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Maranduba, 18 de Janeiro de 2011

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Disponível na Internet no site www.jornalmaranduba.com.br

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Ano I - Edição 21 Foto: Emilio Campi

Ilha do Mar Virado

Este belo pedaço de terra já foi palco de atrozes crueldades com os escravos vindos da África


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Jornal MARANDUBA News

Editorial

Carta do leitor

A tragédia ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro trouxe à memória de vários moradores a lembrança da catástrofe ocorrida em Caraguatatuba em março de 1967. O cenário é o mesmo: lama, troncos de árvores, pedras, casas destruídas, estradas bloqueadas, plantações arrasadas, famílias desabrigadas, confusão e muitos mortos e desaparecidos. Em 2009, ao produzir o documentário “Caraguá: da catástrofe ao progresso”, tive a oportunidade de conhecer detalhes deste episódio. Pessoas que viveram esta calamidade relatavam o ocorrido, o sofrimento e a dor de terem perdido seus entes queridos. Para ilustrar o documentário, só havia fotos da tragédia. Mesmo assim, fotos impactantes que mostravam um cenário completamente desolador. O fato foi amplamente noticiado na mídia da época que acompanhou o resgate e o atendimento às vítimas. O socorro das cidades vizinhas, a solidariedade dos voluntários e até o auxílio internacional ficaram registrado nos jornais da época. Assistindo as imagens do que aconteceu no Rio de Janeiro, podemos perceber mais nitidamente o que aconteceu em Caraguá. O enredo é o mesmo, o cenário idem.

Mudam os personagens, que também são seres humanos com mesmos sentimentos das vítimas de Caraguá em 1967. Pessoas que auxiliaram na catástrofe de Caraguá nos relataram que as imagens do Rio mostradas na TV trouxeram a lembrança o que viveram em 1967. “Parece que estou revivendo o acontecido”, revela Pedro Félix de Oliveira, morador do Sertão da Quina que ajudou as vítimas em Caraguá. Caraguatatuba pode servir de exemplo de que mesmo diante de uma catástrofe, uma cidade ou região pode se reerguer e superar o ocorrido. A união de esforços, o auxílio recebido, o planejamento eficiente podem fazer a região serrana do Rio de Janeiro voltar a brilhar. Levará tempo para que as coisas voltem ao normal. Talvez anos se passem. A tragédia nunca será esquecida. Resta a esperança de que por pior que seja a tempestade, a bonança vem ao raiar do dia. Prestemos a nossa solidariedade aos vizinhos cariocas. Que Deus lhes proporcione forças para superar as perdas e esperança para continuar a jornada, pois para aqueles que sobreviveram, o bem maior, o patrimônio mais valioso continua sendo a vida. Emilio Campi Editor

Editado por:

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Emilio Campi Colaboradores:

Adelina Campi, Ezequiel dos Santos, Uesles Rodrigues, Camilo de Lellis Santos, Denis Ronaldo e Fernando Pedreira Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da direção deste informativo

Reveillon na Maranduba Venho através desta, mostrar a minha indignação referente ao fiasco do final de ano na praia de Maranduba, num País,onde a liberdade de expressão e comunicação esteja a favor da orientação humana, ou seja, enquanto milhares de jovens se divertem com seus familiares e amigos, outros utilizam bebidas alcoólicas e muito mais,assim,não havendo se quer um meio de comunicação ou entretenimento para que os orientassem. A minha indignação é saber onde está a relação social de Ubatuba? Ou será que já não existe mais secretaria de esporte e turismo na região? E cadê as igrejas e outros órgãos públicos, que se dizem comprometidos com a orientação humana? Mas o que importa é que numa das maiores oportunidades que (“Deus”) nos deu, onde ele mesmo disse: Onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas, ali eu estarei. Onde a comunicação foi cerceada não havendo nenhuma espécie de palco para que a secretaria da cultura e educação aproveitasse o ensejo festivo para orientar aos jovens o perigo e o cuidado como drogas, doenças , convivência social , etc. E para finalizar , a impressão que se tem é que vamos mesmos cruzar os braços e deixar

a tal “coisa ruim” tomar conta da nossa cidade , das nossas crianças e do nosso povo . Sem mais, os meus agradecimentos e o meu cordial abraço ao Jornal Maranduba que executa um dos trabalhos mais brilhantes que toda Ubatuba e região já viram, e com certeza, um dos meios de comunicação mais honrado de toda região. Antonio Rodrigues via e-mail Parabéns Sou fascinado pela região de Ubatuba e suas maravilhosas paisagens e encantos naturais. Vejo que vcs prezam pela busca e manutenção das tradições caiçaras, sem entretanto deixar de pensar no comtemporâneo. Em 2 ou três anos devo me mudar, pelo menos temporáriamente, para Ubatuba, e realizar meu sonho. Ainda que pouco conhecendo a cidade (estive aí por seis vezes), especialmente Maranduba, acredito no trabalho comunitário que se faça alimento para os mais necessitados. Parabéns pelo Maranduba News e pelo novo site, e por todo trabalho que fazem em prol da comunidade local. Wiliam J. Barizon Presidente Prudente-SP via e-mail

Postos de arrecadação em socorro as vitímas da região serrana do RJ Mercado Supimpa, Lojão do Sertão Padaria Pão de Mel Material de urgência: Água potável, sal, extrato de tomate, leite, temperos, velas, fósforo, isqueiros, colchonetes, fraldas descartáveis, material de limpeza e higiene pessoal alimentos não perecíveis e enlatados. Maiores informações e doações de médio e grande porte pelo fone (12) 9751-6688 com Bruno César 1ª Evento Saúde Região Sul Dia 29/01 Sábado Horario: 13 Horas Local: Escola Aurea Sertão Quina Presença Drª Calé - Cardiologista e Fisioterapeuta Drª Altair Medição de Pressão Testes Diabeticos Cortes de Cabelos Manicure Tira Duvidas ou Informçõe Sobres Assuntos Inss ou Conselho Tutelar Tudo gratuito para comunidade Contato: Bruno César (12) 9751-6688


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Quilombo Caçandoquina é destaque em revista especializada EZEQUIEL DOS SANTOS Na edição 150, sessão Raízes, da Revista Raça Brasil (Editora Escala), uma página inteira foi dedicado aos heróis do Quilombo Caçandoquinha. O texto da jornalista e fotógrafa Claudia Canto relata uma visita ao local. Poderia ser um texto comum se não fosse as histórias de lutas e conquista daquele povo. Ela começa descrevendo sua viajem ao lado de ilustres amigos dos quilombolas como João Bosco do Instituto Luiz Gama. Lá ela depara com situações que não pertencem somente a um passado escravagista, mas também a um esforço representativo de liberdade e reconhecimento. O Quilombo Caçandoquinha não foi escolhido por acaso. É um dos mais belos lugares do Brasil e que faz parte de diversas comunidades numa única área como Praia do Pulso, Caçandoca, Bairro Alto, Saco da Raposa, São Lourenço, Saco do Morcego, Saco da Banana e Praia do Simão. De acordo com o Incra, toda área possui 890 hectares, localizada em uma das mais va-

lorizadas praias do litoral norte de São Paulo. Ao seu redor, existem pelo menos três luxuosos condomínios fechados, e exatamente por isto, é que o terreno virou palco de intermináveis disputas judiciais. No texto ainda há um resumo de como começou a comunidade, desde quando o português José Antunes de Sá comprou a fazenda Caçandoca em 1858. Fala ainda de seu desmembramento, dos filhos ilegítimos, do que se produzia na época. De lá para cá foram inúmeras lutas e conquistas realizadas pelos remanescentes quilombolas. Reconhece ainda Mário Gabriel do Prado como sendo um “Zumbi Moderno do Século 21” daquela localidade. Mario ainda é perseguido, foi algemado e sofreu junto com outros bravos situações de divisão, desistência, desanimo, conflitos. Dona Maria, mãe de Mario é retratada como uma espécie de matriarca. O local atualmente só é lembrado como quilombo na sua característica mais rudimentar, na memória histórica de todo o seu povo. Ultimamente, os eventos lá

O ex-ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, em visita oficial ao Quilombo Caçandoquinha

ocorridos deram a real dimensão da importância deste chão, não só aos remanescentes quanto às outras comunidades tradicionais membros reais da cultura e história regional. A missa afro, as cantigas de rodas, o peixe com banana verde e principalmente o brilho nos olhos daqueles que sabem que pertencem a uma parte da Memória Nacional Brasileira, ao processo civilizatório nacional e na formação do patrimônio material e imaterial deste mundo. Outro exemplo descrito foi a de Neide Antunes de Sá, uma das integrantes da família Sá, que igual a outros, permaneceu no Quilombo mesmo diante de tantas dificuldades. Sua única filha tinha decidido estudar em uma importante Universidade no Paraná, mas Neide ganhou outras dezenas

de filhas e filhos onde desenvolveu o trabalho de resgate com as crianças através de cantigas de rodas. A revista Raça Brasil (www.racabrasil. uol.com.br) é especializada em temas afro, trata-se de uma das mais importantes e

respeitadas da América latina. Lá são abordados vários temas interessantes, ande grande parte é de nossa própria historia e cultura. Lá você descobre, músicas, entretenimento, políticas, concursos, belezas, pesquisa e muito mais.

