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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO MAYARA OLIVEIRA BARBOSA

REQUALIFICAÇÃO DOS CENTROS URBANOS: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

SÃO PAULO / 2014


MAYARA OLIVEIRA BARBOSA

REQUALIFICAÇÃO DOS CENTROS URBANOS: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Trabalho Final de Graduação apresentado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requesito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Marcos José Carrilho

SÃO PAULO 2014


BARBOSA, Mayara Oliveira. Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida / Mayara Oliveira Barbosa - 2014 147 f. Trabalho Final de Graduação (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014 Bibliografia f. 146-147. 1. Centro de São Paulo 2. Espaço Público 3. Calçadão 4. Cultura e lazer 5. Mediateca


Agradecimentos Agradeço, primeiramente aos meus familiares, que sempre acreditaram no meu potencial e me incentivaram nos momentos difíceis, seja com um gesto, uma palavra, um olhar. Aos amigos de longa data, que souberam compreender as ausências em datas especiais por conta do compromisso com a faculdade. Aos amigos e futuros colegas de profissão que partilharam de cada momento, desde trabalhos em grupo até simples bate-papos depois de uma semana de noites mal dormidas, e que independente de qualquer coisa, sempre estávamos lá, juntos nos confortando. Aos professores da FAU-Mackenzie, que contribuíram para a minha formação, cada um a sua maneira, deixando-nos extrair experiências para a vida de arquitetos e urbanistas. Ao Pedro Mendes da Rocha, que despendeu minutos de seu trabalho no escritório para me atender, contando todo o percurso de seu TGI na FAUUSP e me incentivando ainda mais a estudar a região central da cidade de São Paulo, compartilhando suas ideias de preenchimento dos vazios existentes na região , que contribuíram para a concepção do projeto arquitetônico exposto neste trabalho.


Resumo

Resumo Estudo de intervenções nos centros urbanos trazendo-os como experiência para o centro da cidade de São Paulo. Enfoque na abordagem de relacionar os espaços públicos, como as ruas de pedestre do centro, “os calçadões” com as dinâmicas urbanas que os mesmos podem transmitir. Busca pela melhor forma de qualificar esses espaços por meio de uma intervenção que possibilite lazer e cultura aos usuários da região, com a proposição de uma Mediateca nessas ruas.

6 Palavras-chave: Centro de São Paulo, Espaço Público, Calçadão, Cultura e lazer, Mediateca


Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Abstract

Keywords: Center of São Paulo, Public Space, Boardwalk, Culture and Leisure, Mediatheque

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This is a study of interventions in urban centers bringing them as experience to the center of the São Paulo city. Focus on relating to public spaces such as pedestrian streets downtown, “the boardwalks” with urban dynamics that can convey the same approach. Searching for the best way to qualify these spaces through an intervention that enables users to leisure and culture of the region, with the proposition of a Mediatheque on these streets.


Sumário

Sumário

Introdução --------------------------------------------------------------------------- 10

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Centros Urbanos Conceito -------------------------------------------------------------------- 14 Experiências de intervenção em centros urbanos -------------------- 15 Experiência em Barcelona ------------------------------------------------ 17 Experiência no Rio de Janeiro ------------------------------------------- 19 Caracterização da Área Formação do centro de São Paulo -------------------------------------- 24 Centro Novo --------------------------------------------------------------- 42 Dinâmicas do Centro Equipamentos culturais -------------------------------------------------- 54 Esvaziamento -------------------------------------------------------------- 57 Reciclagem ----------------------------------------------------------------- 61 Calçadas -------------------------------------------------------------------- 62 Calçadão --------------------------------------------------------------------66 Escolha do programa Mídia, Cultura e Lazer ---------------------------------------------------- 72


Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Estudo de Caso UniverCidade de São Paulo – Pedro Mendes da Rocha -------------- 80 Mediateca de Sendai – Toyo Ito ----------------------------------------- 94

Conclusão -------------------------------------------------------------------------- 144 Bibliografia ------------------------------------------------------------------------ 146

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O projeto --------------------------------------------------------------------------- 114


Introdução

Introdução

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O trabalho busca entender a função das vias de pedestre inseridas no centro da cidade de São Paulo, como priorizar o passeio numa cidade de escala do automóvel, na busca de aproximar a cidade do cidadão. O centro e sua dinâmica peculiar que varia entre períodos de intenso movimento a períodos críticos de abandono, a falta de vida urbana durante a noite e nos finais de semana, edifícios vazios, sem uso, sem moradores. O caminho percorrido neste trabalho se passa primeiramente por um entendimento dos centros urbanos e a verificação de experiências de intervenções urbanas em regiões centrais em outros locais. Depois disso, foca-se o olhar no local de estudo, no caso, a cidade de São Paulo, e procura-se entender como foi dada sua formação, que características ficaram marcadas e/ou foram importantes para a configuração do centro atual. Após essa compreensão, o enfoque se da num pequeno recorte do centro da cidade, o local escolhido para a proposição projetual é o centro expandido da cidade de São Paulo, no encontro das ruas Barão de Itapetininga, Dom José de Barros, Vinte e Quatro de Maio e Avenida Ipiranga. A caracterização atual é feita por meio de estudos sobre as atuais dinâmicas urbanas do centro, se analisa a presença de edifícios culturais ressaltando a sua importância e dando atenção ao fato de serem sugeridos em diversos estudos e experiências de intervenção; outra questão é o chamado


“esvaziamento” do centro, identificando as possíveis causas que o fizeram ter essa leitura, bem como sugestões de qualificá-lo, como por exemplo a questão de reciclagem das construções existentes. A dinâmica do centro, neste trabalho, tem maior peso em especial nos estudos do espaço público, no caso em questão, das calçadas e calçadões. Procurou-se, minuciosamente, compreender como o espaço público pode ser bem qualificado e atender usos diversos, não só de caminhos e espaço reservado aos pedestres, mas como eles influenciam na dinâmica do local em que estão inseridos. A partir de uma bagagem adquirida durante esse percurso de trabalho, a escolha para o programa de projeto para a região teve influência em trabalhos que são analisados como estudo de caso, o primeiro, tendo uma influência na composição da cidade, procurando adequar o objeto projetual da melhor maneira condizendo com o seu entorno; o segundo, interferiu no programa em si, ajudando no entendimento dos espaços. Com o programa escolhido, uma Mediateca, buscou-se compreendê-lo em relação a sua intenção no centro da cidade, passando por estudos relacionados à mídia, cultura e lazer para então expor o trabalho projetual após toda uma descoberta teórica.

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CENTROS URBANOS


Centros Urbanos

14 Conceito “Desde a sua origem as cidades têm um centro. Centro este sempre presente na imagem das pessoas sobre a sua cidade e que muitas vezes se confunde com a gênese do lugar”. (CABRAL, 2002) 1 Além de marcar a gênese da cidade, o ponto inicial, ainda há as atividades que se desenvolvem de forma mais intensa nesse centro, com funções integradoras (funcional e social) e simbólicas (imagem), notabilizando a complexidade de funções: concentração de comércio e serviços, moradia, atividades administrativas e políticas e vida cultural. O conceito de centro de cidade parece estar sempre associado às ideias de percepção, imagem e história. (CABRAL, 2002) 1 Fernando Chueca Goitia, 1970 apud Reinaldo J. G. Cabral, Percepção Ambiental e Imagem da Cidade: o centro de São Paulo cit. p.61


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O termo renovação urbana esteve em debate teórico no campo do urbanismo a partir de 1951, com a publicação de “O coração da Cidade” feita pelo CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna). A crítica modernista estava voltada às questões de desordem e insalubridade das grandes cidades industriais, o “coração” da cidade moderna idealizada seria o centro cívico onde se concentrariam atividades administrativas, hoteleiras, culturais e comerciais, e também serviços à comunidade com ruas de pedestre, parques e espaços abertos para o convívio. No 10º CIAM, cinco anos depois da publicação de “O coração da cidade”, houve um questionamento quanto a rigidez de zonas e homogeneidades formais que não reconheciam diferentes escalas da vida social, nem respeitava os valores culturais e pré-existentes. O Team 10 sugeriu a reintegração das funções urbanas e a recuperação da rua e do bairro. Contudo, essas críticas não obtiveram êxito, e o modelo modernista racionalista permaneceu durante décadas, não mais como modelo teórico, ele compunha os objetivos dos programas públicos de intervenção urbana. Surge um novo movimento intelectual denominado contextualismo, que visava a valorização do tecido histórico e a reconquista social da cidade, focalizando a reabilitação do centro histórico, propondo novos usos e possibilidades produtivas, por meio da reconversão de edifícios antigos e da manutenção dos antigos moradores em seus locais de origem.

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Experiências de intervenção em centros urbanos


Centros Urbanos

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Em 1966, Aldo Rossi publica L’Architettura dela Cittá conceituando uma nova teoria alternativa ao racionalismo modernista e ao Team 10. Rossi defende uma leitura histórica da cidade e de seu tecido social e define elementos básicos da tipologia urbana que constituem a sua herança ambiental: ruas e monumentos de significado simbólico e cultural que assumem as principais funções sociais da comunidade. Ou seja, a base física da cidade deveria evoluir obedecendo a um diálogo entre as novas estratégias com as características identitárias do ambiente social e coletivo. A “Reestruturação Pragmática”, ocorrida nos anos 1970, previa a contenção de gastos públicos e incentivava a parceria público-privada. Ela mudou a escala de planejamento, objetivando incentivar projetos em áreas específicas (áreas centrais, centros históricos e zonas portuárias e industriais) buscando garantir rentabilidade aos investidores privados.

Figura 1: Vila Olímpica de Barcelona - Fonte: http://barcelona-home.com/blog/vila-olimpica-barcelona


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O processo de reestruturação urbana e econômica da cidade de Barcelona, que já vinha sendo discutido em meados da década de 1980, ganhou forças com a escolha para sediar as Olimpíadas de 1992. O governo se empenhou para incentivar o desenvolvimento público-privado, melhorias de infraestrutura urbana e a modernização e inserção competitiva da cidade no cenário internacional. Para assegurar a transformação econômica e urbana, houve a elaboração do Plano Estratégico Econômico e Social de Barcelona (PEESB), entre 1988 e 1990. Para a renovação urbana, modernização e internacionalização da economia local, foi criado em 1986 o programa Áreas de Nova Centralidade (ANC). A inovação do programa ANC consistiu na combinação de usos múltiplos e na participação do setor privado na gestão e na execução dos projetos. As intervenções previam a reestruturação do sistema viário, a redescoberta da fachada marítima (segregada da cidade por instalações industriais e portuárias), a construção de edifícios de escritórios e apartamentos e a criação de parques e áreas verdes. A parceria de investidores privados na elaboração de intervenções urbanas é delicada, podendo haver conflito de interesses, onde a especulação imobiliária se torna o principal foco fazendo com que haja a migração da população existente em direção a periferia, o conhecido fenômeno da gentrificação.

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Experiência em Barcelona


Centros Urbanos

18 Figura 2: Vila Olímpica de Barcelona - Fonte: http://barcelona-home.com/blog/vila-olimpica-barcelona

A Vila Olímpica, localizada na região de Poblenou encontrava-se praticamente abandonada, fábricas, armazéns e a linha férrea separavam a cidade do mar. Para a integração da região com o restante da cidade, a rede de conexões ferroviárias foi remodelada, o cinturão rodoviário que circunscrevia a zona foi rebaixado e as redes coletoras subterrâneas foram remanejadas. O projeto também previa a implantação de dois parques, a construção de unidades residenciais, de escritórios, hotel, centro de convenções e centro comercial de negócios. Em termos de paisagem urbana, a remodelação da frente marítima trouxe uma mudança substancial à região.


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A primeira expressão de uma política de recuperação e preservação do centro histórico do Rio foi com o projeto Corredor Cultural, com o objetivo de proteger o patrimônio arquitetônico e revitalizar quatro áreas do centro histórico da cidade: Lapa-Cinelândia, Praça XV, Saara e Largo São Francisco. O principal argumento do projeto era de que a dinâmica de renovação urbana deveria respeitar as referências históricas, sociais e culturais da comunidade de modo a preservar a memória da cidade. A zona especial do Corredor foi subdividida em duas: a de preservação ambiental, mantendo as características arquitetônicas, artísticas e decorativas que compunham o conjunto de fachadas e telhados dos prédios existentes, admitindo apenas modificações internas, as novas construções deveriam obedecer aos parâmetros fixados nos projetos de alinhamento e de loteamento; e a de renovação urbana, as edificações deveriam seguir um projeto integrado no conjunto arquitetônico no qual pertenciam e também às suas alturas máximas. Em toda a zona especial, era essencial manter os usos e as capacidades das salas de espetáculo existentes, proibida a construção de edifícios-garagem, se isentava os imóveis de vaga de garagem, anúncios publicitários foram restritos e a realização de obras públicas e/ ou privadas deveriam ser aprovadas por um órgão gestor. Para estimular o bom cumprimento dessas diretrizes, havia uma lei que estabelecia isenção fiscal de IPTU, ISS e taxa de obras.

