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ANAIS DO XI ENCONTRO DA EPFCL|AFCL - BRASIL

Fortaleza - 2011

 

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ANAIS DO XI ENCONTRO DA EPFCL|AFCL - BRASIL Coordenação Nacional: Sonia Alberti Georgina Cerquise Consuelo Pereira de Almeida Coordenação Local: Andrea Rodrigues Sandra Mara Nunes Dourado Coordenação da Comissão Científica: Lia Carneiro Silveira Membros da Comissão Científica: Alba Abreu Angélia Teixeira Andrea Brunetto, Diego Mautino Dominique Fingermann Maria Anita Carneiro Ribeiro Silvia Amoedo Zilda Machado. Diretoria da EPFCL-Brasil (2011): Ana Laura Prates (Diretora) Sandra Berta (Secretária) Beatriz Oliveira (Tesoureira) Patrocínio:       Apoio:    

 

Associação dos  Lojistas  da  Monsenhor  Tabosa  

 

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SUMÁRIO   APRESENTAÇÃO  

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PLENÁRIAS

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O SINTOMA  ENTRE  MARX  E  LACAN   ALÍNGUA  HISTÉRICA   ALGUMAS  OBSERVAÇÕES  SOBRE  O  NÚCLEO  REAL  DO  SINTHOMA  E  A  EXPERIÊNCIA  DO  GOZO  OUTRO   “DAR  NA  PINTA”:  PARECER  MULHER  COM  CORPO  DE  HOMEM   SINTOMA  E  FANTASIA  NA  HISTERIA  MASCULINA   O  SINTOMA  E  O  AMOR   APOSTAR  NO  SINTOMA   SINTOMA  E  ESCRITA  OU...OS  ECOS  DO  SINTOMA  SELVAGEM   O  LIVRO  DE  CABECEIRA:  DA  ESCRITA  COMO  SINTOMA  AO  SINTOMA  COMO  LETRA   A  SATISFAÇÃO  DO  FINAL  DE  ANÁLISE  

8 14   24   32   42   50   56   64   74   81  

MESAS SIMULTÂNEAS  

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“FAZER UMA  ESCOLHA  OU  PERMANECER  NA  DÚVIDA?”   91   O  QUE  MARCÉLIO  SABIA   100   REFLEXÕES  SOBRE  A  DIREÇÃO  DO  TRATAMENTO  NA  CLÍNICA  DA  PERVERSÃO   109   A  PELE,  SUAS  MARCAS  E  O  CORPO:FENÔMENO  PSICOSSOMÁTICO  E  TATUAGEM   117   SINTOMA:  RUÍDO  DA  ALÍNGUA  NO  CORPO   128   CONSIDERAÇÕES  SOBRE  O  GOZO  EM  UM  CASO  CLÍNICO  DE  PSORÍASE   136   SINTHOME:  O  REAL  DO  SINTOMA   146   SINTOMA  E  FANTASIA  FUNDAMENTAL   152   O  NOME  DO  SINTOMA   160   A  ARTE  É  O  QUE  HÁ  DE  MAIS  REAL   168   OS  USOS  DO  CORPO  E  A  POLÍTICA  DO  SINTOMA:  O  CASO  DA  TRANSFORMAÇÃO  CORPORAL   175   O  REAL  DO  SINTOMA:  SUA  POLÍTICA  NA  CURA   184   SINTOMA  OU  FENÔMENO  PSICOSSOMÁTICO?  DECIFRA-­ME  OU  TE  DEVORO!   195   CONSIDERAÇÕES  TOPOLÓGICAS  DA  PASSAGEM  DO  SINTOMA  AO  SINTHOMA   202   UM  ADOLESCENTE  EM  CENA   210   A  RELAÇÃO  DO  SINTOMA  COM  AS  LEIS  MORAIS   217   “SINTO  QUE  NÃO  TOM(A)ES”  –  SOBRE  A  DESIMPLICAÇÃO  SUBJETIVA  NA  SOCIEDADE  CONTEMPORÂNEA   223   A  FUNÇÃO  DO  ANALISTA  E  A  POLÍTICA  DA  PSICANÁLISE  NA  POLÍTICA  PÚBLICA  DE  SAÚDE  MENTAL   229   OS  IMPASSES  DA  TRANSMISSÃO  DA  PSICANÁLISE  E  DA  TRANSMISSÃO  EM  PSICANÁLISE   235   ASPECTOS  DA  RELAÇÃO  ENTRE  SINTOMA  E  ANÁLISE   241   PSICOSES  ORDINÁRIAS  E  ATOS  VIOLENTOS   246   ENTRE  A  SÍNDROME  E  A  MÃE:  MARCELA   252   O  HOMEM  CONDUTOR:  UM  CASO  DE  HISTERIA  MASCULINA?   260   DA  ILUSÃO  DE  COMPLETUDE  AO  ENCONTRO  SIMBÓLICO:  A  PEREGRINAÇÃO  AMOROSA  DO  SUJEITO   DESEJANTE  EM  “UMA  APRENDIZAGEM  OU  O  LIVRO  DOS  PRAZERES”,  DE  CLARICE  LISPECTOR   267   SINTOMA,  SINTHOME  E  FINAL  DE  ANÁLISE   277  

 

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“IMAGINE O  QUE  EU  NÃO  FALARIA  SE  EU  NÃO  FOSSE  GAGO!”:  O  QUE  FALA  ESSA  GAGUEIRA?   CONSIDERAÇÕES  SOBRE  A  CONSTITUIÇÃO  DA  SUBJETIVIDADE  NA  PSICOSE:  CASO  SCHREBER   DE  UM  SINTOMA  NO  CORPO  A  UM  SINTOMA  ANALÍTICO:  UMA  CLÍNICA  A  PARTIR  DOS  FENÔMENOS   PSICOSSOMÁTICOS   A  CRIANÇA  COMO  SINTOMA  DOS  PAIS  EM  CASOS  DE  DISPUTA  DE  GUARDA   PSICANÁLISE  E  POLÍTICA  :  O  PSICANALISTA  COMO  SINTOMA  DA  CULTURA   SINTOMA  E  REPETIÇÃO  NA  NEUROSE  OBSESSIVA   O  SINTOMA  NA  ARTE  OU  A  ARTE  COMO  SINTOMA?  

283 287  

ESPAÇO ESCOLA  

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CARTEL: ESPAÇO  DE  SABER  ARTICULADO  À  POLÍTICA  DA  PSICANÁLISE   O  PASSE:  A  RAZÃO  DE  UM  FRACASSO  

331 340  

 

294 301   307   314   322  

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Apresentação “O sintoma fundamental é a única coisa que faz identidade, que é o verdadeiro nome próprio – o que todas as identificações fracassam em fazer. É somente nele que o sujeito pode encontrar seu princípio de consistência e constitui-lo em resposta à questão de entrada: o que sou? Sou este gozo ou, mais precisamente, esta modalidade de amarração entre um desejo impossível de dizer tudo e um gozo que fixa uma letra do inconsciente” Colette Soler, 10/07/1999.

Se identificamos três momentos para a psicanálise: o de seu surgimento, de sua releitura e de seu objeto a abrir um novo campo, ainda assim o sintoma, que estará nos três, poderá ser um quarto a amarrá-los. O sintoma é a política da psicanálise por diferenciá-la não só de todas as outras clínicas mas também como discurso, aparelho de gozo. A psicanálise surge num contexto histórico muito complexo, na pena de um gênio que consegue traduzir o que está absolutamente presente sem que ninguém consiga vê-lo e transmitir, com suas próprias palavras, o que até então não era possível dizer. Inicialmente é isso o sintoma: na histeria, o desejo de um desejo insatisfeito; na fobia, a angústia da castração, e na neurose obsessiva, o direito ao desejo no compromisso com sua proibição. A psicanálise cresce com o campo da fala e da linguagem com o qual Lacan pode “construir algoritmos mais rigorosos” (Lacan, p. 109, Sem. 21) para articular a obra de Freud, e trazer novamente à cena o que fora recalcado na própria psicanálise, cuja situação em 1956, para retomar somente um desses momentos, se sintomatizava na burocracia da formação psicanalítica, muito distante da verdade freudiana. A psicanálise abre um novo campo, o campo lacaniano, do gozo, e novamente o sintoma comparece, dessa vez como política. Na clínica, isso inclui em seu campo, além da neurose, a psicose e mesmo o final da análise. Com Joyce e a ciência do real, a lógica, os nós, instrumento que introduz as três dimensões com as quais, em 12 de março de 1974 Lacan propõe cingir o ponto do lugar da psicanálise no mundo. A psicanálise mesma como sintoma, observa Lacan em 1974, do que não vai bem no real... Nos seminários mais tardios de seu ensino, Jacques Lacan retomou a noção de sintoma para lhe atribuir finalmente, a função de anodamento, amarração, entre real,  

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simbólico e imaginário o que não deixa de ter referência com o termo freudiano atribuido a Eros de amarrar, ligar, binden. O sintoma como nó é quarto, é também o sintoma como o que vem do real: o que claudica, por exemplo, no discurso do mestre. Os novos sintomas presentificam o que claudica no discurso do mestre contemporaneo: as toxicomanias – que demandam drogas lícitas e ilícitas – como retorno do real do discurso do capitalista; o recrudecimento da segregação; os transtornos... conforme as novas nomenclaturas sintomatizando a ciência. O sintoma como o que claudica no discurso do mestre inclui o próprio inconsciente real, o grande campo do não saber. A partir do que observou nossa convidada internacional Colette Soler, ano passado em Buenos Aires, o passe deveria ocupar-se disso: na contramão da confusão entre a fantasia e o real do inconsciente, a identificação ao sintoma implica o saber-se objeto, ponto de virada em relação à repetição. Sonia Alberti – Diretora da EPFCL | AFCL-Brasil

 

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PLENÁRIAS                

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O Sintoma entre Marx e Lacan Sonia Alberti1 O sintoma  com  Marx    

Praticamente, a   cada   vez   em   que   Lacan   se   refere   ao   sintoma,  

estatisticamente se   quiserem,   podemos   dizer   a   cada   dois   anos   em   seu   Seminário,   ele   começa   assim:   “é   importante   observar   que   historicamente   não   reside  aí  a  novidade  de  Freud,  a  noção  de  sintoma,  como  várias  vezes  marquei,  e   como   é   muito   fácil   observar   na   leitura   daquele   que   por   esta   noção   é   responsável,   [...]   [é   de]   Marx”   (1970-­‐1,   p.   220).   Extraí   essa   citação   ao   acaso,   elas   são   inúmeras   nos   textos   de   Lacan,   ainda   em   RSI   ele   faz   essa   referência   e   no   seminário  sobre  o  Sinthome.  Já  anteriormente,  em  seu  texto  “Formulações  sobre   a   causalidade   psíquica”   (1946)   Lacan   termina   por   colocar   em   série:   Sócrates,   Descartes,   Marx   e   Freud   como   aqueles   que   “não   podem   ser   superados,   na   medida   em   que   conduziram   suas   investigações   com   essa   paixão   de   desvelar   a   qual  possui  um  objeto:  a  verdade”  (p.193).  É  por  estarem  referidos  a  esse  objeto,   que   os   dois   últimos,   Marx   e   Freud,   puderam   perceber   o   quanto   a   verdade   é   sempre  meio  dizer  e  o  quanto  insiste,  justamente,  ali  onde  sempre  se  vela.  Por   outro   lado,   também   podemos   ler   em   Lacan   que   “O   sintoma   tem   o   sentido   do   valor  da  verdade”.  Tal  observação  é  associada,  por  Lacan,  com  esta  outra:  “o  que   há   de   essencial   no   pensamento   marxista     é   a   equivalência   do   sintoma   com   o   valor  de  verdade”  (Lacan,  1971-­‐2,  p.  25).    

Assim: para   Lacan,   tanto   Marx   como   Freud   possuem   o   mesmo   objeto:   a  

verdade, além  disso,  para  ambos,  é  o  valor  desse  objeto  que  equivale  ao  sintoma.                                                                                                                   1

AME  ,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  Rio  de   Janeiro  

 

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Ou seja:  o  valor  verdade  =  valor  sintoma,  o  sintoma  em  Marx  e  em  Freud.  Até  aí   pude  ir  no  último  trabalho  apresentado,  em  particular  em  São  Paulo  quando  tive   a  oportunidade  de  falar  no  FCL  de  lá.  O  que  proponho  hoje,  e  será  rápido,  é  um   pequeno  avanço:  o  sintoma  entre  Marx  e  Lacan.    

Em 1844,  época   em  que  Marx  estabelece  as  bases  filosóficas  para  toda  sua  

obra, a   verdade   em   questão   é   a   do   sistema   capitalista   que   Proudhon   julgava   estar   se   socializando   cada   vez   mais.   É   no   questionamento   dessa   hipótese   de   Proudhon   que   encontramos   talvez   a   mais   evidente   acepção   do   emprego   do   termo  sintoma,  por  Marx,  na  maneira  como  Lacan  o  marca.  Retomemos  toda  a   passagem  em  Marx:   A   diminuição   do   interesse   no   dinheiro,   o   que   Proudhon   considera   como  a  anulação  do  capital  e  como  uma  tendência  para  socializar  o   capital   é,   por   essa   razão,   de   fato   somente   um   sintoma   da   vitória   total   do   capital   de   giro   sobre   o   desperdício   da   riqueza,   isto   é,   da   transformação  de  toda  propriedade  privada  em  capital  industrial.  É   a  vitória  total  da  propriedade  privada  sobre  todas  as  qualidades  que   ainda   são   aparentemente   humanas,   e   a   total   sujeição   do   dono   da   propriedade   privada   à   essência   da   propriedade   privada   –   o   trabalho.   Certamente,   o   capitalista   industrial   também   goza.   De   forma   alguma   ele   retorna   para   a   simplicidade   da   necessidade   que   não   é   natural;   mas   seu   gozo   é   somente   um   assunto   lateral   –   recreação  –  submetido  à  produção;  ao  mesmo  tempo,  é  calculado  e,   por  isso,  ele  próprio,  um  gozo  econômico.  Pois  ele  o  debita  da  conta   das   despesas,   e   o   que   for   desperdiçado   para   seu   gozo   não   pode   exceder   o   que   será   substituído   com   o   lucro   da   reprodução   do   capital.   Por   isso,   o   gozo   é   subsumido   ao   capital,   e   o   indivíduo   que      

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goza é   subsumido   ao   indivíduo   que   acumula   capital.   Antes,   a   situação  era  o  contrário  [o  indivíduo  que  acumulava  capital  o  fazia   para   gozar   com   ele,   provocando   o   desperdício   da   riqueza].   A   diminuição   da   taxa   de   juros   [que   Proudhon   via   como   uma   diminuição   do   interesse   do   dinheiro]   é,   portanto,   um   sintoma   da   anulação   do   capital   apenas   na   medida   em   que   é   um   sintoma   da   crescente  dominação  do  capital  –  da  alienação  crescente  [...].  Aliás,   esta   é   a   única   maneira   de   o   que   existe   afirmar   seu   oposto   (Marx,   1844,  tradução  e  grifos  meus).    

Não somos   economistas   para   desenvolver   todo   esse   raciocínio   na  

articulação com   as   vicissitudes   do   capitalismo   depois   de   1844.   Efetivamente,   no   campo   da   economia,   tais   observações   de   Marx   devem   ter   tido   novas   contribuições   com   as   guinadas   –   para   retomar   uma   expressão   que   usávamos   no   sábado,  a  partir  das  observações  de  Colette  Soler  sobre  o  passe   –  do  capitalismo   no  século  XX.  Mas  o  que  me  interessa  aqui  é  verificar,  na  formulação  mesma  do   termo   em   Marx,   as   razões   que   levaram   Lacan   a   identificar,   tantas   vezes,   a   origem  do  conceito  de  sintoma,  em  psicanálise,  em  Marx,  o  que  ocorre  desde  as   primeiras   observações   sobre   o   sintoma   em   Lacan   até   as   últimas,   ou   seja,   no   contexto  do  Seminário  O  Sinthoma,  entre  1975-­‐6.    

Se nas  primeiras  observações  então  a  questão  parece  articular  o  sintoma  

com a   verdade   –   razão   de   o   sintoma   em   Freud   ser   o   sintoma   em   Marx,   como   vimos  em  São  Paulo  –,  por  que  Lacan  se  interessa  em  artiular  o  sintoma,  do  jeito   que   a   psicanálise   o   conceituaria,   no   Seminário   O   Sinthoma,   com   o   conceito   inventado  por  Marx?  

 

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Retomemos com  vagar  a  passagem  lida,  os  comentários  de  Marx  sobre  as  

teses de  Feuerbach:   1)   “A   diminuição   do   interesse   no   dinheiro,   o   que   Proudhon   considera   como   a   anulação   do   capital   e   como   uma   tendência   para   socializar   o   capital   é,   por   essa   razão,   de   fato   somente   um   sintoma   da   vitória   total   do   capital   de   giro   sobre   o   desperdício   da   riqueza,   isto   é,   da   transformação   de   toda   propriedade   privada   em   capital   industrial”.   Inicialmente,   o   sintoma   é   sinal   de   que   o   capital   de   giro   venceu   o   desperdício   da   riqueza   e,   portanto,   não   corrobora   a   observação   de   Proudhon,   de   que   a   diminuição   do   interesse   no   dinheiro   seria   sinal   de   que   o   socialismo   estaria   chegando...   Ao   contrário,   diz   Marx:   em   detrimento   da   propriedade   privada   que   deixa   de   ser   privilegiada,   surge   o   capital   industrial,   visando,   na   realidade,   uma   sempre   maior   circulação   da   riqueza,   em   que   o   próprio  capital  é  produtor  de  mais  capital.   2)  “É  a  vitória  total  da  propriedade  privada  sobre  todas  as  qualidades  que  ainda   são  aparentemente  humanas,  e  a  total  sujeição  do  dono  da  propriedade  privada   à   essência   da   propriedade   privada   –   o   trabalho”.   O   capital   que   produz   mais   capital  submete  o  dono  da  propriedade  privada  ao  trabalho  pois,  para  produzir   é   preciso   trabalhar.   Colocar   o   capital   a   trabalho.   Ao   mesmo   tempo,   Marx   já   denuncia   aqui   o   fim   do   humanismo,   pois   o   homem   é   agora   submetido   ao   capital   que  o  faz  trabalhar  para  este  mesmo  capital.  Se  até  então  ainda  havia  uma  ideia   de  fazê-­‐lo  para  o  homem,  agora  fica  claro  –  já  que  essa  ideia  era  somente  uma   noção   que   vinha   das   aparências   porque,   em   essência,   a   propriedade   privada   privilegiada  até  então,  era  somente  sustentada  pelo  trabalho,  seu  capital  –  que,   na  realidade,  é  pelo  capital  que  o  homem  trabalha.  E  isso  independente  de  esse   homem  ser  o  proprietário  ou  o  operário,  como  se  vê  na  frase  seguinte:      

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3) “Certamente,  o  capitalista  industrial  também  goza”.  Frase  um  pouco  estranha.   Como  assim:  “também”?  Só  posso  entender  essa  frase  quando  eu  entender  que  o   próprio  gozo  é  esse  capital  que  já  estava  lá  apesar  de  velado  pelas  “qualidades   aparentemente  humanas”.   4)   Não   é   porque   no   capitalismo   industrial   há   uma   diminuição   do   interesse   no   dinheiro   que   esse   capitalista   estaria   retornando   para   “a   simplicidade   da   necessidade”  que,  aliás,  de  natural  não  tem  nada,  observa  Marx  de  quebra.   5)   “mas   seu   gozo   é   somente   um   assunto   lateral   –   recreação   –   submetido   à   produção;   ao   mesmo   tempo,   é   calculado   e,   por   isso,   ele   próprio,   um   gozo   econômico.   Pois   ele   o   debita   da   conta   das   despesas,   e   o   que   for   desperdiçado   para   seu   gozo   não   pode   exceder   o   que   será   substituído   com   o   lucro   da   reprodução  do  capital.  Por  isso,  o  gozo  é  subsumido  ao  capital  [...]”.  A  economia   de   gozo,   no   argumento   de   Marx,   se   mostra   aqui   mais   uma   vez   como   capital   pois   é  ele  mesmo  calculado,  como  o  é  o  capital  que  já  não  pode  ser  desperdiçado.  Por   outro   lado,   o   mecanismo   obsessivo   aqui   denunciado:   tanto   gozo   para   tanta   possibilidade  de  substituição  com  o  lucro  da  reprodução  do  capital,  denuncia  o   quanto  esse  homem,  anula  seu  desejo.   6)    Novo  mal-­‐estar  na  civilização:  em  mal  de  desejo,  desejo  do  qual  o  sujeito  já   não   pode   usufruir,   gozar,   “o   indivíduo   que   goza   é   subsumido   ao   indivíduo   que   acumula  capital.  Antes,  a  situação  era  o  contrário”  [o  indivíduo  que  acumulava   capital   o   fazia   para   gozar   com   ele,   provocando   o   desperdício   da   riqueza],   pagando  o  preço  para  desejar.   7)   E   então,   o   grand   finale   de   Marx:   ao   contrário   do   que   previa   Proudhon,   “A   diminuição   da   taxa   de   juros”   (que   Proudhon   via   como   uma   diminuição   do   interesse  do  dinheiro)  serve  a  provocar  maior  capital  de  giro  e  “é,  portanto,  um      

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sintoma da   anulação   do   capital   apenas   na   medida   em   que   é   um   sintoma   da   crescente  dominação  do  capital”.  Ainda  aqui  inicialmente,  o  sintoma  é  sinal,  mas   não   só.   Ele   também   amarra   o   imaginário   do   que   havia   de   aparentemente   humano,  o  simbólico  que  se  contabiliza,  com  o  real  do  incomensurável  que  é  o   trabalho  que  nessa  operação  sempre  se  perde  enquanto  mais  valia,  na   8)   “alienação   crescente”   pois   o   próprio   gozo   que   se   perde,   que   se   aliena,   é   ele   mesmo  o  capital  a  incrementar  a  produção,  gozo  a  mais  ou  mais  de  gozar.   9)   “Aliás,   esta   é   a   única   maneira   de   o   que   existe   afirmar   seu   oposto”.   Se   é   “sintoma   da   anulação   do   capital   apenas   na   medida   em   que   é   um   sintoma   da   crescente  dominação  do  capital”  é  porque  de  um  lado  presentifica  o  que  não  se   goza   –   e   que   podemos   aqui   associar   com   o   impossível   da   relação   sexual,   de   outro  lado,  com  o  gozo  a  mais,  produzido  a  partir  daquela  perda:  o  Sinthoma  e  o   real.  Sinthoma,  portanto,  com  “th”,  reforçando  a  amarração  entre  real,  simbólico   e  imaginário  ali  onde  o  homem  está  em  mal  de  desejo.     MARX,  K.  (1844)  Human  Requirements  and  Division  of  Labour.  Under  the  Rule   of    

Private Property.  In  Economic  and  Philosophical  Manuscripts  of  1844.  

Consultado no  site:   http://www.marxists.org/archive/marx/works/1844/manuscripts/needs.htm   (1845)   Thesen   über   Feuerbach   in   Marx-­‐Engels   Werke   3,   534.   Consultadas   no   site:  http://www.mlwerke.de/me/me03/me03_005.htm  

 

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Alíngua Histérica Jairo Gerbase1

Sob o título de alíngua histérica, escrita com uma só palavra como propõe Lacan, gostaria de justificar nossa hipótese de trabalho segundo a qual, o campo das neuroses, campo do inconsciente real, é uma espécie de território onde domina uma língua oficial – alíngua histérica – da qual as outras formas de sintoma, especialmente a forma do sintoma obsessivo, correspondem a um dialeto.

Alíngua histérica e dialeto obsessivo Na introdução do caso do “homem dos ratos” [Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909) v. X] Freud afirma que “A linguagem de uma neurose obsessiva, ou seja, os meios pelos quais ela expressa seus pensamentos secretos, presume-se ser apenas um dialeto da linguagem da histeria; é, porém, um dialeto no qual teríamos de poder orientar-nos a seu                                                                                                               1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campos  do  Fórum  Lacaniano  –  Brasil.  Membro  do   Fórum  Salvador    

 

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respeito com mais facilidade de vez que se refere com mais proximidade às formas de expressão adotadas pelo nosso pensamento consciente do que a linguagem da histeria. Sobretudo, não implica o salto de um processo mental a uma inervação somática — conversão histérica — que jamais nos pode ser totalmente compreensível”. Esta relação entre alíngua e dialeto pode ser estendida às demais formas da neurose inclusive à paranoia se tomarmos por referência o caso de Cecília [Caso 5 - Srta. Elisabeth Von R. (Freud) v.II] no qual ele afirma que “... a histeria tem razão em restaurar o significado original das palavras ao retratar suas inervações inusitadamente fortes. Com efeito, talvez seja errado dizer que a histeria cria essas sensações através da simbolização. É possível que ela não tome em absoluto o uso da língua como seu modelo, mas que tanto a histeria quanto o uso da língua extraiam seu material de uma fonte comum...” Quer dizer que não apenas a histeria, a obsessão, a fobia e a paranoia, mas a própria língua faz uso da alíngua, ou como diria Lacan o objeto da lingüística não é a língua, mas alíngua.

Se me for objetado que Freud também destacou acima que o pensamento obsessivo é mais próximo do pensamento consciente, ou que Lacan denominou a neurose obsessiva de o 15    


princípio da consciência [L‘insu-que-sait de l‘une-bévue s’aile à mourre, 17/5/1977, Rumo a um significante novo – IV – Um significante novo] mesmo que me agrade a ideia de elevar a obsessão à categoria de uma neurose exemplar, refutaria que ainda assim não faz discurso: não dizemos, a rigor, discurso obsessivo. Uma terceira referência a propósito da dominância da alíngua histérica sobre o dialeto das demais formas de sintoma pode ser encontrada na fórmula 9 do artigo [Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908) v.VIII] “(9) Os sintomas histéricos são a expressão, por um lado, de uma fantasia sexual inconsciente masculina e, por outro lado, de uma feminina”. Trato esta fórmula como um teorema e faço sua demonstração traduzindo fantasia sexual inconsciente masculina, primeiramente por significação fálica e, em seguida por gozo fálico [J ], posto que o gozo fálico é aquele que toma por referente (ou significação Bedeutung) o falo; por outro lado, traduzo a fantasia sexual inconsciente feminina por significação tórica e, em seguida, por gozo do Outro [J ], posto que o gozo do Outro é aquele que toma por referente o furo e que se pode mostrar seja através do símbolo do conjunto vazio [ ] ou da Impossibilidade da Relação Sexual [IRS]ou ainda do objeto a. Freud termina este artigo afirmando que “No tratamento psicanalítico é extremamente importante estar preparado para encontrar sintomas com significado bissexual. Assim não ficaremos surpresos ou confusos se um sintoma parece não diminuir, embora já tenhamos resolvido um dos seus significados sexuais, pois ele ainda é mantido por um, talvez insuspeito, que pertence ao sexo oposto. No tratamento de tais casos, além disso, podemos observar como o paciente se utiliza, durante a análise de um dos significados sexuais, da  

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conveniente possibilidade de constantemente passar suas associações para o campo do significado oposto, tal como para uma trilha paralela”. O significado bissexual do sintoma histérico, que nesta fórmula é indicado como sintoma completo, como trabalho acabado, donde seu valor de alíngua oficial, devemos traduzir por significado asexual, posto que sabemos que a outra parte da sexualidade não pode se escrever, não havendo por isto relação. Quarta referência, desta vez em L´Étourdit, de Lacan, publicado no thesaurus: lalíngua [Lalíngua nos seminários, conferências e escritos de Jacques Lacan, organizado por Dominique Fingermann e Conrado Ramos e publicado em Stylus 19, OE 492] “... Esse dizer provém apenas do fato de que o inconsciente por ser ‘estruturado como uma linguagem’, isto é, como alíngua que ele habita, está sujeito à equivocidade pela qual cada uma delas se distingue. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela. É a veia em que o real – o único, para o discurso analítico, a motivar seu resultado, o real de que não existe relação sexual - se depositou ao longo das eras...” Citação que nos autoriza a atualizar o inconsciente estruturado como uma linguagem em o inconsciente real estruturado como alíngua. Prefiro traduzir lalangue por alíngua que por lalíngua porque apesar da segunda evocar a lalação não permite o equívoco que a primeira conserva. A objeção de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e de que a alíngua não é uma estrutura deve-se responder afirmando que o inconsciente real estruturado como alíngua corresponde a ideia do inconsciente como aluvião dos mal-entendidos da língua.

 

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O discurso histérico Passemos ao discurso histérico que escrevemos desse modo e que podemos ler de várias maneiras. Vamos ler esse matema tal como Lacan o leu no texto sobre o sentido [Introdução è edição alemã de um 1º volume dos Escritos, OE 550].

Existe uma clínica. Ela é inclusive anterior ao discurso analítico, e se o discurso analítico lhe trouxe alguma luz, isso ainda é preciso ser demonstrado. A clínica é mais antiga. O que é uma clínica? Não podemos dizer só há uma estrutura clínica, a estrutura de linguagem, a estrutura significante, que escrevemos [S( )], porque isso não é uma clínica. A clínica psicanalítica é o que se diz em uma psicanálise. Mesmo se deduzo da afirmação, da Bejahung e da não-afirmação, da Verwerfung, da primeira afirmação e da primeira não-afirmação, nesse nível ainda não há uma clínica, porque  

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estamos no nível da gênese do julgamento, e nesse nível ou admito ou expulso, nesse nível que deduzo da estrutura de linguagem e que chamo de estrutura do sintoma. Creio que é por esta razão que Lacan afirma que existe uma clínica no nível das formas do sintoma. Uma clínica depende das formas de sintoma. É preciso que o sintoma tome forma, configuração, para que se possa dizer: existe uma clínica.

É necessário que o sintoma tome a forma que convém à estrutura do sintoma para que possamos falar de clínica. Portanto, a clínica é das formas do sintoma, das formas neuróticas do sintoma, que podemos escrever como [Σn] e que sabemos que resultam da estrutura do recalque, ou das formas que podemos escrever como [Σp], do sintoma psicótico, que é outra forma do sintoma e que depende da estrutura da foraclusão ou da holófrase. A holófrase precede a frase. É uma coalescência dos intervalo  

da frase que suprime o

próprio da neurose, que também se pode escrever como

e funciona como 19


Um que vai da debilidade à psicose. Alíngua é uma holófrase. É um jouis-signes distinto da mensagem articulada. Um é do simbólico o outro é do real. Um é pré-verbal o outro é prélinguagem.1 Podemos partir de [S( )] e deduzir daí o discurso histérico; isso torna possíveis as formas histérica, obsessiva e fóbica do sintoma. Em um esquema como esse, temos, num primeiro nível, a estrutura da linguagem, do significante e, num segundo nível, a estrutura do sintoma, que é, por exemplo, o discurso histérico. Hoje vou dizer que o discurso histérico é a estrutura do sintoma por excelência, dado que esse discurso operou do lado da afirmação primordial, operou negando essa afirmação de modo veemente, afirmando: tenho horror de saber disso, que é o que se chama de mecanismo do recalque e que permite constituir a estrutura do sintoma que atinge um discurso, o discurso histérico, do qual podemos deduzir diversas formas de sintoma. De acordo com essa concepção, a obsessão e a fobia deveriam ser consideradas como formas do discurso histérico, ou tipos de sintoma que resultam da estrutura do recalque. Dessa maneira gostaria de elevar o discurso histérico à estrutura de todo sintoma ou, pelo menos, à estrutura de todo sintoma neurótico e fazer da obsessão e da fobia formas do sintoma histérico.

                                                                                                              1

 

SOLER,  C.  O  corpo  falante.  Caderno  de  Stylus,  p.27.  

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Dizer que o sintoma obsessivo é uma forma do discurso histérico é, no léxico de Freud, dizer que a obsessão é um dialeto da histeria, ou que é uma forma inacabada do sintoma. Poderíamos usar o léxico de Joyce e dizer que o sintoma obsessivo é um “Work in progress”, um sintoma em construção, um trabalho em andamento. O sintoma fóbico é também um “Work in progress”, dado que não sabemos se ele vai se concluir em um sintoma histérico, em um sintoma obsessivo, ou se vai permanecer, todavia como um sintoma fóbico. Podemos estender este argumento ao extremo para poder dizer que inclusive a paranoia uma vez colocada no dispositivo analítico, isto é, uma vez operada a partir do discurso do analista deve ser hystorizada ou histerizada a fim de se tornar sintoma analítico. Isto parece contrariar o conceito de estrutura clínica, a ideia de que as estruturas clínicas não são intercambiáveis. Porém, atenção: não disse que a histeria pode virar paranoia, nem mesmo disse que a paranoia pode virar histeria, disse que o paranoico pode historizar seu  

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discurso posto que a paranoia é igualmente um fato de discurso. O paranoico continuará paranoico, porém com um discurso histerizado, historizado. Isto, certamente implicará em uma estabilização.

Talvez possamos tomar como exemplo de sintoma em construção o caso do Índio. Trata-se de uma “personalidade” anancástica. Um estudante de Engenharia ambiental que se preocupa desde já em proteger o ambiente, por exemplo, reaproveitamento da água suja para a descarga. Suas máximas: o homem destrói o ambiente; o sol vai esfriar; o índio já era artista muito antes de Tarzan... Com quatro anos de idade perguntou à sua mãe: e quando a água do mundo acabar? Ela respondeu: não vai acabar. Ele replicou: como não vai acabar se todo mundo usa a água? Desenvolveu uma inibição escopofílica [fobia social] que lhe impôs um atraso escolar considerável, uma procrastinação. Para me explicar diz que era uma criança tão hiperativa que certa vez seu pai foi à escola lhe obrigar a pedir desculpas à professora e aos  

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colegas; morreu de vergonha. Seu pai gostava de lhe expor ao ridículo: vestir-lhe de palhaço com a cara lambuzada em festas juninas; em um carnaval lhe vestiu uma fantasia de índio, sem roupas, sob o argumento irônico de que: índio anda nu. De modo que acredito que esta fixão de gozo determinou tanto seu sintoma como sua escolha vocacional.

 

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Algumas observações sobre o núcleo real do sinthoma e a experiência do gozo Outro Elisabeth da Rocha Miranda1 O sintoma é, para Freud, uma solução de compromisso (Kompromissbildung) entre o desejo inconsciente e as exigências defensivas do eu. É um sinal e o substituto de uma satisfação pulsional que não pode alcançar seu alvo de forma direta. É uma mensagem cifrada que pede interpretação. Para Lacan, o sintoma endereçado ao Outro ganha uma significação. A “dialética do senhor e do escravo” elaborada por Hegel foi uma referência quando em 1953 no texto “Função e campo da palavra e da linguagem” Lacan nos dá uma primeira leitura da questão do sintoma. A partir de 1958, no texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (Lacan,1958) ele concebe o inconsciente como tendo “a estrutura radical da linguagem” (Lacan, 1958: 600). A linguagem, segundo Saussure, é plena de diferenças e a sincronia significante inscrita no lugar do Outro, longe de ser uma plenitude compacta, contém rupturas. Na seqüência sincrônica da linguagem abre-se uma hiância que se revela na clínica e pode ser formalizada graças à teoria lacaniana do Outro do significante. A incompletude do Outro é um fato de estrutura, o que faz Lacan defini-lo como lugar da fala, “lugar da falta” (Lacan, 1958: 633). O recurso do sujeito para lidar com essa falta é o apelo ao significante Nome-do-Pai concebido como o significante do Outro da lei inserido no Outro do significante. A significação fálica, produzida retroativamente, está regida pela função paterna, que se                                                                                                               1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐    Brasil,  membro  do  Fórum  Rio  de   Janeiro  

 

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inscreve no seio do Outro, em A. O sintoma se apresenta, neste momento, como metáfora significante e se constitui em decorrência da inscrição do significante Nome-do-Pai. No entanto, a estrutura do sintoma não se limita à estrutura da metáfora, já que o sintoma não se resolve de todo em uma análise da linguagem. O sintoma está enraizado em algo de uma natureza distinta do significante, o que se comprova com a teoria das pulsões. A compulsão à repetição e o gozo participam da estruturação do sintoma tanto quanto a metáfora significante surgida do discurso do Outro. A lógica da enunciação não pode encontrar no campo do significante seu próprio fundamento. Não há Outro do Outro, visto que todo enunciado de autoridade possui como única garantia sua própria enunciação. Nenhuma metalinguagem pode articular a verdade última do desejo. Há um significante que marca que ao Outro falta, constituindo-o por uma falha e que se escreve com o matema nos permite considerar

. A ordem simbólica está articulada em torno de um furo, o que como o matema do Nome-do-Pai. Ainda que tenha sido

introduzido para sublinhar a mortificação do pai freudiano pelo significante, o Nome-do-Pai encontra-se inserido de saída no campo da linguagem. A incompletude do Outro impede que consideremos o pai simbólico como o significante mestre (S1). Lacan destaca que o pai da horda primitiva, cujo desaparecimento instaura a lei, não transmite nenhuma mensagem, de tal maneira que sua função se iguala a um significante sem significação. A referência a sua morte vai a favor do Outro marcado por uma hiância. “O cadáver é um significante, mas o túmulo de Moisés está tão vazio para Freud quanto o de Cristo para Hegel. Abraão a nenhum dos dois revelou seu mistério” (Lacan, 1960: 833) diz Lacan em 1960. Na única aula do

 

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seminário “Os nomes do pai”, Lacan (1963) diz que o sacrifício exigido por Deus a Abraão nos faz entender que a herança do pai freudiano reside no complexo de castração. A descoberta freudiana e a lógica matemática levaram Lacan a formular a tese de que o significante Nome-do-Pai determina e ordena a cadeia significante, regulando o gozo inerente a ela, gozo limitado pela renúncia ao objeto primordial de gozo. Essa tese se afirma com as fórmulas da sexuação e com o tardio desenvolvimento da cadeia borromeana no ensino de Lacan. A necessidade de recorrer a essa noção se impõe devido à inexistência da relação sexual. Uma amarração das três instâncias R.S.I. constitui a topologia mínima capaz de captar a estrutura do sujeito e construir a realidade para o ser falante. A topologia dos nós baseia-se na idéia do furo, já que o desejo só se sustenta em uma falta (Lacan, lição de 15 de abril de 1975). “A cadeia borromeana é um triplo furo” (Lacan, 1975: 267) que delimita o quarto furo onde se aloja o objeto a. Esses furos se presentificam de maneiras diversas em cada um dos três registros; no registro do simbólico, ele aparece como a hiância fundamental, como a incompletude do Outro, como já dissemos, não há Outro do Outro, ao Outro falta, ele é barrado em relação ao todo; no registro do imaginário (Lacan, lição de 11 de março de 1975 e de 10 de dezembro de 1974), para além do que a imagem do corpo tenta elidir, o furo se faz através da negativização do falo (–phi); no registro do real, temos a hiância posta às claras pela não relação sexual, que marca a impossível completude do ser sexuado. Em 1975, Lacan faz uma equivalência entre o Nome-do-Pai e a cadeia borromeana. Esta, como já dissemos, é composta de três registros, RSI, que por si só não dão ao humano a  

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estrutura necessária para que ele aceda ao falasser (parlêtre) e como tal poder utilizar-se do discurso como recurso à falta-ser. É necessário o quarto nó que amarre os três e esse quarto nó é o Nome-do-Pai, que nesta ocasião Lacan faz equivaler ao sinthome. Temos então o objeto a enquanto puro vazio, marca da castração, da falta radical constitutiva do sujeito alojado no quarto furo delimitado pelo RSI. Neste mesmo lugar Lacan situa o sinthome e o Nome-doPai. O sinthome escrito assim em uma nova grafia tomada do francês antigo é utilizado por Lacan para designar o conceito de sinthoma como quarto nó correlativo ao Nome-do-Pai. Para forjar este novo conceito diz Lacan, foi “preciso reduzir o sinthoma em um grau para considerar que ele era homogêneo à elucubração do inconsciente” (Lacan, 1976: 134). O conceito anterior era o de uma metáfora estanque, cujo sentido era possível de se extrair; a partir da indicação de 1976, temos um irredutível no sinthoma que se mantém no campo do Real, estabelecendo “uma coerência entre o sinthoma e o inconsciente [...]. Elemento necessário da estrutura o sinthoma é ancorado em um gozo vinculado ao da fantasia fundamental. Algo do sinthoma escapa ao sentido de tal maneira que no final de uma análise resta-nos apenas “saber fazer com seu sintoma” (Lacan, lição de 16 de novembro de 1976). Se existe um núcleo incurável, resta-nos assumi-lo, o que produz uma modificação do sujeito na relação com seu próprio gozo. O sinthoma é o real que se faz presente no simbólico, é a existência de uma marca do inconsciente transportada ao simbólico, ele é “é o que as pessoas têm de mais real” diz Lacan (Lacan, 1975: 41), é a comprovação de que há inconsciente, é o que testemunha que o  

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inconsciente mordeu o real. Logo, pode-se falar de sinthoma quando há uma marca de inconsciente do sujeito que se enodou com algo do real de seu gozo. O sujeito não é só relativo ao significante, o que realmente lhe dá existência, está ligado ao real de seu gozo, ao real do sexo. Em Lacan, a posição sexuada, a identidade, tem essencialmente suas raízes no real e não na relatividade significante e é, finalmente, a alteridade feminina que põe sobre o tapete o laço do sexo com o real. No entanto, o problema do neurótico não é que o Outro do Outro não exista, mas o que existe no lugar da inexistência do Outro como real. O sujeito tem que lidar com o que existe como alteridade. Confrontar-se com a alteridade é confrontar-se com a questão do que existe aí onde o Outro está barrado

, é confrontar-se com a ex-sistência.

É na barra colocada sobre o Outro, nesta falta, nesta falha que se articula o lugar do gozo. O gozo fálico é limitado pelo Um da exceção enquanto que o

é o lugar no qual

Lacan situa o gozo feminino, outro que fálico, e que está em relação ao lado não-todo, em relação a não existência do Um da exceção que seria a mulher se ela existisse, logo lugar da ex-sistência. O gozo do Outro barrado conforme Lacan o apresenta em 16 de dezembro de 1975 não é o gozo do Outro do significante, nem o Outro como corpo, mas Outro real, quer dizer impossível, é o furo abissal e impossível que existe no lugar do Outro do Outro que não existe. É o verdadeiro furo da estrutura. O sinthoma é uma resposta à possibilidade sempre presente dos três registros R.S.I. se confundirem. Resposta que se faz através do ser sexuado, pois o gozo referido ao objeto a enquanto perda exclui a diferença sexual. O ser sexuado se faz através do gozo implicado na  

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fantasia fundamental e se articula ao núcleo real do sinthoma, ao gozo do sinthoma. É no lugar de J(A barrado) que Lacan inscreve o artifício do sinthoma como quarto elemento da estrutura, necessário à subjetivação, por impedir que os outros três se confundam. O final de uma análise freudiana é o rochedo da castração, a inveja do pênis Penisneid para as mulheres e o protesto viril para os homens, mas para uma análise lacaniana que vai além do falo, a castração se verifica no

como significante do gozo feminino, que se trata

de dissociar do objeto pequeno a da fantasia. A partir daí podemos fazer uma diferença entre o gozo do sinthoma histérico, que é o gozo da privação do phallus e o gozo Outro que Lacan em O Seminário, livro: 20 Mais ainda...faz corresponder ao gozo de Deus, como a outra face de Deus. O gozo de Deus genitivo subjetivo tem a face do Nome-do-Pai e outra face que é o gozo feminino que demanda ainda e sempre amor. A demanda de amor parte do Deus barrado e a hiância que marca o abismo que o Outro representa, faz com que a demanda de amor jamais seja satisfeita. A noção de gozo de Deus é introduzida por Lacan na falha dono borromeo. Chegar a decantar seu sintoma, chegar ao núcleo real do sintoma é uma possibilidade de se produzir um irreal, que é o objeto pequeno a no fim da análise. Em 1969 Lacan no relatório do Seminário, livro15 O ato analítico diz que: é “a partir da estrutura de ficção pela qual se enuncia a verdade que ele –o sujeito- fará de seu próprio ser, estofo para a produção de um irreal” (Lacan, 1969, p.372). Irreal que remete ao vazio de ser e à estrutura de ficção. Final em que o sujeito chega a tocar a estrutura, cuja chave é o gozo do Outro barrado J(A

 

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barrado), hiância que conforme Lacan em O Seminário livro 23 o sinthoma se abre entre imaginário e o real. Decantar o sinthoma até as últimas conseqüências é poder verificar que há algo do qual nós não podemos gozar e que imputamos à Deus, e neste lugar não há nada de nada. Se para o neurótico o sinthoma é uma rede que o aprisiona na compulsão à repetição, no final de uma análise pode-se experimentar um silêncio inominável que liberta e apazigua. Fica então a questão a ser comprovada clinicamente da possibilidade contingencial de ao final de análise, ao chegar ao significante da falta no Outro feminino, na medida em que também é aí em

se ter a experiência do gozo Outro

que Lacan o situa. Pode-se experimentar o

gozo Outro feminino, sempre que se ocupa a posição feminina e se cai no vazio de

e

uma das possibilidades de se experimentar aí é no momento do final de uma análise.

Bibliografia

 

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LACAN,J. (1953) Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise” In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ———— (1957-1958). “De uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses”. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ------------ (1958). “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. -------------(1958) “Die Bedeutung des Phallus” In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ————. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. -------------(1963) O Seminário Os nomes do Pai Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. ————. (1969). Seminário De um Outro ao outro. Inédito. ————. (1973-1974). Seminário: Les non-dupes errent. Inédito. ————. (1974-1975). Seminário: RSI (1974). Inédito. ————. (1975). Conférences et entretiens dans des universités nord-americaines. In Scilicet 6/7. Paris: Seuil, 1976. ————. (1972-1973). O seminário, livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.  

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————. (1975-1976). O seminário, livro 23, O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

“Dar na pinta”: Parecer mulher com corpo de homem

                                                                                                                                                                            Georgina Cerquise

1

No tempo   inaugural   da   psicanálise,   um   dos   critérios   para   estabelecer-­‐se   o   diagnóstico   de   histeria   era   o   sintoma   conversivo.   Freud   ampliou   o   campo   das   descobertas   e   teorizou,   em   (1893-­‐1895),   que   diferentes   fatores   sexuais   produzem   diferentes  quadros  de  desordens  neuróticas.  Em  1905,  o  conflito  psíquico-­‐inconsciente   passa  a  ser  a  principal  causa  da  histeria,  ao  introduzir-­‐se  a  realidade  psíquica  como  um   aporte  que  favorecia  o  entendimento  da  sintomatologia  da  doença.  A  conversão  começa,   então,  a  ser  entendida  como  uma  tentativa  de  realização  do  desejo.   Freud  avança  em  sua  tese  quando  pesquisa  a  sexualidade  infantil,  postulando  que   tanto  a  impossibilidade  de  o  sujeito  liquidar  o  complexo  de  Édipo  quanto  a  tentativa  de   evitar   deparar   com   a   castração   têm   conseqüências:   levam   o   sujeito   a   uma   rejeição   da   sexualidade,  conduzindo-­‐o  à  neurose  histérica.   Caso  Clínico:  A  mãe  de  um  jovem  de  dezoito  anos,  em  entrevista,  pede  para  que   seu  filho  seja  atendido,  alegando  uma  necessidade  de  ajuda.  Esclarece  que  ele  escolheu  o   pior   caminho,   pois   assumiu   a   homossexualidade.   Acrescenta   que   ela   tivera   problemas   no   parto   e   que   isso   ocasionou   muitas   dificuldades   no   desenvolvimento   do   filho.   No   período   escolar,   custou   para   ser   alfabetizado   e   “sempre   teve   a   pecha   de   retardado,   esquisito,   inconveniente   e   exibido”.   Ainda   não   conseguiu   concluir   o   primeiro   grau,   apesar   dos   esforços   da   mãe   para   colocá-­‐lo   em   escolas   especiais.   No   momento   do  

                                                                                                              1

 

Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  –  Brasil.  Membro  do  Fórum  Rio  de  janeiro  

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encaminhamento, estava   cursando   a   sexta   série   do   primeiro   grau,   numa   escola   municipal.     A  mãe  revela  que  ficou  doente  durante  anos,  com  uma  depressão  que  lhe  jogava  na   cama,   não   tendo   cuidado   direito   dos   filhos.   Diz   também   que   o   alcoolismo   do   marido   derrubou-­‐lhe  e  que  não  teve  escolha:  mandou-­‐o  embora.  Ela  interroga-­‐se:  “Será  que  isso   que   acontece   com   meu   filho   é   falta   de   pai?”   Para   o   sujeito   histérico,   há   um   reconhecimento   da   falha,   da   impotência   do   pai.   Isso   não   quer   dizer   que   ele   deixe   de   ostentar   os   títulos   simbólicos   de   pai,   “mas,   como   um   ex-­‐combatente,   tem   os   títulos,   mas   está  fora  de  combate”  (Kaufmann,  1998,  p.  249).   O   jovem   chega   atrasado   para   a   sessão,   a   primeira   impressão   choca,   percebe-­‐se   um   corpo  de  menino  de  12  anos  em  um  jovem  de  18  anos,  extremamente  magro.  Com  voz   de   criança,   olhar   fugidio,   afirma:   “Não   sei   se   você   percebeu,   mas   eu   sou   um   gay”.   Revela   que   já   havia   feito   a   sua   opção   sexual,   o   que   lhe   trazia   problemas   em   casa.   Costumava   freqüentar   boate   gay,   casa   de   orgia,   e   que   saia   com   qualquer   um,   além   de   “baixar   também   no   Aterro   do   Flamengo”,   embora   isso   fosse   reprovado   pelos   amigos.   O   paciente   explica:  “Gosto  de  tudo  escandaloso,  gosto  de  dar  na  pinta;  quando  chego,  eu  arraso,  não   me  incomodo  que  me  chamem  de  bichinha  quá-­‐quá-­‐quá”2.     A   teoria   freudiana   de   1888   postula   que   nos   sintomas   da   histeria   pode   ser   observada   uma   série   de   distúrbios   psíquicos:   alterações   no   curso   e   na   associação   de   idéias,   exagero   e   supressão   dos   sentimentos.   As   manifestações   histéricas   têm   uma   característica   marcante:   são   sempre   exageradas.   Percebe-­‐se   que   o   jovem   tem   um   comportamento  histriônico.  Há,  na  sua  fala,  significantes  expressivos  que  dão  contorno   de   um   possível   diagnóstico   de   histeria:   voraz,   exagerado,   escandaloso   e,   em   especial,   “dar   na   pinta”   –   expressão   que   para   ele   significa   chocar   e   aparecer,   no   meio   da   boate,   com  roupas  diferentes  e  danças  sensuais,  sem  dar  bola  para  ninguém.    

                                                                                                              2

 

Alcunha  dada  aos  homossexuais  que  se  exibem,  que  são  escandalosos  

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Chamando atenção   pelo   ônibus   com   roupas   extravagantes,   o   jovem   atravessa   a   cidade   em   busca   de   boates   e   lugares   onde   há   festas   de   gays,   sem   levar   em   conta   a   preocupação  da  mãe  que  lhe  adverte  sobre  a  violência  da  cidade.  Mesmo  assim,  ele  sai   sem  preocupar-­‐se  com  nada.  “Eu  tenho  de  sair,  não  posso  perder  tempo,  eu  não  penso   em  ficar  velho,  prefiro  morrer  a  chegar  aos  trinta  anos”.  Segundo  a  postulação  freudiana,   “a   histeria   masculina   tem   a   aparência   de   uma   doença   grave;   os   sintomas   que   ela   produz   quase  sempre  são  rebeldes  ao  tratamento”  (Freud,  1888,  p.  95).   Esclarece   que   sempre   vai   para   o   “quarto   escuro3”   da   boate   e   transa   com   que   estiver   ali   e   que   não   costuma   ficar   com   ninguém.   “Eu   não   gosto   de   homem,   eles   não   prestam,   esses   gays   são   homens   também,   isso   é   a   pior   raça:   são   competitivos,   querem   sempre  derrubar  o  outro”.  Curiosamente,  revela:  “Gosto  mesmo  é  de  mulher,  elas  são  o   máximo,  eu  procuro  imitá-­‐las,  quero  superá-­‐las,  mas  sem  cair  no  ridículo  de  amar  sem   ser   amado.   Percebe-­‐se   aqui   o   narcisismo   e   a   identificação   com   as   mulheres.   Tal   qual   a   jovem  homossexual,  ele  apresenta  uma  amargura  generalizada  pelos  homens.   Com  muita  emoção,  o  paciente  traz  para  a  sessão  um  pai  falho:  “Não  sei  onde  ele   está,   é   um   alcoólatra”.   Rememora   sua   infância   sofrida,   com   a   mãe   deprimida   e   o   pai   brigando  dentro  de  casa.  “Quando  eles  começavam,  eu  ia  para  a  rua  e  fazia  sacanagem   com  os  meninos  da  vila.  Era  a  alegria  da  meninada,  porque  já  era  um  exagerado,  tinha   uma  fila  para  transar  comigo,  depois  eu  sentia  nojo  e  ficava  muito  triste”.     No  “caso  Dora”,  Freud  pontua:  “Eu,  sem  dúvida,  consideraria  histérica  uma  pessoa   na   qual   uma   ocasião   para   a   excitação   sexual   despertasse   sensações   que   fossem,   preponderante   ou   exclusivamente,   desagradáveis;   eu   o   faria,   fosse   ou   não   a   pessoa   capaz  de  produzir  sintomas  somáticos”  (Freud,  1905,  p.  26).  Na  tentativa  de  esclarecer   melhor   os   episódios,   a   analista   pede-­‐lhe   que   desdobre   sua   fala:   “Será   que   sou   assim   por   que   meu   pai   não   me   olhava?   Eu   tentava   chamar   atenção   dele,   queria   um   pai   como   todos                                                                                                                   3

“Quarto  escuro”  é  o  local  de  encontro  em  que  os  gays  transam  sexualmente.  É  costumeiro  não  haver   reconhecimento  do  parceiro.  Segundo  a  fala  do  paciente,  esse  local  funciona  como  um  “vale  tudo”.  

 

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os meninos   tinham.   Ele   era   um   homem   bêbado,   um   pobre   coitado,   mas   eu   sempre   defendi  meu  pai,  eu  gosto  muito  dele”.     Lacan   destaca   o   amor   do   histérico   (masculino-­‐feminino)   pelo   pai,   apesar   das   falhas,   acrescentando   que   o   sujeito   se   coloca   como   aquele   que   vai   amparar,   vai   tentar   suprir  a  incapacidade  paterna.  O  histérico  engendra  seu  amor  ao  pai  a  partir  do  que  este   não   lhe   dá.   Na   teoria   psicanalítica,   a   histeria   articula-­‐se,   a   partir   do   Édipo,   com   uma   pergunta:  Sou  homem  ou  sou  mulher?  Vale  ressaltar  que  isso  está  para  os  dois  sexos.     Após   esse   primeiro   momento   da   análise,   o   paciente   faltou   às   sessões   por   duas   semanas.   A   analista   recebe   um   telefonema   da   irmã   que   pede,   aflita,   para   que   a   família   seja   atendida.   Na   sessão,   comparecem   a   mãe,   o   paciente   e   sua   irmã.   A   mãe,   enlouquecida,  diz  que  o  paciente  ficara  doente,  com  erupções  na  pele,  e  que  o  médico  lhe   pedira  um  exame  de  HIV.  Repreende  o  filho  com  dureza  e  chora  copiosamente.  O  jovem   está  acabrunhado  e,  até  mesmo,  apavorado,  mas  tenta  disfarçar  a  angústia:  “Não  estou   nem   aí,   seu   eu   tiver   com   a   “doce3“,   melhor,   eu   não   quero   viver   até   os   trinta   anos,   não   suporto   a   idéia   de   envelhecer,   de   ficar   com   o   corpo   velho;   por   isso,   aproveito   tudo   agora”.  O  resultado  dá  positivo,  revelando  a  presença  do  vírus  no  rapaz  e  instalando  o   caos  familiar.   O   paciente   chega   para   a   análise   com   o   corpo   coberto   de   erupções,   pede   uma   cadeira  de  pouco  uso:  “Eu  peguei  sarna,  não  quero  passar  isso  para  seus  pacientes”.  Sem   falar   sobre   o   resultado   do   exame,   diz   que   sua   mãe   está   louca,   que   sua   irmã   é   irresponsável  porque  não  cuida  dos  filhos.  A  analista  intervém  e  pergunta  o  que  estava   realmente  acontecendo.  Ele  responde,  aos  gritos  e  histericamente,  que  não  queria  falar,   mas   que   não   podia   esquecer   e   que   sabia   que   iria   morrer   jovem.   Frente   a   essa   atuação,   a   analista  pergunta-­‐lhe  diretamente  sobre  o  resultado  do  exame.  Ele  chora,  grita,  revolta-­‐ se   e   diz   que   o   pior   era   não   poder   transar   livremente:   “Eu   estou   enterrado   vivo.   Como   pode  uma  pessoa  nova  como  eu  ficar  sem  sexo?”                                                                                                                   3

 

Gíria  usada  pelos  gays  para  designar  o  vírus  HIV.  

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Completamente transtornado   frente   aos   limites   impostos   pelo   médico,   como   defesa,  não  esboça  nenhuma  elaboração  quanto  à  doença.  Não  quer  saber  de  nada  disso,   preocupa-­‐se  em  ser  descoberto,  em  “dar  pinta”,  com  o  corpo,  de  que  estava  “pegado”4.   “Eu   não   me   preocupo   em   morrer,   eu   só   não   quero   ficar   como   um   coitado,   eu   prefiro   morrer  jovem  a  ficar  velho”.  Teríamos  aqui  o  desdobramento  da  fantasia  “envelhece-­‐se   uma   criança,   ou   pinta-­‐se   uma   criança”?   O   paciente   prossegue:   “Eu   nunca   achei   que   pegaria  a  doce,  ninguém  fala  o  que  tem  e  vai  passando  para  os  outros”   No   desenrolar   da   análise,   o   jovem   recupera-­‐se   do   susto   e   segue   retomando   seus   hábitos   antigos.   É   fácil   observar   que   ele   não   tem   nenhum   projeto,   não   pensa   em   trabalhar,  o  estudo  é  só  uma  fachada  encobridora.  Ele  dorme  de  dia  para  sair  na  noite.   Interrogado   sobre   os   cuidados   que   deve   ter   para   evitar   a   contaminação,   responde   evasivamente   e   troca   de   assunto.   Frente   a   isso,   a   analista,   como   diretriz,   chama   a   mãe   para  entrevista.  

A mãe  revela:  “Vivo  no  inferno,  meu  filho  está  com  HIV,  não  consegue  estudar,  não  faz   nada,   só   pensa   em   futilidades.   Continua   arriscando-­‐se   pela   noite,   sai   sem   dinheiro,   com   roupas   estranhíssimas,   que   podem   provocar   a   agressão   dos   outros”.   Essas   roupas   são   peças  femininas  em  um  vestuário  masculino,  do  tipo:  calça  jeans  masculina,  bordada  com   paetês  e  brilhos;  blusa  cor  de  rosa;  botina  do  Exército;  anéis  de  caveira  com  pulseiras  de   miçangas;   gargantilhas;   cinturão   masculino.   Cabe   aqui   citar   o   Abade   de   Choisy5:   “Quando   alguns  homens  possuem  ou  crêem  possuir  traços  belos,  que  podem  inspirar  amor,  tratam   de  aumentá-­‐los  com  seus  adornos  femininos.  Sentem,  então,  um  inexprimível  prazer  de  ser   amado”  (Choisy,  1985,  p.  13).   O  jovem  revela  que  adora  “se  montar”6,  e  nas  boates  e  festas,  destaca-­‐se  com  suas   “peças”  femininas;  sempre  que  pode,  dança  e  se  exibe:  “Todos  pensam  que  eu  me  drogo,                                                                                                                   4

Gíria  referente  a  quem  tem  o  vírus  HIV.    Referência  feita  por  Lacan,  no  artigo  “A  carta  roubada”  (In:  Escritos,  1998),  a  respeito  de  um  homem  que  se   vestia  de  mulher  para  amar  as  donzelas  que  deviam  estar  vestidas  de  homem.   6  “Montar-­‐se”  significa  vestir-­‐se  com  adereços  ou  roupas  femininas.   5

 

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mas não  tem  nada  a  ver.  Eu  só  bebo  água,  porque  estou  sempre  sem  dinheiro,  bem  que   gosto  de  um  vinho.  Agora,  estou  comprando  pinturas  e  cílios  postiços,  vou  me  maquiar   para  sair  na  night”.  O  que  você  pretende?  –  indaga  a  analista.  “Parecer  uma  mulher  com   um   corpo   de   homem”.   Lacan   (1985[1955-­‐56],   p.   204)   ressalta   que:   “nos   sintomas   histéricos,  é  sempre  de  uma  anatomia  imaginária  que  se  trata”.  Cabe  aqui  uma  questão   diagnóstica:   No   caso,   estaríamos   diante   de   um   desmentido   da   castração   ou   do   recalque?   De  uma  neurose  ou  perversão?  Lacan  (1956-­‐57,  p.  121),  ao  citar  a  tese  freudiana  de  que   a   perversão   é   o   negativo   da   neurose,   marca   a   diferença   entre   o   mecanismo   de   um   fenômeno   perverso   e   a   perversão   categórica,   chamando   atenção   de   que   o   molde   da   perversão  se  forma  a  partir  da  valorização  da  imagem.   “Você   sabe,   eu   gosto   de   ser   homem,   mas   não   gosto   de   homem,   eles   não   prestam.   O   único   homem   que   eu   amei   foi   meu   pai,   mesmo   assim   ele   me   abandonou,   nunca   se   preocupou  comigo.  Talvez,  se  ele  não  tivesse  ido  embora,  eu  seria  diferente”.  Por  quê?   “Eu   acho   que   não   teria   coragem   de   decepcioná-­‐lo”.   Em   “A   dissolução   do   complexo   de   Édipo”,   Freud   teoriza   que   há   duas   saídas   para   o   complexo   de   Édipo:   uma   satisfação   ativa,   e   outra   passiva.   Na   primeira,   a   criança   poderia   colocar-­‐se   no   lugar   de   seu   pai,   à   maneira  masculina,  e  ter  relações  com  a  mãe,  tal  como  o  pai,  sendo  que  este  ocuparia  um   lugar  de  estorvo.  Na  segunda,  a  criança  poderia  assumir  o  lugar  da  mãe  e  ser  amada  pelo   pai.     O  paciente  agora  apresenta  o  projeto  de  trabalhar  como  cabeleireiro  ou  com  moda:   “Não  sou  uma  bichinha  doméstica,  não  suporto  trabalho  de  casa.  Também  não  consigo   aprender   nada   na   escola,   mas   tenho   vergonha   de   dizer   que   ainda   estou   no   primeiro   grau”.   O   trabalho   analítico   é   difícil   porque   o   paciente   falta   às   sessões,   perde   ou   esquece   a   hora.   Na   clínica   psicanalítica   com   adolescentes,   o   tratamento   costuma   ser   cheio   de   impedimentos   e   resistências,   visto   que   o   jovem   interpreta   a   análise   como   mais   uma   imposição   dos   pais.   Apesar   dos   avatares,   sempre   é   possível   um   trabalho   se   a   transferência  tiver  sido  estabelecida.  Nesse  caso,  o  jovem  vai  e  vem,  mas  sempre  retorna      

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do ponto   onde   começaram   as   faltas.   Interroga   a   analista   sobre   seu   saber   e   investiga   sobre  a  “lembrança”  de  suas  falas:  “Não  suporto  ser  esquecido,  ainda  bem  que  você  não   esquece  o  que  eu  digo”.  O  que  é  isso:  ser  esquecido/lembrado?  “Você  sabe,  isso  é  uma   dor  horrível,  meu  pai  esqueceu  de  mim,  ele  nem  me  conhece  mais.  Se  eu  passar  por  ele   na  rua,  não  vai  me  reconhecer  mesmo”.  A  analista  pede  que  o  paciente  desdobre  sua  fala   e,  chorando  muito,  diz:  “Eu  vestido  de  metade  homem/metade  mulher  passo  ao  largo  e   ele  pode  me  olhar,  mas  não  vai  me  ver.  Esse  gay  não  é  o  filho  dele,  quando  ele  foi  embora   eu  ainda  era  um  menino,  eu  tinha  10  anos”.   A   exibição   do   jovem   paciente   faz   lembrar   o   caso   da   “Jovem   homossexual”,   de   Freud:   junto   com   sua   amada,   tenta   chamar   a   atenção   do   pai,   exibindo-­‐se   nas   ruas   por   onde  costumava  passar.  A  nostalgia  do  nosso  paciente  refere-­‐se  ao  nada  que  ele  ocupa   no  afeto  do  pai,  ou  seja,  mesmo  que  passe  pelas  ruas  fantasiado,  chamando  toda  atenção,   o  pai  não  poderá  reconhecê-­‐lo  como  filho.     Num   segundo   momento   da   análise,   oferece-­‐se   para   trabalhar   como   ajudante   de   cabeleireiro,   mas   é   reprovado,   não   tem   a   escolaridade   exigida,     e   os   documentos   necessários   para   empregar-­‐se.   Sofre   um   abalo   com   as   recusas   sociais   e   com   as   advertências  do  médico  com  relação  a  sua  conduta:  ele  se  coloca  em  risco  de  vida  e  pode   ser  mortífero  para  os  outros.     Esse  tempo  de  análise  foi  de  intensa  angústia  e  desespero.  Sem  conseguir  nada  do   que  deseja  e  com  muitas  reclamações,  revela  uma  fantasia:  “Tenho  vontade  de  trabalhar   na  night,  dançando,  fazendo  show  de  “drag-­‐queen”.  Sempre  que  danço,  eu  abalo.  Gosto   muito  de  palco  e,  nas  boates,  fico  bem  no  lugar  onde  posso  aparecer.  O  jovem  trabalha   essa   idéia   e   pede   ajuda   às   suas   amigas   mulheres.   Começa   a   busca   por   roupas   e   acessórios   femininos   que   lhe   possam   favorecer   nessa   empreitada.   A   mãe   nada   sabe   disso,   visto   que   ele   esconde   as   roupas.   A   mãe   sempre   pergunta   e   cobra   o   trabalho,   o   estudo   e   lembra   que   ele   tem   o   vírus.   Isso   basta   para   que   se   desencadeiem   brigas   e   agressões  verbais  ditas  na  janela  para  envergonhar  a  mãe  e  fazê-­‐la  parar  de  falar.  

 

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Nesse momento,   a   rebeldia   se   entrelaça   com   uma   concretização   do   desejo,   pois   ele   cava   uma   oportunidade   de   dublar   uma   música   num   concurso   de   certa   boate   gay.   Escolhe,   sozinho,   uma   música   e   resolve   “montar-­‐se”   de   “drag-­‐queen”,   planejando   o   show.  Trata-­‐se  de  uma  competição  em  que  o  ganhador  recebe  um  prêmio  em  dinheiro.   Como  treinamento,  participa  de  uma  parada  gay  “montado  de  mulher”.   Escondido   da   mãe,   tal   qual   Anna   Ó,   ele   arma   seu   “teatro   privado’’   durante   o   dia:   ensaia  frente  ao  espelho  a  dublagem  de  uma  música  em  inglês,  idioma  que  não  domina,   repetindo   as   palavras,   sem   distinguir   seu   significado.   Há,   porém,   três   significantes   de   que   ele   se   apropria   para   estabelecer   os   gestuais   da   mímica:   my   eyes,   my   hair,   my   lips.   O   jovem,  realmente,  dá  seu  show.  Frente  às  vicissitudes  do  desejo,  ele  tem  uma  estratégica   histérica:  no  palco,  correndo  o  risco  máximo  como  todos  os  jovens  costumam  fazer,  ele   entra  em  cena  com  o  nome  artístico  de  “Ohana”.  “En-­‐cenando”  seu  número  no  começo  da   apresentação,  ao  sacudir  seus  cabelos  postiços,  a  peruca  cai  em  pleno  palco,  já  que  não   foi   devidamente   presa   para   agüentar   os   gestos   da   dança   e   da   mímica7.   Ohana,   em   desespero,   fica   sobre   o   foco   do   refletor   vestido   de   “drag”,   sem   a   peruca   e   sem   ação.   Vaiado,  ridicularizado,  como  um  objeto  que  cai,  como  um  nada,  ele  sai  de  cena  e  desmaia   em   pleno   palco.   “O   nada   e   o   olhar   são   aqui   duas   formas   de   referências   ao   objeto   em   que   o  sujeito,  nesse  momento,  se  fixa”  (Alberti,  1995,  p.  81).  Como  resposta  a  esse  embaraço   máximo,  surge  a  angústia  frente  ao  real  impossível  de  simbolizar.  O  jovem,  abalado,  sem   resistência,   pega   uma   virose,   mas   seu   organismo   recupera-­‐se   e   ele   volta   à   análise.   Impactado   com   os   acontecimentos,   faz   um   acting-­out:   pinta   seus   cabelos   de   rosa   e   tortura   a   mãe   para   que   lhe   dê   dinheiro.   Ameaçando   jogar-­‐se   pela   janela,   aos   gritos,   quebra  uma  mesa  e  sai  pela  noite.  Em  análise,  confessa:  “Saí  como  uma  pantera  cor-­‐de-­‐ rosa  só  para  chocar  e  dar  pinta  de  gay  maluco.  “Não  pense  que  esqueci  a  vergonha  que   passei  no  show”.  

                                                                                                              7

 

A  estratégia  histérica  frente  ao  desejo  é  torná-­‐lo  insatisfeito.  

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Indagado sobre   o   que   ele   pretendia   fazer   frente   ao   fracasso,   chora   e   grita:   “Eu   preciso   trabalhar,   achava   que   era   um   caminho   fácil   ser   artista   e   me   vestir   de   mulher.   Agora,  cai  na  real,  tenho  de  inventar  outra  coisa”.  Após  os  episódios,  toma  outra  diretriz:   pede   ajuda   às   suas   amigas-­‐mulheres   e   aceita   trabalhar   numa   feira   de   bairro.   Corta   couro,   pinta   cinturões   e   “chama   a   freguesia   com   sua   pinta   dando   pinta”,   distribuindo   panfletos  em  praça,  exibindo-­‐se,  mesmo  com  roupas  de  homem.  Poderíamos  pensar  que   a   fantasia   fundamental   do   paciente   seria   tal   qual   o   ditado   Bíblico:   “Pai,   por   que   me   abandonastes?”.   Para   a   analista,   Ohana   não   engana:   em   praça   pública,   faz   um   apelo   de   reconhecimento   ao   pai.   Talvez   pudéssemos   pensar   que   o   jovem,   neuroticamente,   engendra  com  seu  corpo  uma  defesa  contra  o  aviltamento  do  pai.  Segundo  Lacan,  “só  nos   detemos   nas   coisas   quando   as   consideramos   como   possíveis.   De   outro   modo,   contentamo-­‐nos  em  dizer:  é  assim,  e  nem  mesmo  procuramos  ver  que  é  assim”  (Lacan,   1985[1955-­‐56],  p.  115).     Bibliografia:   ALBERTI,  S.  –  Esse  Sujeito  Adolescente.  Rio  de  Janeiro:  Relume  &  Dumará,  1995.   CHOISY,   A.   –   Memorias   del   Abate   de   Choisy:   Vestido   de   mujer.   Buenos   Aires:   Manantial,   1987.   FREUD,   S.   “Estudos   sobre   a   histeria”.   [1893-­‐1895].     –In:   Obras   psicológicas   completas,   ESB,  v.  II.  Rio  de  Janeiro:  Imago,  1977.   __________”Histeria”  (1888)  v.I.  In:  op.cit   _____–  “Fragmentos  da  análise  de  um  caso  de  histeria”.  [1905].v.  VII  In:  op.  cit   _____–   “Psicogênese   de   um   caso   de   homossexualismo   numa   mulher”.   [1920].   In:   op.   cit.   v.   XVIII.   _____–  “A  dissolução  do  complexo  de  Édipo”.  [1924].  In:  op.  cit.  v.  XIX.   LACAN,  J.  O  Seminário,  Livro  3:  As  psicoses.  [1985[1955-­‐56].  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  1985.      

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_____– O  Seminário,  Livro  4:  A  relação  de  objeto.  [1956-­‐1957].  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  1995.   KAUFMANN,   P.   –   Dicionário   de   psicanálise:   o   legado   de   Freud   e   Lacan.   Rio   de   Janeiro:   Zahar,  1986.  

 

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Sintoma e Fantasia na Histeria Masculina Andréa Brunetto1 Tendo como referência o artigo de Freud sobre “Dostoievski e o parricídio”, “Batese em uma criança” e “O seminário, livro V: as formações do inconsciente”, pretende-se apresentar alguns casos de histeria masculina e debater como se estruturou a fantasia de espancamento e a relação dessa fantasia com o sintoma. Destacaremos um caso em que a pergunta sobre a sexualidade evidencia a vertente de amor ao pai, que se sobressaiu à identificação. Em “Bate-se em uma criança”, Freud afirma que a fantasia de ser espancado é uma convergência do sentimento com o amor sexual, um substituto da relação incestuosa, proibida. Freud nos apresenta seis casos, dos quais a maior parte obsessivos (quatro) e a maior parte, mulheres. Estabelece três momentos para a construção da fantasia. No primeiro, bate-se em uma criança. Não quer dizer que a criança que constrói a fantasia seja a que apanha. Não tem importância o sexo da criança que apanha nesse primeiro momento. No segundo, meu pai me bate. E no terceiro, fruto do recalque, ‘meu pai bate em outra criança, um menino’.2 Que a criança que apanha seja do sexo masculino, é característica da fantasia nas mulheres. Tem uma variante nos homens. O que pretendemos é apresentar a construção dessa fantasia ‘bate-se em uma criança’ nos exemplos clínicos de homens, com diagnóstico estrutural de histeria, estabelecendo certas variações com relação aos exemplos freudianos. Uma questão é se essas variações têm relação com o diagnóstico estrutural ou refletem a diferença na partilha dos sexos. O que seria seguir Freud. Ele sustenta que a compreensão da construção dessa fantasia

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AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  Campo   Grande   2  Freud,  S.  “Bate-­‐se  em  uma  criança”,  in:  ESB.  Vol.  XXII.  Rio  de  Janeiro:  Imago  Editora,  1976.  

 

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lhe serve para “avaliar o papel desempenhado pela diferença de sexo na dinâmica da neurose”.3

Os exemplos da clínica Caso 1: Este homem procura a análise, pois tinha rompido com sua analista que tentava controlá-lo. Apresenta muitos sintomas conversivos e sua posição é de denunciar a falta do Outro. Diante de um Outro que espera que ele pague a conta, ele fala não. Assim, seu drama não é dizer não às demandas freqüentes de sua esposa, mas saber por que está com ela, com essa mulher ‘perdida’, que não sabe quem é e nem o que quer. Por vezes tem os mesmos sintomas de sua mulher: náuseas, enjôos, dor de estômago. Mas nesse momento sua análise centra-se na relação com seu orientador, esse homem ‘quase cruel’ que o criticava como seu pai o criticava. Quando ele mostrava seus erros, sentia-se incapaz. E enquanto o orientador falava, lembrava dele próprio, menino ainda, fazendo as tarefas com o pai e ele lhe dizendo ‘você vai estudar mais, senão vou te bater’. E atualmente, durante essas orientações, sente um torpor pelo corpo. Vai para casa, enquanto dirige sente uma leve náusea. Dias atrás, quando entrava em casa, desmaiou, acordou segundos depois, com o corpo doído como quem leva uma surra. Não apenas com o orientador ele encena o espancamento paterno prometido em sua infância, mas tem sintomas que se assemelham aos de uma mulher grávida. Ele não fez essa relação, mas talvez copiando os sintomas de sua mulher, ensaie uma resposta do que ela quer e ainda não sabe: um filho. Como dar um filho a uma mulher se sua fantasia está construída para dizer não a toda demanda do Outro? E, também, a partir da encenação dos sintomas de sua mulher, coloca sua questão: sou homem ou mulher? Sou capaz de procriar? Fazendo uma analogia com o caso clínico descrito por Michael Joseph Eissler, e que Lacan comenta no Seminário III, as psicoses.4

                                                                                                              3 4

 

Ibid,  p.239.    Lacan,  J.  “O  seminário,  livro  3:  as  psicoses”.  Rio  de  janeiro:  JZEditor,  1985.  

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Caso 2: È o enganado, procurou análise por que se envolveu em um negócio que lhe trouxe grandes prejuízos financeiros. Todo mundo dizia que deveria sair disso, que seu sócio não era confiável, mas não o fez. Apresenta um discurso da insatisfação, com tudo e todos, mostra falhas na analista, que não lhe responde se deve pegar os novos projetos que aparecem e que conta em suas sessões. Alega que se sua mulher tivesse dito com mais veemência para sair do projeto falido, ele teria feito. Não tem lugar no Outro senão sendo passado para trás. É sua expressão, que tem outro sentido e toca na fantasia ‘bate-se numa criança’: bate-se atrás, no traseiro. Versão, aliás, freqüente, segundo Freud.5 Em uma das vezes comete um lapso e em vez de dizer o nome do ex-sócio, fala o do irmão. Um irmão violento e cruel – que na atualidade é um criminoso – que lhe batia. Lembra das surras que o irmão lhe dava enquanto tomava banho, nu, levando tapas nas costas e nádegas. Pergunta-se: por que não revidei, se era maior e mais forte? Entre a sessão que lembra essa cena e a próxima, conta à analista que desmaiou no chuveiro. Caso 3: Um homem que está casado pela segunda vez com uma mulher rica e repete com ela as queixas que sua primeira mulher lhe fazia: você não me valoriza só porque sou mais pobre. Com a segunda mulher encontrou a mulher bonita que procurava, pois a anterior era descuidada. Nesse segundo casamento se descontrola e bate na mulher. É essa a queixa que o trás à análise. Quando se queixa de que a mulher não o reconhece, ao mesmo tempo é uma queixa feminina – “sinto na carne o que minha ex sofria” – e paterna. O pai sofria diante de uma esposa, sua mãe, durona, que cuidava de todos e não cuidava dele. O sentir na carne, destacado por uma interpretação da analista, é literal, pois durante estas brigas, retorce o corpo, é como se uma entidade feminina fosse incorporar e tem de fazer força para manter o domínio. Este sujeito nos mostra o exemplo freudiano da mulher que se cobre com uma mão, com pudor, e se despe com a outra. Quando se encontrou, na primeira entrevista, com a analista, lembrou-se que lhe tinha sido vaticinado que esta não era a mulher de sua vida, encontraria uma mulher bem alta. Alta é o significante qualquer que o prende às entrevista preliminares.                                                                                                               5

Freud,  S.  “Bate-­‐se  em  uma  criança”,  op.  Cit.,  p.  

 

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Neste segundo casamento, com esta mulher aos moldes da mãe, vamos dizer assim, coloca em ato as surras que levava dela. É ele que bate na mulher, mas não é tão simples afirmar em que lugar ele está: sonha que está apanhando de uma mulher mais velha. Ao contar o sonho diz: não é minha mãe. Fazendo essa negativa, há uma suspensão do recalque, embora não uma aceitação do recalcado.6 Fazemos referência a essa negativa, pois nestes casos que relatamos, é o mais perto que um sujeito chega de reconhecer o prazer da fantasia. Freud afirma que o prazer nessa fantasia ficará inconsciente, mas em um dos casos que descreveu, tal não aconteceu. “Esse homem preservava claramente na memória o fato de que costumava empregar a idéia de ser espancado pela mãe com a finalidade de masturbação”7. Alega que não pode explicar isso, mas esboça uma hipótese: quando a fantasia incestuosa de um menino converteu-se na fantasia masoquista correspondente, ocorreu uma inversão a mais do que no caso do menino, ou seja, a substituição da atividade pela passividade. Caso 4: É um jogador, um jovem que perde muito dinheiro em jogos de azar e quando fica sem dinheiro nenhum, e com dívidas, chama o pai para pagar suas contas, negociar com pessoas um tanto duvidosas. Diz que seu pai prefere a ele, pois se preocupa mais com ele do que com os irmãos. Uma das vezes em que desaparece para jogar, e que a família fica preocupada, é às vésperas de uma viagem dos pais, algo como um segunda ou terceira lua-demel. Quando tudo se resolve, o pai decide não ir, para cuidá-lo. Sente-se vitorioso, o pai se dedica mais a ele que à própria esposa, sua mãe. Compete com a mãe pela atenção do pai, fala dele como, no geral, só as mulheres falam do pai, na clínica: com uma demanda incessante de amor ao pai e como um ‘paizinho’ que gosta mais dele do que dos demais. À parte essa fantasia de ser o menininho do pai, tem namoradas, consegue a ereção e leva a cabo as relações sexuais. Quem o castiga é a mãe, com sua severidade, mas não lembra de ser espancado. Nos homens, estar sendo espancado pela mãe é a terceira fase, sucessora de ‘estou

                                                                                                              6 7

 

Freud,  S.  “A  negativa”  (1925),  in:  ESB.  Vol  XIX.  Rio  de  Janeiro:  Imago  Editora,  1976,  p.  296.    Freud,  S.  “Bate-­‐se  em  uma  criança”,  Op.  Cit.,  p.231.  