Festa no Quilombo Nos próximos dias 22,23,24 e 25 de janeiro na Praia da Caçandoca acontecerá uma grande festa. No dia 22 a noite acontecerá um lual dos aniversariantes a partir das 20:00hs com atrações musicais durante o dia todo. Venha participar e traga sua família e os amigos.


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Emoção na despedida de seminarista EZEQUIEL DOS SANTOS Pelo menos três gerações de moradores, visitantes, turistas e paroquianos participaram da missa de despedida oficial do seminarista Diego Serena, que aconteceu na Capela Nossa Senhora das Graças no último dia 16, no Sertão da Quina. A despedida foi preparada por toda a comunidade que se empenhou em agradecer os dois anos de trabalho coordenado pelo seminarista nas comunidades da região sul. A missa foi conduzida pelo padre Carlos, os seminaristas Anderson, João e Helder e foi marcada por muita emoção e lágrimas sinceras. Pastorais que foram cuidadas por Diego participaram da despedida, entre elas a da juventude, dos ministros, dos cerimoniários, dos coroinhas e da juventude, que esbanjaram talento e precisão nas músicas e canto neste momento tão importante à toda a comunidade. Ao final foram mostrados vários depoimentos de jovens, crianças e adultos a respeito da sua despedida. Várias vezes o seminaris-

Crianças recebem presentes de natal de grupo de amigos EZEQUIEL DOS SANTOS No último natal, um grupo de amigos distribuiu no Sertão da Quina brinquedos às crianças da região sul. A ação que é realizada há mais de uma década atraiu um maior número de crianças. Todos ficaram satisfeitos com a distribuição, segredo mesmo foi a identidade do Papai Noel que desta vez parecia mais atlético. Papai Noel prometeu retornar no próximo natal. Mais de mil brinquedos alegraram a moradia de crianças, muitas delas não haviam recebido nenhum presente. Para os amigos o trabalho foi de grande satisfação e alegria. O grupo de amigos agradecem o ilus-

ta se emocionou transferindo sua emoção a todas as testemunhas que lá estavam. Ele recebeu presentes e muitos abraços. Após a cerimônia religiosa, houve uma confraternização na cantina com bolos doce e salgado e refrigerante aos participantes. A boa noticia foi de que Diego será transferido para uma

comunidade próxima da região sul, o que poderá amenizar a saudade dos amigos e paroquianos, que vê neste jovem um exemplo de dedicação, serenidade, responsabilidade, carinho, fraternidade, amizade, empreendedorismo e fidelidade a Deus. Toda comunidade agradece e o aguarda de braços abertos.

Morador centenário solicita melhorias de rua

O pescador aposentado João Zacarias de Oliveira, 95 anos, não sabe ao certo quantas décadas mora na Rua 08, no bairro da Maranduba, mas lembra com detalhes de quantos caminhões de terra pagou para arrumar a rua. Segundo ele, foram quarenta caminhões de aterro para que o local ficasse transitável. Comenta que fazem dois anos que observa os

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turistas venderem suas casas e ir embora por conta do acesso que tem mais buraco e água do que terra. “Não quero acusar ninguém, mas seria bom o administrador arrumar o lugar, pois é muito desmazelo com a gente”, desabafa o pescador. Quando pode ir até o quintal, de mês em mês, Zacarias conta que olha a rua com muita tristeza e lembra das colabo-

rações e “dijutórios” (mutirão, ajuda) que realizou para o poder público sem cobrar um centavo. Ele não reclama do prefeito, mas cobra providências. “Quando pude ajudei a fazer muita estrada, sei que as autoridades não me conhecem e eu também não os conheço, mas se eu pudesse ensinar como se trabalha sério, eu faria”, comenta o pescador.

tre empresário, sua equipe e família pelo apoio e participação neste nobre evento. Agora é esperar o natal de 2011. Oh!Oh!Oh!

Certificação Ambiental do Projeto Marinas é Lançada no Módulo No próximo dia 24, o Centro Universitário Módulo será palco do lançamento da Certificação Ambiental do Projeto Marinas. A certificação tem como objetivo controlar e fiscalizar a poluição, além de incentivar a incorporação de boas práticas ambientais de marinas da região do litoral norte de São Paulo. O evento é organizado pela Fundação Vanzolini, em parceria com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Ce-

tesb) e prefeituras municipais. A partir deste ano, as instalações somente vão funcionar se estiverem de acordo com as licenças ambientais. Entre os critérios avaliados estão estrutura e manutenção das instalações, dragagem e controle de ruído. O certificado é voluntário e pode ser requisitado pelas empresas náuticas. Não é necessário fazer inscrição prévia para o evento de lançamento. Os interessados podem comparecer ao Módulo a partir das 20h.


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Estudante recebe prêmio por desempenho em faculdade EZEQUIEL DOS SANTOS No último dia 11, o caiçara Joel Felix dos Santos, 35 anos recebeu nota máxima na faculdade. Ele se destacou como aluno de melhor desempenho acadêmico do curso de licenciatura em Educação Física de 2010 no Unimódulo em Caraguatatuba. Não fosse a determinação e as dificuldades enfrentadas seria uma comemoração comum. Joel chegou a ter duas jornadas de trabalho, a ficar desempregado e quase desistiu do sonho de ser professor. Ele havia conseguido bolsa através do Enem e como destaque dos últimos três anos poderá agora escolher um curso de bacharelado ou uma pós-graduação em qualquer matéria. Surpresa para ele foi quando a Pró-reitora do Unimódulo anunciou-o como melhor aluno do ano, conquistando o prêmio. Familiares e amigos haviam recebido a notícia de que ele estava entre os dez melhores alunos da universidade, mas mesmo Joel não imaginaria que poderia ser o escolhido entre os 70 formandos. Todos se emocionaram com a conquista. A esposa e os filhos de Joel participaram do evento que foi realizado no teatro Mário Covas em Caraguatatuba. Formou-se também outro caiçara, o agora professor Paulo Roberto da Silva, 22 anos, também do Sertão da Quina e vizinho de Joel. No auditório ouvia-se em coro os parabéns ao agraciado e outros já haviam anunciado antecipadamente que o ganhador seria Joel. A família e os amigos o parabenizam pela conquista, já que muitos sabem da dificuldade enfrentada pelo aluno no decorrer dos es-

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tudos. Quem participou relata da emoção e da surpresa na hora do anúncio. Joel fez questão de que seu padrinho fosse testemunha desta conquista. Além de bom pai, bom amigo, Joel é bem conhecido na comunidade, seja nas atividades religiosas, nas atividades sociais e educacionais. Ele faz questão de dedicar a conquista ao professor Geraldo Salles de Oliveira, primeiro diretor da escola Tiana Luiza no Araribá e quem fez Joel tomar gosto pela educação. “Ele me convidou para ser inspetor de alunos no Tiana Luiza, devo muito a ele”, conclui Joel emocionado.

Paulo e Joel, do Sertão da Quina

Produtor cede direitos de veiculação sobre catástrofe de Caraguá em 1967 Por conta do ocorrido na região serrana do Rio de Janeiro, no último dia 14, o produtor e editor do Litoral Virtual, Emilio Campi cedeu direitos de veiculação do documentário sobre a catástrofe de Caraguatatuba em 1967 às TVs nacionais e internet de todo o país. Na ocasião cedeu uma entrevista exclusiva a TV Aparecida. Foram vários os contatos para o uso da imagem, dos dados, informações e entrevistas da história mostrada no documentário “Caraguá - da Catástrofe ao Progresso” realizado pelo Litoral Virtual. Neste dia a prefeitura de Caraguatatuba realizou um tour com várias equipes de televisão mostrando os pontos do acontecido que são mostrados no documentário. Na ocasião, Caraguatatuba ficou mundialmente conhecida por esta que é considerada por especialistas como uma das maiores catástrofe climática do Brasil. Foram momentos dramáticos naquele fatídico dia 18 de março de 1967, quando uma tempestade de poucas horas provocou centenas de deslizamentos na Serra do Mar. Milhares de toneladas de terra, paus, pedras e lama avançaram sobre a cidade. Muitos moradores da regiao sul de Ubatuba colaboraram no socorro as vítimas. Pescadores comentam que ao avançar a baía de Caraguá já era possível avistar corpos, veículos, pedaços de casas no mar. Por terra, quem tinha veículo parou no morro da Pedreira e lá de cima já avistava a destruição. Muitos se emocionaram ao ver aquela imagem desoladora. Na época foram contados 436 mortos e mui-

tos desaparecidos. A mídia internacional tratou o episódio como uma das maiores catástrofes daquele século. O acidente de Caraguá, tomada às devidas proporções, está entre as 100 maiores catástrofes climáticas com soterramentos do mundo. Na épo-

Documentário “Caraguá: da catástrofe ao progresso” relata os acontecimentos da época e de como foi possível a cidade se reerguer depois da tragédia de 1967.

ca, moradores da região Sul de Ubatuba viram uma nuvem negra que passou pela localidade. Por aqui, em menor proporção, aconteceram dois eventos climáticos que marcaram seus moradores para sempre. Foi o maior vendaval ocorrido no final dos anos 50, foram três dias de sopro vindos do mar, onde morreram vários pescadores. A outra foi a contenção das chuvas na cabeceira do rio Santa Maria da Água Branca e Marimbondo que quando arrebentou destruiu tudo. No campo de futebol do Sertão da Quina era possível nadar de braçadas, conta os sobreviventes. Neste episódio não houve mortos, apenas feridos e prejuízos nas roças. Na oportunidade foi entregue em mãos a TV Aparecida outro documentário, a história da aparição da Santa no bairro do sertão da Quina em 1915. Para quem estiver interessado em adquirir os documentários, tanto da da catástrofe de Caraguatatuba como o da aparição da santa basta acessar o site www.dvd1.com.br ou pelo fone (12) 9714.5678 e encomendar. Para quem gosta de histórias da região, são dois relatos emocionantes.