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Experiência no Rio de Janeiro


Centros Urbanos

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O projeto SAGAS, outra experiência de preservação do patrimônio cultural, abrange três bairros da zona portuária: Saúde, Gamboa e Santo Cristo, áreas com características de muitos terrenos vazios e prédios sem valor histórico, o objetivo principal foi a definição de parâmetros para ocupação, por meio da elaboração da legislação de uso do solo, que limitou a altura das edificações e criou sub-áreas de proteção ambiental, identificando imóveis que deveriam ser preservados em suas fachadas e telhados. Outro projeto proposto foi o Teleporto, que previa a implantação de edifícios inteligentes que pudessem se conectar por cabos de fibra ótica, permitindo o acesso instantâneo as redes de telecomunicações. O objetivo é de “implantar um centro de telecomunicações de tecnologia avançada que dê suporte ao desenvolvimento das atividades econômicas da cidade, da região centro-sul e das suas relações com o Mercosul e com o resto do mundo, permitindo simultaneamente a recuperação urbanística de parte fundamental do centro da cidade do Rio de Janeiro.” (Teleporto do Rio de Janeiro, SEDECT, 1999) Por fim, o último projeto a ser analisado é o de Revitalização da Zona Portuária, onde a companhia das docas desenvolveu um projeto de Desenvolvimento e Privatização do Complexo Portuário do Rio de Janeiro. O plano engloba a reestruturação do sistema viário, implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e sistema cicloviário; recuperação de imóveis preservados; construção de equipamentos culturais e de lazer; alteração da legislação para incentivar o uso habitacional e de serviços; e a criação de


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linhas de microcrédito para estimular a economia local.

Figura 3: VLT (Veículo Leve sobre Trilhos, proposta de requalificação para o Rio de Janeiro - Fonte: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/mobilidadeurbana/wp-content/uploads/2012/05/VLT-Rio-de-janeiro.jpg


CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA


Caracterização da Área

Formação do centro de São Paulo

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Não se sabe ao certo quando se iniciou a ocupação do planalto paulistano. No ano de 1532, quando Martim Afonso de Souza chega ao litoral, já observava a presença de alguns portugueses vivendo na serra. De certo, havia um interesse especial do governo português pelo planalto, revelado por sucessivas visitas de governadores. Martim Afonso, depois de realizar suas tarefas no litoral – denominado por ele de vila de São Vicente – teria então se deslocado para o planalto formando ali uma primeira povoação, nomeada vila de Piratininga. Para Jaime Cortesão, o rei de Portugal, estimulado pelas notícias que chegavam à Europa sobre as descobertas de ouro no Peru, ao enviar Martim Afonso estaria interessado em que seus conquistadores chegassem aos Andes pelo leste, utilizando o Peabirú, caminho terrestre dos tupis que passava pelo planalto, levando ao Paraguai e por ali aos Andes. (REIS, 2004) Essa é uma das explicações que pode ter motivado os portugueses a escolher o planalto, contudo também é defendido que pudesse ser um motivo mais simples, de aproveitamento de uma área na serra que já havia sido povoada pelo único grupo de portugueses que conseguiram se estabelecer na região. O governador-geral, Tomé de Sousa em 1553 repete os procedimentos tomados por Martim Afonso e promove a fundação da vila de Santo André da Borda do Campo, onde já havia uma povoação formada por João Ra-


malho, que viviam do comércio de escravos. Com o governador-geral veio também Manuel da Nóbrega e os padres jesuítas – estes com diferentes intenções – tinham como proposta uma aproximação com as tribos locais. Santo André foi cercada por muros de taipa de pilão. (REIS, 2004) Manuel da Nóbrega decidiu construir uma igreja e uma escola para os meninos das proximidades de uma aldeia indígena. Escolheu um local para a construção da igreja, que é hoje o Pátio do Colégio, onde foi celebrada a primeira missa no dia 25 de janeiro de 1554. O espaço era provisório e ao mesmo tempo tinha função de igreja, escola e alojamento dos padres. No ano de 1559, moradores de Santo André se mostravam interessados em se transferir para o povoamento de Nóbrega e enviaram uma carta a Portugal solicitando autorização para isso. No ano seguinte, nascia então a vila de São Paulo. Em documento de 26 de abril de 1560 se dizia que São Paulo era o local para onde havia se transferido a vila de Santo André da Borda do Campo. A condição de vila ao povoado foi dada pelo governador Mem de Sá, entre 1560 e 1570, a população não passava de mais de 300 habitantes. Piratininga e Santo André não prosperaram, São Paulo se tornou o principal centro de apoio à ocupação e ao desenvolvimento dos territórios do interior do Brasil. (REIS, 2004) A região escolhida por Manuel da Nóbrega e seus jesuítas era formada pelos vales do Rio Tamanduateí, Tietê e Pinheiros, com trechos de matas e imensas várzeas, era uma área rica em peixes, aves e mamíferos, campos

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Caracterização da Área

adequados à criação de gado e ao cultivo de plantas, devido ao clima. O lugar também era muito conhecido pelos viajantes que ali passavam, futuramente, se tornaria o centro de convergência do caminho dos tropeiros. “E São Paulo, o que era senão um ponto de convergência de caminhos de tropas?” Cônego Luís Castanho de Almeida (TOLEDO, 1934)

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A vila de São Paulo era cercada de muros, semelhantes às vilas medievais e renascentistas de Portugal, isso porque já havia sofrido ataques de tribos hostis. Dentro dos muros de taipa de pilão havia algumas ruas e duas praças. Na última década do século XVI, a população dobrou de tamanho, e com isso, houve a ampliação do perímetro da vila com a construção de novos muros. (REIS, 2004) Observando as plantas mais antigas, podemos constatar que existia ao redor do Pátio do Colégio e da Sé um conjunto de ruas com traçado irregular, formando aproximadamente um polígono. Essa era a parte mais antiga. Depois, ao seu redor, foram traçadas as ruas retas. Estas são provavelmente as do século XVII. (REIS, 2004) Nestor Goulart Reis analisa o percurso dos muros para compreender os limites da vila e identificar as casas e ruas que acompanhavam o tecido urbano. Segundo ele, eram poucas quadras que se estendiam a partir do Pátio do Colégio em direção ao Carmo e outras à Sé. Os muros ocultavam as casas, para quem vinha de fora, só se via os muros que contornavam a


borda da colina. No final do século XVI, a vida em São Paulo passava por momentos importantes, as notícias sobre mineração de ouro e ferro atraíram para vila o governador-geral Dom Francisco de Sousa, que praticamente transferiu sua moradia de Salvador para São Paulo. Em Sorocaba e Araçoiaba fundou duas povoações e investiu na produção de ferro, depois veio para São Paulo e fundou a fábrica de ferro de Santo Amaro, marcando o destino que a vila tomaria no século seguinte. Entre 1600 e 1640 (ano da chamada Restauração Portuguesa, que encerrou o domínio espanhol), a ênfase esteve no apresamento de indígenas e na criação de gado. Depois sob novos estímulos do governo português, a ênfase recaiu sobre a mineração. Seu êxito, em 1693, com as descobertas de Minas Gerais, levou a mudanças políticas importantes: a incorporação das capitanias de São Vicente e Santo Amaro pela Coroa, a criação, em seu lugar, da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro e a elevação de São Paulo à categoria de cidade, em 1711. (REIS, 2004) Dom Francisco, no início do século XVII, já imprimia novas características ao urbanismo dando um pouco mais de disciplina ao traçado da vila. Não há informações ao certo sob as ruas traçadas em seu mandato, admite-se que uma delas poderia ser a Rua Direita, a partir da Misericórdia, até a esquina da Rua de São Bento. Deve-se ressaltar a precisão do desenho entre a Rua Direita e São Bento, que juntas, em seu cruzamento, formam um ângulo reto exato. Eram dois lados do chamado “Triângulo” que se com-

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Caracterização da Área

pletava com a Rua Quinze de Novembro. Ao longo do século XVII a população de São Paulo cresceu em processo acelerado de multiplicação de núcleos. Em 1611 os paulistas fundaram Mogi das Cruzes, em direção às cabeceiras do Tietê. Em 1625 fundaram Santana de Parnaíba, descendo o Tietê no limite do trecho navegável. Vieram outras cidades durante todo o século, povoando o planalto em todas as direções. Era, portanto, um rápido processo de crescimento extensivo e, ao

28 Figura 4: Traçado das ruas retas em relação aos muros da vila. Destaque para o cruzamento das Ruas Direita e São Bento, provavelmente no início do século XVII. (REIS, 2004).


Figura 5: Moradia paulistana, Rua Quinze de Novembro. Fotografia de Militão de Azevedo, ca. 1862 - Fonte: Acervo da Biblioteca Municipal Mário de Andrade - São Paulo (REIS, 2004)

mesmo tempo, de lento crescimento interno. Edifícios religiosos importantes foram feitos nessa época: a igreja e o convento dos Franciscanos, construída em 1640 e 1647; a igreja e o mosteiro de São Bento, construídos em 1630; a igreja do Colégio, em 1667; a igreja de Santa Teresa; e no final do século, ocorre a construção da capela do Carmo. O chamado “triângulo” também era visualizado pelos seus vértices, através dos conventos de São Bento, São Francisco e Carmo. A moradia paulista, bem com outras edificações em geral, era feita de barro onde se utilizava a taipa de pilão como técnica construtiva, assim a paisagem da cidade era composta por casas de taipa e grandes beirais nos telhados (usados para proteger as paredes de barro, além de sombreamento).

“Onde há taipa de pilão, há paulista e onde há paulista há taipa.” Carlos Lemos (TOLEDO, 1934)

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Caracterização da Área

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O ano de 1711 é marcado pela elevação da categoria da Vila de São Paulo à cidade. As notícias sobre novas áreas de mineração fizeram com que a Capitania de São Paulo se expandisse. Em 1725, a Capitania já reunia os territórios dos atuais estados de São Paulo, Paraná, parte de Santa Catarina, Goiás e parte do Mato Grosso. A administração portuguesa de Marquês de Pombal vinha estimulando o desenvolvimento da produção rural como forma de reorganização das capitanias, uma vez que as áreas de mineração mostravam um esgotamento. Em São Paulo, sob o governo de Dom Luís Antonio de Souza Botelho de Mourão, Morgado de Mateus, o estímulo foi no desenvolvimento da agricultura no planalto e no litoral norte parcialmente, com a produção de açúcar para abastecimento e exportação no mercado interno. Sob essa nova fase da capitania paulistana, os governantes seguiram investindo em melhorias nos caminhos de ligação entre o planalto e o litoral. Bernardo José Maria de Lorena (1788-1797), por exemplo, fez melhorias nas estradas e diminuiu distâncias propondo ligações entre cidades próximas, como fez entre São Bernardo e Cubatão. Além disso, deu início primeiro Plano da Cidade em 1792 onde acreditava que a cidade demandava muita cautela para a inserção de novos projetos por ser muito irregular fisicamente, de seu governo também vieram os primeiros mapas cartográficos e topográficos da cidade. (REIS, 2004) As transformações ocorridas nesse período promoveram um aumento da população. No início do século XVIII, o número de habitantes na


cidade era de 4 a 5 mil, no ano de 1747 cai para 2 mil e em 1790, o número já alcançava 8500 habitantes. As obras de infraestrutura incluíam a construção de estradas, pontes e chafarizes. As novas ruas eram pontos de articulação para além da colina original, permitindo a formação de novos bairros, foram criadas pontes para transpor essas áreas entre os vales do Tamanduateí e do Anhangabaú. A conquista de novas áreas de expansão urbana foi lenta e difícil. Na administração de Francisco Cunha Menezes (1782-1786), foi aberta a atual Rua Florêncio de Abreu, a obra exigiu a construção da Ponte do Miguel Carlos, sobre o Anhangabaú, bem como a Rua Brigadeiro Tobias. Esses novos caminhos permitiram o crescimento do bairro da Santa Ifigênia. Sob o governo de Gama Lobo (1786-1788), a atual Rua de Libero Badaró foi aberta, permitindo a expansão da área urbanizada e solucionando a saída para o oeste. Na mesma época foi aberta a Rua São João e construída a Ponte do Marechal, que foi destruída após uma enchente e reconstruída em 1809. (REIS, 2004) A saída para o sudoeste era dada pela Ladeira dos Piques, atual Ladeira da Memória, que recebeu melhorias a partir de 1794 com a construção da Ponte do Lorena. Daniel Pedro Muller realizou obras na Ladeira, como uma vala para atender as necessidades dos animais que por ali passavam, era um local de passagem das tropas, além da construção de uma pirâmide comemorativa, o Obelisco de Piques, destinada a registrar a memória de

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Caracterização da Área

fatos ocorridos na época.

