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AS FALSAS CONFIDÊNCIAS Huppert e Garrel no último sonho de Luc Bondy

I AM NOT YOUR NEGRO Poderoso documentário sobre o escritor James Baldwin

SIERANEVADA O realismo doce amargo do cinema romeno

TERRENCE MALICK MÚSICA A MÚSICA Belíssimo e envolvente

A MINHA VIDA DE COURGETTE O triunfo da animação

A CIDADE PERDIDA DE Z

James Gray num registo grandioso Maio | Junho 2017

MAIO | JUNHO '17

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EDITORIAL São muitos (e bons) os filmes para ver ao longo dos meses de Maio e Junho. Dos EUA (o regresso em grande de James Gray, o puzzle musical/amoroso de Malick, a escrita de James Baldwin, um novo Alien); de França (Honoré, Arnaud des Pallières, Katell Quillévéré, a animação de Claude Barras, Marivaux no último acto de Luc Bondy); Bélgica (Dardennes); Roménia (o premiado Cristi Puiu); Argentina/Espanha (O Ilustre Cidadão); África (Félicité); Portugal (Canijo e 11 actrizes em peregrinação). E ainda outros. E não se esqueça que as obras-primas de Mizoguchi, em cópias restauradas, de que lhe demos conta no número anterior, continuam o seu estado de Graça até ao Verão (no Espaço Nimas, em Lisboa, e agora também no Teatro Campo Alegre, no Porto, e restantes salas do país).

As Nossas Salas: Cinema Monumental (Lisboa) Espaço Nimas (Lisboa) Teatro Campo Alegre (Porto) Auditório Charlot (Setúbal) Theatro Circo (Braga) Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra) Centro de Artes e Espectáculos (Figueira da Foz)

Programação sujeita a alterações de última hora. Confirme sempre em www.medeiafilmes.com

Equipa Director: Paulo Branco Coordenação Editorial: António Costa Colaboram neste número: Anabela Moreira, Diana Cipriano, Fátima Castro Silva, Hervé Loichemol, Inês N. Lourenço, James Gray, Nuno Galopim, Raquel Morais, Regina Pessoa, Renata Curado. Design: André Carvalho e Catarina Sampaio Capa: As Falsas Confidências, Música a Música Com o apoio

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SIERANEVADA SIERANEVADA

BREVEMENTE

Dur: 2h 53min

DE CRISTI PUIU

COM MIMI BRANESCU, JUDITH STATE, BOGDAN DUMITRACHE

A primeira cena dialogada de Sieranevada é uma antecâmara, um anúncio justo daquilo a que vamos assistir nas três horas seguintes: conversas de família em ambiente interior – dramáticas para os protagonistas, anedóticas para o espectador. Numa viagem de carro, Lary e Laura discutem a gafe indesculpável dele: comprou para a filha um fato de Bela Adormecida, quando o papel desta na peça da escola é o de Branca de Neve – cor-de-rosa pareceu-lhe mais bonito, desculpa-se ele. Este engano inaugural antecipa o maior engano do filme. Quarenta dias depois da morte do patriarca Emil, a família de Lary reúne-se para celebrar, em modo cristão, a vida depois da morte. A prima responsável por vestir um dos filhos com as vestes do pai defunto leva demasiado à letra a coincidência entre morto e traje – compra para o rapaz, esguio, um fato com as medidas do mais roliço pai. O que funda o engano é a falta de esperteza da prima, diz a família. Mas, em boa verdade, o problema é a própria família – nenhuma harmonia emerge da diversidade de vozes que a compõem. Puiu constrói uma coreografia fluida e ritmada, passada essencialmente num único espaço, a casa onde a família se reúne para a missa e para o almoço. Cada um deles é um peão e, como no teatro, entra e sai de cena constantemente, sem que o espectador se possa fixar mais numa ou noutra daquelas figuras (não exactamente personagens). Do filme se disse que era claustrofóbico. Sê-lo-á num sentido particular: claustrofóbico como um almoço de família em que a sala se torna subitamente demasiado pequena porque ninguém concorda – nem bibelots, nem parentes. Puiu tem mão cirúrgica sobre o filme e contrabalança uma certa solenidade com momentos de humor; e se levanta questões importantes sobre política e moral, não tem a presunção de lhes tentar responder – está mais interessado no burburinho, na desordem daquelas vozes discordantes. O malapropismo desfigurado do título – Sieranevada, uma palavra que nem existe – lembra precisamente isso. Raquel Morais Prémios e Festivais: Festival de Cannes | Toronto International Film Festival Chicago Internacional Film Festival – Prémios Melhor Filme e Melhor Realizador Candidato romeno ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro


ESTREIAS CINEMA

MÚSICA A MÚSICA

DE TERRENCE MALICK ESTREIA 11 MAIO

SONG TO SONG COM MICHAEL FASSBENDER, ROONEY MARA, RYAN GOSLING, NATALIE PORTMAN, PATTI SMITH Dur: 2h 09min

“Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam. Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. — E injuriei-a.” Jean-Arthur Rimbaud, Une Saison en Enfer [trad. Mário Cesariny]

“We thought we could just roll and tumble, live from song to song, kiss to kiss.” Faye/Rooney Mara em Song to Song

Terrence Malick é um caso raro no cinema actual. Poderíamos dizer que o seu trabalho é hoje ferozmente poético (quanto mais poético, mais verdadeiro), que a câmara de filmar é a caneta com que escreve estes poemas-filmes (que depois, na mesa de montagem, vai “re-escrevendo”, “esculpindo”, à procura da forma que almeja), que Música a Música continua esta sua procura que já se acentuava em Cavaleiro de Copas. Mas não se julgue que a experimentação, os fragmentos, as alusões, sejam o sinal de uma ausência de plot, ou que o cinema não esteja ali no seu esplendor. Este é um filme passado numa geografia que Malick conhece bem (a cidade de Austin, Texas, onde vive), o dia-a-dia de músicos, rollin' and tumblin', (a cena musical de Austin é uma presença forte e constante na cidade, culminando naquele que é hoje um dos maiores festivais de música do mundo, o SXSW, com centenas de concertos, dentro de portas e ao ar livre; — e também o cinema: Song to Song foi o filme que abriu o festival este ano, e Malick, que é raro aparecer e não compareceu na exibição do seu filme na sessão inaugural, esteve, no entanto, num encontro com o público, à conversa com o actor Michael Fassbender e o realizador Richard Linklater). Faye (Rooney Mara) quer seguir uma carreira na música, tem uma relação com um magnata da indústria musical (Fassbender), encontra outro músico de Austin numa festa (Ryan