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Técnicos fazem moradores perderem dois milhões de m2 de roças EZEQUIEL DOS SANTOS Moradores tradicionais da região sul de Ubatuba ainda guardam magoas de um passado recente sobre o reconhecimento e ocupação do solo em áreas centenárias, principalmente as do fundão do vale e das montanhas. Envio de capangas, tentativa de enganar moradores, uso de forças policiais, documentos duvidosos, descumprimento de ordem judicial, tentativa velada de desestimular o uso das roças, ameaça de morte de forma sutil frente às crianças, tomada de áreas pelo parque estadual, legislação ambiental restritiva e até outros métodos que de forma silenciosa ruiu a vida de antigos moradores para lhes tomar o que restou de terras. Houve os que realmente venderam partes de suas terras. Mas houve um período em que todas estas situações estavam se resolvendo até que um interesse que não era o da comunidade entrou em ação. O objetivo das ações da comunidade era apenas demarcar as áreas de roça e de uso dos moradores da época. “Não queríamos invadir área de ninguém e nem a mata virgem, apenas regularizar o que estava sendo usada pelo nosso povo para que seus descendentes pudessem sentar em berço esplendido”, comenta o caiçara Zeca Pedro, 71, que foi um dos organizadores do movimento daquela época. Sebastião Félix, Manoel Cabral, Manoel Gaspar, João Pedro, Jorge do Kito, Pedro Félix, Cida e Otilia Balio entre outros também ajudaram a organizar o movimento que chegou a ter por volta de cem pessoas. Ele nos conta que desde antes de seu nascimento havia conflitos na região. Conta-nos ainda que por várias vezes fo-

ram ameaçados, e até tiros levaram. Era a luta da posse de cinco gerações contra um pedaço de papel. Um pouco antes da década de 1950 foi que as coisas pioraram, comenta Zeca Pedro. Moradores resistiram e enfrentaram até policiais com paus e pedras a construção de uma usina de cana que seria no campo de futebol do Sertão da Quina como forma de destruir o pequeno núcleo de moradores da época. Neste conflito desviaram o rio onde até as crianças participaram. Enfrentaram também grupo de “capangas” de São José dos Campos que acamparam atrás do Emaús por volta de 1966. Depois este mesmo grupo foi para o Araribá, lá passaram uma cerca no quintal de uma moradora. O grupo se reuniu e na Kombi do Zé Leal foram lá espantar os capangas. Depois na tentativa de tomar terras lá pelos lados da Cachoeira da Água Branca, na década de 1990 a Sabesp tentou ocupar o Emaús para colocar um reservatório de água. Moradores eram simples e ingênuos lavradores, pescadores e artesãos que com estas qualidades foram passados para trás. Filhos e netos que hoje se revoltam com o acontecido no passado. Muitos deles carregam cicatrizes profundas no corpo e na alma por conta dos fatos. O livro “Ubatuba Terra e População” a pesquisadora da USP Maria Luiza Marcilio faz um relato destes acontecimentos no município desde suas primeiras pesquisas na década de 1960. Numa determinada data, moradores foram convidados a participar de seminários em Itaici e Registro-SP e Cachoeiras do Macacu - RJ sobre esta problemática. Foi aí que a Pas-

toral da Terra resolveu ajudar a comunidade. Fundaram então uma espécie de ONG denominado “Comunidade e Vida do Povo”, que tinha como objetivo levantar os problemas da população local e organizá-lo para as tentativas de solução, levar o povo a decidir e ser o ator de sua própria história, despertar o espírito comunitário e unir para forçar o seu próprio caminho. Na realidade o povo tinha cansado de ser coadjuvante. De um lado, iam presos por defender a natureza, do outro, perseguidos por terem nascido aqui. Na última ata dos trabalhos da organização (04-03-1982) compareceu o advogado Dr. Miguel (assessor jurídico da Pastoral da Terra) para explicar sobre coisas novas como um movimento de intenção da tomada de terras da população pelo governo (Parque Nacional) e o que seria a realização de usucapião coletivo, das colaborações externas e dos conflitos sobre a área. Quando surgiu a idéia de se reorganizarem, moradores já haviam iniciado o levantando das propriedades no final da década de 1960. Os dez últimos anos foram os mais árduos. Com isto produziram um mapa detalhado das propriedades que começava pelo Sítio Jesuíno em frente ao a quadra de esportes do Sitio do Francês (Jean Camps) no Araribá, no cerro da divisa com a Fazenda Reunidas Mococa de Jacob Klabin Lafer, pela propriedade de Antonio Fernandes da Silva e João Rosa, dos descendentes dos Oliveira, Félix, Cabral, Gaspar, Santos e dos Prados (única família), indo ao Ingá no André Pereira e Pedro Rosa, cruzando parte da várzea e se ligando ao ponto de partida. Isto é, demarcaram apenas

Esboço feito por moradores mostrando a situação das terras a partir de 1966

o que lhes interessavam para uso e ocupação, muitas áreas foram abandonadas e outras foram diminuídas consideravelmente para deixar mais mata virgem preservada. O resultado foi um levantamento topográfico planimétrico e memorial descritivo realizado pela Faculdade de Engenharia de Agrimensura de Pirassununga com 1.990.391,2360 (um milhão, novecentos e noventa mil, trezentos e noventa e um metros e 24 centímetros) de metros quadrados de roça, numa escala de 1/2000, assinados pelos acadêmicos Adelson Donizetti Costa, Adilson Pedro Rosa, Carlos Gonçalves Matoso, Edno Pugine, Hélcio Soares Franco, João Aristides

Della Riva, José Fernandes Salvador, Lotário Tironi, Lucimar Lopes de Freitas, Luiz Francisco Hungria, Mario Bertine Junior, Oscar Ferreira, Paulo Afonso do Lago, Paulo Henrique Sanches, Silvio Prada, Vander Pedro Rodrigues, Vilmar Antonio Rodrigues. O responsável técnico foi o engenheiro agrimensor Antonio M. R. Nogueira, cuja A.R.T. é nº. 192811. Foi muito utilizado também material e fotos para identificar arruamentos, edificações e pontes extraídos do vôo realizado em 1979 pela Secretaria do Interior do governo paulista. Até aí tudo bem, depois vieram às complicações e desentendimentos entre os órgãos técnicos que os assessoravam.


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Escola de Ubatuba constrói satélite a ser lançado em 2011 Um grupo de professores e 120 estudantes do quinto ano da Escola Municipal Tancredo Neves, de Ubatuba, litoral norte paulista, em conjunto com empresários e pesquisadores voluntários, estão construindo um satélite artificial que deve ser lançado nos Estados Unidos e entrar em órbita ainda este ano. A iniciativa partiu do professor de matemática Candido Osvaldo de Souza. Em fevereiro de 2010, ele leu em uma revista de divulgação científica que uma empresa dos Estados Unidos, a Interorbital, vendia kits de satélites chamados TubeSats, que permaneciam em órbita a 300 quilômetros de altitude durante três meses. Ousadamente, Souza pensou em construir e lançar um desses. Os alunos aprovaram seu plano, mesmo sabendo que teriam de enfrentar muitas dificuldades, que Souza está superando, uma a uma. Para começar, não tinham como pagar os U$ 8 mil do kit do satélite. Souza, porém, conseguiu o patrocínio de empresas locais que cobriram as despesas. Depois, ele descobriu que somente por meio de uma fundação seria possível enviar o dinheiro à empresa nos Estados Unidos. Conversou com os dirigentes da escola, com os políticos da cida-

