mercado. Encerramos as atividades por causa da internet que mudou o padrão de comportamento do público consumidor.

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fadada ao fracasso seja com ou sem internet. Ricardo Batalha: Faz muito tempo que vivemos esta fase de transformação. Eu me preocupo com pessoas que compram discos e se dedicam a ouvir um álbum completo. Sobre as outras, por mais antenadas que sejam, o maior “perigo” é não haver aquela forma de criação de novos ídolos, porque estes não sabem mais nem quem está tocando, qual o nome da música e como é a capa o encarte, o nome do produtor... Eles estão deixando de lado tudo que os outros – colecionadores, saudosistas, velhos, antigos, chamem como quiserem – sempre curtiram saber. Se não sabem nem a cara e o nome do músico de uma banda que baixaram para colocar no Ipod ou que ouviram em streaming, como será daqui a alguns anos? Eles são assim, no fundo não conhecem tanta coisa, mas não estão nem um pouco preocupados se ficam no conhecimento raso. Veja, você falou de preguiça e eu entendo perfeitamente isso, mas nós trabalhamos para quem gosta de textos mais complexos e extensos e não o contrário. Eliton Tomasi: A fase de transformação da indústria fonográfica – e do mercado editorial – iniciou-se justamente na mesma época que decidimos sair do mercado. A consciência digital trouxe um senso de democracia e liberdade que não existia no mercado há 20 anos. Como disse numa resposta acima, existia um mecanismo mais ajustado onde as grandes gravadoras estavam no topo da “cadeia alimentar”. Hoje é o público quem comanda, por isso no Brasil estilos musicais como Sertanejo e Funk lideram – reflexo direto do nível educacional e cultural da população. Quando se fala em Rock, é natural que fiquemos na superfície, já que não temos mais as gravadoras lançando e investindo em novos artistas. Era um sistema capitalista tão poderoso que até hoje, mesmo

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com esse senso de liberdade, as pessoas ainda se mantêm presas ao que essas grandes corporações promoveram na época. E isso reflete diretamente na essência do fazer artístico/musical: o palco. Infelizmente os pequenos bares e clubes têm sua programação quase totalmente voltada ao cover e os grandes festivais foram transformados em grandes asilos roqueiros, com todo respeito aos grandes mestres, é claro. Essa situação precisa mudar, pois a música, enquanto formato, não é mais vendida. Tudo está migrando para a distribuição gratuita via streaming – embora sempre vá existir fãs de formatos físicos distintos. O palco é o único recurso do artista, mas ele ainda continua fechado ao novo autoral. Neste ponto que a mídia é providencial para ajudar na transformação da consciência do público (que está no comando), no sentido de sugerir mudanças de comportamento. Precisamos de novas referências nesse setor, com mais idealismo e menos interesses pessoais. Precisamos de novos heróis da mídia! Quem se candidata? O que acham de publicações em formato de revista digital, como a Hell Divine e a Rock Meeting? É válido manter esse legado impresso em forma digital ou acaba sofrendo os mesmos “castigos” de uma Roadie Crew, Rock Brigade, Metal Hammer, etc? Eliton Tomasi: Claro que é válido. Como acabei de dizer, precisamos de novos heróis da comunicação especializada. E quanto menos um formato depender de dinheiro para estabelecer seu modelo de negócios, melhor. Esse é o caso dos sites e revistas digitais! Quanto mais você depende de dinheiro, mais engessado fica seu trabalho. Quanto mais engessado está, menos liberdade e idealismo. Nesse sentido acredito que formatos de revistas digitais

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muita dificuldade em se ler um texto na internet que seja mais aprofundado e por isso mesmo que os meios de comunicação não conseguem ainda ganhar dinheiro nesse formato. Eu acho que as revistas, jornais, etc., podem coexistir com seus equivalentes formatos digitais. A própria informática trouxe uma enorme qualidade para as impressões de revistas e jornais. E nada como segurar na mão, tocar e levar para onde quiser. Ricardo Batalha: Acredito que sim, acaba sofrendo os mesmos “castigos”. No entanto, claro que é louvável qualquer iniciativa que vise engrandecer algo que é tão pequeno e ínfimo como o meio do Heavy Metal no Brasil. Iniciativas como estas sempre terão meu apoio.

como Hell Divine e a Rock Meeting representam um grande potencial. Talvez não com o mesmo padrão estético, seguindo a diagramação de uma revista impressa, mas no espírito de se estabelecer uma equipe de críticos especializados, com material e conteúdo melhor elaborado, matérias especiais e espírito engajado. O problema é que, justamente por ser mais simples (ou mais barato) disponibilizar um site ou blog, os esforços para evoluir e ganhar espaço acabam sendo pequenos também. Ninguém acaba levando tudo muito a sério. São poucos os sites ou veículos digitais que se mantêm no mercado por mais de um ou dois anos. Claudio Vicentin: Acredito que todos podem fazer da maneira que acharem melhor. Importante é a qualidade, mas ainda existe

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Produtor de Show “Poxa, que caro esse ingresso”! “O produtor quer enriquecer à nossas custas”. Quem nunca ouviu estas e outras frases semelhantes quando um show é anunciado? Sem contar que você lê os mais diversos questionamentos. O produtor de show é o cara mais injustiçado que se tem conhecimento. Ele está sempre no meio na tabela de satisfação. Ora está nas alturas porque o evento deu tudo certo. Ora está em baixa porque o evento não “corresponde” com a realidade da cidade, na visão de quem consome este produto. Na realidade, o produtor de shows é sempre o primeiro e último a sair da festa. É quem leva todo o problema antes, durante e depois do espetáculo para casa. Sejam eles bons ou ruins. E para entender melhor sobre este mundo conversamos com Marcos Baptista, da Dark Dimensions, produtora de shows que já trouxe bandas como Within Temptation, Eluveitie, Apocalyptica, Rob Halford, Arch Enemy, Testament, Epica, Cradle of Filth, Korpiklaani, Sebastian Bach. Deleite-se!

Por Pei Fon | Fotos Arquivo Pessoal

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Na produção de um show, o que vem primeiro: a escolha da banda ou o que tem em caixa? Claro que é o caixa, precisamos saber quanto temos para poder ver o artista que se encaixa na realidade financeira da produtora. A opinião do público influencia na escolha da banda? É feito algum tipo de pesquisa? Sim, a opinião do público é muito importante, mas sempre procuramos estudar cada banda para ver se é viável ou não o show da mesma; às vezes apostamos em alguns nomes, na maioria das vezes dá certo, ainda bem! Todo produtor precisa ter um fundo de caixa para garantir que, ao menos, os custos da banda sejam pagos ou fica dependendo do fluxo dos ingressos? Eu sempre trabalhei com o meu caixa. Tem muito aventureiro por aí que trabalha contando somente com a venda de ingressos, o que não é o certo. Imagine você esperando a venda de ingressos e não consegue uma boa venda antecipada, como vai pagar os custos? Por isso que tem muito produtor aí adiando tours com desculpas esfarrapadas. Falta seriedade! Fazer show é ou não é fazer um negócio? Ou seria um fã que quer ver aquele show na cidade? Encaro 100% como um negócio. Eu já trabalhei com algumas bandas que eu sou fã, mas ninguém nunca ficou sabendo, eu guardo isso pra mim. Por que é mais complicado obter patrocínio para shows de Rock/Metal? Existe algum tipo de resistência/preconceito com o estilo musical?

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Infelizmente o rock não vende como os outros estilos, claro que isso não inclui os grandes nomes como Kiss, AC/DC, Metallica e etc. Eu estou produzindo shows há 12 anos e nunca consegui um patrocínio, muitas empresas tem preconceito porque não é o público que a mesma quer atingir. Como você lida com as críticas do público como o preço do ingresso, por exemplo? Eu entendo as críticas do público. O país passa por uma grande crise financeira, mas é complicado ainda mais com o aumento do dólar, produzir os shows de forma independente fica impossível colocar um valor baixo de ingresso. A Dark Dimensions é uma das poucas produtoras que coloca o preço dos ingressos ente 100 e 120 reais. Um exemplo foi no ano passado onde produzimos um festival em São Paulo com quatro bandas internacionais e o ingresso custou R$ 120. Se eu não me engano, inédito! Para contornar as situações de crise, você conta com assessores de comunicação ou você mesmo vai lá e responde os questionamentos? Eu gosto de colocar a mão na massa e responder todos os questionamentos. O que frustra o produtor? O que me frustra é fazer um grande esforço para levar algum show em estados que não costuma ter muitos shows e o público não prestigiar, isso me deixa com a sensação de que o esforço foi todo em vão. Para quem quer produzir um show, quais são os passos necessários? Cite estes pontos. Fale um pouco sobre eles. Geralmente são três pontos:

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Primeiro: Capital. Sem ele possivelmente você não vai conseguir levar adiante seu evento. Imprevistos são normais no meio, se você não tem verba para cobrir, você vai para o buraco; Segundo: Profissionais. É muito comum ver gente despreparada sendo contratada para trabalhar em produção, inclusive em funções cujo conhecimento técnico é fundamental para gerenciamento de riscos e crises; Terceiro: Experiência. Também é muito comum ver produtores trabalhando tensos o tempo todo devido à falta de gerenciamento de atividade. Por um hábito cultural de ir “descobrindo o que tem que ser feito”, ao invés de planejar desde o início. A falha na comunica-

ção geralmente ocorre devido à falta de planejamento da comunicação e falta de orçamento, claro que experiência você terá com o tempo, mas é sempre importante você contratar alguém que está acostumado com o trabalho no começo de tudo. Por fim, o que motiva tanto em continuar a produzir eventos? Eu confesso que com o aumento do dólar eu estou um pouco desmotivado, estamos segurando um pouco para fechar com outros artistas, mas o show nunca pode acabar (risos). Agradeço pelo convite e curtam a página da Dark Dimensions.

