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Hist贸rias de um amor Sonetos de Samantha Rios 1999


Uma pequena explicação Samantha Rios surgiu de uma pura e simples brincadeira. Certa noite em casa, pensei em fazer um soneto dentro do universo feminino. Nada mais do que isso. Pensei um pouco e menos de cinco minutos depois havia composto tal soneto. Ainda por mera brincadeira publiquei o soneto no Jornal de Piracicaba. Depois meio que esporadicamente, perpetrava esse universo, compondo como se fosse mulher. Era coisa de gozação. Porém, certa noite compus num período de mais ou menos duas horas, uns 30 sonetos dentro dessa linha. Achei interessante e naquela mesma semana, era outubro de 1988 creio, fiz perto de 80 sonetos. Juntando aos que anteriormente havia composto, havia uma série com 120 deles. Datilografei tudo e guardei. Fui fazendo outros e publicando o que gerou alguns fatos engraçados, que passo a narrar: Certa manhã encontrei com o professor e Poeta Nélio Ferraz de Arruda, que inclusive foi prefeito em nossa cidade no segundo semestre de 1968 e como éramos amigos, ele veio me perguntar sobre a nova poetisa que estava publicando seus sonetos

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no Jornal, uma tal de Samantha Rios. Disse que eram bons seus sonetos, embora numa linha que beirava, às vezes, a pornografia. Conversamos um bom tempo falando dos sonetos de Samantha Rios, sobre seu erotismo e sua forma de poetar. Claro que ele sequer percebeu que o verdadeiro autor dessa farsa era eu. Depois ainda uma amiga da Ana Maria veio perguntar a ela se eu, como poeta, conhecia a Samantha Rios, pois ela colecionava todos os seus sonetos, que se via neles, que adoraria conhecer a poetisa. Como diversas pessoas já sabiam da farsa, e eu nunca fiz questão de ocultar que Samanha Rios era apenas um pseudônimo, e ela ficou sabendo que eu era o autor dos Sonetos. Depois veio brigar comigo, dizendo que eu a iludira, que era fã da Samantha Rios e ela era eu... Virou depois motivo de gozação. Certa feita coloquei num concurso de poesias dois trabalhos da Samantha Rios, e uma delas venceu o concurso. Claro que não apareci para receber o prêmio, embora presente no local. Depois ainda invertia e colocava o pseudônimo de Samantha Rios e como autora dos versos, minha mulher.

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Também houve confusão, pois certa feita os versos publicados depois em livro eram para lá de eróticos, beirando mesmo a pornografia. E até queriam saber quem era a verdadeira autora dos versos. Mas me calei. Em 1999 decidi por publicar os versos de Samantha Rios em livro, e com 150 sonetos sob o mesmo título: HISTÓRIAS DE UM AMOR, ele veio à luz. Alguns amigos queriam até uma noite de autógrafos, mas apenas distribui o livros entre amigos e algumas livrarias o colocavam à venda. Continuei a compor sob o pseudônimo de Samantha Rios mas acredito que fiz não mais de outros 50 sonetos, que continuaram a ser publicados na imprensa de Piracicaba, mas ficaram inéditos em livro. Hoje Samantha Rios foi esquecida por mim. Não mais uso esse artifício, embora na mesma linha eu tenha feito e publicado, com mais de 20 outros pseudônimos, outros versos... nem eu mesmo sei dizer quantos deles fiz. Sei que em 1999 quando publiquei o livro, tive o cuidado em não colocar o ano de sua publicação,

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assim ele ficaria sendo sendo atual e a Samantha Rios não envelheceria nunca. Oras, um livro publicado, depois de vários anos, quem o fosse ler saberia que a jovem Samantha Rios deveria ter envelhecido e quebraria o encanto. Para mim Samantha Rios deve ter sempre 25 anos, não mais. Tais sonetos envelhecidos, seriam anacrônticos. Teriam o cheiro de flores fanadas. Mas enviei o livro da Samantha Rios para o Poeta Glauco Mattoso, grande Poeta brasileiro, e ele, em seu blog, fez constar perto de duas dezenas deles e me colocando como o verdadeiro autor de Samantha Rios. Houve ainda uma tarde que recebo um telefonema da famosa escritora Cassandra Rios, pois havia lido meus sonetos. A conversa durou mais de uma hora, e versou sobre seus livros, belíssimos e eróticos/pornográficos e os Sonetos da Samantha Rios, que eu havia composto. Foi muito engraçado. Agora minha Amiga Mara Bombo, faz este meu blog e pede meus versos para colocar no mesmo.

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Fica assombrada quando descobre a Samantha Rios. Pudera, nas páginas dos sites da internet o nome de Samantha Rios sempre vem ligado a mulheres e sexo. Mais dizer seria não acrescentar nada... melhor que Samantha Rios fale por ela. Sem mais palavras, abaixo os sonetos de Samantha Rios, como foram publicados em livros... os outros inéditos, constam da série de Sonetos compostos ao longo da minha viagem poética...

Esio Antonio Pezzato. Samantha Rios.

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001 Antes que o sono venha e me entorpeça Quero deixar gravada a louca história Que foi o nosso amor... Se, teve glória Eu não posso dizer... ela começa Numa tarde qualquer, leda e travessa, (Não consegui guardar bem na memória...) Sei, porém, que cantei alta a vitória De tê-lo conquistado... A história é essa... Nosso amor foi sem pé e sem cabeça; Porém sei que era coisa obrigatória, Como uma coisa assim, meio possessa. O nosso amor que teve louca glória... Deixe-me então lembrar... ele começa E termina na forma de uma história. Samantha Rios

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002

Ele me disse:–”Chega, vou-me embora, Mulheres como tu acho às dezenas... Não é preciso, não, armares cenas, Pois bem sei que é chegada a minha hora. “Espera-me vestir, não há demora, Não quero ouvir de ti frases obscenas, Eu já vou indo, adeus... espero apenas Que não me mostres um olhar que chora... “Eu não agüento mais ver-te ao meu lado, Esqueça que já fui o teu amado E que o meu coração te pertenceu...” – Assim falou, depois bateu a porta... Desde esse dia tenho a vida morta E, sem ele, nem sei quem mais sou eu... Samantha Rios

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003

Cinco sentidos teve o nosso amor: Olhei. Olhaste. E nosso olhar cruzamos – Pegaste em mim como se pega aos ramos Da mais cheirosa e perfumada flor. Senti teu cheiro de força e vigor, A tua voz ouvi – juntos cantamos. Depois ardentes beijos nós trocamos E o gosto nos deixou todo em torpor. Mas mais sentidos juntos descobrimos: Choramos juntos, juntos nós sorrimos E o amor cantamos numa mesma voz. E apesar deste amor assim completo, Eu não entendo como tanto afeto Deixou-nos tristes, fatalmente sós! Samantha Rios

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004

Vivemos juntos com as bugigangas: Shorts, bermudas, velhas camisetas, No mar somente usávamos as tangas E roupas que não tinham etiquetas. Na penúria choramos às pitangas... E vezes mil vimos as coisas pretas. E então, no artesanato, áureas miçangas Vendíamos sentados nas sarjetas. Trago ainda, pendurado nas orelhas, Um par de brincos de metal barato (O primeiro presente que ganhei...) E entre quinquilharias simples, velhas, O nosso amor viveu sem artefato Onde rainha fui – e foste rei. Samantha Rios

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005 Mal chegavas sorrindo à minha sala Assobiando uma canção qualquer, Meu coração subia em alta escala E eu me sentia a mais feliz mulher.. Outras vezes, com teu olhar de opala, Em meus ouvidos, vinhas me dizer Numa sublime e sussurrante fala Que eu existia para teu viver! Hoje, o vaso na sala, onde tu punhas Lindas braçadas líricas de rosas, Está vazio como a minha vida... Tristonha, vivo só, roendo as unhas, Recordando em manhãs maravilhosas, Quem fez minha existência colorida. Samantha Rios

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006 Na displicência de um amor vivemos, Pensando que jamais ele acabasse, Mas como tudo tem os seus extremos, Foi natural que um dia, ele findasse. Se o pranto triste rola em minha face, Lembro o momento que nos conhecemos. E se alegria juntos nós vivemos, E natural que essa alegria passe... A dois viver uma felicidade É muito lindo no fulgor de um sonho Mas bem distante desta realidade. Se pões no coração um bem amado E eu em meu coração também o ponho, É natural que fique separado. Samantha Rios

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007

Se alguém dissesse que a vulgaridade Cerceava o nosso amor, o que me importa, Se nosso amor hoje é paisagem morta Assolado por negra tempestade? Se tudo o que me resta hoje é saudade Por que ficar chorando atrás da porta? Se minha estrada é sinuosa e torta, Irei segui-la com tranqüilidade. Se acabou todo o amor que nos unia E todo o sonho reduziu-se a nada, É natural que eu fique aqui chorando. Porém, irá raiar um novo dia, – Com a mágica varinha a minha Fada Irá deixar meu coração cantando. Samantha Rios

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008

–“Hoje nós vamos é ficar em casa”, Dizias. E no mesmo instante – amantes Passávamos a ser – corpos em brasa Em emoções sublimes e constantes... Ouvia sinos a tocar distantes, E teu amor me punha a lírica asa Da ternura e do afeto, nos instantes Que juntos, nós ficávamos em casa. Deitada nos almofadões, cansada, Após árdua batalha, onde vencidos Não tínhamos vontade para nada. Entre declarações de amor eternas, Reatávamos a luta, decididos, Cruzando pernas, línguas, sexo e pernas. Samantha Rios

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009

Eu trago ainda na memória viva Os nossos mais frenéticos desejos, Quando trocávamos ardentes beijos E misturávamos nossa saliva. Dos êxtases noss’alma era cativa E para o amor cantávamos festejos – Como dois passarinhos nos realejos Cantam sua esperança afirmativa! O nosso amor teve energia elétrica... Iluminava quem vivesse perto De forma clara, simples e simétrica. O nosso amor iluminava com Ternura quem andasse no deserto Como se fosse facho de néon. Samantha Rios

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010 Agora, no silêncio de meu quarto, Sozinha, reclinada em minha cama, Eu sinto que ninguém no mundo me ama E que minha alegria teve parto... De dissabores meu viver é farto... Um triste pranto meu olhar derrama; Sozinha estou, ninguém, ninguém, me chama E vivo no silêncio de meu quarto. Pois ontem mesmo, com prazer infindo, No mesmo cálice bebemos rindo O champagne que fez nos libertar. Hoje, no chão, o cálice vazio... Sozinha, em minha cama sinto frio, Sem um amor que possa me esquentar. Samantha Rios

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011 É só pegar o fio da meada Que as lembranças, aos poucos, vão surgindo: – Um passeio no mar num dia lindo, Ou perambulações na madrugada... Um quarto de motel e, apaixonada, Eu me entregando a ti feliz, sorrindo, Em teus braços gemendo um gozo infindo Ou em eu corpo másculo, enroscada... Depois em nosso corpo a ducha fria, Nós dois guerreiros, num banhar de espuma E novamente a posse, a possessão... Desejo à flor da pele, a fantasia, Nós dois juntinhos sem vergonha alguma De vivermos à fúria da paixão! Samantha Rios

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012 Na hora da posse minha febre é tanta, Que quando estás dentro de mim, querido, Todo o meu corpo fica incandescido E em êxtase de amor, minh’alma canta. Teu corpo quente serve-me de manta E teu calor me passa tanto fluído Que louca fico a ouvir em meu ouvido Tua voz sussurrar:–“te amo, Samantha!...” Eu não me lembro, amor, então de nada... No peito pulsa forte o coração E minha mente fica alucinada. – Enche de vida, amor, minhas entranhas, Com teus beijos sufoca as minhas manhas, Com teu prazer sufoca-me a emoção! Samantha Rios

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013 Querido, hoje que estás de mim distante, E não te lembras mais nosso passado, Hoje que nosso amor é terminado E que nossa aventura fez-se errante, Que já não te possuo como amante Nem tenho teu amor desesperado, Que tenho um desespero em mim calcado Ferindo minha carne anavalhante, Que após tantos desejos, tantas taras, Tantas vontades, tantos beijos, tantos, Resta-me ainda um desejo e uma vontade De fazer tudo novamente às claras, Te amar com fúria em becos, quartos, cantos, Com a mesma e antiga azul felicidade... Samantha Rios

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014 Talvez ele não venha, mas que importa? Foram tantos caminhos percorridos, Foram tantos carinhos bem vividos, Que a lembrança, jamais, torna-se morta. Pendurada num prego, atrás da porta, Marca a folhinha os dias esquecidos, As fotos mostram rostos esmaecidos, E a lembrança, no peito, me conforta... As flores murchas, pendem-se no vaso, O sonho vai vivendo o seu ocaso Numa desilusão que me acabrunha. E eu sozinha. De angústias eu me farto, O silêncio campeia no meu quarto E tenho a solidão por testemunha. Samantha Rios

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015 Quando a ti me entreguei a vez primeira E me senti Mulher real e amada, Extasiada então não disse nada, Mas fiquei sendo tua prisioneira. Quando tentei falar – voz embargada, Senti meu corpo todo em tremedeira. Pensava antes ser uma geladeira, Mas tinha uma fogueira em mim calcada. E quando teu comboio audaz, pulsante, Penetrou de meu corpo, nas cavernas, E seu interior encheu de vida, Tive a certeza do que é ser amante, Flutuei no céu em sensações eternas, Foi ao céu numa estrela colorida. Samantha Rios

