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TCC II – Trabalho de Conclusão de Curso II

CESNORS Centro de Educação Superior Norte do Rio Grande do Sul

Universidade Federal de Santa Maria Centro de Educação Superior Norte – RS Departamento de Ciências da Comunicação Curso de Comunicação Social – Jornalismo - novembro a 03 de dezembro de 2010 29 de

RELATÓRIO DE PROJETO EXPERIMENTAL

CONEXÃO CULTURA: UMA EXPERIÊNCIA ALÉM DAS ONDAS DO RÁDIO

ALINE CHAIANE VOGT, ANTONIO MARCOS DEMENEGHI, DANIELA BALKAU, GABRIEL LAUTENSCHLEGER, LUARA KRASNIEVICZ.

DEBORA CRISTINA LOPEZ.

Frederico Westphalen, 22 de novembro de 2010


RELATÓRIO DE PROJETO EXPERIMENTAL

CONEXÃO CULTURA: UMA EXPERIÊNCIA ALÉM DAS ONDAS DO RÁDIO

Aline Chaiane Vogt, Antonio Marcos Demeneghi, Daniela Balkau, Gabriel Lautenschleger, Luara Krasnievicz.

Relatório de Projeto Experimental apresentado ao Curso de Comunicação Social – Jornalismo como requisito para aprovação na Disciplina de TCC II, sob orientação do Prof. Débora Cristina Lopez e avaliação dos seguintes docentes:

Prof. Débora Cristina Lopez UFSM-CESNORS Orientador

Prof. Karen Kraemer UFSM-CESNORS

Prof. Marcelo Freire Pereira de Souza UFSM-CESNORS

Prof. Luis Fernando Rabello Borges UFSM-CESNORS (Suplente)


Frederico Westphalen, 22 de novembro de 2010.

Conexão Cultura: Uma Experiência Além Das Ondas Do Rádio

RESUMO: O objetivo do presente projeto foi desenvolver um programa experimental de rádio com foco na convergência midiática e na possibilidade de múltiplas narrativas em torno do mesmo tema. O programa desenvolvido foi o “Conexão Cultura”, pensado para tratar aspectos da cultura local, mas que ao mesmo tempo pode falar sobre o tema em qualquer estado do Brasil. Para definir o perfil editorial do programa entrevistou-se 170 moradores de Frederico Westphalen, RS, com idades entre 25 e 40 anos. A pesquisa exploratória serviu de base para perceber se a audiência teria interesse em ouvir um programa sobre cultura, bem como contribuir com sugestões a respeito de temas e horário de veiculação do programa. Criou-se um blog (clicregional.blogspot.com) para servir como extensão do programa na internet. Através do blog, pode-se interagir com os produtores além de conferir formas alternativas de complementos sobre o assunto, através de crônicas e vídeos, por exemplo. Além disso, buscou-se incorporar o nome do programa a ferramentas como Orkut, Twitter e MSN, visando uma maior interação com os ouvintes.

PALAVRAS-CHAVE: convergência; radiojornalismo; rádio na internet; bailes; rádio e cultura.


LISTA DE APÊNDICES Apêndice A – Perfil Editorial Apêndice B – Modelo de Questionário Apêndice C – Resultado da Pesquisa Apêndice D – Roteiro Apêndice E – Pautas Apêndice F – Lista de Fontes Apêndice G – Script do Programa Apêndice H – Script das Reportagens Apêndice I - Imagens do blog Apêndice J - Imagens do Orkut Apêndice K - Imagens do Twitter Apêndice L - CD com o áudio do Programa radiofônico Apêndice M - CD com o conteúdo do blog


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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 5 3 RÁDIO: TRADIÇÃO E HISTÓRIA ...................................................................................... 8 3.2 Gêneros e Formatos em Programas Radiofônicos ............................................................ 18 4 CONVERGÊNCIA E NARRATIVA .................................................................................... 27 5 MARCAS DE UM POVO: IDENTIDADE, RÁDIO E CULTURA NO RIO GRANDE DO SUL .......................................................................................................................................... 43 6 METODOLOGIA ................................................................................................................. 56 7 ATIVIDADES DESENVOLVIDAS ..................................................................................... 57 8 RESULTADOS ESPERADOS DE MERCADO .................................................................. 58 9 PERCEPÇÃO DE CADA INDIVÍDUO SOBRE O PROCESSO DE PRODUÇÃO ........ 59


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1 INTRODUÇÃO Na conjuntura a inovação tecnológica é um fato presente e cada vez mais constante. Por isso, faz-se necessária atualização e domínio na manipulação das novas tecnologias. Muito já se falou quanto ao papel do jornalismo diante dessa nova configuração. Alguns temem que com as inovações, veículos como rádios e jornais desapareçam. Entretanto, Mark Warshaw (2006) na apresentação da obra “Cultura da Convergência”, defende que essa nova configuração não deve ser temida, e sim, entendida como uma oportunidade no que chama de nova era das mídias. Para Jenkins (2006) a convergência não é resultado dos aparatos tecnológicos, mas, da mudança na forma de pensar dos consumidores, cada vez mais interativos. O consumo, segundo o autor, se tornou um processo coletivo de criar significados e a internet não vem para destruir as outras mídias existentes, mas para somar. Jenkins ressalta que o controle da mídia, feito pela audiência, também é uma demonstração de convergência. Os resultados desse controle podem ser negativos ou positivos, tudo depende de quem manipula as ferramentas, suas intenções, e do conteúdo produzido. O ideal sugerido pelos autores é que os profissionais saiam das redações preparados para realizarem a cobertura dos fatos, não mais para um único meio, mas para os mais diversos suportes midiáticos. Assim, percebe-se uma demonstração de convergência utilizada com o propósito positivo de informar a audiência da forma mais completa possível. O programa “Conexão Cultura” foi pensado para ser uma forma de utilizar a convergência na prática, tendo a cultura como foco principal. Visando identificar se o programa teria aceitação da audiência, realizou-se uma pesquisa de campo com aplicação de 170 questionários. Através das respostas e da opinião manifestada pelos entrevistados, foi possível construir o perfil editorial do programa e assim, pensar a sua forma de abordar a cultura e o melhor horário para ser veiculado. No presente trabalho, demonstram-se as principais características desse programa, que tem como público-alvo adultos pertencentes à faixa etária dos 25 a 40 anos, das classes A, B e C. A produção não se restringe aos moradores de uma área específica porque o programa foi planejado para poder ser ouvido por qualquer pessoa, no que denominou-se “Rádio Convergência”. A interação é o eixo central do programa. Assim, como forma de valorizar essa característica, os ouvintes podem participar do “Conexão Cultura” utilizando ferramentas como Twitter, MSN, Orkut, além do espaço


6 de discussão dentro do próprio blog, clicregional.blogspot.com, que é a extensão do programa na internet. O formato escolhido para o “Conexão Cultura” foi variedades, classificação que de acordo com Ferraretto (2001) suporta entretenimento, informação, músicas, esclarecimento de especialistas, entre outros, funcionando como uma forma de prestação social de serviços. No embasamento teórico utilizou-se a pesquisa bibliográfica para entender aspectos como as características do rádio, gêneros e formatos radiofônicos, rádio hipermidiático, convergência, além de conceitos sobre identidade e cultura. Como o programa piloto trata sobre a cultura de bailes, observou-se que a bibliografia sobre o assunto é escassa. Sendo assim, realizaram-se entrevistas em profundidade com pessoas que fazem parte dessa cultura como membros de bandas, profissionais de dança, entre outros. O método da entrevista em profundidade é caracterizado pela flexibilidade, permitindo que o entrevistado responda as perguntas ajustadas livremente pelo pesquisador (DUARTE, 2006). Tais entrevistas mostraram-se enriquecedoras para a formação de uma narrativa sobre as bandas. Nesse sentido, o material desenvolvido também vem para contribuir com o enriquecimento da literatura sobre o tema. O presente memorial inicia com o referencial teórico, que parte de uma abordagem sobre a história do rádio, linguagem e características do veículo e por fim discute-se os gêneros e formatos dos programas radiofônicos. Para isso, foram consultados autores como Ferraretto (2001), Rodrigues (2006), Ortriwano (1985), Mcleish (2001), Balsebre (2007), entre outros. Posteriormente trata-se sobre convergência e narrativa, chegando à convergência no rádio. Para isso, são utilizados autores como Jenkins (2006), Lopez (2009), Salaverría (2008), Varela (2007), além de outros. O referencial teórico termina com uma abordagem sobre identidade, rádio e cultura no Rio Grande do Sul. A cultura gaúcha é abordada no referencial teórico pelo fato de o programa piloto versar sobre ela. Nesse sentido, foram consultados estudos de autores como Castells (2000), Martín-Barbero (2008), Canclini (2006), Ronsini (2007), Luvizotto (2009), dentre outros. Posteriormente, apresenta-se a metodologia utilizada para o desenvolvimento do presente estudo, baseado em métodos como a pesquisa bibliográfica e as entrevistas em profundidade (DUARTE, 2006). Por ser um produto experimental, após o embasamento


7 teórico, os componentes do grupo expõe as suas opiniões e impressões sobre a produção do “Conexão Cultura”. Por fim, ao longo do processo de produção do “Conexão Cultura” percebeu-se que as inovações tecnológicas vêm como uma alternativa de enriquecimento para os conteúdos. De modo que as novas tecnologias não devem ser temidas, mas exploradas e incorporadas ao jornalismo diário. Os veículos tradicionais como rádio, televisão e jornal, já identificaram suas potencialidades e construíram linguagens próprias para transmitir as informações. Nesse sentido, a internet serve como plataforma para que esses veículos expandam os seus horizontes. Além disso, a internet também traz consigo a possibilidade de se agregar os mais diversos conteúdos, atendendo as necessidades da audiência e permitindo que as pessoas escolham as informações que desejam consumir. O blog do “Conexão Cultura” ganhou o endereço “clicregional.blogspot.com”, nome escolhido para mostrar que a intenção é privilegiar o enfoque dos fatos da região, além de fazer alusão a internet. Assim, para ter acesso a algumas informações sobre a região, basta um “clic”. Dentro do blog existem duas seções: ler, ouvir e espiar, onde estão materiais como bastidores das entrevistas, crônicas e pitacos, agenda de festas da região (localize a festa), álbum, entrevistas na íntegra (toda a conversa), leia de cabo a rabo (seção que contém links para textos sobre o mesmo assunto, fora do blog) e músicas da semana (onde é possível acessar um playlist de músicas escolhidas pela equipe e que tem a ver com o tema que está sendo tratado na semana). Na seção “Conexão Cultura”, é possível ouvir a reprise dos programas irradiados no item “programas”, também podem ser encontradas reportagens completas, vídeos, slideshow, além do playlist da semana, álbum de fotos e todos os textos. No link “equipe”, há uma breve descrição sobre cada repórter, sua atuação no “Conexão Cultura” e uma foto do mesmo. O último link “início” possibilita que o usuário retorne a home page do programa. O blog se propõe a ser uma extensão do programa na internet, permitindo que os usuários acessem os materiais que mais lhe interessam, e assim, saibam um pouco mais sobre o tema. Vale lembrar que durante a apresentação do programa, o locutor passa o endereço do blog constantemente para incentivar a interação com os ouvintes.


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2 OBJETIVOS DO PRODUTO

2.1 Objetivo Geral Desenvolver um programa experimental de rádio com foco na convergência midiática e na possibilidade de múltiplas narrativas em torno do mesmo tema.

2.2 Objetivos Específicos Demonstrar de que formas as novas tecnologias podem auxiliar no processo comunicativo; Contribuir com o estudo da convergência aplicada ao rádiojornalismo; Contribuir com o conhecimento e a memória coletiva em torno da cultura regional. Reunir relatos de experiência, identificar práticas habituais de grupos e/ou comunidades.

3 RÁDIO: TRADIÇÃO E HISTÓRIA Guglielmo Marconi, cientista italiano, é apontado como o inventor do rádio. Ferraretto (2001), ao tratar sobre a história do rádio, reitera que Marconi fez seus primeiros experimentos em 1895, visando comprovar que as ondas eletromagnéticas, estudadas por Hertz em 1887, poderiam transmitir mensagens. Uma das experiências do alemão Hertz foi saltar faíscas através do ar, separadas por duas bolas de cobre; com o intuito de mostrar que as ondas eletromagnéticas tinham a mesma velocidade do que as ondas de luz. Como reconhecimento ao trabalho de Hertz, as ondas radiofônicas passaram a ser denominadas hertzianas, e o Hertz (Hz) passou a ser usado como unidade de freqüência1 (RODRIGUES, 2006). No Brasil, a invenção do rádio é atribuída ao padre Roberto Landell de Moura, já que ele foi responsável por desenvolver um aparelho que transmitia voz, com ausência de fios. A primeira experiência de Landell foi realizada em São Paulo, no ano de 1893, mas a patente do invento só veio 7 anos depois da primeira demonstração. 1 Nesse estudo, optou-se por não aderir às novas regras da língua portuguesa instituídas pelo Acordo Ortográfico em 2009.


9 Apesar das experiências de Marconi e Landell, é só no ano de 1916 que surge a primeira estação de rádio, em Nova York. É nessa estação estúdio que acontecem os primeiros registros de radiojornalismo, marcados pela apuração das eleições para a presidência dos Estados Unidos. No Brasil, a primeira transmissão de rádio é realizada no dia 7 de setembro de 1922, para comemorar o centenário da independência. Como não se tinha estações de rádio em solo brasileiro, a transmissão é improvisada e acontece diretamente da Esplanada do Castelo. Na primeira transmissão radiofônica no país, utilizou-se uma espécie “rádio telefone”, porém, equipado com alto-falantes. A elite carioca pode ouvir da estação com 500 watts de potência, o discurso do então presidente da República, Epitácio Pessoa. Após o discurso, veio a transmissão da ópera O Guarani, que estava sendo apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (RODRIGUES, 2006). Ortriwano (2002) ao tratar sobre a história do rádio no Brasil considera que a primeira transmissão radiofônica contou com o auxílio de 80 transmissores emprestados pela empresa norte-americana Westinghouse, especialmente para a ocasião. Depois de a transmissão ter sido realizada com sucesso, a autora lembra que o fato foi destaque nos jornais da época, a exemplo do jornal “A Noite” do Rio de Janeiro. Passada a experiência, a radiofonia no país foi interrompida por falta de equipamentos. A partir dessa demonstração, Edgar Roquette-Pinto se interessa pelo invento, e um ano depois funda a primeira emissora de rádio regular brasileira, nomeada “Rádio Sociedade do Rio de Janeiro”. O pioneirismo garante a Roquette-Pinto o título de “pai do rádio brasileiro”, mas é importante lembrar que ser o primeiro não foi nada fácil.

Apesar do empenho e do idealismo de Roquette-Pinto e de seus associados, a radiodifusão nasce de maneira precária. Em seus primeiros meses de funcionamento a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro operou sem programação definida e com emissões esporádicas (FERRARETTO, 2001, p.96).

Assim como na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, é possível observar que os inícios das transmissões das rádios, em geral, não são fáceis. Mesmo que já tenham se passado quase 100 anos da instalação da primeira emissora no Brasil, algumas dificuldades permanecem. É comum, por exemplo, que ao receber a concessão às rádios iniciem períodos de testes, veiculando apenas músicas. Foi o que aconteceu este ano com a Rádio São Valentim FM. O pequeno município de São Valentim, no norte do Rio Grande do Sul, possui uma população urbana de cerca de 4 mil habitantes, segundo a


10 estimativa do IBGE de 2009. A rádio comunitária iniciou as transmissões em julho deste ano, o mês de junho foi dedicado a testes, onde se veiculava apenas músicas. No início as transmissões da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro só eram acessíveis às classes mais favorecidas da sociedade, isso porque, os transmissores tinham que ser adquiridos no exterior, e por isso, seu custo tornava-se bastante elevado. Devido ao alto custo, era bastante comum que um grupo de pessoas se reunisse para adquirir um transmissor e posteriormente para acompanhar a programação. Nessa época, a publicidade na programação radiofônica era proibida. As emissoras eram mantidas por atividades privadas ou públicas, além da ajuda fornecida pelos sócios. (RODRIGUES, 2006). Segundo Ortriwano (2002) o pioneirismo de Roquette Pinto veio antes da implantação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, pois em 1922, ele instalou, junto com o cientista Henrique Morize, um pequeno transmissor experimental, no qual irradiava notícias do dia e músicas eruditas que faziam parte da sua coleção de discos.

A partir dessa data, o rádio participou de todos os movimentos da vida brasileira. Ajudou a derrubar a República Velha, participou da Revolução de 32, fez extensos noticiosos sobre a Segunda Guerra Mundial. Desempenhou importante papel no Golpe Militar de 64, participou ativamente da redemocratização durante a Nova República e, pouco depois, fez ecoar país afora o processo de impeachment de um presidente da República. Os políticos sempre souberam reconhecer sua importância nas campanhas eleitorais e, na corrida presidencial de 2002, quando o povo depositou suas esperanças em um novo perfil administrativo, não foi diferente. Não há candidato que não se interesse em participar de programas em emissoras radiofônicas em todas as cidades por onde passam as comitivas eleitorais. Essa importância se estende a atividades de todos os campos de atuação, sejam conquistas esportivas ou campanhas de todo tipo (ORTRIWANO, 2002, p. 68).

A importância do rádio na política é ressaltada também por Lahni (2008). Segundo a autora, em Juiz de Fora, Minas Gerais, existem três rádios comunitárias com concessões fornecidas pela Anatel, e nas três emissoras os diretores têm relação direta ou indireta com partidos políticos. Realidade que, de acordo com a autora, não é diferente no restante do país. Partindo desta premissa, percebe-se que a história do rádio foi marcada por diversas fases. Ferraretto (2001) reitera que a partir dos anos 30, as emissoras começam a se organizar como empresas, principalmente porque o decreto nº 21.111 de março de


11 1932 considerou legal a inserção de publicidade na programação, permitindo que o veículo rumasse para a auto-suficiência financeira. A possibilidade de gerar sua própria receita garante aos veículos um caráter mais popular, voltado para o lazer e a diversão. Com o início da Segunda Guerra Mundial, o rádio se transforma num importante meio difusor de notícias. Surge o repórter Esso, que logo se transforma num ícone para o radiojornalismo. A política também conquistou seu espaço. Em 1935, Getúlio Vargas, cria a Hora do Brasil, programa obrigatório de notícias oficiais denominado hoje, A Voz do Brasil. Os anos 40 representam à Época de Ouro do rádio, caracterizada por:

[...] uma programação voltada ao entretenimento, predominando programas de auditório, radionovelas e humorísticos. A cobertura esportiva também ocupa o seu espaço. O radiojornalismo, por sua vez, ganha força à medida que o país se envolve na Segunda Guerra Mundial. O veículo adquire, desta forma, audiência massiva, tornando-se, no início dos anos 50, principalmente por meio da Nacional, a primeira expressão das indústrias culturais no Brasil (FERRARETTO, 2001, p.112).

