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KALUMBONJAMBONJA

QUE CASOU COM UMA ALMA DO OUTRO MUNDO)

O HOMEM QUE CASOU COM UMA ALMA DO OUTRO MUNDO

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AVISO DO ROMANCE: Abro uma frente contra o individualismo liberal, que reduz tudo o que envolve a Humanidade a mera economia, e contra o totalitarismo que faz desaparecer o indivíduo dentro da máquina absorvente do Estado e da Religião, proclamo que somente numa sociedade com vida própria pode desenvolver-se a liberdade concreta a que a humanidade tem direito. O moto “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (“Igreja Reformada e sempre reformando-se”) continua vigente. Quero reforçar a sociedade como travão ao Estado e a Religião, a fim de proteger e promover a liberdade do Individuo. Corresponde ao Estado a função de coordenador político, para manter a unidade teológica e orgânica do corpo social, dirigindo, vigiando e impulsionando a vida colectiva. Through the grace of our Lord YAOHUSHUA (Jesus), the love of G-d, and the communion of the „Rukha Hol-Hodshua (Holy Spirit), I trust in the one triune G-d (YAOHU ULHIM), the Shuam (Name), the Holy One of Yaoshorul (Israel), whom alone I worship and serve (gamc.pcusa.org). God comes to us in free and undeserved favor in the person of YAOHUSHUA who lived, died, and rose for us that we might belong to G-d and serve Mehushkhay (Christ) in the world. Following YAOHUSHUA, Presbyterians are engaged in the world and in seeking thoughtful solutions to the challenges of our time. Presbyterians affirm that G-d comes to us with grace and love in the person of YAOHUSHUA, who lived, died, and rose for us so that we might have eternal and abundant life in him. As Mehushkhay‟s (Christ‟s) disciples, called to ministry in his name, we seek to continue his mission of teaching the truth, feeding the hungry, healing the broken and welcoming strangers. G-d sends the „Rukha Hol-Hodshua (Holy Spirit) to dwell within us, giving us the energy, intelligence, imagination, and love to be Mehushkhay‟s (Christ‟s) faithful disciples in the world. More than two million people call the Presbyterian Church, http://www.pcusa.org/, (in the U.S.A.) their spiritual home. Worshipping in 10,000 Presbyterian congregations throughout the United States (also in other countries and cities like the city of Braga, Portugal [NOT DIRECTLY CONNECTED BUT INSPIRED BY]: Apresento-vos, amados santos (consagrados) do D-us Ela-Ele/Ele-Ela Eterno, formalmente a MINHA AMADA IGREJA/OHOLYAO/CONGREGACAO OFICIAL, no meu magnifico site/sitio: wix.com. IGREJA BAPTISTA (PRESBITERANA) PENTECOSTAL – Vias Prebendas digna duma lauda ou de um asteismo. Rua de S. Martinho, 9 / Rua Manuel Alvares, 9, Braga (Abaixo dos Bombeiros Municipais; em frente da gasolineira “BP” – Sapadores) C.P./Cidade: 4700 Braga Horários: Terça: 20:30/21:00 (Verão: 21:00); Sábado: 19:00 hrs; Telemóvel oficial do Pastor: 96 480 35 40 “ESCRITURAS OFICIAIS”: verdadesquelibertam.wordpress.com They engage the communities in which they live and serve with G-d‟s love.


"O Homem que casou com uma Alma do outro Mundo" OS BAILUNDOS - KALUMBONJAMBONJA" – TOMO INTEGRAL

KALUMBONJAMBONJA (O HOMEM QUE CASOU COM UMA ALMA DO OUTRO MUNDO)

ROMANCE – AUTOBIOGRAFICO ANGOLA OS BAILUNDOS

(AS SUAS ORIGENS, AS SUAS TRADICOES E CULTURA, OS SEUS MITOS E SUPERSTICOES, OS SEUS PECADOS/CRIMES, PADECIMENTOS COM AS GUERRAS E A CHEGADA DO EVANGELHO INTERPRETADO PELA TRADICAO REFORMADA E EVANGELICAL)

ARMANDO RIBEIRO SIMOES


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Introdução A nação de Angola e vasta e tem muitas tribos, e cada uma delas tem a lingua ou dialecto, os seus costumes e a sua origem. Todos os povos do mundo têm cada um deles a sua história e estorias. Acontece porem, que para muitos desses povos as suas tradições são desconhecidas. Muitos africanos confiam mais nas feitiçarias e em tudo o que os europeus cultos e nada dados a sincretismos religiosos consideram como superstições. O feitiço na África tem dado bons resultados aos seus possuidores, visto que e uma obra do Diabo (leitura da teologia crista tradicional e que e a postulada por este escritor, um metodista ortodoxo). Há muitos tipos de feitiçarias e os seus ingredientes são restos de cadáveres que eles desenterram dos cemitérios durante a noite; também recorrem as raízes e folhas de certas e determinadas plantas, ídolos, etc. As fezes humanas também desempenham importante papel nas feitiçarias dos africanos. Seria bom se houvesse a história de um Povo. Todas as nações ocidentais tem a sua historia que e leccionada nas escolas. No tempo colonial português, em Angola, estudávamos a história de Portugal juntamente com a da nossa terra, sem falar a respeito de outros povos. Citava-se portugueses ilustres como Diogo Cao, descobridor de Angola, e outros mais. Ao longo dos tempos, os Bailundos nada tem escrito quanto a sua própria historiai, e do que dela se sabe tem sido transmitida de pais para filhos oralmente e por meio das tradições entre o povo. Assim, como os mais velhos vão desaparecendo, corre-se o risco de se extinguir as verdadeiras origens dos seus costumes e dos seus feitos, os quais bem poderiam ser o fundamento da sua história. Costuma dizer-se que um velho e um museu de antiguidade. Por conseguinte, muitos dos que poderiam narrar a história e estorias já desapareceram. Os instrumentos musicais tradicionais, como o ombumba, o ochissanji, o cacheque, que tem a forma dum violino, o olombendo, parecido com a flauta, e outros, já desapareceram. As danças tradicionais também vão desaparecendo. Os Bailundos optaram pela civilização dos povos europeus e deixaram por completo todos os costumes dos seus antepassados. Hoje em dia, qualquer adolescente angolano não sabe como os portugueses maltratavam os seus antepassados. A verdadeira origem dos Bailundos (vide nota de rodapé “i”) não é conhecida; apenas se sabe que o seu primeiro rei, de nome Katiavala era originário das terras do Kuanza Sul, era caçador de elefantes e pertencente a tribo Goya. De Katiavala ate a independência de Angola tinham reinado mais de quarenta reis, e dos quais só se destaca Katiavala, Ekuikui II, que foi quem recebeu os primeiros missionários cristãos de confissão reformada, o de cognome “Numa”, que tinha o epalanga (era vice rei) de nome Matuyakevela e que em 1903 lutou contra os portugueses, e por ultimo Kandimba, a quem Lisboa, em 1918, usou para massacrar a tribo dos Seles. O passo seguinte foi destruir todo o poder que os reis tribais e tradicionais tinham, desrespeitando toda a cultura dos Bailundos. Os sobas (reis) eram os cobradores de impostos indígenas, sendo submetidos a palmatoadas, chicotadas e outros castigos severos, caso levassem pouco dinheiro as autoridades dominantes. Eu pessoalmente vi os sobas serem espancados severamente.


Angola,

como as outras nações, tem muitos lugares dignos de serem turísticos, mas os portugueses, que a governaram durante longos tempos, não tinham interesse nessas coisas. Tenho encontrado muitos sítios onde viveram esses primeiros povos, “talvez muito antes de Cristo”, murados de pedras, e que são dignos de admiração. Os cacos das panelas de cerâmica espalhados por vários locais demonstram que estes Bailundos vieram de tempos remotos. Quando trabalhei com o governo português como recenseador no Concelho do Mungo, de todas as vezes que ia recensear a população do sobado (o território governado por um soba) de kaiumbuka, presenciei as muitas e maravilhosas pinturas duma caverna, cujo nome e Kewe lia yolua, que significa “Pedra pintada”. Ninguém dava valor aquelas pinturas, ate que um dia falei delas perante o secretario do Concelho que interessou-se muito por elas. Levei-o até onde as tais pinturas se encontravam, Depois foi publicado num jornal e, por tal motivo, passou a ser lugar turístico. Era visitado por muita gente de Angola e ate mesmo por sul-africanos. Dizia-se que por ali haveria de passar uma estrada asfaltada para ter melhor acesso ao lugar. Estas pinturas passaram a ser conhecidas como “Pinturas Rupestres do Kanili”. Outro morro de pedra, também de grande realce, encontra-se no sobado Neguenje, onde eu também ia fazer o recenseamento. O referido morro, com um comprimento enorme, podia conter mais de 5 mil pessoas. E uma caverna muito escura, e para ali entrar e necessário utilizar iluminação artificial. Dizem que antigamente refugiavam-se ali as pessoas que fugiam das guerras e para o abastecimento de agua ou quando iam em busca de lenha. Tem três entradas pequenas, uma para o lado do sul, outra para o lado do rio vizinho, e o terceiro para o lado da floresta. A agricultura recorria a riqueza dos excrementos dos morcegos, que ali faziam o seu habitat, e que depois são utilizados como adubo para os campos. Quero que saibam que os rios kulele e kukai e a Missão Evangélica Reformada do Bailundo abrigam um grandioso monumento muito antigo de grande destaque, feito pelo homem, “talvez mesmo antes de Cristo”. E um grande morro feito de terra e pedra, e feito muito provavelmente por muitos milhares de pessoas. Os construtores daquela obra abriram uma vala profunda com a largura de cerca de dez metros; a terra da escavação era transportada para determinado lugar onde formou um monte grande que calcaram com pedras. A antiguidade daquele monte prova-se pelas árvores centenárias que nele nasceram e que nele continuam em pé. De todas as vezes que o tenho visitado fico “de boca aberta”, e o considero como igual as pirâmides do Egipto, e ninguém sabe qual a sua utilização. Uns dizem que era o túmulo de um rei tribal, outros, uma torre de vigia, e a vala que atingia os dois rios era uma espécie de trincheira de guerra. Outra maravilha natural encontra-se junto da Missão Católica do Bailundo e da aldeia de Chissanji. Trata-se dum poço muito profundo, aberto numa rocha, chamado Ombia Yondungo. Quando se lança uma pedra para o seu interior, ouve-se ela a bater nas paredes do poço durante bastante tempo antes de bater no fundo. Um padre francês utilizou dez novelos de barbante, tendo amarrado uma pedra na ponta do fio de um novelo, fez descer ao poço a pedra, e quando o novelo terminou ligou-lhe outro novelo, até contar os dez novelos, e mesmo assim sem chegar ao fundo, e cada novelo tinha cerca de 500 metros. Na minha opinião este buraco devia ser explorado, provavelmente sendo um depósito de petróleo. É um poço histórico, porque a tradição diz que antigamente lançavam para lá todas as pessoas acusadas de feitiçarias. O autor

Trabalharam como revisores deste trabalho de autor: José Júlio Vieira Fernandes (Diácono da Igreja Evangélica Metodista de Braga)


6 Braga, 26 de Fevereiro de 2009 Luís Manuel da Silva Magalhães (Élder [Ancião de orientação Baptista Particular e calvinista] congregante da Igreja Baptista Pentecostal de Braga) Braga, 12 de Maio de 2010


Prefácio à obra de Armando Ribeiro Simões Pelo Diácono Metodista Conservador e Criacionista José Fernandes. Foi para mim muito gratificante e proveitoso reescrever este trabalho a pedido do seu autor, trabalho este que apresenta com bastante clareza a maneira de viver de um povo lá dos confins africanos, povos estes que foram dominados e explorados, por vezes com bastante dureza e desumanidade pelos seu colonizadores, segundo relata quem escreve, e durante séculos, e da forma como eles pensavam acerca da vida e dos seus mistérios que pode ser comparada com a forma de viver e de sentir de muitos outros povos do mundo e que poucas diferenças apresentam. É que quando o Criador de todas as coisas criou o ser humano, todo ele foi feito com a mesma sensibilidade divina, feita da mesma massa, fez uma espécie apenas, todos feitos à imagem e semelhança de Deus, todos iguais, por isso é que todos têm os mesmos direitos bem como os mesmos deveres, uns para com os outros e todos para com Deus. No seu instinto todos percebem que estão dependentes de um Espírito Superior que governa o universo, O qual não é perceptível aos olhos humanos mas sentido através dum Juiz que o Criador colocou em cada ser humano que nasça neste mundo, o que não aconteceu com qualquer outra criatura da Terra, cujo Juiz controla todas as sensibilidades deste ser, quando este faz o bem mas sobretudo quando ele pratica o mal; este Juiz é conhecido por todos e todos o sentem, mais conhecido por Consciência humana. Qualquer um destes seres, seja mais civilizado ou menos civilizado sabe muito bem quando pratica uma maldade que lhe irá depois pesar no seu subconsciente, pois percebe que depois terá que disso prestar contas diante dum ser supremo. Ora a Consciência pode funcionar para o bem da criatura, mas também é o causador de muitas perturbações mentais que têm infelicitado muita gente e a faz sofrer de muitas formas. Mas este Juiz não foi colocado em qualquer outra criatura nascida no planeta Terra, por maior que seja ou por maior que tenha o seu cérebro, o que faz com que ele depois não tenha quaisquer perturbações no seu instinto quando tenha que matar para sobreviver. Ele mata e dorme sossegadamente. Mas todos os povos, feitos à semelhança do Criador, passam também eles a capacidade de criadores, criam depois os seus costumes, criam as formas mais práticas para a sua sobrevivência, seja dentro da selva ou na cidade, usam a sua imaginação para criar o que pensa que lhes faz falta para a vida. Todos sabem também que têm uma vida limitada na terra, e instintivamente sabem que depois do envelhecimento virá a morte, sabendo também, instintivamente, que irão para um outro lugar desconhecido. Mas de povo para povo existem muitas diferenças, na forma de pensar, na forma de sentir, na forma de se relacionar com os outros, na forma de perceber a vida, na forma de se governar, o que atesta a capacidade do ser humano em ser diferente mas sempre igual ao seu semelhante, e essas diferenças nós as poderemos apreciar nos vários itens aqui relatados, o que nos impressiona bastante. O autor destas histórias/estórias, que segundo sei é filho de pai branco, da região da Beira Alta, e de mãe negra, ele envolveu-se profundamente na forma de viver do povo onde nasceu, o Bailundo, na região angolana de Huambo que, segundo ele testemunha, até ele mesmo declarase vítima de feitiçarias, o que me impressiona ainda mais, pois esta situação acontece-lhe já mesmo depois de ter-se convertido a Cristo através dos evangélicos metodistas de origem americana, segundo o seu próprio testemunho. Pelas histórias aqui descritas, muitas delas com o português misturado com o umbundu a língua falada entre os bailundos, em que muitas destas histórias/estórias são o testemunho do autor como fazendo parte das mesmas, percebe-se que estava bem integrado na cultura e costumes deste povo; que apesar de ser uma mistura de africano com europeu, era pessoa com uma cultura acima da média africana, criado numa família de bem, conhecedor das origens, tradições, mitos, superstições e pecados/crimes do povo onde estava inserido, testemunhando também da presença dos brancos e do seu comportamento para com os negros, mas também testemunha a chegada dos trabalhos missionários, quer católicos, quer protestantes com as suas diferenças, e da importância da mensagem Evangélica para o seu povo. O autor apresenta todo o conhecimento histórico desse povo, porque além de o ter adquirido na sua formação escolar, também o ensinou a muitos dos seus alunos no período em que leccionou como professor primário, e aprofundando estes conhecimentos quando trabalhou para o Estado Português como funcionário público na área do recenseamento das populações nativas,


8 contactando directamente nas suas aldeias o próprio povo, perguntando acerca de todas as histórias, as suas origens e sentido das mesmas e depois vivendo com elas. Mas também testemunhou e participou nos acontecimentos políticos que viriam a transformar Angola, e que quase a destruiu, primeiro numa guerra de libertação da sua situação de colonizados para a independência, conflito este que agravou a vida de todos os angolanos pela reacção negativa dos colonizadores, que terminou com o 25 de Abril em Portugal, mas também testemunha a guerra civil, a qual iria colocar toda a nação ainda em pior situação por causa das lutas ideológicas e políticas que dividiu o povo, mas sobretudo testemunha muitos dos crimes cometidos pelos líderes angolanos contra pessoas inocentes, que esperavam que a sua guerra contra Salazar lhes trouxesse o bem estar que nunca haviam tido, mas que se desiludiram com os seus próprios líderes que acabaram por suportar uma guerra ainda mais destruidora e mais demorada, e que terão de esperar muitos anos ainda para melhorarem a sua situação, política e social, bem como noutras áreas da vida. Acabou por ter de fugir da sua própria terra, para este africano mestiço uma terra madrasta, refugiando-se em Portugal, onde adquiriu dupla cidadania, uma vez ser filho de um cidadão português. Braga, 15 de Março da 2009 José Júlio Vieira Fernandes


TOMO I A criação do mundo e do primeiro homem Quem percorrer o território angolano, ao chegar ao centro do país entre os paralelos 12 e 14, encontrará um povo destacado, nobre e delicado: os Bailundos, pertencentes à etnia Ovimbundu ou Imbundu, cuja língua é umbundu. Trata-se duma língua tão rica como a língua portuguesa, especialmente na tradução das Sagradas Escrituras, sendo a mais falada em Angola, sobretudo nas províncias do Huambo, Benguela e Bié. No entanto, esta língua é falada em todas as províncias de Angola, até mesmo em Luanda, cidade habitada maioritariamente habitada pelo grupo étnico Kimbundu, onde é usual ouvir-se nas ruas pessoas falarem umbundu, e sendo também falada fora de Angola. Dou-vos dois exemplos para ilustrar: Conta-se que uma vez em Lisboa num autocarro estavam dois homens sentados de fronte duma senhora muito bonita; para evitar que os presentes compreendessem o que diziam resolveram falar em umbundu dizendo: -Ukai u wa puai lua! (Esta mulher é muito bonita!) – De repente ouviu-se uma voz, dentro do espaço partilhado, que dizia: -Wa fina puai o wange! (De facto é bonita mas é minha!) A minha mulher foi certa vez ao Canadá. Uma ocasião, ao ouvir muitas pessoas falarem em português, disse a alguém que a acompanhava: -Kulo Kulivo va português? (Aqui também há portugueses?) Imediatamente interveio alguém que em umbundo retorquiu: -Ava valiva mola cimue? Vova enda ovo chilili, chilili… (Estes não podem ver nada? Ei-los a andar em grandes grupos…) Soku Muito antes do Evangelho de Cristo ter chegado aos bailundos, estes já sabiam que havia um Deus, Soku, um Ser omnipotente, Criador do Mundo e de todas as coisas que nele existem. Não só sabiam isto como também confiavam plenamente n‟Ele, considerando-o benigno e misericordioso. Se alguém escapasse de algum perigo logo dizia: -Suku wa nu atisa! (Deus ajudou-me!) Na concepção tradicional dos bailundos, um doente mesmo que estivesse perante um médico ou curandeiro, só se curava se Suku quisesse. Por isso é costume dizer-se: -Suku a kuece oco ovimbanda vi li pande oku sakula (Que Soku te dispense para os curandeiros se vangloriarem). Os bailundos consideram Soku como a fonte de toda a luz, e por isso julgam que Ele vive perto do Sol. De acordo com a sua tradição, Soku mandou descer do Céu um Ochinjila (uma ave gigantesca), que ao chegar ao espaço ocupado pelo nosso planeta pôs um ovo no ar, que cresceu até atingir as proporções deste mundo. Desta maneira foi o mundo criado. Depois de ter criado o mundo, Soku desceu à Terra, pousando nas rochas, nas margens e junto à foz dos rios Cunene e Cumbongamua. As pegadas de Soku ficaram naquelas rochas juntamente com as do seu cão, o arco e as respectivas flechas. Estas marcas continuam gravadas até ao dia de hoje. A descida de Soku à Terra, passando por estas rochas, denomina-se Feti, o que significa Génese. Infelizmente o local onde se encontram estas pegadas atribuídas a Soku, foi coberto pelas águas de uma barragem que ali construíram. Depois de ter criado o mundo, chegou a vez de criar os homens. Para o efeito, Soku utilizou dois caldeirões de barro com as respectivas tampas. Num meteu os homens brancos e no outro os negros. Aqueles caldeirões serviam de viveiros, pois os homens eram pequeninos como os percevejos e tinham uma propriedade que os fazia crescer.


10 Enquanto os homens cresciam nos caldeirões, Soku prosseguia com a sua obra criadora abrindo o mar e os rios. Todos os rios dirigiam-se para o mar, e com o lodo destes Soku formou as montanhas, e todo o tipo de elevações. Depois de ter criado os rios, Soku fez chover torrencialmente durante alguns dias até os rios se encherem juntamente com o mar. Quando chovia desciam do Céu, como gotas de água, todos os animais aquáticos. Em seguida Soku criou os vegetais, chamando-os pelos nomes, em função de cada espécie dizendo: -Que venham as árvores de Mako. As árvores de mako desceram do Céu e enraizaram-se na terra. Soku fez assim com todas as árvores que se encontram no planeta, como por exemplo: -Sesse, Capilangau, Uncha, Mone, Nundo, Ussamba e tantas outras. Os arbustos e as ervas também foram chamados da mesma forma, um de cada vez, e os nomes mantêm-se até aos dias de hoje. Desde então a terra passou a ter água, frutos e cereais, para poder alimentar os seres vivos. A seguir à criação dos vegetais, procedeu à criação dos outros seres vivos. Tal como acontecera com os vegetais, Soku foi chamando por cada espécie: -Que venham as palancas; e as palancas desciam do céu e pousavam na terra. -Que venham os leões; estes desciam do céu e pousavam na terra. Soku fez assim com todos os outros animais que existem, tantos os domésticos como os selvagens. Por último chamou pelas mulheres, começando pela raça branca e depois pela raça negra. Assim ficou concluída a criação do mundo. Depois Soku foi abrir os caldeirões de barro que continham os homens. Nesta altura já estavam crescidos, e Soku lhes entregou o reino da terra bem como lhes deu directrizes sobre a forma de governar o mundo e lhes ensinou as directrizes sobre a forma de governar o mundo e lhes ensinou as “tecnologias”. Primeiro foi abrir os caldeirões de barro que continham os homens brancos que, obedecendolhe, logo saíram e O seguiram. Depois foi abrir a tampa do caldeirão que continha os homens negros, dizendo-lhes que saíssem para O seguirem. Porém, tal não foi possível, pois muitos deles não permitiam que os outros saíssem. Sempre que um deles tentasse sair, era logo impedido pelos outros que o puxavam pelas pernas. É desta forma que os bailundos explicam o “atraso tecnológico” que se verifica entre os africanos em relação aos “países mais desenvolvidos”. Após Soku ter concluido toda a sua obra criadora, surgiu uma contenda entre os animais e os homens. Uma leoa tinha 5 filhos e sempre que ia à caça deixava-os ao cuidado de um cão, na qualidade de ama-seca. No primeiro dia, na ausência da leoa, o cão comeu um dos filhotes. Quando a leoa regressou ordenou ao cão que lhe trouxesse as crias, uma de cada vez para se amamentarem. O cão, para que a leoa não desse conta, levou um filhote e em seguida levou outro duas vezes. Como eram todos muitos parecidos a leoa não se apercebeu. No dia seguinte, na ausência da leoa, o cão comeu mais um dos leõezinhos, ficando menos três. No terceiro dia o cão voltou a comer mais um e restaram dois. Quando a leoa chegou, e como era usual pediu ao cão que trouxesse os filhotes. Então o cão usou a mesma estratégia, perfazendo sempre o número de cinco. No dia seguinte quando a leoa saiu para caçar, o cão comeu mais uma cria, restando apenas uma. Quando a leoa chegou e pediu ao cão para trazer os seus filhos, este pegou no que restava e levou-o à leoa cinco vezes consecutivas. No outro dia o cão aproveitando a retirada da leoa, comeu o último filhote dela. Por conseguinte o cão não tinha outra alternativa senão fugir, pois sabia que, sem dúvida, seria perseguido. Assim procurou um refúgio seguro de forma a escapar à vingança da leoa. Durante a fuga, os primeiros seres que encontrou foram as galinhas a quem disse:


-Mostrem-me como é que vocês lutam para eu ver se são capazes de derrotar o inimigo que me persegue. As galinhas lutaram às bicadas, e o cão disse: -Vós não podereis lutar contra quem me persegue. -Quem te persegue? – Perguntaram as galinhas. -É a leoa. – Explicou o cão. As galinhas ouvindo que se tratava da leoa, também tiveram medo e começaram a fugir juntamente com o cão. Entretanto a leoa foi à caverna onde costumavam estar os filhotes e dizer ao cão que lhe trouxesse as suas crias para as amamentar. Nem vivalma! Nem o cão nem os filhotes estavam ali. Assim, orientando-se pelo faro saiu em perseguição do cão com o intuito de o aniquilar. O cão, sempre a fugir, encontrou os cabritos e disse-lhes: -Mostrem-me como lutam. Os cabritos lutaram com os chifres em riste e o cão lhes disse: -Nem tampouco vós sereis capazes de vencer aquele que me persegue. E os cabritos perguntaram: -Quem te persegue? -É a leoa! – Respondeu o cão. Os cabritos, sabendo que ela não tardaria a chegar, também se juntaram ao grupo fugitivo. O cão continuou a correr até se encontrar com os porcos e pediu-lhes que lhe mostrassem como costumavam lutar. Também estes lutaram com os focinhos em riste e o cão logo lhes disse: -Vocês não conseguirão lutar com aquela que me persegue. -Quem te persegue? – Perguntaram os porcos. -É a leoa! – Disse o cão. Ouvindo isto, também os porcos se puseram em fuga seguindo o cão. Depois o cão encontrou os bois e lhes pediu: -Mostrem-me como é vocês costumam lutar. Os bois começaram a lutar e o cão lhes disse: -De facto vocês têm muita força e penso que bem poderiam derrubar a leoa que me persegue. Os bois ao saberem que a perseguidora era a leoa, encheram-se de medo e incluíram-se no grupo que seguia o cão; e também fugiram. O cão rodeou-se de todos os animais, que se denominam de domésticos, e viu que não podia socorrer-se de nenhum deles perante a eminência de ser apanhado pela leoa. Por fim o cão encontrou as mulheres. Primeiro as de raça branca que estavam à sombra duma frondosa árvore, tinham espelhos e penas nas mãos com as quais tratavam os cabelos. O cão quando lá chegou, pediu-lhes que lhe mostrassem como lutavam. Elas fizeram-no dando chapadas e pontapés umas às outras. Face a isso o cão disse: -Vocês são muito fracas e por isso incapazes de derrubar a leoa que me está a perseguir. As mulheres brancas, ao ouvirem falar da leoa ficaram assustadas e prontamente meteram-se no grupo dos animais que fugiam com o cão. Um pouco mais adiante o cão encontrou as mulheres de raça negra que estavam a cavar olonguesso (capim que produz nas raízes uns tubérculos do tamanho de ervilhas com gosto a coco) e disse-lhes a mesma coisa: -Mulheres de raça negra mostrem-me como lutam! As mulheres negras pegaram nas suas pequenas enxadas atirando-as umas contra as outras. Mas logo o cão argumentou: -Da maneira como vocês lutam não sereis capazes de derrubar a leoa que vem perseguindo-me. Ao ouvirem falar da leoa, as mulheres negras fizeram como as brancas e puseram-se em fuga imediatamente. O cão continuou a fugir juntamente com os outros seres que os acompanhavam. Momentos depois chegaram a um grande quimbo (aldeia) cercado de pau-ferro que era a residência de homens de raça branca e negra. Pedindo autorização para entrar, pediu que os homens lhe mostrassem a forma como lutavam. Então eles pegaram em armas (não especificam o tipo de armas, visto as armas de fogo terem vindo para África pelos europeus) e começaram a lutar. Então o cão disse:


12 -Sim senhor! Vejo que serão vocês capazes de derrubar a minha perseguidora. -Quem te persegue? – Perguntaram os homens. -É a leoa. – Respondeu o cão. Os homens disseram que seriam capazes de derrotar a leoa, e depois de deixarem entrar no cerco todos os animais que acompanhavam o cão bem como as mulheres, disseram ao cão que devia ficar no portão como vigilante e que ladrasse logo que a leoa aparecesse, o que não tardou a acontecer, pois logo surgiram a leoa na companhia do leão. Quando este os viu pôs-se a ladrar para alertar os homens, que prontamente, pegaram nas suas armas. A fêmea que apareceu primeiro foi atingida em cheio e caiu morta. O macho, vendo a leoa estendida no chão, tentou reagir acabando também por ser atingido. Deste modo o cão livrou-se da leoa e resolveu ficar com os homens. Passou assim a ser guarda, sendo esta a razão porque ainda hoje ladra sempre que dá conta do aparecimento de alguém que seja estranho, seja homem seja animal. Quanto aos outros animais que acompanhavam o cão decidiram não mais voltar para a mata, e daí também passaram a ser considerados como animais domésticos até hoje. Por sua vez os homens apreciaram de tal modo a presença das mulheres, que não as deixaram ir embora e ficaram a viver com elasii. Depois da vitória do homem sobre o leão, o deus Suku (talvez uma referência velada e sincretista a Dus) apareceu novamente para distribuir as pessoas pelos locais onde se encontram actualmente. Juntou um varão com uma mulher iii, abençoou-os, deu-lhes uma linguagem para comunicarem-se e enviou-os para que formassem uma nação; dizendo-lhes: -Ide, frutificai-vos e multiplicai-vos. – E assim formaram-se todas as nações. Por fim o deus Suku voltou para a Sua residência celestial que se encontra no Céu perto da Estrela denominada pelos homens como “Zam/Sol”iv. Onjembo e kalunga Na concepção tradicional os bailundos acreditam que os seres humanos têm uma alma que se desprende do corpo, assim que a pessoa morre. Em Umbundo, a alma de uma pessoa enquanto viva chama-se Ochilulu ou Ukuassuku, o que significa “o que é de deus”, e como tal, pode também operar milagres como o próprio deus Suku: como meter lodo numa casa com as portas fechadas; disparar sem arma uma bala e matar alguém; deixar cair uma faísca sobre alguém quer em tempo seco quer em tempo chuvoso; pode inclusivamente, produzir milho numa lavra, assim como outras acções impossíveis de serem realizadas pelos humanos. As almas dos malfeitores vão para o Onjembo onde são torturadas “eternamente”v, mas os bailundos não descrevem os tipos de torturas que lá existem. Certamente, onjembo significa infernos (termo judaico) ou inferno (ausência do Eterno) segundo as igrejas cristãs tradicionais não inclusivas ou a teologia sincretista dos bailundos. Por exemplo, pode citar-se a tradução bíblica do português para umbundu, onde “infernos/inferno” foi traduzido mesmo para “onjembo”. As almas dos benfeitores “vão para kalunga” (entender como o “Seio de Suku”) onde irão desfrutar da glória do seu deus plenamente transcendente, uma divina providência definida como sui generis (ritosdeangola.com.br). Os benfeitores bantos enquanto vivos gozam da companhia da magia, dos espíritos. Só muito excepcionalmente recorrem a Suku. E a divindade preserva assim a sua distância da carnalidade, da impureza. O banto preserva a autodeterminação quase plena. O ser humano é contingente: ser e não ser. Felizmente. Entre este grupo étnico os sonhos ocupam um lugar especial, sobretudo pelo facto da pessoa falecida poder ou não ser sonhada pelos seus familiares. Assim, se uma pessoa falecida não aparecer nos sonhos de alguém, é sinal de que foi para onjimbo de onde não pode sair; caso contrário indica que a alma tenha ido para Kalunga ao lado da divindade. Torna-se fácil deduzir que Kalunga corresponde ao místico “Paraíso ou Pomar da Várzea” celestial conforme ensina a religião cristã. É, no entanto, de referir que todas as almas, quer as que vão onjembo quer para Kalunga, têm vida eterna (entenda-se na vox populi vi semita [que corresponde literalmente ao “baixo rabinato”]: “óhlam”, na interpretação hebraica popular seria “eterno” mas é uma posição que é limitativa historicamente para os letrados Rabinos, para o


altovii sacerdócio moral e intelectual), uma vez que ali não existe mais a morte. A inexistência da morte é, geralmente, ilustrada com a seguinte história entre os bailundos: Estava-se no tempo do Eyele (trata-se da “Grande Festa” de todos os quimbos, de todas as aldeias e povoações da região). Todos os quimbos estavam agitados devido ao grande acontecimento do Eyele. Os presentes sentiram-se, em dado momento, incapazes de beber tanto Kimbombo (bebida feita de farinha de milho). Fazia-se pirão ao ar livre e carne assada em grandes fogueiras. Havia espectáculos para entreter as pessoas. Durante as noites, o povo dançava ao som do batuque no ochila (campo de danças). Um homem de nome Kalumbonjambonja, depois de ter dançado muito, resolveu à meia-noite abandonar a dança e ir para casa dormir, já cheio de sono. Era uma noite de muito luar. Tendo caminhado uma pequena distância quando, perto do alumbo (cerca de estacas de madeira à volta de um quimbo [povoação]), viu uma moça toda vestida de branco. Kalumbonjambonja assim que a viu, estando ela sozinha, cumprimentou-a dizendo: -Akuku? -Kuku. – Respondeu ela. -O que fazes aqui? – Perguntou Kalumbonjambonja. -Estou à procura da minha gente que não me aparece. – Respondeu a moça. -Onde é o teu quimbo? – Perguntou ele. -Eu venho do Kalundo (cemitério), explicou a moça. Agindo de conformidade com o costume bailundo, designado por Oku tumisa (dormir com uma mulher mas sem ter relações sexuais), convidou-a para pernoitar em sua casa, sem saber que ela era uma alma do outro mundoviii. Ela aceitou o convite e seguiu Kalumbonjambonja. Já em sua casa, entraram. Ele que era solteiro, mostrou-lhe a cama, foi à cozinha onde havia fogo, e acendeu capim para fazer luz. Kalumbonjambonja quando chegou ao dormitório viu que a moça era muito bonita mas ela o alertou dizendo-lhe: -Não te aproximes de mim com o fogo; na minha terra nuca usamos fogo. Aquela noite foi para os dois uma anfitriã plena de prazeres. Apesar de se resumir a carícias, sem as relações sexuais (coito) consumadas. Entretanto Kalumbonjambonja assim que ia tendo contactos com o corpo da rapariga, notava que o corpo dela estava muito frio. Apesar disso, e como estava visivelmente apaixonado (uma paixão descontrolada e utópica nocenteix -baixa irracional e perigosa de serotonina no cérebrox), perguntou-lhe se queria se casar com ele, ao que ela respondeu afirmativamente. Momentos depois acordava o dia em que Kalumbonjambonja devia ir pedir aos pais dela a mão da moça e todas as outras coisas relativas ao casamento, tal como era o costume dos bailundos. No entanto, e a pedido da noiva, excluiuse o acto de pedir-se a mão. De modo que, dentro de alguns dias ela voltaria ali e realizariam o casamento. De manhã muito cedo ela disse que queria ir para o seu quimbo e que ele lhe desse uma galinha de oniane (galinha branca) por aquela noite. Kalumbonjambonja foi à capoeira procurar a galinha branca e lha entregou. Antes da noiva vestida de branco despedir-se, ele então perguntou-lhe pelo seu nome, e a rapariga disse-lhe que chamava-se Pepeka. De seguida, e perante o espanto estúpido do noivo, ela retirou-se saindo pelo tecto. Nos dias que se seguiram Kalumbonjambonja vivia mergulhado em saudades de Pepeka. Quando faltavam alguns dias para o potencial casamento, Kalumbonjambonja pediu que toda a gente preparasse o ossovo (milho grelado para fazer o fermento das bebidas alcoólicas), para fazer Kimbombo para o seu casamento, o que foi aceito de bom grado. Toda a população do quimbo meteu o milho na água para grelar. Na véspera do casamento estava tudo a postos. Havia grandes quantidades de Kimbombo e tinham-se morto muitos animais, incluindo o usual porco dos noivos. Mas o povo não sabia de onde era a noiva. Ao tentarem satisfazer esta curiosidade, Kalumbonjambonja respondia que era originária de um quimbo chamado Kalundo. Ninguém desconfiava que Kalundo era um cemitério.


14 Nesse dia à noite ouviu-se um grande reboliço no quimbo. Era a chegada de Pepeka. Vinha com ela muita gente, incluindo os seus pais. A gente que a acompanhava trazia consigo diversa tralha onde se podia ver muita criação, incluindo lavras enroladas como esteiras. Quando amanheceu deu-se, como reza a tradição, o inicio às cerimónias do casamento. Todos os presentes ficaram deslumbrados face à beleza da noiva, muito longe de imaginarem que se tratava de uma alma do outro mundo. Depois do casamento, Kalubonjambonja passou a ter uma vida plena de felicidade e muitos êxitos. À noite, Pepeka mobilizava todas as almas das pessoas que dormiam no quimbo, e mandava-as trabalhar na sua lavra. Quando os donos das referidas almas despertavam do sono notavam que estavam muito cansados, pois tinham ido trabalhar nas lavrasxi de pepeka (sem que o soubessem). Tempos depois, Pepeka concebeu e teve um filho do sexo masculino que era, portanto, mestiço, uma vez que era filho de um adam (homem da terra vermelha, o mesmo que dizer aonde circula o sangue) e de um espírito. Cumpriu-se de seguida o costume denominado Ongulo yo koviongo (porco que os sogros dão aos genros como prémio à região lombar do genro, de onde veio o filho que nasceu; acredita-se, entre os bailundos, que os filhos vêm dos lombos dos homens). Para Kalumbonjambonja receber o tal porco tinha de deslocar-se à aldeia da esposa, tendo Pepeka determinado o dia de partida para lá. Nesse dia, saíram de casa muito cedo e andaram quase o dia todo. Depois, quando encontraram a toca de uma toupeira, Pepeka disse ao seu marido: -Eis aqui o caminho para a nossa terra, apontando com o dedo a toca da toupeira. -Como é que havemos de entrar num buraco assim tão pequeno? – Perguntou atónito o marido. -Ora essa! Se um elefante pode ali entrar, quanto mais nós! Pepeka fez um gesto que lhes permitiu entrar. Depois de terem entrado, Kalumbonjambonja viuse perante o luzeiro maior (o Sol) com uma nuance: o Sol não era quente como o seu. Por outro lado, as pessoas eram muito estranhas, pois tinham raízes atravessadas nos seus corpos (são as raízes que atravessam os cadáveres enterrados). Outros eram apenas esqueletos. Ele nunca vira nada igual. Andaram até ao anoitecer, tendo-se abrigado numa choupana feita de ossos humanos e coberta de cabelos das pessoas mortas. A dona da casa era uma velha que tinha as costelas a descoberto. Inclusivamente podia-se ver o coração a trabalhar. Umas raízes haviam-lhe entrado pelo nariz e saiam-lhe pela boca. Os dois pediram à velha para ali passarem a noite, e a velha acedeu com gosto. De perto era ainda mais repugnante, pois do pouco corpo que ainda tinha carne, estava cheio de furúnculos. Para grande surpresa de Kalumbonjambonja, pediu para rebentar-lhe os furúnculos com a boca, o que ele fez, cuspindo o pus para o chão. À noite a velha quis preparar a ceia, mas disse que tinha apenas fubá, farinha de milho para fazer o pirão. Como não tinha conduto, ela pediu que cada um desse os seus dois olhos. Assim a velha tirou os olhos de Pepeka e de Kalumbonjambonja, lavou-os muito bem, meteu-os numa panelinha, acrescentando uma pitada de sal, e numa fogueira muito diferente das que conhecemos, fez o pirão. Quando este ficou pronto, tirou-o da panela, distribui-o pelos pratos de Pepeka e de Kalumbonjambonja. Depois tomou o conduto e deu a cada um deles um dos seus dois olhos misturados no molho e nas iguarias, ao mesmo tempo que dizia: -Wabenge, wabenge, wandunge, wandunge. Wabenge o velela iso liabe (Tradução: “Quem tem juízo é sempre acautelado; quem não tiver juízo comerá os seus olhos” – é um apotegma dos Bailundos). Kakumbonjambonja e Pepeka compreenderam de imediato o significado daquele apotegma, e assim fizeram tudo para poupar os seus olhos. No fim da ceia, a velha pediu para que lhe devolvessem os olhos. Pegou neles, lavou-os com um certo líquido e voltou a pô-los nos respectivos lugares, os quais assentaram tão bem que era difícil pensar que haviam sido cozidos. Passaram aí a noite e no dia seguinte prosseguiram a viagem. Pepeka já na sua terra de origem, resolveu sem consultar Kalumbonjambonja, extrair a parte carnal do menino para que ficasse apenas a parte espiritual, pois só assim o poderia deixar com


os seus pais quando regressasse para a aldeia do marido. No entanto ela disse ao marido que o menino estava doente. Caminharam uma distância até se encontrarem com uma prima de Pepeka. Esta queria que Pepeka levasse o menino na forma de alma do outro mundo, para os avós. Para isto Pepeka pediu ao marido que fosse à procura de lonchas (frutos silvestres) enquanto conversava com a prima. Kalumbonjambonja foi até à árvore que produz lonchas onde viu dois homens sentados num dos ramos da árvore e a comerem dos seus frutos; um deles tinha o coração de fora e o outro uma raiz atravessada no pescoço. Kalumbonjambonja disse-lhes que a sua mulher o mandara colher lonchas pois tinha o filho doente. Um dos homens tirou três lonchas e deu-lhas, dizendo que uma era para a mulher, outra para o filho e a outra para ele. Ao voltar, Kalumbonjambonja viu que a prima de Pepeka já se havia retirado e Pepeka disse ao seu marido que a criança havia morrido, indicando-lhe o seu cadáver com o dedo. Ele então estava prestes a chorar, mas a esposa repreendeu-o dizendo que naquela terra era proibido chorar. O que ele não sabia era que a parte espiritual da criança tinha sido levada pela prima, e que apenas tinha restado a parte carnal. Não havendo mais nada a fazer, abandonaram aí o pequeno cadáver e continuaram a viagem. Depois de terem caminhado uma certa distância, chegaram ao quimbo de Pepeka. Estava muita gente à espera, onde foram recebidos com alegria. Alguns tratavam Kalumbonjambonja por tio, outros por cunhado, ainda outros por pai, conforme o costume dos bailundos. Ele, convencido que estava a ser bem recebido, decidiu contar aos presentes a que havia passado na viagem, dizendo: -Nós viajamos bem e dormimos pelo caminho. Infelizmente o nosso filho, que fora o motivo desta nossa deslocação até vós, pois queríamos mostrá-lo aos avós, morreu quando estávamos perto daqui. De repente, criou-se grande agitação e as pessoas começaram a dispersar ao mesmo tempo que gritavam: -Aqui não existe a morte. Dêem-lhe uma dedada no olho. E, novamente, voltavam a gritar repetindo a ameaça. Toda a gente acabou por retirar-se incluindo Pepeka. Ao anoitecer apareceu uma pessoa, era uma velha que disse a Kalumbonjambonja o seguinte: -Certamente tu não me conheces. Eu sou a trisavó do teu pai. Quando vim para esta terra o teu pai ainda não tinha nascido. Fiquei muito admirada quando te vi aqui, pois nunca pensei que alguém de carne e osso como tu pudesse chegar a este mundo. Mas lamento bastante que Pepeka, a tua mulher, não te tenha instruído como te deves portar aqui. A palavra morte pronunciada por ti causou, como viste, muito pânico, pois aqui não existe a morte, e o povo estava convencido que tu a trouxeste. Aconselho-te a ser mais prudente e cauteloso enquanto viveres aqui, pois eles querem extrair-te a tua alma para que fiques por cá definitivamente, o que eu não posso permitir. Para que possas sair daqui são e salvo evita comer da comida que eles comem. Trouxe-te, por isso, este ekende (espécie de broa de milho) que te servirá de sustento durante todo o tempo que aqui permaneceres. Evita, de igual modo, beber água daqui, e por isso também te trouxe esta cabacinha com Chissangua (bebida feita de farinha de milho mas não alcoólica). Se provares a comida e a água desta terra, jamais sairás daqui. Assim que a velha se retirou, apareceu de imediato uma rapariga que com medo, certamente por kalumbonjambonja ter pronunciado a palavra morte, pousou o balaio de comida no chão e saiu a correr. Ele ficou só, durante dias, a alimentar-se do ekende e da Chissangua. Nem sequer Pepeka aparecia. Numa noite apareceu-lhe de novo a trisavó que lhe disse: -Amanhã serás submetido a uma prova. Se falhares serás morto, a tua alma ficará entre nós para sempre, o que eu não quero. Trarão muitos cães, todos iguais e da mesma cor, e te pedirão para que indiques o cão de nome Huvi. Toma este caniço oco que tem uma mosca dentro. Quando te pedirem para indicares o referido cão, abre o caniço, solta a mosca, e presta atenção a ela; o cão em que ela pousar será o tal huvi. No dia seguinte toda a população da aldeia aglomerou-se em frente da cubata onde estava alojado Kalumbonjambonja.


Notas:

16 Depois o soba disse: -Tu, Kalumbonjanbonja, foste atrevido ao vires à terra das pessoas sem carne e osso. Bom! Nós até gostamos de ti e não queremos que daqui saias. Vamos, por isso mesmo, submeter-te a uma prova; se não conseguires desvendar o enigma, que te vamos apresentar, faremos com que a tua alma se separe do teu corpo e este será queimado, e a tua alma far-nos-á companhia. Portanto, trouxemos-te estes cães e tu vais indicar o que se chama Huvi. Kalumbonjambonja soltou a mosca, olhou com muita atenção até ela pousar num dos cães e então disse: -O cão huvi é este. – Apontando o cão em que pousara a mosca. Mas o povo mostrou-se descontente e sem mais nada a dizer foram-se retirando. O pobre Kalum (vamos chamar-lhe assim a partir de agora) viu-se outra vez abandonado, até pela sua própria esposa. Durante estes dias de solidão, apareceu-lhe novamente a sua trisavó que lhe disse o seguinte: -Amanhã vão apresentar-te mais um enigma. Se o conseguires desvendar tal como fizeste no primeiro, irão despachar-te para a tua terra, juntamente com Pepeka, a tua esposa. No dia seguinte, pois, todo o povo do quimbo aglomerou-se à volta da cubata de Kalum. Tal como da primeira vez, o soba lhe disse: -Vamos apresentar-te mais um enigma, e se o conseguires desvendar como fizeste no primeiro, poderás ir, juntamente com a tua mulher para a terra de onde vieste, cujas pessoas são de carne e osso. Sobe nesta bananeira e corta o cacho das bananas. Kalum lá subiu como lhe ordenara. Quando estava perto do cacho o soba disse-lhe: -É inadmissível que pessoas de carne e osso venham aqui para espiarem o nosso modo de vida. Nós não permitimos isso, e como tal não deixaremos que aqueles que aqui venham voltem para a sua terra de origem. Bananeira! – Ordenou o Soba com muita raiva. -Cresce ainda mais e mais! Mediante as ordens do soba, a bananeira começou a subir vertiginosamente para o céu, levando consigo Kalum para o alto, que ao ver o perigo gritou: -Se eu vim aqui foi porque a mulher com quem eu casei me trouxe. Se casei com ela foi porque ela me aceitou. Além disso, eu confirmo que nunca comi nem bebi nada da vossa terra. A bananeira achou que Kalum tinha razão e logo decresceu, também vertiginosamente. Logo que Kalum pousou os pés no chão, pegou numa faca e cortou o cacho das bananas.Nesse instante apareceu Pepeka com a sua bagagem e puseram-se a caminho. Optaram por seguir por caminhos mais curtos e em

I Bailundo é uma cidade e município da província do Huambo, em Angola, localizada em pleno planalto central. Tem 7 065 km² e cerca de 56 mil habitantes. É limitado a Norte pelos municípios de Waku Kungo e Andulo, a Este pelos municípios de Mungo, Cunhinga e Chinguar, a Sul pelos municípios de Catchiungo, Tchicala Tcholoanga e Huambo, e a Oeste pelos municípios de Ekunha, Londuimbale e Cassongue. É constituído pelas comunas de Bailundo, Lunge, Luvemba, Bimbe e Hengue. II À região do Bailundo foi dado o nome do primeiro soberano, que vindo do norte, fundou e reinou durante muitos anos naquilo que foi o maior, mais poderoso e influente reino da colónia portuguesa. Todos os outros reinos o olhavam com o maior respeito e admiração.

III

A embala (casa grande), sede do Soma (monarca) situava-se na localidade hoje designada de Bailundo. O Reino do Bailundo foi sucessivamente atacado pelas tropas portuguesas durante séculos, tendo os mais conhecidos suseranos que ali reinaram, resistido às confrontações militares até ao ano de 1.896 AD, altura em que o jovem capitão Justino Teixeira da Silva, transferido do Bié, onde fora também responsabilizado pela morte prematura do Capitãomor Silva Porto, acabou por derrotar o Rei Numa que acabara de suceder a Ekwikwi, e ali se instalou. A vila veio a ser denominada de Teixeira da Silva, tendo retomado o nome anterior de Bailundo após a independência nacional em 1.975 AD. Durante a guerra civil dos anos 90 esteve aqui instalado o quartel-general da UNITA. Fonte: janeladeguilhotina.blogspot.com

IV

Zam (Deus) nas línguas antigas representa o Sol. Por ex: Sabeísmo, palavra persa surgida da raiz “ZAAB”, significando Deus, divindade, de onde provém todo o saber. Representa o Deus supremo. Fonte:acervoayom.blogspot.com Atenção à nota 5: V A palavra hebraica “ohlam/óhlam” significa um “tempo indefinido, muito incerto e que este tempo indefinido, mesmo sendo traduzido por “eterno” ou “perpétuo”, pode ter um término”. Os melhores léxicos (não estou a pensar nos dicionários de “fundo de quintal”, mas em dicionários técnicos de hebraico – Inglês, da autoria de eruditos académicos) definem “Óhlam” como “um período de tempo indefinido, de longa duração que pode ser perpétuo, mas não necessariamente”.

vi “Vox populi Vox Dei”: “a voz do povo é a voz de D-us” (a voz da maioria é a verdadeira, não se deve subestimar a opinião pública – Faço alusão ao clero inculto -dominante e fundamentalista). Termo Inglês a Guardar: vii “Scholar”, experto.

viii revista.sobrenatural.org | igreja-lusitana.org


Secção Paixão Utópica:

IV

http://www.emeurgencia.com/2010/05/poruma-vida-apaixonada.html Secção “SlideShare” e Complicações:

X

http://www.slideshare.net/renaapborges/afamlia-crist http://www.robertexto.com/archivo3/complicacoes .htm

XI

http://www.dicio.com.br/lavra

XII Não se trata dum cristão o menino de Pepeka. Esta separação não poderá dar-se num crente. O cristão embora aguarde a libertação escatológica (Carta aos Romanos 8:23), no tocante ao seu corpo, já hoje está libertado, em princípio (ou realmente, se for um predestinado reformado ou católico marista montfortino ou o evangelical/católico antinomiano inclusivo), da “carne”. Pela sua união à morte de YAOHÚSHUA hol-MEHUSHKHÁY (6:4.6, “verso 4, a nossa natureza pecadora [basar] foi enterrada com haMEHUSHKHÁY, pelo baptismo [para os que pregam o baptismo] / pregada com ele no poste [para os que rejeitam o baptismo], verso 6 [atenção: mas o acto baptismal é mais preciso e democrático que o evento do madeiro para ilustrar a materialização duma transformação transubstancial invisível ao “olho” humano comum, um santo poderá ver essa transubstancialidade, uma evidência intuitiva ao crente ecuménico comum, uma certeza subjectiva não demonstrável, ao contrário do sacramento da Eucaristia católico, que ao longo da sua história foi evidenciado por inúmeros milagres testemunhados por todos os católicos], e quando YÁOHU UL e YÁOHU ABí, com o seu divino poder, O trouxe de novo à vida, também nos foi concedida uma vida nova para desfrutar”; 8:3), é desde agora habitado pelo “versos 9-11, RÚKHA (1ª Carta aos Coríntios 6:19), se é que o RÚKHA-YÁOHU vive em vocês (i.e., só os Eleitos Reformados Calvinistas e os Cristãos Antinomianos Inclusivos [http://conviteavalsa.spaces.live.com/blog/cns!E8 A44CA42D8320A0!2330.entry] ou os Eleitos católicos trinitários-maristas montfortinos têm esta certeza). E se alguém não tem na sua vida o RÚKHA de hol-MEHUSHKHÁY, não é de maneira nenhuma um Yaohúshuahee. E se haMEHUSHKHÁY vive em vocês, embora o vosso corpo esteja morto para o pecado, o vosso espírito vive porque hol-MEHUSHKHÁY vos perdoou. E se o RÚKHA-YÁOHU, que levantou YAOHÚSHUA hol-MEHUSHKHÁY da morte, vive na vossa vida, ele vivificará o vosso corpo mortal pela acção desse mesmo RÚKHA holHODSHÚA que vive em vocês. 12-13Assim… não há razão para satisfazerem a vossa velha natureza pecadora (a prima pagã de Pepeka, se Pepeka e o menino fossem crentes) fazendo o que ela (a prima pagã) vos pede. Porque se continuarem a segui-la, morrerão; mas se, pelo poder do RÚKHA, a rejeitarem [uma certeza que emana da doutrina teológica protestante ou católica trinitária marista montfortina denominada como “regeneração monergística”, para mais vid. o sítio monergista do Professor Doutor John Hendryx: http://www.monergismo.com/textos/arminianismo/ john_sinergista_arminiano.html ], então já a hãode viver [vide tb., o sítio http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modu les/rmdp/down.php?id=163 ]. 14Porque todos os filhos de YÁOHU UL deixamse conduzir pelo RÚKHA-YÁOHU. 15-17Por isso (aviso aos cristãos sinergistas como o Apóstolo [vd., 1 Coríntios 2:3] e não aos monergistas interdenominacionais) não devem ser como os escravos medrosos e servis, mas devem comportar-se como verdadeiros filhos de YÁOHU UL, recebidos no seio da sua família e chamando-lhe realmente querido YÁOHU ABí. Porque o seu Santo RÚKHA é testemunha, no nosso entendimento, de que somos filhos de YÁOHU UL. E sendo que somos os seus filhos, havemos de

pouco tempo estavam na sua casa, retomando as suas actividades. Toda a população do quimbo veio cumprimentá-los. Voltaram à sua vida normal. Depois de um ano passado, Pepeka concebeu de novo um outro bebé do mesmo sexo. Como da primeira vez, era necessário voltar à terra de Pepeka a fim de receber o porco, como ordenava o costume. Desta vez Pepeka resolveu deixar o marido e ir com o seu cunhado chamado Tandala. Prepararam a viagem, e no dia marcado meteram-se a caminho, rumando para o outro mundo. Kalum pensando nas peripécias pelas quais havia passado quando estava na terra de Pepeka, e sabendo que o quanto o seu irmão Tandala era desmazelado, ficou muito preocupado, pois eram poucas as hipóteses de ele regressar. Pepeka e o cunhado caminharam quase todo o dia até chegarem à já conhecida toca de toupeira. Ela então disse-lhe que o caminho continuava naquele buraco. Tandala, intrigado, perguntou como é que eles iriam passar por aquele pequeno orifício. Pepeka, como anteriormente, fez um pequeno sortilégio e lá conseguiram entrar. Tandala ficou boquiaberto ao ver tudo aquilo. Andaram quase todo o dia até chegarem à choupana onde Kalum se havia com a sua esposa, e encontraram a mesma velha, com a diferença de que desta vez já não tinha furúnculos para serem rebentados. Quando chegou o momento para prepararem a ceia, a velha voltou a dizer que só tinha fuba e que não tinha conduto para acompanhar o pirão. Assim, voltou a pedir os olhos de cada um. Ela levantou-se e tirou os olhos a Pepeka e ao cunhado Tandala. Lavou-os bem e meteu-os numa panelinha, temperando-os com sal. Quando o pirão estava pronto para ser comido, destribuiu-o pelas visitas bem assim como o conduto. A cada uma delas foram dados os seus próprios olhos. Depois a velha voltou a citar o mesmo apotegma: -Wabenge, wabenge, wandungue, wandungue, wanbenge o velela iso liabe. Infelizmente Tandala não compreendeu o apotegma, e quando tomou o pirão com o seu respectivo conduto a primeira coisa que fez foi tomar um dos seus olhos e mete-lo na boca seguido do segundo. No fim do jantar a velha pediu novamente os olhos para os colocar nos seus lugares, mas só Pepeka os entregou, pois Tandala disse que havia os seus, o que entristeceu sobremaneira a velha. Tiveram de procurar uma alcateia para irem roubar um cabrito num quimbo da terra de Kalum. Os lobos lá foram e em pouco tempo trouxeram o cabrito. A velha tirou-lhes então os olhos e os colocou em Tandala, mas estes olhos não enxergavam muito bem.