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Produtor Musical O que seria da música sem o produtor musical? Nada! Ele é quem dá as cartas no som, ele é quem diz se sua ideia está boa ou não, ele é o seu psicólogo nas horas mais difíceis. Chega um momento que o cara que você contratou vira teu amigo. Quantos casos isso já não aconteceu? Mas o produtor musical não é seu amigo no momento da composição. Ele está ali para falar a verdade, mesmo que você não goste. E quem tem mais paciência? O produtor, claro. É trabalho, mas há hora que nem ele aguenta e pede para sair. Paciência tem limite. Quando o produto dá certo, o produtor é logo lembrado. Por quê? Ah, se não fosse o puxão de orelha, aquela bronca, aquela conversa no canto da parede para mostrar a realidade. Estes são alguns pontos que o produtor musical vive diariamente. E para falar mais a respeito, Fabiano Penna aceitou nosso convite e conta tudo e mais um pouco sobre o seu ofício. Prontos?

Por Pei Fon | Foto Synara Rocha

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Por favor, apresente-se! Olá, eu sou Fabiano Penna, sou de Porto Alegre, mas moro em São Paulo há alguns anos. Sou guitarrista autodidata e produtor musical. Atualmente estou retomando meu trabalho como guitarrista junto à banda de Death Metal Rebaelliun e sigo com a produção de álbuns que faço há mais de 10 anos. Em estúdio, já trabalhei com bandas como Andralls, Unearthly, Hibria, Distraught, The Ordher, Blackning, Chaos Synopsis entre outras. De uma forma didática, o que um produtor musical faz? O produtor musical direciona a banda pra chegar num resultado pretendido pro projeto específico que pode ser um disco, um EP, um single. O envolvimento pode ser total ou não, pode já começar na pré-produção do trabalho, na composição, escolha do(s) estúdio(s) onde a captação vai ser feita, escolha do engenheiro de som, dos instrumentos a serem usados, dos arranjos, de músicos extras pra gravar outros instrumentos, etc. Em alguns discos, eu acabo atuando mais como técnico de som mesmo, mais preocupado em captar bem, mas dando uma dica aqui e outra ali. Em outros praticamente faço parte da banda, ajudando a compor as músicas ainda na fase de pré-produção, escrevendo letras e até tocando guitarra no disco. E por último, mas não menos importante, o produtor acaba sendo um mediador entre os membros da banda, procurando tirar o melhor de cada um, evitando atritos entre os músicos quando as opiniões são contrárias, sempre visando o produto final que é a boa música. O trabalho de produtor musical requer muito conhecimento na música. Como você iniciou na produção? Eu comecei na música relativamente tarde.

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Apesar de ouvir muita música em casa desde cedo, por grande influência da minha mãe que chegou a ter uma banda na adolescência, sempre preferi jogar futebol e andar de skate às aulas de violão que tive lá pelos 13 anos. Mas aos 14 eu comecei a ouvir Heavy Metal por influência de amigos do bairro, aí pintou a vontade de tocar e ter uma banda. Fui autodidata na guitarra, tentei aulas com alguns guitarristas mais experientes, mas nunca deu certo. Nunca gostei de alguém me dizendo que eu tava fazendo algo ‘errado’, porque nunca consegui conceber que na música - como em toda arte pudesse existir certo ou errado e levo isso até hoje comigo. Enquanto estava com as minhas primeiras bandas, sempre que a gente gravava em algum estúdio, gostava de observar o técnico de som trabalhar. Um dia o dono de um estúdio, percebendo meu interesse, me convidou pra ser assistente dele. Em alguns meses eu já tinha aprendido a gravar (isso era ainda na época das gravações analógicas em fita rolo) e como eu tinha uma comunicação boa com as bandas, comecei a perceber que podia dar dicas baseadas na minha própria experiência como músico. E aí foi consequência, uma hora eu estava produzindo as bandas sem perceber. Acho que um dia vi em algum CD meu nome como produtor e ficou (risos). Mas ouço todo tipo de música, estudei até orquestração por um tempo com um Maestro, já que também componho música pra cinema e a soma disso vai te dando knowhow pra trabalhar melhor. E o lance é nunca parar de aprender; sempre que pinta um disco novo pra produzir, procuro ouvir referências pra dar conta. Pode-se dizer que o produtor está gerando um filho. Com toda a responsabilidade que lhe é atribuída, como se sente quando o trabalho chega ao fim?

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No geral tem o alívio de saber que todos sobrevivemos ao processo, porque é desgastante gravar um disco com uma banda, lidar muitas vezes com os egos das pessoas, com atritos que existem e que acabam ficando mais evidentes durante a produção de um disco, onde todos querem que a coisa saia do seu jeito e nem sempre há consenso em relação ao caminho que o disco deve tomar. E tem o orgulho depois de ver o disco pronto, as resenhas positivas, as pessoas comentando do trabalho em si, a própria banda muitas vezes reconhecendo que a parceria deu certo e que o resultado foi o esperado. Mas aí já estou em outro projeto e começa tudo de novo…

rem a gravação pra uns meses depois. Nunca remarcaram e ouvi falar que a banda encerrou as atividades depois daquela fatídica noite… Houve algum projeto que simplesmente não aconteceu porque os músicos não corresponderam com o esperado? Houve esse que acabei de contar (risos). Há outros projetos que rolam coisas similares, não tão radicais, mas que são delicadas também. Se a banda tem dois guitarristas e percebo que a diferença de nível entre ambos é desproporcional, vou chegar num momento e explicar que, para o bem do disco, só o guitarrista ‘A’ deve gravar. Aí com certeza o guitarrista ‘B’ vai levar para o pessoal, vai argumentar, ficar emburrado, alguns vão embora, passam a me odiar e por aí vai. Mas é aquilo: viso qualidade final do trabalho. O músico é egocêntrico por natureza, mas pra fazer sentido ele no mínimo tem que ser muito foda tocando. Se ele for egocêntrico e tocar mal, aí complica, né?

Além de produzir o que a banda necessita, ainda desenvolve um papel de psicólogo na motivação dos músicos. Houve algum momento que não conseguiu nem iniciar o projeto? Sim, tem esse papel de mediador que falei antes e muitas vezes beira a psicologia mesmo (risos). Hoje em dia consigo evitar entrar em projetos que não vão dar em nada, as bandas podem já gravar pré-produções em casa e aí, quando eu ouço e me dou conta que a banda não tem condições de gravar, já aviso e peço pra ensaiarem mais, estudarem e tal. Mas antigamente isso não existia, aí havia muita surpresa: músico que acha que arrebenta nos ensaios, onde está tudo alto e ninguém realmente ouve o que o outro está tocando, então, na hora de gravar, a casa cai. Houve uma banda que fui gravar no RS há uns 15 anos em que o baterista não conseguia tocar nem um minuto da música em cima do metrônomo e como ainda era na gravação analógica, não tinha nem o recurso de ‘montar’ as batidas. Depois de algumas horas de tentativas frustradas, reuni a banda e pedi pra eles se prepararem melhor e remarca-

Você já deve ter visto de tudo, o que mais lhe chamou atenção? Difícil escolher algo específico… Já vi briga dentro do estúdio diversas vezes, briga de músico com namorada durante as gravações, briga entre os músicos por causa da namorada de um deles, banda que leva tipo 15 amigos pra ‘assistirem’ as gravações e os amigos chegam com vários garrafões de vinho no estúdio até o ponto que um cai por cima do equipamento e você tem que mandar todo mundo embora. Acho que antigamente rolava mais disso porque era tudo feito num estúdio e como havia poucos deles isso se tornava um evento; nisso os músicos levavam amigos, namoradas, familiares. Era engraçado. Hoje muita coisa é feita em casa, o estúdio é usado mais pontualmente e diminuiu essa junção de gente. Ah, falando