32 Figura 6: Ladeira da Memória. Fotografia de Militão de Azevedo - Fonte: Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (Museu do Ipiranga). (REIS, 2004)

A Estrada da Penha era a principal via de saída para o leste. Nos primeiros anos do século XIX, a Ladeira do Carmo sofreu forte erosão, provavelmente provocada pelo intenso tráfego de tropas que por ali passavam,


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era chamada de “Buracão do Carmo”. As primeiras obras importantes datam do ano de 1804, sob o governo de Franca e Horta que decidiu tampar o buraco, entre 1806 e 1807 foi projetada a Ponte do Carmo, sobre o Tamanduateí. A ponte de pedra foi construída no eixo da ladeira, a cota de acesso à ponte era mais elevada. Do lado leste ainda havia o caminho da Mooca, que descia pela Tabatinguera, virava a direita e passava pela ponte de mesmo nome.

Figura 7: Ponte do Carmo - Fonte: Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. (REIS, 2004)


Caracterização da Área

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O chamado Caminho do Mar era a principal saída pelo sul, que se iniciava pela Rua da Glória, considerada porta de entrada da cidade. Por isso, deve-se notar a sua importância com as obras de melhoria nos governos de Gama Lobo (1786-1788) e Bernardo Lorena. Do triângulo da cidade, se irradiaria então estradas de importantes ligações com o litoral, Santo Amaro, Sorocaba, Itu, Minas Gerais, Vale do Paraíba e Rio de Janeiro. Essa rede viária foi definidora de toda a estrutura de ocupação urbana de São Paulo, tendo sido utilizada como meio predominante de transporte até a chegada da ferrovia, em 1867. A planta da cidade, de 1810 revela que as áreas do sítio original da cidade foram adensadas e intensamente ocupadas, contudo os novos bairros ainda seriam edificados. A presença das chácaras na cidade foi característica da época, todas construídas em paredes de taipa de pilão, com características rurais e linhas de acabamento simples, demostravam grande importância por pertencerem a proprietários ilustres do período, onde se pode até observar que eram referenciadas nas plantas e documentos escritos. A arquitetura da época tem caráter colonial, as casas térreas e sobrados apresentam uma preocupação estética maior, ornamentos surgem ou são substituídos, – como é o caso dos muxarabis, por exemplo – questões simétricas aparecem nas fachadas, isso tudo não só de edifícios residenciais, mas nos públicos também. Nas décadas que se seguiram à Independência, as mudanças ocorre-


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ram em São Paulo de modo relativamente lento. (REIS,2004) Entre os anos de 1822 a 1840, a vida na cidade foi beneficiada pela produção de açúcar, de 1840 a 1860, pelo café. A história do crescimento de São Paulo acompanha a conquista de terras férteis e estas estão ligadas à construção de estradas para darem escoamento à sua produção. Em meados da década de 1860 a implantação da ferrovia alterou a configuração da cidade, a expansão para o oeste era intensa, novas ferrovias e ramais eram construídos financiados pelos novos empreendedores da cafeicultura. O presidente da província Saldanha Marinho (1867-1868) foi quem impulsionou esse processo. As ruas do Carmo e Glória perdem sua importância como “portas da cidade” e passam a exercer função de ligação entre os bairros industriais da zona leste. Nas décadas de 1870 e 1880 constituem o único momento em que a zona norte assume importância e induz o processo de crescimento e valorização dos espaços centrais, sobretudo entre os eixos de comunicação entre a Luz e o Centro, representados pelas ruas Florêncio de Abreu e Brigadeiro

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Figura 8: Igreja e Convento São Francisco - Fonte: Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (REIS, 2004)


Caracterização da Área

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Tobias. O espaço urbano paulistano se constitui em três pontos nodais delimitados pelos locais de parada da ferrovia: a estação da Luz, a estação Sorocabana (atual Júlio Prestes) e a estação Norte, como local de chegada dos trilhos da Companhia São Paulo-Rio. No bairro da Luz, o processo de modernização e valorização foi acelerado e desordenado, alguns autores citam o momento como uma “epidemia de urbanização”. Dessa forma, a área urbanizada limitada à colina central e alguns focos de ocupação nos bairros da Santa Ifigênia e Brás passou, nas décadas de 1880 e 1890, a ocupar extensas áreas das chácaras ao redor. Cândido Borges Monteiro (1868-1869) realizou uma série melhorias e reformas no parque da Luz, construindo um chafariz. Outras melhorias ocorreriam posteriormente nos governos de João Teodoro e Antônio Prado. (REIS, 2004) Sob o governo de João Teodoro (1872-1875), surgem inúmeras melhorias no bairro da Luz. Houve uma grande transformação urbana e estética que promoveu a abertura de ruas comunicando o bairro da Luz com o do Brás, melhorando a acessibilidade ao Centro Histórico com a inauguração da primeira linha de bondes puxados por animais, melhorias no calçamento e iluminação pública. As intervenções de Teodoro foram tão modernizadoras para os padrões da época e assumiram um papel tão grandioso que sua gestão ficou conhecida como aquela em que se deu a “segunda fundação de São Paulo.”


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A paisagem da cidade apresentava soluções técnicas e estilísticas mais modernas, advindas da influência cultural dos imigrantes europeus, os lotes apresentavam construções em alvenaria de tijolos, utilização de porões altos para efeito de salubridade, dentre outros. As maiores transformações se localizavam na rua Brigadeiro Tobias, com modernos palacetes e edifícios públicos e na rua Florêncio de Abreu, como via de conexão por ser larga e plana suportava a presença do transporte coletivo e assim, acabaria se caracterizando como uma via comercial. A aparência de cidade europeia foi se intensificando de tal forma que se percebia a necessidade de distinção das características anteriores da cidade. Nesse período republicano, as primeiras indústrias que se instalaram na cidade eram de grande porte e em sua grande maioria, estavam muito próximas, com isso aparecem os primeiros bairros industriais e operários na cidade. No ano de 1930, a cidade de São Paulo havia crescido de forma acelerada, o número de habitantes se multiplicava, podendo ser comparada, em números, com algumas cidades europeias. A base de economia tam-

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Figura 9: Jardim da Luz. Foto de Guilherme Gansley (TOLEDO,1934)


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bém era adquirida por meio da industrialização, era um polo de produção industrial e comércio que tinha sua distribuição desenvolvida através da construção de ferrovias e rodovias. O novo urbanismo se caracterizou pela modernização da infraestrutura e dos serviços, pela nova aparência de alguns bairros e a completa reconstrução do novo centro. A modernização técnica foi estendida em parte aos bairros operários, com as linhas de bondes elétricos, obras de saneamento e serviços de eletricidade, com a instalação de grupos escolares e alguns serviços de saúde pública. (REIS, 2004)

Figura 10: Várzea do Carmo durante uma enchente em 1982 - Fonte: Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP)(REIS,2004)


Nesse período republicano, a moradia paulista apresentada no centro da cidade era, basicamente, os bairros operários e os cortiços. A presença de um grande número da população trabalhadora no centro também já demonstrava uma distinção social, residindo em áreas precárias, sem saneamento básico e propicias de enchentes. No inicio do século XX, novamente há uma mudança na técnica construtiva dos edifícios no centro, muitos deles apresentavam em sua composição paredes de tijolos nos mais baixos e para os mais altos, estrutura metálica permanecendo assim até o início dos anos de 1930, quando se consolida a técnica do concreto armado. (REIS, 2004) A prática de consumo na cidade se tornara cada vez mais comum, com isso, a presença de galerias, mercados e feiras livres foram se intensificando na cidade. Paralelamente, obras para cultura e lazer também ocorriam, destacando o Teatro Municipal. A expressão artística e crítica intelectual da cidade podem ser constatadas, principalmente, com a Semana de Arte Moderna de 1922. A cidade de São Paulo ganhara também espaços de contemplação e lazer, como os parques públicos, além disso haviam locais para a prática esportiva, próximos às marginais do rio Tietê e Pinheiros, por exemplo, estavam os clubes destinados à prática de natação e remo. A prática de diversas atividades na cidade promovia uma dinâmica e um aumento do turismo. Outro polo social, formando também um conjunto urbanístico, foi o do Vale do Anhangabaú, projetado e construído entre 1911 e 1917, com

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alguns complementos estendendo-se ao longo dos anos 1920. Esse projeto, parte fundamental da reforma do velho centro, criou um efeito paisagístico da maior importância. Ao seu redor foram dispostas alguns edifícios com características arquitetônicas semelhantes e outros com diferenças evidentes, ajustando-se todos a escala do parque e dos já existentes, criando o mais importante cenário urbano de São Paulo, até a década de 1940. As relações entre esse projeto e a reforma do Centro são discutidas adiante mas é inegável que mesmo sendo partes de uma série de medidas destinadas a reformulação daquela área, os projetos da área do Anhangabaú formaram um conjunto, um verdadeiro polo de interesse da cidade, um cenário de modernidade para as classes dominantes. Da forma como foi desenvolvido, o projeto de reforma do Centro atendeu aqueles interesses e possibilitou a criação de diversos cenários importantes na cidade. O principal deles foi o Vale do Anhangabaú, com os três edifícios da família Prates, projetados e construídos pelo escritório de Samuel das Neves e seu filho Cristiano Stokler das Neves. O cenário se completou com a construção dos edifícios da Associação Comercial, da Companhia Antártica Paulista, entre o Anhangabaú e a Avenida São João, pelo edifício do Hotel Esplanada, pelo Teatro Municipal, que lá estava, e pelo edifício dos escritórios da São Paulo Light. O parque tinha como prolongamento a Praça do Patriarca, com os edifícios da família Prado e o que depois foi do Mappin, ao fundo, formando um conjunto urbanístico. Do lado oposto do viaduto, formou-se a Praça Ramos de Azevedo, tendo ao centro o Teatro


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Figura 11: Viaduto do Chá - Fonte: http://estadao.br.msn.com/fotos/fotos-antigas-de-sp#image=39

Municipal, de um lado o edifício do Hotel Esplanada e do lado oposto o Teatro São José, depois substituído pelo edifício dos escritórios da São Paulo Light. A seguir, na esquina da Praça Ramos de Azevedo com a Rua Barão de Itapetininga, foram construídos o edifício São Pedro e ao seu lado o edifício Glória, pertencente a família Guinle. No início da Rua Xavier de Toledo, que também estava sendo alargada, foi construído o edifício Vicentina Aranha, pertencente a família do Marquês de Três Rios. No início da Rua Barão de Itapetininga foi construído o edifício Guatapará, com sua galeria, pertencente a família Prado. Nos fundos deste, ergueu-se o novo Teatro Santana, pertencente a família Álvares Penteado.


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Centro Novo

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O bairro do morro do Chá (mais tarde seria denominado “Centro Novo”) havia sido loteado em 1876 nas terras do Barão de Itapetininga, sendo abertas as ruas Barão de Itapetininga, Xavier de Toledo, Conselheiro Crispiniano, 24 de Maio e Dom José de Barros. Após o parcelamento da chácara, surge a primeira ideia de interligação do bairro do Chá com o Centro Tradicional da cidade. Jules André Martin apresenta um mapa em 1877 com a proposta de ligação em nível entre as rua Barão de Itapetininga e a rua Direita por meio de um viaduto.