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016 A solidão sempre me vem sombria E me deixa em completo desconforto. Tenho no coração um sonho morto E viva – a solidão que me asfixia. Se tu voltasses, o meu sonho absorto Calor poria em minha noite fria. Colocaria um pouco de poesia Em meu caminho sinuoso e torto. Mas na hora que mais quis tua presença, E ela evoquei em amorosa crença Tu me deixaste em pálido abandono. E hoje, sozinha, quero-te ao meu lado, Meu amor, meu amante enamorado, Para que possa conciliar o sono. Samantha Rios

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017 Lembro-me bem, quando no telefone Me convidaste cheio de contento Para que eu fosse até o apartamento E para lá me fui igual ciclone... O teu perfume foi o cicerone Para que eu lá chegasse num momento. E o amor que me ofertaste em sortimento, Fez o meu corpo rodopiar num cone. E amamos tantos e amamos tanto e tanto, Que minh’alma explodiu em terno canto Como jamais pensei fosse cantar. Hoje, amor, reclinada em minha cama, Os teus carinhos o meu ser reclama E só tenho vontade de chorar. Samantha Rios

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018 Poder ir procurar um novo amor, Também vou procurar outra aventura. – Difícil esquecer toda a loucura Que juntos nós vivemos com furor! Se dizes que não mais sou tua flor, Que nosso amor baixou á sepultura, Difícil me será nesta tristura, Outra alegria para a minha dor. Jamais encontrarás em teu caminho Outro alguém que te queira assim como eu: Sempre a disposição para o carinho. A um passarinho assim aconteceu: Ele quis procurar um novo ninho, Ficou sozinho e em solidão... morreu... Samantha Rios

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019 Trago no coração o desespero Por me saber agora abandonada. De mim partiste não dizendo nada, Que o ódio da angústia na minh’alma gero... O teu regresso, amor, já não espero Nesta noite de imensa madrugada. Escandalosamente amargurada Ao teu amor eu dou a nota zero. Pois muito bem! Tu foste reprovado... E o reprovado deve, por castigo, As provas repetir de forma séria. Tiraste zero! Estás desesperado? Pois irás repetir então comigo Exame por exame da matéria. Samantha Rios

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020 Hoje tenho mais claro os sentimentos Do nosso imenso amor – louca aventura! – O que restou em mim foi a loucura Da lembrança vivida em vãos momentos. Se nos doamos numa sanha obscura Com a fúria infernal dos elementos, Se nos doamos ao sabor dos ventos, E se trocamos tanta terna jura... Não foi paixão somente o que tivemos – Se nós nas mesmas coisas juntos cremos, E combinamos juntos, entre beijos, Novos encontros, na paixão mais louca, Enquanto tu beijavas minha boca, A minh’alma fervia de desejos! Samantha Rios

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021 Noites de junho. Neste apartamento Juntos passamos longas madrugadas... Nossas almas então apaixonadas, Com emoção viveram o momento. Lembro-me bem – as luzes apagadas, Nós dois no escuro num compasso lento... E o tesão vinha neste movimento Enquanto as posições eram variadas. Eu tenho ainda, na memória viva, Quando minh’alma na alegria imensa De tu’alma, feliz, ficou cativa. E o amor que veio a mim tão de repente, Para sempre deixou minh’alma crente Que ainda vivo extasiada dessa crença. Samantha Rios

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022 Nossos desejos foram bem carnais: Do amor fizemos a maior loucura. Se a carne se oferece a essa ventura, Nossos desejos foram bem iguais. Marcados com as nossas digitais Nossos corpos unidos em textura, Se conheciam numa noite escura. Nossos desejos eram capitais. Muitas vezes marquei-te com dentadas... Marcastes-te me com fortes arranhões – Nossas almas então, acorrentadas, Presas no elo de fogo das paixões, Viviam tão-somente apaixonadas E presas aos desejos, com grilhões. Samantha Rios

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023 Fomos à praia, o imenso mar olhando Paramos extasiados de alegria. Havia um forte cheiro de poesia E olhando o mar azul, fomos amando. O sol brilhava em cálida ardentia, As gaivotas, no céu, iam em bando. O mundo era nós dois – nós dois cantando A canção num poema de magia. Num banco de madeira nos sentamos, As palmeiras – estáticas e belas! – Lembravam pontos mil de exclamações! E sozinhos na praia, nos amamos, Praias, montanhas, céus, foram as telas Que eternizaram nossas emoções!... Samantha Rios

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024 Eu não devia estar tão só, tão triste, Nem tão sozinha e tão abandonada... Se meu amor não te valeu em nada, Em minha vida ele existiu – e existe. Hoje sozinha, em densa madrugada, Olhando a lua – solitária antiste! – Percebo que a saudade em mim persiste Pois em meu corpo ela ficou marcada. A solidão é minha companheira, Minh’alma dela vive prisioneira E tua ausência me entristece e tanto... A angústia me ponteia uma revolta, E enquanto peço tua urgente volta, Meu coração sangra copioso pranto. Samantha Rios

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025 Tantos sonhos estão por ser sonhados E eu aqui na mais triste realidade. Presa aos grilhões de ferro da saudade, Com a angústia a me atrair por quatro lados. Tantos sonhos vividos e sonhados... Lindos poemas de felicidade... Mas ao meu pobre coração quem é que há de Cravar a seta dos apaixonados? A angústia e a solidão fazem pernoite Dentro de mim... sempre em minh’alma é noite, Nunca a alvorada vem com suas cores Preludiar o amor que sonho há tanto... – A realidade me provoca o pranto, – O pranto com que rego as minhas dores! Samantha Rios

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026 Tantos sonhos vividos no passado E hoje, este pesadelo aqui presente, Pondo em minh’alma, ininterruptamente, A angústia deste sonho terminado. Dizias que eras um apaixonado... Meu coração, batia então, contente... E quando vinhas com teu beijo quente, Ele batia mais descompassado. Pois era a disritmia convulsiva Desta paixão, que por estar cativa Não se importava em nada, nada, nada... Mas partiste e deixaste-me sozinha. E uma saudade atroz que me espezinha Faz minh’alma ficar desesperada. Samantha Rios

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027 Abro o terceiro maço de cigarro. Continuo a fumar sofregamente. Na rua, cada vez que passa um carro Penso que és tu que vens, todo contente, Para passar comigo novamente Uma noite de amor amplo e bizarro... (Mas enquanto esses versos triste narro, Neste meu peito a dor vibra fremente...) Abro as amplas janelas da varanda E um cheiro de azarro enche o ambiente (Era o mesmo perfume que tu usavas...) Mas a minh’alma, errando, às noites anda, Continuo a fumar sofregamente Pois as angústias são minhas escravas. Samantha Rios

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028 Após quatro garrafas de champanha, Ébrios e alegres – no prazer devasso! – Nós dois unidos, presos num abraço, Olhávamos o amor de forma estranha. Sorrimos entre beijos... deu-me o braço, E na volúpia, na incontida sanha, – Nosso corpo em paixão! – fogo na entranha! – Fora de órbita fomos ao espaço. E amamos tanto... numa fúria louca, Quando ele procurava a minha boca, Ela estava esperando por seus beijos. Ébrios e alegres... na loucura imensa, O Amor foi mais que Religião – foi crença! – Foi um apostolado de desejos! Samantha Rios

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029 Ele chegou naquela noite fria, Morto de frio, em densa tremedeira, Minh’alma num espasmo de agonia Cria estar na hora extrema e derradeira. Ele chegou e a noite fez-se em dia, E o meu corpo deixou uma fogueira. Minh’alma teve espasmos de alegria Quando ele possuiu-me a vez primeira. Nada dissemos por nenhum instante... Os nossos beijos tinham a linguagem Que idioma algum contém a tradução! E desde aquela noite delirante, Nossas palavras – pelos gestos agem, E não damos qualquer explicação. Samantha Rios

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030 O desespero me enlouquece e tanto, Que já fumei três maços de cigarro. Na rua, cada vez que passa um carro Vou à janela, pálida de espano. Penso que és tu que vens com teu encanto Para ofertar-me eu amor bizarro... E assim, em loucos sonhos eu me agarro E me cubro com a ausência de teu manto. –“Tão tarde e ele não vem...” Penso comigo... –“E se eu telefonar à sua casa Falar que fiz o seu pudim de queijo? Penso com meus botões e às vezes brigo; Mas num instante sinto o corpo em brasa, Com meus lábios prensados por seu beijo. Samantha Rios

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031 Talvez a angústia de não mais te ver Se case à angústia de querer-te tanto. Por isso, Amado, agora, no meu canto Peço que voltes para o meu viver. Juntos teremos mundos de prazer! Alegrias de luz cheias de encanto! Ah, meu amor, tanto te quero, tanto, Que tua ausência me fará sofrer. Teu beijo me dá vida! Com teu beijo O fogo ardente e puro do desejo Me faz feliz por me fazer Mulher. – Amante para toda a Eternidade! E para tanto amor, a própria alma há de Em frêmitos de amor – o amor viver! Samantha Rios

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032 Tudo, tudo lhe dei e ele exigia Que eu mais lhe desse e como não bastasse Uma noite atirou na minha face Que eu era rude e má, soberba e fria. Pediu meu corpo – de com alegria. Catequizou-me para que eu o amasse. Amei com toda a força que podia E agora vem pedir-me o desenlace... O que mais quer de mim? Meu pensamento? Ele já é todo seu (e é meu tormento!) Desde que o conheci não tenho calma. Toma a minha razão (se é que ainda a tenho) Se ardente fui e agora fria venho, É que com ele até deixei minh’alma! Samantha Rios

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033 Dentro do apartamento estava quente, E quiseste me amar em plena rua, À luz prateada da prateada lua Pois seria uma forma diferente. Abriste meu roupão de ouro luzente E te disse a sorrir:–“sou toda tua!” Fui te beijando a silhueta nua E fui te amando, depravadamente... Beijos – quantos te dei perdi a conta; Abraços – recebi tantos e tantos Que ora a lembrar, fico com a mente tonta... E na volúpia desse amor tão louco, A minha voz cantou tão lindos cantos, Que até meu pensamento ficou rouco! Samantha Rios

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034 Já não agüento mais... tua presença Eu exijo de forma obrigatória. Como ré dou a mão à palmatória: – Tu és minha única e mais cara crença. Sofre meu coração essa doença: Não consigo apagar-te da memória. Tu és igual à nota promissória Que precisa ser paga antes que vença. Todas as noites, em angústia, acordo... Estou em alto mar, estou a bordo De um imenso navio... e entre mil ais Vou à amurada e em desespero grito, Sentindo estar à beira do Infinito, Vendo o teu vulto me acenar do cais... Samantha Rios

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035 Foste o ideal dos sonhos que sonhei! Bastavas-me na minha realidade – Por isso amei-te com ferocidade Com toda a minha força e minha lei! De meu amado corpo foste um Rei! Nele matavas sua insaciedade, Porém, a minha insaciabilidade Foi tão grande que a vida destronei. Hoje, sozinha, triste, abandonada, Silente, vivo minha madrugada E de tão grande amor, nada restou... Antes, porém, restou minha agonia, A minha realidade é fantasia, A amante que ontem fui, hoje não sou!... Samantha Rios

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036 Pouco me importa que demores tanto, Se me não queres, podes ir embora, Um aviso – se vais, que vás agora, Que ficarei sozinha no meu canto. Mas se queres cobrir-me com o manto De teu corpo febril, vem, pois, nest’hora, Ah, não demores mais, pois a demora Apenas me fará tristonha e em pranto... Conheces bem os cômodos da casa... Podes entrar – na cama estarei nua A te esperar com o corpo todo em brasa. Ah! Não demores mais... maravilhoso Será o instante em que eu, à luz da lua, Junto ao teu corpo tremerei de gozo. Samantha Rios

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037 A minha realidade não existe: Meus sonhos tornam-se atros pesadelos, Queimam-me as pedras de abrasantes gelos, Minha alegria eternamente é triste. Se tua volta peço em mil apelos, Minh’alma à força de viver – resiste! Lembrando a hora fatal que tu partiste, Lembro o desmoronar de meus castelos. Fui procurar então, seguir teus passos, Procurei-te nas ruas da cidade Mas sumiste e jamais te reencontrei. E lembro com ternura teus abraços, Que ficaram marcados de saudade Como os ardentes beijos que te dei. Samantha Rios

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038 Tão louca foi, amor, a nossa história, Que às vezes, os capítulos recordo, Quando, sozinha, em alta noite acordo E vou puxando os fios da memória. Foi loucura geral, hoje concordo... Mas juntos, saboreamos nossa glória. Hoje, sozinha, as minhas unhas mordo Quando recordo, amor, a nossa história... Uns diziam de nós:–“ambos são loucos...” –“Quero ver quando vão parar com isso...” A minha mãe dizia e reprovava... Mas eu fazia, sim, ouvidos moucos... Vivia nosso amor sem compromisso E ébria de amor, ao céu, feliz cantava... Samantha Rios

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039 Quando ele diz que vem, meu corpo em brasa Impaciente entra em plena combustão. Limpo todos os cômodos da casa – Desta casa chamada coração. Para a imaginação eu solto a asa E esmero com prazer, com devoção, Em tudo o que ele gosta e se se atrasa, De instante a instante vou até o portão... –“Pudim de leite com manjar de ameixa!” A sua sobremesa preferida... – Se come bem a boca não se queixa. Mas não se mata a fome só com a boca: Por isso eu irei ser sua comida Que irá deixá-lo com uma fome louca. Samantha Rios