Gosling), protegido daquele, por quem acaba por apaixonar-se numa viagem ao México. Este triângulo amoroso vai causar uma instabilidade que Malick usará para criar uma teia de novas relações e de histórias que se entrelaçam (entra aí Nathalie Portman; entra aí Cate Blanchet…), com afastamentos e aproximações. O filme está recheado de grandes canções, de concertos (Malick passou anos a documentar-se e a filmar no SXSW), os actores interagem com os músicos, que fazem de si próprios (Iggy Pop é divinal, e a presença de Patti Smith, amiga de longa data de Malick, mentora de Faye no filme, é simplesmente mágica). Num livro sobre Malick, Lloyd Michaels chamavalhe ‘artist of the beautiful’ (título de um conto de Hawthorne). E voltando aos versos de Rimbaud, leitura de cabeceira de Faye, as palavras de André Breton, que, como mostrou Cesariny, com eles dialogam, e que também elas nos dizem o que este filme é: “A beleza convulsiva será erótica-velada, explosivafixa, mágica-circunstancial, ou perecerá.” A.C. Prémios e Festivais: SXSW Film Festival — Filme de Abertura

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ESTREIAS CINEMA

A CIDADE PERDIDA DE Z

THE LOST CITY OF Z

DE JAMES GRAY EM EXIBIÇÃO

Dur: 2h 21min

COM CHARLIE HUNNAM, ROBERT PATTINSON, SIENNA MILLER

A Cidade Perdida de Z adapta o livro epónimo de David Grann e é um grande filme de aventuras como há muito não víamos, sobre o explorador Percy Fawcet e a sua alucinante viagem pela floresta amazónica. A palavra a James Gray, o realizador: Li o livro antes da sua publicação, em 2008. Comecei então a escrever o guião, que acabei em 2010. Fiz as primeiras repérages no Brasil, no final desse ano. Contactei três actores diferentes, fiz outro filme pelo meio [A Emigrante, 2013], e, de repente, estava a filmar na selva. E agora, a distribuição, mundo fora. O filme teve estreia mundial em Outubro do ano passado, no festival de Nova Iorque — um processo longo, portanto. Para ser honesto, custa-me falar das dificuldades na rodagem de A Cidade Perdida de Z. Não quero que os espectadores o vão ver só porque foi duro E há, também, o Apocalypse fazê-lo. Há no mundo tantos trabalhos difíceis, que Now. É um filme muito diferente, ouvir alguém queixar-se sobre fazer um filme chega passado num local diferente, mas a ser insuportável, até porque estamos ali todos para estamos a falar das dificuldades físicas em fazê-los, e satisfazer um sonho. […] E sabíamos, que por mais é isso que todos estes filmes têm em comum. Apesar duro que tenha sido fisicamente, estávamos a fazer das parecenças, não quis repetir o que Coppola e um filme. Sim, confrontámo-nos com temperaturas Herzog tinham feito, eu queria outra coisa. Quando muito elevadas, 100% de humidade, insectos, fazemos filmes é maravilhoso podermos roubar crocodilos, cobras, aranhas, tudo isso. […] E cheguei aos nossos heróis e, ao mesmo tempo, colocar lá a dizer à minha mulher que tinha passado por uma também aquilo que nós somos. certa versão do inferno. Mas, por outro lado, foi muito Mesmo que essas obras pudessem ser um ponto de gratificante. Estava a fazer um filme que esperava partida, o que eu queria mostrar era como a obsessão que, de alguma forma, pudesse ser também uma poderia destruir Fawcett. Mas, num certo sentido, homenagem a alguns dos meus heróis, aos filmes que eu queria ir mais além, onde um determinado grau eu vira em criança. Adoro Fitzcarraldo, mas o meu realização acaba por ser atingido por uma pessoa Herzog favorito continua a ser o Aguirre, um dos que consegue ver uma parte do mundo e percebê-la. grandes filmes de todos os tempos. Acho até que no fracasso de Fawcett há algum grau de transcendência. E era aí que eu queria chegar. Não era adaptar O Coração das Trevas, porque isso já foi feito. Chama-se Apocalypse Now e é uma obra-prima. A minha aproximação era mostrar esse grau de transcendência, mover-me noutra direcção. Tenho um amigo escultor, um grande escultor, Thomas Houseago, a quem mostrei o filme e ele disse: “James, o filme é uma obra-prima, e parece feito por um pintor. Tu és um pintor.” Mas o que foi surpreendente é que ele citou, logo ali, uma série de pintores que o Darius [Khondji, o director de fotografia] e eu tínhamos visto. O Claude Lorrain, o [Eyre] Crowe, o Rousseau para a selva, Henri Rousseau. [a partir de entrevistas do realizador à Slant Magazine, Slashfilm.com e The Telegraph] Prémios e Festivais: Festival de Nova Iorque | Festival de Berlim

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ESTREIAS CINEMA

A MINHA VIDA DE COURGETTE

MA VIE DE COURGETTE

DE CLAUDE BARRAS ESTREIA 11 MAIO

Ele tem olhos castanhos e cabelos azuis, ela tem cabelos azuis e olhos castanhos… Têm olheiras escuras e não são lisinhos, nem começam a cantar de repente a meio do filme, apanhando o espectador desprevenido e fazendo-o esquecer do que tratava a história antes da cantoria, como acontece nos filmes de animação da grande indústria milionária… Em A Minha Vida de Courgette, os personagens mexem às vezes de uma forma um pouco tosca, outras vezes com uma grande poesia e detalhe no movimento, fazendo-nos lembrar que por detrás de cada personagem, de cada pequeno movimento, de cada frame, está uma pessoa que queria contar uma história de sentimentos simples, frágeis e humanos e não uma máquina que atingiu a perfeição da tecnologia do movimento, dos efeitos e do rendering final. É essa a grande riqueza deste filme. O Claude Barras é “um colega” e até este filme, tal como eu, realizava curtas-metragens, como Le Génie de la boîte de raviolis, cujo humor absurdo, inesperado e hilariante dificilmente pode ser encontrado nas longas-metragens que, mesmo quando são

