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TCC I – Trabalho de Conclusão de Curso I Departamento de Ciências da Comunicação – CESNORS/UFSM Curso de Comunicação Social – Jornalismo 21 de junho a 08 de julho de 2010

A POSSE DO COMPUTADOR PORTÁTIL, OS USOS DA INTERNET E TERRITORIALIDADES

ANTONIO MARCOS DEMENEGHI DA SILVA

Artigo científico apresentado ao Curso de Comunicação Social – Jornalismo como requisito para aprovação na Disciplina de TCC I, sob orientação do Prof. Luciano Miranda e avaliação dos seguintes docentes:

Prof. Luciano Miranda Universidade Federal de Santa Maria Orientador

Prof. Cláudia Herte de Moraes Universidade Federal de Santa Maria

Prof. Marcelo Freire Pereira de Souza Universidade Federal de Santa Maria

Prof. José Antonio Meira da Rocha Universidade Federal de Santa Maria (Suplente)

Frederico Westphalen, 14 de junho de 2010. 0


A posse do computador portátil, os usos da internet e territorialidades

RESUMO Este artigo é o resultado de uma pesquisa de campo realizada para investigar os usos da internet à luz da territorialidade. Teve como objeto empírico um grupo de doze estudantes universitários que possuem computadores portáteis e acesso à internet. Partiu da hipótese de que esta ferramenta e os conteúdos disponíveis em escala mundial flexibilizam os usos e modificam as lógicas territoriais. Foi aplicada uma metodologia etnográfica que coletou os dados por meio de duas técnicas: observação e entrevista. Constatando que a territorialidade compreende dupla dimensão: material e simbólica. Ambas interferem nos conteúdos acessados; no itinerário em relação à zona de práticas sociais e as redes telemáticas, nos usos em função do campo específico de cada estudante e nos princípios de diversidade e distinção de cada campo.

PALAVRAS-CHAVE: internet; tecnologias móveis; computador portátil; multiterritorialidade.

INTRODUÇÃO Os atores sociais nos usos das ferramentas para a internet constatam multiplicadas as modalidades de utilizar a informação na contemporaneidade. Localizar e ser localizado, processar, armazenar e transferir dados com agilidade e economia, são propriedades comunicativas que geram mudanças nas lógicas de tempo/espaço, por conseguinte, potencializam uma experiência territorial diferenciada. Obter uma diversidade de conteúdos que interferem nas tomadas de decisão no espaço de práticas, podem ser obtidas com mobilidade e, não mais obrigam, localização físico-espacial. Além disso, permite formas diferenciadas de relacionamento social e determinam novos fluxos informacionais. Diante da possibilidade comunicativa das redes telemáticas, faz-se necessário compreender os processos da comunicação nos usos da internet, pois, deste modo, será possível compreender mecanismos de aquisição do capital social que contribui à aferição do ativo dos atores sociais nas práticas interativas. O presente estudo foi iniciado no primeiro semestre de 2010, no curso de comunicação social da Universidade Federal de Santa Maria, campus de Frederico Westphalen, ao observar o crescente número de alunos usando computadores portáteis nas dependências da instituição, que disponibiliza acesso a internet com tecnologia wireless 1. 1

Wireless: Se permitem definir assim, vários tipos de redes que são: Redes Locais sem Fio ou WLAN (Wireless Local Area Network), Redes Metropolitanas sem Fio ou WMAN (Wireless Metropolitan Area Network), Redes de Longa Distância sem Fio ou WWAN (Wireless Wide Area

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Mas em função de quê, os alunos usam seus notebooks e as ferramentas para a internet? Como a possibilidade de obter informações de qualquer lugar do mundo interfere nas lógicas territoriais? A fim de descrever e compreender o fenômeno relativamente novo na sociedade foi realizada uma pesquisa de campo, que selecionou 12 alunos em semelhantes condições de acesso à internet, para investigar os usos cotidianos interpretados à luz da dupla dimensão: material e simbólica da territorialidade. Foi aplicada metodologia etnográfica, que na definição de Marconi e Lakatos (2009, p. 112) tem a “finalidade de conhecer melhor o estilo de vida ou a cultura específica de determinados grupos”. A perspectiva da investigação tem o foco nos usos da internet em função da territorialidade e, por esse motivo foi coletado o maior número de dados possíveis por meio de entrevista estruturada, não-estruturada e observação não-participante. O universo empírico pesquisado contempla uma parcela privilegiada quanto ao uso de computadores e acesso a internet. Portanto não tem a pretensão de discutir a problemática da exclusão digital.

FUNDAMENTOS TEÓRICOS

O objetivo inicial desta pesquisa foi detectar como os atores sociais usam a internet e se apropriam dos conteúdos informacionais, considerando a hipótese de que o computador portátil flexibiliza o uso e multiplica as fontes de informação no espaço de práticas sociais. A base analítica se funda nos usos singulares dos atores sociais e por esta razão, busca referências na obra de Michel de Certeau (2008), que, no livro A invenção do cotidiano, traz as definições necessárias para uma compreensão do objeto empírico. Se é verdade que por toda parte se estende e se precisa a rede da “vigilância”, mais urgente ainda é descobrir como uma sociedade inteira não se reduz a ela: que procedimentos populares jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-las; em fim, que “maneiras de fazer” formam a contrapartida, do lado dos consumidores (dos dominados?). (CERTEAU, 2008, p. 41)

Network), redes WLL (Wireless Local Loop) e o novo conceito de Redes Pessoais Sem Fio ou WPAN (Wireless Personal Area Network). Boletim bimestral sobre tecnologia de redes produzido e publicado pela RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa em 15 de maio de 1998 | volume 2, número 5. Disponível em: <http://www.rnp.br/newsgen/9805/wireless.html>

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Certeau desenvolve sua observação inspirado nos atos de fala, em que o “homem ordinário” impregnado das “marcas do vivido”, se apropria da linguagem formal revelando a arte de combinar e recombinar, jogando com os mecanismos da disciplina. Para o autor, o ato enunciativo revela quatro características: [...]este opera no campo de um sistema lingüístico; coloca em jogo uma apropriação, ou uma reapropriação da língua por locutores; instaura um presente relativo a um momento e a um lugar; e estabelece um contrato com o outro (o interlocutor) numa rede de lugares e de relações. (CERTEAU, 2008, p. 40)

Na presente pesquisa, adota-se similar lógica de análise, por entender que esta perspectiva mantém o foco nos atores sociais, no espaço de relações, não exclui o suporte e nem o contexto material, traduz uma dialética entre a dimensão material e simbólica da territorialidade. É fundamental, a partir daqui, conceituar território: lugar, espaço e rede.