Na chamada “Era de Ouro”, o veículo se difundia de uma maneira assustadora, conquistando audiências cada vez maiores (FERRARETTO, 2001). Nesse período, aparecem as primeiras radionovelas e programas de auditório. Grande parte dos eventos e atenções estavam ligados ao rádio, seja pela influência, disseminação de conteúdos ou pelo que era tratado pelo veículo. O concurso para eleger a “Rainha do Rádio” promovido pela Rádio Nacional, por exemplo, teve quase 8 milhões de inscritas, denotando a importância do veículo na época (RODRIGUES, 2006). Porém, a década seguinte é marcada por um momento de crise no rádio devido ao surgimento da televisão, em 1951. Muitos anunciantes e profissionais do rádio migram para a TV, devido a sua capacidade de aliar som e imagem. A saída encontrada pelas emissoras foi a especialização. A Rádio Bandeirantes, por exemplo, passa a investir em programas de noticiário intensivo e assim, consegue manter os patrocinadores (FERRARETTO, 2001). Além da especialização das emissoras, o rádio também passa a ser reconhecido por características como popularidade e alcance. O veículo pode estar em todos os lugares, como nos carros, casas, com as pessoas trabalhando, descansando ou conversando. Possui grande alcance entre diversos públicos e possibilita informação, entretenimento e conhecimento de diversos serviços e promoções através de suas propagandas.


12 De acordo com Ortriwano (2002) é no período de crise que o rádio descobre que o seu horário nobre é o matutino. A edição também começa a ser incorporada nas produções, devido a utilização dos gravadores magnéticos, possibilitando que pudessem ser feitas montagens sonoras. Processo que para a autora ajudou a baratear os custos de produção, além de garantir agilidade e versatilidade ao rádio. Entretanto, Ortriwano (2002) considera que a principal característica que passou a ser explorada pelo rádio e garantiu a sua sobrevivência foi a valorização do aspecto local. Assim, o rádio tornou-se uma das principais fontes de informação sobre os acontecimentos locais, transformando-se numa importante fonte de informação aos que não conseguem ler um jornal, por exemplo.

O Rádio é a escola dos que não tem escola. É o jornal dos que não sabem ler, é o mestre de quem não pode ir a escola, é o divertimento gratuito dos pobres, é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos, o guia dos sãos, desde que o realizem com espírito altruísta e elevado (PINTO apud CASTRO, 2010, p.10).

O rádio é um veículo de comunicação com custos muito mais baixos se comparados com os da televisão, por exemplo. É baseado na difusão de informações sonoras em diversas freqüências. Pode ser caracterizado como um meio auditivo, formado pela combinação da voz, que é a locução, e da música que vem a ser a sonoplastia. Divulga, através de seus radialistas, os serviços e produtos que são capazes de garantir um retorno comercial suficiente para os seus patrocinadores ou anunciantes. A maioria dos seus ouvintes é um público fiel à determinada emissora, pois dá crédito e tem certeza de que a mensagem está sendo passada por uma fonte verdadeira, e isso comprova a força da tradição em sua programação.

3.1 Linguagem e características do rádio Rodrigues (2006) traz oito características que considera fundamental no rádio. São elas: oralidade; sensorialidade; individualidade/intimidade; grande alcance; pano de fundo; simplicidade técnica, imediatismo e velocidade; baixo custo e caráter seletivo. A seguir, explicam-se as características apontadas pelo autor. A importância da oralidade no rádio é explicada pela dependência que o ser humano possui com a linguagem, já que é principalmente através da comunicação que é possível construir relações sociais. Segundo Koch (2006) a linguagem funciona como:


13 forma de representação tanto do mundo quanto do pensamento; como ferramenta de comunicação e como forma de ação e interação. O rádio é essencialmente fundamentado na linguagem. Isso porque, o veículo permite tanto que o ouvinte tenha voz, pela participação instantânea, quanto que tenha na figura do locutor um amigo, transmitindo através da voz não apenas notícias, mas sentimentos.

Fundamentado no som, o rádio tem na oralidade uma de suas principais características. Lembra-nos de nossa dependência da palavra falada, do som produzido. Voz, efeitos sonoros, som ambiente etc, conferem ao rádio uma personalidade e uma característica de proximidade e companhia que a maioria dos meios de comunicação não detém. Isso o torna acessível à grande maioria das pessoas (RODRIGUES, 2006, p.45).

A combinação da palavra com os mais diversos sons garante personalidade ao rádio, isso faz com que o veículo seja capaz de transportar a audiência ao palco dos acontecimentos, enfim, a magia do veículo reside principalmente na capacidade que ele possui de mexer com a imaginação. Nesse sentido, a sensorialidade permite que a audiência seja capaz de construir imagens do que está sendo passado pelo locutor, através da narrativa, que deve privilegiar a utilização de palavras que permitam transportar o ouvinte para a esfera da imaginação. A intimidade é outra característica importante do meio radiofônico. Nesse aspecto, cada ouvinte é tratado como se fosse único. Em geral, percebe-se, nas transmissões radiofônicas, a utilização dessa estratégia, com locutores que falam em primeira pessoa e tratam centenas de pessoas como “você” ou “amigo ouvinte”. Martinez-Costa e Díez Unzueta (2005) ressaltam que a exploração das características radiofônicas depende de cada emissora, do perfil dos locutores, do programa e dos recursos que se tem, o mais importante é que haja um reconhecimento tanto por parte da audiência quanto do locutor. Quando a identificação não ocorre, perde-se a atenção do ouvinte e o sucesso da transmissão. O programa “Conexão Cultura” visa construir uma relação de proximidade com o ouvinte tanto através da linguagem quanto pela utilização de músicas para ambientar os fatos. Pretende-se que as músicas utilizadas sejam capazes de provocar as mais


14 diversas sensações nos ouvintes, transportá-los para o palco dos acontecimentos, além de fazer com que recordem de situações pelas quais já passaram2 Além de provocar sensações através da sensorialidade, o rádio também tem o poder de romper fronteiras, característica ampliada pela internet. Em Erechim, por exemplo, na emissora Virtual FM, que também faz transmissões pela internet, constantemente os locutores citam a participação de pessoas que estão sintonizadas em outras cidades ou mesmo países. Isso significa que para além do aspecto local, o rádio também é capaz de ganhar o mundo.

O rádio caiu na rede mundial de computadores, definitivamente, e de lá não sai mais. Não vai sumir, como muitos imaginavam. Vai evoluir. Nesse momento, é o veículo que mais se beneficiou da internet. Aumentou o alcance e proporciona facilidades, à medida que o som "baixa" a maior rapidez se comparado à imagem, além de não exigir a atenção do internauta que, enquanto ouve o programa, pode continuar navegando (JUNG, 2005, p.53).

Assim, é possível perceber mais uma vez que o rádio, ao ser associado à internet, se beneficia novamente da sua possibilidade de transmitir informações sem exigir que a audiência esteja focada somente nele. O rádio permite a realização de outras atividades enquanto é consumido, essa característica é denominada por Rodrigues (2006) como “pano de fundo”. Ao mesmo tempo em que o fato de não exigir atenção integral é visto como uma vantagem do meio, também traz a necessidade de que os programas estejam adequados as expectativas da audiência para que o ouvinte não se disperse em outras atividades. O fato de não “desviar” a audiência de suas atividades cotidianas, faz com que a presença do veículo seja permitida até mesmo em algumas empresas, enquanto os funcionários estão trabalhando. De acordo com Ferraretto (2001) o ouvinte pode escutar a programação de quatro formas: em si, ambiental, por seleção e por fim a escuta concentrada. O autor explica que a escuta em si é aquela em que o ouvinte acompanha a programação enquanto realiza outras atividades. Percebe-se que essa é uma das formas mais comuns de se ouvir rádio, enquanto se está dirigindo, lavando a louça, conversando com os amigos, ou mesmo trabalhando. Nesse sentido, a escuta em si é

2 No capítulo sobre identidade e cultura a música é apresentada como capaz de provocar nas pessoas os mais diversos efeitos, entre eles, o de fazer com que as pessoas construam relações entre música e situações enfrentadas em suas vidas.


15 aquela que exige que o locutor encontre formas de prender os ouvintes utilizando-se de elementos como músicas, silêncio, variações no tom de voz e também das trilhas. A escuta ambiental é aquela em que o rádio serve apenas como companhia, o ouvinte não presta atenção em tudo o que está sendo transmitido, a programação serve apenas como fundo musical. A escuta por seleção ocorre quando o ouvinte liga o rádio e sintoniza em determinada emissora porque já sabe que no determinado horário estará sendo irradiado o programa de seu interesse, dessa forma, dedica sua atenção a ele. Por fim, a escuta concentrada é aquela em que se consegue prender a atenção máxima do ouvinte, supõe-se que ele aumenta o volume e dedica atenção total a mensagem que está sendo passada. Sendo assim, além de servir com pano de fundo para a realização de outras atividades, o rádio também é lembrado pela simplicidade técnica que permite que uma transmissão seja realizada diretamente do local dos acontecimentos através do telefone ou coletada em um gravador. Ortriwano (1985) explica que a possibilidade que o rádio tem de transmitir os acontecimentos instantaneamente ocorre principalmente porque o aparato técnico do veículo é mais simples que o da televisão e não exige complexidade na elaboração da mensagem como ocorre com os impressos. Além disso, percebe-se que no rádio interromper a programação para a transmissão de informações extraordinárias é mais fácil. No caso dos impressos, por exemplo, é preciso esperar a próxima edição. Já na televisão, as imagens precisam ser trabalhas juntamente com o planejamento textual, edição que também exige uma maior complexidade. Importante ressaltar que apesar da simplicidade de ordem técnica, os fatos precisam ser tratados de maneira coerente e concisa porque o ouvinte precisa entender a mensagem no momento em que ela é transmitida, já que ao contrário de outros meios, no rádio a audiência não pode voltar atrás para compreender melhor. Ser simples, claro e objetivo é usar linguagem coloquial, sem vulgaridade. É falar e escrever de forma que o ouvinte entenda de imediato. Exemplos: dizer causa da morte em lugar de causamortis; trocar genitora por mãe; lograr êxito por ter êxito, vítima fatal por morto; e anuência por aprovação. Mesmo expressões usadas com freqüência podem ser simplificadas. É o caso de reforma tributária que pode ser traduzida por mudanças nos impostos (JUNG, 2005, p.50).

Além de uma linguagem clara, simples e objetiva, outro recurso utilizado para na transmissão da linguagem radiofônica é a redundância, a repetição auxilia o ouvinte a


16 assimilar a idéia que se pretende comunicar. Segundo Jung (2005), retomar o assunto que está sendo tratado é importante porque grande parte dos ouvintes não sintoniza a emissora quando se começou a tratar do assunto, muitos só ligam o rádio na metade ou mesmo no final de um programa. Outra vantagem do rádio, apontada por Rodrigues (2006) é o baixo custo. A estrutura de uma rádio é relativamente simples, basta um microfone, antena de transmissão e mesa de som e a veiculação pode ser feita. No caso de rádios virtuais, por exemplo, as dificuldades de se conseguir a concessão para poder instalar uma antena de transmissão radiofônica são rompidas. Barato para quem faz e para quem recebe, basta comparar o preço de um aparelho de rádio ao de uma televisão para que se possa compreender porque a maioria das residências possui ao menos um radinho. Como não exige leitura, o rádio também é um dos principais meios que os analfabetos possuem para ter acesso a informação. A última característica do rádio trazida por Rodrigues (2006) é o caráter seletivo. O autor ressalta que nesse veículo não é mais o jornalista quem seleciona os fatos a serem consumidos, mas o próprio ouvinte. Segundo McLeish (2001) quando o ouvinte não se interessa pelo que está sendo dito, simplesmente desliga-se mentalmente ou troca de estação. Para que a audiência não perca o interesse no que está sendo dito, vale lembrar a combinação das características apontadas por Balsebre (2007), segundo o autor a natureza da mensagem radiofônica é formada pela palavra, efeitos sonoros e música. O autor critica que muitas vezes classifica-se a linguagem radiofônica valorizando apenas a palavra, enquanto que música e efeitos sonoros garantem ao meio, força de expressão. Balsebre (2007) traz o exemplo de duas coberturas sobre imigração rural, porém tratadas de formas distintas. Em uma delas utiliza-se apenas a palavra, entrevistas com especialistas, com envolvidos e a voz do jornalista. Porém, em uma cobertura que valoriza a música e os efeitos sonoros, garante-se a riqueza do tema. O autor usa como exemplo de ambientação o som de pássaros cantando, o barulho do trem que leva os imigrantes e um diálogo entre eles contendo uma música de fundo. Apesar de não servir como um elemento da mensagem sonora, Balsebre (2007) classifica que o silêncio também tem o poder de transmitir mensagens. Na cobertura de um acidente com vítimas fatais, por exemplo, se o repórter entrevista um parente das vítimas e se, em certo momento o silêncio toma conta da entrevista, o ouvinte pode empreender que tal ausência de palavras traduz a dor que está sendo vivenciada pelo entrevistado.


17 Levando em conta as possibilidades de se criar uma transmissão atrativa, apontada por autores como Balsebre (2007), Rodrigues (2006), Ortiz e Marchamalo (1997), entre outros, percebe-se que transmitir mensagens radiofônicas não é uma tarefa simples. Para que a comunicação aconteça de forma satisfatória, o profissional de rádio necessita de constante reflexão para que possa combinar elementos que prendam a atenção da audiência. De acordo com Ferraretto (2001) uma estratégia para valorizar a linguagem e ajudar o ouvinte a penetrar no contexto de uma transmissão é ambientar os fatos através da sua sonoridade. Por exemplo, enquanto o repórter faz a cobertura de um acidente de trânsito, sons típicos como buzinas e carros passando ajudam o ouvinte a construir a imagem do local.

O rádio pode evocar imagens visuais no ouvinte, mas não só visuais. Nossa memória não é um arquivo de slides, guarda também olfatos, sabores, sensações táteis e melodias. Guarda principalmente nossa compreensão e nossas emoções a respeito dos fatos da vida. A linguagem do rádio evoca facilmente tudo isso. (MEDISTCH, 2008, p. 6).

Assim como Balsebre (2007), Medistch (2008) também considera que uma das principais funções da linguagem radiofônica é formar imagens na cabeça dos ouvintes, objetivo que pode ser alcançado com a utilização de elementos como silêncio, efeitos sonoros, palavra e música. Segundo o autor, ao pensar esses elementos os profissionais do rádio fornecem aos ouvintes uma narrativa pronta, que não exige que eles se esforcem muito para compreender as mensagens. Também é importante atentar para o estilo que se dá a linguagem de determinado programa. Embora não conheça cada um de seus ouvintes pelo nome, os profissionais do rádio conseguem formar uma imagem de sua audiência de modo que adéquam à linguagem a essa imagem que possuem dos ouvintes. Para Cabello (2003) a linguagem radiofônica deve ser marcada por organização, exatidão, acréscimos estimuladores e simplicidade. A organização compreende a transmissão de frases fáceis de guardar, dando valor às informações que são essenciais. Já a exatidão garante que as informações estão sendo transmitidas da forma mais enxuta possível. Por acréscimos estimuladores o autor aponta o papel da sonoplastia quando esta é aliada ao que está sendo dito. Por fim, a simplicidade é conseguida pelo uso de termos conhecidos, frases curtas e fáceis de entender. Segundo Jung (2005) tornar a


18 informação o mais simples e concisa possível garante que se tenha mais chances de se memorizar a mensagem. Em sua obra “Jornalismo de Rádio”, Jung cita o exemplo de uma pesquisa realizada pela professora Maria Cristina Romo Gil, que comprovou que somente 10% das mensagens verbais permanecem na memória dos ouvintes após três dias, ao passo que na mensagem audiovisual esse índice sobe para cerca de 65%. Além de atentar para a formatação da mensagem no rádio, também é importante adequar os temas aos gêneros e formatos, características explorada a seguir.

3.2 Gêneros e Formatos em Programas Radiofônicos De acordo com os autores Miguel Ángel Ortiz e Jesús Marchamalo (2005) os gêneros de caráter jornalístico apareceram em suas origens vinculadas ao jornalismo escrito. A partir deste primeiro instrumento, mediante o qual é possível efetuar uma informação de atualidade, o tema dos gêneros de caráter jornalístico e as considerações circunstanciais que disso resultam transcenderam outros campos de caráter igualmente jornalístico, porém canalizados por intermédio de um meio distinto. Fala-se, portanto, de gêneros no jornalismo radiofônico, no jornalismo televisivo, no jornalismo cinematográfico etc (ALBERTO apud, ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.69 e 70).

Deste modo, tendo por base os estudos jornalísticos descritos acima, é que o autor Luiz Beltrão (1969), precursor deste assunto no Brasil, dirigiu suas investigações sobre esse assunto na área impressa e, seus estudos influenciaram também a pesquisa radiofônica. Lopez (2009, p.98) complementa que “a pesquisa sobre gêneros no rádio ainda se mostra incipiente e eminentemente atrelada ao jornalismo impresso”. Com isso, percebe-se que apesar do rádio ser um veículo de comunicação antigo, ainda há muito que se estudar nesta área. Gêneros e formatos radiofônicos são considerados classificações dentro da produção radiofônica. Para melhor compreensão, decompor-se-á as palavras gênero e formato. De acordo com os estudos das jornalistas Graziele Forest, Priscila Serpa e Andréa Menegaro (2010, p. 391-392) a palavra gênero na sua origem deriva de gênises, originária do grego e que tem como significado, origem, início. Quando esta é aplicada ao veículo de comunicação de massa chamado rádio, pode-se torná-la como


19 características gerais de um determinado programa, ou seja, considera-se a base fixa deste programa. Já quando se faz referência à palavra formato, pode-se dizer que esta vem do latim e procede da palavra forma. Sendo assim, os formatos são as estruturas nas quais os conteúdos de um programa se anexam. Ademais, gênero pode ser entendido como uma categorização mais ampla, sendo assim, os gêneros radiofônicos levam em conta as principais expectativas da audiência, visando atendê-las. Para o autor Arlindo Machado (2001) os gêneros têm um papel fundamental para a organização do conteúdo radiofônico:

[...] é uma força aglutinadora e estabilizadora dentro de uma determinada linguagem, um certo modo de organizar idéias, meios e recursos expressivos, suficientemente estratificado numa cultura, de modo a garantir a comunicabilidade dos produtos e a continuidade dessa forma junto às comunidades futuras. (MACHADO, 2001, p.68).