Figura 12: Bairro do Chá em 1887 - Foto de Militão de Azevedo - Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-imagens/brasileiros / militao-augusto-de-azevedo/


A construção do Viaduto do Chá possibilitou de fato a efetiva ocupação do bairro do Chá. A conexão entre o Centro da cidade e os novos bairros que surgiam a oeste estava viabilizada. Outra mudança ocorrida devido à presença do viaduto foi a valorização dos “fundos” do morro do Chá, onde no início do século XX surgiriam o novo Teatro São José e o Tetro Municipal. Esse processo de valorização do Vale do Anhangabaú teria início durante a construção desse teatro (1903-1911) e continuariam num “crescendo”, aumentando vertiginosamente sua importância e criando assim as condições para o surgimento de um projeto de melhoramentos para toda a região do vale (da autoria do vereador Silva Teles). (SIMÕES JÚNIOR, 2004) Os princípios de valorização simbólica para as áreas centrais no país, ocorreram no início do século XX e procuravam negar os traços da arquitetura e do urbanismo coloniais ainda presentes nesses espaços mais centrais e afirmar uma simbologia baseada na modernidade adotando uma estética de origem europeia. Com isso, as intervenções nas áreas centrais tiveram como consequência quarteirões inteiros demolidos para a abertura de praças públicas, obras de alargamentos e conexões viárias, mudança de padrão técnico e estético das edificações e dos usos existentes, além de obras de infraestrutura e saneamento. O primeiro projeto de melhoria para a área central de São Paulo é de autoria do vereador Silva Teles, o aspecto da circulação viária apresentava-se como o maior desafio a ser enfrentado. Os alargamentos e correções nos

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alinhamentos viários que a prefeitura vinha realizando não foram suficientes para compatibilizar a função polarizadora dessa área com o crescente fluxo de veículos e coletivos. Destaca-se como obra urgente o alargamento de alguns cruzamentos, como nas ruas São Bento e Direita, São Bento e São João, 15 de Novembro e Tesouro, São João e Líbero Badaró. O plano de Teles se estende para toda a área envoltória do Vale do Anhangabaú, tendo além do alargamento da rua Líbero Badaró , a demolição de parte das casas situadas nesse logradouro e na rua Formosa, permitindo uma visão voltada para o vale, além de um tratamento paisagístico no fundo do vale e utilização do mesmo como ligação viária, uma vez que a forma usual de criar novos caminhos era pelos espigões ou pela meia encosta, locais que não apresentavam problemas de drenagem. Essa disposição significa que o vale passaria a não mais desempenhar o papel funcional de ser “o quintal dos fundos” das áreas urbanizadas do Centro Velho e do Centro Novo, mas passaria a ser o “jardim da frente” desses espaços centrais, polarizando e interligando as funções associadas a essa centralidade. (SIMÕES JÚNIOR, 2004) Silva Teles pode ser considerado um dos pioneiros do urbanismo paulista, tendo uma visão de conjunto sobre os problemas urbanos da cidade. O segundo projeto relevante para melhorias do centro da cidade aparece em 1910, um plano em conjunto com a prefeitura e proposto pelo vereador Sampaio Viana, sob forma de lei, onde se permitia a construção


em todo o lado ímpar da rua Líbero Badaró, desde que os edifícios fossem recuados em no mínimo 8 metros, para permitir o alargamento dessa rua, contradizendo o plano original de Silva Teles. Para contrapor essa nova lei, Vítor Freire juntamente com Eugênio Guilhem propõem um plano intitulado “Melhoramentos do Centro da Cidade de São Paulo” tendo como propósito intensificar o plano de Teles, de maneira que se resolvesse o problema de circulação viária na área central, bem como adequar a fisionomia da cidade à sua condição de próspera capital comercial. No plano assim exposto, além da transformação da Líbero Badaró em bulevar e do ajardinamento do vale, podem-se identificar diversos aspectos inovadores: a avenida São João seria alargada até quarenta metros desde o início, na praça Antônio Prado, até o largo do Paissandu; a Líbero Badaró, já alargada, seria prolongada após o largo São Francisco até atingir a rua Santo Amaro, já na Bela Vista; a rua 11 de junho (atual Dom José de Barros) seria prolongada do largo do Paissandu até atingir o largo Santa Ifigênia, de maneira que se criasse um percurso direto e em nível comunicando a Estação da Luz com o Viaduto do Chá; a rua Boa Vista seria prolongada através de um viaduto até o Pátio do Colégio, facilitando as comunicações entre a região das estações e a praça da Sé; o encontro das ruas Direita com a São Bento seria aberta uma grande praça ( a futura praça do Patriarca), para facilitar o trânsito nesse ponto e suas conexões com a rua Líbero Badaró e o Viaduto do Chá. (SIMÕES JÚNIOR, 2004).

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Contudo, o engenheiro Samuel Augusto das Neves é contratado pelo governo estadual para elaborar um novo projeto de melhoramentos, onde propunha outro viaduto, unindo o Largo São Francisco ao Largo da Memória (em substituição ao Viaduto São José), a edificação na face ímpar da Líbero Badaró e a abertura de uma imensa avenida parque no fundo do vale do Anhangabaú, que se estenderia do Pari à Avenida Paulista. Vítor Freire critica essa nova proposta de projeto do governo estadual, expondo pontos que julga corretos para a abordagem de um projeto urbano, revelando um fato de extrema importância que são as referências das experiências urbanísticas internacionais, principalmente da cultura francesa, que exercia um domínio absoluto sobre os valores das elites sul-americanas, em especial da brasileira, moldando consequentemente um ideário das políticas urbanas. Para Freire, um dos pontos mais fracos da proposta de Neves seria não possuir uma visão de conjunto, limitando-se unicamente a uma abordagem parcial em que a questão viária seria privilegiada. A grande dificuldade a ser superada em relação à circulação da parte central da cidade era referente à questão da insuficiência da capacidade viária da colina central. O sistema viário da região precisava estar adequadamente dimensionado para poder receber e distribuir o grande fluxo de tráfego proveniente dos setores oeste e norte da cidade. Principalmente do movimento gerado pelas estações ferroviárias em direção à zona do Triângulo central. (SIMÕES JÚNIOR, 2004)


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As ruas São Bento e 15 de Novembro careciam de soluções alternativas, ou deveriam ser alargadas (proposta inviável dado ao alto custo de desapropriação), ou se criavam circuitos alternativos paralelos a essas ruas.

Figura 13: Rua São Bento em 1887 - Foto de Militão de Azevedo - Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-imagens/brasileiros /militao-augusto-de-azevedo/

A crítica de Freire revela também a incoerência da abertura de uma nova rua que serviria de interligação entre o Largo São Francisco e a rua da Quitanda, uma vez que ao receber o tráfego proveniente do Viaduto São Francisco, ela o conduziria diretamente à região da rua Boa Vista sem necessidade então da existência de um viaduto nessa rua. Além do mais, o desvio do tráfego por esse trajeto deixaria a Praça da Sé isolada, denotando


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assim certa falta de confiança no potencial dessa área para futura expansão do Centro. Nesse caso, essa expansão acontecendo pelo outro lado traria a necessidade de um viaduto sobre a Avenida São João, e não desse de São Francisco. (SIMÕES JÚNIOR, 2004). A questão estética é ressaltada também, onde Freire defende que qualquer proposta de intervenção urbana só poderá ser esteticamente bem resolvida se for concebida por um único indivíduo, e não por uma equipe de burocratas. Ele acreditava que devia se contratar um consultor especializado para elaborar o plano ou sugerir alterações, indica então o urbanista francês Joseph-Antoine Bouvard. O projeto de Neves se enquadra mais na questão de se “imitar uma grande capital do que satisfazer realmente as necessidades locais”. (SIMÕES JÚNIOR, 2004). 2 Novamente Vítor Freire apresenta novas propostas para rebater a sugestão imposta pelo governo estadual. Basicamente, retoma suas ideias de “Melhoramentos do Centro da Cidade de São Paulo” e algumas das de Silva Teles, adicionando alguns novos pontos. Ele insiste na questão do ponto de vista “de conjunto”: as análises e proposições de intervenções da cidade devem ser realizadas por uma ótica mais ampla, de um ponto de vista mais global. Segue a listagem de propostas do plano de Vítor Freire: • Revisão do padrão de retilinearidade: os esquemas geométricos não fazem parte da concepção de estrutura viária de Freire. Prefere assim, 2 Camillo Sitte, apud Vítor da Silva Freire Jr., “Melhoramentos de São Paulo” cit. p.122 apud José Geraldo Simões Júnior, Anhangabaú - História e Urbanismo cit.p.109


com a utilização das curvaturas e concavidades, ir contornando as encostas, os obstáculos topográficos e os condicionantes históricos presentes nos traçados viários tradicionais. O modelo ideal de estrutura urbana de Freire é aquele formado espontaneamente, de tendência radial-concêntrica, com avenidas radiais dirigindo-se aos arrabaldes segundo as linhas de desenvolvimento e ocupação natural dos terrenos. • Sistema viário ideal: o modelo ideal deveria ter uma certa organicidade, em três elementos, o núcleo central, as avenidas radiais de penetração e as ruas transversais de conexão interbairros. • Anel viário: proposta do anel viário contornando o Centro Velho da cidade e expandindo as possibilidades do tradicional Triângulo formado pelas ruas São Bento, 15 de Novembro e Direita. Correndo paralelamente essas três vias, o “circuito exterior” seria então delimitado por um triangulo maior, situado ainda dentro da colina histórica e balizado pelas ruas Líbero Badaró, Boa Vista e Benjamin Constant. Dessa forma, a cidade adquiria o aspecto de metrópole moderna, pois seria dotada de um conjunto monumental de edifícios públicos que, segundo Freire, impressionaria vivamente o estrangeiro que chegasse à cidade. • Espaços abertos: ajardinar os vales dos rios Anhangabaú e Tamanduateí, mantendo-os como espaços abertos. Além disso, seria necessário prever outros espaços verdes distribuídos ao longo da área urbanizada, de maneira que se tivesse uma série de pequenas manchas de vegetação espalhadas ao longo da cidade, cujo efeito sanitarista seria superior ao propor-

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cionado por aquela situação em que apenas duas ou três grandes manchas cumpriam tal função. Os espaços livres seriam constituídos não só por esses parques e jardins de uso público, mas também pelas áreas livres existentes no interior de cada lote. • Controle das áreas de expansão urbana: o “plano de conjunto” proposto por Freire teria assim um caráter de previsão, na medida em que, ao se preocupar com as áreas de expansão periférica, introduziria novas questões no âmbito do planejamento, como a aquisição de reserva de glebas destinadas a espaços abertos, a prévia definição dos principais eixos viários de transporte, o estabelecimento de parâmetros para o retalhamento de chácaras e a ocupação de novos lotes, a destinação de bairros-jardim para a população operária, etc. Por fim, a proposta de Bouvard era embasada na proposta de Freire exceto pela sugestão da construção de dois grandes corpos de edificação na orla do parque. Além de uma nova proposta para a construção de um Centro Cívico. O plano original continha quatro linhas de ação: Parque Anhangabaú, Várzea do Carmo; Centro Cívico; e avenidas de comunicação do centro com os bairros. Bouvard procurava apresentar soluções para a melhoria do trânsito em áreas centrais sem recorrer à descaracterização desses locais e reduzindo ao mínimo o alto custo de eventuais desapropriações. Seus desenhos são marcados por um traçado orgânico dos arruamentos de forma que se preenchessem os “claros” deixados pela ocupação natural dos terrenos, no


caso, os vales. O plano de Bouvard foi então aprovado e adaptado pela Diretoria de Obras Municipais. A conclusão das obras do Parque Anhangabaú e suas imediações viria, dessa forma, consolidar a existência de uma nova polaridade na região central. O Anhangabaú com seus jardins entremeados por passeios, bancos, floreiras, estátuas, belvederes, palacetes e a magnífica esplanada do Teatro Municipal, assumiria assim o papel simbólico de uma “fachada” para esse novo Centro. Tal qual um pórtico, que serviria para marcar a entrada no centro da cidade. Entrada essa que podia ser contemplada por todos aqueles que proviam do setor oeste da cidade, e que chegavam à região pelo Viaduto do Chá. (SIMÕES JÚNIOR, 2004) A expansão do centro em direção ao denominado “Centro-Novo” começaria a se realizar lentamente a partir dos anos 1920, mas seria concretizada definitivamente somente no fim dos anos 1930, após a construção do novo Viaduto do Chá. Um significativo marco nesse sentido foi a transferência de uma das mais importantes e tradicionais lojas comerciais do Centro Velho – o Mappin Stores – para a rua Barão de Itapetininga. Nos anos 1940, a região da Barão de Itapetininga, 24 de Maio, e todo o antigo bairro do Chá já estavam tomados pelas lojas comerciais e edifícios modernos, constituindo-se o Novo Centro. A rua Barão de Itapetininga, roubando o antigo prestígio da rua Direita, seria transformada no local predileto do footing paulistano, abrigando lojas de moda, casas de chá e comércio de luxo. (SIMÕES JÚNIOR, 2004)