de e conseguiu transformar a Associação de Pais e Mestres em uma fundação. O professor de matemática teve de batalhar também uma licença do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão federal sediado em São José dos Campos, interior paulista, que constrói e gerencia satélites no Brasil. Aos poucos, Souza conseguiu o apoio de outros professores, que mobilizaram os estudantes de todas as classes e promoveram um concurso para selecionar a mensagem que o satélite deve emitir nos três meses em que estiver em órbita. A equipe coordenada por ele e por Emerson Yaegashi, que também ensina matemática, trabalha agora nos dispositivos eletrônicos do interior do satélite. Receberam os componentes e as instruções para montar os protótipos e a versão definitiva. Vendo que precisava de ajuda, Souza procurou uma empresa de robótica e desenvolvimento de software sediada na cidade de São Paulo, a Globalcode, e teve uma grata surpresa: os diretores, Vinicius Senger e Yara Mascarenhas Hornos Senger, moravam em Ubatuba. “Vencidas as etapas financeira e burocrática, agora o grande desafio é construir o

recheio do satélite”, diz Yara. Depois de coordenarem o treinamento sobre eletrônica básica para os professores, Vinicius e Yara começaram voluntariamente a ajudar docentes e alunos a desenhar, corroer e soldar as placas dos protótipos do satélite. “Criamos a placa Ubatubino, que pode ser reutilizada para outras funções e as próprias crianças podem fabricar, usando programas de fonte aberta e material simples, como um ferro de passar roupa”, diz Vinicius. “As crianças estão fazendo pequenos computadores, com capacidade similar aos que os astronautas usaram na década de 1960 quando pousaram na Lua. É totalmente viável construirmos satélites educacionais inteiramente no Brasil, sem depender de importações, e promover, por exemplo, competições entre escolas.” A edição de janeiro da revista SatMagazine, especializada em satélites, citou o trabalho realizado em Ubatuba: “O TubeSats já é parte do currículo de universidades e escolas ao redor do mundo. Talvez o mais ambicioso projeto esteja no Brasil em um programa coordenado por Candido Osvaldo e Emerson Yaegashi, no qual 120 estudantes criaram 22 maquetes do TubeSats

em sala de aula. Os alunos que construírem as melhores maquetes ganharão a honra de montar o TubeSat orbital real”. Sérgio Mascarenhas, coordenador de projetos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos,

tem acompanhado com entusiasmo a construção do satélite de Ubatuba: “O apoio à iniciativa do professor é a saída para melhorarmos a educação no Brasil”, comenta. Em férias, o professor Candido Osvaldo de Souza não foi encontrado para comentar o projeto que ele coordena.


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Praia Grande do Bonete: história, cultura e beleza num só lugar Devido a seu relativo isolamento, a comunidade da praia Grande do Bonete conseguiu preservar boa parte de cultura, história e beleza natural. EZEQUIEL DOS SANTOS Partindo da Praia da Lagoinha ou da Praia da Fortaleza através de uma trilha em meio à mata chega-se a Praia Grande do Bonete, a média de caminhada é entre 40 minutos e uma hora e meia. A trilha é do tempo dos primeiros moradores da região, os índios Tupinambás. Assim como a água era a rodovia dos antigos moradores, as trilhas eram as pequenas estradas. Este trecho não foi diferente. É um pedaço da trilha que cortava o litoral de Santos ao Rio de Janeiro, usada por índios negros e, posteriormente, por europeus colonizadores. Ao caminhar por estas trilhas tem-se a exata ideia do paraíso na terra, são imagens e encontros belíssimos, como avistar peixes e animais em movimento. Festividades Tendo como padroeiros São Sebastião e Nossa Senhora de Santana, o local já foi palco de grandes festividades e roças. Como toda pequena vila de caiçaras, o tempo, as atividades cotidianas eram movidas pelo calendário dos períodos de colheita e pesca e também o religioso. O local guarda muitos resquícios de seu passado glorioso, a festa de janeiro, a corrida de canoa, a receptividade, o jeito de falar, de caminhar, a interação com a natureza, manutenção do lugar, a defesa de seus patrimônios e por vezes a volta de seus filhos. Como não tem rua, a disposição dos acessos é bem interessante, grande parte tem nomes de peixes da região e é conduzida por plantas muito bem cuidadas nas laterais. Ao centro da localidade uma

Capela, que guarda uma belíssima imagem de Cristo feita em bronze confeccionada pelo artista Alberto Frioli, em sua antiga fundição de bronze na Praia do Perez. Em frente à escola existe uma área para as festividades. No local se produzia principalmente mandioca, cana, banana, café, frutas e plantas de uso medicamentoso, como o chá preto, local ideal para o cultivo. As pescas eram intercaladas com a agricultura, seguindo uma tradição de respeitabilidade com os ciclos naturais de procriação de animais do mar e de terra. Era comum o morador possuir a casa em frente à praia e trabalhar no “sertãozinho”, que era a várzea e os morros. As casas eram baixas por conta dos ventos, janelas pequenas de tramelas e piso de tablado, principalmente na sala (maior espaço da residência), onde acontecia os “bate-pé, a função, a catira”. A Praia Grande do Bonete foi um dos melhores lugares para as atividades de bate-pé. Benedito Antunes de Sá, 75, da Caçandoca lembra bem das danças: “Quando víamos a fumaça subir no canto da Praia Grande era o sinal para a função, as pessoas se reuniam na Caçandoca e se dividiam em grupos, os homens iam a pé, as mulheres de canoa, só no outro dia que as pessoas voltavam, era uma noite inteira de festanças”, termina. Moradores da Maranduba, Sertão da Quina, Araribá, Rio da Prata, Tabatinga, Fortaleza e Praia Dura participavam das festividades. O povo da Praia Grande através de sua cultura e história manteve os laços do processo civilizatório nacional, o que acontece até hoje, seja

nas festividades, no jeito de falar ou até no jeito de andar. O visitante quando está em cima da trilha, de qualquer uma delas, vê a maravilha que é o lugar. Por vezes as águas lembram muito mais as águas do Caribe, suas águas verde-claras, o que é um atrativo a parte, é possível avistar tartarugas próximos às pedras, de tão límpida, tem-se a sensação de que é um quadro com vidro por cima e que a paisagem por baixo se move lentamente, no ritmo da contemplação, do relax, nos convidando a tirar a pressa e as besteiras que trazemos do dia-a-dia. A Praia Grande do Bonete é uma praia de tombo, de areias grossas e espetáculos naturais com ondas razoáveis, principalmente em períodos de ressaca. Seu canto esquerdo é maravilhoso para um mergulho de snorkel e para a pesca com vara, para um banho relaxante, para as crianças então o paraíso. Suas areias de tão limpas produzem os “ics, ics” quando arrastamos os pés com pouco mais de força. No seu canto direito, na costeira existe uma caverna, onde pescadores a utilizam como abrigo e curiosos imaginam quem poderia ter morado ali. Muitos visitantes sentem a responsabilidade de respeitar a natureza e a população, que além de um modo natural de vida, preservou parte dos seus costumes, que pode ser muito diferente de quem os visita. Basta olhar em seu entorno, onde as maiores mudanças foram por conta dos costumes urbanos e das casas de veraneio e não dos moradores. Existem ainda alguns ranchos de canoas e uma pequena barra de rio, espaço que

Vista aérea da Praia Grande do Bonete serve de palco de partidas de futebol de areia e dos encontros costumeiros. Tempestade Muitos moradores tinham suas roças, agora todos sem exceção exerciam alguma atividade ligada a pesca. Em outubro de 1963, como nos descreve Maria de Lurdes Oliveira, 50, natural da Praia Grande do Bonete nos conta sobre a tempestade que ocorreu nesta época. Neste episódio morreram pescadores de várias localidades de Ubatuba. Foi um vento rápido de meia hora, mas o suficiente para causar danos irreparáveis, o mar subiu até o jundú, a areia da praia chegou a ir ao sertão, nas roças, casas ficaram destelhadas, algumas destruídas parcialmente. Nesta tempestade, morreram o Domingos Soares, Ismael e “Bito” Davi. Só o Ismael não foi encontrado. Na missa de sétimo dia, na matriz, chegou a notícia, tra-

zida por João Zacarias, de que haviam encontrado o corpo de Domingos Soares, foi uma comoção, já que a missa na cidade era em memória de todos os mortos naquela tempestade. As viúvas passaram por maus bocados. Elas assumiram as duas funções, a de pai e mãe, a roça e a pesca. Na época, os filhos já haviam acostumados a comer peixe todo dia. Algumas crianças tinham de ser “engabelados” com pedaços de madeiras bem secas no fogão a lenha dizendo que era peixe seco assado, só assim, as crianças matavam a vontade. Maria se lembra de alguns dos moradores mais antigos do local, são eles: Virgilio Lopes, Maria Carolina Lopes, Adelino, Tio Tim, Tiago e José Rosendo, João Pipoca, Lourenço Tia Rita, Benedita Maria Soares, Domingos Gervásio, Anastácio e João da Várzea.