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040 Já não nos vemos mais... estás ausente, Sofre meu coração magoadas dores. – Quando nos víamos diariamente A minh’alma explodia em mil amores. Hoje distante estás... porém, presente Está a saudade... no jardim, as flores Ainda estão perfumando o ambiente Onde juntos, do amor, fomos cantores. Recordo nossos fervidos desejos: Nossas bocas unidas em mil beijos, No momento fugaz, fatal, fortuito... Estás ausente mas eu te amo ainda, Tua presença, amor, ainda reclamo, Pois meu amor ainda te ama e muito! Samantha Rios

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041 Às vezes, debruçada na janela, Eu fico olhando os verdes periquitos, Com seus cantares super esquisitos, Na árvore engrinaldada da cancela. Eu fico então lembrando meus escritos E nosso amor que lembra uma novela... No desvario o coração se atrela Ouvindo a passarada com seus gritos. Penso comigo:– vou para a cidade Nos parques procurar algum realejo Ler a sorte do amor que me compete. Mas para haver maior sinceridade, Darei no verde periquito um beijo, – Ficarei afagando seu topete... Samantha Rios

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042 Amamos na penumbra de uma sala, À luz do abajur, sobre almofadas, Juntos varamos longas madrugadas Fazendo deste amor uma só fala. Quando tu me dizias:– “quero amá-la! Vinhas como as panteras esfaimadas, E, meu corpo cobrias com dentadas Como se eu fosse uma sensual vassala. O nosso mundo era único e discreto, Juntos vivemos sob um mesmo teto, Juntos vivemos nosso amor tão louco... Se hoje enfim, está tudo terminado, Sinto que mais devia ter te amado, Pois tudo o que te amei, foi muito pouco. Samantha Rios

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043 Naquelas tardes de prazer intenso, Nós descobrimos que a felicidade Pode existir por força de vontade (Hoje assim dessa forma, eu triste penso...) Embora exista em tantos a maldade, O nosso sonho foi de luz, imenso. Essa tristeza agora recompenso Com os momentos bons daquela idade. Hoje, sozinha, quando às tardes passo, Embriagada fico a olhar o espaço Esperando surgir alguma estrela, Para contar a ela a minha mágoa: Porém, meus olhos ficam cheios d’água Que a estrela surge – mas não posso vê-la. Samantha Rios

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044 Domingos para nós eram sagrados: Passávamos as tardes nos barzinhos Que a Beira-rio ficam pendurados Como dos colibris, os níveos ninhos. Causando inveja aos outros namorados, Ficávamos trocando mil carinhos, Sonhávamos do mundo – separados, Como se nós vivêssemos sozinhos... Voavam pelo céu casais de garças... E num bailado que lembrava valsa Elas dançavam sua nobre graça. E voando, o nosso amor – asas esparsas – Não cria que existisse gente falsa, Que em honra da ironia erguesse a taça! Samantha Rios

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045 Domingo. Hora do almoço. Acordo tarde, Após a noite toda, o corpo insone Eu sinto a mente rodopiar num cone E o pensamento explode em alto alarde. De desejos meu corpo em frêmito arde... Penso em falar-lhe pelo telefone... Antes que novamente eu me apaixone Melhor deixar o coração covarde... Tremor. Delírio. O corpo cambaleando. Vou à cozinha. Tomo um copo d’água. E esta angústia, meu Deus... diz-me até quando? Sem Ele sei-me só... nesta quietude Refaço-me da minha juventude Com as quatro estações cheias de mágoa. Samantha Rios

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046 Não acredito, não, no que me dizes; É brincadeira tola o que me falas. Nervoso, andas batendo os pés nas salas Tentando me enganar com falsas crises. Podes desarrumar as tuas malas... Se já tivemos dias tão felizes, Ah, não serão esses veniais deslizes Que irão esfacelar as nossas alas... Vá para o quarto... irei junto contigo, Esqueça das questiúnculas vividas, Mais que um amor tu és o meu amigo. A viver juntos temos muitas vidas... Se u não brigas eu também não brigo, E nossas existências são floridas. Samantha Rios

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047 Inútil foi a espera... ele não veio... Preparei-me de forma provocante Para lhe ser a mais ardente amante Mas... inútil a espera e meu anseio... Meu cheiro não serviu-lhe de correio: Nem a palpitação do peito arfante Fez que ele me encontrasse e delirante Beijasse meu pescoço, a boca, o seio... Nós lençóis de cetim avermelhado, – Cor de paixão! – amarfanhei-me toda E perdida fiquei num devaneio. Mas vazio na cama era o seu lado – Planejei tão ardente a nossa boda, Mas... inútil a espera... ele não veio. Samantha Rios

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048 Quando chegas sorrindo à minha casa, Sorridente, te espero no portão, E sinto o coração arder em brasa Na mais alta e mais forte combustão. Enquanto espero, presa à lírica asa, Minh’alma voa na imaginação... Se tua vinda um pouco só se atrasa, Meu sinto presa a enorme solidão. Mas não deixas de vir... pois bem conheces Os carinhos que estás por receber E os beijos dados em ardentes preces. Bem sabes que não podes mais viver Sem as horas que tu jamais esqueces, Sem as horas recheadas de prazer! Samantha Rios

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049 Ele me disse adeus... ele me disse Que foi loucura o caso que tivemos... Perde de tempo foi toda a crendice Que juntos nós sonhamos e vivemos... E o sonho, em seus capítulos extremos Faz que eu me torne uma tristonha Alice... Nas águas de meu sonho afundo os remos E insisto em dar mais vida a essa tolice... Mas penso mais um pouco e digo:– basta! A cruz de angústias que meu ser arrasta Nem Cristo carregou, pois sendo Deus, Ele morreu por toda a Humanidade. E eu não irei morrer só por saudade... – Vais tarde, meu amor, adeus... adeus... Samantha Rios

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050 Amamos... nosso amor foi puro e lindo. Se alguém me perguntar do nosso amor, Direi que foi um sonho multicor E direi sem estar sequer mentindo. Porém, o nosso amor foi sucumbindo Nas masmorras de um sonho destruidor, E hoje me resta a mais pungente dor Do amor que outrora, me deixou sorrindo. Mesmo quando acabou o doce encanto, Por vários dias soletrei o canto Que me ensinaste com fulgor infindo... Sei que agora, recordo o que foi doce, E o amargo fel que sua ausência trouxe. ... Amamos, nosso amor foi puro e lindo!... Samantha Rios

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051 Ontem, querido, fui à tua casa E em teu quarto, mexi em teus guardados; E fiquei com o coração em brasa Quando bilhetes vi, apaixonados, De outros casos de amor... e eles, marcados Com beijos de batom, puseram-me a asa Para a imaginação, que ainda se arrasa Ao sentir que ora estamos separados. Não mais os teus abraços, os teus beijos, Os teus lábios gemendo, os teus desejos, Tua loucura em me sentir Mulher!... E hoje, querido, as dores me consomem, Pois não consigo me entregar a um homem, Sem lhe sentir que sou uma qualquer! Samantha Rios

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052 Na volúpia de abraços e de beijos Me possuíste com fúria ardente e louca, Beijavas meu pescoço e minha boca E acendias-me todos os desejos. A minh’alma em sinfônicos arpejos Explodia em paixão sonora e rouca. Se a fúria que me davas era pouca, (Pensava), tu cobrias-me de ensejos... Me agarravas, puxavas meus cabelos, Marcavas-me com unhas e dentadas E entravas no mais fundo de seu ser. Vinhas com mais frenéticos desvelos, E varávamos longas madrugadas Perdidos na loucura do Prazer! Samantha Rios

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053 “Samantha, tanto e tanto te desejo, Que penso em ti – minh’alma alegre canta. Meus lábios só desejam o teu beijo Que me dá vida, afeto e me acalanta. “Em outras faces tuas faces vejo, O teu corpo me serve como manta... Teu nome é uma canção que canto e almejo, O amor devia é se chamar – Samantha!...” Assim dizias rindo em meu ouvido, Pois esse era o teu canto preferido E me embalavas com ternura e calma. Mas desde que partiste, estou sozinha... No canto a tua voz não me acarinha, E em desesperos sinto então minh’alma. Samantha Rios

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054 Se outrora no passado eu fui feliz E soube ser feliz o quanto pude, E tinha ao lado a minha juventude – De alegria a minh’alma era atriz! – Se aos sonhos loucos eu pedia bis – No sonho a alma patética se ilude – – Hoje que do prazer perco a saúde, De meu passado tiro Raio X. Vejo os acertos, vejo os erros, vejo Um coração pulsante de desejo, E as esperanças que tiveram fim... Um coração chorando na agonia, A alma de invernos fria, fria, fria, – Sem ti minh’alma e tu também sem mim... Samantha Rios

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055 Agora, abandonada na quietude E no silêncio desta solidão, Vejo o amor findo em plena juventude Quando tanto sonhava uma ilusão... O mal e o bem combatem a virtude Contra balas de impávido canhão. E se a alegria meu viver ilude A tristeza me fere o coração... Se outra alegria a vida me trouxer, Não deixar que ela de mim se afaste, – Este é meu juramento de Mulher! – Irei fazê-la minha, minha só; Como uma flor que eternamente n’haste, Guardada n’algum livro – vira pó. Samantha Rios

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056 Fui procurar num velho dicionário O significado de – trasflor! – Pensei que fosse o nome de uma flor Que não houvesse em meu vocabulário. Mas – trasflor! – meu amor, sabe, é lavor De ouro sobre esmalte, é como um canário Amarelo, pintado em ouro vário; É só isso, só isso, meu amor... Assim, querido, é nosso amor – pintado Com as tonalidades da ternura Contidas em cerâmica chinesa. – Trasflor! – querido, é um sonho apaixonado, Um sonho de viver linda aventura No real paraíso da beleza! Samantha Rios

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057 Nossos presentes eram cacarecos... Barquinhos e balões de dobraduras, Revistas velhas cheias de aventuras, Inesperadas noites em botecos... Uma vez nós trocamos os jalecos, Uma outra vez, um par de ferraduras (Para dar sorte...) e até velhas molduras Trocamos, e do Elias, dois bonecos... Se fôssemos falar de nossas trocas, Dariam para encher enciclopédias, Porém, como faziam mil fofocas, Pusemos nos presentes, curtas rédeas... Assim o nosso amor foi às barrocas, Lembrando as gregas e fatais tragédias... Samantha Rios

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058 Agora ele está n’algum motel Divertindo-se à custa da agonia Que dentro d’alma, nesta noite fria, Faz minha vida ser triste e cruel. Entorno mais um cálice de fel... E ele com outra em mágica alegria... Sozinha, curto a minha fantasia De nunca mais enfim, ser-lhe fiel!... Não consigo admitir que ele me traia... Que outros mares visite, que outra praia Receba a sombra que seu corpo faz. Ele é só meu, de mais ninguém no mundo, Vou procurá-lo e com amor profundo Fazer que nosso amor retorne à paz! Samantha Rios

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059 Lembras quando nós fomos à fazenda Naquele mês de Julho, mês de férias? Esquecemos de tudo e as coisas sérias Somente eram tratadas na merenda... Fazia frio. Entre lençóis de renda Nossas divagações eram etéreas... Quem se preocupava com as misérias Assistidas num filme de legenda?!... Corria a solta a nossa fantasia... De manhã, bem cedinho, as maritacas Berravam anunciando um novo dia... Íamos nós tirar leite das vacas, No céu havia um cheiro de poesia E nós dois de olhos baços de ressacas... Samantha Rios

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060 Uma vez fomos juntos ao cinema Para assistir a um filme de terror. E Hichcock – o mestre do teorema, Em nossas almas colocou pavor. Após o filme te causei problema O que serviu para te dar humor. Agora neste meu simples poema Eu quero agradecer-te, meu amor! O filme foi de fato, no suspense, Uma obra-prima e agora, no meu canto, Não há forma que em outra coisa eu pense... Se cá estivesses como aquele dia, Somente para simples companhia, Não estaria assim sofrendo tanto. Samantha Rios

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061 Ontem te vi, estavas triste e só... Também triste e sozinha eu caminhava... Se nosso amor foi reduzido a pó, Por que este amor deixou minh’alma escrava? Eu sei que na garganta deu-me um nó E uma vontade de chorar da brava... Ver-te partir sozinho deu-me dó, Porém meu coração a mim falava: –“Deixa, esquece este amor, um outro amor Virá preencher as tuas noites frias, Outro amante virá encher de cor Tuas noites cinzentas e vazias...” Mas enquanto não vem um novo ator, Quem vai cuidar das minhas agonias?... Samantha Rios

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062 Não foi preciso muita inspiração Para de nosso amor contar a história. Pois trago ainda viva na memória Tudo o que me causou terna emoção. Se no peito me sofre o coração? Ora, isso é uma pergunta merencória. Só quem no mundo teve a imensa glória De viver um amor e uma paixão Igual a minha (e penso são bem poucas...) Pode viver retida entre lembrança Mesmo que tudo agora cause dor. Passamos juntos, tempestades loucas... Se nosso barco não achou bonança, Não foi por falta de Carinho e Amor. Samantha Rios