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Já aconteceu da banda ou músico chegar com uma ideia e você vetar aquilo e dizer que não é possível? Todo momento. É clássico o cara que diz que o disco dele tem que soar igual ao Black Album do Metallica. Ele tem dois mil reais pra gravar, toca por hobby e quer o mesmo resultado de um disco que custou uma fortuna, demorou meses pra ser gravado e foi executado por músicos que estão há vinte, trinta anos na estrada, num equipamento de ponta. Aí tem que explicar que vamos fazer o melhor dentro das possibilidades de todos, que nosso orçamento é curto, que a banda ainda é nova, que estamos produzindo tudo dentro de um computador; que se eu fosse o Bob Rock ele dificilmente teria como me contratar (hahaha). Mas tirando isso, sempre falo que a palavra final é da banda. Se o cara diz que quer uma sanfona no refrão e acho que vai ficar ruim, falo, explico e argumento. Se ele insistir, vai usar a sanfona igual, afinal de contas o disco é dele.

em junção, lembro que uma vez gravei uma banda de pagode (sim, eu já gravei pagode!) lá no Sul. Era uma música que ia tocar numa rádio e tinha que ter o clima ao vivo. Numa das sessões a banda levou toda ‘comunidade’ pra dentro do estúdio pra gravar o refrão cantando, acho que umas quarenta pessoas. Foi uma zona completa… Dentre os trabalhos que já realizou, cite alguns casos e conte como foi o processo de gravação. Um disco que tenho muita lembrança é o Force Against Mind, segundo disco do Andralls. Trabalhava num estúdio em São Paulo, já tinha ouvido falar deles e eles foram ensaiar lá. Lembro que fiquei impressionado com a coesão da banda, que fazia um Thrash Metal de gente grande, todos muito focados nas suas partes específicas e o resultado final era excelente. Típica banda que fazia um som sem excessos e que o conjunto falava mais alto que as individualidades. Aí conversamos e acertamos pra eu gravar uma pré produção, eles estavam atrás de uma gravadora. Gravamos algumas músicas. Gravei, mixei e, uns dias depois, mostrei o material pra um amigo do Rio que tinha uma gravadora, a Marquee Records. Ele gostou e acabou assinando com a banda. Aí gravei todo o disco em São Paulo, fui com eles pro Rio pra gravar os vocais e só não mixei o disco porque a gravadora queria alguém mais experiente e eu ainda não tinha produzido nenhum álbum na época. À partir dali, o Andralls ganhou um espaço muito grande no Brasil e fora, lançou vários outros discos (e eu produzi alguns), fez muitas turnês, e é muito satisfatório saber que fiz parte do processo. Depois cheguei a tocar com eles numa turnê, somos amigos muito próximos até hoje.

Atualmente, qual a sua visão do mercado da música no Brasil, dando ênfase no mercado do Rock/Metal? O mercado está já há alguns anos nessa fase transitória e falo do mercado fonográfico em forma geral. Na minha infância a gente ouvia os discos de vinil e rádio; era a forma de se consumir música. Aí pintou o CD, foi uma revolução. Mas sabe-se que o CD não é de longe a mídia ‘ideal’; é um tipo de música comprimida e é desta forma por questões de mercado. A música é comprimida pra caber setenta e quatro minutos dentro de um disco. Em seguida pintou o mp3, outros formatos digitais. Com a internet chegando a velocidades mais rápidas, pintou o streaming e a realidade é que atualmente a forma mais popular de ouvir música

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Foto: Divulgação

no mundo é via Youtube. E isso está mudando e mudará mais não sei quantas vezes. Mas tem uma coisa que eu sempre digo e que não muda: o artista se mantém indo pra estrada. Quem está tocando ao vivo, está se mantendo. Houve uma leva de artistas que ganhou muito dinheiro com os discos principalmente nas décadas de 60, 70 e 80 (mas as gravadoras ganharam muito mais!), porém foi uma minoria. O artista sempre foi explorado pelas gravadoras e agora que as gravadoras não têm mais tanta força pra explorar os artistas, uma vez que a internet democratizou o consumo da música de certa forma, ganhar dinheiro com disco se tornou ainda mais difícil. Mas o cara que está na estrada segue vivendo e trabalhando. Já estive em algumas bandas, já produzi dezenas de outras bandas, já trabalhei ao vivo como técnico de som e isso é algo bem explícito: se você é músico e quer viver da sua música, saia da frente do computador e vá pra estrada. É a única forma ‘segura’ de viver de música.

lher um, diria o Arise do Sepultura. É um dos meus álbuns favoritos, foi produzido por um cara que eu admiro muito, o Scott Burns e foi o disco que elevou o Sepultura à banda grande. Eles estavam num momento muito inspirado e imagino que deva ter sido foda ter feito parte desse processo com a banda, que pela primeira vez gravava fora do Brasil, todos com muita vontade de mostrar trabalho. Aguardei muito o lançamento desse disco. Lembro que no Brasil saiu uma edição especial com a arte da capa diferente (era só um detalhe da capa completa) em função do Rock in Rio que eles tocaram e quando ouvi a intro do disco, já sabia que a coisa estava séria (risos). As músicas são excelentes, a sonoridade e a vibe do disco é muito densa, com aquelas vinhetas que remetem a coisas mais primitivas, talvez a banda assumindo definitivamente o status de ‘jungle boys’ que a mídia gringa tinha adotado pra eles. Enfim, gastei esse disco na minha adolescência. Se eu tivesse sido parte do processo na época, nem que fosse enrolando cabos no estúdio, estaria muito feliz… Obrigado Pei pela entrevista, pelo espaço pra falar do meu trabalho. Sucesso pra nós!

Por fim, qual o CD que gostaria de ter produzido? Fale sobre ele. Sucesso e coragem. Muito obrigada! Essa pergunta é difícil… Mas se tem que esco-

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Festivais, shows, promotoras: “caminhando em campo minado com ajuda de aliados” Texto e Foto Mauricio Melo

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ntes de iniciar alguns relatos sobre ser fotógrafo correspondente na Europa, aventuras boas e ruins em terra de outrem e alguma participação em terra tupiniquim, deixar aqui o registro da minha satisfação de estar participando desta edição especial. Cheguei à Espanha em 2006 e apenas em 2007, quase 2008 fui iniciar meus contatos oficiais. No início, a primeira barreira era o fato de pertencer a uma página web, algo que naquela Espanha de economia brilhante, esse fato não era visto com bons olhos já que, por aqui, havia revistas de vários estilos, muitos fotógrafos e redatores, 90% dos efetivos de espanhóis com algum invasor com mais de década no pais (isso se reflete mais explícito mais adiante). Mesmo assim, fui metendo as caras e lá estava, no ano de 2008 participando pela primeira vez do festival Primavera Sound em Barcelona, na época um festival grande, mas em plena expansão. A política dos organizadores era simples naquele momento: credenciar quem oferecesse um mínimo de qualidade, variar países e claro, nacionalidades nas coberturas. Naquele ano, o Primavera Sound tinha apenas 5 palcos, bem diferente dos 11 atuais, área vip, diversos patrocinadores e apoio total da prefeitura local já que incentiva o turismo em geral. Houve um ano que havia carros Mini Cooper que faziam o transporte de um palco a

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outro pelo backstage para facilitar a vida dos fotógrafos. Uma infraestrutura de tirar o chapéu! A política de credenciamento ficou mais rígida, mas trata bem quem chegou há anos atrás e ajudou a crescer o festival. Atualmente conta com uma área de imprensa, bebidas e internet “gratuitas” nessa área, um batalhão de profissionais à disposição de todos. As aspas acima se referem ao valor da credencial, 50 Euros por credenciado. A filosofia de credenciamento não agrada a todos, já que não prioriza a imprensa local, mas por outro lado se o festival se tornou na potência que é, foi graças à abertura de portas aos estrangeiros e que, com a crise financeira dos últimos anos, o Primavera Sound cresceu graças aos “gringos” que fazem do evento o primeiro grande momento da primavera, o fim do frio, o fim dos casacos. Atualmente vejo e escuto uma grande quantidade de brasileiros no evento, tanto no público quanto como bandas participantes e acredito que contribuí com meu grão de areia. Outra experiência legal é o Hellfest, por lá andei em três edições, 2010, 2011 e 2014. A política de credenciamento é parecida ao do Primavera Sound, credencia quem apresenta o mínimo de qualidade e boas intensões, mas exige o envio da matéria, seja online ou revista de papel, quando publicada. Sem o envio, o credenciado está automaticamente eliminado da lista para o ano seguinte. Também houve uma expansão no evento, de 4 para 6 palcos. A Hellcity com um mercado extremo para a venda de merchandise, bares e lanchonetes. Uma gigantesca área de camping, um bosque devidamente decorado, etc. Uma área de imprensa muito bem estruturada e decorada com carros abandonados, cemitério e todo um ar apocalíptico. Mas o que mais impressiona no evento é a mobilização da população da pequena cidade de Clisson. Com apenas 6 mil habitantes