VERS Ã ORIGIN O AL

Dur: 1h 06min

“independentes” são obrigadas a obedecer a uma determinada fórmula comercial que lhes retira frescura e que obriga a que toda a compreensão da história passe pelos diálogos e, ainda, que “agrade” ao público infantil. Pessoalmente, a curta-metragem é o formato que prefiro e acredito que é o que melhor serve a Animação. De todo o universo do Cinema penso que este este é o seu formato mais marginal… ninguém as vê, ninguém sabe onde as encontrar e no entanto… elas existem. E quase que posso dizer que se o público tivesse acesso a elas o Mundo seria diferente… (sorrisos…). Acredito que a curta-metragem de Animação é o laboratório de ideias, de pesquisa visual e técnica que pode ser muito útil à Indústria para se renovar. A Minha Vida de Courgette é um exemplo disso: alguém que fez curtas-metragens de Animação durante muito tempo, que

conhece muito bem o lado frágil e humano deste meio, transportando essa experiência para um formato mais longo. E eu estou convencida que esta é a forma através da qual a Animação Europeia ou não-Americana se podem afirmar: copiar a “atitude” dos grandes estúdios Americanos mas não a sua fórmula narrativa e estética. Quando os produtores europeus tentam copiar aquelas histórias, os tiques e a estética, porque imaginam que é isso que lhes vai trazer sucesso, o resultado é quase sempre uma amálgama patética e acéfala. Mas se “copiarmos” a atitude Americana e falarmos do que sabemos, fazendo como sabemos e usando a riqueza estética da nossa herança cultural, com essa atitude, filmes como A Minha Vida de Courgette e O Menino e o Mundo conseguem singrar, mesmo em território Americano. Regina Pessoa

Prémios e Festivais: Festival de Cannes Prémios Europeus do Cinema | Satellite Awards Festiaval Annecy — Melhor Filme de Animação Festivais San Sebastián, Varsóvia, Annecy — Prémio do Público Prémios César e Lumière — Melhor Filme Animação, Melhor Argumento Nomeado para os Oscars e Golden Globes — Melhor Filme Animação

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ESTREIAS CINEMA

ALIEN: COVENANT ALIEN: COVENANT

DE RIDLEY SCOTT

ESTREIA 18 MAIO

Dur: 2h 03min

COM MICHAEL FASSBENDER, KATHERINE WATERSTON, BILLU CRUDRUP, NOOMI RAPACE

Dois anos depois dos tranquilos acenos a alienígenas em Encontros Imediatos de Terceiro Grau de Steven Spielberg, que, juntamente com o primeiro Star Wars, fez de 1977 um ano marcante na história do cinema de ficção científica, Ridley Scott optava por devolver ao grande ecrã as narrativas de medo que tinham caracterizado muitas das aventuras com baixo orçamento e discos voadores dos anos 50.

Sob a aterradora premissa de que um grito de medo não se escuta quando estamos no espaço, a história de horror, claustrofobia e de luta pela sobrevivência arrebatou plateias, fez da actriz Sigourney Weaver (e da sua Ripley) um ícone e lançou, pela força do entusiasmo e dos bons resultados de bilheteira uma saga que, 38 anos depois, continua viva.

O budget era contudo afinado por outras ambições... Convocando o artista suíço H.R. Giger para imaginar alguns elementos visuais — nomeadamente o “alienígena” — e chamando à realização um ainda jovem Ridley Scott (que tinha visto o seu primeiro filme, O Duelo, a ser aclamado como a melhor estreia do Festival de Cannes em 1977), um filme que juntava ingredientes de ficção científica e de terror surgiu nas salas de cinema em 1979 com o título Alien, O Oitavo Passageiro.

Ao filme original de Ridley Scott juntou-se em 1986 Aliens, uma sequela musculada em vitaminas de acção e medo por James Cameron. Depois foi a vez de David Fincher trabalhar sob os mesmos ingredientes em Alien 3 (1992). E, em 1997, Jean-Pierre Jeunet mostrava, em Alien: O Regresso, um lado adicional para a história, aprofundando o horror ao explorar (mas sem o primor dos filmes anteriores) cenários em que há instituições humanas a procurar tirar partido das potencialidades de tão mortífera ameaça. Pior mesmo seria o medíocre Alien Vs Predator (Paul W.S. Anderson, 2005), mais coisa de trama videojogo do que uma ideia de cinema. Ridley Scott voltou a bordo para, em 2012, reativar o melhor da saga com uma prequela que se materializou em Prometheus, apresentando uma narrativa com acção cerca de 30 anos antes da que vimos no filme de 1979. Alien: Convenant, que retoma alguns nomes do elenco de Prometheus (como Michael Fassbender ou Noomi Rapace), faz-nos avançar dez anos no tempo, acompanhando a chegada de uma nave com colonos a um planeta que é dado como um paraíso longínquo... Mas que imaginamos já que não será bem assim... E atenção que a história não deverá acabar aqui, já que o próprio Ridley Scott deu a entender que haverá mais uma sequela de Prometheus. Ou duas... Nuno Galopim