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063 Há no meu coração tantas histórias Para serem ouvidas, sê contadas, Que eu passaria longas madrugadas Cavoucando meu fundo de memórias. Muitas delas, seriam de vitórias, Outras tantas, de lutas derrotadas... Umas seriam bem apaixonadas, Outras, por mil razões – lacrimatórias... Mas guardo para mim essas lembranças... Quem vai se preocupar com esses fatos Que a mim somente têm algum valor? Essas histórias são minhas heranças, Que guardarei num álbum de lembranças, Como fossem Histórias de um Amor! Samantha Rios

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064 Chove lá fora, meu amor. Parece A chuva lágrimas que vida chora. Meu coração faz uma triste prece Por nosso amor que não tem mais aurora. Tristonha, a angústia na minh’alma cresce E teu regresso minha vida implora... – Se eu pudesse colher a loura messe Do amor que agora está em plena flora... Não serei eu que irei colher o fruto Que em tempo certo irá amadurecer, Pois nesse tempo eu estarei de luto... A mim somente restarão sementes, Que plantadas em solos condizentes, Me darão novas formas de viver... Samantha Rios

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065 Minhas amigas dizem:– “É loucura Este caso de amor... tu bem mereces Algo melhor. Torturas e padeces E masoquista, gostas da tortura.” Minha vida, porém, triste e insegura, Está repleta de desinteresses... Meus caminhos, tortuosos, lembram SS Onde jamais encontro uma ventura!... Nas tardes tristes, pálida, eu amuo... Ante o desconhecido vem-me o medo E o amanhã para mim é sempre incerto. Frente a problemas simples, eu recuo, De meu mundo interior faço segredo; Sozinha, vivo a vida num deserto. Samantha Rios

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066 Após a correria da faxina O forte cheiro não desaparece. Assim, é necessário que a creolina Mate o cheiro que a gente não esquece. O Amor é assim – pois ele ensina A louvá-lo na forma de uma prece – Nos marca como a agulha de vacina E outras mil artimanhas ele tece... Põe tudo fora do lugar... revira O nosso coração e vai embora – Deixa marcas de funda cicatriz... Depois... até parece uma mentira, Como gás ele rápido evapora, Mas deixa um forte cheiro no nariz... Samantha Rios

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067 Na folha branca de papel escrevo Frases da minha vida cor-de-rosa. E como sempre sou meticulosa, Em tudo tento pôr alto relevo. Porém, no amor, eu fico melindrosa, De meus romances o contar não devo, E solitária, vivo meu enlevo De uma maneira pura e religiosa. E assim, nem sempre nos meus versos narro A realidade da paixão que bate Nos meus anseios, mas em meus anseios O corpo amado – num delírio agarro, Como uma louca o meu sussurro late E geme com carícias em meus seios. Samantha Rios

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068 Ele chega com ar de apaixonado E sorridente, fica rente à porta. Mas tem nos olhos a esperança morta, No peito – um coração amargurado. As horas passam e ele não se importa – Às insinuações me olha calado. Depois me diz um triste adeus magoado E contorna silente, a rua torta. Eu, com meu desespero não impeço Dele seguir os seus errantes passos, Mas com a voz do meu silêncio peço Que ele tire a rijeza dos seus braços, Para sobrar após tanto tropeço, Forças para apertar-me em seus abraços! Samantha Rios

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069 Depois de tanto tempo abandonada Eis que tu voltas para os braços meus! E eu, da velha maneira apaixonada, Te ofereço meu corpo em jubileus! Te abraço de maneira alucinada E no espasmo do amor eu chego aos céus! Beijos em preces, a alma ajoelhada, Pois mais que o meu amor – tu és meu Deus! Tomas-me da maneira que preferes, Em mim encontra todas as mulheres Que poderiam te fazer feliz! Em minhas fontes vem saciar teu gozo, Vem beber de meu vinho licoroso, E em meus vales plantar tua raiz! Samantha Rios

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070 Arrebentando os diques do martírio, Trago no peito o coração chorando. E alucinada, em transes de delírio, As minhas esperanças vão-se em bando... Costuro versos com a luz do Empíreo Para entregar a quem estou amando: A quem quero entregar-me em branco lírio Mas reencontrá-lo, eu não sei onde ou quando... As tardes, lentamente em seus arrastos Trazem a noite em seus painéis doirados, E eu continuo em minha solidão... E embora a esmo eu ande em tantos rastos, Os meus sonhos se vão abandonados, E pareço uma enorme assombração! Samantha Rios

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071 Esta loucura é mais do que loucura, É o desejo de fogo alucinante Que me faz ser a depravada amante Narcotizada no ópio da censura. E não existe lenitivo loucura E meu desejo é sempre lancinante. Quero-te agora! Aqui! Neste instante! – O não amar o amor... e ele depura... Sou Mulher! Tenho nome, sou Samantha! Em êxtase de luz minh’alma canta A louca sinfonia em nos de beijos. E se sozinha deixas-me, que importa? Se a carne freme então abro a comporta E a fome vou matar dos meus desejos! Samantha Rios

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072 Basta que tu me chames e a loucura Faz que minh’alma fique alucinada. Largo minha promessa de clausura Passo a agir de maneira depravada. Beijo-te a boca – insana, desvairada, Sinto o corpo em exótica tremura. Entro nesse prazer, não penso em nada, E esqueço toda e qualquer jura. Arranco tuas roupas e me invade Uma alegria, uma perversidade Que não sei se outra um dia, pode haver. No êxtase puro da paixão mais louca, Cada beijo que pões na minha boca É o delírio da febre e do prazer. Samantha Rios

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073 Ele pedia pálido, ofegante, Que no seu corpo ardente de desejo Eu colocasse beijo sobre beijo, Para sentir, instante após instante, A volúpia candente, extravagante, De meu amor sublime como arpejo. ... E ao sentir da fogueira esse lampejo, Depravada ia sendo a sua amante! E toda a pele de seu corpo, nua, Não ficou sem meu beijo: pernas, ventre, Coxas, braços, pescoço, peito, boca – E eu dizia a sorrir:– “Sou toda tua! Vem, amor, em meu corpo se concentre, E me oferta este amor de forma louca!” Samantha Rios

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074 Fiz tudo o que pediste... fiz loucura Que não devia, não, jamais ter feito. Porém, eu te queria satisfeito Que entre nós não houvesse uma só agrura... Toda vez que fazias uma jura Acreditava em não achar defeito... Vinhas depois, com novo preconceito E eu de ti me sentia ainda segura... Pensando bem, de ti fui uma escrava... Sempre onde me querias eu estava Numa obediência simples, pura, cega... Nua, entreguei-te o corpo, a mente, a alma, Mesmo sofrendo tanto eu era calma Fazendo-te feliz com minha entrega! Samantha Rios

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075 O homem que amei com fúria e com desejo, Com desvario e torpe de loucura, Que arrebatou-me com prazer de um beijo E na cama me fez mulher impura – O homem que nos meus sonhos mais desejo, Ainda do meu amor recebe a jura. E em noites solitárias eu o beijo Quando vou ao silêncio da clausura – O homem que não me quer ainda manejo – Sou sua e por isso ele me procura Pois a distância faço-lhe o cortejo – Vem quando eu quero para uma aventura, Adora ter-me para seu festejo E o que ele quer eu faço sem censura. Samantha Rios

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076 Foi-se-me pouco a pouco (oh, dor cruel) Amortecendo na minh’alma ardente, Aquele amor da qual eu simplesmente Achava que era doce como mel. Nem Rembrandt, com seu mágico pincel Pôde um dia pintar com tinta quente Aquele amor da qual fui uma crente... – Das mulheres me fiz a mais fiel! – Hoje, perambulando pela rua, Em cada esquina um cálice de fel Bebo entornando os olhos para a lua. Jogo num bueiro o cintilante anel Que me deste, quando eu, feliz fui tua, E tu me foste um árabe corcel! Samantha Rios

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077 Fui te pudim, o teu manjar de ameixa, A tua sobremesa preferida! Fui a essência vital de tua vida, A tua oriental e doce gueixa! E não tive de ti nenhum queixa Enquanto eu era tua e era a querida. Mas depois que me deste a despedida, Só desesperos a minh’alma enfeixa. Fundas olheiras marcam os meus olhos, Em meu caminho – solidão e abrolhos Fazem que minha vida seja triste. A tua ausência faz brotar o pranto Em meus dias... e tudo é sem encanto E sequer a esperança hoje me existe. Samantha Rios

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078 Penélope – cansada do trabalho, Espero Ulisses que me disse – eu volto! – E nesta longa espera as asas solto Àquele amor de cálido agasalho. Se fundas rugas em meu rosto talho, Delas eu cuido bem – não me revolto. Pois se ele dia um dia:–“amor, eu volto!” Desta frase não vejo ponto falho. Fico esperando e me faz bem a espera... Após o inverno – vem a primavera E colho flores para lhe ofertar. Amadureço na sazão do outono, No calor do verão eu me abandono E em outro tempo eu fico a lhe esperar. Samantha Rios

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079 Quantas vezes – sonhei que estava amando Mas tudo não passava de utopia. Eu brincava com minha fantasia E adorava ficar assim sonhando. Mas quando em sanhas tu chegaste, quando Arrastaste a minh’alma à revelia, Eu fui amada e amei e não sabia Que há muito tempo estava te esperando... Numa visão de azul caleidoscópio Eu enxerguei de forma colorida O mundo que antes nunca eu enxergara... Dopada com o perfume de teu ópio, Viciada eu te entreguei a minha vida, Pois foste meu oásis no Saara! Samantha Rios

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080 Hoje que estou sozinha e abandonada, Sem um amor que possa me aquentar, Que vago só na longa madrugada Olhando as ondas e o morrer do mar; Trago no coração uma balada E uma oferenda simples e vulgar: Pois ainda estou bastante apaixonada Nesta noite de cálido luar... Olho o mar que reflete a lua-cheia... Nessa vulgaridade milenar Meus passos, vão pisando a fria areia... Mas sufocada sinto falta de ar, Teu amor me prendeu nesta cadeia, – Nem por vontade sei me libertar! Samantha Rios

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081 Esta angústia que vem me consumindo Faz que me solte em versos descabidos... Vivo sonhos amargos e sofridos, Na realidade um grande amor que é findo... Os meus dedos estão todos roídos, À fria solidão vou-me seguindo... Se outrora eu tive um sonho azúleo e lindo, A pó meus sonhos foram reduzidos... Estou sozinha! É triste estar sozinha Sem um amor sincero que esquente a alma Com um vulcão, como um vulcão que jorre Chamas de amor em quem triste caminha, Porque sozinha não se alcança a calma, E em solidão e em desespero – morre! Samantha Rios

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082 Eis que hoje está completa a minha história – Posso narrar detalhe por detalhe De meu amor que teve, enfim por glória, O coração ferido em rude talhe. Hoje não tenho mais quem me agasalhe... E o amor trago apenas na memória... O pensamento embora às vezes falhe, O amor é uma constante em minha história... Vivemos um amor... e mais do que isso – Nosso amor era assim, sem compromisso, Eu te esperava por saber que vinhas... E se hoje não vens mais, se em vão te espero, Na minh’alma é maior o desespero Por ver as minhas ilusões sozinhas... Samantha Rios

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083 Outra noite de espera... imersa em ânsia Meu coração soluça solitário... – Será eterno, meu Deus, este Calvário Para quem tem amor em abundância? Ele não vem... patética distância Existe entre nós dois... triste é o fadário De quem fez para o amor lindo cenário E ama na mais completa extravagância... Outra noite de ausência não suporta O coração que bate neste peito Unicamente porque rege a vida... Sente a esperança há muito tempo morta, Perdeu de amar a forma, a força, o jeito, E se encontra num beco sem saída... Samantha Rios

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084 Vai começar de novo... eu já conheço Histórias que começam bem assim: –“Sinto por ti, Samantha, tanto apreço, És a mais linda flor de meu jardim... –“Pudesse eu pagaria qualquer preço Para ter-te ao meu lado, junto a mim, De ti um só minuto não me esqueço, O nosso amor jamais vai ter um fim...” Desta vez eu estou bem prevenida... Jamais entregarei a minha vida Para depois sofrer, sofrer, sofrer... Porém, se eu não acreditar nessas mentiras, Ah, que valor terão as minhas liras, De que sonhos azuis irei viver?!... Samantha Rios

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085 “Olhos nos olhos”, a canção do Chico Serve para eu lembrar perfeitamente Que já tive do amor um sonho rico E que me fez feliz, amante e ardente... “Como vai suportar...” fico pensando “Me ver feliz”, saber que estou contente, Que de tuas lembranças eu abdico “E me pego cantando” num repente... Porém, me pego olhando “atrás da porta” “Teus cabelos, teus pêlos, teu pijama” E uma saudade o coração me corta... E só para mostrar que ainda sou tua, Ficarei te esperando em minha cama Com o corpo em fogo, totalmente nua... Samantha Rios

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086 Sei que toda moeda tem reverso: Enquanto ela ficar caindo em “cara”, Para um amor meu coração adverso Irá sofrer a mágoa mais amara. Eu não entendo como tão perverso O amor me fere em pontiaguda vara... Parece até que tudo no Universo A mim se mostra de maneira ignara... Talvez o amor seja uma coisa boa... Somente quando a moeda na “coroa” Cair. Porém, enquanto ela não cai, “Cara... coroa...” ficarei jogando... enquanto isso estará o tempo passando ... E eu com meu coração num triste ai!... Samantha Rios