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sendo espancado pelo meu pai’, corresponde, nas meninas, ao ‘vejo um menino sendo espancado’. A fantasia do menino é masoquista desde o começo, marca Freud. Ele não encontrou uma primeira fase sádica, como nas mulheres e “deriva de uma atitude feminina em relação ao pai”8. Na menina, parte de uma situação edipiana normal; no menino, de uma situação invertida, no qual o pai é tomado como objeto de amor. Neste último caso, a passividade é maior do que nos outros. Não há irritabilidade contra o pai.. O pai é aquele que “o salva”. Ele “apronta” nos jogos de azar, em outras cidades, para o pai ir buscá-lo. É um jogador inveterado, como Dostoievski, porém sem suas crises epiléticas – histeroepilepsia, nomeia Freud. Porém esse paciente apresenta uma inibição motora – cataplexia narcoléptica, segundo a psiquiatria - entre acordado e dormindo, sente que sua menta está viva e o corpo morto, passa segundos sem conseguir mexer o corpo. “A sensação é de estar morrendo, ou já estar morto e não saber”. Tal como no caso de Dostoievski, suas crises tem o valor de uma punição9. Freud escreve que essas crises semelhantes à morte – já tinha falado sobre elas na Carta 58 a Fliess – refletem o seguinte desejo: “Quisemos que outra pessoa morresse; agora somos nós essa outra pessoa e estamos mortos. Nesse ponto a teoria psicanalítica introduz a afirmação de que, para um menino, essa outra pessoa geralmente é o pai e de que a crise constitui assim uma autopunição por um desejo de morte contra um pai odiado”.10 E explica que a punição do supereu funciona assim: “Você queria matar seu pai, a fim de ser você mesmo o pai. Agora você é seu pai, mas um pai morto”.11 Nas “crises de morte” encena sua vertente de ódio ao pai, encena em seu corpo. Como Antonio Quinet escreve em Histerias, “o histérico oferece seu corpo como cama e mesa do Outro e diz sirva-se! Seu corpo é erogeneizado pelo Outro. O corpo é também a mesa de                                                                                                               8

Ibid,  p.  247.    Freud,  S.  Dostoievki  e  o  parricídio  (1928).  ESB,  vol.  XXI.  RJ:  Imago  Editora,  1976,  p.  211.   10  Ibid,  p.  211.   11  Ibid,  p.  214.   9

 

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jogo – citando Lacan de Radiofonia - entre o consciente e o inconsciente, entre o sentido e o não-sentido, entre a presença recalcante da razão e o retorno do recalcado”.12 Mas o relacionamento de todo menino com o pai é ambivalente, o pai é o modelo de identificação. E também por ele se tem amor sexual. A fantasia ‘uma criança é batida’ mostra isso. E também se tem ternura por ele É isso que permitirá ao menino preservar sua masculinidade, alega Freud. Lacan afirma que essa virilidade não deixa de ser um semblante ridículo, mas o menino precisará dessa identificação metafórica com a imagem do pai. Esse “pequeno macho”, continua Lacan, tem guardada essa identificação, para no futuro sacar seus documentos’13. Tomando Dostoievski como um caso clínico, Freud explica um agravante em sua neurose: uma forte disposição bissexual. Pela ameaça da castração, ele, menino, se inclinou fortemente no sentido da feminilidade14. “O menino entende que também deve submeter-se à castração, se deseja ser amado pelo pai como se fosse uma mulher.” Dessa maneira, o amor e o ódio ao pai, igualmente, experimentan repressão, como um homossexualismo latente, dirá Freud15. Enfim, Dostoievski tem, segundo Freud, um componente feminino especialmente intenso. E meu paciente também. A incompetência de bancar o homem para uma mulher Se a pergunta do homem histérico é a mesma que da mulher histérica – sou homem ou mulher? – as respostas de sua neurose são mais devastadoras. Essa é a explicação de Maria Anita Carneiro Ribeiro, no artigo “O que é um homem?”. Continuo citando-a: “Nada impede que uma histérica frígida, com asco ao ato sexual, a ele se submeta, pensando em outra coisa e mantendo o desejo insatisfeito. Para o homem histérico, entretanto, que é, como homem, embaraçado por esse ‘penduricalho’, como diz Lacan, a falha na performance fálica deixa a                                                                                                               12

Lacan,  J.  Radiofonia  (1970).  Outros  escritos.  RJ:  JZEditor,  2003,  p.  414.    Lacan,  J.  O  seminário,  livro  V:  as  formações  do  inconsciente  (1957-­‐58).  RJ:  JZEditor,  1998,  p.  201.   14  Freud,  S.  Dostoievki  e  o  parricídio  (1928).  ESB,  vol.  XXI.  RJ:  Imago  Editora,  1976,  p.  212.   15  Ibid,  p.  213.   13

 

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nu, para além do desejo insatisfeito, a incompetência de bancar o homem para uma mulher. Na hora em que o desejo pega fogo, não há nada a fritar, nenhum peixe fálico em jogo.” Como diz o Caso 1, o histérico cobrado pelos pais, pelo orientador, pela mulher e pela ex-analista, “quando estou com minha mulher, na cama, sinto enjôo e náusea”. Que seja exatamente nessa hora, em que tem de mostrar os documentos, que a fantasia de procriação venha à tona, mostra bem a falta do peixe fálico. Concluindo com as questões do início Por que nesse caso clínico, do jogador, diferente dos outros três, não aparece a fantasia ‘bate-se numa criança’? O Édipo invertido, no qual o pai é tomado como objeto de amor, o fez prescindir da fantasia ou reflete apenas os limites de sua relação com o saber? É claro que não interpretamos a partir da fantasia, fazê-lo seria interpretar a partir da “apreensão da sensibilidade imaginária do sujeito”. O campo propriamente analítico, afirma Lacan, no Seminário 3: as psicoses16 é o sintoma. O sintoma desse jogador, que faz de seu corpo mesa de jogo do significante do Outro é que tem uma cor que mostra bem que ele é um estrangeiro na sua família, um adotado, um estrangeiro como o avô. E usa seu sintoma, “essa satisfação às avessas”, para marcar um lugar no Outro. Ser um adotado, um estrangeiro, lhe dará um lugar no Outro? a Diminuirá seu gozo da privação e sua errãncia? Quanto a estas últimas perguntas, só a aposta da clínica, no só depois, poderá responder. Referências bibliográficas Carneiro Ribeiro, M. A. O que é um homem? I Colóquio da EPFCL- Fórum Rio: Histeria, sujeito, corpo e discurso. Julho de 2003. Freud, S. Dostoievki e o parricídio (1928). ESB, vol. XXI. RJ: Imago Editora, 1976. Freud, S. “Bate-se em uma criança”, in: ESB. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976.                                                                                                               16  Lacan,

J. “O seminário, livro 3: as psicoses”. Rio de janeiro: JZEditor, 1985, p. 189.

 

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Freud, S. “A negativa” (1925), in: ESB. Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976. Lacan, J. O seminário, livro V: as formações do inconsciente (1957-58). Rj: JZEditor, 1998. Lacan, J. “O seminário, livro 3: as psicoses”. Rio de janeiro: JZEditor, 1985. Lacan, J.  Radiofonia.  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar  Editor,  2003.   Quinet. A. Histerias. I Colóquio da EPFCL- Fórum Rio: Histeria, sujeito, corpo e discurso. Julho de 2003.

 

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O Sintoma e o Amor Vera Pollo1 Do sintoma   ao   sinthoma,   Joyce   passa   do   fato   clínico   fundamental   ao   laço   social.   Talvez   possamos   mesmo   dizer,   do   gozo   inapreensível   àquele   que   captura   leitores.   O   primeiro  sintoma  corresponde  à  posição  subjetiva  em  que  ele  tanto  está  “enraizado  no   pai”,   quanto   o   renega     (Lacan,   Sem.   23,p.68).   Ao   construir   um   nome   próprio,   com   sua   arte-­‐sinthoma,  Joyce  compensa  a  carência  paterna  e  se  inscreve  no  laço  social.        

Nenhum sintoma   é,   de   saída,   favorável   ao   laço   social.   É   possível   que,  

paradoxalmente, o  sintoma  paranóico,  em  que  um  sujeito  se  presta  a  ocupar  o  lugar  do   ideal  para  todo  um  grupo,  seja  aquele  que  se  situa  mais  próximo  do  comunicável.  Uma   vez  que  a  conversão  histérica  é  analogicamente  uma  obra  de  arte  mal  sucedida  e  o  ritual   obsessivo,   uma   religião   particular,   quase   não   é   necessário   dizer   que   a   natureza   de   ambos  é  anti-­‐social.  Uma  pequena  exceção  diz  respeito  ao  sintoma  histérico  responsável   por   algumas   loucuras   coletivas   e   cujo   desencadeamento   foi   situado   por   Freud   na   “identificação  baseada  no  desejo  de  colocar-­‐se  na  mesma  situação”.  (1921/1976,  p.135)    

Retomemos Joyce.   Entre   os   ensinamentos   que   Lacan   extrai   da   obra   joyceana,  

podemos situar   a   constatação   de   que   um   sintoma   pode   transformar-­‐se   em   sinthoma,   no   sentido  daquilo  que  corrige  o  nó,  o  que  é  prenhe  de  muitas  conseqüências.  No  caso  de   Joyce,   há   até   mesmo   um   saber   servir-­‐se   do   sintoma   de   origem,   e   talvez   não   seja   exagero   dizer  que  ele  não  apenas  desembaraçou-­‐se  com  seu  sintoma,  mas  fez  dele  um  bom  uso.   Soler   (2001)   propõe   que   identifiquemos   separadamente   seu   sintoma-­‐gozo   em   seu  gosto  pela  letra,  e  o  sinthoma  com  que  ele  faz  laço  social,  sua  aspiração  à  fama  e  ao   reconhecimento   social.   Em   outros   termos,   que   diferenciemos   entre   o   sintoma   que                                                                                                                   1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano-­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  Rio  de   Janeiro  

 

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condensa o   traumatismo   de   lalíngua   e   o   sinthoma-­‐nome   que   lhe   permite   entrar   na   polis   como  Mestre  das  letras.      

Ora, desde   que   Lacan   endereçou   a   Jenny   Aubry   sua   “Nota   sobre   a   criança”,   em  

1969, fomos   conduzidos   a   pensar   a   transmissão   dos   pais   aos   filhos   em   termos   de   resposta   sintomática,   a   qual,   mais   do   que   a   identificação,   desvela   a   verdade   de   uma   geração.   Isto   porque   o   sintoma   implica   a   relação   e   não   a   equivalência.   (Morel,   2009,   p.63)      

Como o   sintoma   da   criança   é   uma   resposta   particular   ao   desejo   dos   pais   que  

presidiu seu   nascimento,   o   qual   é   alimentado   pelos   sintomas   deles,   os   sintomas   das   crianças   prolongam   os   dos   pais,   corrigem   seus   desejos,   criam   o   que   era   até   então   inédito.  Nesse  caso,  estamos  bem  longe  da  identificação  e  dos  egos  “eguais”.  Porém,  na   impossibilidade   de   produção   de   um   sintoma   inédito,   ainda   assim   um   prolongamento   sintomático   pode   unir,   como   laço   de   amor,   duas   ou   mais   gerações   de   uma   mesma   família.  Eis  como  Lacan  interpreta  a  relação  entre  Joyce  e  sua  filha  Lucia.     O   episódio   nos   é   mais   ou   menos   conhecido:   trata-­‐se   de   uma   consulta   a   Jung,   o   qual   diagnostica   Lucia   como   esquizofrênica   e   conclui   literalmente   que   a   relação   pai-­‐ filha,  nesse  caso,  é  da  ordem  da  identificação.  Em  suas  palavras:  “...  A  anima  de  Joyce,  sua   psychè   inconsciente   estava   tão   solidamente   identificada   com   sua   filha   que,   admitir   interditá-­‐la,   teria   sido   admitir   que   ele   próprio   tinha   uma   psicose   latente.   Por   isso   é   compreensível   que   ele   não   pudesse   ceder.   Seu   estilo   “psicológico”   é   sem   dúvida   esquizofrênico,  com  a  diferença,  porém,  de  que  o  paciente  comum  não  consegue  evitar   de   falar   e   pensar   dessa   maneira,   enquanto   Joyce   o   controlava   e,   mais   ainda,   o   desenvolvia   com   todas   as   suas   forças   criativas,   o   que   explica   por   que   ele   próprio   não   ultrapassava   a   linha.   Mas   sua   filha   ultrapassou,   porque   não   era   um   gênio   como   o   pai,   mas  uma  vítima  de  sua  doença.”  (citado  por  Ellmann,1989,  p.837)    

Para Lacan,  é  possível  observar  nas  cartas  escritas  por  Joyce  que  ele  considera  a  

filha muito  mais  inteligente  que  todo  mundo  e  acredita  que  ela  o  informa  de  coisas  que      

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acontecem com   pessoas   que   sequer   conhece.   “   Minha   esposa   e   eu”   –   escreve   Joyce   –   “   vimos  centenas  de  exemplos  da  clarividência  dela”.  (Ellmann,  p.835)  Lacan,  que  em  uma   apresentação  de  pacientes,  tivera  a  oportunidade  de  entrevistar  um  sujeito  que  dividia   seu   sintoma   em   dois   tempos:   um   primeiro   tempo   em   que   sofria   de   “falas   impostas”   –   ou   seja,  uma  das  formas  do  automatismo  mental  descrito  por  Clérambault  -­‐,    um  segundo   tempo   no   qual   compreendeu   que   tais   coisas   lhe   aconteciam,   porque   era   um   “telepata   emissor”,  encontrou  uma  grande  semelhança  com  o  sintoma  de  Joyce,  porém  o  segundo   tempo   era   sua   atribuição   à   filha   de   alguma   coisa   que   estava   no   prolongamento   de   seu   próprio  sintoma:  ele  sofria  de  falas  impostas,  Lucia  era  telepata.  (sem.  23,  p.93)    

O biógrafo   Ellmann   relata   que   Joyce   nutria   a   secreta   esperança   de   que   a   filha  

escaparia de   sua   própria   treva,   quando   ele   saísse   da   noite   escura   do   Finnegans   wake.   Jung  não  foi  o  primeiro  nem  o  único  a  notar  a  intensidade  do  laço  que  os  unia.  Quando   recebeu   Lucia,   ela   já   passara   por   inúmeros   médicos.   Jung   teve   acesso   aos   poemas   que   sua   paciente   escrevia   e   concluiu   que   ela   imitava   de   forma   descontrolada   idéias,   fixações   e   linguagem   que   o   pai,   todavia,   controlava.   Também   Paul   Léon   parece   ter   afirmado   o   seguinte:    “o  Sr.  Joyce  confia  unicamente  numa  pessoa,  e  essa  pessoa  é  Lúcia.  Qualquer   coisa  que  ela  diga  ou  escreva  é  o  que  o  guia.”  E,  como  se  não  bastasse,  o  próprio  Joyce   confidenciou  a  uma  amiga:  “As  pessoas  falam  da  minha  influência  sobre  minha  filha.  Mas   e  a  influência  dela  sobre  mim?”  (Ellmann,  p.  840,  843)    

Passemos agora   a   uma   pergunta   de   Lacan:   “O   que   nos   indicam   as   cartas   de   amor  

para Nora?”  Tudo  indica  que,  para  os  professores  de  literatura,  o  que  mais  surpreende   nas  letras/cartas  de  Joyce  é  a  báscula  que  as  arrasta  do  mais  terno  lirismo  à  linguagem   mais   crua   e   obscena.   O   próprio   poeta   o   percebe   e   nelas   menciona   as   duas   faces   do   sentimento  que  o  liga  a  Nora:  “Há  uma  parte  feia,  obscena  e  bestial,  e  há  uma  parte  pura   e  santa  e  espiritual.”  (1909/1988,  p.  38)  “Tu  me  agradeces  pelo  lindo  nome  que  te  dei.   Sim,   querida,   ‘minha   linda   flor   agreste   das   sebes!   Minha   flor   azul-­‐marinho   encharcada   de  chuva!’  é  um  nome  bonito  [...]  Mas,  lado  a  lado  e  no  âmago  deste  amor  espiritual  que   tenho  por  ti  há  também  um  desejo  bestial  e  bruto  por  todos  os  pedacinhos  de  teu  corpo,      

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todas as   partes   secretas   e   vergonhosas   dele,   pelos   cheiros   todos   dele   e   por   tudo   que   ele   faz  [...]  Ensinei-­‐te  a  quase  desmaiar  quando  ouves  minha  voz  cantando  ou  murmurando   à  tua  alma  a  paixão  e  a  tristeza  e  o  mistério  da  vida  e  ao  mesmo  tempo  ensinei-­‐te  a  fazer   trejeitos  indecentes  com  a  língua  e  os  lábios  [...]  meu  amor  leal,  minha  colegial  travessa   de   olhar   lânguido,   minha   puta,   minha   amante,   tudo   quanto   queiras   (minha   amantezinha   punheteira,  minha  putinha  fodedora!)  serás  sempre  minha  flor  agreste  das  sebes,  minha   florzinha  azul-­‐marinho  encharcada  de  chuva.”  Assinado:  Jim  (1909/1988,  p.54-­‐55)    

Curiosamente, Lacan   que,   no   seminário   20,   já   havia   proposto   fórmulas   tão  

límpidas quanto:  “O  que  não  é  signo  do  amor  é  o  gozo  do  Outro,  o  do  Outro  sexo  [...]  do   corpo   que   o   simboliza”   (p.28)   e   “   O   que   vem   em   suplência   à   relação   sexual   é   precisamente   o   amor”   (p.62),   conclui   agora   que   as   coordenadas   das   letras/cartas   de   amor  de  Joyce  a  Nora    indicam  que  há  uma  relação  sexual,  embora  bem  esquisita.  (sem.   23,  p.  81)     Os   matemas   propostos   por   Lacan   no   quadro   da   sexuação   deixam   ver   a   relação   homem-­‐mulher   sob   novas   luzes:   quando   um   homem   aborda   uma   mulher,   se   ela   lhe   serve   de   causa-­‐de-­‐desejo,   isso   significa   que   ela   está   exatamente   no   mesmo   lugar   do   objeto   a   de   sua   fantasia.   Mas   este   não   parece   ser   o   caso   de   Joyce.     Suas   letras/cartas   testemunham  que  o  sentimento  que  o  enlaçou  a  Nora  nunca  a  transformou  na  Dama  do   amor  cortês,  aquela  cujo  encontro  tem  algo  de  real,  consequentemente  de  traumático  e   inassimilável.  Nora  não  é  a  outra  face  do  vampiro,  aquela  que  representa  a  última  tela  da   existência,   para   além   da   qual   começa   o   país   dos   fantasmas.   Não   é   uma   morta-­‐viva   submetida  ao  tormento  eterno  do  entre-­‐duas-­‐mortes.   Certa   feita   Nora   comenta   a   reação   de   Joyce   diante   de   um   novo   vestido   de   festa   que  acabara  de  comprar:  “Jim  achou  as  costas  decotadas  demais  e  decidiu  que  teria  de   costurar  as  costas  do  vestido.  Naturalmente  ele  fez  pontos  todos  tortos  [...]  Queria  que   vocês   o   tivessem   visto   costurando   minha   pele   e   espinha.”   (Ellmann,   p.830)   Ele   não   queria  que  ninguém,  além  dele,  sequer  olhasse  o  que  quer  que  tocasse  o  corpo  de  Nora.      

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Em 22   de   novembro   de   1909,   escreve-­‐lhe   em   uma   carta:   “Arrisco-­‐me   a   dizer   somente   uma   coisa.   Dizes   que   queres   que   minha   irmã   te   leve   daqui   umas   roupas   de   baixo.   Por   favor,   não   faças   isso   querida.   Eu   não   gosto   que   ninguém,   nem   mesmo   uma   mulher   ou   uma   moça,   veja   as   coisas   que   te   pertencem.”   (Cartas,   p.53)   Menos   de   um   mês   antes,   ele   lhe   escrevera;   “Tenho   andado   indagando   sobre   um   conjunto   de   peles   para   ti   e   se  meus  negócios  correrem  bem  vou  simplesmente  afogar-­‐te  em  peles  e  vestidos  e  capas   de  toda  sorte.”(p.47)   Lacan  (2007:93)  não  sabe  ao  certo  se  Joyce  escrevia  para  libertar-­‐se  do  parasita   falador   ou,   ao   contrário,   para   deixar-­‐se   invadir   por   propriedades   de   ordem   essencialmente   fonêmica   da   fala,   isto   é,   sua   polifonia.   Mas     não   duvida   daquilo   que   também   percebe   e   assim   formula:   no   final   das   contas,   ele   [o   homem]   faz   amor   com   seu   inconsciente,  e  mais  nada  (Idem:123).   É  possível  que  as  cartas  a  Nora  testemunhem  apenas  o  gozo  de  Joyce  com  o  corpo   do   Outro   simbólico,   com   as   palavras   de   amor,   de   desejo   e   de   repugnância.   Como   dissemos   acima,   elas   vão   do   tom   mais   lírico   ao   mais   abjeto.   Em   certo   sentido,   aproximam-­‐se  da  dupla  valência  do  objeto  a,  em  sua  face  narcísico-­‐imaginária  e  em  sua   face   real.   Nesse   caso,   Joyce   teria   amado   mais   a   arte   de   escrever,   do   que   a   mulher   de   carne  e  osso  a  quem  enviava  suas  cartas.      Nora   não   ocupava   para   ele   o   lugar   de   mulher-­‐sinthoma,   alguém   que,   enquanto   objeto  amado,  lhe  teria  servido  de  intermediário  para  crer  nas  mulheres  em  geral.  Não   havia  mais  que  uma  mulher  para  Joyce,  e  este  mulher  era  Nora.  Ele  a  elegera,  mas  com  a   maior  das  depreciações.  Eis  outra  pergunta  que  Lacan  se  faz:  por  que  Joyce  elegera  Nora   com  a  maior  das  depreciações?  (2007:81)   Tudo  indica  que  Joyce  sabia  que,  se  fazer  amor  é  poesia,  em  contrapartida,  o  ato   de  amor  corresponde  à  perversão  polimorfa  do  macho,  pois  há  um  mundo  entre  a  poesia   e  o  ato  (Lacan,  1985:  98)  Objeto  de  amor,  objeto  transicional,  ou  simplesmente  objeto  de   um  ciúme  delirante,  o  que  quer  que  Nora  tenha  sido  preferencialmente  para  Joyce,  este  a      

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compartilhou conosco.   Sentimo-­‐nos   os   destinatários,   entre   muitos,   das   missivas   joycianas.   Referências  Bibliográficas   AUBERT,   Jacques.   “Prólogo   a   Um   retrato   do   artista   quando   jovem”   in   Retratura   de   Joyce.   Uma  perspectiva  lacaniana.  Letra  freudiana,  ano  XII,  n.13  (1993),  pp.40-­‐51.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐“Joyce   com   Lacan”   in   A   Jornada   de   Ulisses.   Palestras   de   Jacques   Aubert   no   Brasil   e   outros   trabalhos.   Escola   Letra   Freudiana,   ano   XX,   n.   28   (2001),   pp.117-­‐123.   ELLMANN,  Richard.  James  Joyce.  Tradução  de  Lia  Luft.  São  Paulo:  Globo,  1989.   GATIAN   de     CLÉRAMBAULT,   Gaétan.     (1942)   “Définition   de   l’automatisme   mental’,   Oeuvre  psychiatrique,  vol.  II.  Paris:  PUF.   JOYCE,  James.  Um  retrato  do  artista  quando  jovem.  Rio  de  Janeiro:  Objetiva,  2006.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐  Cartas  a  Nora  Barnacle.  São  Paulo:  Massao  Ohno  Editor,  1988.   LACAN,   Jacques   _   (1956)   “O   Seminário   sobre   a   carta   roubada”   ”   in   Escritos.   Rio   de   Janeiro:  Jorge  Zahar  Ed.,  1998,  pp.13-­‐66.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐   (1946)   “Formulações   sobre   a   causalidade   psíquica”   in   Escritos.   Op.   cit.,  pp.152-­‐194.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐  (  1957)  “A  instância  da  letra  no  inconsciente  ou  a  razão  desde  Freud”   in  Escritos.  Op.  cit.,  pp.496-­‐533.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐  (1972-­‐1973)  O  Seminário,  livro  20:  mais,  ainda.  Rio  de  Janeiro:  Jorge   Zahar  Ed.,  1985.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐   (1975-­‐1976)   O   Seminário,   livro   23:   o   sinthoma.   Rio   de   Janeiro:   Jorge   Zahar  Ed.,  2007.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐   (1970)   “Lituraterra”   in   Outros   escritos.   Rio   de   Janeiro:   Jorge   Zahar   Ed.,  2003,  pp.  15-­‐25.   -­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐-­‐   (1976-­‐1977)   O   Seminário,   livro   24:   L’insu   que   sait   de   l’une-­bévue   s’aile  à  mourre.  Inédito.  Lição  de  15  de  março  de  1977.   SOLER,   Colette.   “Joyce   ,   martyr   de   la   langue”   in   L’aventure   litteraire   ou   la   psychose   inspirée.  Paris:Editions  du  Champ  lacanien,  2001,  pp.83-­‐99.  

 

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Apostar no Sintoma Zilda Machado1        

Comecemos com  Freud.  Na  conferência  Os  Caminhos  da  formação  do  sintoma,  ele   nos  ensina:  O  sintoma  é  causado  pela  força  da  pulsão  que  ao  pressionar  por  satisfação,   encontra   a   barreira   da   censura   e   não   pode   ser   realizada.   O   que   há   nesse   momento   é   angústia,  o  mal-­‐estar  que  força  o  advento  do  mecanismo  do  recalque.    Devido  então  ao   recalcamento,   o   desejo   que   agora   é   inconsciente   regride   tomando   a   via   da   fantasia   a   um   tempo  onde  houve  a  possibilidade  de  se  obter  satisfação,  pois  uma  coisa  que  Freud  nos   aponta   é   que   o   sujeito   não   abdica   jamais   de   um   prazer   já   experimentado.     Aí   encontramos  os  conceitos  de  regressão  (o  retorno  pela  via  da  fantasia)  e  de  fixação  (ao   ponto   onde   houve   maior   satisfação).     Mas   o   aparelho   continua   pressionando.   A   pulsão   é   uma   força   constante   que   não   dá   trégua   ao   sujeito.   Há   novamente   outra   tentativa   de   buscar  a  satisfação,  só  que  desta  vez,  sob  a  ação  do  recalque,  ela  já  não  é  direta.  É  o  que   chamamos   “o   retorno   do   recalcado”.   Aí   nesse   momento   o   sujeito   constrói   o   sintoma,   uma   “formação   de   compromisso”   entre   o   desejo   inconsciente,   provindo   da   pulsão   sexual,  e  a  força  da  censura  que  ele  trata  de  burlar.  Constrói  assim  um  substituto  que  lhe   permitirá  encontrar  a  satisfação  desejada,  ao  preço  de  não  reconhecê-­‐la  como  tal.     Para  Freud,  o  sentido  do  sintoma  é  sexual.  E  Lacan,  no  início  de  seu  ensino,  toma-­‐ o   por   esta   mesma   vertente.   Na   “Instancia   da   letra”   Lacan   diz:   “é   a   verdade   do   que   o   desejo   foi   em   sua   história   que   o   sujeito   grita   através   de   seu   sintoma”.   [p.   522].   No   entanto,  ao  longo  de  seu  ensino  Lacan  fará  profundas  modificações  em  sua  abordagem   do  sintoma,  o  que  trará  diversas  consequências  para  o  dispositivo  analítico  e  à  questão  

                                                                                                              1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  Belo   Horizonte  

 

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do final   da   análise,   quando   ele   dirá   que   o   sentido   do   sintoma   é   um   só:   o   sentido   do   sintoma  é  o  Real.    (sentido  como  direção,  nos  dirá  Soler).   Temos  então  o  sintoma  como  a  presentificação  do  retorno  do  recalcado  pulsional   tecido  nas  veredas  da  fantasia.  É  realização  de  desejos  recalcados  e  infantis  e  satisfação   pulsional  substituta  que  se  sustenta  em  uma  fantasia  inconsciente  e  se  articula  e  se  fixa  à   gramática  pulsional.  Assim  se  dá,  portanto,  o  acesso  do  sujeito  à  sexualidade:  de  forma   conflituosa,   desviada   e   sintomática.   E   assim   inaugura-­‐se   o   psiquismo   na   interdição   do   objeto   primordial,   matriz   à   qual   se   dirige   originalmente   o   desejo,   que   cai   sob   a   barra   do   recalque,   colocando   o   sujeito   para   sempre   à   procura   do   objeto   perdido.   Interdição   –   interdicção  –  inter-­‐dito.  A  sexualidade  humana  está  fadada  a  se  realizar  necessariamente   através  das  palavras:  gozo  fálico.       O  sintoma,  portanto,  pressupõe  o  compromisso  entre  a  pulsão  e  a  defesa.  Ou  seja,   ali   o   sujeito   não   pôde   escolher   nem   uma   posição   nem   outra.   Mas   em   uma   escolha   forçada,  ele  é  compelido  a,  mesmo  assim,  dentro  desta  estrutura,  escolher  uma  posição   de  sujeito  da  qual,  como  nos  lembra  Lacan,  sempre  se  é  responsável.  Ele  escolhe  então   não  escolher,  ele  escolhe  compor.  Pois,  ser  compelido  a  escolher,  sempre  coloca  o  sujeito   diante  da  castração.  Escolher  é  mais  que  tudo  renunciar.  É  consentir  em  perder  algo.  Se   se  escolhe  A,  perde-­‐se  B.  Portanto,  diante  da  premência  a  renunciar,  a  se  deparar  com  a   castração,  o  mecanismo  que  advém  leva-­‐o  a  burlar  a  escolha.  Diante  de  ter  de  escolher  A   ou   B,   o   sujeito   escolhe   outra   posição:   escolhe   não   escolher.   Escolhe   compor   para   que   tudo  permaneça  como  estava,  para  continuar  com  o  máximo  possível  de  satisfação.  É  o   benefício   primário   da   neurose   –   posição   de   satisfação   que   leva   Freud   a   dizer   que   “os   sintomas   são   as   atividades   sexuais   do   neurótico”.     E   leva   Lacan   a   dizer   que   o   sujeito   é   sempre  feliz.     Ou   seja,   o   aparelho   psíquico   se   arranja   justamente   aí   com   a   construção   do   sintoma:  isso  é  a  neurose.  Ninguém  escolhe  a  castração.  Escolhe  é  burla-­‐la.  E  a  resposta   que   aponta   a   estrutura   é   o   mecanismo   que   se   usa.   [A   psicose   com   a   foraclusão   nem   a      

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leva em   consideração.   A   perversão   com   o   fetichismo   traz   um   mecanismo   que   ao   mesmo   tempo  a  reconhece  e  a  nega].  2   No  entanto  sabemos   que  embora   todo   o   esforço   do   sujeito   seja   nesse   sentido   [de   burlar  a  castração],  isso  é  impossível  pois,  no  psiquismo,  “é  a  insatisfação  que  constitui  o   componente   primordial”,   nos   diz   Lacan3.   Essa   é   a   nossa   condição   de   acesso   à   sexualidade.   Daí   vem   a   máxima   de   Lacan:   “não   há   relação   sexual”,   pois   ele   o   diz   textualmente:   “a   relação   sexual   só   existe   entre   gerações   vizinhas”:   filhos   de   um   lado,   pais  de  outro.  Ao  fazer  a  escolha  do  recalque,  o  sujeito  opta  pela  “não  relação  sexual”.  Ele   opta  pela  interdição  [do  incesto],  pela  inter-­‐dicção.     Ou   seja,   o   mal-­‐estar   é   de   estrutura,   a   falta   é   o   cerne   do   ser   falante   e   o   objetivo   da   pulsão  não  é  a  captura  do  objeto,  é  somente  contorná-­‐lo.  É  seu  retorno  em  circuito,  na   repetição,  na  procura  de  uma  vivência  de  satisfação  inscrita  no  âmago  do  sujeito  como   impossível,   jamais   alcançável.   Ou   seja,   não   há   solução.   Portanto,   embora   o   sujeito   seja   “sempre  feliz”  pois,  esteja  na  posição  em  que  estiver,  ele  extrai  sua  cota  de  gozo,  “ele  não   é   [mais   feliz]   de   jeito   nenhum”,   nos   lembra   Lacan   na   Entrevista   à   Imprensa   pois,   “desde   quando  o  verbo  se  encarna”,  nos  diz  ali,  “as  coisas  começam  a  ir  mal”,  levando  o  sujeito   muitas   vezes   a   sofrer   demais.   Mas,   “sofrer   demais   é   a   única   justificativa   para   a   intervenção  do  analista”,  nos  lembra  Lacan  no  seminário  XI4.   Assim,  chega  o  sujeito  à  análise,  buscando  se  aliviar  um  pouco  dos  sintomas  que  o   afligem,   pois   por   estrutura,   o   neurótico   acreditar   que   há   um   Outro   que   sabe   o   que   lhe   acomete.  Mas  ele  só  quer  reparar  um  pouco  a  fenda  que  se  esgarçou  um  pouco  demais.   Nada  de  querer  saber  da  castração.                                                                                                                     2  Já   a   escolha   do   tipo   clinico   [histeria,   neurose   obsessiva   ou   fobia],   nos   diz   Freud,   tem   a   ver   é   com   outra   coisa   –   com   a  

modalidade da  defesa.    Lembremos  que  o  rochedo  da  castração  se  refere  à  posição  de  homens  e  mulheres  diante  da   castração.  No  homem,  protesto  viril,  e  na  mulher,  pênis-­‐neid,  ou  inveja  do  pênis.     3 4

 

Da  psicanálise  em  suas  relações  com  a  realidade.(p.  354),    Seminário  XI  p.  158  

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Mas, o   sujeito   pode   entrar   em   análise,   ele   pode   se   tornar   dócil   ao   discurso   analítico   e   querer   saber   um   pouco   do   que   o   determina.   Aí   então   sim,   ele   poderá   vir   a   consentir   com   a   castração.   A   meu   ver,   isso   só   advém   mesmo   é   ao   final   da   análise,   ao   consentir  com  uma  perda  de  gozo.  Assim  é  que  ele  pode  vir  a  consentir  com  a  escolha  de   A,   e   consentir   com   a   perda   de   B,   ou   vice-­‐versa.   Poder   perder   -­‐   a   essa   posição,   a   meu   ver,   só  o  discurso  analítico  pode  levar  um  sujeito.  Ao  permitir  a  ele  subjetivar  a  falta,  indo  da   perda   à   causa   do   desejo.   Ali   onde   o   sujeito   pode   sustentar   o   desejo   como   o   vazio   de   objeto,  puro  wunch.     Os   outros   discursos   apontam   sempre   soluções   de   tamponamento   para   a   falta   estrutural   do   sujeito.   Ajudam   a   burlar   a   castração.   Por   isso   Lacan   diz   que   tudo   concorre   para   a   felicidade   do   sujeito,   para   que   tudo   se   mantenha   e   para   que   ele   se   repita.   A   tecnociência   promete   sempre:   se   não   está   satisfeito   é   porque   você   ainda   não   escolheu   C   ou  D.  E  aí  o  alfabeto  é  infinito.  Sempre  há  um  novo  objeto  saindo  do  forno.  Aquele,  sim,   vai   te   fazer   feliz.     Felicidade   postiça?   É   a   partir   do   consumo   ávido   desses   objetos   que   Freud   fala   no   “Mal   estar   na   civilização”   que   assim,   o   sujeito   chega   a   se   tornar   “uma   espécie   de   deus   de   prótese   (...)   coberto   por   todos   os   complementos   artificiais   que   lhe   dão  ares  de  ser  magnífico”.     Mas,   Lacan,   na   conferência   à   imprensa   nos   chama   a   atenção   para   uma   questão   importante:  ‘embora  essas  engenhocas  comam  a  gente,  isso  acontece  porque  a  gente  se   deixa   consumir’.   E   ele   nos   diz:   “por   isso   não   estou   entre   os   alarmistas   nem   os   angustiados.   Quando   nos   saciarmos,   pararemos   com   isso,   e   nos   ocuparemos   das   verdadeiras   coisas,   ou   seja,   da   religião”.   Pois,   o   discurso   religioso,   ao   contrário   do   da   ciência,   não   só   promete,   esse   cumpre   a   função   de   tamponamento   da   castração   ao   dar   sentido  a  tudo.  Por  isso  Lacan  diz:  “São  capazes  de  dar  um  sentido  a  qualquer  coisa,  até   um  sentido  à  vida  humana,  por  exemplo”.       E   o   futuro   da   psicanálise,   nos   diz   Lacan,   de   maneira   enfática,   depende   do   que   acontecerá   aí   nesses   discursos.   Pois   tudo   depende   de   que   o   real   insista.   E   depende,      

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portanto, precipuamente,   de   como   o   sintoma   será   tratado   no   próprio   dispositivo   analítico.  Sabemos  das  longas  análises  que  foram  ao  limite  da  interpretação  e  os  efeitos   disso  no  corpo  dos  analisantes.     Mas   o   sentido   do   sintoma   é   não   só   o   sentido   sexual,   interpretável,   aquele   que   Lacan   no   início   supunha   se   resolver   por   inteiro   numa   análise   linguageira,   como   ele   o   define   em   “Função   e   Campo”.   O   que   vai   se   depurando   cada   vez   mais   é   seu   caráter   imutável,  ligado  ao  gozo.  “O  sentido  do  sintoma”,  nos  diz  Lacan  em  A  Terceira,  “é  o  real”.   E   Colette   Soler   nos   esclarece   que   a   palavra   sentido   aqui   utilizada   por   Lacan   diz   respeito   é  ao  sentido  como  uma  direção.  O  sintoma  provém  do  real,  ele  é  causado  pelo  Real.  “O   sintoma   é   a   manifestação   do   real   no   nível   dos   seres   vivos”,   reforçando   aquilo   que   Lacan   já  dissera  no  Seminário  XI:  O  sintoma,  como  as  outras  formações  do  inconsciente,  é  um   envelopamento   do   real,   não   é   o   próprio   real.   Pois,   “do   real,   somos   totalmente   separados”5,  justamente  “devido  à  impossibilidade  de  a  proporção  sexual  ser  escrita”.  E   é  daí  que  advém  a  “abundância  de  sintomas”.     Então,  se  é   o   sintoma   (o   que   provém   do   real)   que   leva   o   sujeito   à   análise,   como   a   psicanálise   –   uma   prática   cujo   instrumento   é   a   linguagem   -­‐   pode   operar   para   tratar   o   real   em   jogo   no   sintoma?   Como   ela   pode   operar   para   levar   a   análise   à   sua   conclusão?   Aqui  então  é  que  Lacan  nos  esclarece  quando  ele  diz  que  a  única  maneira  de  se  lidar  com   o  sintoma  é  pelo  equívoco  significante.  Só  assim  ele  não  engordará  de  sentido.  Ou  seja,   não   é   pelo   sentido   que   o   real   é   atingido.   Trata-­‐se   de   um   trabalho   com   a   linguagem   depurada   de   sentido   –   lalíngua   -­‐   cujo   único   fundamento   é   a   sonoridade,   a   homofonia   significante.  Lalíngua  é,  pois,  a  linguagem  que  concerne  à  experiência  da  psicanálise.     Pela  maneira  como  a  língua  materna  foi  escutada  e  provocou  ranhuras  no  corpo,   foi   escrito   ali   o   texto   inconsciente.   Implica   a   palavra   dita   pelo   Outro,   mas   implica   também   o   escuta-­‐dor,   ou   seja,   o   afeto   causado   pelo   que   se   escutou.   O   sintoma   se   relaciona  então  é  ao  modo  pelo  qual  lalíngua  mordeu  o  corpo  a  partir  não  só  do  que  foi                                                                                                                   5

 

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falado do/ao   sujeito,   mas   da   contingência   –   e   da   ambiguidade   -­‐   do   que   foi   ouvido,   no   encontro   fortuito   que   dará   a   cada   um   sua   singularidade   de   gozo.   Na   Conferência   de   Genebra  sobre  o  sintoma  Lacan  nos  aponta  –  “aí  está  a  moterialidade  do  inconsciente”:  a   materialidade   linguageira.   É   da   materialidade   da   palavra   encarnada,   de   lalíngua   entalhada  na  carne  do  sujeito  que  emerge  o  sintoma.  Ele  comemora,  para  além  de  todo  o   sentido,  a  saga  do  sujeito  na  linguagem,  o  nascedouro  de  sua  posição  como  um  falasser.   Aí   está   o   x   a   que   Lacan   se   refere   no   seminário   RSI   quando   ele   então   dirá   que   “esse   x   é   o   que   do   inconsciente   pode   se   traduzir   por   uma   letra”   [RSI   p.   23].   Letra   que   marca   “o   modo  particular  de  cada  um  gozar  do  inconsciente,  na  medida  em  que  o  inconsciente  o   determina”.  [RSI  p.  37]   No  final  de  seu  ensino  Lacan  descobre  uma  formação  do  sintoma  que  prescinde   do   recalque,   que   prescinde   de   uma   amarração   ao   inconsciente.   Sintoma   que,   portanto,   tem   função   de   suplência   ao   Real   e   que   é   ele   mesmo   real,   articulado   à   letra   e   ao   gozo.   Trata-­‐se   do   sintoma   que   se   depura   ao   final   da   análise.   Após   toda   interpretação   possível,   até  toda  a  decodificação  pela  via  da  linguagem,  o  sintoma  permanece  como  um  caroço  de   real   –   evento   corporal,   nos   diz   Lacan.   Ponto   zero   da   relação   do   sujeito   com   a   linguagem,   reduzido   a   seus   elementos   mínimos,   aos   restos,   às   marcas   deixadas   pelo   encontro   do   sujeito  com  a  materialidade  e  ambiguidade  significante  em  lalíngua,  tecido  significante   inscrito  a  ferro  e  fogo  no  corpo  como  texto  inconsciente.  Este  tipo  de  sintoma,  que  Lacan   grafa   Sinthome,   pôde   ser   formulado   a   partir   do   caso   Joyce,   quando   a   amarração   da   estrutura   pôde   ser   feita   fora   da   lógica   do   inconsciente   (tributária   do   Nome-­‐do-­‐pai),   fora   da   significação   da   linguagem.   Alguns   dizem   que   a   partir   daí   podemos   prescindir   da   nomenclatura  neurose,  psicose  e  perversão,  pois  o  que  importa  agora  é  o  enodamento   sintomático,  não  importando  mais  a  estrutura.     Acredito,   no   entanto,   que   Lacan   se   lançou   na   aventura   joyciana   para   continuar   aquilo   que,   a   meu   ver,   é   o   cerne   de   seu   ensino:   a   questão   da   análise   e   mais   apropriadamente   falando,   a   questão   do   final   da   análise   e   a   formação   do   analista.   Com   Joyce,  ao  esclarecer  o  trabalho  da  psicose,  Lacan  demonstra  que  ali  não  há  a  articulação      

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do sujeito  ao  inconsciente,  pois  não  há  o  Nome-­‐do-­‐pai.  No  entanto,  o  sujeito  foi  capaz  de   criar  um  artifício  que  garantiu  o  enodamento  da  estrutura,  um  Sinthome.   Ou   seja,   tomando   o   caso   Joyce,   Lacan   pôde   demonstrar   como   esse   sujeito   se   sustentou  sem  o  desencadeamento  da  psicose  por  ser  capaz  de  criar  um  sintoma  que  lhe   fez  as  vezes  dessa  função.  Mas  o  que  Lacan  demonstra  também  é  a  operação  do  final  de   análise:  o  sintoma  que  subsiste  para  além  da  crença  no  inconsciente.     Tomar   Joyce   é   verificar   em   um   sujeito   que   não   foi   mordido   pelo   inconsciente   –   um  “desabonado  do  inconsciente”,  como  aponta  Lacan,  como  ele  foi  hábil  em  operar  com   a   linguagem   prescindindo   de   todo   o   sentido,   decompondo-­‐a   em   puro   jogo   de   letras   e   sons.  Ou  seja,  Joyce  trabalhou  com  a  linguagem  para  além  da  fala  com  suas  significações,   foi  ao  recurso  da  escrita,  à  letra,  ao  ponto  onde  o  sintoma  já  não  é  mais  passível  de  ser   analisado.  Joyce  mostrou  com  todo  o  seu  trabalho  com  a  letra,  saber  fazer  com  isso.  Foi   isso  que  causou  sobremaneira  o  interesse  de  Lacan,  pois,  como  ele  o  afirma:  “que  alguém   faça  disso  um  uso  prodigioso,  interroga  por  si  o  que  diz  respeito  à  linguagem”6.     Ou  seja,  como  o  homem,  doente  da  linguagem,  cativo  do  imaginário  que  nos  leva   ao  destino  inelutável  da  debilidade  mental  por  sempre  darmos  sentido  a  tudo,  pode  usar   a   linguagem   justamente   no   ponto   de   operar   com   seu   osso,   com   a   letra,   seu   ponto   mínimo,   de   maneira   assim,   desconectada   do   inconsciente?   Isso   concerne   ao   final   da   análise,  nos  afirma  Lacan,  e  Joyce  demonstra  a  possibilidade  dessa  operação.     O   final   de   análise   leva   o   sujeito   a   modificar   sua   relação   com   o   inconsciente,   levando-­‐o,  portanto,  a  conseguir  operar  com  a  linguagem  de  outra  maneira.  Concerne  ao   final  de  análise,  então,  um  efeito  de  escrita.    

                                                                                                              6

 

Conf.  Joyce,  o  Sintoma”  Sem.  23.  p.  162].      

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Pudemos acompanhar   o   trabalho   apresentado   por   Mario   Brito7   em   seu   depoimento   de   passe.   Ali   quando   o   sujeito,   ao   se   dirigir   às   entrevistas   de   passe,   perde   o   passaporte.   Ao   invés   de   se   perguntar:   “por   que   perdi   o   passaporte,   o   que   isso   quer   dizer?,   por   exemplo,   puder   fazer   simplesmente   uma   escrita,   como   o   fez   Mario:   “ao   passe   sem  passar  por  te”.       Sinthome   e   sintoma   se   diferenciam   então   é   na   maneira   pela   qual   o   sujeito   na   análise   pode   chegar   ao   ponto   de   depuração,   de   redução   do   sentido   do   sintoma   ao   irredutível   do   Sinthome.   Portanto,   nessa   redução   à   letra,   ao   fonema,   o   sinthome   é   a   transmutação   do   sintoma   de   entrada   em   análise   a   partir   da   subversão   ocorrida   na   posição  do  sujeito  diante  de  seu  próprio  inconsciente.     O  final  da  análise  é,  portanto,  ir  ao  ponto  onde,  ao  se  poder  prescindir  do  sentido,   ao   consentir   com   a   perda   de   gozo,   o   sujeito   puder   “deixar   o   sintoma   ao   que   ele   é,   um   acontecimento   corporal”   e   souber   fazer   (savoir   y   faire)   alguma   coisa   com   o   que   comemorou  a  inscrição  de  lalíngua  no  leito  de  seu  corpo,  ali  quando  justamente  ele  não   mais  acredita  no  seu  inconsciente.     Mas   surgirá   daí   um   analista   se   ele   continuar   acreditando   –   mais   do   que   isso,   amando  -­‐  o  inconsciente.  Não  mais  o  seu,  mas  o  inconsciente  como  estrutura.  É  aí  que   surge   o   desejo   novo,   o   desejo   do   analista   que   o   levará   ao   entusiasmo   de   querer   se   oferecer  a  levar  outros  até  o  ponto  onde  ele  próprio  pôde  ir  em  sua  análise.     Trata-­‐se   de   uma   política?   Uma   política   da   psicanálise.   Ali   onde   é   a   análise   em   intensão  que  funda  as  bases  daquilo  a  que  a  psicanálise  em  extensão  pode  vir  a  trazer  ao   mundo.  A  posição  ética  então  é  essa:  apostar  no  sintoma.    

                                                                                                              7

BRITO,  Mario.  Al  passe  sin  passa-­‐por-­‐te.  Trabalho  apresentado  no  Espaço  Escola  do  XI  Encontro  da  EPFCL|   AFCL-­‐Brasil.  

 

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Sintoma e Escrita ou...os Ecos do Sintoma Selvagem Sandra Leticia Berta1 É evidente que, no discurso analítico, só se trata disto, do que se lê e tomando como o que se lê para além do que vocês incitaram o sujeito a dizer, que não é tanto, como sublinhei da última vez, dizer tudo, mas dizer não importa o quê, sem hesitar em dizer besteiras. (Lacan, 1973/1985, p.39)2 Perguntar-me pela escrita do sintoma no percurso de uma análise levou a anunciar com título dessa exposição “Sintoma e escrita”. A questão que me coloco é de se temos de considerar diferentes modos de escrita do sintoma, no decorrer de uma análise. Ou ainda: verificar quais as relações possíveis entre essas diferentes escritas. Uma vinheta clínica faz contraponto a essa questão. Evoco Lacan em 1973: na análise há de se ter o sentimento do risco absoluto.3 Modo de assinalar o afeto em questão e a dimensão da verdade mentirosa. Escrever o sintoma designa neste texto que apresento: definir o sintoma analítico. Portanto, escrever o sintoma inclui o conceito de transferência, ainda, inclui o analista como sendo aquele que responde pela posição do inconsciente. Desde Freud o sintoma é o estrangeiro que tende a exilar-se para promover uma satisfação proibida. Sintoma extraterritorial ao eu. Nome do enigma promovido por um sofrimento que incomoda e que perturba pela sua insistência. Ele nos adverte que todo sintoma tem um sentido sexual, oriundo do trauma e da fantasia (realidade psíquica)                                                                                                               1 2 3

 

Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do campo Lacaniano LACAN, J. (1972-73). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, J. (1975 – 1976). El Seminário, libro XXII: el sinthome. Buenos Aires: Paidós, 2006, p. 45

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Como se escreve o sintoma na psicanálise? Estamos a debater que, com Lacan, há duas grandes vertentes que permitem dizer como se escreve o sintoma, as mesmas enlaçam todos os meandros do seu ensino: Escrever o sintoma como mensagem do Outro A mensagem é o significado do Outro s(A). Mas sabemos que essa mensagem nada mais é do que a interpretação do sujeito sobre sua existência inefável. Nela se articulam: a - O traumático, entendido como não termos a disposição uma resposta última vinda do Outro, um último significante que nos dei a resposta definitiva sobre o que somos S( ), nem mesmo sobre o que queremos, uma vez que a Bedeutung do falo se suporta no significante da falta de significante (Ф); b - A construção do fantasma como resposta cristalizada que enoda imaginário e simbólico, como fixação dessa ficção que é a interpretação do sujeito sobre o desejo do Outro promove.

Escrever o sintoma como letra A escrita de uma letra se suporta na questão sobre qual é a função dessa letra. São as articulações dos anos ´70. Em primeiro lugar temos a letra como detrito, isolada de qualquer qualidade, tendo a mesma um estatuto secundário à linguagem. A letra indica: o furo no saber, a ruptura do semblante (significante), artefato a não habitar mais que a linguagem, sem poder confundi-la com o significante. Por outro lado, a escrita da letra testemunha sobre o furo no saber. A letra tanto limita o gozo quanto o evoca. Isso que evoca não refere ao furo no saber, mas ao puro exercício de uma fala não-sense que leva ao encontro desse furo no saber, até seu limite. Entendo ser essa a tese que nos propõe Colette Soler no seu livro Lacan, l´inconscient réinventé4 quando,

                                                                                                              4

 

SOLER, C. Lacan, l ´inconscient réinventé. Paris: Presses Universitaires de France, 2009.

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evocando Lacan no Prefacio do Seminário XI5, nos diz que o passe ao real precisa (é minha leitura do texto de Soler) de três tempos: 1. A formação do inconsciente (lapso). 2. O inconsciente como espaço de significantes associados livremente, onde estão em função o sentido, a historização e o inconsciente – verdade. 3. O inconsciente fora-sentido, analfabeto que fez funcionar o significante besta. Nesse terceiro tempo a escrita do sintoma é função reduzida a sua máxima expressão de um gozo - por que não dizê-lo? – estranho, estrangeiro, mas sem função de enigma. Parece-me que assim posso apreender o que Lacan nos diz no Seminário RSI, na aula de 21 de janeiro de 1975, quando escreve, usando-se da formulação matemática f (x), o gozo do inconsciente que se denuncia no sintoma. Isto é: o modo como cada um goza do seu inconsciente. Essa letra que se traduz do inconsciente, que é detrito; é isolada de qualquer qualidade. Essa letra tem identidade de si a si. Portanto o que se lê do sintoma é efeito da erosão da linguagem. É daí que se retira o estatuto da escrita nesse contexto, de uma letra que afirma o gozo, fora do sentido. Por essa razão, essa letra se escreve entre real e simbólico. Mas ela vem do real. Entendo que a possibilidade de pensarmos as duas vertentes da escrita do sintoma que promovem o trabalho de transferência pode ser extraída de uma frase crucial. Precisamente porque põe em evidencia o caminho do sintoma, o que faz o cerne da sua função. Retomo a citação: O que é dizer o sintoma? É a função do sintoma, função a se entender como o faria a formulação matemática f (x). O que é esse x? É o que, do inconsciente, pode se traduzir por uma letra, na medida em que, apenas na letra a identidade de si a si está isolada de qualquer qualidade. Do Inconsciente todo um, naquilo em que ele sustenta o significante em que o                                                                                                               5

LACAN, J. Prefácio à Edição Inglesa do Seminário XI. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, PP 567-569.

 

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inconsciente consiste, todo um é suscetível de se escrever como uma letra. Sem dúvida, seria preciso convenção. Mas, o estranho é que é isto que o sintoma opera selvagemente. O que não cessa de se escrever no sintoma vem daí. (21.01.75)6. A repetição do sintoma, o que não cessa de se escrever é o que se escreve do sintoma, primeiro selvagemmente, depois f(x). Portanto, essa repetição é em, se mesma, a escrita do sintoma. Digamos que há uma ‘linha direta” entre “o que não cessa de se escrever” (necessário) e o f(x) (contingente), segundo entendo. Razão pela qual me impactou ler e ouvir o nosso colega Jairo Gerbase, na seguinte afirmação: A psicanálise propõe que não há nenhuma participação da realidade na formação do sintoma, pois o desencadeamento de um sintoma é um encontro do real, isto é, há desencadeamento de um sintoma quando o sujeito encontrou algo impossível de ser dito, algo inefável.7 (Gerbase, A hipótese Lacaniana, inédito) Há algo de selvagem no desencadeamento de um sintoma, e é esse operar selvagemente o qual indica que ai o real está em questão. Por isso há de se contornar. Isso não se suporta. Eis um fundamento da psicanálise, se me permitem. E, o que é selvagem?: um modo de escrita. ... Sim, porque no parlêtre isso não se agüenta. Mas, paradoxalmente, é isso com o qual o parlêtre goza. O real é o impossível: com isso o parlêtre goza e se civiliza. É essa minha leitura da ênfase dada, a partir dessas articulações sobre lalangue.                                                                                                               6 7

 

LACAN, J. (1975). O Seminário, Livro XXII: RSI, inédito.  GERBASE, J. A hipótese Lacaniana, inédito. Cópia gentilmente cedida pelo autor.

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Lalangue evidencia o gozo da fala: é disso que somos feitos os seres falantes, nossa carne. Por essa razão não podemos perder de vista a dimensão “parl” do parlêtre. E isso que está em jogo, desde o início, no sintoma. Volto a Lacan de 19588. O que ele nos diz: O SINTOMA FALA. ISSO FALA! Na escrita selvagem há gozo fálico. Gozo que provêm da relação do simbólico com o real. No sujeito que tem o suporte no parlêtre – INCC – está o poder de conjugar a palavra com esse gozo que se experimenta como parasitário, devido à fala mesma, ou seja, devido ao parlêtre. E é por essa razão que na transferência ele - Isso – se põe a falar. Claro que se precisa de um consentimento daquele que se queixa para ler no que se ouve do “Isso fala”. E vejam que é nesse ano que Lacan aponta que o sintoma se diferencia das outras formações do inconsciente pela repetição. Agora, a questão é que no fundo esses enunciados são indizíveis, por isso a dimensão Real em questão. Nessa fala há de se recortar a potência patogênica de enunciados indizíveis9. Isso posto, considero que as análise que dirigimos devem ter presente o sintomaselvagem para que f(x) possa se escrever (contingência). Uma jovem chega ao consultório trazendo uma queixa, bem precisa: “meu problema é que posso estar e não estar ao mesmo tempo. É o que mais faço. Posso passar ao largo, sem que os outros percebam ou sem que eu mesma perceba o que passa para mim”.                                                                                                               8

LACAN, J. (1957-1958). O Semináro. Livro V: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

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GERBASE, J. A hipótese Lacaniana, inédito. Cópia gentilmente cedida pelo autor.

 

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Eis o que inaugura as entrevistas sobre esse sintoma que decido nomear, assim como ela nos diz: “passar ao largo”. Ela se interroga pelo traço infernal desse ser que se esvai e que lhe faz acreditar que nada vale a pena nesta vida... aliás,que poderia morrer sem deixar dores nem rastos. Passar ao largo. Num segundo momento no qual a analista – ocupada em não sublinhar esse traço melancólico e, portanto, sintomatizá-lo fazendo dele mais do que posição na estrutura, ressonância do enigma de um saber não sabido – retomo, num segundo momento que por sua vez delimita a entrada em análise, o passar ao largo se associa a uma cena sexual para a qual ela diz “olha, não dei a mínima”. Essa cena traduzia sua primeira relação sexual: não lembra, entrou e saiu sem saber com quem, menos ainda para que. Esse “não dei a mínima” que a analista sublinha, permite que o sujeito recolha do tesouro dos significantes uma conjunção entre o “não dar a mínima” e o “passar de largo”. Mas o inconsciente insiste..... A questão que aparece não é “não dar a mínima”, mas o “Olha”. Na volta desse buraco uma cena com o encontro do gozo do olhar se prioriza, cena na qual um exibicionista lhe intercepta na rua, lhe da-a-ver o que escolhe como ponto de caçaolhar, e some, provocando-lhe um “ataque de angústia”. “Olha, não dei a mínima”. “Encontrei o que tanto temia: o abuso sexual”. Abuso sexual? “As vezes me incomoda o olhar do meu pai”. Eis a versão da obscenidade do pai que se desenrola por algum tempo, dando marco à sua ficção de passar ao largo que agora se torna “passar despercebida”. Ponto de fixão pulsional que liga sintoma e o objeto, promovendo as diferentes torções sucessivas dos ditos.  

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Portanto: passar ao largo se vincula com a suspeita de passar ao largo para o Outro: ele não me quer o suficiente, não lhe interesso. Passar ao largo é a interpretação em falso do que o sujeito toma da mensagem do Outro, e é o que faz com que a analizante faça da sua vida, em resposta, um passar ao largo do que quer, do que busca, do que encontra. Por outro lado “passar despercebida” lhe confronta com o enigma mais obscuro do capricho do Outro, e com sua reposta que evoca o fato de saber que a pulsão é o eco no corpo do fato que há um dizer. Primeiro tempo: as entrevistas preliminares. Estar e não estar. Segundo tempo: a entrada em análise: passar ao largo toma sua evidencia no enlace do significante com a realidade sexual, isto é, com o realidade fantasmática que enoda imaginário e simbólico, dando a essa realidade o gozo-sentido, que lhe define: jouissance. Portanto, entrada na transferência e tempo de acreditar que a fantasia tem como mira a última verdade verdadeira. Aqui se enlaça o passar despercebida. É ai que a ética do tempo do parlêtre deve ser sustentada para não esquecer que há de se fartar do significante para tocar (atingir?) o real. Fartar-se significa usar dela até o abuso, cansar-se dele. Há de se fartar da fantasia, do acúmulo de um saber que engorda o sentido, almejando atingir a última verdade, mas que fracassa na tentativa, por atingir a cada vez o furo no saber. Uma arma contra o acúmulo de sentido - o qual por sua vez é o produto da defesa contra a operação selvagem do sintoma - encontra-se no equívoco. O memso produz um corte na repetição. Porque o sintoma é da ordem do necessário, do que não cessa de se escrever. O  

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grafo demonstra a relação do sintoma com a fantasia. Se ele repete é lá, no sentido imaginário da fantasia que o analizante vai ancorar suas construções e a proliferação de sentido correspondente. Uma vez que ali o sintoma fica vizinho da mentalidade débil que enoda imaginário e simbólico. E é desde lá, também, que teremos de laborar para que não fique descansando no limbo do sentido. Por isso trata-se de, nessa proliferação de sentido, priorizar o equívoco, l´une bévue. Essa repetição do sintoma, que se define como necessário, se constata, mais uma vez na clínica quando essa mulher se implica na sua demanda e desenha o sintoma analítico com algo inusitado, um significante. Diz que outro modo de passar ao largo é sentir-se meio morta. Desse “meio-morta” se recolhe apenas uma simples falta de atenção que põe em risco seu trabalho, quotidianamente. Nesse frescor do início do trabalho analítico, retorna e traz uma lembrança infantil: “Meu pai dizia “mezzo-morto”. Com esse termo – que não existe no português – apontava quando algum paciente estava muito doente, quase morrendo, cansado, chapado. “Ele falava isso e eu ria, mas acho que ao mesmo tempo me assustava”. “Mezzomorta” é “jogar um pedaço de vida fora”, como nesses esquecimentos, lapso de atenção. Lacan, na sua Conferencia de Genebra, diz É absolutamente certo que é pelo modo como alíngua foi falada e também ouvida por tal ou qual em sua particularidade, que alguma coisa em seguida reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeços, em toda espécie de modos de dizer. É, se me permitem empregar pela

 

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primeira vez esse termo, nesse motérialisme10 onde reside a tomada do inconsciente – quero dizer que é o que faz com que cada um não tenha encontrado outros modos de sustentar a não ser o que a pouco chamei o sintoma.11 Impregnação do ser vivo pela linguagem. Mezzo-morta. Uma adolescência na qual sua

pele branca é o que carrega o brilho fálico. “Pele branca, sem sol, com olheiras, adorando passar mal para ficar com a boca branca e a pele do dedo roxa”. Adorava também a tela de Ofélia morta, Nirvana e seu CD Funeral. Isso a leva até um certo limite: bêbada de álcool, corta seu braço e termina em um psiquiatra. Tempos da sua adolescência que incluem seu pai doente de câncer. Mais um elemento: mezzo-morta estava sua mãe quando paria seus filhos. Nesse moterialismo reside a tomada do inconsciente, mezzo-morta, que se manifesta em toda série de tropeços: passar ao largo, estar desligada. Alingua não faz acervo, não acrescenta, mas impregna. O acervo, do lado do sentido, fica por conta da associação livre. Abre-se, nesse primeiro tempo que indica a iminência da entrada em análise a partir de um significante que lhe representa na história edípica, uma palavra fora do dicionário, uma palavra em equívoco. Uma palavra que contem a marca de acontecimento, mas que por sua vez, se oferta como um jogo de entrada na transferência a partir do qual a deriva do sentido – por longo tempo – haverá de vir.

                                                                                                              10

condensação de mot (palavra) e materialisme (materialismo) LACAN J. (1975). Conferência  em  Ginebra  sobre  o  sintoma.  Copiada  da  Biblioteca  do  Campo   Psicanalítico.  www.campopsicanalítico.com.br.  

11

 

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Se tivermos em mente a pergunta de como se escreve o sintoma, ou seja, do que ele opera selvagemente, poderemos privilegiar o equívoco para com ele evocar o enodamento dos gozos e incidir nos mesmos. Mas o sintoma-selvagem não se deixa dominar totalmente, ele insiste em se inscrever deixando em evidência o “Gozo opaco, por excluir o sentido”12. Por essa razão - entendo - na análise operar com a escrita pode ser ético, porque ela reduz ao máximo o sentido. Eis o modo em que temos de transformar o sintoma- selvagem em sintoma analítico. Escrever o fora sentido na erosão do máximo de sentido.

                                                                                                              12

LACAN, J. Joyce, o sintoma. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 566. LACAN, J. Prefácio à Edição Inglesa do Seminário XI. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, PP 567-569.  

 

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O Livro de Cabeceira: da escrita como sintoma ao sintoma como letra Ana  Laura  Prates  Pacheco1       Inicio   esse   trabalho   com   uma   questão   colocada   por   Lacan   no   Seminário   23:   “O   problema   todo   reside   nisso   –   como   uma   arte   pode   pretender   de   maneira   divinatória   substancializar  o  sinthoma  em  sua  consistência,  mas  também  em  sua  ex-­‐sistência  e  em   seu  furo?”  (p  38).  É  com  essa  inspiração  que  contarei  com  o  auxílio  de  um  filme  de  Peter   Greenway   (1996),   chamado   “O   livro   de   cabeceira”,   para   me   ajuda   a   transmitir   como   o   conceito   de   letra   no   último   ensino   de   Lacan   permitirá   a   reformulação   do   lugar   do   sintoma  na  clínica  psicanalítica.       Encontramos   aqui   uma   inspiração   do   cineasta   na   escrita   feminina   do   Japão   ancestral,   especificamente   na   obra   de   Sei   Shonagon   –“Livro   de   Cabeceira”   (Makura   –   nosôshi)   –   escrita   no   ano   1000.   Shonagon   era   uma   dama   da   corte   imperial   japonesa,   que   ajudou   a   criar   um   gênero   literário,   caracterizado   por   crônicas   na   forma   de   diários   íntimo.  Escrevia  vários  poemas/listas,  tais  como:  “Coisas  que  fazem  o  coração  bater  mais   forte”  ou  “Lista  de  coisas  esplêndidas”  e  experiências  eróticas.   No   filme   de   Greenway   não   há   nenhuma   pretensão   realista   como   a   do   cineasta   japonês   Nagesa   Oshima,   por   exemplo,   em   “O   império   dos   Sentidos”.   Aqui   ao   contrário,   tudo  no  filme  é  como  a  escrita  de  uma  Iluminura.  Cada  imagem,  e  mesmo  a  música,  são   cuidadosamente   desenhados,   e   emaranhados   aos   caracteres   da   língua   japonesa   e   as   outras   línguas   que   aparecem   na   tela.   Ele   comenta:   “quis   fazer   um   filme   que   unisse   o   prazer   da   literatura   e   o   prazer   da   carne.   Uma   das   coisas   que   sempre   me   fascinou   é   a   noção  de  que  as  letras  do  alfabeto  japonês  são  caracteres  e  significado  ao  mesmo  tempo.                                                                                                                   1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  –  Brasil,  Membro  do  Fórum  São  Paulo  

 

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Elas são   imagens   e   texto,   simultaneamente.   Podem   ser   lidas   como   texto   e   vistas   como   imagens”.     Ora,   a   relação   entre   o   som   e   a   letra   e   a   imagem   está   no   centro   do   interesse   de   Lacan   pela   língua   japonesa   que,   segundo   ele,   se   alimentou   da   escrita.   No   texto   que   apresentei   em   Roma   –   “A   letra   de   amor   no   corpo”   –   tratei   da   relação   da   letra   com   o   verdadeiro   e   o   real   no   último   ensino   de   Lacan.   Não   será   possível   retomar   aqui   essas   elaborações,  mas  vou  resumir  brevemente  um  aspecto  do  debate  a  respeito  do  estatuto   do   conceito   de   letra   para   Lacan,   que   será   fundamental   para   acompanharmos   meu   comentário  sobre  o  filme  “O  livro  de  cabeceira”.   Trata-­‐se  de  indagarmos  se  a  advento  do  conceito  de  letra  em  sua  especificidade,   implicaria  numa  renúncia  de  Lacan  à  tese  da  primazia  do  significante.  Ora,  no  texto  “O   carteiro  da  verdade”  (Le  facteur  de  la  verité,  1971),  Derrida  acusa  Lacan  de  pertencer  à   tradição   idealista   da   filosofia   ocidental,   que   defende   –   desde   Platão   –   o   privilégio   da   transmissão   oral   em   detrimento   da   escrita.   Se   vocês   se   lembrarem,   em   várias   passagens   do  Seminário  18,  Lacan  responde  às  críticas  de  Derrida,  bem  como  em  Lituraterra  em  A   Terceira  e  no  Seminário  24.      

Também em   seu   livro   A   Farmácia   de   Platão,   Derrida   retoma   a   distinção   entre   a   fala   e   a   escrita,   a   partir   do   Fedro   de   Platão.   Tradicionalmente   concebe-­‐se   esse   diálogo   como  uma  condenação  da  escrita,  feita  por  Sócrates  contra  os  sofistas.  Platão  retoma,  no   Fedro,  um  debate  entre  os  oradores  da  época,  a  respeito  da  soberania  da  oralidade  ou  da   escrita  na  possibilidade  de  transmissão  da  verdade.  Em  Fedro,  Sócrates  conta  para  seu   discípulo  o  mito  do  deus  Theuth,  que  levou  a  escrita  para  o  rei  Thamous  do  Egito.  Esse   lhe   pede   que   declare   a   utilidade   de   tal   descoberta:   “um   conhecimento   (máthema)   que   terá   por   efeito   tornar   os   egipcios   mais   instruídos   e   mais   aptos   para   rememorar:   memória  e  instrução  ganham  seu  remédio  (phármakon).  Responde  Thamous:  “Tal  coisa   tornará  os  homens  esquecidos,  pois  deixarão  de  cultivar  a  memória  (...).  Transmites  uma  

 

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aparência de  saber,  e  não  a  verdade”.2    Com  esse  mito,  Sócrates  tenta  convencer  Fedro   de  que  não  se  pode  chegar  ao  justo,  o  bom  e  o  verdadeiro  pela  via  da  escrita,  já  que  ela   vaga  sem    pai,  indiscriminadamente.  A  memória,  para  Platão,  é  a  compreensão  viva  da   alma.   Assim   “só   há   sabedoria   na   alma   e   nunca   em   escrituras”.   Daí   a   supremacia   do   conhecimento   oral   (verdadeiro)   em   detrimento   da   escrita   (aparência).     Ao   mesmo   tempo,  o  lógos  é  tratado  como  um  corpo  vivo:  “ter  um  corpo  que  seja  o  seu”.         Derrida   retoma   esse   mito   platônico   apresentado   no   Fedro   fazendo   uma   crítica   à   tradição   platônica   ocidental   que   preconizaria,   segundo   seu   argumento,   a   irredutibilidade  do  significante  e  sua  primazia  em  relação  à  escrita.  Pode-­‐se  perceber  a   presença   constante   de   Lacan   como   referência   oculta,   nesse   livro.   Tomando   como   eixo   uma   análise   minuciosa   da   escrita   como   Pharmakón   (   a   um   só   tempo   veneno   e   remédio),   Derrida   inverte,   entretanto,   seu   sinal,   apontando   positividades   exatamente   ali   onde   Platão  encontrava  seus  inconvenientes.    Por  exemplo,  na  “ausência  de  pai”  na  escritura  e   sua   presença   na   fala.   Lacan   é   acusado   por   Derrida   de   “formalismo   estruturalista”.   Há   uma   belíssima   resposta   de   Lacan   a   respeito   da   diferença   entre   forma   e   estrutura,   apresentado  em  uma  conferência  proferida  na  Bélgica  em  26  de  fevereiro  de  1977,  que   deixo  aqui  apenas  indicado.   Proponho,  entretanto,  como  contraponto,  outra  leitura  do  Fedro  mais  coerente  com   Lacan,   que   destaca   a   escrita   como   ikhnos,   o   sinal,   as   pegadas,   as   pistas   de   caminhos   já   trilhados,   de   diálogos   vivos   que   forjaram   modos   de   ser3.   Essa,   me   parece,   é   a   dimensão   que   Lacan   almeja   dar   à   escrita:   nem   o   simulacro   do   corpo   imagem,   nem   o   verdadeiro   incorpóreo,   nem   mesmo   a   experiência   do   corpo   como   substância   gozante   da   lalíngua,   mas  a  dimensão  de  cifra  dessa  experiência  de  gozo.  É  do  sintoma  como  letra  que  se  trata,   na   minha   leitura,   o   filme   “O   livro   de   cabeceira”.   Há,   evidentemente,   várias   leituras   possíveis,   especialmente   para   um   filme   complexo   como   esse,   mas   tomarei   a   “licença   poética”  de  tomá-­‐lo  como  um  caso  clínico  e  dividi-­‐lo  em  alguns  recortes:                                                                                                                       2 3

 

Platão.  Fedro.  Martin  Claret,  p.  119    Reis  Pinheiro,  M  “Fedro  e  a  escrita”.  In:  Anais  de  filosofia  clássica,  vol.2  n.  4,  2008  

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1º. recorte:   O   sintoma   que   opera   de   modo   selvagem:   do   contingente   ao   necessário:        

Trata-­‐se, inicialmente,  da  letra  no  corpo  como  marca  do  gozo,  e  suas  conseqüências   fantasmáticas.   Nagiko,   a   personagem   do   filme,   é   criada   com   uma   cena   que   se   repete   desde  a  mais  tenra  infância,  no  dia  de  seu  aniversário:  o  pai  escreve  os  seguintes  dizeres   em  seu  corpo:  Quando  Deus  fez  o  primeiro  modelo  em  barro  de  um  ser  humano,  Ele  pintou   os   olhos,   os   lábios   e   o   sexo.   Depois,   Ele   pintou   o   nome   de   cada   pessoa   para   que   o   dono   jamais   esquecesse.   Se   Deus   aprovou   sua   criação,   Ele   trouxe   à   vida   o   modelo   de   barro   pintado,  assinando  seu  próprio  nome.  Ao  mesmo  tempo,  a  mãe  ouvia  na  vitrola,  e  cantava,   em  mandarim,  o  disco  que  escutava  quando  conheceu  seu  pai.  A  tia  lia  para  ela,  antes  de   dormir,  o  livro  de  cabeceira  de  Shonogan.    Aos  4  anos,  Nagiko  vê  uma  cena  sexual  entre   o   pai,   um   escritor,   e   seu   editor   chantagista:   cena   fantasmática   que   cristaliza   sua   posição   a  um  só  tempo  excluída  e  identificada  à  posição  masoquista  do  pai  diante  do  editor:  mito   familiar   do   neurótico.     Aos   6   anos,   jura   que   terá,   um   dia,   seu   próprio   “Livro   de   Cabeceira”.   Vemos,   então,   que   o   gozo   da   lalingua   materna,   a   letra   que   cifra   esse   gozo,   a   produção   das   primeiras   identificações   e   a   verificação   fantasmática   estão   presentes.   Como  afirma  Lacan  na  aula  de  21/01/1975  do  Seminário  RSI,  o  sintoma  é  a  função  do   sintoma,   no   sentido   matemático.   E   o   x   da   função   “é   o   que,   do   Inconsciente,   pode   ser   traduzido   por   uma   letra”.   Mas,   segundo   Lacan,   “qualquer   um   é   suscetível   de   se   escrever   como   letra”.   Da   contingência   da   cifra   de   “qualquer   um   que   para   de   não   se   escrever”,   entretanto,   opera-­‐se,   de   modo   selvagem,   como   ele   ensina,   algo   que   passará   para   a   modalidade   lógica   do   necessário:   “o   que   não   cessa   de   se   escrever”.   No   caso   de   nossa   personagem,  é  a  própria  escrita  no  corpo  que  ocupa  o  lugar  do  x  na  “função  sintoma”.       •

2º. Recorte:   A   fantasia:   essa   cadeia   indefinida   de   significações   que   se   chama   destino:    

 

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O filme   mostra,   então,   a   escrita   do   destino,   ou   seja,   a   verdade   mentirosa   de   Nagiko   na   tentativa   de   salvar   o   pai   da   humilhação   diante   do   editor.   O   primeiro   marido   é   escolhido   pelo   editor   do   pai,   numa   “troca   de   favores”   aos   moldes   daquela   suposta   por   Dora   entre   seu   pai   e   o   Sr.   K.   Trata-­‐se   de   um   praticante   de   arco   e   flecha,   incapaz   de   reconhecer   o   valor   da   literatura   e   da   escrita   que   é   vital   para   Nagiko.   Na   ausência   do   pai,   ela   tenta   escrever   a   saudação   ritualística   dos   aniversários   no   espelho.   Seu   “Livro   de   cabeceiras”   é   repleto   de   listas   negativas.   O   marido,   inconformado,   incendeia   seus   escritos.  Os  papéis  são  queimados,  mas  a  “substância  gozante”  resiste  ao  fogo.     O  pai,  humilhado  e  subjugado  pelo  editor,  acaba  por  cometer  um  suicídio  ritual.   Nagiko   foge   então   para   Hong   Kong   e,   para   manter   a   tradição   do   pai,   obstina-­‐se   em   encontrar,  nos  seus  amantes,  o  calígrafo  ideal,  fazendo  de  seu  próprio  corpo,  o  papel.  O   que  importa  para  ela  é  o  ato  da  escrita,  a  caligrafia  em  si:  “a  palavra  significando  chuva   deveria   cair   como   chuva.   A   palavra   significando   fumaça   deveria   cair   como   fumaça”.   Nagiko  repete  o  destino  paterno,  fazendo-­‐se  de  objeto  de  troca  sexual,  recebendo  como   “mais  de  gozar”  a  escrita  em  seu  corpo.   Aqui,   evidencia-­‐se   a   montagem   fantasmática   do   tipo   histérico,   sustentando   o   “pai   castrado”  pela  via  do  sintoma.  Sintoma  que  desafia  o  discurso  do  Mestre,  na  medida  em   que  extrai  o  gozo  como  mais  valia  da  suposta  exploração  do  Outro.  Sintoma  metáfora  –   que   em   sua   vertente   significante   seria   passível   de   decifração,   na   medida   em   que   substitui   o   irredutível   da   fantasia   fundamental   –,   mas   que   desliza   metonimicamente   enquanto  tenta  correr  atrás  da  “cadeia  infinita  de  significações”.   •

3º. Recorte:  Ser  Sintoma  e  devastação     Ocorre,   então,   nova   contingência,   e   Nagiko   encontra   o   amor.   Se,   entretanto,   o  

encontro é   contingente,   o   que   produz   uma   retificação   subjetiva   é   da   ordem   do   ato.   Jerome  se  recusa  a  ocupar  o  lugar  de  Outro  expropriador.  Ele  não  se  interessa  pela  troca   que   ela   lhe   oferece.   Embora   ele   conceda   em   escrever   em   seu   corpo   a   saudação   ritualística  paterna,  propõe-­‐lhe,  em  contraponto,  uma  inversão  dialética:  que  ela  passe  a      

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escrever em  seu  corpo.  Podemos  supor  aqui  uma  passagem  da  ordem  do  ter  um  sintoma   como  f(x)  a  ser  o  sintoma  de  um  homem.     Agora,   a   partir   da   convocação   de   Jerome,   é   ela   quem   passa   a   escrever   em   seu   corpo:  “Trate-­‐me  como  a  página  de  um  livro”.  E  ela  lhe  responde:  “Agora,  serei  o  pincel,   não  só  o  papel”.  A  inversão,  entretanto,  não  se  dá  sem  certa  escroqueria,  certa  trapaça,   como   brinca   Lacan   em   1977.   Nagiko   trama   um   plano   no   qual   usará   o   amante   para   vingar-­‐se  com  editor.  Ele,  literalmente,  empresta  o  corpo  para  portar  a  letra/carta  que   interpelará   o   Outro   obsceno   na   fantasia.   O   plano   consiste   em   que   Jerome   se   torne   amante   do   editor,   e   seduza-­‐a   através   da   escritura   do   “Livro   de   Cabeceira”   de   Nagiko   em   seu  corpo.  Não  é  o  corpo  de  Jerome  que  é  o  fetiche  do  editor,  mas  a  letra  ali  desenhada:   “O  aroma  do  papel  em  branco  é  como  o  aroma  da  pele  de  um  novo  amante”.  Seriam  13   os  livros/poemas  escritos  no  corpo  do  amante.   Quem  é,  entretanto,  enganado  no  “jogo  do  amor”?  Para  a  mulher,  o  homem  pode   ser   uma   devastação.   Tomada   pelo   ciúme,   Nagiko   rompe   com   Jerome   e   passa   ao   ato,   voltando  a  seus  amantes.  Ainda  jogando  com  semblantes,  Jerome  decide  simular  a  cena   de   Romeu   e   Julieta   que,   entretanto,   torna-­‐se   real.   Jerome   morre   envenenado   com   a   tinta   usada   por   sua   amada   para   escrever   em   seu   corpo.   Eis   a   face   veneno   do   pharmakon..   Numa   das   cenas   mais   fortes   do   filme,   o   editor   rouba   o   cadáver   de   Jerome,   e   tira   a   sua   pele  para  fazê-­‐la,  literalmente  de  papel.  As  vísceras  e  outros  pedaços  de  carne  vão  para  a   lixeira.  Incrível  transmissão  em  linguagem  cinematográfica,  do  que  Lacan  nos  ensina  em   Radiofonia:  nada  melhor  para  representar  o  corpo  simbólico  do  que  o  cadáver.   •

4º. Recorte:  A  queda  do  Outro  e  a  identificação  do  Sintoma    Mas,   para   além   do   verdadeiro   incorpóreo,   há   substância   gozante.   E   quanto   ao  

gozo cifrado  no  sintoma,  é  preciso  com  isso  se  virar,  ou,  como  diz  Lacan,  “usar  isso  até   atingir   seu   real,   até   se   fartar”.   (p.16)   No   filme,   o   “uso   lógico”   de   Nagiko   é   aquele   necessário  para  fazer  cair  o  Outro  instituído  na  personagem  do  editor.  Através  da  escrita   de   13   livros,   nos   corpos   de   sucessivos   amantes,   Nagiko   consuma   seu   destino   de      

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vingança no  último  livro:  “O  livro  dos  mortos”.  Enterra,  então,  o  livro  feito  com  a  pele  do   amante  e  pode  se  separar  de  seu  destino  fantasmático.     O   filme   acaba   em   seu   28º.   Aniversário,   quando   o   “Livro   de   cabeceira”   de   Shonagon  completa  1000  anos.  Nagiko  diz:  “agora  posso  escrever  meu  próprio  Livro  de   cabeceira”.   Na   vitrola,   toca   a   música   em   mandarim   cantada   por   sua   mãe.   Segurando   nos   braços   seu   filho,   ela   escreve,   em   seu   corpo,   os   mesmos   dizeres   do   pai.   Como   afirma   Lacan:  “não  há  relação  sexual,  a  não  ser  entre  gerações”.     Há   alguns   comentadores   desse   filme   que   vêem   nesse   final   a   confirmação   da   idéia   de  Derrida  de  que  a  escrita  é  mais  verdadeira  porque  pode  prescindir  do  pai.  Eu  prefiro,   com  Lacan,  entendê-­‐lo  pela  via  da  identificação  ao  sintoma:  “sintoma  como  aquilo  que  se   conhece   melhor”   (Sem   24).   Ou,   em   outras   palavras,   tornar   o   gozo   possível   através   da   emenda  entre  ser  sinthoma  e  o  real  parasita  de  gozo  (Sem.  23.  p.  71).     Para   mim,   o   que   “O   Livro   de   cabeceira”   ensina   é   que   é   possível   separar-­‐se   do   sentido   da   fantasia.   E   quanto  ao  Pai,  fiquemos  com  Lacan:  “Por  isso  a  psicanálise,  ao  ser  bem  sucedida,  prova   que   podemos   prescindir   do   Nome-­‐do-­‐Pai.   Podemos   sobretudo   prescindir   com   a   condição  de  nos  servirmos  dele”.  (Sem.  23,  p.  132).              