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ESTREIAS CINEMA

RÉPARER LES VIVANTS

EXCLU

CINEMSIVO AS M

EDEIA

RÉPARER LES VIVANTS

DE KATELL QUILLÉVÉRÉ ESTREIA 22 JUNHO

Dur: 1h 43min

COM TAHAR RAHIM, EMMANUELLE SEIGNER, ANNE DORVAL, BOULI LANNERS

Com o coração nas mãos Jovem realizadora e argumentista francesa, de 37 anos, Katell Quillévéré tem já um percurso singular, e reconhecido, no cinema francês. Depois de ter dirigido três curtas-metragens (a primeira, A bras le corps, de 2005, foi seleccionada para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e para os César), realizou duas muito pessoais longas, que a revelaram ao grande público: Un Poison violent (2010, Prémio Jean Vigo) e Suzanne (2013, filme de abertura da Semana da Crítica de Cannes desse ano). Chegada ao terceiro filme, Réparer les vivants, ao contrário de todos os anteriores, que partiram de argumentos originais seus, Quillévéré assina uma adaptação do romance homónimo de Maylis De Kerangal, surpreendente e premiado best-seller em França, também adaptado ao teatro. Livro e filme constroem-se em torno do tema do transplante de órgãos, seguindo a cadeia, e respectivas implicações (familiares, médicas, morais), entre dador e receptor de um coração: do corpo adolescente de Simon, amante de surf, em

morte cerebral após um acidente de viação, para o corpo maduro de Claire, para quem esse órgão é a única hipótese de vida. Na sua adaptação, Katell Quilléveré aborda essa circulação de um coração não só como um puro princípio de acção, mas sobretudo como um motor de reflexão, com os flashbacks e as digressões oníricas das personagens a ajudarem a erguer uma espécie de mosaico, um drama coral, simultaneamente orgânico e metafísico, sobre a fragilidade e resiliência da vida humana. E se Réparer les vivants se instala no coração do melodrama, ao mesmo tempo guarda uma certa distância, olha para essa mecânica com precisão e serenidade, como se a documentasse. Esse desejo documental (marcante nas sequências médicas, culminando nas duas operações do transplante, revelando como há tanto um lado de ‘bricolage orgânica’ como de sagrado quando um coração transplantado recomeça a bater no peito de outrem) ancora-o, dos dez magníficos minutos iniciais ao luminoso plano final. No início de Réparer les vivants, na sequência de surf com os amigos, Simon espera pelas ondas e quando uma delas lhe proporciona o ‘túnel’ desejado, essa é uma travessia simultaneamente real e transcendente. Entre o crepúsculo e a aurora, o orgânico e o onírico, a vida e a morte, o filme de Quilléveré assemelha-se a essa travessia e oferece uma sensível meditação sobre a arbitrariedade do destino. Fátima Castro Silva Prémios e Festivais: Festival de Veneza — Secção Orizzonti Festival de Toronto

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ESTREIAS CINEMA

I AM NOT YOUR NEGRO

ESTREIA 18 MAIO

Dur: 1h 33min

I AM NOT YOUR NEGRO

UM DOCUMENTÁRIO DE RAOUL PECK COM JAMES BALDWIN, SAMUEL L. JACKSON, HARRY BELAFONTE, MARLON BRANDO

“A questão não é o que acontece aos negros, a questão é o que acontece à América.” James Baldwin

Lembra-te desta casa

Remember This House era o título de um livro que James Baldwin (1924 – 1987), romancista, ensaísta, dramaturgo, activista dos direitos civis, planeara mas que nunca escreveu. A casa para a qual Baldwin reclama lembrança é a América, nomeadamente a América dos anos 60, cujo retrato queria traçar a partir das vidas de três activistas negros assassinados: Medgar Evans, Malcolm X e Martin Luther King, seus amigos pessoais. Desse livro esboçado ficou um manuscrito anotado de trinta páginas, confiado pela irmã mais nova de Baldwin ao cineasta Raoul Peck, há muito interessado no seu legado. Daí resultou I Am Not Your Negro, um livro que deu origem a um filme, que resgata o discurso de Baldwin e o faz ressoar no presente. Peck, leitor precoce da obra de Baldwin, onde reconheceu uma realidade que também vivenciava no seu Haiti natal, tomou as suas palavras como ponto de partida. A linguagem, afinal, fora a única e verdadeira casa de Baldwin. “Deste-me a linguagem onde morar”, disse dele a escritora Toni Morrison. A casa-país, segregadora e preconceituosa, pelo contrário, foi-lhe sempre intolerável. Negro e homossexual, Baldwin deixou-a por Paris, escrevendo sobre ela como um expatriado, numa linguagem ao mesmo tempo poética e política. Raoul Peck assenta I Am Not Your Negro aí, no pensamento de Baldwin, quer pela narração de Samuel L. Jackson, que dá voz às suas palavras, quer, em imagens de arquivo, pela sua presença em debates televisivos e entrevistas. O que daí emana é uma figura e uma voz fortíssimas, um discurso que analisa o seu tempo mas que é do presente, ecoando a tensão racial ressurgida na América. Peck sublinha esse carácter profético ao intercalar imagens de acontecimentos recentes, como os de Ferguson ou Charlotte e do movimento Black Lives Matter. Baldwin escreveu sobre a sua experiência formativa de espectador, sobretudo de cinema, instrumento importante para a abordagem da questão da representação e da forma como a América se via e narrava a si própria. Peck tira partido dos filmes citados por Baldwin, exemplos de como o cinema contribuiu para sedimentar uma narrativa: o negro foi sempre “esse estranho”, esse nigger que a América branca criou. “Vocês inventaram o nigger, perguntem-se porquê”, desafia Baldwin no final de I Am Not Your Negro, um documentário–ensaio demolidor na sua revisitação histórica e questionamento das fundações do sonho americano (uma história de violência, segundo Baldwin). Fátima Castro Silva Prémios e Festivais: Festival de Berlim | Festival de Toronto