Já o formato, seria uma classificação mais específica de uma mensagem levada ao ouvinte ou telespectador, constituindo modelos que os programas podem assumir dentro de qualquer gênero. Por exemplo, um programa pode ter conteúdo musical, sendo que o formato deste seja um rádio documentário. Ou, mesmo musical, tendo o formato de planilha, onde o locutor apresenta uma seqüência de músicas num tempo determinado. De acordo com Ferrarreto, (2001, p. 61), “o formato representa uma espécie de filosofia de trabalho da emissora, marcando a maneira como ela se posiciona mercadologicamente no plano das idéias”. Já Angel Faus Belau (apud MARTINI 2009, p.1) diz que um, [...] programa é designado como um conjunto do espaço radiofônico coordenado cronologicamente, o qual responde a exigências planificadoras e que estão condicionadas por uma série de elementos, como técnica, audiência e política da emissora.

Por isso, é preciso que se pense determinado programa aliando suas características de acordo com o interesse do público, horário de transmissão e até mesmo estrutura da emissora. Com base nestes dados, André Barbosa (2003) explica que os gêneros radiofônicos podem ser divididos em quatro principais tipos. Mas, é importante que se tenha em mente que existem vários programas radiofônicos que fazem hibridizações de diferentes gêneros, fazendo com que o programa não possa se definir como um único


20 formato. Barbosa (2003) destaca cinco principais gêneros radiofônicos o publicitário, o musical, o dramático, o educativo cultural e o jornalístico. Para o professor Eduardo Vicente (s/d) da Universidade de São Paulo, deve-se tomar cuidado sobre formulações inflexíveis, pois muitos formatos se inserem em um mesmo programa, como explicado acima. O gênero publicitário é também conhecido como comercial e tem grandes inserções em quase toda a grade de programação de emissoras. Esse gênero é o que busca convencer sobre benefícios de produtos e serviços e, assim, vendê-los ao ouvinte. Dentro do gênero publicitário ou comercial, aparecem os Jingles, que são anúncios com melodias que tendem a fixar na memória do ouvinte. O BG (background) aparece muito em televisão e, também se apresenta como uma peça gravada sob um fundo musical. Destaque para o testemunhal que procura dar mais credibilidade trabalhando com depoimentos. O spot é o mais criativo e mais utilizado nos programas radiofônicos, mistura locução com trilha e ruídos que trazem destaque ao que está sendo oferecido. O programa musical é o tipo de programa que mais ocupa lugar nas rádios no geral. Ele se baseia na alternância entre locução e música, aparece na grade de quase todas as FM's do país. Já as peças radiofônicas, radionovelas e seriados no rádio pertencem ao gênero dramático, também conhecido como ficcional. Destacam-se assuntos da atualidade, como histórias fictícias, com ar de drama, humor, romance. É o gênero que tem o poder de aflorar os sentimentos dos ouvintes. O gênero educativo cultural é demasiadamente pouco abordado no Brasil. Poucos programas fazem adesão a esse gênero, embora seja um gênero que deveria estar nas grades de programação pelo seu valor, trazendo conhecimento e educando os ouvintes. Dentro do educativo cultural, uma das principais e mais conhecidas produções, é o documentário educativo e cultural, a audiobiografia e o programa temático. O documentário educativo apresenta-se como programas artísticos e históricos. A audiobiografia, como o próprio nome deixa explícito, é a discussão de obra e vida de determinada pessoa, personalidade que pode ser da política, medicina ou de outros grupos profissionais. O programa temático é um programa com conteúdo voltado a determinado tema. Como exemplo pode-se citar um programa que informe sobre a gripe H1N1 onde discute-se o tema, com entrevistas e debates para buscar esclarecimentos para a comunidade. De acordo com Luiz Beltrão (BELTRÃO apud LOPEZ, 2009, p.98) os gêneros jornalísticos podem ser divididos em três tipos. O primeiro em sua classificação é o


21 gênero informativo (1969). Por segundo, trata do interpretativo (1976) e, por terceiro, do opinativo (1980). Segundo Vicente (s/d) nos gêneros informativos o rádio tem como papel principal levar aos ouvintes informações abrangentes e atualizadas. O gênero informativo pode assumir duas formas distintas: jornalística (onde a informação é passada da forma mais isenta possível) ou opinativa (aqui o profissional fica livre para expressar sua subjetividade). Segundo Barbosa Filho (2003) os formatos mais usados dentro do gênero jornalístico são: nota (informação sintética, curta sobre um fato ou acontecimento); boletim (também é um informativo curto, porém, sua apresentação ocorre com certa freqüência. Os boletins podem tratar, por exemplo, das informações mais importantes do dia, de forma sintética); reportagem (as reportagens constituem matérias específicas sobre um tema, combina diversos recursos como sonoras, BG’s, por exemplo. A reportagem pode inclusive trazer a opinião do repórter, constituindo uma mistura entre o gênero jornalístico e o opinativo); entrevista (o repórter elabora perguntas para serem feitas tanto no estúdio quanto fora dele); externa (a matéria é feita diretamente do local do acontecimento. Nesse sentido, impressões do repórter e elementos que ajudem a ambientar o local garantem uma maior credibilidade à veiculação); crônica (caracterizada pela liberdade do autor, esse formato pode tratar dos mais diversos temas, o foco está mais nas impressões do repórter do que no fato em si); debate (também chamado de mesa redonda. O debate é marcado pela reunião de pessoas que tem opiniões distintas sobre um mesmo tema, normalmente, especialistas. Nesse caso, o repórter aparece na figura de mediador, dirigindo perguntas e intervindo quando julgar conveniente); radiojornal (o radiojornal é um programa segmentado em diferentes seções, reproduzindo outros formatos radiofônicos como notas e reportagens, por exemplo) e documentário (pode incorporar diversos formatos jornalísticos, mas deve, necessariamente, fazer uso de efeitos e músicas). Além do gênero informativo, Barbosa Filho (2003) também propõe que se dê uma atenção especial ao entretenimento. Barbosa Filho (2003) explica que o entretenimento, também chamado de ficcional ou dramático, valoriza aspectos da linguagem sonora e radiofônica, como silêncio, músicas, vozes e efeitos para apresentar histórias reais ou fictícias. Entre os formatos mais comuns do gênero ficcional o autor destaca: radionovelas (formato de longa duração, por isso, o conteúdo é segmentado em capítulos. As radionovelas fizeram bastante sucesso no Brasil durante as décadas de 30 e 50); seriado (composto de peças, cada uma é independente das outras, ao contrário da


22 novela, pois cada seriado tem início, meio e fim); peça radiofônica (formato bastante utilizado na Europa. Pode tratar tanto de temas do cotidiano quanto constituir uma adaptação de um texto existente); programa temático (centrado em discutir assuntos específicos). Uma característica importante no rádio é que o veículo tem a facilidade de apresentar os fatos no exato momento em que estão acontecendo, de forma imediata e instantânea.

Os fatos podem ser transmitidos no instante em que ocorrem. O aparato técnico para a transmissão é menos complexo do que o da televisão e não exige a elaboração necessária aos impressos para que a mensagem possa ser divulgada. O rádio permite “trazer” o mundo ao ouvinte enquanto os acontecimentos estão se desenrolando (ORTRIWANO, 1985, p.80).

Esta facilidade de informar o ouvinte de maneira tão rápida acontece por diversos fatores. Lopez (2009) acredita que um dos motivos desta aproximação se dá através da mediação narrativa dos fatos: “A escolha da estratégia narrativa e, junto a isso, do gênero adotado para transmitir um acontecimento levam à criação de uma identificação e a uma fidelização do ouvinte” (LOPEZ, 2009, p.98). Isso tende a justificar a aceitação do público a determinado programa. Autores como Marques de Melo (2009, p. 35) compreendem os gêneros e os formatos jornalísticos como parcelas de um processo da comunicação, cujo alcance começa pelas ações mais amplas e termina pelas menores. É por esta premissa que por muitas vezes, a tendência dos veículos de comunicação é repassar simplesmente o que está acontecendo no momento. Neste caso, segundo Ferrarreto (2001), tem-se usado somente o estilo do g��nero informativo.

[O Jornalismo Informativo] Retrata o fato com o mínimo de detalhes necessários à sua compreensão como notícia. Por se adaptar às necessidades de concisão do texto radiofônico, é o gênero preponderante no noticiário. Aparece, também, na maioria dos boletins, embora estes tendam, pela adição da impressão pessoal do repórter, a invadir o terreno do jornalismo interpretativo (FERRARRETO, 2001, p.201).

Com base em Ferrarreto (2001), pode-se complementar que toda a informação repassada ao ouvinte vai além do texto escrito. O ouvinte, ao escutar determinada notícia, cria imagens sobre os fatos. Portanto, a entonação da voz do locutor, silêncio no


23 momento certo, ruídos, trilhas, vinhetas e até mesmo som ambiente ajudam na construção da notícia. Para Lopez, a mudança destas características pode gerar variação de gênero. “Neste caso, a informação não assumiria necessariamente um papel interpretativo, mas opinativo” (2009, p.99), isso indica que o papel do locutor afeta a compreensão da mensagem, ou melhor, o locutor com silêncios ou tonalidades diferentes na voz pode indicar posição sobre o assunto relatado. Ademais, essa mudança de variáveis tende a ser diferente de pessoa a pessoa. Cada indivíduo-locutor apresenta individualidades e características próprias a serem seguidas em um determinado momento. Já, quando trabalha-se com o gênero informativo pode-se perceber que o mesmo tem como principais produções a nota e a notícia. O gênero informativo apresenta-se como o mais usado em emissoras, tanto AM quanto FM. Muitas vezes não é possível realizar grandes reportagens, que demandam tempo e custo de produção, assim as rádios optam por repassar aos ouvintes programas e mensagens curtas. Segundo Barbosa Filho (2003), a nota é a mais utilizada no meio radiofônico. A nota, no jargão radiofônico, significa um informe sintético de um fato atual, nem sempre inconcluso. Suas características principais são o tempo de irradiação, sempre curto, com quarenta segundos de duração, e as mensagens transmitidas mediante frases diretas, quase telegrafas (BARBOSA FILHO, 2003, p.90).

Esse tipo de mensagem repassada ao ouvinte o deixa informado sobre os mais diversos assuntos, de forma imediata e instantânea. Por isso, pode-se garantir que um dos principais investimentos do rádio é a informação (LOPEZ, 2009). Desta forma, o objetivo da informação radiofônica é conseguir manter o ouvinte a par do que está acontecendo e que seja de seu interesse (ORTRIWANO, 1985, p.89). Essas transmissões de informação, segundo Ortriwano (1985), as transmissões informativas podem apresentar-se em sete categorias: flash, edição extraordinária, especial, boletim, jornal informativo e programa de variedades. O flash é considerado o acontecimento importante que deve e precisa ser divulgado de imediato. A edição extraordinária é utilizada como plantões de notícias sobre algum assunto de grande relevância, mortes, acidentes e destaques para assuntos de grande repercussão e informação de primeira mão. O programa especial destaca um assunto somente e se desenvolve com reportagens e entrevistas, depoimentos sobre determinado assunto, este tipo de programa ocorre muitas vezes em homenagens para


24 determinada empresa ou pessoa. O boletim é uma notícia normalmente de última hora que destaca o repórter, já que o mesmo se encontra no local do acontecimento ou em local relevante ao assunto. O radiojornal ou jornal informativo é o que traz normalmente todos os dias em uma ou mais edições as principais notícias do dia, tanto destaque para notícias locais como nacionais e internacionais. O programa de variedades pode não apresentar em todos os momentos as características essenciais do rádio como o imediatismo, rapidez e instantaneidade. Mas, em contrapartida, esta tipologia de programa apresenta características peculiares como reportagens aprofundadas sobre um determinado assunto, pesquisa e maior tempo de produção. Dentro dos tipos de gêneros radiofônicos apresentados neste trabalho, pode-se dizer que o programa de variedades aparece como um gênero misto, e vincula-se a partir de suas origens, à informação (ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.107). No entanto, se a informação é a alma do rádio, pode-se dizer que notícia em rádio é tempo presente. Prado acrescenta que: “O passado não é notícia em rádio” (1989, p.40). Mas, não obstante a isso, as histórias do passado podem virar notícias presentes em um programa de rádio. Por isso, no formato variedades, é a totalidade do programa que pode despertar o interesse do ouvinte. Programa este que pode abranger histórias antigas e que se resgatadas de maneira diferente tendem a deixar o ouvinte atento, além é claro de trazer notícias quentes mescladas com reportagens e entretenimento. Apesar de ser um estilo de programa bastante antigo e possuir semelhança com outros programas, no programa de variedades o papel do apresentador faz a diferença na hora de repassar as mensagens ao ouvinte. Prado (1989) confirma esta característica.

Seu elemento diferenciador por excelência é o apresentador, cuja personalidade e notoriedade o convertem em autêntico ponto de referência para a audiência. O apresentador juntamente com a grande variedade de seções e colaboradores que se distribuem regularmente ao longo do espaço são os aspectos fundamentais que definem o gênero de variedades (ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.107).

Por isso, é fundamental que os apresentadores estejam preparados para lidar com qualquer tipo de situação. Pode-se dizer que a estrutura deste tipo de programa é semelhante aos programas de curta duração. Na primeira parte, há informação de atualidade. Logo após, pode haver entrevistas de qualquer caráter, mas geralmente vinculadas à atualidade. Por fim, há seções mais descontraídas como agenda, lazer, espetáculos, cultura. Neste processo, intercalam-se reportagens, seções de humor, mesa-


25 redonda e, inclusive há espaço para o entretenimento (ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.110). Essa ordem para a seqüência do programa radiofônico pode ser determinada tanto pelo diretor quanto pelo apresentador. Nessa perspectiva, dentro do estilo de programa de variedades aparece também a função reflexiva dos recursos sonoros além da estética e estrutura em si. A música (como conteúdo ou vinheta), assim como os mais diferentes tipos de efeitos sonoros, tem papel fundamental na apresentação do programa. “Cumprem do ponto de vista estético, uma série de funções imprescindíveis para a continuidade; essas são, fundamentalmente, de caráter gramatical, expressivo, descritivo e reflexivo” (ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.110). Por essa razão, os ouvintes conseguem distinguir quando há mudança de conteúdos e seções durante os blocos do programa. Além dessa diferenciação, é interessante padronizar-se as seções. Assim, o ouvinte sabe qual o conteúdo poderá escutar naquele momento. Ortiz e Marchamalo (2005) quando referem-se à estética e apresentação da estrutura do programa de variedades dizem:

É necessário estimular o ouvinte com conteúdos criativos, pois, do contrário, será difícil manter sua atenção em programa de tão longa duração. 2. A estrutura geral do programa de variedades – vinhetas, seções, colaborações etc. – deve apresentar uma emissão regular (ORTIZ E MARCHAMALO, 2005, p.112).

Pretende-se com a estrutura do programa prender a atenção do ouvinte, visto que um programa de variedades mescla informações com entretenimento. Contudo, para Ortriwano (1985, p.94) esse tipo de formato não necessariamente precisa falar da atualidade. Pode, no entanto, mesclar as informações com músicas, prestação de serviços e até mesmo humor. Já os autores Ortiz e Marchamalo (2005) acreditam que toda informação repassada ao público precisa estar relacionada com a atualidade. E, por isso, um programa de variedades necessita seguir uma ordem lógica dos assuntos tratados, assim como o tempo de duração dos blocos. Isso evita com que os ouvintes deste tipo de programa não desistam de escutá-lo até o fim. Mcleish (2001, p.141) ao pensar no ouvinte, explica que, dentre todos os tipos de programas, é o do grupo de variedades que “com mais facilidade pode tornar-se maçante ou trivial quando degenera num amontoado de matérias frouxamente ligadas entre si”. Por isso, é importante que seja realizado um roteiro de acordo com as


26 exigências deste programa equilibrando os conteúdos, como música, reportagens, interações, etc. É nesta lógica que o autor Mika (2005) expõe as principais características do programa de variedades, onde ele destaca a importância do apresentador/locutor para o andamento do programa. Tendo um ou dois apresentadores, o Programa de Variedades possui várias seções: atualidades, política, esportes, música, humor... O programa de variedades, também chamado de popular, é responsável pela maior parte da audiência nas emissoras. Esse tipo de programa está centrado na figura do apresentador, também chamado de comunicador popular. Esse profissional tem um perfil bastante específico: uma pessoa descontraída, com muito carisma, perspicácia e emotividade. Em termos de produção, tal tipo de programa é dividido entre música, muita prestação de serviço de caráter básico, gincanas e notícias sobre artistas e personalidades, tudo com a participação direta e permanente do apresentador (MIKA, 2005, p. 32).

Neste caso são os apresentadores que dão vida ao programa e chamam o ouvinte a participar através de ligações para a rádio, contato no MSN e outros sites de relacionamento, entre outras ferramentas de interação. Seguindo a proposta de realizarse um programa de variedades optou-se por um programa que se utilize de grande parte das ferramentas como o Twitter, Messenger e o Orkut para dar espaço a participação e interatividade do ouvinte com o programa. A idéia principal foi criar um programa sobre cultura regional, abordando diversos temas que são desconhecidos para muitos, ou em muitas vezes assuntos conhecidos de outro ponto de vista. Por exemplo, no primeiro programa o destaque foi a música de baile. Muitos conhecem a música de bandinhas que tocam nos bailes da região, mas poucos sabem como ela surgiu e qual a relação dela com a música de outras culturas. Um dos objetivos do programa foi mostrar quais as diferenças de bailes em uma cidade grande com aproximadamente 100 mil habitantes e um pequeno município de pouco mais de 5 mil habitantes. Para que o programa piloto sobre “bandinhas” fosse atraente, procuraram-se histórias de pessoas que tiveram suas vidas marcadas por bailes e como essas pessoas vivem hoje, depois de 30, 40 anos, além de outros quadros que falam das histórias das bandas, curiosidades, entre outros.


27 Para isso, na proposta de um programa de variedades optou-se em dividi-lo em três blocos, preenchidos com reportagens, informações sobre bandas, agenda da semana, quadro de músicas, além da interação com o ouvinte ou internauta. Esta interação com os ouvintes se dá através dos sites de relacionamento (MSN e Orkut), além do Twitter, e navegação no blog.