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a cidade aproveita a invasão dos bangers para fazer um dinheiro extra, ainda que o dinheiro não seja a prioridade e sim a reputação da cidade que o visitante leva do local guardado em boas lembranças. Transporte da estação de trem ao evento, aeroporto e redondezas, tudo devidamente organizado e fiscalizado. Garagens se transformam em restaurantes e casas são oferecidas como pousadas, até mesmo jardins são oferecidos para quem não quer utilizar o camping do evento, ou seja, quem quer fugir da “loucura” e descansar tranquilo. Voluntários limpam a cidade para causar boa impressão, o lixo reciclado é devidamente separado, etc. Algo que também vale ressaltar no Hellfest é que existem 3 tipos de photopass. O Geral, que obviamente te permite a entrar na barricada, o Prioritário e o Oficial. As barricadas não são grandes e, portanto, o número de fotógrafos é limitado. Assim como a maioria dos eventos, apenas as três primeiras músicas são permitidas. Os profissionais com o passe Oficial entram e saem em todos os shows e a qualquer momento e também fotografam dentro do palco, aproveitam os melhores momentos e luzes, é um mundo à parte e só tem acesso a este passe, revistas patrocinadoras, grandes publicações e imprensa francesa. O Prioritário te dá acesso a 90% dos shows e como o próprio nome diz, te dá prioridade na barricada que como já foi dito, não é grande e o sistema é o seguinte: Só entram 20 fotógrafos por música, se há mais de vinte o segundo grupo fica para segunda música e na terceira música entram os fotógrafos do passe Geral, isso mesmo, o fotógrafo de passe geral fica por último e mesmo assim tem que estar na frente da fila, ou seja, o festival para estes fotógrafos é visto desde esta fila e mesmo assim, para fotografar bandas grandes como Soulfly, Slayer,

Mosh Fest 2015 - Secret Place - França

Agnostic Front - Mosh Fest 2015

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Deep Purple, Black Sabbath, Iron Maiden, Motorhead e muitos outros, mesmo que seja o primeiro da fila o acesso é negado, para estes grupos somente o Oficial ou o Prioritário. Particularmente não vejo nada de absurdo nesse sistema. O que o evento faz é selecionar e filtrar o acesso porque blogs e webs existem à balde e fotografo da Metal Hammer, Terrorizer, Kerrang e Classic Rock não quer ser atrapalhado por “amadores”, segundo eles mesmos definem. Jovens com equipamento básico dividindo espaço com profissionais mais do que experientes e com alto investimento em lentes e câmeras. Pode parecer preconceituoso, mas já estive em festivais no qual foi necessária muita paciência, vivi na pele e olha que não me considero nenhum top profissional. Muito antes da popularização do “pau do selfie” existia “monopé telescópico” como chamam por aqui e quando eu estava lá esperando aqueles 2 segundos de luz para fazer uma mísera e decente foto, o cidadão levantava sua câmera no monopé, com o timer ligado para fazer uma imagem como se estivesse fotografado de uma grua, uma visão linda que para ser realizada incomodava os outros 50 fotógrafos. É por estes e outros muitos que níveis de passes existem em grandes festivais como o Hellfest. O que mais sinto falta do antigo formato do Hellfest era a liberdade que a imprensa tinha; era mais informal pelo menos nos palcos menores, o acesso ao backstage era praticamente liberado. Outro fato que também chama atenção é a segurança do evento, composta por pessoas que gostam de música extrema e que trata o público de maneira tranquila, aceita e dá assistência aos stage divers, sem agredir e mal interpretar o público, bem diferente de seguranças boxeadores que temos em shows no Brasil. Lembro bem que nos anos 80 e 90 os seguranças mais espancavam o público do que protegia, era sinistro. E os caras ainda riam do que faziam. No ano de 2012 vivi uma grande experiência. Fui ao Resurrection Fest na Galícia, ao norte da Espanha. Lá encontrei um festival recheado de bandas Punk/Hardcore como Agnostic Front, Converge, Good Riddance, H2O, Suicidal Tendencies, Skarhead, Hatebreed, Descendents e outras não tão punk como At The Gates, Black Dahlia Murder, Suicide Silence e muito mais. A vantagem é que só havia dois palcos, as apresentações não coincidiam nunca e foi possível assistir a mais de 30 apresentações sem grandes problemas. Era mais barato e mais fácil de trabalhar do que o Hellfest. O evento crescia e bandas cada vez maiores marcariam presença em futuras edições. A surpresa chegaria no ano seguinte. Com 75 dias de antecedência já estava credenciado, havia abortado a aventura no Hellfest e investido pesado no Resurrection

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Hellfest 2015

Hellfest 2015 - Scorpions

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com viagem programada e paga. Até aí tudo sobre os trilhos, mas um e-mail duas semanas antes do evento alterou completamente os planos. O responsável de imprensa comunica que apesar de ter me credenciado como fotógrafo o meu passe só seria confirmado caso algum fotógrafo espanhol faltasse ao evento e só saberiam ao certo no primeiro dia. Sinceramente, não estava a fim de viajar 1200km para conferir, só embarcaria na certeza. Percorrer todo este caminho e somente assistir a shows de bandas que já vi meia dúzia de vezes é desanimador. Tudo porque a imprensa local demorou a solicitar oficialmente o credenciamento, como são amigos dos organizadores, se garantiram no acordo verbal e ao formalizar descobriram que havia mais credenciados que a barricada poderia suportar. Como na Espanha os espanhóis se colocam em primeiro lugar, os imigrantes que se fodam. Passei de ser um dos primeiros credenciados a ser um reserva de luxo. Menos mal consegui meu reembolso e virei página no assunto com a certeza de que valeu muito o evento de 2012 e assim que guardarei na memória. Atualmente o evento é bem maior, diminuiu a quantidade de bandas Hardcore (estilo dominante até 2012), aumentaram a participação de bandas de metal e abriram parceria com o Hellfest, o que lhes dá mais exposição. Sim, o problema acima mencionado acontece com frequência, na Espanha eles (espanhóis) estão em primeiro, segundo e terceiro lugar em muitos festivais e promotoras de shows, imprensa internacional fica com a sobra, quando fica. Há promotoras que nem respondem os pedidos, outras já contam com seu clube fechado de queridinhos e nem e-mail de contato dispõem. A maioria te descarta categoricamente com a desculpa de que para credenciar tem que fazer publicidade gratuita e divulgação dos eventos para, em troca, ganhar credencial e como imprensa internacional não ajuda na divulgação, está automaticamente eliminada. Sim oferecemos ajuda de divulgação, mas segundo eles não faz sentido porque como vamos divulgar eventos que acontecem na Espanha no Brasil? Mesmo que redes sociais invadam fronteiras e residentes de diferentes nacionalidades, eles negam. Não são todos assim, não vamos generalizar. Tenho bons amigos por aqui, mas muitos confessam que essa é a natureza deles. Fato recente de descaso é com um novo festival em Barcelona. Este ano será a segunda edição e tem tudo para ser um dos grandes festivais de metal e hardcore num futuro próximo. Uma

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The Exploited - Xtreme Fest 2015