 

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A Satisfação do Final de Análise Antonio Quinet1

A satisfação própria ao final de análise é o tema que escolhi ao iniciarmos o cartel 1 do passe que agora completa dois anos. Essa satisfação, que como tal é uma forma de manifestação do real, pode ser apreendida no dispositivo do passe? Eis uma pergunta difícil de ser respondida, porque o passe é um dispositivo de fala, que é portanto sustentado pelo simbólico da linguagem. Existe uma aporia da transmissão do ato analítico, que estruturalmente se baseia na dificuldade de fazer passar algo de real pela via do significante. No entanto, algo dessa satisfação se deixa apreender e passa para o cartel conforme apontei no último Wunsch. A referência de Lacan, extremamente sucinta, que orientou nosso cartel do passe, é a do Prefácio da edição inglesa do seminário 11 onde escreve sobre uma satisfação específica: a satisfação do final de análise. Aliás, ela não só é específica desse momento da análise, como também ela é “a marca” do final.2 Trata-se de uma satisfação do analisante distinta da satisfação do sintoma. O sintoma é uma forma de satisfação pois a pulsão se satisfaz no sintoma e isso desde o início quando o sujeito chega com o seu sintoma satisfeito, porém, insatisfeito com a satisfação que o seu sintoma lhe provoca. Quando ele entra em análise ele fica satisfeito com a decifração e com o processo analítico. É a satisfação da associação livre, do descobrimento dos fatos,                                                                                                               1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐  Brasil,  Membro  do  Fórum  Rio  de   janeiro   2  Jacques Lacan, Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.p. 568.

 

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dos ditos, das fantasias e sua articulação com a cadeia significante da sua história. A satisfação analisante se situa no lado da busca da verdade, é a satisfação do gaio saber. Este é o gozo do deciframento, satisfação relativa ao saber extraído da associação livre. Le gai savoir é uma referência de Lacan em Televisão, à poesia provençal, do tema do amor cortês, para indicar o manejo significante da língua poética. Em análise corresponde à descoberta do inconsciente poeta, espirituoso, brincalhão que rola e deita e pula na cama elástica da língua. O saber que se elabora na associação livre arranca o sujeito da tristeza, pois ele reencontra o fio de seu desejo que estava extraviado. Essa satisfação de um saber alegre, com brincadeiras de linguagem, vai até o final da análise. Em nosso cartel do passe, constatamos vários tipos de satisfação que o analisante experimenta que podem ocorrer durante uma análise a começar pela satisfação terapêutica que corresponde ao alívio do sofrimento. Em termos freudianos podemos dizer que se trata de uma satisfação ligada ao princípio do prazer, liberação da “libido ligada”. Ela pode ocorrer quando do desaparecimento de certos sintomas e também quando sobrevém momentos de desalienação do Outro, ou seja, a partir do momento em que o analisante não se sente mais submetido a certos ditos das pessoas que ocuparam para ele o lugar do Outro, num exemplo de passe, o sujeito que não é mais submetido aos ditos inferiores do Outro materno sobre seus órgão genitais. A separação desses significantes operou uma redução na satisfação do supereu quando o sujeito pôde dizer não aos imperativos mortificadores do Outro. Em outros termos, podemos localizar aqui a satisfação como alívio de desidentificação, que não se dá apenas uma vez, mas ao longo da travessia da análise, sendo que o sujeito às vezes – mas nem sempre – pode localizar no tempo seus efeitos. A satisfação ao longo da análise é também a  

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satisfação da suspensão das inibições e da atenuação da angústia, como por exemplo, num caso de passe quando da queda do objeto olhar. No Prefácio, Lacan situa o inconsciente no registro do real, sob a forma de satisfação, em oposição à verdade: “a miragem da verdade da qual só pode se esperar a mentira, não tem outro limite senão a satisfação que marca o fim da análise”3. Esse fim é, portanto, marcado por um “Estou satisfeito com essa verdade! Mesmo que não seja lá muito verdadeira, tá bom! Chega! Não quero mais verificar a veracidade da verdade.” Isso coloca um fim à historisterização – termo que aponta para o caráter fictício da verdade - que o analisante faz de sua vida, que pode ser comparado ao próprio processo analítico. É também neste texto que Lacan define o passe como a historisterização da análise – a não confundir com a historisterização da vida que é efetuada na análise. Alguns passantes e mesmo alguns passadores acham – como pude constatar - que o dispositivo do passe é o lugar de um resumo da historisterização da vida, mas não é o que Lacan esperava do passe. Às vezes um testemunho é feito mas sobre o que ocorreu na vida do sujeito do que o que foi sua análise. Nesses casos fica difícil o cartel do passe poder constatar algo de seu final, pois não foi possível apreender o fio condutor de uma análise e sua relação com as mudanças na vida do sujeito. No passe trata-se da historisterização da análise e a transmissão daquilo que permitiu ao passante ser analista. Nos dois casos de passe em que houve nomeação foi possível se apreender a estrutura e a solução da neurose apresentada no final da análise e assim como a relação dessa solução com momentos cruciais ao longo da análise e repercussão desses na vida do sujeito “O passe, diz Lacan, é a verificação da                                                                                                               3

 

Jacques Lacan, Outros Escritos, op. cit, p. 568.

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histohisterização da análise abstendo-me de impor esse passe a todos, porque não há a todos no caso, mas esparsos disparatados”. Essa expressão de Lacan aponta que os analistas não fazem um todo, a Escola não toda

. Não é um Outro

reconstituído para o analisante (como se chegou a propor explicitamente na AMP) que se deparou com a falta do outro em sua análise. O dispositivo do passe não constitui a Escola como um conjunto, nem a instituição que a sustenta – somos uma coleção de “esparsos disparatados”. Cada passante privilegia um aspecto em sua historisterização da análise assim como também encontramos várias indicações no ensino de Lacan do que pode acontecer no final da análise: a travessia da fantasia, a queda do objeto a, o encontro com a inconsistência do Outro, a identificação com o sintoma, etc. O mais difícil é não nos deixarmos influenciar por essas indicações – e isso vale tanto para os passantes, quanto para os passadores e para o cartel do passe – para não distorcermos o passe e o transformarmos numa verificação de determinados padrões de final de análise. O passe aponta justamente para o oposto disso: é um anti-padrão radical. Quando Lacan diz historisterização – vale lembrar - também é o caso a caso também: cada um o fará de sua maneira, privilegiando alguns aspectos de sua análise e não evidenciando outros. A histohisterização é forçosamente não toda. Não se trata de uma elaboração da análise, que cabe mais ao cartel do passe, que é o júri, do que propriamente falando ao passante, e muito menos do passador. É um problema quando o passador passa a teorizar pois pode, assim impedir a passagem do testemunho do passante até o cartel do passe.

 

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“Deixei à disposição, diz Lacan, para testemunhar da melhor maneira possível sobre a verdade mentirosa”. Ao falar sobre verdade mentirosa, não há uma desqualificação da verdade. É uma constatação: não se pode distinguir totalmente a verdade da mentira. O sujeito testemunha dessa verdade mentirosa. Ele sabe que a verdade é mentirosa mas não deixa de ser verdade. Trata-se daquilo do qual o passante foi constituído a partir dos significantes do Outro e a partir dos quais você fez a suas escolhas, ou seja, aquilo que os gregos chamavam de destino, no qual o sujeito é mais falado do que fala, mais agido do que age, etc. Considerar o destino como uma verdade mentirosa já é uma forma de você se desalienar do Outro, lá onde está inscrita sua história verdadeira, que no entanto, mente – ela mente sobre o que é o ser. O que interrompe a busca da verdade na análise não é o esgotamento ou cansaço e sim o que é da ordem da satisfação. É o momento em que há transformação da valência do gozo, do gozo que faz sofrer ao gozo que faz fruir. É você passar do gozo trágico ao gozo do entusiasmo – afeto lacaniano imprescindível ao analista. É uma satisfação – que é uma satisfação de fim – que marca um corte na satisfação da transferência, na medida em que a busca da verdade está vinculada à satisfação que o amor de transferência promove. O amor de transferência trás uma satisfação: a busca da verdade se dá sob o signo de Eros, nos desfilamentos do desejo suportada pela demanda de amor que sempre encontra seus sinais de reciprocidade. Para o sujeito abrir mão dessa satisfação amorosa, ela deve encontrar uma outra satisfação. Há uma perda do sofrimento promovido pela análise ao transformar como diz Freud a infelicidade numa miséria banal. Quando se faz essa passagem há uma diminuição do valor do sofrimento, mas não é uma mudança: você continua com a miséria, apesar de ela  

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estar banalizada. A satisfação de fim não é a redução do sofrimento que acompanha a redução do sintoma, como propõe Lacan no que concerne a operação analítica sobre este. Ela é outra coisa, ela marca uma mudança de comutador, ela não é vinculada a alienação significante, e sim à separação em relação ao Outro. Em um caso de passe, o cartel detecta uma frase do testemunho que aponta para

uma

conclusão

de

final

de

análise:

“Eu

sou...”,

definição

de

de-cisão do ser. Esta afirmação foi possível a partir de uma autorização de gozo não mais acompanhada do afeto da vergonha. O sujeito saiu da posição de ser o objeto da vergonha do Outro materno. Essa satisfação corresponde ao “saldo cínico” do gozo permitido4, ou seja, sem o Outro. Neste caso, o efeito no gozo se vincula à pulsão escópica: houve um esvaziamento do gozo do olhar, que se expressa em uma fórmula significante criada, pelo sujeito, na qual ele indica não estar mais na mira do Outro. Em outro caso de passe, a satisfação que marca o fim é vinculada à criação, a uma invenção própria do sujeito e, como tal, desvinculada dos significantes do Outro paterno, aos quais ele se encontrava subjugado. Algumas operações significantes efetuadas pelo sujeito atestam a presença do fio condutor da análise até sua conclusão final. Assim foi possível averiguar a travessia do sujeito em relação à voz do Outro do qual ele se separa. A mudança da valência de gozo se vincula neste caso à pulsão invocante e à queda do objeto voz. No início do Seminário 20, Lacan se refere à satisfação do seu “não querer nem saber”, que é a própria expressão do recalque. O inconsciente vai evidentemente continuar se manifestando, como nossos AE nos mostraram ao                                                                                                               4

 

Jacques Lacan, 1967.

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relatarem suas formações do inconsciente em Roma e Fortaleza – lapsos e sonhos durante o procedimento do passe. O sujeito sabe que ele não disse tudo, mas está satisfeito não apenas com o que já disse e a que chegou mas também está satisfeito com seu recalque. “É somente, diz Lacan, quando o seu (“não quero nem saber”) lhe aparece como suficiente que você... se destaca normalmente de sua análise”.5 O “suficiente” corresponde aqui ao que é o satisfatório do final de análise, a um “é suficiente, estou satisfeito” – satisfação do saber adquirido, mesmo sabendo que resta a saber... e, no entanto, está bem assim. E o sujeito deixa de estar insatisfeito com o que sabe e sai contente com isso. Quer também dizer que você está satisfeito com seu sintoma, ou seja, sua maneira de gozar do inconsciente, até para saber lidar com ele de uma maneira que não seja sofrimento. A análise pode chegar “ao ponto em que o bem-dizer satis-faça”.6 Eis uma satisfação de fim de análise: ela é relativa ao manejo da língua como bem-dizer que satisfaz o sujeito em se dizer (“eu sou...”) ou dizer seu sintoma (forma de gozo). Nesse termo de Lacan, encontramos também o fazer que nos remete ao saber fazer com o sintoma. Quando o sujeito está no processo analítico ele está no “não basta” e sempre procura um dizer melhor, um dizer a mais que responda a esse “não basta”. No final de análise o bem-dizer que satisfaz permite o “Basta!”, ou melhor dizendo, ele produz esse “Basta” cuja satisfação marca o final de análise. O bem dizer do seu sintoma não ocorre sem a histohisterização que dá conta da história do seu sintoma, da sua fantasia, das ficções secretadas pelo inconsciente durante a análise, até que se chega ao bem-dizer do lado do sintoma, ao lado de um satisfazer. Essa satis-fação, é da ordem do real, de uma satisfação no fazer. Trata-se de                                                                                                               5 6

 

Jacques Lacan, Seminário 20, Seuil, p. 9.    Jacques Lacan, “...Ou pire”, Autres écrits, p. 551.  

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um fazer com seu sintoma. Essa satisfação do fazer podemos aproximá-la do que diz Freud do que se espera de uma análise: poder amar e trabalhar. Parece pouco? Mas é muito! Eis um fazer do real que satisfaz e pode por um fim à busca da verdade que é sempre mentirosa. A satisfação de final de análise está para além daquilo que caracteriza o desejo inconsciente sempre insatisfeito ávido de significantes, guloso de instrumentos de gozo: colares, amantes, carros e ... saber. O fala-a-ser cambia seu gozar – este novo gozar é um gozar desvinculado do gozo (suposto) do Outro. A queda do sujeito suposto gozar é a condição da satisfação do final de análise. Não se trata da promessa de um gozo-todo destinado necessariamente à decepção, ou seja, não se trata de um empuxe-ao-gozo, e sim de um gozo que leva em conta a castração, um gozo castrado. Entretanto é um gozo que satisfaz – é um gozo satisfatório, permitido, em o Outro. A satisfação de fim confere ao gozo uma coloração e vivacidade que se opõem ao negror e a mortificação da relação do significante com o gozo tanto na carne quanto na mente. Essa satisfação tem várias vertentes: - a vertente que acompanhou a travessia da análise e o desaparecimento do sofrimento do sintoma, da suspensão da inibição e da atenuação da angústia, como testemunhou Sílvia Franco em seus depoimentos públicos. - a vertente que diz respeito á sexualidade:- o sujeito está satisfeito com sua maneira de gozar sexualmente – é o que pudemos verificar a partir do testemunho dos passantes. Ele não está mais nem na insatisfação nem na impossibilidade e nem na metonímia desvairada de transar com todo mundo. O sujeito pode enfim consentir com um modo de gozar outrora recusado ou desconsiderado. Essa    

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vertente da satisfação sexual é extremamente variável, mas ela sempre traz a paz. Final da guerra: guerra dos sexos, guerra consigo mesmo. Evidente que é uma paz que não impede nem a batalha nem de ir à luta! - vertente do saber. Depois de várias voltas em sua história, recordações, fantasias e heranças tendo sido transformadas em sua história, ou seja, após a historisterização de sua vida e de seu lugar na genealogia, o sujeito se dá por satisfeito. Ele se dá por satisfeito com o saber construído e satisfeito com a indecidibilidade de sua verificação. Ele se dá por satisfeito com a elaboração do saber sobre seu sintoma e de seu limite – seu não-querer-saber. - vertente de lalíngua. Nos passes que escutamos no nosso cartel, pude constatar a satisfação linguageira correspondente ao inconsciente como uma elucubração sobre lalíngua. Esse inconsciente lalinguageiro é um trabalhador incansável, como o define Lacan. Esse trabalho – Arbeit – termo tantas vezes empregado por Freud – não é um trabalho forçado, como o trabalho de luto, penoso, sofrido. O trabalho de lalíngua é – digamos – afreudisíaco! Nesse significante podemos escutar aí também o gozo dionisíaco. E onde se pode verificar esse gozo é na letra do sintoma – a maneira como cada um goza “lalinguamente” de seu inconsciente.

 

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MESAS SIMULTÂNEAS                  

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“Fazer uma Escolha ou Permanecer na Dúvida?” Rainer Melo1

"No te  puedo  compreeender,  corazón  loco,   yo  no  puedo  compreender  como  se  puede  querer  dos  mujeres  a  la  vez  y  no  estar  loco,   merezo  una  explicacion  porque  es  impossible  seguir  con  las  dos".                                                                        (Corazón  Loco  -­‐  Bebo  Valdez  y  Diego  Cigala)  

O caso   que   ilustra   este   trabalho   é   de   um   sujeito   (42),   casado   há   22   anos,   que   chega   à   análise   queixando-­‐se   de   intenso   sofrimento,   atormentado   pela   dúvida   em   relação   à   sua   divisão   entre   duas   mulheres   que   ama,   cada   uma   diferente,   perdido   na   impossibilidade   da   escolha.   Uma,   é   esposa   e   mãe,   representa   segurança;   a   outra   é   a   mulher,  amor  proibido,  a  possibilidade  de  arriscar.   O   caso   retrata   a   dúvida   sistemática,   metódica   e   estrutural   do   sujeito   que   se   exprime   na   vida   amorosa,   a   impossibilidade   de   decidir   entre   a   esposa   e   a   outra,   ou   seja,   a  divisão  subjetiva  exprimindo-­‐se  na  divisão  do  objeto  de  amor.  O  problema  da  divisão   subjetiva  estaria  facilmente  solucionado  se  o  sujeito  fizesse  a  escolha.  A  ironia  consiste   no  fato  de  um  homem  possuir  duas  mulheres  e,  no  entanto,  continuar  insatisfeito.   Freud1  afirma:  “A  linguagem  de  uma  neurose  obsessiva,  ou  seja,  os  meios  pelos   quais   expressa   seus   pensamentos   secretos,   presume-­‐se   ser   apenas   um   dialeto   da   linguagem   da   histeria   (...)”   Continua:   “A   variante   da   neurose   histérica   é   a   neurose                                                                                                                   1

Psicanalista membro da EPFCL/ AFCL. Psicóloga. Licenciatura em Psicológia CES/ JF) Pós-Graduação em Psicanálise (CES/JF).

 

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obsessiva”2. É   um   pensamento   contínuo,   em   que   há   uma   satisfação   libidinal,   uma   copulação   de   significantes.   As   idéias   obsessivas   que   vêm   sem   cessar,   os   rituais,   são   para   evitar  que  pense.  O  sujeito,  para  entrar  em  análise,  é  necessário  entrar  para  o  discurso   histérico,  ou  seja,  o  sujeito  precisa  ser  histerizado.   Caso  Clínico   O   sujeito   se   apresenta   queixando-­‐se   de   se   sentir   dividido   entre   sua   esposa,   de   origem   tradicional   e   rica,   e   uma   mulher   jovem,   de   família   simples   e   pobre,   ambas   inteligentes  e  bonitas.  A  primeira  representa  o  aconchego  familiar,  mãe  de  seus  filhos  e   companheira  de  22  anos.  A  outra  representa  o  novo,  o  desafio,  o  proibido.  Ama  as  duas,   não  consegue  saber  qual  a  preferida,  pois  ama  cada  uma  de  forma  intensa.     Teme   fazer   uma   escolha   e   arrepender-­‐se.   As   duas   cobram   uma   posição   que   não   consegue  assumir,  fica  dividido,  mente  a  ponto  de  confundir  o  que  é  sua  verdade.  Fica   em   circuito   fechado   do   qual   não   consegue   sair,   mas   essa   é   uma   estratégia   que   utiliza   para  manter  seu  desejo  impossível  sem  fazer  uma  escolha.  É  a  forma  de  estar  sempre  em   outro   lugar   para   não   correr   risco.   “O   obsessivo   usa   a   manobra   covarde   de   não   correr   riscos,  eximindo-­‐se  de  seu  desejo;  se  ele  não  arrisca  não  goza,  e  o  gozo  do  qual  se  priva  é   transferido  ao  outro  imaginário,  que  assume  como  gozo  do  espetáculo”3.   Carmen   Gallano4   destaca   que   “a   análise   é   o   lugar   onde   o   obsessivo   pode   se   desprender  de  seus  pensamentos,  histerizar-­‐se,  passando  pelo  discurso  histérico.”          

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Constelação Familiar   Lacan  defende  que  a  constelação  do  sujeito  é  formada  na  tradição  familiar  pela   narração   de   certo   número   de   traços   que   especificam   a   união   dos   pais.   A   constelação   originária   que   presidiu   ao   nascimento   do   sujeito,   ao   seu   destino,   quase   à   sua   pré-­‐ história,   as   relações   familiares   fundamentais   que   estruturam   a   união   dos   seus   pais   mostram   ter   relação   precisa   e   definível   com   o   que   aparece   como   sendo   o   mais   fantasmático  do  cenário  imaginário  ao  qual  chega  como  solução  da  angústia.   O   sujeito   (Paul)   vem   de   família   tradicional.   O   pai,   filho   de   imigrantes   que   fizeram   fortuna,   é   professor   universitário   e   empresário.   A   mãe,   fina   e   educada,   pertence   a   uma   família   tradicional,   rica   e   de   prestigio.   Quando   jovem,   o   pai   do   sujeito   também   ficara  dividido  entre  duas  mulheres,  preferindo  escolher  aquela  que  lhe  desse  prestigio   na   sociedade.   Esse   pai,   homem   educado,   mas   autoritário,   impunha   suas   decisões   que   eram   acatadas   pela   mulher.   O   sujeito   sempre   ouviu   de   sua   mãe:   “A   família   tem   de   ser   preservada  e  deve  ficar  acima  de  qualquer  interesse”,  dito  materno  que  o  sujeito  sempre   traz   para   sua   análise   e   lhe   provoca   culpa,   conflitos   e   dificuldades   nas   suas   decisões.   Observa  que  as  duas  mulheres  com  as  quais  se  relaciona  são  como  o  pai,  autoritárias,  e   lhe   provocam   medo,   afirma   ter   “medo   delas   como   do   pai.”   A   lembrança   das   atitudes   autoritárias   do   pai   é   trazida   para   a   análise,   como   no   sonho   que   o   sujeito   relata,   dividido   em   três   níveis:   No   primeiro   nível,   no   quintal   de   sua   casa,   há   um   lugar   proibido   para   brincar.   Mesmo   com   hesitação,   consegue   ultrapassar.   No   segundo   nível,   vê   surgir,   numa   espécie   de   névoa,   um   homem,   uma   mulher   e   duas   crianças.   Tenta   tocar   o   homem,   que      

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lhe diz:  Você  não  pode  ultrapassar  o  limite  e  me  tocar.  Sente  calafrio,  obedece  e  não  se   aproxima.   Desse   segundo   nível,   vê   o   terceiro   nível   cercado   em   fogo,   faz   o   sinal   da   cruz   e   o  medo  se  esvai.  Nas  associações,  o  pai  autoritário  e  o  temor,  a  lembrança  dos  castigos   impostos.  Em  um  deles,  Paul  recusava  determinado  alimento.  Todos  estão  à  mesa,  o  pai   se  levanta,  coloca  o  rosto  da  criança  dentro  do  prato  e,  em  seguida,  o  deixa  de  pé  como   castigo,   o   rosto   sujo,   olhando   todos   à   mesa,   paralisado.   Perguntado   sobre   a   reação   da   mãe  nessas  ocasiões,  responde  que  ela  nunca  interferia  nas  atitudes  do  pai.  Os  ditos  da   mãe  estão  sempre  consigo,  afirma.     O  obsessivo  se  mortifica,  coloca-­‐se  no  lugar  da  falta  do  Outro,  é  uma  forma  de   salvar  o  Outro.  Não  só  como  a  castração  da  mãe,  mas  a  inconsistência  dos  ditos  da  mãe.     Não   pode   pedir   nada,   para   não   mostrar   a   sua   falta,   diferentemente   da   histérica   que   demanda   sempre.   Se   o   obsessivo   mostra   a   falta,   vai   ficar   evidente   que   ele   não   é   o   falo,   o   falo   como   símbolo   da   falta   do   Outro.   Aceitar   ser   o   falo   é   condição   para   não   ceder   ao   desejo.     Paul   casou-­‐se   jovem,   ainda   universitário,   porque   sua   namorada,   Cal,   se   engravidara.  Ainda  hoje  “admira  sua  mulher,  acha-­‐a  linda,  sente  atração  e  gosta  de  sexo   com   ela”.     Tudo   caminhou   bem   por   alguns   anos.   Depois   Paul   começou   a   sentir   “certas   estranhezas”,  como  o  corpo  separado  de  sua  cabeça,  os  pensamentos  invadirem  o  corpo,   as  idéias  obsessivas,  hesitações,  dúvidas,  ruminações.  A  partir  daí,  começou  interessar-­‐ se  por  outras  mulheres,  até  que  encontrou  a  jovem  Nina,  cuja  relação  dura  há  cinco  anos.   A   esposa,   ao   saber,   resolveu   engravidar   e   o   sujeito   prossegue   com   suas   hesitações,      

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sentindo-­‐se culpado   e   dividido.   Segundo   Freud,   o   que   caracteriza   o   sintoma   obsessivo   são  as  dúvidas,  a  ruminação  e  a  incerteza.   Paul  e  o  Homem  dos  Ratos   O  caso  de  Paul  nos  remete  ao  famoso  caso  de  Freud,  “O  Homem  dos  Ratos”,  com   o   qual   verificamos   alguma   semelhança.   No   HR,   cuja   problemática   é   típica   de   um   caso   de   neurose   obsessiva,   onde   aparece   a   ambivalência   afetiva   caracterizada   por   Freud   como   a   clivagem  entre  o  amor  consciente  e  o  ódio  inconsciente,  aparece  essa  ambivalência  em   relação   ao   pai   e   a   senhora   que   ele   venera.   Desse   modo   manifesta   os   sintomas   como   forma  de  apreensões  obsessivas,  medo  de  que  aconteça  algo  ruim  com  a  senhora  ou  que   o  pai  morra  (que  já  estava  morto).  No  caso  de  Paul  vêm  sempre  o  medo  e  as  dúvidas.  "Se   eu   sair   de   casa   algo   ruim   pode   acontecer   com   minha   mulher   e   meus   filhos.   Minha   mulher   vai   deixar   de   me   amar   e   ficar   com   outro.   E   a   outra,   se   eu   deixá-­‐la?   Algo   vai   faltar”.     A   impossibilidade   de   decidir   entre   os   dois   objetos   de   amor   aparece   em   um   sonho,  no  qual  o  sujeito  se  vê  numa  estrada,  numa  encruzilhada,  onde  aparecem,  de  um   lado,   a   mulher,   mãe   de   seus   filhos   e,   do   outro,   a   analista,   objeto   proibido,   algo   intocável.   Desse  modo,  se  constitui  o  analista  como  objeto  causa  de  desejo,  constituição  essencial   para   o   estabelecimento   do   discurso   do   analista   na   experiência   psicanalítica   e   o   sujeito   coloca  o  analista  em  seu  sintoma.   A   formação   do   sintoma   obsessivo   alcança   o   triunfo   quando   logra   unir   a      

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proibição com  a  satisfação,  de  tal  forma  que  o  que  fora  originalmente  um  mandamento   defensivo,   ou   uma   proibição,   adquire   a   significação   de   uma   satisfação,   cujo   efeito   colabora   com   esses   enlaces   artificiosos.   Encontramos   a   ambivalência   no   conflito   obsessivo  entre  dois  impulsos:  o  de  ódio  e  o  de  amor.  Freud  descobriu  que,  mesmo  na   existência   desses   dois   opostos,   é   na   presença   do   ódio   que   se   encontra   a   base   de   cada   sintoma  obsessivo,  como  resposta  sempre  à  mão  para  se  defrontar  com  signos  de  que  o   Outro  não  é  um  deserto  de  gozo.   O   sujeito   tem   sempre   a   sensação   estranha   de   estar   e   não   estar   em   lugar   nenhum,   "fico   pulando   de   um   lado   para   outro,   mentindo   para   não   decidir   entre   a   mulher,  esposa  rica,  e  a  jovem  pobre.  Sempre  confuso,  sob  pressão,  com  a  sensação  de   estar  assentado  numa  caixa  de  pólvora  pronta  a  explodir,  como  nos  sonhos  se  repetindo   em  encruzilhadas,  driblando  a  morte.     O   sujeito   da   estratégia   obsessiva5   tentará   enganar   a   morte.   Para   tanto,   nunca   estará  onde  se  joga  o  jogo  e,  por  isso,  quase  nada  do  que  ocorre  lhe  interessa,  tudo  o  que   realmente   importa   perde   o   sentido.   E,   em   seu   lugar,   esses   pequenos   e   cotidianos   absurdos   sintomáticos   se   eternizam   na   vã   tentativa   de   se   preservar,   abdicando   do   desejo  que,  por  outro  lado,  lhe  dá  alimento.  E  sempre  adiando:  mais  tarde,  mais  um  dia...   Trava-­‐se  uma  luta,  constituída  de  idéias  contrarias  expiatórias  que  ocupam  toda   sua   atividade   mental   diurna   e   noturna.   “O   obsessivo   pensa   avaramente.   Ele   pensa   em   circuito   fechado.   Ele   pensa   para   ele   sozinho”6.   Esse   debate   permanente   opera-­‐se   em   um   clima   de   dúvidas   bem   sistemáticas,   não   levando   a   nenhuma   certeza.   Surge   nessas     96    


dúvidas sempre   uma   interrogação,   que   gera   procuras   de   respostas   de   soluções,   sendo   sempre   os   resultados   insatisfatórios.   O   obsessivo   não   tem   medo   apenas   de   cometer   algum  ato  grave,  imposto  a  ele  por  suas  idéias,  mas  de  tê-­‐lo  feito  de  modo  inadvertido.   “(...)   Essa   cisalha   chega   à   alma   com   o   sintoma   obsessivo,   pensamento   com   o   qual   a   alma   fica  embaraçada,  não  sabe  o  que  fazer.”7     Quinet8   destaca   que   a   obsessão   como   sintoma   é   a   maneira   de   gozar   para   um   sujeito,   cuja   dúvida   e   a   falta   de   certeza   impedem   seu   ato,   que   é   sempre   adiado.   Daí   a   obsessão   como   pensamento   se   encontra   em   oposição   ao   ato.   Se   o   sujeito   pensa,   o   ato   não  acontece.  Uma  análise  possibilita  que  o  sujeito  fale,  ou  seja,  coloque  em  palavras  o   seu   pensamento.   É   preciso   que   o   gozo   passe   do   pensamento   para   o   ato,   invertendo   assim  o  próprio  movimento  de  formação  da  obsessão.   Considerações   Verificamos  no  caso  apresentado  verdadeira  batalha  entre  as  idéias,  que  entram   em   conflito   e   paralisam   sua   vida   mental,   angustiando   e   inibindo   possíveis   soluções.   Sabemos   que   não   há   respostas   para   as   perguntas   de   Paul,   porque   as   perguntas   são   sintomas  disfarçados.  O  sintoma  não  é  para  ser  respondido  e  sim  para  ser  trabalhado  em   análise.  Paul  precisa  descobrir  que  sua  felicidade  não  depende  de  uma  decisão  imediata.   Escolher   Nina   ou   Cal   não   determina   o   sucesso   de   sua   vida.   Seu   verdadeiro   sucesso   consiste   em   decifrar   seu   conflito   e   descobrir   os   motivos   que   o   levam   sempre   a   uma   encruzilhada.  

 

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Notas 1 FREUD. Um caso de neurose obsessiva (1909:160). 2 FREUD. Disposição á neurose obsessiva. Uma contribuição ao problema de escolha da neurose (1913:395) 3 LACAN. A Psicanálise e seu Ensino (1957: 454). 4 GALLANO. Enfermares Del cuerpo Del sexo. Inédito. (2010: s/p) 5 LACAN. Psicanálise e seu Ensino (1957:458) 6 LACAN. Conferência de Genebra sobre o sintoma (1975:5) 7 LACAN. Televisão (1974:19). 8 QUINET. Zwang und Trieb (1998: 67-76).

Referência Bibliográfica FREUD, S. (1909) Um caso de neurose obsessiva (1909). Imago Editora. Rio de Janeiro. 1980. Vol X. FREUD, S.Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à psicologia do amor.(1911). Imago Editora. Rio de janeiro. 1980. Vol XI. FREUD, S. Disposição à Neurose Obsessiva. Uma Contribuição ao Problema de Escolha da Neurose (1913). Imago Editora. Rio de Janeiro. 1980. Vol XII. FREUD, S. Recordar, Repetir e Elaborar (1914). Imago Editora. Rio de janeiro. 1980. GALLANO, Carmen. Enfermares del cuerpo fuera del sexo: uma clínica del obsessivo (2010). Roma. 2010. Inédito. GALLANO, Carmen. Conferência: Estraña el cuerpo. Campo Grande. MS. 2010. LACAN, Jacques. A Psicanálise e seu Ensino. (1957). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.  

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LACAN, Jacques. O Seminário livro 5: As Formações do Inconsciente (1957/1958). Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 1999. LACA.N, Jacques. O Mito Individual do Neurótico Lisboa: Assírio e Alvim. 1980 LACAN, Jacques. (1974) Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. LACAN, Jacques (1975) Conferência de Genebra sobre o Sintoma. Opção Lacaniana. São Paulo, n.19, 1988. QUINET, Antonio. Zwang und Trieb (1998). Os destinos da Pulsão. Rio de Janeiro. Kalimeros, p. 67-77. 1998. VALDEZ, Bebo y CIGALA, Diego. Corazón Loco. CD: Lágrimas Negras.

 

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O que Marcélio Sabia Lia Carneiro Silveira1 O psicanalista, muitas vezes, recebe na clínica demandas relacionadas a aprendizagem e que poderiam ser endereçadas a profissionais diversos como o psicólogo ou o psicopedagogo. Trata-se do momento em que, ao constatar o que entendem como um “déficit de aprendizagem”, os pais (amparados, muitas vezes, pela escola) resolvem procurar um especialista que possa tratar desse “sintoma”. Para os saberes oriundos da psicologia, o que está em jogo aqui é uma defasagem. O processo de aquisição do conhecimento, tal como entendido nas abordagens hegemônicas neste campo: tradição experimentalista, behaviorismo – cognitivismo, e até algumas leituras freudiana que se centraram num fortalecimento do Ego) é entendido como a consolidação de determinadas respostas exitosas dadas por um organismo. Essas respostas seriam possíveis devido, por um lado, a uma bagagem hereditária mínima de respostas comuns a espécie, e por outro, a interação com um “meio” que oferece os estímulos necessários. De qualquer forma, a responsabilidade pela aprendizagem, reside no sujeito do conhecimento, o eu, a consciência ou a inteligência. (LAJONQUIÉRE, 1999) Quando alguma coisa se interpõe entre o estímulo e a resposta (ou seja, não se alcança o nível optimum esperado), o especialista busca neste mesmo “eu” alguma resposta. Já que ele é entendido numa lógica organicista e maturacionista, logo, o “defeito” só pode estar num desses planos. Ou se trata de um problema de desenvolvimento (algo orgânico ou genético corpo) ou interferência de algum “aspecto psicossocial” (ambiente familiar desajustado, maus-tratos, etc.) Seja lá qual for a saída encontrada, a intervenção vai ter como objetivo extirpar o sintoma (déficit de aprendizagem) e restaurar no eu a capacidade de aprender. Estamos no discurso da ciência, do sujeito cartesiano, do saber do especialista.                                                                                                               1

 

Membro  da  Escola  de  psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano-­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  Fortaleza.  

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No entanto, diferentemente dessas profissões, o ofício da psicanálise vai demarcar uma diferença radical na forma como podemos acolher as vicissitudes pelas quais um sujeito passa no seu processo de aprendizagem. Também reconhecemos que, nos ditos “problemas de aprendizagem” há alguma coisa que emperra, há uma pedra no meio do caminho. Pode ser que haja aí, para alem da demanda dos pais, um sintoma. Ocorre que sintoma, aqui não é entendido como um déficit, uma anomalia a ser corrigida. O sintoma, para a psicanálise é um índice do sujeito e das tensões que se revelam entre este e o seu desejo, inconsciente. O Sintoma na psicanálise O sintoma já é considerado, antes mesmo da psicanálise, um importante conceito na medicina. Com Michel Foucault (1980) vemos como este está conceituado no seio do projeto anatomopatológico da medicina, onde o sintoma sempre corresponde a lesão de um órgão, alteração que precisa ser corrigida para reencaminhar o organismo em direção à normalidade. A psicanálise nasce de um encontro: aquele que se dá entre Freud e o sintoma das histéricas. Destituído de lugar no saber médico, com Freud o sintoma ganhou estatuto de mensagem. Portador de um texto que remete ao sexual, ou melhor, a uma falha no sexual. Alem disso, Freud também afirma que os sintomas neuróticos são resultado de um conflito. Na premência constante das pulsões, algo não pode ser aceito ou por ser incompatível com o eu ou por afrontar seus padrões éticos. A libido insatisfeita é obrigada a abandonar a realidade e buscar outras vias de satisfação. Daí temos uma outra peculiaridade do sintoma em Freud. O sintoma é um acordo, uma peça de ambigüidade engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradição mutua. (FREUD, 1916, p.421) Assim, a libido consegue encontrar alguma satisfação, embora seja uma satisfação que mal se reconhece como tal. Lacan também se interessou por essa face de carta endereçada ao Outro (face simbólica do sintoma), mas também soube extrair daí a dimensão de gozo que o sintoma presentifica, apontando para uma face real do sintoma. No texto intitulado “A Terceira” Lacan (1974, p.24) afirma: o sentido do sintoma é o real, na medida em que ele se atravessa aí para impedir que as coisas andem, no sentido de que elas dão conta de si mesmas de

 

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maneira satisfatória. Sentido aqui não no sentido de significação, mas no de vetor. Ou seja, o sintoma é um vetor apontando para a presença do real. O Caso Clínico Os pais de Marcélio, 11 anos, me procuram em Junho de 2009 porque, segundo os pais “a professora disse que ele precisava de psicólogo”. É muito inquieto, não presta atenção na aula e briga constantemente com os outros alunos. Alem disso, embora esteja cursando pelo quarto ano consecutivo a terceira série, não consegue ler nem escrever. Trata-se de um caso atendido em um serviço público de Fortaleza-CE situado em uma região muito carente da cidade. O desafio nas entrevistas preliminares foi tentar localizar algo na fala de Marcélio que o implicasse para alem da demanda de adequação do comportamento endereçada a mim pelos pais e pela escola e que ele parecia endossar. Falava muito pouco e, nesse pouco, deixa entrever que acredita que está ali para ser mais comportado, para parar de brigar na escola e pra conseguir aprender. Peço-lhe para me falar sobre isso, “não conseguir aprender” e descubro que não se trata simplesmente de não conseguir, há uma singularidade muito relevante em sua história. Ele diz: eu sabia ler e escrever, mas um dia o colégio caiu. Tive que ficar em casa por uns meses e quando eu voltei tinha “esquecido de tudo”. Suas dificuldades dizem respeito tanto a leitura como a escrita. Também esquece com freqüência do que vai dizer: às vezes a palavra vem reta na minha cabeça mas na hora de dizer sai outra coisa. A passagem que vai permitir a Marcélio sair da demanda dos pais para uma formulação de sua própria questão ocorre certo dia em que ele reconhece uma das pacientes que atendo como sendo uma de suas vizinhas e me pergunta porquê ela está ali. Respondo que as pessoas vem para cá porque tem alguma coisa que as aflige, que as faz sofrer e vem buscar ajuda. Pergunto se é o caso dele. Ele diz que tem sim, que ele sofre porque esqueceu algumas coisas e que acha que eu poderia ajudá-lo a lembrar. Outro fato que lhe intriga é que ele, por diversas vezes, acordou e estava em pé, em frente a geladeira, por exemplo, e não se lembra como chegou lá.

 

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Esse momento foi um marco na direção do tratamento pois, enfim, seu endereçamento à analista começa a se delinear. Agora comparece sozinho à sua análise, sempre preocupado em vir “bonito” para a sessão, segundo relato da mãe. Percebemos que, para além de uma dificuldade de alfabetização, o que se verifica no caso de Marcélio é um regressão a uma fase anterior, onde algo se fixa no não saber. Para abordar como isso se dá, é importante tecermos alguns comentários sobre o que a psicanálise tem a dizer sobre o processo de alfabetização. No texto sobre as afasias, ainda num momento pré-psicanalítico, Freud (1915a) identifica o que está em jogo nos diversos momentos de aquisição da linguagem, num percurso que vai da aquisição da fala à aquisição da escrita. Aprendemos a falar, segundo ele, servindo-nos de uma linguagem própria; criamos, uma espécie de dialeto. Fazemos isso associando uma imagem sonora da palavra (que adquirimos do outro) a uma sensação de inervação da palavra, associando diferentes e estranhos sons de palavras a um único som que nós mesmos produzimos. No processo que se segue, passamos a tentar tornar esse som produzido o mais próximo possível da linguagem dos outros. O processo de aquisição da leitura e da escrita, envolve, segundo Freud, uma reedição desse processo, um segundo esforço de associação. Associamos as representações obtidas ao pronunciar cada uma das letras e, dessas associações, percebemos surgirem novas representações de palavras. Reconhecemos no que aí obtemos o som da palavra tal como a conhecíamos, e então, lemos compreendendo. Segundo ele, esse processo é facilitado pela semelhança que há entre o dialeto dos primeiros anos de vida e a linguagem escrita. Percebemos que há uma proximidade entre esse dialeto a que Freud se refere e aquilo que anos mais tarde Lacan vai chamar de lalangue2. Lalangue não é a linguagem, ela é antes um banho de obscenidade como diz Colette Soler (2010, p.29) ao se referir a esses uns, essaim3, enxame de significantes que a criança recebe de primeiro grande outro, a mãe. lalangue, portanto, não é da ordem do simbólico, mas do real. A autora nos adverte que não                                                                                                               2

Neologismo  criado  por  Lacan.  O  termo  “lalangue”,  faz  referencia  a  “lalação”,  primeiros  sons  emitidos  pelo   bebê.   3  Em  Frances  há  uma  homofonia  entre  “essaim”,  enxame  e  “esse  uns”,  S1,  termo  que  Lacan  utiliza  para  se   referir  ao  enxame  de  significantes.  

 

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se trata, portanto de aprendizagem, mas de impregnação, de marcas que a criança recebe: são termos que excluem o domínio e a apropriação ativa e, portanto, a identificação. Desses sons sem sentido alguns vão se depositar, sob a forma de detritos, os primeiros uns sonoros. Segundo Soler (2010) é só num a posteriori, tempo do encontro com o impossível do sexo, que esses uns vão se conectar ao problema do gozo do sujeito, especialmente do gozo fálico. Aqui não se trata da combinatória do significante, mas desses uns erráticos, que se conectam diretamente com o gozo corporal. Nesse litoral que se escreve entre saber e gozo está em jogo não só a contingência do que foi falado pelo outro, mas, principalmente, a contingência do que foi escutado. Ainda durante as entrevistas, fiquei sabendo (através do pai) de um acontecimento que vai retornar várias vezes na fala do filho. A família morava em uma cidade do interior: o pai, a mãe, a filha mais velha e Marcélio filho, então com cerca de três anos de idade. Certo dia, o pai está bebendo em um bar e entra numa briga. Vai até em casa, deixa o filho que estava com ele no momento, pega uma faca e mata o colega com quem discutiu. Perseguido pela policia ele se esconde para livrar o flagrante e depois se entrega. Há três anos ficou sabendo de sua sentença: cumpriria pena em regime semi-aberto. Há cerca de tres anos também, nasceu a filha mais nova do casal. Na fala da mãe o pai aparece como violento e muito ciumento: chegava em casa bêbado e obrigava as crianças a se ajoelharem e escreverem o alfabeto na parede: “ele ficava rindo, parecia um louco”. Diz ainda que apanhou muito durante a gravidez do Marcélio: “será que isso tem a ver com o jeito dele ser hoje?” Aos poucos, Marcélio começa a me falar sobre sua vida na escola e em casa. Me diz que tem um irmão que está preso, o Daniel. Essa afirmação me surpreende pois nem a mãe nem o pai tinham me falado da existência desse irmão. Fala também que o pai tem mais cinco filhos com outra mulher que conheceu antes de sua mãe. Ainda sobre a prisão de Daniel, faz uma relação com seu sintoma e afirma: Ele foi preso, no mesmo dia eu fui pra escola, a tia mandou eu ler e eu não sabia mais. Marcélio briga muito na escola, e ao perguntar o porquê disso ele me diz que os meninos chamam sua mãe de rapariga, e me pergunta o que é isso. Com o meu silêncio, ele me diz noutra pergunta: rapariga num é moça?  

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Com essas informações novas e conflitantes e como Marcélio continua muito calado durante as sessões, sugiro trabalhar com desenhos, ao que ele se mostra muito interessado. Seguem-se ai várias sessões onde ele desenha várias pessoas, escreve seus nomes (alguns corretamente, com uma letra bem caprichada – O dele, o do pai) e outros que ele não consegue escrever e me pede ajuda – Daniel e Cibita, uma prima com quem ele gosta de brincar) depois me fala sobre o que produziu.

Noutras sessões ele recorta as figuras,

formamos arvores genealógicas ou encenamos histórias com os personagens que ele desenhou. Nesses jogos e desenhos o que começa a se delinear é a duvida de Marcélio sobre quem é essa família, principalmente sobre esses filho que a mãe teria no interior. Ele diz que não tem certeza se Daniel é filho ou irmão dela, mas acha que são filhos. Ele passa a investigar isso junto a mãe que explica que eles, na verdade são seus primos, filhos de uma irmã dela. Outra questão que surge é com relação ao seu nome próprio: “Meu nome é igual ao do meu pai e eu não sei porque”, “uma amiga minha falou que esse nome é uma peste”. Certo dia deixa escapar com um sorriso no rosto que sua mãe (e quase todos na rua) o chamam de Bebê e que ele gosta muito de ser chamado assim. Em uma sessão me diz: acho que eu nasci doente, com alguma doença, por que até meu irmão mais novo sabe mais do que eu. Pergunto então: o que você sabe sobre o seu nascimento? “Eu nasci da barriga, me tiraram de lá. Tu conhece a novela do Zé trovão ? Eles apostaram uma corrida. Se a Ana Raio perdesse tinha que dar um beijo nele, se ela ganhasse, num tinha não. Ela perdeu e eles se beijaram, os cavalos deles também, porque tem o mesmo nome que eles. Pergunto porque ele lembrou disso? Porque foi bom. Acho que é assim, eu lembro do que é bom. O que é ruim eu esqueço”. Noutra vez, me diz que sua avó mandou um recado para seu pai. Os irmãos do homem que ele matou estão querendo matar ele. Ele não pode ir pescar em... “idubaiu”4. A palavra certa não sai. Ele tenta varias vezes mas automaticamente só sai ‘idubaiu”. Pergunto se ele quer escrever. Ele escreve: “Dubaiu”. Depois tenta novamente: “Trubaiu”, e me diz: “não é                                                                                                               4

 

Imagino  que  ele  está  fazendo  referencia  ao  município  cearense  de  Banabuiú.  

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isso. Eu não consigo dizer”. Pede pra ir lá fora perguntar a um vizinho que o acompanhava e diz: “a palavra certa é Donabuiu”. Eu marco que ele lembrou do buiu, mas esqueceu o Dona. Digo, Dona também é um nome de mulher. Esse significante surge como S1 que articula um enxame, ponto de articulação ligando-se a outros uns que apontam para todas as questões de Marcélio: Donabuiú – Banabuiú – cidade onde o pai matou Dona – significante que aponta para o feminino Dedina – a mãe chama-se edina, mas ele escreve assim Daniel – que, como ele mesmo destaca, também escreve com D. Noutra situação me fala de uma cena que assistiu. A irmã mais nova, de três anos ainda mama e às vezes dorme no peito. Certo dia, conta ele, viu o irmão do meio deitar na cama, botar o outro peito para fora e mamar. Percebemos nessa escansão do significantes duas questões se colocam no caso: 1-

Marcélio se debate com questões que dizem respeito ao enigma do sexo: sua ascendência, a sexualidade materna e a indefinição de limites quanto a isso. A mãe é rapariga? E esses irmãos, de onde vieram? Podem os filhos gozar do corpo da mãe ? porque ela dorme? O que pode o pai?

2-

Seu sintoma, esquecer o que sabia, irrompe por volta dos 7 anos de idade, num momento em que essas questões se presentificam: nasce a irmã mais nova, o pai vai ser preso, o irmão é preso.

O que podemos extrair daí aponta em primeiro lugar para a atuação da pulsão epistemofílica. Marcélio andou procurando saber, investigando sobre sua origem e a origem desses irmãos. No texto Leonardo Da Vinci e uma Lembrança de Sua infância (1910), Freud afirma que uma fase cheia de investigações é freqüente nas crianças pequenas. Elas visam saber de onde vêm os bebês, como eles são feitos? No limite, essas questões apontam também para a origem do próprio sujeitinho: de onde eu vim? Por que eu nasci? O que eles querem de mim? Marcélio provavelmente andou procurando essas respostas e, posteriormente, encontrou ao longo de sua investigação algum limite desse saber. (Esse limite é estrutural,  

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pois a investigação fatalmente caminha para um ponto impossível de dizer e para o reconhecimento de uma falta, principalmente a falta no Outro). Nesse momento, opera o recalque que, por definição, trata-se exatamente de um mecanismo que visa afastar determinada coisa da consciência, mantendo-a à distancia (FREUD,1915b). Seria seu sintoma (esquecimento) equivalente ao próprio mecanismo do recalque? É o próprio Freud quem nos responde, ao afirmar que Sintoma e recalque não são a mesma coisa, longe disso, seguem caminhos de formação completamente diferentes, pois o sintoma equivale, na verdade a um segundo momento, o momento em que algo desse recalcado busca acesso à consciência, um retorno do recalcado. Tomemos novamente o caso de Marcélio: ele inicia, ainda numa fase remota suas investigações. Desiste delas e atribui uma resposta ao enigma como qual se depara, Daniel é meu irmão. Num momento posterior, marcado por solicitações escolares, nascimento de uma irmã, prisão do Daniel e do Pai, algo desse conteúdo recalcado tenta voltar. Vacilando o recalque, ele faz um sintoma, esquece o que sabia ler, sintoma cujo sentido, o vetor, como diz Lacan é apontar para o mesmo núcleo real com que esbarraram suas pesquisas sexuais, o impossível de saber. Nesse sintoma desvela-se ainda a posição de gozo de Marcélio. Apesar de haver incidência do Nome-do-pai, a saída pela identificação ao significante paterno é recusada por ele: “Não gosto de ter esse nome, esse nome é uma peste”. Prefere ser chamado pelo nome que recebeu da mãe, o Bebê. Continuar a ser o bebê da mamãe. Mas esse nome porta a marca de seu gozo, marca do impossível da relação, pois bebês não sabem ler.

Referências Bibliográficas: FOUCAULT, M. O Nascimento da clínica. 2 Ed. Tradução de Roberto Machado. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1980.

 

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FREUD, S. (1910) Leonardo Da Vinci e uma lembrança de sua infância. v. 11. In: Edição standard brasileira de obras completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ___________. (1915a). O Inconsciente (Anexo C). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro: Imago, 1996., p. 165-209. ____________. (1915b) Recalque. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ____________. (1916) Conferência XXIII – Os caminhos da formação dos sintomas. In: Edição. Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.419-439. LACAN, J. A Terceira (1974). Che Vuoi, ano 1, n. 0, Porto Alegre, Cooperativa Cultura Jacques Lacan, 1986. LAJONQUIÈRE, L. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. Petrópolis, Vozes, 1993. SOLER, C. O Corpo Falante. Cadernos de Stylus, no 01, maio de 2010.

 

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Reflexões sobre a direção do tratamento na clínica da perversão Maria Lúcia Araújo1 A idéia axial deste trabalho é trazer reflexões sobre alguns aspectos em relação à direção do tratamento em sujeitos de estrutura perversa, desde a questão diagnóstica, manejo da transferência e final de análise. Consideramos que o perverso que procura o analista está na posição em que sente a angústia de castração. Quando chega é porque a defesa não funciona mais e a angústia transborda. O sujeito vem nos dizer algo que no momento funciona mal e que antes funcionava bem. Agora funciona mal, até de forma perigosa. Está preocupado, e se queixa de não poder controlar os impulsos, sabe o que lhe acontece, mas não consegue reagir, portanto quer ajuda. Será que nós analistas estamos à altura de tal tarefa? Será que sabemos manejar a transferência na direção do tratamento? E como pensar o final de análise para a perversão? São questões que nos inquietam já faz alguns anos. Assim, pensamos que a preocupação do analista em orientar sua clínica a partir do diagnóstico estrutural é uma posição ética, e que pode a posteriori ser interpretada como um ato. Além disso, torna-se fundamental ressaltar que ao prescindir da hipótese diagnóstica não temos a mínima condição de dirigir o tratamento, pois tanto o dito como o dizer do analisante acabará ficando a deriva, a espera de um ato que nunca acontece.

                                                                                                              1

MARIA LÚCIA ARAÚJO – Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano Brasil, Membro do Fórum do Campo Lacaniano - São Paulo. Trabalho apresentado no XI Encontro Nacional da EPFCL/IFBrasil (2010). araujomalu@uol.com.br

 

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Soler em seu curso sobre “A querela dos diagnósticos” nos lembra que Lacan mostrou a necessidade do diagnóstico para sabermos se o sujeito que nos procura pode se beneficiar do tratamento analítico, pois o saber clínico orienta a ação. Assim, o diagnóstico implica um julgamento ético, que está longe de ser um julgamento de saber (SOLER, p.18) Sendo assim, o que nos interessa aqui investigar não é apenas o sujeito perverso que demanda análise para saber sobre o dispositivo, já que sua formação o exige, mas também aqueles sujeitos que são trazidos porque correm sérios riscos de vida e colocam em risco a vida de outros. Tanto em um caso como no outro as demandas ocorrem quando sobrevêm sintomas e perturbação no gozo. No seminário 16 “De um Outro ao outro” Lacan nos convoca a uma tomada de posição ética dizendo: “Tratemos, em nossa elaboração de ser rigorosos! O sofrimento tem sua linguagem [...] O sofrimento é um fato, isto é, encerra um dizer.” (LACAN, p.63) Dessa forma, nós analistas estamos convocados a tomar uma posição ética em relação ao nosso próprio desejo de analista. Pois sabemos, que a análise de um sujeito perverso se passa quase que o tempo todo no acting–out que se dirige ao Outro. Entretanto, entendemos que é por essa via que o analista pode operar na direção do tratamento, ou seja, interpretar o acting–out, que é feito para a mostração. Lembremos uma afirmação de Lacan que está no seminário 10 “[...] se somos analistas, logo, ele, o acting-out, se dirige ao analista. Se ele ocupou este lugar, pior para ele. Ele tem de qualquer forma a responsabilidade que pertence a esse lugar que ele aceitou ocupar.” (LACAN, p.136)

 

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Outro aspecto que vale a pena ressaltar é que uma forma possível do desejo perverso é a vontade de gozo, que é uma vontade decidida de gozar realizando sua fantasia. E, que a perda que precisa ser operada no sintoma é a perda de gozo. Contudo, salientamos que o desejo perverso não é uma pergunta, mas sim uma resposta, pois o perverso sabe o que quer e isso se deve a sua petulância perversa, que o faz convencido de saber a verdade escondida. Para esse sujeito não há falta, pois o fetiche sustenta seu desejo. A perversão se utiliza de diversas estratégias para negar a falta no Outro, tais como: o masoquismo que tem a intenção de angustiar o outro, o sadismo que quer produzir a divisão do outro, o exibicionista que quer mostrar e assustar; o voyer que quer ver surgir o olhar do outro. São alguns estilos de negar a falta. O que nos faz deduzir que há um lugar que o sujeito ocupa em relação ao desejo do Outro, e que há um lado desejo e um lado gozo. A tipologia é uma diferenciação nessa trilha entre desejo e gozo. O sujeito vai criando cenas. Assim o analista ao fazer a distinção tipológica tem acesso a uma ferramenta fundamental para a direção do tratamento, que vai ajudá-lo nas intervenções onde está a fantasia. Lacan nos adverte que “a fantasia perversa, tem uma propriedade que podemos agora destacar.“ [...] há aí uma redução simbólica, que eliminou progressivamente toda estrutura subjetiva da situação para deixar subsistir apenas um resíduo, inteiramente dessubjetivado e, afinal de contas enigmático, porque guarda a carga - mas a carga não revelada, inconstituída, não assumida pelo sujeito daquilo que é no nível do Outro a estrutura na qual ele está engajado até o mais íntimo de si.” ( Sem. 4, p.120 ).

 

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Ora, o ponto que queremos ressaltar aqui, nesta afirmação de Lacan é o significante “dessubjetivado”, pois assim compartilhamos com o psicanalista Godino Cabas ao comentar este parágrafo, do seminário 4 , onde nos indica que “ [...] a tese de Lacan é que há uma propriedade que deve ser sublinhada: a existência de uma redução simbólica que tem como resultado uma dessubjetivação. Entendamos : um processo que equivale a uma anulação, uma supressão, ou melhor, uma suspensão da função do sujeito.” “[...] o fantasma perverso conserva todos os elementos da relação significante, mas em curto circuito. E, mais: um curto circuito no nível do sujeito. Sobretudo, porque a redução simbólica tem como efeito uma dessubjetivação.”(CABAS, p.184) Sendo assim, os significantes permanecem em estado puro, mas esvaziados do seu sujeito. Ocorre que como nos lembra Godino “Esse esvaziamento que emerge como um corolário coincide com a desrealização e a dessubjetivação que caracterizam a passagem ao ato nas perversões.” Concordamos com Godino Cabas no sentido de que esse esvaziamento é uma proposição que já nos foi demonstrada, que ao coincidir com a dessubjetivação nos deixa frente à passagem ao ato. Além disso, consideramos que na clínica do sujeito perverso esse fenômeno de dessubjetivação se impõe quando o sujeito transforma a questão do desejo em vontade de gozo e atua a fantasia na realidade; se opondo radicalmente à castração e a experiência da falta-a-ser. Na perversão o sujeito já se encontra localizado na fantasia e determina a si mesmo como objeto através do fetiche que faz função de véu, lugar da projeção imaginária. Nessa estrutura há valorização da imagem e redução simbólica de toda história.  

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Ora, sabemos que o sujeito aparece quando há uma questão e o sintoma quando há uma solução. Embora falsa essa solução, aparece como uma resposta à angústia de castração. A perversão desmente sua falta-a-ser, elegendo o fetiche como objeto fundamental com o qual tampona a castração feminina. Julien salienta que “[...] o fetiche é, portanto, uma defesa contra a angústia do desejo da mãe, é bem por isso que ele tem a mesma função que a fobia: colocar uma proteção em posto avançado diante do perigo de ser engolido pelo desejo insaciável do Outro.” (JULIEN, p.109) Torna-se, assim, necessário pensar a demanda, a entrada e final de análise a partir do desmentido (verleugnung) da castração, levando em conta que precisamos instaurar o sujeito e não a partir do recalque, como ocorre na neurose. Os perversos que chegam à análise se queixam que há uma dificuldade de colocar limite ao próprio gozo, revelando que há uma conjunção entre a fantasia e o sintoma. Segundo Lacan, “Há neles uma subversão da conduta apoiada num saber-fazer, o qual está ligado a um saber, ao saber sobre a natureza das coisas, há uma embreagem direta da conduta sexual sobre o que é sua verdade, isto é, sua almoralidade.” (Sem.20, p.117) Além disso, nesta estrutura há uma coincidência de desejo e gozo e a tentativa de fazer existir a relação sexual. O fetiche, que é a prova clínica da estrutura equivale ao sintoma na neurose. A este respeito, Jacques Lacan e Wladimir Granoff, no texto Fetichismo: o simbólico, o imaginário e o real afirmam que desde 1927, Freud, “[...] introduzia-nos no estudo do fetiche indicando que ele deveria ser decifrado. Decifrado como um sintoma ou uma mensagem. Ele nos diz mesmo em que linguagem o fetiche deve ser traduzido “Desde o  

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início, tal abordagem situa o problema de modo explícito no campo da pesquisa do sentido na linguagem e não uma vaga analogia ao campo visual [...]” Dessa forma, “O imaginário é decifrável somente se traduzido em símbolos.” Entretanto, quando Lacan avança ao longo de seu ensino chega a nos alertar que “A perversão não é definida porque o simbólico, o imaginário e o real estão rompidos, mas, sim, porque eles já são distintos, de modo que é preciso supor um quarto que, nessa ocasião, é o sinthoma. (Sem.23, p.21) Então interrogamos: Será que se trata na perversão de uma identificação ao sinthoma? E o fetiche viria enlaçar os três registros: real, simbólico e imaginário? Deixemos essas questões em aberto... E pensemos no discurso. O discurso de um sujeito perverso tem mais a função de mostração do que de representação, do dito. Como ocorre no “ato obsceno” ele mostra além da cena, revela o primado, ou melhor, o que existe aquém da palavra – a imagem “[...] como se houvesse um encurtamento do espaço entre a fantasia e o ato. “Na clínica o perverso mostra falando, tendo o analista como participante da cena perversa. As fantasias são encenadas. “[...] a montagem do discurso perverso revela um discurso no qual a palavra se torna um instrumento de mostração. O perverso se serve tanto do corpo como das palavras. O que ele quer é mostrar. (QUEIROZ, p.74) Ora, se o perverso toca algo da realidade com o fetiche e, além disso, há algo de fantasia no fetiche é com esse objeto que vamos operar na direção do tratamento. A psicanalista Márcia Mello, que tem uma grande experiência com a clínica da perversão, afirma que “quando rompe o vínculo com a realidade, a perversão substitui a  

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fantasia por um ato, atua na realidade ainda que insista na fantasia inconsciente. A diferença do neurótico é que o perverso faz isso exercendo a “vontade de gozo” amparado no objeto endereçado ao parceiro; evocando sua presença numa imagem, daí a importância do fetiche enquanto imagem encobridora.” (MELLO, p.102) Após, essas breves considerações interrogamos: Será que é possível ao sujeito de estrutura perversa, cujo desejo sempre fracassa, por causa de sua posição fantasmática que está sempre em continuidade com a realidade, sair dessa posição? Será que a partir de uma mudança na posição de gozo o sujeito poderia terminar sua análise em direção a um saber fazer com o desejo? Ora, sabemos que em todas as estruturas existe algo em comum, isto é, todas sem exceção querem se livrar da angustia de castração. Diante dessa constatação, nossa tendência a partir da experiência clínica com tais sujeitos é pensar que na perversão mais do que na neurose ou na psicose o sujeito precisa do desejo do analista e sua disposição para escutar a recusa, a verleugnung e suportar a “conjunção da palavra com o corpo no ato de dizer”. Todavia, consideramos que é nos deixando guiar pela estrutura que obteremos dela seus efeitos, sem jamais esquecer que a formalização não nos exime de escutar a singularidade de cada sujeito. Termino com uma citação de Jacques Lacan em Radiofonia “Seguir a estrutura é certificar-se do efeito da linguagem. A estrutura é apanhada a partir daí. Daí, isto é, do ponto em que o simbólico toma corpo.

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CABAS, A. G., O Sujeito na psicanálise de Freud a Lacan - da questão do sujeito ao sujeito em questão. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2009.(p.184) FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S.Freud, Edição Standart das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.VII). Imago editora - trabalho original publicado em 1905, Rio de Janeiro. FREUD, S. O fetichismo. In Freud, Edição Standart brasileira das obras completas psicológicas de Sigmund (Vol.XXI), Imago Editora, 1927, Rio de Janeiro. JULIEN, P. Psicose, perversão e neurose: A leitura de Jacques Lacan. Companhia de Freud, José Nazar, Editor, Rio de Janeiro, 2004. (p.109) LACAN, J & GRANOFF, W Fetishism: The Symbolic, The Imaginary and the Real, texto de 1956 (Inédito). LACAN, J. O seminário Livro 4: A relação de objeto (Trabalho original publicado em 19561957), Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro,1995. (p.120) LACAN, J. Texto: De uma questão preliminar a todo tratamento possível da Psicose. In: Escritos, Jorge Zahar Editor (trabalho original publicado em 1957-1958) Rio de Janeiro. LACAN, J. O seminário Livro 5 : As formações do inconsciente.(Trabalho original publicado em 1956- 1957) Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999. LACAN, J. O Seminário Livro 10: A angústia. Seminário Inédito, publicacão interna da Associação Freudiana Internacional. Recife: centro de Estudos Freudianos do Recife,1992.(p.136) LACAN, J. O seminário Livro 16: De um Outro ao outro. Seminário inédito, publicação interna da Associação Freudiana Internacional. Recife: centro de Estudos Freudianos do Recife, 2004. (p.63) LACAN,J. O seminário Livro 20: mais, ainda. (Trabalho original publicado em 1972-1973) Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1982 (p.117) LACAN,J . Outros Escritos, Texto: Radiofonia – Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003. MELLO, M.L. Gozo e Perversão: Um percurso na teoria de Freud com Lacan (tese de doutorado no IPUSP-SP), 2001. QUEIROZ, E.F. A clínica da Perversão, Editora Escuta, São Paulo, 2004. SOLER,C. ? A qué se Le llama Perversión? – Asociacion Foro Del Campo Lacaniano de Medellin, Medellín- Colombia, 2007. SOLER,C . La querelle des diagnostics – Cours 2003-2004 – Formations cliniques du Champ lacanien- Collège clinique de Paris. (p.18) LACAN, Jacques, texto Radiofonia - 1970, Outros escritos, (p.405), editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001.

 

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A Pele, suas Marcas e o Corpo:Fenômeno Psicossomático e Tatuagem Tatiana Carvalho Assadi1 Heloísa Helena Aragão e Ramirez2 “Minha vida é o mar. Surfo desde pequeno e neste momento fui afastado destes instantes de prazer por causa desta doença que me invadiu o corpo....3” Como as personagens que são convocadas ao mergulho no mar infinito do belíssimo texto de Mishima4, Leonardo sente-se atraído para o mar. Nervoso, somente atinge momentos de calma e contemplação ao escutar as ondas da maré que se chocam com as minúsculas partículas da areia ou ainda, no sublime ato de avistar no horizonte os primeiros raios solares que avisam a hora do seu primeiro mergulho. Ao mesmo tempo são o olhar e o som que o lembram freqüentemente que seu corpo existe e encontra-se adoecido. Escuta os estalidos das feridas que rompem sua pele e produzem vermelhidões espalhadas pelos joelhos, pernas e cotovelos e, portanto, são estas mesmas feridas que ferem sua visão. Olhar seu corpo é insuportável, escutar a explosão das feridas é amedrontante, sente sua pele em chamas e nomeia-se de “carne viva”.                                                                                                                   Psicanalista. Membro do Fórum do Campo Lacaniano- SP. Coordenadora da Rede de Sintoma e Corporeidade- FCL-SP e do Circuito Ponto de Estofo- MC-SP. Pós-doutoranda em Psicologia Clínica- USP- SP. Bolsista FAPESP. tatiassadi@uol.com.br

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Psicanalista. Membro da Escola do Campo Lacaniano-SP e do Fórum do Campo Lacaniano-SP. Coordenadora da Rede de Sintoma e Corporeidade- FCL-SP e do Circuito Ponto de Estofo- MC- SP. Mestre em Psicologia pela Universidade São Marcos. heloramirez@gmail.com

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Todas as falas em itálico são do analisante. Mishima (1987). Morte em pleno verão. Contos. Rocco.

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Estes são os motivos que levam este jovem a procurar análise depois de tentar várias intervenções para sua afecção de pele: a psoríase. Freqüentou médicos, buscou tratamentos alternativos, espirituais e ou milagrosos que nada lhe adiantaram na cura da afecção dermatológica. Restou-lhe a psicanálise como última possibilidade, ou melhor, amparado pela fala de outrem recebeu a indicação da psicanálise como uma direção ao seu mal estar. Conduzido às primeiras entrevistas com descrédito e mais além, descrença, chega ao consultório relutando em falar. Não podia acreditar que uma “terapêutica” pela fala pudesse afetar seu corpo. Demandava uma cura do corpo e retornar ao mar, sem se envergonhar de sua pele e de seu “corpo marcado”, eram seus maiores anseios. -

“Marcado? – é uma das primeiras intervenções da analista.

-

Sou inteiro marcado.

-

Marcado? – novamente uma intervenção.

-

Tenho lesões por todo corpo que fazem uma espécie de desenho assombrado.

Um desenho que escama e solta cheiro. Sou como um filme de terror”. É assim que Leonardo começa a se apresentar. Reduz-se às descrições e marcas corporais. Gesticula, aponta os dedos para as partes do corpo em que foi invadido pela psoríase e esbraveja utilizando um vocabulário de baixo calão. Mostra a parte inferior das pernas levantando as calças em uma convocação do olhar da analista. Ao falar das lesões nos cotovelos novamente expõe a pele avermelhada e, ao dizer da psoríase no couro cabeludo ergue as mãos como se estivesse arrancando seus cabelos.

 

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Abro um parênteses para dizer que em nossa experiência clinica na Rede de Pesquisa em Psicossomática (atual Rede de Pesquisa em Sintoma e Corporeidade do Fórum do Campo Lacaniano SP em parceria com a Universidade de São Paulo) verificamos inúmeras características que se repetem na fala ou mesmo em gestos daqueles que nos foram encaminhados com lesões dermatológicas, por exemplo: o não pudor em mostrar o corpo invadido por uma lesão ou a vergonha como causa e impossibilidade da quebra dos laços sociais ou para além disto, a impossibilidade de falar sobre sua afecção de pele. Diante dos primeiros atendimentos hospitalares com lesões dermatológicas e amparados nestas repetições clínicas decidimos escutar as hipóteses relativas ao aparecimento das lesões. Para nossa surpresa, num primeiro tempo, nada era possível dizer sobre o vitiligo, a psoríase ou mesmo a alopecia5. Em trabalho nas entrevistas preliminares os pacientes começavam a traçar hipóteses para suas lesões, e, como segundo tempo, ou conseqüência desta tática, eles faziam destas hipóteses suas verdades absolutas. E foi desta maneira que aconteceu com Leonardo. Suas primeiras lesões apareceram quando ele era ainda uma criança, aos seis anos. Naquela época era briguento e rigoroso com seus afazeres e como resultado estava sempre de “cabeça quente”. Certa vez enquanto pensava insistentemente sua cabeça esquentou e uma coceira súbita surgiu no couro cabeludo de onde soltaram-se “casquinhas escurecidas”. Como remédio para este ardor a mãe, sábia e protetora, receitou-lhe que esfriasse a cabeça. Explico. Esfriar a cabeça para ela era uma forma de barreira ao pensamento, era preciso mergulhar no mar gelado para construir este                                                                                                               5

Estas  três  lesões  de  pele  foram  as  que  trabalhamos  nos  Hospitais:  Escola  Paulista  de  Medicina-­‐SP;  Policlínica   de  Mogi  das  Cruzes  e  Universidade  do  ABC.  

 

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dique. Lembra-se que depois deste feito tanto a coceira quanto a escamação melhoraram significativamente6. Durante as entrevistas relembrou-se que sua cabeça começou esquentar porque havia obtido uma nota baixa em uma avaliação escrita na escola e como punição pela indisciplina e irresponsabilidade teve uma escamação capilar que lhe causava inibição diante dos colegas. Aos 16 anos, portanto, 10 anos mais tarde, depois de ter fumado maconha com os amigos atropelou uma pessoa de bicicleta. Sem saber como reagir e com medo das conseqüências que teria que assumir fugiu da policia refugiando-se nos braços da mãe. No mesmo instante que escapou à punição social sentiu a carne arder em chamas, como se estivesse queimando e placas vermelhas se espalharam por algumas regiões do seu corpo. Dias depois estas placas começaram escamar e obteve o diagnóstico de psoríase. Sem saber o que este “palavrão” significava, ingeriu alguns remédios que não se recorda quais foram e espalhou pelo corpo cremes, sendo assim, após dois meses sua pele voltou ao normal. Mais um episódio ocorrido 10 anos depois. Aos 26 anos, quando ainda namorava, depois de levar sua garota ao aeroporto para uma visita familiar, ele estacionou seu carro em um posto de gasolina se abastecendo de guloseimas numa pequena loja de conveniência. No local encontrou uma amiga dos tempos da faculdade, trocaram olhares e subitamente sentiu-se atraído por ela. Instantes depois de uma pequena conversa dirigiram-se ao motel. Enquanto faziam sexo Leonardo sentiu que algumas regiões de seu corpo estavam “rasgando de tanto

                                                                                                              6

Nota-­‐se  claramente  o  efeito  de  sugestão  a  partir  da  fala  do  outro.  

 

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calor”, uma coceira intermitente o envolvia e quando foi se vestir verificou novas placas em seu corpo que rompiam sua pele. De dez em dez anos um episódio tomado como fora da lei, como contravenção moral aplacavam Leonardo que era punido pela psoríase. Sua hipótese era de que a doença tomou o lugar de sua “maldição7”. Em resposta a Vauthier, Lacan, na Conferência em Genebra sobre o sintoma (1975), fará uma essencial consideração sobre o doente psicossomático que permite desdobramentos na clinica psicanalítica. Algo acontece com estes sujeitos endereçando à ordem do escrito e na maioria dos casos os psicanalistas não sabem lê-lo. “Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo, alguma coisa que se oferece como enigma...”8 Foi em 1975 que Lacan sugeriu o tema do psicossomático emparelhado a idéia de signatura, de hieróglifo, de traço unário. Sobretudo, nos debruçamos sobre estas premissas para abordar a tática da psicanálise neste caso clinico apresentado pela lesão de órgão, ou como pronunciado por Lacan em 1966, por uma questão epistemo-somàtica. A indagação estavam postas: se existe um escrito no corpo, dado a não ler, qual a responsabilidade do analista diante desta clínica? Pois bem, neste caso em particular um ponto nos surpreendeu para além da lesão de pele. Contou Leonardo que fez todo o tipo de tratamento, inclusive ingeriu remédio biológico, que                                                                                                               7

Homofonicamente  maldição  e  mal-­‐dicção.     Lacan,   J.   (1998)   Conferencia   em   Genebra   sobre   o   sintoma   (1975).In   Opção   Lacaniana   n.   23.   Dezembro   de   1998.  p.  13-­‐14-­‐  São  Paulo.  

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somente é prescrito em casos em que todo o corpo do paciente é tomado pela afecção. Vale salientar que suas marcas eram localizadas em zonas de atrito, tais quais joelhos e cotovelos. Durante sua adolescência participou de muitos campeonatos de jiu-jitsu e de surfe, tornandose um excelente esportista o que o autorizou a muitas viagens e grande quantidade de laços sociais. No entanto, sua vida foi desregrada em assuntos sexuais e de uso de entorpecentes. Quando iniciou as práticas esportivas disciplinou-se, deixando de lado orgias e vícios freqüentes. Como marco para esta mudança subjetiva tatuou na pele o mar e um lutador de jiu-jitsu, conseguindo eternizar na carne seu amor pelo esporte e sua “salvação da vida mundana”. Com a aparição “dela”, como Leonardo designou a lesão de pele, teve que parar de lutar porque a psoríase seria mais propensa a aparecer quanto maior o atrito da pele. Como nenhum dos tratamentos regrediu sua lesão após seus 26 anos optou por adornar sua pele com desenhos como formas de encobrir as manchas vermelhas e escamações da pele. Assim, a pequena tatuagem do mar foi ganhando contornos mais definidos, espécies diferentes de peixes e vegetação surgiram em regiões que a psoríase formava uma borda. Um coqueiro foi pintado em uma das pernas e um sol em outra. As marcações corporais foram se expandindo pela extensão de sua pele para tentar compor junto com o desenho um cenário que apagaria a lesão. Em contrapartida, o que Leonardo não contava era que a psoríase, como uma “praga”, aumentou com os contornos da tinta colorida no órgão pele. Conclusão: ele não sabia mais

 

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aonde começava sua tatuagem e, tampouco, aonde terminava sua psoríase. As marcas foram se misturando umas às outras ate produzirem uma fusão indiferenciada. Ana Costa em seu livro Marcas Corporais e tatuagens (2003) recorta dos textos de Lacan duas passagens em que o ato de tatuar é questionado. O primeiro deles, e dizemos, não é uma ordem cronológica, surge em Subversão do Sujeito e dialética do desejo de 1966. Ali Lacan apresenta uma metáfora de um escravo que porta uma mensagem tatuada em seu couro cabeludo. Sem que soubesse da tatuagem, tampouco do seu conteúdo ele transporta a mensagem que poderia ser sua própria condenação a morte. O comentário de Lacan ao debruçar-se sobre esta passagem diz respeito ao elo da pulsão com a tatuagem, deste tanto, enfatiza o corpo como depósito de traços invisíveis e incompreensíveis que podem ser materializados e endereçam a uma leitura. Neste sentido, estamos diante de uma contradição em relação aos fenômenos psicossomáticos segundo o que Lacan nos apresenta na citada Conferência. Estes fenômenos são dados a “não-ler”. Pode-se então levantar uma idéia de que a tatuagem pede um olhar, uma decifração, ou seja, a busca de um lugar no amor do outro, pela procura de uma decifração de traços corporais. Estaria a tatuagem de Leonardo convocando um sentido? Uma outra citação de Lacan, encontrada em Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) atrela a tatuagem a uma função erótica. Poderia, deste feito, ser lida como uma encarnação do órgão, diferente dos cortes e cicatrizes que apontariam para um masoquismo erógeno. Se tomarmos a tatuagem nesta vertente de encarnação, sua impressão seria a do traço unário. E continuando através desta lógica, Lacan comunga, no mesmo  

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seminário, da idéia de que o traço unário se marca como tatuagem, como o primeiro dos significantes, operando assim no nível da contagem, instituindo uma diferença que singulariza o lugar do sujeito. Capturadas por esta construção remetemos o leitor novamente a um pequeno passeio pela Conferência em Genebra, lugar em que Lacan pontua que no FPS estamos diante da lógica do número e não da letra, da contagem e não da decifração. Não pretendemos de forma alguma minimizar os estudos sobre a tatuagem, tampouco reduzi-los a um sentido único. Nosso objetivo é articular, se possível for, as duas aparições corporais, a saber: o fenômeno de pele e a tatuagem. No percurso desta premissa que seguimos as pistas de Lacan. Foi em momentos distintos de sua obra que falou sobre o fenômeno psicossomático. Vale-nos capturar um tempo em que em seu seminário livro 2 ele o articula a uma inscrição ou impressão direta na carne. Lembremos que estamos diante dos anos 55 e 56, quando 20 anos mais tarde, portanto em 1975 sua apresentação na conferencia destinada ao sintoma é que a lesão poderia ser tomada pela inscrição significante na carne. Uma tradução para esta consideração é a de ocorreria um curto-circuito no simbólico, ou seja, uma falha da função paterna. Alguns psicanalistas baseados, sobretudo, nas concepções feitas por Lacan9 sobre o emparelhamento do fenômeno psicossomático à debilidade mental e à psicose constroem a hipótese que nesta formação fenomênica não aconteceria uma holófrase total, mas,                                                                                                               9

 

Lacan,  J.  Os  quatro  conceitos  fundamentais  da  psicanálise.seminário:  livro  XI.  

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especialmente uma holófrase local, situada no par S1S2, impedindo o deslizamento na cadeia significante. Todavia, isto não atestaria a ausência do desejo, sua foraclusão, o desejo estaria presente, contudo, através de sua suspensão. Os significantes, pelo mecanismo desta holófrase local, estariam congelados, gelificados, isto quer dizer, passíveis de remontagem a cadeia. Logo, tocar os fenômenos pela via do significante, da decifração seria uma operação impossível e sem êxito , como foi mostrado por Assadi (2010). Se este escrito dado a não-ler engendra algo da ordem do número, da contagem, articulando o gozo a metonímia, podemos chegar a conclusão que estamos diante do objeto da pulsão em sua relação com o significante isolado e não da cadeia significante. Algo nos faz questionar que o axioma o inconsciente estruturado como linguagem, tendo o significante e a interpretação como suas molas propulsoras não são suficientes para tratar o fenômeno psicossomático. É preciso avançar no ensino de Lacan e tomar a lesão como um gozo especifico que poderíamos apostar ser um gozo Outro, situado na articulação borromeana entre real e imaginário. Assim neste gozo haveria uma fixação corporificando a libido, como um significante isolado e impresso na carne, fixado. Pode-se concluir que o Fps surge na clinica muito mais como uma resposta do que como um enigma, faz obstáculo a perspectiva da elaboração de uma demanda ao Outro e traz interrogações sobre a direção do tratamento. Vem como um negativo da operação da extração do objeto, concernente a operação de incorporação da estrutura.

 

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No sintoma temos uma mensagem dirigida ao Outro e uma cifra que demanda decifração, enquanto que no FPS temos algo escrito no corpo, marcado na carne. Mas, a questão que não faz calar é se tomamos os últimos ensinamentos de Lacan, sobretudo naquilo que diz sobre o sintoma como acontecimento de corpo, tanto o sintoma como o fenômeno possuem o mesmo estatuto: de um fenômeno.Quanto a isto deixamos a questão para ser construída. E, quanto a Leonardo: culpa, vergonha, punição, lei, dúvida, obediência representavam seus significantes mestres enquanto que psoríase seu significante isolado. Ou melhor, o que o representava de fato como sujeito

era ser marcado, ser um carne viva- um

escamado- substituindo seu nome próprio. Durante a análise algumas rememorações surgiram. Lembrou-se que o irmão sempre fazia peripécias e ele era quem era “marcado na carne” . O pai pegava um chicote de cavalo e o castigava, o irmão o acusava e ele não sustentava pela palavra sua inocência. Como sempre moraram no litoral passear no mar transformou-se em sua rotina.. Contudo, como tinha a pele muito clara ficava vermelho com o excesso do sol e com a tez “escamando, em carne viva”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ASSADI, T. C. (2010). A-pelLe. In A pele como litoral: psicanálise e medicina. Org. Heloisa Ramirez e Tatiana Assadi. São Paulo, Editora Anna Blume. ( no prelo) ASSADI, T. C. DUNKER (2004), C. I. L. Alienação e separação nos processos interpretativos em psicanálise. Psychê, ano VIII- n. 13, jan-jun/2004- p.85-100, São Paulo  

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ASSADI, T. C. ;PEREIRA, M. E. C.(2003) O eclipse da mulher na presença do fenômeno psicossomático. Psychê, São Paulo, p. 81-96. ASSADI, T. C. e outros. (2003). O menino e o efeito pirilampo. Um estudo em Psicossomática. Ágora, Rio de Janeiro, v. 6, p. 99-114.. Costa, Ana. (2003). Marcas Corporais e tatuagem. São Paulo, Casa do Psicólogo. LACAN, J. (1985). O Seminário: livro 2: o Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. (1954-55). Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora. ___________. (1992). O seminário: livro 3: as psicoses. (1955-56). Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora. ___________. (1998). Subversão do sujeito e dialético do desejo no inconsciente freudiano.(1960). In Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor ___________. (2003). Seminário da identificação.(1961-62). Publicação não comercial. Recife. __________. (1985b). O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964). Rio de janeiro. Jorge Zahar Editora. 1 __________.(2005). Psicanálise e Medicina. (1966). In Opção Lacaniana. N. 32. São Paulo. ___________. (2007). O seminário: livro XXIII: O sinthoma.(1975-76). Jorge Zahar, Rio de Janeiro. ___________. Conferência em Genebra sobre o Sintoma (1975).In Opção Lacaniana. São Paulo, número 23- dezembro de 1998. NASIO, J. –D. (1993). Psicossomática: as formações do objeto a . Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora. WARTEL e outros. (2003). Psicossomática e psicanálise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora.