4 CONVERGÊNCIA E NARRATIVA A convergência na comunicação estuda a integração de elementos culturais, organizacionais e tecnológicos envolvidos no processo de difusão das informações, por conseguinte, desenvolvem-se linhas de pesquisa que seguem focos diferentes, porém complementares. São guias nesta abordagem de convergência os pesquisadores espanhóis Ramón Salaverría, Samuel Negredo, José Alberto García Avilés, o norteamericano Henri Jenkins e os brasileiros Marcelo Kischinhevsky, Débora Lopez e Carlos Pernisa Jr. A arte de codificar, registrar, transmitir e decodificar o conhecimento se utiliza, entre outras técnicas, da combinação de sons, desenhos icônicos, do alfabeto, dos impulsos eletrônicos e, mais recentemente, das combinações binárias. Os códigos integrados pelas tecnologias digitais multiplicaram as possibilidades de combinação e, conseqüentemente as zonas de convergência – entendidas aqui como o espaço em que se cruzam e se encontram informações de códigos distintos. Como exemplo, uma publicação impressa onde se combinam foto e texto, ambos interferem no processo de compreensão da mensagem, complementam-se ou criam redundância. Na mensagem cada elemento assume um território, tanto nas margens do papel, quanto no processo de significação. Limites que se cruzam e se mesclam até determinado ponto, este local de fusão é chamado de zona de convergência. Segundo Salaverría e Negredo (2008, p. 50-51) “cuando esas dos líneas terminan por unirse finalmente en un punto, dejan de ser convergentes. En ese preciso lugar de intentersección es donde se sitúa el concepto periodístico de integracón”. Segundo os autores a convergência, por sua própria natureza, é algo sempre inacabado, mas a tendência é a integração harmônica entre os códigos diversos. Os diferentes formatos se encontram e causam uma determinada tensão que pode ser administrada pelo planejamento, arquitetura e narrativa.


28 Na prática e, de um modo generalista, pode-se concluir que os usos das tecnologias digitais interfere decisivamente nas rotinas dos veículos de comunicação, nos suportes de difusão, nos hábitos de acesso e conseqüentemente nos fluxos informacionais. Lemos (1997, pg. 3) afirma que “a tecnologia digital proporciona assim uma dupla ruptura: no modo de conceber a informação (produção por processos microeletrônicos) e no modo de difundir as informações (modelo “Todos-Todos”). O espaço social é permeado por múltiplas possibilidades de efetivar a comunicação social. Como exemplo dos locais onde a comunicação social acontece, é possível citar os meios tradicionais (rádio, cinema, TV, impresso), a internet (blog, portal, rede social, banco de dado, fórum, etc.) e mais recentemente os dispositivos portáteis que permitem armazenamento e leitura em variados formatos midiáticos (Ipod, celular, MP3 player, netbook, pen drive, câmera fotográfica, etc.). Empresas e estudiosos no início deste século se esforçam para compreender os processos de convergência, a fim de garantir a eficácia da comunicação especializada. Salaverría e Avilés (2008) apontam para múltiplos processos simultâneos de convergência,

analisam

as

práticas

jornalísticas

descrevendo-as

de

modo

multidimensional, ou seja, além do determinismo tecnológico e das práticas organizacionais. Já Henry Jenkins (2009) mantém o foco nas transformações culturais ocorridas em virtude das práticas produtivas e de consumo, mas discute também, os múltiplos suportes de difusão que a tecnologia digital possibilita. Kischinhevsky (2009) ao pesquisar as rotinas de jornalistas em redações de jornais, revistas, TVs, rádios, agências e portais constata que o profissional da comunicação é obrigado a assumir múltiplas funções pelo mesmo salário. Ao tratar da convergência nas rotinas produtivas, Lopez (2009, p. 225) analisa a rotina de redações como a CBN e BandNews FM e percebe olhares distintos na exploração dos potenciais dessa nova forma de trabalho. O processo de convergência é administrado ainda de acordo com as características de cada empresa. Enquanto um veículo investe em novos formatos e a exploração do potencial das multimídias e on-line, o outro investe em produção colaborativa entre redações e nas ferramentas de interação com o ouvinte.

Além da interação, Pernisa Jr. (2009) compreende que o trânsito de sons, imagens e textos é potencializado por intermédio de redes, porque não mais necessitam de transcodificações no momento da chegada ou saída dos dados. Além das trocas pela internet os arquivos digitais podem ser visualizados e usados em celulares, MP3 players, câmeras digitais, DVDs ou qualquer aparelho eletrônico de última geração, já


29 que a maioria permite a leitura de múltiplos formatos de mídia: MP3, AVI, JPEG, MPEG, TXT, entre outros, um fenômeno que não impõe restrições ao fluxo informacional conferindo portabilidade e a democratizando o acesso a informação. Além disso, o surgimento da conexão “ligar usar” USB (Universal Serial Bus) que se desenvolveu a partir do padrão “PnP” (Plug and Play) permite que ocorra com mais simplicidade o controle de entrada e saída dos dados de computadores para outros suportes de mídia. A leitura de conteúdo utilizando as tecnologias analógicas exigia a posse de aparelhos específicos para cada formato de mídia. Ao passo que o processo de conversão de arquivos em múltiplos formatos exigia múltiplos aparelhos, embora as práticas sociais inaugurem a cada dia novos dispositivos, a maioria deles faz a leitura de múltiplos formatos em um único dispositivo. Mesmo que a digitalização não seja a condição primeira para a convergência, Pernisa Jr. (2009) acredita que a digitalização acelera e potencializa os processos de troca de informações. Nesse sentido, a convergência desafia o campo da comunicação seja viabilizando o fluxo da informação ou, até mesmo, interrompendo o processo por meio de práticas obsoletas. Dominar as técnicas de produção, organizar o conteúdo e viabilizar o fluxo conta, cada vez mais, com possibilidades inusitadas, deste modo, jornalistas e empresários precisam se atualizar constantemente. Negredo e Salaverría (2008, p. 21) afirmam que, até pouco tempo atrás, as regras que norteavam a produção jornalística de cada veículo eram claras: o impresso cumpria a função de interpretar, o rádio servia a instantaneidade ou ao imediatismo e a televisão ao entretenimento. Cada qual direcionava os conteúdos para distinto público e percebia sua cota publicitária. Com a popularização da internet e a digitalização dos conteúdos, a rotina das redações foi modificada, assim como o modo de consumo dos produtos jornalísticos, instaurando um momento histórico em que a convergência interpretada como processo tecnológico e também cultural, coloca em campo um novo jogador que, segundo os autores, “juega en todos los terrenos: ofrece interpretatión, inmediatez y entretenimento [...] És una plataforma de comunicación que há subsumido a los médios tradicionales”. (NEGREDO E SALAVERRÍA, 2008, p. 21) Porém, Negredo e Salaverría (2008, p.16) não acreditam na extinção dos veículos tradicionais. Os autores afirmam que este é um processo que vai além das possibilidades tecnológicas da internet. A convergência é um processo multidimensional que, no mínimo, compreende aspectos relacionados com as tecnologias de produção e


30 consumo da informação, com a organização interna das empresas, com o perfil dos jornalistas e, por conseguinte, com os próprios conteúdos que se relacionam. Os veículos que durante longo período se estruturaram para atender o modelo de comunicação de massa estão diante do desafio de difundir o conhecimento num processo de convergência tecnológica, de indivíduos e conteúdos, que necessita da interação de ambas as partes em cada etapa do processo. A convergência não está só nos códigos e formatos, a própria rotina dos jornalistas foi afetada pelas ferramentas de apuração, hoje, um único aparelho pode fotografar, gravar o áudio, filmar e até transmitir as informações em tempo real. A apuração pode ser feita in loco ou através de bancos de dados, além de estabelecer comunicação direta ou indireta pela internet. A produção da notícia envolve um processo mais complexo, devido às variáveis que se multiplicaram, as barreiras de tempo e espaço enfraqueceram e a convergência comunicativa que se estabelece com o diálogo constante entre fontes e bancos de dados, leitores e repórteres, redações e veículos, técnicas e tecnologias, formatos e plataformas. No uso das ferramentas para a internet todos passam a ser produtores e consumidores ao mesmo tempo, não existem barreiras para a criação de rádios web, podcastings, blogs, participação em comunidades, promoção e troca de arquivos em plataformas P2P, permitindo a interação com nichos de interesse para compartilhamento de idéias. Juan Varela (2007, p. 54) afirma que os “meios sociais de comunicação são definidos pela convergência de indivíduos em redes sociais, pelo uso de novos meios e pela junção ou conexão de idéias, textos e outros conteúdos informativos e de opinião”. As mudanças estruturais no modelo de comunicação, em que a construção coletiva do conhecimento é formalizada por narrativas digitais, demandam posturas empresariais adequadas ao cenário de convergência. Nesse sentido, Kischinhevsky (2009, p. 13-14) afirma que a convergência nas redações não pode ser uma imposição do departamento financeiro, mas sim “uma nova cultura profissional, em que o trabalho colaborativo seja uma construção coletiva”. As possibilidades de integrar os processos comunicativos afetam diretamente as redações. Integram-se produções para o impresso, on-line, rádio e TV e segundo Kischinhevsky (2009, p. 14) esse fato gera um pesadelo trabalhista. “Ao receber a incumbência de cobrir um mesmo fato em texto, áudio e vídeo, um repórter se vê diante do desafio de cumprir a missão em tempo hábil”. O autor alerta para a exaustiva carga de tarefas a que está submetido o jornalista, rotina que pode comprometer a profundidade do conteúdo.


31 Henry Jenkins (2009) em entrevista ao programa Milênio, da Rede Globo de Televisão, define o processo de convergência como o fluxo de histórias, idéias, sons e marcas em múltiplos suportes midiáticos. O autor aposta na convergência como um processo cultural, referindo-se à possibilidade de produção descentralizada da informação. Na perspectiva de Jenkins (2008) a audiência pode acessar o conteúdo por intermédio de variados suportes e canais midiáticos. Meu argumento aqui será contra a idéia de que a convergência deve ser compreendida principalmente como um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos. Em vez disso, a convergência representa uma transformação cultural, à medida que consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos (JENKINS, 2008, p.28).

Embora o autor não exclua as transformações tecnológicas, o argumento enfatiza o processo cultural e a convergência com ênfase no conteúdo. Narrativas que se propagam com múltiplas possibilidades de interação, de leitura e de veiculação. Jenkins (2008, p. 29) além dos múltiplos suportes midiáticos, considera:

[...] à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos, o comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam (JENKINS 2008, p. 29).

Na perspectiva de Jenkins (2008) o conteúdo de um filme, por exemplo, pode ser explorado em suportes de difusão distintos, como livros, CDs de música, jogos em vídeo game, blogs, seriados de TV e assim por diante. De modo que a narrativa pode ser apreendida em parte ou no todo, muitas vezes ela é construída conforme o feedback dos consumidores. Essa interação demonstra a postura ativa da audiência, bem como a mudança de hábito frente ao acesso. A entrada de novos produtos que exploram as múltiplas plataformas em torno de um mesmo conteúdo é incentivada pelos hábitos de consumo, por outro lado, práticas organizacionais permitem o surgimento de novas relações trabalhistas. Negredo e Salaverría (2008, p. 48-49) ao descreverem o processo de convergência na dimensão profissional classificam duas modalidades de jornalistas. Aqueles que produzem conteúdos em múltiplos formatos para o mesmo veículo, e outros, que especializados em um assunto, produzem conteúdo para veículos diversos.


32 Os autores constroem essa percepção após observarem o trabalho de jornalistas das organizações e autônomos freelancers. Planejar a elaboração de uma narrativa considerando a convergência nas dimensões de conteúdos, profissional, organizacional, tecnológica e cultural interfere inclusive nos interesses publicitários que envolvem os projetos de um veículo. Para conquistar novos territórios as empresas de comunicação exploram as zonas de convergência. A maioria dos veículos tradicionais mantém atualizações diárias em sites na internet, disponibiliza conteúdo complementar, integra redações, incentiva a participação da audiência, enfim, a profusão informativa e tecnológica desencadeia práticas experimentais que resultam em inusitados fluxos informacionais e novas práticas jornalísticas, “alimentando” a cultura da convergência. Cada veículo integra o máximo de possibilidades em narrativas que ainda os identifiquem no espaço social. O rádio, um dos mais tradicionais veículos de comunicação teve sua “época de ouro”, já ultrapassou crises e mais uma vez está inserido no processo de transformação. Desafiado a integrar tecnologias e hábitos para manter ou expandir suas fronteiras na via digital.

4.1 Convergência e a Narrativa Radiofônica No uso das tecnologias digitais o rádio pode contar histórias mesclando os elementos sonoros clássicos, mas também conteúdos adicionais capturados em múltiplos formatos nas apurações, utilizar os bancos de dados da emissora, e também aqueles encontrados na internet em escala mundial. As ferramentas de interação permitem trocas mais intensas de conteúdos, mas antes de concorrer com o áudio podem complementar a narrativa. Lopez (2009, p. 35) identifica uma nova identidade para o veículo radiofônico, em que a transmissão conta com a possibilidade de complementar a informação, combina textos escritos, áudios, vídeos e infografias. Formatos de conteúdo que concorrem para a ampliação da estratégia narrativa. Palácios (2002, pg. 6) afirma que no jornalismo on-line um fato midiático importante é que “na Web, dissolvem-se (pelo menos para efeitos práticos) os limites de espaço e/ou tempo que o jornalista tem a seu dispor para a disponibilização do material noticioso”. Lopez complementa que “no ambiente de convergência a informação pode ser ampliada, através de links internos e externos, e múltiplas fontes e pontos de vista.” (LOPEZ, 2009, p. 35)


33 Além de dialogar com os conteúdos multimídia a linguagem deve contemplar uma audiência inserida na cultura da convergência. As ferramentas de interação se multiplicaram e os hábitos de acesso também, as novas tecnologias da informação aliadas à digitalização dos conteúdos modificaram a relação de acessibilidade. Como conseqüência os programas veiculados ao vivo nas emissoras, podem ser acompanhados pela internet no endereço eletrônico das rádios ou consumidos em arquivos, posteriormente. Na internet é possível a comunicação direta ou indireta, postar comentários, participar de fóruns e comunidades, e-mail, enviar fotos, vídeos. A interatividade é expandida e, por conseguinte, a narrativa em áudio ao se integrar ao conteúdo digital altera a estética do programa. Portanto, o fluxo dos conteúdos se estabelece em uma via de mão dupla, produtor e receptor possuem os mesmos dispositivos para produção e consumo da informação. Lopez (2009, p. 48) afirma que o [...] internauta-ouvinte deseja interação e atualização, o que fez com que as emissoras passassem a, além de transmitir o áudio em streaming, disponibilizar espaços de interação e informações jornalísticas atualizadas periodicamente e organizadas em um canal de últimas notícias.

A convergência na dimensão organizacional interfere na rotina de trabalho dos jornalistas que não mais produzem pensando em um único suporte de difusão. O repórter capta a sonora, mas também fotografa, faz vídeos, produz texto para o site da emissora e, muitas vezes, para o suporte impresso. O uso de múltiplos formatos de conteúdos pode expandir a narrativa, mas também, pode prejudicar a produção radiofônica. Alterações na rotina do repórter, sem o devido planejamento e definição de prioridades, podem comprometer a qualidade da informação. Negredo e Salaverría (2008), afirmam que quando o repórter precisa pensar em adequar o material para qualquer plataforma precisa pensar não só na construção da informação como em ser ágil e versátil para lidar com a situação. Não perder território para outros suportes de mídia obriga a narrativa radiofônica a usar o potencial oferecido pelo meio digital. Produzir para o rádio passa pela necessidade de participar ativamente de todo processo de atualização do conteúdo em sites e redes sociais. É exigido do repórter atualização constante e aptidão para manusear múltiplos equipamentos. Do lado das organizações percebe-se a necessidade


34 de planejamento estratégico para que o processo de integração possa ultrapassar a zona de turbulência provocada pela convergência. Processo que tem a possibilidade de integrar de modo harmônico a produção de áudio e o conteúdo digital. De modo que possam ser complementares e não redundantes. A narrativa radiofônica conta com as possibilidades de combinar recursos ofertados pela internet, conforme destaca Palácios (2002). “Memória com Instantaneidade, Hipertextualidade e Interactividade, bem como a inexistência de limitações de armazenamento de informação, potencializam de tal forma a Memória que cremos ser legítimo afirmar-se que temos nessa combinação de características e circunstâncias uma Ruptura com relação aos suportes mediáticos anteriores.” (PALÁCIOS, 2002, pg. 8)

A memória combinada com a interatividade, por exemplo, permite que o ouvinte possa escutar um programa a qualquer horário, recebê-lo por e-mail e escutar no celular ou “players”. A hipertextualidade permite o aprofundamento do conteúdo ao relacionar múltiplas fontes e bancos de dados. A interatividade, como já se discutiu, oferece a participação ativa na construção dos programas e a identificação com o conteúdo. Enfim, o principal desafio está em organizar e apresentar o conteúdo de modo atraente. Vencer o desafio está condicionado ao planejamento, passando pela edição e chegando a arquitetura da informação que ajuda a contar histórias, ampliar os níveis de aprofundamento e, conseqüentemente, integrar com plataformas complementares de difusão, sem descaracterizar a narrativa principal, neste caso, o áudio que será o fio integrador de todo o processo. A atualização constante e a multimidialidade são favorecidas por fatores técnicos e avanços relacionados à usabilidade. Os sites e blogs contam com plataformas de atualização, cada vez mais amigáveis. Conseqüentemente, a postagem de conteúdo em áudios, vídeo e fotografia, bem como, a atualização de conteúdo a qualquer tempo sem a dependência de técnicos em informática, viabiliza e potencializa a narrativa expandida do som. 4.2 Rádio e Novas Tecnologias Inserir o rádio em um modelo diferente de apuração e transmissão de notícias é algo desafiador para as produções radiofônicas, bem como apresenta uma série de desafios para os profissionais da área de rádio – jornalistas, radialistas. Mas mesmo com


35 desafios, a inserção de novas mídias nos produtos radiofônicos busca maior interação entre emissão e recepção. Lopez (2009) em sua tese de doutorado comenta que ferramentas de relacionamento como Orkut, Facebook, Twitter, dentre outras, estabelecem ambientes de troca de informações, aproximando ouvintes e locutores. Desta forma, é possível perceber que a web potencializou uma das principais características do rádio: a interação. Através da internet, por exemplo, o fazer jornalístico ganha um importante complemento. Isso porque, a internet chega conquistando um novo espaço no cenário dos veículos de comunicação de massa: passa agora a usar os diversos formatos midiáticos, como multimidialidade, convergência, hipertextualidade, instantaneidade para continuar atraindo ouvintes. Segundo Barbeiro (2001) o público da internet busca mais que informação, é uma audiência que também pretende dar as suas contribuições, caracterizando um processo de construção de conhecimento coletivo. Para o autor, “[...] os internautas querem mais. Querem consultar arquivos, obter dados, ouvir programas já apresentados, comunicar-se com a direção da rádio, apresentadores, comentaristas e programadores” (BARBEIRO, 2001, p.37-38). É possível perceber que a contribuição desses “ouvintes internautas” auxilia na produção dos conteúdos, pois, sabendo quais são as curiosidades da audiência, fica mais fácil estabelecer diálogos e tornar as programações adequadas às expectativas do público. O rádio, em sua essência, não tem opções de transmissão em vídeos. Foi nesse ponto que a internet, a partir dos anos 90 e principalmente no decorrer do século 21, veio como uma alternativa para complementar o trabalho radiofônico, possibilitando a inclusão de vídeos, enquetes e entrevistas na íntegra, por exemplo. Além desse tipo de inserção, as emissoras também ganharam a possibilidade de transmitir sua programação via web a todo o mundo, não restringindo mais as suas transmissões ao alcance das suas ondas sonoras. De acordo com Lopez (2009) as ferramentas disponibilizadas pela web auxiliam na busca de informações e são fontes de pesquisa e troca de informações. Essas ferramentas são formas de aproximar emissor e receptor, ouvinte e locutor. É possível perceber que os complementos trazidos pela internet auxiliam também no sentido de tornar os produtos mais interessantes, a aceitação é ampliada e conseqüentemente, a audiência dos programas tende a aumentar. A internet é um suporte para o rádio, pois pode completar a programação das emissoras. Além disso, a internet faz parte de um


36 novo contexto sócio-cultural que está presente no mundo hoje, para tanto, é essencial essa readaptação de rotinas produtivas, linguagens e conteúdos.