18 Depois de tudo isto ter acontecido, os dois puseram-se de novo a caminho. Tiveram encontro com a mesma prima de Pepeka. A prima voltou a tomar o menino de Pepeka, levando-o para um sítio desconhecido para lhe separar o basar (vide na Bíblia de Jerusalém, na Carta aos Romanos [Comunidade Messiânica de Roma -Bavel] 7:5, 24 as notas de rodapé “p” e “a”) da parte espiritual (pneuma)xii, e Tandala nem se apercebeu disto. Ao chegarem ao quimbo de Pepeka foram recebidos como da primeira vez. Tandala não pronunciou qualquer palavra que pudesse provocar pânico como o havia feito Kalum. Depois de muito conversarem, trouxeram um prato cheio de comida e Tandala, sem consultar ninguém, pôs-se logo a comer. Quando a sua trisavó apareceu para lhe dar instruções, ele já tinha comido e bebido. Como tal, ficaram prisioneiros, ele e a sua cunhada. Alguns dias passados, foram apresentados a Tandala os mesmos enigmas postos a Kalum. Tandala não foi capaz de indicar o cão chamado Huvi, mas indicou outro. Passados outros dias mandaram-lhe também subir a uma bananeira para cortar o cacho das bananas, e quando ele estava perto de o fazer, o soba voltou a falar: -Não é lícito que os indivíduos de carne e osso venham a esta terra e comam e bebam connosco. E prosseguiu: -Bananeira! – Ordenou o soba, cresce mais e deixa-o cair. A bananeira logo começou a crescer vertiginosamente, o que fez com que as suas raízes se desprendessem do solo, deixando Tandala cair em terra e acabando por morrer. Pegaram no seu corpo e o queimaram. A sua alma ficou a pertencer ao grupo das outras almas. Kalum esperou durante muito tempo pelo seu irmão, bem como pela sua esposa Pepeka; como eles nunca mais chegaram, decidiu arranjar outra mulher. Na aldeia de Kalum havia uma jovem muito bonitaxiii a quem pediu para que se casasse com ele. Aconteceu, porém, que também havia na mesma aldeia um homem de muito destaque que tinha as mesmas pretensões. Este, quando teve conhecimento das intenções de Kalum, ficou irritado e, movido pelo ciúme, quis matá-lo. Para o concretizar, fingiu-se ser seu amigo. Como era muito rico, resolveu fazer um grande banquete, convidando muitas pessoas entra elas também a Kalum, o seu rival, para o qual preparou um quarto onde este iria pernoitar. No fim do banquete os convidados foram distribuídos pelos quartos indo Kalum também para o seu, onde havia uma cama colocada em cima de alguns paus falsos, tapados com terra e por cima de uma cova profunda. Quando ele subiu para a cama, os paus falsos

também“. O cristão predestinado monergista fica assim formado e escudado, seguro-imune, para uma vida nova de justiça e santidade e que glorifica a D-us. Os sinergistas paulinos vivem e “desenvolvem a sua salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12, também da Bíblia cristã).

XIII

Data do info sobre textos concernentes à beleza, infra: 15 de Julho de 2.010 AD: http://www.snpcultura.org/jose_tolentino_mendon ca_palavra_e_experiencia_crista_lavamnos_para_fora_rebanho.html http://nestahora.blogspot.com/2010/08/asreflexoes-de-jose-tolentino-mendonca.html


cederam, a cama caiu, levando Kalum para o buraco. Depois o anfitrião e os seus capangas foram em busca de água, que fervia em grandes caldeirões, e lançaram-na para dentro da cova com o intuito de o matar. Por sua vez, Kalum entrou numa cova de toupeira que por lá havia, e encontrou-se de novo na terra de Pepeka. Os facínoras, depois de terem despejado muita água escaldante, espantados viram que Kalum não se encontrava lá, onde esperavam encontrá-lo morto. Entretanto, Kalum percorreu todos os lugares, na terra de Pepeka, para ver se a encontrava bem como a seu irmão. Apenas conseguiu encontrar-se com a sua trisavó, que lhe deu o sustento. Depois de muitos dias sempre encontrou Tandala, que se cumprimentaram, e cada um deu explicações ao outro do que lhes havia acontecido. Tandala já não podia sair daquela terra, pois não tinha mais corpo carnal. Tandala conduziu o seu irmão a uma toca de toupeira por onde este saiu para a sua casa. Viu que estava tal como a havia deixado, pintada de branco. No entanto o seu rival que o queria matar, quando soube que ele tinha chegado ficou muito admirado. Mas Kalum procurou sempre uma oportunidade para se vingar. Um dia viu o seu rival a trabalhar na sua lavra no sopé duma montanha. Subiu no topo dessa montanha e pôs-se a urinar. A urina era tanta que formou uma grande torrente, que arrastou pedregulhos, árvores e tudo mais o que encontrasse, e um desses pedregulhos, arrastado pela urina, foi de encontro ao seu rival que acabou por morrer num precipício, e mergulhado em urina quente.


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TOMO II FUNDAÇÃO (ORIGEM) DO REINO DOS BAILUNDOS

O Reino do Bailundo foi fundado por Katiavala, um caçador de elefantes, juntamente com mais três primos: Huambo, Kalunka e Buluyongombe, vindos das terras do Kuanza Sul, pertencente à tribo Ngoya. Katiavala, quando chegou à região conhecida actualmente por Bailundo, subiu ao outeiro que fica junto da vila do mesmo nome e gostou do lugar, construindo lá o seu Omundov (lugar onde se seca a carne de caça). Mais tarde mandou ali construir um Ojango (espécie de clube). No primeiro dia da construção, espetaram no chão algumas estacas em forma circular; no dia seguinte quando foram colocar o teto, encontraram dentro um monte de areia feito por uma toupeira. Então armaram uma ochimumua (armadilha para caçar toupeiras), e no dia seguinte encontraram nela presa uma toupeira com uma listra branca na cabeça. Admirados, exclamaram: “Oneteyi kuete ombalundu” (Esta toupeira tem uma mancha branca na cabeça). É esta lista branca que denomina Mbalundu. Foi assim que esta terra passou a designar-se, e mais tarde os portugueses mudaram-lhe o nome para Bailundo. Mbuluyongombe era o outro primo de katiavala que se dirigiu para um local que se designa por Mungo, atravessando o rio Luvulo. Foi a um lugar chamado kapuiya onde construiu o seu omundo. Um dia, caçando, atravessou o rio Sandanbinja e foi até a um outeiro todo ele feito em pedra, onde viu uma grande ave parecida com uma águia que matou com a sua arma. Depois levou a caça ao quimbo e lá disseram-lhe que aquela ave se chama Mungo. Depois Mbuluyongombe auto-proclamou-se rei daquela terra. A referida ave, mungo, ainda hoje existe e alimenta-se exclusivamente de peixe que apanha nos rios. Ela utiliza as suas fezes como isca para atrair os peixes. No Mungo, para além do sobado de Mbuluyiongombe havia outros sobados muito antigos cujos fundadores são desconhecidos, tais como os da Chiweka, Chango e Chiteva. Quando trabalhei, no tempo colonial, no concelho de Mungo, como recenseador, uma ocasião fui à Embala Chiweka, e o soba confidenciou-me que ali havia um objecto sagrado chamado Elunga deixado pelos sobas antigos e desconhecidos. Eu insisti muito para que ele me mostrasse o referido objecto. Ele não aceitou mostrar-mo, dizendo que por ser muito sagrado não pode ser visto por ninguém, inclusive por ele próprio. Contei o caso ao Secretário do concelho que lhe despertou muito interesse. Imediatamente mandou chamar o soba da Embala Chiweka dizendolhe: -Ó soba, vocês têm um objecto sagrado na Embala Chiweka que ninguém pode ver? Que tipo de objecto é esse? O soba então disse que não se lembrava de tal objecto, mas eu que estava presente lembrei-lhe de que era o Elunga.O Elunga, disse o soba, é um objecto, muito, muito, muito antigo. O Secretário disse que queria ver o tal objecto. O soba respondeu: -Nem eu próprio o posso ver! – O Secretário insistiu e o soba limitou-se a dizer: -Eu não posso mostrar esse objecto ao Sr. Secretário; só às pessoas indicadas pelo sangue, e se o mostrar a quem não deva haverá uma grande tragédia. -Quais são essas pessoas? – Perguntou o Secretário. -Estão no quimbo. – Respondeu o soba. -Manda-os vir aqui que quero falar-lhes. -Eles só aceitam cá vir se o Sr. Secretário lhes oferecer vinho, acrescentou o soba. -Isso é muito fácil de fazer! Manda-os para cá que eu lhes compro todo o vinho que quiserem. – Disse o Secretário.


No dia seguinte o soba apareceu com os tais homens, e o Secretário lá lhes mandou comprar um garrafão de vinho e lho entregou. Depois disto seguimos de Land Rover para a Embala Chiweka. Chegados lá, subimos a um outeiro, desta Embala, e encontramos lá muita gente que nos esperava. O céu estava límpido. Ninguém escondia a ansiedade e curiosidade para verem o tal Elunga. Um dos responsáveis correu em busca das chaves da cubata, com cerca de metro e meio de altura, que era aonde encontrava-se o tal objecto sagrado. Quando tentou abrir a portinha, a fechadura estava encravada. Entretanto o céu começou a nublar-se, e quando finalmente a porta abriu-se, através de uns pauzinhos, puxou-se para fora o Elunga que esta embrulhado em panos de algodão. Toda a gente acercou-se do objecto sagrado para o apreciar. Era feito de ferro e com um feitio especial. De repente começou a chover fortemente. As cubatas estavam perto, mas ninguém conseguiu chegar sem apanhar uma grande molha. Eu e mais o secretário corremos para o Land Rover, onde ele disse-me: -De facto o objecto é antigo; é da Era do Ferro. Quando a chuva passou, o Secretário ligou a ignição do carro, pô-lo a funcionar, mas ao meter as velocidades para o pôr em marcha, ouviu-se uma explosão, as portas deslocaram-se e todos os vidros se partiram. Felizmente o motor não foi afectado e pudemos assim chegar à vila do Mungo. No dia seguinte o carro teve de ser enviado para Nova Lisboa a fim de ser reparado. Seria esta a tragédia prevista pelo soba caso abrisse o Elunga? Outro primo de Katiavala chamava-se Huambo Kalunga. Este tinha ido às terras que hoje chamam-se Huambo, para caçar elefantes. Quando lá chegou auto-proclamou-se rei daquela terra. Depois disto enviou Chihamba, o seu primo, à caça. Caso este trouxesse carne da caça dar-lhe-ia uma linda rapariga. Chihamba foi caçar no primeiro dia mas não apanhou caça nenhuma. No dia seguinte Chihamba organizou outra caçada. A rapariga ficou no altar dos caçadores. Chihamba desta vez conseguiu muita caça, e Huambo Kalunga cumpriu o prometido. À noite Huambo Kalunga enviou a sua corte para raptar a moçoila. Chihamba, com os seus cães e com os vizinhos conseguiram recuperar a formosa moçoila. Matou todos os raptores e cortoulhes a cabeça. No dia seguinte, de manhã cedo, pôs as cabeças num cesto e levou-as ao soba Huambo Kalunga, perguntando: -Reconheces esta gente? Huambo Kalunga ao ver as cabeças, logo as reconheceu, pois eram as cabeças dos seus rapazes da corte real que havia mandado para raptar a moçoila, olhou Chihamba e disse-lhe, para evitar pendência: -Tu não és humano, tu és um chilulu (alma penada), e irás reinar na Chiaca, a partir de agora serás reconhecido com o nome real Chilulu. A Constituição do Reino e a razão de ser dos Bailundos Tal como quaisquer Povo étnico sapiencial, seja uma, quaisquer, grande Civilização pregressa ou que venha depois, ou já existente, os Bailundos também tinham a sua organização social encabeçada por um Rei, a quem designam por Osoma. O trono de um Osoma consistia num banquito de pele de boi, designado por ochalo, com mais ou menos trinta centímetros quadrados de assento. A palavra Osoma significa rei, que posteriormente sofreu um aportuguesamento, passando a ser soba. O Soba tinha o mesmo poder de qualquer rei nos outros países, com a diferença de que os antigos reis em muitos destes países podiam mandar executar determinadas pessoas, o que nunca acontecia com os sobas, cujo objectivo era apenas reinar para o bem do seu povo, satisfeitos com os benefícios da Comunidade, na saúde, na prosperidade, nas boas colheitas, etc. Tal como acontecia com os reis europeus, também os sobas só reinavam se fizessem parte da linhagem real. As cerimónias para a entronização de um rei eram muito complexas: o primeiro passo era o de consultar os Sobas já falecidos, afim de se saber se eles prevêem um bom reinado na pessoa do Soba escolhido. Eu pessoalmente assisti à cerimónia de entronização de um Soba, que é escolhido pelo Muekalia, que era o sekulo (Ancião) dos sekulos e que indicava alguém que era já de uma família de sobas (linhagem). Este Soba normalmente na sua ausência é substituído pelo seu


22 Epalangaiv. Ele convoca todos os Sekulos da área e cita o nome da pessoa. Se todos estiverem de acordo, então consultam os já falecidos por intermédio de um boi. Prendem um boi no tronco duma árvore, e eles à roda da mesma proferem as seguintes palavras: “Estamos aqui em frente deste animal e perante vós, os nossos sobas que também reinastes nesta Embala, para dizer-nos se concordam com o candidato proposto para Soba deste Reino. Se estiverdes de acordo sabêlo-emos pela maneira como o boi vai-se ajoelhar.” Então o boi ajoelha-se. Os Velhos (Anciãos) voltam a falar: -Já que estão de acordo, o boi que se levante. Logo que o boi se levanta, tomam um balaio (cesto) cheio de farinha de milho (fubá) e dizem outra vez: -Voltamos a pedir que o boi venha até nós para nos lamber a farinha deste balaio. Depois do boi se aproximar e lamber a fubá, acrescentam: -Já que, mediante estas provas, aceitaste a nossa proposta para que este indivíduo seja coroado soba, pedimos que o boi vá ao Elombe (Casa Real). Assim o boi põe-se a caminho do Elombe onde é morto e a sua carne é cozida e distribuída por todos os presentes. Outrora, para se entronizar um soba, era necessário mandar os Akuenje velombe (Rapazes da corte, soldados do soba) a uma certa distância da Embala para armarem uma emboscada junto de um caminho e apanharem a primeira pessoa que por ali passasse. Depois a cabeça desta pessoa era decepada e levada para a embala onde era cozida juntamente com a carne do boi e comida por todos. A pessoa morta passava a designar-se por Ekongo. O acto seguinte é o de mandar fogo por todo o reino. Todos vão ao Akokoto (trata-se do lugar onde guardam as cabeças secas dos sobas falecidos) com o material para fazer o fogo, que consiste num pau chamado Usilôlô; este é friccionado tal como os povos primitivos o faziam, e depois com um caniço seco ateava-se o fogo. Assim que o fogo pegar, fazem uma grande fogueira e mata-se mais um boi, cuja carne é assada e comida no Akokoto. Finalmente, toda a população daquele reino tira da fogueira um tição e o levam para as suas casas. Todo o povo passa a usar daquele fogo que é bendito caso o reino seja de sorte, de abundância de milho, de feijão, de caça e de poucas mortes no reino. Caso contrário, o fogo do soba no poder é fogo amaldiçoado. Depois de assarem a carne naquela fogueira, fazem muito pirão que é servido em cascas de árvore, juntamente com a carne do boi. Consomem muita bebida, e em seguida passam a dançar com dois chifres de boi e ao som de batuques especiais Endingos. Depois destas cerimónias o soba toma uma espada antiga que lhe confere grande poder no reino. No fim de tudo, ele sobe numa pedra e toca num chifre de boi ao mesmo tempo que se autoproclama rei supremo daquela terra. As cerimónias de entronização estendem-se para lá de muitos dias, são praticamente dias de festa, onde a população come, bebe e dança. Existem vários sobas subordinados, e cada um mandava na sua jurisdição, mas o reinado do Bailundo era muito poderoso e subjugava os outros reinos, obrigando-os a pagar vassalagem. Conta-se que um dos sobas do bailundo havia solicitado ao soba do Andulo o pagamento de um tributo. Este ficou irritado e mandou o seu Epalanga como emissário a fim de chegar ao soba do Bailundo a mensagem de que ele não era obrigado a pagar nenhum tributo. O soba do Bailundo ficou zangado e mandou prender o emissário que se transformou em Epumumu (Peru bravo) e desapareceu voando. “Oh!”, exclamou espantado o soba do Bailundo, dizendo: -Eles têm o feitiço de Ondulu (Fel). Desde então, aquele sobado passou a designar-se Ndulu, ou seja, Andulo, conforme a versão portuguesa do mesmo termo. Os reinos do planalto foram: O reino do Mbalundu, que os portugueses mudaram Bailundo; Vie, designado por Bié e Ndulu conhecido então por Andulo. Acrescenta-se, no entanto, que no planalto central de Angola, existem outros reinos pertencentes ao grupo étnico Ovimbundo, mas com pouca expressão.


Tal como acontece em outros reinos, mesmo nos europeus, também no reino dos Bailundos existia uma diferenciação entre os seus; daí que existia nos mesmos a nobreza, constituída por pessoas possuidoras de vários títulos ou nomes relacionados com o reino: O soba Muekália é o que se encontra no topo da hierarquia da corte, possuidor de mais poder que o próprio Soba; tem a autoridade não só de propor candidatura de um sujeito a soba, como também o poder de o destronar. Estes casos aconteciam, geralmente, quando se estava perante um soba avarento, guloso e que se escusava a fabricar Kimbombo para o povo beber, e matar bois para o povo comer. Em tais situações, o soba Muekália convocava os Velhos (Anciãos) do reino e propunha a expulsão deste soba. Caso o mesmo se recusasse, o muekália apelava para a intervenção do exército com o fim de o forçar a abandonar o poder. O segundo na hierarquia da corte é o Epalanga, adjunto do Soba. Na ausência deste é o Epalanga que assume a governação do reino, como sucedeu em 1903, aquando da revolta dos Bailundos contra os Portugueses. Quem dirigiu as operações que caberiam ao soba, foi o Epalanga Matuyakevela. Isto aconteceu quando o Bailundo encontrava-se sob a administração do capitão Teixeira da Silva, em que um dos soldados violou a mulher do soba bailundo chamado Numa. Quando Numa teve conhecimento deste crime, foi ter com o capitão Teixeira da Silva a fim de exigir, como era hábito, o pagamento de uma indemnização por parte do soldado. O capitão ao invés de atender ao pedido do soba irritou-se sobremaneira, que acabou por prender o soba Numa. Como se não bastasse, o preso foi enviado para Benguela, meteram-no num barril e lançado ao mar para o fazer desaparecer desta forma tão vil e para sempre. Revoltado com este procedimento, o Epalanga Matuyakevela, organizou uma revolta contra os Lusos, utilizando como armas os canhangulos que se carregavam pelos canos (armas de carregar pela boca). Eram armas que os Bailundos haviam adquirido dos próprios Portugueses em Benguela em troca de borracha. Esta guerra durou um ano e só teve o seu fim graças à utilização de outros grupos étnicos por parte dos Lusos, que morreram em grande quantidade. A partir da derrota de Matuyakevela, os Portugueses deixaram de vender armas aos Bailundos. Em ordem de grandeza, temos a seguir o soba Ndaka que é o responsável pela comunicação, ou o porta-voz ao povo da parte de quem governa. Quando havia algo importante para informar à Comunidade, o Ndaka, pela noite, quando toda a população da Embala preparava-se para a ceia, subia a uma árvore e dizia: -Homens, mulheres e crianças desta Embala, prestem atenção, muita atenção! (Logo que o Povo do quimbo ou da embala ficava silencioso, o soba Ndaka transmitia a mensagem.) Naveleka é o quarto grau na hierarquia da corte. Trata-se do responsável pelas deslocações do rei, transportando-o por vezes às costas, sobre tudo quando tenham de atravessar rios ou outras circunstâncias adversas. Ukuepangu, o quinto na hierarquia, é o responsável pela transmissão de informações secretas durante a noite. Importa esclarecer que a residência do rei achava-se rodeada por uma cerca de pau-ferro e um portão. Durante a noite, depois de todas as actividades do reino, o rei manda fechar o portão, mas antes de o fazer manda vir uma das suas mulheres para lhe fazer companhia. No caso de uma urgência, o Ukuepangu entra na residência do rio através de um labirinto que só ele conhece, pondo à disposição do soberano a informação que ele possui. Chitue é o soba responsável pelo corte das cabeças dos sobas quando estes morrem. Entre os Bailundos, em particular os Ovimbundu, quando o soba adoece mantêm este facto em grande sigilo. O mesmo sucede aquando da sua morte, em que o povo só terá conhecimento dela quando o Chitue separar a cabeça do corpo do rei, e que é feito da forma seguinte: O soba depois de morto fica dentro da cubata, sentado numa cama ou cadeira, próximo da parede da cubata, onde se fazem dois orifícios. De seguida faz-se passar pelos orifícios uma corda que também envolve o pescoço do soba morto. O soba Chitue a partir de fora da cubata fricciona o pescoço com a corda até a cabeça cair, e só depois divulga-se a notícia sobre a morte do rei. Depois pegam na cabeça e metem-na em aguardente, que na época era comprada em Benguela, polvilhando-a em farinha de milho e a põe a secar. Depois de seca metem-na numa


24 mala de ferro, também comprada em Benguela na mesma época, e guardam-na no Okokoto. O corpo é enterrado como o de qualquer outra pessoa. Para além destes títulos, existem outros ao nível da corte. Dentre estes, podemos, igualmente, referir os Quesenje, Muebombo, Somandalu, Lusenje, Somakueanje e outros. Cada qual tem a sua função específica no reino. Muechalo é o jovem que trata da cadeira do rei. Quando o rei vai em visita ao reino o Muechalo passa à frente com a cadeira na cabeça, seguido do rei trajado com um pano de oito metros de comprimento com uma orla nos lados. Se for um pano preto, a orla que cobre as pontas é branca, ou será o contrário se o pano for branco. Geralmente o rei vestia uma camisa branca, um casaco preto, um chapéu de três bicos, ou um chapéu grande, e calçava alpercatas feitas com couro de boi. Na cara, um bigode bem retorcido. Atrás do rei vinham os tocadores de andigo e de flautas que o acompanhavam orquestralmente. Como cajado o rei levava consigo um rabo de boi, seco. Quando o rei chega ao local de destino, o Muechalo coloca o banco, ou cadeira, no chão e o soba aproxima-se. Ao sentar-se, toda a população que lá se encontrar também se senta, prostrando-se com as pernas levantadas, um deles dá um assobio enquanto um outro diz: -Pelombe bali oku miña. – O que significa: “na corte come-se carne”. O soba sente-se e o povo também se senta ao seu lado, ao redor do pano real. Tudo é feito com muita veneração e respeito extremo. Em relação às mulheres do soba, é costume haver mulheres legítimas, como a Inakulu que é a Rainha, a primeira Mulher com quem ele ajuntou-se muito antes de ser entronizado. É ela praticamente quem governa a Casa Real, vigiando o Muesaka, o cozinheiro do soba. Importa referir que os sobas estão proibidos de ingerir comida feita por uma mulher por causa da menstruação. Seguidamente vêm as outras mulheres Mvavela e a Chiwichepembe, mas cujas funções na corte são desconhecidas. Finalmente vem a Siya. Trata-se, geralmente, de uma mulher raptada quando jovem, com a idade compreendida entre os catorze e os quinze anos de idade e virgem. Ela tem como função carregar a esteira do soba quando esta sai para uma visita real, pois ele não pode dormir em qualquer esteira, nem se senta em qualquer banco por desconfiar que alguém lhe possa fazer mal. Além destas, ainda existem outras mulheres na vida da corte. A Vida Social dos Bailundos, nos Quimbos O quimbo, denominado Embala, significa Capital, e é o local onde reside o Soba e a sua nobreza. Este lugar costuma ser muito populoso, uma vez que todos gostam de viver perto do Soba para desfrutarem do gozo da vida na Embala, tal como beber quimbombo que o Rei sempre mandava fazer, comer a carne dos bois que o Rei mandava matar, e passar o tempo a dançar ao som dos batuques, entre outras coisas. A Embala era rodeada por uma série de quimbos num raio de cem quilómetros, cada um deles dirigido por um Sekulo. No centro do quimbo, costumava haver um Onjango, que é uma espécie de clube que funcionava como escola e refeitório, feito de pau-ferro em forma circular e com duas ou três entradas sem portas. Neste local a população aprendia a falar correctamente a língua umbundu, a história dos seus antepassados e várias especialidades de medicina. Desconhece-se a forma como decorriam as aulas no Onjango, mas as pessoas que aí se formavam estavam aptas para servir a comunidade. Daí saiam sobas competentes, juristas, contabilistas, historiadores, médicos, etc. Durante o dia os habitantes do quimbo iam em busca de lenha para fazer uma grande fogueira dentro do Onjango, ao redor do qual todos os homens sentavam-se em banquitos cortados dos troncos das árvores. Por sua vez as mulheres eram obrigadas a levar comida para o local onde os homens e comiam juntos, a partir do pôr-do-sol. Antes de comerem, os homens lavavam as mãos com água contida nas cabaças; depois chegava a primeira quindavi com pirão e outra com o conduto, que poderia ser feijão, carne, folhas de mandioqueira (a efuanga)vii, entre outras coisas. A primeira quinda circulava entre o grupo e o primeiro homem da fila tirava uma porção de pirão que colocava na mão esquerda, tirando depois um pouco do conduto conduzido pela segunda quinda. Colocava o conduto sobre o pirão, comendo depois tudo com a mão direita. Quando chegasse outra quinda


com mais comida, o ritual continuava a partir de onde a última pessoa se havia servido. A comida que sobejasse era guardada no etala do onjango, que é uma espécie de prateleira situada no teto do onjango. Na manhã seguinte, o pirão que havia sobejado, chamado obeta, era assado nas brasas. Os órfãos e os doentes que não pudessem trabalhar e cuidar de si próprios eram alimentados no onjango. Qualquer hóspede que aparecesse podia ir directamente para o onjango e sentar-se na fila dos bancos em redor da fogueira e não seria questionado por isso; só no final do ritual é que se lhe dirigia a palavra, e perguntar-lhe-iam sobre o lugar da sua proveniência, bem assim como o motivo da sua vinda ao quimbo. Após o esclarecimento das questões colocadas, era nomeado um elemento do grupo para disponibilizar a sua casa para a estada do hóspede. Em geral os hóspedes costumavam dormir nos celeiros. No onjango, o visitante podia comer e beber gratuitamente durante o tempo que lá permanecesse. Enquanto os homens adultos permaneciam no onjango, os jovens passavam o tempo nas cozinhas (ochivo), onde tanto eles como as raparigas se distraiam contando histórias, fábulas, adivinhas e outras coisas, que apenas se podem contar durante a noite, pois, segundo a superstição, se alguém as contasse de dia as mamas da sua mãe ficariam inchadas. Quando alguém quisesse contar uma destas histórias ou contos, introduzia-se da seguinte forma: -Alupolo! – E os outros respondiam dizendo: -Luiye! – Depois disto citava uma adivinha: -Okachiva tu yuila ponele! Que se traduz no seguinte: “A lagoa onde nadamos de lado.” Se alguém conseguir decifrar esta adivinha, deverá dizer: -Okachiva tu yuila ponele ondalu! Que significa o seguinte: “A lagoa onde nadamos de lado é a fogueira.” Pela lógica de que se alguém tiver frio, e quiser aquecer-se fica ao lado do fogo e não dentro dele. Após a decifração da primeira adivinha ouvia-se mais um alupolo vindo do outro lado da cozinha, ao que os outros respondiam dizendo: -Luye! – E citava-se mais uma adivinha: -Ochinyama ca fa ku iya imbo eli, li punjaco, ku iya imboeli li punjaco, puai omo ca suilapo. Tradução: “Existe um animal morto do qual vários quimbos enchem os seus vasilhames de carne, mas cujo animal se mantém sempre intacto.” Caso ninguém conseguisse decifrar a adivinha, poderia dizer: -Pela vombumba. – Faça o favor de a decifrar. E a pessoa que lançou tal adivinha dizia que o animal em questão é o rio, pois é de lá que toda a gente tira a água mas que esse “animal” permanece sempre intacto. Com o passar da noite ouviam-se mais alupolos e outros aluiyes dos vários cantos de cozinha. A pessoa que lançava a adivinha dizia: -Ovimu vi vali venhala. – “Dois morros na charneca”. Se ninguém conseguisse adivinhar o significado desta adivinha, o autor da mesma pedia que lhe dessem um quimbo. Alguém do grupo respondia: -Toma o quimbo do Chindombe. O autor então dizia: -Não quero o quimbo (a aldeia) do Chindombe porque não há raparigas bonitas nesse quimbo. Caso fosse uma rapariga a citar a adivinha, diria que rejeitava aquele quimbo por não haver rapazes bonitos. Então referia-se mais um quimbo em alternativa: -Toma o quimbo de Chissaje. Ao que o autor da adivinha responderia: -Tambu, tambu imbo lia Chissanje, nikula sekulo Ymbo ndu teta utue, ndu wimba volui, mopisa olondombe siti, ka kuni kunyiko. – “É bem recebida a ideia de Chissanje, pego no sekulo do quimbo, corto-lhe a cabeça e lanço-o ao rio e digo aos peixes: Comam-no!” Depois disto decifrava-se a adivinha: “Dois morros na charneca são duas chuchas no peito duma rapariga”. Ouviu-se mais um alupolo e os outros respondiam: -Luiye. Então a pessoa que lançava a adivinha dizia: -Kanike kanike! – Que significa que vai contar um conto ou uma fábula:


26 “Havia dois amigos que um dia resolveram tratar dos seus negócios na terra das delícias. Para lá chegar, tinham de atravessar o rio encantado, o qual era necessário utilizar barco. Quando chegaram à margem do rio não havia lá nenhum barqueiro e começaram a chamar por ele: Barqueiro, barqueiro! – Depois ouviu-se uma voz vinda dum capim alto que dizia: -Eis-me aqui. Os dois homens ficaram espantados ao verem chegar uma grande jibóia. Perguntaram-lhe onde estava o barco. A jibóia então disse: -Eu sou o barqueiro e ao mesmo tempo também sou o barco. Ela então abriu a boca e disse que entrassem para os levar à outra margem. Os homens ficaram assustados ao entrar na boca da jibóia, sabendo que era assim que ela comia as suas presas. Mas sempre entraram e em pouco tempo eram postos na outra margem da terra das delícias. Era uma terra rica e propícia para negócios. A primeira coisa que encontraram e que lhes daria muito dinheiro era a doença da Rainha daquela terra, que apenas se curava com a gordura de jibóias. O Rei prometia dar metade do seu Reino a quem conseguisse essa gordura. Então os homens disseram: -Quando estávamos na barriga da jibóia vimos muita gordura suspensa; vamos lá para conseguirmos a gordura. E foram até ao rio encantado e chamaram pelo “barqueiro”. A jibóia apareceu e eles entraram na boca dela e foram cuspidos na outra margem. E foram para a sua aldeia. Passados dois dias resolveram voltar para a terra das delícias para levarem a gordura da jibóia e assim curarem a doença da Rainha. Quando chegaram junto do rio voltaram a chamar o “barqueiro” que logo chegou, abriu a sua boca e eles entraram. Quando a jibóia estava no fundo do rio, um deles pegou numa faca e começou a cortar a gordura suspensa na barriga do animal. Ela, ao sentir as dores que lhe provocavam os cortes da faca, cuspiu os dois homens para o fundo das águas do rio, fazendo-os desaparecer para sempre”. No fim da narrativa o contador da estória dizia: “Etea li mosi ká li kuata ombia (uma só pedra não segura a panela do lume)”. De um canto da cozinha um outro dizia: “Alupolo” – “Luiye” – Respondem todos em uníssono. E começava logo a contar outra fábula: “Havia um pai que devido às grandes preocupações que tinha, foi ter com um rei pedir dinheiro emprestado, empenhando o seu filho. O rei gostou muito do moço e adoptou-o como filho seu. Deu-lhe muita riqueza e ficou sendo um grande daquela terra. Passados alguns anos o verdadeiro pai do moço, conseguindo o dinheiro para pagar a hipoteca do filho, dirigiu-se ao monarca para o resgatar. O rei disse àquele pai que certamente o moço não quererá ser liberto porque agora estava muito rico. Mostrou-lhe as propriedades que estavam no outro lado do rio e disse-lhe: -Estás a ver aquelas propriedades, todo aquele pessoal, aquelas manadas de bois, aquelas casas, tudo é dele. Portanto, é melhor falar com ele e saber se deseja voltar para ti. Aquele pai foi ter com o filho dizendo-lhe que o vinha resgatar. O filho disse então ao pai que estava muito rico e por isso não desejava ser resgatado. Mostrou-lhe toda a riqueza que possuía, deixando o seu pai muito desapontado. Depois de alguns anos passados o rei morreu, e naquela terra quando morria um rei, para o enterrar era costume deitar na cova um escravo para que o corpo do rei não pousasse na terra mas em cima de um corpo que teria ser de um escravo. E a sorte caiu sobre o moço, que o tomaram e o estenderam na cova e por cima dele deitaram o corpo do rei, pois que afinal apesar do moço ser muito rico continuava a ser escravo”. Outra história/estória ainda: “Um caçador foi à caça e carregava consigo uma cabra do mato na cabeça, um coelho a tiracolo e algumas perdizes na cintura. Ia todo satisfeito da vida, a corta mato, e de repente ouviu uma voz vinda de cima que dizia: -Ainda bem que apareceste, meu querido colega. Eu sou caçador como tu. Aquele caçador levantou os olhos e viu que quem falava com ele era um leão que estava enganchado no ramo de uma árvore. O leão disse depois: -Sabes, ó colega, persegui umas palancas (caça grossa) e, ao saltar para apanhar uma delas fiquei preso neste ramo. Ajuda-me a desenganchar deste ramo. O caçador utilizando um pau com forquilha conseguiu desprender o leão. Este então disse:


-Fico-te muito agradecido por teres aqui passado. Se não fosses tu, eu morreria. Mas agora o que me mata é a fome, pois já faz quatro dias que estou sem comer. Por favor dá-me uma das tuas perdizes. O caçador deu-lhe uma das perdizes e o leão comeu-a. Disse que uma perdiz não chegava para lhe matar a fome e pediu-lhe outra peça de caça, mas como todas as peças de caça eram poucas para lhe matar a fome, que o caçador sempre lhas dava por medo, disse-lhe por fim: -Dá-me essas coisas que tens penduradas no corpo para as comer. Mas o caçador disse que eram os seus braços, e o leão disse que os braços também servem para comer. Daí então começou uma grande discussão com o caçador com o caçador a defender os braços. Um cágado que ouviu a tal discussão, aproximou-se e perguntou que discussão era aquela e o leão respondeu com o narrar de toda a história até à parte dos braços. E que o tema dos braços era a causa da disputa, “pois ele não mos quer dar”. O cágado disse que não estava a perceber muito a questão e pediu que voltassem a repetir a história para ver se conseguia entender o problema. Por fim pediu ao leão que simulasse como tudo se havia passado e o leão então disse: -Eu estava aqui e saltei assim… O leão ao saltar ao saltar ficou novamente preso nos mesmos ramos da árvore, e o cágado lhe disse por fim: -Ficas aí preso até morrer, seu ingrato! – Falou depois ao caçador: -Vai para a tua casa e deixa o malvado do leão morrer. Mas como o caçador já não tinha nenhuma peça de caça para dar de comer aos seus filhos, assim pegou no cágado, matou-o, meteu-o no alforge elevou-o para com ele alimentar a família”. Moral da estória: “Cuidado com a ingratidão!” Durante os inúmeros serões contam-se muitos destes contos sempre acompanhados de lindas canções. Assim passavam os jovens o tempo, muito alegres e distraiam-se. Também praticavam outras distracções tais como o ondongo, que é um jogo onde se esconde uma pedrinha ou grão de milho ou feijão em alguém, e os outros tentavam dizer quem os tinha. Na hora de dormir, deitavam-se todos juntos nas esteiras, tanto os rapazes como as raparigas. No entanto não se praticavam relações sexuais, visto estas práticas serem tidas como muito sagradas, e envolvidas numa série de superstições. Entre os Bailundos acredita-se que se alguém tiver uma ferida e tiver relações sexuais, a ferida torna-se incurável. Se alguém for à caça e antes tiver relações com a sua mulher, não trará nenhuma caça. Se alguém fizer quimbombo e antes disso tiver relações sexuais, este se estragará. Caso um homem cometa adultério, todos os filhos do sexo masculino morrerão. No entanto se for a mulher a adulterar, morreriam todas as filhas do casal. Se uma mulher grávida praticar adultério esta morrerá vítima de uma doença onjamba, caracterizada pelo nascimento de embriões nas narinas, semelhantes ao milho quando germina. Se um homem for infiel e tiver relações sexuais durante a gravidez da sua esposa, no momento do parto o bebé ao invés de seguir o percurso no nascimento, iria para cima do peito. A fim de evitar que algum mal destruísse a sua casa por ter praticado adultério, quem cometesse tal acto, deverá pegar certas ervas e colocá-las no fogo da cozinha sem que ninguém se apercebesse, evitando assim a doença de onjamba. No entanto, a melhor maneira de evitar esta terrível doença, é utilizar a carne de elefante, que em umbundu também se chama onjamba. Quem tivesse carne seca de elefante podia ter relações sexuais quantas vezes quisesse, e nada de mal lhe aconteceria caso pusesse um pouco dessa carne no lume da cozinha depois das relações sexuais. Quando estive na Jamba, que era o quartel-general da UNITA (União Nacional Para a Independência de Angola), onde havia muitos elefantes, pois antes era uma reserva de caça, consegui um pedaço de carne seca de elefante que trouxe comigo quando regressei ao Bailundo. Ganhei bastante dinheiro com a venda desta carne, porque todos queriam comprar um pouco deste antídoto, como assim se pensava. Um missionário americano, chamado Webb, que trabalhava na Missão Evangélica do Bailundo, tinha uma pata de elefante, seca. Uma vez, durante as suas visitas pastorais aos quimbos evangélicos, este missionário tinha levado a pata para mostrá-la às pessoas da sua Missão.


28 Aconteceu que no primeiro quimbo, enquanto ele almoçava na Casa Missionária, as pessoas esquartejaram a pata do elefante que tinha ficado fora, levando cada um o seu pedaço daquela carne valiosa para lhe servir de antídoto quando tivessem de ter relações sexuais. Os Bailundos têm muito medo de praticar relações sexuais ao acaso pois, como se diz, “é o medo que guarda a vinha e não o vinhateiro”. Entre os Ovimbundu se alguém lhes perguntar onde dormem os seus animais, nomeadamente as galinhas, indicariam o galinheiro; os porcos ou cabritos indicariam as pocilgas e os currais. Mas se lhes perguntassem onde dormem os seus filhos não lhes dariam uma resposta concreta, uma vez que estes podiam dormir onde quisessem, podendo até dormir com pessoas de outro género sem nunca pensarem em praticar relações sexuais. Ainda hoje, não obstante as mudanças de civilização e de costumes, se num lar dos Ovimbundu houver alguém que sofra de varíola ou sarampo, é costume vedar-se a casa toda, fechando todas as portas e janelas para que o doente não tenha contacto com ninguém. Acredita-se que caso algum homem tenha tido relações sexuais com a sua mulher e vá visitar um doente de varíola ou de sarampo, isso faria o doente morrer. Por esta razão não é permitido que nesta classe de doentes eles sejam alvo de visitas. Caso algum homem quisesse passar a noite com uma rapariga de quem gostasse, não o poderia fazer sem o consentimento dos pais dela, que só a cederiam mediante um pagamento. Obtido o consentimento, a rapariga poderia ir com o homem, e quando estivessem os dois na cama, ela entrelaçava um pano entre as pernas de forma a encobrir o sexo. A partir do umbigo para cima ficava tudo a descoberto e à disposição do homem, podendo este acariciar os seios, o ventre, as costas, a cabeça, etc., sem nunca tocar a sua púbis e a vulva ou pudendo. Caso o homem se deixasse levar pela voracidade e concupiscência, a ponto de forçar a rapariga e a conhecer biblicamente, esta podia abandonar o homem e voltar para casa dos pais. No dia seguinte o homem seria certamente obrigado a deixar a terra uma vez que o seu nome ficaria manchado pela má fama e vergonha. Nos dias especiais ou de luar, era costume toda a população do quimbo ir para os campos de dança onde ao som de batuque, todas as pessoas, independentemente do sexo ou idade, dançarem alegremente. Existem vários tipos de dança e cada uma tinha o seu nome como por exemplo: a lisemba, a Seia, a catita, mangandu, entre outras. Acredito que se alguém levasse um grupo de bailarinos destas danças para a Europa, de certeza que ganhariam muito dinheiro. Uma vez que elas são muito agradáveis de ver. Por sua vez existem muitos tipos de batuques tais como o mungomba, que é um batuque grande, e o henjengo, que é pequeno. Os povos destas regiões acreditavam que os toques dos batuques serviam para exortar as pessoas, a não praticarem actos que os levassem a ser castigados ou amarrados. Defendiam que os pequenos batuques, os henjengos, quando são tocados, dizem: “kukulo kombanja, konganja (serás amarrado com cordas e cordinhas se praticares algum mal)”, e o grande, o mongumba, dizia: “kuenjo, kuenjo (cuidado rapaz, cuidado rapaz!)”. Estas vozes onomatopeicas tinham um significado especial para todos os que as ouviam. Existe um outro batuque grande, com a forma de um caixote, o qual se toca com um caniço chamado nguita. Na vida social dos quimbos, o essencial é o amor. As pessoas amam-se sempre umas às outras. Quando alguém adoece, todos ficam preocupados e procuram forma de o curar; se alguém lutar com outro, são logo separados e reconciliados. Se alguém adulterar a mulher de outro o caso é imediatamente levado à embala, para que seja julgado pelo soba, para obrigar o adúltero a pagar uma multa adequada para este caso. Quando o faltoso pagasse a referida multa, ficava para sempre absolvido do seu crime, evitando assim que houvesse vinganças pessoais devido a algo que tivesse acontecido no passado, como ilustra o seguinte conto: “Um dia a mulher de uma família foi pedir à vizinha um coador para coar uma composição para pôr no conduto da comida. A vizinha emprestou-lho e ela depois de o usar lavou-o e pôs a secar ao sol. Mas devido à negligência, esqueceu-se de recolher o coador. Acabou por ficar ali muito tempo, até que nasceu dentro dele uma planta de cabaças. A planta cresceu rapidamente e produziu muitas cabaças, grandes e lindas. Aconteceu depois que um dia a dona do coador passou perto da planta das cabaças e se encheu de inveja das mesmas. Mas ela descobriu que aquela planta tinha nascido dentro do coador que emprestara à vizinha. Logo que chegou em


casa mandou um dos seus filhos à vizinha para que lhe devolvesse o coador emprestado, o que o filho prontamente fez. A dona das cabaças foi à casa da vizinha pedir-lhes desculpas, dizendo que no coador havia nascido uma planta de cabaças, que havia produzido muitas cabaças, e se ela tirasse agora o coador a planta secaria. A dona do coador não ligou ao que a outra lhe disse, e apenas lhe replicou que queria o seu coador o mais rápido possível. A dona das cabaças foi arranjar outro coador ainda melhor para o evolver, mas a outra não o aceitou, dizendo que queria só o seu coador. O caso acabou por ir à Embala na esperança de que o soba conseguisse fazer com que a dona do coador recebesse um pagamento qualquer, no entanto esta continuava obstinada e só aceitaria o seu coador. Não houve outra solução senão arrancar a planta das cabaças. Depois de cortada a planta, as cabaças já quase criadas acabaram por se secar, morrendo. Com o passar do tempo, os acontecimentos pareciam ter sido esquecidos, mas como diz um ditado em umbundu: “Wambaewe cu limba puai u lia tonyola ka cu limbi omo ndaño epute liaco lia kaia lio sila emome”. O que significa: “Quem atira uma pedra ao outro esquece-se rapidamente, mas quem é atingido pela mesma nunca se esquece, visto que mesmo que a ferida tenha curado fica sempre a cicatriz”. Por conseguinte, passado algum tempo, um ano, dois ou mais, as duas mulheres voltaram a ser amigas como dantes. Um dia, durante as grandes festas de Eyele as duas senhoras e os seus respectivos maridos foram juntos a esta festa; passeando juntos foram comer e beber. Ali já ninguém se lembrava do passado. A senhora que era a dona do coador tirou uma pulseira do braço da criança da sua vizinha e meteu-a no braço da sua criança que tinha a mesma idade da outra. A pulseira não tinha nenhuma ligação com a outra questão e ninguém deu por conta de nada. Por alguns anos a pulseira permaneceu no braço daquela criança. Um dia a dona da pulseira descobriu-a no braço da filha da dona do coador. Esta fez o mesmo que a outra tinha feito em relação ao coador. Quando chegou em casa, enviou um dos seus filhos à casa da vizinha para ir em busca da pulseira. Assim que o moço lá chegou para cumprir as ordens da sua mãe, a mãe da outra criança resolveu tirar a pulseira do braço da filha, mas a pulseira não saiu, pois entretanto a mão da menina havia crescido. Ela então foi ter com a vizinha e explico-lhe a situação e a impossibilidade de sacar o objecto do braço da petiza. A dona da pulseira não aceitou qualquer explicação dizendo que só lhe interessava receber o que era seu. A mãe da petiza pediu para tentar cortar a pulseira do braço da sua filha, mas a dona da pulseira não aceitou a proposta. A mãe da petiza então prometeu entregar dois bois como pagamento da pulseira, mas a outra respondeu que não queria boi nenhum, mas sim apenas a sua pulseira. O caso acabou por ser levado à Embala, para que o soba resolvesse a questão. Este tentou tudo para que as duas mulheres se entendessem, não o conseguindo, e quando ouviu o relato da questão e o comparou à questão passada com o coador e as cabaças, concluiu que era lícito proceder como a vez anterior, que era cortar o braço da criança e tirar a pulseira do seu braço. Assim, o soba mandou um homem da corte para proceder ao corte do braço, e assim resolveu a questão, deixando a criança sem a mão. Moral da história: a primeira mulher ficou sem as cabaças, a segunda ficou com a filha sem a mão. Por este motivo os Bailundos evitam sempre a vingança. O Modo de Vivência por parte do Povo Bailundo Antes da Chegada dos Colonos Brancos Chegarem à Região. Há tarefas específicas para os homens tal como para as mulheres. Os homens constroem cubatas, fazem almofarizes, luiko (espécie de remo de canoa para fazer pirão [ou espátula]), chito (colher de pau para tirar o pirão da panela), fundições para fazer enxadas e machados, etc. A fundição era feita, geralmente, com pedra (minério) de ferro que abunda na região do Bailundo. Os responsáveis por este ofício transportam estas pedras para uma mata onde cavam uma vala e onde as metem. Em volta ficam quatro ou mais lyeveyo (forjas). As pedras ficam no meio do carvão vegetal, e os homens passam ali a noite inteira a forjar. Na manhã seguinte, já se pode ver o ferro derretido e separado das escórias.


N.B.:

30 Caso um dos forjadores, tenha tido relações sexuais anteriormente, segundo a superstição daquele povo, as pedras não chegam a derreter. Com o ferro derretido, fabricavam todo o tipo de artefactos para a agricultura e objectos caseiros, como machados, enxadas, facas e outros objectos. Na agricultura a situação é diferente, pois os homens trabalham juntamente com as mulheres. O trabalho dos homens na agricultura tem mais a ver com o corte das árvores, abrindo-se desta forma novas lavras. No bailundo o milho é a base da alimentação das populações até aos dias de hoje, e com ele se podem confeccionar os mais variados pratos (alimentos). O principal é, sem dúvida, o pirão. Para além deste também se confecciona o ekende, espécie de boroa, lukango, que é milho torrado; há a asssola, que se designa por kanjika (em português), chikuvi, libete, etc. Antes dos brancos existirem na área dos Bailundos, os homens dedicavam-se muito mais a viajar. Iam ao Moxico, região que pertence a outros grupos étnicos, como os Nganguela e Chocué, a fim de conseguir borracha que vendiam aos brancos que, na época, se encontravam em Benguela. Nas matas das regiões onde vivem os nganguelas, existem várias plantas silvestres que produziam a borracha, produto muito apreciado na época. Cavavam (extraiam) as raízes, que depois eram pisadas com paus para lhes tirar as impurezas. Depois a borracha era lavada nos rios onde se estabeleciam as medidas correspondentes. Os Bailundos quando deslocavam-se a estas terras levavam consigo sal, tabaco, tecidos, etc., para trocarem por cera, marfim, escravos, etc. Estas mercadorias eram levadas a Benguela onde eram vendidas aos brancos a troco de dinheiro, fardos de tecidos, utensílios, aguardente, armas de fogo de carregar pela boca, pólvora e outros artigos. Os que conseguiam ovos de carraceira obtinham produtos de maior valor. Quando me falaram destes ovos, pensei que, na realidade, tratava-se de ovos verdadeiros, de aves, mas tratava-se de diamantes, os quais encontravam nos rios quando lavavam a borracha. Como não sabiam que se tratava de diamantes deram-lhes o nome de carraceiras (esala lioyañe), em umbundu. Apenas soube disso ao ler o livro escrito por um dos comerciantes antigos que vivia em Benguela. Havia também empresários chamados, em umbundu, de fumbelo, ou seja, pombeiro em português. Estes obtinham muitas mercadorias de Benguela que enviavam para os Nganguelas, e viceversa, mercadorias, estas, transportadas às costas de carregadores negros. Estes trajectos levavam muitos dias e eram muito arriscados devido aos animais selvagens, salteadores, às doenças, etc. Viajavam durante a metade do dia, e a outra metade era para se precaverem nos acampamentos contra estes

Para saberem da riqueza e cultura fascinantes dos outros Povos de Angola, apresento-lhes os Bakongo: http://www.fflch.usp.br/spap/administracao/arquiv os_publicacao/DA_LUENA.PDF

Bailundus: http://www.minhasimagens.org/convidados/lucian ocanhanga/textos15.html

Olosoma

é o plural de Osoma o que significa Soba, que é o plural de Epalanga. Vide http://www.infoangola.ao/index2.php?option=com_content&do_p df=1&id=254, na página 7, nota 14. http://www.angoladicas.com/news_detail.asp?ID= 5281 (Citação: “Os manuscritos iam com o milho? Como eu não tinha milho, tinha de comprar milho no comerciante. Na lista das compras, pedia duas quartas de milho, ou três, com balaio [cesto]”).

Quinda (quin-da) Feminino. Termo de Angola. Espécie de cesto cylíndrico, sem tampa. Cf. Serpa Pinto, I, 169. [Dicionário Cândido de Figueiredo, 1913]. Efuanga

ou Esuanga, que são folhas de mandioqueira. http://eanadv.blogspot.com/2010/07/tirania-dabeleza.html; http://plenamulher.blogspot.com/2010/01/belezamadura-sem-neuras-mulheres_18.html 1. Vide o PDF “Cantos africanos em umbundo” na net: Formato do ficheiro: PDF/Adobe Acrobat Ver em HTML “Ombinji cão do mato onohã ondiba ou kandimba” www.letras.ufmg.br/labed/download/cantosafrican os2ed-site.pdf


malefícios. Faziam grandes cercos de madeira à volta dos campos, constituídos por palhotas bem resistentes, a fim de evitar que leões os atacassem ou os salteadores o roubassem. Apesar de todas as precauções, muitos foram comidos por leões e assaltados por ladrões. Durante as noites faziam grandes fogueiras dentro das cercas, e enquanto uns dormiam outros faziam de sentinela. Se ouvissem o rugir do leão batiam em panelas, lançavam nas fogueiras farrapos para avivarem as chamas e provocarem mau cheiro, gritavam e disparavam tiros de canhangulo, fazendo deste modo muita agitação. Se alguém pele de algum animal, que designavam de ombinji, cortavam dela um pedaço que deitavam ao lume, e que afugentava os leões. Os ombinji atacam qualquer animal, e têm os dentes muito cortantes, semelhantes a navalhas. Diz-se que quando se defrontam com qualquer outro animal, seja leão, elefante, etc., atacam-no um por um e em pouco tempo este animal (atacado) fica apenas esqueleto. Os ombinjiix são semelhantes aos cães, e até fazem temer até as hienas e outros predadores.


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TOMO III "O MODO DE VIVER DOS BAILUNDOS ANTES DOS BRANCOS CHEGAREM A ESTA ZONA DE ANGOLA"

"Conheci um fumbelo (empresário/comerciante) que viveu até ao meu tempo, que me contou que certa ocasião organizou uma grande caravana a fim de transportar mercadorias da região de Nganguela para Benguela. No regresso a caravana trazia muita carga de fardos de panos, angoretas, barris de pólvora e armas de fogo. No segundo dia de viagem de Benguela para Nganguela chegaram a um acampamento antigo, e como era lugar geralmente habitado por leões, fortificaram ainda mais o campo, construindo cercas de paus grandes à volta das palhotas. Durante a noite ouviram ao longe o rugir do leão, e para o afugentar começaram a fazer muito ruído com o que pudessem, batendo nas panelas e queimando farrapos, mas, sem de todo se aperceberem, já uma leoa estava perto do acampamento. Durante a noite foram ouvindo os rugidos, e tal como se fosse um sinal dos animais entre si, a leoa saltou a cerca, entrou no acampamento, e tomando um irmão do fumbelo atirou-o para fora do cercado, ferrado pela nuca e arrastado por entre a escuridão da noite. Já de manhã, muito cedo, o fumbelo disse aos seus carregadores: -"Se vocês quiserem seguir viagem podem fazê-lo, porém eu só o farei depois de ver o local onde o meu irmão foi devorado. Armou o seu canhangulo (arma defensiva) com algumas cargas e seguiu o rasto do irmão, que entravam pela mata fechada. Continuou sem desalentar, e às tantas lá viu, pelas pegadas, que o animal com a sua presa havia saltado um precipício e tinha-se dirigido a um morro. Quando ali chegou, encontrou uma caverna onde estavam os sinais da leoa e os restos do seu irmão. Entrou na caverna onde encontrou quatro filhotes da fera e parte do corpo do seu irmão, mas o animal não estava lá; provavelmente tinha ido à caça. Tirou o seu machadinho da cinta e matou as quatro crias da leoa. Depois foi em busca de ramos de árvores com os quais tapou a entrada da caverna, ficando ele dentro esperando pelos leões. Logo que eles apareceram, logo disso se apercebeu com os seus rugidos. Preparou-se para os defrontar, e logo que a fêmea começou a desimpedir a entrada, o fumbelo disse: -"Já que mataste o meu irmão, também te vou liquidar." -Disparou o canhangulo, acertando na testa da leoa, que logo caiu morta. O macho vendo a fêmea estendida no chão lançou-se para dentro da caverna mas, ao tentar puxar os ramos também apanhou um tiro no peito, morrendo. O negociante ainda esperou mais algum tempo para ver se haveria mais algum outro animal, mas estava tudo calmo, nenhum mais apareceu. Saiu da caverna chorando pela morte do irmão onde o deixou abandonado. cortou as duas caudas do leão e levou-as para o acampamento, onde o esperavam os outros, e onde foi recebido em apoteose. As pessoas desta região efectuavam muitas destas viagens do Moxico para Benguela. Os caminhos estavam sempre cheios de homens e mulheres. Quando chegavam a Benguela acampavam ao ar livre, em virtude de não haver muitos materiais para fazer as palhotas, onde permaneciam por algum tempo. Ali comiam e bebiam, plenos de satisfação por terem chegado ao local onde podiam tratar dos seu negócios. Durante a noite iam para um lugar especialmente escolhido onde dançavam uma dança chamada ombenguela, que ainda hoje se dança. É do nome desta dança que se originou a palavra Benguela. Depois vendiam as suas mercadorias que levavam do Moxico, mas o negócio mais lucrativo era o tráfico de escravos. Entre os bailundos os tios, do lado materno, tinham mais poder sobre os seus sobrinhos que os seus próprios pais. Se um filho fosse rebelde ou praticasse maus actos, como o de raptar ou violar mulheres alheias, o seu tio materno propunha aos pais a sua venda como escravo. Assim, quando se preparassem para mais uma viagem de negócios a Benguela, o rebelde era convidado para carregar a carga dum fumbelo qualquer, mas muito longe de suspeitar do seu destino. Tratavam-no com todo o cuidado e carinho. No dia de regressar ao Bailundo, iam à loja onde propunham o negócio da venda do moço. Selado o negócio, o rapaz era levado àquela loja, onde, sem o saber, era mostrado ao negociante com gestos apenas de olhos. Em seguida o branco mandava-o ao seu quintal em busca de


alguma coisa onde ficava preso e escravo. Depois o preço era estipulado em função da idade do jovem. A título de exemplo, um rapaz com a idade entre os vinte e os vinte e cinco anos era muito oneroso e, geralmente, os vendedores recebiam por ele cinco fardos de peças de pano, cinco armas, quatro ancoretas com aguardente, dois barris de pólvora e outras coisas mais. No fim do negócio voltavam ao acampamento, comiam qualquer coisa; depois, com as suas bagagens, faziam o regresso, passando por o Lobito, antes conhecido por Upito, que significa passagem, que mais tarde foi aportuguesado para Lobito. Estas viagens eram constantes e, como tal, era usual, ver as pessoas que iam e as outras que voltavam. Quando regressavam a Benguela, por vezes sofriam ciladas da tribo dos Quissangue constituída por grandes salteadores, caluniadores e intriguistas. Era muito frequente, quando as caravanas passavam, um homem ou uma mulher ficarem junto ao caminho, completamente nus, com metade de excremento no ânus, fingindo-se de morto. Quando quem viajava passava junto daquela pessoa exclamava: -"Está alguém aqui morto!" -O "morto" ou "morta" então despertava e dizia: -"Como é, vocês dizem que eu estava morto, se apenas estou a descansar" -Depois levantava-se e corria para se queixar ao soba (líder operativo) da região, que organizava um grande contigente de homens armados para atacar os viajantes bailundos e os despojar de tudo o que transportassem. Outras vezes estas ciladas eram feitas com com uma pasta abandonada no caminho. Quando a caravana ali passava e alguém pegasse nela, aparecia de imediato, um quissangue, e dizia que tinha deixado ali a pasta com muito dinheiro. Isto era o suficiente para que estes viajantes ficassem despojados dos seus bens. Outras vezes os quissangues ficavam escondidos na floresta, e quando a caravana passava atacavam o último carregador e, assim que este caia, o salteador pegava no ekupa (fardo de panos) e desaparecia com ela na mata. Houve vezes, e não poucas, que os bailundos travaram lutas renhidas contra os quissangues. Os perigos estavam sempre à espreita, pois assim que deixavam a área de Quissangue entravam na zona dos leões, sobretudo na área de Louduimbali, ou Luimbale para os portugueses, a sessenta e cinco quilómetros do Bailundo. Quando chegavam aos quimbos, uma parte das mercadorias eram guardadas nos celeiros, enquanto que o restante era levado para o Moxico, onde adquiriam mais mercadorias que, mais tarde, eram levadas para Benguela, que naquela época se chamava Mbaka. Estas viagens eram o pão de cada dia para os bailundos. Era raro haver uma conversa em que não se referissem a Mbaka ou Nganguela, que é o Moxico. Inclusivamente havia algumas adivinhas, tais como: "Okanjo kanje kobela vo Nganguela!" -Quem souber decifrar responderá: -"Esala." -Cuja tradução é: "A minha casinhabranca no Nganguela o que é? É o ovo. "Nda pika iputa pike, nda enda vo Nganguela, siti ndi tiuka omo votokela!" -E alguém responde: "Olondungo." -Tradução: "Fiz pirão bem feito, fui a Nganguela, e quando voltei o mesmo pirão aindacontinuava quente. É o gindungo (espécie de pimenta, muito picante, ou piri-piri). [N.B.: Vamos agora mudar de narração já a seguir:] Na Missão Evangélica (N.B.: esta Missão tinha um lema baseado na Confissão Belga, que postula: a Igreja verdadeira tem três marcas ao menos: uma doutrina sólida, a correcta ministração dos sacramentos e o imperativo da disciplina) do Bailundo havia em tempos um professor da aldeia chamado Damasco Chango. Certo dia este docente foi visto a namorar (violando o código deontológico da docência e da Missão evangelical) e de forma imprópria (feriu a ética cristã) com uma rapariga, sendo por isto expulso do quimbo. Não satisfeito, o referido professor requereu para ser professor do estado. O pedido lhe foi deferido mas, para o seu pesar inicial, foi colocado na mesma aldeia, visto que de momento o governo português havia decidido estender o sistema de ensino aos indígenas. Mas este docente decidiu logo não seguir a mesma senda nocente. O que entendo como uma decisão sábia; já, com muita dor e espanto, considero a acção operativa do estado como imprudente ao permitir que ele continue a lecionar. Mas adiante. Ele como professor do estado era bem pago e, como tal, comprou uma moto, vivia bem e nada lhe faltava.