 

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Sintoma: ruído da alíngua1 no corpo Silvia Amoedo2 “Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar...” (Clarice Lispector)

Pode-se dizer que o sintoma é um ruído da alíngua no corpo? Dos casos clínicos oriundos da experiência analítica, Freud extrai o conceito de sintoma analítico, desconhecido para o próprio sujeito e que dá corpo ao corpo do ser falante, antes inerte. Como representante de um evento traumático da alíngua, de fantasias do paciente resultantes de coisas ouvidas na infância, o sintoma é um substituto de uma satisfação pulsional. Na formação do sintoma, Lacan dá ênfase às coisas ouvidas antes da aquisição da linguagem, quando a criança ainda não tem acesso ao sentido do significante, o que denomina de a alíngua, cuja impressão sobre o corpo deixa vestígio que ressurge, do real, como ruído no corpo, anunciando o impossível da relação sexual. O sintoma é um evento corporal, solução para a des/ordem, divisão causada no ser falante pela alíngua. Para a psicanálise, os casos clínicos são imprescindíveis. A palavra “caso” vem do latim casus, que quer dizer aquilo que cai. Caso é também acontecimento, eventualidade, casualidade, situação particular, história, aventura amorosa. Do grego kline, a palavra                                                                                                               1

No  presente  texto,  adotei  a  tradução  proposta  por  Jairo  Gerbase  “alíngua”  para  o  neologismo  “lalangue”,  o   qual  mantém,  na  fala  a  presença  do  equívoco,  que  só  a  escrita  explicita.   2  Membro  da  EPFCL  –  Fórum  Natal  

 

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“clínica” significa leito e, na experiência analítica, pode-se dizer, um leito sem barragem, pelo qual correm as palavras que tentam dizer da impossibilidade do leito conjugal e do leito eterno, respectivamente a relação sexual e a morte. Inesgotáveis, os casos clínicos de Freud continuam, para todos aqueles que se debruçam sobre a fonte freudiana, jorrando no processo contínuo de criação da psicanálise. Mas o que se espera do tratamento analítico em relação ao sintoma, já que este é que sustenta, com substância de gozo, o corpo do ser falante? O que se pode escutar, na relação analítica – que dispõe precisamente da linguagem como instrumento –, do eco desse evento corporal constituído de alíngua, antes da linguagem? São as pulsões no corpo, segundo Lacan, o eco do fato de que há um dizer [...] é preciso que o corpo lhe seja sensível (1975/1976, p.18). Para abordar essas questões, pretendo, com recortes clínicos, seguir alguns dos rastros deixados no divã. A palavra do analisante é o meio através do qual a psicanálise opera. É no dito do sujeito, sob transferência, que o inconsciente se atualiza, precisamente quando o sujeito vacila, quando diz ou duvida e, ainda, quando não consegue sequer dizer, como mostra a experiência analítica. O sujeito A., após ter-se submetido a vários tratamentos para uma dermatite de contato, procura análise quando conclui que o saber médico falhara em seu caso. Sobre o sintoma, ela sabe que se trata de uma reação alérgica da pele, quando entra em contato com alguma substância; mas qual substância? A pele coça, formam-se bolhas, que viram feridas, seca e descama, num ciclo que se repete desde que A. se entende por gente. Ela se queixa:  

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Isso faz com que eu não trabalhe na minha profissão e não tenha relação sexual com ninguém! E, coçando a pele, passa a discorrer sobre suas impressões: sentia uma sensação estranha de satisfação, quando criança, ao escutar o ruído das unhas de sua mãe coçando as costas de seu pai. De súbito, ela associa essa lembrança com a satisfação e o ruído que escuta ao coçar as próprias feridas do corpo. Encerro a sessão com a pergunta: Que ruído é esse no corpo? O que isso quer dizer? Para que um dito seja verdadeiro, é preciso ainda que se o diga, que haja nele um dizer, (1972, O aturdito, p. 449). O sujeito A. diz que a cena tinha uma conotação sexual, que se expressava nos sussurros que seu pai emitia. As feridas servem, então, como barreira, para me impedirem de tocar ou ser tocada por outro corpo? – pergunta. Isso é uma contradição: não faz sentido! – afirma, admitindo que gosta muito de tocar e ser tocada. Mas a pele des/camada continua a coçar, como se quisesse dizer coisas que não são do sujeito, para cessar a sensação indefinível que o prurido provoca e o consequente ruído que causa desordem. O sujeito B., por sua vez, sofre com os desarranjos que o acometem cada vez em que é confrontado com uma situação em que tenha que dar prova de sua virilidade. A pré/tensa relação sexual, como diz, configura-se como o maior deles e, só de pensar, a barriga começa a fazer um barulho estranho, ronca sem parar, culminando numa desinteria que o deixa sem consistência. Ele se lembra de que, quando criança, se excitava quando ficava acordado na cama escutando barulhos vindos do quarto dos pais, e só dormia depois de ouvir os roncos do pai, quando se assegurava de que não haveria mais relação sexual entre eles. Isso o atordoava.  

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Pontuo: Sua barriga também ronca! Como indica Lacan (1975-1976), só é possível liberar algo do sintoma pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe (p.18). No processo de associação livre, o sujeito B. deixa entreverem-se alusões às experiências esquecidas. Esse barulho retorna: Sonhei que tinha relações sexuais com uma mulher, uma mulher muda – relata. Diz que as mulheres, quando falam o acessam, mas que nenhuma mulher pode acessá-lo por inteiro, senão ele esgarça, como um tecido. E acrescenta: O melhor encontro sexual é mesmo no silêncio! O dito encobre um dizer – o real – que exsiste no sujeito e que se anuncia assim: não há relação sexual – senão como interdição, no silêncio. Em Alíngua também é nó, diz Gerbase (2010, p. 65): ainda que se possa representar e discernir os ditos resta sempre algo que não se representa e que não se diz. A palavra falta e isto é sintoma do real. Sintoma do real? De que se trata? Sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real (Lispector, 1998, p.12). Seguir o fio do discurso analítico, segundo Lacan (1972-1973, p. 61), tende para refraturar, marcar com uma curvatura própria, a descontinuidade da alíngua. Retorno às fontes freudianas, aos primórdios, quando Freud concebe o sintoma como resultado de uma eventualidade da história, na qual o sujeito era acometido de algo, inassimilável, que lhe vinha de fora – o trauma. Desconhecidos para o próprio sujeito, os sintomas causam sofrimento, ao mesmo tempo em que expressam a realização de um desejo, pois resultam de um modo de gozar do  

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sujeito. Em lugar de modificar o mundo externo para a satisfação, a modificação se dá no próprio corpo do sujeito. Freud (1896, p. 185) constatou que, em qualquer caso e em qualquer sintoma, chegase infalivelmente ao campo do gozo sexual. Embora a presença da significação da sexualidade na etiologia das neuroses, como substituto sexual, já tivesse chamado a atenção de Freud desde as primeiras observações clínicas, naquela ocasião, como ele mesmo disse, ele não tinha ainda aprendido a reconhecê-la como seu destino inexorável, como impossibilidade da relação sexual. Esse não saber que se revela no sintoma, e em outras formações do inconsciente, conduziu Freud a elaborar a hipótese sobre o inconsciente, que Lacan, em seu retorno a Freud, enunciou como estruturado como uma linguagem. Com a linguagem, como diz Lispector (1999, p. 176): Eu tenho à medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A linguagem é a matéria-prima, o real é o lugar onde vou buscá-la – e como não acho. Posteriormente, Lacan acrescenta que o inconsciente é estruturado como uma linguagem nos efeitos de alíngua, que já estão lá como saber, vão bem além de tudo que o ser que fala é suscetível de enunciar (Lacan, 1972-1973 p.190). O sintoma é um evento no corpo (Lacan, 1976, p. 565). Para Lacan, há o corpo imaginário, o corpo que encontra unidade com a antecipação da imagem corporal, quando a criança, capturada pelo engodo especular, fabrica fantasias, que vão desde uma imagem despedaçada do corpo até a forma da totalidade deste. Mas é a linguagem que concede ao ser  

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falante um corpo simbólico, esteja ele vivo ou morto. Com a sepultura, da morte emerge o símbolo que preserva o corpo do ser vivente. O simbólico tem, portanto, relação com a permanência de tudo o que é humano e do próprio homem. O sintoma, como formação de significante, é uma metáfora, construída como uma frase poética, que vale ao mesmo tempo por seu tom, sua estrutura, seus trocadilhos, seus ritmos, sua sonoridade. Tudo se passa em diversos planos, e tudo é da ordem e do registro da linguagem (Lacan, 1953, p.24). Como observa Lacan, os sintomas de Dora, caso clínico de Freud, são elementos significantes, mas na medida em que sob eles corre um significado perpetuamente em movimento, que é a maneira como Dora aí se implica e se interessa (1956 1957, p.149). Sobre a linguagem, diz Lispector (1999): A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Pode-se dizer que a linguagem toca o gozo – o indizível, o encontro do real como mostra o sonho paradigmático do Homem dos lobos: “Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. [...] De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. [...] Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei” (FREUD, 1918 [1914], p. 45). Além da sensação duradoura de realidade que o sonho deixou após o despertar, dois fatores foram destacados pelo paciente: o olhar atento dos lobos, como se tivessem fixado  

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toda a atenção sobre ele, e sua própria imobilidade diante desse olhar. Por trás do conteúdo do sonho, existia provavelmente uma cena desconhecida, que ocorrera havia muito tempo. Em A terceira (1975), Lacan diz que o sentido do sintoma é o real, que retorna sempre ao mesmo lugar, que não cessa de se repetir para impedir o andamento das coisas – uma pedra no meio do caminho. O sintoma segue na contramão do projeto idealizado e exitoso do sucesso no sentido de todos; por outro lado, no sentido do um, do singular, as coisas caminham de forma satisfatória. Eis a política do sintoma. A mulher do ruído e o homem do ronco podem ser nomes próprios, respectivamente, dos sujeitos A. e B., nomes de gozo do sintoma, identificadores do ser falante. Ruído e ronco são, assim como lobos, significantes da alíngua. REFERÊNCIAS FREUD, S. A etiologia da histeria (1896). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. 3. ______. História de uma neurose infantil (1918 [1914]). In: _____. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. 17. GERBASE, J. Alíngua também é nó, 2010. LACAN, J. O Seminário – livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1995. ______. O Seminário – livro 20: mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1982. ______. O Seminário – livro 23: o sintoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, ? ______. O simbólico, o imaginário e o real (1953). In: Nomes-do-Pai. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. ______. Joyce, o Sintoma (1976). In: Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.  

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______. A terceira (1975). Inédito. LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. ______. A paixão segundo GH. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

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Considerações sobre o gozo em um caso clínico de psoríase1 Heloísa Helena  Aragão  e  Ramirez2   Tatiana  Carvalho  Assadi  3   “... o que mais existe de mim mesmo está do lado de fora, não tanto porque eu o tenha projetado, mas por ter sido cortado de mim...” (Lacan, 1962-1663)4 Helena fora indicada para fazer análise por outra paciente que também “lutava contra a

psoríase”, uma indicação que passou sem dúvida pela suposição de saber uma vez que a analista estava vinculada à coordenação do projeto alocado no Instituto da Pele (UNIFESP): “Aspectos Psicológicos do Paciente com Vitiligo e Psoríase” ligado à Rede de Sintoma e Corporeidade do FCLSP. No entanto, nesse primeiro momento a transferência não estava colocada na suposição de saber sobre o sujeito do inconsciente, como é de se esperar em um caso de análise, mas numa suposição de saber sobre o objeto psoríase, com o qual Helena convivia há muito mais de 30 anos. Tanto foi assim que pediu à analista a indicação de um médico que pudesse ajudá-la a se livrar de uma vez por todas, “dessa coisa horrorosa”, disso que “impregnou seu corpo”. Mostrou-se esperançosa e reanimada pela possibilidade de um “tratamento novo, mais abrangente” que conciliaria os avanços da medicina,                                                                                                               1

O trabalho desenvolvido no Instituto da Pele da UNIFESP nos colocou em contato com a psoríase, doença de pele que no Brasil atinge mais de cinco milhões de pessoas. Trata-se de uma afecção crônica de causa desconhecida que pode se apresentar desde formas mínimas com pouquíssimas lesões até a chamada psoríase eritrodérmica, na qual toda a pele se encontra comprometida. A forma mais frequente é a psoríase em placas, que se caracteriza pelo surgimento de lesões avermelhadas e descamativas na pele. Em boa parte dos casos, considera-se que fenômenos emocionais estão relacionados com o surgimento ou o agravamento da psoríase, associado a uma predisposição genética para a doença. O mal estar geralmente é causado pela coceira e pelo prurido provocado, e, especialmente, nos casos mais severos, pelo aspecto das lesões. 2 – heloramirez@gmail.com 3 – tatiassadi@uol.com.br 4

LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia[1962-1963]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

 

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cuja expectativa era por um fim às feridas de seu corpo, mais a ajuda da psicanálise. Lacan em a Terceira 5 diz existe uma expectativa de um êxito da psicanálise: “O que lhe pedimos é que ela nos livre tanto do real quanto do sintoma”. Mas sabemos, enquanto psicanalistas, que não é deste lugar que devemos responder. Foi justamente isso que me fez rever este caso, pensar o que operou e qual foi o manejo que produziu um efeito terapêutico e reduziu a psoríase à zero. Diferentemente da demanda médica cujo princípio é eliminar o sintoma, para a psicanálise “o sintoma é uma formação de gozo singular determinada ou ordenada pelo inconsciente”6, e atua como ‘solução’ uma vez que surge na suplência ao “corpo a corpo de gozo”. A questão que está posta é “saber se e como a psicanálise, que opera pela palavra, dá um acesso eficiente a algo do corpo que seria real.”7 O que da história de Helena foi subtraído e inscrito no real do corpo? Nos primeiros encontros com o dispositivo de análise ela se limitou a descrever o longo percurso que trilhou e os detalhes da sua peregrinação na busca de algo que resolvesse sua psoríase. A analista manteve o silêncio durante boa parte das entrevistas, e que foi interrompido pela a questão: “Pare... Diga-me o que veio fazer aqui?” Surpresa pela repentina interrupção em sua falação, Helena consegue responder: “eu sei que boa parte do meu mal tem a ver com minha cabeça. Eu sei que tudo tem a ver com o meu emocional. Eu sei que você pode me ajudar”. Estabelecia-se aí um reposicionamento da analista, o início de uma transferência e uma modesta implicação com o dispositivo de análise. Foi o   choro   convulsivo   e   copioso   o   quê   marcou,   daí   para   frente,   as   entrevistas   preliminares.  Ao  sentar-­‐se  na  poltrona  do  consultório,  invariavelmente,  a  garganta  de  Helena                                                                                                                   5

A  Terceira.  7°  Congresso  da  Ecole  Freudianne  de  Paris,  31/10/1974    Soler,  C.  “Sintoma,  Acontecimento  de  corpo”  in  Caderno  de  Stylus  “O  Corpo  Falante”.  RJ,  EPFCL,  2010.  (p.31-­‐ 52)   7  Soler,  C.  “A  psicanálise  e  o  corpo  no  ensino  de  Jacques  Lacan”  in  Caderno  de  Stylus  “O  Corpo  Falante”.  RJ,   EPFCL,  2010  (p.65-­‐91)   6

 

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se embargava  impedindo-­‐a  de  falar  livremente.  Sua  voz  se  ouvia  entrecortada  por  soluços,  sons   e   fungadas   e,   muitas   vezes   apenas   grunhidos.   Nestes   momentos   aflitivos   esperava-­‐se   um   tempo   para   que   se   recuperasse   da   angústia   que   a   experiência   suscitava   até   que   pudesse   articular   alguma   fala.   Em   algumas   sessões   apenas   sons,   sem   sentido,   nenhuma   palavra,   não   sabia   o   que   dizer   e   nem   porque   o   choro   aflorava   quando   estava   com   a   analista.   Helena   não   compreendia   o   que   se   passava,   era   algo   mais   forte   do   que   ela,   alguma   coisa   que   fugia   ao   seu   controle.   Estes   episódios   me   fizeram   pensar   em   algo   como   uma   re-­‐atualização   de   lalíngua.   Seria   possível?   Um   som   separado   de   sentido,   mas   afetado,   gozado   pelo   corpo,   um   som   re-­‐ atualizado   na   experiência   de   análise   de   uma   erupção   de   gozo   cuja   origem   aconteceu   mesmo   antes  da  fala  primeira?  Esta  é  uma  questão  que  merece  consideração  maior  e  que  deixo  aqui   para  futura  discussão.   Extraí  da  história  de  Helena  alguns  pontos  importantes  para  relatar.  Somente  agora  que   ela  estava  com  quase  60  anos  resolvera  procurar  por  uma  análise.  Vivera  toda  sua  vida  abalada   pela   tristeza.   “Sozinha”   não   tinha   com   quem   contar.   Havia   muito   tempo   que   sua   família   se   “acabara”.   Hoje   só   tem   um   irmão   vivo   e   não   consegue   se   entender   com   ele.   Mas,   sempre   foi   assim:  “sozinha”!  Tinha  apenas  dez  anos  na  época  em  que  sua  mãe  morrera,  foi  terrível  porque   “ainda  precisava  muito  dela”.  Na  verdade,  Helena  começou  a  sentir  a  falta  da  mãe  pelo  menos   uns   dois   anos   antes   de   sua   morte   quando   a   doença   começou   a   se   agravar   e   a   se   tornar   insuportável.   Ela   definhava   a   cada   dia   e   sua   ausência   se   fazia   sentir   em   presença.   Lembra-­‐se   que  ela  gemia  e  chorava  baixinho  e  que  de  seu  quarto  podia  ouvir  os  seus  ais  e  os  soluços  de   dor.   O   vômito   e   as   cusparadas   também   faziam   muito   barulho,   ficavam   ecoando   em   seus      

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ouvidos ao  ponto  de  precisar  tapá-­‐los  para  conseguir  dormir.    Recorda-­‐se  da  impotência  do  pai   diante  da  doença  da  mãe  e  relata  uma  cena  onde  o  vê  sentado  numa  cadeira,  com  as  mãos  na   cabeça  como  se  a  apertasse,  chorando  desesperado  “feito  uma  criança.  Me  deu  muita  pena  dele,   nunca  mais  consegui  esquecer  isso”,  diz.     Outras  cenas,  porém  dantescas,  povoavam  seus  pensamentos.  Na  primeira  delas,  sua  mãe   encantrava-­‐se  sentada  à  beira  da  cama,  muito  pálida,  segurando  nas  mãos  um  penico  cheio  de   sangue.    “Ela  cuspia  sangue.  Era  um  horror”.  Aquele  foi  um  período  marcado  por  uma  série  de   acontecimentos  carregados  de  desalento  e  que  ficaram  para  sempre  em  sua  memória.  No  dia   em   que   a   mãe   morreu   Helena   voltou   da   escola   e   levou   um   grande   susto.   Ao   entrar   na   sala   deparou-­‐se  com  o  caixão  iluminado  apenas  pelas  velas  acesas  em  meio  à  sala  escura.  Naquele   tempo   era   costume   velar   os   mortos   em   casa   e   forravam-­‐se   as   paredes   com   um   pano   preto   numa   demonstração   do   luto   em   que   se   viam   envolvidos   os   familiares   já   que   o   preto   era   a   representação  do  nada  da  ausência  e  da  escuridão.  Helena  disse  que  foi  um  “horror”  tão  grande   que  ela  saiu  da  sala  gritando  e  chorando.  “O  meu  pai  teve  o  bom  senso  de  não  me  deixar  ir  ver  o   enterro   dela”.   Helena   diz   que   “o   mais   impressionante”   acontecimento   daqueles   tempos   foi   o   fato   de   que   para   ela   era   como   se   a   mãe   não   tivesse   morrido.   Passou   anos   mentindo   para   as   colegas  do  colégio,  fingindo  que  sua  mãe  estava  viva.  Quando  alguém  perguntava  pela  mãe  ela   tinha  sempre  uma  resposta  pronta  ou  criava  uma  nova  história.  Dizia:  “minha  mãe  não  gosta;   ou   minha   mãe   não   quer   que   eu   fique   na   rua;   minha   mãe   não   deixa;   tenho   que   ir   para   casa   porque   minha   mãe   tá   esperando,   etc.”.   Deixou   de   participar   da   festa   de   formatura   do   colégio   porque   não   tinha   como   apresentar   a   mãe.   Estas   lembranças   foram,   nas   sessões,   sempre      

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acompanhadas de  muita  angústia  e  comoção.  Helena  demanda  da  analista  uma  resposta  sobre   a   razão   de   fazer   o   que   fazia.   Porque   não   dizia   que   a   mãe   já   estava   morta?   “Tem   de   haver   alguma  razão,  sabe  eu  sinto  falta  dela  até  hoje.  Morrer  o  pai  é  difícil,  mas  a  mãe...”     Foram   mais   de   dez   anos   alimentando   a   fantasia   de   que   a   mãe   estava   viva.   Uma   estratégia   para   não   sofrer   a   dor   do   luto.   Sem   perda,   não   há   separação.   Foi   à   concreção   imaginária   do   objeto  de  amor  perdido  que  garantiu  a  Helena  sustentar  a  falta  que  a  mãe  lhe  fez  privando-­‐a  de   proteção   e   amor.   A   invocação   deste   espectro   assegurava-­‐lhe   a   ilusão   de   que   ela   estava   viva   suprindo-­‐a,   desta   forma   do   desamparo   avassalador.   Não   era   uma   visão   fantasmagórica   no   sentido   clássico   da   palavra:   quimérica   e   assustadora   que   aparece   inoportunamente.   Ao   contrário  era  uma  fixação,  uma  obsessão  protetora  que  garantia  sua  sobrevivência  dando-­‐lhe   forças   para   o:   “eu   aprendi   tudo   na   rua,   do   jeito   que   deu,   com   as   amigas”.     Levanto   aqui   a   hipótese  de  que  esta  não  era  uma  simples  falta  que  se  substituiria  por  algum  outro  objeto,  mas   algo  com  valor  de  um  furo,  insubstituível,  que  fazia  desaparecer  o  lugar  na  combinatória,  a  falta   no   lugar   do   Outro.   Helena   não   conseguiu   re-­‐atualizar   esta   falta   fundamental,   porque   não   havia   a  condição  para  isso:  não  tinha  ao  seu  lado  o  Outro  desejante.  O  lugar  desde  sempre  vazio  que   não  pode  ser  ocupado  pela  mãe,  ela  própria  impotente,  abriga  o  seu  fantasma  como  forma  de   cerzidura.  “É  na  medida  em  que  a  criança  descobre  que  o  Outro  deseja,  que  poderá,  por  sua  vez,   desejar  sob  a  forma  de  um  objeto  que  lhe  retornaria  como  falta”.8   Os  momentos  destas  lembranças  provocaram  efeitos  importantes  na  análise.  A  primeira   cena,  a  do  sangue,  certamente  faz  referência  à  dimensão  do  real  apontando  para  um  objeto  não                                                                                                                   8

 

Nasio,  J.-­‐D.,  Psicossomática  –  As  formações  do  objeto  a.  1993  RJ,  JZE  .    

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especular próprio  da  sexualidade  feminina.  A  segunda  cena  mostra  o  horror  à  morte  irrompido   pela  presença  implacável  do  corpo  inerte,  sem  vida.  Cenas  que  apontam  para  o  real  em  jogo  e   para  um  gozo  específico.   Os primeiros pontos de psoríase apareceram nos joelhos e cotovelos logo depois que se menstruou pela primeira vez. Ficou apavorada. Não tinha com quem falar sobre isso. Não sabia muito bem o que fazer com todo aquele sangue. Teve que se “virar” sozinha. Passando o impacto da menarca começaram a aparecer os primeiros pontinhos vermelhos, que só a incomodavam pelo fato de coçar. Fez inúmeros tratamentos, passou por dezenas de médicos dermatologistas e outras opções alternativas. Por ser um a doença crônica enfrentou diversas crises, de maior ou menor amplitude ao longo de sua vida. Em determinada ocasião atravessou uma bem forte em que teve sua pele afetada em quase 70%. As lesões estavam muito feias, a pele escamava e coçava sem parar. Como estava “muito atacada” da psoríase, procurou um curandeiro de quem havia obtido ótimas referências. Ele lhe ofereceu uma medicação cuja fórmula era composta com uma boa dose de cortisona. Helena sabia que a formulação continha a droga, mas não sabia dos efeitos colaterais que ela provocava e fez uso contínuo da solução. A psoríase desapareceu no tempo em que usou o remédio. Alertada pelo farmacêutico que lhe aplicava as injeções e diante do inchaço que apareceu em seu rosto parou de usar a medicação. O efeito rebote9 foi imediato, “um horror”, se viu atacada por uma psoríase extremamente acentuada. No entanto, esta experiência foi importante para que conhecesse o efeito que a cortisona tem de “limpar” a pele quase que instantaneamente. Daí para frente Helena passa a fazer um uso conveniente do remédio sempre que tinha um encontro com alguém e sua pele estava                                                                                                                 9

O  efeito  rebote  é  a  tendência  que  um  medicamento  tem  de  provocar  o  retorno  dos  sintomas  que  estão  sendo   tratados.  Em  casos  extremos  de  efeito  rebote  o  reaparecimento  dos  sintomas  poderão  ser  mais  graves  que  no   início  da  doença.    

 

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“atacada” besuntava-se com uma pomada e se livrava do constrangimento de sentir a mão do companheiro no seu corpo áspero. Estes eram tempos de amor quando oferecia seu corpo, narcisicamente investido ao outro. Porque privilegiar  esta  história  e  o  que  nesta  história  foi  pinçado  como  fundamentação  da   clínica?   Seguramente,   porque   aqui   repercute   a   forma   como   foi   escrita   e   que   se   repete   quase   que  invariavelmente  em  outros  casos  que  temos  atendido  no  Instituto  da  Pele  quando  se  trata   de  algo  como  psicossomática.  Foi  escrita  no  corpo,  ou  melhor,  inscrita  no  corpo,  incrustada  na   carne   em   forma   de   lesão,   uma   linguagem   que   não   passou   pela   simbolização,   uma   escrita   hieroglífica,   ilegível,   indecifrável,   mas,   que   pode   perfeitamente   se   revelar,   já   que   fenômeno   psicossomático  é  da  ordem  da  mostração.       Retomando  a  teoria,  na  fundamentação  do  fenômeno  psicossomático  o  que  ocorre  é  uma   incidência   do   significante   sobre   o   corpo   em   virtude   de   um   fracasso   da   função   do   Nome-­‐do-­‐Pai,   um   holofraseamento,   permitindo   que   se   estruture   alguma   coisa   que   é   da   ordem   da   letra.   S1   cola   em   S2,   sem   o   intervalo   que   possibilita   a   divisão   do   sujeito.   Como   não   existe   intervalo,   não   existe   também   objeto   perdido,   estilhaços   pulsionais.   O   sujeito   é   compactado   ao   objeto.   É   como   se   todo   o   narcisismo   se   concentrasse   nessa   “marca   que   é   antes   de   tudo   uma   assinatura”...   Além   disso,   Lacan10   fala   em   auto-­erotismo   sem   relação   de   objeto,   e   precisa,   “que   a   indução   significante,   no   nível   do   sujeito   se   passa   de   um   modo   que   não   coloca   em   jogo   a   afânise”,  

                                                                                                              10  

LACAN, J.   (1961)   O   Seminário.   Livro   11   –   Os   quatro   conceitos   fundamentais   da   psicanálise.   Rio   de   Janeiro,  JZE,  1973  –  3ªed.,  p.  215.  

 

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referindo-­‐se a   uma   espécie   de   bloqueio,   “de   congelamento   do   significante   no   corpo,   um   curto   circuito  que  será  responsável  pelas  manifestações  corporais”.  11   Isso  significa  que  o  sistema  significante  perde  sua  consistência,  já  que  um  significante  não   se   remete   mais   a   outro   significante.   Assim,   conforme   Nasio12   “há   um   objeto,   e   depois   uma   chamada   significante   que   não   teve   resposta   significante,   mas   teve   uma   resposta   de   objeto.   A   psoríase   é   uma   resposta   objeto   para   uma   chamada   significante,   um   significante   remete   a   uma   psoríase.”   Um   significante   é   inventado   que   não   é   do   Outro,   é   do   Um,   diferente   dos   outros   e   tem   valor  de  real.   No entanto, o que faz a psicanálise operar diante de um acontecimento de corpo, cujos significantes estão encarnados, ou ainda qual é a direção do tratamento diante da tomada de corpo pelo fenômeno? Retomo Lacan13: “É por esse viés, pela revelação do gozo específico que há na sua fixação que sempre é preciso visar abordar o psicossomático.” De que gozo específico se trata no psicossomático? Trata-se de um gozo fora do sentido, um gozo que ex-siste ao sentido, um gozo cortado da relação com o Outro, auto-erótico, um gozo do corpo próprio. Um gozo que nos remete a uma foraclusão da significação fálica, portanto, do gozo fálico. No caso em questão vimos, claramente, a prevalência do imaginário sobre o real. Não havia equivalência entre as consistências. A estratégia foi fazer o sujeito trabalhar na elaboração do luto, isto é na simbolização do que há de mais fundamental: o desamparo, o que incindiu no para além do horror. Para isso foi necessário, de                                                                                                                 11

Este parágrafo também faz parte do artigo A Fantasia Encarnada: um estudo sobre o fenômeno psicossomático. Heloísa Helena Aragão e Ramirez & Christian Ingo Lenz Dunker. 12  NASIO.  J.-­‐D.  “Psicossomática”  –  as  formações  do  objeto  a.  RJ,  JZE,  1983.       13  In  Conferência  em  Genebra  sobre  o  sintoma.  

 

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fato, perder a mãe, o objeto amado, o que desencadeou sessões tão angustiantes. Paralelamente o sujeito trabalhou com o gozo implicado no significante “sozinha” e no laço que isso fazia com a psoríase, e com a dor, já que Helena “sentiu na pele” o abandono. “... pois o que eu chamo de gozo, no sentido em que o corpo se experimenta, é sempre da ordem da tensão, do forçamento, da defesa e até mesmo da façanha. Incontestavelmente, há gozo no nível em que começa a aparecer a dor, e sabemos que é somente nesse nível da dor que se pode experimentar toda uma dimensão do organismo que, de outra forma, permanece velada.”14 Mas, Helena   não   conseguiu   sustentar   a   experiência   e   vai-­‐se   embora.   Diz   para   analista:   “chega   não   agüento   mais,   não   quero   mais   sofrer,   vou   parar   de   vir   aqui,   não   estou   suportando!”   Restou  à  analista  o  sentimento  de  não  ter  sabido  manejar  adequadamente  a  angústia.     Pouco   antes   do   Natal   Helena   mandou   notícias   por   uma   amiga.   Pediu-­‐lhe   para   me   dizer   que  estava  muito  bem,  sem  angústias  e  sem  a  psoríase.  Estava  “limpa  de  corpo  e  alma”  e  que   agradecia  aos  céus,  todos  os  dias,  o  tempo  em  que  esteve  em  análise.    Foi  bom  saber  disto.  No   entanto,   se   o   paciente   melhorou   ou   não,   não   é   disso   que   se   trata   se   pensarmos   no   sintoma   como  uma  solução  inconsciente  dada  por  cada  um  “diante  do  enigma  do  corpo  e  seu  saber”15.  No   entanto,   penso   que   o   fenômeno   psicossomático   é   um   acontecimento   de   corpo   diferente   do   acontecimento  de  corpo  dado  pela  via  da  histeria.  É  um  fenômeno  de  corpo  é  “o  despertar  de   um   corpo   que   em   sua   essência   é   silencioso.”   16   Não   diz   respeito   à   imisção   do   significante   no   corpo,  mas  a  uma  fixação,  a  uma  colagem  do  par  S1  –  S2.  “Se  evoquei  uma  metáfora  como  a  do                                                                                                                   14

LACAN,  J.  1966,    “O  Lugar  da  psicanálise  na  medicina”  in    Opção  Lacaniana  n°  32    Izcovich,  L.  O  Corpo  Sintoma.  In  Prelúdio  para  “O  Mistério  do  Corpo  Falante”  maio/2010.  

15

16

Idem.    

 

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congelado, é   porque   existe,   efetivamente,   essa   espécie   de   fixação...   O   corpo   se   deixa   levar   para   escrever   algo   da   ordem   do   número.”   17   Exatamente   por   isso   é   que   Lacan   recomenda   tratar   o   psicossomático  pelo  viés  do  gozo.  É  preciso  que  o  gozo  tome  um  sentido.  Assim,  no  manejo  da   clínica   com   o   paciente   psicossomático   é   preciso   fazê-­‐lo   trabalhar   para   chegar   ao   “sentido   do   que   se   trata”,   já   que   ele   se   encontra   profundamente   “arraigado   no   imaginário”   e   para   dar   sentido  ao  gozo  é  preciso  que  se  fale  dele.  

                                                                                                              17  Lacan,  J.  (1975)  Conferência  de  Genebra  sobre  o  sintoma  In  Opção  Lacaniana  –  Revista  Brasileira  de  Psicanálise.  São  

Paulo, 1998,  n°23,    p  6-­‐16.  

 

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Sinthome: o real do sintoma Maria das Graças Soares1 “Sou um apanhador de desperdícios. Amo os restos como as boas moscas.” Manoel de Barros

Neste trabalho, de caráter introdutório, tentarei abordar a relação de circularidade entre lalangue, sintoma e sinthome, como o demonstra a teoria lacaniana. Pré-história da linguagem no sujeito, lalangue é o tempo no qual o bebê, ainda deitado no berço, sofre os efeitos da lingua materna, que lhes deixam marcas indeléveis no corpo. Tempo em que a linguagem para ele é ruído, ou rumores humanos, que lhes designa um lugar no campo do Outro, como um sujeito “escuta-dor”. Ali, apenas se articulam letra e gozo. Com o advento da linguagem ele muda para a posição de um “fala-dor”, que, a posteriori, deitado num divã, poderá se deslocar para a posição de um “fazer-dor” quando, com a letra do alfabeto de lalangue escreve seu sinthome. Na última lição do Seminário 20, Lacan diz que lalangue, não é, senão, “rastro de gozo onde a linguagem cavalga sobre ela”. Daí se concluir ser o significante uma invenção a partir de algo que já está lá para ser lido.                                                                                                               1

 

Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano    -­‐  Brasil.  Membro  do  Fórum  de  Fortaleza  

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A propósito da articulação entre lalangue e a construção do sinthome, pressupõe-se que existe um meio. Esse meio é o “sintoma” do inicio de uma análise, que põe em cena o sujeito “conta-dor”, que com seu sintoma , dirige-se ao analista na forma de demanda. Sujeito, por que é ele quem fala, mas o quê ele diz é lalangue que fala nele, pois elucubrar sobre lalangue é o que se faz numa análise. A propósito do sintoma e as transformações conceituais sofridas na teoria, lembremos que algo desde o inicio permanece. Em Sintoma, Inibição e Angustia” Freud diz que “ sintoma é gozo”. Para Lacan, no inicio de seu ensino, o sintoma era metáfora, mensagem dirigida ao Outro, enigma, que uma vez desvendado, tinha efeito de verdade. Em “Função e campo da fala e da linguagem”, embora ele diga, literalmente, que, “está perfeitamente claro que o sintoma, por ser pleno de sentido, se resolve por inteiro numa análise linguajeira”, já faz notar a coexistência, no sintoma, do simbólico e do real. Cito Lacan:“ o sintoma é símbolo inscrito na areia da carne e no véu de Maia.” O sintoma enquanto símbolo “inscrito”pertence ao campo do simbólico, mas “escrito” sob o véu de Maia, não estaria também no campo do real? A titulo de esclarecimento, a expressão “Véu de Maia,” é usada pelos orientais para dizer que

“ver algo sob o véu de Maia faz também existir o que não existe, tamponando

assim, a incompletude tão angustiante para o sujeito. Sem ele, sem o véu de Maia, constata-se rapidamente o “nada”. Em RSI Lacan confirma isso ao afirmar que já estava na idéia do “Discurso de Roma” que o inconsciente ex-siste, que ele condiciona o Real.

 

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A partir do inicio da década de 1970 Lacan se afasta do pensamento estruturalista, onde o simbólico detinha primazia nas estruturas clinicas, para trabalhar com a perspectiva de uma equivalência entre os três registros, e,a estrutura do sujeito passa a ser determinada, pela forma de enlaçamento do simbólico, do imaginário e do real: RSI, SIR, IRS. Ao introduzir a teoria dos nós na segunda parte do seu ensino, o “discurso” cede lugar à escrita. Enquanto no primeiro se privilegiava a produção de sentido, na escrita o que prevalece é o sem-sentido. Isso traz mudanças cruciais no manejo da transferência, pois Lacan alerta que “o efeito de sentido a se exigir do discurso analítico não é imaginário, não é também simbólico; é preciso que seja real”. A assertiva anterior de que o simbólico faz furo no real, sofre uma torsão e agora, é o real que faz furo no simbólico. Há um gozo no significante irredutível à significação. Na clinica, não se trata mais apenas de escuta, mas do que se “lê no que se escuta”. Por certo o sintoma está emaranhado em lalangue e é dado na clinica pela repetição. A teoria dos nós constitui a ultima elaboração de Lacan sobre o sintoma, chegando à escrita do inconsciente por meio da cadeia borromeana. Nela o sinthoma surge como o quarto elemento, que ao enlaçar os três registros - agora equivalentes entre si – produz uma cadeia bo, e como nos lembra Lacan, “ se há equivalência, não há relação”. À falta de relação sexual, o sujeito responde com o sinthoma: Cito: “ Sinthoma é a resposta que o sujeito encontra frente ao gozo da falta de relação sexual”.

 

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No Seminário 23, Lacan debruça-se sobre a obra de Joyce para teorizar a partir de sua escrita. Para ele o escritor irlandês “acaba por ter visado com sua arte, de maneira privilegiada, o quarto termo chamado sinthoma”. Artesão da literatura Joyce esculpe as palavras a partir de artifícios que cria com os rejuntes e recortes de fonemas, rompendo com a significação e exibindo o que se pode fazer com “lalangue”. Na conferência que Lacan proferiu no Bloomsday de 1975, ele batiza o escritor pelo nome “Joyce, o Sinthoma” por ele ter feito, com sua arte, o sinthome. Acrescenta: “ o sinthome é puramente o que lalangue condiciona e que o escritor conseguiu, com sua arte, elevar à potencia de linguagem, sem torná-lo analisável”. Uma breve passagem do “Retrato do artista quando jovem” torna evidente as razões que levaram a Lacan teorizar em cima da literatura de Joyce. Uma breve passagem do livro é suficiente para nos dar essa clareza. Nela, Joyce consegue despir o significante ‘xuxu”de toda sua significação e reduzi-lo ao “osso”escrevendo apenas um resto sonoro “chuuuuuuuuuuu” , onde o leitor para lê-la terá que usar apenas a voz , provando que a linguagem não se reduz apenas a produção de sentido. Por outro lado, a onomatopéia comum à sua escrita, remete ao mecanismo dos sonhos que tem seu ápice em seu ultimo trabalho “Finegans Wake” – narrativa densa que se inicia com uma palavra de 100 letras para descrever uma queda, e que o leitor para lê-la também terá que usar a própria voz como suporte da palavra, articulando a escrita com a função da fonação. A partir desses exemplos denota-se que o texto de Joyce é uma escritura.

 

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Retornando à função do sinthome na estrutura do sujeito, parto da seguinte questão: o sinthoma enquanto quarto elo na cadeia borromeana, é próprio à estrutura neurótica? Se a resposta é afirmativa, como poderia Lacan, pensá-lo em relação à Joyce? Lacan não diz que Joyce era psicótico. Diz, para usar suas palavras, que Joyce tinha “o pau um pouco mole”, e por isso precisou de sua arte para manter sua firmeza fálica. Sua arte, para Lacan, é o verdadeiro fiador de seu falo, pois sem ela ele continuaria a ser um pobre diabo e não o herói que toma corpo em Stephen Hero, do “Retrato...” Sua arte - seu sinthome – fez funçao de S¹ que, ao dar força a seu ego, estabiliza sua estrutura ao torna-se o pai que nomeia. E é claro, observa Lacan, que a arte de Joyce é alguma coisa de tão particular que o termo sinthoma é de fato o que lhe convém, que enquanto suplência da carência do nome do pai, dá à estrutura de Joyce um”ar” de neurose. Na primeira aula do seminário sobre Joyce, Lacan afirma ser o complexo de Édipo como tal, um sintoma. É na medida em que o Nome-do-Pai é também o Pai do Nome, que tudo se sustenta, o que não torna o sintoma menos necessário”. A fórmula da metáfora paterna no primeiro tempo de seu ensino nos trás o Nome do pai operando como “S²”, em substituição ao desejo da mãe; agora ele surge como S1, significante mestre que tem função de nomeação enquanto ato. Concluindo, retorno ao inicio, para me reportar à relação circular entre lalangue, sintoma e sinthoma, e assim, afirmar que lalangue está lá desde o inicio, sendo ela a condição da linguagem, e como observa Lacan “o equivoco toma conta de nossa lalangue, e o que ela tem de mais picante é o que posso escrever como “mais isso não”. Se diz tudo, mas isso não.  

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Posso dizer que O mais isso não, aquilo que de lalangue não se pode dizer, é o que introduzo como sinthome.”Um resto, que, mesmo indestrutível, reciclável. Bibliografia

Freud, S – Inhibición, sintoma y angustia –- obras completas – Vol.XX – Amorrortu ed. Joyce, J - Um retrato do artista quando jovem – Ed. Objetiva, 2006 – Rio de Janeiro. Lacan, J – D’Ecolage ( 1980) in Revista da Letra Freudiana– nº 0 ano 1: Rio-RJ ______ - La Tercera – Discurso de Roma – in Intervenções Y Textos nº 2 – ed. Manatial Argentina- 1988 _______ - Seminário 18 – “ De um discurso que no fuese del semblante – 1971 – versão da Escuela Freudiana de Argentina. _______ - Seminário RSI – 1974/5 – Versão para circulação interna do CEF – Recife –PE. _______ -Seminário 23 – O Sinthoma – Zahar ed.Rio de Janeiro – 2007 _______ - Levin,S - Transferência em um análisis Y cadena borromea de cuatro nudos – in Topologia Y Psicanálisis. EFBA – Buenos Aires - 1994 _______ - Função e campo da palavra e da linguagem ( 1953) in Escritos, Zahar Ed. Rabinovitch, S. - Les Voix – Collection Point Hors Lingne – Ed. Erès – Paris Fr.

 

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Sintoma e Fantasia Fundamental Soraya Carvalho1 Partindo da concepção que o conceito de fantasia está subsumido ao conceito de sintoma, este trabalho pretende esclarecer a relação entre esses conceitos em momentos distintos do pensamento psicanalítico: inicialmente, a partir da definição do inconsciente estruturado como uma linguagem, produzindo o sintoma na sua dimensão simbólica, e, posteriormente, do inconsciente na sua dimensão real, constituído pelos significantes de alíngua, produzindo o sintoma na sua dimensão real, o sintoma fundamental. A clínica com histéricas levou Freud a considerar a existência de fantasias inconscientes na vida psíquica, bem como sua importância na formação dos sintomas, concluindo ser a fantasia a precursora dos sintomas histéricos. Lacan, por sua vez, em A lógica da fantasia2, denominou de fantasia fundamental a fantasia inconsciente, propondo-lhe a fórmula ($ ◊ a), onde reuniu dois elementos heterogêneos, um sujeito e um objeto, o objeto causa de desejo, que no Encore3 foi diversificado em quatro: objeto seio, objeto fezes, objeto olhar e objeto voz. Para ele, a fantasia fundamental é um axioma, uma significação absoluta, um resto apartado do sistema. Esse resto é o caráter real da fantasia, que Lacan reduziu a uma frase simbólica. E, se para Lacan a fantasia é o suporte do desejo4, e o desejo a essência da realidade, é possível afirmar                                                                                                               1

Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano   LACAN,    J.  Seminário,  livro  14:  a  lógica  da  fantasia  [1966/67]  Inédito   3  LACAN,  J.  Seminário,  livro  20:  mais,  ainda.[1972-­‐73].  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar,  1982,  p.  171.   4  Id,  ibid.  [1966/67].   2

 

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que a fantasia é a realidade do sujeito, a maneira como ele a organiza; e o desejo ancorado na fantasia, mantém com a realidade uma pretensa harmonia. O sintoma, por sua vez, adquiriu diversas definições dentro da teoria psicanalítica. Em Freud, ele foi o retorno do recalcado, o substituto de uma satisfação pulsional. Em Lacan, da metáfora à letra, ele obteve definições como: “a maneira que cada um goza de seu inconsciente5”, ou “o que faz existir a relação sexual”6, e, finalmente, o sintoma como produto dos significantes de alíngua7. No presente artigo abordaremos a fantasia e sua relação com o sintoma nessas duas últimas acepções. O SINTOMA FAZ EXISTIR A RELAÇÃO SEXUAL “A relação sexual não existe”, porque a linguagem não dispõe de um significante que represente o gozo do Outro sexo, o que levou Lacan a concluir, “A Mulher não existe”. A falta desse significante foi o que Lacan8 designou como a falha nos nós borromeanos, responsável por tornar os sexos equivalentes. O sintoma faz suplência à falta desse significante do Outro gozo, S(Ⱥ), ou seja, ao significante do Outro sexo, provocando a não equivalência entre os sexos e fazendo existir a relação sexual. Para explicar como o sintoma realiza essa suplência, cito Gerbase em Sintoma e fantasia9, onde ele propõe uma releitura do texto freudiano de 1908, “A Histeria e sua relação com a bissexualidade”, mostrando como a fantasia está implicada no sintoma, e como ela contribui na sua função de amarração. Nesse artigo Freud afirma que "o sintoma histérico é a expressão simultânea de uma fantasia sexual                                                                                                               5

LACAN,  J.  Seminário,  livro  22:  RSI,  1975  –  Inédito.  

6 LACAN,  J.  O  Seminário,  livro  23:  o  sinthoma,  [1975/76].  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar,  2007,  p.  98.   7

SOLER,  C.  Corpo  falante  Caderno  de  Stylus,  EPFCL,  2010,    p.23.      Id,  ibid,  2007,  p.  97.     8  Gerbase,  J.  Sintoma  e  fantasia.  Inédito    

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inconsciente masculina, e de uma fantasia sexual inconsciente feminina, introduzindo a significação bissesexual do sintoma. Fazendo coincidir o léxico fantasia com significação, Gerbase afirma que “Uma fantasia é uma significação fundamental porque é o âmago do sintoma, o último sentido a que posso reduzir o sintoma, a frase simbólica que o sintoma expressa”. Deduzindo que “uma fantasia sexual inconsciente masculina é uma significação fálica, e “uma fantasia sexual inconsciente feminina é uma significação não-toda fálica, uma significação não-toda”. Desta forma, o autor propõe reescrever esta fórmula freudiana: “O sintoma histérico é a expressão simultânea de uma significação fálica e de uma significação não-toda". De modo que o sintoma histérico, modelo de sintoma por excelência, é composto pelos dois significantes que nomeiam o gozo, o significante fálico, [Φ], ou seja, aquele que se pode escrever e pelo significante do Outro gozo, aquele que não se pode escrever. Dizer que não se pode escrevê-lo não quer dizer que ele não exista. O sintoma faz existir a relação sexual porque ele faz semblante ao significante do Outro gozo, e a fantasia, ao possibilitar uma significação do Outro gozo e do gozo fálico, auxilia o sintoma na sua função de fazer suplência à inexistência da relação sexual. A fantasia, portanto, colabora com o sintoma, tornando sua tarefa menos “árdua”, na medida em que o gozo ligado à fantasia toma a via do prazer, enquanto que, no sintoma, o gozo se escreve pela vertente do desprazer. Por esta razão a fantasia vai se constituir numa recordação encobridora. E assim Gerbase conclui que a fantasia enuncia a impossibilidade da relação sexual, enquanto que o sintoma, ao compensá-la, possibilita sua existência. O sintoma faz suplência a essa falta, justamente porque ele traz, em sua essência, na fantasia, a significação

 

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a essa falta. “A fantasia é uma significação a essa falta, a esse enunciado – para todo falasser falta um significante, aquele que nomeia o gozo d’Ⱥ Mulher”. O SINTOMA É UM PRODUTO DE ALÍNGUA Para entender o sintoma como produto de alíngua, partiremos da afirmação de Lacan, o sintoma é um “acontecimento do corpo”10, afirmação que só pode ser explicada a parir da articulação entre significante e gozo. O significante passa de representante do sujeito, sígno de sua falta-a-ser à sígno do seu ser de gozo11. Quanto ao gozo, em sua tese inicial, ele é afetado pela linguagem, operação que produz como efeito, uma subtração de gozo. Na tese posterior, o significante está no nível do gozo, o significante é objeto de gozo, ele é gozado. Ao juntar esses dois elementos heterogêneos, significante e gozo, Lacan provoca uma virada na teoria, e, segundo Soler, para acompanhá-la, faz-se necessário partir da noção do inconsciente formado pelos significantes de alíngua, ou seja, o inconsciente em sua dimensão real. E assim, o gozo, inicialmente afetado pela linguagem, passa a ser afetado pela alíngua, e o inconsciente, antes estruturado como uma linguagem, torna-se um saber no nível do corpo substância, saber manifestado pelo sintoma. Isso levou Lacan a considerar os efeitos de alíngua e não mais da linguagem, como prioritários e primordiais na formação dos sintomas12. Os significantes de alíngua tomam o corpo, fixando uma identidade de gozo e produzindo o sintoma. A alíngua é formada pelos significantes antes de sua apreensão de sentido, e seus efeitos são os afetos, posto que a alíngua afeta primariamente o gozo13. O                                                                                                               10

SOLER,  C.  Corpo  falante  Caderno  de  Stylus,  EPFCL,  2010,  p.11.    Id.  Ibid.,  p.13.   12  Id,  ibid.,  p.15.   13  Id,  ibid.,  p.19.   11

 

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sintoma é constituído numa idade precoce, antes da aquisição da linguagem, através de uma combinação entre a alíngua e o encontro com o gozo primeiro, entre significante e gozo. “Diante do que é ouvido, o sujeito apreende significantes que ainda não dispõem de sentido, restando dessa operação, o que Lacan chamou de alguns detritos, cacos”. “... os cacos são do real, fora do sentido, sob a forma do Um sonoro, recebido do que foi ouvido”. Esses detritos são os significantes de alíngua, que se depositam como mal-entendidos, fixando uma identidade de gozo e produzindo a matriz do sintoma. Entretanto, sabemos com Lacan que a formação do sintoma depende de uma contingência entre aquilo que é falado pelo Outro e o que é ouvido pelo sujeito. Para Soler14, dizer que o sintoma não pode mais ser compreendido a partir “da lógica da linguagem nem mesmo da fantasia, mas no nível da contingência do encontro”, contesta a tese freudiana de que as fantasias inconscientes são precursoras dos sintomas histéricos. O sintoma vem do real e o inconsciente é redefinido como real, fora de sentido, ligado à alíngua. Entretanto, ela complementa15, que há o inconsciente que permite ser decifrado, e há o inconsciente real, inapreensível, formado pelo significante real, sem sentido e contingente, que marca o corpo com o saber de alíngua. Qual a relação entre a fantasia fundamental e o sintoma fundamental, aquele formado pelos significantes de alíngua? Freud se referiu à fantasia, como aquilo “que substitui o trauma”, e se o trauma para Freud é o que não é representado, tem, para Lacan a dimensão de real. Então, se a fantasia

                                                                                                              14

Id,  ibid.,  p.27.    Id,  ibid.,  p.29.  

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substitui o trauma, ela é real e vem ocupar o lugar do impossível de ser representado16. Sendo o sintoma uma resposta do sujeito frente ao real que é traumático, a fantasia, ao substituir o trauma, torna-se, juntamente com o sintoma, um recurso do sujeito frente ao real. Entretanto, o conceito de trauma deve ser tomado em dois momentos distintos do ensino de Lacan. A princípio o traumático dizia respeito à falta no Outro, ou seja, ao significante da falta no Outro, S(Ⱥ), justamente ali onde o sujeito se confrontava com o desejo do Outro. Diante da falta no Outro, é na condição de objeto que o sujeito é desejado e convocado a tamponar. Neste sentido, o traumático seria a falta no Outro. A partir do encontro com o desejo do Outro, com o “Che Vuoi?", o sujeito responde com a fantasia, ali onde ele se experimenta como objeto. A fantasia como um recurso do sujeito para proteger-se da difícil condição de objeto que representa no desejo do Outro e da traumática constatação da falta no Outro. No segundo tempo de seu ensino, como já foi mencionado, Lacan não separou o significante do gozo, para ele, significante é gozo e, segundo Gerbase17, o traumático agora aponta para duas vertentes: a alíngua traumática e o trauma do sexo. O traumático de alíngua é ter acesso ao significante antes de se ter acesso ao sentido, gerando mal-entendidos. A alíngua é real porque exclui o sentido, e é exatamente a anterioridade lógica de alíngua que possibilita o trauma. Quanto ao trauma do sexo, por não haver na linguagem um significante que nomeie o Outro gozo, um dos gozos não pode ser escrito no inconsciente, impossibilitando a relação sexual. Não há relação sexual visto que não é possível estabelecer uma relação biunívoca entre o

                                                                                                              16

Gerbase,  J.  (1987).  Fantasia  ou  fantasma.  Falo  1  ,  p.  50.  

17

GERBASE,  J.  Curso:  Être  humain,  Associação  Científica  Campo  Psicanalítico  de  Salvador,  2010.  

 

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significante fálico, o que se escreve, e o significante do Outro gozo, o que não se escreve. Concluindo Lacan18, que o traumático é o a (sexo). Se o sintoma é o que torna possível a relação sexual, o sintoma é uma suplência ao trauma do sexo, na medida em que ele faz semblante ao significante do Outro gozo. Quanto ao traumático de alíngua, é também o sintoma que faz suplência ao trauma do desamparo do humano ante a contingência do encontro com o significante sem sentido. O sintoma responde ao equívoco do significante de alíngua, fixando no corpo uma identidade de gozo. Sendo a fantasia o que substitui o trauma, como a fantasia pode substituir a falta do significante do Outro gozo, (trauma do sexo) e também o efeito produzido pelo equívoco do significante de alíngua, (trauma de alíngua)? O sintoma faz suplência ao trauma do sexo e ao trauma de alíngua, e a fantasia, com seu caráter de frase, colabora com o sintoma, substituindo o real do trauma por uma ficção. Mas, se no final de uma análise nos deparamos com o irredutível do sintoma, o que acontece com a fantasia? Uma vez que o sujeito se depara com sua essência de gozo, ao identificar-se ao sintoma, a fantasia perde sua função, e o que surge em seu lugar é um significante novo, a ficção da fantasia é substituída por uma criação, uma invenção do sujeito. Freud se refere à fantasia inconsciente como um ponto de fixação de gozo, e, se para Lacan os significantes de alíngua produzem fixação de gozo, propomos pensar que, num “só depois”, a fantasia fundamental seria uma forma de sustentar o sintoma, o sintoma fundamental, e responder ao trauma de alíngua tanto quanto ela o faz no trauma do

                                                                                                              18  Lacan,  J.  (1978).  Seminário,  livro  25:  o  momento  de  concluir.  Inédito.  

 

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sexo. A fantasia fundamental seria uma frase capaz de dar um sentido aos equívocos produzidos pelos significantes sem sentido de alíngua?

 

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O Nome do Sintoma Gracia Azevedo1 A   filosofia   aristotélica   desenvolveu   um   sistema   próprio,   rejeitando   a   teoria   das   ideias   e   o   dualismo   platônico.   Ao   propor   sua   Metafísica,   Aristóteles   propõe   uma   concepção  de  real  que  parte  da  substância  individual,  composta  de  matéria  e  forma.  Os   Estoicos  viam  nos  corpos,  as  únicas  realidades,  aquela  que  age  e  aquela  que  sofre  a  ação.      

O  incorpóreo  não  toca  o  corpo.  A  ideia  incorpórea  é  privada  de  toda  eficácia  e  de  

toda propriedade,   não   se   encontrando   aí   mais   que   o   vazio   absoluto   do   pensamento   e   do   ser.1Fatos  ou    acontecimentos  foram  admitidos  como  causa  pelos  estoicos.  Todo  corpo   se  torna  causa  para  outro  corpo  (quando  age  sobre  ele)  de  alguma  coisa  incorpórea.  São   quatro   as   espécies   de   incorpóreos:   os   exprimíveis,   o   lugar,   o   vazio   e   o   tempo.   Para   Aristóteles  a  realidade  lógica  é  o  conceito.  A  isto  os  estoicos  chamam  de  exprimível.   Acontecimento,  som,  letra,  palavra.  O  atributo  de  ser  significado  pela  palavra  é  o   exprimível,   o   lecton   que   fica   entre   o   pensamento   e   a   coisa.   O   lecton   “tradiz”   um   acontecimento  no  que  este  pode  ser  corporificado,  trazido  à  significantização,  à  cena.   É  do  conceito  de  lecton  que  Lacan  parte,  para  abordar  a  “significância”  do  significante.   Cito  Lacan  em  Radiofonia2:  “O  lecton  torna  legível  um  significado...  Deixo  para  lá:  isso  é  o                                                                                                                   1  Fórum do Campo Lacaniano – Recife - IF-EPFCL Brasil – Membro da Escola. Nutricionista. graciazevedo@gmail.com

 

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que denominei   ponto   de   basta,   para   ilustrar   o   que   chamarei   de   efeito   Saussure   de   ruptura  do  significado  pelo  significante...”.    

Considerando a   origem   remota   do   significante   no   pensamento   estoico,   Lacan   o  

coloca como  o  representante  de  um  acontecimento  primordial  no  processo  de  divisão  do   sujeito   quando,   surge,   cai   o   objeto   a   para   um   ser   de   puro   gozo.   Momento   de   angústia,   frustração,   castração   simbólica.   É   o   ingresso   para   o   simbólico   onde   a   partir   daí   o   sujeito   seguirá   dividido   valendo-­‐se   do   seu   significante   mestre   tentando   recuperar   o   que   foi   perdido  na  forma  de  objeto  causa  de  desejo.   A   linguagem   é   a   condição   do   inconsciente.   O   efeito   de   linguagem   só   se   produz   pela   linguística.   O   discurso   desloca-­‐se   em   uma   topologia   estruturada   que   determina   o   sujeito  e  seus  efeitos.   Na   psicanálise   o   homem   nada   sabe   da   mulher,   nem   a   mulher   do   homem.   O   falo   faz  surgir  o  significante  da  diferença  e  o  sexual  passa  a  ser  a  querela  do  significante.  O   sujeito   atingido   pela   linguagem   percorre   o   “cristal   linguístico”,   assim   chamado   por   Lacan,  em  busca  de  resolver  essa  diferença  que  só  se  resolve  pela  lógica  do  ou  um,  ou   outro.  A  alteridade  divide  o  sujeito  e  o  aliena  à  existência  do  Outro.     O   simbólico   incorpora-­‐se   ao   corpo   da   realidade   e   o   faz   existir.   È   assim   que   o   incorpóreo   tem   a   ver   com   o   corpo.   É   incorporada   que   a   estrutura   faz   o   afeto,   a   partir   de   seus  efeitos  no  ser  do  que  é  falado  e  do  que  não  é  falado,  dito  de  algum  lugar.  O  corpo   habitado  pela  fala  vira  puro  cadáver.  O  sujeito  existirá  enquanto  falasser,  faltante,  Um-­‐a-­‐    

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Menos, marcado   pelo   significante,   sexuado.   Fazer   sexo   com   as   palavras.   É   assim   que   a   histérica  desafia  o  mestre,  desmascarando  a  sua  falta,  sua  incompletude,  por  estruturar-­‐   se   a   partir   do   vazio.   Esse   sexo   surgido,   causado   exatamente   a   partir   desse   nada   impossível   de   ser   falado   e   colocado   na   cena.   A   linguagem   traz   à   cena   o   que   do   sujeito   carece   de   ser   enterrado   sob   a   forma   de   palavras   e   colocando   sua   existência   no   corpo,   para  ser  imaginariamente  incluído  na  roda  dos  vivos.  O  que  o  conduz  à  morte.   A   angustia   presente   no   processo   de   divisão   do   sujeito   torna-­‐se   conteúdo   do   significante  que  faz  existir  um  sujeito  por  ele  representado  e,  portanto  seu  refém  no  que   diz  respeito  ao  gozo.  Através  das  formações  do  inconsciente,  através  do  sintoma.   O   sintoma   é   o   que   vem   do   Real.   Há   o   traço,   inscrito   para   representar   o   acontecimento   do   corpo   e   há   o   apagamento   do   traço   que   será   representado   pelo   significante  fazendo  surgir  um  falasser.  O  que  do  significante  representará  esse  falasser   para   outro   significante   será   sempre   insuficiente   para   dar   conta   do   acontecimento.   A   mancha   onde   antes   era   o   traço   terá   sua   designação   como   letra,   resto   de   gozo,   a   ser   sempre  um  pacote  carregado  pelo  significante  que  traz  à  cena  o  objeto  que  depois  de  ser   decomposto,   decifrado   deixa   os   seus   restos   que   se   inscrevem   como   a   pedra   no   caminho,   o  que  não  cessa  de  não  se  escrever.  O  inconsciente  real  que  se  serve  de  lalangue.   No   campo   da   fala   e   da   linguagem   se   apresenta   o   sintoma   que   traz   à   cena   os   efeitos  do  sujeito  do  inconsciente.  O  que  não  vai  bem  para  o  sujeito  surge  a  partir  de  seu   discurso   endereçado   ao   Outro.   É   dessa   fala,   desse   discurso   que   a   psicanálise   se   serve   para  decifrar  o  sintoma.  O  equívoco  é  com  o  que  se  joga  na  interpretação.  Ao  esgotar  o     162    


seu sentido   é   a   partir   da   lalangue   que   opera   o   ato   psicanalítico.   Lalangue   é   resto,   é   letra   pura,  é  sem  sentido  com  fixação  de  gozo.  Quando  Lacan  fala  de  interpretação  está  de  fato   pontuando   o   limite   do   sujeito   em   relação   ao   seu   saber.   O   saber   se   interpreta,   não   se   chega  a  ele  através  da  letra.  A  letra  obstrui  o  saber  e  impede  a  sua  apreensão.  São  seus   efeitos  que  operam  na  psicanálise.   Em   A   Terceira3   (1974),   Lacan   parte   da   lalangue   para   introduzir   o   gozo   do   sintoma.  Citando  Descartes  e  seu  discurso  do  mestre  com  o  ‘penso  logo  sou’,  ele  brinca   com   o   significante   e   o   transforma   em   “gossou”.   E   diz:   esse   é   o   sentido   do   sujeito   da   psicanálise.   Ao   usar   o   nó   borromeu   como   representação   esquemática   do   enodamento   entre   o   real,   simbólico   e   o   imaginário,   Lacan   parte   do   neologismo   gossou   para   ilustrar   essa   topologia.   Onde   o   real   é   o   impossível,   é   a   pedra   no   caminho,   o   que   não   pode   ser   representado.   Ao   campo   do   imaginário   pertence   todo   o   conhecimento.   O   mundo   das   representações  apenas  alimenta  a  ciência  e  tenta  dar  conta  do  real,  que  sempre  estará   alhures,   impossível   de   ser   representado.   E   o   simbólico,   como   a   tentativa   de   fazer   laço   social,  evidenciando  o  mal-­‐estar  do  sintoma  que  se  serve  do  significante  e  seu  objeto  a,   deixando  os  restos  não  exprimíveis  do  real.   A   psicanálise   surgiu   desse   mal-­‐estar,   e   como   tal   é   um   sintoma.   As   histéricas   de   Freud  com  seu  inconsciente  que  não  entrava  em  acordo  com  as  exigências  da  civilização   colocaram   a   psicanálise   como   o   caminho   para   dar   conta   deste   sintoma.   Mas   havia   um   resto   pulsional   que   o   sintoma   não   dissipava,   ao   contrário,   carregava   como   se   fosse     163    


pombo-­‐correio, mensageiro   do   gozo.   O   sintoma   é   o   próprio   pretexto   do   gozo,   e   o   sujeito   não   pode   abrir   mão   dele.   No   máximo   pode   dissecá-­‐lo   e   saber   que   há   restos   sem   possibilidade  de  decifração.  Depois  tentar  colocar  o  gozo  a  serviço  da  criação  de  novos   laços.  Saber  o  que  fazer  com  isso.     É  essa  a  constatação  da  psicanálise,  a  impossibilidade  de  uma  articulação  com  o   real.   O   impossível   do   real   é   condição   do   sujeito   e   isso   não   faz   negociação.   O   real   se   configura   como   o   início   e   o   fim,   última   parada.   E   a   psicanálise   como   sintoma   desse   mesmo  mal-­‐estar.   O  real  retorna  sempre  ao  mesmo  lugar,  diz  Lacan.  É  vã  toda  tentativa  de  um  coito   com   o   mundo.   O   objeto   a,   que   fende   o   sujeito   e   o   transforma   em   dejeto   ex-­‐sistindo   ao   corpo,   é   o   que   há   no   mundo.   Como   fazer   para   que   esse   objeto   se   torne   semblante,   semblante  de  falo?  Para  o  homem  isso  é  mais  fácil.  Ser  objeto  a  para  um  homem  é  a  saída   para  a  mulher.  Isso  pode  acontecer.     Seio,  fezes,  olhar  e  voz.  Isso  fica  no  lugar  do  acontecimento  para  ser  falado,  buscado,   desmontado  até  o  osso.  Ao  falar  o  sujeito  vai  produzindo  seus  objetos  a  partir  da  sua   verdade.   A   partir   dos   quatro   discursos   que   fazem   laço   social   Lacan   colocou   a   estrutura   da   fala   dirigida   ao   outro   em   um   esquema   onde   o   significante,   a   castração,   o   saber  como  gozo  do  Outro,  e  o  objeto  a  como  perda  surgida  desse  trajeto  do  discurso,   se  articulam  simulando  as  formas  de  posição  subjetiva,  no  que  faz  laço  na  cultura.    

 

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Na busca   do   saber   sobre   o   gozo   do   Outro   o   sujeito   encontra   a   sua   verdade   que   se   constitui  pela  castração,  no  discurso  do  mestre.  A  verdade  chega  até  onde  o  significante   alcança   como   representante   desse   saber   constituído   a   partir   do   real.   Dessa   forma   o   sujeito  vai  utilizando  todo  o  seu  acervo  significante,  que  depois  ele  percebe  como  um  só,   e  gasta  até  chegar  aonde  ele  já  sabia  que  não  sabia.  O  saber  não  sabido.   Resta  a  letra,  o  nome  próprio  onde  o  sujeito  olha  para  o  campo  devastado  e  parte   para   construir   a   própria   história   que   já   tem   nome   mas   poderá   produzir   outros   caminhos,   novas   possibilidades.   A   letra   faz   litoral   entre   gozo   e   saber,   é   o   que   Lacan   afirma   em   Lituraterra4.   O   furo   no   saber   como   acontecimento   produz   a   letra   que   faz   borda,  linguagem,  habitada  pelo  sujeito  que  fala.   O  nome  litura  quer  dizer:  rasura,  mancha,  borrão,  apagamento  do  que  foi  feito.  A   letra   faz   terra   marcando   o   litoral.   Produzir   a   rasura   é   produzir   a   metade   com   que   o   sujeito  subsiste.   Entre  centro  e  ausência,  entre  saber  e  gozo  há  litoral  que  pode  se  tornar  literal.  O   sujeito  que  fora  marcado  pelo  traço  que  se  apaga,  passa  então  a  ser  representado  pelo   significante.   Ao   se   romper   o   semblante,   o   sujeito   depara-­‐se   com   seu   gozo   que   evoca   o   real,   o   acontecimento,   o   apagamento   do   traço,   a   mancha.   Este   é   o   lugar   da   letra.   O   significante  está  no  simbólico.   Singular,  próprio,  solitário,  marca  do  sujeito  que  o  situa  em  sua  própria  história.   O  nome  ancora  o  sujeito  no  Um-­‐  a-­‐Mais  da  cultura.  Um  lugar  que  o  incluirá  na  sequência      

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da alteridade   definida   pelo   simbólico.   Um   lugar   de   repetição,   de   equívocos,   de   gozo.   Um   lugar   na   cena   onde   o   desamparo   o   faz   surgir   como   objeto   do   Outro   gozo.   O   endereçamento   do   sujeito   ao   Outro   será   doravante   determinado   pelo   significante,   produzido  pelo  corte,  que  representará  o  objeto  perdido.     É  a  partir  desse  endereçamento,  dessa  demanda  surgida  a  partir  de  uma  falta,  que   a   psicanálise   opera,   faz   cortes,   aponta   para   o   significante   desnudando   ,   destituindo   o   discurso  de  sentido.  A  repetição  do  que  não  pode  ser  simbolizado  do  impossível  de  dizer   coloca   o   sujeito   de   cara   com   o   real,   com   o   gozo   do   inconsciente.   O   que   fazer   com   esse   gozo,   forma   de   sinthome   do   sujeito?   Diante   da   impossibilidade   de   inscrever   a   relação   sexual,  como  o  sujeito  poderia  nomear-­‐se,  distinguir-­‐se?  Lacan  fala  do  sinthome  em  seu   seminário  de  19755,  o  quarto  nó,  como  uma  resposta  do  Real  frente  à  incompletude  da   relação  com  o  outro  sexo,  permitindo  ao  sujeito  a  criação  de  um  laço  social  através  da   identificação  a  seu  sinthome.   Para   o   sujeito   a   relação   sexual   nunca   existiu     porque   o   Um   não   tem   parceiro;   o   Um  é  o  lugar  do  zero:  serve  para  fazer  surgir  o  um  a  um.  O  Um  é  o  que  tentamos  dizer.  É   o  impossível  não  entra  na  falta,  ou  ausência,  ou  vazio;  é  sem  objeto.    A  partir  de  um  lugar   na   cadeia   significante   o   sujeito   pode   ‘se   fazer   ser’   como   afirma   Colette   Soler6.   Sair   da   posição  narcísica  do  ‘melhor  não  ser’  e  se  ocupar  do  próprio  desejo  reescrevendo  a  sua   história  a  partir  do  nome  próprio.   Para  que  isso  seja  possível  é  necessário  destituir  o  Outro  do  lugar  que  outrora  lhe   colocamos.   Em   um   processo   de   análise   isso   significaria   dizer:   ‘agora   vou   arrumar   os     166    


meus falta-­a-­ser   na   mala   e   vou   partir’.   Partir   com   o   próprio   nome   e   trabalhar   para   se   fazer  ser  partindo  do  menos-­‐um  (que  é  o  ‘recalque  originário’  para  Freud  e  não  há  ‘todos   os   significantes’   para   Lacan).   O   amor   de   transferência   pelo   sujeito   suposto   saber   se   metamorfoseia   em   amor   de   transferência   de   trabalho.   O   sujeito   com   a   sua   malinha   de   falta-­a-­ser   passa   a   trabalhar     pela   causa   do   seu   desejo   a   partir   de   sua   singularidade   e   do   seu  saber  sobre  o  impossível  do  real.  O  desejo  de  analista  agora  surge  a  partir  de  uma   escuta  que  muda  de  posição.  É  ficando  no  lugar  de  causa  do  discurso,  que  o  analista  pode   vislumbrar   os   deslizamentos   do   discurso   do   sujeito   com   todos   os   seus   significantes,   como  se  fossem  bunda  de  vaga-­‐lume  numa  noite  escura.     Notas:   1.   Bréhier,   Émile   (1908).   A   Teoria   dos   Incorporais   no   Antigo   Estoicismo.   Tradução   de   Alduisio  M.  de  Souza.  Cópia  pessoal,  Recife,2008.   2.  Lacan,  Jacques  (1970).  Outros  Escritos.  Radiofonia,  Jorge  Zahar  Ed.  2003.   3.   Lacan,   Jacques   (1974).   A   Terceira.   Tradução   da   Association   Lacanienne   Internationale,  2008.   4.   Lacan,   Jacques   (1971).   De   Um   Discurso   que   Não   Fosse   Semblante.   Sem.   18.   Jorge   Zahar  Ed.  2009.   5.  Lacan,  Jacques  (1975).  O  Sinthoma.  Sem.  23,  Jorge  Zahar  Ed.  2007.   6.   Soler,   Colette   (1989).   A   Psicanálise   na   Civilização.   Que   final   para   o   analista?   Contra   Capa  Livraria,  1998.  

 

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A arte é o que há de mais real

Sonia Borges1 “Eu pinto a violência do real”, dizia Bacon. Em seu trabalho com os pincéis, Bacon não dispensa Apolo, mas, serve a Dionísio. Ele próprio reconhece a sua filiação à tragédia grega, e ao teatro de Beckett, trágico moderno. Nas entrevistas que concedeu ao crítico de arte David Sylvester (2007), por mais de vinte anos, Bacon descreve a gênese de suas pinturas, enfatizando o que podemos considerar como o seu “método”: pintar sensações. “Pintar sensações” seria, para ele, uma maneira de fazer frente à “violência dos clichês”na constituição das subjetividades nas formas capitalistas de economia. “ Porque a sensação, afirmava, dirige-se à carne, ao corpo, e menos ao intelecto”( Sylvester, 2007:167). “A arte abre dentro de mim as válvulas das sensações que me jogam de novo à vida de uma forma ainda mais violenta.” (141) Deleuze, em seu belo livro, “ A lógica das sensações em Francis Bacon”, recorre à arte deste para desenvolver as suas posições filosóficas. A sensação, diz Deleuze, “é ser – no – mundo”: ao mesmo tempo eu me torno na sensação, e alguma cosa acontece pela sensação, um pelo outro, um no outro. Em última análise, diz o filósofo, é o mesmo corpo que dá e recebe a sensação, que é tanto objeto, quanto sujeito.”(2007:142) Esta critica à visão intelectualista da arte se presentifica, antes de mais nada, por sua recusa da pintura com pretensões de ilustração, figuração ou narração: “Gostaria muito, dizia                                                                                                               1

 

Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  -­‐  Brasil  

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ele, de fazer o que Valery preconizava: proporcionar, com minha pintura, emoções sem o tédio da comunicação” (Deleuse, ibid, p. 43) No entanto, de modo absolutamente original, é pela via do trabalho figurativo, que Bacon faz a crítica da figuração: apresenta figuras, mas desfiguradas, deformadas, podendo – se pensar que, sendo uma crítica ao realismo, criam um novo realismo. Como ele mesmo anuncia, “O que quero fazer é deformar a coisa, descartar a sua aparência, mas, nesta deformação reconduzi-la ao registro da aparência”. (Sylvester, op.cit., p. 83). Nisto está a radicalidade e crueldade de da obra de Bacon, o materialismo radical que suporta o seu ato criativo.

3 IMAGENS

O movimento cortado, o permanente efeito de mutilação, imagens como que arrancadas aos pedaços do mundo que vão ornamentar. Massas se concentram, depois se prolongam, figurando corpos contra toda lógica anatômica. Corpos histéricos, poderíamos dizer. A carne mole, informe, invade o universo da pintura baconiana. O envelope corporal não é impermeável, a carne desnudada é ameaça de ferimentos, a epiderme se confunde com as vísceras. A torção das figuras, de modo ambivalente, remete a excesso e a falta: a desmedida dionisíaca da apresentação de corpos e carne faz exceção à razão, mas é contrabalançada pela estrutura apolínea, com ares de geometria, com que amarra as figuras (ou o gozo), e que se repete em todas as telas. Neste trabalho busco abordar, pela via da psicanálise, o que chamei de método de Bacon, “pintar sensações”. Para isto, tomo como referência principa, de Freud, l a “Carta 52”

 

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e “Em busca do tempo pedido”, de Proust”, considerando a possibilidade de tomar este romance como uma ilustração do que Freud nos traz na Carta. Neste texto, Freud parte da idéia de uma estratificação sucessiva do psiquismo: O essencialmente novo, diz Freud, nesta teoria, é a tese da “existência da memória da experiência [...]como uma série de inscrições sucessivas e coexistentes [...]Estas impressões estão no extremo do aparelho, e devem ser recuperadas, ou não, em inscrições posteriores”. Com Lacan, pode-se pensar nesta escritura como o registro da experiência, ou seja, do real tal como cai e marca um ser que recebe o seu impacto, mas, do qual não conserva a memória. Mas, que marcas seriam estas? Impressões assubjetivas, acéfalas, matrizes de uma escrita da qual o sujeito advirá. Inequívoca manifestação de um real originário do sujeito, anterior à simbolização. São marcas inscritas no corpo, ou melhor, na carne, que se tornará corpo, por obra e graça desta cunhagem. Lacan as compara às pedras da loteria a que só o sorteio, ou seja, a que só o jogo dos significantes (Escritos, p. 58). poderá instaurar uma ordem. Em Proust, esta idéia, conforme Brainstein (2007), pode ser esclarecida nas descrições minuciosas do narrador sobre o que podemos considerar como epifanias proustianas. O “tempo redescoberto”, do último volume de sua obra, pode ser pensado como a redescoberta, a recuperação do gozo perdido. Gozo ressucitado pelo súbito reeencontro destas “marcas existenciais ” que se faz acompanhar de sensação de júbilo:o sabor da madeleine submersa no chá, uma breve frase musical, a rigidez do tato de um guardanapo engomado, são impressões sensíveis esvaziadas de significação fálica, restando ao artista fazer delas letras, domesticando o real.

 

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Qual o sentido destas experiências sensíveis? Com relação às madeleines, no relato do narrador no romance, em determinado momento, surge a pergunta: “De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? E, de súbito a lembrança apareceu: “Aquele gosto era do pedaço de madeleine depois de tê – lo mergulhado no chá da índia ou de tília que, aos domingos, minha tia Leonie me oferecia quando ia cumprimentá-la em seu quarto” . E, ao lhe retornar o gosto do pedaço de Madeleine molhado no chá, o momento epifanico, com ele também surge a velha casa onde moravam, e com ela toda a cidade de Combray. Impossível não pensarna exigência de associação livre no tratamento. A descrição que Bacon nos oferece da gênese de suas telas, também nos remete a esta ressurreição de marcas cuja vivacidade foi apagada pelos processos secundários de pensamento. Estas só lhe parecem satisfatórias quando mostram “um tipo de imagem sensorial que faz parte da própria estrutura do ser e nada tem a ver com uma imagem mental” (160): Sei que na minha obra, o melhor me veio por acaso – quando fui tomado por imagens que não antecipei. Não sei o que é o inconsciente, mas, há momentos em que algo emerge em nós. É muito pomposo falar de inconsciente, é melhor dizer acaso. Creio na existência de um caos profundamente organizado, e na importância do acaso. (Sylvester, op.cit., p.81) [...] a única razão para esta irracionalidade, afirma, é que ela trará muito mais vigorosamente a força da imagem.”

Como exemplo da força das sensações e do acaso, descreve a gênese de uma de suas pinturas mais importantes. Ainda que lhe ocorresse pintar um pássaro, em gesto rápido, jogou as tintas sobre a tela, os borrões tomaram uma forma tal que, de forma súbita, surgiu-lhe o Papa Inocêncio,imortalizado em tela de Velásquez, mas que na sua surge em nova configuração, ladeado por imensas e sangrentas costelas bovinas. Imagem 4: “Pintura 1946”  

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Essa desfiguração de corpos, cabeças, faces, não pode ser vista como representação de objetos, mas como mostração de “velhas” experiências sensíveis: “Não pinto estados d’alma, mas, estados do ser”, insistia Bacon, numa clara crítica à psicologia dos afetos. Para falar disso, o pintor usa uma linguagem que nos remete à ordem do pulsional: “níveis sensitivos”, “domínios sensíveis”, “ordens de sensações”, “sequências moventes”. Voltando à “Carta 52”, Braunstein postula que o primeiro sistema de inscrições é o Isso da segunda tópica, cujas características nos permitem distingui-lo do inconsciente que já seria um deciframento dessa escrita primária de marcas de gozo. O Isso é o conjunto de grafismos, império do gozo do ser, anterior, pois, à organização subjetiva, sendo esta efeito do que, no reino do significante, consiste na metáfora paterna. O Outro da linguagem e do sentido vem perturbar, obstaculizar e proíbir o gozo. Mas, assim sendo, para o sujeito habitado pela palavra, o que restaria daquele real perdido, empalidecido pelos processos psíquicos a que é submetido? É no sistema de alíngua que o gozo é cifrado, ainda alheio à bateria de significantes com significação convencional, que é o muro que obstaculiza o gozo bloqueado nos sistemas de inscrição não decifrados, impedidos de serem subjetivados. “A alingua está morta, diz Soler, mas, vem da vida. Como pode, então, esta multiplicidade inconsistente, inapreensível, se precipitar na letra, única capaz de fixar uma identidade de gozo?” (p.19) Isto que parece tão lacaniano, está já evidenciado na “Carta 52”. Em resumo, o sistema chamado por Freud de signos perceptivos (WZ) é um sistema de passagem de impressões corporais(W) para uma escritura desorganizada, um ciframento caótico em que não opera a língua dos lingüistas, mas a alíngua, cuja significação não é de sentido, mas, de  

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gozo. Matéria prima para que nela opere o significante, ou seja, a bateria dos significantes, ou seja, a bateria das diferenciações e valores que introduz a língua. Sabemos, pela experiência clínica, que o gozo condescende à escuta, à ordenação em uma cadeia temporal diacrônica, ou seja, a uma escrita onde o caos do Isso, no qual o gozo está cifrado, abre-se à decifração pela via dos processos primários que já produzem discurso, carente de sentido, absurdo, mas, que já se presta a ganhar sentido. O UMBEWUST (UBW), o inconsciente, é, na Carta 52, definido como uma segunda inscrição em que já não primam as associações por simultaneidade, mas, “outros nexos causais.” O tratamento pode, então, fazer com que o retido em inscrições anteriores seja transferido para novos modos de leitura. O inconsciente se escuta, ainda que constituído por palavras avessas ao pensamento em que predominam sintaxes lógicas. Paradoxalmente, o gozo do corpo marcado apenas pode ser recuperado mediante o recurso ao Outro, Esta possibilidade de releitura destas inscrições primeiras, próprias ao tratamento, a nosso ver, poderia ser estendidas ao processo de criação artística. Guardadas as diferenças, na criação, e talvez de modo especial a artística, não se trataria de se furar o muro da linguagem? De se furar o muro das convenções, dos clichês sociais, única finalidade da arte, como insistia Bacon? Para Braunstein, “armados com a distinção lacaniana ente prazer e gozo, é difícil não reconhecer em Freud, e desde o começo, que o psiquismo está determinado pelo gozo, pelo gozo como perdido e como recuperável.” ( 198), sendo possível a sua recuperação, não pela via da nostalgia, mas a partir de um encontro casual, da tiquê, de momentos epifânicos, como  

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Proust o descreveu. Está aí em jogo a função do real. Lacan nos traz também que o real está além do automatón, do retorno insistente dos signos que nos conduzem ao princípio do prazer. O gozo que emerge como ressurreição do próprio ser. E não se trata de felicidade, mas, da superação/destituição do sujeito pelo real, que supõe a perda de todas as suas balisas: as narcísicas e mesmo as da fantasia. As epifanias podem ser pensadas como estes momentos de destituição subjetiva, não a destituição do final de análise, mas, a experimentada pelos artistas em seu processo de criação, quando os objetos se carregam, para eles, de sentidos ocultos que assumem o caráter de hieróglifos que pedem para ser decifrados. O sabor da madeleine para Proust, a força dos corpos para Bacon, o matiz dos girassóis para Van Gogh, experiências gozosas recuperadas pelos procedimentos artísticos? A criação artística poderia ser definida, parodiando Proust, como busca do gozo perdido? Se pudermos considerar a criação artística como possibilidade de recuperação do gozo perdido, a arte seria, então, para o artista uma escritura de si mesmo, mas, sobre a qual se poderia afirmar o que Lacan disse do inconsciente: que nem é, nem não é, pois pertence à ordem do não realizado; é a escritura que cria o sujeito. e ao criá-lo o projeta retroativamente no tempo, o faz aparecer num passado que nunca existiu. E, mais, cria este passado com aquilo que é recuperado como escritura.