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A verdade sobre o nome da ilha do Mar Virado

Este belo pedaço de terra já foi palco de atrozes crueldades com os escravos vindos da África Em frente à praia Grande do Bonete existe a Ilha do Mar Virado, seu entorno é de águas fundas e não tem praia, mas mesmo assim já abrigou inúmeros moradores, é possível ver as marcas de casas no chão da ilha e ainda pedaços de casas de pau-a-pique na localidade. Existe abrigo nas pedras possível de ancorar uma embarcação. No passado, a ilha que está em frente à Praia Grande do Bonete foi um local de muitas atividades, seja pela pesca, pelas roças, pelas atividades culturais. Ela tem esse nome não por conta de suas aguas revoltas, já que grande parte do tempo ela está tranquila. Ilha do Mar Virado se deve a um português que tinha este nome. Ele buscava negros da África para vender no Brasil. De tão ruim era temido, considerado matador quase não recebia visitas. Na ilha existe um lugar chamado “buraco do negro” de onde o português lançava os negros que não mais lhe serviam a morte. Depois de muitos anos um coronel o convidou para ir a Portugal e nunca mais voltou. Na ilha existia até plantações de melancias e muita gente ia de canoa nos “dijutórios” (mutirão) das roças que lá existiam. Hoje é considerado sítio arqueológico e é possível, com a ajuda de um morador tradicional, achar vestígios deste período. (leia mais na pág 12) Pesquisadores da Universidade de São Paulo encontraram Sambaquis milenares na ilha, onde descobriram ossadas de moradores com idade superior a dois mil anos, nos estudos relatam que estes povos viviam por volta de 25 anos, tinham estaturas baixas

e viviam exclusivamente da coleta de mariscos, raramente caçavam, as pesquisas apontam ainda que a ilha tinha uma estreita ligação com o continente. Do outro lado da ilha existem dois cortes no morro que parecem que foram realizados por uma ferramenta gigante. No dia 21 de novembro de 1955, o Juiz de Direito da Comarca de Ubatuba, Dr. Alpheu Guedes recebe a petição de protesto (88/55) por parte de Mabel Hime Masset, contestando a posse centenária de metade da Ilha. Os moradores questionados na época eram: Sebastião Marcos, Quirino, Manoel e Eugenio Marcos, Antonio Leandro, Alcides Inocêncio, Luiz Lopes, Constantino Gerônimo, Sebastião e Benedito Custódio, Francisco Mariano (vulgo Chiquinho) e Gerônimo Palmiro de Oliveira e suas respectivas mulheres. OVNI O local guarda muito mistério e belezas naturais, um desses mistérios fora relatado através da tradição oral foi a retirada de um objeto semelhante ao um cachimbo gigante das águas, na época os moradores foram proibidos de saírem de suas casas, e a tal peça foi içada por um navio da marinha americana. Na ocasião um fotógrafo americano que estava nas Toninhas tirou algumas fotos e também foi levado, nunca mais o viram, especulações informam de que se tratava de um OVNI, isto parece que aconteceu na década da de 1930. Com as necessidades de melhorias, a comunidade havia solicitado a SUDELPA - Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista

Pesquisadores da Universidade de São Paulo encontraram Sambaquis milenares na ilha onde descobriram ossadas de moradores com idade superior a dois mil anos a abertura de uma estrada costal da Lagoinha até a Praia Grande do Bonete. O processo é o SPFU/3780/77, que em parceria com a Prefeitura Municipal deu andamento no pedido. De inicio havia um abaixo assinado de 158 pessoas solicitando a obra e que custaria aos cofres públicos CR$ 2.000.000,00 (dois milhões de Cruzeiros), orçada em 1986, conforme relatório 624 de 1986. O alto valor da obra fez com que o processo demorasse o tempo suficiente para a comunidade desistir da ideia. O processo durou de 1977 até 1986. A comunidade briga até hoje é pela implantação de energia elétrica no Perez. Mesmo sem a estrada, moradores trazem o lixo de barco voluntariamente, por isso devemos trazer o nosso lixo, já que lugar com ares de paraíso não combina com lixo e com qualquer tipo de depredação, agora é aproveitar a hospitalidade e as belezas que a mãe natureza deixou a esta população.

Praia do Bonete: passagem obrigatória para quem vai pela trilha da praia Grande do Bonete e Fortaleza

Festa no Bonete – 22/01/2011 Seguindo a tradição a comunidade da Praia Grande do Bonete convida a todos para a grande festa do Padroeiro São Sebastião que acontecerá no dia 22 de janeiro durante todo o dia. A festa tem a colaboração do Projeto Tamar que trará ao evento o Grupo Concertada, terão ainda bingos, comes e bebes e a tradicional consertada (bebida), a tarde a tão esperada corrida de canoas. Tudo isto e muito mais. Você não pode perder. Vale a pena participar.


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Tatuagem: da pré-história as novas tecnologias LUIZ PEREIRA Muitos não a consideram uma arte, mas ela tem muita história. A tatuagem começou quando os primeiros homens na terra começaram a entender seu mundo. Ela se confunde com a história da humanidade. O exemplo mais antigo foi a de uma múmia encontrada na Itália por volta de 5.300 anos antes de Cristo e que por estar congelada manteve as características originais, principalmente a tatuagem realizada na extensão da espinha dorsal, além de outras em toda a perna. A tatuagem pode-se dizer que é uma das formas de modificação do corpo mais antigas e cultuadas da história da humanidade. Foi muito utilizada nos campos de concentração, nos índios, nos negros, por piratas, por marinheiros e assim vai. A tatuagem, conhecida também pelo termo “tatoo” em inglês, tecnicamente é chamada de “dermopigmentacão” (dermo - pele) e (pigmentação-ato de pigmentar ou colorir). Um dos mais conhecidos profissionais da dermopigmentacão é o artista Léo Pestana (Leandrinho) que nos dá dicas preciosas e fala sobre seu trabalho. Léo tomou gosto pelos desenhos ainda criança e através de um conhecido descobriu a arte de tatuar. Seu estilo é o de trabalhar com sombras e que não curte desenhos macabros. Dono de um estilo único, ele

possui um traço único e vem aprimorando seus conhecimentos. Ele nos conta que literalmente utilizou a “pele dos amigos” para começar a trabalhar, a confiança era tanta que seus amigos não ligavam. Léo nos informa que hoje os bons profissionais trabalham com material 100% descartáveis e que o impulso de realizar a primeira tatuagem tem de ser controlado, já que não dá para se arrepender depois. Muitos têm como exemplo artistas, atletas, músicos, dançarinos, atores que possuem alguma tatuagem e que de negativo nada ocorreu, ao contrário estão sempre na mídia e muitas vezes por conta da tatuagem realizada, seja pelo desenho, pelo estilo ou até mesmo pelo local escolhido para ser tatuado.

“Sabemos que o preconceito ainda existe e no passado ainda era pior, para isto todos tem de buscar informação correta sobre o assunto e respeitar as escolhas”, comenta o profissional. Vale lembrar de que muitos homens e mulheres foram marginalizados não só pela tatuagem e sim porque viviam à margem da sociedade, que em sua maioria eram os pobres, negros, índios, analfabetos entre outros. “De qualquer forma nossa sociedade iria discriminar estas pessoas”, conclui o especialista. Léo trabalha em sua própria casa num ambiente agradável, que é bem visitado, trabalha com material descartável e tem paciência para explicar toda esta história e seu trabalho. Informações: 3849-5546/93719828, gieleotatoo@hotmail.com.

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Cantinho da Poesia Lágrimas de chuva Pelos vidros límpidos de minha vidraça, Posso ver o frio lá fora. Incrível, mas a gente pode ver o frio, não apenas senti-lo. Por telhas enegrecidas pelo tempo Vejo escorrerem gotas de chuva Transferindo vida para as plantas que as recebem. Talvez sejam lágrimas de Deus, Lágrimas de Deus que criam a vida! Ao contrário das minhas, que se perdem no esquecimento. Apesar do frio, é lindo ver ocorrendo essa vida lá fora. Então me dou conta de todo o meu egoísmo, Esperando sempre a luz, o sol e o calor. Desprezando as lágrimas de chuva que regam o verde que me rodeia. O verde e todas as outras cores que colorem o meu jardim. Recolho-me na insignificância de meu calor interior, E continuo olhando através da vidraça, Vendo aquilo que a natureza tenta me ensinar, E que eu, rebelde, teimo em não querer aprender! Manoel Del Valle Neto

• • • Sentimentos... Será que você sabe... Que sentimento a gente não escolhe, não colore e nem calcula? Que sentimentos são gotas do oceano de nossa existência. Quem pode decifrá-lo? Se o que sentimos é tão contraditório, se a vezes choramos por estarmos felizes! Será que você entende? Que sentir é quase dádiva, e que negá-lo é tolice? Então me explique o “por que” de tantas falta de resposta, Se eu digo o que sinto, Se ao mesmo tempo desejo o impossível? Será que você sabe... Cristina Aparecida de Oliveira. ACESSE