34 Assim todos diziam: -"U wa lilogisa wa ssoka lacindele. Eci u lula osapato, ko Mbaka kutunda asikasa colosapato" -Tradução: "O instruído é como um branco; se alguém o descalçar, de Mbaka virá uma grande caixa de sapatos". Com a chegada do Evangelho aos bailundos, os onjangos foram subvertidos, transformando-se a partir daí em cozinhas. Recorde-se que no passado os onjangos eram uma "instituição" onde se reunia muita gente que aprendia muita coisa sobre os seus antepassados bem como outros conhecimentos necessários à sobrevivência da comunidade. Entre os bailundos, na sociedade tradicional, as mulheres são as responsáveis pela cozinha. Devido ao dote, a mulher casada é submetida a uma grande pressão: Trabalha mais que o homem, sobretudo em actividades que exigem grande esforço físico. Nas lavras, depois do trabalho, e mesmo com o marido ao lado, ela é obrigada a transportar à cabeça uma quinda grande cheia de milho, batata-doce, folhas de mandioqueira, lenha para o fogão e outras coisas mais. E como se não bastasse, uma criança às costas. O marido deixa, normalmente, a lavra quase de mãos vazias. Uma vez vi uma criança já crescida a mamar e perguntei-lhe porque, com a idade que tinha, ainda mamava. Então respondeu-me: -"Estou a mamar graças ao dinheiro de meu pai." -Isto ilustra como as crianças já sabem que para se ter uma mulher é necessário comprá-la. Mesmo em casa, quando voltam da lavra (do trabalho) a mulher continua a trabalhar. Enquanto o marido se senta a comer a mandioca e a descansar, ela vai ao rio buscar água e descasca o milho no almofariz. Depois tira-lhe o farelo, lava-o, e o põe numa grande panela de barro que repousa junto ao lume. Por fim varre a cozinha, lava a loiça e começa a preparar a ceia. Põe no lume a panela, e quando a água começa a ferver deita a fubá dentro da panela, pega no luiko (colher de pau comprida) e mexe e remexe o pirão, devido a esta diversidade de tarefas, entre os bailundos, é usual ironizar-se que, logo que a mulher faz pirão ouve-se o ruído de luiko: -"Epata kundu, epata kundu, epata kundu." Tradução: "Liquidarei a família, liquidarei a família." Num canto, a filha, com doze anos de idade, mais ou menos, na gamela amassa o gindungo e tendo na mão a ponta de um outro luiko responde: "Tulikua, tulikua, epata kundu, epata kundu." Tradução: "Seguirei o teu exemplo, mãe, quando casar também liquidarei a família". Feito o pirão, a mulher tira a panela do fogo e o distribui pelos pratos ou em pequenas quindas, utilizando o ochito, um utensílio semelhante a uma concha. Mete o ochito na panela, enche-o de pirão que depois despeja no prato, mete-o na água para alisar o pirão, e por cima põe mais um ochito cheio de pirão, e assim sucessivamente. Ao chefe da família cabe-lhe três ou quatro ochitos generosos, pois cada membro da família ordinária tem o seu número correspondente de ochitos. O conduto não se distribui com o ochito. Comem todos do mesmo recipiente na cozinha sem mesa e sem colheres. O ajuntamento familiar compõe-se, geralmente de três cubatas: o dormitório, ao lado deste fica a tulha, ou celeiro, uma pequena cubata construída por cima das forquilhas; a terceira cubata é a cozinha que também serve de sala de estar, refeitório e sala para os serões, e que agora também funciona como onjango. O lume é armado no centro da cozinha, com três ou quatro pedras, que têm o nome de atea, estas pedras servem para susterem as panelas por cima das chamas. Geralmente repousam na cozinha outros utensílios como sejam as panelas, pratos, recipientes de barro para uma bebida chamada chissangua, quindas, almofarizes e vários bancos. Depois da ceia, junta-se muita gente na cozinha, especialmente jovens, para fazerem serões que, por vezes, se prolongam para lá da meia-noite; o que outrora era feito nos onjangos passou a ser feito aí, tal como a narração da história dos antepassados, contos de fábulas, jogos e outras distracções. Os serões em nossa casa passavam-se na cozinha do nosso cozinheiro para onde diariamente nos dirigiamos à noite. Sentávamo-nos em redor do lume e ele contava-nos tudo o que sabia. Ele tinha assistido à chegada dos primeiros missionários ao Bailundo, e também havia ido, várias vezes, a Benguela vender borracha e escravos. Numa noite ele resolveu falar-nos da sua vida: -"O meu pai foi morto por uma alma do outro mundo!" -Tossiu e cuspiu na cinza do lume. "Mas antes disto", prosseguiu, "assistiu-se à morte de todos os meus irmãos. Por isso, ao nascer, e para não morrer, foi-me dado o nome muito feio de Chifuanda, a fim de desencorajar os


cazumbis a me eliminarem. E cresci assim. Mas quando tinha mais ou menos quinze anos de idade morreu a minha mãe. Fiquei só eu e o meu pai. Tempos depois o meu pai conheceu uma mulher muito nova, que havia ficado viúva poucos meses após o casamento. Quando o meu pai a pretendeu para casamento foi fortemente desaconselhado de o fazer por muita gente, que alegavam que aquela mulher, de nome Nangueve, fora oki lambi wa (pessoa perseguida por uma alma do outro mundo). Mas o meu pai gostava muito dela e não havia razões para menos, pois ela era uma mulher de muita beleza. De modos que, disse, depois do casamento iria ter com o kimbandeiro (curandeiro ou feiticeiro) a fim de escorraçar a alma que a tem perseguido. O meu pai preparou-se para o casamento que foi realizado no dia marcado conforme mandava a Tradição. Nesse mesmo dia, o meu pai teve de deixar a esposa em casa para ir enxotar os periquitos que às tardes e manhãs bem cedo comiam o milho fresco da sua lavra. Ao chegar à lavra encontrou grandes bandos destes pássaros e se pôs a enxotá-los dizendo em altos brados: -"Ho! Ho! Ho!" Os periquitos levantavam-se em bandos do milheiral e fugiam. Quando o meu pai gritava um outro homem abaixo da lavra o imitava. O meu pai não se incomodou e continuou a espantar as aves, julgando estar a ouvir o eco que vinha de outra lavra, a sul. Quando escureceu, os periquitos deixaram de comer o milho, e o meu pai pôs-se a partir algumas maçarocas para a ceia no ochipundo (palhota das lavras) onde iria dormir, para no dia seguinte continuar com a tarefa. No entanto, quando partia as maçarocas, alguém também fazia o mesmo. Ele, pensando que fosse um ladrão, dirigiu-se para o local donde vimha o ruído e encontrou alguém a cortar os milheiros com uma faca, sem no entanto ver a pessoa que o fazia. O meu pai não compreendia aquele estranho fenómeno. Ao chegar ao ochipundo acendeu a fogueira e pôs-se a assar as maçarocas que tinha consigo arrumando-as à volta da fogueira. Quando uma delas ficava pronta comi-a grão a grão. De repente apareceu um homem alto e forte, vestido com um pano preto da cinta aos pés. Vestia também um casaco preto e um grande chapéu na cabeça. Pôs-se à porta do ochipundo, com um onjambi (maçarocas de milho em molho) numa mão, e na outra um molho de folhas frescas para fazer a cama. O meu pai apanhou um grande susto. O estranho pediu permissão para entrar, e quando o fez espalhou no chão as folhas, e depois de se ter sentado num pequeno tronco que ali estava disse: -"Eu venho de Ulindi e vou para Kalilongue, mas fez-se tarde, e quando o sol se escondia vi o fumo a sair deste ochipundo e então resolvi vir até aqui para passarmos junto a noite". Dito isto, pegou no seu onjambi, tirando de lá uma espiga de milho que se pôs a assar. Na altura era já noite profunda. O meu pai não se sentia à vontade, pois o homem metia-lhe muito medo. Depois de ter assado e comido todas as espigas, arrumou as folhas num canto do ochipundo e disse que tinha de deitar-se cedo para poder madrugar e prosseguir com a sua viagem. O homem fez a cama, tomou o pano para se cobrir e deitou-se. O meu pai continuava ao lado do fogo a aquecer-se. De repente o estranho começou a ressonar. Momentos depois, meu pai, estarrecido de medo, mal podia conter o seu espanto ao ver o homem que ressonava ao seu lado transformar-se em esqueleto no seu leito, com a caveira a mover-se para a frente e para trás. Meu pai continuava cada vez mais assustado, e a imagem tornava-se mais clara com a luz provocada pelas labaredas de fogo. Foi então que gritou cheio de medo: -"A Tate we, nye ndimola ndeti?" -Tradução: "Ó meu pai, que é isto que estou a ver?" -Os bailundos, quando se deparam com algum perigo sempre evocam os seus pais. Este grito fez despertar o homem que lhe disse com um ar muito severo: -"É um mau costume incomodar alguém que dorme em paz; dorme tu também", ordenou. Meu pai que tinha ficado sem sono, teve de fazer tudo por tudo para adormecer. Arrumou as suas folhas no chão e dormiu de cara virada para trás, com a fogueira entre os dois. De repente volta a ouvir o homem a ressonar. O meu pai queria aproveitar esta oportunidade para abrir um buraco no ochipundo e fugir; pensava nisto quando o homem voltou a acordar e disse: -"Nem penses em fugir! Dorme!" O meu pai embora sem sono, meteu-se de novo na cama e pensou: "Que homem é este que chega a descobrir os meus pensamentos? Certamente que deve ser o ex-marido de Nangueve, pois me tinham aconselhado a que não me casasse com ela, para não ser perseguido por ele". Mais uma vez o pensamento do meu pai fez despertar o estranho homem, que exclamou: -"Se tu sabes que eu sou o marido de Nangueve porque te casaste com ela? Na verdade ela me pertence


36 até eu resolver os problemas que tenho com ela. Por saberes quem eu sou, e pelo teu atrevimento, vou matar-te". Quando o estranho quis levantar-se para liquidar o meu genitor, ouviu-se uma voz vinda de fora do ochipundo, na escuridão da noite: -"Ó Sachilombo, deixa em paz o meu irmão Lutukuta. Ele não casou com a Nangueve de graça. Ele gastou muito dinheiro com ela". Entretanto o estranho começou a perseguir meu pai transformando-se em remoinho de vento com o intuito de o matar. No entanto, fora do ochipundo estavam os irmãos do meu genitor que já haviam falecido e, também sob a forma de remoinhos de vento, puseram-se no encalço do homem e o retiveram. O meu pai a correr viu que havia sido detido. Já não havia remoinho algum. O meu pai correu até à sua casa onde chegou muito cansado e quase fora de si. Nangueve notou que o marido estava mal e, por isso, pensou que algo de muito grave tinha acontecido na lavra. Mas ele nada de estranho lhe contou. Quando amanheceu, Nangueve dirigiu-se à lavra para saber o que na verdade se havia passado. Ao chegar encontrou o ochipundo quase destruído. Tinha uma abertura nas traseiras, tinha a porta aberta, e viu a arma do marido no chão. Tomou-a e levou-a para casa. Depois voltou a perguntar ao marido o que se havia passado. Meu pai, que gostava muito dela, não lhe disse nada do acontecido por temer que ele se fosse embora. Nesse dia ele já não foi afugentar os periquitos. Ficou em casa o dia todo. À meia-noite desse dia, os lobos invadiram o curral dos porcos levando um consigo. O meu genitor, quando se apercebeu, tomou a sua arma e disparou contra os lobos, mas quando o fazia os lobos riam-se dele. Apesar disso ele continuou a disparar a arma, carregava-a e voltava a disparar. Mas os lobos em nada se amedrontavam e continuavam a rir-se dele. Mais tarde um dos lobos falou e disse: – Não gastes a tua pólvora em vão! Deixou então de disparar, e deu-se conta de que não se tratava de lobos mas sim dos cazumbis do antigo marido de Nangueve e seus irmãos. Ao amanhecer o meu Pai seguiu o trilho por onde os lobos tinham passado com o seu porco, e foi ter a uma cova de um onjimbo num cemitério muito antigo. [Onjimbo – Conhecido por “porco da terra”, mas vários dicionários chamam-no de “orieterope”. Em relação a este animal, convém esclarecer que ele vive nos buracos que ele próprio cava com as suas afiadas unhas. Cada buraco deve ter cerca de meio metro de diâmetro e vinte a trinta metros de profundidade. Não se alimenta de vegetais mas de formigas, salalé e outros bichos que se encontram em baixo da terra. Para os matar é costume fazer-lhes uma emboscada junto da entrada da toca onde vive, pois só costuma sair dela por volta da meia noite. Dizem que pouco antes de sair, ouve-se um grande ruído dentro do buraco, e saem muitas borboletas e outros insectos. Algum tempo depois saem seres do tamanho de crianças com esteiras na cabeça. Estes seres, costuma dizer-se, são as almas das crianças. Antigamente o onjimbo não aparecia muito, mas agora multiplicaram-se e aparecem várias vezes. Este bicho gosta muito de cavar as sepulturas nos cemitérios, tirando para fora os ossos que ali se encontram. Os onjimbos têm caudas muito grossas. Se alguém matar um deles é obrigado a levar a cauda ao soba. Os seus excrementos são difíceis de encontrar e valem muito dinheiro, pois são utilizados em feitiçarias de roubos, que faz com que vítima caia num sono muito profundo a ponto de não dar pela presença dos ladrões. Basta queimar parte destes excrementos junto da janela ou da porta, para que a pessoa a ser roubada durma profundamente, conforme uma ocasião presenciei, a ponto de tirarem o dormente da cama para o chão para lhe tirarem os lençois. Dizem que cada buraco de onjimbo dá acesso ao outro mundo, o das almas penadas]. O cemitério era tão antigo que quase se não via nenhuma outra campa. Apenas se viam pedras grandes e árvores. Foi então aí, num esconderijo de onjimbo, onde os lobos esconderam o porco. Isto intrigou de tal maneira o meu Pai, pois ele sabia que os lobos vivem em cavernas e não nas tocas dos onjimbos. Depois subiu a uma árvore onde fez um assento com paus, chamado utala. Quando dse fez noite, pegou na sua arma, foi até à sua utala e sentou-se à espera que os lobos saíssem para os matar um por um. Era noite de lua cheia.


De repente, o meu Pai viu uma rapariguinha sair do buraco com um pau onde ela batia ao mesmo tempo que gritava: – Mã, mã, mã! Esta é, geralmente, a forma de se chamarem os porcos. Foi então que ele viu dois onjimbos, correndo em direcção à rapariga, ela deu-lhes comida e desapareceu. O meu pai observou aquilo tudo mas não teve coragem para disparar, visto que só esperava que saíssem os lobos que haviam roubado o seu porco. No entanto, ao invés de saírem lobos, saiu um homem que deveria ser o Muechalo, o homem que costuma transportar o banco do soba, trazendo, sim, um banco de pele de boi que colocou no chão próximo da toca, e de lá viu também sair muitas pessoas que se sentaram à volta da mesma. Depois disto apareceu um homem idoso que se sentou no ochalo, e logo que se sentou, todos os presentes levantaram as pernas no ar, e um deles pôs-se a assobiar ao mesmo tempo que dizia: – Pelompe pali oku miña (Na corte come-se carne). O meu Pai compreendeu logo que aquele era o soba da aldeia, que era o cemitério. Ia tratar-se de um julgamento. Depois de todos se sentarem, o soba pediu que o queixoso dissesse o que se havia passado, este levantou-se e disse: – Eu vim queixar-me do sékulo chitumda que me matou há já bastante tempo, deixando viúva a minha mulher e os meus filhos a padecerem. Assim, peço diante de vós para irdes buscar esse Chitunda, para que, tal como eu venha para cá e também deixe a sua família como eu deixei a minha. Este Chitunda era o vizinho do meu Pai. O soba queria responder, mas foi logo interrompido por uma mulher que tinha saído do buraco do onjimbo e que disse: – Vocês estão aqui entretidos com o ekanga (julgamento), e não vêm, por acaso, o homem que está em cima daquela árvore? Todos os presentes, ao darem-se conta de que havia alguém em cima da árvore, puseram-se precipitadamente em fuga, metendo-se no buraco como ratos. O soba foi o primeiro a desaparecer. O meu Pai viu aquilo tudo como se fosse um sonho. Quis descer da árvore para regressar a casa, mas apareceu-lhe uma velha que dirigindo-se à árvore onde ele estava disselhe: – Ó Lutukuta, foste muito atrevido e imprudente ao te casares com a Nangueve. O marido dela, que vive cá, não a deixará sem primeiro resolver alguns problemas que tem com ela. Hoje tiveste muita sorte por o não teres encontrado aqui. O soba incimbiu-o para ir em busca de um feiticeiro. Se o tivesses encontrado cá de certeza que não saírias daqui vivo. Ele anda muito zangado contigo. Eu na qualidade de tua bisavó, aconselho-te a deixar a Nangueve e a arranjares uma outra mulher. Há tantas outras mulheres no mundo e, por isso, não vale a pena insistires em ficar com ela, o que poderá significar a morte certa para ti. Segue este meu conselho, pois eu, como tua bisavó, avó de teu pai, não quero que morras. Quando vim para aqui, o teu pai nem sequer havia nascido. Agora desce dessa árvore antes que o teu rival chegue. Vai-te embora e expulsa a Nangueve de casa. O meu Pai quis responder, agradecendo o conselho da sua bisavó, mas esta disse-lhe para que se calasse, pois quando uma alma do outro mundo fala não se lhe deve responder. Momentos depois o meu Pai desceu da árvore e foi para a sua casa. Quando lá chegou, ao ver a esposa, disse-lhe: – Querida, como sabes, tenho sido perseguido pelo teu ex marido que procura matar-me. Por isso, acho melhor que amanhã, logo ao amanhecer, tomes as tuas coisas e voltes para a casa da tua mãe. Quando amanheceu, Nangueve, antes de partir, quis ouvir novamente a ordem de expulsão. Mas o meu Pai, que gostava muito dela, não teve a coragem de repetir novamente a ordem de a expulsar. Ele então comeu alguma coisa, tomou o seu machado e saiu pela mata fora para fazer um “onde” (colmeia de abelhas). Ao chegar a determinado lugar da mata cortou uma árvore, e preparou o tronco que iria servir de onde. Rachou-o ao meio e abriu uma fenda numa das partes. De súbito, apareceu um homem com um machado na mão que ao o ver lhe disse: “Segundo o nosso ditado antigo, quando encontrares alguém a soprar fogo, sopra-lhe no ânus, pois o que sair daquele fogo será comido


38 pelos dois. – E assim, o estranho, pegou na outra parte do onde e com o seu machado se pôs a trabalhar. Tá, tá, tá…, e em pouco tempo a colmeia estava pronta. Ao ver aquele fenómeno, o meu Pai abandonou o seu machado e fugiu daquele lugar, pois sabia que estava de novo perante o seu rival. Correu, mas aquele homem transformou-se em remoinho de vento para o perseguir. Mas as almas dos irmãos do meu Pai apareceram em seu socorro, só que desta vez o seu rival também trouxe os seus irmãos já falecidos, e todos se juntaram ali na forma de um grande remoinho, travando uma grande luta. Por fim, um dos irmãos do falecido marido de Nangueve conseguiu alcançar o meu Pai, bateulhe nas costas com um burrinho e disse: “Pronto, já o liquidei!” Repentinamente todos os remoinhos desapareceram. Passado algum tempo, o meu Pai começou a vomitar sangue devido à forte pancada, acabando mesmo por morrer. A partir deste momento fiquei sem Mãe e sem Pai. Então fui recolhido pela comunidade e passei a viver no onjango e sustentado pelos habitantes da aldeia. Quando me tornei rapaz, como era um pouco alto, aconteceu que um dia chegou ao nosso quimbo um branco, transportado numa tipóia, que deveria ser um explorador português e que trazia consigo muitos carregadores transportando as suas bagagens. Ele queria substituir os seus carregadores, pois os que tinha já estavam muito cansados. Eu fui indicado para ser um dos novos carregadores desse branco. Em todos os lugares a que chegássemos, o branco montava a sua tenda e nós faziamos palhotas para nós. Fomos até ao Bié. O Mueleputu, que é a autoridade portuguesa do Bié, chamado Poloto, nome que os nativos deram a Silva Porto, recebeu-nos muito bem. Aconteceu também que fui escolhido para trabalhar como criado na casa de Poloto. Os outros carregadores, que tinham vindo comigo, deixaram-me ali e continuaram a viagem com o mesmo branco. Trabalhei como criado enquanto aprendia o ofício de cozinheiro. Quando o meu mestre cozinheiro faleceu, eu o substituí. Em casa do patrão havia uma lavadeira muito linda chamada Maria. Ela era muito asseada, comecei a gostar dela e queria a todo o custo que ela fosse a minha amante. Infelizmente aconteceu comigo o mesmo que com o meu Pai. Muita gente aconselhou-me a não envolver-me com a Maria, dizendo que ela era uma olundumba, pessoa que se transforma em leoa. Eu não dei ouvidos a ninguém. Ela também gostava de mim, tornou-se a minha amante e fui viver com ela na sua casa. Assim, depois de me despachar do meu trabalho na cozinha, que sempre terminava à noite, ia dormir com ela, armado com a minha mukonda (espécie de faca com a ponta parecida a uma espada afiada nos dois gumes, metida em bainha de madeira e transportada na cintura; é uma espécie de punhal). Quando chegava em casa de Maria, encontrava sempre o pirão já feito acompanhado de carne de porco ou de cabrito. Eu não sabia onde ela arranjava aquela carne que comiamos todos os dias. Mas um dia ela disse-me: “É melhor que não venhas amanhã pois vou viajar para visitar alguns familiares. Eu acreditei nela. De manhã, como sempre fazia, fui trabalhar na cozinha do meu patrão, fiz café e outros trabalhos. Quando anoiteceu, e como na cozinha do patrão não havia condições para dormir, resolvi ir à casa da Maria mesmo sabendo que ela lá não estava. Abonava em meu favor o facto de saber onde ela guardava as chaves da casa. Terminado, então. o labor na cozinha do patrão, pus-me a caminho. Quando lá cheguei encontrei a porta entreaberta, entrei e vi uma grande fogueira e duas grandes panelas de barro de ochimbombo com a água em ebulição. Pensei que ela tivesse desistido da viagem e estivesse, naquele momento, na casa da vizinha. Sentei-me num banco à sua espera. Momentos depois ouvi um grande reboliço que vinha da aldeia vizinha. Ouviam-se gritos usualmente utilizados para enxotar os lobos que invandem os quimbos quando tentam apanhar os porcos ou os cabritos nos currais. Ouviam-se também tiros com armas de fogo. Esperei algum tempo mais, e ouvi um ruído que vinha em direcção da casa onde estava, como se alguém arrastasse alguma coisa pesada. Cheio de medo, escondi-me debaixo da cama, e seguidamente pressenti que alguém atirava um porco morto para dentro de casa. Espantado, vi a Maria entrar com o corpo de leoa. Ao entrar tirou a água que estava a ferver numa das panelas e a despejou sobre o seu corpo. Depois sacudiu-se como um cão encharcado, retomando a sua forma humana.


Apareceu de novo a Maria, tal qual era, embora completamente nua. Naquele estado pareceu-me incomensuravelmente bela, sobretudo os seus seios de olonganja (há três tipos seios: olonganja, são os redondos e que nunca se murcham; os olombenje, que são muito compridos e que chegam quase ao umbigo, e os chibombo que são muito pequenos; os homens apreciam mais os olnganja), o corpo fulo (preto de cor amarelenta), as ancas largas e o umbigo metido para dentro da barriga. Eu apreciava tudo aquilo escondido debaixo da cama, à luz da fogueira, no único quarto que também servia de cozinha, dormitório e sala de estar. Entretanto Maria tomou as suas tangas e vestiu-se. Depois tomou o porco e meteu-o na bacia do patrão onde costumava transportar a roupa. Com a outra grande panela com a água a ferver, despejou-a em cima do porco e se pôs a despelá-lo, para em seguida tomar uma faca e abrir com ela o ventre do animal. Tirou as víceras e as colocou numa quinda; tomou uma panela pequena com água e a colocou ao lume, e quando a água começou a ferver com a fuba pôs-se a fazer pirão. Cortou do fígado uma porção, colocou-a no fogo, assou-a, e depois de a temperar com sal, que tirou duma cabaça, e comeu. Quando acabou de comer pôs-se a trançar os cabelos, ao mesmo tempo que dizia em voz baixa: “Desconfio do chifuanda. Será que ele terá vindo? Mas se tivesse vindo onde se esconderia? Oxalá que não descubra o meu segredo de olundumba, senão comê-lo-ei vivo! Eu ouvia o que ela dizia. Pouco depois sentiu sono e deitou-se na cama. Assim que começou a ressonar, aproveitei a oportunidade para fugir. Saí pé ante pé, mas ao abrir a porta onde rangeu o que a fez despertar: “Seu ordinário, eu não te disse para não vires? Vou comer-te vivo. Dito isto, levantou-se da cama, encheu uma das panelas de barro com água, e colocou-a ao lume para que, depois de se transformar em leoa tivesse a água a ferver para despejar sobre si e voltar a ter forma humana. Antes que ela concluísse este ritual eu já estava longe, fugindo. Corri, passei por um riacho que tinha sapos a grasnar. Quando sentiram a minha presença logo todos se calaram. Depois de me ter afastado uma certa distância, os sapos voltaram a grasnar para, de seguida, emudecerem de novo. Não me foi difícil compreender que Maria estava no meu encalço. A única maneira de poder escapar foi subir a uma árvore, o que fiz logo que me foi possível. Passado algum tempo, vinha a Maria transformada em leoa em minha busca. Passou rente a uma árvore, parou, farejou, e não sentindo o meu cheiro voltou para trás farejando na direcção da árvore onde eu estava. Olhou para cima e disse: “Eu não te disse que não viesses? Agora que descobriste o meu segredo sou obrigada a comer-te vivo. Então pôs-se a trepar na árvore onde eu estava; as patas traseiras eram de leoa, mas as dianteiras conservavam a forma de mãos humanas para poder subir agarrada ao tronco. “Quando chegou junto de mim, abriu a boca tal como os cães quando lutam, para me apanhar com os seus terríveis dentes. Rapidamente, saquei da minha mukonda e enfiei-a pela boca dentro saindo pela nuca. A minha querida Maria caiu no chão acabando por morrer. Mas permaneci ali até ao romper da aurora. Os vizinhos dela, como sabiam que ela se levantava cedo, o que não aconteceu naquele dia, foram à sua casa para averiguar do que se havia passado. Quando abriram a porta viram então um porco estendido num canto e pegadas de leoa as quais seguiram até ao lugar onde me encontrava. Quando os vi chamei-os e disse-lhes que a Maria estava ali estendida no chão. Quando a viram sob a forma de leoa, ficaram todos pasmados, e disseram todos em coro: “Quem matar uma águia, enxotou-a!” Desci da árvore, tornada Tumba Memorial, e voltei à minha labuta ordinária. Tempos depois arranjei uma outra mulher com o nome Kandimba, com a qual vivo até hoje muito feliz. Quando o nosso cozinheiro, o Chifuanda, acabou de narrar esta história, pegou na eteña (espécie de cachimbo grande para fumar liamba. Para se fazer um cachimbo destes, tem que se cortar ao meio um chifre de boi, com uma chapa de ferro quente. Depois, para fazer o bico, fura-se com um fio de aço também muito aquecido. Na parte cortada do meio tapa-se com madeira enfeitada com tachas. Faz-se um furo na vertical onde se coloca um caniço oco. Em cima do caniço metese a cabeça feita de barro onde se coloca a liamba seca. Dentro do chifre mete-se água para filtrar a liamba que não se fuma directamente) e nela colocou liamba seca, pôs-lhe fogo e pôs-se a fumar. À medida que fumava na eteña, esta fazia muito ruído, cra ta ta, cra ta ta...


40 Depois ouvimos uns sons esquisitos, que se assemelhavam ao piar de um pássaro ou ao miar de um gato bravo. Chifuanda tirou a eteña da boca e disse: “Estão a ouvir aqueles gritos estranhos? São os gritos de uma alma do outro mundo!” Paramos de conversar quando esses gritos se aproximaram de nós. A escuridão era total e os ruídos sinistros não paravam: Hapa, hapa, Hapa..., que significa: É aqui, é aqui. Dispersamo-nos e fugimos, cada um para a sua casa, e fechando muito bem as portas! OS ESPÍRITOS Os bailundos conhecem apenas os espíritos maus, que em umbundu se designam por Ondele o que significa demónio. Para eles os demónios são espíritos muito maus, que quando penetram numa família a exterminam por completo. Os doentes mentais são considerados como pessoas possuídas pelos demónios. Da mesma forma, todas as doenças de cura difícil são atribuídas aos demónios, cujo rei se designa por Ochindele. Ochindele é o superlativo de Ondele, que se traduz por Diabo. Ochindele é também a designação que os bailundos atribuem a todos os indivíduos de raça caucasiana (branca), provavelmente devido aos maus tratos que ocorreram durante o domínio colonial. Na verdade, os portugueses quando chegaram a Angola, não consideravam como humanos os autóctones. Olhavam todos os africanos como se de animais se tratassem, inclusivamente os missionários, quer católicos quer protestantes, chegaram lá com todos esses preconceitos. Na África do Sul reinava o apartheid, e em Angola o indigenato2. Os indígenas eram muito mal tratados e desprezados. Um indígena não podia cumprimentar um branco com um aperto de mão, e muito menos comer com ele à mesa. Os indígenas podiam passar por grandes aflições, de fome, doenças, nudez, pobreza, etc., que os brancos não se compadeciam deles, nem até mesmo o governo português se importava pelo sofrimento dos indígenas. Quando estive na Missão Evangélica do Bailundo, da Junta Americana e Canadiana, como professor durante quinze anos, presenciei um acontecimento criminoso e muito triste: Havia chegado da América, como médico cirurgião, o filho de um antigo missionário americano em Angola, a fim de exercer medicina na terra onde nasceu. A sua vinda era indesejada pelos outros missionários, americanos e canadianos. Para denegrir a sua imagem envenenaram toda a anestesia do hospital da Missão do Dondi onde ele tinha sido colocado. Por este motivo, todas as pessoas que ele operava estavam condenadas a morrer. Até que se veio a descobrir a origem do problema, mas depois de dezenas de pessoas terem morrido. Por serem negros os que morreram, não houve nenhuma investigação para que se descobrisse os culpados. Durante o tempo do colonialismo, grande parte dos portugueses chegavam a Angola pobres, e para enriquecerem rápido, estabeleciam lojas no meio das aldeias indígenas onde compravam por preços muito os produtos que os locais lhes levavam para vender. Passado pouco tempo já estavam abastados, construíam prédios, compravam viaturas, etc. Por sua vez, o pobre do indígena nascia e morria numa pobreza terrível, vivendo sempre em palhotas e alimentando-se muito mal. Enquanto os portugueses tinham no seu regime alimentos diversificados em termos de calorias, os indígenas tinham um regime alimentar muito pobre, o qual não passava do pirão feito de farinha de milho, o qual comiam juntamente com a efuanga, folhas de mandioqueira, a servir de conduto. O governo português não permitia que os indígenas enriquecessem, apenas os exploravam. Os indígenas não tinham direito de possuir bons empregos, a não ser serem serventes de lojas comerciais, cozinheiros, criados dos outros, etc., ganhando dos portugueses um salário mensal que não chegava sequer para comprar uma camisa. Em qualquer trabalho que fosse, fosse na construção ou outro qualquer tipo de trabalho, a desproporção entre o salário de um branco e o de um negro era enorme. Por exemplo, se um português ganhasse 2.50 euros por dia, o africano ganhava 0,05 cêntimos, embora ambos fizessem o mesmo trabalho. Às vezes o africano trabalhava muito mais que o branco. Quando dei aulas na Missão Evangélica, eu e os colegas como éramos negros


ganhávamos apenas 0.40 cêntimos mensais, enquanto que um profissional branco que dava as mesmas aulas, ganhava 15 euros, com cama e mesa. Os indígenas eram a fonte de todos os ganhos, não apenas para o Estado como para o enriquecimento de todos os portugueses. O governo português obrigava o indígena a pagar pesadíssimos impostos, forçados, que eles pagavam com grandes dificuldades, em virtude de não lhes serem dados empregos decentes e nem possuírem indústrias. O único recurso disponível aos indígenas era uma agricultura muito precária e primitiva. O que colhiam pouco mais dava do que para a alimentação, pois tudo mais ia para pagar os impostos. Por tal motivo, os indígenas padeciam a fome principalmente a partir de Outubro e Fevereiro, períodos em que esperavam as novas colheitas. Trabalhavam de sol a sol, apenas com uma enxada e sem fertilizantes ou alfaias agrícolas, para se livrarem das terríveis torturas que o governo português dava aos que não conseguiam pagar os impostos ou outras exigências. Todo o indivíduo de sexo masculino começava a pagar impostos aos dezassete anos. No entanto, convém dizê-lo, por vezes os jovens nem sequer tinham esses dezassete anos exigidos pela lei. O critério por vezes utilizado pelas autoridades coloniais, para determinar a idade, era pouco sério, pois aquando do recenseamento das populações, era corrente deitar um olhar aos sovacos a fim de ver se o adolescente tinha pelos. Em caso afirmativo, esse adolescente devia, a partir daí, começar a pagar impostos. Quem não fosse capaz de pagar o imposto anual era imediatamente enviado para o contrato forçado nas roças de café ou na pesca, onde tinha de permanecer durante um ano. Cumprido esse tempo, era usual dar-se ao contratado um bónus em dinheiro, que passava a ser utilizado para o pagamento dos impostos em dívida. Consequentemente, o contratado chegava em casa completamente vazia. As rusgas aos quimbos, durante a noite, eram outra forma utilizada pelas autoridades portuguesas para apanharem mão-de-obra barata. Os que fossem apanhados eram pela cintura, e em fila levados para o posto administrativo e dali para os contratos forçados. Não é por mero acaso que Salazar dizia que “a riqueza de Angola era o preto no contrato”. Nota 1 www.religionnews.com/index.php?/rnstext/sudan_conflict_arm Além dos impostos forçados, havia outras ed_machine_gun_preacher/ formas de exploração; em geral, os africanos, depois da ceia, costumam sair ao luar para Nota 2 www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/03/Artigos%20e dançar ao som do batuque. Para isto era %20Ensaios%20-%20Alberto%20de%20Oliveira%20Pinto.pdf também necessário pagar uma licença, denominada licença de catita. Quem tivesse um cão no quimbo, também tinha que pagar uma licença. Qualquer português podia espancar os indígenas desumanamente, e submetê-los a um jugo de ferro. Por isso, poucos africanos chegavam à idade de 70 anos. Eram magros, esfomeados, esfarrapados, e muitos vestiam ombuengue (roupa feita de muitos remendos) e andavam descalços. Em 1918 o governo português enviou uma grande expedição de soldados a uma tribo chamada Seles para matar a população toda, alegando que tinham comido um português chamado Cimboto. Apesar dos indígenas serem desprezados, as suas mulheres eram subtilmente assediadas por muitos comerciantes brancos, facto esse que explica as cenas caricatas como aquelas em que vários portugueses chegavam a Angola sós e pobres, arranjam uma mulher para sua lavadeira que os ajudava a organizar a sua vida e família. Apesar disso, nem mesmo assim eles permitiam que elas comessem consigo à mesa, embora dormissem na mesma cama. De modo que, a mulher africana sacrificava-se, ajudando o marido nos seus negócios, sobretudo os clandestinos, tais como a venda a venda de bebidas alcoólicas, como o kassungueno (feita à base de farinha de trigo), proibida por leis nas colónias. Assim, em pouco tempo, e graças à sua companheira negra, que sempre trabalhava ao seu lado, o marido branco enriquecia a partir daí, ao ponto de já não necessitar da africana, que era expulsa de casa juntamente com os filhos, também dele, para depois se casar com uma mulher branca. A própria mulher autóctone ficava abandonada sem casa e sem recursos para sustentar os filhos, mulatos. É de referir que, no


42 tempo colonial, os mulatos passavam, geralmente, por grandes privações porque as mães não tinham condições para os sustentar e eram considerados pelo estado português como filhos de pais desconhecidos. As estradas de cabinda ao Cunene, foram feitas pelos indígenas sem pagamento e sem comida. Cada ngamba (pessoa obrigada a trabalhar forçosamente) tinha de levar a sua própria comida de casa. A abertura destas estradas, em florestas cerradas e com árvores de grande porte, levou muitas vidas à morte. Cada família mandava um ngamba à estrada, que podia ser um filho, ou o próprio marido ou a própria mulher, que ficavam lá a trabalhar durante uma semana até ser rendido por um dos seus familiares. Enquanto os filhos dos portugueses iam à escola, os dos indígenas transportavam brita para a construção dessas estradas. Todos os que nelas trabalhavam eram submetidos a grandes torturas. Faziam covas (pedreiras), as quais ainda hoje existem à beira das estradas, de onde tiravam a brita que era transportada à cabeça, utilizando olongonjo (casca de árvores), debaixo de chicote e forçados a correr. Depois das estradas construídas ficavam sob a responsabilidade de cada quimbo, e os pais tinham de enviar os seus filhos, todas as semanas, fazer a manutenção das mesmas, para tapar todos os buracos quando os houvesse. Se por acaso um indígena conseguisse comprar uma bicicleta, para poder circular com ela nas estradas, que ela própria ajudou a construir, tinha de pagar uma taxa muito alta todos os dias do ano. Caso não pagasse, a bicicleta ser-lhe-ia apreendida. Os portugueses evitavam a todo o custo que os indígenas estudassem. Quando eu exercia o professorado na Missão Evangélica do Bailundo, assisti a cenas tristes, onde muitos dos meus alunos eram forçados a abandonar a sala de aulas a fim de serem enviados para os trabalhos forçados. Em face do exposto, os bailundos deram ao branco o nome pejorativo de ochindele (“o que castiga sem piedade”). Contudo também nutriam um grande respeito e admiração pelos brancos devido ao seu desenvolvimento tecnológico e cultural, pelo fabrico de muitos artefactos, como o vestuário, calçado, utensílios domésticos e outros. A admiração dos bailundos pelos brancos, manifesta-se, sobretudo, quando viam um motor a funcionar, que o sintetizava na seguinte canção: “Ochindele vi kola we / Eyambo liavo kovava / Wyambo liavo we kovava” (“Os brancos são maravilhosos / A sepultura deles é na água / Sim é na água / A sepultura deles é na água”). A MORTE E A ADIVINHAÇÃO Entre os bailundos, quando morria um homem, antes dos ossos se enrijecerem, faziam-no sentar num banco, numa esquina da cubata, tal como se ainda estivesse vivo. Se for uma mulher, o corpo é colocado na cama, precisamente onde costuma dormir, sendo o marido obrigado a dormir com a morta. Diziam que em vida o marido dormia com ela, na morte não deverá desprezá-la. Assim, o marido, tal como é habito, dorme na dianteira e a defunta esposa atrás dele. A separar os dois colocam um pau. Quando uma pessoa morre não é enterrada de imediato. Tem, inclusivamente, havido casos bizarros, como aqueles em que o corpo da parceira entra em decomposição ensopando o marido com a matéria escorrida do cadáver. No dia em que morre o homem, os aldeãos são obrigados a colocar o milho na água a fim de se preparar o ossovo para fermentar a afamada bebida chamada ochimbombo, feita da farinha de milho. O milho para grelar, pode levar oito dias ou mais. Quando o ossovo estiver pronto, preparam o ochimbombo, o qual também demora uns quatro dias e é feito em todas as casas. Durante este tempo todo, o cadáver mantém-se sentado no seu banco numa das esquinas da cubata, repleta de gente, especialmente mulheres velhas, que lá dormem e passam dias ao seu lado, até que este seja enterrado. Ali o cadáver é tratado por um grupo de homens chamado vakuaciosoko. Se cair um olho do morto ou qualquer outro membro do seu corpo, são eles que os colocam no seu respectivo lugar. Quando o cadáver começar a largar mau cheiro, as velhas vão à mata em busca de folhas de


uma planta aromática, chamada ondembi, cujas folhas são colocadas nas narinas a fim de não sentir o odor vindo do cadáver em decomposição. Fora da cubata, os homens dançam ao som do batuque, matam-se bois, porcos ou outros animais, passando, por isso, todos os dias do velório do velório a comerem e a beberem. Quando o ochibombo está pronto, todas as pessoas se juntam em frente da cubata bebendo essa apreciada bebida e, ao mesmo tempo, dançam e comem. Para eles é uma grande festa em memória do falecido. Dali, ainda passam dias até o cadáver ficar todo decomposto. Num dia determinado, os vakuacisoco tomam o cadáver em alto grau de decomposição e embrulham-no em panos a que dão o nome de asanya. Depois, com uma espécie de tipóia transportam o cadáver para o campo de adivinhação onde irão pesquisar a causa da morte desta pessoa. Toda a população do quimbo, sem excepção, é obrigada a assistir à adivinhação; a culpa da morte desta pessoa recairá sobre os que estiverem ausentes, as quais serão acusadas de feiticeiros. Num local preparado para o efeito, os dois homens que transportam o morto mantêm-se em pé junto do cadáver, onde começa a sessão de adivinhação. Intervém sempre um outro homem com um balaio de fuba, farinha branca de milho, que começa por perguntar ao morto o seguinte: Amigo, estamos todos aqui neste local muito tristes pela tua morte. Deixaste um vazio no nosso meio e muitas saudades, visto que andávamos, passeávamos e comíamos juntos. Pretendemos agora conhecer os motivos que te retiraram do nosso convívio, acabando por morreres. Agora faço-te uma pergunta: Será pela ambição que todos nós temos tido, que te levou a arranjar algum feitiço que depois te vitimou? Sabemos que muitos se têm enganado, para através de um feitiço enriquecerem depressa. Se tiver sido por isso, esclarece-nos. Mal acaba de pronunciar estas palavras, pega num punhado de fuba e atira-a para debaixo da tipóia onde repousa o cadáver. Os dois homens que a sustêm, se são empurrados para trás, é porque é uma resposta negativa. O homem do balaio volta a perguntar: -Será que quem te matou fui eu que te interrogo? O homem volta a lançar fuba para debaixo da tipóia; se de imediato os homens que carregam o morto são empurrados para trás, é resposta negativa (acreditam que é a alma que faz empurrar p'rá frente ou p'rá trás). O interrogador torna a perguntar: -Será que a pessoa que te matou é do nosso quimbo? -Se desta vez o impulso é p'rá frente, ele volta a perguntar: -Uma vez que confirmas que sim, diz-nos se é homem. -Se o impulso é novamente p'rá frente, ele agora pergunta pelo nome de quem o matou. Então vai colocando os nomes das pessoas até o morto confirmar, sempre através dos impulsos. Então os vakuacisoko colocam a tipóis em cima de dois paus em forquilha, e o interrogador continua: -Confirmas que quem te matou foi fulano? Gostaríamos que o voltasses a confirmar para termos essa certeza. Volta a lançar a fuba para debaixo da tipóia aos olhos de todos, e se o cadáver se arrastar p'rá frente, é mais que evidente que o homem indicado é o assassino, o qual é imediatamente preso e manietado. Deixam passar mais um dia, e só então, se houver parentes o poderão enterrar. Para irem ao cemitério, é costume darem muitas voltas com o morto a ponto de só chegarem ao local ao pôr-do-sol, para desorientar a alma do defunto, que se em alguma noite ele voltar à aldeia, seguindo os mesmos trilhos, para vingar a sua morte, só lá poder chegar ao nascer do dia, e nesse caso já não poderá concretizar a vingança. Caso não haja um parente para o enterrar, arranjam uma casca de um tronco de árvore em forma de barril, onde o colocam e é depois levado para a floresta, muito longe do povoado, e o penduram numa árvore. De regresso ao cemitério, o acusado é submetido a julgamento. Como os feiticeiros nunca confessam a verdade negando sempre ter feito tal feitiço, o acusado é posto na presença do ombulungu. Quando desmaiar, dão-lhe uma composição até que vomite o ombulungu. Assim, tudo se confirma, procurando depois a melhor forma de o fazer exterminar.


44 Os feiticeiros nunca são mortos à pedrada ou com facas, pois só as almas penadas os podem exterminar. De um modo geral, existem três formas para matar um feiticeiro: queimados no fogo, entregues às feras ou animais aquáticos, como jacarés, peixes e cobras, etc. Mesmo depois da sentença, ainda fazem passar o feiticeiro por mais outra prova: levam-no à floresta onde juntam muita lenha com a qual a envolvem, sentado num tronco ou no chão rodeado pela lenha. Depois pronunciam as palavras sacramentais de obasa, dizendo: - A vós, que viveis noutro mundo, trouxemo-vos este homem (ou mulher), acusado(a) de feiticeiro(a) e de ter morto fulano, conforme foi confirmado pelo cadáver aquando da adivinhação e pelo ombulungu. Pedimos então a vossa opinião para sabermos se este homem merece ou não morrer. Vamos colocar esta brasa em cima da lenha para vós soprardes, ateando o fogo, caso ele seja mesmo culpado. O homem que profere estas palavras imediatamente toma uma pequena brasa, do tamanho de uma abelha, e a põe em cima da lenha. De repente aparecem remoinhos de vento de várias direcções, todas se dirigindo para a lenha com o fim de fazer com que a brasa pegue fogo. Caso se confirme a acusação, em pouco tempo a fogueira tornar-se-á grande. Quando o feiticeiro morrer e o seu corpo explodir, todos batem palmas ao mesmo tempo que dizem: -Wa paya ongonga wa vinga (“Quem matar uma águia enxotou-a”). Outra opção é a de levar o feiticeiro junto de um rio, e ao chegarem rapam-lhe todo o cabelo. Com uma navalha dão-lhe um golpe na cabeça fazendo escorrer sangue para uma folha de árvore, chamada ombula. Depois pronunciam, como é hábito, o obasa: -Alma dos falecidos, venham dar provas de que foi este homem quem matou fulano. Se for ele, quando lançarmos ao rio esta folha ensanguentada que apareçam animais da água para disputarem esta folha. Caso contrário, deixai a folha em paz. Atiram a folha ao rio, e se o(a) indivíduo(a) for de facto feiticeiro(a), aparece de imediato um grupo de animais das águas, jacarés, cobras e outros, para disputarem aquela folha. Em consequência, com um pequeno machado dão um golpe na nuca do feiticeiro e o atiram ao rio, onde é esquartejado pelos animais. Outras ocasiões, ao feiticeiro, prendem-lhe os pés e braços e o levam para floresta, longe dos povoados, deixando o pobre feiticeiro numa encruzilhada e citam o obasa: -Vós que viveis noutro mundo que nós desconhecemos, pedindo ajuda para este feiticeiro (ou feiticeira), que seja comido pelas feras do mato, caso seja ele o culpado. Então o feiticeiro(a) fica ali abandonado. Se de facto for ele(a) o(a) culpado(a), na manhã do dia seguinte só se encontrarão pegadas de algum animal que o(a) tenha comido(a). Assim ficam todos satisfeitos e então dizem: -Wa paya ongonga wa vinga (“Quem matou uma águia enxotou-a”). Estas práticas, hoje em dia, são pouco comuns, embora sejam praticadas em certas regiões, ainda que um pouco modificadas. As acusações de feitiçarias e mortes por espancamento são comuns entre os bailundos, sobretudo nos meios rurais. Ainda hoje se verificam nos velórios as danças aos sons dos batuques, e o quarto onde estiver o cadáver fica repleto de gente. As pessoas permanecem no velório dias e noites até o mesmo terminar. Também se continuam a matar os animais, bois, porcos, galinhas ou outros, para os banquetes, e também se usam muitas bebidas em memória do falecido, tudo com grandes festas. CONVOSCO A HEMEROTECA TRAILER: “Quando chegou junto de mim, abriu a boca tal como os cães quando lutam, para me apanhar com os seus terríveis dentes. Rapidamente, saquei da minha mukonda e enfiei-a pela boca dentro saindo pela nuca. [...] E como prometido, antes da presença em PDF no http://scribd.com/magcal, aqui estão mais algumas linhas da obra do Irmão Armando, "Os Bailundos e Angola, Portugal, EUA e o


Canadá, as Missões Cristãs, as Lendas e o sincretismo da quarta dimensão maligna que são universos demasiado reais..." A REALIDADE HODIERNA TRAZ NOVAS LINHAS DO SEU ROMANCE FAVORITO:

OS ÍDOLOS Os ídolos, em todo o mundo são iguais. São figuras representativas de seres humanos. Têm boca mas não falam; têm olhos mas não vêm; ouvidos e não ouvem. A diferença é que uns são feitos de ouro, outros de prata, bronze, ferro, etc.... Mas em África... A REALIDADE É OUTRA!!! Os ídolos dos bailundos são feitos de madeira e não têm um ídolo superior, como a Diana dos Efésios conforme é citado nas Escrituras. Entre os bailundos os ídolos são propriedade privada a que eles dão o nome de iteka e fazem parte das feitiçarias. Todo aquele que possuir os iteka é considerado feiticeiro. Os ídolos dos outros povos, como os europeus, são muitas vezes considerados como deuses, e são venerados, adorados, ao contrário dos ídolos dos bailundos. Entre estes há uma série de ídolos que são mantidos em grande segredo, e entre eles destacam-se os seguintes: Kalupokopoko, Samemba, Kandundo, Mechamecha, etc. Kalupokopoko é o ídolo da vingança e mata sem piedade. Poucos feiticeiros o têm. Quando eu era criança, com seis ou sete anos de idade, a mulher de um servente do meu pai, chamado Serrote, tinha sido violada por alguém. Num domingo, depois desse Serrote ter varrido a loja, foi ter com um feiticeiro que vivia do outro lado do rio, e pediu-me que o acompanhasse. Quando chegamos à cubata do feiticeiro, Serrote disse-lhe algumas palavras que eu não entendia por ser criança. Depois o feiticeiro entrou na sua casa e trouxe de lá um boneco com forma humana, dizendo que se de facto o homem acusado violou a sua mulher, cometera um ignóbil acto, o ídolo não pouparia a sua vida e o mataria sem piedade. Depois de ter pronunciado aquelas palavras, o boneco, ou seja Kalupokopoko, saiu dali como se fosse um raio, dirigindo-se para o acusado. Mas antes que ele partisse, o feiticeiro prendeu uma galinha num dos cantos da casa para que, no caso do acusado ser inocente, aquele boneco em vez de ir contra o feiticeiro fosse contra a galinha. Depois de algum tempo passado, como o Kalupokopoko não voltava, era o sinal evidente de que o acusado era culpado. Mais tarde o feiticeiro instruiu o Serrote no sentido de ir ao velório do criminoso, queixando-se de que via homens do tamanho de formigas, que o afligiam com agulhas, alfinetes e faquinhas. O mais curioso é que só o doente os via. Tais seres têm o nome de Inganji. Samemba, é o ídolo aceitável entre os bailundos; é o deus da caça e da carne. Este ídolo estava sempre presente nas embalas. Quando alguém vai ao soba queixar-se contra outrem, tanto o queixoso quanto o acusado são obrigados a entregar um porco ao soba. Os dois animais são mortos, a sua carne dividida pelas pessoas, e o seu sangue é utilizado para untar a boca dessa escultura. A ideia prevalecente é a de que quando Samemba tiver sangue na boca, fará com que haja mais queixas, e por consequência mais carne na Embala. Na minha meninice, com doze anos de idade, fui uma vez à floresta com o filho do nosso cozinheiro, e montamos mais de quarenta armadilhas para apanhar ratos. No dia seguinte, quando lá voltamos, surpresos vimos que nenhum rato tinha caído nas armadilhas, e isto prolongou-se durante vários dias. Foi então que o meu pai do meu amigo nos aconselhou a fazer uma Samemba. Arranjamos um pedaço de madeira e esculpimos um boneco na forma da samemba. Espetamos um pauzinho no ânus do boneco, e espetamos a outra extremidade na terra; depois fizemos com que o boneco ficasse virado de frente para a floresta onde tínhamos montado as armadilhas. No dia seguinte voltamos ao mesmo local mas encontramos apenas um rato. Depois de o termos esfolado, pusemos um pouco do seu sangue na boca do boneco Samemba. Na manhã seguinte encontramos mais de vinte ratos nas armadilhas, e assim continuou nos dias seguintes. Todos os dias apanhávamos dezenas de ratos, ao ponto de não os conseguirmos comer todos, pelo que depois os trocamos por milho. Três ratos correspondiam a um prato cheio de milho, graças ao boneco Samemba.