O rádio está se adaptando ao mercado global de informação e o ouvinte-internauta começa agora a estabelecer outro tipo de relação com as estações de rádio: praticamente todos os sites dispõe de uma home page contendo informações textuais sobre a programação (horários, destaques, chamadas para atrações do dia ou da semana) e dados sobre o funcionamento da própria emissora. (DEL BIANCO, 1999, p 214).

Portanto, inserir o rádio num novo modo de apuração, produção e relato dos acontecimentos, é desafiador, tanto para o meio radiofônico, quanto para o profissional, porém crucial nesta era da informação. A interação pode, por exemplo, aproximar a audiência dos fatos. O rádio e as novas tecnologias têm o poder de colocar no mesmo patamar todas as emissoras, sendo estas de grande ou pequeno porte, não importando onde elas estejam, uma vez que tecnicamente estão igualmente preparadas (utilizam o mesmo ciberespaço), (ALVES, 2003). Desta forma caem grande parte das fronteiras regionais, nacionais, e a rádio de uma pequena cidade, por exemplo, pode ser escutada por moradores de outros locais, mesmo a quilômetros de distância. Nesse sentido, o rádio também serve como um meio difusor das mais diversas culturas. Para atender a característica de romper fronteiras, percebe-se que a linguagem, tanto no rádio quanto na internet deve atender aos preceitos dessa espécie de “globalização das informações”. As narrativas que compuseram as peças radiofônicas no passado contavam com a função dos sonoplastas, hoje o desenvolvimento de ferramentas para captação, arquivamento de difusão de sons afetou diretamente a rotina produtiva de emissoras extinguindo funções como a de sonoplasta, por exemplo, e alterando a rotina produtiva. Porém a essência do rádio se mantém nos dias atuais, convertendo o som em imagens sonoras, textos ou situações, representando contextos ao recriar ambientes, atmosferas e sensações.

A construção do texto radiofônico exige, além de certa dose de correção gramatical, adequação técnico-lingüística concernente à estrutura do veículo rádio. Trata-se de um texto peculiar, se comparado ao dos outros meios de comunicação. No jornalismo impresso, o leitor, com o texto em mãos, pode ler rápida ou lentamente, superficial ou detidamente, e pode, até mesmo, analisar a interação texto-fotografia. Na televisão, o telespectador, perante a fusão de imagem e som, vê facilitada a decodificação da mensagem noticiosa. O rádio, por sua vez, torna-se o meio mais fugido de alguma


37 expressão da linguagem. O texto radiofônico tem uma única chance de ser ouvido. (DEL BIANCO, 1999, p 15-16).

Além da linguagem há outros fatores que se alteram no radiojornalismo, como a oralidade, a forma de falar do locutor, gramática, formatos, entre outros. Visto que, quando considera-se essa nova configuração – que conta com o auxílio da internet - o rádio, disponibilizado ao vivo, tem a mesma linguagem propagada via satélite. Assim, as notícias que são armazenadas ou sons que serão ouvidos posteriormente, devem além de usar a informação falada, utilizar o texto escrito, recursos utilizados pela internet e o hipertexto, que segundo Pierre Lévy é,

[...] tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Esses nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou podem ser eles mesmos. Funcionalmente, um hipertexto é um tipo de programa para a organização de conhecimentos ou dados, a aquisição de informações e a comunicação. (LÉVY, 1993, p. 33).

E o rádio utiliza-se do hipertexto desta forma, complementando a notícia que já foi veiculada em áudio. “Com um simples clique de mouse, o usuário pode obter informações complementares (em texto, áudio ou imagem) e mais profundas sobre determinado conteúdo disponibilizado” (Alves, 2003 p. 10). Assim, quando se utiliza destes nós – palavras, imagens, gráficos – emprega-se o conceito de hipertexto aplicado ao rádio. De acordo com Pierre Lévy (1993) o que faz de um sistema ser hipertextual, é a capacidade de suas páginas conterem referências cruzadas e de estarem conectadas de uma forma não linear. Nos sites os ícones que permitem a navegação pelo sistema podem vir em forma de palavras destacadas no texto, o que permite uma ligação direta de um assunto específico com o site anterior. Desta forma, quando retrata-se o uso destas tecnologias no radiojornalismo, elas além de disponibilizarem informações aquém do áudio, passam a constituir um processo de checagem e apuração da informação. A rede, online é um instrumento de coleta de informações, No entanto, ao se observar rotinas produtivas da notícia, especialmente do rádio jornalismo, fica evidente que o seu uso está aquém de seu potencial de alterar a profundidade do jornalismo, contribuindo para que a reportagem possa ir além do jornalismo declaratório para reunir e sintetizar uma grande quantidade de provas documentais. Fato, a rede tem sido um instrumento para coletar


38 informação pronta de segunda ou terceira mão a qualquer momento. Essa modalidade tornou a Internet parte constitutiva do próprio método de checagem e apuração de informação em emissoras de rádio especializadas em jornalismo (DEL BIANCO, 2006, p. 4).

As rotinas produtivas dentro do rádio têm evoluído conforme a utilização das tecnologias, o que se percebe, hoje, é que meios tradicionais de comunicação têm usado a internet para buscar informações. Há uma construção de dinâmicas de produção e transmissão que devem estar relacionadas com a tecnologia tradicional da radiodifusão e com os processos de informatização da informação, ao se utilizar da internet. A inserção de novos conceitos tecnológicos, como o hipertexto que destacado aqui como sendo um contíguo de ligações realizadas através de conexões, onde palavras, vídeos, páginas, imagens, gráficos, e outros elementos complementam o que é exposto nas transmissões da informação nos meios tradicionais, veio a provocar uma readaptação na captação de informações. Assim, os jornalistas devem readequar-se e utilizar-se de várias formas (tecnologias) para complementar a informação e passá-la ao seu ouvinte/leitor. Esse ouvinte sempre interagiu com o rádio, mas hoje ele busca potencializar essa característica marcante deste meio de transmissão, pois além de se informar o ouvinte também procura uma companhia com que possa participar e fazer parte do que está ouvindo. Essa participação aprimorou-se pelo incremento de novas ferramentas tecnológicas que possibilitam uma interação imediata entre o ouvinte e o interlocutor, o rádio assim,

[...] não fala para um ouvinte passivo, mas para alguém que deseja participar, contribuir – mais do que o fazia até então. O ouvinte – agora também ouvinte-internauta – busca outras fontes de informação, cruza, contesta, discute, corrige, atualiza, conversa com o jornalista que está no ar. Mais que nunca, o ouvinte participa. (...) Hoje eles compartilham os mesmos espaços e ambientes, muitas vezes no mesmo círculo de relações, através de redes sociais. Desta forma, o ouvinte, que antes glorificava, idealizava e mitificava o comunicador, tem a oportunidade de passar a vê-lo de maneira mais próxima, já que se lhe permite o diálogo, a interação. Orkut, Facebook, Flickr, Twitter, entre 203 outros, se estabelecem como ambientes de troca, em que o espaço de fala é permitido a ambos, aproximando-os, de certa maneira (LOPEZ, 2009, p.202-203).

O ouvinte-internauta tem provocado tanto no rádio quanto na internet uma readaptação da apresentação da informação. É possível identificar, por exemplo, que as


39 novas tecnologias vêm a reestruturar as rotinas de produção, o relacionamento repórter/ fonte, as formas de transmissão da informação, bem como todo o processo jornalístico em si. Lopez (2009) afirma ainda, que a internet, está entre as tecnologias que mais alteraram as redações do radiojornalismo, especialmente no que diz respeito a fontes e suporte de informação. O jornalista hoje desenvolve sua apuração sem sair da redação, isso porque tecnologias como o telefone e a internet ajudaram a configurar novas rotinas de produção, em que o repórter não precisa necessariamente estar no palco dos acontecimentos, e sim conectado aos fatos.

Para Del Bianco (2006, p. 01), as novas tecnologias “trazem, portanto, implicações de ordem técnica, ética, jurídica e profissional para o jornalismo.” Todos os aparatos de novas tecnologias digitais informacionais levaram o jornalismo a readaptar as linguagens à exigência da instantaneidade e da visualização on-line. Machado (2003) salienta ainda que as ferramentas ampliam-se a cada dia, aumentando cada vez mais o uso da internet como uma fonte.

O jornalista, além das informações utilizadas para compor notas, notícias e comentários encontra hoje na web material sonoro para compor sua reportagem através de agências de notícias, assessorias de comunicação, sites de outros veículos e bancos de dados. Além disso, acessam também ferramentas alternativas, muitas que trabalham com conteúdo colaborativo, como YouTube, e que podem ser úteis no dia-adia do jornalista (LOPEZ, 2009, p.35).

Esse processo de “mudanças” quanto ao papel do jornalista trouxe, segundo pesquisadores como Michael Kunczik (2001), Bill Kovack e Tom Rosentiel (2003), Ignácio Ramonet (1999) e Dominique Wolton (1999), agilidade no processamento das informações e qualidade, pois a informática facilita as correções, revisões, alterações, além de possibilitar uma dinâmica, pois oferece oscilações entre texto, áudio, imagem e vídeo. Há uma integração de meios, que possibilitam a exploração das características do

ambiente

web,

como

multimidialidade/convergência,

hipertextualidade,

instantaneidade, personalização, interatividade e memória. E quando conjugadas a experimentações sociais, essas características podem ajudar a renovar a mídia. (QUADROS, 2006). A integração de algumas das características da internet – multimidialidade, convergência, hipertextualidade, instantaneidade - no rádio, propiciou uma agilidade nos processos tidos como tradicionais para o jornalismo, isso porque no ambiente digital


40 as alterações/correções são mais fáceis de serem realizadas. Além de uma dinâmica de interatividade, pois há uma distribuição entre texto, áudio, imagens, vídeos e participação do ouvinte, o rádio aprimorou a informação com a internet, utilizando-se de características como hipertextualidade, instantaneidade. Esse aparato de tecnologias digitais possibilita que o conhecimento e as informações sejam centralizados em um único meio, como também permite a aplicabilidade das tecnologias em um mecanismo de processamento que gera mais informação.

4.3 Rádio Hipermidiático Como destacou-se ao longo do texto, as características do ambiente da internet podem contribuir para que os conteúdos do rádiojornalismo usufruam de uma plataforma mais ampla e complexa, pois permitem múltiplas modalidades de explorar os conteúdos. Uma das características mais marcantes nesta união da internet ao rádio é o surgimento do conceito de rádio hipermidiático. Esse conceito alterou rotinas, os jornalistas passaram a não pensar somente naquilo que é disponibilizado no rádio, mas naquilo que será disponibilizado nos diferentes formatos da internet, passando a ser um profissional completo - fotógrafo, texto, áudio, imagem – Lopez (2009) destaca que além de alterar rotinas, o implemento do rádio na hipermídia, facilita correções e propicia agilidade e dinamismo ao jornalismo radiofônico. O rádio passa assim, a falar uma linguagem multimídia, com imagens, textos escritos, áudios, vídeos e infografia, não havendo mais uma restrição de espaços para disponibilização dos materiais. A informação é ampliada através de links, múltiplas fontes e pontos de vista.

Para compreender melhor essa união, entre o rádio e hipermídia, fazem-se necessárias algumas explicações. A hipermídia pode ser considerada um modelo de narrativas onde diversas plataformas são utilizadas ao mesmo tempo para contar uma história ou narrativa. Essas plataformas podem ser empregadas de maneira criativa – com a utilização de vídeos, áudios, imagens, sons, texto - sincronizadas, sem cair assim em um excesso de conteúdo. A definição de hipermidiático mostra que as representações na plataforma hipermidiática permitem que qualquer tipo de representação possa ser codificada,


41 unindo linguagens diferentes como vídeos, textos, animações, sons, imagens e qualquer coisa que se possa pensar no âmbito hipermídia. A construção desta plataforma hipermidiática, permite segundo Leão (1999) a composição de grande quantidade de informação, mas que pode ser separada em pequenos blocos, de forma que a audiência tenha liberdade para escolher se deseja consumir as informações na íntegra, ou em blocos. [...] um tipo de escritura complexa, na qual diferentes blocos de informação estão interconectados. Devido a características do meio digital, é possível realizar trabalhos com uma quantidade enorme de informações vinculadas, criando uma rede multidimensional de dados (FILHO apud LEÃO, 1999, p.9).

Multidimensionalidade de informação que compõe o sistema hipermidiático propriamente dito, e que é uma possibilidade para o leitor acessar diferentes percursos de leitura na internet, mas para isso, é importante que haja conexão entre todos os blocos de informação. A conexão depende de ícones (representações gráficas de elementos/objetos que ao clicar duas vezes levam a outra área/página) que possibilitam ao usuário navegar pela página criada, no caso, blog. Utilizando-se destas plataformas o radiojornalismo aprimora os conteúdos passados durante sua programação, disponibilizando além do programa na íntegra, informações adicionais que permitam ao leitor ter acesso a várias informações dispostas através de diferentes mídias. A inserção de características da internet – hipermídia - a veículos tradicionais como o rádio desterritorializa o texto, deixando-o sem fronteira, permitindo um maior dinamismo de leitura.

É preciso que se veja a internet como mais um meio de comunicação que surgiu para contribuir para o desenvolvimento da comunicação, e não para excluir os meios tradicionais. Mas que pode servir sim como uma ferramenta importante para construção de um espaço comunicacional coletivo e democrático (BORZILO, 2008, p.9).

Para tanto, a chegada da internet, veio auxiliar na implementação de novas modalidades de organização. Sociedades e comunidades virtuais onde ocorre, por exemplo, uma construção de inteligência coletiva, potencializada pela troca constante de informações. Além disso, a internet vem como um meio onde há constantes mudanças e adequações de conteúdos, conforme o ouvinte-internauta desejar, aprimorando assim toda a informação disponível a este. Segundo Prata (2009) o rádio hipermidiático,


42 constitui, hoje, um dos principais meios passíveis de sofrer alterações devido à incorporação das novas tecnologias. A autora investiga como os jovens da geração digital interagem com a Estação Pop, rádio internet mais acessada no país atualmente. Prata (2009) lembra que a internet foi oficializada no Brasil através da criação do Comitê Gestor da Internet (CGI)3, em 1995, entidade que segundo a autora é a responsável por administrar a interconexão de redes dentro e fora do Brasil, configurar nomes e domínios locais, e relacionar a internet no mundo. Hoje, segundo dados do CGI, no Brasil 13,5 milhões de pessoas possuem conexões domésticas à rede mundial de computadores. A primeira emissora rádio hipermidiático foi implantada três anos após o surgimento oficial da internet no Brasil, em 1998, quando a emissora Totem passou a transmitir sua programação somente pela internet. O público consumidor das informações na web é denominado pela autora como a geração virtual, que encontra na internet uma forma de mediar a comunicação, essa geração, surge na última década do século XX. Além dos que nasceram junto com as novas tecnologias, Prata (2009) também considera que existem os imigrantes digitais, que são as pessoas que agora tentam se adaptar a nova configuração tecnológica. A autora realiza um estudo de recepção com jovens de classe média alta, de até 20 anos, caracterizando o público que nasceu junto com as novas tecnologias. Os jovens são convidados a analisar a Estação Pop, rádio hipermidiático mais acessada no Brasil. O público da pesquisa mostra-se cada vez mais exigente, para eles, muitos dos recursos utilizados pela emissora já estão ultrapassados. Mas ao mesmo tempo em que questionam as ferramentas do site da emissora, os jovens pesquisados também dão sugestões de recursos que a Estação Pop poderia utilizar para se tornar mais atrativa. Desta forma, o meio de comunicação pode se adequar a uma nova realidade, agregar a informação original a outros dispositivos, completando-a assim. Cabe ao ouvinte-internauta associar as informações, pois um texto leva ao outro, que leva a outro, formando uma rede de informações interconectadas.