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ESTREIAS CINEMA

AS FALSAS CONFIDÊNCIAS LES FAUSSES CONFIDENCES

DE LUC BONDY BREVEMENTE

EXCLU

CINEMSIVO AS M

EDEIA

Dur: 1h 22min

COM ISABELLE HUPPERT, LOUIS GARREL, BULLE OGIER, YVES JACQUES

As falsas confidências e as quatro verdades de Luc Bondy

Marivaux não engana e di-lo à partida: as confidências – que deveriam, em princípio, recrutar a fé, a crença e a verdade — serão falsas. A peça não é, no entanto, uma sátira, não denuncia nada – nenhum defeito social, nenhuma ambição desonesta, nenhuma decadência – não preconiza qualquer virtude, qualquer moral. Mostra que a verdade é um processo. As personagens de Marivaux não enganam: ninguém formula uma contraverdade – as confidências são ditas falsas porque não cobrem a toda a hora TODA a verdade. Esta é omnipresente — Dorante ama realmente Araminte que é sensível aos encantos de Dorante — mas fragmentada, destilada, construída: a partir de semi-verdades e de revelações truncadas, ela progride, desenvolve-se e contamina. A verdade é uma montagem. Os sentimentos não enganam. Mas devem encontrar as palavras para se dizerem e o verbo para triunfarem. A verdade não é imóvel no céu das ideias: deve circular para comover e ser permutada para produzir efeitos. Avança de viés, progride num labirinto onde todos se perdem, se descobrem e se encontram. A verdade é um comércio. Luc Bondy não engana. Acerta o passo com Marivaux e reforça o desenho inicial ao desenvolver a intriga no edifício do Odéon — que

também serve de hotel peculiar. Lembra assim que este filme é, antes de mais, uma peça de teatro e a reformulação de uma representação. Que a senhora da casa é também a actriz principal, que Araminte é Isabelle Huppert. Que a maquinação doméstica se desenrola no templo do teatro. Que o tráfego sentimental desemboca num desafio à verdade, através de uma celebração da aparência e de um elogio do encenador em personagem de criado. A verdade é uma encenação. Luc Bondy, herdeiro dos Lumière, leva-nos do pátio ao jardim, do palácio ao teatro, do espaço de cena aos bastidores, das abóbadas ao subsolo do palco, da obscuridade à luz e da luz à obscuridade. Desfaz a evidência, na doçura do sussurro e no acre do rumor, na ligeireza do deslize e na ambiguidade do duplo registo. Tudo aqui é verdadeiro e tudo é construído, desdobrado, reposto em jogo e em cena. De forma elegante, Bondy organiza um estremecimento do verdadeiro, seu ponto de ironia. Um elogio da aparência, da interpretação e da liberdade. Hervé Loichemol [Trad. Fátima Castro Silva]

MAIO | JUNHO '17

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ESTREIAS CINEMA

FÁTIMA

EM EXIBIÇÃO

FÁTIMA

DE JOÃO CANIJO

COM RITA BLANCO, ANABELA MOREIRA, CLEIA ALMEIDA, TERESA TAVARES, TERESA MADRUGA

Fátima, o novo filme de João Canijo, que acompanha 11 actrizes no longo trajecto de uma peregrinação a pé, de Vinhais, Trás-os-Montes, ao santuário de Fátima, e que nos chega em pleno centenário das aparições, assume, como escreveu Daniel Ribas (Público), “ferramentas híbridas da não-ficção e da ficção”, radicalizando “o seu cinema, num sentido puramente de abertura ao mundo”. Como já vinha acontecendo noutros filmes recentes, Canijo escolheu as actrizes (no caso uma troupe que com ele tem vindo a colaborar), que durante largos meses se integraram na vida e no trabalho em Vinhais, e acompanharam, algumas todo o percurso, há três anos, uma peregrinação. Era uma espécie de laboratório para a preparação das personagens (que se inspiram em mulheres reais daqueles lugares) e para a peregrinação a filmar, que seria dura e difícil. Ao longo de todo esse tempo, Canijo foi aprimorando a escrita do guião, incorporando nele as experiências por que as actrizes iam passando (como se lê no genérico, a autoria é atribuída a João Canijo, com a participação de todas as actrizes). Um dos meios usados era o envio, ao realizador através do smartphone, do relato de experiências, impressões, estados de alma, uma espécie de diário, depois de um intenso e arrasador dia de trabalho. Segue-se a transcrição de um excerto áudio enviado pela actriz Anabela Moreira (Céu, no filme), no final da longa e árdua peregrinação de preparação, em 2014, já em Fátima.

10 MAIO | JUNHO '17

Dur: 2h 38min

Desabafo do dia 12 de Maio "É muito comovente ver as pessoas a chegarem aqui e a queimarem velas e a chorarem. O ser humano começou a organizar estas coisas, estas romarias, e o ir descalço e o andarem a arrastar-se, porque estão mal informadas sobre o que Deus é, mas não deixa de ser comovente na mesma, porque é um acto desesperado para chegar a Deus, que afinal de contas não está fora de nada, porque segundo as próprias características que Lhe são reconhecidas é a omnipresença e a omnipresença quer dizer que Ele está em todo lado. E as pessoas vêm aqui desesperadas por O encontrar, e isso comove-me muito. Ontem encontrei a Teresa Tavares, quando eu estava no posto médico, e ela entrou e parecia que vinha de um, que vinha de um ambiente de combate, de uma guerra qualquer, completamente descabelada, preta, com um olhar de miséria profunda. E nós olhámos uma para a outra e quando reconhecemos o estado uma da outra desatámos a rir e rimos à gargalhada e depois abraçámo-nos e desatámos a chorar. E é isso que aconteceu durante o percurso todo. Tu enlouqueces e há uma altura em que tu, com as dores que estás a sentir e o que estás a ver que estamos a fazer, tu tens ataques de riso. Tens ataques de riso sozinho, tens ataques de riso quando, quando páras e estás a ver, estás a ver os teus pés e de repente estás a ver os pés de outra pessoa e olhas para a outra pessoa e tens ataques de riso. É absurdo, não sei se é do sistema nervoso, ou do que é que é, mas… dá-te para ali. E eu agora vou almoçar com o grupo, vou antes que pensem que eu desapareci." Anabela Moreira