46 Em relação aos outros ídolos da quarta dimensão maligna desconheço as suas histórias, estórias e legendas. Deixo isso ao vosso cuidado. OS REMOINHOS DE VENTO Na visão dos bailundos, quando as pessoas de bom coração morrem, vão para Suku que é D-us. Uma das primeiras coisas que dele recebem, são os meios de transporte chamados Ochipepe, que são os remoinhos de vento. Os remoinhos, de acordo com qualquer dicionário, são a massa de água ou de ar em movimento espiral. Mas na mitologia dos bailundos é uma alma penada que viaja nesse meio de transporte que foi concedido por D-us. Só resta saber se é o mesmo remoinho que levanta do chão as folhas secas, os papéis, que abana as árvores, que tira o capim das cubatas, etc. Diz-se entre os bailundos, que os que vão para kalunga voltam à terra através dos remoinhos a fim de visitarem os seus familiares, ou para fazerem vingança no caso de serem almas de pessoas mortas por feiticeiros. Também é usual ouvir-se dizer que fulano hoje foi chicoteado por um ochipepe. Contudo, este é susceptível de mudar de comportamento, e irrita-se se alguém cantar a seguinte canção: Yuvila, yuvila w atava? Hti, vimo um mbala? Okambia, kihemba Kua k asile konele yiko? Kuafile? (Toma, toma remédio, aceitaste? Quando disseste que te doia a barriga? Não deixaste a panelinha de remédio ao lado do fogo? Acabando por morrer?) Uma das possíveis explicações para a irritação do ochipepe, tem a ver com o facto de em vida e no auge da sua doença, a alma penada ter sido alvo de zombaria, e ter estado numa esteira ao lado da fogueira. Lembro-me de um dia, em pequeno, termos ido pescar com o filho do nosso cozinheiro. Estávamos na estação seca e as matas estavam todas queimadas, as campinas apresentavam uma cor escura devido às queimadas, e as árvores tinham as folhas secas por causa do fogo. Era o tempo dos remoinhos andarem de um lado para, pois esse fenómeno é muito raro e inexistente no tempo das chuvas. Enquanto pescávamos vimos um remoinho passar distante de nós. Entretanto o meu amigo começou a cantar a canção antes referida, zombando da alma que ia naquele ochipepe. De súbito fomos envolvidos pelo mesmo ochipepe, que pegou o meu amigo e o atirou para o lugar mais fundo do riacho, que para a sua infelicidade, a faca que trazia na mão se lhe espetou na boca. Como se não bastasse, o mesmo remoinho continuou irritado e começou a abanar fortemente as árvores que estavam no seu caminho, levando muitas folhas secas para o ar e produzindo muita poeira. Num quimbo havia um professor ambulante chamado Afonso, que numa ocasião fora pelo catequista desse quimbo para que devolvesse o dinheiro das propinas que havia cobrado aos alunos. Ao chegar à casa do catequista e na sua presença, pôs-se a contar o dinheiro colocando-o no chão. Às duas por três começaram a discutir, meios zangados, pois o docente dizia que o dinheiro era insuficiente e que não chegava para nada, e foi nesse momento que surgiu um remoinho de vento que arrebatou o dinheiro para o ar e o fez desaparecer para sempre. Havia um homem que tinha por hábito violar a mulher de um outro. Por várias vezes tinha sido apanhado e julgado na embala, onde pagava elevadas multas. Tempos depois o marido daquela mulher faleceu. Quando o violador soube do acontecido, resolveu ir aos pais da viúva que consentissem o seu relacionamento com ela. Desta forma convidou os seus familiares a o acompanharem à casa dos pais da viúva. Pelo caminho passaram perto do cemitério onde estava sepultado o falecido marido dessa mulher. O homem desviou-se, aproximou-se do túmulo do seu rival e disse:


- Tu que estás dentro desta sepultura, fica a saber que a mulher pela qual me obrigavas a pagar multas na presença do soba, vai agora ser minha. Estou a caminho da casa dos seus pais para a pedir em casamento. Se és homem, levanta-te daí e repete o que fazias contra mim. Quando se retirou do cemitério, apenas percorreu uma pequena distância, e viu que alguém ateava fogo na floresta onde ele e os familiares passavam. Subitamente, o fogo foi tomado por um grande remoinho de nome Kanyongo. O homem viu fagulhas de fogo passarem-lhe por cima, e cercado pelas chamas viu-se impotente e sem uma brecha por onde escapar. Como se estava na estação seca, o capim ardeu rapidamente, e em pouco tempo o Kanyongo atingiu o homenzinho que morreu com a boca aberta. Em 1947, quando terminei o curso no instituto da Igreja Evangélica Congregacional1, fui à Missão Evangélica do Bailundo, onde soube de um pastor de nome António Chico, colocado no Centro Evangélico de Zoar-Panda, o qual era perseguido pelos seus próprios discípulos. Porém, também se soube que quem liderava esta perseguição eram os diáconos, Israel e Tito, com mais o organista do centro, de nome Paulino Chinjambela. Durante as conferências anuais da igreja, estes três homens apresentavam depoimentos hostis contra o clérigo que, ao fim e ao cabo, não passavam de calúnias. Apesar disso, o ministro saia-se sempre impune, pois sempre tinha razão. Como a Igreja não tinha motivos para condenar o oficial eclesiástico perante as falsas acusações, como por exemplo a do seu gado ter estragado as sementeiras, os denunciantes por recorrer à feitiçaria. A primeira vez mandaram-lhe uma praga de animais ferozes que dizimaram mais de metade da criação, e depois mandaram um cazumbi dentro de um remoinho de vento. Na altura a esposa do pastor estava doente encontrando-se na cama no seu quarto, e foi nesse preciso momento que o grande remoinho, Kanyongo, invandiu o quarto pondo a senhora descoberto, levando os cobertores até ao teto, prendendo-os numa asna. Depois ouviu-se um grande estrondo como quase o dum canhão. Este acontecimento assustou o reverendo que resolveu mudar o Centro para outro local. Foi então para um outro quimbo chamado Cheta. Falou com os habitantes que apoiavam a sua iniciativa, e assim arranjou uma cubata com quartos grandes, um dos quais servia para ser a casa dos cultos. O pastor transportou tudo o que tinha para o novo centro, à excepção dos porcos. Quando concluiu que o novo lugar reunia as condições mínimas, mandou lavar os cobertores, e durante a tarde desse dia, conseguindo uma carroça decidiu ir em busca dos porcos. Depois dos cobertores serem lavados, foram estendidos perto de uma árvore frondosa conhecida por Omanda. Quando faltava pouco tempo para a partida de volta ao centro, o remoinho que havia atirado os cobertores da cama da sua esposa voltou novamente; tomou os cobertores e enrolou-os nos ramos mais altos da árvore, e tal como tinha acontecido da primeira vez, ouviu-se de novo um grande estrondo. Depois de retirarem os cobertores da Omanda com a ajuda duma escada, iniciaram a viagem de regresso na carroça. Chegaram a Zoar-Panda quase ao anoitecer. Dormiram um pouco, e no dia seguinte, muito cedo, retomaram a viagem que os levaria ao novo centro. Depois de calcorrearem uma certa distância, os porcos foram morrendo, sucumbindo o último animal ainda nem tinham percorrido o último quilómetro. Como não era muito aconselhável viajar com porcos para o Centro, o ministro amaldiçoado decidiu passar ali o dia todo de forma a extrair a gordura dos animais e vender a sua carne, evitando assim ter muito prejuízo. Por volta das dezassete horas, o organista paulino Chinjambela, que pareceu arrependido aos olhos do pastor, que tinha seguido o pastor no seu novo múnus pastoral, tocou o sino para o culto vespertino, mas o pastor não pôde assistir e oficiar ao serviço divino devido a estar ocupado na venda da carne dos porcos. Quando o culto terminou já era noite. O organista, então, viu que à volta do edifício do templo congregacional existia muito capim alto e seco, de modos que resolveu queimá-lo. Toda a congregação e os demais convidados ajudaram nessa limpeza. Ora no meio do capim havia muitos gafanhotos, e os rapazitos começaram a apanha-los para os comerem. O filho mais novo do reverendo também fazia parte do grupo, apanhando os insectos. De repente surge novamente o remoinho de vento, pela terceira vez, e que acaba por envolver o benjamim do pastor. O fogo da queimada era tanto que fez pasmar os presentes, os quais se


48 puseram aos gritos: “Peya Kanyongo, peya Kanyongo! (Foi para lá um Kanyongo, foi para lá um kanyongo!) O moço tentou fugir do fogo que o cercara, mas a tentativa foi vã, e depois de o fogo o ter calcinado, ouviu-se, tal como das vezes anteriores, um grande estrondo como o de um canhão. A criança estava tão desfigurada que quando as pessoas se aproximaram dela estava irreconhecível. Entretanto o nosso ministro congregacional, após ter realizado o seu labor urgente, esperava pelo seu rebento, já na casa pastoral. A dado momento soube que tinha morrido um menino, e imediatamente dirigiu-se ao local, e ao reparar na cicatriz que a criança tinha no braço quase intacto, logo reconheceu que era o seu filho. Levou-o então para o sepultar. Apesar da angústia em que o clérigo vivia, os seus adversários, sabendo do sucedido, não se deram ainda por vencidos, e foram à Missão acusando-o de ter consultado um feiticeiro a quem levara uma porção de terra do local onde o filho morrera, a fim de saber quem era o responsável pela sua morte Estas acusações foram aceites na missão, e como consequência o anjo da congregação foi impedido de exercer as suas funções ministeriais ad aeternum. O sistema religioso dos bailundos, antes do contacto com a religião cristã, cingia-se a súplicas que faziam a D-us por intermédio dos seus parentes já falecidos. Cada família tinha um pequeno templo, numa cubata circular com mais ou menos metro e meio de diâmetro. Nessa cubata, que em umbundu se designa por Etambo, o chefe da família apresentava-se, reverentemente, todas as manhãs com o propósito de falar com os seus bisavós, avós, pais e tios já falecidos. A intenção era sempre a mesma. Pedir-lhes que intercedessem por eles perante D-us, pois os bailundos acreditavam que todos os que em vida tivessem praticados boas acções, quando morressem iriam habitar junto de D-us no KALUNGA. Aqueles que em vida se tivessem portado mal, não eram venerados no Etambo, uma vez que os bailundos criam que, pelos seus actos, haviam sido lançados no ONJEMBO, o inferno. Os Etambos eram tratados e limpos constantemente; engalanavam-nos com pratos de porcelana, cobertores novos, e vasos que compravam em benguela aos brancos em troca de borracha. O chefe de família ia ao Etambo todas as manhãs, e as suas primeiras palavras eram as seguintes: “Nunca fiz mal a ninguém; considero o filho do meu vizinho como meu; trato com amor e carinho os animais do meu vizinho...”, e assim por diante. Referia-se a todos os actos que mostravam a sua solidariedade com os outros bem como a sua rectidão. Depois disto, pedia aos parentes já falecidos para lhes concederem saúde e outras coisas mais que necessitassem. Mesmo para aquelas situações em que um dos familiares pretendia viajar, o chefe da família ia ao etembo pedir que a viagem corresse bem; se houvesse um doente também suplicavam pelo seu restabelecimento. KALITANGUI Segundo uma profecia, haveria de nascer uma uma pessoa que se desembaraçaria de D-us, chamado Kalitangui (significa envolver-se, desdobrar-se). De modo que todas as raparigas bailundas desejariam ter esse filho. Até que um dia uma rapariga ficou grávida sem que se soubesse quem era o progenitor, e esta gravidez durou cinco anos. Ao dar à luz, primeiro veio ao mundo o Akuenje velombe (exército); depois o Eyemba (palácio real), e depois nasceram bois, cabras e galinhas, para no fim ver ao mundo o Kalitangui, que fazia milagres tais como os que fizera Jesus. De acordo com a tradição dos bailundos, existira em tempos remoto um personagem de nome Kalitangui que fazia grandes milagres, cujo nome completo Kalitangui wa li tangle la Suku. Curava doentes, expulsava demónios, exortava os indivíduos de raça negra no sentido de obterem o perdão de D-us, por lhe terem desobedecido aquando da saída das caldeiras. Para mim tratava-se de uma lenda, mas para os bailundos foi um acontecimento real. Eis, pois, um exemplo de um dos seus milagres: Num certo quimbo havia uma família que vivia em grandes dificuldades; o que colhiam nas suas lavras (terras de cultivo) mal chegava para o seu sustento. Por isso, trabalhavam nas lavras dos outros a fim de obterem algum milho.


Aconteceu que um dia, apareceu naquele quimbo um indivíduo enfezado, cheio de bitacaias (pulgas que penetram nos dedos e das mãos, onde se transformam em bolinhas do tamanho de ervilhas, produzindo ovos que se lançam fora um a um) e piolhos, sujo, mal arranjado e desprezado por toda a gente. Chegou ao quimbo completamente molhado pela chuva que havia caído torrencialmente naquele dia, e tiritando de frio. Bateu a várias portas pedindo agasalho e abrigo, mas ninguém o assistiu nem agasalhou devido às bitacaias que tinha. Ao anoitecer chegou na casa a que nos referimos anteriormente, cujos moradores acabavam de chegar do trabalho. Pediu para se hospedar (por caridade) e que foi aceito com muito agrado. Deixaram-no entrar na cubata, e como estava com muito frio, acenderam o lume para que o indigente se aquecesse, deram-lhe uma manta para se cobrir pois estava quase nu, mataram uma galinha para lhe dar de jantar, tomaram do milho que haviam ganho nesse dia e o reduziram a farinha no almofariz para fazer pirão, para que o estranho comesse com carne de galinha. Como aquele “hóspede” estava muito cansado, conduzira-no à tulha onde lhe estenderam uma esteira para o deitar, deram-lhe o melhor cobertor para que se cobrir, e assim adormeceu profundamente. No dia seguinte, de manhãzinha, fizeram-lhe uma outra refeição, novamente com pirão e carne da galinha. Depois dele se ter alimentado, resolveu continuar a sua viagem. Esta família acompanhou-o até a uma certa distância onde se despediram dele, dizendo-lhe que se voltasse a aparecer naquela aldeia, não hesitasse em os procurar pois seria sempre bem acolhido. Momentos depois o estranho desaparecia da vista deles. De regresso a casa prepararam alguma coisa para comer, pois iam ter de procurar trabalho para aquele dia, e por isso necessitavam de recuperar as forças físicas. Depois da refeição estar pronta, a mãe pediu a um dos filhos que fosse à tulha buscar os pratos que o hóspede havia utilizado. O moço quando lá chegou, tentou abrir a porta mas não o conseguiu. Foi então dizer ao pai que a porta não abria, e o pai estranhando dirigiu-se lá, e só depois de muito esforço dispendido, inutilmente, verificou que a tulha estava cheio de milho até ao teto, e como se não bastasse, o montão de milho não parava de aumentar. Toda a gente do quimbo foi ver, admirados por aquele milagre, e diziam que aquele acontecimento só podia vir do Kaltangui wa li litangele la Suku, o homem que se desembaraça de D-us, que se disfarçou de mendigo, ou seja, um ser desprezível aos olhos de todos. A partir daquele dia, aquela família que havia recebido em casa o Kalitangui, alcançou tudo o que desejava, e nunca mais voltou a trabalhar nas lavras dos outros, pelo contrário, muitos vinham pedirlhes trabalho a eles. As suas lavras produziram abundantemente, e em pouco tempo tornaram-se os mais ricos daquela terra, só pelo facto de terem hospedado o Kalitangui em casa. A CHEGADA DO EVANGELHO (BOA NOVA DE ALEGRIA) AOS BAILUNDOS, ANGOLA

O Evangelho chegou aos bailundos graças à Junta Cristã Americana, American Board, com sede em Boston, a qual resolveu enviar alguns missionários para o sul de Angola e daí até ao bailundo. Era um grupo de três missionários: Drs. Revs. Sanders e Bagster, e um missionário negro chamado Miller, os quais chegaram a Benguela no dia 11 de Novembro de 1880, onde permaneceram durante algum tempo, de modo a preparar a viagem para o interior. Refira-se que naquela altura havia grande dificuldade de deslocação, visto não haver estradas nem meio de transporte, a não ser os puxados por animais, para pessoas, sendo as cargas transportadas às costas de humanos. Estes três missionários organizaram uma grande comitiva de carregadores, que transportaram as bagagens às costas ou na cabeça, comitiva essa composta de 95 pessoas, homens e mulheres, com ainda mais um boi e sete burros, todos carregados de mercadorias para as missões do interior que tencionavam instalar. Sanders e Miller viajavam nas tipóias, enquanto Bagster caminhou a pé desde Benguela até ao Bailundo, e por esse motivo os carregadores que os acompanhavam diziam: “Oku enda o kela ño (“Esmaga tudo o que cruzar no caminho”) ”, dando-lhe a alcunha de Sachikela. A viagem foi muito longa, e apenas chegaram aos bailundos em Maio de 1881. Logo que ali chegaram, foram imediatamente ter com o soba da área chamado Ekuikui II, que tinha a sua embala (capital) no cume do morro Mbalundu.


50 Os missionários faziam-se acompanhar de um intérprete de uma tribo da região de Benguela chamada Quissanje, cujo povo fala também a língua umbundu, embora com algumas diferenças. Quando os missionários ali chegaram havia uma altercação entre o soba, Tulumba e Lucamba por causa de um boi. No meio da discussão viram uns brancos que se aproximavam do Epandavelo (entrada da capital que tem um guarda) a quem pediram uma audiência ao rei, o qual interrompeu o julgamento para os receber. Os missionários, postos diante do rei, ofereceram-lhe alguns presentes. Pelo que se sabe, Eluikui não se mostrou muito satisfeito com os presentes, por não ter visto aguardente nem pólvora. Com a ajuda do intérprete, Sanders explicou ao rei os motivos da sua viagem, dizendo que estavam ali para transmitir a mensagem de Deus, para que as pessoas vivessem em irmandade, amando-se umas às outras. De seguida citou os mandamentos de Moisés: Não matar, não roubar, não ser mentiroso, não adulterar, etc. Explicou que as pessoas que praticassem tais actos, ao morrerem eram lançados num fogo ardente que se encontrava num lugar chamado inferno Ao ouvi-lo o soba disse: “Se eu estou sentado neste banco é precisamente por esse motivo. Todos os que pratiquem esses actos são sempre severamente castigados aqui na Embala”. Assim os missionários, vendo que aqueles mandamentos já eram observados ali, decidiram falar de Jesus Cristo, o que agradou sobremaneira ao rei Ekuikui, pensando que eles se referiam ao Kalitangui/Kalitangi/J-sus.  NOTA: uel.br/revistas/boitata/volume-2/artigoana.pdf, página 7. Desta forma o rei, todo satisfeito com tal mensagem chamou os rapazes da corte e ordenou-lhes que conduzissem os missionários para um lugar mais seguro denominado Chilume (lugar seguro rodeado de homens fortes) onde poderiam construir a Missão. 1. Perto daquela localidade há uma nascente de onde brota água potável. Trata-se de local com um lindo panorama paisagístico, de onde se avista a serra de Lumbandanga e aquém dela dois rios – Kulele e Kukai. »» Dizem que os missionários cristãos protestantes conservadores apreciaram muito aquele lugar, mas no entanto não tardou que as complicações surgissem. Assim que se criaram as condições para a construção da Missão, um português chamado Braga, que traficava escravos, foi ter com o soba Ekuikui que lhe disse o seguinte: -Ó soba, tu és o chefe supremo desta terra, mas aceita o conselho que te vou dar: expulsa imediatamente os americanos das tuas terras, pois se os não expulsares, em breve virão com máquinas, e num instante o outeiro onde tens a tua capital será destruída, e destruído serás tu e todos os que aqui vivem. O soba, perante esta advertência ordenou a todos os rapazes da corte para irem saquear os missionários e expulsá-los do seu território. Diz-se que um dos rapazes ao ver uma garrafa com medicamentos líquidos, pensou que se tratava aguardente e a tomou. Um dos missionários teve de intervir imediatamente tirando-lhe o frasco das mãos, explicando-lhe que era veneno. Durante aquele assalto os missionários nada fizeram em sua defesa, e não tiveram outra alternativa senão voltarem para Benguela. Passados que foram alguns meses um outro missionário, chamado Frederico Stanley Arnot, chegava às terras do Bailundo. Depois foi ter com Ekuikui explicando-lhe que fora incorrecto ao expulsar os missionários, uma vez que eles vinham para o bem do povo. Assim o rei, arrependido, enviou a Benguela um grande grupo de carregadores a fim de trazerem os missionários de volta. Quando os missionários regressaram de novo ao Bailundo, o rei foi ter com eles, desculpandose por ter sido enganado por um português. Levou-os até ao Chilume, e para que nunca mais fossem expulsos, selou com eles um pacto plantando uma mulemba (árvore doméstica). A par disto cooperou com os missionários dando-lhes mão-de-obra e liberdade para evangelizarem as pessoas que habitavam nas suas terras. Os missionários foram objecto de manifestações de afectos por parte das populações, pois eram diferentes dos outros estrangeiros, como os portugueses que por ali passavam, e por isso deramlhes o nome Afulu, que significa bons e mansos como as pombas. Não compravam escravos e nem vendiam pólvora, não bebiam e nem fumavam. O seu objectivo era apenas propagar o Evangelho e o Nome de Cristo, a fim de que todos os bailundos se amassem uns aos outros


como se fossem filhos de um só Pai/Mãe. Recorde-se que os bailundos atribuiam aos Evangelhos a designação de Afulu e aos seus membros de Vakuafulu (Santos, sem mácula). Infelizmente, dois anos depois o missionário Bagster faleceu vítima da picada de um insecto. No local onde foi sepultado construiu-se o primeiro templo. Em 1954, um missionário japonês, chamado Thomas Massagi Okuma, decidiu transladar os restos mortais deste missionário falecido para outro lugar, onde também estavam sepultados outros missionários. Eu estive presente aquando das escavações do túmulo de Bagster, e para surpresa de todos nada se encontrou lá nem sequer um osso, apenas dois parafusos. Então retiraram a terra presa aos parafusos, e meteram-na num caixão de luxo, voltando a enterrá-lo no cemitério juntamente com outros missionários falecidos no bailundo. No mesmo cemitério, à direita, estão dois túmulos de missionários, que diziam ser de ingleses falecidos no mesmo dia. Pelo que se sabe, tinham saído da Missão para evangelizar numa área chamado Utalamo, onde tinham comido carne de porco que os vitimou. Nas suas lápides, em ferro fundido, o primeiro tem a seguinte inscrição: In loving memory of Thomas Henry Morris of London Who fell a sleep in Jesus At Utalamo, 19th Oct. 1989. Aged 36 If we believe that Jesus died & rose again Even so, them also which sleep in Jesus Will go again bring him I ths: 14 A outra lápide dizia o seguinte: Richard B. Gall Who fell a sleep in Jesus 19th Oct. 1889 Aged 32 years Till death comes O terceiro túmulo é de uma criança, sem lápide. O quarto é o de Bagster, trasladado recentemente, cuja inscrição na lápide se encontra completamente apagada, tendo apenas em português: FALECEUEM 1982. É um túmulo em pedra mármore. O quinto túmulo, também em mármore, é de uma criança, em cuja lápide se lê em seguinte: Mable Means Stover Born May 26, 1888 Died January 14, 1892 Sem mais qualquer indicação. O sexto túmulo é de uma missionária, tendo gravado na lápide em português, e também em ferro fundido, a seguinte inscrição: À saudosa memória de Clara wilkes curri Missioneira pioneira Candiana faleceu no Bailundo em 21 de Setembro de 1882 Para mim o Viver é Cristo e o Morrer é Ganho. O sétimo túmulo volta a ser outra criança, sem qualquer outra inscrição. O oitavo tem uma lápide escrita em francês. É uma sepultura de criança, filha provavelmente de algum missionário chamado Neipp, e a lápide diz o seguinte: Louis Joseph Neipp 1900 Au revoir Matt. 19:14 Quando o Evangelho chegou aos bailundos, muitos dos hábitos tradicionais foram postos de lado; já não comia no onjango; os feiticeiros deixaram de ser queimados; muitos apresentavam as suas feitiçarias à Igreja; os que tinham duas três ou três mulheres ficaram apenas com uma;


52 como a “religião evangélica” proibia fumar, muitos fumadores levavam os seus cachimbos para serem queimados; os nomes africanos das pessoas eram substituídos por nomes bíblicos, como Mateus, Lucas, Paulo, Jonas, Neemias, etc. Os quimbos também passaram a ter nomes da Bíblia, como Damasco, Jericó, Jope, Samaria, etc. Todos procuravam viver em função do que a Bíblia dizia. No dia-a-dia, se alguém falasse ou precedesse mal, os outros diziam: isto não se encontra no Evangelho ou não é bíblico. Muitas noites acendiam-se fogueiras às portas dos catequistas para se aprender a palavra de Deus. Também construíam capelas a que se davam o nome de Osicola (escola), porque ali também se aprendia a ler e a escrever. Os quimbos passaram a ser construídos de outra maneira: as casas alinhadas e feitas de adobes; em todas as aldeias havia ruas bem alinhadas a que eles davam o nome de Olokolo (ruas das aldeias). Era o começo de uma grande civilização entre os Bailundos. Quando tudo estava em bom andamento, e o Evangelho tinha atingido uma área de alguns trezentos quilómetros de raio, começaram a surgir alguns contratempos com a Igreja Católica. Tudo começou depois dos católicos se instalarem também no Bailundo em 1890 com um padre francês chamado Leconte. Após o começo desta desta Missão Católica todo o trabalho evangélico transtornou-se. Todos os documentos passados por esta Igreja, como as certidões de nascimento e de casamento tinham validade perante o estado português. Porém, qualquer acto oficial realizado pelos evangélicos era considerado nulo, mesmo até os casamentos. De modo que, todos quantos se casassem na Missão Protestante eram considerados solteiros. O governo português via com maus olhos a construção de qualquer Missão protestante, incentivando a proliferação de Missões Católicas. Também advertia aos fiéis católicos sobre o risco que correriam em casar os não católicos. Desfazia-se o casamento, e o rapaz, se fosse protestante, era imediatamente enviado para o trabalho forçado. O povo que era muito unido por causa do Evangelho, agora tinha-se desunido. A rivalidade entre as duas Igrejas era grande e os quimbos eram separados. Havia quimbos exclusivamente católicos e quimbos protestantes. Tinham-se tornado inimigos, e muitas vezes até havia violência. Uma vez vi um grupo de fiéis evangélicos irem para a Mesa do Senhor, a Santa Ceia, cujo caminho passava por um quimbo católico. Os habitantes desse quimbo, então, saíram das suas casas armados com paus, agredindo os protestantes, alegando: -Va pita posikola kavopileko ochapeu (“Passaram pela escola [capela] e não tiraram os chapéus”). Em 1925 o governo português proibiu a realização de cultos evangélicos em todos os quimbos. Para o efeito constituiu uma rede de espiões oriundos das aldeias católicas. Se algum protestante fosse visto a cantar um hino da sua igreja ou orar, era logo apresentada uma queixa ao padre, que levava o assunto às autoridades portuguesas, sendo o prevaricador preso e enviado para o trabalho forçado onde permanecia durante um ano. Esta situação levou a que os missionários fossem a Luanda ter com o Governador-Geral de angola, pedindo autorização para poderem realizar os seus cultos nos quimbos. Apesar dessa autorização, os problemas não terminaram. Muitas vezes os chefes dos postos administrativos enviavam cipaios, aos Domingos, para apanharem as pessoas e as levarem ao posto, onde algumas delas eram levadas ao trabalho forçado e outras obrigadas a trabalhar no posto. No Bailundo havia muitos brancos com grandes fazendas agricolas, em que colhiam arroz, trigo, grãode-bico, e outros produtos, mas forçavam os indígenas a trabalharem nas fazendas e sem direito a alimentação; e a maior parte dessa mão-de-obra era dos quimbos protestantes. A fazenda da Gandarinha, no Mungo, e que eu conheci pessoalmente, produzia arroz, trigo, batata, etc. O seu proprietário era um português a quem deram o nome de Kambuka (homem muito baixo). Centenas de pessoas eram arrebanhadas dos quimbos e levadas para esse trabalho, e ali ficavam durante uma semana, sendo substituidas depois por outras, e onde permaneciam presas durante a noite para não fugirem. No dia seguinte, muito cedo, tocava o apito e todas saiam das prisões, levadas para as formaturas para serem contadas. Depois eram substituídas pelos diversos afazeres onde, sob chicote, cavavam a terra. Quem se espreguiçasse era imediatamente


agredido, chegando a maior parte dos casos, a morrer. Quando isto acontecia, cavavam um buraco no terreno já trabalhado onde o enterravam. Depois tratava-se aquele terreno, semeavase nele sem deixar vestígios do morto. Como entre os bailundos os trabalhadores despertavam muito cedo, criou-se a segunte canção: Lomue o N‟Denda la Lomue o N‟Denda la Ndimola onganga we. Lomue N‟Denda la yele Citeketeke omele opito ya sika Lomue o N‟Denda la Citeketeke omele opitoya sika Lomue o N‟Denda la TRADUÇÃO: Ninguém me rende Ninguém me rende Sou filho de um feiticeiro Ninguém me rende. Logo pela manhã cedo o apito toca Ninguém me rende Logo pela manhã cedo o apito toca Ninguém me rende Esta canção tem uma linda melodia e cantavam-na à medida que iam trabalhando. Ao meio-dia o apito tocava outra vez e largavam o trabalho, indo preparar a comida que levavam das suas casas. Às 14 horas voltavam ao trabalho e só o largavam quando começasse a cair a noite. Depois de jantarem, eram enclausurados nas prisões com as portas fechadas por fora. As prisões não tinham casas de banho, tendo as pessoas de fazer as suas necessidades nas suas próprias panelas. Entretanto a Igreja Evangélica começou novamente a desenvolver-se. Em 1930 realizou o seu primeiro Jubileu que teve grande sucesso. Participaram nele mais de 30 mil pessoas, e se prolongou durante uma semana. Em 1929, um ano antes do Jubileu, fora ordenado o primeiro pastor nativo chamado Abraão Ngulu. Infelizmente este pastor (“vaso de desonra”, não predestinado positivo em potencial, i.e., pelo menos para ser um “vaso de honra leal a Ela-Ele/Ele-Ela [D-us]“), para obter mais poder no seu ministério, arranjou um feiticeiro (sincretismo religioso) para administrar todos os departamentos do seu pastorado. Intentaram manter isto no segredo mas o caso foi descoberto e ele foi expulso da Missão. Anos mais tarde foi recolocado no Ministério graças a um missionário chamado Hastings (um “gesto” arriscado, mas estratégico). Como o governo português tinha interditado a abertura de mais Missões Evangélicas, Hastings fundou muitos centros de evangelização, e em cada centro colocou um pastor nativo. Nestes centros fazia-se todo o trabalho das Missões, o que evitava que os seus membros percorressem grandes distâncias, e assim se deslocavam para esses centros a fim de tratarem de quaisquer assuntos da sua conveniência, quer de casamentos, baptismos ou outros. Os missionários eram muito estimados pelas populações, e quando faziam as suas visitas pastorais, o povo, além de lhes preparar a melhor comida, construia um ochingala, espécie de barracão feito de capim e folhas de bananeira. No dia em que os missionários chegavam a um quimbo, ninguém trabalhava nas lavras. Logo que eles se aproximassem da aldeia, um homem postava-se um pouco antes, na estrada, à sua espera, e logo que os visse aproximar, lançava uns sons de enguena, que é um chifre de boi, e toda a população corria para o barracão, cantando hinos religiosos.


54 Em 1951, numa manhã cedo, um padre português chamado Mendes, juntamente com um grupo dos seus fiéis, carregavam uma quantidade de madeira e foram para uma “aldeia evangélica” chamada Kandandi, e aí começaram a construir uma capela católica em frente da capela daquela aldeia. No momento a população estava reunida no seu culto da manhã. O catequista evangélico, chamado Vitorino, foi inquirir junto do padre dizendo que não era correcto eles construírem católica mesmo em frente da capela protestante, o que era considerado como usurpação e uma provocação. O padre irritou-se e espancou brutalmente o catequista Vitorino. A população da aldeia ao ver o padre na sua agressão ao Vitorino, reagiu batendo também no padre, chegando mesmo a feri-lo com gravidade. O padre saiu dali sangrando na cabeça e foi apresentar a questão no tribunal. Este acontecimento causou uma grande preocupação aos missionários evangélicos, americanos e canadianos, que logo tiveram que meter um advogado na sua defesa. No dia do julgamento, todos os missionários estavam presentes. Antes da sentença, levantou-se o delegado do Ministério Público e disse de sua justiça: -Angola é uma terra portuguesa e a religião dos portugueses é a católica, e todos nós somos católicos. Não é lícito quando os nossos missionários vão evangelizar e serem agredidos e feridos. Responda-me a esta questão, senhor doutor juiz! Entretanto levantou-se o advogado de defesa e ordenou que Vitorino se levantasse. Perguntoulhe qual a sua idade, naturalidade, nome dos pais, habilitações literárias, etc., que tomava nota num papel. Depois perguntou-lhe o ano em que a aldeia fora fundada, e ele respondeu que em 1911. O advogado depois disse: -De facto Angola é uma terra portuguesa e a religião dos portugueses é a católica. Mas o governo português não a impõe a ninguém visto que aqui a religião é livre. Cada um pode seguir a religião que entender ou não seguir religião nenhuma. Então, por sermos católicos, temos o direito de usurparmos uma propriedade alheia que os seus donos já possuem há quarenta anos? E só este ano, 1951, é que o padre se lembrou de construir ali uma capela católica para persuadir os protestantes a se converter ao catolicismo? Isto não é tirania? Quando este advogado terminou a sua intervenção ouve um pequeno silêncio; depois saíram todos os responsáveis judiciais para deliberar, e algum tempo depois voltaram a aparecer com um documento escrito que foi lido à frente de todos, dizendo que o nosso catequista reformador, de nome Vitorino, fora absolvido. O MATRIMÓNIO E O PEDIDO DE CASAMENTO Antes dos brancos terem chegado à região do Bailundo, já os bailundos realizavam casamentos. Devemos afirmar também, no entanto, que o casamento tradicional é mais eficaz, pois é raro haver divórcios. Entre os bailundos existem dois símbolos do amor do marido para com a sua esposa, representados por uma arma e por um guarda-sol, símbolos, estes, muito respeitados e considerados. A arma é o compromisso do marido para, em qualquer circunstância, sair em defesa da mulher, que o exprime nas seguintes palavras: -Ó minha mulher, defender-te-ei de qualquer perigo que possas vir a correr! O guarda-sol tem a ver com o aconchego que o marido dá à mulher, com a seguinte declaração: -Ó minha mulher, construirei uma casa para ti a fim de que te possas abrigar no seu teto. O símbolo do guarda-sol, ou sombrinha, chegou até aos dias de hoje mas não o da arma, que foi abandonado pelo facto de, depois da revolta de Matuyakevela contra os portugueses, em 1902, ter sido interdita a venda de armas aos bailundos. A partir desta data elas deixaram de ser utilizadas nos casamentos. O matrimónio começa também, entre os bailundos, pelo namoro. De modo que um rapaz quando gostar de uma rapariga, pôe o assunto aos seus pais, e outros familiares, que analisam a questão. Estes começam por procurar saber os antedentes da família da moça pretendida: depois, se nessa família houver por acaso ladrões, mulherengos ou alguém que tenha praticado actos condenáveis, ou tenham doenças complicadas, estes aconselham o rapaz a desistir das suas pretensões. Do lado da moça procede-se da mesma forma.


No caso de as famílias concordarem no casório, nomeiam um tio do rapaz para ir conversar com os pais da rapariga, “levando” uma Ongandala (uma quinda, que é uma espécie de cesto feito de madeira, contendo bebidas, peças em pano e outras coisas, que uma miúda transporta à cabeça) por meio de uma miúda, que por sua vez, é escoltada por um miúdo, e uma arma, essa sim, levada pelo tio. Ao chegarem ao destino, os anfitriões dizem: -Akombe veya! – “Os hóspedes vieram!” -Tu eya! – “Viemos!”, respondem os que chegam. A mãe da rapariga recebe a ongandala e o pai a arma, colocando as prendas dentro de casa mesmo antes de se cumprimentarem. Depois, tomam uns bancos e sentam-se fora de casa e só depois se cumprimentam, dizendo: -Akuku, akuku! – Cumprimento inicial nos encontros entre pessoas, usualmente pelos anfitriões; a resposta dos visitantes será: “Kuku!” Conversam depois sobre vários assuntos que são do interesse comum. Entretanto, entre uma pausa no diálogo, os pais da rapariga mandam uma criança apanhar uma galinha (ou duas) que servirá para o conduto na refeição oferecida aos hóspedes. À noite preparam a ceia, levando a carne da galinha e o pirão para a cubata onde os hóspedes irão pernoitar. Estes conferem a carne da galinha para verificarem se todas as partes da galinha estão presentes. Caso falte uma das partes, devolvem a carne. Se estiver tudo completo, tiram uma parte para si e devolvem o resto. Depois da ceia dirigem-se à cozinha e sentam-se à volta da fogueira. Depois o pai da moça pergunta: -Tu fa ale tu puluka? – “Morreremos ou escaparemos?” -Escapam! – Respondem os hóspedes. – Então digam-nos o motivo que o trouxe até ao nosso meio! – Diz o pai da rapariga. Cabe ao tio do rapaz tomar a palavra e dizer: -O meu sobrinho (fulano) viu durante os passeios e nas actividades da aldeia a vossa filha (fulana) e gostou dela. Assim, pediu-nos para virmos aqui a fim de a pedir em casamento. Já nos reunimos e concluímos que não há nada contra ela, e aceitamos que ela seja a futura noiva. Foi isso que aqui nos trouxe. Agora cabe a vocês matarem a cobra e depois dizerem o nome dela (isto significa: pedir a confirmação do pedido, se aceitam ou não). Os pais da noiva tomando a palavra respondem: -Bem, por acaso ouvimos alguns zunzuns sobre o que vos trouxe aqui. Da nossa parte não há nada que impeça a nossa filha de se casar com o vosso filho. Apenas dependerá dela, se aceita ou não! Mandam de imediato chamar a rapariga, e logo que chegue mandam-na sentar-se, e o pai então diz-lhe: -Eis aqui os teus hóspedes. O tio do rapaz toma a palavra e diz: -Ó mãe (tratam sempre as pessoas do género feminino por mãe, mesmo pequenas, e por pai as do género masculino), nós viemos aqui pedir-te para que sejas a nossa futura nora, casando com o nosso filho, fulano. Gostamos muito de ti, e pedimos que aceites este nosso pedido. O pai dela ainda observa: -Diz o que te convir. Se gosta dele diga que sim, e se não diga que não. Ela então fica calada, pois entre os bailundos as raparigas nunca têm coragem de dizer perante os pais, o sim, em relação ao casamento. De modo que ela fica indecisa e fica completamente encabulada. A única solução, para estes casos, é chamar as suas tias, em particular, cabendo a elas perguntar à parte se ela aceita ou não. Assim, depois de algum tempo aparecem as tias para confirmar que ela aceita a proposta. O tio do noivo desembrulha a ongandala de onde retira um pano, enrola-o à volta da rapariga. Depois pega num par de brincos e mete-os nas orelhas dela e põe-lhe um lenço na cabeça. Estes artigos, que se dão no momento do pedido de casamento, designam-se por enxota rivais. Na manhã do dia seguinte cozinham mais uma galinha para os hóspedes que a comem com o pirão.


56 Depois de terem comido, despedem-se e vãos alegres por terem conseguido as suas pretensões. Quando chegarem aos seus, contam-lhes tudo quanto aconteceu, que não conseguem conter a sua alegria pelo sucedido. A partir de então, o rapaz começa a preparar-se para o casamento. Depois de alguns meses o tio do rapaz vai ter novamente com os pais da rapariga a fim de a levar consigo para a preparação das lavras. Já no quimbo do moço é entregue aos sogros, ficando sob os cuidados da sogra; esta dormirá com ela na mesma cama, vigiando-a, para evitar que o rapaz tenha relações sexuais com a moça o que, segundo a Tradição, romperia o compromisso estabelecido para o casamento. Começam então os preparos da lavra. O rapaz derruba os árvores, enquanto ela arrotea a terra. Depois volta para a sua casa acompanhada do tio do moço a fim de a devolver aos seus pais e levar o ilombo (aquilo que o pretendente dá aos pais da rapariga, como o cobertor de papa, nome que dão a um cobertor grande e felpudo, panos, roupa do pai e da mãe, um garrafão com bebidas, etc.) A partir daí só se espera o momento do casamento. Para o efeito, o rapaz prepara a sua moradia com a sua respectiva cozinha, bem como a tulha. Quando faltarem dez dias para o casamento, os aldeãos preparam em grandes quantidades o “osovo”, o fermento para fazer o “ochimbombo”. Nas vesperas do casamento, as tias dos dois noivos dão instruções de como viver a vida conjugal; ele é instruído em como dormir com uma mulher na cama, o que se deve e o que não se deve, e outras coisas mais. Mais tarde a noiva regressa à casa dos seus pais. Nessa mesma noite o tio e algumas tias do rapaz vão buscar a noiva em casa dos pais dela, e dizem: - Etali, tu yea ok upa ukai wetu, “Hoje Viemos Buscar a Nossa Mulher” Os pais dela chamam-na em particular, advertem-na que a partir deste dia deixará de viver com eles e passará a viver com o seu marido. Dizem-lhe para respeitar todos os familiares do marido, sobretudo os sogros. Se um deles ficar doente ou precisar de auxílio, ela deverá prestá-lo sem vacilar. Também a alertam no sentido de quando quiserem poderão deslocar-se ali para os visitar mas que, definitivamente esta está separada deles. Depois destas instruções, a rapariga é levada para a cubata do marido onde passará a noite. No dia seguinte, muito cedo, o tio bate à porta e então diz em tom de brincadeira, que, geralmente, os tios dizem sempre aos sobrinhos: “Acorda rapaz! Já não foi suficiente o gozo que tiveste com a minha mulher? Eu já estou aqui, e tu sabes bem que ela me pertence! Deixa-a, eu preciso dela! Então abre-se a porta, os noivos saem e põe uma esteira ao pé da cubata dos casados. A esteira desempenha um papel muito importante na vida dos bailundos. Se morre um marido, a viúva fica sentada na esteira durante muitos dias; no casamento a noiva utiliza a esteira; para empossar um Soba este tem que sentar-se numa esteira, etc. A noiva, então, senta-se na esteira e o noivo também se senta num banco ao seu lado. Assim começa a grande festa, a de Uvala, ou seja, o casamento. Ao lado dos noivos é colocado um prato com óleo de palma. Quem se aproximar para os cumprimentar põe qualquer coisa no prato, que tanto poderá ser um alfinete, como uma moeda, missanga, etc. No entanto apenas têm direito a isso os casados ou aqueles que o tenham sido. Por conseguinte, depois de deitarem algo naquele prato, tomam do óleo e untam o pulso dextro, dando a entender que são ou já foram casados. Todas as pessoas dos quimbos vizinhos participam de igual modo naquela grande festa. Matam-se muitos animais, sobretudo bois, e sobretudo muito pirão. Come-se ao ar livre, bebe-se o ochimbombo que é feito em todas as casas. As despesas para a festa são totalmente da responsabilidade dos habitantes da aldeia, que é a sua contribuição para os noivos. Este é um dia de festa onde as pessoas dançam o batuque durante horas a fio. No fim da festa a noiva é submetida a um tratamento especial: durante todos os dias é lavada pelas tias do noivo e untada com óleo de palma; os seus cabelos são trançados todos os dias, a fim de que fique bonita, não só aos olhos do marido mas também da comunidade. Depois disto marca-se uma data para a segunda festa nupcial em casa dos pais da noiva. No dia em que os noivos se dirigem para casa dos pais da noiva são acompanhados por muita gente. A noiva caminha ao lado do marido com o guarda-sol na mão e bem vestida.


Trata-se praticamente de uma marcha nupcial, que é feita com muita música (canções). Apesar de toda esta azáfama, também existem alguns percalços nos casamentos. Por exemplo, se durante as festas for vista uma luta de cães, este é um sinal de que a noiva não era virgem no casamento. Existem outros rituais para manifestar isto. Geralmente lideram cada marcha nupcial dois homens com um porco pelado. Caso o porco tenha duas pernas ou se caminhar na dianteira uma miúda com uma garrafa à cabeça com óleo de palma, cheia, é sinal que a noiva já ia desonrada no casamento. Neste caso, esta mulher será desprezada tanto pela população como pelo marido e pelos sogros; será sempre considerada como mulher alheia, ou seja, pertencente ao homem que a desonrou. Quando um caso destes acontece, a marcha é acometida por uma onda de desânimo, e as pessoas, dispersam-se uma a uma. Se a noiva estava virgem, toda a gente que participa canta alegremente: Ondombua yetu ya fina A nossa noiva é bonita Ondombua yetu ya fina A nossa noiva é bonita Ondombua yetu ya fina we A nossa noiva é bonita, sim, Ka yi talele wa pumba Quem não a vir perdeu um grande espectáculo Ou cantam ainda esta: Omala vange volonjamba Que farei dos meus filhos gémeos? Ndi va linga ndati? Se prestar mais atenção ao katombela (noivo) Njupapo Katombela A Nawandi chora (noiva) Nawandi o sukota Se prestar atenção à Nawandi Njupapo Nawandi O Katombela chora. Katombela o sokota Chora – respondem todos. Ó lila… Ó lila – respondem todos. Há outras canções nupciais muito lindas, melodicamente, que eles entoam durante a marcha nupcial. Próximo do quimbo da noiva, a população dessa aldeia, num ajuntamento, fica à espera dos noivos. Dois indivíduos, um do lado do noivo e outro do lado da noiva, surgem com uma bandeira, travando uma luta renhida para ver qual deles toma a bandeira do outro: Se for o que vem da parte da noiva, então esse tem a obrigação de pagar aos familiares do noivo, ou vice-versa. É deste modo que a festa começa a animar-se. Quando chegam à casa dos pais da noiva, deparam-se com uma mulher, em geral tia do noivo, mal vestida, com bócio feito de trapos velhos, com uma quinda grande na cabeça cheia de coisas ruins, como panelas de barro partidas, restos de pirão, pratos sujos, etc. Então essa mulher mal vestida e mal apresentada, brutalmente escorraça a noiva e toma o seu lugar do noivo. Para se sair deste imbróglio é necessário que o noivo pague uma certa quantia em dinheiro ou em bens, a fim de não ser lesado pelo que dizem as superstições. Só apenas a partir daí é que começa a grande festa, com a mesma envergadura como a que se passou na casa do noivo. A festa termina ao pôr-do-sol, e é nesse momento que os convidados da parte do noivo se colocam na frente da casa dos pais da noiva com paus batendo no chão, ao mesmo tempo que cantam: Ndombua, ndombua, Ye, ye, liangilya Aye liangilya, Aye liangilya, Aye liangilya, Aye liangilya okakuata tundasa: Ohumba yetu… Tradução para português: Noiva, noiva, Ye, ye, prepara-te Aye prepara-te,


58 Aye prepara-te, Aye prepara-te, Aye prepara-te, deixa sair aos objectos: Que saia a nossa quinda. Assim logo sai a quinda que vai na cabeça de alguém. Repetem a canção, e no fim dizem: “O nosso almofariz” – Este alguém sai e uma nova pessoa assume de imediato a responsabilidade de a transportar. Vão repetindo a canção citando um outro utensílio que também sai, até completarem todos os objectos preparados pelos pais da noiva. No fim desta cerimónia, cada qual volta para o seu quimbo. Todos os que pertencem à aldeia onde os noivos residem, dirigem-se à sua casa onde deixam todos os utensílios trazidos da casa dos pais da noiva. É o que entre os bailundos se designa por Oku kuata epata, o que quer dizer: criar os laços familiares. Diz a Tradição que se a noiva não passar por esta prova, fará sempre o pirão de ombomba, ou seja, mal feito e mal cosido. Dum modo geral, é por estes rituais que passa um casamento tradicional entre os bailundos. Embora não se registe nada, como é feita na conservatória ou na igreja, estes casamentos são tão legítimos para o povo bailundo quanto os outros. A mulher será respeitada como legítima esposa daquele homem, e quem dela se servir sexualmente não terá nenhuma defesa, pois, aos olhos de todos é uma mulher casada. Entre os bailundos, geralmente, quem assediar uma mulher de outro e for apanhado em flagrante, está sujeito a grandes complicações pela população que, muitas vezes, têm levado pessoas à morte. Na Tradição dos bailundos, existe uma metáfora que conduz os homens a não praticarem essas acções. De acordo com ela, o primeiro homem que cometeu este crime, foi encontrado colado à mulher violada, tudo devido ao feitiço que o marido havia deixado. No dia seguinte, o marido ao voltar a casa e face àquele quadro tão insólito, convocou toda a população do quimbo, recorrendo a outro feitiço que fez com que se desprendessem. Depois forçaram o transgressor a mostrar os seus órgãos genitais, e um outro homem arremessou uma flecha de ochilavi (flecha com ponta de madeira destinada a matar passarinhos) contra esses orgãos, ao mesmo tempo que perguntava à multidão: - Quando se é adúltero e se é apanhado, o que é melhor? Morrer desta forma ou indemnizar o marido traído? - É melhor pagar – respondem todos em coro – É melhor pagar do que ser morto desta maneira. Foi a partir de então que se decidiu amarrar o transgressor, levar ao soba todos aqueles que violem as mulheres dos outros, e a serem obrigados a pagar uma multa elevada. Entre todos os que se casam tradicionalmente é muito raro separarem-se. E se o homem quiser mais uma mulher, só o fará mediante autorização da sua mulher, que tem o nome de Ombutulua (a primeira mulher de um homem casado). Na Tradição única deste povo, prevalece a ideia segundo a qual a união entre um homem e uma mulher não é só a da carne, mas também da alma (estou-me a lembrar dos Yaohúshuahe [cristãos] e da Escritura: ”1Coríntios 16Não sabem vocês que aqueleque se junta com uma prostituta torna-se parte dela e ela dele? Porque YÁOHU UL diz-nos na Qaotáv: “Os dois se tornam num só”. 17Mas aquele que se der a YÁOHU UL, torna-se um só espírito com ele. 18Fujam de toda a ligação sexual ilícita! Nunca outro pecado atinge tanto o corpo como este; é como um pecado contra o seu próprio corpo. 19Não aprenderam já que o vosso corpo é a morada do RÚKHA hol-HODSHÚA que YÁOHU UL vos deu e que vive portanto em vocês. Por isso o vosso corpo não vos pertence. 20Porque YÁOHU UL vos comprou por um preço elevado. Sendo assim, usemtodo o vosso ser, tanto o corpo como o espírito, para a glória de YÁOHU UL, porque a ele pertencem”[2]). Entre os casados há comportamentos que se devem evitar, pois, segundo se diz, algumas ficam gravadas na mente dos dois membros do casal, que depois da morte poderão vingar-se um do outro. Uma das prescrições é, por exemplo, referente aos orgãos genitais. É expressamente proíbido, quer o marido quer a esposa referirem-se a eles. Tive conhecimento de uma mulher que se havia molhado com a chuva, e quando chegou em casa achou por bem despir-se, cobrindo o corpo com um cobertor da cama, o que desagradou ao marido, o qual lhe disse para não usar o cobertor daquela forma, toda molhada. Segundo se


contava, a mulher interpretou mal as palavras do marido, pensando que ele se tivesse referido aos seus orgãos sexuais. Pôs-se então a chorar e a cismar, acabando mesmo por morrer. Ouviuse mais tarde dizer que ela, depois de morta, perseguiu o marido até este também morrer. Diz-se que isto tem acontecido variadas vezes, o que em umbundu quer dizer: Oku lambiwa (tradução: ser perseguida por uma alma do outro mundo). NASCIMENTO DE CRIANÇAS Quando nasce uma criança, todo o quimbo dirige-se ao casal para os felicitar, gritando em coro: - Ulú! Ulú! Ulú! Ulú!… – São interjeições que exprimem muita alegria. Se num lar nascerem gémeos, toda a população do quimbo vai ter com os pais e os insultam, citando os orgãos reprodutores de onde saíram esses gémeos, tanto do pai como da mãe. Se não se proceder assim, diz a Tradição, os gémeos não crescerão e depressa morrerão. O pai dos gémeos chama-se Sonjamba e a mãe Nonjamba. Nas suas conversas do dia a dia têm que se insultar mutuamente, referindo-se sempre aos orgãos sexuais, caso contrário os gémeos morrerão. Se nasce um bebé albino, a mãe coloca-o às costas e, propositadamente amarra o pano com desleixo, e dirige-se a um rio que tenha ponte de dois ou três paus; no meio do rio e com os seus movimentos, o pano desprende-se, e a criança cai ao rio. A mãe corre para uma das margens chorando aos gritos: – Ai, ai, o meu filho! À primeira vista dá a impressão de ter sido um acidente. Então ela dirige-se ao quimbo onde se realiza o funeral. Também se diz que este procedimento, para além de evitar que nasça mais algum albino nesta família, fará com que a alma da criança não volte para clamar vingança, uma vez que também se convenceu de que, de facto, acontecera um acidente. Quando nasce uma criança, os sogros dão ao genro um porco designado por ongulu yokoviongo, isto é, a região lombar do pai. Pois pensavam que era dali que saem os filhos. SOGROS, GENROS E NORAS Geralmente, entre sogros, genros e noras, as relações estabelecem-se dentro de um certo pudor. Por exemplo, a sogra não pode comer perante o genro, pois quando isso acontece, tem, necessariamente, de evacuar, e assim se evita que haja uma situação embaraçosa entre ambos. Isto acontece com todos. Têm sempre vergonha em falar de tudo o que diga respeito à sexualidade e aos sexos. Um genro para ir ao kuvala (a aldeia donde saiu a mulher ou o homem para casar) tem de se preparar e portar-se bem. Lá não se deve comportar vergonhosamente. Na sociedade tradicional, os bailundos, nas anedotas riem-se das cenas vergonhosas que praticam no kuvala. Até se conta a seguinte anedota: Um casal resolveu visitar os sogos; foram bem recebidos e tratados. No dia em que tiveram que deixar o local, o genro apanhou uma galinha que tinha entrado na cubata onde estavam hospedados e guardou-a debaixo do casaco. Quando os sogros chegaram para se despedir, a galinha escondida pôs-se a cacarejar. Este é um acto que se não deve praticar perante os sogros, pois é um acto muito vergonhoso. Numa outra história, conta-se que um homem, juntamente com a sua mulher, ajudava a sogra a desbravar uma terra. O genro derrubava as árvores e a filha desbravava a terra. De repente o pano que o genro tinha a cobrir-lhe as partes pudendas desprendeu-se da cintura precisamente no momento em que uma árvore caia sobre ele. Daí o dilema: se ele pegasse no pano a árvore cairia sobre ele, e se se desviasse da árvore ficaria nú perante a sogra, o que é altamente reprovável. De modos que preferiu que a árvore caísse sobre ele, com todos os riscos que daí pudessem advir. Conta-se ainda que uma mulher do Bailundo, cuja filha se tinha casado no Andulo, tinha levado para o casamento uma das suas irmãs menores. Anos mais tarde aquela irmã menor cresceu, foi pretendida por alguém e acabou por casar. A mãe, quando soube que essa filha se havia casado também no Andulo, resolveu ir até lá para conhecer o genro. Foi de autocarro até ao Mungo e daí a pé até ao Andulo.