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087 Eu sei que existe uma necessidade De demonstrar que sou inteira tua. Toma meu corpo e agride-o sem piedade Com beijos infernais me deixa nua. Nesta noite de foto, a cheia lua Pôs em meu corpo a sua claridade. Marca-me a ferro, a fogo e me tatua Com teu comboio em toda a densidade. Não tenho mais ninguém, por ti sou louca! Depravo o pensamento em pensamentos Libidinosos, na esperança rouca De ser completa e totalmente tua. Com teus beijos aplaca meus tormentos, ... Não vês que estou inteiramente nua?! Samantha Rios

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088 Nós dois vivemos colossal batalha Na loucura de dois apaixonados... Na Olimpíada do Amor áurea medalha Nos coube após os jogos disputados. Os lençóis de cetim amarfanhados – Vermelhos! – mais parecem a fornalha Onde os jogos do amor são disputados E os vencedores ganham a medalha! Pena que não tivemos por platéia Alguém que nosso Record confirmasse Porque ninguém amor mais que nós dois... Nossa batalha foi uma epopéia! Que o cansaço ficou em nossa face Muitas horas depois... dias depois... Samantha Rios

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089 Foi paixão? Foi desejo? Foi loucura? Eu já não posso me lembrar de nada... Sei que vivemos mágica aventura Naquela inesquecível madrugada. Não houve entre nós dois qualquer censura E foste amado como fui amada. Tudo foi feito de maneira pura Que toda a noite ainda é por mim lembrada. Foi paixão: os desejos que vivemos... Foi desejo: a loucura dos extremos... Foi loucura: a paixão que foi incrível... Mas n’alma trago a incontrolável ânsia De viver toda aquela extravagância Pois o momento foi inesquecível!... Samantha Rios

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090 Tanto eu quisera, amor, estar contigo Nesta noite de imensa solidão, Para sentir de novo o forte abrigo De teus braços – que são minha prisão... Pensas talvez, amor, que eu pouco ligo Que é tudo falta de imaginação... Mas, tanto outrora foste o meu amigo, Que te entreguei de vez o coração. Hoje, com outro amor vais abraçado... E eu com o coração dilacerado Ai, sofro quando ignoras que me vês... Ris... e meu coração sangrando chora... Ai vontade de ter aqui e agora Tudo o que outrora tão feliz me fez. Samantha Rios

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091 Este é o último verso que te escrevo Antes de finalmente te esquecer. Depois apagarei traço por traço A vida que paramos de viver. Aquele mundo estúpido e devasso, Aquela vida cheia de prazer... Nossos sonhos no instante do fracasso E a vontade tremenda de morrer... Surgem outros caminhos... “Ah, Samantha, O teu olhar sublime me quebranta, Entra em meu mundo que ele é todo teu...” Meus olhos estão vendo um outro mundo, Outra voz com carinho e amor profundo Diz que meu coração já te esqueceu... Samantha Rios

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092 Chegas. Ficas quieto rente a porta E palavra nenhuma então me dizes... Olho-te triste... fundas cicatrizes Pareces ter nos olhos... que me importa O teu silêncio e uma saudade morta Se já tivemos dias tão felizes?! Estás aqui com traumas e com crises E eu sei que nossa estrada é fria e torta... Estranho pensamento a alma me invade E eu não sei se te abraço por piedade Porque não mais distingo os sentimentos... Dizes-me adeus e vais embora... em tudo Há um clima denso, um sentimento mudo, Olhares baços, turvos pensamentos... Samantha Rios

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093 De que valeu-me ser sua cadela, Ser sua fêmea, estar sempre no cio, Ter da volúpia um caudaloso rio Ser sua égua atrelada numa cela? De que valeu-me abrir minha cancela, Da vergonha perde o íntegro brio, Atender seu chamado de assovio, Ter minha vida à sua paralela? De que valeu-me a anulação completa De taras, de vontades, de desejos, E uma vida levar toda incorreta, Se seu amor não foi mais que lampejos, E se tinhas apenas como meta Matar a sua fome com meus beijos? Samantha Rios

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094 Chegas e dizes que não mais consegues Ficar distante dos carinhos meus; Por isso pela vida me persegues Não querendo aceitar o meu adeus. Por onde eu ando, à noite, tu me segues E estás em toda a parte como um Deus; É bem provável que meus olhos cegues Para eu guardar somente os olhos teus... Não queres mais ninguém em minha vida; Quando estou começando a te esquecer Novamente ofereces-me a bebida E ébria de teus carinhos, a tremer, Triunfante em beijos, volto desvalida Para os espasmos loucos do prazer. Samantha Rios

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095 As paisagens que vejo algumas vezes Nas paredes sombrias pintalgadas, Às vezes, lembram telas esmaltadas, Às vezes, azulejos portugueses. Nas sombras vejo velhos camponeses Apascentando indômitas manadas... Vejo brilhos de antigas madrugadas E balançar de mãos em mil adeuses... Tudo numa total velocidade Adquire movimentos à medida Que passa a luz com sua claridade... E como a luz que passa na corrida, Meu coração sente a cruel saudade Daquele que passou em minha vida. Samantha Rios

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096 Hoje compreendo: fui uma vadia! Quando ele vinha com vontade louca Cobrar beijos febris de minha boca, Eu poderia, de maneira fria, Deixar a sua tara um tanto mouca; Alegar mal-estar, certa apatia, Irritar-lhe com outra fantasia, Mas sempre que em desejos, com a voz rouca Ia alisando pernas, braços, seios, Me desnudando todo extravagante, Eu perdia a razão em devaneios; Sem razão ia sendo a sua amante, Com volúpia infernal soltava os freios, E vadia, seguia mais adiante... Samantha Rios

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097 Outra vez me procuras e outra vez Da mesma forma antiga e violenta Minha boca febril, seca, sedenta, Busca os teus lábios com intrepidez. Pena, porém, que em meu amor não crês E em meus anseios pões uma tormenta... E eu, novamente, com a vista lenta, Olhe o futuro cheia de talvez... Vens e vais... vens e vais... não ficas nunca... E cada vez mais triste, mas sozinha, – Como o musgo aderente na espelunca De um casebre qualquer, de forma asinha Sino que no meu peito a angústia junca Tal a praga chamada erva-daninha. Samantha Rios

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098 Molemente deitada em minha cama, Sem ânimo e vontade para nada, Ainda com a alma toda apaixonada, E o coração a te dizer que te ama, Sentindo ainda no corpo a densa chama Que consumiu a minha madrugada, Tenho – tal uma foto bem tirada, Todo o desenrolar de nosso drama... Dez horas da manhã... e este cansaço, E esta moleza e todo este delírio, No silêncio, minh’alma ainda te chama... Ainda falta te dar mais um abraço, Porém, ainda me sinto estar no Empíreo, Molemente deitada em minha cama... Samantha Rios

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099 Muitos perguntam da veracidade Das histórias que vivo, sonho, penso. Perguntam-me se é mentira ou se é verdade Este meu pensamento tão intenso. Este amor de tamanha intensidade Se faz forte que eu mesma não o venço. Por isso vivo minha realidade E com meus versos julgo que convenço. Amo! Amo, sim, e sou correspondida, O amor que tenho é minha própria vida, E sem ele viver não saberia. Ele é meu sol! A luz que me ilumina! É minha religião santa e divina, É a mais forte razão desta Poesia! Samantha Rios

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100 Na cadência de todos os sentidos Na incerteza cruel de retornares, Com ânsias vou tecendo em meus teares A fúria dos desejos reprimidos. A tua ausência inferna os meus bramidos Não vens mais visitar estes pomares... Nem nadas mais nas águas destes mares, Que foram teus em colossais gemidos. No pensamento apenas ainda tenho A volúpia de abraços e de beijos E magoada de dor ainda retenho Um adeus que deixou minh’alma morta, E hoje, querido, nada mais importa A não ser esta fúria de desejos. Samantha Rios

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101 Ele me disse que viria e eu, certa Deixei minh’alma rodopiar no cone Das minhas ilusões, que antes, deserta De sonhos – (como alguém que se abandone) Via a esperança como porta aberta – E ela me foi sincero cicerone – Fiquei feliz, deixei a porta aberta Quando ele me falou ao telefone Que viria passar comigo a noite... E eu esperei ansiosa a sua vinda Numa ternura tão além de mim... Mas o vento da noite, em fio açoite, Deixou minha esperança triste e infinda, Que meus sonhos de amor tiveram fim.,.. Samantha Rios

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102 Ele chega de forma provocante E entre dengos e afagos se insinua... Me abraça de maneira extravagante Até que eu fique totalmente nua. E seu beijo de brasa me tatua O coração de forma fulminante, E meus seios, redondos como a lua, Servem para os seus lábios, de adoçante... Depravada e lasciva, sou Frinéia! Para seu julgamento arranco a túnica Do que ele aperta mas não tem ideia! Para ele sou Mulher, apenas fêmea, Dentre todas que teve sou-lhe a única, – Sei que do amor eu sou su’alma gêmea! Samantha Rios

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103 Para mostrar que eu era a sua escrava, A inicial de eu nome quis gravar Em meu corpo e com ferro em rubra lava Fui marcada. Assim quis perpetuar Para sempre, da forma mais ignava Que eu era tua, tua, tua... (o luar No quarto, sua luz tênue infiltrava) E teu nome passei a carregar... Essa tatuagem hoje, a pele queima... Esta inicial que foi minha Esperança É hoje meu desespero e minha dor. E como a cicatriz profunda, teima A avivar como furor minha lembrança, ... É tudo o que restou de nosso amor... Samantha Rios

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104 Procuras inventar milhões de histórias, Sempre vens com desculpa esfarrapada; Te escondes dentro à densa madrugada, Depois voltas buscando infaustas glórias. E novamente não dizendo nada Pões em minh’alma sombras merencórias, E de novo, com leis conservatórias Instigas-me de uma época passada... Numa verborragia muito louca Pões palavras cruéis em minha boca, Cruéis palavras que jamais te disse... Cobras meus erros, minhas dores cobras; E eu com gestos hipócritas de Alice, De teu amor fico aceitando as sobras... Samantha Rios

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105 Total desilusão minh’alma sente Por novamente me sentir sozinha. O prazer que não tenho e que antes tinha, Faz que me coração pulse fremente. Mas será que só eu sou diferente E fico remoendo atroz picuinha? – Se alguém com uma rosa me acarinha Sinto o espinho ferir meu corpo ardente. Uma rima salgada que me acoite Uma brisa que bata em minha face, Um passeio furtivo em fria noite... Nada me alegra, nada, nada, nada... Eu sinto que se alguém por mim passasse, Me deixaria só na longa estrada... Samantha Rios

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106 Depois de longo tempo à tua espera, (Quando eu pensava que não mais viesses) Após do amor ter feito infaustas preces, Eis que voltas ao fim da primavera Com olhos de verão... com fogo aqueces Meus lábios com mil beijos, e eu, sincera, Retribuo os teus beijos como fera E requebro meu corpo em dóceis SS. É tamanha a volúpia que sentimos Que bebemos do amor a taça cheia E sequer encontramos para arrimos Aos nossos corpos, pós-tanta batalha, Podium sequer para ganhar medalha Que em tudo estava enorme mar de areia... Samantha Rios

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107 Procuras sempre uma aproximação De quem esteve já de ti tão perto... E se hoje existem léguas de deserto A separarem nosso coração Que unidos já cantaram a canção Da esperança maior a céu aberto, Se hoje seguimos por um rumo incerto É que findou-se a lenda da ilusão... A fábula que um dia nós vivemos Teve, pois, que chegar a tais extremos, Mas não chegou com seu final feliz... Foi nosso mundo de felicidade, Mas hoje, só me buscas na saudade, Para em meu peito abrir a cicatriz... Samantha Rios

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108 A loucura da carne que me queima É tão intensa que este fogo ebriante A cada hora me torna mais amante E fica em mim como ardorosa teima. Amo teu corpo como guloseima E a teu lado o desejo instante a instante. Numa paixão irreal, anavalhante, Numa desesperada e ardente freima. Quando me abraças ardo em mil desejos... Quando sôfrego buscas os meus beijos, Sinto a volúpia de maneira intensa. Meus Deus e meu demônio! Em tal maneira De teu corpo me sinto prisioneira, Que me sei condenada sem sentença! Samantha Rios

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109 Todas as noites, numa insônia imensa, Espero que ele venha e me enlouqueça, Que dome o meu sentido e me ofereça A volúpia do amor de forma densa. Fico acordada, presa em minha crença Que ele tome o meu frio corpo e o aqueça, E que eu, presa em seus braços desfaleça Tendo desmaios, como recompensa. Tantas e tantas vezes, eu, ardente, Dei-lhe o meu corpo, que ficou submisso Aos seus desejos, seus carnais desejos. Na loucura do amor fui uma crente, A ele me dava como um compromisso Apoteoses de abraços e de beijos! Samantha Rios

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110 Ele me disse:–“Eu voltarei um dia Para viver o nosso amor ardente...” E minh’alma em estado de alegria Pôs-se então a viver unicamente Com esta lembrança azul e sorridente Os instantes de espera e fantasia... Mas o tempo passando cruelmente Foi pondo fel no sonho em que eu vivia... Hoje em meu coração tenho a certeza Que não virá cumprir sua promessa, Por isso vivo dias de tristeza Vindo a realidade de meu sonho: Em minhas faces trago a dor impressa E um caminho a seguir amplo e tristonho... Samantha Rios