ESTREIAS CINEMA

UNITED STATES OF LOVE

EXCLU

CINEMSIVO AS M

ESTREIA 1 JUNHO

EDEIA

ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI

DE TOMASZ WASILEWSKI

Dur: 1h 46min

COM JULIA KIJOWSKA, MAGDALENA CIELECKA, DOROTA KOLAK , MARTA NIERADKIEWICZ

A libertação da Polónia em contraponto com a opressão de quatro mulheres

No rescaldo das Revoluções de 1989, a Polónia vive um momento eufórico. O fascínio com as novas liberdades estabelece-se na primeira cena, um jantar onde ouvimos falar da Fanta, dos jeans e dos dólares, ilustrando a forte presença ocidental após o domínio soviético. O entusiasmo com a nova realidade e o sentido de libertação contrasta com as vidas das quatro protagonistas de United States of Love, que vivem absolutamente oprimidas. Embora conheçamos três delas na cena inicial, a primeira parte do filme mergulha na vida de Agata, uma mulher casada que tem uma obsessão vã pelo padre da sua paróquia. Esta obsessão fá-la afastar-se do seu marido, que não consegue encontrar uma explicação para o seu comportamento distante e irascível. Iza, directora da escola primária, vive há anos uma relação com um homem recémviúvo e espera, em vão, que este decida dedicar-se à relação, ou mesmo formalizá-la, agora que a mulher faleceu. A sua jovem

irmã Marzena, antiga rainha de beleza e professora de aeróbica, quer ser modelo e a sua vizinha Renata, professora na escola de Iza, vive uma paixão reprimida por Marzena. À medida que a narrativa avança, vemos a opressão tornar-se em desespero por amor, por afecto e atenção. Ao longo do filme, são várias as referências ao amor, sempre em momentos de oratória pública, quer na igreja, quer nas aulas. O amor referido é completo, libertador, puro e terno. Estas referências contrapõem as formas de amar das personagens, bem como o seu modo de expressar o amor e o desejo sexual. As protagonistas estão unidas pelos mesmos sintomas, pela forma como vivem com o que sentem. Estas quatro mulheres estão profundamente sozinhas e procuram algo que as liberte das suas vidas, uma forma de amar livremente e verem retribuído esse amor.

Wasilewski não tenta esconder a frieza e infelicidade que envolve o seu filme, usando as paisagens inóspitas e desoladas dos espaços habitados para ilustrar o isolamento e a tristeza em que vivem interiormente estas mulheres. O realizador é ajudado pela fotografia descolorada e fria de Oleg Mutu (responsável pela fotografia de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu). United States of Love arrebata-nos com a força do seu argumento, as maravilhosas interpretações das quatro protagonistas e uma realização completamente afinada com a realidade que ilustra, deixando o espectador irremediavelmente atraído e preso ao filme. Diana Cipriano Prémios e Festivais: Festival de Berlim – Urso de Prata para Melhor Argumento

MAIO | JUNHO '17 11


ESTREIAS CINEMA

OS DESASTRES DE SOFIA

EXCLU

BREVEMENTE

LES MALHEURS DE SOPHIE

DE CHRISTOPHE HONORÉ

CINEMSIVO AS M

EDEIA

Dur: 1h 46min

COM CAROLINE GRANT, ANAÏS DEMOUSTIER, GOLSHIFTEH FARAHANI

A literatura infanto-juvenil da Condessa de Ségur é a mais recente paisagem escolhida por Christophe Honoré para reinventar a expressão do seu cinema

Depois de Ovídio, a Condessa de Ségur. Christophe Honoré prossegue com as suas surpreendentes “metamorfoses” cinematográficas, em resposta ao que será uma curiosidade íntima pelas fronteiras do seu cinema. Justamente, em Os Desastres de Sofia é também esse sentido de curiosidade que impele a pequena protagonista nas suas travessuras. Ela quer experimentar tudo o que se afaste da norma, e provocar uma constante atmosfera de sobressalto no castelo onde vive com a mãe e a criadagem, sem vigilância paterna. Baseando-se nos dois primeiros romances da trilogia com título homónimo (seguido de As Meninas Exemplares), Honoré explora o cosmos infantil com a destreza de quem, afinal de contas, tem voto na matéria… Digamos que esta inclinação não é fortuita. Vale a pena lembrar que o realizador de As Canções de Amor tem o nome igualmente vinculado à literatura infantojuvenil, enquanto autor, com particular sensibilidade para as temáticas que circundam e interferem no crescimento das crianças. Não se espere, no entanto, que daqui resulte um enquadramento pedagógico para o filme. História muitas vezes levada ao pequeno e grande ecrã (mas também ao teatro, banda desenhada, etc.), Os Desastres de Sofia de Honoré tem a frescura de uma adaptação estilisticamente ambígua. Elegante e ao mesmo tempo atrevida. Filme para crianças? Filme para adultos? A ambos dará leituras ajustadas pelo olhar. O certo é que há figuras animadas na imagem real (uma gracinha para as 12 MAIO | JUNHO '17

crianças), personagens que falam directamente para a câmara, e um humor negro que servirá bem os adultos. Vestida de branco, como um anjo, Sophie é uma fatalidade com pernas, que leva a sua mãe ao desespero, e as amigas e o primo ao espanto renovado... Que tal um chá com água do cão e quadradinhos de açúcar que sabem a giz? Um entre tantos exemplos. Contudo, Sophie vai suscitando alguma compreensão. Sobretudo na segunda parte do filme (visual e dramaticamente mais escura), quando fica órfã e entregue a uma madrasta perversa. Oscilando entre uma partitura clássica e músicas modernas, de Alex Beaupain, Os Desastres de Sofia assume ainda uma agradável hibridez temporal: apesar da indumentária de época (século XIX), é um fôlego de modernidade que anima cada cena, cada diabrura. Inês N. Lourenço