60 Ao chegar ao rio Cutato, como não havia ponte para o atravessar, passou-o com uma piroga, cujo barqueiro, sem que o soubesse, era o seu genro. Este assediou-a, dizendo, que a levaria para a outra margem a troco do seu corpo. Ela dada a urgência e não tendo alternativa, teve mesmo de ceder aos caprichos do barqueiro. A mulherzinha chegando à aldeia logo procurou a casa da filha dizendo-lhe o motivo da sua viagem, o qual era conhecer o genro. A filha então lhe disse que o seu genro era precisamente o dono da piroga com quem atravessou o rio Cutato. A mulher então achou-se muito mal, e quando chegou o genro suicidou-se por pudor e por não suportar a sua presença. Estas histórias ou estórias, só os primeiros bailundos o sabem, circulam de boca em boca entre este povo sob a forma de chistes. A VIUVEZ Se um dos cônjuges morrer o outro fica ochimbumba, isto é, viúvo ou viúva. Se morrer o marido, a esposa, durante os dias que se seguem à morte do marido, fica sentada numa esteira durante dez dias, chorando por ele. Durante o tempo em que ela fica sentada, é sempre escolhido alguém para tratar dessa pessoa, acompanhá-la onde quiser ir, especialmente quanto às suas necessidades fisiológicas. Dez dias depois, é levada ao rio para ser lavada. De novo em casa, é submetida à adivinhação para se saber se durante o tempo em que esteve com o seu cônjuge teve relações extra conjugais. Para o efeito, têm uma grande quinda que enchem com água, onde lançam umas raízes mágicas, ao mesmo tempo que o responsável pelo acto diz: - Se esta mulher, no estado de ochikuwiya, durante o tempo de casamento teve alguma vez relações extra conjugais com alguém, então, raízes ide para o fundo da água que está na quinda. Caso tal tenha acontecido, essa pessoa é obrigada a pagar uma multa pesada aos parentes do falecido, a fim de que a alma do outro não a persiga, Se as raízes flutuarem é sinal de que a pessoa está isenta deste pecado. Depois da adivinhação, a pessoa deixa de ser kapulungu, passando a ser ochimbumba, pois passou ao estado de viuvez. Se houver filhos do casal, a viúva poderá ficar a residir na sua casa, mas se voltar a casar tem de abandonar tudo, casa e filhos. No caso de não haver filhos, logo após a adivinhação tem de ir viver na casa de seus pais, se ainda estiverem vivos ou para casa de outros parentes. Os viúvos, quer homens quer mulheres, são obrigados a esperar um ano para que possam casar novamente, ou a terem relações sexuais com mais alguém, com o fim de evitar que a alma do defunto/a o/a não persiga. Passado o ano, é realizado o ochissunji, que pela influência do cristianismo passou a chamar-se oku lula oluto, que significa deixar o luto. É uma cerimónia que é praticamente uma festa em que se matam animais para banquetes, dança-se o batuque, bebe-se muito ochimbombo, ou seja, repetem-se os actos festivos dos dias do falecimento. Apenas quando o ochissunji terminar, então o viúvo/a poderão ter permissão para casar, ou ter relações com outra pessoa do sexo oposto, sem que a alma do falecido/a lhe faça qualquer mal. Quando na era colonial trabalhei na administração do Concelho do Mungo como recenseador, uma vez realizava essan tarefa no sobado do Kaiumbuka. A meio do livro do recenseamento chamei por um indivíduo, e o soba disse-me que ele se ausentara por ter sido castrado por um cazumbi, o que despertou o meu interesse: - Foi castrado por um cazumbi? – Perguntei eu. Será verdade? – Os presentes disseram em uníssono que fora de facto isso que se tinha passado. Pedi-lhes que me explicassem bem as coisas. O soba disse-me que este homem fora muito atrevido, pois passara a noite com uma viúva que ainda não tinha terminado o luto. Foi por isso que o cazumbi do falecido o castrou. Não cheguei a confirmar isto, mas a convicção com que me afirmarem estas coisas me marcou profundamente. A FEITIÇARIA A história da feitiçaria em África é muito antiga. Muitos há que muito dizem que a feitiçaria não existe, inclusivamente, os próprios feiticeiros negam a sua existência, no entanto dizem-no para que não sejam descobertos. Se o feitiço não existisse não se falaria muito dele, dentro de qualquer comunidade. Os feiticeiros mantêm os seus conhecimentos sobre o feitiço em sigilo. O


titular de feitiçaria faz prodígios; pode transformar-se em leão, voar como uma ave, pode ordenar a uma alma para matar uma pessoa que esteja distante, visto os feiticeiros lidarem com as almas penadas. O feitiço dos brancos deve ser outro. O do africano visa essencialmente eliminar os outros, para que o feiticeiro fique de posse da alma do defunto, o qual ficará a trabalhar para ele, enquanto o dos brancos visa, sobretudo, para um enriquecimento fácil. Conta-se que no Bailundo, exemplo – Vila Teixeira da Silva, durante o tempo colonial, um comerciante português, que conheci pessoalmente e respondia por o nome de Neto, quis enriquecer-se em pouco tempo e, para o efeito, recorreu à feitiçaria dos africanos, querendo matar uma certa pessoa e trabalhar com a sua alma. Graças àquele feitiço, em pouco tempo, tornou-se rico. Infelizmente não sabia que aquela [alma], quando se cansasse tinha de ser substituída por uma outra. Para isso é necessário fazer uma grande festa em memória da alma a substituir, ter de matar de matar outra pessoa. O português não sabia disto e foi violentamente perseguido. Não suportando a perseguição, resolveu fugir para Portugal. Ficou por lá apenas dois dias, e pelo que se constava, a referida alma foi até Portugal em busca dele, onde o matou. Era um acontecimento que andava na boca de muita gente. Muitas pessoas desta região recorrem ao feitiço para obterem sucesso em tudo o que realizam, tal como no emprego, na conquista das mulheres e mesmo na caça, pois as almas do outro mundo fazem com que a caça se aproxime do caçador. Conta-se que havia dois amigos muito íntimos, que por serem solteiros viviam na mesma cubata. Um era tocador de ochissangi (instrumento musical de cordas) e o outro era dançarino. Um tocava e o outro dançava. Um dia o dançarino sonhou que um sekulu (velho) feiticeiro do quimbo queria matá-lo, para depois ser transformado em okovo (alma do outro mundo que serve de escrava para roubar milho dos campos e o levar para o celeiro do feiticeiro). Teve o mesmo sonho várias vezes, e quando isto acontece é o sinal mais que evidente de que a intenção do feiticeiro será posta em prática. [A pessoa enfeitiçada sabe pelo sonho que será morta por alguém. Já assisti a varios julgamentos deste tipo, onde alguém acusa uma pessoa que sonhou em querer matá-la.] De modo que o dançarino combinou com o tocador que quatro dias depois do seu enterro fosse com o seu canhangulo ao cemitério emboscar o feiticeiro, junto de uma árvore que ficava perto da sua sepultura. Quatro dias depois do enterro, então o tocador de ochissanji tomou o seu canhangulo, e no cemitério subiu à dita árvore esperando o feiticeiro. Pela meia-noite viu ao longe o cintilar de um tição a arder; era o feiticeiro que se aproximava. Quando este chegou junto da sepultura do dançarino, acendeu uma fogueira, pôs sobre ela uma panelinha de barro cheio de vários ingredientes que compunham o respectivo feitiço. Quando a água começou a ferver, tirou-a do fogo e deixou que arrefecesse. Em seguida pegou num bastão mágico com o qual bateu em cima da sepultura, e num instante o cadáver veio à superfície. Depois o feiticeiro examinou a temperatura dos ingredientes da panela, esperou mais uns momentos, tomando um trapo, também mágico, molhou-o na composição e aplicou-o como compressa no corpo do cadáver para o “ressuscitar” (reanimar). Finalmente, o feiticeiro proveu-se de uma armadilha, mandando que o morto-vivo fosse até a uma certa distância, ordenando-lhe depois que se aproximasse dele a correr. A intenção do feiticeiro era fazê-lo cair na armadilha montada, torcer-lhe o pescoço, de modo que a cara ficasse voltada para as costas, transformando-o então em Ekovo. No momento em que o dançarino obedecia às ordens do feiticeiro, correndo em direcção à tal armadilha, ouviu-se um disparo de canhangulo, cuja bala atingiu em cheio o feiticeiro, que sem conseguir o seu intento caiu morto. E assim o dançarino ficou são e salvo, e os dois regressaram ao seu quimbo, continuando com as suas actividades artísticas. Aconteceu porém, que as pessoas que tinham participado no funeral do dançarino quando o ouviram cantar, ficaram aqdmirados com a sua presença, e sabendo do acontecido louvaram a coragem do tocador ochissanji. Em 1971, na Missão Evangélica do Bailundo, tinha ocorrido um caso semelhante. O pastor, chamado Jaime, adoecera, acabando mesmo por morrer. O seu funeral fora muito concorrido.


62 Lembro-me que ele fora enterrado, levando sobre o peito uma linda coroa de flores feito pela minha esposa. Ora quatro dias depois estas flores foram encontradas à superfície da campa com a sepultura semiaberta, o que mostrava, sem sombra de dúvidas, que o cadáver tinha sido desenterrado. O caso fora entregue às autoridades policiais da altura, sem nada ter sido apurado. Estes casos têm acontecido várias vezes. Do que se sabe, cada feiticeiro utiliza sempre um bastão, que ao batê-lo em cima da sepultura faz com que o cadáver suba à superfície, tirando-lhe o coração, o fígado e outros orgãos, munido de uma faca. Depois disto volta a deitar o cadáver sobre a campa, e com a mesma magia ordena que o morto volte para o fundo da cova. Os orgãos que o feiticeiro retira do cadáver (terá sido potencialmente animado por uma Potestade/Demónio, visto ser um “vaso de desonra”. Ser feiticeiro é hereditário; transmite-se de geração em geração. Assim, quando nasce uma criança fazem-na engolir um feitiço (os elementos usados para tal) que faz com que ela fique feiticeira por natureza (testemunho literal de predestinação supralapsariana). Outros ingredientes são reduzidos a pó e misturados nas papas, conhecidos por ekela (papas que dão aos bebés); daí o dito: “Wa ci lila vekela”, “Comeu o feitiço junto com as papas”. Toda a criança que tenha ingerido feitiço, quando for adulta torna-se num grande feiticeiro, podendo, inclusivamente, enfeitiçar através da voz. Tudo o que o feiticeiro disser se realizará: querendo matar alguém, basta-lhe dizer que essa pessoa morra; pode fazer com que não chova2; mandar um raio para matar alguém, quer na estação chuvosa como na seca. Geralmente, o feiticeiro, para além de reforçar o feitiço com restos de cadáveres, também o reforça com raízes de plantas. Conheci em tempos uma moça bonita que, em criança, tinha engolido feitiço. Havia um moço que quis casar-se com ela, e para isso exigiu tomasse uma certa composição de efeito contrário, apenas conhecida por feiticeiros, e assim vomitar o feitiço que engolira, deixando dessa forma de ser feiticeira. Em 1984 houve no Bailundo vários grupos de jovens que eram conhecidos por olosinguile. Era corrente vê-los dançar o batuque, e quando o faziam reviravam os os olhos e movimentavam a cabeça de cima para baixo como que numa afirmação. Neste transe citavam os nomes dos feiticeiros, que de seguida eram apanhados e mortos. Durante três semanas foram mortos à cacetada 429 feiticeiros. Os referidos olosinguile, na sua maioria jovens, iam às casas dos feiticeiros a fim de trazerem de lá algum elemento dos feitiços que por lá se encontrasse, pois, para reforçar o feitiço, os feiticeiros conservavam corpos secos de bebés, e outras coisas mais. Muitas pessoas ligadas à Igreja foram mortas acusadas de feitiçaria. Estes sucessos apenas terminaram com a intervenção das autoridades. No capítulo do feitiço a nudez ocupa entre os bailundos um lugar de realce, servindo para dar azar e desgraçar alguém. Todos os orgãos que se encontrem entre as pernas, quer de homens quer de mulheres, incluindo as nádegas e os próprios excrementos humanos constituem feitiços terríveis. Eu fui testemunha de um caso impressionante e insólito sobre um sujeito rebelde que violava constantemente as mulheres dos outros, perdão por o recurso à linguagem patriarcal, económica, ninguém é propriedade de ninguém. Cabia ao pai ter que pagar as multas aplicadas às rebeldias do filho. No último julgamento relativo ao mesmo delito, o pai irritou-se de tal modo, levantando-se perante muita gente que assistia ao julgamento, baixou as calças, e pegando nos orgãos sexuais, mostrou-os ao filho, e perante todos disse-lhe: – Se tu de facto saíste mesmo na ponta deste senhorinho, a partir de hoje tens os dias contados. – Dito e feito. Três dias depois chegava-nos a notícia de que este jovem acabava de morrer. Existe outro tipo de feitiço que é mais usual nas mulheres a quem se dá o nome de iliangu, cuja finalidade é a de lançar desgraças nas pessoas, interferindo negativamente nos seus negócios ou no seu trabalho. Estas mulheres costumam sair à noite, quando toda a gente já dorme. Saem nuas e nem os seus maridos se apercebem. Vão para casas previamente seleccionadas, munidas com ervas com a função de sonífero. Quando chegam nas referidas casas, dançam em frente das portas ao mesmo tempo que dizem:


- Venho para te desgraçar, venho para te desgraçar! – Depois limpam o seu ânus na porta dessa casa eleita (maldita), deixando ali restos de excrementos. Conta-se que um homem vira, na porta da sua casa, uns restos de fezes, ficando a saber que havia passado por ali um ochiliangu. Neste sentido, meteu a ponta de uma faca numa fenda da porta. Quando o ochiliangu apareceu de novo, com a intenção de prosseguir a mesma tarefa, feriu-se no ânus. De manhã, o dono daquela casa encontrou muito sangue à porta. Também é usual meter numa fenda da parede de uma casa uma raiz de uma planta, conhecida apenas pelos feiticeiros, caso a ochiliangu aparecesse; esta perderia a noção do que fazia e, neste sentido, exerceria as suas actividades de bruxarias até ao amanhecer do dia seguinte, portanto à vista de toda a gente. Eu pessoalmente cheguei a ver uma fotografia tirada a uma destas mulheres nesta situação. As fezes humanas são importantes na feitiçaria para lançar a maldição sobre alguém ou para outros fins. Com elas uma mulher pode dominar o marido. Diz-se entre os bailundos que toda a mulher que queira dominar o seu marido, segue-o à distância; quando ele for defecar na mata… Sem ele dar por isto, ela retira uma parte (do tamanho de uma abelha) do excremento e misturao com o conduto que ele irá comer com o pirão. É desta forma que se torna parvo e dócil aos desígnios e intenções da mulher, obedecendo-lhe em tudo o que ela mandar. É isto que explica quando os bailundos vêm um homem dócil e que obedece à mulher cegamente, e clamam: -Vo lisa! ["A mulher faz-lhe comer as fezes!"] Muitas vezes os feiticeiros, em especial as mukeres, costumam defecar em frente das portas, nas cozinhas, e até nas panelas que se encontrem na cozedura durante a noite nas cozinhas das casas dos outros. Recorde-se que entre os bailundos é usual ficarem as cozinhas separadas das casas de dormir, tendo sempre portas muito frágeis. A utilização das fezes com o fim de causar desgraças pode ser expressa neste conto da Tradição, passado num tempo já remoto: Uma mulher, durante a noite, tinha deixado o seu bebé sozinho, indo praticar as suas feitiçarias. O bebé começou a chorar muito, e então um vizinho foi saber por que motivo o bebé chorava assim. Quando lá chegou deu pela ausência da mãe. Compadecendo-se da criança, levou-a para a sua casa para a acalmar. Mas infelizmente ao chegar em casa o bebé acabou por morrer. Cheio de medo, tomou alguns farrapos, embrulhou-o e pôs-se fora do quimbo, atravessando um cerco com paus que, geralmente, circundam os quimbos, passou por um buraco para a ir deitar fora. No momento, fora do cerco, estava um homem a defecar, que quando o viu com o embrulho nas mãos pensou que fosse um ladrão e, acto contínuo, atirou-lhe o porrete que levava consigo. O que fugia deixou cair o embrulho e fugiu, e o outro apoderou-se do embrulho, levando-o para sua casa. Como não havia luz, resolveu ver o conteúdo só quando amanhecesse. Não teve que esperar muito tempo, pois a aldeia entrou numa azáfema total com a chegada da mãe da criança. Esta, não encontrando o seu filho em casa, pôs-se a chorar, dizendo que alguém lho roubara. Os homens procuraram-no, mas não o encontraram em parte nenhuma, nem mesmo quaisquer rastos dele. Nunca mais viram sinais do bebé. Cerca das nove horas da manhã, o filho do que tinha o embrulho convidou outros amigos a irem a casa dele para fazerem pirão. Depois do pirão estar pronto, o moço procurou pela carne do porco que o pai tinha comprado na véspera para servir de conduto. Procurou em todos os cantos da casa sem nada encontrar. Mas depois sempre encontrou o embrulho, pensando que seria aí que estivesse a carne. Tomou-o, e o levou aos seus amigos, e à vista de todos o desembrulhou. Espantados, viram o bebé procurado por toda a aldeia. Assustados, saíram dali correndo e a dizer que o bebé procurado estava naquela casa. Muitos se dirigiram para lá, confirmando que era verdade o que o s moços diziam. Aquele homem foi preso, e foi em vão que se defendeu perante a justiça, mesmo dizendo a todo o mundo como as coisas se haviam passado. Como ninguém o acreditou, lá se resignou dizendo: “Ondiangu eniña”, o que quer dizer: que o azar é o excremento que evacuara nessa noite”. A partir desse momento, os excrementos tornaram-se os elementos da desgraça. Foi daí que os bailundos começaram a ter medo acrescido quando vêem excrementos humanos nas suas lavras


64 ou noutros locais, mesmo no caso de serem animais. Por exemplo, se um Onguli (animal carnívoro parecido com o lobo) defecar dentro de um quimbo, as pessoas dispersam-se, abandonando para sempre o local, indo fundar outro quimbo.

A MEDICINA E A IMUNIZAÇÃO A medicina tradicional entre os bailundos é tão antiga como a medicina dos países mais evoluídos. Antes dos outros povos terem chegado à região, os seus autóctones já conheciam a medicina tradicional, e tinham inclusivamente hospitais que consistiam em grandes acampamentos feitos nas matas, em palhotas, e sob a responsabilidade de um Ochimbanda (“papel espiritual e médico, que cabia então aos chamados Xamãs. Para as suas práticas de cura usavam o que a natureza lhes oferecia: plantas, argila água, [répteis] e animais. Como forma de destaque em relação à sua importância social, os Xamãs usavam máscaras exuberantes”, historiadaestetica.com.sapo.pt). As substâncias medicamentosas eram extraídas da natureza animal, reptilária(vide nota rosa), vegetal e mineral. Quanto às substâncias de natureza animal, podemos referir a jibóia, cuja gordura ocupa um lugar muito importante na medicina tradicional. Na guerra civil em Angola, vi eu mesmo a extracção de munições (balas) das armas, alojadas no corpo dos feridos por elas, com a gordura da jibóia. Para isto, era suficiente aplicar esta substância no local perfurado pela munição, e caso ela ainda se encontrasse no corpo da vítima, era logo expelida. Esta substância tem sido utilizada para curar úlceras estomacais, tomanda-a três vezes ao dia, na medida de uma colher de chã. Uma outra substância medicamentosa, esta já animal, é o fígado de lobo, o qual tem sido utilizado para curar a epilepsia. Mas temos de referir, que a maior quantidade dos medicamentos que os bailundos utilizam provém das raízes das plantas. Os ovivandas conhecem os poderes curativos de cada raiz. Há determinadas doenças que estes curandeiros recomendam que antes devem recorrer mais à medicina tradicional que procurar a medicina moderna. Já vi muitas pessoas dizerem que a sua doença não se cura com os medicamentos dos hospitais e sim com os tradicionais; isto acontece, precisamente, em doenças mentais e epilépticas. Tenho visto pessoas atacadas por estas doenças e melhoraram depois depois de terem tomado estes medicamentos. Tanto em português como em umbundu, o sentido do remédio é o mesmo, ou seja, uma forma de remediar. Remédio em umbundu é ikemba, oku lelembako, o que significa “remediar sem a certeza da cura”. Para os bailundos quem cura é sempre D-us, e por isso costumam dizer: “Suku a kuece ovimbanda vi li pande oku sakula” – “Um doente fica sarado se D-us o permitir, para que os médicos se não vangloriem; mas se D-us não quiser, o esforço para a obtenção da cura será em vão”. Entre os bailundos, quando um doente vai a um ochimbanda, este começa por lhe explicar a sua doença. O curandeiro, antes de principiar o tratamento exige o ussongo, o pagamento que é feito sempre antes da cura, que tanto pode ser uma galinha como dinheiro. Depois disto, leva o doente para a adivinhação a fim de se saber a causa da doença; isto é, se foi natural ou causada por um feitiço. Para o efeito, pega o ongombo (instrumento para fazer as adivinhações). Trata-se de uma pequena quinda com a forma de uma tigela, com muitas bugigangas dentro dela, onde se podem ver ídolos, tais como: ombuiyu, ombinga, ociteka, omechamecha, omemba (algo parecido com cal, branco, que significa inocência), ukundu e outros. O adivinhador, então, maneja o ongombo com as duas mãos agitando a quinda de baixo para cima, pretendendo remexer os objectos que têm dentro, de modo a encontrar o significado daquele que vier ao de cima (i.e., acima dos outros). Por exemplo, se for um ídolo, significa que o doente foi enfeitiçado. Isto é explicado ao doente, que responde: “Enda, enda!” – No caso de aparecer o omemba, siginifica que a pessoa de quem se suspeita ser a causadora da doença está inocente. Se for o ukundu, significa que se acertou na pessoa suspeita. Depois da adivinhação, o curandeiro começa o tratamento. Para isso, leva o doente para o acampamento, indicando-lhe uma palhota onde ficará internado. Dorme deitado numa esteira ao lado da fogueira rodeado de pequenos vasos de barro, cheios de várias raízes para o doente


tomar. Têm-se tomado estes medicamentos em grandes quantidades, o que muitas das vezes contribui para o mal-estar do doente. Para uma pessoa que sofra de febres, o xamã, utiliza raízes, folhas ou outras partes de plantas, mete-as numa grande panela e a põe ao lume. Depois de ferver, tira a panela do fogo, senta o doente num banco, cobre-o com um pano ou um cobertor, e diz-lhe para inalar o vapor da panela. Esta operação é chamada de ochiyuku. Depois do tratamento e da cura, a pessoa é levada a um ochimbandi (terreno de forma circular com pavimento duro feito com um salalé, que é um instrumento com que o agricultor debulha os produtos que são debulháveis), um terreno que normalmente se situa no meio da mata. Ali o curandeiro acende uma pequena fogueira onde coloca uma panela de barro contendo mais raízes. O doente senta-se no meio do terreno e cobre-se com um pano ou cobertor. Seguidamente o curandeiro coloca algumas pedras no fogo, e quando elas estão bem quentes despeja-lhes água fria. O ruído provocado pelo arrefecimento das pedras, irá, segundo o ochimbanda, afugentar os cazumbis causadores da doença. É então que o xamã toma as pedras escaldantes e arremessa-as em várias direcções, ao mesmo tempo que diz: “Cazumbis, deixai este doente e nunca mais entreis nele”. Realiza depois outras operações: Toma um pequeno tambor e pôe-se a dançar, juntamente com os seus auxiliares, apelando para que os cazumbis deixem o doente em paz; toma a panelinha de barro que estivera ao lume e serve o doente; mata uma galinha, e com raiva bate no doente com ela, apelando sempre para que os cazumbis o deixem. Finalmente, abandona o ochimbandi, deixando a panelinha voltada para baixo no pavimento. Quem por ali passar e mexer nela, destapando-a, apanhará imediatamente a enfermidade (o/os demónio/os, pois Satanás não os mandou de volta para o abismo sem fundo; Jesus (lutero, nos seus cadernos pessoais, afirma que o Mestre é, ao mesmo tempo, D-us e o Diabo, o Bem [cura] e o Mal [Lucas 8:32+: "3233Andava ali perto uma vara de porcos a pastar no monte, e os demónios rogaram-lhe que os deixasse entrar nos animais. YAOHÚSHUA consentiu [permitiu, como judeu, não como o futuro Mestre acultural, assentado à dextra, entronizado, recebendo adoração ecuménica e participando da condição de D-us por toda a eternidade, que se destruísse propriedade privada; um judeu despreza os porcos e os cães; servosdemariaamordedeus.blogspot.com/os-inimigosde-lutero-mary-shulteze.html. Depois o curandeiro dá ao que estava doente (possuído por demónio/os) prescrições para continuar a fazer. Eles fazem estas cerimónias para para acabar de uma vez por todas com este sofrimento, a que eles chamam de oku kota, que significa que “aquele endemoninhado (doente) jamais tornará a ter o mesmo demónio ou legião de demónios (doença). Eu assisti a estas cerimónias todas, quando um dos nossos criados, chamado Brandão, fora atacado de escorbuto. No fim da cura, o xamã disse-lhe precisamente isto: Que o Brandão jamais seria atacado pela mesma doença, o que de facto aconteceu até ao fim da vida. Os ochimbandas também fazem imunizações aplicando vacinas. A vacina da varíola é a melhor, pois é aplicada uma vez na vida de qualquer pessoa. Para isso fazem da seguinte maneira: O ochimbanda vai ter com um doente atacado por esta doença, e lhe espreme o pus das borbulhas numa pequena cabaça. Depois reúne toda a gente a um local determinado, e a cada uma das pessoas é feito um pequeno corte na palma da mão. Com a ponta de um pauzinho em bico, salpica-lhe no sangue um pouco do pus da varíola contido na cabaça. No dia seguinte, nascem algumas borbulhas em volta daquele corte, ficando desta maneira as pessoas imunes à doença para toda a vida. A vacina contra a mordedura de um cão com raiva é feita também assim: Matam um cão com raiva, e a sua carne, cortada em pequenos pedaços, são distribuidos às pessoas que a comem crua. Este procedimento é o mesmo relativamente a outras enfermidades como as que são casadas por insectos: mosquitos, percevejos, carraças, etc. Apanham estes insectos, cozinhamnos juntamente com o conduto que comem com o pirão. Há uma outra vacina contra o veneno das cobras, escorpiões, etc., cuja vacina se chama oluvai, mas que desconheço como é aplicada. No tempo colonial, na vila do Bailundo, apareceu numa grande festa um homem com um saco que continha muitas cobras venenosas, tais como a víbora, a surucucu, a lutanjila, onombo,


66 ekuiva, salili e outras. No momento, por dois cêntimos e meio (cinco escudos), o homem abria o saco de onde tirava as cobras, uma de cada vez, para mostrar às pessoas. à medida que fazia isto, as cobras picavam-no nos braços sem lhe provocar qualquer dano, pondo todos os presentes admirados. Durante a guerra civil, em Angola, havia uma vacinação contra as munições das espingardas. Pessoalmente, vi gente vinda da frente da guerra com a farda esburacada pelas munições, sem no entanto apresentarem qualquer arranhão no corpo. Dizia-se que as balas (munições) ao atingirem o corpo dos militares caiam ao chão. Trata-se de vacina anti-bala, que é feita da seguinte forma: num invólucro de bala mete-se-lhe dentro um tipo de feitiço e tapa-se o buraco com cera preta, chamada esima. Depois recomendase ao indivíduo interessado, sobretudo o soldado (praça), para engolir o respectivo cartuxo, passando a partir dali a ser considerado blindado. A esima é uma cera altamente mágica (para os bailundos). É extraída de um mel fabricado por uns insectos mais pequenos que abelhas, que o fabricam debaixo da terra numa profundidade de um metro ou mais. Estes insectos não fazem o mel em favos como as abelhas, metendo-os nuns recipientes como pequenas cabaças, do tamanho do pulso de um homem magro, cujos recipientes são fabricados com cera. É muito difícil descobrir os locais onde eles se encontram, cuja entrada são uns pequenos tubos de mais ou menos cinco centímetros de altura. Para os descobrir é necessário estar bem atentos, e mais ainda sendo em matas cerradas. Em toda a minha vida só uma vez é que encontrei estes orifícios na floresta. Estes insectos, quando entram nestes orifícios, também de cera, fazem-no de costas e com a cabeça voltada para a entrada. A cera fabricada por eles, além de ser onerosa em transações comerciais, também possuem poderes mágicos. Os mulherengos costumam utilizar esta cera para conquistar mulheres. Para o efeito, lambuzam com ela o limbo de folhas pegajosas de uma erva conhecida por onamela. Friccionam as mãos com esta composição, e daí em diante bastará cumprimentar a mulher desejada, com as mãos apertadas para ela ficar completamente colada ao homem e nunca mais o deixar; procurá-lo-á a todo o tempo. É por este motivo que entre os bailundos, referindo-nos à sociedade tradicional, as mulheres evitam apertar as mãos dos homens (as safistas ficavam “curadas”; perdão pela expressão pouco inclusiva). A esima serve também para outros fins: Um caçador que tiver colocado a sua arma numa porção daquela cera, nunca errará o tiro e uma armadilha que tenha daquela cera apanhará muitas presas. Outro poder da cera de esima é o de afugentar cazumbis. Conheci um homem que comprou uns lindos tecidos para a sua mulher. Infelizmente ela não chegou a vesti-los por estar doente, acabando mesmo por falecer. Então este homem, em vez de meter os vestidos na urna, resolveu ficar com eles. Tempos depois, arranjou outra mulher a quem deu os tais vestidos, acto considerado como uma humilhação à falecida, criando com isto uma grande confusão naquela casa. Quando o homem dormia junto da nova mulher, a alma da falecida (demónio a corporizar a falecida; “Since our inner experiences consist of reproductions, and combinations of sensory impressions, the concept of a soul without a body seem to me to be empty and devoid of meaning“. Albert Einstein, http://richarddawkins.net/quotes) punha-se no meio deles com o seu corpo todo frio. Quando a mulher fazia pirão para o marido, a defunta (demónio) metia lá os dedos; quando ficou grávida, a “defunta” provocou-lhe um aborto. Muito aflito, ele então procurou em vão xamã após xamã em busca de cura contra aquela perseguição feita pela “defunta” à sua nova mulher, até que por fim sempre apareceu um, o qual tomando uma pequena porção de esima, meteu-a numa fenda da porta da sua casa, de modo que aquele cazumbi já não pôde entrar mais ali. Só assim a paz voltou a reinar naquela família, conforme se dizia. Entre os bailundos pratica-se muito o desporto da pesca, competição de arco e outras actividades desportivas. Tiro ao alvo com flechas, exige uma preparação especial. Para isso, eles usam uns tubérculos de uma planta silvestre, chamada ochitiña, a qual se parece com uns maiores. Cortam-no em rodelas para servirem de alvos, que os utilizam num descampado destinado à competição. Ali os homens, alinhados, distribuindo-se os que competem com arco e com mocas. Um dos acompanhantes nestas competições, colocado num dos extremos do campo, arremessa com força uma rodela ao ar, e quem a atingir, quer com flechas ou com o porrinho,


será o vencedor. Este desporto, como se poderá constatar, não passa de uma exercitação para na caça se abater um animal em velocidade. A caça é outro desporto. Um sékulu organiza uma caçada, o enjevo. Para isso, ele envia vários mensageiros aos quimbos, avisando os caçadores para se prepararem para uma caçada, que se efectuará num determinado dia, referido pelos mensageiros. Marcam um lugar de concentração, o epanga. Ali no dia marcado, juntam-se duas ou três centenas de caçadores, munidos de azagaias com duas ou três flechas, e uma ou duas mocas na cintura. Todos os caçadores vestem farrapos. Na epanga, traçam o itinerário da caçada, referindo as matas a incluir nessa competição. É de referir que entre os bailundos, todas as matas têm nomes. Geralmente vêem-se no epanga muitos cães gentílicos, pequenos, com as orelhas levantadas para cima, cauda comprida e focinho alongado. Quando tudo estiver organizado, formam uma grande fileira de quatro ou cinco quilómetros através da floresta e a corta-mato. Os animais pequenos, como os coelhos, perdizes, hangas (galinha do mato), são mortos com os porrinhos que transportam à cinta. Eu próprio participei muitas vezes nestas caçadas, e tive a oportunidade de conhecer grandes “arremessadores” de porrinhos. Quando se levanta uma peça de caça, só se ouve um ruído “traz”, e de seguida viamos o animal a cair no chão. Era como se utilizasse uma caçadeira. Durante a caçada existe sempre um responsável pela mesma, a quem chamam de “kapila”. Este indivíduo corre, de momento a momento, duma ponta a outra da fila dos caçadores, transmitindo orientações ao grupo. Quando uma cabra de mato quisesse romper a fileira, os caçadores gritam em uníssono: - “Etali opo! Etali opo!” – o que significa: – “Hoje ali! Hoje ali!” E de imediato, uma chuva de flechas cai sobre o animal sob o olhar atento de cada caçador, para assim aferir a sua pontaria. Se alguém acertar grita: - “Nda veta! Nda veta!” (“Acertei! Acertei!”) Quando a cabra cai no chão, o grupo dirige-se com as mocas contra o animal, ferindo-o na cabeça até o matar. Depois amarram-no e o entregam a um rapaz que o transporta. Se a cabra consegue romper a fileira e ninguém lhe acerta, os responsáveis pelo falhanço sofrem os insultos dos outros. Para participar numa caçada é necessário ser muito cauteloso, e uma das recomendações é a de, em momento algum, sair da fileira, pois quem o fizer pode ser atingido por uma flecha. As razões estão no facto de que, quando vêem a cabra do mato, atiram as flechas p‟ra frente ou p‟ra trás, em função do local onde ela se encontra. Uma outra recomendação é a de nenhum caçador ter relações sexuais antes da caçada, para não redundar em fracasso. No fim juntam-se todos num lugar para conferir os animais abatidos; cada caçador que tenha morto uma cabra, extrai-lhe a coxa e a dá ao responsável da caçada, marcando desta maneira o fim da mesma. Quando eu tinha doze anos de idade, fui a uma caça sozinho com a minha azagaia e o cão de um vizinho nosso, comerciante e chamado Santos. No percurso cheguei junto de um riacho que nas margens tinha uns caniços altos. De repente vi sair dos caniços um animal com cauda comprida e o corpo todo malhado. Era uma onça ou leopardo. Até ao momento nunca tinha visto nenhuma onça. Vi então o meu cãozinho na boca do animal. Gritei, chorando, e a fera largou o cão mas já morto. Começa agora o meu relato a adensar-se mas em forma de estória (legenda mítica); assim é África, a minha história vulgar mutaciona-se para o folclore mítico: Na mesma semana um sékulu do quimbo chamado Numbu, nosso vizinho, organizou uma caçada pelo local onde eu encontrara a onça. Quando ali chegaram, a onça voltou a aparecer no mesmo sítio. Uma grande matilha de cães desentocou-a, forçando-a a subir numa grande árvore chamada Omanda. Os caçadores que fizeram parte desta caçada estavam cheios de medo, pois uma onça é um animal perigoso, mais até do que o leão. É muito ágil, atacando com muita agilidade. Geralmente, quando os caçadores matam uma onça, era costume levar duas tipóias até às aldeias, uma para transportar a onça e outra para transportar alguma pessoa que tenha sido vitimada por ela. Daí que estes caçadores temiam arriscar-se em atacar este animal. Dois homens mais ousados colocaram-se debaixo da árvore com o s seus arcos e as flechas, bem


68 afiadas, uma das quais atingiu o animal na barriga. Num movimento rápido a onça estava sobre um deles, ferindo-o gravemente na nuca e na cara, arrancando-lhe um olho e o nariz. Depois atacou-lhe o ventre, ferindo os intestinos com as suas terríveis garras. O companheiro, ao ver o animal sobre o outro, desfez-se do arco e das flechas, e com o porrinho desfez em pouco tempo a cabeça do animal, espirrando os miolos pelos ramos das plantas, matando assim a onça. Foi necessário arranjar as duas tipóias, uma para o homem gravemente ferido e outra para a onça. Horas mais tarde deu-se a desgraça. Traduzo: a redenção do animal e o consequente chamar a contas do organizador da caçada. O responsável pela caçada foi levado perante o soba para ser julgado, acusado de ter praticado relações sexuais antes da caçada, e responsabilizado pela morte, que veio a dar-se, do caçador atacado pelo animal selvático. Pagou uma multa muito grande. Mas a onça ganhou o seu troféu na tumba. Um leão não se mata com facilidade. Para se matar um leão é necessário, antes de mais, justificar as razões para a sua morte. e depois a munição (bala) só o atingirá se essa justificação for razoável. Os bailundos, tal como os europeus, consideram o leão como o rei dos animais. Contam que antigamente um caçador estava numa mutala, lugar em cima da árvore, e em frente à árvore onde se encontrava havia uma lavra onde uma mulher trabalhava no momento. Às duas por três o caçador viu um leão a apanhar a mulher arrastando-a pela nuca. Passou perto do local onde se encontrava o caçador com um canhangulo, que não se atreveu a usá-lo. Desceu da árvore, correu ao quimbo, alertou as pessoas do que havia acontecido. O soba depois de o ter ouvido, chamou todos os homens da aldeia e disse-lhes que fossem até ao onjango para que fossem fornecidos de pólvora. Depois foram preparar as suas armas, e no dia seguinte, muito cedo, juntamente com o soba, foram no encalço do leão. Este quando os viu, tentou atacá-los, ao que eles reagiram, disparando as suas armas em vão, pois não se tinha feito o depoimento correcto. O leão, passando por todos foi direito ao soba, matando-o imediatamente. Foi então que um dos participantes, antes de disparar, citou o depoimento, dizendo: “Tembi, tembi haveko wa paya nganidetu. Nda ove wa paya ndandietu cilo omola owima (“Se não foste tu que mataste a nosso parente, sairás ileso; caso contrário, o tiro que vou disparar ser-te-á fatal“)“. O jacasser deste atirador parecia olvidar a morte do soba; tudo neste sucesso (evento) passa-se ao ralenti slow motion. Mas adiante; pois a sua lógica escapa-me totalmente. O certo é que o atirador dispara, e o leão caiu morto. Depois, finalmente recordaram-se do soba, pegaram o defunto, mas não deixando de pensar no animal homocida, merveille, os submeteram a uma adivinhação, na qual o leão disse: “Ove u soma, ame ndi soma, ombanjela ovita?” (“Tu és rei e eu sou rei e na qualidade de sermos colegas, diriges uma guerra contra mim? Foi por este motivo que te matei”). Foi a partir deste dia que o leão passou a ser o rei dos animais. A PESCA Existe entre os bailundos três tipos de pesca: a de chissamo, que consiste num caniço de pesca com minhocas na ponta, sem anzol. Outro tipo de pesca é a de “massas” chamada ileva. Para o efeito, eles fabricam as massas com alguns pauzinhos obtidos de algumas plantas encontradas nas charnecas. É costume meter salalé nas massas. Depois levam-nos para os lugares mais profundos dos rios onde passam uma noite. No dia seguinte voltam a esses locais e, normalmente, encontram-nos cheios de peixes. Certa vez, no Mungo, caçava eu patos bravos nas margens do rio Luvulo, e vi um sujeito a armar as suas massas neste rio. Na altura tinha chuvido, e por isso mesmo as suas margens estavam alagadas. Então meteu-se nas águas das margens para chegar ao rio, e aí meter as massas. De súbito, vi um turbilhão na água. Era um jacaré que tinha apanhado o homem, pois quando as margens ficam alagadas, os jacarés costumam sair do rio estendendo o seu raio de acção em busca do que comer, especialmente cágados. Tal como na caça às cabras do mato, a pesca é de igual modo organizada. Um sékulu mobiliza muitos quimbos, e todos se concentram no rio indicado por ele. Nestas pescarias participa toda a gente, homens, mulheres e crianças e, como é costume, usam grandes quantidades de folhas de uma planta chamada kalembe. Metem-nas num almofariz para serem pisadas, e depois de


pisadas são lançadas ao rio, agitadas com varas compridas de modo a que o seu efeito intoxicante se espalhe pela água, atordoando deste modo os peixes e forçando-os a subir à superfície, onde os participantes os apanham com as quindas e cestos presos às pontas de varas compridas, apanhando todo o tipo de peixes que no rio existirem, à excepção do bagre que nunca sobe à superfície. Perto da Missão Evangélica do Bailundo passa um rio chamado Culele. Diz a Tradição que este tipo de pesca está interdito nesse rio. De acordo com o que se conta, antigamente, quando queriam fazer este tipo de pescaria, uma enorme cobra aquática que ali existia, urinou nele em tão grande quantidade, que o encheu até transbordar, alagando-o até às margens, e arrastando muita gente que nele praticava este tipo de pesca. Desde então, nunca mais alguém se meteu a lançar o kalembe naquele rio. Quando trabalhei na Administração do Concelho do Mungo, no tempo colonial, vi certa vez muita gente, vinda de vários quimbos, dirigir-se a uma grande lagoa formada pelas águas do rio Kussangu, para lançarem o kalembe, misturado com ulu, uma outra planta usada para atordoar os peixes. Prepararam aquele produto durante vários dias e em grandes quantidades. Num dia marcado, centenas de pessoas transportaram-no até junto da lagoa. Fizeram palhotas onde se acamparam. Levaram alimentos e utensílios de cozinha para aí permanecer durante alguns dias. Na tarde de cada dia metiam a mistura do produto na água, e no dia seguinte de manhã foram apanhar o peixe que boiava à superfície em tanta quantidade que foram necessários barcos para o recolher, dividindo-o por todos. Depois de tudo terminado e todos se preparavam para regressar cada um ao seu lugar, um homem chamado Yopilu viu um peixe enorme subir à superfície da água da lagoa. Foi então em busca daquele peixe. Ao entrar na água esta dava-lhe pela cintura, depois pelo peito, até ao pescoço, e quando faltava pouco para chegar ao pé do peixe, toda a gente viu grande agitação na água, e momentos depois Yopilu desapareceu nas águas, levantando um braço e depois as pernas. Perante o espanto de todos pelo que estava a acontecer, viram então uma enorme cobra aquática que leu o pobre do Yopilu para as profundezas. Perante tal acontecimento, o povo ficou preocupado, visto que, se um caso destes chegasse ao conhecimento das autoridades, os responsáveis pela pescaria poderiam ser condenados. Por isso decidiram manter sigilo pelo acontecido. Mas a mulher de Yopilu, perante a ausência do marido, foi junto dos acompanhantes para saber dele, mas nada conseguiu saber. Depois de dias de procura, uma sua cunhada, de outro quimbo distante, apareceu chorosa dizendo que Yopilu havia sido morto por uma cobra. Imediatamente a mulher levou o caso à administração. O administrador mobilizou um grupo de cipaios, e junto com eles foram no Land Rover até ao local de desaparecimento da vítima. Ordenou a todos os que participaram na pescaria a estarem presentes para proceder às buscas e resgatar Yopilu, ou parte do seu corpo. Toda a gente remexeu a água com varas, sobretudo em certas covas nas margens do lago. Como a lagoa não tinha ligação com o rio, o corpo de Yopilu sempre foi encontrado. Foi transportado à administração a fim de ser autopsiado por um médico ido do Huambo. Tinha apenas alguns ferimentos no pescoço, mas constatou-se que lhe havia sido retirado todo o sangue do corpo, o que comprovava que a serpente que o apanhara era a epolua. Estas cobras apenas chupam o sangue das presas, abandonando-as depois. O TRIBUNAL E O OMBULUNGU Os bailundos não possuem edifícios próprios para exercer o poder judicativo, mas utilizam um espaço destinado a esta função, utilizado desde sempre, que é junto e à sombra de uma árvore, mais conhecida por Mulemba. Esta árvore encontra-se em todas as Embalas. A audiência senta-se em pedras, abundantes por ali. O tribunal é sempre presidido pelo soba, sobretudo nos julgamentos de crimes graves, e ladeados pelos Epalangas, Lusenje, Muecália, Ndaka e outros, que no onjango aprenderam a exercer esta actividade. Num julgamento nunca se condena um inocente. Dizem que o soba, ou outra pessoa que presida a um julgamento, se condenar um inocente correrá, segundo a superstição, o risco de ficar cego. Como tal, julgam os casos com muito zelo e rigor.


70 As sessões costumam demorar dias até que se apure a verdade e se pronuncie o veredicto correcto. Antes de começar um julgamento, tanto o acusado como o acusador são instados a dar um porco cada um, que são mortos no tribunal. E ali também onde se distribui a carne. Ao soba cabem-lhe as coxas e o fígado; ao Muecália a região lombar, pois se diz que é ele quem protege o Reino, tal como uma galinha a chocar os ovos; o soba Ndaka, das mensagens, pela sua função recebe o pescoço e a língua; o epalanga recebe os braços, porque tem sido os braços do soba. Depois da distribuição da carne, tomam o sangue do animal e com ele borrifam a estatueta com nome de Samemba é o d-us da caça e da carne. O acusador é quem fala primeiro, descrevendo em pormenor todos os crimes cometidos pelo acusado. Depois tem a palavra o acusado que apresenta a sua defesa. O tribunal exige sempre a presença de testemunhas. Caso não as haja, vão questionando o acusador e o acusado até descobrirem a verdade, baseando-se sempre no apotegma vox pop: o peixe morre pela boca. A título de exemplo, num julgamento a que eu assisti, eram dois amigos íntimos, em que um deles necessitava de mil e duzentos dos escudos antigos para satisfazer uma necessidade, e assim foi ter com o amigo para lhe pedir emprestado aquele dinheiro. Ora o outro não se encontrava em casa, e então foi em sua procura na lavra onde na verdade o encontrou, expondolhe a sua preocupação. Ele então lhe disse que no momento só tinha mil escudos. O devedor, disse que mesmo assim lhe emprestasse esses mil escudos, pois procuraria onde arranjar o resto. Como testemunha estava lá apenas um cão. Os dois, depois de terem chegado a um acordo, foram a um morro de salalé (formigueiro) onde se sentaram, dentro da lavra. O dinheiro foi contado e entregue com a promessa de ser devolvido tão cedo quanto possível. Passou-se um ano, dois anos, e o devedor nunca se prontificava em honrar os seus compromissos. Um dia o credor resolveu abordar o amigo para lhe exigir o pagamento da dívida. Este responde que nunca recebera dele nenhum dinheiro, deixando deveras irritado o outro, que apresentou de imediato queixa ao soba. O soba convocou os outros sobas do reino, seus subordinados, para uma grande sessão de julgamento. Neste julgamento fez-se como de costume: Falou primeiro o queixoso e depois o réu (arguido) que alegou nunca ter recebido o dinheiro. Os sobas pediram testemunhas as quais, infelizmente, não existiam, excepto um cão. O soba Epalanga, dirigindo-se para o devedor perguntou-lhe: - Por acaso nunca foste à lavra deste senhor a fim de pedir dinheiro emprestado? - Nunca, nem sequer conheco a tal lavra. – Respondeu ele. O soba perguntou ao credor e disse-lhe: - Como disseste que estavas com o teu amigo na lavra acertando as contas sentados num morro de salalé, corre lá e traz-me um pedaço desse morro de salalé. Logo que o credor recebeu tal ordem, meteu-se a caminho em busca do pedaço do morro de salalé, no local onde estiveram sentados a contar o dinheiro. A audiência ficou suspensa esperando pelo pedaço do morro pedido. Depois de algumas horas de espera, o soba Epalanga virou-se para o devedor perguntando: - Então, o teu amigo nunca mais vem? Eu tenho de ir apascentar os bois! - Não conte com ele já – respondeu o devedor – a lavra fica muito longe daqui, e só aparecerá logo à tarde. - Há pouco disseste que não conhecias a tal lavra, e agora afirmas que fica longe daqui? Isso é porque já lá foste alguma vez movido por qualquer interesse. Certamente sempre foste lá para pedir o dinheiro emprestado. Pela boca morre o peixe! Rapazes da corte, metam este homem no ukubi (as embalas não têm cadeias, apenas os ukumbis, que é um instrumento de torturar os criminosos. Trata-se de um tronco de madeira com dois buracos onde metem os pés do criminoso e outro horizontal onde metem uma cunha. O preso fica ali sob o sol ardente, à chuva e ao frio, etc. Só sairá dali quando pagar o estipulado pelo soba). Os rapazes da corte lá o meteram no ukumbi. Quando o queixoso regressou com o pedaço do salalé, encontrou o seu adversário no ukumbi onde confessou a verdade, e pagando o que devia.


Depois o soba mandou dispersar a audiência, exigindo ao réu o dobro do que devia por ter sido mentiroso. Têm havido casos muito difíceis, como os relacionados com a feitiçaria, mas eles sempre conseguem forma de os resolver. Na impossibilidade de num julgamento não se chegar à verdade, então recorrem ao ombulungu, que é a raspa de raiz de um arbusto considerado sagrado entre os bailundos, o qual se encontra em lugares ermos. Diz-se que qualquer ser vivente que tenha morto outro ser vivente, morrerá imediatamente ao passar na sombra da referida árvore. O mesmo acontecerá com um leão, uma onça ou lobo. Se por lá passar um feiticeiro terá o mesmo fim. Só escapa quem não tiver morto outro ser vivo. Também se diz que por baixo das referidas árvores se encontram muitas ossadas de animais. Uma certa ocasião, já lá vai muitos anos, desloquei-me ao deserto de Moçâmedes que passou a chamar-se de Namibe, onde passei dias à procura do referido arbusto. Fui até Tômbua, ex. Porto Alegre, sempre à procura dele e nada encontrei. Encontrei, sim, perto da Tômbua, uma planta, a welitschia Mirabilis, que não possui as propriadades do Ombulungu, embora dissessem que esta planta fosse rastejante e carnívora, e qualquer animal, incluíndo pessoas, que dela se aproximasse, seria envolvida nos seus tentáculos que ela abriria, e depois de estrangular a presa, comi-a, o que não se verificou quando eu me aproximei da planta, e até arranquei parte dela. Quando estive na Jamba, então o Quartel-General da UNITA, que ficava na mesma extensão do deserto do Namibe, chamado Calaári, continuei procurando por ali o mesmo arbusto. Não só não o encontrei, como também nunca vi quaisquer ossadas debaixo de qualquer árvore. Desde então considerei aquele arbusto como lendário. Mas os basilundos confirmam ter existido. Para confirmar o que se dizia do Ombulungu, o ordálio (prova jurídica), desloquei-me uma vez à Embala, capital do sobado, a fim de ver a referida raiz sagrada. Paguei o que o soba Epalanga me pediu. Ele entrou na cubata, e de lá trrouxe a maravilhosa raiz toda ela fumada por estar no teto da cozinha, e que me pareceu ser muito antiga. Apresentava muitas raspaduras. O ombulungu, segundo eles, tem propriedades medicinais e de cura, especialmente as dores de estômago. Mas segundo a Tradição, quando se lhe dirigem palavras de ohasa (invocações em defesa própria) fica irritada e mata criminosos sem piedade. Quando há um julgamento difícil, relacionado especialmente com feitiçaria, tomam esta raiz e, com uma faca, raspam a mesma diluindo os residuos numa porção de água, conforme uma medida estipulada. Depois servem uma quantidade equivalente a três colheres de pau. A vítima, o acusado, e o próprio acusador, o soba, seguram nas mãos o recipiente que contém o liquido. Depois cada um se refere ao ohasa. Então o acusador, o soba, diz: - Ó ombulungu, tu sabes que eu nada tenho a ver com os actos referidos nesta acusação; por isso não me farás dano algum. – Depois fala o acusado: - Ó ombulungu, tu és maravilhoso, pois descobres todos os segredos, até os do coração; matame se forem verdadeiras as acusações que aqui me fazem. Caso contrário, salva-me. Se confirmares que fui eu que matei o filho deste indivíduo, mata-me; mas se achares que não fui, salva-me. Por último fala o queixoso, dizendo: - Ó ombulungu, tu sabes que eu também não estou isento, mas que estou a falar a verdade, e por isso peço que me salves. Mas se entendes que estou a caluniar esta pessoa, mata-me. Depois de todos terem feito as suas invocações, cujas palavras são denominadas de “ohasa”, cada um deles bebe a quantidade de água que lhes é designada. Bebendo todos em simultâneo. Passados alguns momentos, o verdadeiro culpado perde os sentidos, mas os outros vomitam. Para o culpado não morrer, dão-lhe uma composição extraída de uma outra raiz. Depois de este ter recuperado os sentidos é imediatamente condenado e preso. Conta-se que dois homens, um chamado Katombela e o outro Pambanssangue, resolveram um dia roubar maçarocas de milho. Entraram numa lavra: Pambanssangue transportava Katombela nos ombros, sendo este que roubava o milho. No fim do roubo fizeram uma fogueira, junto à lavra, onde assavam o milho roubado. Passado algum tempo apareceu a dona do campo, que ao ver os dois assando o milho junto à sua propriedade, acusou-os de roubo. Eles recusaram tal acusação, e por isso a mulher, como tinha a certeza de que haviam sido eles, queixou-se ao soba, que de imediato mandou reunir o tribunal


72 para o julgamento. Como não havia provas concretas, recorreu ao processo ombulungu. Com o ombulungu nas mãos de cada um, iam, um por um, citando o ohasa, primeiro falou o Pambanssangue, que dizia: - Ó ombulungu, tu és maravilhoso e sabes tudo o que se passa. Quanto a mim, nem sequer me refiro ao roubo; refiro-me apenas ao facto de ter passado neste lugar. Assim, se por acaso o meu pé tiver pisado aquela terra, mata-me, mas se nunca o pisei salva-me. – Ao terminar estas palavras engoliu a sua porção de ombulungu. Desta foi a vez de Katombela que disse: - Ó ombulungu, não te minto. Na verdade eu passei naquela lavra, mas se eu tiver posto a mão em alguma maçaroca para a roubar, mata-me. – E tomou a sua porção. O ombulungu nada mais fez que confirmar o que cada um dizia. De facto, um passou por lá com seus pés mas não roubou; o outro nunca por lá passou com os seus pés, e por conseguinte não podia ter roubado milho algum. Assim, o ombulungu não podia condenar nenhum dos dois que, considerados inocentes, vomitaram o líquido que haviam ingerido. Nos julgamentos, os bailundos utilizam sempre adágios. Pode-se dizer que mesmo em conversas do dia-a-dia, os bailundos utilizam sempre apotegmas. E um deles é este: “U o lia laye ombua, u limbukila ku ku ikakuea” (Interpretação/tradução: “Reconhecerás logo a pessoa que meterá contigo o cão, no modo como ele esfola o animal. Se o esfola com vontade e desejo, saberás imediatamente que comerá da carne do animal; se o fizer com nojo, é sinal que daquela carne ele não comerá, pois a carne de cão é rejeitada por ser nojenta”). Vamos, pois, interpretar este provérbio. O significado é que, se tratares de algum negócio com alguém, saberás de antemão se aquela pessoa está interessada ou não pelo mesmo negócio. Se mostrar grande interesse, saberás que está de facto interessado no mesmo. Tudo se sabe pelo interesse manifestado pela pessoa. Uma ocasião eu assisti ao esfolamento de um cão. O animal foi amarrado pelo pescoço e levado a um ochimbandi (terreno circular com cerca de um ou dois metros de diâmetro, com pavimento muito rijo, feito pelo salalé, utilizado pelos agricultores como eira e dentro das matas) em plena mata, onde fizeram uma grande fogueira. Depois pegaram o cão e o penduraram numa árvore com a corda. O animal defecou e morreu. Tiraram-no depois da árvore e o colocaram na fogueira, que o iam virando até queimar todo o pêlo. A seguir tiraram-no do lume e rasparam o pêlo queimado com uma faca; abriram-lhe o ventre para tirar as entranhas. O estômago foi lançado para a fogueira, que depois de inchar o retiraram, e o mais forte do grupo o levou ao ochimbandi que o arremessou com muita força ao pavimento, feito pelas térmitas, para que as fezes fossem expelidas e o estômago ficasse vazio. O indivíduo que vi fazer este trabalho até ficou completamente conspurcado pelas fezes, incluindo o rosto. Em momento algum da minha vida vi algo assim tão nojento. Depois de esfolado, o cão é levado ao quimbo onde é esquartejado e cuja carne é conservada em folhas de mulemba, numa panela de barro e temperada com sal e outros temperos. Aquela panela passa o dia todo ao lume, para que a ferver a carne fique bem cozida. Dizem que é uma carne saborosa, sobretudo quando acompanhada com pirão de bombó, isto é, feito de farinha de mandioca. Muitos adágios têm a sua própria história tradicional; por exemplo, “Kalunjinji, komanu ku liwa luloño” (“A formiguinha alimenta-se dos restos humanos com subtileza”). Na verdade, sem subtileza não se obtém nada de alguém. Este adágio percebe-se pela seguinte história: Um homem tropeçou numa pedra, ferindo um dos dedos do pé que ficou com a pele levantada. Ele tirou uma faca, cortou a pele e deitou-a para o chão. Uma formiguinha quando a detectou, arrastou-a para o seu buraco. O epulu (mosca parecida com a tsé-tsé) quando viu a formiga, perguntou: - Ó formiguinha, onde foste tu buscar isto que transportas? - Do homem! – Respondeu ela. - O homem é que tem isso? – Tornou a perguntar o epululu. - Sim! – Respondeu a formiga. - Neste caso, também vou ter com o homem para lhe tirar algo igual! – Disse o epululu.