Cannibal Corpse - Xtreme Fest 2015

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boa alternativa como substituto do Hellfest, um festival com o mesmo formato, mas no quintal de casa. O único problema é o citado acima. Na página do evento tem e-mail de contato, mas ao fazê-lo o que recebo de resposta? Bem, na verdade não recebo nenhuma resposta porque a eles não interessa. Dois dias após esta fracassada tentativa de contato, repeti o feito com um festival em Albi, França, que está em sua terceira edição e muito parece aos primeiros anos do Resurrection, dois palcos e uma quantidade menor de bandas, mas com a possibilidade de assistir a todas sem desperdícios. Por lá estarão Black Label Society, Cannibal Corpse, D.R.I., Terror, 7 Seconds, The Exploited, Behemoth e algumas dezenas mais. Fácil e barato de ir, com amigos residentes em Toulouse (fica ao lado) e que desde este primeiro contato o tratamento foi diferente. Resposta no mesmo dia com um simples pedido, feedback das publicações e alguma amostra de meu trabalho. Cumpridas as exigências e a resposta é a seguinte: “Ainda não estamos oficializamos as solicitações, mas desde já te confirmamos a credencial pela qualidade apresentada, o único que pedimos é que nos ajude a divulgar nosso evento como puder”. Viram como a boa vontade é a chave da comunicação? Por outro lado, existem bons promotores de shows e festivais, alguns citados acima como o Primavera Sound e o Cruilla BCN que são excelentes, te deixam à vontade e dá gosto de trabalhar. O Hellfest, após passar a fase de Geral, também é lindo. O que de verdade não esperava era bater com a cara na porta onde nasci e cresci. Em 2013, aproveitando uma visita ao Rio de Janeiro, tentei ir ao Madball e Terror e fui muito maltratado. Mesmo com todas as confirmações em mãos, nomes chaves citados e ainda assim um cidadão bem arrogante na porta colocou pé firme. Nem mesmo a intervenção do manager das bandas, que conhece meu trabalho e já me recebeu várias vezes em diferentes pontos na Europa, foi capaz de mudar a postura do organizador. É assim mesmo, não se pode ganhar todas e constantemente temos que conviver com altos e baixos, mas vou dando meus dribles e cavando os pênaltis, daí, de vez em quando, marco um gol e corro para o abraço.

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Franz Ferdinand - Cruilla 2015

Soulfly - See You in the Pit 2015

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Gravadoras no Brasil “Veteranos com pique de iniciantes!” Assim definimos o pessoal da loja e gravadora Die Hard, de São Paulo. Instalada na Galeria do Rock desde 1996, ela é muito mais do que mais uma loja no espaço favorito dos fãs de Heavy Metal. Devido seu atendimento diferenciado, site atualizado e preços justos, Die Hard conquistou um lugar fiel aos fãs do gênero. Nesta entrevista com um de seus sócios, Fausto Mucin, o mesmo nos conta sobre o sonho de abrir a loja, o momento da venda de CDs e muito mais! Por João Messias Jr. | Fotos Arquivo Pessoal

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Vocês começaram a loja no ano de 1996, em São Paulo. Conte-nos como surgiu a ideia de montar este tipo de empreendimento. Meu sócio e eu tínhamos uma banda, pouco promissora (risos) e todas as portas fechadas. Resolvemos então abrir a loja com pretensões de ampliar para um selo e produzir shows, o que fazemos desde então, para trabalhar para e com as bandas, brasileiras ou não. E, principalmente, vendermos CDs e afins com alegria, eficiência, rapidez e com preços justos, pois o cenário na época era de chorar; aliar nossa imagem às outras formas de arte (literatura, cinema, artes plásticas, teatro, etc.) para que as pessoas não pensem que headbangers são idiotas como a grande mídia faz questão de propagar. E, claro, sobreviver fazendo tudo isso. O local escolhido foi a Galeria do Rock, reduto dos fãs do bom e velho Rock And Roll. O que influenciou, vindo a ser escolhido este local? O local foi fundamental, pois era aqui que comprávamos nossos discos, CDs e que mapeamos um território promissor para os nossos planos. Sabíamos que se montássemos uma loja sem preconceitos, com mais bandas nacionais e com um atendimento especial, não tinha como dar errado. O atendimento aqui era muito ruim, as lojas tinham os mesmos produtos sempre e atendiam com desdém, como se o cliente fosse um intruso e não merecesse comprar aquele produto. Era um local concentrava o maior número de lojas de CDs que conhecíamos.

são fãs. Quais os prós e contras de trabalhar com o que gosta? Somos mesmo! Desde 1996 ouvimos som no talo o tempo todo, sem parar! Quem é nosso cliente sabe, nunca encontrou a loja no silêncio (risos). Não há contras, somos “worklovers”. O trabalho é duro, intenso, mas maravilhoso. Há trampo de madrugada (reposições, atualizações), fins de semana, durante feriados. Muitas vezes entramos horas antes da Galeria do Rock abrir, horas extras após o expediente também. Manter um site atualizado com todos os produtos que temos, efetivamente, não é fácil, porém é muito prazeroso.

Além de tudo são afortunados, afinal trabalham com o estilo de música que

Nessa época a venda de CDs era muito

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forte entre os fãs de rock. Com essa crise de downloads, os fãs não se importam em ter produto físico e se satisfazem em carregar as músicas de seu artista favorito no celular. O que pensam sobre isso? Existe a possibilidade de as coisas voltarem a ser como antes? Somos extraterrestres, não é possível! Todo mundo fala sobre poucas vendas e tal, mas nunca sentimos isto. Desde 1996 só crescemos, nunca tivemos um ano pior que o anterior. O cenário não é mais o mesmo, claro, antes havia filas para entrar na Die Hard. Um de nós ficava do lado de fora abrindo a porta para que quando uma pessoa saísse, outra entrasse. Isto não é mais assim, mas diversifica-

mos. Quando houve a oportunidade de abrirmos uma filial, optamos por um site eficiente, com o conceito de ser uma filial, ou seja, onde o cliente pudesse falar conosco, onde o cliente pudesse encontrar tudo o que tem fisicamente na loja, com a mesma segurança e com a pós-venda total garantida. Conseguimos isso. Estamos vencendo os downloads, ilegais ou não, estamos vencendo a pirataria que impera bem em frente à Galeria e vencendo, inclusive, a descaracterização da Galeria do Rock, consequência dos downloads e da pirataria. Como só vendemos novos e originais, acabamos por especializar-nos no cliente que compra estes produtos, que são como nós; que também só consumimos este tipo de produto, então, es-

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tamos trabalhando para os nossos semelhantes, por isso sabemos com o que e para quem trabalhamos. O cenário não vai voltar a ser como antes, quem compra CDs compra CDs, independente de ter o arquivo digital ou de ouvir em streaming. E quem compra CDs prefere sempre o original, obviamente, pois nosso público - e também, cremos, o público de música instrumental, clássica, músicas mais, digamos, “finas”, “invulgares” - prefere produtos originais, por consciência, por coerência, por valorizar seu dinheiro e o dinheiro de seus artistas. Hoje quando você passa pela Galeria do Rock, percebe-se que os preços não são muito diferentes de uma loja para outra. Só que um diferencial de vocês está no atendimento, pois o consumidor é tratado de igual para igual. Distinções e mecanizações. Nossos produtos tem preços justos, o que não significa que são os mais baratos, mas temos alguns mais caros que a concorrência também. O preço não é o fator fundamental para termos um produto na loja, o preço é a consequência de escolhas mais importantes como a origem, a data de disponibilidade, a qualidade, a documentação (taxas, impostos). Como disse acima, estamos trabalhando para os nossos semelhantes, por isso sabemos com o que e para quem trabalhamos. Não somos vendedores realmente, o que fazemos é disponibilizar os produtos que achamos importantes dentro de nossa proposta de vender Classic Rock e Heavy Metal e vendermos os serviços. CD tem em todo lugar, o que nos diferencia é como atendemos, nossa confiabilidade, eficiência, rapidez, resolução de problemas, site eficiente, seguro e confiável. Caprichamos nisso. Somos um grupo de amigos desde antes de abrirmos a loja, todos se reuniam em casa para ouvir som, mostrar os lançamentos, as raridades e agora fazemos isto aqui na loja, com muitos novos amigos e com a tecnologia. Estes amigos estão pelo Brasil todo e em muitos países também, com brasileiros que moram no exterior ou mesmo gringos que passaram a nos conhecer e a comprar conosco. E ainda ganhamos pra isso (risos)! Outra diferencial está no fato de terem um selo, que dentre muitos lançamentos teve bandas como Versover, Nervosa, Hollowmind e Patrulha do Espaço. O que influencia na escolha de um artista para lançamento? Já abrimos a loja com a intensão de virarmos um selo e uma produtora de shows. Lançamos muita coisa licenciada, bandas que não dá pra não lançar, tendo oportunidade lançamos mesmo: Sodom, Focus, Grave Digger, Anvil, etc. E nacionais clássicas também, Patrulha do Espaço é um caso, um sonho realizado. Já as bandas novas são um prazer enorme, pois nós as vemos como nós mesmos antes de abrirmos a loja, quando não éramos atendidos e nem ouvidos. Hoje as ouvimos e, se houver condições, fazemos a parceria. Estas condições variam muito; a banda precisa ter