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111 Essa, que agora te acompanha os passos, A mim não passa de mulher vadia... Vive te acompanhando dia a dia Sempre te segurando pelos braços. O meu amor não te prendia em laços E eu te amava sem transes de fobia. – Com certeza esse jeito é que abrevia O amor, e ambos parecem ser palhaços... Queres mostrar o quê? Ah, com certeza Não tens desejos próprios nem vontades, – Tua vontade a dela vive presa. O amor, querido, não permite grades... Se teu amor precisa de defesa, Ele anda precisando de verdades... Samantha Rios

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112 Tiveste-me da forma que querias: Submissa, fiz todo e qualquer capricho, E quanto mais de mim tu exigias, Mais eu te amava como o amor de um bicho. Mas agora me tratas como um lixo E evitas minhas buscas-fantasias... Alguns amigos dizem em cochicho Que outras tens para as loucas heresias. Podes ter outra mas me sinto tua... Se me telefonares neste instante Te esperarei completamente nua. Vem me possuir que espero-te ofegante, Como teus beijos de fogo me tatua, Pois bem sei que ainda sou a tua amante. Samantha Rios

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113 Por tua causa fui buscar a rima Para entender o teu amor tão louco. Se tudo o que te dei foi muito pouco, Um outro amor buscar já não me anima. Nem consideração e nem estima, Muito menos o cantar que ficou rouco. Nem o teu gesto tresloucado e mouco Enaltecendo o amor como obra-prima... Quando entreguei-te os meus primeiros versos, Com o olhar perdido em pontos tão diversos Elogiaste meus dotes de Poetisa. E os mesmos versos que tu leste um dia, Hoje são partes de uma alegoria Que tanto o coração me martiriza. Samantha Rios

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114 Quando o inverno chegava... quando o inverno As árvores deixavam desgalhadas, E a cerração, de alva, cobria estradas, Iniciou meu delírio e meu inferno. O amor (que antes pensava ser eterno) Disse-me adeus em roucas gargalhadas. E os dias de sofrer e as madrugadas Coincidiram com o vir do rijo inverno... E eu pensava comigo (ai, que tolice!...) Quando vierem as noites frias, frias, Para aquecê-lo irei ser sua chama... Quando o inverno chegou... ele me disse: –“Tiveram fim as nossas fantasias...” E neste frio atroz, minh’alma o chama... Samantha Rios

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115 Revendo um álbum de fotografias, As lembranças, aos poucos, eu acendo... E ardem no coração alegorias Que o corpo fica, em êxtase, tremendo... Tudo era lindo, mágico, estupendo! Vivíamos num mar de fantasias... E hoje procuro pôr algum remendo Em minhas horas tristes e vazias... Os retratos são flashes de um instante, Pena, porém, que tão-somente a imagem Fique estampada e nela não se note A alegria, como hino extravagante... Por isso cada foto é uma miragem E nos fere igualmente a atroz chicote. Samantha Rios

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116 Domingo triste... embora o sol brilhasse Quando numa aleluia amanheceu, E eu trouxesse estampada em minha face A alegria por ter um beijo teu, Após o almoço a chuva em negro passe De magia deixou meu corpo ateu. Pôs em minha alegria desenlace E minh’alma ficou em denso breu. Partiste e me deixaste no abandono... A primavera me deixou no outono O inverno fez gelar o meu verão. As lágrimas rolaram em meu rosto, E nos meus lábios tinham o acre gosto Do sangue que jorrou do coração. Samantha Rios

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117 Ensaios frases para te dizer: – Longe de mim ficaste três semanas, Por quê me ludibrias e me enganas E feres meu orgulho e meu prazer?... Dizes que vens, espero até morrer E nesta espera angústias espadanas Rolam meus olhos de ilusões ciganas E afogam os meus sonhos de Mulher... Melhor seria que jamais voltasses, Seria bem menor o sofrimento E eu não teria, presa em minhas faces Esta angústia sem fim da tua espera. Te esqueceria com o valsar do vento Que vem e traz e leva a primavera. Samantha Rios

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118 Sobre Histórias de Amor o interrogar-me É necessário para a reportagem Sobre casos de amor... não faço charme E muito menos contarei vantagem... Não, meu querido, não farei alarme... Posso contar direito como é que agem As mulheres no amor, embora eu me arme Da vil galhofaria e da chantagem... É claro que já amei... pois sou honesta, Tive um amor sem hora, como, quando, E deve uma lembrança ainda me resta... Por isso, às vezes, quando estou cantando, A minha rima diz que o homem não presta, – Partem sorrindo e deixam-nos chorando... Samantha Rios

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119 Chove lá fora... a chuva me alucina... Foi numa tarde que chovia tanto Que tive o meu mais triste desencanto Que pôde ter minh’alma de menina... Ainda o coração se desatina E de meus olhos desce denso pranto, Quando senti, da despedida, o manto, Numa canção que ainda em meu peito trina... Parece até que o céu está chorando Por minha angústia assim desesperada Que deixa até meu coração sangrando... A chuva irá deixar-me a alma lavada, Pois vai levar, por certo, na enxurrada, As angústias que estão me sepultando... Samantha Rios

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120 Vai, vê se encontra em todas as mulheres Uma mulher que faça o que te fiz. Pensa depois, se foste mais feliz Nesta procura cheia de prazeres... Procura em outros corpos, belvederes Onde possas plantar tua raiz... – Eu fui teu continente e teu país, E entre leis, obediente a esses deveres! Mas és conquistador! Queres a busca E outras terras achar, queres o sonho De um mundo que não tenho mais comigo... – Nos píncaros do sonho a alma se ofusca... Mas se encontrares um país medonho, Podes voltar para o país antigo... Samantha Rios

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121 “Never more”, disse Poe. Também eu, penso Que os dias do passado, tão felizes, Deram adeuses no valsar de um lenço E eu sozinha fiquei com minhas crises... E eu que pensava ter criado raízes Em tua vida... tudo em vão... no denso Labirinto de dor, com tais deslizes No coração o meu passando incenso... Sinistro corvo abre-me suas asas Fatais. Minhas angústias – rubras brasas – Queimam. E este refrão ao meu redor Enche o céu, enche o espaço, enche o Infinito... E o corvo sempre em seu grasnar maldito Angustiado dizendo – “never more!...” Samantha Rios

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122 Meu amor, nesta noite, entorpecida, Enquanto em êxtase me possuías, A minh’alma em frenéticas poesias Buscava a rima para minha vida. Enquanto me chamavas de querida E, carinhos sem fim me oferecias, As minhas esperanças que eram frias, Se aqueciam no fogo desta brida. E com tanta volúpia me possuíste Que no leito fiquei esparramada Sem forças para me recuperar... Se a paixão (que foi tanta) ainda persiste, Vêm, querido, e me faz de novo amada Conjugando comigo o verbo Amar! Samantha Rios

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123 Louca sou e sabendo-me assim louca Mais busco-te em procuro-te,querido. Com ansiedade beijo a tua boca E trago o coração enfervecido. Louca sou – se a loucura for-me pouca Selvagem torno-me leão ferido. Presa – te arrasto para a minha toca E com unhas e dentes eu te agrido. Louca sou e me sei e me sacio, Enrosco-me em teus membros, troncos, pêlos, E à minha gula nunca falta a fome. Louca sou e na fúria me arrepio, Ao ver-me presa aos teus pulsantes elos, Minha loucura tem um outro nome. Samantha Rios

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124 Quando amei-te com fúria e com desvelos Naquela linda suíte de motel, O teu corpo enroscou-se em meus cabelos Que eram fios de longo carretel. Embromados nós dois – corpos e pêlos, Parecíamos rimas de cordel... E me davas carinhos, dengos, zelos, – Me provavas como uva moscatel. Me entorpecias com os teus carinhos, Em minha taça quente tu bebias Cálices rubros dos mais finos vinhos. Ébria de amor, também me embebedava, – Bêbado, com volúpia me possuías, E eu me sentia ser a tua escrava! Samantha Rios

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125 Os meus sonhos – depois que te perdi – Passaram a não ter nenhum valor. Não podem ter final feliz sem ti, Porque tu foste o meu real valor. Hoje, com o coração sangrando em dor (Ah, querido, de nada me esqueci) Relembro nossa história de esplendor Tudo recordo e não esqueço um i! Partiste e me deixaste a solidão... Hoje, sozinho sofre o coração Que um dia amou e foi todinho teu. Mas foste embora e deste-me o sofrer – Sem ti, querido, a vida é sem prazer, E o lindo sonho que sonhei – morreu... Samantha Rios

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126 Hoje que teu amor me abandonou Eu sozinha fiquei numa agonia. Sem teu amor, sem tua companhia, Vejo que para mim nada restou. A amante que antes fui hoje não sou, E meu calor tornou-se em fonte fria. Sem ti a minha vida está vazia Para a estrada da angústia, triste vou. A solidão entrou em minha vida, Veio e tomou lugar de teu amor E minh’alma deixou triste e ferida... Hoje com o coração folgando em dor, Tenho a esperança toda carcomida, – Desbotado, perdeu meu mundo a cor. Samantha Rios

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127 Às vezes, o passado, em forma brusca Fere minh’alma de maneira intensa E o fogo da saudade me chamusca O coração como profana crença... Nessas horas minh’alma, em vão, te busca Para talvez ouvir outra sentença; Mas tua fria voz, de forma etrusca, Sempre me fere com indiferença. Para o presente frio, então retorno... E o frio gela minhas mãos e gela Meu corpo todo... e a padecer de frio, Procuro para mim outro retorno, E tento achar no céu a minha estrela Mas o meu céu também está vazio... Samantha Rios

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128 Apaixonadamente hoje te escrevo Para te relembrar o meu amor, Mas eu não sei se devo ou se não devo Falar que trago o coração em dor... Penso um pouquinho mais... pois bem, me atrevo A relembrar um tempo de esplendor, O nosso amor que tinha o alto-relevo, – Que tinha o alto-relevo de uma flor! Lembras, querido, nossos lindos sonhos? Nossas tardes de amor, nós dois risonho, Nossas de amor, lindas declarações?... Abandonada, sigo meu caminho, Abandonado, também vais sozinho – Solitários vão nossos corações... Samantha Rios

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129 Chegaste cheio de desejos... tinhas Nos olhos a volúpia dos amantes. Das outras vezes diferente vinhas Dizendo versos, frases delirantes. Poetisa e amei... em ladainhas Gemi loucos poemas delirantes. E te fui a rainha das rainhas, E receber em gotas, teus brilhantes! E unidos, na loucura dos desejos, Nós ficamos marcados pelos beijos – Marcas que pareciam tatuagens. E no momento da paixão tão louca, Nossos corpos formaram mil imagens Que calaram o verbo em nossa boca. Samantha Rios

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130 Às vezes, passo a limpo a minha história E fico a recordar fatos vividos. Amplos rumos alegres percorridos, Que ainda guardo vivos na memória. Outras vezes, de forma merencória, Solidão e momentos tão sofridos. Momentos que por mim são esquecidos Pois tiveram sequer, a infausta glória;;; E trespassada entre lembranças fico – Um quadro pendurado na parede, Uma fotografia amarelada... Se de saudade meu viver é rico, Minha vontade ainda é matar a sede Através de uma história já passada. Samantha Rios

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131 Dos desejos febris que n’alma trago Tu muito bem mereces... pois mereces Meus gemidos de amor e minhas preces, Quando o meu peito contra o teu esmago! Em meu corpo é que plantas tuas messes – Sementeira de beijos num afago! – Tuas fontes deságuam-se em meu lago E após longas batalhas... adormeces... Quando colhes os frutos que te oferto Eles jamais saciam sua fome – Depois da safra torno-me um deserto! – Esta é a paixão do amor que me consome: Se após a gula queres-te liberto, Minha fúria te chama de outro nome. Samantha Rios

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132 Depois de tanto tempo volto à ativa Tecendo ternamente, ternamente, A mesma história que me fez cativa E que deixou-me o coração doente. Eu trago ainda na memória viva, (Como se fosse ainda meu presente) A ânsia, o desejo, a tola expectativa Que nós vivemos cheios de alegria. Leio o diário onde gravei um dia, Todo o romance exótico e romântico Que nós vivemos cheios de alegria, E em cada página relida sinto As lágrimas de rimas para o cântico Que entôo ao ver o nosso amor extinto... Samantha Rios

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133 Após a insônia, após o sofrimento, Um novo dia raia à minha frente. E sorrio de forma diferente Ao ser acariciada pelo vento. Estou feliz, amando novamente Um novo amor, que veio num momento Que o desespero dava-me o tormento ... E agora eu amo de maneira crente. O meu rosto contém um novo brilho, A minh’alma, feliz, canta o estribilho De uma canção que já nem me lembrava... – “Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!” e assim em prece O passado de dor minh’alma esquece E um novo amor me faz ficar escrava. Samantha Rios

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134 Ele chegou sedento dos meus beijos, E eu dos seus beijos ainda mais sedenta. Que unimos nossos lábios em desejos, Numa loucura insana, violenta... E nossas mãos, numa carícia lenta, Passeavam pelo corpo entre festejo, E corriam por entre a vestimenta Roçando a pele em musicais arpejos... E assim, nessa luxúria, na penumbra, Cálido, o olhar à semiluz vislumbra Corpos ardentes a implorar desejos. Ao redor placidez, sossego mudo, E nossas línguas entendendo tudo Na linguagem exótica dos beijos. Samantha Rios