 

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Os usos do corpo e a política do sintoma: o caso da transformação corporal Andréa Franco  Milagres1   Por  ocasião  da  IV  Jornada  de  Trabalhos  do  Fórum-­‐BH,  defrontei-­‐me  com  algumas   questões  a  respeito  dos  termos  com  os  quais  fizemos  nosso  convite.  Demarcamos  uma   hipótese   de   trabalho:   há   uma   política   do   sintoma   e   no   bojo   desta,   o   sujeito   faz   suas   escolhas.   Sabemos   que   a   definição   do   sintoma   não   traz,   em   princípio   univocidade   e,   podemos,  tanto  em  Freud  como  em  Lacan  tomá-­‐lo  em  mais  de  uma  vertente,  de  acordo   com   o   momento   da   elaboração   de   cada   um.   Numa   perspectiva   freudiana,   é   possível   primeiramente  definir  o  sintoma  como  aquilo  que  nos  permite  algum  acesso  à  satisfação   proibida   -­‐   uma   solução   de   compromisso.   Neste   caso,   o   sintoma   seria   uma   metáfora.   É   uma  definição  clássica  em  psicanálise,  a  tal  ponto  que  se  pode  falar  de  uma  vulgata  do   sintoma:   até   mesmo   o   leigo,   na   banalidade   da   vida   cotidiana,   usa   o   termo   sintoma   como   aquilo   que   há   de   mais   íntimo   e   que   o   faz   sofrer.   Todavia,   constata   o   leigo,   estranho   mesmo   é   que   não   possa   abandoná-­‐lo,   não   possa   deixar   de   repeti-­‐lo.   Não   há,   portanto,   neurótico   que   não   experimente   isso...   O   que   nos   permitiria   então   supor   que   não   só   há   uma   política   do   sintoma,   como   esta   política   é   conciliatória.   Concilia   o   impossível   da   satisfação  com  alguma  satisfação  possível.  Aqui  poderíamos  dizer  que  há  uma  política  do   sintoma,  mas  também  que  o  sintoma  é  político.    

                                                                                                              1

Psicanalista,  Membro  do  Fórum-­‐BH,  Mestre  em  Psicologia  pela  UFMG,  Professora  da  PUC  Minas,   coordenadora  do  Curso  de  Especialização  em  Clínica  Psicanalítica  nas  Instituições  de  Saúde  da  PUC  Betim.  

 

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Ocupando-­‐se desta  vertente  é  que  a  psicanálise  talvez  tenha  inaugurado  seu  laço  com  o   mundo.   Sua   missão   era   assim   restituir   ao   sintoma   seu   lugar   de   verdade,   decifrando-­‐o   com  a  arma  da  interpretação.  Tratava-­‐se  assim  de  dar  um  sentido  ao  sintoma,  tal  como  o   texto   homônimo   de   Freud   nos   indicou:   a   verdade   esquecida   que   retorna   no   sintoma   é   que   ele   é   sempre   referido   ao   sexual.   No   entanto,   a   descoberta   freudiana   conheceu   tortuosos  caminhos.  A  tentação  dos  psicanalistas  doravante,  depois  de  Freud,  seria  dar   sentido   ao   sintoma.   O   que   não   se   sabia,   e   para   isto   foi   preciso   aguardar   Lacan,   é   que   dar   sentido   ao   sintoma   é   como   alimentar   um   peixinho   voraz:   sua   boca   nunca   se   fecha;   quanto   mais   o   alimentamos,   mais   ele   prolifera...   (Lacan,   1975a).   É   uma   outra   vertente   para  pensar  o  sintoma:  não  mais  como  substituto,  mas  como  índice  daquilo  que  vem  do   real.   Diante   disso,   podemos   considerar   que   a   política   do   sintoma   é   concernente   a   uma   tomada  de  posição,  um  recurso  adotado  pelo  sujeito  para  fazer  objeção  à  norma.  Nesta   segunda  vertente,  o  sintoma  é  sempre  correlato  a  um  comando,  no  caso,  à  ditadura  de   um  significante  mestre.     A   civilização   contemporânea   é   agenciada   por   alguns   significantes-­‐mestres   que   não   apenas   nos   representam   para   outros   significantes,   mas   fundamentalmente   afetam   nosso   corpo:   este   deve   se   mostrar   sarado,   sem   dobras,   barriga   chapada,   pele   esticada.   Quase   todos   nos   curvamos   a   este   comando:   ser   gordo   ou   feio,   estar   acima   do   peso,   deixar  entrever  as  marcas  do  tempo  na  pele  ou  nos  cabelos  soa  como  uma  afronta  aos   ideais   partilhados.   Assim,   como   diz   Soler   (1998b   p.   259)   “nossa   realidade   fabrica   semblantes   a   gozar   para   todos,   ainda   que   isto   nunca   seja   inteiramente   alcançado”.   Em      

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cada esquina,   clínicas   e   tratamentos   prometem   apagar   as   grandes   e   as   pequenas   diferenças   entre   os   corpos.   A   norma   é   Gisele:   seu   corpo   nu   e   esguio   delicadamente   pintado   sob   o   pretexto   de   vender   sandálias   nos   faz   encolher   na   cadeira   quando   folheamos   a   revista.   O   corpo   perfeito   de   Gisele   torna-­‐se   mais   que   um   ideal:   ele   é   persecutório!  Na  sala  de  espera  do  dentista,  folheamos  a  revista  Caras  com  a  curiosidade   sôfrega   de   quem   procura   encontrar   algo   que   torne   a   celebridade   um   pouco   mais   simétrica   conosco:   quem   sabe   um   paparazzi   possa   flagrar   um   furinho   de   celulite   em   Gisele   que   a   “mulherize”,   transformando-­‐a   em   mortal?   Enfim,   podemos   fazer   do   corpo   um   sintoma   na   tentativa   de   responder   positivamente   a   tais   ideais,   mas   lembro   que   a   imagem   que   ilustrava   o   folder   de   nossa   IV   Jornada   não   era   do   corpo   de   Gisele:   era   de   uma  armadura,  uma  espécie  de  versão  de  Dom  Quixote.   Escolhemos   tal   imagem,   pois   assim   nos   pareceu   a   política   do   sintoma:   uma   armadura   singular   inventada   por   cada   sujeito   para   responder   aos   ideais   ou   comandos   da  civilização.  Se  na  política  do  discurso  do  mestre  temos  uma  proposta  de  governança   ou  orientação  coletiva  do  gozo  e  a  maioria  responde,  portanto,  positivando  os  ideais,  é   preciso  lembrar  que  nem  todo  gozo  encontra  nesse  discurso  um  abrigo.  Existe  um  gozo   que   não   encontra   guarida,   para   o   qual   não   existe   um   porto-­‐seguro.   Há   gozos   que   interrogam  a  civilização.  Tal  questão  me  veio  à  mente  quando  assisti,  muito  intrigada,  à   série   Tabu   América   Latina   exibida   pela   National   Geographyc,   cujo   tema   era   “Corpos   Transformados”.   A   transformação   corporal   implica   uma   variedade   de   técnicas,   procedimentos   cirúrgicos   e   intervenções,   cujo   objetivo   é   modificar   a   aparência   para      

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diferenciar-­‐se dos   demais.   Dentre   as   técnicas   estão   as   escarificações,   os   implantes   subcutâneos  e  as  mutilações.   Creio   que   não   podemos   fazer   uma   generalização   a   ponto   de   dizer   que   todos   os   que  se  submetem  à  transformação  corporal  teriam  as  mesmas  motivações.  Todavia,  os   testemunhos  de  alguns  desses  sujeitos  demonstram,  numa  versão  contemporânea,  como   o  sintoma  faz  impedimento  a  que  as  coisas  andem,  e  por  isto  Lacan  (1975a,  p.  84)  pode   dizer   que   “(...)   o   sentido   do   sintoma   é   o   real,   o   real   enquanto   se   põe   em   cruz   para   impedir   que   as   coisas   andem,   que   andem   no   sentido   de   dar   conta   de   si   mesmas   de   maneira  satisfatória,  satisfatória  ao  menos  para  o  mestre”  (...)     Tomemos   dois   casos.   O   primeiro   é   de   Emílio   Gonzalez,   um   profissional   da   transformação   corporal   que   não   apenas   modifica   o   corpo   de   terceiros,   mas   o   seu   próprio.      

Mantém seu   estúdio   em   Bogotá   e   pretende   ficar   conhecido   como   o   Dr.   Freak2,  

pois faz   justamente   aquilo   que   os   médicos   rejeitam   fazer:   “imagina   se   você   pedir   ao   médico  para  cortar  sua  língua  em  dois:  ‘vá  procurar  um  psicólogo,  é  o  que  ele  lhe  dirá”...  

                                                                                                              2

Literalmente  freak  quer  dizer  deformação,  aberração.  Durante  o  século  XIX  e  meados  do  XX  encontramos  na   Europa   e   nos   EUA   até   o   período   entre-­‐guerras   uma   multiplicação   dos   freaks   shows   nos   circos,   casas   de   espetáculos   e   museus   de   curiosidades.   Tratava-­‐se   de   exibir   as   deformidades   e   bizarrices   do   corpo   humano   como  numa  aula  de  zoologia:  homens-­‐tronco,  gêmeos  siameses,  a  mulher  mais  gorda  do  mundo...  O  exemplo   mais  conhecido  encontra-­‐se  no  filme  “O  homem  elefante”,  de  David  Linch,  onde  o  protagonista  John  Merrick,  é   exposto  num  pequeno  circo  de  aberrações  para  satisfazer  a  curiosidade  escópica  do  público.  Nada  de  estranho   para   a   época   até   que   um   médico,   Dr.Treves,   imbuído   de   boa-­‐vontade   e   nascente   espírito   científico   decide   retirar   Merrick   do   circo,   demonstrando   com   seu   ato   a   estreita   relação   que   será   selada   doravante   entre   a   compaixão   e   a   entrada   no   discurso   médico.   A   cultura   do   voyeurismo   será   então   substituída   pela   observação  

 

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“Eu sou  um  transformador  corporal  de  alto  gabarito”,  “Fiz  (este  braço)  para  ser  Emílio   Gonzalez,  o  mais  famoso  transformador  corporal”.  Gonzalez  percorre  o  mundo  deixando   seu  legado  e  é  com  orgulho  que  fala  da  sua  obra:  “Eu  fiz  o  braço  dele  há  muito  tempo.   Um   braço   espetacular:   meu   trabalho   não   se   compara   ao   de   ninguém”,   testemunha   Gonzalez  a  respeito  dos  implantes  subcutâneos  que  havia  feito  num  “paciente”.  Satisfeito   com  o  resultado,  seu  paciente  comenta:  “Meu  braço  representa  um  braço  único.  Se  você   apalpar,  você  nunca  vai  esquecer,  é  único”.   Assim,   Gonzalez   pretende   fazer   seu   nome,   encarregando-­‐se   de   fabricar   a   diferença  ao  acolher  em  seu  estúdio  os  que  não  compartilham  das  vias  prescritas  pelo   saber   do   nosso   tempo.   O   discurso   que   orienta   e   civiliza   o   gozo   numa   determinada   cultura   prescreve   um   modo   de   comportamento   para   o   corpo:   um   modo   de   vestir,   de   andar,   de   apresentar-­‐se,   até   mesmo   um   modo   de   sentar-­‐se   à   mesa.   Por   isto,   às   vezes,   os   costumes  de  outras  culturas  podem  nos  parecer  tão  aberrantes.     Se  a  política  é  uma  tentativa  de  fazer  funcionar  um  “para  todos”  propondo  uma   gestão   universal   dos   modos   de   gozo,   uma   adaptação   à   realidade   que   deve   ser   coletivizada   -­‐   e   nisso   sem   dúvida   há   uma   ditadura   -­‐   o   médico   dos   freaks   se   coloca   do   lado  dos  contraditores  do  gozo,  daqueles  que  poderiam  ser  chamados  de  recalcitrantes   com  relação  à  norma.                                                                                                                     científica.   Na   disputa   entre   o   exibidor   e   o   médico   pelo   mesmo   objeto,   o   médico   levará   a   melhor.   A   deformidade  torna-­‐se  tema  da  observação  médica  e  objeto  de  amor  moral.   Conferir   texto   de   Jean-­‐Jacques   Courtine.   “O   corpo   anormal.   História   e   antropologia   culturais   da   deformidade”.   In:  História  do  corpo:  as  mutações  do  olhar.  O  século  XX.  Petrópolis,  RJ,  Vozes,  2008.p.253-­‐340.  

 

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O corpo   civilizado   é,   portanto,   programado   pelo   discurso.   Ele   deve   ser   dócil   a   estas   prescrições   para   entrar   nas   trocas.   Encontramos   assim   no   mundo   atual   o   que   Colette   Soler   (2002,   p.100-­‐101)   chamou   de   “opressão   homogeneizante   da   normalidade”.   Esta   autora   observa   um   fato   clínico   importante:   se   antes   os   sujeitos   vinham   à   análise   porque   tinham  dificuldade  para  sustentar  sua  diferença,  e  isto  os  dividia,  agora  temos  também   os   sujeitos   que   chegam   para   pedir   a   redução   da   sua   diferença,   pois   querem   ser   como   os   demais:  belos  como  Gisele,  bem  sucedidos  como  o  chefe,  eloquentes  e  desenvoltos  como   os  artistas  de  telenovela...   Curioso  é  que  Gonzalez  auxilia  seus  “pacientes”  a  se  distinguir,  a  se  fazer  ímpar,   face   à   indiferenciação   promovida   pela   “opressão   da   normalidade”.   Portanto,   encontramos   inúmeras   maneiras   de   reagir   e   fabricar   o   “fora   do   par”   para   responder   à   “indiferenciação   que   nossas   sociedades   promovem”   (SOLER,1990   [1998],   p.   289).   Todavia,   Gonzalez   não   escapa   da   cilada:   quer   fundar   a   diferença,   mas   mesmo   para   isto   é   preciso  que  seja  reconhecido.  Que  não  seja  pela  massa,  mas  pela  tribo  dos  freaks.  Isto  faz   um   laço,   isto   tem   um   endereço:   quer   ser   o   melhor   dentre   aqueles   que   promovem   a   diferença.   Assim,   perguntamos   se   Gonzalez   funda   um   novo   S1:   não   mais   “todos   belos   ou   todos  magros”,  mas  agora  “todos  diferentes”.  Outra  tribo,  outra  ditadura,  outro  S1,  mas   ainda  S1!   Ao   que   parece,   não   podemos   mais   falar   de   uma   política   do   sintoma,   senão   políticas  do  sintoma:  substituto  de  uma  satisfação,  índice  do  real,  dissidente  da  ordem,  

 

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mas também   como   aquilo   que   amarra   e   enlaça   à   mesma   ordem   que   o   sujeito   crê   protestar  contra.     Vejamos  outro  caso.  Trata-­‐se  de  Caim,  que  transformou  seu  corpo  com  a  ajuda  de   Gonzalez.   Seu   corpo   é   totalmente   tatuado,   tem   quatro   expansões   nos   lóbulos,   seis   implantes   na   testa   em   forma   de   coroa,   removeu   o   umbigo,   possui   a   língua   bifurcada,   mais   de   dez   piercings   no   rosto,   mutilou   as   orelhas   para   que   ficassem   em   ponta.   Seu   objetivo  é  ficar  parecido  com  o  diabo  e  com  o  vilão  Valdemort.  Gonzalez  não  vacila  em   acompanhar  o  projeto  de  seu  ‘paciente’:  “vou  onde  ele  quiser  para  fazer  o  trabalho”.   Parece-­‐me,  todavia,  que  criador  e  a  criatura  tomam  aqui  rumos  diferentes.  Seus   projetos  com  relação  ao  tratamento  do  gozo  diferem.  Enquanto  Gonzalez,  animado  pelo   S1-­‐   ser   “o   médico   dos   freaks”-­‐   se   esforça   para   encontrar   um   lugar   na   civilização   ainda   que  seja  pelo  avesso,  Caim  faz  uma  ruptura  mais  radical.  No  referido  programa,  constato   que   Caim   quase   não   fala,   persegue   seu   objetivo   silenciosamente.   Apenas   oferece   seu   corpo   à   transformação,   mas   também   a   uma   subtração.   Quanto   mais   perto   de   seu   objetivo,   mais   a   fazer:   é   um   projeto   sem   fim,   quase   como   um   problema   de   solução   elegante.  Para  se  parecer  com  o  diabo  é  preciso  ficar  com  menos  carne:  corta  as  pontas   das  orelhas,  a  língua,  parte  do  nariz.  Mas  nunca  é  o  bastante:  “Quando  me  olho  no  espelho   sinto  um  pouco  de  tristeza  porque  ainda  há  muitas  mudanças  a  fazer  em  meu  corpo.  Mas   sei   que   é   um   processo.   O   importante   é   que   eu   me   sinta   bem   com   as   mudanças   que   faço.   Desde  que  eu  não  faça  mal  a  ninguém  posso  fazer  com  meu  corpo  o  que  eu  quiser”.    

 

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Diferem assim   as   soluções   de   cada   um.   Gonzalez   do   seu   lado   faz   força   para   contestar  o  discurso  dominante,  mas  mal  sabe  ele  que  dá  uma  volta  de  360  graus  para   voltar  ao  mesmo  lugar.  Contesta  os  ideais,  mas  funda  outro:  “todos  diferentes”.  No  fim   das   contas   denuncia:   “somos   todos   freaks.   As   mulheres   no   meu   país   todas   colocam   nádegas,  mega-­‐seios,  peitos  imensos...”.   Para   terminar,   proponho   que   a   diferença   entre   Gonzalez,   o   criador,   e   Caim,   a   criatura,  é  abissal.  Gonzalez,  quiçá  neurótico,  interroga  o  pai  e  os  ideais  denunciando  seu   fracasso  em  ordenar  o  campo  do  gozo.  Ele,  todavia,  auxilia  os  que  não  podem  contar  com   este   recurso.   Com   isso,   faz   seu   nome   e   ganha   seu   pão   de   cada   dia.   Ele   entra   nas   trocas,   e   justamente  por  isto  não  está  livre....   Quanto   a   Caim,   livre   para   fazer   o   que   quiser   de   seu   corpo,   ele   propõe   à   psicanálise   algumas   perguntas.   A   mais   importante   é   por   qual   razão   somos   sempre   feudatários  da  imagem,  pouco  importando  em  qual  estrutura...  De  Gisele  a  Caim  há  um   ponto   em   comum:   nos   dois   casos   o   corpo   é   aquilo   que   se   impõe,   que   se   mostra,   provoca   arrepios.  A  bela  e  a  fera.  O  corpo  é  esta  coisa  que  carregamos  conosco,  como  uma  mala,   às   vezes   sem   alça.   Cada   um,   a   seu   modo,   demonstra   como   o   corpo   faz   leito   para   o   Outro,   como  o  corpo  é  propício  para  fazer  sintoma  ou  sinthome.     Bibliografia   LACAN,  J.  La  tercera  (1975a).  In:  ________________________.  Intervenciones  y  textos  2.  Buenos   Aires,  Manancial,  2001.   __________.  Conferencia  em  Genebra  sobre  el  sintoma.  (1975b).In:  __________.  Intervenciones   y  textos  2.  Buenos  Aires,  Manantial,  2001.      

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SOLER, C.   Los   ensamblajes   del   cuerpo.   Medelin,   Associación   Foros   del   Campo   Lacaniano  Medellín,  2002.   _________.   O   “Corpo   falante”.   In:   Caderno   de   Stylus   n.   1.   Rio   de   Janeiro,   Internacional   dos   Fóruns   do   Campo   Lacaniano-­‐Escola   de   Psicanálise   dos   Fóruns   do   Campo   Lacaniano,  2010.     __________.   Os   direitos   do   sujeito.   In:   _______________.   A   Psicanálise   na   civilização.       Tradução:  Vera  Ribeiro,  Manoel  Motta.  Rio  de  Janeiro,  Contra  Capa  Livraria,  1998a.   __________.  Incidência  política  do  psicanalista.  In:  ________.  A  Psicanálise  na  Civilização.   Tradução:  Vera  Ribeiro,  Manoel  Motta.  Rio  de  Janeiro,  Contra  Capa  Livraria,  1998b.  

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O Real Do Sintoma: Sua Política Na Cura Andréa Hortélio Fernandes1 Em 1975 no Seminário R.S.I., Lacan afirma que todo àquele que procura uma análise o faz por acreditar que o sintoma diz alguma coisa que demanda ser decifrada. Ele também apresenta o sintoma como o que há de mais real em cada um, portanto, neste sentido, o sintoma analítico interroga a não-relação sexual. Surge então, neste mesmo Seminário, outra afirmação contundente segundo a qual o “Inconsciente é o Real”. O real como aquilo que não cessa de não se escrever, promove a associação livre, trabalho do analisante, via transferência. Logo, nosso trabalho pretende abordar as mudanças nas crenças do sujeito que procura uma análise levando em consideração o real do sintoma e sua política na clínica. O real próprio ao sintoma como aquilo que não cessa de não se escrever convoca mudanças nas crenças do sujeito. Acreditar que um sintoma diz alguma coisa está associado à vacilação de outras crenças do sujeito, entre elas na religião e na ciência. Com relação à religião, Lacan diz que “ela é feita para curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona”2, para recalcar o sintoma. Com relação à ciência, sabemos que a busca da cientificidade termina por foracluir o sujeito por desconsiderá-lo naquilo em que ele se presentifica e, isso está articulado ao tratamento dado ao sintoma.

                                                                                                              1

Psicanalista,  Membro  da  Escola,  Doutora  em  Psicopatologia  e  Psicanálise  (Paris  7),  Profa  da  graduação  e  pós-­‐ graduação  da  Universidade  Federal  da  Bahia.  E-­‐mail-­‐  ahfernandes@terra.com.br   2  Lacan,  J.,  O  triunfo  da  religião.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  2005,  p.  72.  

 

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A psicopatologia explicativa, comunicativa e fenomenológica de Karl Jaspers seria um exemplo da foraclusão do sujeito fomentada pela exigência de cientificidade. A percepção e a compreensão orientam a perspectiva jasperiana ao definir o delírio como juízo patologicamente falseado e incompreensível. A busca do sentido aponta para quão distante estão Jaspers e Lacan que afirma que “o falasser é uma forma de exprimir o inconsciente”3, e que, portanto, ao analista interessa o sem-sentido. Longe de propor uma hermenêutica do inconsciente, Lacan, no Seminário XI, irá deter-se na interpretação ressaltando o fato dela “não está aberta a todos os sentidos”4 já que “ela mesma é um não-senso”. Para Lacan, “quando se trata do inconsciente do sujeito” está em questão “fazer surgir elementos significantes irredutíveis, non-sense, feitos de nãosenso”5. Temos já aí uma aproximação do inconsciente real, irredutível, feito de não-senso. Se o falasser é como uma forma de exprimir o inconsciente6, o saber em questão é um saber sem-sujeito. O inconsciente só pode ser abordado na análise onde não é questão de lembrar-se do que se sabe, mas de um “não me lembro mais disso. Não me reencontro nisso”7. É nisso que o inconsciente interpreta o analisante e faz dele seu interprete. Ainda sobre a interpretação, nos anos 70, Lacan diz que ela não é feita para ser compreendida já que ela deve ser equivoca8. É desta forma que a interpretação age na contra                                                                                                               3

Idem.    Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  11.  RJ:  Zahar,  p.  236.   5  Idem.   6  Lacan,  J.,  O  triunfo  da  religião.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,2005,  p.  72.   7  Lacan,  J.,  “O  engano  do  sujeito  suposto  saber”  (14/12/1967).  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  337.   8  Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  dês  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  35.   4

 

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corrente do efeito de tapeação próprio à transferência9, apontando para o engano do sujeito suposto que se explicita na pergunta: “o saber que só se revela no engano do sujeito, qual pode ser o sujeito que o sabe de antemão?”10 . Logo, entre o analisando e analista existiria uma “divergência de suposição”11. Do lado do analisando, a suposição de saber própria da transferência, enquanto que do lado do analista, o postulado do sujeito suposto saber caberia ser abolido no decorrer de uma análise. A divergência de suposição aponta para a relação entre saber e crença, no que “três quartos do dito saber não são nada mais que crenças”12. A relação entre saber e crença, interessou bastante Lacan, na década de sessenta13. Nesta época, ele chamava atenção dos analistas que tentaram tratar da existência do inconsciente fora da psicanálise e, assim deram um tom “tranqüilizador”14 do inconsciente. Lacan diz então que irá “no cerne da prática que fez empalidecer o inconsciente buscar o seu registro”15. À prática da análise atrelada a dar sentido ao inconsciente, Lacan promulgada seguir a política do sintoma no que ele mantém um sentido no real que aponta para o ser de gozo do sujeito.

                                                                                                              9

Idem,  p.  240.    Lacan,  J.,  “O  engano  do  sujeito  suposto  saber”  (14/12/1967)  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  337.   11  Lacan,  J.,  “A  psicanálise.  Razão  de  um  fracasso”  (15/12/1967)  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.   337.   12  Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  dês  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  12.   13  Em  especial,  nos  Seminários  da  Transferência  e  Os  Quatro  conceitos  fundamentais  da  psicanálise  e,  também   na  Proposição  de  9  de  outubro  de  1967  como  nas  conferências  proferidas  em  Roma,  no  mesmo  ano.   14  Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  dês  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  25.   15  Lacan,  J.,  “O  engano  do  sujeito  suposto  saber”  (14/12/1967)  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  332.   10

 

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É nesta perspectiva que em 1975, Lacan dirá que “O sintoma é real. É a única coisa verdadeiramente real, que conserva um sentido no real. É por essa razão que a psicanálise pode, se existe a chance, intervir simbolicamente”16 no real. Para tratar da afirmação segundo a qual o sintoma é real, é importante nos determos na orientação clínica de Lacan sobre intervir simbolicamente no sintoma. Para tanto surge uma nova acepção do sintoma, o sintoma vindo do real, o sintoma como “acontecimento de corpo, que corresponde ao saber falado, ao saber falado fixado precocemente”17. O sintoma como encarnação do real comporta uma incerteza por, desde sempre, permanecer “indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, mesmo todo pensamento”18. Isto porque “a linguagem, de começo, ela não existe”. A linguagem é o que se tenta saber concernentemente à função de alíngua”19. Desse modo, o sintoma tem um lugar privilegiado entre as formações do inconsciente sendo imprescindível para que uma demanda de análise possa ocorrer. Numa conferência de Lacan na Universidade de Yale, o tratamento dado ao sintoma e ao saber é evocado no percurso de uma análise. Nesta conferência, o início do tratamento é descrito como o analista devendo “deixasse guiar pelos termos verbais”20.

A expressão

“termos verbais” propomos aproximar do significante fora da cadeia, fora sentido, como um

                                                                                                              16

Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  14.  L’insu-­‐que-­‐sait  de  l’  une  bévue  s’aile  a  mourre.  Lição  de  15  de  março  de   1977,  inédito.   17  Soler,  C.,  “De  que  modo  o  real  comanda  a  verdade”  in  Stylus,  nº  19.  Rio  de  Janeiro:  AFCL/EPCL,  2009,  p,  23.   18  Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  RJ:  Zahar,  p.  196.   19  Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  RJ:  Zahar,  p.  189.   20  Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  des  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  17.  

 

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todo só, errático, do S1( S1( S1(S1 → //S2))) “que soa em francês essaim21, um enxame significante, um enxame que zumbe”22 e “que garante a uma unidade de copulação do sujeito com o saber”23. É importante aqui “conceber que o S2 de alíngua é ele próprio composto de S1”, e que “o sujeito não virá no nível deste S2”24. É assim que Lacan diz que “os efeitos de alíngua que já estão lá como saber, vão bem mais longe de tudo que o ser falante é suscetível de enunciar”25 trata-se, portanto, de um saber que ultrapassa o sujeito. A partir daí veremos o ensino de Lacan demarcar que “o significante é causa de gozo”26 e que somente pelo simbólico é possível abordar o sintoma como acontecimento no corpo. Dito de outro modo, o sintoma como modo pelo qual o sujeito goza na medida em que o inconsciente o determina, aponta para o fato de que o saber inconsciente “está alojado em outro lugar, ele está alojado na substância gozante”27 e aponta para uma fixão de gozo própria ao sujeito. Os uns erráticos que antecedem a linguagem conectam-se ao gozo corporal fazendo sintoma, entendido como acontecimento no corpo, por trazerem aos traços do gozo do Outro. Como não se pode gozar do corpo do Outro, dada inexistência da relação sexual é através do gozo do sentido, que algo do sintoma pode ser tocado pela prática de falar em análise.

                                                                                                              21

No  dicionário  Le  Robert  –  essaim  significa  enxame,  exemplo:  “groupe  d’abeilles  d’insectes  em  vol  ou  posés.    Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  Mais,  ainda.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  196.   23  Idem.   24  Soler,  C.,  “De  que  modo  o  real  comanda  a  verdade”  in  Stylus,  nº  19.  Rio  de  Janeiro:  AFCL/EPCL,  2009,  p.  19.   25  Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  Mais,  ainda.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  191.   26  Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  Mais,  ainda.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  36.   27  Soler,  C.,  “De  que  modo  o  real  comanda  a  verdade”  in  Stylus,  nº  19.  Rio  de  Janeiro:  AFCL/EPCL,  2009,  p.  18.   22

 

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Estando trabalhando o saber inconsciente alojado na substância gozante, para Lacan “o que há de surpreendente no sintoma ... é que se acredita”28. Logo, todo aquele que demanda uma análise acredita que o sintoma diz alguma coisa e basta apenas decifrá-la. O analista convocado a responder com o saber faz uma aposta que uma análise se dê, pela associação livre do analisando. O desejo advertido do analista está suportado na sua própria experiência de análise que deve tê-lo levado a um ponto de ateísmo que não se contradiz. Nisto o ateísmo pode ser aproximado à questão do gozo. O ateísmo é definido por Lacan como “a doença da crença em Deus”29, a crença que Deus não intervém no mundo. Assim todos seriam religiosos, mesmo os ateus que acreditariam que Deus não tem nenhuma participação quando estão doentes. No nível do gozo, o analista levado ao ponto do ateísmo durável, está advertido que o sujeito neurótico é levado a delegar o gozo ao Outro. Porém, a experiência da análise permite ao analista entrever que esta crença esta pautada no ateísmo, a doença da crença em Deus. Isto porque mesmo sendo o gozo o que falta ao Outro, na neurose e o que o torna inconsistente, o neurótico tende a delegá-lo ao Outro. Logo, o analista cuja à análise o levou a um ponto de ateísmo pode levar um sujeito a formular a seguinte questão: “este gozo, do qual a falta faz o Outro inconsistente, é ele meu?”30.

                                                                                                              28

Lacan,  J.,  O  Seminário  –  Livro  20.  R.S.I.  Lição  de  21  de  janeiro  de  1975,  p.  24.  Inédito.    Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  des  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  32.   30  Lacan,  J.,  “Subversão  do  sujeito  e  dialética  do  desejo  no  inconsciente  freudiano”  (1957)  in:  Escritos.  Rio  de   Janeiro:  Zahar,  p.  819.   29

 

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É necessário um percurso para que uma análise se dê, e ele está articulado àquilo que faz função de real no saber, ou seja, o impossível, a não-relação sexual. Uma análise começa com um sujeito supondo um saber ao analista. Ao analista cabe colocar a destituição subjetiva em pauta desde o início da análise para, assim poder manejar, com a suposição de saber a ele atribuída. O algoritmo da transferência mostra o caráter de cifra de gozo, fora-sentido do sintoma que convoca decifração. Através do S significante da transferência o sujeito apresenta o sintoma como um “incompreensível corpo estranho a ele próprio e portador de um sentido obscuro que o representa”31. É aí que Lacan vai insistir que “Há Um e nada mais”. O Um que insiste em se escrever pelo viés da fala, sob transferência, demonstra indiretamente o que não se escreve32, a impossibilidade de escrever a relação sexual. A impossibilidade está posta entre o S1 e S2 no discurso do mestre, S1 → S2, entre eles não há relação dada a coalescência entre S1 e S2. O sintoma como o que de mais particular em cada um, interroga a não-relação sexual e cria um intervalo entre S1 e S2, onde é possível situar o sintoma ( ∑ ) que faz existir a relação sexual, faz existir o discurso. A questão então é como um significante pode ser chamado a fazer sinal, a constituir signo33, sintoma para um sujeito. Lacan afirma que “o saber do um, por pouco que posamos dizer disto, vem do significante Um”34 de alíngua. E ainda que é da alíngua que é possível extrair o que é do

                                                                                                              31

Soler,  c.  “Standard  e  não  standard”  in:  Artigos  Clínicos.  Salvador:  Fator,  1991,  p.  28.    Soler,  C.,  “De  que  modo  o  real  comanda  a  verdade”  in  Stylus,  nº  19.  Rio  de  Janeiro:  AFCL/EPCL,  2009,  p.  17.   33  J.Lacan,  O  Seminário  –  Livro  20.  Mais,  ainda.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  195.   34  Idem.   32

 

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significante35. Ao Lacan propor o Um encarnado, ele concebe que S2 é composto pelo S1. Do lado do S2 está o resto que permanece não decifrado, não-significantizável, indizível, um saber falado tal qual o Um encarnado. O S2 aponta para o que há de contingente no ouvir e põe em marcha toda a crença do sujeito no sintoma. A ponto de Lacan declarar que “o significante Um não é significante qualquer. Ele é a ordem significante, no que ela se instaura pelo envolvimento pelo qual toda a cadeia subsiste36. Para Lacan, a linguagem é feita de alíngua. A linguagem “é uma elucubrarão de saber de alíngua”37.

Nesta época, Lacan vai aproximar o inconsciente de alíngua, propondo um

inconsciente fora-sentido, anterior a linguagem. Segundo ele, “é porque há o inconsciente, isto é alíngua ... que o significante pode ser chamado a fazer sinal, a constituir signo”38, a fazer enigma, levando ao cúmulo de sentido. O sentido do que o sujeito ignora, o sentido do que ele não sabe suscita o amor ao saber, ou seja, transferência39. É neste contexto que, por contingência, ou seja, pela fala do sujeito em análise, algo pode vir a se escrever (S2) e é o que faz função de real no saber, um saber sem-sujeito, um saber que ultrapassa o sujeito e aponta para algo que cessa de não se escrever: o Um do gozo, a letra de gozo. Aponta, pois, para o sintoma como o que há de mais real em cada um e para o inconsciente real que pelo cúmulo de sentido do Um encarnado que faz signo, enigma e leva o sujeito a acreditar que o sintoma possa ser traduzido.

                                                                                                              35

Idem,  p.  194.    Idem,  p.  197.   37  Idem,  p.  190.   38  Idem,  p.  195.   39  Gerbase,  J.,  “O  discurso  histérico”,  curso  O  diagnóstico  na  psicanálise  e  na  psiquiatria,  inédito,  2010.   36

 

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Ao tratar da crença no sintoma, em 1975, Lacan marcará uma distinção entre acreditar no sintoma (“y croire”) como do campo da neurose e acreditar nele (“le croire”). Na psicose, sabemos, as vozes estão lá, o psicótico acredita nelas, daí porque Lacan formulou que na psicose o que foi foracluído no simbólico, retorna no real. Porém, tanto na neurose como na psicose, o analista deverá manejar com a crença no sintoma. Na psicose trata-se de uma crença forçada. O psicótico sofre o efeito da cadeia significante rompida que faz com que a irrupção de um significante no real seja incontestável40, por exemplo: “porca”. De acordo com Bernard David41, o psicótico acredita na sua alucinação de forma redobrada, ele utiliza a passagem da paciente entrevistada por Lacan que diz ter escutado “porca” para demonstrar isso. A crença seria redobrada pelo fato do significante “porca” surgi no real e, também, devido ao fato do significante interpretar a paciente. Este significante quer lhe dizer alguma coisa e, em alguns casos, já diz alguma coisa, apesar da paciente. Em razão da não-extração do objeto a, está vetado à paciente saber o que é o seu ser de gozo, o significante equivale a ela enquanto objeto de gozo do Outro. Entretanto, no desencadeamento da psicose encontramos um percurso que vai do acreditar no sintoma e acreditar nele. O significante real “porca” (S2), essa irrupção do inconsciente real, de um saber sem sujeito, frente a ela a paciente não se vê representada pelo significante alucinado, até aí ela sofre o efeito do cúmulo de sentido que faz signo e demanda

                                                                                                              40

Lacan,  J.,  “De  uma  questão  familiar  à  todo  tratamento  possível  da  psicose”  in:  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,   p.  542.   41  Bernard,  D.  “Y  croire,  les  croire”  in:  Pli,  nº  4.  Revue  de  Psychanalyse.  

 

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interpretação. Somente com a formalização do delírio que a paciente passa a acreditar nele, através da significação da significação. Na neurose, o sujeito acredita no sintoma e isso o impulsiona na direção de uma elaboração, pautada na transferência.

O significante que faz enigma seria real como o

significante no real próprio à psicose, a diferença é que ele não é alucinado, podendo ser encarnado, inscrito no corpo, como nos ilustra a histeria. Esse significante é causa de gozo e objeto de gozo na medida em que se goza dele, porém é um real que pode se converter em simbólico42. O tratamento do real do sintoma pelo simbólico é do que se ocupa uma psicanálise com especificidades na neurose e na psicose. Na psicose existiria a possibilidade de civilizar o gozo, possibilitando que mesmo na psicose o sujeito possa fazer laço social. Um exemplo seria Joyce ao conciliar seu gozo autístico, o gozo do Um, ao gozo da letra, se impor ao mundo como artista fazendo-se promotor de seu nome de gozo. Os seus livros Retrato do artista quando jovem ou Stephen, o herói, não se trata de um herói ou um artista, mas do herói e do artista que é uma crença da mesma ordem que a crença de Schreber de ser A mulher de Deus43, apontando que ele acredita nela. Na análise com neuróticos, teríamos na entrada, a crença no sintoma que o liga a cadeia significante sob transferência e, “na saída, a descrença que o desliga da cadeia

                                                                                                              42

Soler,  C.,  “Les  symptômes  de  transfert”,  curso  inédito  de  1999.    Soler,  C.,  O  inconsciente  a  céu  aberto  da  psicose.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  2007,  p.  206.  

43

 

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significante”44. Como já dizemos acreditar no sintoma é acreditar que ele diga alguma coisa. É nisso que o sintoma interroga a não-relação sexual. Acreditar no sintoma seria como lhe acrescentar reticências, acreditar que ao S1 pode juntar um S2 que faria sintoma retornar do real para o sentido. Aí está à própria crença no inconsciente. Em contrapartida, a identificação com o sintoma presume que o sujeito tenha deixado de esperar que a tradução pelas reticências, deixa-se, pois de acreditar, “a letra do sintoma resolve o vazio do sujeito que acabou com a questão do ser e com a elucubração de saber relacionada a ela”45. Por fim, Lacan ao afirmar que “o real, tal como nos falamos dele, é completamente desnudado de sentido”... “porque não é escrito com palavras. E sim com pequenas letras”46 aponta para o que seria a infinitude da análise. Na qual “o sujeito ao acreditar no sintoma, acredita que o “um” da letra pode retornar ao “dois “ da cadeia”47, e assim alimentar o gozo do sentido atrelado ao real do sintoma, política cujo manejo o analista é convocado a operar.

                                                                                                              44

Idem,  p.  198.    Soler,  C.,  O  que  Lacan  dizia  das  mulheres.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  198.   46  Lacan,  J.,  “Conférénces  et  entretiens  dans  des  universitaires  nord-­‐américaines”.In:  Scilicet  nº  6/7.  Paris:  Seuil,   1976,  p.  29.   47  Soler,  C.,  O  que  Lacan  dizia  das  mulheres.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  p.  197.   45

 

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Sintoma ou Fenômeno Psicossomático? Decifra-me ou te devoro! Roberta Luna da Costa Freire1

Neste trabalho trazemos reflexões, a partir da clínica, em torno do que pode ser levado em conta - no caso em que se apresenta uma lesão num órgão – para se dizer se se trata de um sintoma ou de um fenômeno psicossomático. É possível falar-se de sintoma na psicossomática? Sendo a fenomenologia, para Lacan, tributária do registro da fala, será no campo da linguagem que situaremos nossa questão como uma questão de nome. Segundo Soller (2010, p.31), o sintoma é acontecimento do corpo, e o corpo se introduz na psicanálise pelo sintoma. Nesse sentido, é com o corpo, enquanto submetido à ordem simbólica - afetado pela linguagem - que é possível esvanecer a diferença, tão cara às ciências filosóficas, entre mente e corpo. Assim, aponta Garcia-Roza (1936), a dicotomia não se inscreve como mente-corpo, mas como corpo linguagem/pulsões anárquicas. Em “Radiofonia” (1970, p.406), Lacan afirma que o corpo simbólico é aquele sobre o qual o ser que nele se apóia não sabe que é a linguagem que lhe confere,a tal ponto que ele não existiria, se não pudesse falar. Assim, é o corpo falado no divã que pertence à psicanálise. Corpo desgarrado do organismo. O corpo do qual falamos é o corpo em sua consistência imaginária e simbólica, e separado da carne. Ele, como sintoma, afetado pelo significante, exila o gozo e adquire consistência imaginária, prestando-se ao equívoco; ao                                                                                                               1

 

Psicanalista.  Membro  da  EPFCL  –  Brasil/  AFCL  –  Fórum  Natal  

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passo que o organismo é pulsional, coisa bruta e real. Não há encontro com o significante: o organismo é o não encontro. Como destino da pulsão, o sintoma é testemunho da pulsão capturada pela linguagem, fazendo-a exilar-se. Ser afetado pelo significante dá ao corpo consistência, a mesma que Freud atribuiu ao encontro entre representação-coisa e representação-palavra. No texto “O Inconsciente”(1915), Freud refere-se ao afeto e à representação como representantes pulsionais. Pela ação do recalque, o afeto é deslocado de sua representação original, a qual Freud designou como representação coisa,

para outra representação. A

apresentação consciente abrange a apresentação da coisa mais a apresentação da palavra que pertence a ela, ao passo que a apresentação inconsciente é a apresentação da coisa apenas. A apresentação da coisa mais a apresentação da palavra dizem respeito à captura da pulsão, impondo a esta a ordem da linguagem. A essa transformação, Freud

denomina de

representante-representação. Em termos significantes, a

representação palavra seriam os significantes, e a

representação coisa o corpo pulsional. Nesse encontro, segundo Freud, uma parte fica no inconsciente e outra na consciência. Portanto, algo se perde, isto é, a possibilidade de gozar livremente; o gozo é exilado e “educado”. Em termos lingüísticos, significa a dialética do par S1- S2,

no que ele representa o sujeito para um outro significante, o qual o outro

significante tem por efeito a afânise do sujeito (Lacan, 1964, p.207) Contudo, quando esse encontro entre o afeto e um substituto do recalcado não se estabelece, um quantum de afeto fica solto, e o excesso é sentido como angústia. Isso  

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significa dizer que o encontro entre a representação coisa e a representação palavra não se efetivou. O afeto franqueado se tornará então não simbolizado, não encontrando uma linguagem para seu escoamento. Em termos lacanianos, trata-se de um excesso de gozo, isto é, do real. Nessa perspectiva, poderemos situar a psicossomática: o afeto desgarrado da escritura é real; e, como tal, ataca o corpo sem mediação simbólica. Seus efeitos se mostram na marca impressa no corpo, que, no dizer de Lacan, não pode ser lida. No “Seminário 11”, Lacan situa a psicossomática, em termos linguisticos, com a fórmula da holófrase, na qual não há intervalo significante. Ele diz que a psicossomática é algo que não é um significante, mas que mesmo assim, só é concebível pela indução significante, no nível do sujeito, se passou de maneira que não põe em jogo a afânise do sujeito (Lacan, 1964, p.215) Lacan não designa a psicossomática como estrutura, mas, antes, como efeito de linguagem, sendo, portanto, um fenômeno, o que nos permite afirmar que um sujeito neurótico, psicótico ou perverso pode apresentar lesões psicossomáticas. Segundo Soller (2010, p11), para gozar é preciso um corpo e não um sujeito. O corpo desgarrado do organismo, atravessado pelas pulsões. No senso comum e no discurso especializado da psicologia e da psiquiatria, a psicossomática é compreendida a partir de um fundo emocional – termo descritivo e genérico que revela a confusão apontada por Freud (1915), quando diz que o fato de não se levar em conta o inconsciente é supor que tudo que é mental é consciente. Nesses dois campos, quem tem o saber é o especialista. Satisfeito, o paciente sai com uma receita química da consulta do  

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psiquiatra, ou com uma receita comportamental da consulta com o psicólogo e, de quebra, sua doença ainda ganha um nome, o nome da doença. Nesses casos, por exemplo, uma dor de cabeça é sinal

de estresse, excesso de

trabalho, frustração,etc. Esses males são denominados de somatização, como resultado da influência da mente sobre o corpo. Na psicanálise, um sintoma é uma formação do inconsciente, um representante linguistico do sujeito, um nome que afeta o corpo e o adoece, uma doença do nome, a qual pode ser substituída ou deslocada. Assim, como sintoma psicanalítico, precisa ser contado, falado, para dizer a verdade, sem dela saber, apenas pela emergência de seus efeitos. É inapreensível, enigmático, estratégico, joga a partida, na qual a posição do sujeito varia por sua condição de estrutura. Vanessa, 42 anos, chega à sessão de psicanálise dizendo que sua voz está rouca e baixa, que está quase sem voz. Conta que ficou assim após uma discussão no trabalho na qual sua colega lhe gritou e ela respondeu em voz baixa. Vanessa diz também que, no dia seguinte, soube que sua sobrinha fora embora para a França com um estranho que conhecera há pouco tempo, e, que, ao saber dessa notícia, ficou sem voz. Vanessa foi ao médico, e ele diagnosticou que ela estava com calo nas cordas vocais. Sua doença ganhou nome, tratamento específico e localizado. Ao referir-se à paciente de Tausk, Freud ressaltou que os comentários dessa paciente tinham o valor de uma análise. Isso significa dizer que o sintoma psicanalítico é aquele “tagarelado” pelo paciente.

 

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Vanessa queixa-se também de ter perdido suas digitais, diagnóstico dado pelo médico. Ela não sabe dizer o porquê, não consegue construir um saber: não há bateria de significantes disponível; dele apenas interroga o porquê. Sua questão orbita em torno da causalidade, e não do saber. Ela não supõe um saber sobre ele. Lacan nos ensina que, na psicossomática, há um gozo localizado, que retorna ao corpo e induz a lesão; um gozo não domado pelo significante, o qual consiste em um ataque que deixa sua marca, uma marca que é da ordem do número, o que aponta para um quantum da ordem de uma decifração. O gozo deixa seu rastro para não ser lido; a lesão atesta a sepultura cavada pelo gozo; e o número, o seu epitáfio. O ataque do gozo ao corpo e seu devoramento local devolvem-lhe o seu estatuto de carne, pois cortam na própria carne. Mas, na prática, considerar um como sintoma e o outro como fenômeno a que nos remete? O que ensinam os fenômenos psicossomáticos, a que eles respondem, ou, ainda, que pergunta nos endereçam? Se o discurso especializado dá nome à doença, poderíamos dizer que, na psicanálise, o sintoma é a doença do nome, e os fenômenos psicossomáticos seriam a doença sem nome. No “Discurso de Genebra” (1975), Lacan disse que a contribuição de Freud em relação ao consciente da consciência foi a idéia de que “não há necessidade de saber que se sabe para gozar um saber”. Ora, Vanessa não sabe, ao dizer que ficou afônica após a discussão e a notícia. Aliás, na primeira há um dito em excesso, e na segunda um excesso do dito. Em seu trabalho ela desloca, faz deslizarem palavras metonimicamente, o que sabe sobre

 

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sua rouquidão. Agora, banhada pela linguagem, as cordas vocais lesadas tomam valor de sentido. Talvez possamos considerar que, diante da lesão orgânica, ela constrói um saber. O sujeito articula-se na cadeia falada, como diz Lacan (1964, p.198): a característica do sujeito inconsciente é de estar, sob o significante que desenvolve suas redes, suas cadeias e sua história. Nesse sentido, o importante é o que de gozo pode ser barrado pela emergência do saber, o qual só pode ser produzido pelo sujeito dividido, divisão, essa, que permitiu o exílio do gozo. Lacan, no “Discurso de Genebra” (1975), concorda com o Sr. Vautier quando este assinala que quando se tem a impressão de que a palavra gozo recupera um sentido com um psicossomático, este já não é mais psicossomático. Eis a diferença: há um gozo, do qual se extrai um saber. Há uma nomeação, uma afetação da linguagem, uma doença por efeito do nome. No segundo exemplo, não há nomeação. Supomos que, no primeiro exemplo tem-se um sintoma e, no segundo, um fenômeno psicossomático. No primeiro, quando Vanessa endereçou sua queixa ao médico, a doença ganhou um nome: contudo, ao endereçá-la ao psicanalista, ela construiu um saber sobre o nome que a adoecia. Em relação ao segundo exemplo, não podemos furtar-nos a apontar o caráter emblemático dessa lesão; ou seja, perder as digitais significa perder o que, no registro da identidade civil , constitui a marca da existência singular. Sua lesão ganhou nome, no entanto não há nome de fato que a nomeie. É palavra vazia, sem nomeação que sustente uma história. Sem nome, sua lesão devora seu ser de sujeito, produzido pela não afânise, não representação  

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significante, ausência da representação-palavra. Devorada por sua lesão, ela se situa ante a questão de ter que decifrá-lo, para que possa dele livrar-se e, assim, poder representar-se metonimicamente.

Referências: FREUD, Sigmund. O Inconsciente. (1915). Obras Completas. Vol XIV. Rio de Janeiro: IMAGO, 1980. GARCIA-ROZA, Luis Alfredo. O Mal Radical em Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. LACAN, Jacques. Conferência de Genebra sobre o sintoma. Mimeo.1975. ______________ O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ______________.Radiofonia. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. SOLER, Colette. O “Corpo Falante”. Caderno de Stylus. Rio de Janeiro: IF/EPFCL, 2010.

 

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Considerações topológicas da passagem do sintoma ao sinthoma Conrado Ramos1

Com o objetivo de tentar formalizar algumas questões sobre o sintoma, apresento fragmentos clínicos de um caso e, em seguida, meu trabalho de teorização do mesmo. Um analisante passou seus anos de decifração em torno da relação entre três questões: o que é ser um filho, o que é ser um pai, e como isso se articulava nos seus laços amorosos e de trabalho. Ele fazia de sua vida um morrer de trabalhar pelo qual repetia o esforço, por um lado, de ser reconhecido e amado pelo pai cruel e insaciável que teve e, por outro lado, um meio de fazer diferente de seu pai, tomando por filhos aqueles implicados nos efeitos de seu trabalho. Morrer de trabalhar era um sintoma que atravessava a sua história significando suas posições, ora de filho, ora de pai. Durante anos tomou remédios psiquiátricos por estar sempre uma pilha de nervos. De tanto querer livrar-se desta situação, concluiu que foi por meio dela que se constituiu e que tentava fazer do morrer de trabalhar uma forma paradoxal de vida. Começou a referir-se ao trabalho como uma estranha satisfação que o fazia sentir-se pilhado (de pilha, bateria). Pilhado, significante que se repetiu em outro momento de sua análise, quando ele se dizia trabalhando sempre para o Outro, que o fazia sentir-se pilhado (isto é, roubado). No início do tratamento, ele fazia constantes referências à pilha de coisas que tinha para fazer, modo pelo qual apresentava, angustiado, o peso gigantesco de suas intermináveis tarefas. Mas eis que um dia veio a seguinte construção: “acho que não tenho como mudar a minha relação com o trabalho: eu sempre pilho”. E então eu pontuo: “pai e filho, pilho?!”, ao                                                                                                               1

 

Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  –  Brasil.  Membro  do  Fórum  São  Paulo  

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que ele responde: “É isso! Eu sempre pilho: pai e filho, pilho! Não tem jeito! E o que eu tenho que me perguntar é o que fazer com isso...” Essa interpretação da posição de gozo a partir do equívoco introduzido pelo significante pilho, trouxe desdobramentos e fez, em algumas semanas, a análise trazer à tona o objeto da fantasia no sujeito cristalizado no olho do filho do grande pai: ocorreu-lhe, no meio de uma sessão, a recordação súbita da reprodução de um Sagrado Coração de Jesus, da parede do corredor de sua casa de infância, cujo olhar sagrado, refletido no espelho de seu quarto, aterrorizava-o, e de onde ele tirava os imperativos de seus sacro-ofícios (sacrifícios). Seguiu-se a isso um percurso de tentativas de dar sentido e esse lugar: uma nova relação na qual ele se descobriu agindo sempre como pai da namorada; um novo emprego (“agora vou fazer diferente”) em que quase morreu de trabalhar, colocando-se diante do patrão numa posição que julgou feminina; reatou laços com o filho do primeiro casamento e se descobriu filho do próprio filho por ver que esse aprendeu a se virar sem o pai (coisa que ele mesmo dizia jamais ter conseguido); tornou-se provedor de parte da família e viu-se explorado no lugar do próprio pai falecido... Enfim, pela tagarelice, identificações foram caindo pelo caminho. Algum tempo depois ele trouxe o seguinte numa sessão, referindo-se à religião como uma prática de dar sentidos à sua submissão: “sem nunca ter sido religioso, aqui eu sempre fui religioso, porque eu sustentava minha loucura buscando sempre um sentido para ela. Um sentido não dava certo, eu buscava outro; esse não dava certo, eu buscava outro. Agora eu vejo que meu erro não era não encontrar o sentido certo. Meu erro era ser religioso. A minha loucura não tem sentido. E se não tem sentido, por que eu preciso dela? Se eu não preciso  

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mais ser religioso, não preciso mais também da minha loucura. Vai ver que a minha loucura era justamente este ‘ser religioso’: minha mania de achar que preciso me sacrificar pelo Pai.” Aqui veio um silêncio e hesitei quanto ao corte da sessão. Segurei um pouco mais e ele seguiu: “E por falar em Pai, ‘Fiat lux’... Eu me orientava pela luz do outro. Mas essa luz sempre foi minha: eu é que colocava a luz no outro. Não tem luz nenhuma lá.” Cortei a sessão. Depois dessa sessão, ele redescobre aos poucos o prazer da leitura e, admirador da arte, diz permitir-se levar adiante o que julga ser seu maior deleite, a experiência estética. Descobre ainda a satisfação que tem ao preparar suas aulas e, em relação ao dar aulas, comenta: “dar aulas não precisa ser um jogo de lugares – meus alunos não são meus filhos ou meu pai –, mas sinto ali uma estranha fruição... Engraçado dizer isto, mas se ali algo frui, é porque sou visto: tem ali um olhar que não é o olhar do meu pai, mas é um olhar... é só um olhar.” Cai o olhar do pai, o olhar que se pretendia verdadeiro e universal. O olhar que fica, esse que é só um olhar, já não é universal, mas esse olhar, embora não verdadeiro e não universal, nem por isso é uma mentira se ele tem o real por medida. Este caso me faz questionar, entre outras coisas, se um sintoma não é aquilo que uma análise pode levar do morrer de trabalhar para o Outro ao fazer-se ver. O gozo parasita do morrer de trabalhar pôde, no fazer-se ver, articular-se não-todo à cadeia significante e entrar no laço sem precisar ser pela via do mais-gozar extraído por meio da fantasia obsessiva de servidão ao pai: do morrer de trabalhar enquanto sintoma (S1) que tenta, para capturar S2 (tornar a relação sexual possível), fazer a coalescência entre a falta de um significante para o  

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lugar de filho [S(A/)] e o olhar como objeto a, pôde-se chegar ao fazer-se ver como o incurável do sintoma que se descolou da fantasia (do gozo do sentido) e pode ser gozado nãotodo, isto é, sabendo-se não recobrir o JA/ com o gozo do sentido por meio do JΦ. Isto pode ser visto no grafo do desejo quando, com a queda da consistência do Outro, o circuito do grafo faz passar do sintoma [s(A): morrer de trabalhar] para a pulsão [$ <> D: uma estranha fruição]: há, neste novo vetor, uma mudança de estatuto do sintoma? Com o esvaziamento dos sentidos da posição de pilho e com a queda do objeto olhar onividente (que carrega de sentido o gozo do grande Pai2), entendo ter havido um descolamento do sintoma em relação à fantasia.

Com a   queda   da   consistência   do   Outro,   o   sintoma   passa   de   uma   resposta   da  

fantasia que  visa  sustentar  esse  Outro  por  meio  do  sacrifício,  para  uma  pura  função  F(x)   em   relação   ao   objeto   a   como   causa,   como   o   corte   que   produz   a   borda   e   transforma   o   sintoma   em   resposta   do   real   (ou   seja:   uma   pulsão).   Entendo   aqui   o   sintoma,   como   resposta   do   real,   como   aquilo   que   faz   pura   função   em   relação   à   borda   e   que   Lacan   (1960)   associou,   em   Posição   do   inconsciente,   ao   teorema   de   Stokes,   como   “um   fluxo   invariante  ‘através’  de  um  circuito  orificial,  isto  é,  tal  que  a  superfície  inicial  já  não  entra   em  consideração”  (p.861).  O  que  responde  por  esta  função  de  fluxo  é  a  pulsão.  Assim,  do   furo   real   no   toro   (que   não   é   o   eixo!),   para   o   qual   a   superfície   já   não   conta,   mas   sim   a   propriedade   borromeana   que   daí   surge,   se   faz   passar   do   furo   falso   do   sintoma   [s(A)]   para   a   pulsão   [$   <>   D]   como   função   de   sintoma   real.   Aí   está:   do   sintoma   ao   sinthoma,   temos  topologicamente  a  passagem  do  eixo  como  furo  falso  da  superfície  sem  furos  do                                                                                                                   2

 

Agradeço  à  Sandra  Berta  por  esta  observação  precisa.  

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toro à  propriedade  borromeana  que  advém  do  furo  real,  para  o  qual  a  superfície  já  não   conta  mais:  por  isso,  sustento  que  o  sinthoma  foi  posto  por  Lacan  como  um  4º  nó  apenas   para  mostrar  que  sua  função  implica  a  propriedade  borromeana.   No  campo  do  falatório,  da  tagarelice,  o  sintoma  desse  obsessivo  não  teve  parada,   continuou   se   deslocando   nas   falhas   do   sentido,   na   insuficiência   radical   do   significante.   Para   que   houvesse   algo   que   julguei   aproximar-­‐se   da   identificação   com   o   sintoma,   foi   preciso   que   seu   gozo   encontrasse   uma   fixação   que   não   fosse   da   ordem   da   repetição   que   negava  o  real  do  furo  na  medida  em  que  tentava  fazer  a  relação  sexual  ex-­‐sistir  por  um   ser   pai-­‐filho   (pilho)   que   se   repetia   toricamente   [S1(S1(S1(S1S2)))]   na   esperança   de   gerar   superfície   e   se   transformar   no   signo   do   amor   ao   Pai.   Para   que   houvesse   uma   identificação   com   o   sintoma   foi   preciso   que   seu   gozo   fosse   além   da   petrificação   que   tentou  fixar  o  corpo  do  Outro  como  signo  do  amor  no  olhar  sagrado  do  Cristo  visto  no   espelho   do   quarto   [$a].   Para   que   fosse   possível   uma   identificação   com   o   sintoma   foi   preciso  que  seu  gozo  encontrasse  uma  fixação  que  funcionasse  como  ponto  de  basta,  o   que  pressupõe  a  dimensão  da  referência  que  toca  o  real  da  inexistência  da  relação  sexual   (uma  Bedeutung)  e  que,  deste  modo,  por  deixar  cair  o  sentido  (S2,  queda  do  SsS),  acaba   logicamente   valendo   por   si   mesma   (S1=S1):   faço   menção   aqui   ao   que   se   pode   extrair   da   tautológica  formulação  de  que  “tem  ali  um  olhar  que  não  é  o  olhar  do  meu  pai,  mas  é  um   olhar...   é   só   um   olhar”.   Além   disso,   se   a   finalidade   última   da   pulsão   é   retornar   à   fonte,   mais   do   que   o   gozo   do   objeto,   ela   visa   a   identidade   do   ser,   não   sem   ecoar   no   lado   do   outro.  É  daí  que  entendo  haver  identidade  no  fazer-­se  ver  final,  sob  o  qual  não  incide  a      

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consistência (a   superfície)   de   um   olhar   universal,   mas   de   um   olhar   que   é   só   um   olhar   (objeto  a  como  objeto  evanescente).   Este  tocar  o  real  é  o  que  revela  a  condição  de  metáfora  do  sintoma:  “[...]  não  é  à   toa  que,  em  uma  corda,  a  metáfora  advenha  do  que  faz  nó.  O  que  tento  é  descobrir  a  que   se   refere   essa   metáfora.   Se   há   uma   corda   vibrante   de   barrigas   e   de   nós,   é   na   medida   em   que  nos  referimos  ao  nó.  Quero  dizer  que  usamos  a  linguagem  de  um  modo  que  vai  mais   longe  do  que  o  que  é  efetivamente  dito.  Sempre  reduzimos  o  alcance  da  metáfora  como   tal.   Ou   seja,   ela   acaba   reduzida   a   uma   metonímia.”   (Seminário   23,   p.41).   O   sintoma   simbólico,   não   passa   de   metonímia:   [S1(S1(S1(S1S2)))].   Só   o   sintoma   real   faz   metáfora,  porque  deixa  cair  S2  e,  então,  pode  fazer  nó:  [S1=S1//S2].   É  nesse  sentido  que  sugiro  pensar  topologicamente  o  sintoma  obsessivo  do  início   do   tratamento   como   uma   banda   tripla,   ou   seja,   como   tagarelice,   como   metonímia   sem   fim,  porque  dá  voltas  infinitas  com  a  impotência  que  carrega  para  morder  o  próprio  rabo   ou   para   ter   uma   referência   acerca   de   que   lado   da   banda   se   está:   nestas   voltas,   só   se   reencontra   a   insuficiência   radical   do   significante.   Se   a   metáfora   advém   do   que   faz   nó   (LACAN,   1975-­‐76),   isso   se   dá   na   passagem   da   banda   tripla   para   o   nó   de   trevo   (o   que   Lacan  só  vai  concretizar  topologicamente  na  última  aula  do  Seminário  25,  em  11  de  abril   de   1978).   É   no   nó   de   trevo   que   localizo   a   topologia   do   fazer-­se   ver,   como   tecitura   pulsional   do   furo,   a   que   a   análise   conduz   o   sintoma   inicial.   Somente   quando   a   superfície   deixa   de   contar,   quando   a   superfície   calcada   no   sentido   encontra   o   limite   de   sua   condição   de   semblante   e   se   revela   uma   verdade   mentirosa,   é   que   a   propriedade      

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borromeana pode   se   escrever:   metáfora   real   da   estrutura.   (Afinal,   por   que   a   metáfora   tem  que  ser  simbólica?  Não  é  a  escrita  do  nó  uma  metáfora  real?)   Se o analisante pôde desenrolar o toro de sua verdade mentirosa, deparando-se sempre com uma volta não contada em cada “sentido que não dava certo”, foi para cingir um furo que se escreveu ao final como um nó, por um reviramento tórico, quando ele deixou cair o estofo da superfície ao se separar do que chamou de ser religioso. O que é isso que ele chamou de ser religioso senão sua própria condição tórica vista de um outro lugar? O que restou, aí, não foi o verdadeiro como consistência, como medida, mas a verdade do real, como orientação para o inconsciente real. A diferença entre o verdadeiro e a verdade do real é que o primeiro é feito de superfície, de consistência, de sentido, enquanto que a verdade do real é feita da geometria do fio: enquanto um nó mínimo, um nó de trevo, ela não tem sentido algum, mas dá sentido (orientação) quando, ao passar por cima e por baixo de si mesma três vezes e voltar ao mesmo lugar, separa furos e, com eles, gozos (isto é, faz litoral). Para deixar cair a superfície do verdadeiro e fiar-se nos furos do real, é preciso trocar de medida: substituir o verdadeiro do sentido pelo sentido do real. Daí que o verdadeiro, no final, não pode mais coincidir com o real. De volta ao caso, mais recentemente, uma sessão foi interrompida após a seguinte frase: “não sei por que nunca pude reconhecer isso, mas o fato é que eu posso ter brilho”: filho, pilho, brilho. Acerca deste significante brilho, menciono Lacan: Conhecer   quer   dizer   saber   lidar   com   esse   sintoma,   saber   desembaraçá-­‐lo,   saber   manipulá-­‐lo,   saber   –   isso   tem   alguma   coisa   que   corresponde   ao   que   o   homem  faz  com  sua  imagem  –  é  imaginar  a  maneira  pela  qual  a  gente  se  vira   com   esse   sintoma.   Trata-­‐se   aqui,   certamente,   do   narcisismo   secundário;   o  

 

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narcisismo radical,   o   narcisismo   que   chamamos   primário   estando,   nessa   ocasião,  excluído.  Saber  se  virar  com  o  seu  sintoma  está  aí  o  fim  da  análise;  é   preciso   reconhecer   que   é   conciso.   (LACAN,   1976-­‐77,   p.   8,   aula   de   6   de   novembro  de  1976).  

Entendo que este brilho aparece nesta análise marcando o lugar do que Lacan (1975/2003) chamou de escabelo. Posso dizer, em resumo, que o sintoma do início, na forma do morrer de trabalhar, era um não saber que se gozava de um saber, enquanto o sintoma do fim, o fazer-se ver, é um saber gozar de um saber que não se sabe. Posso afirmar, assim, que houve uma mudança na posição desse sujeito diante do gozo.

REFERÊNCIAS LACAN,   J.   (1960)   Posição   do   inconsciente.   In:   Escritos.   Rio   de   Janeiro:   Jorge   Zahar   Editor,  1998.   LACAN,   Jacques.   (1975)   Joyce,   o   sintoma.   In:   Outros   escritos.   Rio   de   Janeiro:   Jorge   Zahar,   2003,  p.560-­‐566.   LACAN,  J.  (1975-­‐76).  O  Seminário,  livro  23:  o  sinthoma.  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar,  2007.   LACAN,  J.  (1976-­‐77).  O  Seminário,  livro  24:  L’insu  que  sait  de  l’une  bévue  s’aile  à  mourre.   Edição  heReSIa  (para  circulação  interna).  Inédito.   LACAN,  J.  (1977-­‐78)  O  Seminário  25:  O  momento  de  concluir.  Tradução  de  Jairo  Gerbase.   Inédito.

 

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Um Adolescente em Cena Bela Malvina  Szajdenfisz1   A   passagem   da   vida   infantil   à   adulta   é   uma   experiência   em   que   a   força   pulsional   ultrapassa  a  capacidade  de  simbolização,  de  historicização,  de  representação.  A  reativação  do   complexo  edipiano  coloca  o  adolescente  frente  a  verdadeiras  questões  sobre  sua  identidade,   seu  corpo,  seu  lugar,  provocando-­‐lhe  um  mal-­‐estar  que  o  aproxima  da  psicose.  Quem  sou  eu?   O  que  o  Outro  quer  de  mim?  O  que  quero  pra  mim?  São  questões  com  que  o  adolescente  se  vê   às  voltas.   Sob  o  efeito  do  olhar  do  Outro,  o  adolescente  precisa  se  apropriar  de  uma  imagem  que   lhe  é  estranha,  atravessar  um  segundo  tempo  quando  se  opera  um  deslocamento  do  campo   pulsional  e  que  obedece  a  uma  lei  simbólica  constitutiva  do  sujeito  do  desejo.  Essa  travessia   exige  uma  intensa  elaboração  do  laço  social  a  partir  das  referências  simbólicas  transmitidas   pela  cultura  e  representadas  pelos  ideais.   O   processo   adolescente   se   dá   com   um   desinvestimento   nos   pais   de   infância   e   com   a   busca   de   outros   referenciais   para   a   construção   de   um   “nós”,   uma   identificação   imaginária   temporária   e   necessária.   É   a   lei   do   Pai   que   sustenta   o   sujeito   na   entrada   da   adolescência,   travessia  considerada  por  Freud  como  o  trabalho  mais  difícil  para  o  sujeito.  

                                                                                                              1

Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela UVA/RJ e mestre em Psicologia da Educação pelo IESAE- FGV/RJ. Especialista em Psicopedagogia Clínica.pela UERJ.Membro do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro, da IF-EPFCL e da AFCL/EPFCL. E-mail:bmal.trp@terra.com.br

 

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Ao se  deparar  com  a  falta  do  Outro,  porque  o  Outro  falta,  o  jovem  precisa  suportar  o   desamparo  e  sair  em  busca  do  que  lhe  falta,  sustentado  nas  marcas  vindas  do  campo  desse   Outro  primordial.  A  inconsistência  do  Outro  vai  permitir  ao  adolescente  deparar-­‐se  com  sua   verdade  e  dar  voz  a  seu  desejo,  propiciando  assim  a  efetivação  do  trabalho  de  separação  e  a   busca  de  novos  laços  sociais.   Na   clínica   nos   deparamos   com   muitas   questões   conflituosas.   Uma   delas   é   o   adolescente   às   voltas   com   o   processo   da   separação,   travessia   que   exige   uma   elaboração   intensa   do   sujeito   frente   aos   impasses   que   se   colocam   diante   dele.   A   ambivalência   -­‐   em   relação   a   essas   referencias   primordiais   -­‐   de   duas   dimensões   inerentes   à   vida   psíquica   -­‐   amor   e  ódio  -­‐  é  não  dialetizada,  situação  fronteiriça  que  transborda  o  psiquismo  do  sujeito.   Carlos,  o  adolescente  que  trago  à  cena,  é  um  jovem  de  19  anos,  alegre,  comunicativo,   que  adora  praia,  namorar,  brincar,  ir  para  a  cama  dos  pais  nos  finais  de  semana  e  enroscar-­‐se   neles.   A   irmã,   muito   diferente   dele,   sempre   foi   séria,   muito   distante,   uma   estranha,   apesar   de   dormirem  no  mesmo  quarto  desde  pequenos.   Seus  pais,  um  arquiteto  e  uma  psicóloga,  ambos  funcionários  públicos,  dão  muito  valor   à   estabilidade   no   emprego.   Nunca   aceitaram   que   os   filhos   estudassem   em   Universidade   privada.   Considerando-­‐os   já   encaminhados,   resolvem   passar   seus   finais   de   semana   em   pousadas  próximas,  esquecendo-­‐se  um  pouco  das  “crianças”.   Ainda   cursando   o   Ensino   Médio,   Carlos,   sem   qualquer   definição   profissional,   foi   buscar   orientação   vocacional   para   saber   qual   a   sua   inclinação,   o   que   pouco   adiantou.   Isso      

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porque respondia  às  perguntas  de  acordo  com  seu  interesse.  Queria  ingressar  logo  em  uma   Universidade  pública  para  atender  ao  desejo  dos  pais.   A   escolha   do   curso   universitário   deu-­‐se,   segundo   ele,   pelo   amor   que   tinha   aos   professores   do   colégio   e   também   regido   pela   lei   do   menor   esforço.   Não   deu   certo.   Explica-­‐se:   “A   universidade   estava   horrível,   não   suportava   mais   aqueles   professores.   Foi   como   uma   bomba   em   minha   vida.   Abandonei   tudo.   Fiquei   perdido.   Não   sei   para   onde   quero   ir!   Só   sei   que  não  quero  continuar  a  fazer  o  que  fazia.  Não  sei  nem  o  que  quero.  Não  sou  muito  bom  em   nada.  Mas  sou  bom  em  tudo”.   Carlos,   até   então   filho   carinhoso,   prestativo,   estudioso,   obediente,   numa   tentativa   de   separar-­‐se   das   figuras   parentais,   surpreende-­‐as   com   um   ato   para   além   do   sujeito,   algo   da   ordem  do  real.  Envolve-­‐se  com  drogas,  rompe  com  a  universidade,  com  a  namorada  e  deixa   seus  pais  impactados.   Sua   irmã,   dois   anos   mais   velha,   está   concluindo   um   curso   superior,   estagia   e   se   prepara   para   tentar   o   mestrado.   Carlos   fica   envergonhado   perante   a   irmã   e   os   amigos   já   estagiando,  pois  ele  agora,  ter  que  voltar  para  cursinho  e  tentar  outra  universidade,  pública,   naturalmente.  Não  sabe  o  que  fazer:  comunicação  social,  engenharia  ambiental...  “Vou  fazer   20  anos,  quero  escolher  mais  as  minhas  coisas.  Quero  ter  minha  independência.  Já  pensei  em   ter  meu  próprio  negócio  (brincando:  quem  sabe  até  em  plantar  maconha?),  controlar  minhas   coisas,  mas  minha  mãe  diz:  ‘nem  pensar’.  Estou  me  sentindo  no  vazio.“   Carlos  é  um  sujeito  dividido  que  desvela  um  real  impossível  de  dizer.  Sentindo-­‐se  no      

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desamparo, sai  em  busca  de  análise.  Esse  jovem  ocupa  o  lugar  de  quem  sofre  com  a  estrutura.   A   que   esse   sintoma   está   respondendo?   Alberti   (1996)   refere-­‐se   ao   sintoma   como   o   elo   necessário  que  se  cria  entre  simbólico,  real  e  imaginário  no  sujeito  da  neurose.   Uma  das  razões  que  leva  o  sujeito  neurótico  a  buscar  um  analista  para  sua  queixa,  na   qual  o  Outro  goza,  é  a  falha  na  solidificação  da  metáfora  paterna.  Podemos,  no  caso,  pensar   numa  lei  simbólica  frouxa?   O   pai   de   Carlos   é   um   sujeito   jovem,   joga   futebol   nos   finais   de   semana   com   os   amigos   e   depois  sai  para  beber.  Não  raro  se  infiltra  na  turma  do  filho.  O  tio  materno,  único  irmão  da   mãe,   inteligente   igual   a   ele,   também   fez   um   curso   técnico.   Ambos   foram   jubilados   a   seu   tempo.  Esse  tio  mora  atualmente  em  outro  Estado,  onde  também  é  funcionário  público,  como   seus   pais.   Ele   e   a   mãe   de   Carlos   tinham   um   negócio   comercial   e   ele   sujou   o   nome   dela,   deixando   uma   enorme   dívida   para   ela   pagar.   Até   hoje   não   se   falam.   A   mãe   compara-­‐se   o   tempo  todo  com  o  filho,  no  que  diz  respeito  ao  estudo.  Percebe  divergências  e  contradições   na  fala  da  mãe,  e  comenta:  “Tudo  que  faço  sempre  é  pouco  para  ela!”   Qual a relação do sujeito falante com o inconsciente e o desejo? Esta é a questão formulada por Lacan na década de 1960, para construir sua teoria dos discursos, discurso como estrutura que ultrapassa em muito a palavra, estatuto de enunciado que intervém no campo estruturado de um saber, gozo do Outro. A psicanálise opera sobre o sujeito dividido, sujeito do discurso da histeria e da ciência. Ao testemunhar o sujeito como efeito de um discurso que, na neurose, faz laço social, a experiência psicanalítica entra como efeito indireto do discurso da ciência.    

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Se nos reportarmos ao texto de Freud “Uma criança é espancada” (1919), o pai lhe deixa uma marca, gozo original que se constitui na sua singularidade e que se repete numa busca de reencontro com esse gozo original perdido. Lacan vai atrás da verdade que se esconde por trás da marca do corpo, apontando para nossa cegueira frente ao real, um real insuportável que se enuncia pelo meio dizer. Imbuído do espírito de que o inconsciente é um discurso, Lacan foi buscar em Freud os discursos que marcam nossa civilização: governar, educar e analisar. Propõe no texto “De Nossos Antecedentes” (1966) a retomada do projeto freudiano pelo avesso , uma vez que a prática psicanalítica desvela pela palavra a produção incessante de sentido pleno de gozo, satisfação pulsional a ser sustentada pelo discurso analítico. “O avesso da psicanálise” foi proferido em meio a um período de turbulência na França, nos anos 1969-1970, quando os estudantes questionavam as instituições e o poder, bem como suas bases, dentre elas, o saber. Aos discursos denominou “quadrípodes”, termo com o qual alude a essa peculiar formação de quatro lugares e quatro termos que giram em uma rotação calculada para gerar quatro discursos, respectivamente, do mestre, do universitário, da histérica e do analista. No esquema de Lacan, cada discurso tem um agente que frente a um outro caracterizam o laço social. Sustentado por uma verdade, o agente age sobre alguém para obter um produto do laço social. No discurso do mestre o agente é o senhor (S1) que age sobre o escravo (S2), fazendo-o trabalhar. O produto (a) tem um valor ao qual o escravo renuncia em favor do gozo do senhor. Esse discurso é um saber que não sabe, ou seja, é um discurso que denuncia o senhor transmutando o saber do escravo no seu próprio saber. O princípio desse discurso é acreditar-se unívoco, ou seja,  

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discurso que admite apenas uma interpretação, ao que Lacan vai contrapor no seminário 17 (p.108) em relação ao discurso analítico. Para a psicanálise o sujeito não é unívoco, pois não há como apagar a divisão subjetiva e a indicação do gozo nas relações da linguagem com o corpo. O discurso do mestre é fundador para o sujeito. O adolescente encontra esse saber, mas tenta subverter seu poder, às vezes de modo histérico. Ante aos protestos de um sistema ditatorial, Lacan, ao lançar aos jovens em Vincennes, em 1969, a forma do sujeito se relacionar no mundo, coloca-os como sujeitos do desejo de ter um mestre, situando-os no discurso da histeria, condição básica para a entrada em análise. O discurso analítico é o laço social determinado pela prática de análise. Merece ser elevado à altura dos laços mais fundamentais, dentre os quais permanece, pois é o único laço social que trata do sujeito do desejo. (Lacan, 1973). Ao entrar em análise, o sujeito supõe que o analista detém o saber sobre o seu sintoma e o inclui no sintoma. O discurso do analista é o único que coloca no lugar do Outro um sujeito que tem como agente a causa do desejo. Quando o saber é solicitado pelo analista a funcionar no lugar da verdade, histericiza o discurso. O discurso histérico que conduzirá o sujeito à verdade como saber, ao enigma do gozo, é essencial para determinar a posição do sujeito. O analista, ao ser incluído no sintoma do analisando, ocupa o lugar de objeto mais-de-gozar (a) provocando o sujeito barrado ($) a produzir seus próprios significantes (S1) que o alienam como sujeito. Na adolescência  o  sujeito  se  abre  para  evidências  de  um  sistema  do  qual  ninguém  se   apropria,   um   discurso   civilizatório   que   pertence   a   uma   ordem   social,   denunciando   o   gozo   como   privilégio   do   senhor.   Esta   verdade   faz   cair   por   terra   os   pais   que   os   filhos   supunham      

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infalíveis. Subvertem  a  ordem  e  saem  em  busca  de  um  discurso  em  que  possam  se  engajar,   um  discurso  de  autonomia.  Essa  é  a  causa  do  desejo  de  Carlos.   Pensando com Alberti que é tecendo voltas e voltas em torno desse real impossível de dizer, que os nós vão se consolidando, o recalque vai se medindo e o sujeito vai podendo, enfim, exercer-se como agente, no que movimenta o laço social. Com o gozo do Outro suspenso pela presença do analista, Carlos é deslocado do lugar de objeto de gozo, de onde responde como sintoma da família. Ao deixar cair a fantasia de que o Outro é completo, Carlos vai poder fazer o giro nos discursos saindo desse lugar de gozo do Outro e passando a ocupar outras posições como sujeito do desejo. Referências ALBERTI, Sonia. Esse Sujeito Adolescente. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996. FREUD, Sigmund. (1919). Uma Criança é Espancada: Uma Contribuição ao Estudo da Origem das Perversões Sexuais. In Edição Standard das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 17. LACAN, Jacques. (1966). De Nossos Antecedentes. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. ______________ (1969-1970) O Seminário, livro 17. O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. ______________ (1973). Televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. QUINET,Antonio. (1951) Psicose e Laço Social. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. RASSIAL, Jean-Jacques. O Adolescente e o Psicanalista. Rio de Janeiro: de Freud, 1999.