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conteúdo, ser coesa, tocar ao vivo, estar com uma mesma formação há um certo tempo, ter uma proposta musical e conceitual, ser promissora, enfim, e tudo isso sob a nossa ótica, claro, pois pode passar por nós uma banda maravilhosa e nós não percebermos, e o contrário também, podemos iniciar um trabalho com uma banda que achamos que é tudo isso e se mostra pífia em seguida. O que mais levamos em consideração é a verdade da banda, quando a percebemos, e, claro, quando temos condições (agenda). Mesmo a venda de CDs sendo algo deficitário, o que os motivam a investir em lançamentos de bandas underground? Não somos mecenas. Investimos aguardando o retorno, e, na maioria das vezes, isto acontece. A motivação maior é ver algo prosperar, uma banda que você acredita, ninguém conhece e que depois que acontece. A satisfação é enorme. Falando em selos, os mesmos vão e vem na mesma velocidade que aparecem. Hoje além da Diehard, temos selos que se destacam como a Voice e a Shinigami. Qual a opinião de vocês sobre estes? Cremos que as pessoas que iniciam um negócio destes acham que é mais rentável do que realmente é. O mercado da música vende muito glamour, mas isso não é verdade. É um trabalho com muito suor, um trabalho duro, como qualquer outro. Quando você ouve um CD, tente imaginar desde o momento solitário do compositor, dos ensaios, do desgaste e investimento na produção, nos detalhes, nos impostos, na falta de comprometimento dos empresários em geral, até chegar a você, quanto amor envolvido. Isso tudo tem de ser levado em consideração quando você vai trabalhar com música. Aliás, com qualquer produto, mas com a música é mais subjetivo. Não há lógica, não há receita e precisa per-

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sistir; se não acertar na primeira ou na segunda, persista. Acredite em você, não tem como errar. E nesse tempo, quais foram os melhores e piores momentos da Diehard? São muitas histórias! A visita carismática de Paul Di’Anno, explicando inclusive que se pronuncia “Di anno” e não “Dai anno”, na maior simpatia; acho que foi um ponto forte entre muitas visitas importantes que tivemos. Como ponto negativo, diria que o problema está no nosso próprio país. É difícil trabalhar onde o sistema só quer seu dinheiro, tudo que é problema o comerciante que resolva, somos obrigados a ter um código de defesa do consumidor à disposição, isto é uma lei, parte-se do princípio que o comerciante é ilegal, desonesto, espertão, etc. Para encerrar, em 2016 a loja completa duas décadas. Pensam em fazer algum tipo de comemoração? Não pensamos não (risos). Comemoramos a cada dia, todo amanhecer é uma vitória, estarmos vivos, trabalhando e pagando nossos amigos, funcionários, nossos fornecedores em dia. Vencendo num país que é o inimigo, vencendo em vender um produto que a maioria desinformada acha que é decadente, onde a grande mídia ignora ou ri. Comemoramos ouvindo Rock ’N’ Roll altíssimo todo dia! Obrigado pela entrevista! Deixem uma mensagem para a Meeting Hell. As duas revistas são fodas, essa união é demais! Pensamos que é mais ou menos como a nossa trajetória, fazem por amor, com dedicação, sem jabá, opinam e disseminam opiniões, lançamentos, dos clássicos aos mais extremos. Somos seus fãs e estamos aqui para o que der e vier, somos da mesma família. Obrigado! (Acesse o site da Die Hard)

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“Extrapolando os limites da arte” O mundo das artes é complexo. Viver dela mais ainda. Pode ser realista ou fantasioso. Colorido ou preto e branco. Ricos e pobres. Lápis ou grafite. Uma linguagem única e de compreensão idem, porém, se usada de forma correta, chega ao seu receptor como deve ser. Para compreender este trabalho, conversamos com Will Ferreira, artista plástico que se destaca com seus desenhos pintados nas ruas e que chamou atenção de bandas de Rock/Metal para compor a arte gráfica dos álbuns. Abra sua mente. Entenda o que é arte. Valorize. Acompanhe!

Por Pei Fon | Foto/Imagens Arquivo Pessoal

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Por favor, apresente-se para os nossos leitores. Sou William Alexandre Ruberti Ferreira, mais conhecido como Will Ferreira. Tenho 31 anos, sou artista plástico, autodidata, trabalho e vivo da minha arte. Como tudo aconteceu? Como a arte entrou na sua vida? A arte entrou na minha vida através de histórias em quadrinhos, Sci-fi e ilustração. Foram e são fontes de inspiração até hoje. Como você encara aquele pedido “maroto”: “brother, dá para fazer uma arte para mim”? Este é realmente um assunto bem complicado, mas sempre levei as coisas de forma muito profissional. Negócios sempre à parte, mas isso ainda é sempre bem delicado, tenho sempre que medir as palavras e não perder a amizade. Tento mostrar o trabalho e o gasto que tenho para criar e produzir essa “arte” para o “brother” (risos). Qual a sua visão dos artistas gráficos atualmente? Vejo que hoje em dia temos muitos extremos, ou os caras são muito bons ou muito ruins (risos) e uma gama enorme de artistas e designers de vários estilos e muita, mas muita criatividade tanto boa, quanto ruim. Quanto tempo leva para poder criar uma arte depois de passada todas as informações? Em geral peço de 2 a 3 dias, logicamente depende muito da situação, da demanda e complexidade de cada projeto, podendo assim aumentar ou diminuir os dias.

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Você já fez trabalhos para o Project 46, Hammathaz e Black Oil. Como é transportar o grafite para os álbuns de bandas de Rock? É bem gratificante ver esse trabalho em outras situações, no caso as bandas. Geralmente as letras das músicas tem certa ligação com a temática que utilizo nos meus trabalhos, então acaba sendo uma obra bem livre para me expressar. O álbum acaba tornando-se uma peça de arte tanto em seu visual, quanto em sua temática, letras, música e acordes; um áudio visual todo completo. Curto muito!

você busca sua inspiração? Utilizo muito Pinterest para referências e idéias. Gosto muito de ilustrações e HQ. O que atrapalha na vida do artista: o cliente dizer que não gostou ou aquele cara que sempre cobra o valor abaixo de mercado? A falta de conhecimento; isso sim nos atrapalha, de ambos os lados. Já houve alguma situação de alguém ter copiado algo que tenha feito? Copiado não lembro, mas encontrei um cara utilizando minhas imagens em um site de ar-

O ato de criar não é simples. De onde

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tes falando que eram obras dele, inclusive negociando e respondendo perguntas sobre os trabalhos. Eram até engraçadas e infantis as respostas, mas conseguimos avisar o site sobre o fake, sendo assim retirado seu perfil.

em si, tenha amor pelo que faz. Como está o mercado atualmente. Você enxerga crescimento? O mercado, pelo menos para mim, é um sobe e desce sempre. Não vejo mais nada a não ser esse sobe e desce constante.

Houve alguma situação que você pensou que não era bem isso que queria fazer, desistir e tentar outra coisa? Não. Isso não aconteceu, pois não sei fazer mais nada da vida (risos)! Cite os passos básicos para seguir na profissão de designer/artista gráfico. Tenha persistência, boas referências, estude bastante, se envolva com os projetos e a arte

Para finalizar, o que te motiva a continuar a transformar uma ideia em arte? O que mais me motiva é ver até onde posso chegar, o quanto posso evoluir, até onde posso atingir com meu trabalho.

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moa “O show não acaba” Texto | Fotos - Pei Fon

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o mês de abril atingimos a marca de três anos de acontecimento, ou melhor, da não-ocorrência do “Metal Open Air”. Seus promotores Natanael Junior (Lamparina Produções) e Felipe Negri (Negri Concerts) foram processados por parte do público presente no festival, porém a justiça ainda não os julgou. Para quem não se lembra do caso, o “Metal Open Air” ‘aconteceu’ nos dias 20, 21, 22 de abril de 2012, na cidade de São Luís (MA). O MOA reuniria as principais bandas do cenário Rock/Metal nacional durante os três dias de

evento, além de bandas de renome mundial como Exodus, Megadeth, Rock’N Roll All Stars (banda formada por Gene Simmons [Kiss], Sebastian Bach [Skid Row], por exemplo), Symphony X, Anthrax, entre outros. O que seria uma celebração tornou-se um problema de ordem judicial. O que estava sendo divulgado não foi cumprido e as pessoas que optaram pelo camping foram alojadas em estábulos para animais. No local mal havia luz. Já a água estava armazenada nos cochos utilizados para cavalos. Longe do Centro de São Luís, a região