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DINÂMICAS DO CENTRO


Dinâmicas do Centro

Equipamentos culturais

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As experiências de revitalização, revalorização, reabilitação ou ainda requalificação de áreas urbanas, em sua grande maioria, tem um foco especial sobre equipamentos culturais de grande porte, no entanto, as mais bem sucedidas são aquelas em que não houve apenas um investimento nesses equipamentos, mas, sim, uma atenção ao conjunto dos problemas urbanos e sociais, até porque a maioria desses projetos foi elaborada visando à revitalização econômica de regiões ou cidades degradadas. (EMURB,2004) Analisando experiências internacionais, em Paris e Barcelona, há o fato em comum de o poder público, local ou nacional, ser o principal promotor. Em ambas, a questão cultural foi a de maior importância, além da criação de novos equipamentos, a preservação e restauro não visou apenas monumentos, mas também conjuntos urbanos com o principal objetivo de criar atrativos turísticos. Nesses dois casos, são ações permanentes de investimento que, mesmo quando localizadas em espaços determinados, têm em mira a cidade em seu conjunto. (EMURB,2004) É preciso insistir no fato de que não se podem considerar os equipamentos culturais independentemente, por exemplo, dos problemas de segurança, limpeza, conservação urbana, iluminação, reabilitação de áreas abandonadas, redefinição do uso de vias públicas, diversidade de usos e organização das atividades econômicas. O exemplo de Bilbao é bastante ilustrativo do equívoco de se apostar todas as fichas na construção de um


equipamento cultural de grande porte crendo que isto, por si só, traria a requalificação da área em questão. (EMURB,2004) Segundo Jane Jacobs (2000), a presença de diversidade – já existente ou a ser estimulada por mecanismos previstos no projeto – é fundamental em qualquer processo de requalificação urbana que não queira reproduzir os equívocos de experiências realizadas mundo afora. A boa qualidade do uso da cidade envolve múltiplos usos de uma área, diferenças de nível socioeconômico da população, dos tipos e idades das edificações, variedade de etnias, de comércio, etc. Toda essa mistura permite que a região seja usada e “vigiada” durante todo o dia. Esse funcionamento ininterrupto seria o dado fundamental de segurança, que gera os chamados “proprietários naturais da rua”, donos de padaria, lojas, mercearias e outros pequenos serviços seriam os “olhos atentos”, mais eficientes do que a iluminação pública. (EMURB,2004) Em São Paulo, o enfoque deve conduzir a articulação dos setores da educação e da cultura, incentivando a população jovem residente do centro. Os resultados de um projeto cultural sobre o conjunto da sociedade podem aumentar o conhecimento, melhor capacidade de inovação, da produtividade, enriquecimento intelectual, conservação e desenvolvimento do patrimônio, incitação à criação, melhoria da qualidade de vida, diminuição da criminalidade e estímulo à visitação e caráter turístico. As políticas de mobilização da opinião pública são de extrema importância juntamente com o empenho da administração municipal, onde intervindo de forma

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Dinâmicas do Centro

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pontual possam atingir o conjunto da cidade, como um todo. Quanto mais equipamentos existirem na vizinhança, mais se estimula a escolha por uma região devido à quantidade de opções disponíveis. Ao mesmo tempo, do ponto de vista da gestão dos próprios equipamentos, essa proximidade também estimula a concorrência, por um lado, e uma complementaridade, por outro. (EMURB, 2004) A distribuição de equipamentos culturais sugere a rentabilização do uso de espaços existentes e de novos, isso certamente contribuiria para o desenvolvimento econômico da região e, principalmente, para o desenvolvimento social.

Figura 14: Teatro Municipal de São Paulo - Fonte: arquivo pessoal


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Segundo Nadia Somekh para sua dissertação de mestrado, 1929 é o ano de acentuação da verticalização na cidade de São Paulo. O fato mais relevante para nós, porém, é a partir de meados da década de 1930, começamos a perceber que todos os dados descritos acima culminam com a escassez de terrenos para novos empreendimentos na área do Centro Tradicional. É também o período marcado pela ocupação do Centro Novo pelas classes dominantes, que foram residir nos bairros de Vila Buarque, Campos Elíseos e Higienópolis. (GORAB, 2005) Em 1960, fica intensificado o deslocamento de desenvolvimento para a região sudoeste da cidade, e a Avenida Paulista cria uma nova centralidade, seguida depois pela região da Avenida Faria Lima e mais adiante pela Avenida Luiz Carlos Berrini. Primeiro a Avenida Paulista é remodelada e alargada, sua paisagem ilustrava edifícios modernos convivendo com casarões, havia espaço para construções mais modernas com novas características e tecnologias, as quais o setor empresarial exigia. Enquanto isso, no Centro Tradicional, as construções mais antigas sofriam certa desvalorização, ocasionada principalmente pela forma dos edifícios (lajes pequenas, elevadores lentos e insuficientes, falta de tecnologia de comunicação e informação, dentre outros). O centro da cidade é marcado por políticas públicas de implantação do metro, ligando a área central aos bairros periféricos, sem passar pela

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Esvaziamento


Dinâmicas do Centro

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região sudoeste e a implantação de calçadões de pedestres. Além disso, segundo José Geraldo Simões Junior, outros fatores como a complexidade da estrutura fundiária da região, a deteriorização ambiental e paisagística e a inadequação dos imóveis às atuais necessidades da vida moderna são também muito importantes para entendermos os motivos pelos quais a área central das cidades, especialmente São Paulo, sofreu esse esvaziamento. (GORAB, 2005) A região central, bem servida de meios de transporte coletivo, como ônibus e metrô, ficava cada vez mais “distante” dos meios de transporte individual, como o automóvel. A presença dos calçadões e a falta de garagens e áreas de estacionamento tornavam a acessibilidade difícil aos usuários da região, principalmente aos donos e proprietários das empresas, a quem cabiam à decisão de permanecer ou se transferir do centro para as novas centralidades. A acentuada queda de preços do metro quadrado observada na cidade entre 1999 e 2003 contribui para o esvaziamento da região central. As empresas pretendiam se transferir para regiões que atendessem melhor as suas necessidades, mas não o faziam em função de preços elevados, tiveram nessa conjuntura de baixa o momento oportuno para efetuar o deslocamento. Em outras palavras, a única vantagem competitiva que a região apresentava eram os preços baixos. Se os preços baixam nas regiões mais caras, o movimento migratório se torna inevitável. Da mesma forma, se os preços aumentarem muito nas novas regiões (Berrini, Marginal Pinheiros


e Faria Lima) é natural que haja um movimento contrário, isto é, empresas buscando outra vez a região central como uma alternativa de preços mais convidativos. (EMURB, 2004) Na verdade houve um duplo movimento: durante os anos 1960 e 1970, e antes que novas centralidades surgissem plenamente, a demanda por novos espaços para a instalação de empresas que se ampliavam superava a oferta; duas décadas depois, sobravam espaços devido ao esvaziamento provocado pelo novo tipo de demanda que a região central não pôde satisfazer, até mesmo para aqueles que lá permaneciam, mas necessitavam adotar novas tecnologias empresariais e administrativas. (EMURB, 2004) As transformações ocorridas na região central tiveram como consequência o esvaziamento empresarial e de moradores, seguido da deteriorização e desvalorização dos espaços construídos. A recuperação do centro deve se basear na busca da retomada da característica de centralidade, uma centralidade de novo tipo e com novas vocações. Descobrir novas vocações é a principal

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Figura 15: Vestígios de degradação no centro de São Paulo - Fonte: arquivo pessoal


Dinâmicas do Centro

tarefa da administração da cidade. Essa recuperação deve estar vinculada às atividades que lá se desenvolvem. Na medida em que são atividades essencialmente econômicas e financeiras, percebe-se um intenso movimento durante o dia e durante a noite a região apresenta-se estática. É necessário, portanto, atrair atividades que mantenham esse movimento durante o período noturno também, para que isso se torne possível, é necessário atrair moradores, atividades comerciais e de serviços 24 horas.

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“Não há uma necessidade de revitalização (pois há vida no centro), há uma necessidade de requalificação.” (GORAB, 2005)

É necessário também disciplinar as atividades de vendedores ambulantes na região de forma a manter um serviço de comércio de pequena escala em andamento (garantindo emprego), mas evitando que estas atividades sirvam de base para a contravenção e delinquência e que impeçam o livre trânsito de pessoas nas ruas. (EMURB, 2004) O uso de transporte individual na região poderá se tornar mais acessível mediante a construção de garagens, sem o incentivo de verticalizá-las. Um cuidado especial deve estar relacionado com a limpeza. A limpeza e a segurança (ao lado de baixos preços) constituem os principais atrativos para a volta de moradores e empresários à região central.


Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

A reutilização de edifícios não depende apenas da vocação da construção, mas também da dinâmica de seu entorno, das disposições sócio-culturais dos usuários, da economia da região dentre outros fatores, que devem ser analisados caso a caso. A reciclagem de edifícios é uma das diretrizes do desenvolvimento sustentável, que se baseia em evitar desperdício de energias não renováveis e na proteção da natureza. A reciclagem dos edifícios da área central evitaria, portanto, a utilização de novos materiais construtivos, gasto de energia para a sua produção, além da utilização de um novo material de forma extrativista e a degradação do ambiente natural com a deposição do entulho de demolição em locais não apropriados. (GORAB, 2005) Considerando o esvaziamento da região central de São Paulo, pode-se identificar diversos edifícios que se encontram em estado de degradação, muitos destes por essa condição, passam a ser invadidos por movimentos sociais “sem-teto” que veêm nesses edíficios uma solução simples para resolver a questão habitacional precária da cidade. A questão é complexa, pois ao invadirem um edifício, pode-se imaginar que há um “repovoamento” da região central e então, de certa forma seria satisfatório para a dinâmica do centro, contudo deve-se ressaltar que a situação em que se vive nesses edifícios invadidos não são nada aceitáveis como qualidade de vida, por não obterem condições básicas de sanea-

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Reciclagem


Dinâmicas do Centro

mento, por exemplo. Assim, esse ato de invasão pode contribuir para uma degradação ainda maior dos edifícios no centro, além de toda a questão de ilegalidade.  Calçadas

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A calçada por si só não é nada na cidade, ela ganha significado quando relacionada aos edifícios e a outros usos próximos a ela. Os principais locais públicos de uma cidade são os seus órgãos mais vitais. A questão da segurança urbana é uma função fundamental das ruas e calçadas dentro da cidade, satisfazendo a sensação de segurança e proteção a seus usuários, em meio a tantos “desconhecidos”. Não é preciso haver muitos casos de violência numa rua ou num distrito para que as pessoas temam as ruas. E, quando temem as ruas, as pessoas as usam menos, o que torna as ruas ainda mais inseguras. (JACOBS, 2000) Um dado importante que deve ficar claro é que a segurança das ruas e calçadas não é mantida basicamente pela polícia, sem que se a desconsidere, mas é mantida fundamentalmente por uma rede de controles e padrões de comportamento, quase que inconscientemente, das pessoas que moram ou utilizam o local. “É uma coisa que todos já sabem: uma rua movimentada consegue garantir a segurança: uma rua deserta não.” (JACOBS, 2000)


Uma rua com boa infraestrutura para receber pessoas e oferecer segurança precisam ter três características principais: deve ser nítida a separação entre o espaço público e o privado; devem existir olhos para a rua, os olhos daqueles que podemos chamar de proprietários naturais da rua; a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, tanto para aumentar os olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas de dentro dos edifícios da rua a observar as calçadas. (JACOBS, 2000) As ruas das cidades devem proporcionar aos usuários, espaços em que eles possam lidar com os desconhecidos que transitam, e aos desconhecidos oferecer-lhes proteção garantindo também a sua segurança, afinal, todos precisam usar as ruas. A segurança das ruas é mais eficaz, mais informal e envolve menos traços de hostilidade e desconfiança exatamente quando as pessoas as utilizam e usufruem espontaneamente e quando estão menos conscientes, de maneira geral, de que estão policiando. (JACOBS, 2000) A implantação de estabelecimentos e outros locais públicos dispostos ao longo das calçadas é fundamental para a sua qualificação. Lojas, bares e restaurantes, por exemplo, atuam de forma bem variada e complexa podendo preencher a dinâmica das calçadas, dando motivos concretos para utilizá-las, fazendo com que as pessoas percorram-nas, passando por locais, que antes não tinham interesse, mas que se tornam rotas e trajetos para outros lugares, a movimentação de pessoas a trabalho que buscam lugares para se alimentar ou até mesmo, nos períodos noturnos, que buscam

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Dinâmicas do Centro

locais de lazer constitui um número atrativo para mais pessoas, bem como a presença dos próprios lojistas e outros pequenos comerciantes costumam incentivar a tranquilidade e ordem nas ruas. A diversidade de interesses, quanto mais intensificadas na cidade, é melhor para as ruas, para a segurança e para a civilidade.