Noções espaciais e territoriais Segundo Certeau, o lugar é “uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade” (2008, p. 201). Refere-se a coordenadas específicas de localização. Numa comparação simples é o mesmo que indicar o lugar onde se mora, o endereço, o local de trabalho, de estudo. Enfim, um lugar está associado ao exato, ao concreto (dois corpos não ocupam o mesmo lugar). Se o lugar é um ponto fixo, o espaço é “um lugar praticado”. Ou ainda, “um cruzamento de móveis” (CERTEAU, 2008 p. 202). Teoricamente não tem limites definidos, mas revela um trânsito, obedece a forças de sentido, velocidade, movimentação. Pierre Bourdieu (2000, p. 137), ao referir-se ao espaço social, conceitua como “um espaço de relações o qual é tão real como um espaço geográfico, no qual as mudanças de lugar se pagam em trabalho, em esforços e sobre tudo em tempo”. A estrutura do espaço se constitui no trânsito dos agentes sociais que a compõe, nas práticas, nos usos, nos fluxos que lhe conferem “vida”. É um espaço de relações permeado por redes sociais. As práticas sociais definem as vias de acesso que se efetivam em ruas, corredores, redes de água, esgoto, energia, comunicação, entre outras. Um espaço cujas fronteiras podem ser delineadas conforme os atores sociais percebem as possibilidades de usar e transitar por ele. 3


Todo espaço físico compartilhado pelos indivíduos tende a obedecer a certas lógicas organizacionais, instituídas para auxiliar no trânsito diário. Ir e vir nos espaços exige conhecer seu funcionamento. Se tomar como exemplo uma rua, deve-se levar em conta o veículo, o sentido, a trajetória, a possibilidade de retorno, a sinalização a velocidade média, e assim por diante. Conseqüentemente atingir o objetivo proposto depende de recursos materiais e culturais que são indissociáveis. A capacidade de reconhecer e usar os recursos disponíveis no espaço marca o trânsito do indivíduo e permite o domínio das situações, ao mesmo tempo, lhe confere um capital social cujo ativo é usado para expandir relações e conseqüentemente o território, tanto na dimensão simbólica, quanto concreta. Ronald S. Burt (2001, p. 203), ao conceituar capital social, refere-se às possibilidades de estar mais e melhor servido de conexões. Nestas ligações entre indivíduos ou grupos está em jogo a capacidade de estabelecer trocas, suportar tensões e despertar confiança. A posição que se ocupa nesta relação é o ativo, ou seja, o capital social. Este, por sua vez, cria vantagens comparativas para a execução de determinados fins. Terá melhor aproveitamento, ou retorno, quanto mais indivíduos ou grupos estiverem relacionados. As estruturas em rede permitem o acesso que vai viabilizar o trânsito, promover o encontro. Quanto mais ramificados e interligados os espaços, mais os seus habitantes (ou passantes) podem expandir suas fronteiras. As percepções das fronteiras e a livre circulação entre estas vias é que delimitam ou demarcam um território. Neste sentido, território é uma abstração delineada pelo contorno que tem origem na apropriação e na dominação dos espaços e dos lugares. Este processo se dá tanto na dimensão simbólica, quanto concreta, portanto a noção de pertencimento depende do modo que o indivíduo percebe as lógicas de posse e domínio. A apropriação se dá na dimensão simbólica e a dominação na dimensão concreta. Haesbaert (2005) refere-se à etimologia da palavra território. Desde a sua origem, o território nasce com uma dupla conotação, pois etimologicamente aparece tão próxima de terra-territórium quanto terreo-teritor (terror, aterrorizar), ou seja, tem a ver com dominação (jurídico-política) da terra e com a inspiração do terror, do medo, - especialmente para aqueles que, com esta dominação ficam alijados da terra, ou no territorium são impedidos de entrar. Ao mesmo tempo, por extensão, podemos dizer que, para aqueles que têm o privilégio de usufruí-lo, o território inspira a identificação (positiva) e a afetiva “apropriação”. ( HAESBAERT, 2005, p. 6774)

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Esta dupla conotação ou, noutros termos, dupla dimensão, fornece sensações ou impressões de pertencimento e instaura o presente relativo associado ao momento, ao lugar. A partir deste entendimento, é possível compreender o território no sentido tradicional, e defini-lo como uma zona de práticas sociais. Não obstante, o espaço de relações se expande nos usos das redes telemáticas, evidenciando um aspecto multiterritorial que ultrapassa o sentido de território como zona. Não excluir a dupla dimensão do território é fundamental para iniciar a compreensão dos processos que envolvem a territorialidade contemporânea. Conforme Haesbaert afirma. é justamente por fazer uma separação demasiado rígida entre território como dominação (material) e território como apropriação (simbólica) que muitos ignoram a complexidade e a riqueza da “multiterritorialidade” em que estamos mergulhados. (HAESBAERT, 2005, p. 6783)