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Fotos: Divulgação

onde o evento aconteceu no Parque Independência é conhecida por ser um local perigoso. Ainda assim eventos aconteciam com frequência. Sem falar que o acesso ao Parque é difícil e não há boas saídas de emergência, tampouco o transporte público prometido chegava no parque. O MOA foi notícia em rede nacional e mundial, sendo destaque nos maiores sites especializado no Rock/Metal. Por meio de nota, as bandas nacionais e internacionais publicaram os motivos de não estarem presentes no festival. Dentre os motivos estavam falta de

pagamento do cachê assinado em contrato, visto que permite a entrada de estrangeiros no Brasil e passagens aéreas. Após um ano de Metal Open Air, até onde se tem conhecimento, a justiça do Maranhão confiscou bens e imóveis que estão em nome de Natanael Junior e Felipe Negri, além de efetuar bloqueio das contas bancárias dos proprietários das empresas. O processo foi movido pela 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de São Luís. Na ocasião, foi pedida prisão preventiva de Felipe Negri, porém não deve ter sido apreciado, uma vez

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que ele fora visto num evento em São Paulo. Aparições Diante do acontecido, já se vão três anos do MOA e nada aconteceu. Algumas pessoas conseguiram restituição através da Justiça, atribuindo a responsabilidade para as outras empresas parceiras do evento. Já Felipe Negri (Negri Concerts) tem realizado eventos em São Paulo. Em outras investidas de shows que o promotor tentou realizar, o público descobriu a participação de Negri e fizeram manifestações nas páginas no Facebook das bandas que estavam para tocar no Brasil, sendo que algumas delas desistiram de vir por conta da movimentação dos fãs. Recentemente, Felipe Negri foi visto num show da banda P.O.D, em São Paulo, como conta Shucky Miranda, vocalista da banda Skin Culture: “Essa última tour do P.O.D. foi ele (Felipe Negri) quem fez. Quem quisesse vê-lo era só ter ido ao show. Todos viram”. Miranda ainda disse que foi barrado por Negri: “Eu ia como convidado do Sonny (guitarrista do POD). Sonny me ligou pedindo pra eu não ir ao show, pois o Felipe Negri pediu para o segurança não deixar eu entrar”, conta. Já para o assessor de imprensa, Maicon Leite, o país está manchado pelo ocorrido em São Luís: “Estamos no Brasil e isso já diz muita coisa. Nosso nome está manchado e por mais que existam pessoas que pouco se importam com o ocorrido, a sensação de impotência, de não poder fazer nada, nos causa certo desconforto, uma vez que sei que muitos dos headbangers lá presentes entraram na justiça e cobraram seus direitos, afinal, não é porque se trata de um festival de Heavy Metal que não devemos tratá-lo como um produto”, dispara. E finaliza dizendo que o público está contribuindo para que Felipe Negri continue atuando no cenário de shows de Rock/Metal: “O fato é que as pessoas, que não se sensibilizaram com toda esta vergonha, estão pouco se importando quem está por trás das produções, mas sim em assistir suas bandas favoritas. Obviamente muita gente está sendo conivente com o que foi feito. O dinheiro fala mais alto”. Tanto fala mais alto que é só lembrar que o outro parceiro de Negri e Natanael Junior é CK Concerts. Também envolvido no Metal Open Air. Enquanto o resultado do processo não sai, os eventos continuam acontecendo por meio do Negri e da CK Concerts na América Latina. É só prestar atenção quem está trazendo as bandas para o Brasil. -Relembre o que saiu na mídia nacional. Jornal Nacional | Uol | Veja | G1 | Collectors Room

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Foto: Divulgação

Foto montagem

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Por Onde Anda? Por Pedro Humangous | Foto Divulgação

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No final dos anos 90 e começo de 2000, bandas de Melodic e Power Metal desfrutavam do auge do estilo. Novas bandas surgiam a cada dia e o mercado estava aquecido, ainda com o surgimento da internet (com acesso à banda larga) não haviam tantos downloads. As gravadoras lançavam novos trabalhos toda semana e quem se aproveitava dessa situação eram os fãs, ou seja, nós. E nesse mar de grupos desse segmento, uma banda sueca obteve grande destaque mundial e fez a alegria de muitos brasileiros: Nocturnal Rites! Formado em 1990, o grupo lançou oito incríveis álbuns:

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“In A Time Of Blood And Fire” (1995)

“Afterlife” (2000)

“Tales Of Mystery And Imagination” (1998)

“Shadowland” (2002)

“The Sacred Talisman” (1999)

“New World Messiah” (2004)

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“Grand Illusion” (2005)

“The 8th Sin” (2007)

Como podem perceber, o Nocturnal Rites não lança nada desde 2007. São oito anos sem notícias e sem música nova. Não há registro em vídeo, não lançaram nenhum DVD em sua carreira. A maior parte de seus discos foi lançada pela Century Media e seus últimos cinco álbuns foram lançados no mercado nacional. A maioria das artes das capas foi feita pelo experiente e renomado Andreas Marschall (famoso por ter feito as capas do Blind Guardian, Dimmu Borgir, Grave Digger, In Flames, Running Wild, Hammerfall, etc). Mas afinal, por onde andam esses caras? Olhando no site oficial, a última atualização foi feita em 2012. Nas páginas oficiais do Twitter e Facebook a mesma coisa, tudo parado. Estranho ver uma banda de renome mundial simplesmente “desaparecer” e não dar mais notícias por tanto tempo. Se alguém tiver mais notícias, por favor nos informem! Ficamos então na expectativa de um breve retorno dos suecos do Nocturnal Rites!

Algumas curiosidades sobre a banda: - O grupo começou tocando Death Metal e tinha o nome de Necronomic. Aos poucos o som foi evoluindo para um Power Metal mais pesado, ganhando doses de melodia e se transformando no Nocturnal Rites que conhecemos. - O guitarrista Fredrik Mannberg e o baixista Nils Eriksson, formaram uma banda de Thrash Metal, muito boa por sinal, chamada Guillotine. - O guitarrista Cristoffer Rorland entrou para o Sabaton em 2012 e está na banda até hoje. - O vocalista Jonny Lindkvist, acaba de lançar um EP com a banda Fate’s Right Band.

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5 discos nacionais para sair da mesmice Recentemente fiz uma lista de “10 discos pra sair da mesmice” e nela continham apenas bandas internacionais (essa lista está disponível na revista Hell Divine e no site Whiplash). Como prometido, faço agora outra lista, desta vez, contendo somente bandas nacionais. Aqui não há critério específico para a escolha; são nomes menos conhecidos do público em geral, mas que merecem sua atenção e que merecem serem ouvidas pelo excelente trabalho que vem apresentando. Esperamos que gostem e possam compartilhar com os amigos! Não gostou da minha lista? Sem problemas. Crie a sua própria lista e publique também! Tenho certeza que muita gente irá gostar e assim conheceremos mais bandas! Por Pedro Humangous | Foto Divulgação

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Tomorrow´s Light

É Djent, é melódico, é pesado e maravilhoso! É esse o caminho que as bandas mais modernas tem seguido e o Syndroma o faz com maestria. Guitarras de sei lá quantas mil cordas, afinação baixa e uma atmosfera incrível, de tirar o fôlego. O instrumental contrasta de forma brilhante com os vocais açucarados. Fazendo uma comparação grosseira, é como se o Meshuggah e o Scalene tivessem um filho.

/Syndromaband /Syndromaband

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O Exílio Dos Fracos

É inegável a força e poder do Deathcore. O estilo se espalhou feito doença pelo mundo e atingiu a todos nós, quer você queira ou não. Depois do tremendo sucesso de bandas como Project 46 e John Wayne, cantar Metal em português nunca teve tão em alta desde os anos 80. Com ótima qualidade de gravação e produção, a banda está pronta para dominar seus ouvidos.

Oceano do Caos /OceanodoCaosRJ

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Aphotic Arrastado, obscuro, denso, tenebroso. O que esperar de uma banda que pratica o Funeral/Doom/Sludge/Death Metal a não ser um golpe letal que leva à falência múltipla dos órgãos de forma lenta e suave? O troço é estranho, mas ao mesmo tempo encantador, quase uma hipnose forçada. É se acomodar e preparar para uma longa viagem. Aviso: não tem volta.

Jupiterian

/Jupiteriandoom

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Vícios Se isso aqui fosse um jogo de pôker e eu tivesse que apostar todas minhas fichas, daria um “all in” na banda Feartone. Os caras possuem uma maturidade incrível e estão prontos para o sucesso. Com composições fortíssimas e muito bem estruturadas já aterrorizam o cenário nacional com seu EP de estreia, “Vícios”. As músicas misturam algo de Lamb Of God, Slipknot, tudo envolto em uma camada espessa de modernidade, sem esquecer de cantar em nosso idioma. A banda tem tudo pra crescer bastante, fica aqui meu voto!

