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A Ciência da Motricidade Humana como uma possibilidade de pensar complexamente na Educação Física La Ciencia de la Motricidad Humana como una oportunidad para pensar de manera compleja en Educación Física Mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) Professor do curso de graduação em Educação Física na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Corporeidade, Pedagogia do Movimento e Diversidade Humana – COPEDI/UENP

Raphael Gonçalves de Oliveira raphaelpiraju@yahoo.com.br (Brasil)

Resumo O modelo cartesiano teve grande contribuição para a especialização do conhecimento científico, todavia, este tipo de pensamento desconsidera a complexidade existente no universo em que vivemos. Várias áreas do conhecimento científico têm elaborado teorias para que este modelo seja superado, sendo que no campo da Educação Física, uma delas é a Ciência da Motricidade Humana. Ao considerar o pré-ato existente no movimento dos seres humanos, esta ciência leva em consideração o gesto motor intencional. Deste modo, a Educação Física poderá proporcionar a formação de pessoas mais criticas e criativas que incorporem o conhecimento aprendido. Unitermos: Educação Física. Ciência. Motricidade Humana http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 14 - Nº 138 - Noviembre de 2009 1/1

Introdução O conhecimento científico é popularmente tido como transmissor de uma verdade inquestionável, porém, sabemos que as teorias são constantemente reformuladas ou superadas por outras que procuram dentro de suas limitações responderem as inquietações dos cientistas. Segundo Capra (1997) a ciência como conhecemos atualmente é fruto de uma grande revolução que ocorreu entre os séculos XVI e XVII, na qual houve uma mudança drástica na forma como as pessoas descreviam o mundo. Até então a visão orgânica era dominante na Europa, assim como em outras civilizações. Neste tipo de visão o ser humano não tinha por objetivo exercer controle sobre as coisas e sim entender seus significados, levando em consideração as necessidades da comunidade em detrimento dos interesses individuais. Segundo o autor, a mudança foi iniciada por Descartes e completada por Newton no século XVII. Para Descartes na ciência não deveria haver lugar para dúvidas, mas sim para certezas absolutas. A partir de então, a natureza e os seres humanos passaram a ser comparados a máquinas. O dualismo mente-corpo foi exacerbado, em que o segundo estava a serviço do primeiro. O método cartesiano tinha como objetivo decompor os pensamentos e problemas em suas partes específicas e ordená-las em uma seqüência lógica. Este método trouxe grandes contribuições para a ciência ao permitir o desenvolvimento de teorias cientificas, porém, ao fragmentarmos o conhecimento perdemos a visão do todo.


Uma tentativa de superação para essa forma de pensamento simplista, é proposta por Morin (2005) nos pressupostos teóricos da complexidade. Para o autor o conceito de ciência que foi instituído pós-século XVII não permite sua própria auto-investigação e é tido como inquestionável. Porém, as teorias elaboradas pelo conhecimento científico devem ser mutáveis, pois o conhecimento não é reflexo definitivo do real, e sim uma visão dentre outras possíveis, pois, ao contrário do que se pensava, a ciência não é definida na certeza, mas sim na incerteza, já que o conhecimento científico é sempre renovado, de modo que novas teorias surgem complementando as antigas ou então as substituindo, num processo contínuo (MORIN, 2005). Assim, a ciência tradicional deve superar o obscurantismo que nela reside. Esse termo foi usado por Morin (2005) para designar as especializações do conhecimento, pois, ao mesmo tempo em que ele serviu e foi importante para analisar a fundo os fenômenos, também gerou uma cegueira em que o cientista recusa-se a refletir sobre aquilo que não é pertinente à sua especialidade. Isso fez com que os cientistas utilizassem métodos que não levam em consideração os objetos ou seres vivos como culturais, gerando problemas no âmbito da ciência, como por exemplo: a desconsideração do observador na observação; a retirada do objeto de estudo do ambiente ao qual faz parte; e estudar apenas as partes para se entender o todo. Desta forma, podemos dizer que o ser humano necessita transcender em busca de um conhecimento que seja capaz de considerar o pensamento complexo, de modo que o observador possa ser incluído na sua investigação, a análise do todo seja tão importante quanto à análise das partes e o objeto de estudo seja pesquisado em seu ambiente. A divisão que hoje existe na ciência foi causada pelo dualismo cartesiano que separou o pensamento do corpo, gerando a fragmentação do saber e o problema das especializações. Isso nos levou a métodos científicos como a experimentação, que desconsidera os objetos e principalmente os seres vivos como culturais, que devem ser estudados ou observados de forma ecológica, ou seja, no ambiente ao qual fazem parte (MORIN, 2005). Temos que levar em consideração que o todo é mais do que a soma das partes. Pois quando as partes se interagem, o todo apresenta características diferentes, ou seja, que as partes não contêm. Porém, desconsiderar as partes também parece não ser o caminho, pois como nos afirma o autor, o paradigma holístico, que tinha por objetivo analisar o todo e desprezar as partes, se tornou tão reducionista quanto à visão mecanicista. Para um paradigma da complexidade, alguns termos como a desordem e o caos, que em nosso senso comum são conhecidos como problemas que devem ser evitados, na verdade são