Se a territorialidade depende da faculdade de exercer domínio e ter posse, pode-se compreendê-la como uma relação de poder em ambos os sentidos: simbólico, “carregado de marcas do „vivido‟ e concreto „vinculado ao valor de troca‟”. (HAESBAERT, 2005, p. 6774) O autor conclui que as duas dimensões estão em acentuado conflito no espaço, em certa medida as relações de dominação são “unifuncionais” e a concentração dos recursos materiais tende a favorecer a lógica capitalista hegemônica, dificultado as reapropriações dos espaços. Em contrapartida, a territorialidade em espaços constituídos por redes se efetiva de modo flexível, em que se tem como elemento principal os fluxos, concorrendo para o equilíbrio destas tensões. As redes telemáticas instauram no espaço social lógicas de posse e domínio diferenciadas. Os softwares disponíveis para as práticas sociais cada vez mais têm uma funcionalidade aberta, ou seja, são cada vez mais customizáveis e flexíveis quanto aos usos. Fator que permite a expansão e também a reconfiguração constante deste espaço na via digital. Não obstante, a apropriação de um território na contemporaneidade requer maior vigilância. É como os usos de “um não lugar” em que as táticas de apropriação dependem “do tempo vigiado para “captar no vôo” possibilidades de ganho” (CERTEAU, 2008, p. 47), o que difere das estratégias montadas para dominação de espaços funcionalizados. O tempo gasto neste propósito se constitui o maior custo.

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REDES E ESPAÇO MULTITERRITORIAL.

A livre circulação de bens simbólicos criou novas rotas, múltiplos territórios, Certeau (2008, p. 202) afirma que o “espaço é modificado pelas transformações devido às proximidades sucessivas”. O acesso à internet viabiliza novos modos de controlar os fluxos informacionais que fazem parte da rotina diária dos atores sociais. Tanto as informações disponíveis em uma zona de práticas, considerando o sentido tradicional de território, quanto informações inacessíveis ou inviáveis de serem obtidas, fora do território tradicional, encontram uma via econômica de deslocamento pelas redes telemáticas. Haesbaert (2005, p. 6785) afirma que o espaço social na contemporaneidade se organiza muito mais em redes do que em termos de áreas, característica que intensifica a vivência territorial integrada em múltiplas dimensões, fenômeno que permite compreender o que o autor identifica como multiterritorialidade. “inclui uma mudança não apenas quantitativa – pela maior diversidade de territórios que se colocam ao nosso dispor (ou pelo menos das classes mais privilegiadas) – mas também qualitativa, na medida em que temos hoje a possibilidade de combinar de uma forma imediata e, de certa forma, a vivência, concomitante, de uma enorme gama de diferentes territórios. (HAESBAERT, 2005, p. 6786)

A comunicação mediada pela internet modifica a dinâmica social de trocas informativas a ponto de interferir, até mesmo no comércio de bens e serviços. Chris Anderson (2006, p. 38) na obra The Long Tail, ao estudar a venda de produtos no comércio eletrônico, afirma que “estamos evoluindo de um mercado de massa para uma nova forma de cultura de nicho, que se define agora não pela geografia, mas pelos pontos em comum”. Ele acrescenta que “esse é o mundo da "peer production" (produção colaborativa ou entre pares), fenômeno extraordinário, possibilitado pela Internet, caracterizado pelo voluntarismo ou amadorismo de massa”. (ANDERSON, p. 71) Um computador portátil une duas propriedades fundamentais da perspectiva multiterritorial, que é a mobilidade e a flexibilidade de uso, conseqüentemente permite uma conexão estendida e maior controle sobre informações que podem interferir nas tomadas de posição na zona de práticas. Quando conectado à internet, pode agregar informações por meio de interfaces amigáveis, transmitir e manipular dados, localizar e ser localizado, manter diálogo direto, processar, armazenar e transferir informações. Portanto, confere ao ator social o controle de entrada e saída de informações para múltiplos fins sem perder a mobilidade. Potencialidades 6


que antes só podiam ser efetuadas nos pontos fixos de internet, em locais concretos e “delimitadas geograficamente”.

METODOLOGIA E OBJETO EMPÍRICO A presente pesquisa de campo coletou dados por meio de uma “observação direta intensiva”, que na definição de Marconi e Lakatos (2009, p. 192) é caracterizada pela utilização de duas técnicas: observação e entrevista. Foi realizada uma observação não-participante, em que o pesquisador não se integra ao observado. Em local estratégico sem interferir na rotina de acesso a internet, os estudantes foram observados uma a um, em atividades de sala de aula. Foi estruturada por meio de um formulário disposto no anexo – 1. As entrevistas obedeceram a uma metodologia mista entre duas categorias que as autoras definem como: estruturada e não-estruturada. Estruturada [...] é aquela que segue um roteiro previamente estabelecido; as perguntas feitas ao indivíduo são pré-determinadas. Ela se realiza por meio de um formulário, elaborado e é efetuada de preferência com pessoas selecionadas de acordo com um plano [...]. Não-estruturada o entrevistador tem a liberdade para desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada. É uma forma de explorar mais amplamente uma questão. Em geral as perguntas são abertas e podem ser respondidas dentro de uma conversa informal. (MARCONI E LAKATOS, 2009, p.199)

As entrevistas foram registradas em áudio e conduzidas na intenção de estabelecer um dialogo de confiança. Foi usado um formulário misto, de perguntas com múltipla escolha e outras abertas. Cada entrevista teve a duração de 25 minutos, em média, a observação não-participante ocorreu com sete estudantes enquanto estavam em sala de aula e com acesso a internet. Para a escolha dos alunos que compõe o objeto empírico foram consideradas condições de acessibilidade e zona de práticas semelhantes, conforme itens abaixo relacionados:  Todos possuem computadores portáteis;  Dispõem de acessibilidade a internet com tecnologia sem fio a maior parte do dia;  São oriundos de diversas cidades;  Estão em residência temporária;