Ele ao chegar junto do homem, pousou num dos seus braços a fim de lhe retirar a pele como a que viu à formiguinha. O homem, ao dar-se conta que o epululu lhe feria o braço, matou-o com uma palmada dada pelo outro braço. O epululu, para seu azar, não se lembrou de que a formiga só havia aproveitado algo desnecessário ao homem. É o mesmo que acontece connosco. Se precisarmos de alguma coisa de alguém, não devemos ter a mesma atitude do epululu, mas dialogar e não usar de violência para com ninguém. Um outro apotegma é este: “Ukuele nda o suñila langeka; vekehã liukuele mulivo ekahã liove” (“Se alguém, teu próximo, tiver sono, leva-o imediatamente para a cama, para que também possas dormir”). Isto significa que se alguém estiver em dificuldades ou em perigo, o melhor é ajudá-lo, pois se ele se salvar também poderás ser livre. Se alguém ao teu lado tiver uma doença contagiosa, e não o levares para ser curado, a mesma doença também poderá contagiar-te. Um dia um caçador passou o dia todo a caçar sem conseguir caça alguma. Aborrecido, resolveu voltar para casa. No entanto, viu uma rola no topo de uma frondosa árvore, e resolveu abatê-la. Quando fez a pontaria, uma jibóia que estava debaixo da árvore viu-o e disse à trepadeira, que chegava até onde estava a rola, e disse-lhe: - Avisa a rola para que levante voo pois o caçador apontou-lhe a arma para a matar. – Retorquiu a trepadeira: - Eu não tenho nada a ver com os animais, pois sou apenas uma planta; que morra a rola. Entretanto o caçador disparou e a rola caiu morta no chão. O caçador aproximou-se do local onde a rola havia caído para a apanhar, e quando aí chegou viu de surpresa a jibóia; tomando o machado que tinha à cintura, matou a cobra. Depois pensou em como levar a jibóia para casa. Mas como não tinha corda para fazer a rodilha para a transportar, e como no lugar não havia plantas de cujo caule se extraísse olondovi (correia para transporte de alguma coisa), para superar esta falta cortou a trepadeira a fim de lhe servir de corda para amarrar a jibóia. Pela má vontade da trepadeira morreu a rola, a jibóia, e a própria trepadeira. Se esta tivesse aceitado avisar a rola, nenhuma das três morreria. QUANTO ME CUSTOU O EXCREMENTO DUM PRIMO DA MINHA MULHER Em 1975, quando a minha mulher estava presa na cadeia por motivos políticos, eu tive de ficar só em minha casa. Um dia acordei muito cedo, antes do nascer do sol, para ir trabalhar na horta. Ao abrir a porta, deparei com um primo da minha mulher, o qual morava a cinco quilómetros de nós, chamado António, que pensando que eu estivesse ainda a dormir, defecava no nosso quintal, perto da entrada da casa, com o fim de enfeitiçar. Fiquei zangado e tive que o levar ao soba para ser julgado. Perante o tribunal, ele disse que estava a cumprir uma tradição familiar, que abrangia também a minha mulher, que se estendia de geração em geração, e para não sofrer sozinho as consequências desta prática queria que a minha mulher fosse também incluída, para que o cazumbi que o perseguia passasse a perseguir a minha esposa, prima dele. Depois de alguns dias passados, aquela defecação no nosso quintal começava a dar maus efeitos. Um dos nossos filhos, em brincadeiras, ficou sem um olho. Depois um outro fugia da mãe dizendo que ela lhe enviava um cazumbi para o matar. Era o princípio de ser endemoninhado. Para poder fugir da mãe juntou-se com portugueses que abandonavam Angola aquando da independência, indo com eles para Portugal onde esteve durante dois anos. Depois voltou para casa. No dia em que chegou, vendo a sua mãe ficou logo endemoninhado, em grande escala, e ficou completamente descontrolado. Causava muita confusão e punha-se a nú. Partia tudo quanto estivesse ao seu encalce e ninguém o podia amansar. Toda a vizinhança entrava em nossa casa para lamentar o caso. Um vizinho vindo de bicicleta encostou-a na parede da casa, o endemoninhado subiu nela e em grande velocidade foi à escola da Missão. Entrou na cozinha e de lá tirou uma grande faca e se dirigiu ao hospital; partindo os vidros da porta de entrada entrou numa enfermaria onde havia muitos doentes. Um grupo de enfermeiros pegou nele à força conseguindo arrastá-lo para fora. O chefe da enfermaria, chamado Alfeu Mateia, ordenou a um grupo de homens para o espancar brutalmente à paulada chegando a ferilo na cabeça. Depois levámo-lo para casa. Com uma


Certo dia,YAOHÚSHUA foi orar para as 74 e orou toda a noite. Ao amanhecer, montanhas, reuniu os seus seguidores e escolheu doze deles para serem o círculo mais íntimo dos seus discípulos. Foram nomeados emisários. Eis os nomes deles: Shamiúl (a quem chamou também Káfos), Andorúl (irmão de Shamiúl), YÁOHU-caf, YÁOHU-khánam, Felipe, Bartolomeu, ManYÁOHU, Tomé, YÁOHU-caf (filho de Alfeu), Shamiúl (também chamado Zelota), YAOHÚ-dah (filho deYÁOHU-caf) e Yudas Ish-Kerióth (que viria a traí-lo por predestinação supralapsariana). From the baptism of John at the outset until the day when He was taken up from among us–one of these men must join with us and becomes a witness to testify to His resurrection. And they accordingly proposed (nominated) two men, Joseph called Barsabbas, who was surnamed Justus, and Matthias.24 And they prayed and said, You, Lord, Who know all hearts (their thoughts, passions, desires, appetites, purposes, and endeavors), indicate to us which one of these two You have chosen To take the place in this ministry and receive the position of an apostle, from which Judas fell away and went astray to go [where he belonged] to his own [proper] place. And they drew lots [between the two], and the lot fell on Matthias; and he was added to and counted with the eleven apostles (special messengers). – Amplified Bible).

corrente consegui acorrentá-lo no tronco duma árvore. Depois fui ao hospital da vila pedir socorro, em que me deram uns comprimidos para o aliviar. Quando cheguei com estes comprimidos, a minha mulher, a mãe dela e um cunhado, ameaçaram-me severamente, dizendo: “Não te metas na doença de teu filho, nós faremos tudo o que for possível. Quem te avisa teu amigo é, e não queremos que mal algum te venha a acontecer”. Tomaram os tais comprimidos e deitaram-nos ao lume. De facto os cazumbis, estariam contra eles se eu me metesse na cura do endemoninhado, por não fazer parte da tradição familiar. Eu, na qualidade de pai é que não podia ficar de braços cruzados perante um filho endemoninhado. No dia seguinte fui ter com um diácono da Igreja, chamado Floriano, que conhecia os remédios tradicionais para curar estes males. Quando voltei encontrei o cunhado da minha mulher com muita fama de feiticeiro, juntamente com ela e com a minha sogra os quais esperavam por mim para me maltratarem. Estavam todos furiosos e me disseram: “Você é muito teimoso; não te haviamos dito que não te metesses na doença da maluquice do teu filho? Ainda para piorar foste ao diácono em busca de medicamentos. Agora vamos espancar-te.” Durante o espancamento o doido atirou-me uma caneca, em que bebia o leite, a qual me bateu na nuca, ficando atordoado. No entanto vi a minha mulher, que estava sentada no chão, a levantar-se toda zangada, aproximou-se de mim, provavelmente para me dar o último golpe. Estendi-lhe a mão, sem a tocar, e lhe disse: “Calma aí!” Ela então caiu redonda no chão como que se eu a tivesse empurrado. Estava tão zangada, que ao levantar-se os panos que vestia lhe caíram do corpo. A seguir veio a sogra, também muito zangada, que me disse: “Ove u mbua; nda ci kulihile nda katua kuihileomoletu.” O que significa: “Tu és cão; se soubessemos que eras assim, não te teriamos dado a nossa filha, casando com ela.” Quando acabou de pronunciar estas palavras, foi logo acometida por uma doença que a impediu de falar. No dia em que ela morreu o meu filho ficou logo curado. Foi isto que custou o excremento do primo da minha mulher evacuado no nosso quintal. UMA MULHER ENVIA-ME UM CAZUMBI NA FORMA DE UM MONSTRO, QUE ME TOMBA NO CHÃO Havia uma mulher na Missão Evangélica do Bailundo que com as suas feitiçarias, um carisma/dom proveniente do Demónio Satan, domava completamente os missionários arminianos (cristãos não predestinados; logo que “transportam a vivência cristã com temor e tremor”) americanos e canadianos, sobretudo as irmãs missionárias. Todo o missionário ou missionária, perante esta mulher tornavam-se mansos e satisfaziam-lhe todos os seus desejos. A pessoa que ela amasse também era amada pelos missionários, e a quem ela odiasse também era odiada por eles. Era uma mulher que tinha a vida regalada na Missão. Toda a sua manutenção lhe vinha da América e do Canadá. Nada lhe faltava. Os missionários davam-lhe tudo o que ela necessitava. Às vezes até lhe davam o privilégio de gozar férias na América ou no Canadá. Esta mulher, então, queria que eu casasse com ela, o que não era do meu interesse, pelo que me perseguia fortemente. Difamava-me com acusações conscientemente falsas perante os


missionários, com o intuito de que me expulsassem da Missão, onde eu trabalhava como professor. Às vezes questionava comigo e me ameaçava severamente. Muitas vezes me armava ciladas, as quais eu sempre descobria. Uma ocasião, numa manhã, quando me levantei da cama, como era habitual, fui para baixo de um abacateiro que estava perto da nossa residência, para ali despejar o bacio, e encontrei lá um abacate envenenado, como que tivesse caído da árvore. Fiquei logo desconfiado, visto aquele abacate ser tinto, quando aquele abacateiro produzia abacates verdes. Peguei nele e arremessei-o a um porco que passava por ali no momento, e logo que o animal o comeu caiu morto. Uma outra ocasião, encontrei excrementos humanos na sala onde eu dava aulas. Como os excrementos desempenham importante papel na feitiçaria angolana, fiquei logo consciente que alguém me queria eliminar com feitiçarias. Também tentou meter em mim o espírito de fornicação, o que não tinha perdão na Missão, pois quem fosse apanhado neste pecado era imediatamente expulso. Tinha feito todos os possíveis para me destruir, e eu sempre escapei, mas sempre sonhava com ela (talvez Lilith, a espírito que é referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adam, sendo que numa passagem (Patai81:455f) ela é acusada de ser a serpente que levou Javá a comer o fruto proibido, pt.wikipedia.org/Lilith); em que ela me trazia uma mulher nua, da altura de uma torre de um templo, a qual me dizia: “Eis uma mulher para ti”. As vítimas de feitiçaria costumam ter a revelação, em sonhos, do ou da feiticeiro(a) que as enfeitiçam. Depois enviou-me um cazumbi que me derrubou no chão. Foi numa noite em que estava sentado à mesa a corrigir os trabalhos dos alunos, nos cadernos; de repente a porta abriu-se de ímpeto, e depois vi um monstro do tamanho de um vitelo com a forma de sapo. Levantei-me para ir fechar a porta, no entanto aquele monstro entrou e seguroume, dando-me sacudidelas muito fortes e eu caí no chão desmaiado. Os que estavam comigo viram quando caí, mas não viram o monstro. Pegaram em mim e levaram-me para a cama, e só recuperei os sentidos ao amanhecer. Fiquei impressionado ao ver o chefe do posto, o qual me parecia ser um gigante por ser alto e forte. Chamava-se José Sebastião Figueira. Devido ao tratamento que dava aos indígenas, tinha sido alcunhado de Kuyekeya. Era de origem madeirense. Depois de ler a guia, perguntou-me se eu era católico ou protestante, e eu lhe disse que era protestante. Disse-me depois que era muito rigoroso, e que para trabalhar com ele terei de ser bem comportado, ser assíduo ao trabalho, mas também garantindo-me que estaria ali para qualquer sucesso impeditivo do meu bem-fazer. Assim deram-me uma máquina de escrever, começando a trabalhar nesse momento. O edifício do posto administrativo tinha dois compartimentos: a secretaria e o gabinete do chefe do posto, onde havia uma secretária e um grande cofre para guardar o dinheiro dos impostos cobrados aos indígenas. Em cima da secretária estava a palmatória que tinha mais ou menos oito centímetros de diâmetro, e o cabo com quarenta centímetros de comprido. Era toda enfeitada com taxas de latão. Na parede estava pendurado um chicote feito de coiro de hipopótamo, também enfeitado com taxas de latão, a que eles davam o nome de cavalo-marinho. Tanto a palmatória como o chicote se encontram em todos os estabelecimentos governativos, e eram destinados somente para castigar os indígenas, mas não os brancos. No balcão da secretaria, um Aspirante branco escrevia à maquina. Por detrás do balcão estava uma prateleira cheia de boletins oficiais encadernados. Perto da porta estava uma mesa onde estava um funcionário negro, já velho, chamado Albino, e cobrador de impostos aos indígenas, impostos das licenças de bicicletas, de danças, de cães, etc. Se alguém fosse apanhado a fabricar uma bebida chamada cachi, feita de frutas e açúcar, pagava uma multa pesada. Ao lado da mesa dos impostos, estava um encadernador chamado Benedito, que tratava dos boletins oficiais e outros livros. Na varanda do edifício do posto estavam sentados cinco cipaios vestidos com farda de Kaki.


76 Depois o Chefe quis saber onde me havia hospedado, respondendo-lhe que ainda não tinha procurado alojamento. Chamando um cipaio ordenou-lhe então: “Leva este homem e mostra-lhe uma das casas por detrás da prisão, onde se poderá alojar”. O cipaio então me conduziu ao local, e mostrou-me uma casinha desabitada, que tinha apenas um compartimento com dois metros de largo e três de comprimento. Havia ali muitas outras casas deste tipo, todas alinhadas, e fora de cada uma havia lugares com cinzas onde era habitual fazer-se lume, com pedras a servir de fogão. Era um lugar bastante repugnante e com muito lixo. Depois de o cipaio me haver mostrado essa casa, voltamos ao posto, onde trabalhei até fechar o estabelecimento e o serviço daquele dia. Quando tocou o sino, saímos. O Albino mais o benedito me acompanharam, e fomos a uma loja de um senhor chamado Silvino. Como já estava fora do horário de trabalho, entramos pela porta traseira, no quintal. Ora o tal Silvino tinha um negócio clandestino, e se fosse descoberto teria de pagar uma multa. Era já noite, e um velho petromax estava sobre o balcão do estabelecimento. Dentro da loja estavam dois brancos na conversa com o comerciante; então o Albino pediu uma cerveja, à qual tirou a cápsula com os dentes e começando a bebê-la. Por sua vez o Benedito foi junto do barril do vinho e o comerciante serviu-lhe um copo, bebendo ele também. Entretanto um dos brancos disse: “Ó Albino, ouvimos dizer que hoje chegou ao posto um calcinha (nome que os portugueses davam a um preto que vestisse roupa limpa) que até o Chefe lhe apertou a mão. É verdade?” – O Albino disse-lhe que não era verdade, que nunca apareceu ninguém lá no posto a apertar a mão do Chefe. - Pois claro! Se eu não aperto a mão a um preto, muito menos o Chefe que é uma Autoridade. Ele nunca apertaria a mão de um preto! – Acrescentou aquele “senhor” branco. O albino então lhe respondeu: “Engana-se, eu quando acordo de manhã na minha cama, lavo-me com água quente e sabão. Tenho sempre as mãos limpas, e pelo facto de ser preto não apertas a minha mão. Mas tenho a certeza que daqui a pouco irá à sanzala (espaço reservado aos negros que estava situado à volta da residência de brancos) apertar a mão da Sofia, que passa dias e dias sem se lavar!” O branco disse de seguida, e isto para responder à interpelação: “Se eu aperto a mão da Sofia é com outro interesse!” Deu-se então uma gargalhada ecuménica. Eu aproveitei a ocasião para comprar uma caixa de fósforos, um candeeiro, feito de latas de conserva, um pouco de petróleo, dois pães e uma lata de atum em conserva, e saí para fora, dirigindo-me para a casinha que me fora destinada. Quando lá cheguei deparei com muitas outras pessoas nas outras casinhas, todas elas com as suas fogueiras acesas fazendo o seu jantar. Vim a saber que todas elas eram trabalhadores das granjas pertencentes ao posto, vindos das suas aldeias, mas que trabalhavam forçadamente, sem salário e sem ao menos receberem comida, tendo eles que a pagar do seu bolso. Cada aldeia era forçada a enviar, todas as semanas, trabalhadores para as granjas, tal como já o havíamos referido antes. Limitei-me a entrar na minha casinha. Acendi o candeeiro e comi o meu pão com o atum, pensando que nenhuma daquelas pessoas me conhecesse. Depois ouvi fora alguém que dizia o seguinte: “O Chefe do Posto tem mais consideração pelo cipaio Adriano do que pelo cipaio Manuel, que está a fazer todos os possíveis para também conquistar a mesma consideração do Chefe”. – Depois um outro disse o seguinte: Nas Escrituras Sagradas, o Senhor considerava mais a João do que a Kefas (Pedro). Para Kefas conseguir de Jesus essa consideração teria que se dedicar mais a ele.” Quando ouvi aquela conversa dizia para comigo que afinal eram meus irmãos na fé. Saí e fui cumprimentá-los. Um deles disse-me: “Ukombe wa tunda pi? (“Donde veio o hóspede?”) Disse-lhes que vinha da Missão Evangélica do bailundo, e logo notei que todos ficaram satisfeitos emme ver, e em coro diziam: “É nosso irmão em Jesus Cristo!” – deram-me um pequeno tamborete, que utilizam para recolher água do rio, onde me sentei. Havia outros que não ligaram me ligaram nenhum. Certamente eram católicos romanos.


Depois do jantar seguiu-se um serão amistoso, em que se contavam histórias, contos, fábulas, etc., tal e qual como faziam os rapazes e as raparigas quando faziam serões nas cozinhas. Depois ouviu-se numa outra fogueira um que dizia: “Vocês ouviram o que se passou no Andulo acerca de um indivíduo que foi comido pelos bissondes?… (Em umbundu é issonde. É uma espécie de formiga da cor de vinho, muito maior que a formiga normal. Vive em grandes formigueiros e muito organizadas. Estes formigueiros têm vários compartimentos, armazéns, dormitórios, salas de estar, etc. Cada um deles tem um número incontável de bissondes; no meio deles há um rei, há polícias, que são os que têm dentes grandes e muito afiados; há as obreiras, as que transportam os alimentos, as caçadoras, etc. Alimentam-se exclusivamente de insectos e são carnívoros. Não comem frutas ou comida caseira. Saem dos formigueiros apenas na estação chuvosa em que há calor, pois não suportam o frio. Na estação seca não saem dos formigueiros. Se alguém encontrar os bissondes na estação seca fora do formigueiro, é sinal de grande tragédia para essa pessoa, segundo a tradição dos bailundos. Uma ocasião encontrei um homem que os tinha visto na estação seca, e no mesmo dia accionou uma mina anti-pessoal. Durante a estação chuvosa, os bissondes passam o tempo todo a percorrer de lugar para lugar na caça. Formam carreiras muito compridas; se durante a viagem encontram um obstáculo perigoso para eles, escavam um túnel por onde se metem procurando outro local que tenha caça, como gafanhotos, aranhas, ratos, cobras e outras presas. Assim desfazem as suas carreiras, dispersando-se cobrindo uma área de dez ou quinze metros quadrados. Cobrem todo o chão, e tudo o que por ali passar é logo apanhado. Apanham as suas presas com muita rapidez; basta um deles pegar com a sua pequena mão qualquer bicho, imediatamente se aglomeram em grande número, cobrindo imediatamente o corpo da vítima. No fim da caçada cortam a vítima em pequenos pedaços que envolvem numa matéria transparente, cujos invólucros são em forma oval e bem construídos. Depois de empacotar a presa formam novamente a carreira, e as formigas transportadoras passam pelo meio dela em grandes colunas de quatro ou seis elementos. Uma carreira de bissondes atinge centenas de metros de comprido com dois centímetros de largo, com muitos deles a transportarem os alimentos para os seus armazéns. As transportadoras caminham dentro da carreira com as que fazem o policiamento a vigiarem nos flancos, indo de trás para a frente com as suas bocas abertas e mostrando os seus terríveis dentes. Quando a caravana das transportadoras chegar ao formigueiro, armazenam todos os fardos da comida, tornando a sair para nova missão. Os bissondes não têm temor de nada, seja leão, cobra, e até mesmo os elefantes, e as pessoas fogem deles, lutando contra tudo o que encontrarem no caminho. Quando se deparam com um pequeno riacho ou uma vala de água, querendo passar para a outra margem, fazem uma ponte segurando-se uns nos outros pelos braços. Quando todos os outros atravessam, por cima dos que constituem a ponte, então os da margem de onde vêm se desprendem, e os que já passaram todos puxam os elementos da ponte para a margem para onde se dirigem. Também costuma invandir as casas das pessoas, especialmente durante a noite. Quando entram numa casa, cobrem todas as paredes matando todas as baratas, percevejos, ratos e todos os insectos caseiros. Também atacam as pessoas, se as apanharem, e matam galinhas, porcos, coelhos, etc.) …Depois referiu um episódio, contando que um homenzinho tinha saído muito tarde da sua lavra, e quando chegou na sua casa dirigiu-se ao alambique, que ficava um pouco distante de sua casa, para comprar aguardente. Quando lá chegou comprou uma garrafa cheia e a bebeu. Mesmo estando muito embriagado, sendo já noite, teimou em seguir para casa. Os outros, que haviam também bebido com ele, aconselharam-no a não ir, pois não estava em condições de caminhar. Mas como era muito teimoso não aceitou tais conselhos, e se foi. Saiu, mas andou apenas uma pequena distância, caíndo no chão embriagado. Depois apareceu uma praga de bissondes que lhe envolveram o corpo todo e o mataram. Começaram por lhe comer os olhos, e no dia seguinte só encontraram o esqueleto todo branco.


78 Um dos que estava ali disse mais: Os bissondes são tão terríveis que até matam um elefante se lhe entrarem pelos ouvidos; um outro também afirmou que o Governo tinha feito projectos para construir um novo Posto Administrativo na área de Vila Nova, mas por causa destes bichos desistiu de o construir, pois aconteceu que o Governador da Provincia de Huambo, na companhia de outras entidades administrativas, com as suas famílias, haviam resolvido fazer um fim-de-semana naquele lugar, onde pretendiam abrir este novo posto, mas tiveram mesmo que desistir de o fazer. Levaram para lá tendas, camas de viagem e ali comerem em campanha. Aconteceu que logo na primeira noite, quando dormiam sossegadamente, pela meia-noite foram assaltados por uma praga de bissondes que invadiu as tendas, atacando nas camas as pessoas que dormiam, que acordaram sobressaltadas, e tendo imediatamente o lugar nas suas viaturas, e nunca ali mais apareceram para construírem o dito posto. Depois de terminarem estas narrativas, houve uma pequena pausa. Mas um outro narrou um novo caso acerca de um homem que tinha o hábito de bater muito na sua mulher. Um dia deulhe pancada quando era já noite. Ela desgostosa pegou no seu filho de dois anos, colocou-o às costas prendendo-o bem com o seu pano. Levou uma enxada na mão, saindo de casa na calada da noite para seguir p‟ra casa dos seus pais que ficava distante, tendo de passar por matas perigosas, e onde havia muitos leões. Andou até chegar a um lugar onde havia um pântano, onde algumas rãs coaxavam, que ao se aperceberem do ruído que a mulher fazia no andar se calaram. Depois de ela ter avançado um pouco mais, as rãs tomaram o seu coaxar. Andando mais uma pequena distância, as rãs voltaram a calar-se, o que era sinal de que algum perigo estava eminente por detrás dela. Saiu do caminho que seguia e subiu a uma árvore. Passado um pouco de tempo viu surgir na escuridão dois homens, ladrões, carregados de grandes fardos que foram roubar a uma loja de um branco. Quando chegaram precisamente em baixo da árvore onde tinha subido a mulher, descarregaram os fardos e um deles disse: “Vamos fazer comida debaixo desta árvore; tu vais buscar água no riacho, enquanto eu acendo o fogo”. – Entretanto a criança nas costas da mãe dormia profundamente. Quando a comida estava pronta, a criança acordou e começou a chorar. Quando eles ouviram o choro da criança, ficaram assustados e puseram-se em fuga, pensando que “aquilo” que chorava fosse um cazumbi ou alma do outro mundo. A mulher então gritou: “Não fujam, que sou eu, uma pessoa como vós!” – Os homens não acreditaram no que ouviam, mesmo com a mulher a dizer que era mesmo uma pessoa e não um cazumbi. Depois deles se terem apercebido da realidade, ficaram mais aliviados e disseram: “De facto é mesmo uma mulher” e dizendo: “Será para nós os dois; há muito tempo que não conhecemos uma mulher!” – Começando então a dançar de alegria. Dirigiram-se então até debaixo da árvore e disseram à mulher para descer. Ela então lhes disse que com a criança nas costas não conseguia descer sozinha, pois só desceria com ajuda. Pediu então que um deles subisse para a ajudar a descer. Assim, um dos ladrões não hesitou, começando logo a subir. O outro subiu também logo atrás. Quando o primeiro ladrão chegou próximo da mulher, esta descarregou-lhe com toda a força a enxada na cabeça, que ao cair arrastou o companheiro que o seguia, e ambos cairam ao chão e morreram. Ela esperou algum tempo mais. Quando ouviu os pássaros a cantar apercebeu-se de que já estava próximo o amanhecer. Desceu da árvore e foi para casa dos pais, como era o seu propósito. Quando lá chegou ainda os seus pais dormiam. Bateu na porta e eles perguntaram quem era a uma hora daquelas. Ela respondeu: “Sou eu, a Chilombo, e venho da minha casa porque o marido me espancou quando era meia-noite. No caminho encontrei dois ladrões que me atacaram e eu os matei. Deixaram tudo o que traziam, que eram grandes fardos de pano e dinheiro. Seria melhor irmos lá a fim de recuperarmos tudo o que eles deixaram. Depois ela conduziu os seus pais até ao lugar da cena, encontrando os ladrões estendidos no chão, mortos. Além dos fardos havia uma sacola com muito dinheiro. Levaram tudo para casa e ficaram ricos. Quando o marido daquela mulher apareceu na casa dos sogros, foi corrido à pancada, mas sempre, dizendo-lhe que nunca se deve bater numa mulher de noite e deixá-la viajar sozinha, tendo de passar por florestas perigosas e cheias de leões. Depois desta narrativa, um outro que também se aquecia junto à fogueira comigo, contou outro caso que metia feitiçaria, dizendo o seguinte:


- Na nossa aldeia havia dois caçadores. Um chamava-se Chissingui e o outro João; Chissingui matava duas ou três cabras por dia, e o João só matava duas a três cabras por ano. Um dia o João pediu a Chissingui que lhe revelasse o segredo de como matava. O outro disse-lhe que para isso era necessário ter um sékulo de nome Sachifunga que vive na aldeia de Dembi, na área administrativa de Lunge, para que ele dê uma lavagem à arma com determinado liquido que ele tem. O João quis saber se era só dar uma lavagem à arma, ou se não haveria feitiçaria no assunto. O Chissengui disse-lhe que era apenas a lavagem da arma e nada mais. O João ficou desse modo convencido, e um dia resolveu ir ter com o tal Sachifunga a fim da sua arma também ser lavada. Pegou na arma e se pôs a caminho da aldeia de Dembi, onde morava o o velho. Chegou lá quase ao anoitecer. Quando ele ali chegou, correram ao seu encontro. A mulher de sachifunga logo lhe tomou a arma e a meteu no etambo para a guardar. Levaram o João ao Onjango onde o fizeram sentar ao pé do lume para que se aquecesse. Uma rapariga foi em busca de uma galinha para o preparar o jantar do hóspede. Depois do jantar feito levaram-no ao Onjango em dois pratos, um de pirão e outro com a carne da galinha para que ele comesse. Depois seroaram com ele sem lhe perguntarem o que ele queria. No fim do jantar o sékulo Sachifunga levantou-se e foi para a sua casa dormir, mandando chamar o João por uma moça, para que ele fosse ter com ele ao seu quarto de dormir. O João foi, e quando lá chegou deramlhe um banco para se sentar. O Sachifunga estava sentado na cama, e a sua mulher num banco ao lado. O sékulo tomando então a palavra, disse: “Quanto a tu quereres matar muitas cabras do mato num dia, ao longo da noite haveremos de fazer tudo para ver se isso vai ser possível ou não. Dependerá do sonho que irás ter durante o sono. Portanto, só saberemos amanhã de manhã”. Depois levaram o João para o etambo para dormir. Quando lá chegaram com ele, estenderam uma esteira no chão perto de um ídolo grande, onde o João teve então um sono muito profundo, não dando conta da passagem da noite, só acordando de manhã quando uma moça lhe trouxe uma cabacinha com água para se lavar. Depois foi ao onjango para comer pirão com a carne da galinha. Quando acabou de comer foi chamado novamente ao quarto do sékulo e, como no dia anterior, lá lhe deram novamente o banco para se sentar, estando também a mulher do Sachifunga e outras pessoas mais. O velho então disse: “Durante toda a noite fizemos todos os possíveis para que a tua intenção seja cumprida. Tudo dependerá do sonho que tiveste esta noite. Diz-nos então o que sonhaste. Então o João disse: “Passei toda a noite a sonhar com a minha mãe sentada em cima duma cabra do mato”. Perante esta declaração do João, toda a gente na audiência ficou satisfeita e em uníssono disseram: - Ainda bem! A tua vontade será cumprida. Sachifunga ficou muito contente e tomando a arma descarregou-a e voltou-a a carregar com uma nova carga. Depois deu-lhe instruções dizendo que o seu sonho vai ser realizado; “Quando chegares perto da tua aldeia entra na mata e verás que será como sonhaste, verás a tua mãe sentada em cima duma cabra. Assim não hesites; dispara logo contra a tua mãe, e mata-a. Dessa maneira matarás muitas cabras e ganharás muito dinheiro. O João saiu dali muito triste no seu coração, pois nunca mataria a sua mãe que o deu à luz e o criou. Pôs-se a caminho da sua aldeia, e quando chegou perto quis confirmar se de facto iria ver mesmo a sua genitora sentada em cima de uma cabra. Viu na verdade uma cabra que observou no mato, e em cima dela estava a sua mãe. Foi para casa, e a sua mulher quando o viu chegar disse-lhe: - Se foste em busca de feitiço, ele não chegará cá. Entrou em casa todo macambúzio, encostando a sua arma na parede, e se sentou com a cara voltada para o chão. Não esperou muito tempo, e foi logo atacado por um cazumbi que lhe apertou o pescoço querendo matá-lo por não querer disparar contra a sua mulher. O João pediu que o largasse e que lhe desse mais uma oportunidade, pois iria matar a sua mãe sem hesitar. Assim o cazumbi o deixou. De noite teve mais um sonho em que viu, em vez da sua mãe, um


80 seu irmão que estava sentado, a quem também não queria matar. Por isso o mesmo cazumbi apareceu novamente no momento em que estava ao pé de um fogareiro quando se aquecia. Pegou nele e o atirou sobre o fogareiro, acabando mesmo por o matar. As populações das aldeias vizinhas quando ouviram tudo quanto aconteceu, do falecimento do João, ficaram penalizadas, considerando o João como um homem corajoso, como o Job da Bíblia, e todos foram participar no seu funeral. Depois desta história, um outro que estava sentado junto da fogueira onde eu me encontrava, disse: - Falando acerca de Vila Nova, faz-me recordar um acontecimento terrível que se passou comigo quando ultimamente por lá passei. Eu era ajudante de um caixeiro-viajante, branco e muito meu amigo. Vestíamos sempre roupa branca e percorríamos toda a Província do Huambo fazendo propaganda das suas mercadorias. Uma vez, quando chegamos a Vila Nova, o meu patrão quis passar ali o fim-de-semana. Era Sábado e fui procurar o meu primo que morava na Sanzala. Recebeu-me muito bem, e no dia seguinte, que era Domingo, fomos a um alambique (destilaria?) que estava junto a um riacho, perto de um grande acampamento da circuncisão. Compramos aguardente e a bebemos. Eu estava muito preocupado dado que aquele acampamento era ilegal. Os responsáveis dele faziam emboscadas nos caminhos, e todo o homem que ali passava era exanimado para verificar se estava circuncidado ou não. Se não estava circuncidado era logo arrastado para o acampamento para ser circuncidado à força. Quando estávamos na destilaria apareceu um indivíduo desse acampamento para comprar aguardente também. Olhou-me com aquele ar desconfiado que me deixou muito satisfeito, numa sensação de profunda ordure, aflição mental covarde, e eu disse para o meu primo: “Ó primo, tenho muito medo de ficar aqui por perto deste acampamento, pois me poderão arrastar para lá e me circuncidar à força. O meu primo então me disse: “Tem calma „hardes; onde eu estiver ninguém te tocará”. Aquele indivíduo comprou a aguardente e voltou para o acampamento. Passado não muito tempo surgiu de lá um grupo de homens gritando: “Ochindimba ci kasi pi? (“Onde está o incircunciso?)” Corri para o meu primo pedindo socorro e ele me respondeu: “Aproveita esta oportunidade para te circuncidares e verás que ficarás mais satisfeito do que seres incircunciso toda a vida”. Os homens me agarraram, despiram-me para me examinarem confirmando que não estava circuncidado. Pouco tempo depois de haverem-me despido, notei que a minha roupa já estava no corpo de um deles. Levaram-me à força para o acampamento onde então me circuncidaram. Na altura estavam todos a dançar ao som do batuque, e os meus gritos de dor foram abafados. Fiquei lá durante três semanas que acabei por ficar curado. Um outro companheiro de fogueira contou ainda novo caso arrepiante: - Todas as pessoas têm os seus dias de aflição. Eu escapei de ser comido pelos Seles quando fugimos do contrato forçado nas grandes roças de cafezeiros do norte para onde o governo nos mandara como contratados. Eu, mais quatro amigos meus fugimos e caminhamos a pé. Quando passamos nas terras dos Seles, a tribo de canibais de Angola, resolvi passar uma noite em casa do meu amigo de Seles, o qual conheci no Lobito quando éramos serventes de um outro comerciante português. Ele me recebeu muito bem! Havia lá uma cubata em construção que já tinha o teto coberto de capim e as paredes ainda não barreadas e sem porta. Fizeram uma fogueira ali onde me encontrava a aquecer-me, pois era já noite. Muitas mulheres foram ao rio em busca de algo. Arranjaram muitas folhas de bananeira. Vi muitos homens fortes atarefados naquelas actividades, que pareciam matar o porco. Depois levaram comida para cubata onde eu estive a comer. Era um prato de pirão feito de farinha de mandioca e outro de conduto de lagartixas. Como a nossa tribo dos bailundos não comem estes répteis, abri um buraco na terra e lá enterrei as lagartixas. Passado algum tempo, apareceram naquela cubata duas crianças com pratos de comida e se sentaram junto da fogueira a comer. Uma delas disse: “Hoje vamos comer o amigo do nosso pai. Sabendo que o amigo do pai delas era eu, saí logo correndo para fugir. Assim que saí, vi homens na escuridão da noite para me apanharem e me matar. Quando me viram fugir gritaram:


“Pára ai, amigo; para onde vais com esta escuridão?” E começaram a perseguir-me, tendo de me esconder num buraco que por ali havia, onde ouvi um deles dizer: “Conseguiu fugir. Hoje bem podíamos comer tripas de que tanto gosto!” Passei a noite naquele buraco sem que me apanhassem. Quando amanheceu fui apresentar queixa ao Chefe do Posto Administrativo de Seles de como eles me queriam matar e comer. O Chefe do Posto enviou para lá muitos cipaios para os prender, a amarrados foram todos condenados a penas pesadas. O que pensava ser o meu amigo, afinal também era canibal. No final da história, como eu tinha sono, resolvi deixar o serão e fui para o meu quarto dormir, pois no outro dia iria começar uma nova etapa de trabalho, muito importante na minha vida. INTIMIDAÇÕES, TORTURAS E ESPANCAMENTOS No dia seguinte, logo que amanheceu, recordei o agradável serão da noite passada. Fiz o desjejum e depois de o comer pus-me a caminho do Posto Administrativo, a fim de começar o trabalho seriamente. Eram espancamentos muito demorados. Enquanto o cipaio dava palmatoadas ao indígena pela frente, o chefe por detrás o chicoteava com o terrível cavalomarinho. O desgraçado saia dali com o corpo todo cortado com o chicote, e as mãos inchadas das palmatoadas. Quando chegava em casa os seus familiares amargamente. Aqueciam água, deitavam-lhe sal, e aplicavam-na nos ferimentos do corpo, com as mãos e os pés todos pisados. Esta atitude desumana acontecia todos os dias em todos os estabelecimentos do governo; torturar o preto sem dó nem piedade. Muitos eram espancados por não terem conseguido o dinheiro para pagar o imposto indígena. Outros trabalhavam juntamente com portugueses e estes também batiam por prazer e sadismo, sem que o preto tivesse cometido qualquer crime punível por lei. No pátio do edifício do posto, poisavam a todo o instante muitas pombas, que mal ouvissem as palmatoadas e os gritos que de dentro vinham, logo levantavam voo. De longe ouviam-se os gritos das vitimas destes espancamentos. Até mesmo as mulheres eram espancadas desta forma. Mas naquele primeiro dia fiquei ainda mais chocado pelo espancamento de um rapazinho de doze anos, que servia de criado a um comerciante português. O salário do adolescente era apenas uma caneca de fuba e uma tabuinha de peixe seco por dia. Como tinha aparecido um professor ambulante na sua aldeia, o gaiato resolveu deixar de ser criado para frequentar a escola. O patrão branco ofendeu-se por esta iniciativa, e foi apresentar queixa ao Chefe do Posto, tendo o Chefe enviado um cipaio em busca dele. Levaram-no atado para o Posto, onde lhe arrancaram a camisa do corpo para o espancarem. O seu Pai, que o acompanhava, foi quem lhe guardou a camisa e sem mais nada poder fazer pelo filho. Foi então brutalmente torturado e acabou por desmaiar, deitando-lhe depois água fria para que recuperasse os sentidos. Ilustremos ainda com um outro caso: Um homem já idoso, morador na aldeia de Demba, esteve muitos anos em Nova Lisboa a trabalhar como sapateiro. Como a idade já era muita, resolveu ir para a sua aldeia para trabalhar uns terrenos que tinha recebido por herança. Mas estes terrenos tinham sido tomados ilicitamente por um português chamado Alfredo, fabricante de carros bóeres (carros puxados por bois). O sapateiro foi reclamar junto do português para que os terrenos lhe fossem devolvidos. O português ficou muito furioso, e tomando um ferro, ameaçou o pobre sapateiro de lhe partir a cabeça. O sapateiro teve de fugir do português em fúria. O branco apresentou, por escrito, uma queixa no Posto contra o Velho, e o Chefe o mandou prender por uns cipaios, os quais o levaram manietado. O Chefe mandou que o despissem e aplicou-lhe um terrível espancamento. Enquanto o cipaio o agredia com a palmatória, o Chefe cortava-lhe as costas com o chicote. O sapateiro gritava muito alto até mais não poder, pedindo misericórdia. Uma chicotada atingiu-lhe um dos olhos que o arrancou, deixando-o sangrar; mesmo assim a tortura continuou, que começando às 14 horas terminou às 17. Saiu dali com o corpo todo retalhado, sangrando, e mesmo nesse estado deram-lhe uma enxada para que fosse abrir uma vala na rua, sem sequer lhe tratarem dos ferimentos. Quando anoiteceu foi metido na prisão sem qualquer tratamento médico.


82 Em relação às cadeias, que eram inúmeras, das que existiam, algumas não mereciam este nome, e eram só para os negros. As cadeias para os brancos só as havia nas grandes cidades e todas com boas condições e com boas camas, boa mesa, cuja comida era fornecida pelos hotéis, tinham boas roupas e boa assistência médica. Ao contrário das cadeias dos indígenas que eram um inferno autêntico, não só no tratamento como na higiene. Cada estabelecimento prisional tinha apenas um salão onde metiam juntamente homens e mulheres, e não tinham camas nem sanitários. Os detidos dormiam no chão e faziam as necessidades numa selha conhecida por caneco e a colocavam no centro do salão. Quando o recipiente ficava cheio de excrementos, nomeavam dois dos detidos para fazerem os despejos. A alimentação para os presos era feita num bidão grande, e como não havia pratos, a comida era despejada no chão, precisamente no centro e junto à selha dos excrementos, e ai todos tinham de comer com as mãos pois não havia colheres. Todas as manhãs entregavam enxadas aos presos onde passavam o dia a trabalhar forçadamente nas granjas administrativas. Qualquer branco só ia para a cadeia se cometesse algum crime, o que não acontecia com os autóctones, e as cadeias estavam sempre cheias mas de pretos. Os crimes para condenar os autóctones, muitos deles eram forjados, como já constatamos supra; sendo que na maior parte das vezes o preto era condenado se não pagasse o imposto indígena, quer tivesse possibilidade ou não de arranjar o dinheiro. Era um imposto forçado. Mas também eram detidos se se deslocassem para qualquer lado sem uma guia. Os serventes que trabalhassem em casas comerciais de portugueses, se fizessem qualquer reclamação sobre o que ganhassem também iam parar nas cadeias. Muitos foram desterrados para S.Tomé onde permaneciam anos a trabalhar nas roças do cacau. Outros eram enviados para Moçâmedes, que actualmente se chama Namibe, e ali ficavam cinco anos em desterro. Outros iam para os cafezais, para a pesca, etc., sempre em regime de trabalhos forçados. Muitas cadeias, como a do Bailundo, tinham guilhotinas, instrumentos de decapitação dos condenados à morte. Muitos presos que nas cadeias desapareciam, certamente eram executados nestes instrumentos de execução. Os portugueses não respeitavam os angolanos, tratando-os sempre por tu, como se fossem apenas servos ou escravos; não tinham quaisquer previlégios nem direitos cívicos. Qualquer português podia espancar um indígena, e se este reagisse ia parar na cadeia ou para o desterro, alegando o agressor que o preto queria bater no branco. Até mesmo as autoridades indígenas tradicionais não eram respeitadas por qualquer português. Eu mesmo presenciei o espancamento brutal que um soba recebeu por um Chefe branco de um Posto. Soba significa rei. Cada soba costuma ser um grande proprietário de terras, tem os seus súbditos e está sempre rodeado de outras autoridades a si subordinadas, e por isso mesmo um soba é sempre um personagem de grande destaque na sociedade africana. O soba que vi a ser severamente espancado pelo Chefe do Posto tinha acabado de ser empossado pelo seu Povo. O emposse de um soba demora muitos dias e tem muito cerimonial, onde se costumam matar bois, onde há muitas bebidas e acompanhado de muitas músicas e danças. Aquele Soba no fim de todo aquele cerimonial, foi levado junto da Autoridade portuguesa para ser reconhecido como tal e passar a ser o cobrador dos impostos dos autóctones. Juntamente com os seus súbditos, chegou cedo ao posto administrativo antes mesmo da sua abertura. Sentou-se no seu banquito de pele de boi, o seu trono, que é sempre transportado por um moço que o acompanha para onde quer que vá. Como estava cercado dos seus acompanhantes, não se apercebeu quando o Chefe desse Posto saiu da sua residência para ir para o trabalho. Depois este Chefe mandou chamar aquele soba junto de si e lhe disse: “Quando passei por ti, porque foi que te não levantaste?” – Tomou logo o chicote e o agrediu severamente. No meu segundo dia do trabalho naquele Posto, logo pela manhã, um português comerciante transportou numa camioneta um grupo de cinquenta homens para serem identificados, com o fim de irem para contrato de trabalho “voluntário”. Na altura, o governo português tinha acabado com o trabalho forçado e estabelecido o voluntário, cujo encargo era entregue aos comerciantes portugueses, que iam aos quimbos arrebanhar os homens para esses trabalhos. De cada homem angariado o contratador recebia do Estado uma grande soma de dinheiro, sendo os nativos, desta forma, considerados gente de comércio. Aquelas cinquentas pessoas foram-me


entregues a mim para eu os identificar. No fim, mandei que fizessem formatura na varanda da secretaria para que fossem interrogados pelo Chefe que lhes perguntou: - Para onde vão vocês trabalhar? - Vamos para a Companhia C.A.D.A em Gambela. - Quem vos angariou? - Foi o Patrão António Teixeira. - Ele vos forçou ou vão de livre vontade? - Ele não nos forçou; vamos de livre vontade. - Quanto é que cada um vai ganhar? - Cada um vai ganhar por mês cem escudos (50 cêntimos) mais cinquenta (25 cêntimos) de abono. - O contrato é de quantos meses? - É de doze meses. No fim de todas estas perguntas aqueles homens foram transportados na camioneta e levados para o local de trabalho. Durante o contrato a Companhia não pagava os salários aos trabalhadores, mas eram depositados para no fim do contrato serem enviados para o Posto onde foram identificados, e ai para lhes ser pago os salários e serem descontados os impostos que passavam a ter para com o Estado, e levando apenas o que sobejasse. O terceiro dia do meu trabalho era Sábado e só trabalhávamos da parte da manhã. Na Segundafeira seguinte, antes das oito horas já me encontrava no Posto, esperando que as portas se abrissem. Foi ali que encontrei um antigo colega da escola, chamado Abel Pabassangue. Depois de nos cumprimentarmos perguntei-lhe o motivo que ali o levava. Disse-me que ia transmitir ao Chefe do Posto um caso passado com uma mulher da sua aldeia, pois enquanto ele trabalhava na sua “banda” (um campo de cultivo de milho junto a um rio), nas margens do rio Cunji (um rio que se chamava Mbaca e depois passou a ser chamado Cunji, que significa “não me conheces pois se me conhecesses não brincarias comigo, pois tenho serpentes venenosas”). Tinha o filho dela de seis meses deitado à sombra, perto do rio, e de repente sentiu um grito estranho de criança. Foi junto do seu bebé, para ver o que havia sucedido. Quando ali chegou, viu já metade do seu filho na boca de uma Epolua (serpente aquática do tamanho de uma jibóia, que dizem ser hipnotizadora, que apanha muitas presas que estejam junto ao rio), e esta mãe quando viu o seu filho a ser levado pelo animal (réptil), saltou para o rio em seu socorro. Aquele dia em que me encontrei com o meu antigo companheiro, era dia de identificar os indígenas de todos os habitantes do sobado Chango. Nesta semana identificamos quinhentas pessoas. O objectivo desta identificação era ter todos os indígenas inscritos para o pagamento dos impostos. Para ser identificado e ter o processo arquivado, em quatro modelos, incluindo o cadastro, cada pessoa tinha que pagar quarenta escudos (vinte cêntimos). O modelo mais importante era o modelo 8, o qual tinha todos os dados de cada indivíduo, como: Nome do Indígena, Idade, Estado Civil, Profissão e Habilitação Escolar. Depois tinha um mapa com espaços em branco para preencher o nome da mulher e a sua idade; os nomes dos filhos, datas de nascimento e sexo de cada filho. Por último havia o mapa para descarregar os impostos a pagar durante cinco anos. As identificações do Modelo 8 são impressos em livro para a cobrança dos impostos, e cada indivíduo tinha uma caderneta, também com espaços vazios, para descarregar os impostos quando estes são pagos em cada ano, mais um cartão laminado com toda a identificação da pessoa. Tanto a caderneta como o cartão tinham fotografias. O fotógrafo era um branco português que ganhava muito dinheiro neste trabalho, e que girava em torno de todos os postos administrativos que havia em todo o Concelho do Bailundo. Nos dias quinze e trinta de cada mês eram os dias em que os sobas se apresentavam no Posto, juntamente com os sékulos, para entregar os impostos. Para facilitar o pagamento destes impostos o Governo português terminou com os sobados, substituindo-os por regedorias e os sobas por regedores. Cada aldeia ou quimbo que estivesse na jurisdição de um soba, tinha um sékulo que cobrava os impostos a todos os residentes na sua aldeia, os quais depois entregavam no Posto, juntamente com o soba. O soba que entregasse poucos impostos era severamente castigado com cavalomarinho. Uma vez vi um soba ser agredido na boca pelo Chefe com a palmatória, partindo-lhe


84 vários dentes, só porque quando este foi fazer pagamentos lhe entregaram apenas o dinheiro de quinze impostos. No pagamento dos impostos, cada contribuinte recebia uma senha que lhe servia de prova de pagamento, mas também de salvaguarda… duma grande tareia! Os indígenas eram forçados a pagar impostos, pesadíssimos para as suas posses, sem que a sua vida beneficiasse em nada com isto. Viviam em palhotas e não tinham direito a energia eléctrica; não tinham água canalizada, como todos os brancos tinham; em nenhuma aldeia existia um posto sanitário, tendo de Linha liberal: curar as suas doenças pelos curandeiros. Se por acaso pcusa.org um doente fosse levado a um hospital, não lhe era Visite também a linha permitido ser internado com os brancos. Cada hospital conservadora: tinha quartos para brancos e quartos para pretos. Se um monergismo.net.br indígena morrer, mesmo pagando muitos impostos, o Questões imperativas que o Estado português não lhe fornecia caixão. Muitos foram Povo de D‟us mais enterrados sem caixão como os animais, transportados frequentemente coloca ao num carro conhecido por etumba. Só eram enterrados Ministro/teólogo/escoliasta em caixão quem tivesse dinheiro para comprar tábuas e da sua Congregação cristã mandar fazer o caixão. hodierna: http://www.lifechurch.tv/w atch/faq - Parte 1 | Parte 2 | Parte 3

OS ANGOLANOS DEIXAM O ESTATUTO DE INDÍGENAS E PASSAM PARA O ESTATUTO DE CIDADANIA PORTUGUESA Em 1960, o Posto Administrativo do Mungo passa a pertencer ao Concelho administrativo do Mungo. No ano seguinte, o território vizinho do Congo Belga

torna-se independente. A independência do Congo incomodava grandemente os portugueses, devido aos maus tratos com que tratavam os naturais angolanos, visto estarem convencidos que Angola também procuraria a sua independência, e os povos de Angola lhes pagarão na mesma moeda com que tratavam os angolanos. Por esta razão, iam dizendo que Angola não se poderia tornar independente, visto ser uma Provincia de Portugal. Um homem chamado Lumumba, sendo natural do Congo, incomodava em muito os portugueses de Angola, e estes o consideravam terrorista. Logo após a independência do Congo, principiou no norte de Angola uma revolta contra os portugueses. Como estes revoltosos não tinham armas utilizavam catanas. O governo português, para evitar que a mesma revolta se estendesse a todo o território de Angola, organizou grandes campanhas para ver se sensibilizava os povos indígenas. Esta campanha também chegou ao Mungo, dirigindo-se até ali numa grande coluna de viaturas, e na frente vinha um Land Rover com um grande cartaz que dizia: “A Voz da Verdade”. Chegaram também grandes individualidades governativas da Província de Huambo, incluindo o próprio governador. Quando ali chegaram estava a vila do Mungo repleta de gente mobilizada para aquele acontecimento, em especial os brancos. Depois de cantarem o hino nacional, a Portuguesa, um indivíduo nativo, de profissão professor, chamado Diamantino, que tinha uma escola particular nos arredores da vila, fez o discurso a favor de Portugal, e nesse discurso falou mais ou menos nestes termos:  “… Devemo-nos unir para defender a nossa bandeira das quinas e a sua soberania. Todos, sem distinção de raça ou de cor, somos filhos de uma só Nação. Lutemos contra todas as manobras do inimigo. Todo o subversor que pretendia instabilizar a nossa paz, venha de onde vier, castiguemo-lo com veemência. Encostemo-nos ao nosso querido Portugal, defendendo-o até à última gota de sangue. Esforcemo-nos para que a revolta começada no norte de Angola não chegue até nós!…” Aconteceu que após o discurso, em vez do agradecimento ao orador, este foi preso, pois o viam como um forte adversário e outro líder contra Portugal, caso venha mesmo a independência de Angola, pois os portugueses tencionavam exterminar todos os instruídos angolanos. Quem o


prendeu foi um agente da PIDE chamado Reis, e quando o interrogaram, eu estava perto e ouvi parte do interrogatório, e a primeira pergunta que lhe fizeram foi: “Quantas vezes é que tu já foste à América?” (Entre os portugueses dizia-se que os americanos é que atiçavam os angolanos a se revoltarem contra Portugal). Depois, o capitão que dirigia aquela comitiva, pediu que todos os brancos entrassem no salão das audiências da Câmara Municipal a fim de fazer um esclarecimento. Eu também entrei. No seu discurso ele dizia: “Certamente já todos têm conhecimento de que no norte de Angola os pretos se revoltaram contra nós, fazendo uma guerra renhida querendo expulsar-nos daqui, devido aos maus-tratos que lhes temos dado. Tanto os comerciantes como as autoridades governativas têm as suas culpas desta revolta. O preto quando leva os seus produtos à loja, o que os comerciantes lhes dão não os compensa. Nós temos uma vida folgada e eles vivem em miséria extrema. O governo obriga-os a pagar impostos pesados sem lhes darem as condições de trabalho para conseguir o dinheiro. Trabalham de sol a sol nas terras cansadas, e o que colhem não chega nem para comer. São forçados a trabalhos sem qualquer remuneração. O que agora temos que fazer é puxá-los para o nosso lado, acarinhando-os, para que possam ter os mesmos direitos que nós temos. Mas ao terminar, acrescentou: “Se cá ficarmos!” No entanto, quando me viram presente expulsaram-me dali. No fim do mês, no Boletim Oficial trazia o Decreto em que terminava o regime de “indígenato” e promovendo todos os angolanos à cidadania portuguesa. Todas as leis que diziam respeito aos indígenas foram todas revogadas. A identificação indígena em que eu trabalhava também tinha acabado, bem como o pagamento do imposto indígena. Estabeleceram outro tipo de imposto, designado Imposto Geral Mínimo, que todos pagavam, angolanos e portugueses. O Concelho Administrativo era gerido por um Administrador, um Secretário do Concelho, um Chefe de Secretaria e três ou quatro escriturários. A partir daquele decreto, muitos angolanos foram admitidos para serem funcionários públicos, o que nunca havia acontecido antes. Por este motivo, passaram três angolanos a trabalhar na Administração do Concelho do Mungo como escriturários, sendo o Chefe da Secretaria um cafuzo (filho de um mulato e de uma negra). Em consequência do Estatuto de Indígena haver terminado, era necessário que cada angolano também possuísse Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional, pelo que chamaram a Juventude Branca, composta por rapazes e raparigas, a trabalharem na identificação de todos os angolanos para a obtenção desse documento, num compartimento da Administração, em que o Chefe da Secretaria começou a relacionar-se com uma rapariga branca chamada Beth, pois estava convencido de já não existia segregação racial. Pelo contrário, quando todos os portugueses residentes no Mungo souberam da intenção deste relacionamento, indignaram-se todos, e querendo aplicar medidas severas contra aquele chefe de secretaria, chamado Guimarães, dizendo que não podia um preto casar com uma branca. Mas a moçoila era apaixonada e toda ela decidida a continuar ligada a ele, mesmo sendo negro, e para a persuadir deste relacionamento, todas as senhoras da vila a chamaram em particular aconselhando-a a não prosseguir, dizendo que seria uma vergonha ela, na qualidade de uma branca, andar com um marido preto, quando as outras andavam com marido branco. Mas ela não aceitou tais recomendações, pois o seu desejo era possuir aquele homem como marido, pois ela já era senhora de si, e não se preocupava com o facto de ele ser preto. Tendo-se esgotado todas as hipóteses de persuasão, então todos os brancos da vila, unanimemente, fecharam as suas lojas e foram à Administração do Concelho, onde trabalhava o atrevido, para o espancar, o que não foi possível pela intervenção do Administrador. Depois retiraram a moçoila à força dos serviços de identificação, e levaram-na e a fecharam num quarto, forçadamente, sem permissão para sair, ficando ela a fazer tricot. Uma amiga da moçoila, que servia de intermediária, enviava-lhe revistas com desenhos de rendas, nas quais vinham secretamente as cartas do namorado, onde combinaram uma fuga, com dia marcado e que fosse adequado. Neste dia, o Chefe da Secretaria estacionou o seu carro nas traseiras da casa dos pais dela, que tem uma pista de aviões, e enquanto os pais conversavam com um comerciante, que também sabia do segredo, numa noite escura, ela saiu do quarto como quem ia à casa de banho, e foi ter com o namorado que a esperava. Meteram-se no carro e começaram a fuga. Até que os pais da moçoila dessem pela sua falta, eles já haviam percorrido uma grande distância, mas por azar, o


86 carro avariou. Os pais quando se aperceberam do sucesso organizaram uma perseguição, e em três viaturas cheias de homens foram em busca dos fugitivos, tendo-os apanhado no local da avaria. Espancaram o homem até sangrar. A partir dai a jovem estava profanada (desonrada) e já não servia para outro homem, e neste caso não havia outra alternativa senão levá-los à Conservatória e realizar o casamento. Os angolanos que trabalhavam para o governo português eram submetidos a muita pressão pelos superiores brancos, e estavam sempre na mira da PIDE. Muitos foram desterrados para S. Nicolau, pois os portugueses não gostavam de ver os angolanos serem funcionários públicos. Entretanto no norte de Angola a guerra ganhava grandes proporções. Os guerrilheiros já não utilizavam catanas mas armas automáticas, e as suas bases situavam-se fora das fronteiras. Haviam dois movimentos principais, MPLA e FNLA, que lutavam para o mesmo fim – a independência de Angola -, o MPLA tinha a sua base no Congo e a FNLA em Brazaville. No momento a Unita ainda não existia. Os portugueses da Vila de Mungo, temendo que os bailundos os atacassem, passavam as noites na Capela Católica da vila; furavam buracos nas paredes por onde metiam os canos das armas para se defenderem caso fossem atacados. Por seu lado os bailundos não tinham quaisquer intenções de o fazer, mas até os ajudavam a combater contra os seus compatriotas do Norte. Iam voluntariamente à tropa como pessoas civilizadas e já não como indígenas, como lhes diziam ser antigamente, que nos tempos passados eram soldados descalços e os vestiam com fardamento de caqui, composto de calção e casaco. Os portugueses que dormiam na Capela, todas as noites, por medo prendiam as pessoas negras civilizadas, que vestiam roupa limpa e passada a ferro, e as torturavam na Torre da Capela, prendendo-as nas cadeias, alegando que eram essas pessoas que um dia poderiam a governar em Angola. Os bailundos, apesar dos sofrimentos que recebiam dos portugueses, sempre se esforçaram por defender a soberania portuguesa de Angola, que até muitas vezes vinham os aviões com soldados bailundos mortos em combate no Norte, para serem sepultados nos seus locais de nascimento. Havia grande carnificina, visto estes portugueses intentarem exterminar a população negra de Angola. Todas as noites saiam esquadrões da morte para as aldeias para matarem as populações, quando se encontrassem a dormir. Na Gabela, as autoridades portuguesas locais, prendiam as populações das aldeias, homens, mulheres e crianças, ordenando-lhes para fazerem filas compridas, de mãos dadas, obrigando a pessoa da frente a colocar a sua mão num cabo eléctrico para passar o choque a toda a gente da fila. Noutras áreas usavam aviões para lançar bombas nas aldeias. Mesmo que os bailundos não fizessem guerra contra os lusos, mesmo assim eram constantemente incomodados e presos pela PIDE; alguns foram mortos, e outros foram enviados para o campo de concentração de S. Nicolau, acusados de terroristas. Neste campo havia vários meios de tortura, submetendo os presos a uma morte lenta. Amarravam as pessoas com os braços levantados, presos em cima de uma rede, e pela manhã e à tarde os picavam com um sabre. Isto durante dias seguidos, até que morresse lentamente. Havia também um forno onde queimavam os prisioneiros ainda vivos. Os brancos viam-se tão desorientados e inseguros, que não sabiam mais o que fazer, pois em vez de irem aos locais de combate para fazerem frente aos guerrilheiros que os combatiam, chamados de terroristas, massacravam as populações indefesas que com eles viviam, as quais também desconheciam o que se passava nas frentes de combate. Até os grandes batalhões de soldados portugueses que Salazar enviava para Angola para defender as populações brancas. Muitos dos guerrilheiros não iam para a frente dos combates por estarem fora das fronteiras, de onde surgiam para fazer a guerra às colunas militares portuguesas, com emboscadas e outras estratégias de guerrilha, para os atacar nas cidades e vilas. Um Administrador já idoso fora transferido do norte de Angola para o Concelho do Mungo. Tinha uma mão danificada pelas catanas dos revoltosos e, por vingança, descarregava a sua raiva contra os bailundos, com uma barra de ferro. Um outro, chamado António Matoso Quaresma, que também fora transferido para o Mungo, era um homem diabólico; espancava diabolicamente todos quantos ele visse que poderiam vir a ser dirigentes de uma Angola independente. Batia nas pessoas com paus ou chicote até as vítimas desmaiarem, dando-lhes


uma injecção para recuperarem os sentidos, para serem novamente espancadas. Todas as semanas enviava viaturas cheias presos inocentes para Nova Lisboa, onde estava a cadeia da PIDE, de onde depois seguiam para S. Nicolau. Uma certa ocasião um grupo de sobas, que em virtude de entregarem poucos impostos, cobrados aos seus conterrâneos, esse mesmo Administrador, refiro-me ao Quaresma, alinhou-os no seu gabinete e os espancou brutalmente. O chão ficou todo manchado do sangue espirrado pelos narizes dos sobas com a pancada; mandou que eles tirassem os casacos e com eles limpassem o soalho. Ao ver toda aquela brutalidade desumana por parte do Administrador, ganhei coragem para pedir misericórdia em nome da bandeira portuguesa, para que não desrespeitasse desta forma estas pessoas, pois também eram autoridades tradicionais entre o povo de Angola. A minha aitude causou-lhe uma fúria terrível contra a minha pessoa. Pegou-me pela camisa e esbarrou-me contra as paredes, ameaçando-me com a PIDE e que me enviaria para S. Nicolau. A PIDE era quem mais torturava os angolanos. Todo o angolano que refilasse a um português era logo enviado para a PIDE e seguia para o campo de concentração. Uma ocasião, um português, de noite, foi a uma sanzala em busca de prostitutas. Bateu na porta de casa de uma rapariga que nesse momento dormia, que ao ouvir o batimento gritou por socorro. Os homens da sanzala acordaram, indo em seu encontro, sendo depois esse português corrido de lá. No dia seguinte apareceu a PIDE prendendo todos os homens, que depois de torturados foram internados no campo de prisioneiros, acusados de quererem maltratar um branco. Em todos os concelhos da Província do Huambo só havia perseguição contra os habitantes do Mungo, que eram inocentes. Noutros concelhos apenas prendiam os que fossem apanhados em flagrante, lutando contra os portugueses, se de facto houvesse provas. Até o Governador da Província de Huambo fez todos os possíveis para evitar que a revolta do Norte se estendesse às terras do seu Governo, salvando também muitos que foram acusados falsamente das calúnias dos lusos. Houve um grupo de colonizadores vindos de Portugal para construírem uma auto-estrada, conhecida por Lusodana, que ia até Lobito. Eles haviam caluniado um professor, chamado Pedro Paulo, o qual possuía uma escola na área administrativa de Londuimbali, acusando-o de possuir armas para atacar os portugueses da área. Foram ter com o Chefe do Posto pedindo autorização para eliminar o dito professor. O Chefe do Posto disse-lhes que não tina competência para uma ordem destas. Foram depois ao Bailundo contar as mesmas calúnias ao Administrador, pedindo autorização para atacarem o docente. O Administrador ficou furioso contra o docente, acompanhou-os à casa do acusado para saber onde tinha as ditas armas. Foram nas viaturas até ao local, mandando que lhes fossem mostradas as armas, mas tiveram de se calar perante o desmentido de não haver armas nenhumas. Perante isto, o Administrador não podia ter outra atitude senão expulsá-los, mandando-os de volta para Portugal. PRISÃO DE QUEM TIVESSE A OTALA, TORTURAS E MORTE DE ADÚLTEROS E DE ADIVINHAÇÃO Tendo acabado o estatuto do indigenato, também a mesma identificação em que eu trabalhava, estatuto que fora revogado, por este motivo passei a ser recenseador das populações. Era um serviço enfadonho para mim, pois percorria as aldeias de bicicleta, onde tinha muita gente para recensear. Quando fazia este trabalho no sobado do Cunjo, reparei que havia muitas pessoas com deficiências causadas pela otala. Uns com deficiências nos pés, outros com pernas torcidas e muitos com falta de membros superiores ou inferiores. Perguntei porque é que estas pessoas tinham estas incapacidades, e as pessoas a uma diziam: “É que nesta aldeia há quem tenha a otala, o que provoca todos estes males em muita gente”. Perguntei então que me dissessem os nomes desses tais possuidores da otala para que fossem julgados, mas por medo ninguém quis dizer nomes temendo vingança. Desta forma, à medida que ia fazendo o recenceamento, entregava um papelinho a cada um dos que eram chamados, e dizia-lhes que escrevessem o nome de todos os que suspeitassem ter a otala.