3 Comitê Gestor da Internet (CGI), http://www.cetic.br/tic/2009/index.htm, informações da pesquisa disponíveis em: http://op.ceptro.br/cgi-bin/indicadores-cgibr2009?pais=brasil&estado=rs&academia=academia&age=de-16-a-24 anos&education=superior&purpose=pesquisa-academica


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5 MARCAS DE UM POVO: IDENTIDADE, RÁDIO E CULTURA NO RIO GRANDE DO SUL Autores como Castells (2000), Martín-Barbero (2008), Canclini (2006) e Ronsini (2007), afirmam que a identidade não nasce com os sujeitos, mas que ela surge através de um processo, que sofre influência tanto do contexto quanto das crenças do próprio indivíduo. De acordo com esses autores, a identidade é construída e transformada o tempo todo, por isso, ela tem muito a ver com a adequação a certas circunstâncias. Eles também consideram que a diferença tem um importante papel no processo de definição identitária, de modo que esta só pode ser definida pela alteridade, ou seja, quando o sujeito toma consciência de que é diferente do outro. Segundo Pacheco (2010), através da diferenciação é possível classificar o outro, um processo que gera segurança porque quando se conhece o outro, fica mais fácil prever suas ações. Pacheco (apud DUSCHATZKY e SKLIAR, 2001, p.124) argumenta que “[...] necessitamos do outro para, em síntese, poder nomear a barbárie, a heresia, a mendicidade etc. E para não sermos, nós mesmos, bárbaros, hereges e mendigos”. Dessa forma, os diferentes não estão aptos a fazer parte do grupo e a maneira mais eficiente de afastamento é excluí-los, expurgá-los do meio. Na obra “Os estabelecidos e os outsiders” Norbert Elias e John Scotson (2000) fizeram o estudo de caso de uma pequena comunidade da Inglaterra, a qual atribuíram o nome fictício de Winston Parva. Os autores perceberam que a localidade era dividida em três grupos distintos, e os indícios de discriminação não foram encontrados entre os mais favorecidos socialmente (os da Zona 1), e sim entre a Zona 2 e a Zona 3, habitadas por moradores nas mesmas condições sociais e de raça; a principal diferença entre eles, é que os da Zona 3 eram recém chegados. Os moradores mais antigos de Winston Parva (habitantes da Zona 2, também chamada de aldeia) eram identificados como superiores, respeitavam as tradições da comunidade, estavam organizados de forma coesa e buscavam fatos ocorridos no dia-a-dia para comprovar que os seus vizinhos da Zona 3 eram inferiores. Ao contrário, os moradores recém chegados continuavam se comportando da mesma forma que nos locais onde moravam antes, eram dispersos uns dos outros e não entendiam porque eram discriminados pelos habitantes da aldeia. A exclusão dos moradores da Zona 3 em Winston Parva, representa um exemplo do


44 afastamento do diferente, visando a manutenção da cultura já existente, já que a diferença pode, em certa medida, contaminar a cultura já estabelecida. Segundo Pacheco (2000) a diferença é “demonizada”, uma vez que ela põe em risco a homogeneidade de certa identidade. É o que acontece na maioria dos CTG’s, por exemplo, em que as pessoas que não estão pilchadas não podem entrar, essa é uma forma de manter a homogeneidade, não apenas da vestimenta, mas da identidade tradicionalista. Identidade esta marcada principalmente pela figura do cavalariano, estigmatizado como o guerreiro que derramou o sangue para defender seu território e seu povo. Durand (1988) explica que um símbolo depende da aceitação de seus significados, da relação que ele possui com o imaginário de uma época, agregando valores a cultura em questão. No caso da cultura gaúcha, a coragem, do povo que luta pelos seus ideais, está relacionada com as constantes disputas territoriais que marcaram o estado, desde a sua formação. Na obra “Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul”, Luvizotto (2009) faz uma recuperação da história do estado, visando compreender como se estabelece a relação entre separatismo e etnicidade no Rio Grande do Sul. O Movimento Separatista Sulino contemporâneo tem como objetivo emancipar o estado do Brasil. A autora busca dados históricos para mostrar que o Rio Grande do Sul foi desde o início uma região marcada por disputas territoriais, primeiramente entre espanhóis e portugueses. Com o Tratado de Tordesilhas de 1493, o reino português almejava todo o território a margem esquerda do Rio da Prata, já os espanhóis queriam que a divisão territorial fosse feita por uma linha abstrata, na qual o Rio Grande do Sul pertenceria a eles. A região foi palco de conflitos por quase dois séculos, do final do século XVII até o XIX. “A presença do gado foi o principal motivo para a ocupação e fixação de portugueses em solo gaúcho” (LUVIZOTTO, 2009, p.17). A partir do século XIX o governo começou a incentivar a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com objetivo tanto de povoar o território para evitar invasões, branquear a população brasileira para evitar o fracasso nacional, uma vez que o branco era visto como símbolo de superioridade, quanto de formar uma camada social de trabalhadores livres. Esses imigrantes foram direcionados para o sul, os primeiros a chegarem foram os alemães, que se estabeleceram em 1824 no território onde hoje fica o município de São Leopoldo, RS. “Até a Segunda Guerra Mundial, o Rio Grande do Sul tornou-se a segunda pátria para alemães de todas as classes sociais, e estabeleceu-se


45 um fluxo migratório constante da Alemanha para a região” (LUVIZOTTO, 2009, p.1819). Em 1875 chegam os imigrantes italianos que vão se instalar na região da Serra, já que os alemães já tinham demarcado seu território na região da capital. A atividade pecuarista desenvolvida pelos imigrantes no início do século XVIII transformou o estado no primeiro mercado interno do Brasil, acendendo os ideais de separatismo do Rio Grande do Sul. De acordo com Luvizotto (2009) no século XX, impulsionados pelo surgimento de novas tecnologias como rádio e televisão, os gaúchos são tomados pelo sentimento de diferença em relação aos outros povos brasileiros. Nesse sentido, Pacheco (2000) complementa que as identidades modernas e pósmodernas surgem em um contexto de incerteza proporcionado pelo acesso facilitado a uma gama maior de informações, e conseqüentemente a outras culturas. Dessa forma, o engajamento em comunidades possibilita que as pessoas tenham certa segurança, pois representa o fortalecimento da identidade, já que compreende a união de diversas pessoas lutando por um mesmo ideal, no caso da cultura gaúcha luta-se pela preservação dos costumes, evitando que eles se percam. Ao tratar sobre a globalização4 atuando como difusora das mais diversas identidades, Canclini (2006) considera que a mídia cumpre um importante papel ao torná-las públicas, sendo assim, através do que é disponibilizado pela mídia, os sujeitos fazem suas escolhas. Além da possibilidade de escolha, as identidades também podem ser despertadas nos indivíduos, muitas vezes com o propósito de inserção em certo grupo (HALL, 2003). Assim como Hall, Ronsini (2007) considera que pertencer a um grupo é muito importante, pois serve como uma garantia de aceitação. Vogt (2010), ao analisar o consumo de músicas da banda gaúcha Comunidade Nin Jitsu, por 6 meninas de diferentes faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade, verificou que pertencer a um grupo é uma condição muito importante, inclusive, uma das entrevistadas apontou que acredita que os amigos influenciam numa série de escolhas, entre elas a das bandas preferidas.

4 Entende-se por globalização a intensificação dos processos tecnológicos, ocorridos nas últimas três décadas. Tecnologia esta que permite que as pessoas tenham acesso a praticamente tudo que quiserem, não importando as fronteiras territoriais.


46 [...] bens e mensagens não são apenas consumidos, mas apropriados pelo consumidor. Assim, o consumo não denota algo irracional, porque possui um sentido. Com isso, ao adquirir um produto cultural de determinado músico ou grupo, o consumidor está preocupado com o que aquilo representa para ele na formação – reafirmação – de sua identidade (RONSINI, 2007, p.4).

Mesmo que o consumo mostre a influência do contexto, uma importante característica do processo é que os sujeitos não consomem sem pensar, eles atribuem sentidos ao processo, e muitas vezes, é determinante que se possam fazer pontes com os sentimentos. Um exemplo disso são as músicas preferidas das entrevistadas de Vogt (2010) com as quais elas associam a lembrança de pessoas ou momentos marcantes. Para Silverstone (2005), Hall (2003), Ronsini (2007), entre outros, a identidade está associada à representação, e esta é parte do cotidiano. Assim, não se mantém uma identidade única, mas assumem-se personagens que condizem com o que mais convém no momento, papéis que impressionem os outros e ajudem a mostrar a nós mesmos quem somos. Silverstone (2005) complementa que o julgamento positivo dos outros, é uma das principais garantias para observar se a performance teve sucesso, mostrando mais uma vez a importância que a aceitação exerce sobre o comportamento dos sujeitos. O autor ressalta que a mídia apresenta performances o tempo inteiro e é com base nas possibilidades oferecidas que os sujeitos fazem suas escolhas. A música também pode ser uma fonte de influência para as performances, muitas vezes é produzida em larga escala para distribuição podendo assim ser caracterizada também como um meio massivo (JANOTTI, 2005). Hoje, é possível perceber que servem de modelo o comportamento de cantores como Lady Gaga, Michael Jakson, Avril Lavigne, Fergie, entre outros artistas de grande visibilidade midiática, principalmente entre os jovens, cuja identidade, como observou Lara (2007) é um processo em constante fazer e influenciada tanto pelo grupo a que pertencem quanto pelos produtos que consomem. Além de oferecer performances de modelo, a música também é um importante meio para a propagação de ideologias. Chauí (1984) explica que a ideologia é construída socialmente, através dela, algo é representado como real e verdadeiro, dessa forma ela serve para que as relações de dominação social sejam mantidas. Os sujeitos acabam tomando os processos ideológicos como normal, entendendo que as coisas devem ser assim e não há o que fazer, ajudando as classes sociais dominantes a se manterem no poder. Um exemplo para isso pode ser encontrado no estudo de Vogt


47 (2010), em que a banda Comunidade Nin Jitsu foi escolhida como objeto de análise, porque um estudo anterior de análise discursiva das letras comprovou a presença do machismo, característica que não foi apontada pelas entrevistadas, apesar de a mulher receber um tratamento condicionado a passividade e com papel sexual acentuado. A ideologia é um dos instrumentos de dominação de classe e uma das formas da luta de classes. A ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados (CHAUÍ, 1984, p.86).

A música apresenta-se como uma ferramenta para a propagação de ideologias, com letras compostas eminentemente por elementos discursivos, servindo tanto para reafirmar os ideais de quem está no poder, quanto para aqueles que desejam alcançá-lo. Ao estudar jovens inseridos na cultura do hip hop, Ronsini (2007) percebe que eles encontram no gênero a possibilidade de expressar suas indignações perante a sociedade. Outro exemplo de ideologia na música é apontado por Silveira (2001) que percebe que a música tradicionalista conserva a figura do gaúcho como lutador, defendendo o amor pela prenda, e pela tradição. Outro tema constante é a lida campeira, onde elementos como sons da natureza auxiliam para transportar o gaúcho para o campo, repontando a tradição. Para além do aspecto musical, que funciona como uma das principais formas de expressão da cultura gaúcha, Silveira (2001) ressalta a importância de se pensar no contexto, dessa forma, no Rio Grande do Sul o tradicionalismo funcionaria como uma maneira de gerar identificação coletiva, que transporta os indivíduos para um passado de luta, um espírito de cavalaria herdado dos antepassados, responsável pela poetização da figura do gaúcho. Entretanto, assim como as demais identidades, o gauchismo também seria uma forma de integrar as pessoas, atendendo as necessidades que os sujeitos possuem de manter uma vida social. A necessidade de manutenção da vida social é uma justificativa utilizada pelos teóricos para mostrar que a identidade não é inerente aos sujeitos, mas construída ao longo do tempo, Castells, na obra “O Poder da Identidade” (2000), ressalta que existem algumas identidades que perduram e o nacionalismo seria uma delas. O nacionalismo representa características mais abrangentes, que permite, por exemplo, fazer conexões com o passado histórico. No Brasil, uma das principais formas de se manter a identidade nacionalista pode ser percebida na língua, já que por mais que existam


48 adaptações regionais, o português é falado em todos os cantos do país, demonstrando uma característica mais abrangente da identidade brasileira. Uma fragmentação do nacionalismo são os regionalismos, ou seja, características mais específicas em relação ao todo. Nesse sentido, Dias (2008), em sua tese de mestrado, aborda o consumo de música regional gaúcha como processo mediador de identidade. O autor busca entender o processo de construção da identidade no Rio Grande do Sul por meio do consumo da música campeira5 e tchê music6, vertentes conflitantes no estado. Um povo orgulhoso de sua história, que leva no hino do estado a mensagem de que sua conduta “forte, brava e aguerrida” sirva de modelo para outros povos. Orgulho estampado na vestimenta, o lenço de chimangos e maragatos hoje desfila em paz no pescoço dos tradicionalistas. A figura do homem como chefe da família e do Centro de Tradições Gaúchas (CTG), continua sendo respeitada pelos seguidores da tradição denominada “de raiz”. Com as novas tecnologias, a música tradicionalista ultrapassa as barreiras do CTG e mais do que nunca passa a ser parte do cotidiano daqueles que partilham dessa identidade, é comum, por exemplo, ver a música característica dessa cultura personalizando os toques de celular, mostrando a valorização dos costumes, na maioria das vezes partilhados por famílias inteiras. Antes de ser parte de tecnologias mais avançadas, o processo de difusão da cultura dependeu (e depende) de outros elementos. De acordo com Haussen (2004), o rádio teve importante influência na construção da identidade do povo brasileiro, porque o veículo trouxe a possibilidade de representar as mais diversas culturas. Cinema e rádio foram responsáveis por introduzir o discurso do popular massivo, com a adoção de uma linguagem mais simplificada, capaz de ser consumida por todos, atendendo os preceitos da indústria cultural. Coelho (2002) explica que o conceito de Indústria Cultural foi elaborado na década de 30 por Adorno e Horkheimer, referindo-se a mercantilização da cultura que teve origem a partir do surgimento da indústria do entretenimento nos Estados Unidos e na Europa, no início do século XX. Para os teóricos, a denominação incluía empresas e

5 Música campeira, tradicionalista, de raiz são sinônimos dentro da cultura gaúcha. São músicas marcadas pela figura do gaúcho guerreiro, da lida campeira e por uma linguagem própria. 6 O tchê music é um gênero musical que mistura estilos como o tradicionalismo com axé, rock e samba e que devido a essas misturas é renegado pela cultura gaúcha de raiz,que não permite, por exemplo, que os grupos de tchê music toquem nos CTG’s.


49 instituições cuja principal atividade econômica era a produção de cultura com vistas no lucro. A Indústria Cultural é caracterizada pela produção em série, padronização e pela percepção da cultura como mercadoria. Na concepção de Adorno a música não passa de mais um produto da indústria cultural, e ao contrário do que muitos acreditam, para o autor ela está longe de ser uma ferramenta de libertação. A padronização é uma das principais características do capitalismo. Coelho (2002) cita como exemplo desse processo os programas “Big Brother Brasil” da Rede Globo e “Casa dos Artistas” do SBT, para ilustrar que embora sejam programas de redes diferentes, possuem a mesma lógica idealista, ou seja, o interesse pelo capitalismo, baseando-se na crença que as pessoas têm de que são livres para escolher o que querem consumir. De acordo com Fadul (2010) rever os conceitos históricos que permeiam a Indústria Cultural é muito importante para que se possa discutir se é a mídia quem determina o consumo dos sujeitos, ou se são os sujeitos que determinam o que será pautado pela mídia. Em “Dialética do Esclarecimento”, obra lançada na década de 40, Adorno e Horkheimer7 explicam os fundamentos da Indústria Cultural e a importância de as empresas fornecerem uma imagem de que os consumidores são ativos nas atividades econômicas. De acordo com os teóricos, essa é principal estratégia para que o público se mantenha consumindo. Adorno e Horkheimer também tratam sobre a incorporação da publicidade como principal ferramenta da lógica capitalista, segundo Coelho (2002) hoje, essa idéia cumpriu-se plenamente. Adorno e Horkheimer apontam o esquematismo como um dos elementos definidores da ação da indústria cultural: o comportamento do público obedece a um esquema pré-determinado: a sua adesão a um padrão comportamental parece, inclusive para ele mesmo, espontânea, mas não é (COELHO, 2002, p.8).

De acordo com o esquematismo proposto por Adorno e Horkheimer, as pessoas acabam tendo seu comportamento doutrinado para agir em conformidade com o que a sociedade espera. Portanto, nos preceitos da Indústria Cultural, o público se torna dependente do que é oferecido. “Devido a esta dependência, o público da indústria

7 Adorno e Horkheimer foram professores judeus do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt. Refugiaram-se nos Estados Unidos para escapar do nazismo, até o final da guerra.


50 cultural consome os seus produtos mesmo sem necessariamente acreditar neles” (COELHO, 2002, p.9). Ao fazer uma recuperação histórica dos conceitos propostos por Adorno e Horkheimer, Wolf (1987) lembra que para os autores, a Indústria Cultural domina os indivíduos e oferece à audiência possibilidades restritas de consumo cultural, de modo que as pessoas se tornam alienadas. Além disso, o homem se torna um objeto da indústria, acostumando-se a consumir sempre a mesma coisa, uma cultura com caráter manipulador, pois não é permitido que o indivíduo faça suas próprias interpretações, o sentido de tudo já vem determinado, as pessoas são induzidas à sedução provocada pela Indústria Cultural. Coelho (2002) lembra que Adorno e Horkheimer acreditam que a inserção dos indivíduos na Indústria Cultural ocorre desde a infância. Para eles, os desenhos ofertados de certa forma “doutrinam” os pequenos, pois mostram sempre o mais fraco apanhando do mais forte, imagens que já os preparam para as “surras da vida”. A inserção no tradicionalismo é outro aspecto que ocorre desde a infância. Em famílias que partilham dessa cultura, por exemplo, as crianças participam desde cedo do CTG, aprendem a valorizar a pilcha e querem participar junto com os adultos das rodas de chimarrão, um dos principais hábitos dos gaúchos. É importante atentar que a cultura gaúcha vai além do tradicionalismo, mesmo que essa vertente cultural predomine no estado. Entre outras formas de expressões culturais que surgiram aqui, também é possível identificar a “bandinha”, gênero que sofreu influência da colonização alemã, em suas tradicionais festas de Kerbs8. Segundo Flores (1991), no início as festas animadas por bandinhas eram vinculadas a religiosidade, pois na falta de um salão apropriado para realizar as comemorações, que geralmente iniciavam no sábado à tarde e se estendiam até a madrugada, utilizava-se o salão da igreja. Dessa forma, as festas tinham motivos religiosos como a homenagens a santos padroeiros. Flores (p. 135, 1991) complementa que, “são lugares onde estão misturados naturalmente o lúdico, o religioso, o mundo doméstico, os laços informais de amizade”. Em cidades menores é possível observar que o costume de integrar as bandinhas às festas religiosas se mantém, em locais maiores o que se observa é que o

8 As festas de Kerbs foram trazidas pelos alemães ao Brasil como uma forma de conservar a cultura do país de origem, entre uma das bandas que animava essas festas podemos encontrar os Futuristas de Ijuí, RS.


51 hábito também é conservado, mas integra pequenas comunidades, já que existem clubes especializados nesse tipo de festa.

