Notícias do Mar
Entrevista: Carlos Salgado
Conhecer e Viajar pelo Tejo
“Tejo foi Lamentavelmente Esquecido” Diz Eng. Américo Nunes dos Santos
O meu convidado é o senhor Engenheiro Américo Nunes dos Santos, um técnico de elevado conhecimento e experiência sobre hidráulica, que foi o último director da Hidráulica do Tejo e esteve na génese da Administração da sua Bacia Hidrográfica, a ARH-Tejo.
Engenheiro Américo Nunes dos Santos
E
ra da maior importância conversar com ele sobre o Tejo, por isso, lançámos a primeira
pergunta: C.S. Caro Engenheiro, há muito que vimos a conversar e defender que, para o crescimento económico de Portugal, país parco em recursos, a navegabilidade do Tejo para fins comerciais e turísticos é indispensável, aliás é exigível para poder alinhar com os países da Comunidade Europeia. A minha pergunta é: no seu entender isso ainda é possível? N.S. Não só é possível, como desejável e urgente, mas porque “não
há almoços grátis”, temos de pensar cuidadosamente o modo como tomamos este alimento essencial para fornecer energia económica ao nosso país. Para realizar esta importante infra-estrutura, ao longo da nossa história moderna existiram diversos projetos, o último dos quais, foi o apresentado pelo Grupo Mendes Godinho nos anos 80, do século XX. Esse projecto se realizado, teria invertido a tendência de utilizar só os transportes terrestres, esquecendo em absoluto a alternativa fluvial. Eu que nasci em Tomar, junto às margens do rio Zêzere, ouvi dos meus antepassados, muitas histó-
rias da utilização do rio como meio de transporte até à construção da barragem do Castelo do Bode. Tudo isto foi lamentavelmente esquecido, até que quase por milagre e em boa hora, a Administração da Região Hidrográfica do Tejo em 2010, promoveu no Laboratório Nacional de Engenharia Civil uma histórica sessão técnica para analisar a problemática da navegabilidade do Tejo na actualidade. Nessa sessão onde esteve presente a nata dos técnicos portugueses desta área, concluiu-se que é necessário retomar os estudos para finalmente se equacionar de maneira realista esta infra-estrutura, de modo a torná-la uma relevante alavanca para o nosso desenvolvimento. É importante neste momento não esquecer alguns dados constantes. Devemos estudar cuidadosamente as necessidades actuais do país em relação à economia e compatibilizá-las com as melhores condições técnicas e ambientais. Realizar a obra de acordo com as necessidades e a economia actual deixando a capacidade de crescimento futuro completamente salvaguardada. É também importante acautelar que a obra não é capturada por interesses que, à semelhança do que aconteceu a muitas num passado recente, a transformem, não numa fonte de progresso mas numa sobrecarga para a economia. Do projecto do grupo Mendes Godinho, para a navegabilidade do Tejo, através do qual ficamos a saber que uma só embarcação teria a capacidade de transportar o equivalente a 110 vagões de 40 toneladas, ou 220 camiões de 20 tonela-
das, com uma poupança de energia significativa. Comparativamente, a mesma quantidade de energia no transporte marítimo-fluvial faz 500 km, no ferroviário 200km, no rodoviário 100 km e no aéreo 20 km. A esta vantagem devemos juntar as magníficas condições naturais do estuário do Tejo, que é o maior estuário da Europa. Este estuário de onde partiu a primeira globalização, está à espera do nosso engenho para a sua revitalização em termos económicos. Neste estuário que ainda está doente pela poluição, que é vítima de forte assoreamento e onde se pretende construir uma terceira travessia com o tirante de água inferior ao da ponte Vasco da Gama, o que hipotecará ainda mais a sua navegabilidade. Esta última situação é o repetir do erro da mais recente ponte sobre o rio Tejo, a ponte das Lezírias no Carregado, que foi construída com o tirante de água inferior ao da ponte imediatamente a jusante, a ponte Marechal Carmona em Vila Franca de Xira. C.S. Como pode ser possível? N.S. Devemos estudar cuidadosamente as necessidades actuais do país em relação à economia e compatibilizá-las com as melhores condições técnicas e ambientais. Realizar a obra de acordo com as necessidades e a economia actual deixando a capacidade de crescimento futuro completamente salvaguardada. É também importante acautelar que a obra não é capturada por interesses que, à semelhança do que aconteceu a muitas num passado recente, a transformem, não numa fonte de progresso mas numa sobrecarga para a economia.
Tejo, a mais económica estrada de Portugal
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2012 Maio 305