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 São estudantes universitários, pertencentes aos cursos de agronomia, engenharia florestal, engenharia ambiental, jornalismo e relações públicas. Foi elaborado como instrumento de pesquisa um formulário sócio-cultural2 a fim de obter informações do contexto familiar. A observação não-participante teve a duração de duas horas e trinta minutos, em média, e o objetivo foi verificar as reações, as posturas, as interfaces acessadas, os tipos de conteúdos e, também, a interação com o ambiente material. Com este procedimento foi possível observar a relação do conteúdo acessado com a zona de práticas, aquelas realizadas de modo presencial. O foco de atenção e o tempo dedicado a uma ou outra atividade. O formulário de observação pode ser consultado no item 6 do formulário disposto no anexo 1. A ordem de abordagem e aplicação das questões foi a seguinte: 1. Observação participante; 2. Abordagem para resposta às questões 1.1 até 1.4, focadas nos dispositivos técnicos como banda de internet, tipo de computador e modo de acesso (anexo 2); 3. Entrevista com base nas questões 2.1 até 4.5, com vistas ao relato sobre os usos do computador portátil e da internet (anexo 3).

ANÁLISE DOS DADOS A fim de analisar a territorialidade tanto na dimensão simbólica quanto material, os usos informados foram estratificados em quatro categorias que resumem a proposta da pesquisa. Nesta abordagem, considerou-se o trânsito das informações quanto ao itinerário e, também, foram considerados princípios de distinção e diversidade. Uso do tempo de acesso a internet em função: 1. Do curso ou do campo específico de estudo;

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Adaptado de um questionário desenvolvido no Departamento de Psicobiologia da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo pela pesquisadora Cristina Lasaitis. Original sob o título “Questionário sócio econômico e étnico cultural”. Disponível em: http://cristinalasaitis.files.wordpress.com/2008/12/questionario2.doc. Acessado em 05/05/2010

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2. Da zona de práticas sociais e de relações presenciais. Uso dos conteúdos acessados 3. Que diferem do campo específico do curso; 4. Que diferem da zona de práticas sociais ou das relações presenciais. A tabela 01 contém um resumo dos dados objetivos que serviram de auxiliares na elaboração das análises. Cada linha traz um indicativo que, em conjunto com a totalidade dos dados, permitiu a categorização dos usos: 1. Dos estudantes por meio de letras maiúsculas; 2. De pertencimento ao curso universitário. Os estudantes de engenharia florestal, ambiental e agronomia foram nomeados de “engenheiros” e os de relações públicas e jornalismo de “comunicólogos”; 3. Do grau de instrução dos pais. Obedecendo a ordem pai/mãe. Identificado por: (FI) fundamental incompleto; (FC) fundamental completo; (MC) médio completo; (SC) superior completo; (Esp.) superior completo com alguma especialização; (Mestre) título de mestre; 4. Da renda familiar. O valor está representado pelo intervalo numérico e o resultado se dá pela multiplicação de cada número pelo salário mínimo vigente no país (R$ 510,00) quinhentos e dez reais (exemplo 2-5: 1.021,00 a 2.550,00); 5. Horas diárias de conexão a internet. Os estudantes que informaram tempo superior a três horas foram questionados se dedicavam atenção exclusiva em atividades na internet, os quais afirmaram permanecer conectados a maior parte do dia checando MSN, e-mail, Twitter e fazendo download de arquivos, porém intercalando com tarefas fora da internet e do computador; 6. Negativo ou positivo quanto ao uso da internet em sala de aula.

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ZJ Com. 2-5 00h15min Sim

FC/FC

WG Eng. 2-5 01h30min Não

FI/FI

SF Eng. 2-5 3h

Não

MC/SC

SEM Eng. MC/MC 5-10

Sim

01h30min

2-5 8h

Não

PF Com.

2-5 5h

Sim

MC/Esp.

SC/Esp.

Com.

MV

MLG Com. SC/MC 5-10

Uso em sala de aula

05h30min

8h

Sim

MG Com. 10-15 Sim

Mestre/Esp.

CT Eng. 1-2 Às vezes

MC/MC

CM Com. 2-5

8h

Sim

FI/FI

CLC Eng. FC/MC 1-2

3h

Horas diárias de conexão

Não

4h

1-2

1h

Renda

Sim

Instrução dos pais

Com.

Curso

FI/FI

Estudante

CL

Tabela 01 – Resumo dos dados objetivos usados para categorização e análise

Fonte: Formulários elaborados pelo pesquisador (anexo 4) A tabela 02 demonstra por meio de uma escala de cinza como os estudantes priorizam cada uma das categorias estabelecidas. Conforme legenda abaixo: Legenda Não prioriza Prioriza um pouco Prioriza Prioriza muito

+ ++ +++

O conteúdo exposto no tabela 02 não contempla os usos em função de sociabilidade e trocas afetivas com amigos e familiares. Prática que é unânime e evidente entre todos os entrevistados, mesmo assim os usos do Orkut, MSN e outras ferramentas do gênero, quando usadas para trocas informativas além dos motivos aparentes de sociabilidade, foram considerados no conteúdo da tabela. 10


+

Em função da zona de práticas e das relações presenciais

++

+++

Que diferem da zona de práticas ou das relações presenciais

+++

+++

+++

+++

+++

+++

+++

+++

+++

SEM

SF

Eng.

Eng.

Eng.

+

+++

+

++

+

WG

CT Eng.

+++

+

+

+++

CLC

++

Eng.

ZJ

MV Com.

Que diferem do campo específico do curso

Com.

MLG Com.

+++

PF

MG Com.

++

Com.

CM Com.

Em função do curso ou do campo específico de estudo

CL Acesso a informações para usos

Com.