5.1 Rádio e Cultura Tanto a cultura tradicionalista quanto a de bandas, convivem em um mesmo espaço, servem de inspiração para a construção de identidades que tiveram (e tem) no rádio uma importante ferramenta de difusão e integração cultural (HAUSSEN, 2004). No governo de Getúlio Vargas (1930-1945) investiu-se muito nos meios de comunicação, isso porque o objetivo do então presidente era utilizar as ferramentas de comunicação para promover a integração social, em nível nacional. O rádio foi um dos elementos de destaque nessa época, o ideal do então presidente era que o veículo ajudasse a manter o nacionalismo. Segundo Ferraretto (2001) o governo de Getúlio Vargas também é responsável por constituir o rádio como um veículo de comunicação e a buscar o lucro, através da inserção da propaganda nas grades de programação. O autor complementa que o veículo podia ser visto como um quase monopólio estatal, já que as produções eram focadas na cultura e educação, sob o controle do Ministério da Educação e Saúde Pública. Com a regulamentação da publicidade, o comércio ganha no rádio um importante aliado para atingir o público, inclusive os analfabetos. Em 1935 o governo institui a “Hora do Brasil”, programa que inicialmente possuía 45 minutos de duração de segunda a sexta-feira, dedicado a transmitir informações do governo e música popular. Em 1946 a “Hora do Brasil” transforma-se em “Voz do Brasil”, presente até hoje em nossa programação radiofônica. Getúlio Vargas também criou o Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP no ano de 1939 para controlar tudo o que era produzido, a fim de que o objetivo de unir as pessoas em prol da nação não fosse quebrado. Com o DIP instalam-se sensores em todas as emissoras, para impedir a veiculação de assuntos como crítica ao governo, reivindicações trabalhistas, organizações estudantis, entre outros. Mesmo sob “vigília”, Haussen (2004, p.27) ressalta que “[...] o veículo teve, também, uma vida própria, construída por diversos atores, entre eles os radialistas, artistas, técnicos, empresários e políticos”. No início, principalmente devido às limitações tecnológicas da época, as rádios não eram organizadas em rede, e sim regionalmente, fato que possibilitou a implantação de diversas emissoras pelo país, pautando-se nas culturas locais. O surgimento da


52 televisão na década de 50, e a migração das emissoras para o novo meio, capaz de agregar imagens às mensagens, acendeu no rádio a necessidade de ser repensado. Uma das principais características dessa nova formatação foi a integração das emissoras em redes e a especialização dos veículos, mesmo assim, o rádio nunca perdeu a sua relação com a cultura local, dando subsídios tanto para se adotar quanto para manter as identidades oferecidas. A presença do rádio na vida dos brasileiros é um aspecto importante a ser destacado. O veículo é classificado por muitos como o companheiro de todas as horas, ele não exige que a audiência pare as suas atividades para que possa compreender o que está sendo dito, permite a participação do ouvinte, é dinâmico, com conteúdos práticos e de fácil compreensão. Autores como Haussen (1992), Luvizotto (2009) e Silveira (2001) consideram que o termo cultura gaúcha possui bastante força, alguns até temem o amor que o gaúcho tem por sua bandeira, sendo capaz de morrer e matar por ela. Segundo Haussen (1992) apud Oliven os gaúchos entendem que para haver uma integração com a cultura nacional é preponderante primeiro ser gaúcho, que significa acima de tudo ser guerreiro, uma identidade que tem uma base sólida, valorizando os costumes, o contexto, alimentação, entre outros fatores. Luvizotto (2009) explica que essa visão do gaúcho como diferente, e de certa forma como superior, aos habitantes do restante do país, é histórica e se deve muito às constantes lutas travadas em solo sul-riograndense e também à introdução de atividades econômicas de sucesso antes dos outros estados. Tal configuração faz com que o regionalismo gaúcho seja um dos temas que mais aparece nos estudos de recepção; dado apresentado por Jacks et al (2006), em uma análise sobre os estudos de recepção realizados pelos programas de pós-graduação brasileiros na década de 90. As autoras percebem que além do tema ser constante, muitas pessoas não incorporam os hábitos da cultura gaúcha em suas vidas, mas consomem os produtos que representam tal regionalismo justamente para se sentirem representadas. Além do regionalismo, em solo gaúcho convive uma série de outras culturas. De certa forma, uma acaba incorporando traços da outra, processo denominado por Canclini (1998) como hibridização. O autor explica que os sujeitos são híbridos porque o contato com outras culturas num mesmo espaço tem se tornado cada vez maior, possibilitando trocas culturais cada vez mais intensas. Portanto, a hibridização tem como sinônimos termos como aculturação, ocidentalização, heterogeneidade cultural,


53 globalização, entre outros. Canclini (1998) descreve que a hibridização decorre de combinações culturais até então impensadas e que marcam profundamente a configuração da América Latina no século XX. Um bom exemplo de hibridização é o “Tchê Music” que possui traços da cultura tradicionalista misturados com axé, rock e samba. Outro exemplo de hibridização cultural é encontrado no estudo de Raddatz (2009) que utiliza como base a produção radiofônica do noroeste gaúcho, composta por cidades que fazem parte da divisa entre Brasil e Argentina. Ela observa que entre as principais características do veículo na região está o fato de difundir a cultura local na fala dos locutores e também nas músicas. “O material coletado aponta para a importância que o rádio tem como difusor e articulador da cultura local, tornando-se automaticamente um elemento importante para a formação dessas sociedades” (RADDATZ, 2009, p.94). Segundo a autora, a proximidade geográfica entre os dois países influencia também na produção musical. Ela observa, por exemplo, que muitas bandas misturam o português e o espanhol nas letras, gerando identificação nos dois lados da fronteira. Na prática, percebe-se que nas regiões onde a colonização alemã gerou mais influência, a veiculação desse tipo de música tem espaço garantido na programação e dessa forma, o rádio continua contribuindo de forma importante na difusão das culturas locais. É perceptível a ascensão no número de bandas deste estilo em toda a região e dos freqüentes bailes que ocorrem de ambos lados da fronteira e que integram brasileiros e argentinos. Tal fato leva as bandas a tocar algumas músicas no idioma do país vizinho (RADDATZ, 2009, p.101).

Nesse sentido, Raddatz cita a música popular funciona como um fator de integração entre as culturas, pois tanto brasileiros quanto argentinos gostam do estilo. Para Castells (2000) a identificação é uma das principais formas de se incorporar uma identidade, gerando reconhecimento e também a noção da diferença, já que as identidades tendem a “obedecer” o conceito de alteridade, que prega que os sujeitos só conseguem definir a sua identidade porque sabem que são diferentes dos outros, mas é importante entender que “a identidade não é o oposto da diferença, pois a identidade depende da diferença” (DIAS, 2008, p.39). É possível perceber também que quando


54 uma banda passa a tocar músicas no idioma do país vizinho, misturando traços de culturas diferentes, traz um exemplo da hibridização teorizada por Canclini (1998). Cada vez mais é possível conhecer outras culturas, sem nem mesmo precisar sair da esfera do lar. Na obra “O poder da identidade” Manuel Castells (2000) considera que a globalização criou uma nova configuração social e identitária, que consiste no surgimento do conceito de sociedade em rede, onde pessoas de todo o mundo podem estar conectadas por um mesmo ideal. Para Castells a identidade é “a fonte de significado e experiência de um povo” (2000, p.22) e um mesmo indivíduo pode acumular diversas identidades, essa característica evidencia um conflito na construção da autorepresentação. O autor trata de três diferentes tipos de relações de poder, que podem influenciar na construção da identidade, são elas: 1) Identidade legitimadora: tem influência das instituições dominantes. Portanto, esse tipo de identidade vem de cima para baixo, é o que podemos reconhecer como identidade oficial. É possível tomar como exemplo de identidade oficial o poder atribuído ao governo, todos sabem que devem respeitar os preceitos constitucionais e as normas governamentais para evitar punições. 2) Identidade de resistência: criada por indivíduos desvalorizados socialmente. É uma característica comum das minorias étnicas e religiosas, por exemplo. Mas ocorre também no campo dos gêneros, podendo ser percebida em grupos de gays e lésbicas. 3) Identidade de projeto: se configura quando os indivíduos constroem uma nova identidade com base na cultura que possuem, um bom exemplo desse tipo de identidade é o feminismo, já que a corrente tenta tanto conservar a condição feminina, ao mesmo tempo em que propõe a revisão de seu papel social, buscando transformar a estrutura social. O autor sustenta que a identidade tem muito a ver com o contexto. Hoje, com a sociedade em rede, os indivíduos vivem entre o global e o local, mas “Ao longo da história da humanidade, a etnia sempre foi uma fonte fundamental de significado e reconhecimento” (CASTELLS, 2000, p.71). Sendo assim, a globalização, ao mesmo tempo em que integra os indivíduos, também fortalece os vínculos com as identidades locais, onde as pessoas lutam para que suas identidades sejam mantidas. O autor traz o conceito de “globopolitanos” caracterizando os indivíduos como meio seres humanos, meio fluxo, diante do processo de globalização. Haussen (2004) sustenta em sua argumentação a impossibilidade de se criar identidades globais, porque o contato com outras identidades também mostra as diferenças que existem entre elas.


55 De qualquer forma, a tecnologia, mesmo que não integre as pessoas numa única identidade, se mostra bastante útil no processo de manutenção e luta por ideais identitários. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o movimento Zapatista que tem a internet como uma das principais armas de luta, através desse meio, os zapatistas estabeleceram uma rede de grupos de apoio, garantindo sua segurança, porque se o estado punisse os membros do movimento, tal conduta seria mal vista pelos apoiadores do movimento. Pensando na cultura gaúcha, e tendo como base os conceitos trazidos por Castells (2000) observa-se que no Rio Grande do Sul o tradicionalismo atuaria como uma identidade legitimadora, isso porque nos CTG’s observa-se valores históricos que são conservados há muito tempo, por exemplo, o patriarcalismo. Já a identidade de resistência poderia ser encontrada no “Tchê Music”, vertente que tenta aliar algumas características do tradicionalismo com hábitos musicais que não surgiram no estado, mas que foram trazidos pela globalização, mostrando uma forma nova de reconfigurar a cultura com base na hibridização cultural. A introdução das bandinhas no estado, gênero musical ainda sem uma definição específica, mas que cada vez mais conquista adeptos funcionaria como uma identidade de projeto, que firma suas raízes na cultura trazida pelos alemães, primeiros imigrantes a se estabelecerem no estado. “Ainda que estivessem vivendo em outro país e tendo contato com outras culturas, a cultura germânica sempre falava mais alto aos ouvidos dos imigrantes, que perpetuavam suas tradições transmitindo-as às novas gerações”, (LUVIZOTTO, 2009, p.20). Para além dos aspectos históricos de luta que marcaram o surgimento do Rio Grande do Sul, o que se percebe é que as culturas que convivem no estado merecem uma atenção especial, pois demonstram uma riqueza para as configurações culturais teorizadas por autores como Castells (2000) e Canclini (1998). Riqueza que já tem sido alvo de estudos como os realizados por Ronsini (2007), Silveira (2001), entretanto, pouco ou nada foi dito para classificar as bandinhas como uma identidade de projeto. Muito mais do que isso, na maioria das vezes, as bandinhas nem chegam a ser consideradas como uma identidade. Entretanto, o que se percebe é que os freqüentadores de bailes têm tantas coisas em comum quanto os participantes dos CTG’s, estão unidos diante de um mesmo gosto musical, que possui as raízes de sua história firmadas no sul do país. Existem exemplos de famílias inteiras organizadas em prol da promoção das bandas, da mesma forma que existem famílias engajadas nos


56 CTG’s. Ambas as culturas merecem o rótulo de gaúcha, mas é preciso consciência para que vivam em harmonia e não em clima de exclusão como observado na obra de Norbert Elias.

6 METODOLOGIA O desenvolvimento da pesquisa para conhecer as preferências do público-alvo do presente projeto utilizou-se da pesquisa exploratória, através da aplicação de questionários para verificar a opinião do público em relação ao produto (DUARTE, 2006). Pesquisadores das ciências sociais como Barbero (2008), Canclini (2006) e Ronsini (2007), utilizam-se de parâmetros como faixa etária, classe social e nível de instrução para construir as suas amostragens. A amostragem da presente pesquisa tem por base a faixa etária, com entrevistados de ambos os sexos, com idade entre 25 a 40 anos, de diferentes classes sociais e níveis de escolaridade. As abordagens foram realizadas na última semana do mês de agosto de 2010, na saída da URI, Cesnors e no comércio de Frederico Westphalen. A justificativa para a escolha desses locais é a possibilidade de agregar as diferenças de faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade. O questionário é composto de 9 questões, sendo 6 fechadas e 3 semi-abertas, no total, aplicou-se 170 questionários. Para a construção de uma narrativa sobre “bandinhas”, tema do programa piloto, utilizou-se o método da entrevista em profundidade, através de conversas com alguns produtores e consumidores da cultura de bailes. A entrevista em profundidade caracteriza-se por valorizar a opinião de cada entrevistado. Por não ser composta de perguntas fechadas, ela se classifica como pesquisa qualitativa focada em explorar, interpretar e entender opiniões. No entanto, resultados qualitativos e quantitativos geralmente se completam na pesquisa (resultado dos questionários para definição do público – quantitativo; entrevistas - qualitativo) (MINAYO, 1996). Através das entrevistas em profundidade foi possível conhecer e valorizar a opinião de cada entrevistado a respeito da cultura regional. Além disso, utilizou-se as entrevistas como base para a composição da mídia principal, um programa radiofônico de

variedades,

e

das

(clicregional.blogspot.com).

demais

produções,

disponibilizadas

no

blog


57 A entrevista em profundidade permite que o entrevistado defina suas respostas, através de perguntas a serem ajustadas livremente pelo pesquisador. Valorizam-se as experiências subjetivas das fontes. A entrevista flui livremente, e cabe ao pesquisador aprofundar as questões da maneira que julgar apropriada (DUARTE, 2006). A autora Haguette (2005) define entrevista como um “processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado” (HAGUETTE apud BONI E QUARESMA, 2005, p.70). O presente projeto experimental também contou com o método da revisão bibliográfica. Através da pesquisa bibliográfica aplicou-se conceitos como cultura e identidade, narrativa transmidiática, convergência, radiojornalismo, cultura regional, entre outros, material que serviu de base para a construção do memorial. Segundo Boaventura (1995) o memorial tem como principais características a possibilidade de reflexão e autocrítica. Assim, além de apresentar conceitos e refletir sobre as teorias, buscando conexões com a realidade, o presente estudo também possui um espaço para a auto-avaliação da produção por cada componente da equipe. De acordo com Boni e Quaresma (2005) a pesquisa bibliográfica é a etapa inicial para as investigações científicas, seguida da observação e contato com pessoas que possam trazer contribuições para enriquecer a mesma.

O ponto de partida de uma investigação científica deve basear-se em um levantamento de dados. Para esse levantamento é necessário, num primeiro momento, que se faça uma pesquisa bibliográfica. Num segundo momento, o pesquisador deve realizar uma observação dos fatos ou fenômenos para que ele obtenha maiores informações e num terceiro momento, o pesquisador deve fazer contatos com pessoas que possam fornecer dados ou sugerir possíveis fontes de informações úteis (BONI E QUARESMA, 2005, p. 70).

Acredita-se que através da pesquisa bibliográfica é possível ter contato com um emaranhado de conteúdos desenvolvidos por estudiosos, auxiliando no entendimento e desenvolvimento de certos conceitos. Sendo assim, no presente embasamento teórico englobou-se levantamento, seleção, fichamento e arquivamento de informações relacionadas à pesquisa (AMARAL, 2007, p.1).


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7 ATIVIDADES DESENVOLVIDAS O primeiro passo do trabalho consistiu na elaboração de um projeto para definir o produto que seria desenvolvido, contendo objetivos, justificativa para escolha do assunto e cronograma de trabalho. Após a finalização do projeto, o grupo foi a campo. Dessa forma, aplicou-se 170 questionários para moradores de Frederico Westphalen, no final do mês de agosto de 2010, com idades entre 20 e 45 anos. O município pertence à micro-região do Médio e Alto Uruguai, localizada no extremo norte do Rio Grande do Sul. A região é integrada por trinta e quatro municípios, somando uma população de 183.927 habitantes, sendo 43,85% destes são residentes no meio urbano e 56,15% no meio rural, enquanto no Estado o percentual de habitantes no meio rural é de 18,35% (IBGE – Censo 2000). Nesta Região existem aproximadamente 26.072 estabelecimentos rurais, e cada propriedade, tem em média, 18,7 hectares. A população residente nestas áreas depende do rádio para obter a maioria das informações locais. Característica que favorece a comunicação radiofônica e a programação local. A exemplo da maioria das cidades do sul do Brasil as famílias que habitam Frederico Westphalen são compostas por colonizadores europeus, como alemães, italianos, portugueses e poloneses que conservam na música e na dança um modo de entretenimento e sociabilidade. Contexto que estimulou a formação de bandas que executam uma música característica, desenvolvida para os bailes e recebeu o rótulo de bandinha. Estilo que incorporou influências da música “pop” e hoje é muito executado em rádios AM e FM. Após a coleta e análise dos dados, foi possível iniciar a produção do programa, com quadros que se adequassem às sugestões da audiência. Antes do início da produção do programa foi feita uma pesquisa bibliográfica sobre os conceitos a serem postos em prática, a exemplo do rádio hipermidiático. A pesquisa bibliográfica teve continuidade mesmo durante a etapa de produção. Foram elaboradas pautas, entrevistas, composição de vinhetas, gravação do programa e, posteriormente, a gravação e edição. O blog foi criado no dia 06 de outubro de 2010, quando começaram a ser postados conteúdos, visando abrir um canal de interação com a audiência já desde essa etapa.


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8 RESULTADOS ESPERADOS DE MERCADO A pesquisa exploratória realizada inicialmente permitiu conhecer as preferências da audiência, de forma a identificar se o programa geraria interesse, efetivamente. Com a análise dos questionários foi possível perceber que apenas 11% dos entrevistados responderam que ouvem rádio raramente, e nenhum respondeu que nunca ouve. Sendo assim, o veículo está presente na vida de 60% dos entrevistados (diariamente, quase que diariamente). Dos entrevistados, somente 6% responderam que não ouviriam um programa sobre cultura regional e 2% consideram que um programa que falasse sobre aspectos culturais das músicas não seriam importantes, ou pouco importantes. Além disso, 83% dos entrevistados responderam que possuem acesso à internet e que num site sobre cultura regional gostariam de ter acesso a áudio (73%), vídeo (10%), pequenas entrevistas (5%), slideshow (2%), entre outros. Dessa forma, o blog foi criado para poder proporcionar conteúdos nos formatos preferidos pelo público. Assim, esperase que o presente projeto experimental tenha uma boa aceitação no mercado, já que trabalha para atender às expectativas da audiência, bem como estimular a sua participação, para que o público possa participar no processo de construção das informações.