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135 Ele chegou sorrindo e eu, em seus braços Atirei-me de forma provocante, E exigi seus carinhos, seus abraços, E a volúpia de fogo de um amante. Com seus beijos prendeu-me em fortes laços Que meu corpo tremeu todo ofegante. E com a fúria dos príncipes devassos, Meu possuiu de forma fulminante. Uma, duas, três vezes... e eu, em fogo, Na cadência de ritmo desta posse Não conseguia ter, extinto o fogo Desta paixão tão cheia de desejos... Que ao seu final inda julguei precoce Suplicando em delírios, novos beijos... Samantha Rios

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136 Se não mais me procuras, o tormento Em minh’alma, parece que se instala. – Se o telefone toca lá na sala, Até ele corro como o próprio vento. Penso ainda escutar a tua fala E o teu silêncio – que é meu lenimento. Porém, a tua ausência é meu lamento Já que tua ilusão não mais me embala... Podes telefonar quando quiseres... Lendo os meus versos – saiba que te quero Pois me dás alegrias e prazeres... Mas se no teu silêncio permaneces, Em meu silêncio, súplice, te espero, Chorando em rimas as mais tristes preces. Samantha Rios

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137 Eis o nosso Motel! Altar sagrado Onde nosso romance teve início. Onde tu me ensinaste o doce vício Que o amor tem pressa para ser amado. Hoje, no coração – como um resquício, Relembro todo o sonho idolatrado: – Fui tua Amada! foste o meu Amado! Sem que para isso houvesse sacrifício. Era a cama redonda avermelhada, Teto de espelho, sauna, hidromassagem, Ai, loucura, ai, delírio, ai, meus desejos... Hoje, sozinha, triste, abandonada, Tudo mais me parece ser miragem Parecem pesadelos os teus beijos! Samantha Rios

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138 Das alegrias que minh’alma sente Que me deixam feliz o coração, É lembrar toda a história comovente Que um dia foi-me um sonho... uma ilusão... Mas era a realidade pura e ardente Que em minha voz calcou rima e canção. E se tudo acabou num de repente, O sonho vive na recordação. E recordo os meus sonhos, e recordo Nas longas noites quando insone acordo Toda a história que fez-me tão feliz. A história que me fez Mulher e amada, Que deixou a minh’alma apaixonada, E que em meu coração gravou um X. Samantha Rios

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139 Nestas tardes de outono, quando o sol Sangrando, deixa às barras do horizonte, E a noite jorra estrelas pela fronte E a lua surge – esplêndido farol! – Minh’alma, num patético bemol, Numa lamúria fica agonizante. Pois me recordo uma época distante Em que a vida era um plácido arrebol. Hoje a saudade é tanta, tanta, tanta, Que fico a recordar, a recordar, Uma voz quente a sussurrar: –“Samantha, Eu morrerei se não puder te dar Todo o amor que em meu peito se acalanta, E toda esta volúpia de te amar!” Samantha Rios

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140 Ele chega e eu de forma provocante De seu corpo adorado tomo conta. Desvairada de gozo, aérea, amante, Entre beijos febris, eu fico tonta. Em meus delírios sempre fico pronta E seus beijos aceito delirante. Ébria de gozo – nada me amedronta E entrego-me em desejo extravagante. Dele me sei até no pensamento!; E não passa no dia um só momento Sem que este amor me deixe alucinada. Louca e lasciva, solto meus arreios, E espremendo os meus seios nos seus seios, Tenho a certeza de que sou amada! Samantha Rios

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141 O meu propósito era te esquecer E eu a sério levei esta vontade. Rasguei meus dias de felicidade E as nossas horas cheias de prazer. Se a te lembrar a mim era sofrer, Me parecia ser insanidade Alimentar a boca da saudade Que se alimenta apenas por prazer. Porém, não alcancei o meu desejo: Ainda estás em mim no pensamento Tal como a dor que não se vê e se sente. Sinto ainda a volúpia de teu beijo, Que na carícia tépida do vento De teu amor ainda me deixa crente. Samantha Rios

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142 Tudo parece que me foi um sonho, Mas se tudo foi sonho, como é que há de Estar minh’alma cheia de saudade E estar meu coração tão enfadonho? Dentro da noite, com olhar tristonho, Eu junto os cacos da felicidade; – Vaso chinês quebrado por maldade, Com sorriso sarcástico e bisonho!... Ando perambulando pela rua, O olhar vaga perdido, sonolento, E uma alegria alheia me tatua... Canta o crepúsculo na voz do vento, Timidamente vem surgindo a lua E me faz companhia no relento. Samantha Rios

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143 Todas as vezes que ele sai comigo Preparo, com prazer, minha emoção, Apesar de dizer que é meu amigo, Eu o quero com a fúria de um leão. Rumamos para aconchegante abrigo E daí fico louca e sem razão. Me dôo por inteira, o instinto sigo E o que ele pensa tem a sua mão. Com ele foi que numa noite fria, O meu corpo ficou como fogueira Ardendo na mais alta combustão. Por isso penso nele todo o dia, Ele me quer de forma verdadeira, E eu o quero na forma de um vulcão. Samantha Rios

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144 Foi real mas a mim hoje parece Que a época foi de fantasia ou lenda E aquela nossa noite na fazenda Por mais que eu tente a mente não esquece... O silêncio rondava a nossa tenda E unimos nossos corpos numa prece. Que a tênue luz desfiava a sua renda E ao teu meu corpo se enroscava em S. O pensamento, em devaneios tece Nossos corpos em mágica oferenda E o amor em nós brotava como a messe Azul de um sonho lindo... e se foi lenda Ou realidade, tudo me parece A reprise de um filme sem legenda... Samantha Rios

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145 Uma tarde, no Parque ensolarado Da tão tradicional Agronomia, Começou minha fúnebre agonia Pois tive o meu castelo derrotado. Lembro-me bem: de uma maneira fria Ele deixou meu coração marcado – Meu mundo que era todo iluminado, Sofreu a mais atroz melancolia. Deixou-me no jardim de minha casa, E eu com o coração sangrando brasa Fui ao quarto chorar a minha dor. E em minha cama, abandonada e triste, Senti que ainda em frêmitos persiste O cheiro de teu corpo abrasador. Samantha Rios

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146 Quando a saudade no meu peito bate Minh’alma fica então desesperada – E eu entro no mais ácido combate E vou pensando e não dizendo nada. O pensamento, na razão, debate Com o impulso, e varo a longa madrugada Para que o coração – todo mascate – Não se iluda e me deixe mais magoada. Mal amanhece o dia, ainda insone, Eu sino o corpo rodopiar num cone E a angústia me atormenta e me delira... No fundo poço está a felicidade, E eu acredito com insanidade Que o que disseste é uma cruel mentira. Samantha Rios

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147 Ele chegou naquela noite fria E me pediu que eu o aquecesse um pouco... Estava solitário e a só seguia A solidão de um mundo errante e louco. Quis dar-lhe o meu amor, mas ébrio e mouco Em devaneio apenas me sorria... Até meu pensamento estava rouco Quando ele quis partir ao fim do dia... Porém, senti um fogo em mim ardendo, E fui me consumindo neste fogo Pois num sonho irreal eu quis dar asas. E agora com o frio, estou tremendo, Num mar de lágrimas em vão me afogo Enquanto o coração crepita em brasas. Samantha Rios

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148 Se eu te encontrar à noite em qualquer rua Passeando com a nova namorada A cicatriz que ainda em meu peito nua Sangra na angústia fina de uma espada E o coração que grosso sangue sua Atrapalhado não te fira em nada Mas eu vou te mostrar que ainda sou tua Pois minha pele ainda está marcada Com as tatuagens de fogo que fizeste Para que eu fosse tua como escrava E em mim estás marcado como a peste Que põe na pele a marca da doença E se a gente se esquece e a esfrega e a lava Mais ela em nossa pele atroz se imprensa! Samantha Rios

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149 Passo noites e noites acordada Apenas recordando, recordando, Que ainda estou por ti apaixonada E disposta a atender ao teu comando. Um teu aviso me dizendo quando E eu irei num instante à ordem dada. – Enquanto a ordem não vem fico sonhando No desespero desta madrugada. Também sei muito bem que ainda me queres, Que tens buscado em outras mil mulheres As chamas do desejo que te dava. Mesmo quebrado os elos da corrente, De ti o meu amor se faz presente E ainda me sinto ser a tua escrava. Samantha Rios

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150 Eu sei que agora, relembrando fatos, Eu passei acordada a noite inteira. Reli diários, fui rever retratos, E a saudade foi minha companheira. Pensei melhor: não vou medir meus atos. Não vou ser da tristeza companheira. Vou mais cuidar de mim, vou dar-me tratos, – Não penso ir ao convento, nem ser freira. Vou bagunçar de vez meu coração: E vou causar furor nesta cidade, Tomei agora mesmo a decisão – Que não venha ninguém neste revel, Agora mesmo vou à liberdade E te possuir num quarto de motel! Samantha Rios

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Soneto de Samantha Rios Se ele agora voltasse a se encontrar comigo Para de novo ter todo o imenso prazer, Para de novo ser o verdadeiro amigo Ai, eu me sentiria a mais feliz Mulher. Mas ele está distante... estou só neste abrigo... Será que me esqueceu... será que não me quer? Às vezes em silêncio, eu a mim mesma digo: – Vai ver se envolveu com uma outra qualquer... Mas o desejo antigo a distância mais cresce, Dentro da noite, insone, eu faço a minha prece Para ele retornar para este coração Que sofre de amargura e quer, entre mil beijos, Ressuscitar a chama antiga dos desejos, E fazer vir à tona o supremo tesão. 22.07.1986

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Para a amargura de um poeta Caro Poeta, companheiro amigo, Dizes que estás sozinho e abandonado. Que a angústia na tu’alma fez abrigo E que na vida estás desesperado. Calma, Poeta, pois estou contigo, Nesta amargura vou junto ao teu lado. Para serdes feliz, Poeta, eu brigo, Bem entendo por quê estás magoado. Também tive um amor e tive um sonho, Esse tempo era tempo de esperança No peito havia um coração risonho. Se teus sonhos de amor estão defuntos, E a amargura te fere com loucura, Nós dois podemos ser felizes juntos. 20.04.1990 Samantha Rios

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Eu desconfio das mulheres feias Que tem homens bonitos ao seu lado, E delirantemente apaixonados Delas são presas em fatais cadeias. Inteligentes fazem suas teias E deixam os seus homens bem tratados. Porém, quais artifícios são usados Por estas simples e geniais sereias. Os homens buscam suas companhias, Seduzidos procuram todos tê-las E adorá-las por todos os seus dias... O caso é que elas são inteligentes: Por dentro são bonitas, são estrelas, E entregam-se ao amor de formas crentes. 06.08.1990 Samantha Rios

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História de um amor Já que não pude dar-te o que buscavas, Pois o meu corpo já não era puro, A tristeza de todas as escravas Lamento debruçada sobre um muro. Com palavras afiadas, feres, cavas, Angústias mil no coração perjuro... E pontiagudas setas em mim cravas, Que desesperos loucos eu agruro. Não controlas teus atos e teus gestos... Hoje que tenho tão-somente os restos De teu amor em formas de migalhas, Vou te dar de presente o que mais queres: – A pureza de todas as mulheres! – Mas não ajas iguais aos vis canalhas. 05.09.1991 Samantha Rios

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História de um amor Tudo parece que me foi um sonho, Mas se tudo foi sonho, como é que há de Estar minh’alma cheia de saudade E estar meu coração tão enfadonho? Dentro da noite, com olhar tristonho, Eu junto os cacos da felicidade: – Vaso chinês quebrado por maldade Com sorriso sarcástico e bisonho!... Ando perambulando pela rua O olhar vaga perdido, sonolento, E uma alegria alheia me tatua... Canta o crepúsculo na voz do vento, Timidamente vem surgindo a lua E me faz companhia no relento. 08.10.1991 Samantha Rios

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Tropeço A nossa história teve – no começo, A volúpia dos dias de verão, Nossos toques traziam a emoção De um amor realizado com sucesso. Nosso amor teve um caso bem possesso... Onde estava causava sensação, Então, quem poderia ver então, Que havia de existir fatal tropeço?... Tropeçamos de súbito na estrada Numa pedra que havia no caminho Que um dia tropeçou também Drummond... Hoje nada nos resta, nada, nada... Vou sozinha, também segues sozinho Lembrando um tempo lindo que foi bom... 02.11.1991 Samantha Rios

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Resposta a um Poeta Desconhecido Amigo, se magoei-te Com minha história triste, foi preciso Que alguém de fora me chamasse a juízo Antes que eu derramasse todo o leite. Como pudeste abandonar, Narciso, O espelho que é teu único deleite, Para em versos mandar-me um terno aviso Com rimas cor-de-rosa, por enfeite? Acontece que escrevo no presente Lembranças de uma história do passado E não sei o que guarda-me o porvir... Porém, se estás sozinho, simplesmente Não me importa um carinho abandonado... – Junto de ti posso outra vez sorrir... 17.02.1993 Samantha Rios

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Desespero Plenas noites de angústia e desespero, Ilusões e fantasmas do passado Passam no pesadelo inacabado Todo feito de traumas e exagero. O quarto ainda traz o antigo cheiro Daquele corpo musculoso e amado, Que me abraçava em êxtase suado Prensando-me ao colchão e ao travesseiro. Gozo supremo e falta de ar... desejos À flor da pele arrepiada aos beijos De lábios quentes, ávidos, convulsos... E hoje na angústia, um ato apenas resta: Vou tirar o suor de minha testa Com fina lâmina cortar meus pulsos. 25.06.1993 E.Liana Pacchard