88 No fim do recenseamento, em todos os papéis havia apenas dois nomes suspeitos. Mandei que essas pessoas viessem à minha presença para que fossem interrogados. Perguntei a um deles a razão que o tem levado a fazer todo aquele mal às pessoas com a otala. Ele disse-me que não tinha otala nenhuma, e que todas aquelas denúncias eram falsas calúnias. Então dei ordem ao cipaio que me acompanhava para o castigar, para desta maneira o obrigar a confessar. O cipaio, então, usou o seu cinturão e lhe bateu nas costas, até que ela confessasse. Sempre confessou, e pedi-lhe para que ele entregasse o objecto para ser destruído, e assim não houvesse mais vítimas. Como o não queria entregar, obriguei-o a levar-me ao local onde guardava a otala. Pensava que me conduzisse a casa, onde fariamos uma revista, mas conduziu-nos a um alto monte. Quando ali chegamos, levantou uma grande pedra de onde retirou a referida otala, que se encontrava embrulhada numa pele de cabrito. Eram cabeças secas de cobras venenosas, como a vívora, cabeças de maribondos, de abelhas, de lagartixas, de camaleões, etc., as quais torrava com óleo de palma e depois reduzia a pó. Todo aquele que tivesse contacto com esse pó, fosse no caminho ou colocado em qualquer objecto, logo ficava contaminado com os efeitos nefastos dele, vindo depois a sofrer deformações físicas. Muitas vezes era colocado nos guiadores de bicicletas, nos cabos das enxadas, nas maçanetas das portas, etc. Bastava tocar nesse pó, que é difícil de detectar, que a pessoa ficava logo afectada no seu corpo, pois o efeito quimico penetra no corpo até aos ossos. Este era um tempo de grande perturbação para mim, visto que além de estar sempre na mira da PIDE, e ter saído da Missão Evangélica, a tal mulher que me perseguia com as suas feitiçarias, quando por lá andava, passei a sonhar novamente com ela como anteriormente, em que me apresentava, nos sonhos, mulheres nuas, mulheres tão altas como a torre duma igreja, dum Templo SUD ou dum minarete, e me dizia: “Eis aqui uma mulher para ti!” Mas desta vez também me trazia uma serpente venenosa. Isto na feitiçaria africana era a evidência de que aquela mulher só pretendia eliminar-me, pois quando ainda da minha presença na Missão, colocava-me um cazumbi no meu caminho para ser tentado com as mulheres alheias, o que constituia um grande perigo para mim, pois os homens bailundos, quando se tratava das suas mulheres, são muito ciumentos. O ciúme que tem por elas tem um nome terrível, que é “Ukuelume”. Quanto a este ciúme que os bailundos têm pelas suas mulheres, há alguns factos verídicos que gostaria de narrar e presenciados por mim: Quando estive no Mungo tinha um vizinho chamado Katombela, e a sua esposa chamava-se Anastácia. Uma manhã apareceram ali dois irmãos de Katombela, que lhe disseram: “Ontem à noite apanhamos a cunhada Anastácia adulterando com o António”. Katombela ao ouvir isto ficou furioso e disse aos seus irmãos: “Konjupili lonjanga (Vão já buscá-lo) ”. Passado algum tempo os dois irmãos traziam o tal adúltero amarrado e posto na frente de Katombela, que ficou tão furioso que até parecia comê-lo vivo. Ajudado por os seus irmãos, deu-lhe uma carga de pancada até ao desgraçado defecar. Depois estenderam-no no chão, ataram-lhe as pernas com uma corda, suspendendo-o no ramo de uma árvore de cabeça para baixo, e depois de o espancarem com um cacete até se cansarem, desceram o homem da árvore e o estenderam novamente no chão, fazendo-o beber uma composição extraída de raízes de uma planta chamada olondeia, para o tornar impotente sexualmente para toda a vida. Finalmente, estenderam-no novamente no chão, tomaram uma enxada com cabo comprido, foram a uma retrete e de lá tiraram uma porção de excrementos podres e cheios de bichos, abriram a boca do adúltero e lhe meteram todos aqueles excrementos pela garganta a baixo. Um pisava-lhe a garganta com o pé, para o sufocar, enquanto outro metia-lhe as fezes na boca, e quando a boca ficava cheia o outro levantava o pé para que ele ao aspirar o ar que lhe faltava, ao mesmo tempo tinha que engolir o que tivesse na boca. Daí o dito: “Quem mexer em saias alheias comerá os excrementos”. Outro caso foi de dois rapazes que tinham casado no mesmo dia e vizinhos um do outro. Um destes casais tinha filhos e o outro não. Aconteceu que na véspera de um Natal, o que tinha filhos foi à mata apanhar a lenha para a festa, que ficava no outro lado do rio. Quando chegou junto do rio encontrou a mulher do vizinho, que não tinha filhos, em busca de água, à qual lhe disse:


DEMONOLOGIA: vejamso.com.br (Se D-us é perfeito e sabe todas as coisas, porque é que criou a Lúcifer?; DATA: 2010-12-01 HORA: 21:05:17 NOME: Pastor cristiano CIDADE: Sao Bernardo do Campo/São Paulo ESTADO: São Paulo/Brasil

-Nós, que casamos juntamente convosco, já temos três filhos, quando vocês ainda não têm COMENTÁRIO ILUSTRATIVO: “Graça e Paz nenhum. Isso é mau para nós os negros, pois os pastor/reverendo Éber, existem coisas que só cabe filhos são a nossa riqueza, e serão eles que a D-us responder, mas acredito que o livre arbítrio tratarão de nós na velhice. (livre-alvedrio) nosso em comparação com o livre arbítrio dos Anjos difere em muito, principalmente - Então a mulher respondeu: nas consequências após o pecado, acredito por - Temos feito tudo para resolver este problema; exemplo que Lúcifer por estar com D-us, e ser um andamos já pelos hospitais e curandeiros, mas Anjo de confiança e consequentemente o trair com uma terça parte do Céu, fez com que D-us achasse sem nenhum resultado. que não deveriam ser perdoados, e assim O vizinho então lhe disse: condenados ao lago de fogo e enxofre, (“E o Diabo, que os enganava, foi lançado no lago de - Pelos vistos o teu marido é que não pode dar fogo e enxofre, onde está a besta e o falso filhos! – e ela respondeu: profeta… (Apocalipse 20:10) como a Lúcifer foi - Se assim for significa que não temos solução permitido conhecer a D-us e estar sobre a mesma esfera celestial acredito que por isso ele foi julgado para este problema! de maneira justa por DEUS, (“Mas o que a não Depois o outro falou: soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos -Solução há! Vais então ficar sem filhos, se açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe existem tantos homens que te poderiam ajudar, confiou, muito mais se lhe pedirá” (Lucas 12,48)). | e eu poderia um deles! Ora hoje era o dia Visão judaica: “DATA: 2010-12-01 HORA: 20:03:27 adequado para te engravidar, e como estamos NOME: Francisco Walter em dia de festa, e certamente como todas as CIDADE: Natal pessoas vão estar entretidas durante a noite nas ESTADO: Rio Grande do Norte/Brasil danças, aí podemos aproveitar uma oportunidade de escaparmos para um lugar sem COMENTÁRIO: Shalom Sr. Éber! A respeito do que alguém perceba. tema de hoje, creio que o fato de o único ETERNO criar satanás só nos mostra a forte evidência da sua O homem ao dizer estas coisas, estava tentando UNIDADE (Isaias 45:7) em detrimento da aquela mulher para o adultério, e não sabia que trindade, por isso satanás não tem nenhum poder sobre o crente em Yeshua (Jesus), vale lembrar o marido dela estava a cinco metros de tambem que satanás nao é o nome do dito cujo. distância, metido entre o capim alto, e desse Assim como o único ETERNO, satanás e o homem modo escutando toda a conversa e a também têm o poder de criar. Mas a grande questão do tema é : “Por que o unico ETERNO combinação entre os dois. criou satanás”? A tradição cristã nos diz que Depois dela estar convencida, ela mesmo deu o satanás é um anjo caido pela desobediência ao sinal que deveriam fazer para esse encontro ETERNO, a pergunta que fica é: seres celestiais (anjos, arcanjos, serafins) têm livre arbítrio? proibído, dizendo: “Quando ficar escuro, esteja Segundo a tradição judaica, o homem tem duas atento ao que vou dizer ao meu marido; quando naturezas (terrena e divina), cremos que quando um crente fiel ao ETERNO peca, nao o faz por lhe disser que entre em casa que a comida está causa de uma força maligna, mas porque já nasceu na mesa, pois eu vou para o terreiro dançar. com esta natureza. Nesse momento saia da sua casa e vá ter ao Concluimos com isto que a criação de “satanás” serve exclusivamente como prova de que o campo onde nos haveremos de encontrar, antes ETERNO é o unico D-S. (Mateus 24:36 e 43) Paz mesmo das outras pessoas lá chegarem”. e graça a todos!” Depois de toda aquela conversa separaram-se. A Mulher com a sua cabaça de água, e ele seguindo para a mata. O marido atou um molho de capim, pô-lo na cabeça e seguiu atrás da mulher, como quem não sabia de nada. Em casa tomou o seu cnivete, Best, e pôs-se a afiá-lo com uma lima, sem que a mulher o percebesse. Quando anoiteceu, a mulher lá lhe fez a comida e disse ao marido: “Entra em casa que a ceia está na mesa, pois eu vou já para o campo dançar com o pessoal da aldeia. Ela pôs-se a cantar uma canção, simulando uma dança à medida que se dirigia para o campo. Por sua vez, o vizinho ouvindo o sinal também saiu de casa seguindo-a. O marido, então, que já sabia de tudo, tomou o seu canivete e os seguiu à distância. Estava escuro, apenas se viam as estrelas no céu, o suficiente para ver tudo. Depois viu quando os dois se encontraram e se dirigiram para os lados debaixo da aldeia, um sítio com muitos eucaliptos. Debaixo de um deles com muita ramagem, ele então lhe disse: “Certamente que hoje vais ficar grávida. Despe o teu vestido para evitar depois teres complicações no momento de dar à luz.


90 Então ela despiu-se ficando nua. Entretanto o marido dela aproximou-se pé ante pé sem que dessem por ele, escondeu-se junto de outro eucalipto, e quando os dois já estavam praticando o acto de adultério, saiu de onde estava e disse: “Que é que vocês estão a fazer?” – O outro ouvindo e reconhecendo a voz do vizinho, tentou levantar-se mas nesse momento apanhou uma navalhada nas costas que lhe atingiu os pulmões. Ainda tentou defender-se mas apanhou mais uma facada na barriga atingindo-lhe os intestinos, depois outra facada cortou-lhe a cara, atingindo-lhe um olho. Apanhou sete facadas. A mulher fugiu nua. Foi a casa tomar outro vestido, começando a gritar por socorro: “”Homens acudam! Homens acudam!” -Os homens então apareceram, e transportaram o ferido numa tipóia para um posto sanitário, mas ele morreu pelo caminho. Este caso passou-se numa aldeia chamada chitalela. Num outro caso, que evidencia as consequências do ciúme dos bailundos, foi o que se passou com um rapaz solteiro, com dezanove anos de idade, o qual vivia com os seus pais numa aldeia nos arredores da vila de Mungo, cuja aldeia se chamava Binguilangue. Este rapaz, de todas as vezes que sentia vontade de uma mulher, ia a uma casa vizinha onde morava um casal, entrava sorrateiramente para dentro dela, dirigia-se ao aposento onde o homem e a mulher dormiam, e aproveitando o sono pesado do marido, subia na cama e sem mesmo a mulher perceber que não era o marido, fazia sexo com ela. Depois retirava-se novamente sorrateiramente e se dirigia para a sua casa. Ela pensando que era o seu próprio marido até lhe dava um bom "aconchego". Fez isto várias vezes sem ser apanhado. Numa noite, o rapaz voltou a entrar naquela casa dum marido que, nessa noite, não estava abocetado. Estava sem pegar no sono. Quando percebeu que alguém estava no aposento, pensando que fosse algum ladrão, saltou da cama para o apanhar, mas o moço escapou. Quando amanheceu, o dono da casa seguiu as pegadas do ladrão, visto haver chovido durante a noite, e as marcas conduziram-no à casa do criminoso. Falou com o Chefe da Casa no sentido de aconselhar o filho a não voltar a fazer o mesmo, tentando roubar a sua casa. Passados alguns dias, o rapaz voltou a entrar na casa do outro com a mesma finalidade, pois o marido desta vez voltava a dormir pesadamente. Quando saia de cima da mulher, por inadvertência com a sua mão tocou na cara do dormente e este acordou. Tentou fugir mas logo foi apanhado ainda com os orgãos sexuais dependurados. O Dono da Casa chamou por socorro, comparecendo todos os homens da aldeia. Quando souberam o que o rapaz ali fazia, pegaram nele e lhe cortaram o pénis. Foi levado para o hospital onde se curou, mas ficando sem o seu órgão para toda a vida. O marido traído, por ter feito o que fez, foi condenado a alguns anos de cadeia, ainda pelas autoridades portuguesas. Têm ocorrido muitos outros casos que levaram muitos adúlteros ao cemitério. Quanto a mim, coisas semelhantes me esperavam. Fiquei muito mais aflito quando fui atacado de novo pelo cazumbi, agora na forma de um monstro com aparência de sapo. Da primeira vez que me aparecera fora de noite, mas desta vez apareceu-me em pleno dia e na própria secretaria da Administração do Concelho; ele me trouxe de novo a mulher da Missão. Esta visão era apenas vista por mim, e quando me encontrava ao balcão da Administração quando atendia uma pessoa na busca de certidão de idade, visto eu também tratar de assuntos do Registo Civil, provisoriamente, na Administração do Concelho. De repente fiquei surpreendido com aquele monstro, que depois de me ter sacudido violentamente, atirou comigo para o chão, onde fiquei como morto. Transportaram-me ao hospital no carro da Administração, onde permaneci alguns dias. Para me livrar das feitiçarias fui consultar um curandeiro feiticeiro, que depois de lhe haver contado toda esta história, passada e presente, citando o nome da tal mulher e de como me tem aparecido em vários sonhos, sempre me induzindo a cometer adultério com mulheres alheias, o curandeiro disse-me então que tudo isto poderia ser suspeito, e que para se apurar a verdade era necessário recorrer a um acto de adivinhação. Levou-me então a uma mata, e junto a um morro de salalé (formigueiro), de onde retirou, com extrema cautela, um fragmento desse morro sem o despedaçar. Enquanto segurava na sua mão aquele fragmento, pronunciava as palavras de adivinhação, dizendo: "Fulana de Tal, a pessoa que aqui se encontra comigo, Fulano de Tal, acusa-te de lhe teres enviado um cazumbi, induzindo-o a praticar adultério com mulheres


alheias. Amanhã de manhã, quando cá voltarmos para a confirmação, serás inocente se encontrarmos este fragmento do salalé ligado com saliva no respectivo lugar do morro de onde fora retirado. Caso o salalé não esteja no lugar então é prova de seres culpada. Depois colocou este fragmento com cuidado no lugar de onde o havia tirado. No dia seguinte, o curandeiro apareceu com um saco cheio de remédios tradicionais, compostos de várias raízes e folhas de várias plantas, fervendo-os numa grande panela. Ordenou que me sentasse num banco, colocou a panela em cima das minhas coxas, e cobriu-me com um cobertor para que eu aspirasse o vapor impregnado da essência das raízes, acto este que em umbundu se chama ochiyuku, o qual serve para afastar os cazumbis. No fim de toda aquela cena, paguei ao curandeiro com muita boa vontade, contando às pessoas que já estaria livre de toda aquela perseguição de cazumbis vindos da mulher da Missão, mas infelizmente no dia seguinte, para meu desgosto, o curandeiro apareceu-me para me dizer que havia passado toda a noite a sonhar com a referida mulher, em que ela lhe dizia que não impedisse os cazumbis de me perseguir que ela metia em mim, incitando-me à prostituição para a minha condenação à morte. TERRÍVEIS CONSEQUÊNCIAS PARA MIM Com o aparecimento em sonhos da mulher da Missão ao curandeiro, ameaçando-o com duras ameaças de morte para ele, caso ele prosseguisse na expulsão dos cazumbis que ela me enviara para violar mulheres alheias, fez com que ele deixasse de me curar, o que me afligiu bastante, pois andava sempre com medo de ser atacado por este terrível monstro. Neste sentido, resolvi ceder, e fazer o que a feiticeira queria de mim, isto é, violar as mulheres que me surgissem para ver se me livraria dela. Uma ocasião de noite, como não tinha comida em casa, fui à casa de uma mulata chamada Albertina que vivia na sanzala e vendia comida; ali encontrei uma mulher muito bonita, que impedia uma fé arminiana de permanecer (já bem afectada pelo recurso à feitiçaria; daí a importância da emergência do serviço pentecostal, de cura e libertação, para limitar o recurso ao universo ocultista) acendrada; o seu nome era Raquel, casada com um branco. Logo que a vi, apoderou-se de mim o cazumbi da prostituição, e comecei a tentá-la, dizendo-lhe que fosse passar aquela noite comigo, prometendo-lhe uma boa soma de dinheiro, ao que ela logo concordou. Foi o pior que podia ter feito na minha vida, pois a partir desse dia o cazumbi passou a permanecer em mim e me tornou o seu escravo. Passava o tempo todo a procurar mulheres alheias, vindo muitas outras se me oferecerem voluntariamente. Quando as mulheres não cediam à minha vontade, empregava a força. Quando isto me acontecia, o cazumbi ganhava cada mais força em mim, começando a sofrer grandes e terríveis consequências, com espancamentos dos homens delas e pagamento de pesadas multas à justiça, e tudo quanto ganhava ia quase todo para as mulheres; também era fortemente desconsiderado por toda a gente, sofrendo ainda de muitas doenças venéreas, etc. A primeira desavença tive-a com o soba chamado Tito do sobado de Erimbondo, tio da tal Raquel, que me obrigou a pagar uma multa muito pesada, que tive que pagar com dinheiro de alguns meses de salário. Depois de ter pago ao soba, um dia passei numa rua da vila do Mungo, entre muita gente, para ver se me esquecia das agruras da vida. De repente senti que alguém me empurrava fortemente e me fez cair no chão, ao mesmo tempo que me dizia: "Este maldito gajo fornicou com a minha prima Raquel". Quando me levantei, segurou-me pela camisa e deu-me um soco na boca que me deixou a sangrar e voltando a dizer: "Este malvado finge-se de cristão, mas é um lobo vestido com pele de ovelha; o que ele merecia era apanhar uma grande surra." -Fiquei logo todo envergonhado perante aquele tratamento perante toda a gente que ali se aglomerara à minha volta. Entretanto os sonhos com aquela mulher redobravam. Às vezes tinha visões em que ela me trazia mulheres. Um dia tive o prazer de alguém me convidar para uma festa de casamento. Vi que a noiva era muito bonita. Passados alguns dias encontrei-me com ela numa rua do Mungo. Como ela vinha só, logo a tentei. Ela concordou e disse-me que lhe aparecesse de noite fora de horas na sua


92 casa, pois o marido tinha-se ausentado para o Andulo, em viagem de negócios. Peguei numa nota de mil escudos (cinco euros) e lha entreguei. Quando anoiteceu, esperei até altas horas da noite, vesti um sobretudo, comprado nos fardos, e fui de bicicleta a caminho do perigo. Não fui pela estrada para não ser visto por alguém, mas segui por um atalho, dando uma volta muito maior. Quando cheguei perto da aldeia da moça, guardei a bicicleta nuns arbustos e segui a pé, seguindo o atalho que me levou a um cemitério, ficando assustado quando me deparei com muitas cruzes das sepulturas, saíndo de lá a toda a pressa. Desviei-me para uma picada que conduzia a outra aldeia vizinha. Quando ali cheguei, como era fora de horas, uns homens sentiram-me e gritaram: "O ladrão das galinhas veio; vamos em sua perseguição e chamando pelos cães". -Fugi correndo, e ouvi um ruído de uma flecha arremessada contra mim que caiu ao meu lado. Eles corriam com os cães em minha perseguição. Em frente havia um riacho que tinha uma ponte de dois paus. Atravessei-a e desliguei um dos paus da margem para evitar que os cães a atravessassem, e de seguida trepei numa pequena árvore que ali havia. Os cães quando chegaram junto da ponte, pararam; um deles que parou resolveu entrar em acção de imediato e seguiu para baixo e para cima do rio, motivando os outros. Mas como não havia ponte, voltaram para trás. Entretanto chegaram os homens e um deles disse: "O gajo conseguiu fugir; voltemos para trás". E se retiraram. Desci da árvore e dirigi-me para casa da Josefina já sem qualquer vontade de mulher. Quando lá cheguei bati à porta, ouvindo-me ela de dentro, ainda em trajes menores, pois estava deitada, levantou-se da cama, acendeu um candeeiro, abriu a porta e eu entrei. ... Dirigiu a mim com um tição na mão e disse-me em português: "Vou queimar-te também". Levantei-me a voar para fugir, e fui poisar em cima de um outeiro. Assim que pousei os pés no chão, apareceram muitos porcos com as bocas abertas, querendo morder-me nas pernas. Para escapar tive que subir acima de um pedregulho onde os porcos não chegavam. Depois apareceu um grupo de bodes que vieram até mim e me davam marradas com os chifres, mas que não me atingiam, porque estava em cima de pedregulho. Depois apareceu o jovem que tinha lançado no fogo com o mesmo tição para me queimar, e foi assim que despertei do sonho. Olhei o relógio e eram vinte e uma horas e trinta minutos. Aquele sonho deixou-me muito triste, visto eu estar em vias de me suicidar, o que para mim significava o inferno, e por isso desisti de o praticar. Tornei a adormecer, e em visões vi a mulher feiticeira trazendo-me muitas mulheres nuas, o que transtornava o meu coração, e não me largando. Quando me largou o sono foi tão profundo que não ouvi o toque do despertador, e por isso só acordei de manhã já de dia. Ela tinha deixado um demónio em mim, pois quando sai para o trabalho encontrei-me no caminho com um português, funcionário da Câmara municipal, juntamente com outro, e me disseagressivamente: "Ó seu filho da puta, então andas a fornicar com a minha mulher?" -E tendo dito tal vernáculo, os dois cairam sobre mim e espancaram-me com o objectivo quase certo de provocar uma acensão em mim, levando-me depois ao tribunal. Como não havia provas nem testemunhas desta acusação, fiquei absolvido, pois aquela senhora, uma branca, mantinha as nossas relações muito em segredo, e como ela me enviava comida, foi por isso que o marido veio a saber destas nossas relações take away. Na tarde desse mesmo dia, um mensageiro vindo do Bailundo numa motorizada, apareceu para me informar dum grave acontecimento passado com a minha família. Eu vivia no Mungo e a minha mulher no Bailundo trabalhando como professora da Escola Doméstica da Missão Evangélica do Bailundo. Ali me deslocava todos os fins-de-semana para estar com ela. Depois do Administrador ter-me dado permissão para me deslocar ao Bailundo para saber do que se trataria, tomei a minha motorizada e me pus ao caminho. Quando lá cheguei, deparei-me com um caso muito ruim para mim; fui informado que dois indivíduos fornicavam com a minha mulher na minha ausência, e numa certa noite, por coincidência, se juntaram os dois na minha casa. Um chamava-seFernando Epalanga, era o Director da Escola Primária da Missão, e o outro chamava-se Ângelo, Diácono e Tesoureiro da Igreja. O adúltero Fernando, vendo que a mulher com quem andava afinal tinha mais outro amante, ficou zangado, e por motivos de ciúme espancou até adolorar o Diácono Ângelo, fazendo-lhe um grande ferimento na cabeça. Depois arremessou a sua bicicleta para um buraco que ali havia junto à minha casa e desapareceu.


Quanto ao Ângelo resolveu ir a um enfermeiro que morava longe para tratar do seu ferimento e para que ninguém soubesse do sucesso (acontecimento). Por isso não foi para a sua casa. A sua mulher esperou por ele toda a noite sem que o marido aparecesse. Quando amanheceu foi à polícia dar parte do desaparecimento do marido. A polícia, sabendo que se tratava do Tesoureiro da Igreja suspeitou que ele se fosse encontrar com os movimentos que lutavam contra os portugueses para lhes levar o dinheiro da tesouraria da Igreja a que pertencia. O caso foi então parar à PIDE, que dizia querer o Ângelo vivo ou morto. Por este motivo todas as actividades da vila paralisaram. Todas as lojas estavam fechadas bem como a própria Escola Técnica que tinha cerca de mil alunos. Todos foram em busca do desaparecido. Buscaram em toda a parte e quando passaram por a minha casa encontraram a bicicleta que o Fernando tinha arremessado no tal buraco. A PIDE quis saber de quem era a casa onde a bicicleta fora encontrada. Informaram que o Chefe da casa trabalhava no Mungo como funcionário, e a mulher dava aulas na Escola Doméstica da Missão Protestante. Foram então à referida Escola e prenderam a minha mulher que foi julgada. Quando o Diácono apareceu voluntariamente, então por ordenação do tribunal, ele então contou como as coisas se haviam passado. Mas não acreditaram no que ele dizia e por esse motivo também ele foi preso e desterrado para o campo de concentração de S. Nicolau, com a acusação de ter levado dinheiro aos movimentos que lutavam contra os portugueses. Quanto ao que eu fiz nesta ida não merece ser narrado por um abestalhado possesso e compulsivo. Este é o Romance dos actos arminianos do Irmão Armando e dos bailundos e não o romance dos actos do diabo. Tenho dito. NUMA ALDEIA CHAMADA LUVEMBA Numa aldeia chamada Luvemba havia um grande centro escolar com cerca de mil alunos e muitos professores, cujo director se chamava Vasco. Na mesma aldeia havia também uma rapariga chamada Mariana, que após o seu casamento o governo português mandou o seu marido para o contrato forçado, deixando dessa forma a sua mulher só e no desamparo. Aconteceu que o Vasco um dia encontrou-se com a Mariana e a seduziu. Quando ele estava a tentar a rapariga, ela lhe disse: "O senhor Director está a falar a falar a sério ou está a brincar comigo, sabendo que sou casada?" Ele lhe afirmou que era sério porque gostava muito dela. Ela então lhe respondeu: "Se me deres dois mil escudos (dez euros), eu aceito e prometo guardar segredo". Depois do Vasco dizer que estava disposto a dar-lhe o dinheiro que ela pedira, ela se deu por convencida e o trato ficou feito. A Mariana perguntou onde seria o ponto de encontro, e ele disse: -Amanhã, Sábado, podemos encontrar-nos lá na congregação antes do culto nocturno das 20 horas. No Shabbat, então conforme o combinado, o Vasco sempre foi ao encontro da Mariana. Quando chegou ao local viu que ela já lá estava. A Mariana começou por lhe dizer: "Dá-me já o dinheiro enquanto é cedo". O Vasco lá lhe entregou os dois mil escudos que ela guardou, não que sem antes conferisse se o dinheiro estava certo. Ela meteu-o num bolso do vestido e fechou com um alfinete, e disse depois: "Vamos já entrar na Igreja para o diabo entrar nos infernos, antes que chegue gente para o culto". Ela foi na frente e ele atrás. Já dentro da Igreja a Mariana disse: "Mas o senhor Director vai servir-se de mim deitada no chão de terra batida sem pelo menos pôr uma esteira? Peço-lhe para estender o seu casaco no chão". O Vasco lá despiu o seu casaco e o estendeu no chão. Ela disse depois: "O casaco só me resguarda da cintura para cima; ora onde está o elemento que o senhor tanto deseja vou estendêlo no chão? Despe as calças e põe-as abaixo do casaco". Ele assim o fez, ficando só com as cuecas e a camisa. Mas a Mariana voltou a insistir: "Ora eu, que tratei o meu cabelo com óleo de palma seria mau colocar a cabeça no chão de terra. Tira então a camisa e as cuecas para fazer um travesseiro p'rá cabeça!" -O que de imediato ele fez. Quando ela viu que estava completamente nú, tossiu, o que era um sinal combinado, e logo surgiram três indivíduos, seus cunhados, irmãos do seu marido, os quais estavam debaixo dos


94 bancos do templo, que gritaram dizendo: "Ó senhor Director, o que é que está a fazer com a mulher alheia?" Pegaram nele e o espancaram severamente. Arrastaram-no para fora do templo e o amarraram no tronco de uma laranjeira com uma corda que já tinham guardado para o efeito, espancando-o mais ainda à paulada. Depois apareceram as pessoas para o culto, que quando o viram naquela cena tão triste, uns o insultavam e outros lhe davam punhadas e cuspindo-lhe na cara. Como ali havia palha seca queimaram-lhe a roupa. Passou toda a noite amarrado na laranjeira. No dia seguinte, Dominga, por volta das noves horas da manhã o sineiro tocou o sino para o culto; compadeceu-se do Director e o desprendeu da árvore. Como não tinha roupa para se cobrir, teve que sair dali nú e foi para a sua casa que ainda ficava distante. Teve que cruzar-se no caminho com muitas pessoas que se dirigiam para a congregação, e todos que por ele passavam o insultavam e o socavam. Por este motivo ficou ainda mais manchado com nódoas negras no corpo, indo depois para Nova Lisboa onde se empregou no CFB (Caminhos de Ferro de Benguela) como telefonista. Por causa de uma mulher três indivíduos me espancaram até perder os sentidos, e no dia seguinte a PIDE tortura-me até sangrar. Como no concelho do Mungo não havia Conservatória, o Registo Civil funcionava numa dependência da Administração, cujo oficial era o Secretário do Concelho, trabalhando eu também nesse lugar. Uma vez apareceram uns noivos para casarem civilmente, sendo a noiva muito bonita à vista. Um dia tomei a minha caçadeira e fui à caça aos patos junto ao rio Luvulo. Passei numa nascente de água potável, onde as pessoas se abasteciam, encontrando lá a tal noiva que já era a mulher, que tinha visto no Registo Civil, tirando água. Quando os meus olhos deram nela, o cazumbi, vindo da mulher da Missão, apoderou-se de mim, e apesar de saber que era casada e com marido no activo, logo fui tentado a seduzi-la em adultério. Com poucas palavras ela se deixou convencer, e disse-me que não era conveniente praticar o conhecer das Escrituras naquele momento, para não sermos vistos por alguém que por ali andasse e nos observasse em oculto. Citou até um apotegma vox pop, dizendo em umbundu: "Nda o kasi vusenge ku ka lipundole; oviti momanu", cuja tradução para o português quer dizer: "Se estiveres numa mata não te desnudes; as árvores são pessoas". Disse-me ainda, como o marido dela se tinha ausentado para um funeral de um primo, onde devia passar a noite, era uma boa ocasião para eu ir à sua casa quando já for noite, para não dar muito nas vistas das pessoas. Depois de termos combinado o encontro, ela tomou a sua cabacinha com a água e seguiu. Eu fiquei à espera da noite e que ela me viesse buscar. Quando anoiteceu, ela sempre apareceu com o jantar, que era um prato de pirão com churrasco de galinha. Depois de termos comido, ela me levou para a sua casa. De facto o marido não se encontrava lá. Fez-me entrar na sua cubata, feita de adobes e coberta de capim. Tinha dois quartitos; um era a cozinha e sala de estar, outro era o quarto de dormir. O lume estava no chão, no centro e em volta, e onde estavam os utensílios da cozinha. Meteu-me no quarto de dormir, onde havia uma pequena cama de madeira, sem colchão, apenas com uma esteira e um cobertor sujo. Na parede havia uma corda pendurada em dois pregos, onde havia roupa suja também. Era tudo muito repugnante à minha vista. Sentei-me naquela caminha, e ela estava a tratar de algumas coisas relacionadas com a cozinha. Para mim tudo aquilo significava um grande perigo devido ao já mencionado e ilustrado grande ciúme do marido bailundo. Num instante apanhei um grande susto, ao ouvir lá de fora um "Até amanhã" em português. Era a chegado do marido despedindo-se dum companheiro. Apanhei um calafrio, que me deixou transtornado, pois não havia meio de me escapar de tão grande perigo. O quarto tinha apenas um buraco que servia de janela para o exterior, por onde eu não podia passar. Depois do marido se ter despedido do companheiro, entrou na cozinha, dando um beijo na sua mulher e se sentou num banquito junto ao lume. E eu metido no quarto cheio de medo, já esperando que fosse este o meu fim ditado pelo cazumbi. Depois a mulher disse-lhe assim: "Sempre pensei que ias passar a noite no local do funeral". -Não querida, não posso passar uma noite sem ti! -Respondeu ele.


A mulher com muita calma, à medida que rachava lenha e a colocava no lume, disse-lhe: "Esteve cá há pouco tempo o Rodrino (empregado do ICA de Angola) perguntando por ti; ele trazia umas garrafas com cabeças brancas. Devem ser bebidas! -Ah! Sim! -Exclamou o marido. Deve ter recebido o seu salário; ele quando recebe compra sempre vinho. Deixa-me ir lá ter com ele enquanto é cedo. -Acrescentou o marido no activo. Levantou-se na escuridão indo para a casa do Rodrino. Foi o que me safou naquele momento. A mulher ainda esperou algum tempo mais, e chamando-me para que saísse dizendo: "Não te desanimes; podemos marcar outro encontro. Aparece um pouco fora de hora, depois de amanhã, que é Sábado, dia em o meu marido passa a noite como guarda na padaria do senhor Dimas. Podemos encontrar-nos junto à Igreja. Tento tudo combinado, meti-me ao caminho e segui para casa. Quando chegou o dia do novo encontro, já bastante de noite, lá segui para o grande perigo. Fui directamente ter à Igreja (Católica) onde a moça tinha sugerido o meu encontro com ela. Mas ela não apareceu, pois não há segredo que não se descubra. Desconheço como tudo isto veio a ser descoberto. Aconteceu que o marido daquela mulher, tendo conhecimento do combinado, naquela noite já não foi à padaria. Arranjou dois dos seus irmãos e me fizeram uma emboscada. Quando eu procurava a mulher, repentinamente fui cercado por três operacionais aptos a combater em favor da cavalaria. Temos, pois, a minha cavalaria (ego) dentro da infantaria (corpo externo desarmado), porque a cavalaria (egos feridos) do clan era apoiada pela infantaria munida de paus. Recebo a mensagem do inimigo ferido (chifrado) mas agarrado à bandeira da sua casa: "Tu que fornicaste com a minha mulher na minha cama e dentro da minha casa (penso eu, o sátiro: maldito cazumbi espalhador de boatos infundados!), hoje vamos dar-te uma lição. Não julgues que não sei de tudo quanto tens feito com ela a partir da fonte da água". Agarrou-se ao meu casaco, passou-me uma rasteira e caí no chão. Apertou-me a garganta com força, enquanto os seus band of brothers batiam-me com os chifres (paus especiais para estes momentos, estou a ironizar em dores!!). Como eu estava sufocado, tentei levantar-me, mas entretanto recebi uma cacetada na cabeça que me deixou desacordado. Os torturantes, pensando que tivesse morrido, foram em busca de água, pelo sim pelo não, para despejar em mim, para ver se eu recuperava os sentidos. Depois deixaram-me abandonado, fiquei estendido no chão, e foram-se embora. Tendo passado algumas horas em terra de ninguém, recuperei os sentidos perdidos no Registo Civil do dia da cerimónia civil. Levantei-me e estava todo molhado. Fui para a minha casa, e quando lá cheguei lavei todas as minhas feridas com água quente e salgada. Na cabeça tinha um grande inchaço, precisamente no local da pancada com os cacetes. No dia seguinte era Dominga, em que o passei todo a dormir e a tratar dos ferimentos. Na segunda-feira fui para o trabalho, e como ainda tinha coágulos de sangue nos olhos e o inchaço na cabeça, na Administração perguntaram-me o que me havia acontecido, e me desculpei dizendo que tinha dado um tombo com uma bicicleta motorizada. Da parte da tarde, havia muito trabalho na secretaria, e só saímos do trabalho quando era já noite. Fui para casa para continuar o tratamento dos ferimentos das torturas. De repente ouvi fora o ruído de uma bicicleta; era o cipaio Pedro Kambuala que vinha dizer-me que o administrador me chamava. Perguntei-lhe o que tinha acontecido na Administração para que necessitassem de mim. Disse-me que estavam lá uns agentes da PIDE que me queriam falar; talvez seja para lhes indicar o caminho do sobado Nele. Para chegar mais depressa pedi emprestada a bicicleta ao cipaio. Quando lá cheguei, o Administrador e o secretário sairam apressadamente com o Land Rover e desapareceram. Fiquei eu só com os agentes da PIDE. Um deles, o Reis, era o carrasco que matava muita gente inocente, principalmente os mais civilizados. Todo o indivíduo que ele soubesse que vestia roupa limpa e passada a ferro, logo o prendia, e dizia sempre: "Este é um dos tais". -De seguida arranjava-lhe uma falsa acusação. Eles então levaram-me para dentro da secretaria da Câmara e me mandaram sentar. Colocaram as pastas em cima da mesa, e o carrasco do Reis tomou um papel para escrever a minha identificação.


96 Quando eles o faziam, eu pensava para comigo: "Estes gajos são tão zelosos, que para lhes indicar um caminho tinham que me identificar". Mas estava enganado. Mal eu sabia o que a seguir me iria acontecer. No fim da identificação, então, o mesmo carrasco olhou para mim e disse-me: "Vou fazer-te algumas perguntas, e se me mentires vou matar-te de porrada". Virou-se para o lado dos papéis, como que buscando alguma coisa. Nesses breves momentos, procurei lembrar-me se haveria cometido algum crime contra o Estado Português, mas não deduzi nada que houvesse feito digno de castigo. Depois disse-me: - Conheces o Domingos? - Sim, conheço! -Respondi eu. Ali começava o interrogatório, perguntando depois: - Quem são os teus amigos? -Era a primeira pergunta do Reis. - O senhor é um dos meus amigos! -Respondi. - Eu sei que sou teu amigo, mas refiro-me àqueles teus amigos que se juntam contigo para escutar programas subversivos na rádio (referia-se a programas transmitidos do Congo, onde estavam sedeados os movimentos terroristas) contra o Estado Português. Eu disse que não tinha rádio, e ele me respondeu: - Se não tens rádio é provável que costumes reunir-te com os outros na casa do Domingos, para escutar esses programas subversivos que vos incitam contra os brancos. Costumas ir de motorizada às aldeias, não é para incitar os povos à rebelião contra os brancos? - O senhor fala à toa. Isso que está a dizer sabe muito bem, em consciência, que é tudo mentira, pois não têm provas disso. Dito isto, os dois se levantaram e me agrediram brutalmente. Batiam-me contra as paredes, deitavam-me ao chão dando-me pontapés na barriga. Quando se cansavam de me bater, faziamme novas perguntas para me espancarem novamente. Como eu deitava muito sangue pela boca e narinas, e o chão já estava sujo de muito sangue, obrigaram-me a tirar o casaco para com ele limpar o chão. No fim das torturas, sempre me largaram e me deixaram ir para casa. Quem me tinha acusado falsamente à PIDE foi o Administrador com quem trabalhei, chamado António Matoso Quaresma, que era um verdadeiro carrasco, pois tinha contribuido para o desaparecimento de muitos angolanos. No dia seguinte, quando voltamos ao trabalho, um escriturário português, chamado Luís, disseme que em Portugal havia rebentado uma revolução liderada pelo General António de Spínola, o qual derrubou o governo fascista e religioso de Salazar, e a PIDE desmantelou-se. Por este motivo as guerras coloniais irão terminar. O 25 DE ABRIL, A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E A GUERRA CIVIL O golpe de estado em Portugal, feito por um grupo de oficiais, conhecidos por os "Capitães de Abril" e depois liderado pelo General António de Spínola, como Chefe de Estado, pôs termo às guerras coloniais e desmantelou a PIDE. Devido a este sucesso (evento revolucionário), os movimentos que lutavam pela independência de angola, todos eles regressaram do Congo. Eram três os movimentos: MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), liderado por Holden Roberto, e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), liderada por Jonas Malheiro Savimbi (vide wikipedia.org/wiki/jonas_Savimbi), que cultivou um relacionamento estreito com a clerezia protestante conservadora e fundamentalista de direita estadunidense e com a Igreja Congregacional (lusotopie.sciencespobordeaux.schubert.pdf). Estes sucessos (eventos) afligiam muitos portugueses, pois estavam certos de que os angolanos haveriam de se vingar das atrocidades que deles recebiam diariamente. Por tudo isto os angolanos citavam o provérbio "Omu ya pitile limo, haimo iya yi pita lamola", o que significa em português "Poronde passara com a gravidez, tornará a passar com o filho". É um provérbio que tem o mesmo sentido de "Pagar com a mesma moeda". Foi a partir daqui que começou a confusão, e a começar a reinar o desassossego para os portugueses presentes em Angola, mas também o princípio da instabilidade e desentendimento entre os angolanos, divididos que estavam nos três grupos de guerrilheiros, com interesses ideológicos antagónicos. Os carros dos portugueses eram mal tratados nas ruas e nas estradas, e


quem reagisse era espancado. Até o carro do Administrador do concelho do Mungo foi mal tratado. As lojas foram saqueadas e os proprietários espancados. O poder dos portugueses havia terminado. Muitos deles eram mortos indiscriminadamente nas ruas, nas residências, etc. Um angolano entrou numa loja de um comerciante português, chamado Real, e pediu um litro de vinho. Quando o comerciante pediu que lhe pagasse, o angolano que ali fora já com a intenção de provocar, fez-se de muito irritado e insultou o português. Repentinamente, um grande grupo de homens e mulheres invadiram a loja e pilharam tudo o que lá havia. O lojista vendo aquela cena tão ignóbil, foi em busca de uma caçadeira e disparou contra os saqueadores, chegando mesmo a matar alguns. Entretanto os líderes dos movimentos de libertação entraram em acordo com Portugal para tratarem de negociar a descolonização da colónia, conversações previstas e realizadas no Alvor, do qual a independência de Angola foi estabelecida para 11 de Novembro de 1975. Depois deste acordo os três movimentos ainda se entenderam por algum tempo, fazendo campanhas de sensibilização entre as populações. Nas tribunas, ainda juntos, falava primeiro o MPLA, depois a FNLA e em último a UNITA. Faziam assim em todas as tribunas. Todos falavam no sentido de se fazerem as eleições, para que cada cidadão escolhesse livremente o líder para governar o país. Infelizmente, quando tudo parecia ir no bom caminho, o MPLA lança na rádio um programa chamado "Kundipanguela", totalmente hostil para a FNLA e a UNITA. Era o princípio da guerra civil em Angola, a qual viria a dizimar milhares de vidas. Num Shabbat (Sábado), a vila do Bailundo ficou repleta de pessoas que faziam a sua vida normal, com compreas e vendas do dia-a-dia. Todos os estabelecimentos estavam a abarrotar de gente, bem como as ruas. Repentinamente surgiu uma carrinha de caixa aberta em que um branco deu um brado de guerra. Toda a gente entrou em pânico. Muitos deixaram as suas compras em cima dos balcões das lojas para fugir. No espaço de pouco tempo, a vila ficou deserta. Eu fugi no lado oposto à nossa residência, mas voltei para trás, atravessando a vila em que havia guerra. Quando estava em frente ao edifício dos Correios, surgiram três viaturas carregadas de militares, armados até aos dentes. Era um carro de cada movimento. Fiquei aflito, pois se se confrontassem naquele momento, eu não escaparia. Era a FNLA e a UNITA contra o MPLA. Estes dois guerreavam o MPLA por ser de ideologia comunista, dizendo que não queriam o comunismo em Angola. Naquele recontro dos três movimentos, quem falou primeiro foi o Comandante do MPLA, chamado Vilinga. Queria expressar-se em português, mas como não sabia bem o português falou em umbundu, citando o apotegma que diz: "Ene akuatu wa tu yombe-keli okanyoha vombenge", que quer dizer "Camaradas, vocês esconderam-nos uma cobrinha na cabeça" (Traição Secreta). Depois continuou: "Nós fomos à mata apanhar lenha, e quando voltamos soubemos da cilada que os camaradas nos armaram, de quererem guerrear contra nós. Em toda a parte, para se fazer uma guerra é necessário que essa guerra seja declarada, e nós não sabiamos de nada. Se somos todos filhos de Angola, e alcançamos já a independência, que ganhamos em fazer a guerra, matando-nos uns aos outros? Se alguma situação não correr bem, devemos conversar". Entretanto eu saí daquele lugar e fui até a uma rotunda da vila onde me sentei para observar os movimentos militares. Vi passar viaturas das FAPLAS com soldados do MPLA, que se dirigiram para o quilómetro 5. De tarde, quando regressaram ouvimos um grande tiroteio, pois tinha caído numa emboscada que o FNLA lhes armara, matando dezoito soldados das FAPLAS. Na noite daquele mesmo dia houve um grande tiroteio na vila do Bailundo, em que a FNLA e a UNITA escorraçaram o MPLA. Depois todo o sul de Angola passava a ser dominado pelos dois movimentos, que entretanto ainda se entendiam. No Mungo, o responsável da Unita queimou a bandeira do MPLA. Iam também passando constantemente aviões que transportavam os portugueses para Portugal, fugindo ao desespero e deixando todos os seus haveres, que imediatamente eram saqueados. Passado algum tempo a UNITA e a FNLA desentenderam-se e começaram a fazer a guerra uma contra a outra, tendo depois a UNITA escorraçado o FNLA, ficando ela só a dominar todo o sul de Angola.


98 Foi o Presidente Savimbi quem presidiu às cerimónias da Independência no Huambo no mesmo dia 11 de Novembro. Estava determinado que no Dia da Declaração da Independência, no Huambo, as bandeiras de Portugal e da UNITA desfraldassem juntas, e quando a bandeira de Portugal descesse a da UNITA fosse içada simultâneamente, mas aconteceu que nesse dia não haviam portugueses presentes para cantar o hino de Portugal, sendo este entoado por angolanos. Depois de declarada a independência começou a sério a guerra fraticida entre angolanos, em luta pelo poder. O MPLA era apoiado pela Rússia e a UNITA pela África do Sul e América, que na altura ocupava todas as cidades e vilas do sul de angola. O MPLA contratou com Fidel Castro o envio de sessenta mil cubanos para lutarem contra os outros dois movimentos rivais, e avançaram para o sul com blindados (tanques) carregados de armamento pesado e com aviões Migs. O Presidente da Unita ordenou às suas tropas para abandonarem todos os lugares e se introduzissem nas matas, e assim utilizarem a guerra de guerrilha. Os militares da UNITA que estavam acantonados no Mungo não receberam esta mensagam atempadamente, e quando ali chegaram os cubanos com 18 blindados (tanques) de guerra os militares da UNITA resistiram-lhes por algum tempo, mas tiveram mesmo que desistir e escaparem de qualquer maneira. Quando os cubanos chegaram ao Mungo, a primeira coisa que fizeram foi procurar o indivíduo que tinha queimado a bandeira do MPLA, chamado Artur Chilesso. Foram a sua casa, mas ele já havia desaparecido de lá. Saquearam-lhe a casa, e entregaram os bens ao povo, mas o povo depois os restituiu pois eram todos familiares. Mas um dia os cubanos apareceram secretamente e encontraram o homem em casa, prenderam-no e o levaram para o Huambo para que fosse julgado. No julgamento ele disse que quando recebeu da UNITA as ordens para expulsar os soldados do MPLA do Mungo, sabendo que eram quase todos os seus parentes, conversou com eles para queimarem todos os papéis que estivessem na delegação do MPLA, menos a bandeira que estava dobrada e guardada, e por este motivo não houve guerra no Mungo. Mediante esta afirmação deixaram-no em liberdade. Eram dias terríveis. O MPLA ocupava as cidades e vilas, e a UNITA as florestas, de onde saiam com emboscadas nas estradas. Destruiam prédios e pontes, e o MPLA destruia as estradas com os tanques quando por elas passavam. Todas as povoações que a UNITA ocupasse por algum tempo, eram bombardeadas pelos Migs do MPLA, destruindo prédios e outros bens das pessoas. Foi assim que Angola ficou destruida. As populações viveram uma grande catástrofe; dificilmente se conseguiam os bens para a sobrevivência das populações. Era muito difícil encontrar-se um pou de sal; passava-se muito tempo nas filas para se obterem os bens de primeira necessidade, pois o MPLA já adoptava o mesmo regime russo. Os meios de transporte, como os camiões de transporte de mercadorias, não circulavam livremente, pois eram atacados e emboscados com acções feitas pela UNITA ao longo das estradas. Ora foi numa dessas emboscadas feita pela UNITA, contra uma coluna de viaturas, que uma munição (bala) traiçoeira atingiu mortalmente a mulher feiticeira da Missão, a que me perseguia com as suas feitiçarias. Desde então fiquei livre dela; já não me aparecia mais em sonhos e em visões com mulheres desnudas, serpentes e monstro diabólicos, o que me provocava muitos pesadelos. Com a morte dela fiquei completamente curado e aliviado. Tendo morrido a mulher que me tinha colocado o espírito satânico de adulterar as mulheres alheias, tive que ir a um Centro Evangélico para confessar os meus pecados, pois eu estava completamente seguro mas com a necessidade de penitência arminiana. A Missão Evangélica do Bailundo, tinha oito centros e cada um tinha um pastor, muitas aldeias e mais de mil fiéis. Cada aldeia tinha um catequista que ensinava a Palavra de D-us aos membros da Congregação. Estes centros também eram designados por pastorados. Durante todos os meses da estação seca, todos os membros de cada pastorado juntavam-se a uma aldeia para celebrar a Santa Ceia, resolver os problemas da Igreja, realizar casamentos, baptizar as pessoas, dedicar as crianças e confissões dos que tinham transgredido alguma lei da Igreja.