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Aventura e dedicação na construção da 1ª casa de turista na Lagoinha em 1955 EZEQUIEL DOS SANTOS O jovem caiçara Tião Plácido era como todo mundo na época trabalhador. Foi pra lida na roça, depois trabalhou na olaria onde produzia dois mil tijolos por dia, depois como “pinante” (condutor) de burro para abrir o acesso para a rodovia. Depois disso, o seu padrinho Manoel Cesário em conversa com o construtor Aurélio descobriu que este precisava de gente para trabalhar na Lagoinha. Era final de 1955 e Tião acabara de ser contratado para trabalhar na 1ª casa de turista a ser construída na Lagoinha, do lado da praia. Que ele lembra, lá trabalhou o Braz Mariano, Victor, o Carpinteiro Aurélio, Benedito Ramiro, João Oliveira, Valter Zacarias, Ouvídio, Benedito. Antes do loteamento o local era um mato virgem só, havia uma única trilha até as ruínas. Em direção ao meio da praia havia um lago enorme que quase não dava pé. O rio vinha lá das bandas da casa do Seu Agostinho, do lado do morro. Lá era possível coletar alguns Carás (peixe) e Cafulas (camarão) que serviam de alimentos para aves, animais, homens e a alma. Alguns achavam bonito passar a enxada na areia para ver a água ir para o mar esvaziando a bela lagoa. No começo o loteamento oferecia incentivos e descontos para as primeiras casas. A casa a ser construída era de um alemão que trabalhava no CTA (Centro Técnico Aeroespacial) em São José dos Campos e nome Hans Woboda. No começo da obra ele vinha aos finais de semana e dormia na perua com toda a família. Os camaradas trabalhavam a semana toda e iam embora aos finais de semana depois do pagamento, assim

todos recebiam por “somana”. Eram 50 Contos de Réis pagos aos sábados. “Era uma nota meio rocha”, deduz seu Tião. Depois de limpar e cercar o lote foi a vez de construir um barraco para dormirem, guardar mantimentos, ferramentas e material. Ele levou para o local a gaiola do canário, os restos do alpiste que caía atraia os ratos e a farinha de milho, a saúva. O chão era uma mistura de areia com capim melado, sape e outros matos. A areia vinha dos rios da região, os tijolos da olaria da Maranduba arrendada por um turco chamado Elias Salum, a cal virgem vinha na carroceria de um Dodge azul conduzido por um senhor moreno de nome Mauro. A areia, o barro tinha de ser puxada na enxada da carroceria. Foi construída uma caixa para tratar a cal, que fervia quando misturada com água. Para dar mais liga, também foi usado barro vermelho, que era coado para ser misturado a massa. As vigas eram trabalhadas no traçador, no serrote de mão e a furadeira era o arco de pua. A telha era um tipo de madeirite (tabuas prensadas e por cima uma espécie de alumínio).

No dia de fazer o telhado o sol castigou os camaradas, quem podia usava óculos para se proteger. Seu Tião não tinha óculos e sofreu para trabalhar no telhado, pois queimou o rosto. No local eles dormiam, almoçavam, jantavam. Colocavam uma lata grande para ferver para o café, assavam carne seca, quando sobrava servia para o almoço com farinha. O “cardeirão” ficava preto, diz Plácido. Lá se foram quase um ano na mesma rotina, porém os camaradas aproveitavam a praia para buscar alguns alimentos como o Parati Barbudo e a pegoava. Seu Tião trabalhou na obra até outubro de 1956, já que a casa havia sido terminada em julho daquele ano. Lá fez o jardim com capins baixos da região que não existia nenhum tipo de grama naquela época. Seu Tião recorda com saudades daquele período se referindo a uma “época bacana”. Depois desta boa conversa ele nos disse que foi trabalhar no lendário Hotel Picaré, mais é uma outra história, para uma outra edição e novamente contamos com a colaboração deste ilustre colaborador.


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Gente da nossa história: EZEQUIEL DOS SANTOS Nascido em 29 de agosto de 1916, João Zacarias de Oliveira esbanja vitalidade e lucidez no alto de seus 95 anos de vida. Considerado um dos pescadores vivos mais velhos de Ubatuba, João nasceu na Prainha do Perez, onde os antecessores tinham adquirido terras. Filho de Benedita Rita de Jesus e Zacarias Antão de Oliveira, neto de Manoel Zacarias e de Rita Ingracia de Jesus, começou a pescar com cinco anos, de lá pra cá juntou muitos amigos e história. Boa parte de sua vida foi criado num ambiente difícil, mais muito rico e belo junto aos irmãos “Mané”, “Bastião”, Maria, Ana, Inardina e os falecidos que não se lembra. Casou-se com Luzia Paula de Jesus de quem enviuvou muitas décadas mais tarde, deste matrimônio nasceram os filhos: Maria, Odete, Cleuza, Zacarias e Celeste. Hoje é casado pela segunda vez e agradece muito pela dedicação recebida por Mariana, sua segunda esposa há dezesseis anos. Quando criança, a base da alimentação fazia e faz inveja a muita gente: peixe, banana verde, mandioca, batata-doce, cará, sopa dágua, caranguejo da costeira, lagosta, marisco da pedra, laranja cravo. Sua casa era junto a pedra da Baleia. Tinha tanto cação, de toda “culidade” (qualidade), que ficava difícil entrar no mar. Lá dormia e acordava com a batida do mar. Havia muito cabrito do mato que comiam o marisco nas pedras. “As caças de tanto! de tanto! O porco do mato dava para matar com os pé”. Para o lado dos sertões tinha muita caça, passarinho e cobra. “Ainda me alembro disso filho”, diz João. Quando pequeno lembrava de três fazendas na região: a do Braz Porto (Maranduba - Sertão), dos Antunes de Sá (Caçandoca) e do Capitão Romualdo (Lagoinha). De descendência portuguesa e espanhola, ele nos conta que tem ligação genealógica com o Capitão da fazenda Lagoinha. Conta que seus pais moraram no local depois do abandono. O fisco do governo da época cobrou cerca de 800 “mirréis” pelo uso da área, como não tinham esta quantia também abandonaram

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João Zacarias de Oliveira pescador ícone da Memória Nacional Brasileira

a fazenda. “Depois veio um tal de Schimidt e ajudou a bagunçar a região”, termina Zacarias. Seu segundo “visavô” (bisavô) foi comandante do navio da Marinha do Brasil Almirante Barroso, que chegou a ancorar lá fora desta baía (Maranduba). Mudou-se 35 vezes em sua vida, da Prainha foi para a Praia Grande do Bonete, depois para o Mar Virado, no loteamento Maranduba (casa da Sueca), na casa do João Rosa, Maranduba, pra Enseada, pra Santos, pro Rio de Janeiro, pra Bahia, pra Guaratinguetá. Já foi caminhoneiro, teve “venda” (mercado) no Bonete, restaurante em Guará, indústria de pesca na Enseada, mas nunca esqueceu sua paixão pela pesca. Durante a vida foi muito requisitado e visitado por sua experiência, também colaborou com vários livros sobre canoas, cultura, pesca e até sobre plantas medicinais. Já foi homenageado pelo poder público. Uma curiosidade contada por ele foi sobre a origem do nome Mar Virado, o nome da ilha é por conta de um português de nome “Marvirado”. Era um sujeito ruim que vivia indo a África para comprar escravos e vendê-los no Brasil. Em sua ilha preparava os bons e matava os que não tinham valor comercial. Lá havia um local de matança chamado “buraco do negro”, onde eram lançados vivos os que não “prestava” ao comerciante. Mar Virado era matador, então um “coroné” do tipo prefeito o convidou para uma viagem ao “estrangeiro” (Portugal) e nunca mais voltou. A Ilha por muito tempo ficou abandonada até os moradores reaproveitarem as roças. Outro parente, 1º “visavô”, morava na Bahia e veio para a Ilha dos Porcos (Anchieta) de canoa de voga trazendo muitos cocos, lá plantou os primeiros pés de cocos da Bahia que se tem notícia, criou ainda muitos porcos domesticados. Mas infelizmente foi tirado de lá pela Marinha.