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História de um amor Quando a saudade no meu peito bate Minh’alma fica então desesperada – E eu entro no mais ácido combate E vou pensando e não dizendo nada. O pensamento, com razão, debate Com o impulso, e varo a longa madrugada Para que o coração – tolo mascate, Não se iluda e me deixe mais magoada. Mal amanhece o dia, ainda insone, Eu sinto o corpo rodopiar num cone E a angústia me atormenta e me delira... No fundo poço está a felicidade E eu acredito com insanidade Que o que disseste é uma cruel mentira; 26.06.1993 Samantha Rios

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História de um amor Desde que tu chegaste em minha vida Vivo a vida em total excitação; Em mim há uma fogueira sem medida Que em chamas faz arder meu coração. Se deste meu desejo alguém duvida Será preciso de imaginação, Desde que tu chegaste em minha vida Não consigo conter o meu tesão. É tanto a minha fúria e meu desejo Que me parece sempre curto o beijo Que tu me dás com tua fúria louca. E se mais quero o teu amor ardente, E quero no meu corpo tua boca, É que de teu amor eu vivo crente! 19.07.1993 Samantha Rios

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Desprezo Hoje, querido, vens dizer-me que eu Fui motivo de tua decadência, Porém, eu digo que não tens decência E tu que pirateaste o sonho meu. Lembro direito tudo o que ocorreu: Uma noite tiraste-me a inocência, Trataste-me depois com displicência Como se eu fosse lixo de museu. Mas sempre existe um colecionador – Bom apreciador de jóia rara – Que sabe achar as peças de valor. Sou hoje única numa coleção! Tratada como mármor de Carrara, Cuidado com carinho e devoção! 16.12.1993 E. Liana

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Ser mulher Sou mulher e é difícil ser mulher Num mundo dominado por machistas, Sempre sofro rasteiras imprevistas E sou julgada como uma qualquer. Em meus problemas botam a colher E dizem que preciso de analistas... Nas discussões eriçam suas cristas E me desprezam como um mal-me-quer! Ser mulher hoje em dia é ser heroína! Temos que ter idéias de menina E ocultar as vantagens que já temos... E os homens querem ser heróis em tudo: Choramos rindo em desespero mudo, Enquanto os tolos vão usando os remos. 23.04.1995 Samantha Rios

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História de um amor Ele chegou sedento dos meus beijos, E eu dos seus beijos ainda mais sedenta, Que unimos nossos lábios em desejos, Numa loucura insana, violenta... E nossas mãos, numa carícia lenta, Passeavam pelo corpo entre festejos, E corriam por entre a vestimenta Roçando a pele em musicais arpejos. E assim, nesta luxúria, na penumbra, Cálido, o olhar a semiluz vislumbra Corpos ardentes a implorar desejos. Ao redor placidez, sossego mudo, E nossos olhos entendendo tudo Na linguagem exótica dos beijos. 23.03.1995 Samantha Rios

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Nas alamedas Esta loucura insana que me invade Faz que eu me torne angelical poetisa. Me alimento de flores e de brisa, Ou de uma rima de felicidade. Andando pelas ruas da cidade Minha canção os campos arboriza, Aos pássaros eu sirvo de juíza Aplaudindo qualquer alacridade. Com essências de flores eu perfumo As alamedas da felicidade E com sonhos sublimes eu resumo O amor que chega em hinos de bondade, Que o sândalo recende qualquer rumo No infinito poema da Amizade! 23.08.1995 Martha Lopes

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História de um amor Depois de tanto tempo volta à ativa Tecendo ternamente, ternamente, A mesma história que me fez cativa, E que deixou-me o coração doente. Eu trago ainda na memória viva, (Como se fosse ainda meu presente) A ânsia, o desejo, a tola expectativa Que o meu amor retorne num repente. Leio o diário onde gravei, um dia, Todo o romance exótico e romântico Que nós vivemos cheios de alegria. E em cada página relida sinto As lágrimas de rimas para o cântico Que entôo ao ver o nosso amor extinto... 11.12.1995 Samantha Rios

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História de um amor Eu tenho uma vontade muito louca De me entregar a todo e qualquer homem, Quando insanos desejos me consomem E espasmos de prazeres vêm-me à boca. Frenéticas volúpias me carcomem E a fúria desta entrega não se apouca. Minh’alma geme de maneira rouca Quando insanos desejos me consomem. A mulher que há em mim, então, nest’hora, Dilacera preceitos, vai à luta E na entrega total tudo devora. Ao mastro do prazer oferto a gruta E meu corpo no amor se revigora, Pois ajo como ardente prostituta! 29.04.1996 Samantha Rios

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História de um amor Há dentro da minh’alma, a fantasia De ser possuída por um homem forte, Que carinhos me dê de toda a sorte Que nos espasmo maior desta alegria, Sinta flutuar meu corpo na magia Inebriante a este amor que me conforte; Me deixe sem saber o Sol e o Norte Quando radiante for raiar o dia... Desejo a este homem, entregar-me nua, Limpa de espírito, de corpo e de alma, À luz das velas ou à luz da lua. E após este desejo delirante, A ele carinhos dar como toda a calma, E ser eternamente a sua amante! 21.08.1996 Samantha Rios

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História de um amor Talvez ele não venha, mais que importa? Foram tantos caminhos percorridos, Foram tantos carinhos bem vividos Que a lembrança, jamais, torna-se morta. Pendurada num prego, atrás da porta, Marca a folhinha os dias esquecidos, As fotos mostram rostos esquecidos E a lembrança, no peito, me conforta... As flores murchas, pendem-se no vaso, O sonho vai vivendo o seu ocaso Numa desilusão que me acabrunha. E eu sozinha... de angústias eu me farto; O silêncio campeia no meu quarto E tenho a solidão por testemunha. 04.10.1996 Samantha Rios

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Maneira insana Quero-te de maneira mais insana Quero-te de maneira torpe e louca. É o delírio o que sinto e com a voz rouca Quero-te a cada dia da semana. Imperatriz dos sonhos – sou cigana! Quero morder-te com a minha boca, Quero-te no interior de minha toca, De maneira sublime e soberana! Meu Deus e meu Senhor! Quero-te agora Na volúpia da carne que flameja No delírio do sol que rasga a aurora. Na plenitude deste amor – escuta: Sou o corpo que ruge enquanto beija, Sou cadela no cio – prostituta! 10.02.1998 Ruth Nôvade

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História de um amor Quando, longe de ti fico um instante, Minh’alma quase morre de saudade, Pois não consigo, amor, ficar distante, Que o martírio sem fim meu peito invade. Tua ausência, de forma anavalhante, Sangra em meu coração sem ter piedade; E assim sozinha, a passos vou, errante, Bater de encontro à angústia em férrea grade. És meus passos na estrada a ser vencida! E teu viver ao meu é necessário Como o sol que ilumina a nossa vida. Mas se diverso é nosso itinerário, A razão de meus dias é perdida, E sonâmbula sigo atroz calvário. 22.05.1999 Samantha Rios

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História de um amor A minha História – ei-la num Livro enfim, Versos prontos com tinta cor-de-rosa. A inspiração pode chegar ao fim – Já não preciso ser meticulosa. Falem o que quiser... falem de mim, Mas da vida me sei toda orgulhosa. Uns dirão: – sua história é bem ruim Outros dirão: – tu és maravilhosa! Meus versos enfeixados num volume A outras mulheres vão causar ciúme E a muitos homens vão causar desdém... Porém, só quem viveu a sua História, A mim darão a verdadeira glória Pois eu soube contá-la muito bem. 21.08.1999 Samantha Rios

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História de um amor Estou sozinha com as minhas crises, Sofrendo a angústia em te saber distante. E na minh’alma, fundas cicatrizes, São feitas de maneira anavalhante. E já tivemos dias tão felizes, E já passamos horas tão vibrantes. E solitária sei que já não dizes Que sou a tua preferida amante. Ainda na penteadeira de meu quarto Teu retrato bonito me sorri E deste riso à solidão me farto. Mas nada a mim adiante ver-te aí, Porque, nossa alegria teve parto, E tu, querido, não estás aqui. 24.11.1999 Samantha Rios

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História de um amor Tão-somente a ilusão de ser feliz Faz que minh’alma, em densa claridade, Tanja os acordes da felicidade Numa canção que todos pedem bis. Pouco almejo que cure a cicatriz Que me lacera o peito, sem piedade, Por isso busco, com tenacidade, Que esta flecha do amor, me acerte o X. Sou, portanto, alvo exposto em campo aberto, Quero deixar meus dias de deserto, E ver a primavera me encontrar. E se também os mesmos sonhos buscas, Com teus olhos em brasas me chamuscas, Que irei queimar-me toda neste olhar. 13.11.2000 Samantha Rios

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História de um Amor Há quanto tempo já estou calada!... Ultimamente tinha me esquecido Que poderia achar na madrugada Um lenitivo ao coração sofrido. Porém, sem verso algum tenho vivido, Da poesia vivia abandonada. Tantos caminhos tenho percorrido, Que até deixei a minha bem Amada... Mas sonoro, outra vez, o verso canta E o estribilho fica repetindo Uma lembrança em luz que ainda me encanta. Sem querer outra vez estou sorrindo E ao reviver este momento lindo, O tal refrão fica a cantar: Samantha! Samantha Rios 17.03.2001

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História de um amor Quando em sussurros murmurei baixinho “Eu te amo, me amor!” meu coração Moldou-se à forma da fofês de um ninho E ficou repetindo esta canção. Depois senti o teu sensual carinho E meu corpo tremeu em explosão! Tua saliva transformou-se em vinho E entorpecida vi-me sem razão... E fiquei louca, louca, louca, louca, Cada vez que beijavas minha boca Mais dependente estive de seus beijos... E na loucura desta febre estranha, Fiz uma teia e – sensual aranha! – Emaranhei-te inteiro em meus desejos! 23.03.2001 Samantha Rios

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História de um amor Às vezes na poesia sou Samantha, Que chora suas dores, seus pesares... Outras vezes me cubro de luares E da paixão teço uma régia manta. Umas vezes a angústia me quebranta E dobo os sofrimentos em entraves. Outras vezes passeio por pomares E sorvo a fruta e minha vida canta! Às vezes vou atrás do fim do mundo Para ocultar as minhas fundas mágoas E viver meus momentos de agonia. Mas sempre sou Samantha e piso fundo: Brilho ao Sol e me lavo em puras águas E visto-me à roupagem da Poesia! 26.03.2001 Samantha Rios

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Ciclo Todos os meses sangro em meus sentidos, E vivo as minhas neuras... A cabeça Ferve, a cólica escapa em mil gemidos, – Nada mais há que tanto me aborreça. Para mim esses dias são sofridos, Capaz que uma catástrofe aconteça. Trago a razão e o senso irreprimidos... Natural que a Mulher isto mereça?! Sôfrega, expulso, em coágulos sanguíneos, Uma vida sem vida, infecundada, – Pensamento não há que me concentre. Com o olhar esparjo mil morteiros ígneos, Passam-se as luas, segue-se a jornada, E um novo ciclo forma-se em meu ventre. 15.07.2002 Samantha Rios

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Historia de um amor Samantha, sou aquela que te espera Ansiosamente pela noite afora. Sonho a vida em eterna primavera, E não me assalta a súbita demora. Ele vai vir a qualquer dia ou hora Matar a solidão que desespera... A noite sempre traz luzente aurora, De galhos secos faz florir-se a hera. Ele há de vir... e me deixar liberta, Da minha vida vai tirar a grade Há de trazer-me luz à estrada incerta. E por isso eu o espero em ansiedade, – Com ele hei de saciar minha vontade, A ele estará minh’alma toda aberta. 06.06.2004 Samantha Rios

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História de um amor A inspiração outrora tão latente Pensei que abandonado me tivera... Passou o inverno, veio a primavera, Veio o verão e o outono novamente. E eu calada, vivendo unicamente, De uma lembrança cheia de quimera. Tão longo foi o tempo, foi a espera, E agora a inspiração borbulha quente. Soube esperar... moldei o meu instinto Fui aprendiz, fui bruxa e feiticeira, Dancei Danúbio Azul com ébrios passos... Agora um novo amor mais louca sinto, Minha entranha referve-se à fogueira, Quando lasciva atiro-me em teus braços. Samantha Rios 29.06.2004

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História de um Amor Muitas vezes, em nome da saudade Teu nome n’alma fico murmurando. E uma canção de terna suavidade Deixa meu coração num sonho brando. Muitas vezes, com forte intensidade, Na loucura de ainda estar te amando, Procuro decifrar a insanidade Mas esquecer-te mesmo, não sei quando... Muitas vezes, absorta, olhando a lua, Eu me esqueço dos traumas que me deste E solidária vou dentro de mim. Mas muitas vezes, desvairada, nua, Todo o passado volta como peste Parecendo que nada teve fim. 26.07.2005 Samantha Rios

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História de um amor Depois que me roubaste aquele beijo Passei a te querer de tal maneira Que minh’alma possuída de desejo, Passou a ser a tua prisioneira. A minha mente vive em tal ensejo De ser todinha tua, por inteira, E ao sentir os teus dedos em cortejo, O meu corpo parece uma fogueira. O beijo foi roubado com perícia, Mas não vou denunciar-te na polícia Mas vou querer de volta, pode crer, O tal beijo roubado com delícia, Porque minh’alma treme de malícia Que novo roubo possa acontecer... 18.01.2006 Samantha Rios

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