Ora, nós tinhamos chegado ao nosso Centro numa quinta-feira e fomos logo encaminhados para a aldeia designada para a Santa Ceia do mês. Encontramos tudo preparado; as cubatas todas caiadas, a aldeia toda capinada e limpa. Tinham feito um ochingalala muito grande, espécie de um barracão, feito de paus, capim e folhas de bananeiras. Também tinham morto um boi e preparado muita comida para os que viriam participar naquela reunião de Santa Ceia. A noite desse mesmo dia em que chegamos a essa aldeia, tinha-se logo começado com todas as actividades daquela reunião. Depois do Culto divino, cada catequista dava o relatório sobre o andamento do trabalho de D-us na sua aldeia. No dia seguinte que era sexta-feira, logo de manhã o barracão já se encontrava cheio de gente e começava-se logo a organizar todos os trabalhos. O Secretário da Igreja punha tudo em ordem, fazendo listas dos que iam ser baptizados, etc. À tarde dava-se o ensaio dos coros que iam ser cantados no Culto de Dominga e os catequistas examinavam os catecúmenos que iam ser baptizados. No dia seguinte, que era Shabbat, de manhã as pessoas estavam livres para poderem ir aos rios tomar banho, lavar a roupa e fazerem todos os preparativos do Culto divino de Dominga. A tarde desse mesmo Shabbat, tinha tocado o sino para toda a gente ir ao barracão a fim de assistirem às confissões dos transgressores do sétimo mandamento da TORAH que diz: "Não adulterarás". Quando lá entramos, nós os tais transgressores daquele mandamento, fizeram-nos sentar num grupo, conforme a relação que o Secretário tinha na mão. Depois do Culto, o Secretário começava a fazer a chamada dos que iam se confessar. O primeiro que tinha sido chamado, subiu ao altar e os olhos de todos no barracão estavam fitos nele. Ele, então começou logo a confessar dizendo: -Confesso perante D-us e perante a sua santa Igreja que tenho transgredido o sétimo mandamento e prometo que nunca mais tornarei a pecar. Depois levantou-se um diácono e disse: "Explica como cometeste esse pecado tão terrível". O pecador disse: "Foi no Natal em que o meu primo católico tinha-me convidado a passar o evento com ele. Depois de termos comprado na loja do senhor Santos, arroz, macarrão... O meu primo tinhaconvidado duas raparigas católicas para servirem de cozinheiras. À noite, na véspera do Natal, fomos à Igreja católica ver os dramas do nascimento de Jesus. Quando voltamos do templo fomos para casa e encontramos a comida já pronta. Comemos com as raparigas num espírito de integração com aquelas de quem ninguém pergunta (não se convida os empregados para a mesa). Quando fomos para a cama levamos as moçoilas connosco (o que enerva os empregadores que me estão a ouvir; demasiada integração laboral). Aconteceu que a que tinha dormido comigo ficou grávida e por este motivo, o padre mandou prender-me e fui levado amarrado ao Posto Administrativo e dalí fui levado para os serviços forçados. Fiquei lá um ano de castigo e graças a D-us, voltei e peço que a Igreja me receba". A seguir levantou-se um catequista e disse:"Quando fizeste essas vergonhas não sabias que era pecado perante D-us?" -Sabia; pequei por engano carnal. -Respondeu o pobre pecador. Na mesma altura levantou-se o catequista da aldeia do pecador e começou a dar o seu testemunho dizendo: "Desde que este nosso irmão saiu do castigo por ter engravidado uma rapariga católica, tem-se comportado bem. Tem feito todos os trabalhos da Igreja e nunca faltou aos Cultos divinos; acho que é lícito ser recebido pela Congregação. Ele podia casar com a rapariga conforme o que a nossa Igreja manda: que se um rapaz engravida uma rapariga tem de casar com ela. O padre não deixa que uma rapariga católica case com um rapaz da Igreja protestante. Nesta altura, levantou-se logo o pastor e disse ao pecador: "Senta-te, o teu pecado foi perdoado e não peques mais". A seguir o Secretário da Igreja, chamou uma rapariga que também subiu ao altar para confessar o seu pecado e disse: "Confesso perante D-us e perante a sua santa Igreja que tenho transgredido o sétimo mandamento e prometo que nunca mais tornarei a pecar". Também foi compelida a explicar como tinha cometido o seu pecado e ela disse: "O homem com quem cometi o adultério já é casado e foi muito exigente na sua conquista. Começou e resistiu durante muito tempo até seduzir-me, acabando por me convencer". Aí um diácono levantou-se e disse: "Quando o homem te convenceu a pecar apalpou-te nas chuchas?" A rapariga disse: "Se me apalpasse nas chuchas não morria?"


100 O mesmo diácono ainda disse: "O tal homem quando dormiu contigo foi dentro de uma casa ou foi numa mata?" A rapariga contestou: "Não me faças essas perguntas tão absurdas". O pastor disse: "Assim respondes a um diácono?" Ela emudeceu e no entretanto, levantou-se o catequista da rapariga, e deu o seu testemunho sobre aquela rapariga e depois o problema dela ficou resolvido. A seguir o Secretário da Igreja tinha chamado um outro pecador que também subiu ao altar para se confessar, mas antes de abrir a boca, foi logo interrompido pelo catequista da aldeia do pecador que disse: "Este homem tem um problema a resolver. Ele praticou a prostituição com uma rapariga e engravidou-a, mas ele afirma que não. Na nossa Igreja existe lei de que se alguém que tiver engravidado uma rapariga solteira, e ele também for solteiro, tem que casar com ela. Ele não quer casar com ela alegando que não foi ele quem a engravidou". O Pastor interveio e disse: "Então você engravidou a rapariga e não quer casar com ela porquê?" O pecador respondeu: "Não fui eu que a engravidei porque todas as vezes que me tenho deitado com ela tenho utilizado preservativos". Mediante esta afirmação, parecia que rebentava uma bomba. Toda a gente agitada e a gritar muito alto, dizendo: -Bandido ordinário! Então tu arranjas material para violar as mulheres? O Ministro ordenou: "Expulsem este bandido para fora! -De imediato, levantou-se logo um grupo de homens e o expulsaram do barracão aos empurrões. Depois desta cena tão ignóbil, o Secretário chamou mais um que subiu ao altar. Após o habitual acto penitencial ilustrativo e pedagógico de formação contínua, um diácono chamou-me. Para abreviar, tendo em conta a paciência dos leitores, disse a certa altura: "Eu estou certo que nunca mais serei um homem com espíritos de prostituição. Agora estou completamente curado". Como eu era branco (mestiço especial), não me complicaram visto que esta Congregação respeitava sempre os brancos. Aquelas confissões estenderam-se até ao anoitecer. Se não houvesse absolvição, o grupo coral ia à casa do pecador compulsivo, arrombavam a porta da casa do transgressor tirando tudo para levarem para a sua lavra. Se tiverem um ochipundo (palhota da lavra) arrumavam tudo dentro. Se não tiverem o ochipundo, arrumavam tudo em baixo de uma árvore. Se for um trabalhador da Igreja, quer seja professor, pastor, etc., era logo despedido e ficava fora da Igreja cinco anos como excomungado. A transgressão de outros pecados, pecados leves cometido por debilidade ou imprudência, não eram punidos. No dia seguinte era a Dominga. Logo pela manhã, as pessoas vestiam as suas melhores roupas e preparavam-se para o Ofício dominical. O secretário ponha por ordem todos os trabalhos do Culto. Fazendo sentar em grupos todos os congregantes que tinham deveres. Primeiro era o grupo das mulheres, que tinham as crianças para dedicação. A seguir os que iam ser baptizados, depois os catecúmenos que iam também ser dedicados e por último os excomungados em final de carreira que iam ser recebidos pela Igreja. Depois começava a liturgia simples reformada. Primeiro, o Secretário lia a Invocatória, dizendo: "Desde o nascimento do sol até ao se ocaso, seja louvado o Nome do S-nhor. Entrai pelas portas dele com louvor, e em seus átrios com hinos. Louvai-o e bendizei o seu Nome". Depois o Secretário citava o nome de uma criança e o Pastor segurava-a no seu colo e dizia: "Fulano, pela fé dos teus pais, eu te dedico ao D-us Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, que a benção do Altíssimocaia sobre ti durante toda a tua vida, Ámen". Depois da dedicação das crianças, vinham os baptismos. O Secretário chamava o nome de alguém que ia ser baptizado que saia do grupo e ia ajoelhar-se junto ao pastor que lhe dizia: "Fulano tal, acreditas que Jesus morreu para te salvar?" -Sim, acredito. -responde o baptizando. Depois o ministro tira um punhado da água de uma tigela que um diácono segura na mão, e diz: "Eu te baptizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Que a benção do Altíssimo e a sua Graça esteja sempre contigo". Depois dos baptismos vinha a dedicação dos catecúmenos e por último eramos nós os transgressores da prostituição. Mandaram-nos levantar e o Secretário dizia: "Diácono Samuel, exorta os retornados da Igreja". Então o tal Diácono de nome Samuel, aproximou-se a nós e disse: "Vocês tinham abandonado a Igreja. Rodearam o mundo e não acharam pastagem e


resolveram voltar aos antigos pastos elaborados por mãos eclesiais, voltar para a mesma Igreja. A Congregação não fecha as portas para quem quer realmente voltar. Isto não quer dizer que não sereis mais tentados. O mundo está cheio de raparigas bonitas e belos rapazes que vos irão tentar e atrair. Cuidado e não pequem mais". Depois citou um ditado em umbundu dizendo: "Nda o pita po cisingui ca Ku nyehele osala petameko" ("Se tornares a passar por baixo do ramo que te tinha tirado o barrete, baixa a cabeça"). "A Igreja que vocês tinham abandonado sempre mantem-se firme e nunca vacilou. Se vocês brincam com o pecado, as consequências serão vossas e não da Congregação visto que ela nunca se perde; vocês é que se perderão. Uma faca é que se perde na mata e não é a mata a perder-se na faca. São Paulo disse que o salário do pecado é a morte. Quem estiver no aprisco do S-nhor, engorda-se porque os seus mandamentos são fiéis e dignos de aceitação. O porco cria-se fechado num curral, no entretanto engorda-se. O boi que vagueia aqui e acolá nunca se engordou". Depois desta exortação, o coro levantou-se e começou a cantar o seguinte hino: É franca porta divinal, Aberta a todo o mundo. Por ela o pecador mortal Avista amor profundo Oh Graça imensa! Pois assim A porta aberta fica a mim! Entrai! De toda a condição Graça e perdão pedindo! Entrai! Buscando a salvação! Sereis aqui benvindos! Aberta, sim! De par em par! Entrai [arminianos] com grande urgência! Deus aos constantes Vai mostrar Real munificência. Deposta a cruz, o vencedor Nos céus entronizado, Repousará com o Senhor, Seu Deus e Rei amado. Depois seguiu-se o Sermão da Palavra feito pelo Pastor. No fim do sermão foi a Santa Ceia que os Diáconos distribuiam para toda a gente. Quem estivesse fora da Igreja não lhe é permitido aceder a participar na Sagrada Comunhão. Depois da Santa Cheia, o culto estava no fim e todos saiam indo para as casas almoçar. A noite era entregue ao culto dos coros; cada aldeia cantava um coro que se prolongava até quase à meia-noite. Saímos do barracão e fomos para as casas para dormir e dormir. Naquela noite tive um sonho digno de realce. Sonhei que estava perante um rio muito grande e largo que mal se via o que estava na outra margem. Um rio com água muito límpida e cristalina e era muito profundo. Nas suas margens havia muitas árvores que produziam muitos frutos e vi também muitas crianças no mesmo rio. A tal água corria com muita velocidade para baixo. Os passarinhos cantavam alegremente e em toda a parte brotavam lindas flores. Quando estive a apreciar estas belezas todas, apareceu-me um personagem vestido de bata branca até aos pés e com lábios abertos para uma lectio divina memorial: "Estás a ver a água do rio?" Eu disse-lhe que era "um rio maravilhoso; nunca tinha visto água tão límpida e cristalina como aquela!" Então iniciou um memorial de Sião (Joel 4:17): "Esta água que tu vês representa o sangue de Cristo que purifica todo o pecado. Todo o pecador, que reconhece o seu pecado e o deixa, é purificado nesta água. Esta água lava todo o tipo de pecado". Depois trouxeram uma toalha muito suja com várias sujidades, como óleo de mecânica, gorduras, tintas, etc., que foi metida naquela água e ficou logo branquinha como a neve e disseme o Homem: "É assim que o sangue de Cristo purifica os pecados. O dono do rio, o Cordeiro,


102 mandou os seus servos plantar estas árvores que produzem bons frutos para saciar a sede dos pecadores arrependidos que deixaram os seus pecados. Os frutos que tais árvores produzem são as alegrias que um pecador desfruta quando deixam os seus pecados (crimes), o amor, pois todo o amado arrependido passa a ser amado pelo seu Amante. Também produzem todos os frutos do Espírito Santo que são: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, fé, mansidão, temperança, etc. Depois eu perguntei porque é que as crianças tão pequenas brincam no rio muito profundo e não se afogam? Ele disse-me que quem estiver no amor de Cristo nunca se afoga. Depois mostroume os peixinhos que nadavam alegremente e disse-me: "Estás a ver os peixes todos satisfeitos a nadar alegremente sem nenhum receio de mal?" Ainda disse-me: "Da maneira como a água corre, simboliza como o Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo se propagou rápidamente ao mundo inteiro entre as nações e línguas". Depois aquele personagem levou-me para junto de uma fogueira muito grande. "O fogo representa Satanás e a água representa a Cristo. Observa com muita atenção no fogo e verás que não há nenhum ser vivo como na água. Todo o ser vivo que for para o fogo morrerá imediatamente. Se o fogo representa o Diabo, a obra dele é matar e destruir. Mas a água que representa Jesus, pode eliminar Satanás. Foram buscar água e despejaram-na na fogueira que se apagou imediatamente. A seguir o mesmo personagem levoume para uma outra fogueira que tinha uma panela a ferver, e disse-me: "Em baixo há fogo que representa o espírito satânico e em cima há a água que representa o Espírito Santo. Entre os dois Espíritos encontra-se o fundo da panela. O Espírito que está em cima tenta ir para baixo para destruir o Espírito satânico. Não tendo por onde passar devido ao fundo da panela, fica a ferver e depois desaparece e a panela fica seca". Depois foram buscar um fio de aço e fizeram um buraquinho no fundo da panela, deixando a água passar gota a gota para o fogo que depois ficou todo apanhado. Disse-me ainda aquele personagem: "Jesus pode destruir Satanás. O fundo da panela representa os nossos corações. Se não deixarmos o Espírito Santo entrar para destruir a força satânica, morremos". Depois o meu sonho foi interrompido devido a um grande tiroteio das armas do MPLA que destruiam uma base da UNITA que estava perto do Centro. Era o tempo da mortandade, pois outros morriam nas prisões acusados de colaborarem com o "inimigo". Num ano com pouca chuva, o rio Culele ficou quase seco, e quando uma ocasião passei numa das suas margens, vi muitos cadáveres no leito do rio. Era o local onde os homens da segurança matavam as pessoas que estavam nas cadeias, cujos corpos eram lançados ao rio. Era assim em todos os rios. Um português, uma ocasião, ao ver as pessoas que eram levadas para o fuzilamento, atreladas às viaturas e presas com cordas pelos braços e arrastadas por uma rua a grande velocidade, dizia: -Isto não é humano; vou-me daqui para fora. Nas confrontações, as munições perdidas matavam muita gente. Por vezes os Migs voavam de noite enquanto as pessoas dormiam, e bombardeavam as aldeias, morrendo muita gente que nada tinha a ver com a guerra. O MPLA reabriu o campo de concentração de S. Nicolau, campo esse montado pela PIDE, e onde o MPLA estabeleceu a DISA, continuando a servir para fins políticos. O povo estava desta maneira entre a espada e a parede. Os que estavam a favor do MPLA eram perseguidos fortemente pela UNITA, e vice-versa. Um ditado em umbundu diz: "Se dois elefantes lutam pelo capim, é a erva quem sofre e não os elefantes". Uma ocasião, eu e mais um amigo meu fomos acusados de termos colaborado com o inimigo. Por isso, numa madrugada fomos presos e levados para a Direcção de Segurança, da UNITA, onde havia uma prisão. Estávamos à espera de ver o que nos iria acontecer. Na altura alguns militares trouxeram manietada uma adolescente de doze anos, juntamente com o sei irmão de oito anos, capturados das mãos do inimigo. Como haviam passado dias sem comer, resolveram fugir. Infelizmente foram apanhados e levados para a Direcção de Segurança da UNITA para serem julgados, e dizerem a razão porque fugiram. Fugiram porque tinham muita fome. Assim, o Chefe mandou que fizessem pirão num prato grande com outro cheio de feijão a servir de conduto. As crianças comeram até fartar, mas como o pirão era muito não conseguiram comer tudo. No fim de comerem, a polícia da prisão reuniu


um grupo maior de crianças da mesma idade para torturarem, com paus, os dois irmãos incluídos, até que morreram. Depois foi a nossa vez. Chamaram-nos para interrogatório a começar pelo meu amigo. Como disseram que era tudo mentira, tudo quanto ele havia dito, com um alicate puxaram-lhe os testículos até quase perder os sentidos, o que o forçava a berrar muito alto. Como era já tarde, meteram-nos na cadeia, sem que eu fosse interrogado. No dia seguinte, muito cedo, antes do sol nascer, tiraram-nos da prisão juntamente com outros presos e conduziram-nos a uma mata fechada. Depois de termos caminhado alguns quilómetros a pé, um dos que nos conduzia disparou alguns tiros para o ar, e um outro dentro da mata respondeu com outros disparos. Era o ponto de encontro. Quando lá chegamos, encontramos um homem fardado e, em certo momento, mais três militares conduziam um homem amarrado dizendo: "Capitão, eis aqui o homem que o senhor nos mandou buscar". Enquanto aquele capitão falava com o homem, ficamos surpreendidos quando um grande grupo de pessoas, homens e mulheres, vieram em nossa direcção, o tal ponto de encontro. Eram todos prisioneiros como nós, e lhes ordenaram para fazerem uma fila. Um militar tomou um canjavil, que é um machado gentílico, cuja lâmina tinha só dois centímetros de largura, cuspiu nas mãos e segurou-o com força. Foi um momento terrível; tudo à volta respirava normalidade; o sol brilhava e o vento soprava suavemente; nada tinha mudado. Um pássaro voava de uma árvore para outra, não se preocupando com o terrível drama que estava acontecendo ali. Então começou a carnificina. Dois militares da UNITA, seguravam os braços de um dos prisioneiros, um em cada braço, torcendo-os para trás, um outro militar pegou-lhe na cabeça, fazendo inclinar a pessoa para a frente, e o quarto deu-lhe deu-lhe um golpe na nuca com o machado. Depois vinham outros militares para arrastar o morto dali. Todos os golpeados gritavam como o gritar de um vitelo quando é morto. Quando chegou a vez de uma mulher, ela gritou muito alto e dizia: "Ñueli ño ka njipayi!", o quer dizer "Abusem de mim só, não me matem!" Infelizmente o seu pedido não foi atendido, e foi também degolada como os outros. Depois foi a vez de uma rapariga que estava grávida; o responsável daquele morticínio disse-lhe: "Tu que fostes engravidada por um inimigo, passa para ali, -tirando-a da fila e ordenando: tirem fora o que esta gaja tem na barriga, que foi emprenhada por um inimigo". Os outros obedecendo à ordem, estenderam-na no chão com a barriga para cima, e espetaram-lhe um sabre no ventre para lhe tirarem o bebé que tinha cerca de seis meses. Foi na verdade um espectáculo horrível, aquele que todos presenciaram. Afinal, estes ainda eram piores assassinos que a PIDE. Quando chegou a minha vez, os dois militares pegaram nos meus braços com força e quando queriam torcê-los para trás, surgiu uma munição vinda de fora, a riscar o céu, passando rente às nossas cabeças. O zunir daquela bala, fez paralizar os cruéis massacres e pela nossa felicidade que ainda não tinhamos morrido, tudo aquilo foi detectado pelos soldados do MPLA que faziam patrulha naquela área das terras de Bimbe a sessenta e cinco quilómetros do Bailundo, que num instante se levantou um grande tiroteio para nos libertar. Os soldados da UNITA como eram poucos não resistiram e dispersaram-se todos. Depois da libertação, os soldados do MPLA levaram-nos para o Bailundo, estando sempre na eminência dos ataques da UNITA. A UNITA atacava sempre de noite. E quando atacavam muita gente morria. Os soldados do MPLA morriam às dezenas, mas também um número enorme da população civil, pois se uns morriam com as balas da UNITA, outros morriam com as armas pesadas do MPLA, estacionadas no morro do Bailundo, de onde disparavam indiscriminadamente contra a povoação. Se a UNITA conseguisse escorraçar as FAPLA, e tomasse a vila, então vinham os Migs bombardear o inimigo, matando civis e destruindo tudo. Um dia houve um ataque em grande escala da UNITA à vila do Bailundo, donde foram expulsos os soldados do MPLA, e pilharam todos os nossos haveres, e no fim, eu e a minha mulher, fomos levados pelos soldados da UNITA em grande fila como cativos de guerra, cuja fila fazia mais de cinco quilómetros de comprido, e nos levaram para a Jamba, Quartel-General da UNITA, no Quando-Cubango. Para lá chegarmos, caminhamos a pé durante dez dias e cinco dias em camiões, decarregando-nos no Likuwa, considerado como a base industrial da UNITA.


104 Dava a impressão de estarmos noutro mundo. Havia lá uma grande e boa organização e onde se encontravam milhares de pessoas. Ficamos alojados na Missão Católica que tinha muitos padres brancos e negros. Ao lado havia uma grande pista de aviação onde aviões americanos descarregavam muito material bélico. Não havia dinheiro, mas as pessoas tinham tudo, sem nada lhes faltar. As pessoas vestiam bem, e ninguém andava descalço. Cada base tinha um hospital com muitos medicamentos, e um grande stock de comida. Durante a semana tocava o sino duas vezes avisando que podiamos ir receber a comida que necessitassemos; em todas as habitações havia luz eléctrica, assim como nas ruas; as igrejas eram bem organizadas, com três denominações religiosas: católicos, evangélicos e adventistas. O hospital deCacuchi era muito bonito, de construção definitiva e com médicos vindos da África do Sul. Tinha grandes stocks de medicinas; havia todo o tipo de viaturas, pesadas e ligeiras, bem como autocarros onde as pessoas viajavam sem pagar. Os carros eram tantos, que eram precisos guardas para dirigirem o trânsito. O ensino ia até à décima segunda classe de escolaridade, e os livros de estudo vinham de Portugal. Os alunos andavam sempre sempre bem vestidos e com boa alimentação. Tinham também em todas as bases cinemas com assistência gratuita. Os professores eram competentes e tinham todo o material escolar necessário. As pessoas andavam bem nutridas comendo três vezes ao dia. Todos os dias se comia carne, de caça e de conserva, ida da África do Sul. Havia campos de futebol com os seus pavilhões. Também havia aeroportos onde os aviões pousavam todos os dias, levando turistas, missionários, agentes secretos e os bens necessários. Os "turistas" eram brancos, mas na maioria americanos. Aprendiam-se muitas artes, como carpintaria, mecânica, electricista de rádio, etc. Como havia um grande hospital, também se aprendia enfermagem. Muitos estudantes foram para os Estados Unidos, outros para a Europa e para outras partes do mundo, tirando cursos. A VORGAN, a emissora rádiofónica da UNITA (Galo negro) transmitia mensagens para todo o mundo. O material bélico que constantemente era armazenado em lugares prontos, designados por Mateguerra (material de guerra). Cada base (zonas povoadas pelos militantes da UNITA) era ladeada de baterias de lançamento de foguetes anti-aéreos, contra os aviões do MPLA, e havia muitas carcaças de aviões abatidos em todas estas bases. O MPLA constantemente lançava ataques contra estes lugares, não só ataques aéreos como terrestres, com muito armamento sofisticado, mas foram sempre derrotados neste ataque. Também a UNITA recebia da América armas anti-aéreas com a marca Stinger, as quais derrubaram muitos aviões inimigos. Eu e a minha mulher estávamos localizados na base de Luengue. Aqui havia um liceu onde eu fora colocado como escriturário, com docentes muito competentes, africanos e europeus. Perto daquela base corria um rio chamado Luengue muito rico em pescaria, mas também muito abundante em jacarés, hipopótamos e cobras aquáticas. Depois de muitos dias de ali estarmos, um rapaz foi nadar nesse rio, mas foi apanhado por dois jacarés que o despedaçaram em pouco tempo. Uma ocasião, estávamos a receber os géneros alimentícios trazidos da África do Sul. Um Mig tripulado caiu e dois pilotos cubanos tiveram que saltar de pára-quedas, caindo numa mata ao redor da base. Logo um grupo de militares saiu em perseguição dos cubanos, que apesar de alguma resistência foram capturados e levados para a base. Jonas Savimbi recebeu-os e tratouos humanamente durante alguns meses, e finalmente foram libertados, tendo recebido uma quantia em dinheiro. Era o que se dizia entre o povo. Seria uma legenda urbana? Mais tarde fomos novamente para a Jamba. Aqui deu-se um caso muito grave e triste. Foi uma atitude muito má do Presidente Savimbi para com as pessoas consideradas feiticeiras. Um dia Savimbi, apareceu sem farda nem com as insígnias de General, num local devidamente alterado. Levava nas mãos muitos papéis. Depois fez uma chamada, através dos papéis, dos nomes das mulheres consideradas e acusadas de feitiçaria, mandando que entrassem num grande barracão encharcado com combustível. Eram muitas as dezenas de mulheres que ali entrarem, fechandoas lá dentro. Ouviram-se depois os gritos das mulheres, gritos de terror, que pediam misericórdia, mas Savimbi nada se ralou com tais gritos. Depois ordenou que lançassem fogo no barracão feito com madeira seca, capim e erva seca, e no meio daquela cena horrorosa, ouviu-se o grito de uma mulher que tinha um filho de dois anos ao colo, que no momento de ali entrar levava o seu filhinho a mamar. Esta mãe aproximou-se da porta e rogou:


-Se sou acusada de feitiçaria, que culpa tem o meu filho que não é culpado de nada? -Um militar foi em busca da criança, e correndo foi junto do Presidente e disse-lhe que aquela mãe rogou para que o filho não morresse juntamente com ela. Savimbi tomou a criança nos braços e disse: "Filho de peixe também nada". Atirando-a para a fogueira, cujas chamas já eram muito intensas e altas. Pergunto: Afinal em que é que Savimbi, que se considerava cristão, era melhor que os da MPLA, considerados comunistas e ateus? Ao fim de cinco anos da nossa estada em Jamba, houve uma grande batalha no Huambo que durou 55 dias, onde o MPLA foi expulso da cidade pela UNITA, e que acontecera depois das eleições de 1992, eleições que Savimbi considerou condiderou fraudelentas. A partir desta data a UNITA dominou todo o sul de Angola, mas também algumas províncias do Norte. Um dia, um avião de grande porte levou-nos da Jamba até o Andulo, e do Andulo fomos em autocarro até ao Huambo para regressar ao Bailundo novamente, a nossa terra, e encontramos todos os nossos bens totalmente destruídos. Mas ainda não era o fim da guerra. Como estava em disputa o poder em toda a Angola, por isso a guerra ainda não havia chegado. Embora nesta guerra morrese muita gente, era uma guerra que não interessava a ninguém, interessando apenas aos políticos que lutavam pelo poder. O povo, esse, é que continuaria a sofrer. Quem morresse que morresse, nisso os políticos pouco se ralavam, e que para ir à tropa não era pela chamada mas pelas rusgas e buscas armadas que os movimentos políticos faziam, levando quem fosse apanhado mas principalmente os jovens, sendo muitos deles ainda crianças, e quem tentasse escapar era sumariamente abatido. Foi desta forma que muitas crianças se tornaram involuntariamente criminosas. Na verdade, uma guerra civil é sempre a pior das guerras. Chegamos ao Bailundo precisamente na sexta-feira designada sexta-feira sangrenta, em que o Presidente do MPLA, no poder, enviara uma força militar para as ruas de Luanda para abater a todos os que não falassem a língua Kimbundu, a língua das tribos do Norte. Como Luanda era o refúgio de todas as tribos de Angola, fugindo da guerra, neste dia foram milhares os que foram mortos nas ruas desta cidade. Foram necessários muitos camiões para recolher os cadáveres por toda a Luanda. Foi um genocídio autêntico, que alguém um dia terá que dar contas diante do Tribunal Divino. Foi isto que me ensinaram os Missionários que um dia chegaram ao Bailundo, e que bem hajam. Como a nossa vida estava constantemente ameaçada, e não conseguíamos vislumbrar qualquer futuro para nós, e também com todos os nossos bens totalmente perdidos, resolvemos aproveitar uma oportunidade de deixar Angola, e o Bailundo, a nossa amada terra, e fugimos, eu e a minha mulher, para Portugal, com a esperança de um dia voltar, o que aconteceu já com a minha mulher, ficando eu, actualmente como assistente numa Igreja Metodista na cidade de Braga, da qual sou membro, e exercendo o ministério de organista, e só D-us saberá se algum dia irei voltar à terra onde um dia nasci, mas não sabendo se lá irei ser sepultado. Mas a guerra lá continuou, e só terminaria com a morte brutal de Jonas Savimbi. Seria esta morte o juízo dos homens, ou o Juízo divino? Só D-us o saberá. Hoje só peço a D-us que torne a minha Pátria como uma terra de esperança para todos os seus filhos, a muitos dos quais eu peço perdão pela minha má conduta durante um bom pedaço de tempo, dominada que estava por forças satânicas. Sou um cristão arminiano. Não há volta a dar. D‟us salve Angola.


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Nota histórica sobre a Reconciliação: • Na Igreja primitiva, a Penitência tornou-se uma tábua de salvação para o pecador batizado. Mas propagou-se a prática de limitar o frequente acesso ao sacramento para evitar abusos. João Crisóstomo via-se reprovado por os seus adversários por outorgar sem descanso penitência e o perdão dos pecados aos fiéis que vinham arrependidos. • No século III, o rigor dá lugar a excessos e heresias. Propaga-se a heresia de Montano, que pregava que o final do mundo estava próximo e dizia: "A Igreja pode perdoar os pecados, mas eu não o farei para que outros não pequem mais". Tertuliano e muitos outros aderem ao "montanismo". • Com grandes dificuldades, a Igreja superou esta heresia, esclarecendo o estatuto do penitente e a forma pública e solene em que devia desenvolver a disciplina sacramental da penitência. • Depois que a Igreja impôs a penitência, os pecadores constituíam-se num grupo penitencial ou "ordem dos penitentes". Os pecados não se proclamavam em público, mas era pública a entrada do grupo já que se fazia diante do bispo e dos fiéis. • O "ordem dos penitentes" mantinha um longo tempo de renúncia ao mundo, semelhante ao dos monges mais austeros. Segundo a região, os penitentes levavam um hábito especial ou a cabeça raspada. • O bispo fixava a medida da penitência. "a cada pecado corresponde a sua penitência adequada, plena e justa". Fixavam-se as

obrigações penitenciais por meio de concílios locais, ex. Elvira, na Espanha ou Arlés, na França. As obrigações penitenciais eram de tipo geral, litúrgicas e as estritamente penitenciais, como a vida mortificada, jejuns, esmolas e outras formas de virtude exterior. • Na prática ocorria que as pessoas iam pospondo o tempo de penitência até a hora da morte, fazendo da penitência, um exercício de preparação para bem morrer, porque só podia ser exercitada uma vez. • O processo penitencial equivalia a um verdadeiro estado de excomunhão. Até que o penitente não fora reconciliado, não podia aproximar-se da Eucaristia. O término do processo penitencial era a reconciliação com a Igreja, sinal da reconciliação com Dus. • A partir do século V se realizava a reconciliação Na quinta-feira Santa, ao término de uma quaresma que, de por si, já é um exercício penitencial. • O bispo acolhia e impunha as mãos aos penitentes, em sinal de bênção. A prece dos fiéis era o eco comunitário desta reconciliação. • Enquanto, nas Ilhas Britânicas, especialmente na Irlanda, ia abrindo passo a um novo procedimento de reconciliação com penitência privada com um sacerdote e utilizando os famosos manuais de pecados (penitenciais), confeccionados por alguns Padres da Igreja, como Agostinho ou Cesáreo de Arlés. Das Igrejas Celtas, esta forma de penitência propaga-se pela Europa.


• acidigital.com/sacramentos/penitencia/histo ria • Os manuais penitenciais estabeleciam a penitência segundo o pecado cometido e foram muito importantes para evitar o "barateamento do perdão" e o relaxamento do compromisso cristão. Ajudaram também a desmascarar as heresias dos séculos III ao VII. Delimitavam o que que é pecado grave, fruto da malícia e o que é pecado leve, cometido por debilidade ou imprudência. • Renuncia-se ao princípio de outorgar a reconciliação uma só vez na vida. • O Concílio de Trento reiterou a fé da Igreja Católica: a confissão dos pecados diante dos sacerdotes, é necessária para os que caíram (gravemente) depois do Batismo).

PAUSA II: EXTRAS

Armando ribeiro Simões Travessa António Menici Malheiro, nº 35 – 2º trás, 4705-080 – Braga 27 De Fevereiro de 2006 À Igreja e a todos os portugueses Cristãos de boa fé Assunto – Assassinato do Padre Afonso Moreira Lamentamos dolorosamente o assassinato tão cruel do amado padre Afonso Moreira, no Bailundo. A Igreja em Angola, especialmente a província do Huambo, teve uma perda irreparável. Jesus disse: Mateus 10: “28 And do not be afraid of those who kill the body but cannot kill the soul; but rather be afraid of Him who can destroy both soul and body in hell (Gehenna)”, Amplified Bible: youversion.com. O assassino só matou o corpo e não a alma, que é mais importante de que o corpo. Fico muito comovido quando penso no instrumento que o assassino utilizou para matar o homem de Deus. Será uma catana?

Uma moca ou punhal? Ou então uma arma de fogo, ou um cacete? Eu sei lá. Oh! Como foi, querido Padre Moreira, o teu morrer ali no Bailundo? Tu que nasceste para fazer o bem, Morres desta forma tão ruim? Certamente seguiste as pegadas do Teu Senhor Jesus. Repousa em paz no seio do Senhor, onde brevemente nos encontraremos. Disse Jesus: Mateus 25: “34-36E então eu, o rei, direi aos que estiverem à minha direita: „Venham, filhos felizes do meu YÁOHU ABí, para o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo. Porque tive fome e deram-me de comer; tive sede e deram-me água; era estranho e convidaram-me para vossas casas; andava nu e vestiram-me; estive doente e cuidaram de mim; estive na prisão e visitaram-me. 37-39Esses homens justos perguntarão: „Molkhiúl, quando foi que alguma vez te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? Ou, sendo um estranho, te hospedámos? Ou nu, te vestimos? Quando te vimos alguma vez doente, ou na prisão, e te visitámos? 40E eu, o rei, lhes direi: „Quando fizeram isso a um destes meus mais insignificantes irmãos, a mim o fizeram!” (Mateus 25) “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor Para que descansem dos seus trabalhos e As suas obras o sigam” (Apocalipse 14: 13 -. ”12 Here [comes in a call for] the steadfastness of the saints [the patience, the endurance of the people of God], those who [habitually] keep God‟s commandments and [their] faith in Jesus.13 Then I heard further [perceiving the distinct words of] a voice from heaven, saying, Write this: Blessed (happy, to be envied) are the dead from now on who die in the Lord! Yes, blessed (happy, to be envied indeed), says the Spirit, [in] that they may rest from their labors, for their works (deeds) do follow (attend, accompany) them!)” [Amplified Bible]) Querido Padre, tenho saudades de ti. Desde aquele dia que estiveste na nossa casa numa tarde de um domingo (dominga


108 para ti), nunca mais te vi, Mas ver-te-ei lá no Palácio Celestial.

Quando Jesus estava no madeiro, disse: “34. YÁOHU ABí, perdoa-lhes”, disse YAOHÚSHUA, “porque não sabem o que fazem.” (Mateus 23). O criminoso que matou o Padre moreira, também não sabia o que estava a fazer.

grandes tribulações. Os outros padres, seus colegas, deixaram tudo, mas ele aguentouse com todos os sofrimentos de guerra. Vi a sua residência a ser incendiada. Comia mal, porque as estradas não davam acesso por causa da guerra. Sempre arriscou a sua vida. Uma vez, saiu do Bailundo de bicicleta, passando pela estrada perigosa por causa da guerra, a ir para a Comuna de Lunge, que estava a quarenta quilómetros de distãncia, a fim de ir realizar os serviços que Jesus lhe incumbira, como pregar o Evangelho, baptizar, etc. Era o único branco que estava na terra do Bailundo. Jesus disse: “11-13Eu sou o bom apacentador. O bom apacentador sacrifica a vida pelas ovelhas. Quem é assalariado para guardar o rebanho foge quando vê vir um lobo. Ele abandona o rebanho porque não lhe pertencem e ele não é verdadeiramente o seu apacentador. Assim o lobo salta sobre elas e espalha o rebanho. Tal homem foge porque é contratado e não se preocupa a sério com as ovelhas. 14-16Eu sou o Tav Ro-éh (Bom Apacentador) e conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me também, assim comomeu YÁOHU ABí me conhece e eu conheço o meu YÁOHU ABí. E sacrifico a minha vida pelas ovelhas.”" (João 10). Alimentava pessoas famintas e vestia os que andavam nús.

Eu, que estive cerca de quarenta anos com o Padre Moreira, sei todos os pormenores da sua vida no Bailundo. Ele tinha, por lema, fazer sempre o Bem e amava as suas ovelhas. Quando ouvia a voz divinacomo o Profeta Isaías a tinha ouvido, dizendo: “8Depois ouvi YÁOHU ULHÍM perguntar: “Quem enviarei como mensageiro ao seu povo? Quem irá por nós?”E eu disse, “Vou eu! Envia-me a mim.”" (Isaías 6), de imediato o Padre Moreira disse: “Eis-me aqui, envia-me a mim”. Veio até ao Bailundo, para dirigir as populações negras ao aprisco do Senhor com Amor.

Apesar de ter nascido em Portugal, era considerado como filho da terra do Bailundo, onde passou a maior parte da sua vida. Era estimado por por todos e, por isso, o seu funeral foi participado por milhares de pessoas que o choravam amargamennte. Foi comparado com o Apóstolo Paulo, que disse: “7Combati o bom combate; acabei a carreira da minha vida; guardei a fé. 8Está já preparada porYÁOHU UL a coroa de justa recompensa que YÁOHU UL, justo Juiz, me dará naquele dia que há-de vir. E não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua Vinda.” (II a Timóteo 4)

Ia às aldeias dos nativos ensinar sobre Jesus, baptizar em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, realizar casamentos, etc. Levava as crianças negras no seu colo.

Este acontecimento não desanime a ninguém e creio que jamais se repetirá. O povo do Bailundo, deseja que um outro padre branco, seja português ou de outra nacionalidade, venha substituir o saudoso Padre Moreira. Na guerra, quando um soldado tomba é logo substituido por um

O assassino devia ser julgado em Portugal na presença dos habitantes de Vila Real, onde o pobre Padre nasceu, para o conhecerem. Também devia ser condenado à pena capital (direitoreformacional.blogspot.com/penade-morte-no-novo-testamento-e-pena), pois o rei David não poupou a vida daquele que matar o rei Saul. Mandou matá-lo, depois de lhe terdito o seguinte: “14-16.E como te atreveste tu a matar o rei escolhido por YÁOHU ULHÍM?” E Dáoud, dirigindo-se a um dos seus mancebos: “Mata-o!” O rapaz atravessou-o com a sua espada e ele morreu. “Foste vítima da tua própria condenação”, disse Dáoud, “porque confessaste, tu mesmo, termorto o rei ungido de YÁOHU ULHÍM.”" (II Samuel 1). Qualquer padre ou cura (sacerdote) também é o ungido de YHWH – ”He-VauHe-Yod” (Ela-Ele/Ele-Ela, Pai-Mãe, D-us).

Quando começou a guerra em Angola, não quis abandonar as suas ovelhas e passou


outro. O Apóstolo Paulo disse: “12Pois na verdade o nosso combate não é contra seres humanos, mas sim contra as forças malignas, contra as ditaduras que actuam nas trevas, contra verdadeiros exércitos de espíritos do mal que dominam nas esferas do mundo sobrenatural.” (Efésios 6: Amplified Bible “12 For we are not wrestling with flesh and blood [contending only with physical opponents], but against the despotisms, against the powers, against [the master spirits who are] the world rulers of this present darkness, against the spirit forces of wickedness in the heavenly (supernatural) sphere”). Que a Missão Católica do Bailundo não seja abandonada por causa de um crime praticado por umassassino. É de referir que quem matou o Padre Moreira, foi um homem que ele tinha adoptado como filho e já se encontra preso. A referida Missão é muito bonita, moldurada de várias montanhas e rios de água potável. Foi fundada por um padre pioneiro francês de nome Lecomte em 1890 e tem muitos milhares de fiéis. Por aqui termino. Vosso no Senhor Jesus Cristo. Armando CONTOS E LENDAS DOS BAILUNDOS SOBRE J-SUS Quando os bailundos receberam o Evangelho (“Boas novas de Alegria”) logo inventaram contos elendas sobre J-sus Cristo (YAOHÚSHUA). Na cultura portuguesa é costume as crianças serem transportadas em carrinhos de bebé ou então nos braços das mamãs, ao contrário das mulheres bailundas que transportam as crianças às costas presas com uma manta de tecido. Desta maneira osbailundos pensam que também o KYRIOS (SENHOR) J-sus, o Filho Único de YÁOHU UL (ElaEle/Ele-Ela, YHWH, D-us Pai/Mãe) o Criador Eterno, era transportado às costas de Maria (Maoroém, Miriam) sua Mãe. Diz então uma lenda que uma vez J-esus quando ia nas costas de sua Mãe, passaram

debaixo de uma árvore frondosa e muito alta e carregada de bons frutos. J-sus, então ao ver os frutos pediu à sua Mãe que colhesse alguns dos seus frutos. A Mãe disse que os não podia colher porque estavam muito altos e ela não podia lá chegar. A árvore, quando se apercebeu que o menino desejava os frutos, ela mesma baixou os seus ramos para a Mãe de J-sus os poder colher. Outra lenda conta que os habitantes de Nazaré (Nudtzoróth, Natzeret) diziam que o Menino, chamado Natzrati (Nazoreu, Nazir, talvez Nazareno) J-sus era o Filho (haBOR) do Altíssimo e desta forma adivinhava sempre tudo. E um dia, quando o menino tinha oito anos de idade, fecharam muitas crianças dentro de uma casa. Depois chamaram J-sus e lhe disseram: “Se tu és o ha-Bor do altíssimo adivinha o que está aqui dentro!” J-sus disse que ali dentro estavam porcos. Então todos zombaram d‟Ele dizendo-lhe que afinal Ele não era o ha-Bor do Altíssimo, porque se o fosse adivinhava que ali dentro estavam crianças. Mas ao abrirem as portas para lhe mostrarem que Ele estava errado, de lá saíram apenas porcos, o que os deixou a todos estupefactos, pois viram que as crianças se tinham transformado em suínos. Uma outra lenda que J-sus tinha por hábito ir brincar com outras crianças da sua idade, e numa destas ocasiões Ele entrou dentro da casa de um dos seus amigos, e tomando um pau partiu tudo o que havia na casa, e fazendo ali grandes estragos. A dona de casa foi tirar satisfações a Maria, a Mãe de Jsus, para que lhe pagasse todos os prejuízos sofridos, e quando a sua Mãe e a vizinha foram verificar todos os estragos da casa, quando lá chegaram afinal estava tudo em ordem, nada de mal havia acontecido. Mas de todos os contos e lendas, existe uma estória (levemente alterada por este blogger, não por o autor original, por razões lúdicas e pedagógicas) e que é a mais significativa: Dois amigos, um cristão e um ateu sarcástico, iam de caminho para tratar de negócios, e no caminho o cristão disse: -Queira D-us que os nossos negócios nos corram bem. – Esta expressão fez zangar o ateu que lhe respondeu dizendo:


110 -Se tu metes a Deus nos nossos negócios fico zangado contigo, pois os negócios vão sempre melhor com Satanás. Com ele podemos mentir, roubar e fazer negócios fraudulentos. Com Deus não podemos fazer nada disso. Dali resultou uma grande discussão entre os dois a ponto de se zangarem e a quererem bater-se em duelo. O cristão dizia que D-us era melhor porque foi Ele que nos criou e nos dá tudo o que carecemos. Também nos deu o seu Filho YAOHÚSHUA que veio salvar-nos da morte (e do Seio de Abraão) presente (para nos colocar “debaixo do Altar [...] com uma bata branca1 [...] para [que descansassemos] ainda algum tempo, até que [fique] completo o número dos [nossos] companheiros e irmãos que iriam ser mortos [por efeito de uma acção passada e presente e futura de Satanás] “, vide Apocalipse 6) e da escatológica. 1 A veste branca mostra que os mártires cristãos já participam na vitória da Ressuscitado. O ateu, porém dizia, que melhor era Satanás que nos facilita mais as coisas. Então este disse: -Vou fazer-te uma proposta: às três primeiras pessoas que se vierem a cruzar connosco no caminho vamos colocar a nossa questão; se todas disserem que é Satanás o melhor, eu te arranco os olhos. Se for ao contrário tu arrancas os meus! O cristão aceitou o desafio pois tinha a certeza que todos diriam que era o Eterno melhor que Satan. Andada pequena distância, logo lhes surgiu o primeiro encontro: um ministro protestante carregando muitas Bíblias e a caminho de realizar um Ofício de Casamento, a quem logo colocaram a questão. Então o pastor disse que não se confundissem. “Toda a gente sabe que Satanás é sempre melhor de que o Eterno. Eu sou pastor de Igreja mas confio mais em Satanás. Ele tem-me dado tudo o que preciso e por isso nada me falta. Todas as pessoas que confiam em Satanás têm boa vida e nada lhes falta também. Os que confiam no Eterno são sempre os mais miseráveis deste mundo”. A resposta do clérigo entristeceu o cristão.

Depois de caminharem mais uma distância encontraram um diácono que se dirigia para a igreja. Fizeram-lhe a mesma pergunta, se era o Eterno ou Satanás o melhor, e ele foi dizendo que o “Diabo é sempre o melhor, pois sem este ente operativo nada podemos fazer. Ele é que nos a dá sorte de possuir riquezas. Eu sou diácono da Igreja, mas o meu S-nhor é o Diabo!” O ateu disse ao cristão que só faltava uma resposta igual para lhe arrancar os olhos. Assim, avançaram mais uma distância e se encontraram com um padre que ia a caminho da sua paróquia e igreja para conduzir a celebração da Missa, como acção do Cristo à imagem do magistério católico e do sacerdócio hierarquicamente ordenado. Este era um padre secular (o que muitas vezes consiste numa espiritualidade truncada) e não um sacerdote religioso que exerce o seu múnus pastoral com a componente de plenificar-se de D-us, de deificar-se na vida do otium sanctum, quer dizer na vida de contemplação e louvor à TRINDADE, trabalho manual e intelectual e vida comunitária. Os planos pastorais do seu superior hierárquico não eram do agrado do padre secular; ele buscava a Coelesti Hierarchia dos Ares. E é isso que transmite aos seus interlocutores: “O Princípe dos Ares é sempre melhor do que a Trindade; se vocês quiserem ter êxito nos vossos negócios façam-nos com o DIABO e não com o ETERNO e verão que tudo corre melhor. Diz o Livro sagrado e as Lendas gregas: „pois os filhos deste sistema económico são mais sábios, em sentido prático, para com a sua própria geração, do que os Filhos da Luz. 9 «Eu vos digo [J-sus] também: Fazei para vós [das Potestades dos ares] amigos, por meio das riquezas injustas, para que, quando estas vos falharem, vos recebam [as Potestades] nas moradias eternas» [no Tártaro, diz a legenda ' [na] porta do Tártaro e [na certeza de ultrapassar o seu umbral] -com a licença expressa do feroz Cão cerbero [na realidade um demónio], naturalmente-, e [de entrarem] nos escuros abismos de tão sinistro lugar. Depois de deleitar com [as sua cítaras] e as suas


canções [o que significa, eufemisticamente, o pacto com o Diabo] o próprio [Satanás], [resolvem rogar a Satanás] que [lhes] permitisse sair [..] do Tártaro, ao qual acedeu a terrível deidade, com a condição [de que os Filhos de Satanás não olhassem para trás, para comprovarem que os seus correligionários seguiam o primeiro que indicava a saída], enquanto não se encontrassem [todos] fora daquelas [moradias eternas]. [Aceitaram] [...] tais condições e [cada um] dispôs-se a caminhar para a saída do Tártaro; quando já se [encontrarem] praticamente fora daquela região escura, [sentirão] a necessidade de comprovar se os [...] seus [pares os seguiam] e, sem lembrar-se da condição imposta [pelo Diabo] [...], [cada um] virou a cabeça para [...] olhar‟. Mas só [conseguiram] ver, entre [assustados e atônitos], como [os co-associados][...] [convertiam-se] em brumas e [desapareciam] para sempre‟, [original: calucalivros.forums-free.com/lendas-mitost31]„, Lucas 16:8b.9. Nunca olhar para trás (i.e., para D-us). Eu sou padre mas o meu S-nhor é Satanás!” O ateu, então, com a ajuda do padre, arrancou os olhos ao cristão, conforme o trato que haviam feito e o deixaram abandonado à sua sorte. Era já quase o anoitecer. O pobre cristão saiu dali e foi sem direcção porque nada via, e foi dar a uma caverna na encosta de uma montanha onde entrou, lamentando a sua sorte. Lá pela meia-noite ouviu um ruído da parte de cima da caverna. Ele não sabia que o primeiro piso da caverna era a residência do Diabo e dos seus súbditos, e naquele dia havia muita agitação, pois era o dia da chegada dos emissários que Satanás tinha enviado ao mundo exterior para desviar as pessoas, não as eleitas, mas as seculares e as cristãs arminianas e romanistas que não são escravas (e eleitas) de Maria (calvinismo católico, melhor montfortinismo católico, vide Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem), dos caminhos de Cristo. O cristão então ouviu o Glorioso (Satanás, carta de Judas) a dizer: -Eu vos convoquei para ouvir os relatórios da vossa missão. -Assim um desses

emissários começou a ler o seu relatório e dizendo: -Eu persegui um homem que era cristão fervoroso. Parece que tinha lido o Kanódgaluth (Apocalipse) 14: 4, que diz: “Estes são espiritualmente limpos, puros como virgens”. Ele não queria contaminarse com mulheres, e por isso fiz com que chovesse torrencialmente e me transformei numa menina de cinco anos de idade e me aproximei a chorar da cubata daquele homem. Ele, quando me ouviu chorar, compadecido de mim, pensando que fosse uma criança perdida, levou-me para a sua cubata. Como estava toda molhada e com frio, acendeu uma fogueira para me aquecer. Depois comecei a ter sono e como só havia uma cama, deitou-me juntamente consigo. Ele dormia numa banda e eu noutra. Ao amanhecer eu me transformei numa moça crescida e bonita. Ele vendo a mina formusura não resistiu à tentação… Desde então ele se tem perdido com outras mulheres deixando de ser cristão. Mediante este relatório, o Glorioso ficou muito satisfeito e disse: -Escravo excelente no teu labor e fiel, entra no gozo do teu S-nhor. Como haverá alegria no Céu por um pecador que se arrepende, assim também há alegria no Reino do Glorioso por um cristão antinomiano que se desvia para se perder. Pois era um cristão arminiano. Bem selecionado! O outro emissário também relatou o seu testemunho dizendo: -Encontrei dois amigos aqui perto da nossa Moradia que iam tratar dos seus negócios. Um era cristão praticante e o outro ateu na práxis. Fiz com que discutissem sobre D-us e o Glorioso (refiro-me a vós, Vossa Iniquidade Predestinada), qual de vós seria o melhor para a vida das pessoas não eleitas por o ETERNO. Durante a discussão o cristão dizia que o He-Vau-He-Yod (PaiMãe, D-us) era melhor que Vossa Iniquidade Predestinada, e o ateu dizia o contrário. Depois o ateu fez uma proposta para que às três primeiras pessoas com quem se cruzassem lhes colocariam a mesma questão, que achavam elas quem seria o melhor: se D-us ou Satanás? Mas induzi o ateu a propor ao cristão que se


112 todas dissessem que o melhor fosse Satanás, teria que lhe arrancar os olhos. Assim, passei à frente deles e me transformei num ministro protestante arminiano que ia carregado de Bíblias a caminho da sua congregação. Eles lá me fizeram a pergunta, e a minha resposta só podia ser uma: Vossa Iniquidade Predestinada era o melhor. Depois, mais à frente tranformei-me num diácono arminiano. Quando me perguntaram a mesma dúvida voltei a dar a mesma resposta. O cristão ia ficando muito sorumbático não entendendo como é que um pastor e um diácono podiam dizer aquelas coisas, sendo eles, como se diziam ser, escravos de D-us. Voltei a avançar e mais adiante surgi como um sacerdote católico ordenado, um cura a caminho da igreja para celebrar missa. Voltaram a colocar a mesma pergunta que foi alvo da mesma resposta dos anteriores interlucutores, rivais do cura. Assim o ateu e eu arrancamos os olhos ao cristão e o abandonamos à sua sorte. Ora nem o Diabo nem os seus demónios sabiam que o cristão estava a escutar tudo aquilo. Então o Glorioso disse: -Isso que fizeste não tem nenhuma importância, porque mesmo que um homem fique sem os olhos sempre pertence a YAOHÚSHUA, se for um “Vaso de Honra” (ELEITO). Depois um outro das Potestades do Ar também falou e disse: -Se o cristão soubesse que bastaria pegar numa folha verde de planta e passasse com ela no lugar dos olhos, recuperava-os novamente. Quando o cristão ouviu isto, saiu da caverna e às apalpadelas foi em busca de uma folha verde e fresca de uma planta; passou com elas nos olhos e logo ficou a ver perfeitamente. Voltou a entrar na caverna para passar o resto da noite e teve um sono profundo só acordando quando a manhã e o sol já iam altos. Quando se levantou para sair da caverna e continuar a viagem, ficou surpreendido por uma abertura que se abriu numa das paredes da caverna e que dava acesso à tesouraria de

Satanás, onde estavam depositadas muitas riquezas. Depois ouviu uma voz que dizia: – Entra; tira o que quiseres. – Ele então entrou e de lá tirou ouro, dinheiro e pedrarias preciosas, ficando deste modo muito rico. Um dia ele encontrou-se com o amigo ateu o qual ficou muito admirado de o ver tão rico e já com os olhos. O cristão explicoulhe o que havia acontecido e ele pediu ao cristão para o levar a essa caverna com o fim de tirar de lá o seu quinhão e ficar rico também. Ora aquele dia era também dia de regressarem as Potestades de Satanás. Depois de desviarem as pessoas do Caminho. Pela meia-noite ouviu o que também o amigo cristão ouvira, os relatos como cada um deles se transformava em formas para desviar os crentes de seguirem o ETERNO, enganando-os, sendo ele também um dos enganados. Mas um dos emissários então disse: -Antes de continuarmos a apresentação dos relatórios, será melhor irmos primeiro fiscalizar a nossa tesouraria, porque no outro dia quando aqui estávamos a relatar os nossos trabalhos, estava um homem na nossa tesouraria de onde levou quase todo o nosso tesouro. Assim, o Glorioso mandou lá um dos seus súbditos e quando lá chegou encontrou o ateu (Romanos 13, Amplified Bible: ”For if you live according to [the dictates of] the flesh, you will surely die. But if through the power of the [Holy] Spirit you are [habitually] putting to death (making extinct, deadening) the [evil] deeds prompted by the body [ateísmo], you shall [really and genuinely] live forever.14 For all who are led by the Spirit of G-d are sons of G-d.15 For [the Spirit which] you have now received [is] not a spirit of slavery to put you once more in bondage to fear, but you have received the Spirit of adoption [the Spirit producing sonship] in [the bliss of] which we cry, Abba (Father)! Father! 16 The Spirit Himself [thus] testifies together with our own spirit, [assuring us] that we are children of G-d.17 And if we are [His] children, then we are [His] heirs also: heirs of God and fellow heirs with Christ [sharing His inheritance


with Him]; only we must share His suffering if we are to share His glory.18 [But what of that?] For I consider that the sufferings of this present time (this present life) are not worth being compared with the glory that is about to be revealed to us and in us and for us and conferred on us! ). Prenderam-no e logo o mataram. O seu corpo foi queimado e as cinzas lançadas ao rio. Moral da história: “20 YÁOHU ULHÍM abençoa os que obedecem consciente e reflectidamente à sua Palavra, e os que confiam em YÁOHU ULHÍM serão felizes” (Maush‟léi, Provérbios 16: 20 – yaohushua.org.il; este é o Fiat dos eleitos (predestinados, porque Ele-Ela (D-us) disse, através do hagiógrafo: “Romanos 14 Pois todos os que são guiados pelo Espírito de D-us, esses são filhos de D-us. 15 Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor [no contexto, de que o Demónio procure recuperar as riquezas no poder do cristão; o Eterno YÁOHU ULHÍM será o seu ESCUDO defensivo, Ele-Ela porá em movimento o MAL, igualmente de todos os arminianos que confiam na Graça).

¿Hay algo más allá de la muerte?


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OS BAILUNDOS  

ANGOLA A SUA HISTÓRIA

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