/FeartoneOficial /FeartoneMetal

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Resilience Quem teria a honra de abrir para o Meshuggah nos shows do Brasil? Sim, os escolhidos foram os músicos da banda Thirdear. Mas se engana quem pensa que se trata de uma mera cópia. Na verdade, tirando o timbre da guitarra e os ritmos quebrados, eles quase não se assemelham. O Thirdear vai muito além e se difere bastante quando paramos para ouvir o álbum completo. Eles seguem um lado mais experimental e progressivo, umas viagens bem interessantes. Intenso, variado, agressivo e leve na medida certa. Prepare-se para ser surpreendido!

/ ThirdEarOfficial / thirdearofficial

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Foto: Divulgação

“I Wish” Conversamos com três grandes músicos do cenário nacional e perguntamos a eles: “Qual álbum gostaria de ter feito? Por quê?”

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“Jesus Christ Superstar” Por Alírio Netto (Age of Artemis) Foto Danillo Facchini

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ão muitos os álbuns que eu gostaria de ter feito, só que por motivos um pouco óbvios escolhi o debut do musical Jesus Christ Superstar, lançado no final dos anos sessenta. Quando a primeira versão, que contava com Ian Gillan como Jesus foi lançada, o musical virou um sucesso. O vinil figurou várias semanas no topo da Billboard, à frente de artistas como Beatles e outros grandes ícones da época. A princípio o musical era apresentado como um grande concerto de rock, lotando estádios por onde passava. As músicas “Heaven On” “Their Minds”, “Superstar”, “Getsemani”, e “I Don’t Know How To Love Him” viraram hinos entoados por todos, o que ainda pode ser constatado indo ao teatro em várias partes do mundo. A ideia evoluiu para o teatro e depois cinema, o que imortalizou ainda mais o musical. O fato de especular a figura de Jesus como um “Superstar” causou uma grande comoção na época, tendo, inclusive, sido proibido em vários países. O fato é que a obra é apaixonante desde a abertura até o final; letras fortes, riffs e melodias marcantes me fazem até hoje arrepiar e me emocionam a ponto de eu sair do meu mundo e entrar no mundo dos personagens. Andrew Lloyd Webber criou um estilo de se fazer rock e teatro juntos; fácil perceber a influência do blues, jazz, heavy metal, pop e até música erudita, com partes que me lembram compositores como Stravinsky. Esse musical tem uma influência muito grande na

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minha formação como músico, ator, cantor, professor; essa obra me transformou no artista que sou hoje. Sou muito grato ao Andrew e ao Tim Rice por me darem a oportunidade de ter feito parte dessa história. Essa é uma obra atemporal, com a capacidade de transformar todos aqueles que a ela se entregam e por essas e outras que eu gostaria de ter sido o criador desse musical.


“Vol. 4 do Black Sabbath” Por Luis Carlos (The Black Rook) Foto Luciana Pires

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enho muitos discos como prediletos e de grandes bandas, porém, entre eles tenho que destacar o Vol. 4 do Black Sabbath. Primeiro porque é Sabbath e uma clara referência para o que eu faço musicalmente na Statik Majik, então, nada mais aceitável que topasse gravá-lo. Este trabalho foi o primeiro que ouvi da Banda e nele o grupo passou a explorar elementos em sua música, que ia além de ser um grupo de Rock Pesado; continuava com a guitarra poderosa de Iommi ali, mas como não viajar com uma música feita no Piano como “Changes”? Este disco foi o pontapé inicial para que fizessem discos como “Sabbath Bloddy Sabbath”, “Sabotage” e passassem a explorar isso de maneira mais clara. Adoro Bill Ward tocando e é uma grande influência como baterista. Aliás, o Sabbath perfeito pra mim é com Ozzy cantando. Este disco é o “The Best” deles. Uma curiosidade deste trabalho é que anos depois fui descobrir que a data do seu lançamento é 25 de setembro de 1972, justamente o dia em que eu nasci. É ou não uma grande coincidência? Um disco que começa com “Wheels of Confusion” e termina com “Under the Sun”, fora clássicos como “Cornucopia” e “SnowBlind” só pode ser uma obra-prima do começo ao fim, uma verdadeira aula para quem é fã e músico de Heavy Metal. Que década inspiradora é a de 70! Até mesmo Bandas que são inspiradas por eles e iniciaram na década de 80 e começo de 90 adoro e curto

demais. Caso do Candlemass, Trouble, Saint Vitus, Cathedral, entre outras. Ozzy nunca foi um grande vocalista, mas aqui ele canta super bem, ainda que eu ache seu melhor vocal o do disco seguinte, “Sabbath Bloody Sabbath”, Iommi destilando excelentes riffs como sempre, Geezer é muito mais do que um simples baixista e Bill Ward, um cara que toca pesado e ao mesmo tempo “jazzístico”. A força da banda não estava no virtuosismo, mas sim, no coletivo e ainda que tenhamos outras fases excelentes, isso se perdeu um pouco, o Sabbath se tornou uma Banda de músicas comuns, mas não na “fase Ozzy”.

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“Metal Vortex

Por Vitor Rodrigues (Vooodoopriest) Foto Amanda Louzada

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oderia citar vários discos aqui, mas fico entre dois... “Painkiller” do Judas Priest e “Metal Vortex” do Coroner. Mas como só podemos escolher apenas um, opto então pela segunda alternativa. Vamos lá! O grande barato desse álbum e de toda a criação desses suíços é o clima que eles colocam em suas músicas, criando um ambiente fantástico e que a cada ouvida descobre-se algo novo. As faixas desse disco, em especial, soam como se fossem quadros surreais. Imagens transformadas em notas musicais. Considerados o Rush do Thrash Metal, o Coroner não só faz jus a isso como transporta o ouvinte para uma viagem, como o próprio título do disco sugere. Eles abrem com “Divine Step”, uma música com um andamento urgente que na hora do refrão, a base se transforma em um Groove extraordinário voltando logo depois à velocidade, para depois parar abruptamente e seguir numa viagem letárgica. Ao final, terminam num ápice com notas tensas. “Son Of Lilith” com andamentos quebrados parece um Blues infernal na versão desses suíços. O clima tenso prevalece com mudanças de tempo, mas atinge uma sofisticação ímpar na hora em que TT Baron executa um solo de guitarra no mínimo magnífico. A música termina como se fosse um relógio dando suas últimas badaladas. Nada mais apropriado para quem veio do país dos relógios. “Sentex Revolution” tem ares de marcha, revolução industrial, fumaça,

porém após um belo interlúdio com arranjos de violões, novas quebradas de tempo abrem alas mais uma vez para um solo de guitarra arrasador. Cascatas de notas e mais climas criam um quadro, como uma viagem interplanetária e quando a música volta ao compasso, sente-se um retorno ao mundo real. A próxima faixa é a que mais gosto desse disco, “Sirens”. Como esses suíços branquelos conseguem criar uma

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do Coroner”

ouvi. Enfim, um épico! “Metamorphosis” começa com a guitarra uivando como se fosse alguma criatura assustadora no meio da noite. Essa faixa é mais cadenciada, mas não menos sinistra e seguindo o padrão Coroner, após quebradas que desafiam a gravidade, segue-se mais um solo estupendo. O mais interessante é que tudo isso não soa maçante de maneira alguma e nem repetitivo, pelo contrário, são complementos que se moldam perfeitamente quando ouvimos essa faixa. “Pale Sister” começa no gás e mostra toda a habilidade de Mark Marquis na bateria. A faixa tem várias mudanças de andamento, ele dá um verdadeiro show, sem soar egoísta e enriquece muito a música com suas viradas vigorosas e criatividade. Terminam com um groove de fazer o pessoal do Parliament-Funkadelic cair o queixo. Outra que começa no gás é “About Life”. Outra faixa que parece que foi concebida em algum refúgio da mente brilhante desses suíços. E se fosse escolher uma música que represente o que é o Coroner, esta seria “About Life”. Sem mais. É preciso ouvi-la e tirar suas próprias conclusões. Por fim, encerram com um cover dos Beatles, “I Want You”. Inusitado, mas muito bem tocado e se revelando uma grata surpresa. Enfim, “Metal Vortex” é parte da minha vida. Volta e meia estou lá o ouvindo novamente, descobrindo algo novo e como o mesmo faz parte dessa minha vida, adoraria muito de tê-lo concebido.

música com um groove arrasador e ainda soarem tão sinistros? Aqui Ron Royce se destaca pela levada que emprega nas frases cantadas. Simplesmente fantástico! Preste atenção na forma como canta, porque parece nitidamente que ele está batendo um papo com você; o instrumental ao fundo, guiando magistralmente todas essas linhas complementa tudo. O final é um dos melhores términos de música que já

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Meeting Hell Nº 1  

Meeting Hell #1 - O melhor dos dois mundos. Matérias e entrevistas especiais. Conheça o mundo por trás da música. Baixe gratuitamente - http...

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