lembrados por Morin (2005), como de fundamental importância para que novos olhares surjam, com o intuito de gerar o crescimento e a mudança. A crise não deve ser concebida como algo ruim. Na verdade quando entramos em crise, é porque algo nos incomoda e precisa ser superado. Esperamos então que a atual crise que assola o pensamento científico seja responsável por gerar uma mudança de paradigma, pois esta se faz necessária atualmente, e o pensamento complexo pode ser uma das possibilidades para que o pensamento simplista não mais prevaleça. Este último, ainda predomina nas ciências de um modo geral, no entanto, novas teorias têm surgido em várias áreas de conhecimento, com vistas a considerar a complexidade. No campo da Educação Física, uma delas é a ciência da Motricidade Humana, que será abordada a seguir como uma possibilidade de superação para o pensamento reducionista/cartesiano nesta área do conhecimento. A Ciência da Motricidade Humana Quando falamos em movimento humano, devemos nos referir a um pré-ato, isto é, uma intencionalidade que Manoel Sérgio (1999) chama de Motricidade Humana. De acordo com o autor, a essência do ser humano está no movimento em busca da transcendência. Assim quando falamos em motricidade, devemos pensar no gesto intencional, manifesto pelo corpo a partir de dentro e não do exterior. Como ciência, a Motricidade Humana tem por objetivo ler as ações do praticante que através de seu gesto intencional visa transcender. Ela também tem por objetivo a formação de pessoas críticas, que incorporem o conhecimento adquirido para que venham a intervir culturalmente e politicamente no sentido emancipatório (SÉRGIO, 1999). Neste sentido, Trovão do Rosário (1999, p. 35) nos diz que: Como todas as ciências, a Motricidade Humana tem de gerar cultura; uma cultura fundada mais na sabedoria do que no saber muitas coisas; uma cultura em que as verdadeiras ciências para serem eficazes não podem atender a tudo e em que as Teorias, por mais belas que sejam, deverão ser sempre consideradas como aproximações. Para o autor, esta ciência estudará as relações existentes entre o corpo e o meio ambiente, assim como as transformações que ocorrem desta relação; a adaptação do inato pelo adquirido; a forma como as ciências sociais e biológicas, juntas, explicarão as dúvidas que anteriormente eram somente de uma. Estudará também os processos que estruturam nosso