 

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A Relação do Sintoma com as Leis Morais Aline da Silva Gonçalves1 Introdução Segundo Freud (1926 [2001]) o sintoma é um sinal e um substituto de uma fantasia que permaneceu em estado suspenso, sendo conseqüência do processo de recalque. Não podendo realizar um determinado desejo, o sujeito o substitui por outra coisa que seja mais aceita diante da moral sexual civilizada diante da qual o sujeito se vê embaraçado. Em "O mal estar na civilização"(1929[1997]) entendemos que a proibição imposta ao sujeito está derivada de questões morais e por este motivo muito nos interessa um estudo mais aprofundado sobre a ética na psicanálise e na cultura. Veremos que há diferenças. De acordo com Lacan (1959-1960[1997], p.96), "A ética não é o simples fato de haver obrigações, um laço que encadeia, ordena e constitui a lei da sociedade", mas ela vai para além disso, que é o que pretendo discutir neste trabalho. A partir do levantamento dessas questões, iniciamos uma discussão sobre a íntima relação entre o sintoma (em especial, o sintoma na neurose) e a ética. Sintoma Freud (1916-1917[1976]) afirma que os sintomas neuróticos começaram a serem estudados por Josef Breuer (entre 1880 e 1882), quando ele atendia um caso de histeria. Ele salienta a importância de não confundirmos o sintoma com a "doença" em si, pois eliminar os sintomas não significa estar livre da "doença", mas apenas estar livre para a formação de novos sintomas. O sintoma psíquico é, em essência, um fator prejudicial à vida dos sujeitos que deles sofrem, pois causa sofrimento, prejudicando de alguma forma as suas                                                                                                               1

Graduanda de psicologia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Endereço eletrônico:

aline.goncalves17@yahoo.com.br

 

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vidas na medida em que não lhes permitem livre curso aos investimentos. “O sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em jacente; é uma conseqüência do processo" de recalcamento de um desejo (FREUD, 1926[1997], p.14). Não podendo realizar tal desejo, o sujeito o substitui por outra coisa que seja mais aceita em sociedade. É o deslocamento do desejo que o torna um sintoma, pois se o desejo pudesse ser realizado não haveria aquele sintoma. Em outras palavras, o sintoma surge como sustentação de uma fantasia proibida pela moral social civilizada, que dita o convívio em sociedade (FREUD, 1926[2001]). A fantasia tem uma relação de extrema importância com o surgimento dos sintomas, relação esta que se dá de forma bem complexa. O que pode ser observado no Caso Hans, retomado por Freud em seu texto “Inibição, sintoma e angústia” (1926[2001]), é que Hans desloca seu impulso hostil pelo pai para o medo de cavalos. Em outras palavras, no contexto edípico do pequeno Hans, contexto que foi estruturar o desejo no ser falante, a fantasia edípica não podendo ser concretizada – por causa da proibição social do incesto –, o levou ao recalcamento do impulso hostil contra o pai, transferindo tal impulso para o medo de cavalos, uma forma de firmar um compromisso entre a proibição ética do incesto e o desejo inicial. Razão de Freud também identificar o sintoma como uma formação de compromisso. Freud (1908[1988]) De acordo com Freud (1906-1908[1997]), entendemos que o sintoma sempre se estabelece através de uma relação direta com a fantasia e em uma ligação indireta com a vida real dos sujeitos. Isso é conseqüência, aliás, do fato de que, sendo estruturado a partir da fantasia inconsciente, que é sempre de desejo, ele necessariamente tem sua origem na infância, independente de o sujeito estar na idade adulta ou não. O sintoma pode ter relação direta com experiências traumáticas, que na época em que aconteceram não ganharam a devida importância e que somente tempos depois emergiram novamente, configurando-se como trauma. Considera-se como traumático o evento que não pode ser simbolizado à época em que ocorreu e que, num a posteriori retorna sem uma possível significação por falta de simbolização. É justamente a fantasia que então procurará dar um destino a esse evento,  

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amarrando-o de alguma forma na rede das significações. Assim, podemos dizer que o sintoma necessariamente se articula com algo que foi traumático para o sujeito e, por isso, articulado a uma fantasia. Se todo sintoma se sustenta numa fantasia, então todo sintoma é também decorrente do fato de que há o não possível de simbolizar. Mas, sabemos, que isso é para todo ser falante – sempre há algo que não pode ser simbolizado – e, por isso, o sintoma em psicanálise não é somente o efeito de uma doença mas, sobretudo, um efeito necessário de sujeito. Mas retomemos os sintomas que causam sofrimento e que são aqueles sobre os quais Freud mais se debruçou em sua obra e acompanhemos o desenvolvimento teórico que ele pode construir em relação a estes, a partir de seu conceito de pulsão – ou seja, o que está na origem dos investimentos psíquicos que ficam inibidos em função do conflito que cria este sintoma. Uma pulsão, que nasce no Isso, é ativadora de um desejo que foi considerado proibido. FREUD (1926[2001]) afirma que tal pulsão não teve sua satisfação direta porque o que se buscava era o prazer e, em virtude da proibição, o prazer foi substituído por desprazer. O processo de recalque, que age como uma força contrária ao Isso, funciona como uma tentativa de fuga da realização dos desejos do Isso. O sintoma como formação de compromisso, é o resultado de uma forma de acordo entre forças em luta provenientes do Eu e do Isso. Devido a essa luta de forças, o sintoma ganha resistência uma vez que ele satisfaz aos dois lados contrários. A questão da ética De acordo com Vázquez (2005), a ética é um termo muito antigo estudado desde as origens da filosofia, desde Sócrates na antigüidade grega. Ainda hoje produzimos sobre a ética, fato que nos faz perceber que este é um tema de grande relevância ao longo de todos os tempos, sendo este um tema de grande interesse de múltiplas áreas de estudo, incluindo a psicanálise. Para Lacan (1959-1960[1997]), só é possível haver ética porque há convívio em sociedade, porém há algo na ética que vai para além disso. Iniciando-se no momento em que o sujeito põe o bem que buscava inconscientemente, na vida em sociedade. Porém o sujeito só  

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precisa se preocupar com esse bem, por que o que estabelece a lei está diretamente ligada a estrutura do desejo, que segundo Freud é a lei de proibição do incesto. Freud (apud LACAN 1959-1960 [1997], p.20-23) interessa-se pela ética de maneira original, mantendo alguns pré-supostos anteriores, mas principalmente inovando a questão do que é o bem. Em Aristóteles esse bem é supremo e por isso não deve ser contestado. Naquela época, o bem maior, ou seja, o que o homem buscava, era a felicidade identificada com um ideal moral. Freud aproxima-se do pensamento Aristotélico somente no que diz respeito à busca do homem pela felicidade, porém diferencia-se de tal pensamento na medida que conceitua a felicidade de uma forma bastante diferente, ou seja, não contém nenhuma qualidade, é o prazer decorrente do princípio do prazer, ou seja, a baixa das excitações e sua homeostase. Freud vai afirmar que para a felicidade não há nada preparado nem no macrocosmo, nem no microcosmo, essa é a grande mudança no pensamento de Freud, pois o prazer aqui comporta todos os desejos do homem, por mais bestiais que sejam. Em sua busca pela felicidade, o homem busca Das Ding, algo da experiência de satisfação que não pode ser simbolizado. O objeto é perdido. Ele nunca poderá ser encontrado por mais que possamos acreditar estar próximos dele e que poderemos vivenciá-lo novamente. O princípio do prazer vai, então, governar a busca desse objeto, porém lhe impondo rodeios que o manterão sempre à distância do seu ideal (LACAN, 19591960[1997]). A tese de Freud é que a lei moral se afirma contra o prazer, o que pode parecer um paradoxo, segundo ele. Para validar tal tese, parte de um movimento de oposição entre o princípio de realidade e o de prazer, mas ao longo de sua obra vai colocar a questão para além do princípio do prazer2. Como já foi dito, a ética só pode existir no convívio em sociedade, e Lacan considera que Freud trouxe avanços com relação ao tema, nos introduzindo a lei primordial, o                                                                                                               2

 

Ver

'Além do princípio do prazer', FREUD, (1920[1998]). 220  


fundamento da moral, que é a lei da interdição do incesto, afirmando que todos os desenvolvimentos culturais são apenas conseqüências e ramificações dessa lei primordial. A relação do sintoma com as leis morais O sintoma emerge como uma forma de satisfação de um desejo que o sujeito colocou como inaceitável pelas leis morais que ele próprio internalizou, porém tal fato se dá por vias indiretas, substituindo o desejo inaceitável por outro mais aceito eticamente para ele mesmo, e por isso o sujeito não reconhece o sintoma como que fazendo parte dele mesmo, mas sim como algo que surge de fora, incomoda e deve ser retirado. É improvável que os sujeitos percebam que essa é a forma que o recalque encontra de satisfazer a pulsão, pois a satisfação vem de algo que os próprios sujeitos repudiam moralmente. Freud (1906-1908[1988]) entende por moral as normas sociais impostas aos sujeitos pela sociedade desde a infância, ele afirma ainda que o fator sexual recalcado é a base da neurose. De modo geral a nossa civilização repousa sobre a supressão de determinados desejos. Freud traz ainda uma importante observação, afirmando que aquelas pessoas que pretendem ser muito “bem-vistas” pela moral são mais atingidas pela neurose, enquanto que poderiam ser mais saudáveis se lhes fosse menos importante a própria reputação. Em "O mal estar na civilização" (1929[1997]), Freud diz que a civilização nasceu como forma de controlar a pulsão de agressividade natural ao homem. Porém o desenvolvimento da civilização lhe impõe restrições exigindo que ninguém fuja a ela, não importando o quanto a adequação custará ao sujeito. A privação da satisfação de uma pulsão não se dá impunemente, se essa perda não for economicamente recompensada resultará em uma neurose. Como já foi dito, a busca do homem é pela felicidade, que nunca é obtida em sua plenitude, mas sim em alguns momentos de satisfação. Tais momentos podem ser obtidos através da realização de desejos e até mesmo em ações repudiáveis pela sociedade, porém o homem civilizado trocou parte de suas possibilidades de felicidade por uma parcela se segurança que a vida em sociedade lhe oferece (Freud, 1929[1997]). Freud diz que a evolução da civilização "pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida" (1929[1997]p.82). De acordo com Freud, concluo que o sintoma surge como efeito necessário  

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para que o homem possa viver em sociedade. Referências Bibliográficas: FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1998, vol. VIII. FREUD, Sigmund. Gradiva de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1988, vol. IX. FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Rio de Janeiro: Imago, 2001, vol. XX. FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997, vol. XXI. FREUD, Sigmund. Teoria geral das neuroses. Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol. XVI. LACAN, Jacques. O seminário, livro 7, A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

 

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“Sinto Que Não Tom(a)es” – Sobre a Desimplicação Subjetiva na Sociedade Contemporânea Henrique Figueiredo Carneiro1 Anne Jamille Ribeiro Sampaio2

A descoberta do inconsciente foi o grande marco inaugural da psicanálise, fato que inquietou a muitos, considerando que a partir de então o homem não era mais tão dono de si quanto acreditava ser (LACAN, 1964). Isso, pois o acesso à verdade do sujeito é alcançado pela escansão significante, considerando que a linguagem estrutura seu inconsciente. Nessa conjuntura, temos o sintoma como uma das formas de acesso às formações inconscientes, este que é atravessado pelo desejo, marca da subjetividade. (LACAN, 1957/1958) Pela via da culpa, o deciframento significante do sintoma pode ser atingido, sendo a culpabilidade, portanto, um lugar subjetivo que concede coerência às condutas do sujeito. Tal fato pode ser evidenciado através do mito fundante da sociedade, o assassinato do pai da horda primitiva. Após a morte do pai os filhos foram tomados pelo sentimento de culpa, tendo                                                                                                               1

Doutor pela Universidad de Comillas – Madrid (1997); profº. titular do PPG-Psicologia da UNIFOR; coordenador do LABIO; presidente da CLIO – Associação de Psicanálise; pesquisador Pq2 CNPq; secretário executivo e pesquisador da ANPEPP - GT Psicopatologia e Psicanálise; membro fundador da AUPPF; editor da Revista Mal-estar e Subjetividade e do Latin American Journal of Fundamental Psychopathology On-line; autor dos livros: AIDS A nova desrazão da humanidade (Ed. Escuta, 2000), Que Narciso é esse? (Livro eletrônico CNPq, 2007- http://www.cnpq.br/cnpq/livro_eletronico/index.htm) e A Soberania da clínica na psicopatologia do cotidiano - Org. - (Ed. Garamond, 2009). Lattes: http://lattes.cnpq.br/3235805127730480. E-mail: henrique@unifor.br 2 Estudante do 10º semestre de graduação em Psicologia da UNIFOR – Universidade de Fortaleza; membro do LABIO – Laboratório sobre as novas formas de inscrição do objeto; integrante do PAVIC – Programa Aluno Voluntário de Iniciação Científica. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9708214291342093. Email: annejamillesampaio@hotmail.com. Relatora do trabalho.

 

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introjetado a lei e criado laços sociais (FREUD, 1913). Como decorrência, tal sentimento é representante do mal-estar que ilustra o cenário de surgimento da civilização, considerando as renúncias pulsionais exigidas por esta. Derivado da internalização da lei houve a emersão do supereu, responsável pela realização dos sacrifícios em prol da vida em sociedade. No dado contexto, o sintoma é, então, fortificado pelo sentimento de culpa, como forma de punição frente a condutas transgressoras (FREUD, 1930). Tomando como base o exposto, a culpa é tida como resultado de um crime, através do qual a lei foi estabelecida. De tal circunstância deriva-se, portanto, uma lei que não é consistente, apresentando falhas, consequências que propiciam campo para criações de tentações que convocam ao gozo, à transgressão (GEREZ- AMBERTÍN, 2009). Diante de uma ação violadora da lei, comumente, a confissão é tida como a postura mais sensata a ser tomada pelo sujeito. No entanto, ao tratar-se do sujeito do inconsciente, a confissão reclama maiores minúcias. Isso, pois ao confessar sua culpa, o sujeito afasta-se da responsabilidade pelo seu desejo, este que é de origem inconsciente. (GOLDENBERG, 1994) Assim, a culpa é indício de virtuosidade, sendo a responsabilidade a resposta concedida pelo sujeito por seus atos. (GOLDENBERG, 2002). Sublinhando a circunstância anunciada, a culpabilidade, portanto, aniquila o desejo, considerando a interdição que carrega consigo. (LACAN, 1957/1958) O sujeito engana-se ao pensar que é livre para escolher, graças à inexistência de um objeto que possa satisfazer o desejo, fato que insere o sujeito em uma servidão voluntária (GOLDENBERG, 1994). Nesse contexto, o discurso capitalista advém com grande força, revestindo-se de astúcia, prega promessas que se consumam, guiadas pelo imperativo de  

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consumo (LACAN, 1972). A condição de servidão voluntária do sujeito, portanto, favorece o revestimento do capitalismo de uma face tirânica que por meio de um despotismo conduz à devastação dos sujeitos, estes que estão envoltos por uma fascinação sacrificial desmedida (GEREZ-AMBERTÍN, 2009). Os sujeitos contemporâneos, como efeito, estão filiados a um novo pai que os afoga em um horror gozador, propiciando uma dessubjetivação. Isso, pois o discurso capitalista impera desconsiderando a castração, estando o sujeito atravessado por uma sede indomável pelo gozo. (GEREZ-AMBERTÍN, 2009). Decerto, a presente época, conduz seus sujeitos à imunidade quanto à culpa, resultando em uma crescente vulnerabilidade às múltiplas manifestações do trauma, estimulada pela dessimbolização que atravessa os laços sociais. Em acréscimo aos prejuízos trazidos pela suspensão simbólica há uma diminuição da capacidade de julgar, fato que produz sujeitos acríticos, formados pelo vazio, abertos a qualquer um que queira preenchê-lo. Por conseguinte, da vivaz atuação do capitalismo provêm sintomas ausentes de signos, sendo os objetos produzidos promovidos a representantes de referências balizadoras das condutas dos sujeitos (DUFOUR, 2005). A divulgada circunstância é nutrida por uma ética do malandro. Nesta, o sujeito define-se como livre, agindo conforme sua vontade, buscando formas benéficas para si que consigam contornar a lei. A predita condição ganha campo de expressão no contexto do modo de produção capitalista, este que é atravessado pelo excedente, convocando os sujeitos a um gozo excessivo. O discurso capitalista tem como meta, então, a produção de demanda, com o propósito de gerar vontade de consumo diante dos objetos que fabrica. O sucesso de tais  

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objetivos pode ser comprovado na elevação do consumidor à categoria de adicto dos artefatos tecnológicos, estando o inconsciente reduzido a uma mera curiosidade histórica (GOLDENBERG, 2002). Corroborando com o exposto, a sociedade contemporânea vivencia uma verdadeira paixão pelo gozo, refletida no imperativo de consumo, observado na vivaz elaboração de signos estereotipados que objetivam domesticar o sujeito, submetendo suas escolhas ao discurso capitalista. Para tal, as demandas criadas pelo mercado estão inserindo os objetos de consumo na rede de associações significantes, fato que os torna desejáveis. Como resultado, os laços sociais estão sendo substituídos por relações de dependência dos sujeitos quanto aos objetos de consumo. (FERREIRA, 2001) Incluindo na discussão a presente formatação dos sintomas contemporâneos, podemos observar que vigora uma autêntica insatisfação dos sujeitos com seus, estando estes a falharem na regulação e distribuição do gozo. Embora alguns sujeitos sejam adeptos de um discurso referente a uma libertação sintomática, por vezes, no entanto, ocultam a satisfação que obtêm, considerando o sintoma atravessado por justificativas encobridoras do mal-estar que o origina (DUNKER, 2002). Nessa conjuntura é de grande valia ressaltar o elemento máscara que envolve o sintoma, traduzido sob a forma ambígua que se apresenta o desejo, fato que denuncia a diversidade de insatisfações que perpassam este último (LACAN, 1957/1958) Em vias de concluir, nos remetemos, como outrora, à servidão voluntária e inconsciente que contempla a sobrevivência do sujeito moderno, o qual se encontra abandonado, órfão do Outro que o forma, questão que resulta em uma busca bastante plural  

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por maneiras que possam remediar esta falta. No entanto, durante a dada procura, os sujeitos tornam-se alvos do mercado, sucumbindo à sedução trazida pelas imagens representativas dos objetos de consumo (DUFOUR, 2005). Tal questão concede corpo à problemática na esfera dos laços sociais referente ao império do “eu” em detrimento da preocupação com o próximo. Tomando por empréstimo um trecho da poesia de Baudelaire (2007), intitulada A Tampa, temos em mãos um recorte ilustrativo da época presente, a saber, “O Céu! A tampa negra da grande marmita/ Em que invisível ferve a vasta humanidade” (p. 158). Face à impossibilidade de gozar de todas as ofertas do capitalismo, o homem contemporâneo está produzindo novos sintomas. Como resultado, os sujeitos enveredam em uma contínua tentativa de obliterar a marca imposta pela castração, fato que concede malogros para o laço social, considerando o narcisismo que perpassa a vigente sociedade. Como conseqüência, o homem contemporâneo é atravessado por uma desimplicação subjetiva, estando inserido em uma fervilhante grande marmita, fato que representa a intolerância que contempla sua relação com o próximo. Em acréscimo, temos a redução do céu a uma mera tampa, analogia que nos remete à vigente queda de referenciais consistentes. Assim, resta-nos, decerto, proclamar “Sinto que não tom(a)es”, como indicação da atuante invisibilidade que atravessa os sintomas (note o “sintoma” que pode ser localizado na frase) do homem de nossa época, considerando seu encarceramento em uma lógica de gozo que apaga o desejo, sua condição subjetiva, desconsiderando a residência original do sintoma, o inconsciente, logo, ocasionando a presente desimplicação subjetiva na sociedade contemporânea. Referências Bibliográficas BAUDELAIRE, C. As flores do mal. Coleção a obra-prima de cada autor, São Paulo: Martin Claret, 2007.  

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DUFOUR, D.-R. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005. DUNKER, C. I. L. O cálculo neurótico do gozo. São Paulo: Escuta, 2002. FERREIRA, N. P. A culpa na subjetividade de nossa época. In: Peres, Urânia T. (Org.). Culpa. São Paulo: Escuta, 2001. FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Obras completas, ESB, v. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 1996. ________. Totem e Tabu (1913). Obras completas, ESB, v. XIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996. GEREZ-AMBERTÍN, M. Entre dívidas e culpas: sacrifícios – crítica da razão sacrificial. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2009. GOLDENBERG, R. D. No Círculo Cínico ou Caro Lacan, por que negar a psicanálise aos canalhas? 1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002. ___________________. Ensaio sobre a moral de Freud. Salvador: Álgama, 1994. LACAN, J. O Seminário – Livro 5 – As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. ________. O Seminário – Livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. ________. Do discurso do psicanalista. Conferência em 12 de maio de 1972 na Universita degli Studio, Milão, inédita. ________. Televisão (1974). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

 

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A Função do Analista e a Política da Psicanálise na Política Pública de Saúde Mental Francisca Mariana Abreu Senra1 Da imbricação entre clínica e política gostaríamos de destacar dois vieses. De um lado, temos a relação moebiana, - como diz Lacan do dentro e fora em junção e disjunção simultâneas – que tentamos cernir entre uma e outra. Uma relação que faz atravessar a política da psicanálise, política da falta-a-ser, na direção mesma da clínica psicanalítica. Por outro lado, temos apontamentos sobre a inserção da psicanálise, tanto na clínica quanto na política pública de saúde mental. De que forma a política da psicanálise pode se fazer norteadora no exercício de uma função pública de gestão da clínica da saúde mental? Paralelamente a essa questão nos move a tentativa de responder a uma outra: é possível governar eticamente, segundo a ética da psicanálise? Partimos tanto de nossa prática clínica na saúde mental e no consultório, com casos graves de submissão ao Outro, como o são psicoses e neuroses graves, quanto de nossa experiência atual na gestão pública da política de saúde mental de nosso município, o Rio de Janeiro. Tomamos como ponto de referência a difícil tentativa de construção de uma política de desinstitucionalização – como chamamos as concepções e práticas necessárias à oferta de trabalho psíquico para pessoas longamente internadas em instituições asilares.                                                                                                               1

psicanalista, doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ/Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Assessora da Área Técnica de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Instituição: Laço Analítico Escola de Psicanálise. Email: mariana0307@hotmail.com  

 

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Comecemos pensando qual é a visada da clínica. Sabe-se, com a leitura que de Aristóteles faz Lacan no Seminário 7, que há um impossível na distribuição do bem ao outro. Ainda no Seminário 8, Lacan dirá: Não se deve de nenhuma maneira, nem preconcebida, nem permanente, colocar como primeiro termo do fim de sua ação o bem, pretenso ou não, de seu paciente, mas precisamente o seu Eros (LACAN, 1992a, p. 17). Lembrança esta que nos recoloca na trilha das possibilidades de enlaçamento que o próprio sujeito será capaz de tecer. Essa mesma leitura será mantida no Seminário 17. Se, ao clinicarmos, seja onde seja, não é ao bem do outro que se deve visar, ao que é?! Freud nos fala dos três ofícios impossíveis, Regieren, Erziehen, Kurieren, para vir a este último substituir por Analysieren. Lacan fará uma leitura precisa de Freud nesse ponto, nesse último Seminário citado, nos esclarecendo que o impossível é o ser do psicanalista (LACAN, 1992b, p.188-189) , não sua função, donde podemos depreender que Freud refere-se assim, a partir do que seja impossível, às condições de possibilidade dessa função. Sendo essas condições possibilitadas pelo amor de transferência, ao qual Lacan se dedica em todo Seminário 8, chega-se com elas ao dispositivo clínico, que permite ao sujeito apostar na direção de reconstruir laços nefastos para sua existência e construir outros tantos que lhe garantam uma existência menos sofrida, mais saudável, através de uma amarração dos registros realsimbólico-imaginário que lhe assegure um lugar. Lugar este estabelecido sempre através do laço, que implica a ex-sistência do sinthoma, como diz Lacan no Seminário 23: “Estabelecer o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real implica ou supõe a ex-sistência do sinthoma” (LACAN, 2007, p.21). O que entendemos como a dependência do reconhecimento  

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do sinthoma, da singularidade, para que a clínica guarde seu lugar ético. Dando um passo em relação ao governar, isto é, a exercer uma função política de gestão, de coordenação de uma determinada práxis dentro do campo da saúde mental pública, podemos em linha direta afirmar que se visa então o mesmo, a oferta de possibilidades de construção de laço para o sujeito, de uma amarração, desse lugar, para todos, como comumente se espera da política? Lacan, ao se referir, no Seminário 23, ao significante que define o sujeito, o chamado S1, que representa “um sujeito como tal”, que sua função é “representá-lo verdadeiramente”, impingindo ao verdadeiramente o valor de “conforme à realidade”: “O verdadeiro é dizer conforme à realidade”, reitera, com o que lembramos que “a relação analítica está fundada no amor à verdade, (...), o que quer dizer – no reconhecimentos das realidades”, como disse poucos anos antes no Seminário 17 (LACAN, 1992b, p.128). Temos, é sabido, uma herança histórico-metodológica respaldada em teorias anteriormente aceitáveis, de isolamento da loucura, que já não o são mais. Encontramo-nos, nesse ponto, com a realidade. Vamos a ela: há em nosso país um sistema de saúde que abarca, para além do já mencionado equívoco histórico em relação ao tratamento dos loucos, uma insuficiência generalizada que foge completamente aos limites do aceitável. Não há vagas para todos, não há... remédio para todos, não há... tratamento digno para todos, não há... Concluamos que há então uma realidade que faz do sistema um sistema perverso, na medida em que o que se transmite na política não raras vezes é que há. Retomando a pergunta anteriormente colocada, sobre qual deve ser o planejamento para todos, se deve ser mantida sempre, nunca foracluída, deve no entanto ter um lugar bem  

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preciso: um lugar lógico de direção, de horizonte, de ideal, podemos pensar. Lógico por ter de realizar-se sempre, não só em cada encaminhamento, mas realizar-se efetivamente como fato quando as condições o permitem. O que isso implica? Que o para todos seja pautado no para um, este nunca subsumível no primeiro. É assim que, no caso a caso, construímos uma boa política para todos. Pensemos então que há dois “para todos”, um contingencial, onde se guarda o furo, e outro ideal, onde o furo é mascarado. É o que Lacan, no Seminário do Sinthoma, chama de “furinho”: “A hipótese do inconsciente tem seu suporte justamente na medida em que esse furinho possa, por si só, fornecer uma ajuda” (LACAN, 2007, p. 131), referindo-se à interseção entre real e imaginário que comprova a inexistência do Outro do Outro e portanto ao lugar onde o sujeito pode advir. É “furando” o citado empuxo à esfera, à totalidade, que podemos criar as condições de possibilidade de advento de uma boa práxis, tanto clínica quanto política. Deparamo-nos no cenário atualíssimo desse Encontro com o mandado de um juiz federal que intima, como resultado final de uma Ação Civil Pública, União, Estado e municípios responsáveis a retirar os pacientes de uma instituição sob intervenção, instituição que foi outrora o maior hospício da América Latina e que guarda ainda hoje inenarrável iatrogenia na internação infindável de centenas de pacientes. Que fazer diante de mais essa demanda de uma resposta “total”? Essa pergunta não nos retira a afinação com a Justiça, - a qual tomamos como terceiro da Lei –

mas, justamente, devolve à gestão pública a

responsabilidade pelo cumprimento de um compromisso que, se na realidade atual é impossível de ser efetivado, coloca-nos a injunção de mudar a realidade. Isso guardando a direção do um a um, na medida dessa mesma dita realidade – não sejamos ingênuos: a  

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política, outro daquele que, frágil, vive à sua mercê, quer algum bem para o sujeito. Lembrome nesse ponto do caso de uma paciente internada há décadas no Manicômio citado acima. Ao iniciarmos o trabalho de atendimento à sua família, especialmente à sua mãe, que não a levava em casa há 11 anos, trabalho que incluía notícias dadas a ela desse mesmo atendimento, arriscou um apelo que poderia lhe custar a vida: passou a comer somente enquanto a mãe, que sempre lhe enchia de comida durante as visitas, estivesse com ela. Foi internada na Unidade Clínica da mesma instituição e, entre a vida e a morte, sua mãe nos disse: “vou levar ela para casa, senão fizer isso, ela vai morrer”. O que me faz lembrar uma bonita passagem do Seminário 8, em que Lacan nos fala dessa ambigüidade da espécie humana em ir em direção ao gozo que traz a morte e ao mesmo tempo tenta evitá-la em direção à perpetuação: o homem aspira a aniquilar-se para se inscrever nos termos do ser. A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza (LACAN, 1992a, p.103). No lugar da castração não reconhecida – que aconteceria, por exemplo, se quiséssemos retirar da citada instituição tais pacientes a qualquer custo, fora do caso a caso – impingiríamos um suposto bem ao outro gozando do ultrapassamento do limite imposto exatamente pela castração, ao guiarmo-nos pelo cumprimento de um ideal. Essa paciente nos recoloca no que inspira a verdade, que, nos ensina a psicanálise, é a morte, não o amor – morte que traz a separação entre gozo e corpo que então se mortifica pelo significante que dá lugar ao sujeito (LACAN, 1992b, p. 160).

Se a tivéssemos tentado retirar da referida

instituição sem suportar esse tempo que oscila na corda bamba da clínica, teríamos quiçá impedido essa reconstrução possível de laço que foi feita. Diz Lacan: “a intrusão na política  

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só pode ser feita reconhecendo-se que não há discurso – e não apenas o analítico – que não seja do gozo, pelo menos quando dele se espera o trabalho da verdade” (ibidem, p.74). Que ao menos o gozo seja interditado a elidir o lugar de sujeito do outro, e o de objeto ao qual nos submetemos ocupando o lugar de semblante de causa de seu desejo. Assim, o homem, diz Aristóteles, “é naturalmente feito para a sociedade política”, o que nos faz pensar que é mesmo dessa relação com o outro que ele padece em seus transtornos. Pensamos então que a ação política da governança de um campo clínico que se concebe a partir do “um” a “um”, incluindo inexoravelmente o coletivo, faz-se a partir da castração – e, fundamental, cria as condições de possibilidade que o sujeito inventa em torno do impossível. Podemos ler em Platão, na República, a castração advinda da função política, presente igualmente na função clínica, nas quais não se “visa ou ordena o que é vantajoso a si mesmo, mas o que é vantajoso aos seus governados”. A que isso nos leva, senão à castração inerente não somente a toda prática, mas a toda existência? A clínica psicanalítica e a política, num exercício de práxis no campo da saúde mental, trazem-nos as relações do singular no coletivo, do “sujeito” em sua política e da política para os “sujeitos”. Referências Bibliográficas LACAN, J. – O Seminário livro 8 – A transferência ([1960-1961] 1991). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992a. _________ . – O Seminário livro 17 – O Avesso da Psicanálise ([1969-1970] 1991). Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1992b. _________. – O Seminário livro 23 – O Sinthoma ([1975-1976] 2005). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.  

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Os Impasses da Transmissão da Psicanálise e da Transmissão em Psicanálise Michaella Carla Laurindo1 Miriam Izolina Padoin Dalla Rosa2 O presente trabalho pretende abordar os impasses e questionamentos advindos da transmissão da psicanálise e da transmissão em psicanálise. Compreende-se por “transmissão da psicanálise” o ensino realizado na universidade, e que de acordo com Lacan, coloca como agente o ‘saber’ e tem um viés educativo. Nota-se que no Discurso Universitário – assim como no discurso do Mestre, o sujeito do inconsciente fica recalcado, não podendo então ser colocado em questão. Já a “transmissão em psicanálise” é emanada da experiência de análise, que se transmite de um por um, seu efeito de re-significação faz com que o analisante não necessite de outras evidências para comprovar sua eficácia, sua certeza é subjetiva. Dessa forma, as autoras desse artigo (analistas, analisantes e docentes da psicanálise) formulam e estão concernidas pela questão: que desejo é esse de transmitir e ensinar àquele que não está em análise? Quais os efeitos de uma psicanálise apenas teórica e qual seria seu                                                                                                               1   Psicanalista.   Especialista   em   Psicanálise   pela   Universidade   de   Marília.   Mestre   em   Filosofia   pela   PUC/PR.  

Docente do  Curso  de  Pós-­‐Graduação  em  Psicanálise  Clínica,  UNIPAR/Cascavel.  Docente  e  Orientadora  de   Estágio  na  abordagem  psicanalítica  do  curso  de  Psicologia  da  Pontifícia  Universidade  Católica  –  Toledo/   PR.  Contato:  michaella.laurindo@pucpr.br     2 Psicanalista. Especialista em Psicanálise Clínica e Cultura. Mestre em Educação. Docente e Orientadora de Estágio na abordagem psicanalítica no Curso de Psicologia na Universidade Paranaense - UNIPAR - Cascavel – PR. Docente nos Cursos de Graduação na Universidade Paranaense –UNIPAR - Toledo/PR. Contato: dallarosa@unipar.br. Agradecimentos à Fundação Araucária, Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETIPR) e ao Governo do Estado do Paraná, pelo apoio financeiro recebido para viabilizar esta participação.  

 

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alcance? O objetivo desse escrito é abordar a ética em relação ao laço social universitário e ao mesmo tempo conjecturar sobre a transmissão da psicanálise como uma formação sintomática. É notório que o laço entre o sujeito e o outro se dá pela via do sintoma, seria a ligação estabelecida entre docente e discente, também um laço social sintomático? E, se o sintoma é entendido como um método para satisfazer a libido, o que mantém este laço é o gozo obtido nessa relação. Ou seja, o docente pode passar a ocupar o lugar daquele que detém o saber ao ensinar, e o discente passa a ocupar o lugar daquele que serve como objeto, aprende e identifica-se com aquele que ensina, mas que nada quer saber de si neste processo. Assim, o engodo do gozo está instalado nesta relação. Essa posição do “psicanalista-educador” não delataria sua necessidade de complemento? Não seria o dilema da relação puramente especular, ou seja, frente a possibilidade de saber sobre o A barrado, oferecer-se como o que completa? É nesse sentido que interrogamos o desejo de ensinar, pois Lacan aponta a inexistência de um Outro absoluto, consistente. A partir disso, podemos citar Freud, que analisou os próprios sonhos e adotou essa verdade subjetiva como base para a transmissão. Tomou a psicanálise em intensão como causa para a psicanálise em extensão. É possível conjecturar que aquele que se aventura em busca da prática analítica tem prova em si próprio das manifestações do inconsciente, as sente como verdade. Senão como poderia apostar que há um Sujeito no outro?

 

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É preciso neste ponto considerar a questão da transferência que se estabelece com os discentes, assim como a transferência à Freud. Do contrário, a relação constitui-se como sintomática, onde o desejo não conta. Então, muito mais do que o “psicanalista-educador” ensina, o que importa é o que ele deseja saber e como está concernido no saber psicanalítico que se propõe transmitir. A relação com os discentes é feita do mesmo “barro” que a relação transferencial com os pacientes. Quanto a isso Freud (1914, p.185) dá a seguinte recomendação: O caminho que o analista deve seguir (...) é um caminho para o qual não existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição. Deve manter um firme domínio do amor transferencial, mas tratá-lo como algo irreal, como uma situação que se deve atravessar no tratamento e remontar às suas origens inconscientes e que pode ajudar a trazer tudo que se acha muito profundamente oculto na vida erótica da paciente para sua consciência e, portanto, para debaixo de seu controle.

A transmissão em psicanálise difere-se justamente no ponto em que é possível pensála como um processo não natural. Dessa forma, o que impera na prática da transmissão da psicanálise na universidade é uma rigidez dos ideais, na forma de que ‘todos tem que aprender’, no estilo da tirania infantil presente na transmissão sintomática, onde parece não haver lugar para o inconsciente. Nas universidades o ato de ensinar objetiva a compreensão, que é própria da aprendizagem, então, fazer compreender bem a ciência que se estuda é a tarefa do docente encarregado da função de ensinar. Entretanto, aquele que transmite em psicanálise na

 

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universidade ou em qualquer outro espaço de transmissão precisa estar atento ao que Lacan (1994, p.90) aponta: (...) uma das coisas que mais devemos evitar é compreender muito, compreender mais do que existe no discurso do sujeito. Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo nenhum a mesma coisa. É exatamente o contrário. Eu diria que é na base de uma recusa de compreensão que empurramos a porta da compreensão analítica.

O autor discute a transmissão da psicanálise na sua obra “Meu ensino” e interroga já nas primeiras páginas, “Será a psicanálise pura e simplesmente uma terapêutica, um medicamento, um emplastro, um pó de pirlimpimpim, tudo que cura?” (LACAN, 2006, p.20). E, responde que não é absolutamente isso. Também interroga se a verdade psicanalítica é a da vida sexual. Quanto a isso ele afirma “a sexualidade é todo o tipo de coisa, os diários, os vestuários, a forma como nos comportamos, a forma como os meninos e as meninas fazem isso, um belo dia, ao ar livre, no mercado” (p.26). Do que trata a psicanálise então? Trata do sujeito, que é um conceito muito mais amplo, mas que também diz do sexual. Esse ponto trata da ética na transmissão, pois o que pode prometer a psicanálise aos discentes ávidos por um diploma? Podemos nos perguntar se o ideal de um fim de tratamento psicanalítico é que um cavalheiro ganhe um pouco mais de dinheiro do que antes e que, na ordem de sua vida sexual, acrescente, à de sua companheira conjugal, a de sua secretária. É o que em geral é considerado um excelente desfecho, quando um indivíduo via-se atrapalhado naquele momento com este assunto,seja simplesmente porque tivesse uma vida infernal, seja porque tenha padecido de algumas dessas pequenas inibições que podem acometer a qualquer um em diversos níveis, escritório, trabalho e, até mesmo, na cama, por que não? (LACAN, 2006, p.29)

Ele prossegue nos orientando quanto ao que devemos vislumbrar ao transmitir na universidade: “O fim do meu ensino, pois bem, seria fazer psicanalistas à altura desta função  

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que se chama “sujeito”, porque se verifica que só a partir deste ponto de vista se enxerga bem aquilo de que se trata na psicanálise” (LACAN, 2006, p.53). Assim, os universitários precisarão percorrer o longo caminho da análise, pois assim, e somente assim, cada um poderá saber o que é isso que se define como sujeito. Portanto, aquele que transmite deve saber que nessa “introdução” o que fazemos é oferecer um arcabouço teórico que precisa se transformar em uma práxis, pois o conceito de sujeito se apreende pela análise e não apenas pela teoria. Como diz Lacan no “Congresso Dito de Psicanalistas de Língua Romântica”, em 1951, devemos “domesticar as orelhas para o termo sujeito” (LACAN, 1996, p.87), porém, isso não basta. São muitos os impasses sobre a transmissão. Entretanto, Lacan não titubeia diante eles, simplesmente diz: “não creio que haja muitos dentre vocês que tenham acompanhado o que eu ensino (...) suponho pelo menos que as pessoas fingem ler esses Escritos, os quais, tomados pela outra ponta, podem se permitir se considerados ilegíveis” (2006 p.70-72). Nesse segundo trecho ele está se dirigindo aos críticos de sua obra, porém, se refere também a dificuldade de ler o que escreve já que ele não está interessado em ditar as regras de um determinado fazer, e sim em deixar claro que para o fazer em psicanálise é imprescindível um savoir-faire, que só se adquire subjetivamente. É pela análise que produz um sujeito. Ou seja, é necessário um esforço a mais para “compreender” o que ele escreve. Os impasses da transmissão estão na própria ‘natureza’ da linguagem. Ele diz: “Não me iludo, um auditório, por mais qualificado que seja, sonha enquanto estou aqui em vias de esgrimir comigo mesmo. Cada um pensa nas suas coisas, na namoradinha que vão encontrar    

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daqui a pouco, no carro que soltou uma biela, alguma coisa fora do trilho” (2006, p.88). Está apontando para a questão do desejo de quem se propõe praticar a psicanálise, e que está presente no ato e na posição do docente e do discente. Esses questionamentos sobre o desejo daquele que transmite possibilitam submeter a experiência à crítica interna e externa. Pôr em contestação os rumos do ensino na universidade é fundamental e a psicanálise não pode se isolar do debate científico contemporâneo, nem tratar seus conceitos teóricos como dogmas indiscutíveis. Para encerrar, nos concerne a questão proposta por Lacan (2005, p.26): "o que é ensinar, quando se trata justamente de ensinar o que há por ensinar não apenas a quem não sabe, mas a quem não pode saber?" Referências: FORBES, J. A escola de Lacan: A formação do Psicanalista e a transmissão da Psicanálise. São Paulo: Papirus, 1992. FREUD, Sigmund (1915[1914]). Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Vol. XII. JACQUES, Lacan. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1996. _________. Seminário I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. _________. Seminário X. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. _________. Meu Ensino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

 

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Aspectos da Relação entre Sintoma e Análise Rodney Soares1

Temos na psicanálise uma práxis cuja ética do inconsciente possibilita ao sujeito estabelecer uma relação junto a seu desejo e ter acesso a uma verdade, que é bastante particular para cada um, posto que essa mesma verdade se esconde no enigma do sintoma, cujo bojo carrega uma metáfora, submetida às leis da linguagem. O sintoma é o representante do sujeito do desejo, contém um gozo em sua fantasia inconsciente, que o sustenta e o define sempre com um significado sexual. O sintoma, na medida em que opera o desejo inconsciente, equivale ao enigma da diferença dos sexos, derivando da posição do sujeito frente ao sexual, sendo “expressão de uma fantasia sexual inconsciente masculina, por um lado e feminina, por outro” (CONSENTINO, 1996, p.18), ou seja, o significado bissexual dos sintomas histéricos. Lacan nos ensina que o sintoma significa “o retorno como tal da verdade na falha do saber” (apud PIMENTEL, 2010, p.1) verdade que o sujeito de início nada quer saber, por isso compreende-se que o sintoma apenas por si é insuficiente à demanda para uma análise, mas sim quando o mesmo falha e o sujeito se percebe diante de um desamparo e de sua ignorância, não havendo nada mais a fazer a não ser procurar respostas a esse enigma. Nesse momento, o                                                                                                               1  Membro

da EPFCL - Brasil. Membro do Fórum do Campo Lacaniano – Fortaleza.rodneysoares01@gmail.com

 

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sintoma é capturado pela transferência e, portanto, o sujeito pode confrontar-se com a sua verdade, fazendo uma troca do gozo pelo saber, numa articulação entre o saber e verdade, na medida mesmo que o sintoma já analítico, através da transferência, se direciona ao sujeito suposto saber, de quem espera significações – A castração produz uma perda de gozo. Assim, “No discurso da psicanálise, o analista, na posição de objeto, convoca um sujeito particular a produzir um saber sobre sua verdade” (FONTENELE, 2002, p.12). Lacan, no Seminário XIV se refere ao sintoma como representante de uma estrutura: “O sintoma representa uma estrutura, é o ponto assombroso que nos indica Freud em estruturas diferentes” (apud CONDE, 2008, p.64) dessa maneira, por revelar a forma de satisfação do sujeito, o sintoma pode expor a estrutura de sua subjetividade, a forma pela qual o sujeito se enlaça. A técnica da psicanálise, que consiste na associação livre, solicita que o analisante fale o que lhe vier a mente, suspendendo o recalcamento, produzindo o que Freud chamou de derivados do recalcado. Dito isso, o sujeito tem a possibilidade de romper a censura e acessar o material inconsciente. A associação livre possibilita um afrouxamento da censura, permitindo que conteúdos remotos inconscientes alcancem a consciência, sendo direcionados ao analista, atribuindo-se o lugar de sujeito suposto saber. Destacando-se a importância do silencio do analista, cuja abstinência favorecerá o surgimento do desejo do analisante, que então poderá se manifestar. Quando se procura uma análise, inicialmente, espera-se respostas, quando de fato o que se encontra são perguntas capazes de remeter o sujeito a um outro encontro, desta feita  

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com algo inesperado, o real. Sabemos que o horror do ato analítico é dessa ordem e que de forma lógica, produz efeitos “vem no lugar de um dizer pelo qual muda o sujeito” (LACAN, J. Ornicar, n 24) Para o analista, é possível trabalhar o sintoma porque não é tudo que é puro real, mas efeito do simbólico sobre este, refletido no imaginário. Aqui está o ponto em que o sintoma permite uma intervenção simbólica pelo analista, pois o tratamento do sintoma se efetiva em outro nível, já que é no âmbito do significante que pode ocorrer qualquer possibilidade de reformulação do fantasma que o sustenta. “O sintoma está sempre fundado na existência do significante como tal” (LACAN, 1988). Considerando que ao adquirir um valor simbólico ele passa a ter uma possibilidade de se modificar, o sujeito fala muitas vezes de um mesmo assunto, até que chega o momento em que sacrifica uma parte do gozo, utilizando-se do significante para colocar uma barreira à esse gozo, sempre da ordem do excesso. O sintoma, enquanto portador de um enigma, que contém a verdade do sujeito, está submetido às leis da linguagem, justamente por ser metafórico e com isso, possibilita uma perda de gozo e conseqüentemente, uma diminuição do sofrimento. Importante ressaltar, no entanto, que há no sintoma uma característica de comunicação de algo, portador de uma mensagem. Tal tentativa pode chamar a atenção do sujeito ou mesmo, incomodá-lo a ponto dele procurar uma análise. A partir desse evento, o sintoma se constitui pois o sujeito ao pensá-lo, refere-se ao campo da linguagem, lugar de constituição do mesmo e via de acesso ao tratamento psicanalítico pois o inconsciente estrutura-se como uma linguagem.

 

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Em seu seminário I, trilhando os caminhos de Freud, Lacan direciona-nos para a “forma desviada de satisfação sexual” que indica o sintoma neurótico. O gozo, é sempre o do sintoma, e é aqui que surge o desejo, que se mostra para fazer algo contra esse gozo, negação da castração e sempre mais-de-gozar, capaz de produzir um incômodo no sujeito ao romper o regime do princípio do prazer e para que esse mal estar seja percebido, é necessário que o sujeito tenha o registro da lei em operação. Para concluir, ressaltamos que é através da verdade do sujeito que a psicanálise irá operar, pois a possibilidade de acesso a essa verdade está intimamente referida ao desejo do analista, desejo de saber e onde a escuta viabilizará uma disseminação daquilo que outrora se constituiu como excesso. Onde existe linguagem, inexiste gozo e onde há gozo, falta linguagem porquê a linguagem produz perda de gozo. A psicanálise é, portanto, uma experiência discursiva, na relação entre falantes, cuja melhora é uma conseqüência e nunca um objetivo. Referências Bibliográficas CONDE, H. Sintoma em Lacan. São Paulo: Escuta, 2008. CONSENTINO, J. C. A concepção do sintoma em diferentes momentos da obra freudiana. In Revista da Letra Freudiana. Do sintoma ao Sinthoma, nº 17/18. Rio de Janeiro: Revinter, 1996. CORREA, I. A escrita do sintoma. Recife: Centro de Estudos Freudianos, 3ª Ed., 1997. FREUD, S. Mal-estar na civilização, Obras Psicológicas Completas, Ed. Standard Brasileira, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. FONTELENE, L. A Interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In J. Lacan, Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.  

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_________ Ornicar? n 24. _________(1953-54) O seminário. Livro I. Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. _________(1955-56) O seminário. Livro III. As psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. _________.(1956-57). O seminário. Livro IV. A relação de Objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. __________(1962). O seminário. Livro IX. A identificação. __________(1966-67). O seminário. Livro XIV. A lógica do fantasma. PIMENTEL, D. Transferência e ética: direção da cura. Aracajú, 2010. Disponível em: http://www.cbp.org.br Acesso em: 14.Set.10                                                          

 

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Psicoses Ordinárias e Atos Violentos Henrique Figuereido Carneiro1 Ricardo Pinheiro Maia Júnior2

Na vida em sociedade, o Homem sempre presenciou situações violentas. Até mesmo sua constituição enquanto sujeito está carregada de agressividade e violência. Entretanto, nos últimos tempos, encontramos a violência vazia de significado, um esvaziamento simbólico do ato violento. A violência voltada para o próprio corpo do sujeito através dos distúrbios alimentares e dos efeitos da drogadicção e, também, a violência direcionada aos outros. Seriam resultados de uma deflação da capacidade de significação do sujeito, enfraquecimento do universo simbólico? Uma queda no Real? Acting-out ou passagens ao ato? Em muitos casos de violência é comum encontrarmos um funcionamento psíquico próprio de uma organização psicótica; mas, diferentemente das psicoses clássicas, não observa-se manifestações sintomáticas características como delírios ou alucinações. É nesse ponto que autores de orientação lacaniana levantam o conceito de psicose ordinária, pois esta se diferencia em várias questões da dita psicose clássica. Então, temos como                                                                                                               1   Doutor pela Universidad de Comillas – Madrid (1997) e prof. titular do PPG-Psicologia da UNIFOR. Coordenador do

LABIO e presidente da CLIO – Associação de Psicanálise. Pesquisador Pq2 CNPq. Secretário Executivo e Pesquisador da ANPEPP - GT Psicopatologia e Psicanálise. Membro fundador da AUPPF. Editor da Revista Mal-estar e Subjetividade e do Latin American Journal of Fundamental Psychopathology On-line. Autor dos livros: AIDS A nova desrazão da humanidade (Ed. Escuta, 2000), Que Narciso é esse? (Livro eletrônico CNPq, 2007- http://www.cnpq.br/cnpq/livro_eletronico/index.htm) e A Soberania da clínica na psicopatologia do cotidiano - Org. - (Ed. Garamond, 2009). (Lattes: http://lattes.cnpq.br/3235805127730480) e-mail: henrique@unifor.br 2 Graduando

em Psicologia pela Universidade de Fortaleza, curso iniciado em 2006. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Orientando do Prof. Henrique Figueiredo Carneiro. Tema de Pesquisa Violência. Área Estudos Psicanlíticos. Membro do LABIO - Laboratório sobre as novas formas de Inscrição de Objeto. (Lattes: http://lattes.cnpq.br/9193897293259480 ) email: ricardopmaia@gmail.com

 

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objetivo desse trabalho relacionar o conceito de psicoses ordinárias, caracterizando-o, com as questões violentas da sociedade contemporânea, vistas como um clamor do sujeito por uma ancoragem simbólica. A psicose apresentada por Freud e as contribuições de Lacan A partir das considerações acerca da vida de Daniel Schreber, Freud (1969) lança o olhar sobre as psicoses e as estratégias que os psicóticos apresentam como mecanismos de cura. Sendo o delírio como uma das principais tentativas dessa cura ou de estabilização. Até então, a visão da clínica terapêutica das psicoses estava estagnada na posição do psicótico em termos de deficitário ou como incapaz de formular associações. Freud (ibid) toma a paranóia apresentada por Schreber como um modo patológico de defesa inconsciente. Aquilo encarado como traumático pelo psicótico não é possível de uma representação e dessa forma, esse fragmento insuportável da realidade é rejeitado e substituído pelo delírio. A saída para o impasse diante da castração está no delírio na psicose, assim como a fantasia na neurose. No entanto, Freud não avança muito na teorização sobre as psicoses, mas direciona o caminho que Lacan seguiu com a noção de que onde antes era localizada a patologia, o delírio em si, ali reside a possível cura. Lacan (1988), por sua vez, funda o mecanismo da psicose na não inscrição de um significante primordial e isso gera consequências nas funções simbólicas e suas operações posteriores. É a foraclusão do Nome-do-Pai, essa não inscrição irá colocar o sujeito numa  

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posição psicótica. Essa significação essencial ausente não permite ao sujeito nomear-se e quando convocado sobre o seu ser, ocorre o desencadeamento psicótico. Lacan (1998) afirma que essa condição fundante, quando não inscrita, faz com que o sujeito coincida com a imagem de si e que o Outro esteja no mesmo nível dos objetos com quais o sujeito se relaciona. A ausência do Nome-do-Pai (Pº) e a não operação no campo da castração (Φº) provocam uma redução do sujeito ao seu organismo e sua imagem, uma aproximação entre os campos imaginário e simbólico. E aquilo que não se inscreve simbolicamente, retorna como alucinação no campo do real. Lacan aponta que identificações imaginárias e a própria transferência podem favorecer a uma estabilização daquilo que foi desencadeado na psicose. Mas, qual a saída para quando depara-se na clínica atual com diagnósticos confusos e dificuldades para identificar a presença ou não de uma função paterna atuante ou de uma significação fálica?

Psicose ordinárias e suas violências Há vários trabalhos que explicitam as dificuldades vividas por analistas na clínica contemporânea; Campos, Gonçalvez e Amaral (2008) pontuam o quão fundamental é o manejo transferencial nesses casos; Laender (2009) aponta a difícil tarefa que é chegar a um diagnóstico estrutural; e Miller (1999) realiza o apanhado geral dos casos ditos inclassificáveis para a psicanálise e aponta a denominação das psicoses ordinárias.

 

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Com os encontros que ocorreram ao final da década de 90, houve uma grande troca de experiências e avanços na teoria psicanalítica, principalmente, neste campo dos casos raros e/ou difíceis. Casos que podem apresentar pontos que tocam uma estrutura neurótica e que ao mesmo tempo apontam em direção a uma psicose (Miller, 1999). Nesses casos, não cabe pontuar a existência ou não da foraclusão do Nome-doPai, observa-se as novas formas de desencadeamento, as maneiras como a transferência ocorre e as novas conversões. Os “neodesencadeamentos” se manifestam de forma gradual de desligamento e desengates do Outro e do laço social. Há um declínio das relações do sujeito, um esvaziamento dos laços afetivos. As “neotransferências”, como aponta Rosa (2009), não estabelecem o mesmo vínculo consistente nas transferências vividas nas psicoses clássicas. Aqui, deve-se estar atento para as novas maneiras de como o psicótico formaliza seus laços sociais, ocorre uma transferência fraca e fragmentada. Já as “neoconversões” realizam a aproximação das psicoses com os fenômenos ligados ao corpo e as conversões histéricas presentes nas neuroses; entretanto, as neoconversões atuam mais numa lógica psicótica e não abrem espaços para intervenções significantes como as histéricas, são “fenômenos não interpretáveis à maneira freudiana” (ibid). Diferentemente das psicoses clássicas, os efeitos da foraclusão do Nome-do-Pai não estão tão claros nas psicoses ordinárias, pois o sujeito está seguro nos suportes de identificação imaginária. Há uma aderência, uma colagem ao outro, mas sem a presença dos distúrbios da linguagem que ocorrem nas psicoses extraordinárias. Nestes casos, há uma  

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presença turva do campo simbólico e que pode desabar com a tamanha carga imaginária que há no inconsciente. Campos, Gonçalvez e Amaral (2008) pela sua leitura da obra de Miller apontam que as psicoses ordinárias apresentam quatro características essenciais: a singularidade do sintoma – devido ao funcionamento psicótico; o gozo – sempre relacionado ao abuso dos excessos e das omissões; a questão do corpo – as ações que atuam sobre o corpo, tais como a bulimia, anorexia; e a quarta é o funcionamento do sujeito a partir de uma inexistência do Outro e da aproximação especular ao outro semelhante. Devido a essas características que pode-se localizar, muitas vezes, uma violência voltada para si e para os semelhantes nesses casos. O gozo em excesso ou em demasiada falta repercute no real do corpo numa tentativa de localização. O sujeito ergue elementos que supram a potência fálica como na contemporaneidade, através do discurso tecno-científico, as “bugigangas” tecnológicas estão aí para uma suplência desse falo que tende a zero (Φº). Considerações finais Fica evidente que o analista deve estar atento às posições que o sujeito ocupa nos laços sociais e daí lidar com os impasses encontrados na clínica. Não deve-se crer num esgotamento do simbólico ou num esvaziamento de significação do sujeito; ao contrário, o avanço teórico permite crer que o sujeito sempre vai tentar amarrar os campos a sua maneira. Observar as amarrações, a clínica borromeana, abre espaços para pensar que quando o sujeito se depara com o inominável do real, ele irá usar daquilo que “tem às mãos”  

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para responder. Ou seja, um ato violento não pode ser esgotado numa “passagem ao ato”, vazio de significado, deve-se ter em mente que o sujeito está a procura de dar um significado àquilo. Quando convocado a dar uma resposta sobre seu eu, o sujeito irá responder com aquilo que tem, seja uma significação fálica ou aquilo que ele utiliza neste sentido. O significante Φ somente tende a zero, mas nunca se esgota, isto é, o sujeito buscará alguma potência para solucionar os impasses do eu.

Referências CAMPOS, Sérgio de; GONCALVES, Sara; AMARAL, Tammy. Psicoses ordinárias. Mental, Barbacena, v. 6, n. 11, dez. 2008 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S167944272008000200005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 16 out. 2010. FREUD, Sigmund. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (dementia paranoides) (1911). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XII. Direção de tradução Jayme Salomão, 2ª. Ed., Standard Brasileira. Rio de Janeiro, Imago, 1969. LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1959). Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ______. O seminário. Livro 3. As psicoses (1955-1956). Tradução de Aluisio Menezes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. LAENDER, Nadja Ribeiro. Um caso clínico em questão: neurose ou psicose?. Estud. psicanal., Belo Horizonte, n. 32, nov. 2009 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010034372009000100015&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 16 out. 2010. MILLER, Jacques-Alain (Org.). La psicosis ordinária. Buenos Aires: Paidós, 1999. ROSA, Márcia. A psicose ordinária e os fenômenos de corpo. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 12, n. 1, Mar. 2009 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141547142009000100008&lng=en&nrm=iso>. acessos em 16 out. 2010. 251    


Entre a Síndrome e a Mãe: Marcela

Esther Maynart P. Mikowski1 Este   trabalho   visa   discutir   a   criança   quando   vem   ocupar   um   lugar   de   objeto   oferecido   por   aquele   que   exerce   a   função   materna   e   de   que   modo   ela   responde   deste   lugar   que   se   apresentou   na   clínica   como   consequência   da   história   da   mãe.   Além   disso,   pretende-­‐se   discutir   como   neste   caso,   a   análise   da   criança   se   direcionou   de   modo   a   ajudá-­‐la   a   dar   sentido   às   suas   dificuldades   às   quais   respondia   com   agressividade   e   mesmo   passividade.   O   que   foi   possível   também   ao   dar   um   lugar   para   que   a   mãe     construísse  um  saber  sobre  a  filha.     Lacan  (1968),  em  seu  célebre  texto  “Nota  sobre  a  criança”  em  que  afirma  que  o   sintoma  da  criança    pode  decorrer  da  subjetividade  da  mãe,  diz:   “...a  distância  entre  a  identificação  com  o  ideal  do  eu  e  o  papel   assumido  pelo  desejo  da  mãe,  quando  não  tem  mediação,  deixa  a   criança  exposta  a  todas  as  capturas  fantasísticas.  Ela  se  torna  o   'objeto'  da  mãe  e  não  mais  tem  outra  função  senão  a  de  revelar  a   verdade  desse  objeto”.  

                                                                                                              1  Membro do Projeto Freudiano – Aracaju/Se - esthermikowski@uol.com.br  

 

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Isso posto,  partimos  para  pensar  em  Marcela,  10  anos.  Ela  fora  encaminhada  para   atendimento   psicanalítico   por   conta   de   “dificuldades   no   relacionamento   social,   rebeldia   e   problemas   com   a   auto-­estima”.   Tinha   o   diagnóstico   médico   de   Síndrome   de   Moebius   a   qual  é  caracterizada  por  uma  paralisia  congênita  e  não  progressiva  dos  nervos  cranianos   VI   e   VII,   podendo   atingir   outros.   Tal   paralisia   produz   uma   aparência   facial   pouco   expressiva   e   estrabismo   convergente,   na   maioria   dos   casos.   Podendo   também   comprometer   audição,   visão   e   ocasionar   disfagia   e   pés   tortos,   entre   outros   (FONTENELLE;  ARAUJO;  FONTANA,  2001).  Em  relação  à  Síndrome,  Marcela  apresentava   paralisia  facial  esquerda,  leve  estrabismo  e  pés  tortos.     Para   Julia,   sua   mãe,   tais   queixas   e   uma   suposta   limitação   eram   decorrentes   dessa   Síndrome.  E  ainda  pareciam  marcar  Marcela  como  um  produto  da  Síndrome  e  de  tudo   que  tanto  a  filha  quanto  a  mãe  tinham  passado  na  gestação.  Julia  engravidou  aos  17  anos   de   um   ex-­‐namorado.   Ao   descobrir   a   gravidez   e   desesperada   com   este   “problema   nas   costas”  (SIC)  –  forma  a  qual  Julia  se  referiu  à  gravidez  quando  a  descobriu,  pois  era  assim   que  se  sentia  tão  jovem–,  tentou  abortar  fazendo  uso  de  uma  medicação  conhecida  pelos   seus  efeitos  abortivos.  Não  abortou  e  só  comunicou  aos  pais  no  sexto  mês  de  gestação.   Ainda   nas   primeiras   entrevistas,   Julia   contou   que   quando   fazia   ultrassonografias   e   segundo   as   mesmas   o   bebê   estava   “normal”,   sabia   que   algo   não   viria   “normal”.   Ao   nascimento   de   Marcela   e   a   constatação   da   Síndrome   de   Moebius,   tinha   certeza   que   se   relacionava   à   tentativa   de   aborto.   Para   corroborar   esta   sua   verdade,   há   indícios   na  

 

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medicina que  tal  síndrome  talvez  esteja  ligada  ao  Misoprostrol,  substância  presente  na   medicação  ingerida  por  Julia.   Sentindo-­‐se   culpada   por   todo   mal   e   sofrimento   causado   à   filha,   Julia   tentou   protegê-­‐la,   cercando-­‐a   de   cuidados,   preocupando-­‐se   demasiadamente   e   como   mesmo   disse   “criando   Marcela   numa   redoma   de   vidro”.   Acreditava   ainda   que   sua   filha   seria   sempre  sua  dependente.  Era  neste  quesito  que  as  supostas  limitações  apareciam:  além   de   não   avançar   no   desenvolvimento   escolar,   Marcela   não   casaria,   não   namoraria   nem   mesmo   engravidaria.   Disse   ainda:   “por   um   tempo   só   destinava   'amor   de   mãe'   a   Gabriel   (seu  outro  filho),  à  Marcela,  só  cuidado  e  atenção,  até  que  percebi  que  estava  fazendo  o   mesmo   que   aconteceu   comigo   e   tinha   que   mudar”.   Julia   referia-­‐se   a   sua   história   -­‐   aqui   assinalada  para  anunciar  que  lugar  esta  mãe  oferecia  a  filha  -­‐  também  foi  fruto  de  uma   tentativa   frustrada   de   aborto,   nunca   conheceu   o   pai,   sua   mãe   lhe   deixou   num   colégio   interno   e   só   lhe   visitava   ocasionalmente,   até   que   com   5   anos   foi   morar   com   a   mãe   e   seu   novo   marido   a   quem   reconhecia   como   pai.   Quando   seu   irmão   nasceu,   não   se   sentia   pertencente  a  esta  família  e  acreditava  que  só  ele  era  amado  pela  mãe.   Podemos   extrair   do   discurso   de   Julia   o   que   a   maternidade   lhe   remetia   e   em   consequência  disso  o  lugar  de  filha  que  ela  ofereceu  à  Marcela.  Manter-­‐se  grávida  e  dar  a   luz   a   uma   menina   pareciam   remeter   às   marcas   do   seu   lugar   de   filha   cuja   relação   imaginária  com  a  maternidade  se  dava  a  partir  de  um  “não  amor  de  mãe”  e  abandono,   uma   vez   que,   segundo   ela,   o   amor   de   mãe   só   destinara   ao   outro   filho.   Julia   não   abandonou  de  fato  Marcela,  mas  também  não  a  considerou  como  um  sujeito,  destinou  a      

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ela apenas   cuidados   básicos   de   saúde   e   sobrevivência.   No   exercício   de   sua   função,   ofereceu   a   Marcela   um   lugar   equivalente   a   sua   extensão   ou   como   diria   Oliveira   e   Carvalho   (1994,   p.   26)   uma   célula   narcísica   dentro   da   qual   não   há   sensação   de   falta,   como  se  um  e  outro  estivessem  completos.  Tal  redoma,  segundo  as  autoras,  é  possível   quando  a  figura  materna  empresta  seus  significantes  e  se  apresenta  como  inseparável.   Tal   célula   aqui   pensada   na   própria   “redoma   de   vidro”   nomeada   por   Julia.   A   forma   de   Marcela   responder   deste   lugar   que   lhe   fora   oferecido   era   depender   da   mãe   para   tudo,   até  mesmo  escolher  uma  roupa  ou  pentear  um  cabelo,  o  que  legitimava  a  fala  de  Julia:   “tenho  que  fazer  tudo  por  ela”.  Porém,  elas  não  estavam  completas  nem  inseparáveis,  e   tal  condição  pode  ter  justamente  causado  o  incômodo  de  Júlia  no  tocante  à  maternidade,   pois  ainda  que  não  a  tratasse  tal  como,  Marcela  era  um  sujeito.     Portanto,   Marcela   nasce   com   uma   Síndrome   que   remete   à   mãe   a   culpa   e   esta   justifica   assim   todas   as   suas   atitudes   de   manter   a   filha   neste   lugar   de   objeto.   Sauret   (1998,   p.   91)   diz:   “a   patologia   médica,   a   desvantagem,   ganha   um   benefício   secundário   para   ela,   de   acordo   com   sua   estrutura,   'para   testemunhar'   a   culpa   da   mãe   neurótica,   servir   de   fetiche   para   a   mãe   perversa,   encarnar   uma   recusa   primordial   da   mãe   psicótica”.  A  Síndrome  de  Moebius  serviu  por  todo  tempo  como  significante  importante   na   constituição   psíquica   de   Marcela.   A   Síndrome   não   só   representava   o   Real   de   uma   condição  orgânica  como  ela  sustentava  imaginariamente  a  culpa  da  mãe  por  seus  atos.     Por   sua   vez,   Marcela,   em   atendimento,   demonstrou   ser   afetuosa,   comunicativa   capaz  de  construir  vínculos  sólidos.  Inicialmente,  não  conseguia  ir  além  das  referências      

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concretas do   presente,   contudo,   podia   ser   amparada   à   medida   que   os   outros   a   ajudassem   a   elaborar   idéias   que   estivessem   conectadas   aos   objetos   já   conhecidos   por   ela.   Ou   seja,   ajudassem-­‐na   a   perceber   os   objetos   para   além   dos   seus   aparentes   significados   e   funções.   Desta   forma,   era   possível   perceber   que   Marcela   se   relacionava   imaginariamente  com  os  objetos  ao  redor  e  tinha  dificuldade  de  simbolizá-­‐los.  Teclado   para   Marcela   era   o   do   computador,   o   musical   era   um   piano,   não   podia   ser   teclado   também,   embora   analista   indicasse   numa   sessão   que   esse   também   se   chamava   assim.   Tinha   dificuldades   também   em   responder   a   perguntas   que   necessitassem   de   pensamentos   abstratos   mais   refinados.   Ela   ficava   extremamente   ansiosa,   muitas   vezes   nervosa,   diante   de   perguntas   caracterizadas   por   ela   como   difíceis,   por   exemplo   “porquês”   ou   desafios   como   descrever   um   desenho   ou   evento   familiar   durante   o   atendimento.   A   ansiedade   e   a   agressividade   relatadas   pela   escola   e   pela   mãe   se   presentificavam   nas   sessões,   ao   mesmo   tempo   em   que   pareciam   ser   a   forma   que   Marcela  encontrava  para  se  expressar  e  se  defender  das  dificuldades  e  das  situações  que   não  sabia  como  lidar.  Questionamentos  produziam  uma  angústia  que  a  desorganizavam   e   sua   forma   de   demonstrar   era   com   agressividade.   Aliás,   esta   parecia   ser   carente   de   sentido,  o  que  por  sua  vez  foi  buscado  na  análise  de  Marcela:  ajuda-­‐la  a  construir  sentido   ao  invés  de  responder  em  ato  tais  dificuldades.       Sobre   a   transferência   da   mãe,   como   foi   dito,   esta   supunha   que   aquelas   queixas   ditas   no   início   deste   trabalho   referiam-­‐se   à   Síndrome   de   Moebius.   Tal   saber   era   direcionado   à   Instituição   Médica   como   detentor   do   saber   sobre   a   mesma.   Ainda   nas      

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primeiras entrevistas  com  a  analista,  a  médica  afirma  a  esta  mãe  em  uma  consulta  que   tais   queixas   nada   tinham   a   ver   com   a   Síndrome   e   que   deveriam   ser   tratados   em   um   outro  lugar  (na  análise).   Assim,   Julia   chega   à   análise   sem   saber   o   que   fazer   e   totalmente   perdida   quanto   aos   cuidados   e   limites   dados   à   filha.   A   partir   de   então,   fez   de   fato   um   pedido:   que   ajudasse   a   ela   a   lidar   com   a   filha,   pois   teria   se   dado   conta   de   que   era   ela   quem   não   conseguia  lidar  com  as  dificuldades  de  Marcela  e  as  atribuía  a  Síndrome.  O  momento  de   passagem   deste   saber   na   análise   é   fundamental   como   sinalizador   da   transferência   da   mãe.  Julia,  então,  fora  incluída  enquanto  Outro  e  agente  da  função  materna.  Isso  pôde  ser   sustentado  a  partir  do  desejo  da  analista  e  do  laço  transferencial  entre  esta  e  a  mãe.   A análise era de Marcela e o trabalho era incluí-la no discurso e no laço social, além de ajudá-la a dar sentido ao que lhe acontecia. No entanto, foi dado também um lugar para a que mãe remetesse para si seu próprio discurso, de modo que isso se tornasse um projeto de construção: ela construísse um saber sobre a filha e pudesse por si encontrar outros meios de lidar com as dificuldades dela. Aliás, dificuldades das duas, mãe e filha. A primeira em exercer a função materna diante das dificuldades da segunda. Além disso, de alguma forma, apostar em Marcela como sujeito à medida que a analista apontava conquistas e mesmo escolhas da paciente para a mãe. Do mesmo modo como com Marcela, foi preciso também ajudar a esta mãe a criar sentido no cotidiano e nas dificuldades da filha que apareciam como

 

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carentes desse sentido e que ela acabava lhe oferecendo em atos sem sentido2, como amarrar o sapato que Marcela dizia não saber fazê-lo e Julia o fazia, sem se dar conta se de fato a filha tinha aprendido ou porquê lhe pedia. Portanto, a partir da chegada de uma criança que respondia do lugar de objeto oferecido por aquela que exerce a função materna, foi preciso uma escuta que privilegiasse Marcela e sua mãe. A análise se fazia possível para que através da construção de sentido, Marcela pudesse lidar com as coisas ao seu redor de um outro modo. E sua mãe se responsabilizar por isso foi fundamental nessa construção da filha e para a relação entre as duas. É importante salientar que no caso discutido uma síndrome pareceu representar um significante primordial na constituição psíquica da criança, uma vez que remeteu à mãe sua história e comprometeu com isso o exercício da função materna. Marcela parecia refletir o objeto de gozo que ela representava, o qual remetia ao fantasma materno, o que nos lembrar Sauret (1998, p. 62) ao falar sobre a condução da análise. Esta leva o analisante a descobrir que ele mesmo é como o gozo, isto é, como objeção ao saber. Porém, estas últimas questões demandam um outro momento para serem discutidas. Por fim, a definição de Figueiredo e Vieira (2002) se faz pertinente neste momento: a partir do relato do caso temos um texto que já faz o recorte do analista, com as passagens escolhidas e privilegiadas em determinado momento. Este caso marca a formação da analista, motivo pelo qual ele se constrói em meio a dúvidas, anseios e descobertas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FIGUEIREDO, A. C., VIEIRA, M. A. Psicanálise e ciência: uma questão de método. In W. Beividas (Org.).

                                                                                                              2 A repetição do termo sentido, ainda que não coadune com a Língua Portuguesa, está nesta frase para enfatizar a falta de sentido que permeava atos e palavras deste par mãe-criança.

 

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Psicanálise, pesquisa e universidade. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2002. FONTENELLE, Lucia; ARAUJO, Alexandra Prufer de Q.C.; FONTANA, Rosiane S.. Síndrome de Moebius: relato de caso. Arq. Neuro-Psiquiatr., São Paulo, v. 59, n. 3B, Set. 2001 .

LACAN, J.  Nota  sobre  a  criança.  In:  Outros  Escritos.  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar,  2003.   SAURET,    Marie-­‐Jean.  O  infantil  e  a  estrutura,  Conferências  em  agosto  de  1997,  Escola   Brasileira  de  Psicanálise,  São  Paulo,  1998   OLIVEIRA,   B.   S.   A.;   CARVALHO,   L.   B.   C.     O   atendimento   de   crianças:   questões   sobre   estrutura   psicótica.   In:   BRAUER,   J.   F.   (Org.).   A   Criança   no   discurso   do   outro:   um   exercício  de  psicanálise.  São  Paulo,  Iluminuras.  1994  

 

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O Homem Condutor: um Caso de Histeria Masculina? Michelle Barrocas Soares Esmeraldo1 Júlio César D. Hoenisch2

O sintoma, tal como o sonho, é entendido por Jeanneau e Perron (2005) como uma formação de compromisso por meio da qual o desejo abre um caminho para a satisfação, mesmo que apenas parcial. Estudar o sintoma histérico é permitir dar-se conta das inúmeras formas com as quais se manifesta no sujeito – homem ou mulher. Os sintomas, na histeria, variam entre os mais corporais, em casos de conversão, e os mais psíquicos, nos relatos de fobia (Schaeffer, 2005). Lacan (1985) afirma que “nada na anatomia nervosa recobre, seja o que for, do que é produzido nos sintomas histéricos. É sempre de uma anatomia imaginária que se trata” (p. 204). O sintoma, fonte de gozo, basta a si mesmo. Para Nusinovici (2005), é necessário, portanto, que o sujeito perceba a existência de um saber e uma causa que lhe dizem respeito, e para cujo conhecimento o analista vem a ser o suporte. Ocupando um lugar na clínica-escola de uma universidade, um homem de quarenta anos obteve esse suporte e a produção de um estudo de caso foi possível. As entrevistas iniciais sugeriram fortes indícios de que se tratava de um caso de histeria masculina. Casado, pai de dois filhos, ele se queixava frequentemente                                                                                                               1 2

Psicóloga, Mestranda em Psicologia pela UFRN, michelleesmeraldo@gmail.com Psicólogo, Mestre em Psicologia, Professor visitante da UEFS/BA, cesarhoenisch@gmail.com

 

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de medo de ficar só em casa ou de sofrer violência fora dela. A busca por atendimento psicológico se deu também pelo relato de dores na cabeça, “uma sensação de estar flutuando” (sic), e agressividade. Freud (1974), discorrendo sobre “Dostoievski e o parricídio”, analisa que “sua personalidade reteve traços sádicos em abundância, os quais se mostram em sua irritabilidade, em seu amor de atormentar e em sua intolerância inclusive para com as pessoas que amava”. Assim também se davam as relações entre o paciente e a família. O surgimento de tais sintomas foi associado ao trabalho de motorista que exerceu, por dois anos, em uma empresa de ônibus. No caso do pintor Haizmann, Freud (1977) considera que “ele ficara abatido, era incapaz ou não tinha disposição de trabalhar adequadamente, e estava preocupado sobre como ganhar a vida; isso equivale a dizer que sofria de depressão melancólica, com uma inibição em seu trabalho e temores (justificados) quanto ao seu futuro”. As preocupações do paciente com o retorno ao trabalho eram recorrentes. Alguns diagnósticos psiquiátricos lhe foram conferidos em consultas médicas que antecederam a entrada em atendimento: Síndrome do Pânico, Ansiedade e Estresse. Atualmente, uma crise de angústia pode ser rapidamente confundida com uma “síndrome do pânico”, que, segundo Sterian (2001), aparece como a fase aguda de uma neurose histérica, cujas origens estão na infância. Então, uma rápida contextualização dessa etapa da vida do sujeito faz-se imprescindível. Ainda criança, perdeu a mãe e foi abandonado pelo pai, sendo, com isso, inserido em um entorno de desafeto junto à avó e de trabalho precoce. “Guarda mágoas” (sic) de muitos familiares e considera difícil esquecê-las. A histeria do homem condutor pode ser evidenciada na questão com o pai e na relação estabelecida com sua posição feminina; conforme afirma Freud (1977), ainda na história de Haizmann, “com o luto  

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do pintor pelo pai perdido e a intensificação de seu anseio por ele, também sucede nele uma reativação de sua fantasia de gravidez há muito tempo reprimida, e ele é obrigado a se defender dela com uma neurose e com aviltamento do pai”. As primeiras sessões eram marcadas por um silêncio inicial do paciente, quebrado após a pergunta da analista sobre o que se passava em sua mente. Queixava-se da cabeça – dormência e esquecimento – e de dores nos joelhos e pernas; alegou não dirigir a palavra ao outro até que este tome a iniciativa. Na sessão seguinte, o silêncio foi estabelecido e a fala do sujeito aguardada. Ele fitava o olhar à analista e ria, levantando-se do assento e caminhando pela sala. Repetiu a cena algumas vezes, aproximou-se da parede e deu golpes com a mão. A abordagem do acting, para Sophie de Mijolla-Mellor (apud Mijolla, 2005), “avizinha-se da noção de uma ação que se produz sob a pressão de desejos inconscientes e leva a um comportamento inapropriado, até destrutivo”. A autora acrescenta que “cumpre ao psicanalista controlar, graças ao apego transferencial, os impulsos e os atos interativos do paciente”. Nas sessões que se seguiram, o discurso se intensificou. O principal tema era o sofrimento por conta da empresa, considerada por ele como responsável central pelo adoecimento. Levantava-se e caminhava pela sala, não interrompendo a fala. Segundo o paciente, estar sentado lembrava-lhe a função de motorista de ônibus e o angustiava mais ainda. Após questionamentos acerca da semelhança entre a cadeira da sala de atendimento e a do ônibus, ele percebeu que sua ansiedade era sem fundamento, passando, aos poucos, a permanecer sentado enquanto durasse a sessão. Em comparação com o caso do pintor Haizmann, Freud (1977) afirma que “a catástrofe nos negócios com que ele próprio se sente  

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ameaçado, arremessa para cima a neurose, como um subproduto, e isso lhe concede a vantagem de poder ocultar suas preocupações sobre a vida real por trás de seus sintomas”. Com rigor, o paciente obedecia os horários estipulados para ingestão dos medicamentos receitados pelo último psiquiatra. Para aquele, o antidepressivo, o benzodiazepínico e o neuroléptico eram os principais responsáveis por uma melhora no seu bem-estar. Quando não mais faziam o efeito esperado, procurava trocá-los. Intervenções lhe foram feitas a fim de que compreendesse que a ingestão de medicamentos era insuficiente, mudanças em alguns aspectos da vida também eram de suma importância. Sterian (2001) considera que “fazer uma pessoa pensar em si mesma não apenas como um diagnóstico, um número ou uma unidade de consumo, oferece-lhe a chance de reinserir-se em sua própria história de vida, de assumir-se enquanto sujeito de seus próprios desejos, necessidades e possibilidades. Para que, a partir daí, ela possa elaborar as limitações ou frustrações que sua existência for lhe trazendo”. Sente-se faltante – “abandonado” (sic) – por não ter o apoio dos pais, considerados por ele muito importantes em situações de crise. Em “Dostoievski e o parricídio”, Freud (1974) analisa que “se o pai foi duro, violento e cruel, o superego assume dele esses atributos e nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, isto é, no fundo, passivo, de uma maneira feminina”. Devido ao sentimento de raiva, muito evidente no homem condutor, afetações com coceiras eram frequentes, ele, então, respondia ao estímulo, obtinha alívio, mas tornava a área ferida. Para Freud (1901), “nos casos mais graves de psiconeuroses, os ferimentos auto-infligidos ocasionalmente aparecem como sintomas patológicos e, nesses  

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casos, nunca se pode excluir o suicídio como um possível desfecho do conflito psíquico”. Este último apareceu como conteúdo manifesto em pelo menos duas sessões. O desejo de suicídio seria uma forma de fuga e não enfrentamento do que lhe angustiava, evidenciando-se o desinvestimento libidinal em si próprio. O contexto ao qual o paciente se submetia em seu exercício como motorista era dos mais estressantes: dormia em média três horas diárias, testemunhava momentos de assaltos e a cada erro que cometia, ou com o passageiro ou com o ônibus, era cobrado, podendo, inclusive, ter que ressarcir do salário para cobrir os gastos. Ele acreditava que estava “doente dos nervos” (sic). Segundo Costa (1989), “a doença dos nervos estava sempre relacionada com o trabalho: desentendimentos com colegas ou patrões; má remuneração; condições de trabalho difíceis; ameaça de desemprego ou o próprio desemprego etc.”. Outros sintomas, como arrepios, tremores, agitação, insônia, irritabilidade, choro, foram relatados enquanto manifestações do sentir-se ameaçado pelo outro ou pelo entorno. O homem condutor dava importância a toda ruindade circundante, da grama mal cortada em espaço público à poeira no móvel da casa. Com isso, não deixava de reclamar. Impunha-se ao outro sem pestanejar, mantendo-se firme ainda se contrariado. O autor acima citado alega que “a reação diretiva (conselhos, opiniões taxativas, discordâncias bruscas e peremptórias etc.) seria indicativa de uma intolerância sintomática à manifestação do conflito inconsciente”. A esposa tentava acalmá-lo em tais situações e partilhava das dificuldades que o paciente enfrentava, como por exemplo, a impotência sexual. Embora se saiba que alguns medicamentos possam causar efeitos colaterais que atinjam a vida sexual, Lucien Israël (1994, apud Alonso; Fuks, 2004) afirma que “os histéricos são ocasionalmente impotentes,  

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mas permanentemente frígidos: não sentem”. Quanto à frigidez, logo no início do tratamento, ele relatou que, certa vez, o órgão peniano estava ereto e somente a parceira sentia prazer. A freqüência do paciente às sessões mostrava a falta de comprometimento com o cuidar de si, prejudicando, com isso, o seu quadro clínico. Duas sessões eram feitas semanalmente. Com o passar do tempo, ele aparecia na instituição apenas uma vez, e, em muitas semanas, não compareceu. Sempre teve uma justificativa para explicar a falta. Como afirma Costa (1989), “se o indivíduo crê realmente que a doença dos nervos é uma afecção neurológica, então dificilmente aceitará a idéia de psicoterapia, e reivindicará muito naturalmente um tratamento exclusivamente medicamentoso. Estaria aí uma das razões pelas quais se mostra tão rebelde à atividade psicoterápica”. Os primeiros questionamentos incitados sobre o homem condutor foram “o que se pode fazer com esse paciente?” e “como obter a melhora de sintomas tão emergentes?”. A agressividade inicial dele era clara, temores houve acerca do uso da força física por parte do paciente contra a pessoa da analista, já que a expressão de raiva transpassava a palavra. O sentimento de impotência diante dele se extendeu por muito tempo, o paciente falava repetidamente do contexto limitante que vivenciava. Supunha o saber na analista e questionava se ficaria bom. Para ele, primeiramente, ela ocupou o lugar de irmã, para depois, tornar-se uma amiga que o ajudou. O desenrolar da escuta do caso propiciou àquele que busca um saber sobre si alguns momentos de retificação subjetiva e a consequente diminuição do sofrimento psíquico, uma vez que passou a vislumbrar alternativas de trabalho e manteve o desejo de concluir a construção da casa e da compra de um veículo, que promoveriam, assim, melhores condições  

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para sua família. O manejo analítico foi cuidadoso, tendo em vista a necessidade de um suporte que desse conta da intensa angústia de um sujeito cujo corpo é lugar de um excessivo investimento libidinal e de um desassossego sobre sua posição no mundo.