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“Uma rua viva sempre tem tanto usuários quanto meros espectadores.” (JACOBS, 2000)

A preocupação com a iluminação pública é essencial, todavia as luzes não tem efeito algum se não existirem “olhos” que assegurem as ruas, comportamento geral, consciente ou inconscientemente, dos usuários e moradores que compõem a preservação da civilidade e vitalidade das ruas e calçadas. Sob a aparente desordem da cidade tradicional, existe nos lugares em que ela funciona a contento, uma ordem surpreenFigura 16: Galeria Califórnia, espaço que possibilita novas experiências aos usuários das ruas Dom José de Barros e Barão de Itapetininga, tendo entrada em ambas as ruas - Fonte: arquivo pessoal


dente que garante a manutenção da segurança e a liberdade. É uma ordem complexa. Sua essência é a complexidade dos usos das calçadas, que traz consigo uma sucessão permanente de olhos. Essa ordem compõe-se de movimento e mudança, e, embora se trate de vida, e não de arte, podemos chamá-la na fantasia, de forma artística da cidade e compará-la a dança – não a uma dança mecânica, com figurantes erguendo a perna ao mesmo tempo, rodopiando em sincronia, curvando-se juntos, mas a um balé complexo, em que cada indivíduo e os grupos têm todos papeis distintos, que por milagre se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar sempre está repleto de novas improvisações. (JACOBS, 2000)

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Dinâmicas do Centro

Calçadão

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Os calçadões foram implantados no centro da cidade de São Paulo nos anos 1970, com a finalidade de assegurar as condições de fluidez, segurança e tranquilidade aos pedestres, estimulando o uso do Centro como lugar de entretenimento, comércio e serviços. Em pouco tempo, se expandia formando uma rede de mais de 7 quilômetros de vias de pedestres, equipadas com mobiliário específico – postes e luminárias com design específicos, bancos e lixeiras, piso à base de placas de granito e mosaico português. Nos primeiros anos aparentou cumprir o seu papel, no entanto não tardou muito para que começassem a surgir os problemas. A circulação de veículos foi então restrita, valendo-se da exceção de veículos de serviço (transporte de valores, bombeiros, concessionárias de serviços públicos, policiamento, etc.), contudo, isso gerou um conflito com os pedestres que estavam em local exclusivo, mas ainda deviam manter-se atentos, sem poder caminhar despreocupados e também isso acarretou na degradação da pavimentação não adequada a esse tipo de uso. (MENGOZZI, 2002) Outra questão é que o sistema de vias de pedestres foi concebido para reanimar e qualificar as atividades comerciais, de serviços e lazer, no entanto o resultado foi oposto, com a perda de estabelecimentos comerciais e de escritórios das ruas Barão de Itapetininga e 24 de Maio, para outras regiões, devido à dificuldade de acesso de transportes individuais.


Além disso, a questão administrativa deve ser ressaltada principalmente na questão da manutenção do piso, que deve ser efetuada rápida e permanentemente, e no caso é demorada e irregular, pois demanda procedimentos de rotina, bem como também é com a coleta de lixo e a manutenção de equipamentos e mobiliário. (MENGOZZI, 2002) No final da década de 1990, é elaborado um diagnóstico intitulado “O Calçadão em Questão – 20 Anos de Experiência do Calçadão Paulistano” promovido pela Associação Viva o Centro e pela Faculdade Belas Artes de São Paulo. O trabalho foi realizado em três etapas: audiência pública, pesquisa de campo, mesa redonda e workshops com grupos temáticos, apre-

Figura 17: Calçadão na Rua São Bento - Fonte: arquivo pessoal

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Dinâmicas do Centro

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sentando recomendações claras para reverter o processo de degradação que tomou conta dos calçadões. Os resultados obtidos com os workshops geraram sugestões para a requalificação das vias de pedestres, como por exemplo: recomendou-se estabelecer polos de atração institucionais e culturais e o estímulo do uso habitacional; criação de um leito carroçável com diferenciação de pavimentação para a circulação de veículos autorizados e a livre circulação depois de determinado horário; readequação da localização dos camelôs para fora do espaço público; revisão da rede de vias de pedestre, prevendo o acesso controlado por automóvel a algumas áreas e a melhor integração ao sistema de transporte público; conceito de “horários pedestrianizados” em vez de áreas; iluminação cênica nos edifícios e monumentos à noite; valorização da visualização e acesso aos edifícios de interesse público adotando percursos temáticos; definição de piso adequado tanto à resistência, durabilidade, aderência e economia, de fácil substituição; atuação coordenada das concessionárias de serviços públicos, para que utilizem as redes subterrâneas de maneira racional, facilitando a manutenção e reconstituição de pisos. (MENGOZZI, 2000) Apesar das objeções, o sistema de calçadões é uma conquista e devem ser preservados, sendo revistos e aperfeiçoados para poderem retomar a sua função original. Na avaliação dos usuários os pontos negativos foram os problemas do pavimento, a falta de segurança, a alta presença de camelôs e o lixo e, como pontos positivos a possibilidade de caminhar


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tranquilamente, o maior fluxo de pessoas, a possibilidade de apreciar as vitrines, sendo bem aceito pela população. O estudo reconhece que muitos dos problemas ressaltados, muitas vezes são comuns a toda cidade. “Suas causas não decorrem especificamente dos calçadões, ainda que suas características – como no despovoamento já às primeiras horas da noite – possam acentuá-las”(MENGOZZI, 2002). Maurício Faria, na época presidente da Empresa Municipal e Urbanização (EMURB), afirma conscientemente que o calçadão da Barão de Itapetininga não é nenhuma rambla de Barcelona, amplo calçadão com duas estreitas pistas laterais e muita atividade 24 horas por dia, ressaltando em sua opinião ser o mais bem sucedido modelo de via de pedestre que existe com sua efervescência humana e cultural. “As Ramblas registram a energia da presença humana e têm profundas raízes culturais. Infelizmente, não temos nada parecido e os calçadões não realizaram os objetivos urbanísticos pretendidos. Existem ambientes urbanos interessantes na cidade, como o Largo do Café, mas são poucos.” Ele ainda ressalta sobre os calçadões: “Eles têm um ponto de partida essencial, que é a valorização do ato de caminhar, a relação que criam com a cidade.” (MENGOZZI, 2002)

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Figura 18: Largo do Café - Fonte: arquivo pessoal


ESCOLHA DO PROGRAMA


Escolha do programa

Mídia, Cultura e Lazer

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A mídia é o sinônimo de meio, meio de informação, de comunicação social. A mídia está relacionada a mudanças e evoluções, tendo o papel de alterar a dinâmica da comunicação social. Segundo o dicionário Michaelis, é veículo ou meio de divulgação de uma ação publicitária; qualquer material físico que pode ser usado para armazenar dados. Uma midiateca é o espaço físico que reúne documentos informatizados e multimídias, podendo ser considerada como uma extensão das bibliotecas tradicionais, por permitirem maior abrangência de resultados e acessos. É composta por espaços de leitura, periódicos, documentação audiovisual, acesso livre à internet, áreas multimídias, além de áreas comuns destinadas ao lazer. O conceito de midiatecas está intimamente relacionado com o desenvolvimento tecnológico da telecomunicação ocorrido na segunda metade do século XIX, onde o transporte de informações era feito fisicamente, existindo um distanciamento espacial. “O advento da telecomunicação trouxe uma disjunção entre espaço e tempo, no sentido de que o distanciamento espacial não mais implicava o distanciamento temporal.” (THOMPSON,2008). A expansão do acesso das bibliotecas tradicionais transformou a natureza da produção e do intercâmbio simbólico no mundo moderno, trouxe o conceito das futuras midiatecas. Em todas as sociedades os seres humanos se ocupam da produção


e do intercâmbio de informações e de conteúdo simbólico. Desde as mais antigas formas de comunicação gestual e de uso de linguagem até os mais recentes desenvolvimentos de tecnologia computacional, a produção, o armazenamento e a circulação de informação e conteúdo simbólico têm sido aspectos centrais da vida social. (THOMPSON, 2008) A vida social, como observou Thompson, foi alterada com as tecnológicas midiáticas, o conhecimento de mundo se amplia de uma maneira que ultrapassa a nossa experiência pessoal, de encontros diários e físicos, há também uma mudança cultural. A cultura, em seu sentido mais amplo, é uma forma de atividade que implica alto grau de participação, na qual as pessoas criam sociedades e identidades. A cultura modela os indivíduos, evidenciando e cultivando suas potencialidades e capacidades de fala, ação e criatividade. A cultura da mídia participa igualmente desses processos, mas também é algo novo na aventura humana.(KELLNER, 2001) Alguns pesquisadores remontam o lazer ao modo de vida das classes aristocráticas da civilização tradicional. Aqueles privilegiados da fortuna pagavam a sua ociosidade com trabalho dos servidores, ociosidade que não se define por suas relações com o trabalho. Além disso, o lazer não é a ociosidade, não suprime o trabalho, pelo contrário, o supõe. Correspondem a uma liberação periódica do trabalho, ao fim do dia, da semana, do ano, ou da vida de trabalho.(DUMAZEDIER, 1980) O lazer se caracteriza por resultar de uma escolha livre, por não estar

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Escolha do programa

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submetido a nenhum fim lucrativo, utilitário ou ideológico; por ser marcado pela busca de um estado de satisfação, tomado como fim em si mesmo; por responder às necessidades individuais, em face das obrigações primeiras, impostas pela sociedade. (DUMAZEDIER, 1980) O lazer tem como funções, o descanso, o divertimento, a recreação e entretenimento e o desenvolvimento. Este último está ligado a fatos cotidianos, da ação e do pensamento, que permite maior contato social, permitindo uma formação técnica e prática do indivíduo que durante a vida contribuem para a sua conduta. A cultura moderna seja técnica, científica, artística ou filosófica, não pode ser adquirida e desenvolvida unicamente pela prática das obrigações diárias, uma vez que esta implica atividades de aquisição e criação, cuja execução depende da utilização de certo tempo. O espaço de lazer é um espaço diferente dos outros, é um espaço vivencial, onde o objetivo principal é o viver pelo viver, é ter oportunidade de ocupar o tempo livre para exprimir as necessidades individuais, físicas, sócias, artísticas, etc. Na teoria dos urbanistas, os espaços de lazer se desenvolvem no todo e nas partes do tecido urbano; é em cada escala da tessitura da cidade – centro, bairros, periferia, cinturão exterior -, que a relação do espaço de lazer se realiza com os outros espaços. É a tendência do urbanismo atual: dividir as grandes cidades em pequenas cidades. (DUMAZEDIER, 1980) Para se chegar a uma análise satisfatória do conteúdo cultural das


atividades do lazer, a sociologia do desenvolvimento cultural deve poder distinguir no domínio da cultura, muitos setores. Se a cultura é o conjunto de relações simbólicas do indivíduo com o mundo, com a sociedade e consigo mesmo, e a transformação cultural é a modificação no tempo, de uma parte dessas relações simbólicas, a sociologia não pode ser estática, mas dinâmica. No setor das atividades intelectuais de lazer, sua introdução está condicionada à preferência da população. Pelo menos uma vez, é preciso fazer uma pesquisa sociológica sobre as práticas voluntárias de atividades intelectuais de lazer. Uma ação sócio-cultural para a implantação de lazeres intelectuais deve caracterizar-se pela coerência, aliás, manifesta nos próprios elementos constitutivos da expressão: são interesses, isto é, referem-se a um conhecimento enraizado na sensibilidade individual e vivido na cultura adquirida; são intelectuais isto é, possuem caracteres cognitivos e não estéticos. (DUMAZEDIER, 1980) As atividades e as relações de lazer podem ter uma função importante de socialização, sobretudo aquelas que revelam o gosto pelas reuniões e festas de família e o interesse ativo pelos mais diferentes tipos de associações voluntárias, que se oferecem ao indivíduo para ocupar o seu tempo de lazer. O estudo do desenvolvimento da sociabilidade, através dos interesses sociais do lazer, deve ser enfocado sob duas dimensões: interesses explícitos nas atividades de lazer, físicas, práticas, artísticas e intelectuais; classificação de grupos segundo o tipo de sociabilidade que desenvolvem,