Tabela 02 - Prioridade de usos quanto à territorialidade material e simbólica

++

++

+

++

+

+

++

+++

++

Fonte: Entrevistas descritas no anexo - 4

Fonte: tabela 02 11


Usos comuns e unânimes entre os entrevistados

Considerando a totalidade da amostra inclusive os usos em função da sociabilidade, a maioria dos conteúdos obtidos fora da zona de práticas são utilizados em função da mesma. Conforme informaram nas entrevistas, os estudantes observados optam por acessar conteúdos na internet, aja vista, serem menos onerosos do que conteúdos iguais ou similares acessíveis no ambiente externo. Por conseguinte, a acessibilidade flexível é percebida como um modo de relativa independência do espaço funcionalizado. A posse do computador portátil confere aos estudantes autonomia na realização de tarefas curriculares, não dependendo dos desktops dos laboratórios de informática da universidade. Nas residências não estão fisicamente presos em salas e escritórios, obtêm vantagens para otimizar o tempo e realizar trocas de modos inusitados (no banheiro, na cozinha, na cama). CL - Todo mundo vai com os computadores pra sala e ficam lá assistindo TV, conversando, às vezes trocamos algum link de uma comunidade do Orkut. Mas chega um ponto que tu tem que parar tudo e fazer só uma coisa. E-mail que a gente recebe e gosta, a gente manda uma para as outras. (anexo, 4 p. 4) MLG - Por incrível que pareça às vezes o cara esta no quarto ao lado e usa o NSN para mandar um recado, arquivos também, às vezes é só levantar e pegar o pen-drive, mas é mais fácil transferir por MSN. Isso acontece muito. Muitas vezes quando tu já esta na cama, só pra não sair do quarto enviamos pequenos lembretes, amanhã se lembra de fazer isso. Oh! Baixa a TV, coisas assim só pra não levantar da cama. (anexo, 4 p. 24)

A acessibilidade flexível do computador portátil potencializa as trocas informacionais entre pontos de conexão. A conexão prolongada usando o MSN, Orkut e o Twitter, advém da percepção de que todos podem estabelecer comunicação com todos em tempo real. Nesta prática se efetivam múltiplas formas de uso com mobilidade, criando novos hábitos e territorialidades. Todos os entrevistados afirmaram que ligam o computador, checam os e-mails, abrem o MSN e o Orkut, deixando-os on-line, e depois partem para as atividades decorrentes da rotina de estudo ou trabalho. A rede estabelecida nestas conexões potencializa a multiterritorialidade. Nestas práticas novos fluxos de informações são criados, novos hábitos desenvolvidos. Retomando o referencial teórico de Certeau, essas são “maneiras de fazer” que formam contrapartida do lado dos consumidores. É nessas interações que os “procedimentos populares jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-las”. (CERTEAU, 2008, p. 41)

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A possibilidade de efetuar trocas informacionais, estando conectado a pessoas ou grupos em rede, é percebida pelos entrevistados como fonte de diversidade informacional acessível a qualquer momento e com baixo custo. SF - Onde eu moro é afastado da cidade, então pelo MSN trocamos informações para fazer os trabalhos, e também converso com o pai e a mãe. Antes a mãe gastava muito em celular, agora mão gasta nada para falar pelo MSN. (anexo, 4 p. 40) CT - O meu gosto por tecnologia sempre tive, eu assinava a revista INFO, mas como a internet tem tudo eu não compro mais. (anexo, 4 p. 14) SF - Na internet encontro a facilidade, a comodidade de buscar e aprofundar questões do meu interesse. Por exemplo, sobre o intercâmbio, quando quero conhecer um país de destino, ou ficar sabendo de informações específicas. Se não existisse a internet eu não teria a disposição de buscar de outro modo, mesmo que ele existisse. (anexo, 4 p. 40)

O uso do computador portátil interfere nas lógicas de posicionamento da zona de práticas e no modo de buscar informações distantes dela. Nesta pesquisa detectou-se que os entrevistados, em maior ou menor grau, percebem as vantagens de uso da rede como via de comunicação que permite obter informações de vários pontos, mesmo que distantes das relações presenciais.

Itinerário dos fluxos em rede

Relações constituídas no ambiente presencial, quando afastadas da proximidade física, podem ser aproximadas na internet, e aquelas distantes sem a possibilidade de encontro na situação atual, também são favorecidas pela relativização das distâncias. SF - Mantenho contato com amigos de outras cidades, o ano passado eu estudava com uma turma em que cada um foi para uma cidade diferente e agora nos conversamos pra saber como é que estão. Tem amigos de primos meus que eu não conheço, e mantenho contato, mas são poucos, é esporádico. (anexo, 4 p. 40) PF - Tenho amizades que só existem nas redes sociais, converso regularmente com estes contatos e fazem parte do meu cotidiano. Troco informações e alguns amigos já se tornaram relações concretas. Se não fosse a internet eu nunca ficaria sabendo do Cesnors, eu não estaria aqui. (anexo, 4 p. 34) ZJ - Minha cidade é pequena, quando chega um produto que eu quero, um tênis Nike por exemplo, as vezes é um preço exorbitante. Como eu já conheço a marca e na internet eles fazem com frete grátis é bem mais viável. (anexo, 4 p. 51) MLG - Quando eu posso ou dá certo, devido o fuso horário, me comunico com amigos que foram embora (outros países) em busca de emprego e estudo. Moravam perto e agora moram longe. Tenho uma amiga que seria minha colega de faculdade e acabou não vindo pra cá, é uma das pessoas que eu mais mantenho contato pelo MSN e não conheço pessoalmente, hoje, agora a pouco estava falando com ela. Tem alguns casos assim. (anexo, 4 p. 24-25)

Foi observado que, entre os entrevistados, há quem busque informações para atender necessidades relacionadas ao espaço de práticas. Mantendo o eixo temático focado nas atividades

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realizadas no espaço de ralações materiais. Mesmo que sejam referenciais diversificados e obtidos exclusivamente na internet, fazem parte dos projetos realizados na zona de práticas.