ESTREIAS CINEMA

ORPHELINE ORPHELINE

Dur: 1h 51min

EXCLU

CINEMSIVO AS M

EDEIA

DE ARNAUD DES PALLIÈRES BREVEMENTE COM ADÈLE HAENEL, ADÈLE EXARCHOPOULOS, SOLÈNE RIGOT

Nos minutos iniciais de Orpheline, conhecemos Renée (Adèle Haenel), professora e directora de uma escola primária. Profissionalmente envolvida e capaz, a sua rotina é interrompida pela chegada de uma velha conhecida. O reencontro é tenso, trata-se de um ajuste de contas. Tara, uma figura do seu passado, vem cobrar uma dívida antiga. Após ter esvaziado as suas poupanças para a recompensar, Renée é presa. Este primeiro capítulo da história de Orpheline é um ponto de partida e de chegada. Arnaud des Pallières leva-nos numa viagem por quatro momentos da sua vida, recuando um pouco mais a cada um, descascando cada camada, chegando cada vez mais perto da origem de todos os acontecimentos e todas as marcas que a trouxeram à idade adulta, cambaleando entre relações violentas e negligentes, delitos e promiscuidade. O realizador conta com um elenco de luxo, no qual Adèle Haenel se destaca, pois é em Renée que a história abre e se encerra, e a sua transformação entre a segurança dos primeiros instantes do filme e o desespero dos momentos finais é notável. Adèle Exarchopoulos, Solène Rigot e Vega Cuzytek

interpretam as restantes fase da vida da jovem mulher. Exarchopoulos traz uma sensualidade crua, e cada interacção é marcada por um cunho sexual, algo que também está presente no capítulo interpretado por Solène Rigot, embora neste os contornos da violência sofrida estejam muito mais presentes. O uso de quatro actrizes para ilustrar uma vida permite acentuar a forma como as relações e as diferentes formas de vida moldam, a cada momento, a nossa identidade. No fim, percebemos que, por muito diferentes que possamos parecer, nunca é possível fugir completamente ao passado, e temos, tal como Renée, de o encarar. Diana Cipriano

Prémios e Festivais: Festival San Sebastián — Selecção Oficial, em Competição

LA FILLE INCONNUE LA FILLE INCONNUE

DE JEAN-PIERRE & LUC DARDENNE BREVEMENTE COM ADÈLE HAENEL, OLIVIER BONNAUD, JÉRÉMIE RENIER Dur: 1h 53min

Dois Dias, Uma Noite, o filme anterior dos Dardenne, segue uma mulher que vai de porta em porta e pede aos colegas que a ajudem, prescindindo do bónus anual para que ela não seja despedida. La Fille Inconnue é quase o reverso da moeda e gira à volta do sentimento de culpa que uma médica enfrenta por não ter aberto a porta do seu consultório a uma rapariga que pedia auxílio e é depois encontrada morta. Se a culpa atormentaria qualquer um nesta situação, multiplica-se quando se trata de alguém que jurou solenemente consagrar a vida ao serviço da humanidade e a porta em questão era a do seu consultório. Adèle Haenel é Jenny, a médica obcecada em descobrir a identidade da jovem e os detalhes da sua morte para a qual acabou involuntariamente por contribuir. No centro da obra dos Dardenne estão temas e

personagens profundamente humanos, e este filme não é excepção. A protagonista é uma jovem com uma carreira promissora, a quem um instante de arrogância custa caro, não porque lhe seja cobrado, mas pela penitência que impõe a si mesma, enquanto tenta encerrar, dignamente, a história da rapariga desconhecida. As suas razões são ao mesmo tempo egoístas e altruístas, e a sua postura carrega a humildade de um culpado. Jenny quer que a rapariga desconhecida seja identificada e as razões da sua morte descobertas, pela rapariga, mas também por si, para poder expiar a sua falha. O filme não se estende demasiado em questões sociais e, quando as aborda, elas são sempre um meio para contar uma história e não o seu objectivo. A interpretação de Adèle Haenel ajusta-se a este registo, e Jenny, embora ciente da sua condição enquanto médica, nunca se vê como alguém superior, mas sim um membro da comunidade com o dever acrescido que a profissão lhe traz. Diana Cipriano Prémios e Festivais: Festival de Cannes — Selecção Oficial, em Competição

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ESTREIAS CINEMA

O ILUSTRE CIDADÃO EL CIUDADANO ILUSTRE

DE GASTÓN DUPRAT E MARIANO COHN ESTREIA 1 JUNHO

Dur: 1h 58min

COM OSCAR MARTÍNEZ, DADY BRIEVA, ANDREA FRIGERIO

O regresso de um Nobel da Literatura à sua terra natal é o ponto de partida para este êxito do cinema argentino Daniel Mantovani é um escritor argentino que vive na Europa há mais de três décadas, e é internacionalmente reconhecido por ter recebido o Prémio Nobel da Literatura. Os seus romances descrevem pormenorizadamente a vida em Salas, a pequena cidade da Argentina onde nasceu e que não visita desde que era um jovem com aspirações a escritor.

Entre a inúmera correspondência que diariamente lhe chega, Daniel recebe uma carta da Câmara Municipal de Salas a convidá-lo para receber a distinção mais prestigiada da cidade: a de Ilustre Cidadão. De uma forma surpreendente – Daniel não aceita pedidos de entrevistas, palestras e fotografias – decide aceitar a proposta e regressar à sua cidade natal durante uns dias. O problema que se antevê é que esta viagem engloba várias questões complexas para o escritor: será um regresso triunfante à terra que o viu nascer, uma viagem ao passado onde irá encontrar velhos amigos, um cenário de nostalgia mas acima de tudo será uma viagem ao âmago da sua literatura e à fonte das suas inspirações. Chegado a Salas, Daniel irá confirmar tanto as afinidades que o ligam à localidade como as diferenças que o transformam num estranho, e os ressentimentos latentes. Renata Curado