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Escolha do programa

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em função do comportamento de lazer. Quando se trata da organização e da destinação dos espaços urbanos livres, é de suma importância que se tome consciência dos conflitos devidos à defesa de valores diferentes, e de todas as dificuldades que acompanham a transformação dos espaços urbanos. É um problema que não afeta as zonas rurais, onde há maior disponibilidade e menor utilização dos espaços livres; nos núcleos urbanos, à medida que se vão tornando cada vez mais raros, aumentam, em decorrência, os interesses de uso, em conflito. Com efeito, os valores comunitários tendem a desenvolver uma participação maior dos moradores, em relação à disposição desses espaços. As soluções que se propõem e as reinvindicações e problemas decorrentes são os mais variados. Confrontar os interesses das associações locais com a evolução do fenômeno de comunicação de massa, que mudou completamente a natureza das relações humanas na cidade da era industrial e pós-industrial; com o desenvolvimento da política central que institucionaliza os equipamentos; com a crescente complexidade de uma adequada distribuição de espaços urbanos, cada vez mais raros, diante de interesses de uso cada vez maiores; com a necessidade imperiosa de formar líderes dessas associações, aptos a entrar em relação com os problemas dos tecnocratas da decisão. (DUMAZEDIER, 1980)


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ESTUDO DE CASO


Estudo de Caso

UniverCidade de São Paulo – Pedro Mendes da Rocha (TGI – FAUUSP 1986)

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Pedro Mendes da Rocha desenvolveu seu trabalho de graduação interdisciplinar (TGI) durante o ano de 1985, com a proposta de uma Universidade no Centro de São Paulo. Ele intitula seu percurso de trabalho com o nome “O Desejo da Cidade”, onde aparecem as preocupações com a qualidade e o caráter da vida urbana, elegendo o Centro como lugar da vida urbana mais intensa de São Paulo. Há a preocupação de caráter filosófico com relação ao espaço urbano, se aplicando no espaço urbano edificado de São Paulo, de onde surgem as primeiras vontades e ideias para os edifícios que ele pretende propor, compreendendo o espaço construído, suas relações, características, linguagem e história, nomeando esse segundo momento de “O Desenho da Cidade”. Na busca pelo “desejo da cidade”, Pedro destaca: “me detenho ao Centro Velho num gesto apaixonado e numa tentativa de contribuir para o resgate daquele espaço uma vez que os grupos políticos/econômicos que produzem a Cidade sempre se adiantaram a proclamar a falência do Centro Velho acenando como os ‘novos’” e ainda “o aparecimento destes novos centros como próprios e fundamentais na vida de uma metrópole é que aparece de forma mais gritante a necessidade de respeito e atenção para o Centro Primeiro, uma vez que defendemos a soma e a acumulação das ex-


periências e informações na cidade e não uma superação desenfreada que nada tem a ver com dialética, pelo contrário, pois que é expressão de um regime capitalista que caminha no sentido do esvaziamento da memória”. O “desenho da cidade” é caracterizado pela convivência diária de Pedro com o espaço escolhido, mas ainda não definido. Teve um contato maior com o Largo São Bento e arredores, onde ele estagiava na época, daí em diante começou a desenhar leituras/interpretações dos espaços e lugares e, ao mesmo tempo, já estava pensando em como projetar os edifícios. Dessa maneira, analisa primeiramente o Largo São Bento, ressaltando a sua transformação após as obras do metro: “o espaço, antes definido por edifícios perdeu muito de sua força, estrutura e vida”. Pedro propõe a construção de três edifícios no Largo, o primeiro na esquina da Rua São Bento com a Boa Vista onde tem uma galeria construída pelo metro muito baixa em relação aos edifícios vizinhos, podendo ter um gabarito semelhante ao do Mosteiro; o segundo é na esquina da São Bento com o Largo e com a Líbero Badaró, propondo um edifício de 11/12 pavimentos que completa e configura a massa edificada destas ruas e anima com sua fachada envidraçada voltada para o Largo, no térreo sugere o uso de serviços ou comércio e numa altura mediana do edifício haveria um andar vazado com um restaurante popular e uma varanda para o Largo, no subsolo ainda, propõe uma ligação com a Estação São Bento do Metro; o terceiro edifício surge como um fechamento para o espaço do Largo, garantindo as visuais na cota do mesmo, para o pedestre, para o Vale do Anhangabaú, podendo ter sua

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Estudo de Caso

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circulação vertical articulada com os níveis da Prestes Maia, São Bento e da Estação do Metro. Outro local analisado é na Rua Capitão Salomão, onde existe um conjunto de 5/6 lojas de um pavimento mais sobreloja. Aí se propõe a construção de um edifício recuado do alinhamento, mas que mantem uma referência do mesmo com o uso de quebra-sóis na fachada muito exposta, numa meia altura do dia uma placa coletora que reflete a luz para um jardim num andar vazado onde fica a praça de convívio e estar do prédio. E, por fim, há a proposta de um edifício no Largo da Memória onde ele pretende definir e marcar um contínuo urbano construído, assim como no Largo São Bento, tendo a Estação Anhangabaú uma nova proposta integrando-a também com a circulação do novo edifício, que também tem a intenção de “enfeitar” a perspectiva rua, no caso a Xavier de Toledo e do belo espaço urbano que é a própria Ladeira.


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Figura 19: Primeiros estudos para proposta para o Largo São Bento no TGI de Pedro Mendes da Rocha (ROCHA, 1986)


84 1 Figura 20: Largo S達o Bento (ROCHA, 1986)

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Figura 21: Largo S達o Bento, proposta 1 (ROCHA, 1986)

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86 Figura 22: Largo S達o Bento, proposta 2 (ROCHA, 1986)

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Figura 23: Largo S達o Bento, proposta 3 (ROCHA, 1986)

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Figura 24: Proposta para rua Capit達o Salom達o (ROCHA, 1986)

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Figura 25: Proposta para rua Capit達o Salom達o (ROCHA, 1986)

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Figura 26: Proposta para o Largo da Mem贸ria (ROCHA, 1986)

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Figura 27: Proposta para o Largo da Mem贸ria (ROCHA, 1986)

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Figura 28: Proposta para o Largo da Mem贸ria (ROCHA, 1986)

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93 Figura 29: Proposta para o Largo da Mem贸ria (ROCHA, 1986)


Estudo de Caso

Mediateca de Sendai – Toyo Ito

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A Mediateca de Sendai foi projetada em um concurso, Toyo Ito e sua equipe tinham como objetivo propor um programa que fugisse das características costumeiras de projetos de museus de arte ou de bibliotecas, criando um novo conceito para a mediateca. O espaço contemplar uma galeria de arte, biblioteca, centro visual de imagem e um centro de serviço para pessoas com problemas visuais e auditivos. As plantas básicas foram desenvolvidas através de consultas com especialistas de vários campos e através da consideração da troca de opiniões com os cidadãos de Sendai. O projeto de uma Mediateca deve prever espaços de ampliação ou acomodação de algum programa no futuro. A ideia inicial desde o concurso foi de uma arquitetura não-formalista, a proposta conceitual consiste em três elementos básicos: “chapa”, “tubo” e “pele”, funcionando como um espaço para unificar o corpo humano primitivo ligado à natureza com o volume que é parte do fluido mundo eletrônico. Atraindo em torno de 4 mil pessoas por dias, a Mediateca de Sendai é uma instituição pública que oferece uma base para uma variedade de atividades culturais, principalmente relacionadas à arte e imagens em movimento. Ao mesmo tempo, constitui um espaço que, através da mídia diversificada, facilita o intercâmbio e utilizações de informação, livre de qualquer tipo de barreira, seja entre pessoas com ou sem deficiência, ou ainda entre usuários e funcionários, ou entre línguas ou culturas.


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Figura 30: Mediateca de Sendai, vista externa - Fonte: http://www.smt.jp/en/


Estudo de Caso

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O projeto contém: • espaços para expressão e exposição, espaçosos e flexíveis, organizadas instalações, como galerias e um cinema que permitem a apresentação e apreciação de obras de arte e vídeo; • estúdios bem equipados e salas de seminários para acomodar uma variedade de atividades e oficinas, incluindo a aprendizagem ao longo da vida, a difusão de informação, atividades de voluntariado para pessoas com deficiência, bem como de produção de vídeo e workshops sobre mídia digital; • oferece ricos recursos e acessíveis, em uma ampla gama de comodidades, incluindo a Biblioteca Shimin Sendai, uma Biblioteca de material audiovisual, uma biblioteca para pessoas com visão e deficiência auditiva, e uma biblioteca para a educação de materiais audiovisuais; • um ambiente no qual qualquer um pode coletar, acumular, editar e divulgar informações; • programas de exposições, exibições e workshops relacionados à arte, imagens em movimento e mídia, atividades de educação, formação, promoção e voluntários que visam permitir que todos, incluindo aqueles com ou sem deficiências, acessem e utilizem a coleção de mídia colaborativa de informação e a criação de arquivos digitais de desenvolvimento de projetos de colaboração com outras bibliotecas e instituições; • livros de áudio (fitas cassete, etc), onde os materiais podem ser vistos na biblioteca audiovisual, emprestado, ou enviados diretamente,


mediante solicitação; • livros lidos em voz alta, voluntários lerão em voz alta qualquer livro, seja de uma biblioteca pública ou própria coleção do usuário. • conversão em braile, transliteração, conversão de dados; • dispositivos que auxiliam a leitura, sistema de orientação de voz transmitida. O 1º andar/térreo dispõe de balcão de informações, um ponto de partida para os visitantes, uma praça aberta com café e loja, uma arena multiuso disponível para exibição de filmes, oficinas, palestras, apresentações teatrais e assim por diante.

Figura 31: 1º Pavimento/térreo - Fonte: http://www.smt.jp/en/

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98 Figura 32: Planta 1º pavimento/térreo - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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O 2º andar é para diversos materiais e de acesso universal, com a biblioteca audiovisual, a “Mesa Pergunta” para pessoas com visão e deficiência auditiva e biblioteca infantil. O 3º e 4º piso acomodam a Biblioteca Shimin, uma das bibliotecas públicas de Sendai, com 200.000 livros em espaço de leitura aberto (incluindo os livros infantis do 2º andar) e mais 300.000 livros guardados em depósitos, bem como materiais relacionados à história e cultura local. O 5º andar é um espaço de exposição, com galerias para o uso não profissional, enfatizando as formas de arte estabelecidas. Este espaço de exposição simples tem um teto de 3,3 metros de altura e uma área total de 970 m², com paredes brancas e teto que tornam abstratos cubos brancos. O 6º andar é um espaço de exposição, com galerias para uso profissional. O espaço de exposição tem um pé direito de 4,2 metros e uma área total de 1.095 m² O espaço pode ser subdividido livremente com 4 metros de paredes móveis, a fim de atender a uma ampla gama de necessidades, desde as artes tradicionais até as de desempenho de ponta com exposições de arte contemporânea. O 7º andar é projetado para fornecer um ambiente no qual diversos indivíduos e grupos possam trabalhar em atividades criativas através da mídia digital, bem como a disseminação dessas atividades. É um estúdio, denominado como um “local de trabalho”, “um lugar para o diálogo”, em diferentes ocasiões. O estúdio também abriga um cinema e salas de reuniões bem equipadas.