Distinção e diversidade no comparativo entre comunicólogos e engenheiros

Para compreender as lógicas que determinam os usos, tanto do computador portátil, quanto da internet, estabeleceu-se um comparativo entre os comunicólogos e os engenheiros, considerando os interesses, os temas, o formato, e o tempo empreendido na busca das informações. Os comunicólogos acessam em média cinco horas e meia todos os dias, já os engenheiros, duas horas e meia. No caso dos “comunicólogos”, que predominantemente são do curso de jornalismo, a busca oscila entre os conteúdos do currículo acadêmico e variedades cotidianas, como futebol, música, cinema, moda, comcorrendo com informações obtidas na zona de práticas. Os engenheiros atribuem elevado grau de importância aos conteúdos estudados em sala de aula. Fato confirmado pelo conteúdo acessado na internet e pelo tempo dedicado a estas atividades. Conclui-se que os usos dos “engenheiros” estão em torno do eixo temático de suas atividades acadêmicas. Os engenheiros valorizam a instituição de ensino como oportunidade profissional, mantendo o foco no conteúdo ali ministrado. Evitam usar à internet em sala de aula, valorizam as entidades de classe, fato percebido pelo conteúdo acessado na internet, e também, na dificuldade de observar estes alunos usando o computador em sala de aula. SF - Em hipótese alguma eu uso o computador em sala de aula. Só para fazer alguns ajustes em trabalhos aqui na faculdade. (anexo, 4 p. 40) CLC - Só ligo o computador quando preciso, depois desligo. Para fins específicos em média uma hora e meia por dia, principalmente para pesquisas acadêmicas. Procuro muito sobre genética das plantas. Encontrei coisas interessantes sobre o parque nacional das sequóias. Sempre volto procurar informações lá. (anexo, 4 p. 8) CLC - Tenho cadastro no Gaia Village é um fórum para receber informações sobre áreas de interesse, informadas no cadastro. É uma comunidade que conheci na faculdade. (anexo, 4 p. 8)

O tempo é canalizado para as atividades acadêmicas, conseqüentemente, as informações obtidas na internet, não se pautam na diversidade de assuntos de outros campos. Mesmo assim, observa-se a diversidade de referenciais teóricos obtidos em bancos de dados na internet. São

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informações que estão em função da curso ou do campo específico de estudo, agora, pautadas pela diversidade obtida em zonas territoriais distantes. CLC - No Scielo eu faço buscas por temas em todos os países, se não conheço a língua do artigo, ali mesmo tem uma ferramenta que faz a tradução. É um site muito interessante eu gasto muito tempo ali procurando artigos, eles servem para embasar meus trabalhos com outros autores. Se não fosse esta possibilidade eu talvez não tivesse acesso, porque muitas destas obras não foram traduzidas para o português ou nem chegam ao nosso país. (anexo, 4 p. 8) SEM - Varias coisas que eu estou aprendendo na faculdade, sobre a realidade do Brasil, tu pode buscar na internet para poder discutir com o professor. Jornal eu gosto, mas eu não tenho aqui. (anexo, 4 p. 37) SF - Como estou no primeiro semestre não tenho experiência, então eu olho alguns modelos de relatórios em pdf, que procuro no Google, e também procuro fotos para ilustrar meus trabalhos. (anexo, 4 p. 38)

Nas lógicas de apropriação dos “engenheiros”, a valorização da classe profissional é evidenciada pelos seus acessos a conteúdos relacionados às federações dos estudantes e comunidades específicas sobre a profissão. De modo sintético é possível concluir que, entre eles, os conteúdos acessados são: os do currículo acadêmico; sobre movimento estudantil, entidades de classe e relacionamento entre amigos, colegas e familiares. WG - Antes não me ligava no movimento estudantil, e daí lendo e participando, foi possível perceber outras perspectivas. Acaba influenciando no meu cotidiano. Eu não mando muito e-mail, mais recebo, eu participo das reuniões da FEAB (Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil), e me cadastrei no site para receber informações. Os boletins da FEAB me influenciam, tem muita coisa que eu nunca tinha percebido. (anexo, 4 p. 43) SEM - Guardo muuuuitas coisas nos favoritos, por exemplo, o Brasil de Fato, Atribuna e um blog do movimento dos estudantes e da engenharia florestal (BEF) e a Feab federação dos agrônomos. Tenho cadastro nestes blogs e recebo atualizações no e-mail. Leio regularmente. (anexo, 4 p. 37)

Para compreender a lógica de uso, procurou-se nos indicativos sócio-culturais, possíveis explicações para a valorização do campo específico. Os pais dos “engenheiros” têm formação escolar que oscila entre o ensino fundamental completo e o médio completo, a renda familiar na média é entre dois e três salários mínimos. A história de vida familiar pode exercer influência na atitude de não desviar a atenção do propósito empreendido. Os engenheiros percebem que a conclusão do curso superior pode lhes conferir o título da profissão, fato que a maioria dos pais não alcançou. O argumento se fortalece no comparativo com os comunicólogos. Da sua parte, a renda familiar é, na média, de três a seis salários mínimos e quanto maior a renda e a escolaridade dos pais, mais atividades paralelas observou-se em sala de aula, por conseguinte, menor a percepção do curso como a oportunidade de profissionalização e menor o interesse ao conteúdo ministrado 15


pelo professor. Isso não significa que o capital cultural destes alunos seja inferior. No que, demonstraram isso nas entrevistas. Como efeito, e entendido com base na formulação de Bourdieu, o capital cultural é fonte de distinção e poder na sociedade, neste entendimento não se deve conceber que o capital cultural, cuja posse é privilégio de poucos indivíduos, seja compreendido por uma definição limitada, o autor considera três formas de aquisição: ao estado incorporado, [exige uma incorporação que, tanto quanto supõe um trabalho de inculcação e de assimilação, custa tempo e tempo que deve ser investido pessoalmente pelo investidor.]; ao estado objetivado, sob a forma de bens culturais, quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que são o vestígio ou a realização de teorias, ou de críticas das teorias, de problemáticas, etc.; e enfim ao estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar à parte porque, como se vê com o título escolar, outorga ao capital cultural que é tida por garantir propriedades de todo originais (BOURDIEU, 1979, p. 3).