FÉLICITÉ

EXCLU

ESTREIA 1 JUNHO

FÉLICITÉ

DE ALAIN GOMIS

CINEMSIVO

MEDE AS IA

Dur: 2h 03min

COM VÉRO TSHANDA BEYA MPUTU, GAETAN CLAUDIA, PAPI MPAKA

Alain Gomis inspirou-se nas mulheres senegalesas para criar um retrato hipnotizante de uma mulher livre, que encontra na música o onirismo para a vida Para o realizador franco-senegalês, Félicité é, em primeiro lugar, uma “ode à mulher africana e às mulheres no geral”. Essa ode é personificada por Félicité, interpretada pela estreante Véro Tshanda Beya, uma mulher forte e independente, cantora num bar em Kinshasa. Cada vez que sobe ao palco, Félicité deixa para trás os problemas do dia-a-dia, e contagia o público com o ritmo da sua música. Quando o seu filho tem um acidente, Félicité vê-se obrigada a juntar o dinheiro necessário para a operação, dando início assim a uma busca incessante pelas ruas da capital

congolesa, que nos é dada a conhecer de uma forma quase documental. O seu caminho cruza-se com o de Tabu, que a ajuda. Reunidos pelo acaso, formam um trio excêntrico, e seguem juntos, cada um à sua maneira. Único filme africano em Competição no Festival de Berlim, Félicité arrebatou desde logo a crítica e o público, e foi uma das surpresas do palmarés do festival, conquistando o júri presidido por Paul Verhoeven. Renata Curado

“Félicité traça uma via musical, etérea, de um realismo que procura captar aquilo que existe de melhor na adversidade.”

“Félicité é mágico, talvez porque Félicité seja também um pouco mágica, e porque não atribui à magia o poder de resolver tudo.”

Jean-Philippe Tessé, Cahiers du Cinéma

Luc Chessel, Libération

Prémios e Festivais: Festival de Berlim – Grande Prémio do Júri

14 MAIO | JUNHO '17


ESTREIAS ESTREIASCINEMA CINEMA

BREVEMENTE EM DVD

PACK CLÁSSICOS RUSSOS

Depois do lançamento em DVD da obra integral de Andrei Tarkovsky e de 4 filmes fundamentais de Serguei Eisenstein, a Leopardo Filmes edita em DVD o pack Clássicos Russos, mais uma peça fundamental para entender a História do Cinema. O Homem da Câmara de Filmar, A Casa na Praça Trúbnaia e Arsenal são obras vanguardistas sem precedentes, assinadas pelos pioneiros do cinema russo Dziga Vertov, Boris Barnet e Aleksandr Dovzhenko, e apresentadas neste pack em versões restauradas.

CAMPANHA CINEMA ASIÁTICO Até 31 de Maio o Espaço Medeia homenageia o melhor do cinema asiático, com obras de grandes realizadores a preços reduzidos. Uma vastíssima selecção que atravessa vários períodos, escolas e abordagens. Obras-primas de mestres como Yasujiro Ozu, Hong Sang-Soo, Kore-eda Hirokazu ou Takeshi Kitano. 1 DVD - 4€ 3 DVDs - 10€€

PROMOÇÃO DVD A 1€

Mensalmente, o Espaço Medeia selecciona 5 títulos que durante esse período custam 1€ cada. Uma promoção a não perder! Os filmes são revelados no início de cada mês. Para Maio temos: Palindromes de Todd Solondz O Rei das Rosas de Werner Schroeter O Cão, o General e os Pássaros de Francis Nielsen Last Days de Gus Van Sant Requiem de Alain Tanner Campanha válida apenas em loja.

NA CAMA COM VICTORIA DE JUSTINE TRIET Victoria Spick, uma advogada criminal, pouco dada a sentimentalismos, vai a um casamento onde encontra os seus amigos Vincent e Sam, este último um ex-traficante de droga, afastado desse negócio. No dia seguinte, Vincent é acusado de tentativa de homicídio pela sua namorada. A única testemunha do que aconteceu é o cão da vítima. Com relutância, Victoria concorda em defendê-lo, desde que Vincent contrate Sam como seu assistente. É o início de uma série de cataclismos para Victoria. Na Cama com Victoria foi em 2016 o filme de abertura da semana da crítica do Festival de Cannes, e esteve nomeado para cinco prémios nos Césars, incluindo Melhor Actriz (Virginie Efira).

EM EXIBIÇÃO PIRATAS DAS CARAÍBAS: HOMENS MORTOS NÃO CONTAM HISTÓRIAS DE JOACHIM RONNING, ESPEN SANDBERG Este é o quinto filme da saga “Piratas das Caraíbas”, que tem contado as aventuras do icónico capitão Jack Sparrow, personagem interpretada por Johnny Depp. Em Piratas das Caraíbas: Homens Mortos não Contam Histórias o actor espanhol Javier Bardem dá vida ao Capitão Salazar, o vilão da história, um homem que quer matar Jack Sparrow. Enquanto lida com a perseguição do Capitão Salazar, Jack Sparrow vai tentar encontrar o valioso tridente de Poseidon. Piratas das Caraíbas: Homens Mortos não Contam Histórias conta no seu elenco com os habituais Keira Knightley, Orlando Bloom e Geoffrey Rush, para além de uma participação especial de Paul McCartney.

ESTREIA 25 DE MAIO MAIO | JUNHO '17 15


11

v

Kenji mizoguchi 31 Maio

no

Espaço nimas

Quinta, 11

Sexta, 12

Sábado, 13

Domingo, 14

Segunda, 15

Terça, 16

Quarta, 17

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A SENHORA

A SENHORA

RUA DA VERGONHA

RUA DA VERGONHA

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

Quinta, 18

Sexta, 19

Sábado, 20

Domingo, 21

Segunda, 22

Terça, 23

Quarta, 24

A SENHORA

OYU

RUA DA VERGONHA

RUA DA VERGONHA

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A SENHORA

A SENHORA

Quinta, 25

Sexta, 26

Sábado, 27

Domingo, 28

Segunda, 29

Terça, 30

Quarta, 31

RUA DA VERGONHA

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI

A SENHORA

A SENHORA

RUA DA VERGONHA

RUA DA VERGONHA

OYU

Excepto 17h30, 19h30, 21h30

OYU

OYU

Horários 13h30, 15h30, 17h30, 19h30, 21h30

Bilhetes: 6 euros

16 MAIO | JUNHO '17

www.leopardofilmes.com

Apoio à divulgação:

OYU

OYU

Excepto 19h30, 21h30

OYU

Excepto 19h30

Medeia magazine - Maio / Junho de 2017  

Já se encontra disponível a Medeia Magazine na edição de Maio e Junho de 2017

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