9 PERCEPÇÃO DE CADA INDIVÍDUO SOBRE O PROCESSO DE PRODUÇÃO Aline Chaiane Vogt Desafio. Acredito que essa palavra sintetiza muito bem tanto a produção do TCC II quanto o fazer diário do jornalismo. Rádio sempre foi uma das áreas que mais me atraíram, por isso, posso dizer com segurança que não tive grandes dificuldades durante a produção. Não conhecia a convergência por nome, apesar de já ter observado a constante migração das mídias para a internet, nesse sentido, foi extremamente enriquecedor conhecer os estudos de teóricos que trabalham com essa linha de estudos, a exemplo de Henry Jenkins. Eu não conhecia a convergência, tinha pouca afinidade com as novas tecnologias e também com o assunto: bailes. Bandinha não é o tipo de música que eu escuto e o gênero não está entre as festas que freqüento, mas aprendi muito. Tenho como lema o aprendizado constante, e histórias sempre ensinam. Quando criança, um de meus


60 passatempos prediletos era sentar no colo de meu falecido avô, para ouvir suas encantadoras sagas de viagens. Atribuo a ele o dom para o ofício de jornalista, pois acredito que o sucesso de nossa profissão depende muito de saber ouvir. Me encantei com os entrevistados, com a disponibilidade e com o carinho presente em cada conversa, em ver os olhos deles brilhando para falar de suas histórias. Tive dificuldade com os aparatos para realizar as coberturas, uma câmera que não gravava áudio, que não era capaz de fazer as fotos à noite com a perfeição que eu imaginava, um gravador que não era dos melhores, mas muita determinação. O TCC II me ensinou muita coisa. Trabalhos em grupo evidenciam que cada um tem uma opinião e que é preciso, mais uma vez, saber ouvir, ceder, e entender que cada um possui um ritmo diferente de produção. Na academia é fácil verificarmos as deficiências do jornalismo, mas é só com a prática que entendemos porque elas ocorrem. Há alguns meses larguei um estágio num jornal impresso de Erechim RS. para assumir produção, locução e tudo o que mais se possa imaginar, numa pequena cidade do interior. No jornalismo diário nem sempre faço tudo como gostaria, percebo que por mais que pareça papo furado o tempo e a falta de profissionais qualificados no mercado explica muito do que se vê por ai. Sem dúvida estou saindo do TCC II com uma bagagem cultural muito grande, idéias na cabeça e a certeza de que a tecnologia é o futuro da nossa profissão. Hoje, ser um bom profissional também depende do conhecimento tecnológico e da possibilidade que o meio nos traz de fazermos muito mais do que imaginamos, utilizando um simples celular.

Antonio Marcos Demeneghi O objetivo inicial era produzir um documentário para o rádio, sonhamos com um produto transmidiático, e por fim, desenvolvemos uma proposta nos moldes da convergência midiática, produzimos uma narrativa radiofônica que se expande na via digital de modo coerente com as teorias da comunicação contemporânea. Produto alternativo que pode ser aperfeiçoado por emissoras de rádio e jornalistas interessados em usar o potencial da internet. Todos os recursos técnicos sugeridos pela orientação, pesquisados pelo grupo e adotados no trabalho, demonstraram desempenho satisfatório e até superiores a expectativa. Pela discussão teórica e prática do trabalho, percebi que é fundamental planejar os formatos de apresentação do conteúdo antes de ir a campo.


61 Quando há necessidade de entrevistar e, ao mesmo tempo, capturar mais de um formato de conteúdo, o trabalho para a via sonora pode ser prejudicado. Não existe só o cuidado com a entrevista e a gravação das sonoras. O tempo com a fonte deve ser administrado de modo competente para capturar os formatos adequados. A prática do trabalho em grupo é um desafio constante em nosso cotidiano, no TCC II não foi diferente. Desenvolvemos a humildade e, ao mesmo tempo, a autoestima. Observei as qualidades e limitações dos companheiros e pude perceber melhor minhas potencialidades e desafios a vencer. Sei que o processo científico é permeado pela teoria e a prática, tanto que a coordenação do curso contemplou estas duas dimensões nos trabalhos de conclusão. Porém, ao realizar o TCC I de modo individual e o TCC II em grupo, no meu caso, as questões formais e teóricas do TCC II consumiram muito tempo. Mesmo que seja uma deficiência pessoal, acredito que TCC I e II devem fazer parte do mesmo trabalho. Em minha opinião, seria melhor aproveitado o potencial de produção se o tempo empregado na teoria fosse canalizado para a prática do programa. Minha contribuição seria mais efetiva. De qualquer modo, na perspectiva radiofônica aprofundei em um assunto que é desafiador. Sou um apaixonado pelas possibilidades da internet, dos códigos digitais. E ao entrar em contato com os autores da área, pude perceber que existem muitos professores e estudiosos que pensam do mesmo modo que eu, fato que provoca satisfação. Pois, em grande parte, encontrei a confirmação das observações percebidas no cotidiano. Quanto ao resultado que até agora pude observar. Tenho a convicção de que estamos contribuindo com um produto útil para o meio jornalístico. Principalmente porque trabalhamos em uma perspectiva da convergência que coloca o processo cultural e o conteúdo em primeiro plano. Dimensão da convergência que pode modificar a estratégia de empregos e as possibilidades de trabalho para os jornalistas do futuro. Concluí que em breve os jornalistas serão menos dependentes de organizações, mais qualificados e especializados. A ênfase no conteúdo não desvaloriza a parte tecnológica, mas simplesmente coloca o processo cultural e criativo antes da tecnologia, em determinado momento histórico, a valorização da técnica ultrapassou a criatividade humana, acredito que esta tendência está em transformação e busca o equilíbrio no espaço social.


62 Daniela Balkau As disciplinas do curso de Jornalismo me surpreenderam durante toda a faculdade. E, por mais uma vez, aprendi e muito. O projeto experimental proposto como requisito para a aprovação na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II no curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo revelou para mim novas concepções a respeito desta área. Desafio é a palavra chave que define este último trabalho no campo da graduação. Trabalhar em equipe é uma experiência desafiadora, mas, quando comparada com o mercado de trabalho, não há diferença. Não existe trabalho individual e sim, coletivo, onde temos que aprender sempre mais, respeitando uns aos outros. É preciso: Aprender a respeitar as pessoas. Aprender a lidar com prazos determinados, o famoso: dead line. Aprender a servir e respeitar o espaço do outro e o nosso, principalmente. Aprender a compreender que nem sempre o nosso tempo é igual ao dos nossos colegas e assim, como falham, eu falho muito mais. Entender que, por mais que queremos as coisas para ontem, nem sempre elas vem no próximo dia. Perdemos muitas oportunidades pela falta de tempo. É preciso exercitar a paciência. Requisito indispensável no trabalho em grupo. O trabalho de jornalista é árduo. Marcar entrevistas, ir ao encontro das fontes, gravar, filmar, fotografar. Tudo isso é trabalho sim. E como é necessário tudo isso acontecer para que as pessoas fiquem informadas. Aliar teoria com a prática não é uma tarefa fácil. No inicio, pensei que era somente a realização de um programa prático. Mas, ao longo do semestre, pude perceber que não há prática sem teoria. E por isso, posso constatar que isso gera trabalho de qualidade. As dificuldades neste semestre foram muitas e das mais variadas. Mas, ao ver o resultado do trabalho em andamento, quase pronto, é maravilhoso. Ver que conseguimos em equipe, realizar um projeto experimental, enfrentando prazos, editando, mexendo nos mais diversos programas. Tudo isso realiza qualquer pessoa, que no caso, se vê apta a encarar as câmaras fora da faculdade. Apesar de já termos realizado muitos trabalhos durante os quatro anos, de já vivenciar a rotina jornalística nos empregos que conseguimos, nada disso tira o mérito de descobrir que já estamos empregando “convergência” há muito tempo.


63 Durante o TCC II tive a oportunidade de trabalhar na equipe de comunicação de candidatos a deputado estadual e federal da minha região. Neste período conheci um produtor de áudio e vídeo e que usa a convergência o tempo todo, mesmo sem saber que o seu trabalho tem esse nome. Sei que a convergência no rádio vai muito além das práticas que desempenhamos no dia a dia. Mas saber, que usamos dela e que este trabalho serviu para aprimorar nosso conhecimento, valeu a pena todo o nosso esforço. E o meu em particular.

Gabriel Lautenschleger Dúvidas, Desafios e Imaginação. Assim eu posso determinar o que aconteceu nesses últimos meses quando começamos a produzir o TCC 2. Muito foi feito e no caminho que estamos pude perceber que a ideia central do programa que é atingir a convergência no rádio e as plataformas multimídias vai ser alcançada. O que eu aprendi é que o trabalho em grupo enobrece as pessoas e a nossa capacidade de poder ver que nem sempre o que a gente quer e pensa deve prevalecer, que cada um tem uma dificuldade e os problemas de tempo são empecilhos que atrapalham nossos caminhos, todos os integrantes do meu grupo moram longe uns dos outros e muitas vezes isso acabou por gerar alguns desencontros, lembro-me de uma vez em que a orientação foi desmarcada, mas como já havia pegado o ônibus acabei perdendo a viagem por não ver o e-mail a tempo (perdendo não, porque consegui terminar de ler um livro o qual foi útil no desenvolvimento dos textos da parte teórica). Eu não conhecia o tema Convergência e nem entendia como a convergência poderia ocorrer, como o rádio poderia pertencer a uma plataforma multimídia? - O rádio hipermidiático - Isso no meu ver era algo inacreditável. Mesmo estudando comunicação, nunca entendi como o vídeo ou o texto poderia fazer parte da produção radiofônica e como poderia existir interação entre emissor/meio/receptor. Nesses pontos eu tive um pouco de dificuldade, mas que com leitura e orientações aos poucos fui desenvolvendo uma visão mais abrangente e clara de como os avanços da tecnologia estão mudando o fazer radiojornalismo. O Assunto Bailes e Bandinhas. Quando iniciei o trabalho de produção de material, me deparei com alguns problemas, e assim percebi o quanto o jornalismo proporciona uma interação que outros pares profissionais não tem, é uma visão


64 fantástica, é um contato diferenciado com costumes, línguas e culturas. O assunto em sí - bailes e bandinhas - não eram muito familiar para mim. Tive pouco contato antes desse trabalho com música de bandinhas e mesmo sendo descendente de alemães, nunca tinha participado da Ocktober Fest, a festa mais típica da cultura e ocorrendo na cidade em que eu nasci. A Ocktober Fest em Doutor Maurício Cardoso acontece a vinte e quatro anos, e o máximo que eu tinha presenciado era uma noite cultural, na qual assisti algumas apresentações artísticas, mas isso pelo menos uns seis anos atrás. Nesse ano o TCC 2 me proporcionou um final de semana inteiro dentro da festa, observando a diferença cultural que é apresentada nesses quatro dias de evento. Porém, alguns pontos tristes também apareceram, o consumo descontrolado de bebidas alcoólicas, cigarros (e assemelhados) e uma certa vulgaridade por parte de algumas pessoas. Mas isso faz parte da diversidade cultural do mundo no qual vivemos. O que eu posso dizer é que saio do TCC 2 com uma certeza: o fazer jornalismo não depende somente do profissional e sim das pessoas que nos cercam. Além disso, posso afirmar que levar um não de um contato que parece ser o melhor para uma entrevista não mata ninguém e sim fortalece e abre nossa capacidade de pensar e encontrar uma solução, alguém que pode fazer o meu trabalho ficar mais interessante do que planejado. Encantei-me com algumas das pessoas a qual entrevistei que com muita hospitalidade me receberam em seus lares e pessoas que deram uma pausa de alguns minutos no baile para ir em um lugar reservado para que eu pudesse pegar seus depoimentos, isso me deu mais força para vencer problemas que apareceram no decorrer das coberturas. Fiquei grato e feliz em poder reencontrar a diretora da escola em que estudei, a qual colocou à minha disposição uma filmadora e que me apoiou em encontrar soluções para alguns problemas. O que levo é que é possível fazer jornalismo com um celular com câmera e gravador de voz. E que esse boom de novas tecnologias só tem a acrescentar ao jornalismo tanto em questões técnicas como na abrangência do material produzido. Com um celular e uma conexão com a Internet é possível enviar notícias de leste a oeste do mundo em alguns segundos e para nós isso só tem a somar.

Luara Krasnievicz Desafio. Essa palavra é capaz de expressar muito sobre a vida, e em especial sobre a produção do TCCII. Rádio é uma área que sempre achei interessante, porém que


65 nunca me imaginei trabalhando, confesso que sempre gostei mais de telejornalismo e assessoria de imprensa, porém o rádio é simples, dinâmico e fácil, e amizade pelas pessoas do grupo me fizeram integrar nele e realizar o trabalho. Encontrei algumas dificuldades quanto ao referencial teórico, à convergência. Mas creio que está sendo enriquecedor para meus conhecimentos pessoais e profissionais. Não conhecia a convergência, e a pouco tempo comecei a criar um vinculo maior com essas novas tecnologias um pouco antes do inicio do TCCII, já em relação ao tema, sim sempre conheci músicas de bandas, e já freqüentei bailes, creio que sempre tive uma pontada de curiosidade em saber da origem desse tipo de música e também o porque muitas pessoas costumam freqüentar os bailes, não é um tipo de música ao qual costumava ouvir, a não ser nos bailes que freqüentei. Novamente aprimorei meus conhecimentos. Quando a Aline encaminhou o relatório dela, teve uma parte que me identifiquei bastante e a qual aprendi assim como ela na infância e especialmente no decorrer de minha vida o “saber ouvir”, sim quando escutamos histórias aprendemos, aprendemos muito. E o que seria de nossa profissão de jornalistas se não ouvir os relatos, as histórias de vida, os sonhos. O trabalho teve sua maior dificuldade em marcar entrevistas, conseguir datas, mas confesso que os entrevistados me surpreenderam quando falavam sobre a história das bandas, a música, a dança, com a simpatia e o respeito e o carinho que cada um demonstrou ao receber-me e contarem-me sobre os temas que mencionei a pouco. Acho a maior dificuldade que o grupo encontrou foi exatamente o que já mencionado no relatório da Aline, “trabalhos em grupo evidenciam que cada um tem uma opinião e que é preciso, mais uma vez, saber ouvir, ceder, e entender que cada um possui um ritmo diferente de produção”. Mas o TCCII e o fazer jornalismo diário tem aprimorado nossos conhecimentos e nossa bagagem cultural.


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10 CONSIDERAÇÕES FINAIS Presente na programação radiofônica diária das emissoras, a música de bandas é explorada comercialmente, mas pouco se fala sobre a sua contribuição cultural. A pesquisa bibliográfica realizada permitiu, por exemplo, que se identificasse a origem do estilo denominado comercialmente como bandinha. A história das bandinhas no Rio Grande do Sul está imbricada com a colonização alemã iniciada por volta de 1824. Os alemães foram os primeiros imigrantes a chegarem ao estado, na época eles se estabeleceram na região conhecida hoje como “Vale dos Sinos”. Aos sábados, os imigrantes buscavam diversão nas festas de kerbs, que normalmente aconteciam no salão das igrejas. Em geral, é possível perceber que essa história é pouco conhecida. Outra carência que se observa é que na maioria das emissoras de rádio, a internet é pouco utilizada para aprofundar os conteúdos irradiados. Nesse sentido, este projeto experimental preocupou-se em minimizar tanto a ausência de estudos sobre as bandinhas quanto uma possibilidade de utilizar a internet para complementar os conteúdos apresentados no programa radiofônico. Na aplicação da pesquisa exploratória, utilizada para identificar os interesses da audiência, dados interessantes de serem discutidos foram encontrados. Foi possível perceber, por exemplo, que o rádio faz parte da vida da maioria dos entrevistados, apenas 11% declararam que raramente ouvem rádio e nenhum respondeu que nunca ouve. Outro dado a ser ressaltado é que 81% dos entrevistados consideram importante ou extremamente importante a existência de um programa que trate sobre aspectos culturais das músicas. Além disso, 87% dos consultados têm acesso à internet banda larga. Tendo como base a análise dos resultados dos questionários surgiu o “Conexão Cultura”, um programa com o propósito de romper fronteiras, tanto culturais quanto profissionais. A formatação do programa prevê a adaptação a qualquer tipo de cultura, com quadros que podem ser adaptados aos mais diversos temas que se queira tratar. Já o propósito de romper com as fronteiras profissionais do jornalismo significa mostrar, na prática, que é possível aliar as mais diversas possibilidades tecnológicas para que os temas sejam explorados das mais diversas formas. O blog que serve como suporte do programa na internet, isso permitiu aos repórteres o exercício constante da criatividade. Os futuros profissionais, depois de entenderem os propósitos do rádio hipermidiático, começaram a sair para suas pautas


67 tendo em mente que o áudio não era o único interesse e sendo assim, passaram a observar o contexto das entrevistas, para extrair conteúdos alternativos que pudessem gerar interesse na audiência. Crônicas, fotos, vídeos, reportagens, slide show, conteúdo completo das entrevistas; materiais que vem para complementar o programa radiofônico e funcionar como uma forma de atrair e suprir os interesses da audiência. Acredita-se que uma audiência que encontra o que deseja quando consome um produto, não só volta para consumi-lo novamente, como é capaz de trazer suas contribuições. Segundo Jung (2005) mesmo que o rádio conviva num contexto marcado por inovações tecnológicas, sua essência continua sendo a participação da audiência. Ouvintes que são o termômetro do sucesso de uma produção, mostrando os porquês de ela continuar, ou se preciso for, encontrar formas de se reinventar. Na história do jornalismo é possível observar que os impressos precisaram conviver com o surgimento do rádio, depois, o rádio precisou identificar suas potencialidades para lidar com o surgimento da televisão e por último, a televisão passou por um processo semelhante devido ao surgimento da internet. Ao contrário do que algumas pessoas acreditavam, nenhum dos veículos citados anulou o outro. Pelo contrário, o que se observou em cada um desses processos foi a delimitação das potencialidades, de cada veículo de forma que todos eles pudessem conviver em harmonia. Jung (2005) ressalta que quando o ouvinte não se interessa pelo que está ouvindo desliga-se mentalmente ou troca de emissora. Somente 6% dos entrevistados da pesquisa piloto responderam que não ouviriam um programa sobre cultura. Nesse sentido, foi possível perceber que o tema poderia gerar interesse na maioria dos entrevistados, assim, delineou-se o programa. A experiência de agregar a cultura regional ao rádio mostrou-se como uma forma de lapidar as informações com um enfoque local e ao mesmo tempo, tratar sobre o tema de uma forma diferenciada, valorizando aspectos históricos e experiências pessoais. Combinar o rádio e a tecnologia permite que a audiência tenha liberdade de administrar o que deseja consumir. Dessa forma, as pessoas que consumirem somente o programa radiofônico terão uma noção geral sobre a cultura de bandas, entretanto, aqueles que se interessarem pelo tema e quiserem se aprofundar encontram na internet conteúdos que possibilitam esse aprofundamento.


68 Hoje, a internet traz a possibilidade de servir de suporte para todos os outros veículos. Aproveitar essa potencialidade do meio também é um desafio constante para o exercício profissional do jornalismo. Um olhar atento para o mundo, ouvidos aptos a escutar as contribuições que a audiência tem a trazer, tanto através de opiniões quanto por suas histórias. Sensibilidade para perceber onde estão boas histórias. Perceber os sabores de cada entrevista para poder aproveitar o que elas têm de melhor. Assim é o jornalismo, a profissão dos sentidos, onde o profissional utiliza-se dos seus para que a audiência construa os dela.


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Conexão cultura: uma experiência além das ondas do rádio