Portanto, não atribuímos qualquer demérito a nenhum entrevistado diante de suas prioridades informacionais. Ainda que, entre as características do jornalismo, a diversidade de fontes e assuntos é parte do ethos da profissão, marcada pela mediação dos conteúdos de diversos campos.

Lógicas de diversidade informacional

Os comunicólogos não se constrangem ao usar o computador e a internet em sala de aula. A média de tempo que este grupo fica conectado diariamente é de cinco horas e meia. A conexão tem maior duração e os conteúdos informacionais concorrem com o currículo do curso. As buscas por informações valorizam a diversidade de eixos temáticos e, conseqüentemente, não existe a mesma mobilização em torno de entidades de classe. CL - A biblioteca que é bem restrita, e o tempo que a gente tem de aula, não são o suficiente. Na internet podemos buscar coisas que te esclarecem, artigos coisas assim. Procuro críticas de livros, fotos, vídeos, artigos. Leio muito na internet. (anexo, 4 p. 3) CM - Uso a internet para aprender. Com vídeo aulas no youtube aperfeiçoei minha diagramação, aprendi a editar vídeos, leio fóruns para tirar dúvidas. O tempo que estou conectado, comigo junto, deve ocupar ¼ do meu dia; 1/3 se for fazendo um download etc. Baixo musica, 70%; vídeo 10%; programas 10%; e o restante é PDF e afins. (anexo, 4 p. 12) JZ - Se não fosse à internet, onde eu ia buscar as informações sobre os concursos? No diário oficial? No zero hora? Um jornal é “grosso de informação” a gente leva muito tempo procurando. Na internet em questão de 10 a 15 minutinhos eu posso olhar sobre vários concursos. Onde é a prova, quando é a prova, o que cai na prova, quais os requisitos, qual é o salário. (anexo, 4 p. 51)

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Os comunicólogos empreendem mais tempo na busca por conhecimentos diversificados. As informações, paradoxalmente, são escassamente relacionadas aos conteúdos especializados da ciência da comunicação. O computador portátil, salvo algumas exceções, fica o dia todo ligado (sem atenção exclusiva) e na madrugada concluído download de arquivos. A observação dos usos em sala de aula permitiu detectar que o acesso a diversidade de informações podem, ao mesmo tempo, precarizar as relações no ambiente universitário, otimizar o tempo ocioso intercalando atividades na rede e na zona de práticas, ou ainda, servir de apoio as atividades acadêmicas. No propósito de compreender este processo, relata-se o caso de dois estudantes que usam de modo diferente e ilustram estes fenômenos. MG, 22 anos, estudante de jornalismo e direito que, tanto na entrevista, quanto na observação, demonstrou usar o computador portátil para efetivar trocas informacionais em tensão com as atividades realizadas em sala de aula. O estudante cursou seis semestres de música, morou na Europa, já fez cursos de inglês e italiano, e foi observado durante atividades no curso de jornalismo em que acessava a internet e em constantes atualizações de e-mails, Twitter, Msn e Orkut, mantendo-se mais concentrado no computador do que no ambiente presencial. Problemas técnicos com o sinal da internet o deixavam inquieto, inclusive saiu da sala. O computador naquele momento não foi usado como ferramenta de apoio ao ambiente presencial, muito pelo contrário, foi estabelecida uma fuga da zona praticada naquele momento. MG – Uso para checagem e resposta de: email, MSN, Orkut, Twitter, face Book e em seguida o blog. Tudo em função da banda. Eu procuro deixar o pessoal a par das questões da banda... Tem sempre alguém querendo saber a respeito de novidades. (anexo 4, p. 19) MG – Aqui (no Cesnors) o sinal da internet não é bom, mas devido a faculdade ser isolada da cidade eu uso para me manter atualizado, ali com o meu mundinho. Nada, além disso, não busco muito conteúdo. (anexo 4, p. 20) MG - Cursei seis semestres de musica. Me mantenho atualizado lendo vários livros sobre gêneros musicais. A internet é uma ferramenta que me possibilita uma gama maior de experimentações de leituras, em uma livraria, não seria possível comprar tantos livros, alguns que nem acho tão bom, não compraria só para conhecê-los... Só é possível, por este recurso de baixar um livro em PDF. É assim que a internet me influencia pelo conteúdo que eu tenho acesso, e traz subsídios para reafirmar minhas convicções ou conhecer outras opiniões. (anexo 4, p. 20)

A apropriação da ferramenta e dos softwares, neste caso, se dá em função da música. Os livros em PDF, à divulgação de trabalhos musicais, datas de shows, lançamentos da banda são informações que o situa num espaço de interação com outros pares, que não os presenciais. O 17


computador portátil e as ferramentas de comunicação direta permitem a sua localização, no qual MG agrega informações relativas ao um território pertencente a interesses musicais, fato que na ocasião se mostrou mais evidente. Na internet é possível encontrar os pares pela convergência de interesses, com fluidez, já a presença no ambiente material requer outro tempo, em que o coletivo dominante dá menos flexibilidade; entrar e sair de uma sala de aula requer uma reflexão pautada no coletivo. O uso do computador portátil permite vivenciar uma experiência multiterritorial. Neste caso, percebeu-se uma territorialidade mais próxima dos interesses pessoais, e liberado do funcionalismo social. MG – Qual o conteúdo do teu blog? O conteúdo do blog é puro devaneio, serve para minhas filosofias e críticas sociais, discutir alguns dogmas, Os “mentalistas” criticam o meio ambiente e ao mesmo tempo poluem só pelo fato de estarem vivos, e vice versa. Coisas assim, se eu acordo e resolvo falar do preço do papel higiênico, é isso que vou fazer no blog. Leio blogs de todos os tipos e acho interessante, mas o meu é de mim para mim mesmo. Acho muito bom quando alguém me critica se expondo pelas idéias. (anexo 4, p. 20)

Ao responder esta questão o entrevistado, estava no intervalo da aula da Sociologia da Comunicação em que a professora argumentava sobre protestos criativos, e exemplificava o conteúdo com manifestações do Greenpeace, o que denota a influencia da conotação material do território.