pensar e o nosso fazer; as técnicas corporais utilizadas nas diversas circunstâncias da vida e em todas as idades; as relações existentes entre o ser humano e seus semelhantes. Estudará as múltiplas formas de maturação e desenvolvimento do ser humano, através de processos que levem em consideração, quem somos, o que fazemos e o que pensamos. Segundo Feitosa (1999) a ciência da Motricidade Humana ao lançar o ser humano para dentro de si mesmo, desencadeia o auto-conhecimento, pois deste modo encontramos a essência humana, ou seja, a sua consciência, a sua intenção. A autora evidencia alguns equívocos que ocorrem nesta área de construção científica: a tendência de se confundir motricidade humana com movimento humano; a dificuldade de se distinguir consciência, intenção e vontade, como também a condição de sujeito e objeto no movimento humano; a tendência de se identificar desenvolvimento corporal com desenvolvimento humano; o medo de errar no processo de conhecimento; e acharmos que a avaliação quantitativa é uma via clara e justa para se medir o conhecimento. Estes cinco equívocos citados por Feitosa (1999) são os mais elementares e frequentes, por isso merecem uma atenção especial. Assim, nos dois primeiros, podemos ver que quando falamos em movimento humano, estamos nos referindo apenas ao deslocamento do corpo no espaço e não a intencionalidade operante que é invisível. Ao realizarmos um movimento sem sabermos o seu objetivo, ou a intenção destes, estamos atuando de forma mecânica. A intencionalidade operante requer a vontade do sujeito que desenvolveu a consciência de si, da sua realidade, e da sua dimensão invisível e causal. No terceiro equívoco apresentado pela autora, deve ficar claro que quando falamos em desenvolvimento humano, devemos ter em mente que teremos que ir além da dimensão do visível, ou do que apenas sentimos, pois o que o outro sente e o que pareço aos seus olhos, vai além do que sinto e do que observo à minha volta. O quarto equívoco se refere à insegurança que temos no processo de conhecimento, pois na verdade o erro faz parte da ação. Não devemos planejar o erro, mas também não podemos evitá-lo. O quinto e último equívoco é relacionado à avaliação no processo de aprendizagem, que é uma forma aproximada de se medir o conhecimento, e deve incluir o sujeito do conhecimento avaliado e o professor, num processo contínuo e imparável de reflexão crítica. Kolyniak Filho (2007) nos lembra que a Motricidade refere-se somente ao ser humano, pois como estamos vendo ela é a intencionalidade operante, ou seja, uma característica que não é aplicada a qualquer ser vivo que possui a capacidade de se mover. Ela é o conjunto de capacidades e habilidades motoras de uma pessoa, resultante de sua aprendizagem, com possibilidades e limitações relacionadas à estrutura biológica dos seres humanos, e de cada indivíduo, em especial.


Como podemos ver nesta breve explanação, a motricidade humana vai além dos pensamentos tradicionais que encaram o ser humano como mero reprodutor de gestos préestabelecidos. Ela leva em consideração o ser crítico e criativo, que é capaz de criar seu próprio conhecimento. Conhecer-se a si mesmo, os outros e o mundo, são princípios desta ciência que está emergindo. Bases teóricas são necessárias para num primeiro momento estabelecer diretrizes de atuações práticas, mas como a própria ciência da motricidade humana nos ensina, cada um de nós, professores e aprendizes, deveremos construir nosso próprio conhecimento. Referências CAPRA, Frijof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1997. FEITOSA, Ana Maria A. ciência da motricidade humana (C.M.H.). In: SÉRGIO, Manoel et al. O sentido e a ação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. KOLYNIAK FILHO, Carol. Qualidade de vida e motricidade. In: MOREIRA, Wagner W. (org.). Qualidade de vida: complexidade e educação. 2ª ed. Campinas: Papirus, 2007. MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 9ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. SÉRGIO, Manoel. A racionalidade epistémica na Educação Física do século XX. In: SÉRGIO, Manoel et al. O sentido e a ação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. TROVÃO DO ROSÁRIO, Alberto. A motricidade humana e a educação. In: SÉRGIO, Manoel et al. O sentido e a ação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. Outros artigos em Portugués


A ciência da motricidade humana como uma possibilidade  

MOTRICIDAD HUMANA

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