Conta ainda que viu um homem matar dois peixes com uma enxada na “préia” (praia). O homem era das bandas do Sertão da Maranduba (Quina, Ingá, Araribá) e que vinha pela picada com uma enxada na mão para trabalhar ali depois onde hoje é o CCB, entrou pela praia e começou a caminhar. Ali no “pontá da Lagoinha”, o camarada viu uma caçoa tentando pegar uma tainha graúda. A tainha para fugir se bateu até o raso e encalhou e a caçoa foi atrás encalhando também. O homem mais do que rápido “socô” (bateu) a

enxada na cabeça dos dois peixes. Depois dos peixes mortos o homem fez questão de repartir o “quinhão” (porção) com os compadres da região. “Não havia ridiqueza (miséria) entre as pessoas”, comenta. O peixe na região era tanto que quando a maré baixava ficava perigoso andar na praia. Muitos moradores espetavam o pé nos peixes. “Cada Bagre com espinho assim ó!”, se referindo ao tamanho do espinho no dorso do peixe. Com tanto peixe, as vezes havia crise de pesca. É que muitas ferramentas de pesca eram rudimentares, as pessoas não tinham dinheiro para comprar rede, linha, corda ou anzol para pesca. O camarão como era muito levava cardumes de peixes para fora. Muitas mulheres tinham fiandeiras para fazer linhas (fio) para pesca e para

roupas, que não era tão resistente. Alternativa foi o uso de um mato, uma espécie de palmeira entoucerada com espinho que nasce no brejo chamado de Tocum ou Tacum, de onde eram confeccionadas linhas resistentes como o aço para a pesca. João foi o homem que trouxe de Santos uma novidade - o nylon (linha), para a região. Com este novo material confeccionou a primeira rede tresmalho de que se sabe. Ele lembra ainda de outro episódio em que estava com o amigo Egeno (irmão de Manoel Inocêncio do Bonete) visitando o “espinhé” quando viram muito sangue na água em volta da canoa, ao puxar o espinhel tiraram uma cambéva (cação) decepado na altura do umbigo. É que um turbarão havia mordido o cação no espinhel e o decepado. Cortaram a linha e “viraram um cisco” para terra. Na Enseada venderam o que sobrou do peixe ao Altino Maciel, a peça tinha 75 quilos. Outro episódio foi da visão do cardume de Anequins (tubarão azul), de todos os tamanhos, uns de até 200 quilos, que passaram por trás do Mar Virado, totalizando cerca de cinco mil peixes. Nesta mesma época houve uma desgraça no mar do Ubatumirim, é que havia uma procissão de canoas de um casamento, muitas canoas foram atacados por um cardume de Anequins, muitos morreram, só não se sabe se houve relação com o cardume visto no Mar Virado. Na ilha do Mar Virado, precisamente na parte de cima da roça de melancia do Constantino, foram testemunhas de outro cardume de tubarões, estes eram os “galhas pretas” que íam em sentido da Baía da Maranduba. De cima via-se o mar escuro e “grosso” de tanto tubarão. Era uma imagem assustadora, mas espetacular, comenta o filho Zacarias, que também foi testemunha ocular junto com o pai. A espécie era tão farta que na época era comum tirar do espinhel até 1.500

quilos de cação por vez. Havia muita pobreza, mas ninguém morria de fome, o ciclo natural era respeitado. Tinha a “épa” (época) da caça, da pesca, da roça, do artesanato, da coleta, tudo era respeitado. “Só nós não era respeitado as vezes”, desabafa. Em determinada época veio um senhor e comprou a Ilha do Mar Virado, era um “doutor delegado” Sr. Moraes Novaes. Ele me procurou e como gostava de pescaria nos tornamos muito amigos. Ele me deixou ficar na ilha pagando aos poucos, depois não cobrou mais de mim. Passei a pagar para o governo, eu entregava o dinheiro ao um “tar” de “Quinito”, deve ser tio do Seu Filhinho, supõe. Dr. Novaes o convidou para trabalhar como delegado, daí poderia se aposentar, para isso teria de ir a capital. Como já ganhava muito dinheiro na época e fazia o que realmente gostava não aceitou o convite. João Zacarias foi ainda Inspetor de Quarteirão, indicado por um delegado de sobrenome Vieira, que tornou seu amigo. Zacarias ajudou a fazer muitas estradas, ajudou o poder público sem cobrar um centavo. Comentou sobre a maior tempestade ocorrida em Ubatuba, mas isto vai ficar para outra matéria. Seu João termina a entrevista agradecendo a Deus, a companheira Mariana, aos profissionais de saúde que o acompanham e as autoridades que zelam pelas pessoas. Como conselho nos diz para falar a verdade, ser sincero. Diz ainda que está a espera da vinda Deus e que não está mais para as atividades terrenas e sim as celestiais, lembrou com muito carinho dos amigos que partiram e dos que ficaram, principalmente aos que ensinou a pescar. Agradece ainda por não lhe faltar nada neste final de “carreira”. Despeço-me agradecendo por este dedo de “prosa” e pedindo a sua benção. Também agradecer a Deus pela honra e privilégio de conversar com um livro vivo ambulante sobre uma pequena parte, porém muito importante da Memória Nacional Brasileira, que ajudou a formar o processo cultural e civilizatório da qual faço parte. Obrigado Seu João Zacarias.


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Os do “meio ambiente” sim, mas a caixa de imagem não mudava nossa rotina CRISTINA DE OLIVEIRA Não me lembro como ela foi parar lá em casa, mas um belo dia... lá estava ela. Toda de madeira, meio redonda, meio quadrada, lá parada em cima da mesa ao lado do motoradio. Foi desta forma que nossa humilde casa teve seu primeiro aparelho do tipo “eletrônico”, uma velha televisão Telefunken a válvula com imagem preto e branco. Era chique. A antena era a tal “espinha de peixe” que ficava amarrada a uma vara de bambu também amarrada por cipó na viga do telhado. Mas para amarrar a antena meu pai já havia passeado com a antena por todo o quintal, como se fosse um estandarte de escola de samba. “Tá bom? Tá pegando? Melhorou?”, “Mais de fianco...”, “Mais pra grota...”. Era assim que buscávamos a melhor imagem. Vezes ou outra meu pai colocava um pedaço de “bombril” na tentativa de diminuir o chuvisco. Depois de tudo arrumado era a vez de minha mãe. Ela perdia a paciência com a novela, reclamava o tempo todo do “descaramento” da fulana de tal quando mostrava sua “pouca-vergonha” nos beijos técnicos. Técnicos sim! Tá bom! Tinha gente que quando a cena era uma missa, tirava o chapéu e se benzia. Outros não entendiam porque o ator que havia morrido na cena anterior aparecia de novo, “Ué! Ele não tinha morrido de tiro no bang-bang?”. Outros não se conformavam com a visão do bandido na tentativa de pegar o mocinho do filme, “Olhai pra traz seu besta! O home vai pegar você depois da pedra. Ah Móde! Que home mais bobo!”, “Bigie!, bigie comadre! (olhe) como aquele

home aboa (voa)!” . Outros achavam uma pouca vergonha quando uma moça mostrava a canela na TV e quando beijava então! “Escriançada saiam da sala, boceis não podem vê essa poca vergonha, lhéi só!”, “Creimdospadre! Um bando de gente arreganhada! Adonde esse mundo vai parar? Hum, Hum, Hum!”. E quando o vento mudava a direção da antena lá ia um de nós rodar o bambu amarrado na viga para achar a imagem. Com isto perdíamos metade de um capítulo ou de um programa. Mas nem de longe a caixa de imagem mudava nossa rotina, assim como o radio a TV era apenas mais uma diversão. “De jeito maneira” aquelas coisas tiravam a tradição de sentar na soleira da porta, ao redor do fogão de lenha para ouvir, aprender e transmitir o conhecimento. O que mudou mesmo foi depois do tal de meio ambiente, ainda bem que é só meio, pois se fosse um inteiro estaríamos todos mortos. Viramos farinha do mesmo saco,

gente só com deveres e nunca direitos, gente que serve para uns poucos ganharem muito dinheiro em nossas costas. Os melhores programas eram os sertanejos, que diziam de nossa terra, cultura, trabalho honesto, tradição e gastronomia. Depois a gente continuava lá, na roda de conversa, que aos finais de “somana”, nas festas, nos reisados, nos terços eram muito mais interessantes. Era o jornal da época, a transmissão de cultura e de conhecimento era muito mais concreta. A velha televisão ficava lá, desligada olhando para nós. Para ligar tinha de virar o botão “selector” umas duas horas antes para esquentar a tal de “várvula”. Ela não dava tanto prazer quanto uma boa história contada por nossos pais, que nos ensinavam o respeito, o ciclo natural, o desenvolvimento sustentável, o uso e cuidado com a natureza, a fé. Por isso vê-se o verde imponente, que o ciclo cultural tradicional de populações oriundas da reali-

dade da formação do processo civilizatório natural as mantiveram de pé, saudável e utilizável para todas as gerações, menos para os “ecóchatos”, que querem conhecimento para dinheiro e status e não felicidade e uso cultural, como pensam e sentem os remanescentes humanos da real história do Brasil, que resistiram as mudanças capitalistas e obscuras do progresso e do ambientalismo difuso e esquisito a qualquer custo, que por vezes é discriminatório e racista. Aprendemos a pagar pelos nossos pecados? Vocês gostam de pagar pelos pecados dos da vala comum, dos ricos e especuladores? Se a resposta for não, se mexa, não deixe a TV mandar em você. Se a resposta for sim, infelizmente você é um deles, igual a eles, não produz nada. Que pena! Como disse o Educador Paulo Freire “Foi muita pedra para tirar do caminho e chegar até aqui, mas queremos continuar a lutar pelo Verde, tendo a certeza de que sem homem e mulher o Verde não tem cor.”