Figura 33: Tubos verticais da Mediateca - Fonte: http://www.smt.jp/en/

Desenhado por Toyo Ito, a Mediateca de Sendai apresenta placas e tubos verticais como essência de seus elementos estruturais, que são fundamentais e quase únicos. A criação de espaços distintos não definem o uso de espaços fechados , pelo contrário, permitem que seus usuários o definam organicamente. O edifício é composto por treze eixos independentes com nervuras de aço (colunas tubulares, principalmente de tubos de aço) e sete com nervuras de aço em lajes “colmeia”. As aberturas superiores no vidro duplo (“pele dupla”) da fachada sul reduzem os custos de ar condicionado, as aberturas no verão criam uma corrente de ar frio, se fechadas, no inverno, criam uma camada isolante de ar para selar calor de dentro. As estruturas tubulares em coluna servem como poços de luz, com dispositivos de cobertura para refletir a luz solar para dentro do edifício, e também servem como circulações verticais para cabos de rede, elevadores e escadas.

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102 Figura 34: Planta 1ยบ pavimento - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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104 Figura 35: Planta 3ยบ e 4ยบ pavimentos - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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106 Figura 36: Planta 5ยบ pavimento - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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108 Figura 37: Planta 6ยบ pavimento - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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110 Figura 38: Planta 7ยบ pavimento - Fonte: http://www.smt.jp/en/


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O PROJETO


O projeto

O Projeto

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O local escolhido para a inserção do projeto arquitetônico é o centro expandido da cidade de São Paulo, no encontro das ruas Barão de Itapetininga, Dom José de Barros, Vinte e Quatro de Maio e Avenida Ipiranga (Mapa 1). A quadra em estudo faz parte do conjunto de vias destinadas somente ao uso de pedestres (Mapa 2). O uso do centro da cidade pela população é essencial para a sua vitalidade, permitir que seus usuários possam caminhar pelas ruas, priorizando-os, parece uma boa alternativa para intensificar esse uso. O entorno do local possui edifícios de significativa importância. A diversidade de usos pode ser identificada com equipamentos de educação, cultura, esporte, lazer, além de edifcíos notáveis de uso residencial e corporativo. Outro dado relevante é a presença de galerias comercias, inseridas na malha urbana de maneira estratégica, possibilitando o usuário a caminhar de uma para a outra de forma sutil (Mapa 3). A área também é bem servida de espaços verdes (Mapa 4), com áreas de boas dimensões, próximo à quadra de estudo se localizam a Praça da República, o Largo Paissandú, a Praça dom José Gaspar e o Vale do Anhangabaú. Visualizando de modo mais geral (Mapa 5), as quadras da região não são muito extensas e ainda possibilitam permear por entre elas, por meio da presença das galerias comerciais, principalmente, que abrem o inteiror das quadras para o pedestre.


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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Lotes Quadra em estudo Mapa 1: Localização da área - Base: Mapa Digital da Cidade de São Paulo


O projeto

116 Vias de autom贸vel Vias de pedestre Quadra em estudo Mapa 2: Vias de autom贸vel x Vias de pedestre - Base: Mapa Digital da Cidade de S茫o Paulo


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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Galerias comerciais Edifícios notáveis Quadra em estudo Mapa 3: Equipamentos urbanos - Base: Mapa Digital da Cidade de São Paulo


O projeto

118 Áreas verdes Quadra em estudo Mapa 4: Áreas verdes - Base: Mapa Digital da Cidade de São Paulo


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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Lotes Vias de automóvel Vias de pedestre Galerias comerciais Edifícios notáveis Áreas verdes Quadra em estudo Mapa 5: Composição de usos e vias - Base: Mapa Digital da Cidade de São Paulo


O projeto

120 Caminhos - pedestre Proposta de projeto Vias de automóvel Vias de pedestre Galerias comerciais Edifícios notáveis Áreas verdes Quadra em estudo Mapa 6: Calçadas somadas a galerias permitem caminhos diversos ao pedestre - Base: Mapa Digital da Cidade de São Paulo


Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

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A presença de vias de pedestres somadas à galerias comerciais permitem que os usuários do centro da cidade caminhem de diversas maneiras (Mapa 6), criando novas perspectivas de se vivenciar a cidade. Propostas de projetos que intensifiquem esse uso são bem vindas para a qualificação do espaço urbano. A ideia é fazer um edifício que possibilite a permeabilidade do pedestre para o interior da quadra, fazendo-o percorrer no térreo livre dos edifícios destinado em partes, ao uso comercial já existente da região.

Mapa 7: Localização, situação atual - Base: Google Mapas


O projeto

A configuração do centro da cidade, num primeiro olhar, é comumente vista como consolidada (Mapa 7), contudo se avaliarmos a fundo, percebe-se ainda uma fragilidade visual em sua composição, com a presença de empenas cegas e edifícios de baixo gabarito com apenas um uso. Ou seja, o centro de São Paulo carece de atenção e não deve ser observado superficialmente, deve ser analisado, pelo contrário, de forma cautelosa buscando a melhor maneira para “preencher esses seus vazios”.

122 Proposta de remoção Proposta de reciclagem Gabarito baixo Edifícios consolidados Edifícios notáveis Figura 39: Situação atual da quadra em estudo


Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Proposta de projeto Proposta de reciclagem

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Aumento de gabarito Edifícios consolidados Edifícios notáveis

Figura 40: Situação proposta como diretriz geral

Como diretriz geral para a região, a ideia é intensificar o uso residencial na região com a proposta de reciclagem dos edifícios ali já existentes, porém em más condições de conservação. Também se propõe o incentivo do uso corporativo em alguns destes mesmos edifícios abandonados e/ou invadidos, com a intenção de que as pessoas que trabalhem/morem na região possam ter, no projeto proposto,a Mediateca, um espaço de lazer e de descobertas.


O projeto

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Figura 41: Área central verde no miolo de quadra

Para a quadra em questão estudada, a diretriz é qualificar a disposição dos edifícios propondo além da permeabilidade para o interior da quadra por meio dos térreos livres, uma área central verde para encontros e contemplação, e também a reconfiguração visual dos edifícios de baixo gabarito, aumentando-os e propondo o uso misto. Atualmente o terreno escolhido para a concepção do projeto está consolidado com edifícios de baixo gabarito, sobretudo lojas. A partir desse dado e de visitas à região, a escolha se deu muito por conta da falta de composição da esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Rua Dom José de Barros (Figura 42), onde o usuário da região se depara com duas empenas em meio à um vazio. Do outro lado, na Rua 24 de Maio (Figura 43) a situação também se revela na presença de empenas, desta vez um edifício em mau estado de conservação, com uma fachada estreita e edifícios vizinhos de


baixo gabarito. Além da questão das empenas, outra questão para a escolha do terreno faz parte da diretriz geral proposta, que é a de permitir permeabilidade nas quadras por meio de propostas de projetos que intensifiquem o uso do térreo livre dos edifícios, possibilitando novos caminhos aos usuários da região. O programa da Mediateca tem a intenção de trazer a população um contato maior com os meios de informação existentes, possibilitando novas formas de adquirir conhecimento e mais espaços destinados ao lazer, repouso e encontros. Além de todo o acervo midiático, o programa busca abranger atividades relacionadas ao tema que funcionem nos períodos de maior carência de dinâmica urbana. O projeto da Mediateca foi pensado esteticamente como uma peça de um quebra-cabeça que se encaixasse perfeitamente por entre os vazios visuais da quadra. A frente voltada para a Rua Vinte e Quatro de Maio evidência essa questão, onde há um edifício entre o projeto, a volumetria se adequa ao que é existente, compondo um desenho como que “abraça” o edifício antes solitário em meio a dois de gabaritos baixos. Uma questão importante para a concepção desse projeto foi propor uma edificação que compusesse uma esquina. A escolha do volume e da fachada mereciam destaque por fazer frente a duas ruas, daí a ideia de utilizar a estrutura que auxilia as vigas na fachada ajudou a resolver esta questão. O pé direito alto do térreo também foi outra decisão que tinha como intenção convidar os usuários passeantes da região para dentro da quadra e da

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O projeto

126 RUA BARÃO DE ITAPETININGA

RUA DOM JOSÉ DE BARROS

Figura 42: Composição da esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Rua Dom José de Barros


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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

RUA 24 DE MAIO

Figura 43: Edifício estreito na Rua 24 de Maio, propõe-se sua reciclagem


O projeto

própria Mediateca, bem como o andar intermediário aberto sem vedações que possibilita a experiência de quem visita o espaço a ter outros visuais do centro da cidade, a cobertura também mantem essa possibilidade. Com isso, a Mediateca proposta no centro da cidade de São Paulo, no bairro da República traria qualidade à região, além de oferecer cultura e lazer aos usuários e compor a cidade, deixando para traz os seus vazios, tanto visuais como sociais.

128 Figura 44: Perspectiva na esquina da Barão de Itapetininga x Dom J0sé de Barros e perspectiva da Rua 24 de Maio


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Térreo: lojas e área livre

Figura 45: Planta do pavimento térreo


O projeto

Subsolo: audit贸rio e caf茅

130 Figura 46: Planta do subsolo


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1º pavimento: hemeroteca, sala de oficina, sala de projeção, espaço de leitura e áudio, acervo cinematográfico

Figura 47: Planta do 1º pavimento


O projeto

132 Figura 48: Vista do 2ยบ pavimento


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2º pavimento: acervo de vídeo, acervo de áudio, salas de projeção

Figura 49: Planta do 2º pavimento


O projeto

3º pavimento: espaço de leitura e/ou eventos, sala de projeção, acervo fotográfico

134 Figura 50: Planta do 3º pavimento


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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida

Figura 51: Vista do 3º pavimento - área livre


O projeto

136 Figura 52: Corte A


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4º pavimento: acervo de televisão, sala de oficina, sala de projeção, administração

Figura 53: Planta do 4º pavimento


O projeto

5ยบ pavimento: restaurante e รกrea externo

138 Figura 54: Planta do 5ยบ pavimento - restaurante


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Figura 55: Corte D


O projeto

140 Figura 56: Corte C


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Cobertura: área externa

Figura 57: Planta da cobertura


O projeto

142 Figura 58: Corte B


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Figura 59: Vista da Rua Barão de Itapetininga

Figura 60: Vista da Rua Dom José de Barros


Conclusão

Conclusão

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O trabalho exposto procurou compreender o centro da cidade de São Paulo, como ocorreu sua formação, suas transformações, verificando suas potencialidades e fragilidades e as tentativas que lhe foram propostas durante toda sua trajetória de evolução. O enfoque no chamado “Centro Novo” foi feito a partir de visitas à região central, onde pude sentir o espaço público como forte elemento qualitativo para a recuperação daquele meio urbano.Os calçadões presentes nessa região permitem ao usuário um maior contato com a cidade, com as diversidades e a sociedade, onde o pedestre é priorizado e as relações humanas se tornam mais próximas, uma vez que o espaço público se oferece como agregador e convidativo. O estudo feito sobre as dinâmicas urbanas do centro foram de extrema importância para a elaboração do objeto arquitetônico. Experiências anteriores de intervenções em centros urbanos tem a tendência de intensificar edifícios de uso cultural em projetos de requalificação de centros urbanos, contudo deve-se considerar a cidade como parte da proposta, um edifício cultural meramente como objeto não consegue alcançar potencialidades suficientes para qualificar uma região. A falta de dinâmica urbana no centro de São Paulo, foi avaliada por meio do problema de esvaziamento ocorrido na área, a falta de moradores e de atividades noturnas fazem com que, principalmente nesse período, a


região perca o seu movimento, que durante o dia é intenso, causando desconforto aos usuários que, por alguma ocasião, precisem usar o espaço. A proposta de reciclagem dos edifícios em más condições repovoando-os com uso habitacional e de serviços, somados à proposta de uma Mediateca para o bairro buscam dinamizar a região central nesses períodos de menor intensidade. A Mediateca ainda tem como função ser parte integradora de uma rede de usos culturais próximos a ela, como o Teatro Municipal, o futuro Sesc 24 de Maio e a Praça das Artes, e que juntos, possam ter programações noturnas correlacionadas, permitindo aos cidadãos maior acesso à cultura e o lazer e ao uso do centro em períodos alternativos. Para a requalificação do centro de São Paulo, o trabalho apresentado procurou enfatizar a importância do espaço público na cidade e de como ele pode ser responsável pela qualificação da vida urbana. Uma análise cautelosa sobre uma determinada região pode revelar mais facilmente soluções para a mesma. A Mediateca foi resultado das características apresentadas pela região, tanto em seu aspecto formal quanto na escolha do programa, encaixando-se no vazio das empenas, bem como nos “vazios noturnos” dos calçadões.

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Requalificação dos Centros Urbanos: espaço público como possibilidade qualitativa de vida


Bibliografia

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