Em apoio ao presencial

Para o entrevistado CM (anexo 4, p. 12) o computador portátil e a internet são utilizados em apoio e suporte para as atividades presencias. Mesmo com a internet ativa no ambiente de aula, o aluno não estabelece contato pelo MSN. Na entrevista informou que para a mesma finalidade usa o Orkut e o e-mail, porque estabelece outro tempo de resposta e não precariza a atividade presencial. Mesmo assim se mantém on-line, constantemente conectado e esporadicamente checando e-mails e recados no Orkut, ou seja, controlando o fluxo das informações que chegam e saem do dispositivo móvel. Conforme o entrevistado afirmou nas entrevistas, faz uso da internet para realizar varias tarefas de estudo e trabalho usando as redes de relacionamento e as ferramentas para a internet. CM - Eu colho depoimentos pelo Orkut para fazer matérias. Não preciso me deslocar até o local do fato. No dia em que a balsa se desprendeu e ficou a deriva em Ametista, eu

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contatei uma das pessoas que estavam no ônibus e peguei depoimentos dela. Quando morreu o cantor Leonardo (gaúcho), contatei com uma amiga... Pude ilustrar a minha matéria. (anexo 4, p. 12) CM - Muitas amizades iniciaram ali, hoje são amigos presenciais. Muitos contatos profissionais começaram ali, muitas oportunidades de veiculação do que eu faço no jornalismo pude divulgar no zero hora, diário gaúcho, correio do povo. O financeiro também... se não fosse a internet não teria vendido fotos pro zero hora, pro diário gaúcho. (anexo 4, p. 12)

Portanto o principal uso despendido à internet é como fonte de informações, o que também denota a multiterritorialidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A diversidade de informações e territorialidades, frutos de um espaço social interligado por redes telemáticas, exige dos atores e dos grupos definição de propósito para que as noções de posse e domínio não precarizem as relações. Antes disso, que mobilizem fluxos informacionais conferindo posição de destaque a cada campo, grupo ou ator social e, por fim, que a internet seja usada para promover o desenvolvimento humano. A comparação dos dados obtidos e os parâmetros estabelecidos entre “comunicólogos” e “engenheiros” permitiram avaliar que existem usos que caracterizam cada campo do conhecimento, mas também há usos que constituem tendências comuns. Quanto a lógicas de distinção, os engenheiros demonstram a tendência a buscar diversidade priorizando as informações do campo de estudo, e os comunicólogos priorizam o uso para obter informações de campos diversos. São conteúdos que estão em função ou em tensão com a zona de práticas. Excluindo a sociabilidade com amigos, familiares e colegas, o tempo de acesso prioritário foi para a diversidade de fontes, que não pertencem à zona de práticas sociais ou das relações presenciais. Fator incentivado pela percepção de que os bancos de dados mundiais e as ferramentas para a internet permitem obter informações a baixo custo de tempo, esforço e recursos financeiros. As ferramentas de comunicação direta permanecem ativas na área de trabalho do computador. Prática que cumpre finalidade para realização de trabalhos em grupo, tirar dúvidas com colegas, manter conversação com pessoas pertencentes à zona de práticas, bem como com pessoas que só na via digital podem ser contatadas. 19


A investigação dos usos dos estudantes confirma a multiterritorialidade constatada por variáveis como os modos de interação, a diversidade das informações e o itinerário multidirecional entre a zona de práticas e as redes telemáticas. Relações de baixo custo financeiro e a economia de esforço, isto é, pouca onerosidade. Destarte, evidencia-se a necessidade de ultrapassar o sentido tradicional de território como zona de práticas sociais e considerar que os fluxos informacionais instauram uma nova territorialidade.

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REFERÊNCIAS ANDERSON, Chris. A cauda longa: do mercado de massa para o mercado de nicho; tradução Afonso Celso da Cunha Serra, Rio de Janeiro: Elsevier, 2006 BURT, Ronald S. Capital Social: Teoria e Pesquisa, editado por Nan Lin, Karen S. Cook, e Ronald S. Burt. New York: Aldine Gruyter. (2001) disponível em: http://faculty. chicagobooth.edu/ ronald.burt/research/SCSH.pdf. Acessado em: 15/05/2010 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

BOURDIEU, Pierre. Les trois états du capital culturel. Actes de la recherche en sciences sociales, vol. 30, n. 1, 1979, p. 3-6. CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. 14. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro, RJ. Vozes, 2008. HAESBAERT, Rogério. Da Desterritorialização à Multiterritorialidade. Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005 a, pp. 6774- 6792. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos e metodologia Científica. 6 ed. São Paulo, Atlas 2009. SANTAELLA, Lucia. A estética política das mídias locativas. em: Nómadas nº 28 . IESCO, Instituto de Estudios Sociales Contemporaneos, UC, Universidade Central, Bogotá: Colômbia. Abril2008. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/colombia/iesco/ nomadas/28/ ISSN: 0121-7550. Acessado em: 28/05/2010

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A posse do computador portátil, os usos da internet e territorialidades