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O buraco do negro

“Praga eu não rogo, mas...”

JOSÉ RONALDO SANTOS A cada passagem de ano me recordo do que eu contarei a seguir. É triste, mas creio que deve ser rememorado, pois pode servir como oportunidade de revisão de vida, sobretudo quando estamos aguardando outro ano com muitas chances para importantes acertos em busca da felicidade. “Eu conheci muita gente que era escrava”. Com essa frase, a minha avó Martinha, a minha contadora de causos favorita, da praia do Pulso, me contou da escravidão na região sul do município. Quando eu perguntei ironicamente se eles –os escravos sofriam muito, a vovó ergueu a voz: “É claro que eles sofriam! Tinham que trabalhar em qualquer condição: quer o céu virasse água, quer o sol esturricasse. De vez em quando apanhavam por nada ou pouca coisa. Dormiam bem dizer no chão, em esteiras puídas, cheia de pulgas, carrapatos e outros bichos. Sofriam demais! Os mais velhos contavam de situações de partos das negras em aceiros de roçados, na Caçandoca, onde as crianças já viam a claridade do mundo recebendo esfolamentos nos delicados corpinhos, entre tralhas dos batatais e ramas dos mandiocais. Não é isso sofrimento? E diziam também coisas medonhas dos alimentos servidos a essas criaturas. Era um cozido de qualquer jeito, levado em grandes caldeirões para a roça onde os coitados suavam. Aquilo era servido em folhas de caetê ou de taioba; usavam as mãos, comiam lambendo aquele engorolado como bichos. No sertão da Caçandoca, quase perto do lugar onde morava a família do Silvário Conceição, tem uma pedra que até hoje é conhecida como Pedra da Comida. Lá, segundo a minha avó, sobre folhas espalhadas, como se forrassem a superfície, a comida era

Hoje deixo a palavra ao tio Antonio Félix, que nos deixou há um certo tempo, mas a sua lembrança ainda contagia muitos de nós. Incomparável eram as suas risadas, com o seu humor genuinamente caiçara. O que eu reproduzo no cotidiano, assim escutei dele: “Num tempo longe; de meio-dia para a tarde, em pleno mormaço de verão, toda a família descansava embaixo de um abacateiro que ainda vive no quintal lá de casa: era o banzeiro de um cozido de cumbaca. Ninguém aguenta, né? Só depois da viração de fora, quando tudo começava a refrescar, era que a vida recomeçava. Nessa ocasião que estou lhe contando, a atração era a tia Izolina que sabia tantas coisas e contava muitos causos. Ela morava em Cunha, mas sempre estava entre nós para uma visita aos parentes. Desse dia distante me vem à memória a prosa sobre maledicências, pragas e coisas afins. A titia instigava cada um dos presentes; as crianças só escutavam, com muita atenção. A história do tio Geraldo, que tinha perdido uma filha naqueles dias, era a mais comentada. Eu não conheci essa prima por dois motivos: primeiro que ela só durou uma hora após o parto assistido pela minha mãe; depois, porque a coitadinha tinha uma deformidade que poucos adultos testemunharam, e, às crianças era proibido ver isso. Diziam que não prestava ver coisa feia, vinda por parte do coisa-ruim. Porém, percebendo que a curiosidade da criançada era grande, a titia entregou os

derramada para que os escravos aliviassem a fome. Os negros que estão por aí hoje são uns vencedores; conseguiram passar por provas que pouca gente consegue. Uns morriam porque os corpos não aguentavam tantas dores e doenças; falavam de uma epidemia de papeira que castigou demais esses coitados”. Perguntei o que é isso de papeira. Vovó explicou que hoje essa doença tem o nome de caxumba. Depois ela continuou: “Outros, devido à saudade da terra natal, dos parentes e amigos que lá deixaram, além da separação da própria família, preferiam o banzo; morriam de tristeza. Achavam melhor morrer do que viver uma vida que não era vida. Houve ainda aqueles que corajosamente acabavam rapidamente com a própria vida. Imagine o tamanho do sofrimento capaz de chegar a esse ponto! Ali, entre o Pulso e a Caçandoca, na costeira, está o Buraco do Negro, onde muitos escravos se jogaram para abreviação dos sofrimentos. Caíam com a cabeça na pedra e morriam na hora. E lá ficavam porque o dono não se importava em enterrar quem lhe impediu de ter mais lucros. Tinha um pescador, por nome de Manoel dos Santos, que se compadecia; com muita dificuldade, entre as pedras, recolhia defuntos na escuridão, carregava até o cemitério da mata da Raposa e lá sepultava o infeliz. O próprio Manoel, num dia primeiro de ano, depois de perder a companheira para o capataz da Fazenda dos Morcegos, também buscou o seu fim naquele buraco. Depois disso, a cada principiar de ano, as pessoas do lugar saíam em procissão em honra ao bondoso homem, chamado depois disso de São Manoel do Buraco. A costeira ficava cheia de flores e iluminada por fifós na virada de cada ano. Hoje isso não acontece mais”.

pontos: a menina nasceu com cara de papagaio porque sua mãe, a mulher do tio Geraldo, fez pouco caso da ave da vizinha, dando motivos para que aquela maldita desejasse o pior para a gravidez que se encontrava a meio caminho. E o coisa-ruim atendeu porque Deus permitiu. Acho que isso foi porque a gestante ofendera uma de suas criaturas, capaz até de conversar feito gente. Que coisa! Depois, quando todo mundo se espalhou em seus afazeres, eu quis saber mais sobre aquele assunto. E a titia explicou tudo com muita paciência e do jeito gostoso que lhe era peculiar. Aprendi muito sobre pragas, mau olhado, maledicências, coisa-ruim e permissividade divina. Seus olhos azuis se fixavam em mim; pareciam me encantar. Marcou-me muito aquela conversa. Por fim perguntei: - Titia, a senhora tem coragem, também é capaz disso, dessas coisas, de tudo isso? A resposta dela foi imediata: - Tem gente que merece, meu filho. Este é o meu princípio para gente assim: praga eu não rogo, mas bom fim não há de ter”. E o tio Antonio desabou numa risada que só quem o conheceu é capaz de imaginar. No fim acrescentou: “Ah, titia! Quanta saudade! Que coração de ouro! Que bondade!” Leitura recomendada: O mistério do explorador Fawcet; de Ayres C. Cunha Boa leitura! José Ronaldo dos Santos


18 Janeiro 2011

Página 15

Jornal MARANDUBA News

Túnel do Tempo

Coluna da Adelina Campi

Olhe as pessoas nos olhos 1952

1928 Visita do primeiro padre na região: Padre Primo

Diga sempre “muito obrigado.” Diga sempre “por favor”. Seja o primeiro a dizer “olá”. Devolva tudo o que pegar emprestado. Sorria muito, não custa nada e não tem preço. Lembre-se do aniversário dos amigos. Quando alguém contar alguma coisa importante que lhe aconteceu, não tente superá-lo. As pessoas também têm o direito de aparecer. Jamais prive uma pessoa de esperança, pode ser que ela só tenha isso. Elogie em público. Critique em particular. Não aborreça as pessoas com mais problemas. Procure reavivar antigas amizades. Nunca desperdice uma oportunidade de dizer a uma pessoa o quanto a ama. Nunca subestime o poder de uma palavra ou de uma ação gentil. Nunca ria dos sonhos alheios. Em caso de discordância, exponha seus pontos de vista sem pretender ridicularizar os entendimentos dos outros. Quando alguém lhe fizer uma pergunta da qual não gostaria de responder, sorria e pergunte: “por que quer saber?” Não admire as pessoas pela sua riqueza, mas pelos meios criativos e generosos do qual elas dispõem. Não traia nunca uma confidência. Não deixe que uma pequena desavença prejudique uma grande amizade. Dê às pessoas mais do que elas esperam, e faça-o alegremente. Lembre-se de que o tempo que leva para que duas pessoas se tornem amigas nunca é tempo desperdiçado. Saiba compreender as imperfeições de seus amigos com a mesma presteza com que sabe compreender as suas próprias. Seja aberto e acessível, a próxima pessoa que conhecer pode se tornar o seu melhor amigo. Seja o primeiro a perdoar. Quando disser “sinto muito”, olhe nos olhos. Quando um amigo ou uma pessoa amada ficar doente, lembre-se de que esperança e pensamento positivo são remédios fortíssimos. Passe a vida levantando o ânimo das pessoas e nunca as colocando para baixo. Peça desculpas imediatamente quando perder a paciência. Estimule sempre qualquer pessoa que esteja tentando melhorar, mental, física ou espiritualmente. Lembre-se de que o princípio mais profundamente enraizado na natureza humana é a ânsia por ser apreciado.

Peixes assim eram pescados na região

1958

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Calmaria na Ilha Anchieta após rebelião

“Fui eu e o Chico Minero, também foi o capataz...”

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Saudades do bolo e da turma da festa de Dona Joana

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