Referências Bibliográficas: ALONSO, Silvia Leonor; FUKS, Mario Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise e contexto cultural: imaginário psicanalítico, grupos e psicoterapias. 2ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989. 167 pp. FREUD, Sigmund. (1901). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Vol. II. 1996. ________ (1928). Dostoievski e o parricídio. Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. XXI.

________ (1923a). Uma neurose demoníaca do século XVII. In Obras Completas (V. 19). Rio de Janeiro: Imago, 1977.

LACAN, Jacques. O seminário – Livro 3 – as psicoses. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1985. MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional da psicanálise: conceitos, noções, biografias, obras, eventos, instituições. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005. 2204 pp. STERIAN, Alexandra. Emergências Psiquiátricas: uma abordagem psicanalítica. 3ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

 

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Da Ilusão de Completude ao Encontro Simbólico: a Peregrinação Amorosa do Sujeito Desejante em “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector Daniel Migliani Vitorello1 Mariana Rodrigues Festucci Ferreira2

Não é mesmo com bons sentimentos que se faz Literatura: a vida também não. Mas há algo que não é bom sentimento. É uma delicadeza de vida que inclusive exige a maior coragem para aceitá-la (...). Clarice Lispector em “Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres”, 1998 [1969], p.26.

Este artigo propõe um diálogo entre a Psicanálise e a Literatura a partir do romance “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, escrito por Clarice Lispector; trata-se da narrativa da peregrinação amorosa dos personagens Lóri e Ulysses, que segundo nossa leitura, metaforiza a constituição do sujeito faltante. Tanto a Psicanálise quanto a Literatura são campos do saber que se inscrevem culturalmente, lidando com a experiência humana veiculada pela linguagem. A linguagem é a chave que abre as portas e que constitui a dimensão simbólica, onde é possível a cada ser humano se diferenciar dos animais (na capacidade de postergar a obtenção do prazer) e mesmo entre seus semelhantes (no modo como lida com os desencontros entre a linguagem e o desejo), legitimando um estatuto de sujeito que tem consciência acerca da                                                                                                                Professor do Centro Universitário Anhanguera de Santo André e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de SP.e-mail: danielmigliani@ig.com.br 1

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Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Anhanguera de Santo André. e-mail: marianafestucci@yahoo.com.br / marianafestucci@hotmail.com

 

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própria existência, e que encerra em seu âmago um conjunto de significâncias que ultrapassam qualquer saber, tornando-o único. Em psicanálise, a linguagem opera sobre o sintoma (...) a criação literária pode ser um sintoma porque o sintoma por si só é uma invenção (...) e toda criação supõe que o simbólico suscitou uma falta no real, onde por definição nada pode faltar (...). Assim, o sintoma cria a singularidade do sujeito, [submetido, por sua vez] à grande lei do querer-ser, que (...) represa, crava o gozo, ao passo que o inconsciente o desaloja (Soler, 1998, p.16-7).

A narrativa literária e a clínica psicanalítica são veículos que expressam o drama da existência humana, evidenciando a falta estrutural do sujeito desejante e os meios que ele utiliza para fazer suplência a esta falta, através de seus sintomas e suas construções fantasmáticas; mas ainda que se aproximem quanto ao campo de atuação, Literatura e Psicanálise guardam suas especificidades e autonomia. A Psicanálise aproxima-se do Real na leitura que faz dos sintomas que veiculam o gozo humano, a fim de produzir um saber para melhor situar o sujeito na relação com a sua falta. Já a Literatura subverte a realidade, pois lidando de forma criativa com a letra eleva-a de mera transmissora de significado à significante, abrindo uma litura na terra, ou seja, uma fenda para o Real, o que mobilizará cada sujeito que entra em contato com ela a construir sua própria história. A Literatura constitui um sintoma que veicula o gozo de significado, que retirado da cadeia significante, transmuta-se numa letra que é fora do significado, e conseqüentemente, real. Ela é capaz de constituir-se como um objeto, como algo novo que ultrapassa o significado, e assim, o gozo que produz não é o gozo puro da letra, mas um gozo que, assemelhando-se ao chiste, produz efeito de significado que irrompe do literal, indo além e  

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confrontando a intenção do sujeito; a Literatura constituiria então um “savoir-faire” da letra, que é capaz de mobilizar o conhecimento inconsciente, sem fazer o significado ressoar (SOLER, 1998). Esse gozo, no entanto, não é pleno; ele não constitui um escudo impenetrável contra o sofrimento,pelo contrário, pois há um resto do movimento pulsional que resiste a ele, de tal forma que não se renuncia totalmente ao desejo, mas também não se livra da angústia de castração, da pulsão de morte, da atuação do supereu. Não se trata de uma conciliação simples entre o princípio do prazer e o da realidade, e sim, de uma co-existência, que se faz de maneira conflituosa; trata-se de uma tentativa de se organizar em torno do vazio que marca o sujeito. Lacan postulava que a arte literária inscrevia a verdade do sujeito sem dar-se conta disso, e que buscar um sentido único para esta verdade constituía um reducionismo; reportando-se a Freud (que afirmava que na matéria com a qual a Psicanálise lidava, o artista sempre a precedia) ele recomendou portar-se perante o texto literário como um não-saber: “na berlinda, é pela verdade deles [do que os textos literários veiculam] que espero” (Lacan, 2003 [1971], p.13). A arte criativa vai além do sonho, e de outras formações do inconsciente; ela atua como uma saída sublimatória que realiza uma dessexualização das pulsões sem recorrer aos processos de recalcamento, regressão e foraclusão, representando uma saída que universaliza a satisfação encontrada pelo artista, através da substituição de um objeto sexual por outro objeto, de valor social: Importa antes de tudo dissimular o egoísmo dos pensamentos do sonho e a tendência natural do eu a neles atribuir a si mesmo o papel de herói, atraindo o leitor (...) através

 

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de um prazer puramente formal e que Freud chama de “prêmio da sedução”. Como o criador dá a impressão de que está se entregando a um simples jogo, que parece exemplarmente lícito, a testemunha pode esquecer a que ponto esse jogo pode ser sério, isto é, a que ponto está carregado de afetos (Kaufmann, 1996 [1993], p. 500501).

A arte criativa não depende de relações transferenciais que lhe confiram sentido; ela não convoca um ouvinte, está lá por si mesma, para quem quiser dela se apropriar. Do contato com a arte, o sujeito se mobiliza a encontrar um sentido por si mesmo, tomando de empréstimo as criações do artista para dar vazão aos seus próprios anseios. Além disso, o texto literário permite ao sujeito se confrontar com a castração, mas sem evocar todo o terror que o contato direto com o inominável suscitaria; ele o faz de maneira suavizada, possibilitando que o sujeito lide com o insuportável, relativize a dor da falta sem negar a castração, ou em outras palavras: finja a dor. Por isso é que perante a arte, bem como todo o sofrimento que o sujeito expressa, cabe a Psicanálise compartilhar do enigma, controlando os impulsos de atribuir relações de causa e efeito, ou de cessar a causa da dor; a Psicanálise prima que o sujeito se haja com o seu sofrimento, ao invés de suprimi-lo; conforme aponta Lóri, personagem do romance “Uma aprendizagem...”: (...) não se podia cortar a dor — senão se sofreria o tempo todo. E ela havia cortado sem sequer ter outra coisa que em si substituísse a visão das coisas através da dor de existir, como antes. Sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma de contato (Lispector, 1998 [1969], p.18).

O sujeito que recusa a incompletude do Outro, dispondo dessa maneira o princípio do prazer e o da realidade em pólos antagônicos, tenta a qualquer custo expulsar a angústia da castração, o que só agrava o seu sofrimento; nesse sentido, tanto a Literatura quanto a

 

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Psicanálise propõem a reintegração do desejo à existência humana, conduzindo o sujeito a descobrir dentro de si mesmo formas de metaforizar sua falta constitutiva (KEHL, 2009). Clarice Lispector e Jacques Lacan, na estreita relação que mantinham com as Artes mais intimamente com a Literatura, tentavam costurar em torno do vazio que gera a angústia. - “Eu tenho à medida que designo – este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matériaprima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias: mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguia”.3 - “É justamente por esse impossível que a verdade provém do Real (...) digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam as palavras”.4 - “Porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade (...). Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita”.5 -“Para nós se trata de tomar a linguagem como aquilo que funciona em suplência, por ausência da única parte do real que não pode vir a se formar em ser”.6

Num primeiro momento tem-se a impressão de que o trecho acima é o recorte de uma conversa entre dois sujeitos; tratam-se, entretanto, de excertos da obra de Lispector e Lacan, que ao sugerirem um diálogo, o fazem contigencialmente, pois ainda que estivessem inseridos num mesmo período histórico, não há evidências de que tenham tido contato com a obra um do outro. Ele pela clínica, ela pelo texto, tentavam tricotar uma teia de significantes em torno do vazio deixado por “das Ding”, o objeto do gozo impossível, para sempre perdido.

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Clarice Lispector, em “A Paixão segundo G.H.”, 1998. Jacques Lacan em “Televisão”, 1974. Clarice Lispector em “Água-viva”, 1973. Jacques Lacan, no seminário XX, “Mais-ainda”, 1982, 66p.

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Lacan concebe a falta como uma mola que mantém a relação do sujeito desejante com o mundo; na busca por uma satisfação passada e ultrapassada “o novo objeto é procurado e encontrado, mas nunca é o mesmo objeto, nem poderia sê-lo, pois é encontrado e apreendido em outra parte e não no ponto onde é procurado” (Plastino, 2008, p.70); ele é o objeto perdido, “das Ding”, a Coisa, representado pela Mãe, a partir da onde se tricotará uma teia de significantes que o ocultam. Diz Ulysses para Lóri em: “Uma aprendizagem...”: (...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida (Lispector, 1998 [1969], p.12).

Em Eros, o sujeito inicialmente é marcado pela ilusão de completude que o remete ao estado primordial do gozo absoluto, depois evolui pela via simbólica, que o situa na sua incompletude; tal percurso é atravessado imaginariamente por Lóri e Ulisses, personagens de “Uma Aprendizagem ou o livro dos Prazeres”. Lóri é uma professora primária que não se permitia envolver-se afetuosamente com as pessoas por medo de sofrer, vivendo alheia; voltando-se para si mesma, ela só se deparava com o vazio: Mas ah, a falta de sede (...). A humanidade lhe era como morte eterna que no entanto não tivesse o alívio de enfim morrer (...).Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito (...).. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor(...). Nada escorria. A dificuldade era uma coisa parada. E uma jóia diamante (...) tudo isso é a morte parada, é a Eternidade de trilhões de anos das estrelas e da Terra, é o cio sem desejo, os cães sem ladrar (Lispector, 1998 [1969], p.10-1).

Ela então conhece Ulisses, professor universitário que casualmente aparece em sua vida. Lór tenta seduzir Ulisses (lembremos que seu nome remonta a Loreley, figura mítica do folclore alemão que seduzia os pescadores e os levava para o fundo do mar). Ela “sucumbia a 272    


uma completa irresponsabilidade: (...) ser possuída por Ulisses sem ligar-se a ele, como fizera com os outros” (Lispector, 1998 [1969], p.20). Lóri na verdade não seduz ninguém – pelo contrário, acha-se seduzida, pois vive à procura de formas de agradar um homem e assim ver o desejo por ela manifestado. Ulisses (lembremos que seu nome remonta ao personagem da tragédia grega Odisséia, que venceu os obstáculos com o uso da inteligência e controle dos instintos) resiste ás investidas sedutoras de Lóri e acaba mobilizando-a de um modo que nenhum dos cinco amantes que ela tivera até então haviam feito. Quando Lóri conhece Ulisses, ela imagina que ele a completa, que ele seja o porta-voz do sentido de sua existência: “era como se Ulisses tivesse uma resposta para tudo” (Lispector, 1998 [1969], p.10). “Aquele sábio estranho que no entanto não parecia adivinhar que ela queria amor” (Lispector, 1998 [1969] p.8), como toda histérica, não corresponde a sua demanda. Tendo naufragada a esperança de que Ulisses desse um sentido a sua existência, conferindo-lhe a plenitude – “Quando esta [esperança] morreu, ao ver que ele não tinha a menor intenção de ensinar-lhe um modo de viver”, Lóri se reconhece como sujeito desejante – “já era tarde: estava presa a ele porque queria ser desejada” (Lispector, 1998 [1969] p.18). Ulisses não corresponde à demanda de Lóri e assim lhe faz lidar com a sua própria falta. Lóri acaba reconhecendo que “um ser não transpassa o outro como sombras que se trespassam” (Lispector, 1998 [1969], p.20). De dois não se fazia um; ela seria para sempre  

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faltante. E o reconhecimento dessa falta colocou em causa o seu desejo, impulsionando-a a se movimentar: “Tudo isso ela já aprendera através de Ulisses. Antes ela evitara sentir. Agora tinha (...) já (...) leves incursões pela vida” (Lispector, 1998 [1969], p. 15). Antes de se aproximar de Ulisses, Lóri encarava a morte como algo que colocaria um termo ao vazio que representava a sua vida; depois que por amor colocou em causa o seu desejo, ela “pensou por um instante se a morte interferiria no pesado prazer de estar viva. (...) nem a idéia de morte conseguia perturbar o indelimitado campo escuro onde tudo palpitava grosso, pesado e feliz. A morte perdera a glória” (Ibidem, p.81). Lóri, que até então vivera alheia do mundo, passa a estabelecer vínculos afetivos, se entregando com prazer a atividade de ensinar seus alunos. Antes ela não sentia o “gosto” das coisas, vivia automaticamente, mas agora: Lóri entrava, ela própria em agasalho com as crianças (...)falou-lhes que aritmética vinha de "arithmos" que é ritmo, que número vinha de "nomos" que era lei e norma, norma do fluxo universal da criança. Era cedo demais para lhes dizer isso, mas gozava do prazer de falar-lhes, queria que eles soubessem, através das aulas de português, que o sabor de uma fruta está no contato da fruta com o paladar e não na fruta mesmo.Não havia aprendizagem de coisa nova: era só a redescoberta. E chovia muito esse inverno. Então usou a outra mesada do pai e procurou — com que prazer andava pelas lojas procurando até achar — e procurou e comprou para todos os alunos e alunas de sua classe, guarda-chuvas vermelhos e meias de lã vermelha.Era assim que ela afogueava o mundo (Lispector, 1998 [1969], p.53-54).

Lóri estava “caminhando com as próprias pernas”; quando vai ao encontro de Ulisses, ao contrário do que fazia antes (quando colocava vestidos sensuais e excesso de maquiagem, pensando em formas de seduzí-lo) “Ela nem precisava pensar no que ia vestir (...) assim encontrou-a ele e olhou-a com admiração: ela estava extravagante e bela” (Lispector, 1998 [1969], p.54).

 

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Ulisses considera que Lóri está pronta e então manifesta o desejo que tanto tempo guardara em silêncio: “Agora eu quero o que você é, e você quer o que eu sou” (Ibidem, p.74). É aí que os dois amantes se entregam ao encontro amoroso,faltoso por excelência: Nunca um ser humano tinha estado mais perto de outro ser humano. E o prazer de Lóri era o de enfim abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que estava antes encarniçadamente prendendo-a. E de súbito o sobressalto de alegria: notava que estava abrindo as mãos e o coração mas que se podia fazer isso sem perigo! Eu não estou perdendo nada! Estou enfim me dando e o que me acontece quando eu estou me dando é que recebo, recebo. Cuidado, há o perigo do coração estar livre? Percebeu, enquanto alisava de leve os cabelos escuros do homem, percebeu que nesse seu espraiar-se é que estava o prazer ainda perigoso de ser. No entanto vinha uma segurança estranha também: vinha da certeza súbita de que sempre teria o que gastar e dar. Não havia pois mais avareza com seu vazio-pleno que era a sua alma, e gastá-lo em nome de um homem e de uma mulher (...)Depois que Ulisses fora dela, ser humana parecia-lhe agora a mais acertada forma de ser um animal vivo. E através do grande amor de Ulisses, ela entendeu enfim a espécie de beleza que tinha. Era uma beleza que nada e ninguém poderia alcançar para tomar, de tão alta, grande, funda e escura que era. (Lispector, 1998 [1969] p.77-81).

Há, portanto, um amor para além da identificação, da ilusão de completude que remete ao gozo primordial: “o ser amado absoluto de quem o apaixonado passa a depender de maneira tão completa que sua falta faz do mundo um verdadeiro deserto – este mundo pode ganhar vida” (Kehl, 2009, p.549). O amor, numa leitura lacaniana, implica na falta, no encontro sempre faltoso; ele visa atingir a falta que reside no núcleo do objeto, objeto este trabalhado na dialética com o Outro, objeto que está mais-além de si mesmo, que se inscreve como falta simbólica, pois foi trabalhado pelo significante. “Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres” contextualiza a peregrinação dos amantes pelos desertos do imaginário até o encontro do oásis simbólico, onde se tornam  

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capazes de promoverem um encontro faltoso, se reconhecendo como sujeitos desejantes; para tal encontro é que tanto Literatura quanto Psicanálise convergem com seus campos de atuação. Referencial bibliográfico: KAUFMANN, p. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de freud a Lacan. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1996 [1993], 785p.; KEHL, M.R. A psicanálise e o domínio das paixões. In: NOVAES, A. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 537-68p; LACAN, J. Lituraterra e Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003; _______. Seminário XX: mais-ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1982; LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres [versão digital]. 5ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 [1969]; ______. Água-viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973. 118p; ________. A paixão segundo G.H. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 180p; MARCOS, C. Do que se pode ler em Clarice Lispector: sublimação e feminino. Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 10 de novembro de 2009; PLASTINO, G. O discurso da falta em Clarice Lispector: laços de família. 2ª ed. Osasco: Edifieo, 2008. 164p; SOLER, C. A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contracapa, 1998.

 

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Sintoma, Sinthome e Final de Análise Roseane Freitas Nicolau1

O sinthome é a última escrita que Lacan propõe para o sintoma. A mudança na ortografia do termo recoloca o postulado do sintoma como formação do inconsciente, passando a designá-lo como aquilo que bordeja o buraco da castração, no qual o sujeito se sustenta. Sublinha também a diferença entre sintoma mórbido e sinthome invenção. O sintoma mórbido tem a estrutura de uma metáfora que vem suprir a metáfora do Pai. Já o sinthome é da ordem da invenção a partir da irredutível père-version, com a função de compensar a carência do pai. Esta distinção tem conseqüências clínicas importantes para pensar a direção da cura e o final de análise, pois assinala a travessia da análise como marcada pelo tempo do encontro com o real, onde um dizer se sustenta a partir do impossível. Proponho seguir os trilhamentos de Lacan sobre o sintoma para trabalhar a travessia de uma análise como correlativa à passagem dos sintomas mórbidos ao sinthome, tronco da estrutura particular de um sujeito, lugar de sua sexualidade. O sintoma definido como metáfora e concebido como efeito da estrutura responde à questão do inconsciente estruturado como linguagem, contendo uma mensagem cifrada a qual pode ser dissolvida graças à interpretação. Lacan dá ao sintoma estatuto de uma formação significante, considerando-o, como Freud, uma mensagem cifrada em código à espera de                                                                                                               1

Psicanalista, professora  adjunta  do  Instituto  de  Psicologia  da  UFPA  e  coordenadora  do  Grupo  de  Pesquisa   “Psicanálise,  sintoma  e  instituição”.  

 

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interpretação. Endereçado ao Outro, o sintoma recebia dessa instância significação. Temos então que o sintoma é um saber que se lê, o que aponta a uma dimensão de sentido, mas que, enquanto saber, diz de um impossível. Por isso, mal grado a interpretação, um sintoma não se dissolve. Porque o sintoma insiste? A resposta de Lacan é: por causa do gozo. Inicialmente, Lacan isolou a dimensão do gozo em termos de fantasma, que se encontra na origem da repetição sintomática. Assim, ele opôs sintoma e fantasma a partir de traços distintivos, estabelecendo uma relação do sintoma com o significante e da fantasia com o objeto. A partir disso, na clínica, encontramos uma motilidade do sintoma, porque está inscrito na cadeia significante, e uma fixidez da fantasia, porque remete a uma cena. A fantasia é então o que há de real na experiência de uma análise, pois se trata de um resíduo, um resto do qual é impossível falar. Ela concerne à estrutura do sujeito, por isso não se modifica. Já o sintoma tem por função tamponar o fantasma, sendo determinado por ele e por isso mesmo é por ele que se poderá ler algo da fantasia do sujeito. Por isso, o analista trata o sintoma sem o liquidar, pois há algo dele que permanece e opera sobre o gozo propiciando a travessia do fantasma. A construção do fantasma em uma análise perpassa a questão do saber, intervindo sobre a ignorância do sujeito a respeito de sua causa. Neste percurso, construir equivale ao esvaziamento de gozo do sintoma, surgindo com ele algo que aponte ao desejo. Com esta noção a direção da cura visava um ultrapassamento do sintoma, para que através de uma construção o sujeito pudesse atravessar o fantasma. À questão da insistência do sintoma, Freud dá a pista, apontando o sintoma como uma saída precária, mas a única que pode garantir uma certa ordenação ao sujeito. Tido por Freud

 

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como um arranjo entre desejo inconsciente e exigências defensivas, ele jamais será eliminado, pois é a própria divisão do sujeito que o produz. Em 1974, ao introduzir o nó borromeano em seu ensino, Lacan enlaça a enunciação freudiana do inconsciente e sua consistência com o sintoma. O nó borromeano escreve o sintoma, uma invenção que enoda os três registros – Real, Simbólico, Imaginário – implica uma equivalência dos três elos e mantém como suporte a estrutura do sujeito. O nó é feito por dois círculos apenas sobrepostos, atados por um terceiro, de modo que, quando um é rompido, os outros dois ficam soltos. Mas o nó borromeano mínimo de três não é suficiente para Lacan enquanto resposta ao que mantém unido R, S e I. A pergunta pelo que enoda vai em busca de um organizador, que será um quarto elemento. A resposta aparece sob a forma do que, segundo Lacan, Freud chamou de realidade psíquica, que engloba o fantasma, isto é, desejo e gozo, ou o que Lacan teorizou como o Nome-do-Pai. O quaro realiza uma função de suplemento em relação aos outros três; reúne-os, mas mantém uma exterioridade. Não faz complemento. Sustenta o buraco da não-relação sexual. Assim, nas últimas colocações do Seminário R.S.I (1974-1975), Lacan introduz um quarto elo, o do Nome do Pai ou o Sinthome, atribuindo-lhe o papel de amarrar de forma diferente as três consistências do real, do simbólico e do imaginário. O que faz a ligação entre as três dimensões distintas é o Nome do Pai. Para que o sujeito se sustente, Lacan diz que há necessidade da presença de um quarto termo, isto é, do complexo de Édipo ou do Nome-doPai, fazendo equivaler o sintoma e o Nome-do-Pai. O sintoma supre o malogro do Nome do Pai, malogro simbólico ao barrar o gozo.

 

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No enodamento da tríade, o Imaginário faz corpo, bordas contornadas pela pulsão e é a consistência que produz o sentido. O Simbólico é o campo do possível, de ordem significante que faz buraco e inscreve o recalque. O Real é o campo do impossível, é o que ex-siste ao furo. Assim, enodam-se consistência, buraco e ex-sistência, traçando uma escrita para além do significante que toca algo do real da estrutura. O nó é uma escrita afetada pelo inconsciente, em que o gozo do Outro (JA) surge na interseção do Imaginário e do Real; o gozo fálico (JФ), na interseção do Real e do Simbólico; e o sentido, na interseção do Imaginário e do Simbólico. No centro do nó situa-se o objeto a, que enlaça o sentido, o gozo do Outro e o gozo fálico. Um enlaçamento pela via da separação entre os gozos. O gozo do Outro está fora do simbólico, e o gozo fálico, fora do corpo. Definido como metáfora, como efeito de linguagem, o sintoma é formalizado na escrita do nó com outra envoltura formal e faz a mostração do Real, que ultrapassa os limites do significante e enuncia a ex-sistência. O ‘não cessa de não se escrever’, embora não seja uma definição do Real, é o modo como se apresenta o real da estrutura, esta que se sustenta no real e não é redutível ao simbólico. Nessa estrutura, o sintoma registra-se no Simbólico e vem do Real, ou seja, uma emergência vinda do Real. No sintoma identificamos o que se produz no campo do real. Na teoria do nó marca-se um além que sugere a direção da cura, implicando uma escrita de um ‘saber-fazer’ com o sintoma. O momento da instalação do significante corresponderia à inscrição sintomática, e a realidade do sujeito é constituída pelo enodamento dos três registros, heterogêneos, porém amarrados homogeneamente, inaugurando o inconsciente.  

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A partir da leitura de Joyce (1975-1976) o sintoma não é mais uma mensagem cifrada a qual pode ser dissolvida graças à interpretação, pois esta nova leitura vai partir de um núcleo psicótico que escapa à rede discursiva. Do sintoma ao sinthome é o trajeto de uma análise especificado no seminário O sinthome. O sintoma leva à análise quando num determinado momento já não cumpre mais a sua função na economia do gozo. Apresenta-se, então, uma demanda de análise, a princípio queixa imaginária que virá se transformar em sintoma analítico, articulado na transferência ao sujeito suposto saber, e que no final de análise apontará para a produção de um sinthome enquanto uma escrita particular ligada àquilo que do real não ascende ao significante e funda o desejo. Mas, a princípio, é para dar conta do sintoma que faz sofrer e que também satisfaz, que o analisante busca e trabalha em análise. Para o neurótico que procura uma análise, no lugar do gozo se produz a angústia, pois o sintoma como possibilidade de gozo de algum modo fracassou. A operação analítica, uma verdadeira operação topológica, através de junções e suturas fará com que no final do percurso o sujeito se depare com o sinthome, com th, irredutível da estrutura, que possibilitará o gozo, não- todo naturalmente. A análise seria então a produção da escrita do sinthome. Ao desafio da persistência do sintoma, Lacan responde com a noção de sinthome, formação significante carregada de gozo, único suporte do ser, único ponto a dar consistência ao sujeito. Ele é formalizado na sua função de corrigir, de fazer a reparação da estrutura no mesmo lugar onde se produz o erro do nó. Sustentado na letra e na escrita do nó borromeano, o sinthome não será interpretado, nem resolvido, nem atravessado como se propunha em se tratando de fantasma.  

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Para concluir, com a topologia dos nós e a elaboração topológica da função da suplência, Lacan traz novos aportes clínicos que permitem dar conta da regulação de gozo e do final de análise. A partir do seminário 23, podemos dizer que uma análise começa com o sintoma e termina com o sinthome. Os sintomas mórbidos que estão no início de uma análise são metáforas que visam manter articulado o desejo do sujeito; e o que chamamos com Lacan o sinthome, cuja função é ilustrada por Joyce através de sua escrita, seria aquilo que, para além dos sintomas, constitui o irredutível. Com isso, há uma mudança radical que define a etapa final do processo psicanalítico em termos de destituição subjetiva. A partir daí tratamos o sintoma sem o liquidarmos, pois há algo nele que não se dissolve e operamos sobre o gozo propiciando a travessia do fantasma e a produção do sinthome. A travessia agora implica em reencontrar o sinthome irredutível, com o qual o sujeito poderá obter o gozo possível. O final de análise seria então a identificação com o sinthome. Saber se virar com seu sinthome, saber manipulá-lo como se faz com a imagem. Referências bibliográficas LACAN, J. O Seminário, Livro 22: RSI (1974-1975). Inédito. ______. Conferencia in Ginebra sobre el sintoma (1975). In: Intervenciones y Textos. Buenos Aires: Manantial, 1988. ______. O Seminário, Livro 23: O Sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

 

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“Imagine O Que Eu Não Falaria Se Eu Não Fosse Gago!”: O Que Fala Essa Gagueira?

Roseane Torres de Madeiro1 Roseane Freitas Nicolau2 Jamile Luz Morais3

Este trabalho é fruto de reflexões suscitadas no Grupo de Pesquisa “A Psicanálise, o sujeito e a instituição” e toma como ponto de partida fragmentos de um caso atendido no âmbito institucional. Este caso, inicialmente mediado por uma clínica-escola, foi então levado ao referido grupo, o qual tem como objetivo investigar o lugar do sujeito e de seu corpo nos serviços de saúde, na tensão existente entre os discursos médico e psicanalítico. Nesse contexto, observa-se que o sujeito, uma vez manifestando uma doença, geralmente diagnosticada por uma instituição de saúde como de “causa psicológica”, solicita do analista uma resposta imediata para o seu sofrimento. Tal situação aconteceu com Antônio, que chega à clínica de psicologia por encaminhamento de um fonoaudiólogo, o qual teria atribuído ao seu sintoma de gagueira uma causa de ordem emocional.                                                                                                               1

Psicóloga, Membro do Grupo de Pesquisa “Psicanálise, Sujeito e Instituição”, Aluna especial do Programa de Pós Graduação da UFPA. 2 Psicanalista, Professora Drª. do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPA e Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Psicanálise, Sujeito e Instituição”. 3 Psicóloga, Mestre em Psicologia, Residente em Oncologia, Membro do Grupo, “Psicanálise, Sujeito e Instituição”.  

 

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Sendo assim, considerando o fenômeno da gagueira em Antônio, como podemos concebê-lo a luz da psicanálise? Para discutir esta questão, vale retomar o texto de Freud (1926/ 1996) intitulado Inibição, Sintoma e Ansiedade, no qual ele nos fala da inibição como sendo “uma expressão de uma restrição de uma função do ego” (p. 93), como a função sexual, a de alimentação, de locomoção e do trabalho. Dito isto, no caso de Antônio, poderíamos atribuir sua gagueira simplesmente como uma inibição? Se tomarmos como base somente a lingüística ou uso corrente da palavra inibição, diremos que a gagueira de Antônio seria apenas uma restrição de uma função, a fala. No entanto, Freud salienta para um mais além desta inibição ao apontar para o fato de que uma inibição, quando patológica, pode se constituir como um sintoma, como afirma: Um sintoma, por outro lado, realmente denota a presença de algum processo patológico. Assim, uma inibição pode ser também um sintoma. O uso lingüístico, portanto, emprega a palavra inibição quando há uma simples redução de função, e sintoma quando uma função passou por alguma modificação inusitada ou quando uma nova manifestação surgiu desta (FREUD 1926/ 1996, p. 91).

Diante da afirmação, é possível dizer então que Antônio, ao trazer ao analista sua gagueira como queixa, denuncia seu próprio sintoma da seguinte forma: “Não sou doido, nem burro, sou gago!”. Ao se dizer gago, endereçando seu sintoma à analista, desejava erradicá-lo: “A senhora vai ter que dar um jeito nessa minha gagueira!”. Entretanto, sabe-se que a psicanálise não se dirige a eliminação dos sintomas, mas sim, toma-os como via de acesso ao desejo, pois só por meio do sintoma, ou melhor, de sua repetição, é que o analista pode apontar para o sujeito a posição que ele ocupa no campo do Outro, proporcionando uma redistribuição da economia psíquica e, consequentemente, uma possível resignificação. Desta 284    


maneira, a instauração desse sintoma em Antônio constitui-se através de um paradoxo entre um sofrimento e uma solução, entre um conflito e uma satisfação inconsciente. Antônio incomodava-se por ser gago, contudo, obtinha uma boa dose de satisfação inconsciente com seu sintoma. Lacan (1962-63/ 2005), ao formular teorizações acerca da inibição, afirma que nela se exerce um desejo, desejo este oposto àquele que a função satisfaz naturalmente. Seguindo este pensamento, supõe-se que em Antônio, a função da fala fora inibida em detrimento de um desejo de não dizer aquilo que, para o seu Eu consciente, seria intolerável. Em suas palavras: “Imagine o que eu não falaria se eu não fosse gago!” Antônio parece apontar um desejo inconsciente que o sintoma vem disfarçar. Resta desta operação um “não dito”, em que, concomitantemente, o sintoma está para velar e denunciar. Afirma Lacan: Por que não nos servirmos da palavra impedir? É disso mesmo que se trata. Nossos sujeitos ficam inibidos quando nos falam de sua inibição, e nós mesmos o ficamos ao falar em congressos científicos, mas no dia-a-dia, eles ficam mesmo é impedidos. Estar impedido é um sintoma. Ser inibido é um sintoma posto no museu [...] Impedicare significa ser apanhado na armadilha e é afinal, uma noção extremamente preciosa. Implica de fato a relação de uma dimensão com algo que vem interferir nela e que no que nos interessa, impede não a função, termo de referência, e não o movimento, que fica dificultado, mas justamente o sujeito. [...] Assim escrevo impedimento na mesma coluna que sintoma (p.19).

Diante disso, observa-se que ao relacionar o termo “inibir” com a expressão “impedir”, Lacan nos fala que o sujeito é impedido, barrado, pelo seu próprio sintoma. Sabese que o sintoma surge do conflito entre a pulsão e a cultura. Ao ser castrado, o sujeito acaba sendo impedido de obter total satisfação da pulsão, sendo possível apenas uma satisfação parcial. Para a Psicanálise este “dizer tudo” que certamente comportaria um gozo êxtasiante é da ordem do impossível, pois ainda que Antônio não fosse gago, ele não poderia falar tudo.  

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Neste sentido, o sintoma assume ao mesmo tempo uma função de solução a “uma luta defensiva contra um impulso instintual desagradável” (FREUD, 1926/ 1996, p.101), e uma função de barreira a uma satisfação pulsional. Com relação ao sujeito que tem a marca da gagueira como algo preponderante em seu discurso, Tassinaria (2001) sugere que é importante concebê-la como uma máscara e supor que atrás dela há um sujeito. Ela conceitua esta marca como sendo “uma marca de descontrole da forma da fala, uma espécie de renitência de uma instância constitutiva desse sujeito em submeter seu dizer à fluência melódica vigente na língua” (p. 78). Ora, se o sujeito do desejo é encontrado em sua afânise, através do deslizamento significante, como Antônio poderia construir um saber sobre o mal que lhe causa, se este era impedido de falar? Paradoxalmente, no caso de Antônio, ser impedido de falar por si só já dizia muito sobre o seu desejo, na medida em que a inibição da fala de Antônio, por estar encadeada à cadeia de significantes, pôde ser metaforizada e significada, tratando-se de uma inibição sintomática. Isto posto, o quê fala essa gagueira? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FREUD, S. (1926) Inibição, Sintoma e Ansiedade: In:. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. V. XX LACAN, Jacques. O Seminário: livro 10, a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005. TASSINARI; I. M. Do sintoma ao sujeito: contribuições da Psicanálise para o atendimento de um paciente gago. In: Gagueira e subjetividade: possibilidades de tratamento. Organizadores: Silvia Friedman e Maria Cláudia Cunha. Porto Alegre: Artmed, 2001.

 

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Considerações Sobre a Constituição da Subjetividade na Psicose: Caso Schreber

Ana Ilki Meireles Oliveira1 Discutir acerca da constituição da subjetividade é falar de um processo complexo que se estrutura a partir da relação mãe, filho e campo simbólico. Segundo Elia (2004), é através do convívio social que nós, seres humanos, encontramos todo o amparo necessário para o nosso desenvolvimento e ele dar-se-á através de um adulto próximo, para Freud, ou pelo Outro, para Lacan. É esse Outro que irá transmitir através da linguagem e inicialmente para ele mesmo “uma estrutura significante e inconsciente [...] e não poderia ser simplesmente o conjunto de valores culturais” (ELIA, 2004, p. 40). O bebê, por sua vez, introduz o que Lacan denominou de significante, suscitando em seu corpo “um ato de resposta que se chama de sujeito” (ELIA, 2004, p. 41) e é nesse momento em que o sujeito é introduzido no campo da linguagem que ele deverá ser compreendido. Lacan (apud ROSENBERG, 1994) afirma que a formação da subjetividade constituir-se-á a partir do Outro. Pode-se considerar que a criança aliena-se na imagem do Outro, sua demanda será o de “ser desejado pelo outro” ou “ter o desejo do Outro como seu desejo”. É a mãe quem cria a demanda na criança e esta pela alienação, pelo temor da perda

                                                                                                              1

 

 

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do amor da mãe e pela não constituição ainda da sua subjetividade, insiste em responder-lhe a solicitação. No Seminário V “As formações do inconsciente”, Lacan (1958) sugere o Édipo dividido em três tempos. No primeiro tempo, a criança encontra-se numa relação dual com a mãe, supondo ser a falta dela. A partir desse momento, advém o que Lacan denominou segundo tempo do Édipo, que é marcado pela entrada de um terceiro nomeado de significante Nome-do-Pai, que vai para além da relação dual: é a lei do pai que intervém, não com sua presença, mas com sua palavra. O terceiro tempo do Édipo marcará seu declínio, no qual a função paterna representa a lei e simboliza um valor estruturante, capaz de determinar o lugar exato do desejo da mãe, condição esta para que a lei paterna seja representativa da lei. A passagem pelos três tempos do Édipo fará com que a criança interiorize a lei, inserindo-se na cultura e na linguagem. Dessa forma, compreendemos a estrutura psicótica a partir de uma falha ocorrida na relação primordial. Utilizaremos alguns desses aspectos fundamentais para compreender a constituição da subjetividade e sua implicação na psicose de Daniel Paul Schreber. Podemos afirmar que o início da psicose em Schreber se deu após ele ser nomeado ao cargo de Presidente da Corte de Apelação de Dresden, o qual corresponde simbolicamente à função paterna, uma vez que ele é encarregado das leis. É acerca da falta desse nome – Nome-do-Pai – e de suas conseqüências que pretendemos refletir sobre a função dos pais de Daniel Paul Schreber com relação à psicose.  

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Niederland (1981) aponta que, em relação ao pai, pode-se argumentar que ele foi o tipo de pai simbiótico cuja presença onipresente, cuja usurpação da função materna e cujos outros

traços

dominadores

(tanto

francamente sádicos

quanto

paternalisticamente

benevolentes; tanto punitivos quanto sedutores) prestaram-se a sua fusão com a bizarra hierarquia divina que caracterizou o sistema delirante do filho. Admitimos que o maior pavor de Schreber era o de ter de assumir o lugar do pai. No entanto, pelas observações feitas ao longo do percurso das pesquisas psicanalíticas acerca do caso, sabemos que Schreber não podia aceitar um papel masculino ativo em um sentido mais amplo. Quando Schreber foi solicitado a se tornar um membro do Reichstag, ele adoeceu pela primeira vez – na época, isso significava opor-se a Bismarck, o “Chanceler de Ferro”, indiscutível figura de pai. Quando foi chamado a ocupar o cargo de juiz presidente da Corte Superior, novamente caiu doente, e desta vez para sempre. Impossibilitado de enfrentar o poderoso pai em uma competição árdua como membro do Reichstag ou de ocupar um lugar de pai, já que ele seria responsável pelas leis, como Presidente da Corte Suprema, Schreber adoecia todas as vezes em que se via frente a tal ameaça. O olhar primordial deve estar presente na relação mãe-filho e é através dele que a criança irá se reconhecer como sujeito, caso contrário, ela se perceberá como um ser despedaçado, objeto. Houve uma falha nesse olhar que deixou Schreber preso como objeto de gozo do pai. Moritz Schreber coloca os filhos no lugar de coisas, objetos, no momento em que os usa para seus experimentos na medicina, assim como na educação dada a eles. O pai de Schreber utilizava-se de uma educação autoritária e submissa, na qual impunha seus desejos  

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acima dos desejos de seus filhos. “Ocupar esse lugar de objeto desejado tem uma função importante na fundação de um sujeito. Mas se se ocupa esse lugar de objeto então não se pode ocupar um lugar de sujeito”. (BRAUER, 1998). Entende-se que a entrada de Moritz deveria intervir na relação dual que Schreber estabeleceu primeiramente com a mãe, porém, Moritz não interdita essa relação mãe-filho, mas sim prolonga essa relação narcísica, não permitindo a entrada do terceiro, isto é, do significante Nome-do-Pai. Acerca disso, Waelhens (1990, p. 98) explica: É na foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no malogro da metáfora paterna, que designamos a falha que confere à psicose sua condição essencial, com a estrutura que separa da neurose. Ou ainda: para que se desencadeie a psicose, é preciso que o nome do pai, ‘verworfen’, foracluído, ou seja, nunca advindo no lugar do Outro, seja chamado ali em oposição simbólica ao sujeito.

Em relação à entrada do significante Nome-do-Pai, ou seja, a castração simbólica, Julien (1999, p. 39) assinala: “Teu quarto é teu quarto e o meu é o meu. Meu gozo não tem nada a ver contigo; meu gozo se volta para uma mulher, uma mulher da minha geração, causa do meu desejo”. Podemos afirmar que é exatamente isso que Moritz não faz, ele não permite a entrada da mãe, Pauline, na relação dele com Schreber, cabendo a ele toda a função de mãe nesta relação.

 

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Para Waelhens (1990, p. 96), “a partir do momento que o significante da castração é foracluído, a única saída aparente para Schreber consiste em regredir ao nível dessa condição, que não é outro senão o da união dual”. Moritz declarava através de seus escritos que a mulher deve ser inexistente, que não pode se posicionar a não ser pela ordem do marido e deve ser uma mulher apagada. Moritz era um pai que sabia tudo, orientava tudo, supervisionava tudo. Em relação ao tema educação, afirmava: “o educador é um homem que tem resposta para tudo” (MANNONI, 1977, p. 28). Em relação à mãe, apontava: “que a mãe se apague, é a voz do pai que importa”. (MANNONI, 1977, p. 46). É isso que podemos constatar na educação destinada a Schreber, pois não é possível encontrar a voz do pai Moritz na mãe Pauline, cabendo sempre a Moritz os cuidados do filho. A mãe só existiria a partir do discurso do pai, mas, como já vimos, Moritz anulava as mulheres, não as valorizava, conseqüentemente também anulava Pauline da relação com Schreber. Do lugar do pai no triângulo simbólico, restou o significante confundido com o significado precisamente ali onde ele deveria estar e nunca esteve. “Através de nada menos do que um pai, não forçosamente, em absoluto, o pai do sujeito, mas através de Um – Pai” (WAELHENS, 1990, p. 99). Esse Um - Pai surge no real, no tempo em que alguém venha ser personagem da figura paterna e se impor ‘na posição terceira’, isto é, no campo de alguma das relações erotizadas entre o sujeito e seu objeto, ou melhor, entre o ideal e a realidade.

 

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Percebemos que Schreber teve um pai em excesso, muito presente, passando-nos uma compreensão de um pai como figura muito forte, que submetia Schreber a uma educação subordinada, obediente e dependente. Assim, o filho de Moritz recebeu de alguma forma a missão fracassada em si de encarnar a verdade do pai, no dizer de Mannoni (1977) foi submetido, na sua relação com o pai, a uma perversão da demanda de amor. Adestrado, amado, ao preço de não ser, tendo seu desejo inteiramente governado pelo pai, alimentou seu delírio e por amor de Deus ficou submetido a uma posição feminina, encontrando sua verdade através do delírio.

Referências BRAUER, J. O Sujeito e a Deficiência. Revista Sobre a Infância com Problemas, São Paulo, ano III, v. 5, 2º semestre de 1998. ELIA, L. O Conceito de Sujeito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. FREUD, S. Observações Psicanalíticas Sobre um Caso de Paranóia (Dementia Paranoides) Relatado em Autobiografia. In: FREUD, S. Obras Completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. JULIEN, P. As Psicoses: um estudo sobre a paranóia comum. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999. LACAN, J. O Seminário V: As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.  

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MANNONI, M. O Psiquiatra, Seu “Louco” e a Psicanálise. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. MANNONI, M. Educação Impossível. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. NIEDERLAND, W. G. O caso Schreber: um perfil psicanalítico de uma personalidade paranóide. Rio de Janeiro: Campus, 1981. ROSENBERG. A. M. O Lugar dos Pais na Psicanálise com Crianças. São Paulo: Escuta, 1994. SCHREBER, D. P. Memórias de Um Doente dos Nervos. 2ª edição. Rio de Janeiro: Graal,1985. WAELHENS, A. A Psicose: ensaio de interpretação analítica e existencial. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

 

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De um Sintoma no Corpo a um Sintoma Analítico: uma Clínica a Partir dos Fenômenos Psicossomáticos

Ingrid de Figueiredo Ventura1 Roseane Freitas Nicolau2 Jamile Luz Morais3

Este trabalho propõe debater a particularidade da direção da cura diante do fenômeno psicossomático (FPS), considerando sua diferença com relação ao sintoma. Através dos estudos e discussões no Grupo de Pesquisa O Sintoma do Corpo, nos deparamos com algumas afecções que o afetam sem comportarem uma causa orgânica comprovada. Tais afecções, geralmente diagnosticadas pelo saber médico como “psicossomáticas”, impõem-se como um entrave na direção do tratamento, pois admitem uma modalidade de gozo fixada ao corpo, como uma escrita não passível de decifração, distinguindo-se do sintoma, o qual, por se constituir como um retorno do recalcado, pode ser interrogado, convertendo-se em um enigma. Por esta razão é que Szapiro (2008) nos diz que receber um paciente com enfermidades “psicossomáticas” se coloca como um desafio ao analista, na medida em que se                                                                                                               1

Psicóloga, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), membro do Grupo de Pesquisa “Psicanálise, sintoma e instituição”, cadastrado no CNPQ e coordenado pela Profª Drª Roseane Freitas Nicolau. Endereço eletrônico: ifpsi@yahoo.com.br. 2 Psicanalista, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com Formation Doctorale na École des Hautes Études em Sciences Sociales em Paris (França), professora adjunta do Instituto de Psicologia da UFPA e coordenadora do grupo de Pesquisa “Psicanálise, sintoma e instituição”, cadastrado no CNPQ. Endereço eletrônico: rf-nicolau@uol.com.br. 3 Psicóloga, mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA, membro do Grupo de Pesquisa “Psicanálise, sintoma e instituição”, cadastrado no CNPQ e coordenado pela Profª Drª Roseane Freitas Nicolau. E-mail: jamilemorais_11@yahoo.com.br.

 

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faz necessário sustentar uma fala atrelada a estas afecções, as quais se encontram presas ao registro do real do corpo. A especificidade nestes fenômenos está na dificuldade do paciente em se articular com a dimensão subjetiva, uma vez que ao buscar uma resposta imediata para seu sofrimento, localizado em um ponto irrepresentável do seu corpo, impossibilita que uma demanda se constitua pela via da transferência de amor. O sintoma, diferentemente, evidencia uma vinculação com uma representação, configurando-se como uma formação do inconsciente. Neste caso, existe a possibilidade, em transferência, de o sujeito comparecer, fazendo associações que remetam às estas representações, ou seja, ao conteúdo recalcado. Para Freud (1926/1996) o sintoma aponta para o sujeito do inconsciente, sendo resultado de um trabalho de substituição para uma satisfação pulsional, produto do processo de recalque. Já o FPS, manifesta-se no corpo não como um retorno desta operação, mas sim como uma espécie de “matéria bruta”, que não foi lapidada, transformada em sintoma. Ao se referir ao FPS, no Seminário 11, Lacan (1964/1998) salienta que este não pode ser considerado um significante, tendo em vista que não há a afânise do sujeito. Para ele, a afânise diz respeito ao desaparecimento do sujeito do inconsciente na linguagem, por meio do deslizamento na cadeia significante. Isto quer dizer que para o sujeito ex-sistir na linguagem, uma vez que aparece justamente em sua falha, ele deve primeiramente estar afanisado na cadeia. Lacan nos diz que a eclosão de um FPS acontece devido à holófrase, termo que emprestou da lingüística para falar da condensação do primeiro par de significantes S1—S2, os quais, ao não se articularem, impedem o deslizamento da cadeia e a afânise. Logo, sem a última, não há possibilidade de desaparecimento e aparecimento do sujeito, prejudicando  

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assim o registro simbólico e qualquer enlace com a esfera subjetiva. Partindo desse pensamento, Lacan (1966), na conferência intitulada Psicanálise e Medicina, usou a expressão falha epistemo-somática para se referir aos FPS, indicando que estes refletiam uma “ignorância” do sujeito com relação ao saber sobre seu corpo, seu desejo e sua história. Tal “ignorância”, por sua vez, explica o motivo pelo qual esses pacientes encontram dificuldade de se implicarem subjetivamente, circunscrevendo uma fala fixada aos sintomas físicos pelos quais foram atravessados. Nesse sentido, tomando a formulação de Lacan sobre a falha epistemo-somática, podemos dizer que ela mostrou seus efeitos em Elisa, paciente atendida no contexto da pesquisa O Sintoma do Corpo. Elisa, em um primeiro momento, não se implicava com seu sofrimento, deixando-se levar por uma fala em torno de sua doença: O Lúpus Eritematoso Sistêmico. Nas palavras de Elisa: “Essa semana foi horrível, quase não consegui dormir direito, meu coração batia forte, aquelas dores voltaram. Quando isso acontece fico muito ansiosa, não sei o que fazer. E o pior, há quatro dias acordei cheia de manchas na pele! Não agüento mais, todo hora é uma coisa, fui na médica e ela disse que pode ser psoríase, minha cabeça está só casquinha, sabe”. Elisa, em sua fala, além de denotar sua falta a saber, ficava presa num dizer vazio, direcionado a todos os sintomas físicos que tinham lhe ocorrido durante a semana, procurando, assim como fazia com seu médico, uma espécie de “diagnóstico emocional”, que supostamente explicaria a causa de sua doença. Sobre isso, Ornellas (2004) pontua que o paciente, ao procurar um médico para obter uma explicação sobre a sua patologia, espera uma autenticação para a mesma e, portanto, uma falsa demanda de cura. Identifica que nestas  

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situações está em jogo uma satisfação específica, ou seja, um gozo específico, já que o sujeito se apresenta fixado no corpo. Diante desta repetição, existiria alguma possibilidade desta paciente se implicar com algo subjetivo de sua história? A fim de discutir esta questão, retomamos a seguinte afirmação de Lacan (1964/1998, p. 215): É na medida em que uma necessidade venha estar interessada na função do desejo que a psicossomática pode ser outra coisa que não essa simples bravata que consiste em dizer que há um duplo psíquico para tudo que se passa no somático. Sabe-se disso há muito tempo. Se falamos de psicossomática é na medida em que deve aí intervir o desejo. É no que o elo do desejo é aqui conservado, mesmo se não podemos dar conta da função da afânise do sujeito O que nos diz Lacan é que mesmo a psicossomática não sendo um significante, isso não denota abolir a idéia de que um indivíduo afetado por uma lesão deste tipo não possa se manifestar como sujeito. De modo diverso, podemos dizer que, momentaneamente, este indivíduo não quer se haver com o seu desejo inconsciente. Assoun (1997) considera o FPS como uma “fuga” do sujeito de sua neurose. Ao afirmar que a doença põe a neurose em suspensão, o autor nos coloca que o sujeito, apesar de por um momento manter-se escondido atrás do real de sua patologia, está lá, esperando uma implicação subjetiva. No momento em que é acometido por uma afecção “psicossomática”, é capaz de substituir sua neurose por um fenômeno desta ordem, “fugindo” de sua constituição fantasmática, que permanece suspensa. Pontua que a enfermidade somática surge como se fosse um “despertador”, um chamado para a cadeia de significantes que está parada, gelificada, carente de simbolização. Seria a chamada para a eclosão de um sintoma neurótico. É possível afirmar que as afecções somáticas também seriam uma forma de aviso  

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dirigido ao sujeito, ao sinalizar (através da lesão) que este deve deixar a neurose emergir. É o verdadeiro encontro entre as pulsões de vida e de morte, pois enquanto a pulsão de morte lança o sujeito para a morte, destruindo os órgãos e causando prejuízo ao corpo, a pulsão de vida, através de uma castração pelo real, convida-o a voltar a sua condição: a de sujeito do inconsciente. O autor relaciona o FPS com um masoquismo corporal, o qual levaria o corpo a gozar se utilizando de suas partes complacentes e, consequentemente, fazendo o paciente pagar a dívida daquilo que não foi simbolizado. Sendo assim, o fato de Elisa estar presa numa fala direcionada às suas afecções, em torno do Lúpus, isso não significa dizer que não devemos apostar na emergência do sujeito do inconsciente. No entanto, como o analista pode conduzir uma fala colada no corpo em direção a outra, dirigida ao seu desejo? Wartel (1987/1990) nos diz que não há outra saída senão a partir do silêncio do analista, de uma posição ética, de não resposta. É apostando na possibilidade da associação livre, por meio da posição de causa de desejo do analista, é que entre um dito e outro, entre um significante e outro significante, possa surgir o sujeito do desejo e do inconsciente. Retornando ao caso de Elisa, poderia ela se haver com um significante que a representasse a outro significante e assim entrar em contato com sua história? Atendida no contexto de uma instituição hospitalar, Elisa chega com a analista, representante de um saber psi, a fim de encontrar uma resposta imediata para seu sofrer. Ao se deparar com a não resposta, referindo-se às suas queixas físicas, deixa escapar o significante medo, dizendo: “Quando me sinto assim, com muitas dores, me dá um medo...”. Ao solicitar que falasse desse medo, ela diz: “Tenho medo de ficar sozinha em casa, vai que me dá um  

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troço, não vai ter ninguém pra me acudir... tenho medo que as pessoas esqueçam de mim, esqueçam que eu existo” . Ao falar disso, lembra de uma cena contada por sua avó, referente ao abandono que havia sofrido na infância, por sua mãe biológica. Disse que nunca havia contado a ninguém o medo de ser abandonada e que até aquele instante não entendia o motivo pelo qual seus pais deixaram que ela fosse criada por outra família, como demonstra em seus relatos: “Tudo bem que a minha avó me tirou dela por causa da forma irresponsável que ela me criava. Onde já se viu deixar um bebê sozinho numa casa. A vovó me disse que tinha meses quando aquela outra [falando de sua mãe biológica] me deixou na casa que a gente morava sozinha, deitada numa rede. A vovó escutou meus gritos fora da casa, pediu que arrombassem a porta e quando ela chegou lá eu estava toda cagada, mijada. Ela ficou revoltada com essa situação e disse pra mamãe que não ia mais ficar lá. Tudo bem que a vovó me tirou dela, mas ela me deixou e não me criou porque não quis”. Ao se haver com o significante medo (S1), Elisa pôde redistribuir sua economia gozosa, deixando de falar do corpo parar falar da história de seu sintoma, de seu desejo. Vale ressaltar que tudo isso só foi possível porque acreditamos que, em psicanálise, o trabalho caminha na direção de uma escuta que aponte para um sujeito possuidor de um corpo erotizado e recoberto pela pulsão e não apenas para um corpo tomado simplesmente no campo da biologia. Nicolau (2008) ressalta que é preciso escutar o que pode estar para além da doença, ou seja, aquilo que está em jogo na afecção psicossomática: uma insistência que aponta para a dimensão de um não querer saber. Trata-se de uma operação, na transferência, que possibilite um enlace com algo de sua própria história, promovendo uma nova regulação  

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de gozo para o sujeito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOUN, P. Corps et symptôme - clinique du corps: Tome 1. Paris: Econmica Ed, 1997. FREUD, S. “Inibições, sintomas e ansiedade” (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas – (ESB). Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XX. LACAN, J. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. ______. “Psychanalyse et médécine” (1966). In: Petits écrits et conférences – 1945- 1981. Inédito. NICOLAU, R. F. A psicossomática e a escrita do real. In: Revista Mal-Estar e Subjetividade, Fortaleza, vol. VIII, n. 4, p. 959-990, 2008. ORNELLAS, J. G. “Luzes sinistras”. In: Revista da Escola Letra Freudiana – O corpo do Outro e a criança. Rio de Janeiro, Ano XXIII, n. 33, p. 113-126, 2004. SZAPIRO, L. Elementos para una teoría y clínica lacaniana del fenómeno psicosomático. Buenos Aires, Grama Ediciones, 2008. WARTEL, R. Que esperam de nós os médicos? (1987). In: Psicossomática e Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.

 

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A Criança como Sintoma dos Pais em Casos de Disputa de Guarda Karine da Rocha Queiroz1 Dra. Júlia S. N. F. Bucher-Malusche2 A dissolução conjugal pode ser um acontecimento traumático para um casal, principalmente quando a decisão é apenas de uma das partes, podendo gerar ressentimentos. Quando se tem filhos, a separação pode se tornar ainda mais delicada, principalmente quando envolve crianças, onde muitos pais quando do desacordo recorrem às varas de família para tentar resolver questões pertinentes à guarda dos filhos. O grande problema é quando na tentativa de salvar o casamento ou se vingar do excônjuge os pais usam a criança como arma para atingir o outro. Porém os pais não podem esquecer que sempre que uma das partes ganha, quem perde é a criança, que muitas vezes é revitimizada por meio do processo de disputa de sua guarda, dos conflitos de seus pais. Este trabalho é fruto de uma pesquisa de mestrado em psicologia, onde foi realizada uma leitura psicanalítica sobre “O princípio do melhor interesse da criança em casos de disputa de guarda”. A pesquisa foi voltada a verificar se existem garantias no âmbito jurídico de que os interesses da criança serão resguardados, colocando estes acima dos impasses de seus pais.                                                                                                               1

Psicóloga, aluna do mestrado em Psicologia pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR, especialista em Psicologia Clínica de Base Analítica pelo Centro Universitário Luterano de Manaus – ULBRA. (karine.psi@gmail.com)  

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Doutora em Ciências Familiares e Sexológicas, pós-doutorada nos EUA e Alemanha. Professora titular da Universidade de Fortaleza e pesquisadora colaboradora sênior da Universidade de Brasília.

(juliasursis@gmail.com)

 

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Interesses estes que dizem respeito também a criança continuar a conviver com o genitor nãoguardião após a dissolução conjugal, de forma em que esta não se sinta culpada por continuar a amar ambos os pais, não sinta a separação dos pais como um desamparo. Para isto, foram realizadas entrevistas com juristas e peritos (psicólogos e assistentes sociais) que atuam em casos de disputa da guarda dos filhos, no Fórum da cidade de Fortaleza. Quando das entrevistas, no que competem as conseqüências que o desacordo dos pais podem causar a criança, foi verificado que os juristas e psicólogos entrevistados enfatizavam a questão de sintomas apresentados pela criança no decorrer do processo, como consequencia da angústia que as brigas de seus pais estavam causando. Neste trabalho, serão recortadas algumas falas destes profissionais, para abordar a questão da criança como sintoma de seus pais em casos de disputa de guarda. Alguns genitores, não sabendo separar conjugalidade da parentalidade após a dissolução conjugal, podem fazer a criança ter que tomar partido na peleja causando um enorme conflito emocional na criança. Nestes casos, o grito de solidão desta criança pode aparecer em forma de sintomas. Neste sentido, a juíza pontua: “Quando elas têm problemas dessa natureza (se referindo a tentativa dos pais afastarem a criança do convívio um do outro), aquilo é um desastre pra criança sabe, porque aquilo afeta a vida inteira da criança né, é na escola, em casa, ela fica retraída, não é mais a criança, aquela coisa bela, não tem mais aquela liberdade e você vai ter uma criança maltratada”.  

 

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Para Lacan (1969) o sintoma da criança responde ao que existe de sintomático na estrutura familiar, representando a verdade do casal parental. Ou seja, há a relação entre a estrutura familiar e o sintoma da criança, existindo uma apropriação sintomática da criança através de suas produções fantasmáticas, ou de um assujeitamento mortífero ao desejo do Outro. Neste sentido, Mannoni (1967) observa que a criança é parte de um discurso coletivo e que diante da intrusão dos pais, não resta outra saída senão responder com o sintoma por meio de problemas escolares, reações somáticas, entre outros. Para a mesma autora, é a palavra do pai, a palavra da mãe que pesa para a criança. Assim, enquanto a criança estiver sob o império dessa palavra mortífera será escrava do desejo de seus pais, onde seus próprios desejos ficarão soterrados. Para o sujeito ter acesso ao desejo, que o constitui, é necessário então que ele não seja bloqueado pelas palavras parentais. A psicóloga nesse sentido pontua: “O que está por trás (do processo de disputa de guarda) é uma separação mal resolvida, por aquela convivência que se perdeu, então é espírito de vingança, onde os pais usam os filhos como moeda de troca”. Checchinato (2007), se referindo ao trabalho de Lacan “Duas notas sobre a criança” (1969) lembra que a psicanálise entende o sintoma como um fenômeno subjetivo, que ao mesmo tempo em que faz sofrer, propicia gozo. Existem assim alternativas: ou sintoma se apresenta como uma disfunção (recalque), onde a criança se vê depositária daquilo que é insuportável no pai ou na mãe, ou como lesão de órgãos, que é o sintoma que aparece no corpo.

 

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De acordo com a psicóloga ouvida, em seu trabalho com crianças no contexto da disputa de guarda esta afirma: “Essa questão do desenvolvimento tanto emocional quanto físico mesmo, porque tem somatização muitas vezes, que são conseqüências negativas que a gente percebe, tanto no âmbito escolar como as somatizações, questão biológica né, física e a questão emocional mesmo”. A criança assim pode ser alvo da projeção dos problemas de seus pais, das frustrações destes. Nos casos da disputa de guarda, muitos pais induzem as crianças a mentir, a não ir aos passeios com o outro genitor, escondendo a criança, inventando doenças, se vitimando, denegrindo o genitor não guardião. Assim como o genitor não guardião, pode tentar pactuar com a criança, contra o genitor guardião. Quando a criança é coloca nesta situação, pode se sentir perdida, até mesmo culpada por amar ambos os pais e desejar tê-los por perto mesmo após a dissolução conjugal. A criança pode acreditar que foi ela que provocou o sofrimento dos pais, que o desenlace é por sua causa (Dolto, 2003). Ainda segundo a mesma autora, reações psicossomáticas podem vir a surgir devido à angústia que a criança sente em relação à separação dos pais, onde a criança não sabendo explicar verbalmente o que sente expressa no corpo. A psicóloga nesse tocante coloca: “Muito comum as somatizações, são problemas gástricos, refluxo, a criança chega a ter gastrite né, muito problema de pele também.” Dolto (2003) lembra o ensinamento lacaniano de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, mostrando que há partes no corpo do sujeito que são expressivas sem que

 

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este saiba, ou seja, os sintomas constituem uma linguagem a ser decifrada, onde no caso das crianças, está pode expressar no corpo o que não consegue falar. Como foi dito, o sintoma surge como um S.O.S, sendo a verdade do casal parental. Retomando o trabalho de Checchinato (2007) este lembra que a valorização ou desvalorização que um pai faz do outro para a criança, a marca. Para o autor nunca é demais escutar que lugar o pai da criança ocupa no discurso da mãe e o lugar da criança no discurso de ambos os pais. Levando esta questão para o contexto da disputa da guarda de crianças, é necessário que os profissionais que atuam em cada caso, fiquem atentos para o discurso dos genitores, os motivos alegados para a dissolução conjugal, que função eles delegam à criança a ocupar neste cenário. Nesta mesma perspectiva, Kupfer (1994) pontua que pais e criança são determinados pelas leis do simbólico, da linguagem, isso permite que haja uma circulação de doenças por meio da amarração discursiva. Porém como a autora lembra, ao contrário do adulto, a criança depende por vários anos de cuidados especiais e isso a faz submeter-se aos desejos de seus pais. As manifestações sintomáticas são justamente então a resposta da criança às neuroses nos Outros reais que são seus pais, ou seja, os pais escrevem algo de sua própria neurose sobre o corpo da criança. Rosenberg (1994) partilha do mesmo entendimento, afirmando que as crianças costumam fazer sintomas em lugares que se tornam insuportáveis para seus pais, sendo uma maneira de a criança se fazer ouvir. Neste sentido, a criança pode, por meio do sintoma, reatualizar conflitos não resolvidos de seus pais.  

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Assim, uma das partes ou o casal pode utilizar o processo judicial como manutenção do vínculo (Zimerman e Colto, 2002) como último recurso ao seu apelo psíquico e em sua angustia em responder suas questões, pode esquecer que no meio do conflito existe uma criança que espera de seus pais nada menos que estes exerçam sua função enquanto pais, estando estes juntos ou separados.

Referências Bibliográficas CHECCHINATO, D. Psicanálise de pais. Criança sintoma dos pais. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. DOLTO, F. Quando os pais se separam. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. KUPFER, M. C. Pais: melhor não tê-los? In: O lugar dos pais na psicanálise de crianças. São Paulo: Escuta, 1994. LACAN, J. Duas Notas sobre a criança. (1969). In Outros Escritos. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2003. MANNONI, M. A criança, sua doença, e os outros. (1967). São Paulo: Via Lettera, 1999. ROSENBERG, A. M. A constituição do sujeito e o lugar dos pais na análise de crianças. São Paulo: Escuta, 1994. ZIMERMAN, D; COLTO, A. Aspectos Psicológicos na Prática Jurídica. São Paulo: Millennium, 2002.

 

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Psicanálise e Política : o Psicanalista como Sintoma da Cultura

Juçara Rocha Soares Mapurunga1 Henrique Figueiredo Carneiro2 Lacan posicionou-se diferentemente de Freud com relação ao mal-estar na cultura, pois ao contrário deste, para quem só há sociedade fundada sobre a função paterna, o malestar sendo visto como efeito do recalque, acreditava que a queda do saber do mestre transformado pelo saber científico é o que justifica o mal-estar nas sociedades atuais, caracterizadas pela ciência e pelo capitalismo, em que um dos aspectos do gozo se encontra no consumo de bens. O início do declínio da figura paterna começou no século XIX, com o choque de valores trazido pela economia industrial, onde os novos valores que surgiram eram os da economia mercantil, atrelando um declínio do Nome-do-Pai às modificações da economia, estando em baixa os valores ligados aos ideais simbólicos. O nascimento e a evolução da democracia, reorganiza o laço social em uma outra lógica, diversa da tradição, pois visa o desaparecimento da hierarquia, julgada responsável pelas desigualdades, e encontra seu fundamento no discurso da ciência . A grande filosofia moral dos dias de hoje, é que cada ser humano deveria encontrar em seu meio aquilo com o que se satisfazer plenamente. É a sociedade do gozo do consumo dos objetos. Nesta cultura, pautada no                                                                                                                 1

Psicóloga (UFC), psicanalista, mestre e doutoranda em Psicologia pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza); membro do LABIO (Laboratório sobre as novas formas de inscrição do objeto), e da CLIO – Associação Psicanalítica. E-mail: jucara@mapurunga.adv.br 2 Doutor em fundamentos y desarrollos psicoanalíticos (UPCO-Madrid). Professor Titular e coordenador do Mestrado em Psicologia da UNIFOR. Coordenador do LABIO (Laboratório sobre as novas formas de inscrição do objeto) e da CLIO (Clínica do Objeto). Membro do GT Psicopatologia e Psicanálise da ANPEPP. Pesquisador da AUPPF (Associação Universitária de Pesquisadores em Psicopatologia Fundamental). E-mail: Henrique@unifor.br

 

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discurso do capitalista, e iludida pela universalidade da ciência que prometem a completude e a felicidade extrema numa clara tentativa de fazer desaparecer a castração, o discurso do psicanalista e sua ação política é uma saída ao trazer à tona o encontro com a castração, que funda o sujeito humano, mas, é, também um sintoma. Discutir a posição política do psicanalista como um sintoma da cultura é o nosso objetivo. Além de ser efeito dessa cultura, o psicanalista é, também, sintoma, ao trazer à tona o discurso da castração em confronto com o imperativo categórico do gozar a qualquer preço. Hoje, sabemos, a palavra de ordem da ideologia liberal é assegurar o gozo a todos . “E isso se tornou a nova moral. A nova moral é que cada um tem o direito de satisfazer plenamente seu gozo, sejam quais forem suas modalidades.” (Melman, 2003, p. 60). Dentro dessa nova moral, fundamentada no saber da ciência, que se transmite em seus enunciados e exclui o sujeito da enunciação, tão caro à verdade psicanalítica, qual a posição do psicanalista? Nesse sentido, Eric Laurent (2007, p.144), assente dizendo: “ O analista mais que um lugar vazio, é aquele que ajuda a civilização a respeitar a articulação entre normas e particularidades individuais “. Os analistas não devem apenas escutar; eles precisam saber transmitir a humanidade do interesse que a particularidade de cada um tem para todos”. Além da escuta clínica, o psicanalista hoje deve transmitir a particularidade que está em jogo na verdade de cada sujeito, ao invés do saber universal do indivíduo científico. A democracia trouxe a atualização política desta mutação cultural em andamento.. O nascimento e a evolução da democracia, reorganiza o laço social em uma outra lógica, diversa  

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da tradição, pois visa o desaparecimento da hierarquia, julgada responsável pelas desigualdades, e encontra seu fundamento no discurso da ciência e na exclusão do ao-menosum que lhe é implícito. Assim nesse mesmo movimento democrático, o saber das ciências tomou o lugar do mestre, esse ao- menos-um, que escapa a castração. Observamos uma recusa a castração na sociedade de consumo, no discurso capitalista há uma recusa da verdade do discurso. Márcio Peter (2000, p.252) lembra que Lacan referindo-se à Max Weber, em relação à ética protestante e o capitalismo, disse: “O deslizamento calvinista que nos últimos séculos introduz o capitalismo se caracteriza por distinguir o discurso capitalista pela recusa da castração”. Na Conferência em Milão, 1972 : “Do discurso do psicanalista”, Lacan assegura: “Toda ordem, todo discurso que se entronca no capitalismo deixa de lado a castração”. ( Ibid). Lacan formulou uma noção diferente da de Freud, para o mal-estar próprio à cultura. Para Freud o mal-estar é visto como efeito do recalque, para Lacan é próprio da civilização caracterizada pela ciência e pelo capitalismo, que um dos aspectos do gozo se encontre no consumo de bens, advindo daí o mal-estar. Para Márcio Peter (2000, p. 221) é aqui que a clínica psicanalítica aponta para a emergência de novas formas do sujeito fugir ao mal-estar, pois dentro da linguagem, intensificada pelo poder da mídia, há sempre novos dispositivos identificatórios que oferecem ao sujeito novos modelos de evitar a angústia, por intermédio de ideais prontos para serem oferecidos em massa, para sujeitos universalizados, excluídos em suas diferenças, em suas singularidades e diferenças.: “É esse o debate no qual o analista está convocado pela cultura e que acontece não só por ser o analista ele também um sintoma da  

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cultura que interpreta, mas, mais ainda talvez, por ser o analista a única esperança de modificação dessa cultura.” O comentário de Márcio Peter (2000, p. 222): “O analista, ao se comprometer com a causa do inconsciente, quase sempre se contrapõe à causa do mercado, já que, para cada um de nós, o que conta é somente uma verdade particular, ficção fabricada para responder ao mal-estar.” , nos esclarece porque, o analista é um sintoma da cultura, pois a confronta com a incompletude do inconsciente. À ciência que se pretende totalizante com o seu saber, o analista confronta com a verdade do sujeito do inconsciente: “Por isso o analista é um sintoma da cultura, porque ao mesmo tempo em que ele é sua mais refinada produção, representa uma expressão da rebeldia à tirania desta civilização, que, por causa das características da condição humana, faz o homem procurar a completude que não existe na religião, no consumo de bens, no amor, no saber, ou em termos freudianos, na ilusão”(Ibid). Freud em seu percurso nos mostrou e serviu de modelo na atuação social e política do analista, quando observamos nele em operação uma tripla responsabilidade do fundador da psicanálise face ao campo social: responsabilidade clínica, primeiro, já que responde por entender o que é a reação terapêutica negativa na cura; responsabilidade teórica, já que desenvolve a questão da pulsão de morte e da segunda tópica; por fim, responsabilidade política, já que toma diretamente partido nessa questão da análise leiga. (Lebrun, 2004, p.204). Então na própria formação e atuação o psicanalista situa sua posição frente ao campo social e político. Colette Soler (1998, p. 257), aborda a questão da incidência política do psicanalista a partir de uma tese de Lacan em ‘Televisão’ (1974), em que ele indica, nada menos, que o passe do psicanalista poderia operar “a saída do discurso capitalista”. Lembrando que além disso, Lacan não cessou jamais de afirmar que a psicanálise tem de fato  

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um alcance político e que ganharia esse alcance se os psicanalistas consentissem em não esquecer por que eles são feitos, e a que os chama o discurso analítico. Para o discurso do capitalista, o passe do psicanalista anunciaria uma saída, como proclamou Lacan, pois essa posição não é nada mais do que o que esse anuncia na fórmula elaborada por Colette Soler (1998, p.262): “o psicanalista...- o psicanalista como produto transformado de uma análise- não é um proletário”. O psicanalista é aquele que pode fazer frente a todo discurso derivado do discurso do capitalismo ( aquele que deixa de lado a castração), porque tem por desejo e vocação de mudar alguma coisa na economia do gozo capitalista.Sendo assim, a posição do psicanalista na sociedade de consumo, é aquela de pretender emancipar os sujeitos dos impasses da versão capitalista do supereu. Por isso representa uma saída e uma solução. Ao fim de uma análise, caminha-se para uma redução do gozo e para a inscrição da diferença do desejo de cada um. Por fim passemos a palavra a Colette Soler, que resumidamente responde por que a psicanálise é a solução, a saída para o discurso capitalista: “Se nos perguntamos ‘por que a psicanálise?’como a uma certa época nos perguntávamos ‘por que os filósofos?’, nós a reportamos geralmente a um vício radical em uma civilização marcada pela ciência. Esse vício deve-se ao fato de que a ciência ignora o sujeito. É uma foraclusão. Daí a idéia de que a psicanálise está aqui a título de antídoto, fazendo valer o que chamei na ocasião de os direitos do sujeito. Como se a psicanálise fosse em suma, o que falta a ciência”. (1998, p. 283). Como se a psicanálise fosse em suma, o que falta à ciência. Como se o psicanalista fosse em seu sumo, em sua formação, em sua atuação o que falta para fazer frente ao mercado  

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de consumo. E isso é possibilitado através do posicionamento do psicanalista frente ao mundo social da atualidade, pois a própria formação do analista o leva continuamente a questionar que, se não há uma cura para o mal-estar na cultura, o analista sendo ele mesmo um objeto de mercado situa assim uma ética que vai além do terapêutico e de um consumismo de bens que prometa uma completude que não há. Para um mundo organizado pelo desabono da função paterna e pela retirada do pai real, pela pulverização da imago paterna, o psicanalista, é óbvio, não é capaz de trazer remédio, se é que se pode e é preciso curar disso, mas sua responsabilidade social é se pôr a trabalhar ali onde pode. E onde isso é possível é na sua própria formação, atuação e posição de analista que leva o saber aprendido no consultório para outros lugares sociais, onde pode proclamar a verdade de que o objeto do desejo, não é esse propagado pela sociedade de consumo, mas aquele que está para sempre perdido, que sempre desliza e nos escapa, mas que foi capturado por Lacan, naquela que foi sua grande criação conceitual: o objeto a, causa do desejo. Trazer a castração, a enunciação, não quer dizer querer voltar ao passado do pai da tradição, isso não tem volta. Não quer dizer que não aceitamos as vantagens da ciência, mas que criticamos seus enunciados e conhecemos como o social utiliza seu funcionamento e que estamos atentos às tentativas de apagamento das diferenças, e sempre que possível tentaremos fazer com que o que torna singular e particular cada sujeito possa contribuir para minorar um pouco o mal-estar próprio e indestrutível das culturas em que época que for, seja do desamparo ou do desalento.  

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Referências Bibliográficas LACAN, Jacques. (1969-1970). O Seminário. Livro XVII. O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. LAURENT, Éric. A Sociedade do Sintoma. A psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007. LEBRUN, Jean-Pierre. Um Mundo sem Limite – Ensaio para uma clínica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004. LEITE, Márcio Peter de Souza. Psicanálise Lacaniana-Cinco seminários para analistas kleinianos. São Paulo: Iluminuras, 2000. MELMAN, C. O Homem sem gravidade – Gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003 b. SOLER, Colette. A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1998.

 

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Sintoma e repetição na neurose obsessiva Liliana  Marlene  da  Silva  Alves1    “é  no  instante  mesmo  que  o  S1  intervém  no  campo  já  constituído   dos  outros  significantes,  que  surge  o  $,  que  é  o  que  chamamos  de   sujeito   dividido.   Enfim,   nós   sempre   acentuamos   que   desse   trajeto  surge  alguma  coisa  definida  como  uma  perda.  É  isso  que   designa  a  letra  que  se  lê  como  sendo  o  objeto  a.  Não  deixamos  de   designar   o   ponto   de   onde   extraímos   essa   função   do   objeto   perdido.   É   do   discurso   de   Freud   sobre   o   sentido   específico   da   repetição  no  ser  falante”  (Lacan,  1969-­‐70,  p.13).    

Este trabalho interroga a função da repetição em sua relação com o sintoma, como sugere o texto em epígrafe. Pretendemos verificar como o sujeito obsessivo responde ao encontro com a castração, momento em que é chamado a se articular frente à demanda do Outro e se colocar em posição de sujeito de desejo. Tomamos o exemplo de João, um menino de 2 anos que ao ser privado do seio materno responde de forma sintomática retendo seu cocô até as últimas consequências e diante do apelo desesperado da mãe, grita e se contorce até a exaustão, quando então pede para tomar banho e sob o chuveiro lhe entrega o objeto de sua demanda. Essa cena repete-se diariamente e a análise é indicada quando o exame médico localiza uma hérnia de umbigo iminente. Partiremos desse ponto para localizar teoricamente nossa questão. Primeiramente, é necessário tomar a questão do sujeito obsessivo em relação à demanda e ao desejo conforme                                                                                                                 1

 

Psicóloga,  membro  do  Fórum  do  campo  Lacaniano  do  Rio  de  janeiro.  

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Lacan formula no Seminário 5, as formações do inconsciente. Sabemos que a demanda sempre pede a satisfação da necessidade, porém, incide sobre alguma coisa que vai além, na medida em que se articula no simbólico. Esse campo para além da demanda é condição necessária para que o sujeito se constitua satisfatoriamente e é nesse campo que se localiza o significante do desejo (- φ), desejo do Outro que não inclui totalmente o sujeito e que situa o Outro como castrado. Nesse caso destacamos as duas modalidades de demanda articuladas no sintoma apresentado. A demanda ao Outro (oral) e a demanda do Outro (anal) conjugam-se na encenação construída por João. Ao privar o sujeito do objeto oral, a mãe presentifica o além da demanda, situando-se como castrada, barrada pelo próprio desejo. Privado do seio João articula sua demanda à demanda do Outro, evidenciando tal como Lacan nos ensina, a função do cíbalo como objeto agalmático da mãe, o que na neurose obsessiva assume valor fundamental, uma vez que essa função só pode ser concebida “em sua relação com o falo, com a ausência dele, com a angústia fálica como tal” (Lacan, 962-1963, p. 328). Na sua primeira entrevista, João dirige-se diretamente para as massinhas de modelar com as quais faz um cocô colorido dizendo que é um jacaré. O cocô cuja função na constituição da subjetividade é nada menos que a função de objeto causa de desejo anal em sua conjugação com a função do pequeno a (Lacan, 962-1963, p. 322), recebe em análise diversas significações indicando seu valor do significante que representa o sujeito (S2) frente a outro significante (S1) nesse caso o seio.

 

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Sendo assim, reaparece em um jogo cujas peças são sapinhos e João afirma, em associação livre, que no lago onde os sapinhos moram tem jacaré e que o jacaré come os sapinhos e mais ainda, que o jacaré é a mãe dos sapinhos. Partindo da fórmula “o desejo é o desejo do Outro” (1957-1958, p. 417), Lacan aponta para o caráter evanescente do desejo do obsessivo, que reside na dificuldade fundamental de sua relação com o Outro. Todo o problema do obsessivo está em dar suporte ao seu desejo, uma vez que este prefigura a destruição do Outro e localiza-se para além do Outro, o que leva Lacan a afirmar que o desejo do obsessivo é um “desejo em estado puro” (Lacan, 1957-58, p. 413). Diferente da histérica que “encontra apoio ao seu desejo na identificação com o outro imaginário” (Lacan, 1957-58, p. 415), o que dá aparência de apoio ao desejo obsessivo é um objeto redutível ao significante falo. Isso é demonstrado por João em um jogo encenado inúmeras vezes em análise, através do qual faz do seu excremento uma joia preciosa, “uma joia de cem mil quilates” (sic), causa de batalhas intermináveis com um ladrão que a espreita e ameaça tomar-lhe a qualquer momento. No nivel  do  sintoma  verifica-­‐se  a  angustia  de  castração  que  segundo  Lacan  (1964,   p.  65),  “é  como  um  fio  que  perfura  todas  as  etapas  de  desenvolvimento  e  cristaliza  cada   momento   anterior   à   sua   aparição   propriamente   dita   –   desmame,   disciplina   anal,   etc.,   numa  dialética  centrada  num  mal  encontro,  que  está  no  nível  do  sexual”.  Neste  caso,  o   seio   cuja   perda   recorta   o   corpo   do   sujeito   irremediavelmente   atravessado   pelo   significante,  reaparece  de  modo  velado,  como  o  significante  sem  sentido  (S1),  e  denuncia   a   não   existência   da   relação   sexual.   Por   outro   lado,   a   tentativa   de   incorporar   o   objeto   anal,   remete   ao  sintoma  enquanto  suplência  à  falta  de  relação  sexual  e  a  isso  o  sujeito      

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está fixado   a   tal   ponto   que   chega   a   ameaçar   fazer   um   novo   furo,   um   buraco   para   abrigar   o  gozo  no  real  do  corpo,  afinal  o  que  é  uma  hérnia  senão  uma  rasgadura  na  carne?  No   caso   do   neurótico,   entretanto,   o   sintoma   falha   porque   o   sintoma   na   sua   relação   com   a   estrutura  responde  onde  o  Outro  falta  e  assume  um  “valor  de  gozo  insuficiente”  (Soler,   1991,  p.  70-­‐71).   No   caso   de   João,   o   sintoma   apresenta   duas   facetas.   Por   um   lado   instaura   a   repetição   como   insistência   do   gozo   que   ultrapassa   os   limites   do   principio   do   prazer,   e   por  outro,  constitui-­‐se  num  apelo  ao  outro,  como  tentativa  de  encontrar  alívio  da  tensão,   ou  seja,  da  manutenção  da  vida,  o  que  não  dá  sossego,  põe  o  outro  a  trabalho  (entenda-­‐ se   aqui   o   outro   como   toda   a   sua   família,   mãe,   pai,   avô,   avó,   tios),   todos   enlouquecidos   com  esse  sujeito  que  não  quer  fazer  cocô.   A  repetição  no  sintoma  é  o  que  afirma  o  inconsciente,  o  que  revela  a  existência  do   recalque   porque   o   que   retorna   é   o   significante   recalcado.   No   caso   do   obsessivo   a   repetição   assume   todo   o   seu   valor,   pois,   como   diz   Lacan   o   obsessivo   é   o   sujeito   da   repetição,   basta   observar   suas   manobras   para   transformar   o   Outro   em   um   simples   outro.  Vejamos  com  Lacan  o  que  é  um  obsessivo:  “É,  em  suma,  um  ator  que  desempenha   seu  papel  e  assegura  um  certo  número  de  atos  como  se  estivesse  morto”   (Lacan,1956-­‐ 1957,  p.  26).  Atos  repetitivos,  diga-­‐se  de  passagem,  técnicas  auxiliares  e  substitutivas  do   recalque  às  quais  Freud  chamou  de  anulação  e  isolamento  (Freud,  1926,  p.  142).  Essas   técnicas  tem  a  função  de  reforçar  o  recalque  e  ao  mesmo  tempo  anular  o  desejo,  ou  seja,   na   tentativa   de   se   proteger   da   morte,   o   obsessivo   mortifica   o   próprio   desejo,   mortifica   o      

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Outro, assumindo   o   comando   de   um   jogo   onde   ele   é   o   diretor,   o   ator   e   a   plateia,   reduzindo   o   Outro   a   um   simples   outro.   Nesse   sentido   o   sintoma   obsessivo   reveste-­‐se   desse   caráter   denegatório,   como   bem   demonstra   João   em   várias   passagens   de   sua   análise.   Para  Freud  o  uso  dessas  técnicas  pelo  obsessivo,  deve-­‐se  a  uma  certa  dificuldade   na  função  do  recalque,  visto  que,    ao  contrario  da  histeria  onde  a  formação  de  sintomas   se   dá   por   metáfora   incidindo   no   corpo,   na   neurose   obsessiva   os   sintomas   são   predominantemente   do   eu,   ou   seja,   ocorrem   pela   formação   metonímica   ou   deslocamento,   como   podemos   ver   no   jogo   dos   sapinhos   onde   o   significante   cocô,   desloca-­‐se  para  jacaré  e  em  seguida  para  a  mãe  que  come  os  sapinhos.   Outra   passagem   de   sua   análise   ilustra   perfeitamente   o   uso   do   isolamento   pelo   obsessivo:  Ele  e  a  analista  tomam  sopa  –  no  mesmo  prato.  João  vai  até  a  janela,  observa   uma   criança   brincando   agachada   e   pergunta:   “é   menino   ou   menina?”   No   mesmo   momento   aproxima-­‐se   um   menino,   e   ele   então   acrescenta:   “É   menina.   Agora   tem   uma   menina  e  um  menino.  Quando  eles  crescerem  eles  vão  virar  homen(xxxx)  e  mulhere(xxxx).   Eu   não   quero   virar   homem!   Vamos   acabar   com   essa   conversa   e   vamos   continuar   tomando   a  nossa  sopa.  Só  que  agora  você  vai  tomar  a  tua  sopa  no  teu  prato  e  eu  vou  tomar  a  minha   no  meu”.  (sic).   Note-­‐se   o   emprego   do   “x”   no   lugar   do   “s”   e   acima   de   tudo   a   ênfase   dada   ao   “x”   com   a   intensificação   da   pronúncia.   Isso   nos   remete   ao   sexual   como   enigma   diante   do   qual  o  sujeito  tem  que  dar  conta  de  sua  posição.  Chamado  a  entrar  na  partilha  dos  sexos      

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João inicialmente   denega,   isola,   porque   a   diferença   sexual   é   sempre   fonte   de   angústia   para   o   sujeito.   Então   com   a   frase:   “vamos   acabar   com   essa   conversa”   João   usa   o   isolamento,   porém,   como   o   inconsciente   é   sempre   afirmativo,   reconhece   seu   desejo   e   continua   o   jogo   no   qual,   de   agora   em   diante,   meninas   e   meninos   tomam   sopa   em   pratos   separados.       É  importante  considerar  que  se  a  repetição  se  funda  no  retorno  do  gozo,  há  nessa   repetição   um   desperdício   de   gozo,   cuja   consequência   é   a   função   do   objeto   perdido,   objeto   a,   porque   o   gozo   ao   se   repetir   se   apresenta   sob   a   forma   de   perda,   onde   Lacan   aponta  a  função  do  traço  unário  no  qual  se  origina  tudo  o  que  interessa  aos  psicanalistas   como  saber  (Lacan,  1969-­‐70,  p.  44).  Saber  que  esse  traço  repete  como  diferença,  saber   marcado   por   um   significante   sem   sentido.   A   repetição   remete   ao   encontro   com   a   falta   apontando  um  saber  sobre  o  qual  o  sujeito  não  sabe,  o  inconsciente  por  assim  dizer.     Desse modo, pela repetição em análise João encontra a possibilidade de diluir seu gozo e sustentar sua condição de ser falante por meio da palavra. Seu cocô encontra diversas significações formando uma série: sapinho/jacaré, mergulhador/tubarão, joia/ladrão, homem/mulherzinha, na qual o deslizamento significante tem o efeito de introduzir o desejo na medida em que produz diferença, embora entre um significante e outro se estabeleça certa equivalência (Lacan, 1964, p. 240). O   desejo   é   o   que   vai   permitir   que   o   sujeito   se   separe   do   Outro   e   o   situe   como   campo,   como   um   lugar   de   presença   e   ausência   e   sobre   isso   João   nos   ensina   em   outros   dois   momentos   de   sua   análise:   no   primeiro   desenha   uma   pessoa   andando,   um   menino      

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que tem   dez   anos,   se   chama   João   e   faz   longas   viagens   no   jogo   da   vida,   onde   sempre   encontra  um  baú  cheio  de  ouro  do  qual  não  poderá  gozar,  porque  como  diz  ele  “ninguém   nunca  vai  saber  o  que  pode  acontecer  se  se  chegar  lá!”.   No   segundo   momento   faz   um   belíssimo   jogo   de   palavras   em   resposta   a   uma   intervenção   da   analista:   “você   é   uma   chata”.   Corrige   prontamente   em   associação:   “isso   aqui  tá  muito  chato,  vamos  fazer  outra  coisa,  vamos  jogar  xatrez,  o  bom  e  o  velho  xatrez!”.   Como  sujeito  de  desejo  João  introduz  o  terceiro  elemento  na  sua  relação  com  o  Outro,  o   falo  certamente,  na  medida  em  que  o  falo  é  o  significante  da  falta.  Como  sujeito  de  desejo   João  sabe  que  não  pode  gozar  do  corpo  do  Outro,  porque  em  seu  corpo  incide  a  lei  que  o   determina   e   o   confronta   com   a   castração.   Resta-­‐lhe   apenas   brincar,   jogar,   fazer   piada   com   esse   baú   em   cujo   ventre   descansa   o   (a)uro,   metonímia   do   impossível,   ao   qual   poderá   apenas   tocar   pelas   bordas,   através   das   palavras,   reduzindo-­‐o   a   meros   significantes.         REFERÊNCIAS:   FREUD,   Sigmund.   Inibição,   sintoma   e   angústia.   (1926   [1925]),   Edição   Standard   Brasileira,  3  ed.  Vol.  XX,  Editora  Imago,  Rio  de  Janeiro  -­‐  RJ,  1990.     _____________.   O   Seminário,   Livro   4   –   a   relação   de   objeto   (1956-­‐1957).   Rio   de   Janeiro:   Jorge  Zahar  Editor  ,  1995.     _____________.   O   Seminário,   Livro   5   –   as   formações   do   inconsciente   (1957-­‐1958).   Rio   de   Janeiro:  Jorge  Zahar  Editor  ,  1998.       320    


_____________. O   Seminário,   livro   10   –   a   angústia.   (1962-­‐1963).   Rio   de   Janeiro:   Jorge   Zahar   Editor,  2005.     _____________.   O   Seminário,   livro   11   –   os   quatro   conceitos   fundamentais   da   psicanálise.   (1964).  Rio  de  Janeiro:  Jorge  Zahar  Editor,  1998.     _____________. O Seminário, livro 17 – o avesso da psicanálise. (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. SOLER,   Colette.   Artigos   Clínicos:   Transferência,   Interpretação,   Psicose.   Editora   Fator,   Salvador  -­‐  BA,  1991.  

 

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O sintoma na arte ou a arte como sintoma? Sérgio Scotti1   “O  espírito  desperto  é  o  menos  útil  no  domínio  da  arte;  quando   escrevemos,  lutamos  para  fazer  aparecer  aquilo  que  nós  mesmos   não  conhecemos.”  Henry  Miller      

O filme   “Instinto”,   baseado   no   romance,   “Ishmael”   de   Daniel   Quinn,   conta   a  

história do  relacionamento  de  Ethan  Powell,  interpretado  por  Anthony  Hopkins  e  Théo   Caulder,   interpretado   por   Cuba   Gooding   Jr.,   um   ambicioso   psiquiatra   cuja   missão   é   atender  e  avaliar  o  antropólogo  Ethan,  internado  na  ala  psiquiátrica  de  uma  prisão  dos   Estados  Unidos,  para  onde  foi  enviado  após  ter  atacado,  ferido  e  morto  soldados  que  o   procuravam  na  selva  africana,  na  qual  desenvolvia  pesquisas  com  gorilas,  local  em  que   havia   desaparecido.   O   filme   começa   com   o   transporte   e   chegada   do   prisioneiro   no   aeroporto   americano,   onde   ele,   num   ataque   de   fúria,   agride   os   guardas   locais,   assustando  sua  própria  filha  e  esposa  que  o  aguardavam.      

Tendo sido  encaminhado  imediatamente  à  prisão,  Ethan  passa  a  ser  atendido  por  

Théo que  busca  tirá-­‐lo  de  um  mutismo  auto-­‐imposto,  os  dois  sempre  observados  pelos   guardas  e  pelo  psiquiatra  interno  da  prisão  que  o  mantinha  sob  forte  medicação.  Théo   consegue   não   só   reduzir   a   medicação,   como   tirar   Ethan   de   seu   mutismo   através   do                                                                                                                   1

Psicanalista,  professor  associado  da  graduação  e  pós-­‐graduação  do  Departamento  de  Psicologia  da  UFSC,   coordenador  do  Núcleo  de  Estudos  em  Psicanálise,  +  1  do  cartel  de  formação  do  Fórum  de  Florianópolis,   sergioscotti53@gmail.com  

 

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recurso a   uma   engenhosa   estratégia:   o   psiquiatra   resolve   fazer   uma   visita   à   filha   do   antropólogo  e  junto  a  ela  recolhe  algumas  fotos  da  casa,  da  selva  e  do  acampamento  de   Ethan  na  África,  além  de  fotos  dos  gorilas  e  da  própria  filha  de  Ethan,  Lyn.    

Ao exibir  a  última  foto,  de  sua  filha,  a  Ethan  e  perguntar-­‐lhe  o  que  ele  diria  a  ela,  

Théo consegue   que   o   “homem   macaco”,   como   era   chamado   na   prisão,   dissesse:   “Good   bye”.  A  partir  daí  começa  um  diálogo  e  relacionamento  entre  os  dois  que  trará  para  Théo   o  reconhecimento  de  seu  supervisor  e  a  possibilidade  de  ascensão  na  carreira,  além  do   projeto   de   publicação   de   um   “best   seller”,   sugerido   pelo   próprio   supervisor   de   Théo.   Mas   este   relacionamento   trará   muitos   problemas   também,   principalmente   para   Ethan   que   é   constantemente   acossado   pelo   chefe   dos   guardas   da   prisão   o   qual   havia   estabelecido   um   sistema   de   banhos   de   sol,   no   qual   somente   um   dos   presos   recebia   o   benefício.   Ethan   enfrenta-­‐o   e   desmonta   o   sistema   angariando   assim   o   ódio   do   guardas   e   simpatia  dos  presos.  Contando  ainda  com  a  ajuda  de  Théo,  o  sistema  de  distribuição  de   cartas   de   baralho   entre   os   presos   no   qual   o   ás   dava   direito   ao   banho   de   sol   e   era   surrupiado  sempre  pelo  mesmo  preso,  até  ser  enfrentado  por  Ethan,  é  substituído  por   um  sistema  de  sorteio  em  que  todos  têm  direito  ao  benefício.    

Além disso,   o   relacionamento   entre   Ethan   e   Théo   desenvolve-­‐se   de   tal   forma   que  

aquele acaba   tornando-­‐se,   de   certa   forma,   o   terapeuta   do   psiquiatra,   numa   surpreendente  inversão  de  papéis.     Ethan   também   conta   a   Théo   que   a   partir   de   sua   aproximação   e   aceitação   pelo   líder  do  grupo  de  gorilas  que  observava  quando  estava  na  selva,  se  tornou  um  entre  eles     323    


e passou   a   viver   com   os   mesmos   no   meio   da   floresta   africana.   Tal   experiência   contada   a   Théo,   deu   ao   antropólogo   uma   visão   da   história   do   homem   que,   em   seu   início,   seria   caracterizada   pela   convivência   harmoniosa   entre   homens   e   animais,   aqueles   retirando   da  natureza  somente  o  necessário  para  sua  sobrevivência.  Mas,  com  o  tempo,  surgiram   os   homens   “captores”   que   a   transformaram   numa   relação   de   dominação   e   controle.   O   próprio  Ethan  havia  sido  um  “captor”  quando  aprisionou  um  gorila  para  o  zoológico  de   sua  cidade.    

Numa cena   impactante   em   que   Théo   tenta   impor   sua   autoridade   sobre   Ethan,  

este o  imobiliza  e  faz  aquele  perceber  que  não  estava  perdendo  nem  seu  controle  nem   sua   liberdade,   mas   sim,   suas   ilusões.   Noutra   cena   em   que,   mais   uma   vez,   Théo   tenta   sensibilizar   Ethan,   levando-­‐o   numa   visita   ao   zoológico   em   que   se   encontrava   o   gorila   há   tempos   capturado   pelo   antropólogo,   este   se   lembra   de   como,   sentindo-­‐se   cuidado   e   protegido  pelo  olhar  vigilante  do  gorila  líder  do  bando  ao  qual  se  juntara,  de  repente  se   vê  no  meio  de  um  ataque  a  tiros  dos  soldados  que  o  procuravam  na  selva.  O  bando  de   gorilas  é  dizimado  pelos  soldados  apesar  da  tentativa  de  Ethan  em  protegê-­‐los,  na  qual   este  mata  pelo  menos  dois  soldados  que,  no  fim,  matam  todo  o  bando  e  colocam  Ethan,   na  prisão,  por  um  ano,  até  ele  ser  resgatado  pelo  governo  americano.      

O trabalho  de  Théo  com  Ethan  resulta  no  encontro  deste  com  sua  filha  no  qual  ele  

devolve a   ela,   um   retrato   dela   quando   criança,   que   o   mesmo   sempre   levava   consigo,   demonstrando  assim  que  nunca  a  esquecera,  apesar  de  suas  longas  ausências  que  eram   sentidas  pela  filha  como  descaso  e  rejeição.      

324


Contudo, apesar  dos  progressos  conseguidos  por  Théo,  uma  rebelião  dos  presos  

começou porque  o  chefe  dos  guardas  agredira  Ethan  que  não  quisera  entrar  em  sua  cela   da  qual  haviam  apagado  inteiramente  a  história  da  humanidade,  desenhada  por  ele  nas   paredes   da   mesma.   Ethan,   tentando   proteger   um   dos   presos,   tal   como   fizera   com   os   gorilas,  ataca  o  chefe  dos  guardas,  mas  é  dominado  pelos  outros  guardas  e  volta  ao  seu   mutismo.    

Théo desconsolado   procura   Ethan   na   prisão   e   confessa   a   este   que   ele   o   fizera   ver  

o quanto   procurava   agradar   a   todos   em   função   de   sua   ambição   que   agora   lhe   parecia   totalmente  sem  sentido  diante  de  seu  fracasso.  No  entanto,  o  que  Théo  não  sabia,  é  que   Ethan,   munido   da   caneta   de   Théo,   escondida   por   ele   dos   guardas   durante   a   visita   ao   zoológico,   consegue   abrir   uma   das   grades   da   prisão   e,   com   a   ajuda   dos   outros   prisioneiros  que  desviam  a  atenção  dos  guardas,  escapa  e  volta  à  selva.  O  filme  termina   com   Théo   deixando-­‐se   molhar,   com   os   braços   erguidos,   pela   chuva   que   cai,   cena   que   representa  sua  própria  libertação.    

O filme   que   é   bastante   despretensioso   em   termos   artísticos,   é   de   interesse   pelo  

que mostra  sem  o  pretender.  A  primeira  questão  que  nos  surge  é:  por  que  um  homem   culto  embrenha-­‐se  na  selva  por  tanto  tempo,  para  viver  entre  gorilas,  o  que  já  é  bastante   inverossímil,  sustentando  por  uma  concepção  mais  inverossímil  ainda  da  relação  entre   feras   e   homens?   Também   nos   chama   a   atenção   um   determinado   aspecto   de   seu   comportamento   durante   seu   relacionamento   com   o   psiquiatra.   Desde   seus   primeiros  

 

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contatos com   Théo   que   procurava   reaproximá-­‐lo   de   sua   filha,   Ethan   mostrava-­‐se   extremamente  resistente,  expressando  isso  com  a  frase:  “Deixe-­‐a  fora  disso!”.    

Por   outro   lado,   foi   por   causa   da   foto   dela   que   dissera   suas   primeiras   palavras:  

“Good bye”.  Como  também,  foi  o  olhar  espantado  da  filha  a  única  coisa  que  o  fez  parar   durante  seu  ataque  de  fúria  no  aeroporto.  As  duas  coisas  se  mostram  articuladas  quando   pensamos  que  uma  foi  causa  da  outra.  O  verdadeiro  motivo  da  ida  e  isolamento  de  Ethan   na   selva   africana   foi   sua   filha,   na   verdade,   o   desejo   incestuoso   de   Ethan   por   ela.   Um   desejo   tão   intenso   e   poderoso   que   só   poderia   ser   aplacado   pela   distância   continental.   Num  dos  diálogos  de  Lyn  com  Théo,  esta  lhe  conta  que  uma  vez  havia  visitado  seu  pai   em   seu   acampamento   de   Ruanda,   e   que   ele   havia   ficado   muito   contente   por   revê-­‐la   e,   mais  ainda,  por  vê-­‐la  ir  embora.    

O desejo  incestuoso  de  Ethan  por  sua  filha,  nos  remete  ao  complexo  de  Édipo  do  

lado do  pai,  algo  não  muito  comum  na  literatura  psicanalítica,  mas  também,  de  maneira   muito  interessante,  às  possíveis  relações  entre  o  mito  de  Sófocles  e  o  mito  freudiano  da   horda  primitiva  (Freud,  1913/1973).      

Na aproximação   e   interesse   de   Ethan   pelos   gorilas,   veremos   o   retorno   do  

recalcado tanto  quanto  a  confirmação  de  nossa  interpretação  edipiana  através  do  mito   da   horda   primitiva   que   se   atualizam   e   entrecruzam   no   drama   de   Ethan,   o   “homem   macaco”.   Quando   este   finalmente   consegue   ser   aceito   pelo   bando,   após   cuidadosas   aproximações  do  líder,  em  que  o  antropólogo  demonstra  sua  total  submissão  a  ele,  surge   o   interesse   de   Ethan   por   uma   gorilazinha   fêmea   com   a   qual   ele   passa   a   brincar     326    


constantemente sob   o   olhar   vigilante   do   macho   líder.   Ser   cuidado   pelo   olhar   do   gorila   que  o  aceitava  e  tolerava,  era  uma  experiência  incrível  para  Ethan  que  se  sentia  assim   protegido,  na  verdade,  de  seus  próprios  impulsos  incestuosos.    

Contudo, a  ambivalência  em  relação  ao  pai/gorila  não  deixará  de  se  manifestar,  

por mais   que   Ethan   tivesse   se   integrado   ao   bando   de   gorilas   e   rejeitasse   o   convívio   com   os  humanos.    

Quando Ethan  não  voltou  mais  ao  seu  acampamento  porque  passou  a  viver  com  

os gorilas,   seus   auxiliares   e   parentes   certamente   imaginaram   que   ele   estivesse   em   perigo.  Os  soldados  que  o  procuravam  na  selva  estavam,  na  verdade,  procurando  “salvá-­‐ lo”   dos   gorilas.   E   certamente   Ethan   saberia   disso,   tanto   que   em   conversas   com   Théo,   contava   a   este   que   em   suas   andanças   pela   selva   com   os   gorilas,   percebia   sinais   da   presença  próxima  de  humanos.    

Mas, mesmo   assim,   Ethan   mostrou-­‐se   muito   “descuidado”,   deixando   pelo  

caminho alguns  de  seus  objetos,  como  o  seu  facão  e  binóculos  que  logo  foram  achados   pelos   soldados.   Ou   seja,   pode-­‐se   dizer   que   ele   colaborou   assim   para   que   fosse   encontrado  e  que  os  gorilas  fossem  mortos.    

Ao contrário   do   que   pode   parecer   uma   vitória   de   Ethan,   ao   conseguir   fugir   da  

prisão e   voltar   para   a   selva,   esta,   na   verdade,   torna-­‐se   sua   real   prisão   para   onde   retorna   por  não  conseguir  suportar  seu  desejo  incestuoso  mais  uma  vez.  

 

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Aqui nos  reencontramos  com  o  adágio  de  Freud  de  que  a  obra  de  arte  equivale  a  

uma confissão   do   autor   (Freud,   1908/1973).   Não   precisamos   conhecer   a   biografia   do   autor  da  história  que  comentamos,  pois  se  trata  aqui  de  dramas  universais  que  qualquer   sujeito  humano  conhece  em  seu  inconsciente.  E  é  do  inconsciente  do  autor  desta  história   que   podemos   considerá-­‐la   como   um   sintoma,   no   sentido   de   uma   formação   do   inconsciente   que   não   sendo   necessariamente   patológica,   demonstra   a   origem   dos   motivos   dos   personagens   envolvidos   em   sua   trama,   tanto   quanto   a   fantasia   que   a   sustenta   e   que   o   autor   nos   apresenta   através   de   sua   ars   poetica,   como   dizia   Freud   (1908/1973),   o   que   nos   seduz   e   permite   que   compartilhemos   com   ele   dos   mesmos   fantasmas,   como   o   do   retorno   à   mãe   natureza.   Ou   não,   e   nos   deliciemos   de   qualquer   forma,   com   a   expressão,   em   uma   obra   artística,   de   um   mito   que   era   de   Freud   e   que   talvez   não   explique   a   origem   da   cultura   humana,   como   também   pretendia   o   mito   de   Ethan,  mas  nos  dê  alguma  luz  sobre  como  se  estrutura  a  psiquê  do  homem.    

O interesse   deste   trabalho   é   o   de   demonstrar   que   estes   dois   mitos,   tão  

fundamentais para  história  da  própria  Psicanálise,  eles  parecem  se  recobrir  nesta  outra   história   e   que   talvez   se   trate,   na   verdade,   de   apenas   um   mito,   o   Édipo,   inclusive   o   de   Freud   que   aparece   como   seu   sintoma,   tanto   no   mito   da   horda   primitiva   quanto   em   “Moisés  e  a  religião  monoteísta”  (Freud,  1939/1973).  Se  esse  for  caso,  vemos  que  nem   mesmo  o  pai  da  Psicanálise  escapa  a  seu  próprio  adágio.       Referências  bibliográficas:      

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FREUD, S.  (1908).  El  poeta  y  los  sueños  diurnos.  Em:  Obras  Completas  de  Sigmund  Freud,   Madrid:  Biblioteca  Nueva,  1973.  v.  2,  p.  1343–1348.   __________.  (1913).Totem  y  tabu.  Em:  Obras  Completas  de  Sigmund  Freud,  Madrid:   Biblioteca  Nueva,  1973.  v.  2,  p.  1745–1850.   __________.  (1939).  Moises  y  la  religión  monoteísta:  tres  ensayos.  Em:  Obras  Completas  de   Sigmund  Freud,  Madrid:  Biblioteca  Nueva,  1973.  v.  3,  p.  3241–3324.      

 

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ESPAÇO ESCOLA                    

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Cartel: espaço de saber articulado à política da psicanálise

Tereza Oliveira1 O desejo   que   levara   Freud   a   fundar   a   Associação   Internacional   em   1910   –   International   Psychoanalytical   Association     -­‐   (IPA),   era   o   de   resguardar   sua   invenção   e   assegurar  a  continuidade  da  psicanálise  para  além  de  sua  pessoa  e  que  esse  novo  modo  de   saber   se   estendesse   além   de   sua   morte.   Assim,   a   preocupação   constante   de   Freud   era   garantir   a   permanência   da   psicanálise   e   dar   continuidade   ao   movimento   psicanalítico   mundial.   Entretanto,   desde   a   fundação   da   IPA,   o   pensamento   freudiano   foi   desvirtuado.     Freud  via  a  necessidade  de  análise  pessoal  de  seus  adeptos  até  mesmo  para  que  através  da   sua   experiência   pudesse   dar   provas   da   teoria   desenvolvida   por   ele.     O   que   se   deu   foi   o   avesso,   ou   seja,   a   prática   de   formação   de   analistas   tomou   um   caráter   de   expansão   de   tipo   burocrático   e   baseava-­‐se   num   cumprimento   rigoroso   de   atividades   ritualizadas,   ou   seja,   devia-­‐se  consultar  o  analista  um  número  x  por  semana  com  sessões  de  duração  fixa,  durante   um  período,  encontrar  um  supervisor  para  garantir  a  condução  ética  do  caso.  O  estudo  da   psicanálise  viria  a  garantir  uma  boa  formação  teórica.     Dentro  da  IPA,  opõe-­‐se  Lacan  aos  desvios  teóricos  que  ela  praticava  e  a  ilusão  de  uma   formação  analítica  completa  nos  moldes  de  uma  licenciatura  universitária.  Para  Lacan,  essa                                                                                                                   1  Tereza Oliveira – Psicóloga/psicanalista, Mestrado em Psicanálise Saúde e Sociedade, Universidade Veiga de Almeida, Rio de

Janeiro, participante de Fornações Clínicas do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Membro do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e de Petrópolis, Membro da AFCL/EPFCL- Brasil, Membro da EPFCL. E-mail: tmropsi@gmail.com

 

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ritualização da   prática   e   da   formação   do   analista   não   garantiria   o   laço   que   sustenta   a   posição   do   analista   e   do   analisando,   não   há   desejo   do   analista.   Assim,   o   trabalho   a   que   se   refere   à   causa   analítica,   articula-­‐se   à   política   da   psicanálise   e   não   à   uma   política   de   representação.   Na   primeira   metade   da   década   de   1950,   os   seminários   de   Lacan   na   Sociedade   Francesa   de   Psicanálise2,   eram   os   que   se   dedicavam   ao   estudo   dos   textos   freudianos3   dotando  o  movimento  francês  de  uma  política  da  psicanálise  articulada  com  uma  teoria  da   formação.     Lacan  articula  a  Escola  Freudiana  de  Paris  que  nasce  com  o  Ato  de  fundação  em  21  de   junho   de   1964.   Apresenta   em   ata   pela   primeira   vez   o   dispositivo   do   cartel,   proposta   inovadora,   como   parte   da   forma   de   organização   da   Escola,   julgando   que   essa   fosse   a   maneira   mais   adequada   para   promover   o   avanço   do   trabalho   de   cada   analista   e   consequentemente   da   transmissão   da   psicanálise.   A   Escola   deve   ser   sustentada   pelo   discurso   do   analista,   avesso   ao   discurso   civilizatório,   que   é   o   discurso   do   mestre.   Dessa   maneira,   o   compromisso   com   a   causa   analítica   inclui   instituir   o   lugar   e   funcionamento   do   cartel   na   Escola.   Assim,   o   trabalho   a   que   se   refere   à   causa   analítica,   articula-­‐se     à   política   da   psicanálise  e  não  à  uma  política  de  representação.  O  cartel  só  tem  sentido  numa  instituição  

                                                                                                              2

 Sociedade  fundada  por  Lagache  e  Lacan.  Marcou  a  ruptura  com  a  IPA    Lacan  inicia  os  seus  seminários  retornando  aos  escritos  clínicos  de  Freud,  como  o  do  “Homem  dos  Lobos”  e  o   do  “Homem  dos  Ratos”  e  com  os  “Escritos  Técnicos  de  Freud”.  Trata-­‐se  de  um  retorno  ao  vigor  do  ensino  de   Freud,  retorno  esse,  aos  fundamentos  que  constituem  uma  comunidade  de  Escola  orientada  para  o  real  do   clínica  .  

3

 

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sui generis,   chamada   Escola   para   a   psicanálise   e   Quinet   (1994,   p.   XVI-­‐XVII),   ao   comentar   sobre  essa  instituição  sui  generis  proposta  por  Lacan  nos  diz  que    a  Escola    veio  para,       “responder   ao   nível   da   organização   institucional   à   estrutura   que   se   depreende   na   prática   psicanalítica   do   inconsciente,   inventada   por   Freud   e   que   assim   como   a   estrutura   do   sujeito   se   organiza   em   torno   de   um   furo   a   partir   do   postulado   fundamental   da   psicanálise,   a   Escola     como   formação   coletiva   se   estrutura   em   torno   da   ausência   do   conceito   preestabelecido   do   analista”4.      

O cartel   como   órgão   de   base   da   Escola,   representa   o   organismo   onde   se   deve   cumprir   um   trabalho   que   traz   a   práxis   original   instituída   por   Freud,   ou   seja,   a   psicanálise.  A  Escola  Freudiana  de  Paris,  diz  Lacan  (1964,  p.  17),  na  Ata  de  Fundação,  “em   sua   intenção,   representa   um   organismo   onde   deve   se   realizar   um   trabalho   que,   no   campo  que  Freud  abriu,  restaura  a  lâmina  constante  de  sua  verdade”.5  Assim,    “para   a   execução   desse   trabalho   adotaremos   o   princípio   de   uma   elaboração   baseada   num   pequeno   grupo;   cada   um   deles   será   composto   por   três   pessoas,  no  mínimo,  e  por  cinco  no  máximo   –  quatro  é  a  medida  certa.  MAIS   UMA   encarregada   da   seleção,   da   discussão   e   do   destino   reservado   a   cada   um.  Após  um  certo  tempo  de  funcionamento,  se  proporá  aos  elementos  de   um   grupo   sua   permutação   para   outro.   O   cargo   de   direção   não   constituirá   um   caciquismo   (chefferie)   (...).   Pela   razão   de   que   todo   empreendimento   pessoal   levará   seu   autor   às   condições   de   crítica   e   de   controle   onde   todo   o   trabalho  a  ser  desenvolvido  será  submetido  à  Escola....”  6  

                                                                                                              4

Quinet,  A.  Prefácio,  in  O  Cartel-­‐  conceito  e  funcionamento  na  escola  de  Lacan,  (org.  Stella  Gimenez)  Aparecida   São  Paulo:  Editora  Campus:  1994.     5   Transcrição   das   discussões   das   jornadas   sobre   cartéis   (abril/1975)   publicada   em   Lettres   de   l’École   Freudienne   o   o de  Paris  n 18  –  1976  in    Letra  Freudiana  Escola,  psicanálise  e  Transmissão,  Ano  I,  n  0,  Documentos  para  Escola   –  Circulação  interna   6    Ibid,  

 

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O Mais-­‐Um    ao  lado  da  responsabilidade    tem  um  compromisso  com  a  estrutura   da  Escola.     Na   constituição   do   cartel,   quatro   se   escolhem   livremente   em   torno   de   um   tema.   Não   existe   um   saber   pronto,   mas   um   saber   novo   a   se   produzir   como   produto   do   trabalho,   tal   como   acontece   na   clínica   psicanalítica.     A   escolha   do   Mais-­‐Um,   passa   pela   suposição  de  saber,  mas  ele  deve  sair  desse  papel  mediante  seu  próprio  desejo  para  que   emerja   algo   novo.     Se   ele   responde   do   lugar   de   mestre,   fortalece   a   consistência   imaginária   e   de   cola,   está   do   lado   da   ocultação   estrutural   do   desejo,   um   efeito   do   imaginário  sobre  o  simbólico,  gerando  uma  inibição  do  saber.  O  Mais-­‐Um  tem  a  função   de  cortar  a  consistência  imaginária,  assinalando  seu  caráter  de  saber  não  todo.  O  Mais-­‐ Um   se   sustenta   pelo   corte   oferecido   pelo   Nome-­‐do-­‐Pai.   Os   laços   libidinais   que   unem   o   grupo   no   cartel   são   em   torno   do   trabalho   a   partir   da   escolha   do   tema   e   o   Mais-­‐Um   é   escolhido   em   função   de   um   traço.   O   Mais-­‐Um   deve   situar-­‐se   no   lugar   onde   possa   manejar   a   transferência,   da   transferência   a   ele   à   transferência   do   texto.   Entretanto,   essa   tarefa,  não  é  uma  tarefa  sem  custos,  pois  há  o  custo  da  perda  das  idealizações,  acerca  do   saber,  de  ser  um.  Como  nos  diz  Pedrosa  (2002,  p.  20):  “Decidir  na  posição  daquele  que   pode   faltar   é   decidir   sobre   o   destino   das   ambições   no   sujeito,   e   poder   dar   lugar   ao   trabalho,  como  a  outra  valia,  se  o  que  rende  do  luto  é  o  trabalho”.7  

                                                                                                              7

Pedrosa,  M.  A.  L,  Estilete,  Cartel,  transmissão  e  garantia  –  a  outra  valia  in    Boletim  da  Associação  dos  Fóruns     0   do  Campo  Lacaniano  Brasil,  n 4,  ,  Belo  Horizonte,  Minas  Gerais.:  2004,  

 

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Se de   um   lado   favorece   o   vínculo   pelo   trabalho,   de   outro,   após   concluída   a   tarefa,  sua  lógica,  inclui  a  dissolução  que  está  presente  desde  o  início,  como  podemos  ver   na  Ata  de  Fundação:”Após  um  certo  tempo  de  funcionamento,  se  proporá  aos  elementos   de  um  grupo  a  sua  permutação  para  outro”(LACAN,  1964,  ).8     Em   abril   de   1975,   a   Escola   Lacaniana   de   Paris   realiza   uma   “Jornada   sobre   Cartéis”,  destinada  a  refletir  sobre  a  experiência  desses  “pequenos  grupos”  e  suscitar  um   debate   sobre   a   formação   de   cartéis   na   Escola.   A   Jornada   foi   um   lugar   fecundo   de   discussão   no   qual   Lacan   alencou   um   debate   acalorado   sobre   o   Mais-­‐Um.     Lacan   dizia,   que  o  Mais-­‐Um,  deve  ser  qualquer  um,  uma  pessoa,  não  a  ausência,  

“pensem,  será  um  suporte  possível  dessa  ‘mais  uma  pessoa’  da  qual   indiquei  não  a  ausência,  mas  justamente  a  presença,  pois  não  há  um   traço   de   sinal   por   ausência,   no   meu   mais-­‐uma   no   texto   (...)   esse   mais-­‐ uma  sempre  se  realiza,  sempre  há  alguém  no  grupo,  mesmo  que  seja   por  um  momento....”9      É  interessante  notar  que  aqui  Lacan    sugere  a  idéia  do  Mais-­‐Uma,  desligando-­‐a   do  seu  contexto  original.   O  que  marca  esse  debate,  é  que  o  lugar  do  Mais-­‐Um  é  um  lugar  vazio,  situando-­‐ se  em  oposição  a  todo  caciquismo  imaginário.  Nessa  Jornada,  Lacan  articula  esse  ‘Mais-­‐ Uma’   sob   a   forma   do   nó   borromeano,   nos   dizendo   que   x+1   é   o   que   define   o   nó   borromeano  ou  nós  trançados  é  “a  partir  de  reiterar  esse  1  –  que  no  nó  borromeano  é                                                                                                                   8

o

Op.   cit.   P.17,   Letra   Freudiana   Escola,   psicanálise   e   Transmissão,   Ano   I,   n   0,   Documentos   para   Escola   –   Circulação  interna.   9      Ibid,  p.69-­‐/70.  

 

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qualquer um  –  que  se  obtém  a  individualização  completa,  ou  seja,  do  que  sobra  –  a  saber  

do x   em   questão   –   não   há   mais   um   por   um”(p.   67).10     Em   o   R.S.I.   O   seminário   (1974/1975,  p.  74),  na  aula  de  15  de  abril  de  1975,    Lacan  nos  diz  que:    “Mas  foi  bem  por  isso  que  me  vi,  no  fim  dessas  jornadas,  tendo  que   responder  a  algo  a  que  ninguém  é  claro,  prestara  atenção  na  Escola,   ou  seja,  no  que  constitui  o  que  a  gente  chama  de  cartel.  Um  cartel,  por   que?”11          Nessa   aula,   Lacan   compara   o   cartel   ao   nó   borromeano.   Há   três   que   encarnam   o   Simbólico,   Imaginário   e   o   Real,   são   as   consistências   mínimas   que   o   constitui.   A   mais   uma,   segundo   ele,   estará   aí   mesmo   que   sejam   três,   isso   faz   quatro,   donde   a   expressão   do   mais-­um,   é   a   que   amarra,   e   no   dizer   de   Maria   Anita12,   a   amarração   borromeana   dos   mesmos.   Esse  Mais-­‐Um  sempre  se  realiza,  mesmo  que  seja  por  um  momento.  O  Mais-­‐Um   não  é  o  da  adição  e  nem  diz  respeito  ao  somatório  do  cartel,  não  é  um  número,  é  o  que   faz   elo   nessa   figura   topológica.   Aqui,   Lacan   começa   a   reverter   radicalmente   o   sentido   da   figura  do  Mais-­‐Um  tal  como  era  sugerida  na  Ata  de  Fundação  da  Escola,  encarregada  da   seleção,   da   discussão   e   do   destino   reservado   ao   trabalho   de   cada   um.   Ao   remeter   ao   funcionamento   dos   cartéis   à   figura   topológica   do   nó   borromeano,   atribui   o   papel   ou  

                                                                                                              10

o

Letra  Freudiana  Escola,  psicanálise  e  Transmissão,  Ano  I,  n  0,  Documentos  para  Escola  –  Circulação  interna.    Lacan,  J.  .RSI..    O  seminário.-­‐   12  A  esse  respeito,  ver  Maria  Anita  Carneiro  Ribeiro,  A  função  borromeana  da  função  do  mais-­‐um  no  cartel,,  Em   torno  do  Cartel  a  experiência  na  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano,  Associação  dos  Fóruns   do  Campo  Lacaniano,  Belo  Horizonte,  Minas  Gerais:  2004.     11

 

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lugar ao  da  Mais-­‐Um  a  qualquer  um,  ou  seja,  um  ‘lugar  vazio’  que  pode  ser  ocupado  por   ‘qualquer  um’.   Em   5   de   janeiro   de   1980,   na   Carta   de   Dissolução13,   Lacan   dissolve   a   Escola   Freudiana   de   Paris   e   nesse   mesmo   ano,     na   aula   de   11   de   março   “,   no   seminário   D’Écolage   o   Desplegue   de   la   Escuela”   quando   lança   a   Causa   Freudiana,   continua   apostando  no  dispositivo  do  cartel.  Restaura  o  órgão  de  base  (cartel),  mas  pelo  viés  do   nó   borromeano,   acrescentando   que   o   Mais-­‐Um   pode   ser   qualquer   um,   mas   deve   ser   alguém,   encarregado   de   “velar   pelos   efeitos   internos   do   empreendimento   e   de   provocar   sua  elaboração.”  (p.45)  14,e  não  só  de  selecionar,  discutir  e  dar  saída  ao  trabalho  de  cada   um.  Ele  é  um  agent  provocateur..      Lacan   ao   retomar   as   características   do   cartel,   ele   não   chama   mais   de   grupo,   como   o   fazia   na   Ata   de   Fundação   da   Escola   e   em   1980,   precisa   que   esse   produto   seja   individual   e   não   coletivo.   E   ao   Mais-­‐Um   cabe   também   produzir   um   trabalho   como   os   cartelizantes.   Esse   produto,   esse   texto   não   é   endereçado   a   um   Outro   ideal,   mas   a   qualquer   interlocutor   que   queira   dar   mais   um   passo   na   construção   da   psicanálise.   Coloca   que   para   prevenir   “o   efeito   de   cola   [de   colle]   deve-­‐se   realizar   a   permutação   no   prazo   estabelecido   de   um   ano   e   de   no   máximo   dois   e   não   se   espera   outro   progresso   senão   o   de   uma   periódica   exposição   dos   resultados,   assim   como   das   crises   de   trabalho.”  

                                                                                                              13

O  texto  original  da  Carta  de  Dissolução  jamais  foi  divulgado,  segundo  Elisabeth  Roudinesco.   o Letra  Freudiana  Escola,  psicanálise  e  Transmissão,  Ano  I,  n  0,  Documentos  para  Escola  –  Circulação  interna,.  

14

 

337


(p.51)15 Assim,   o   cartel   no   final   desse   tempo   ele   se   dissolve,   o   que   permite   evitar   a  

inércia constatável  nos  grupos  de  trabalho  que  se  eternizam  e  fazem  obstáculo  ao  novo   saber  para  o  sujeito.  Nesse  instante  de  concluir,  o  Mais-­‐Um  marca  o  corte,  desfazendo  o   nó  borromeano.  Aí  o  Mais-­‐Um  não  vai  fazer  mais  laço,  este  se  desfaz  e  cada  cartelizante   vai  para  seu  lado,  retomando  a  sua  solidão.   Lacan   fazia   uma   aposta   na   transmissão   pelo   matema.   O   cartel   tem   uma   estrutura  matêmica,  da  qual  a  mais  simples  apreensão  é  4  +  1.  A  mesma  palavra,  cartel,   tem   uma   referência   matêmica,   além   de   vir   do   latim   cardo,   que   significa   gonzo16,   dobradiça.  A  palavra  cartel  provém  de  quatro,  que  faz  referência  ao  nó  borromeano.  O   cartel  é  dobradiça,  porta  de  entrada  na  Escola.  Para  concluir,  cito  Delgado  (2002,  p.23):      “Posso   imaginar   que   com   a   provocação   do   cartel,   Lacan   estaria   nos   dizendo:   Saiam   de   suas   poltronas   e   produzam   um   escrito   sobre   o   que   formularam   de   suas   análise   e   sua  clínica  e  tragam  a  céu  aberto  para  que  um  interlocutor  qualquer  possa  levar  a   empreitada  mais  adiante.  Se  ainda  não  há  uma  conclusão,  exponham  ao  menos  suas   crises  de  trabalho.  Com  certeza  isso  terá  um  efeito  sobre  seu  ato”17.      

BIBLIOGRAFIA CARVALHO,   M.   C.   D.   Cartel   uma   provocação?   Estilete   Boletim   da   Associação   dos     Fóruns     do   Campo  Lacaniano  –  Brasil,  n0    8,  Salvador.  Bahia:  maio  de  2004.      

                                                                                                              15

Ibid      Dobradiça  de  porta  ou  janela.   17    Carvalho,  M.  C.  D.  Estilete,    Cartel  uma  provocação?  Estilete    Boletim  da  Associação  dos    Fóruns    do  Campo   0   Lacaniano  –  Brasil,  n  8,  Salvador.  Bahia:    maio  de  2004.     16

 

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CARNEIRO. M.   A.   R.   Em   torno   do   Cartel   a   experiência   na   Escola   de   Psicanálise   dos   Fóruns   do   Campo   Lacaniano,   Associação   dos   Fóruns   do   Campo   Lacaniano,   Belo   Horizonte,   Minas   Gerais:  2004.       LACAN,  J.  .RSI.    O  seminário.-­‐     Letra  Freudiana  Escola,  psicanálise  e  Transmissão,  Ano  I,  no  0,  Documentos  para  Escola  –   Circulação  interna.     PEDROSA,   M.   A.   L,   Cartel,   transmissão   e   garantia   –   a   outra   valia   in   Estilete,     Boletim   da   Associação   dos   Fóruns     do   Campo   Lacaniano   Brasil,   n0   4,   ,   Belo   Horizonte,   Minas   Gerais.:   2004,     LETRA  FREUDIANA  ESCOLA,  PSICANÁLISE  E  TRANSMISSÃO,  Ano  I,  no  0,  Documentos  para   Escola  –  Circulação  interna,.     QUINET,  A.  Prefácio,  O  Cartel-­‐  conceito  e  funcionamento  na  escola  de  Lacan,  (org.    GIMENEZ,   Stella,    Aparecida  São  Paulo:  Editora  Campus:  1994.  

 

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O Passe: a razão de um fracasso

Ana Laura  Prates1     Começarei   esse   trabalho   justo   no   ponto   onde   terminei   meu   último   texto   escrito  sobre  o  passe,  chamado  “Os  tempos  do  passe”,  que  está  publicado  na  revista   Folhetim,  n.  7.  Naquele  texto,  procurei  articular  o  passe  com  a  idéia  de  artifício,  a   partir   do   livro   de   Jorge   Seprum   A   escrita   ou   a   vida   –   que,   aliás,   eu   volto   a   recomendar   a   vocês   que   o   leiam,   pois   suas   afinidades   com   o   passe   são   espantosas.   Cito,  então,  um  trechinho  do  meu  trabalho:     Essa  idéia  de  artifício  me  parece  preciosa  porque  aponta  justamente   para   uma   ação   que   produz   um   corte   na   infinitização   da   série   significante   que   vela   o   real.   A   construção   de   uma   obra   artificial   exige   uma  posição  de  desejo   decidida  e  não   se   sustenta   sem   a   presença   do   ato.   Emprestar   a   materialidade   da   letra   ao   testemunho   não   é,   portanto,   algo   espontâneo.     Há,   entretanto,   algo   que   a   letra/carta   carrega  –  como  diz  Lacan  em  Lituraterra  –  que  a  faz  sempre  chegar  a   seu   destino.   “A   borda   do   furo   no   saber,   não   é   isso   que   a   letra   desenha?   ”   Deixo   essa   pista   apenas   indicada,   para   ser   desenvolvida   em  outra  oportunidade.  (PRATES,  2008,  p.  37)    

Essa é,   portanto,   a   oportunidade   para   desenvolver   essa   pista,   que   contém  

em si   uma   hipótese:   a   de   que   o   passe   é   o   artifício   através   do   qual,   aquele   que   decide   historisterizar-­se   de   si   mesmo,   pode   tentar   desenhar   a   borda   do   furo   no   saber.  O  meu  texto  “Os  tempos  do  passe”,  entretanto,  foi  finalizado  com  a  seguinte                                                                                                                   1

AME,  Membro  da  Escola  de  Psicanálise  dos  Fóruns  do  Campo  Lacaniano  –  Brasil,  Membro  do  Fórum   São  Paulo.  

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afirmação de  Lacan,  extraída  de  “Televisão”:  “Felizes  os  casos  de  passe  fictício  para   formação   inacabada:   deixam   esperança”.   Ora,   porque   Lacan   evoca   a   esperança   nos   passes  fictícios  para  formação  inacabada?    

Vou abordar  essa  questão  fazendo  alguns  recortes:  

I. O  passe:  um  fracasso?   O   passe   foi  –   e   é   várias   vezes  –   acusado,   ao   longo   da   história   do   movimento   psicanalítico   pós-­‐lacaniano,   de   ter   fracassado.   Alguns   chegam   a   atribuir   ao   próprio   Lacan  o  reconhecimento  desse  fracasso.  O  dispositivo  do  passe  foi  apresentado  por   Lacan   na   famosa   “Proposição   de   9   de   outubro   de   1967”   que,   como   vocês   sabem,   tem   duas   versões,   ambas   atualmente   publicadas   nos   Outros   Escritos.   Desde   que   foi   proposto,   o   passe   gerou   várias   críticas   e   crises;   rupturas   e   cisões.   Em   casos   mais   extremos  e  infelizes,  tornou-­‐se  um  poderoso  instrumento  de  manipulação  político-­‐ institucional.  Nas  versões  mais  dramáticas,  foi  responsabilizado  por  alguns  –  como   Perrier,   por   exemplo,   de   provocar   o   suicídio   daqueles   que   ficaram   mais   de   um   ano   sem  receber  qualquer  resposta  do  júri  –  hoje  chamado  ‘cartel  do  passe’,  ou  que  não   foram  nomeados  AE.      

Ora, de  fato,  se  analisarmos  o  dispositivo  de  perto,  chegaremos  à  conclusão  

de que,  o  que  não  faltam,  são  oportunidades  para  que  algo  falhe  e  assim,  produza  o   fracasso.   Vamos   elencar   apenas   algumas   delas,   em   relação   às   quais   não   se   pode   dizer   que   sejam   contingentes   mas,   antes,   fazem   parte   da   própria   estrutura   do   dispositivo:   1) A   nomeação   dos   AMEs   –   título   outorgado   aos   analistas   “que   deram   suas   provas”   na   Escola,   e   que   têm,   assim,   o   direito   e   a   responsabilidade   de   designar   os   passadores   –   é   feita   pela   Comissão   de   Garantia   da   Escola   –   que,   atualmente,   é   internacional.   Essa   Comissão,   evidentemente,   pode   se  

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enganar, ainda  que  parcialmente,  nessas  nomeações,  já  que  elas  não  se  dão   exclusivamente  por  critérios  objetivos.   2) Os   AMEs,   por   sua   vez,   têm   a   responsabilidade   de   designar,   dentre   seus   analisantes,   aqueles   que   estejam   no   momento   do   passe   clínico   e   que   estejam  aptos  a  participar  do  dispositivo  na  Escola.  Também  eles,  ainda  que   psicanalistas   experientes   e   orientados   pela   ética   da   psicanálise,   podem   se   equivocar  quanto  ao  cálculo  clínico  desse  momento.   3) Os   passadores   designados   por   seus   analistas   podem   não   estar   de   acordo   com  a  avaliação  de  que  estejam  aptos  a  exercer  essa  função.  E,  mesmo  que   consintam  em  exercê-­‐la  podem,  por  várias  razões  mais  ou  menos  objetivas   ou  subjetivas,  não  estar  à  altura  do  dispositivo.  Além  do  mais,  sabemos  que   uma   neutralidade   positivista,   nesse   caso,   não   apenas   é   impossível,   como   certamente  indesejável.   4) O   próprio   passante   pode   estar   equivocado   quanto   ao   advento   de   seu   momento  de  passe,  seja  no  que  diz  respeito  ao  final  da  análise,  seja  no  que   tange  à  emergência  do  desejo  do  analista.   5) O  cartel  do  passe,  oriundo  também  da  Comissão  de  Garantia  também  pode   se   enganar,   sobretudo,   como   discutiremos   mais   adiante,   no   que   se   refere   às   não  nomeações.  E  isso,  como  veremos,  por  uma  razão  estritamente  lógica.     Esse  elenco  de  “pontos  fracos”  do  dispositivo  do  passe  é  propositadamente   superficial,   destacando   seus   elementos   imaginários,   embora,   como   eu   sublinhei,   sejam   inerentes   à   própria   estrutura   do   dispositivo   e   não   a   eventuais   desvirtuamentos.   Deve-­‐se   somar   a   ele,   portanto,   os   eventos   conjunturais   que   podem   colocar   em   risco   a   seriedade   do   passe,   seja   por   desvios   éticos,   morais,   ou   por  outros  problemas  de  funcionamento.  Por  exemplo,  uma  comunidade  que  não   esteja  à  altura  das  exigências  clínicas  do  dispositivo.    

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Ora, esse  levantamento,  ainda  que  precário,  mapeia  quase  a  totalidade  dos   argumentos   frequentemente   utilizados   por   aqueles   que   se   colocam   contra   o   passe,   ainda  que,  em  alguns  casos,  se  procure  carregar  mais  na  tinta,  ocupando  o  passe  o   lugar  de  vilão  protagonista  do  melodrama  em  que  às  vezes  se  transforma  a  história   do  movimento  psicanalítico.     Se   analisarmos   seus   pormenores,   entretanto,   a   única   conclusão   a   que   chegamos   com   alguma   certeza,   é   a   de   que   o   passe   é   um   dispositivo   falível.   Essa   constatação   é   tão   óbvia,   quanto   decepcionante   para   a   maioria   dos   neuróticos,   ávidos   por   garantias   absolutas.   Ironia   que   aqueles   que   mais   se   decepcionam   ou   que  mais  depreciem  o  passe  sejam,  justamente,  os  que  parecem  revelar,  pela  via  da   denúncia   de   seu   fracasso,   a   expectativa   idealizada   que   depositavam   em   seu   sucesso.   II.  Quanto  sucesso!    

Mas, o  que  seria,  então,  o  sucesso  do  passe?  Talvez  se  possa  dizer  que  a  lista  

de didatas   da   IPA   –   que   Lacan   chamou   de   Suficiências   –   seja   uma   história   de   psicanalistas   bem   sucedidos   em   suas   carreiras.   O   final   de   análise   proposto   como   identificação  ao  analista  pode  realmente  ser  uma  história  de  sucesso.          

Em outras  paragens,  mesmo  lacanianas,  o  sucesso  também  é  relativamente  

comum, pois,   como   deixa   claro   Lacan   no   Seminário   24   “L´insue”,   a   identificação   ao   inconsciente  pode  levar,  no  mínimo,  à  resignação  e,  no  pior  dos  casos,  ao  cinismo.  E   o  homem  cínico  é,  quase  sempre,  um  homem  de  sucesso!    

A esse   respeito,   gostaria   de   retomar   um   recorte   do   testemunho   de   Silvia  

Franco publicado   na   Stylus   n.   19,   que   me   marcou   muito   desde   que   o   ouvi   pela   primeira  vez:    

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A incidência  do  discurso  analítico  com  seus  cortes  permitiu  evidenciar  no   percurso  da  última  análise  a  posição  do  sujeito  e  o  que  havia  sido  a  análise   anterior  desde  o  primeiro  encontro:  um  sucesso.  “Quanto  sucesso!”,  frase   ouvida   na   primeira   sessão   da   análise   após   relatar   com   empolgação   o   lugar   onde   havia   conseguido   chega   após   anos   e   anos   de   tratamentos   psicológicos.  A  penúltima  análise  de  ‘orientação  lacaniana’  tinha  renovado   as  esperanças  de  conseguir,  através  da  sagração  do  eu,  tapear  o  real  sem-­‐ sentido,   traumático.   A   eficácia   desse   tratamento   permitiu   ao   analista   dar   a   análise   por   concluída,   seguido   de   um   convite   para   dividir   o   consultório   e   atividades  psicanalíticas,  o  que  permitiu  ao  analisante  procurar  um  outro   analista.   Reafirmar   a   posição   fantasmática   do   sujeito   no   lugar   da   ‘escolhida’  teve  como  uma  das  conseqüências  a  acentuação  dos  sintomas:   o  de  não  poder  valorizar  nada  e  o  de  não  poder  falar  nada.  (FRANCO,  2009,   p.  )  

Vemos aqui  destacada  com  precisão  a  problemática  de  uma  análise  que  se  

pretenda terminada   pela   via   do   sucesso.   Numa   época   em   que   o   discurso   hegemônico   é   o   Discurso   do   Mestre   moderno,   mais   conhecido   como   Discurso   do   Capitalista,  no  qual  os  sujeitos  são  divididos  entre  winners  and  loosers,  a  crítica  à   ideologia   regida   pelo   imperativo   “Ao   sucesso!”   –   como   dizia   uma   antiga   propaganda  de  cigarro  –  não  apenas  é  necessária,  como  essencial  para  a  vigência   do   Discurso   Analítico   no   mundo.   O   sucesso,   nesse   sentido   específico,   como   nos   mostra  Silvia  Franco,  só  pode  levar  ao  pior.     Ora,  por  outro  lado,  é  fundamental  destacar  que  a  crítica  ao  ideal  de  sucesso   não   pode,   de   modo   algum,   levar   a   psicanálise   a   se   posicionar   do   lado   de   uma   apologia   aos   que   “fracassam   ao   triunfar”   –   ou   menos   ainda,   dos   que   “triunfam   a   fracassar”.   Freud   foi   sensível   a   essa   dificuldade   do   neurótico   em   lidar   com   a   consistência  imaginária  que  um  triunfo  pode  ter.    Vocês  se  lembram  do  texto  “Os   que  fracassam  ao  triunfar”  (1916),  no  qual  Freud  analisa  diversos  casos  de  sujeitos   que  “amarelaram”  na  hora  “H”.  Justo  quando  está  prestes  a  realizar  um  desejo  há   muito   acalantado   e   esperado,   o   sujeito   recua   a   ocupar   aquele   lugar.   Há   vários    

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aspectos muito   interessantes   levantados   por   Freud   nesse   texto,   mas   o   que   eu   gostaria  de  destacar  aqui,  é  a  sua  conclusão:  o  neurótico  tem  dificuldade  de  ir  além   do  pai.  Prefere  a  culpa  submissa  que  mantém  o  pai  em  seu  devido  lugar,  a  ter  que   pagar  o  preço  por  sustentar  seu  próprio  desejo.              

Vejam,   então,   que   esse   tipo   de   fracasso   calculado,   tipicamente   neurótico,  

nada tem   a   ver   com   o   passe.   Ao   contrário,   o   passe,   tanto   clínica   quanto   institucionalmente,  exige  um  “ir  além  do  pai,  com  a  condição  de  que  se  possa  servir   dele”.  Quem  se  dispõe  à  experiência  do  passe  é  alguém  que  não  hesita  em  ocupar   um   lugar   na   Escola,   ainda   que,   como   nos   lembra   Dominique   Fingermann   em   seu   texto  “O  Momento  do  passe”  –  publicado  na  revista  Stylus  n.  14  –  “a  nomeação  (AE)   não   é   um   batizado,   uma   sansão,   um   reconhecimento,   uma   condecoração,   nem   uma   iniciação”.     Aliás,  como  adverte  Bernard  Nomine  na  “Introdução  à  Jornada  de  Toulouse   sobre   o   passe”,   publicada   na   Revista   Wunsch   n.   9,   não   se   deveria   solicitar   ao   passante  que  se  ofereça  à  experiência  do  passe,  como  a  um  sacrifício  em  nome  do   Outro   da   Escola   de   Psicanálise,   mas,   antes,   que   ele   possa   oferecer-­‐se   essa   experiência.   É   claro   que   isso   não   quer   dizer,   tampouco,   que   o   passe   possa   ser   reduzido   a   uma   experiência   pessoal,   fora   do   âmbito   da   Escola,   já   que,   como   o   próprio  Nomine  ressalta:  “o  passe  é  uma  experiência,  qualquer  que  seja  o  lugar  que   se  ocupe  no  dispositivo:  passante,  membro  de  um  cartel  do  passe,  passador”  –  e  eu   acrescentaria   até   mesmo   ser   membro   do   secretariado   do   passe,   lugar   que   tenho   ocupado  nos  últimos  dois  anos  e  que  é  a  borda  do  dispositivo.     Quanto   ao   lugar   específico   do   passante,   entretanto,   Colette   Soler   –   em   seu   texto   “As   condições   do   ato,   como   reconhecê-­‐las?”,   publicado   na   Revista   Wunsh   n.   8   –   comenta   que   o   passe   não   pode   centrar-­‐se   na   expectativa   de   que   o   passador   revele  qual  objeto  ele  se  fez  para  o  Outro.  Ela  adverte:  “Não  encorajemos,  portanto,   os   passantes   ou   os   AE   a   nos   expor   o   objeto   que   eles   são,   a   famosa   letra   do   sintoma  

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(...). Buscar  o  que  não  se  pode  encontrar,  isso  programa  a  decepção,  o  sentimento   de  fracasso  e,  às  vezes,  o  mutismo  aflito.”    

Ora, se   o   fracasso   de   que   se   trata   no   passe,   não   é   nem   aquele   provocado  

pela impotência  do  neurótico  que  o  inibe  a  ir  além  do  pai,  nem  aquele  programado   pela   demanda   impossível   de   um   suposto   acesso   ao   real,   de   que   fracasso   se   trataria?     III.  Do  que  não  se  pode  falar,  melhor  se  calar?    

O título   do   meu   trabalho   –   “O   passe:   a   razão   de   um   fracasso”   –   é   uma  

paródia do   título   da   2ª.   Conferência   de   Roma   proferida   por   Lacan,   e   por   ele   nomeada:   “Psicanálise:   razão   de   um   fracasso”,   que   foi   proferida   em   15   de   dezembro  de  1967.  No  dia  anterior,  em  Napolis,  ele  havia  dado  outra  conferência,   essa   mais   conhecida,   denominada   “O   engano   do   sujeito   suposto   saber”.   Lembremos   ainda   que   estamos   no   ano   da   “Proposição   de   9   de   outubro”   sobre   o   passe  e  que  Lacan  já  vinha  enfrentando  forte  oposição  ao  mesmo  no  interior  de  sua   Escola   –   o   que,   inclusive,   provocou   a   primeira   cisão   no   movimento   lacaniano.   Talvez   não   tenha   sido   por   acaso   que   Lacan   tenha   escolhido   o   dia   de   Saint   Denis,   patrono   da   França   e   mártir   que   foi   decapitado   e   que   é   sempre   representado   com   a   cabeça   na   mão.   Lembrem-­‐se   do   que   ele   diz   sobre   sua   cabeça   ter   sido   entregue   como  propina  à  IPA,  durante  seu  processo  de  excomunhão.    

Vejam que  Lacan  nos  convoca  a  tratar  da  dimensão  do  engano  –  meprise  –,  

que também  pode  ser  traduzido  por  equivoco,  tapeação  ou  confusão.  Vejam  o  que   diz  Lacan:     Guardem   ao   menos   isso:   meu   empreendimento   (entreprise)   não  ultrapassa  o  ato  em  que  é  apreendido  (prise)  e,  portanto,   não  tem  chance  senão  por  seu  mal-­‐entendido  (méprise).  Cabe   ainda   dizer   do   ato   psicanalítico   que,   sendo   ele,   por   sua   revelação  original,  o  ato  que  nunca  tem  tanto  sucesso  quanto   ao   ser   falho,   essa   definição   não   implica   a   reciprocidade.   O   que    

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equivale a  dizer  que  não  basta  ele  fracassar  para  ter  sucesso,   que   o   fiasco   (ratage),   por   si   só,   não   inaugura   a   dimensão   do   engano   que   está   aqui   em   questão.   (LACAN,   1967/2001,   p.   340)      

E ele  acrescenta:     Por  isso  é  que  há  toda  uma  parte  de  meu  ensino  que  não  é  ato   analítico,  mas  tese  sobre  as  condições  que  redobram  o  engano   próprio   do   ato   com   o   fracasso   em   sua   recaída.   Não   ter   podido   alterar  essas  condições  situa  meu  esforço  na  suspensão  desse   fracasso.  (...)  Será  em  Roma  que,  em  memória  de  uma  guinada   de   meu   empreendimento,  fornecereis  amanhã  a  medida  desse   fracasso  e  suas  razões.  (LACAN,  op.  Cit.  p.  340)        

   

Ora, de  fato,  no  dia  seguinte,  Lacan  dirá,  em  Roma,  que  o  mistério  a  respeito  

do ato  que  franqueia  a  passagem  de  analisante  a  analista  –  e  que  ele  vinha  tratando   em   seu   Seminário   sobre   o   Ato   e   na   “Proposição”   –   continua   a   se   adensar.   Ele   se   queixa:   “E   qualquer   tentativa   de   introduzir   nele   uma   coerência   e,   em   especial   para   mim,  de  formular  a  mesma  pergunta  com  que  interrogo  o  próprio  ato,  determina,   até  mesmo  em  alguns  que  julguei  decididos  a  me  seguir,  uma  resistência  bastante   estranha”.   (LACAN,   1967/2001b,   p.   347).   E   conclui:   “Não   tenho   razão   de   me   surpreender   pelo   fracasso   de   meus   esforços   para   desatar   a   estagnação   do   pensamento  psicanalítico”.  (LACAN,  op.  Cit.  p.  349).    

Como vocês   notaram,   considero   que   essas   duas   conferências   devem   ser  

trabalhadas como   se   fosse   uma   só.   E   delas   se   deve   extrair   uma   lógica.   Eu   leio   a   “razão”  do  título  da  segunda  conferência  no  sentido  matemático:  a  escrita  de  uma   proporção,  ou  como  diz  Lacan,  a  “medida”  do  fracasso.    O  interessante  é  que  ele  nos   convoca  a  medir  esse  fracasso.  Diante  da  falha  estrutural,  do  impossível  de  dizer,   ele   propõe   o   passe.   Não   se   trata   de   um   momento   depressivo   de   Lacan,   ou   de   um   recuo  tático.  Ali  onde  o  neurótico  se  depara  com  o  fracasso,  e  o  psicanalista  com  a   “sombra   espessa”,   Lacan   persevera,   convocando   seus   alunos   a   extraírem   do   fracasso  sua  razão.  

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Tratemos de   adentrar,   portanto,   como   nos   convoca   Lacan,   no   campo   da   lógica,   para   acompanharmos   com   qual   fracasso   estamos   lidando   no   passe.   Vejam   que,   nesse   ponto   Lacan   está   desafiando   o   positivismo   lógico   e   tomando   Wittegenstein  pelo  avesso.     No   Tractatus,   Wittegenstein   propõe   que   tudo   o   que   pode   ser   pensado   também   pode  ser  dito.  Os  limites  da  linguagem  são,  portanto,  os  limites  do  pensamento,  de   modo  que  uma  completa  filosofia  do  que  pode  ser  dito  será  uma  teoria  completa   do   que   Kant   denominara   o   entendimento.   Todos   os   problemas   metafísicos   decorrem   da   tentativa   de   dizer   o   que   não   pode   ser   dito.   Ou,   em   outras   palavras,   como  afirma  Gabriel  Lombardi  em  seu  livro  “Clínica  y  lógica  de  la  autorreferencia”,   a  conclusão  do  Tractatus  é:  “do  que  não  se  pode  falar,  melhor  se  calar”.(p.  80)      

A proposta  de  Lacan,  me  parece,  vai  no  sentido  oposto.  Seu  horror  diante  da  

possibilidade da  psicanálise  cair  no  inefável,  faz  com  que  ele  desafie  o  impossível.   Não,   evidentemente,   no   sentido   de   negá-­‐lo,   mas   sim   na   tentativa   –   pela   via   do   artifício  –  de  transmitir  seus  limites.   Para   isso,   ele   precisará   produzir   uma   reformulação   no   campo   da   lógica,   e   ele  o  fará  introduzindo  a  categoria  de  “não-­‐todo”.  É  assim  que  ele  responde  àqueles   que,  presumem  que,  na  ausência  do  todo,  melhor  ficar  com  nada,  ou  cada  um  que   tire  o  melhor  de  sua  parte.     VII.  Mas  então,  é  possível  provar  o  real?    

Essa é  questão  que  se  impõe  àqueles  interessados  em  abordar  seriamente  a  

“clínica do  passe”.  Sabemos  que  Lacan,  em  vários  momentos  se  seu  ensino,  flertou   com   a   idéia   de   que   seria   possível   provar   o   real.   Suas   incursões   pela   lógica,   a   esperança  na  formalização  e  o  projeto  de  matemização  da  psicanálise  certamente   tem  a  ver  com  isso.  Estaria,  então,  essa  empreitada,  também  fadada  ao  fracasso?  

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Antes de   nos   precipitarmos   a   responder,   podemos   dizer   que   o   encanto   de  

Lacan com   Gödel   tem   a   ver   exatamente   com   essa   problemática.   Talvez   possamos   sustentar,  com  Gabriel  Lombardi,  que  Gödel  eleva  a  lógica  à  condição  de  “Ciência   do  Real”.  Porque?        

Segundo o   grande   matemático   brasileiro   Newton   da   Costa   –   criador   da  

lógica para-­‐consistente,  “Gödel  mostrou  que  sob  condições  simples  e  aceitas  como   naturais,   a   maioria   das   teorias   matemáticas   não   pode   ser   axiomatizada   de   modo   completo.”   Ou   seja,   “as   verdades   informais   de   uma   teoria   matemática   não   são   sucessíveis  de  serem,  todas,  demonstradas.”  (COSTA,  1985,  p.  102).   A  partir  de  seu  teorema  sobre  as  proposições  indecidíveis   –  ou  Teorema  da   incompletude  –  Gödel  conseguiu  demonstrar,  em  1931,  que  a  consistência  de  um   determinado   sistema   formal   não   pode   ser   provada   no   interior   desse   mesmo   sistema.   Newton   da   Costa   (1985)   cita,   para   exemplificar,   a   frase   de   André   Weill:   “Deus  existe  porque  a  matemática  é  consistente,  mas  o  diabo  também,  porque  não   podemos  demonstrar  esse  fato”.  (p.  102)    As  proposições  indecidíveis,  portanto,  são  aqueles  em  relação  às  quais  não   se   pode   afirmar   nem   que   sejam   verdadeiras,   nem   que   sejam   falsas.   Segundo   Ricardo  Kubrusly,  do  Departamento  de  Matemática  da  UFRJ:     Caso   admitíssemos   a   possibilidade   do   nem   falso   nem   verdadeiro,   os   paradoxos   perderiam   seu   caráter   contraditório   para   ganhar   um   certo   alheamento.   Seriam   remetidos   para   fora   do   sistema   que   se   sentiria   incapaz   de   decidir   sobre   a   veracidade   ou   falsidade   da   afirmação   considerada.  O  preço  de  nos  livrarmos  dos  paradoxos  seria  o   reconhecimento,   por   parte   do   próprio   sistema,   de   suas   próprias  limitações.   E  ele  acrescenta:     Os   paradoxos   indicarão   o   limite   dos   nossos   sistemas   se   não   quisermos   contradições.   Há   que   evitá-­‐los.   E   como   fazê-­‐lo?    

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Gödel mostra  com  seus  teoremas  que  a  aparição  de  paradoxos   na   matemática   é   inevitável.   Para   manter   a   consistência   desejada   temos   de   expulsá-­‐los   do   sistema,   não   com   a   autoridade   policial,   mas   com   a   humildade   intelectual   de   reconhecer   as   próprias   limitações   de   um   sistema   que   não   saberá  julgar  se  verdadeiro  ou  falso,  as  afirmações  veiculadas   nos   paradoxos.   Estes   se   tornarão   indecidíveis   e   serão   responsáveis   pela   consistência   do   sistema   matemático.   O   preço  de  consistência  é  a  existência  de  indecidíveis.   Gödel   opera,   assim,   uma   separação   radical   entre   Verdade   e   Demonstrabilidade.    Nas  palavras  de  Gabriel  Lombardi:     Existem   proposições   que   não   podem   ser   deduzidas   no   sistema,  ainda  se  essas  mesmas  proposições,  vistas  a  partir  do   exterior,   resultam   intuitivamente   verdadeiras.   Assim,   em   vez   de   pensar   que   havia   que   descartá-­‐las,   Gödel   admitiu   que   a   contradição  existe:  uma  proposição  não  demonstrável  em  um   sistema   lógico-­‐formal   pode   ser   ao   mesmo   tempo   verdadeira   fora   dele.   Há   mais   coisas   entre   o   simbólico   e   o   real   que   as   que   trama   a   filosofia   de   uma   sintaxis   pura.   (LOMBARDI,   2008,   p.   81).    

É o  próprio  Lombardi  (2008)  quem  diz:     Há   aqui   uma   prova   do   real,   que   permite   uma   refundação   da   matemática   a   partir   de   suas   próprias   impossibilidades   lógicas   (...).   Essa   demonstração   do   real   como   impossível   não   se   consegue   mediante   a   ‘revelação’   de   uma   verdade.   Bem   ao   contrário,  o  que  encontramos  é  o  ato  pelo  qual  Gödel  substitui   a   verdade   por   uma   noção   ‘puramente   formal’,   desprovida   de   toda   referência   exterior   ao   símbolo.   (...)   A   demonstração   gödeliana   do   impossível   se   realiza,   então,   sobre   a   base   da   retirada   da   verdade   (e   também   da   falsidade   entendida   como   negação  da  verdade).  (p.  97)  

Assim, a  tese  de  Lombardi  (2008)  é  a  de  que  essa  Verwerfung  confessa  da  

verdade permite  a  Gödel  criar  a  “Ciência  do  Real”  na  medida  em  que  “o  saber  já  não   é   fantasia   que   interpreta,   mas   articulação   que   enlaça   de   um   modo   novo   a   linguagem  e  o  real”  (p.104).  

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V. Isso  só  prova  que  eu  fracassei    

Ora, a   questão   fundamental   que   se   coloca   aqui   para   o   passe   –   em   particular  

– e   para   a   psicanálise   –   em   geral   –   é   a   da   possibilidade   ou   não   de   exclusão   da   Verdade,  como  preço  a  pagar  pela  formalização  e  pela  demonstração  da  clínica.      

Apesar da  aposta  de  Lacan  na  possibilidade  de  formalização,  não  me  parece  

que ele   aposte   em   colocar   toda   a   psicanálise   do   lado   da   “Ciência   do   Real”.   Se   assim   fosse,  estaríamos,  no  passe,  apenas  na  via  da  demonstração  do  final  da  análise  e  do   desejo   do   analista.   Mas,   atenção:   Isso   não   significa,   entretanto,   que   a   via   da   demonstração   esteja   excluída   do   passe,   ou   que   a   ele   não   se   aplique   a   noção   de   indecidível.    

Tomemos como  exemplo  a  questão  da  nomeação:    

1 –  Podemos  afirmar  que  a  nomeação  de  um  AE  garante  a  verificação  da  presença   do   desejo   do   analista   no   passante   A,   pelo   cartel   do   passe.   Não   vou   entrar,   nesse   momento,  no  debate  a  respeito  do  estatuto  dessa  garantia  –  se  ela  é  mais  da  ordem   da   probabilidade   indutiva   –   ou   seja,   se   está   do   lado   da   evidência,   ou   da   probabilidade  epsitêmica  –  ou  seja,  baseada  no  conhecimento.  Mas  deixo  indicado   que  esse  é  um  trabalho  interessante  a  ser  feito,  a  partir  da  introdução  da  idéia  de   “evidência-­‐esvaziamento”  no  Seminário  23.     2   –   Não   podemos,   em   contrapartida,   afirmar   que   a   não   nomeação   garanta   a   verificação  do  não  desejo  do  analista  no  passante  B.  Em  relação  ao  não  nomeado,   não  foi  possível  demonstrar  nem  a  presença  nem  a  ausência  do  desejo  do  analista.          

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Vou escrever  assim:   No  passe:   Se  DA    →  AE  (V)   Se    ̴  AE    →    ̴  DA  (V)  ou  (F)  -­‐  INDECIDÍVEL   Assim,   encontramos   novamente   aqui   o   indecidível,   que   faz   com   que   o   dispositivo   do   passe,   felizmente,   não   possa   ser   considerado   “consistente”,   na   acepção   matemática   do   termo.   Ou   melhor,   ele   só   o   seria   se   esse   indecidível   pudesse  ser  rejeitado  do  dispositivo.  Mas,  ao  contrário,  a  decisão  do  cartel  por  uma   não-­‐nomeação  apenas  reforça  a  presença  do  indecidível  nesse  sistema.   Vejamos   como   Lacan   trata   dessa   questão   no   Seminário   23.   Lacan   estava   muito  empenhado  em  conseguir  fazer  um  nó  borromeano  com  quatro  nós  de  três.   Depois  de  dois  meses  “quebrando  a  cabeça”,  ele  diz:   Não   consegui   demonstrar   que   ex-­‐siste   um   modo   de   enodar   quantro   nós   de   três   de   uma   maneira   borromeana.   Pois   bem,   isso   não   prova   nada.   Não   prova   que   ele   não   ex-­‐siste.   Ainda   ontem  à  noite,  só  pensava  em  conseguir  demonstrar-­‐lhes  que   ele   ex-­‐siste.   O   pior   é   que   não   encontrei   a   razão   demonstrativa   de   que   ele   não   ex-­‐siste.   Eu,   simplesmente,   fracassei.   Que   eu   não   possa   mostrar   que   o   nó   de   quatro   nós   de   três,   como   borromeano,   ex-­‐siste,   nada   prova.   Seria   preciso   que   eu   demonstrasse   que   ele   não   pode   ex-­‐sistir,   e   assim,   por   esse   impossível,   um   real   seria   assegurado.   Tratar-­‐se-­‐ia   do   real   constituído   por   não   haver   nó   borromeano   que   se   constitua   com   quatro   nós   de   três.   Demonstrá-­‐lo   seria   tocar   um   real.   (LACAN,  1975-­‐76/2007,  p.  42-­‐  43).   E  Lacan  acrescenta:           Para  lhes  dizer  o  que  penso  disso,  creio  que  esse  nó  ex-­‐siste.   Quero   dizer   que   não   é   aí   que   toparemos   com   um   real.   Portanto,   não   me   desespero   para   encontrá-­‐lo,   mas   é   um   fato   que  não  posso  lhes  mostrar  nada  dele.  Assim,  a  relação  entre  

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mostrar e   demonstrar   está   nitidamente   separada.   Uma   vez   que   isso   fosse   demonstrado,   seria   fácil   mostrá-­‐lo   para   vocês.   (LACAN,  op.  Cit.  p.  43)        

E, efetivamente,  como  Lacan  anuncia  na  aula  seguinte,  naquela  mesma  noite  

Soury e  Thomé  apareceram  na  casa  de  dele  com  o  famigerado  nó.      

Vejam, portanto,   que   Lacan   transmite   de   forma   precisa,   através   dessa  

pequena anedota   borromeana,   a   relação   entre   mostração   e   demonstração.   Poderíamos   supor   aqui   um   retorno   de   Lacan   a   Wittegenstein,   que   propunha   que   aquilo   que   não   pudesse   ser   demonstrado,   deveria   apenas   ser   mostrado,   em   silêncio.   Seria   a   mostração   da   ordem   de   um   “mutismo   aflito”,   como   disse   Colette   Soler?     Não   me   parece   que   seja   essa   a   proposta   de   Lacan.   Mas,   por   outro   lado,   também  não  estamos  do  lado  da  pura  demonstração  do  impossível.  A  articulação   muito   peculiar   que   a   psicanálise   propõe,   com   o   dispositivo   do   passe,   entre   demonstração  e  mostração,  me  parece  possível  graças  ao  fato  de  que,  ao  contrário   da  lógica,  a  psicanálise  não  pode  forcluir  de  todo  a  Verdade,  ainda  que  mentirosa,   ou,  como  ele  afirma  no  Prefácio  da  edição  inglesa  do  Seminário  11  em  1976:     Donde   eu   haver   designado   por   passe   essa   verificação   da   historisterização  da  análise,  abstendo-­‐me  de  impor  esse  passe   a   todos,   porque   não   há   todos   no   caso,   mas   esparsos   desparatados.  Deixei-­‐o  à  disposição  daqueles  que  se  arriscam   a   testemunhar   da   melhor   maneira   possível   sobre   a   verdade   mentirosa      

Vejam que  Lacan  coloca  o  passe  na  dimensão  do  risco  e,  portanto,  da  aposta.  

O passe  pode  falhar?  Talvez  a  pergunta  esteja  mal  formulada.  O  passe  é  falho  por   sua   própria   estrutura.   E,   se   assim   não   fosse,   teríamos   finalmente   encontrado   a   última  palavra  sobre  o  que  é  o  analista.  Lembremos  o  que  dizia  Lacan  no  seminário   23:   é   graças   à   falha   que   inconsciente   e   real   de   enodam.   Assim,   podemos   concluir    

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que o   passe   só   pode   ser   considerado   um   fracasso   se   for   tomado   por   aquilo   que   ele   não   é:   um   dispositivo   consistente.   Quem   entra   no   passe   em   busca   da   nomeação   como   uma   confirmação   vinda   do   Outro,   tem   uma   chance   muito   grande   de   se   decepcionar.   A   espera   da   nomeação   em   qualquer   passante   é   patente,   mas   não   pela   via   da   chancela,   e   sim   pela   própria   convicção   íntima   que   implica   a   decisão   causada   pelo  desejo  de  testemunhar.   O  que  pode  o  passe  oferecer,  então,  aos  esparsos  disparatados?  Voltemos  à   idéia   de   experiência   e   deixemos   falar   nossa   colega   espanhola   Maria   Luisa   de   la   Oliva,  esparsa  disparatada  que    não  foi  nomeada.  Sobre  sua  experiência,  ela  diz:   Posso   dizer   que   haver   passado   pela   experiência   do   passe,   haver  atravessado  a  experiência,  me  iluminou  um  certo  setor   de   sombras   da   minha   análise.   O   passe,   como   dispositivo   que   produz   efeitos   subjetivos   em   todo   sujeito   que   faz   a   experiência,  não  deveria  então  reduzir-­‐se  à  resposta  do  cartel   enquanto  a  se  há  ou  não  nomeação.  O  que  esperava  Lacan  do   dispositivo   era,   antes,   efeitos   de   transmissão   do   mesmo   no   coletivo  analítico.    

Ora, experiência   e   transmissão   são   quase   antinômico;   daí   a   ousadia   de  

Lacan de  articulá-­‐los  no  passe.  Como  afirma  a  própria  Maria  Luisa  de  la  Oliva,  em   seu   belo   texto   “A   escrita   e/ou   a   vida”   publicado   na   revista   Stylus   n.   19,   no   qual   comenta   exatamente   o   livro   de   Jorge   Seprum   com   o   qual   comecei   este   texto:   “há   um   impossível   na   transmissão,   ou   também   se   pode   dizer   que   a   transmissão   é   precisamente  a  do  impossível.  (p.  36)    

 Sendo  assim,  eu  diria  que  Lacan,  assim  como  Guimarães  Rosa,  propõe  um  

dispositivo que   é   “não-­‐todo”   e,   assim   sendo,   é   também   Nonada.   Nonada   é   não-­‐ nada,  negação  do  “todo  nada”.      Um  tiquinho  de  nada  que  nos  permita  testemunhar   sobre  essa  aventura  singular  que  é  uma  análise,  sua  extraordinária  eficácia  a  suas   conseqüências  inéditas.  Termino,  então,  respondendo  a  André  Weil,  com  a  fala  de   Riobaldo,   ao   terminar   seu   depoimento,   no   final   de   Grande   sertão:   Amável   senhor  

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me ouviu,   minha   idéia   confirmou:   que   o   Diabo   não   existe.   Pois   não?   O   senhor   é   um   homem   soberano,   circunspecto.   O   diabo   não   há!   É   o   que   eu   digo,   se   for...Existe   é   homem  humano.  Travessia.    

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Anais encontro fortaleza  

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