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CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DE SÁ DE SANTA CATARINA

DANIELA WALZBURIECH LUANA PACHECO

CRACK: DA QUEDA DO INDIVÍDUO AO RETORNO À SOCIEDADE

SÃO JOSÉ, 2012.


DANIELA WALZBURIECH LUANA PACHECO

CRACK: DA QUEDA DO INDIVÍDUO AO RETORNO À SOCIEDADE

Trabalho de Conclusão de Cursoapresentado à disciplina de Projeto Experimental, como requisito parcial para obtenção de grau de Bacharel em Comunicação Social- Habilitação em Jornalismo, do Centro Universitário Estácio de Sá de Santa Catarina. Professores orientadores: Conteúdo: José Guillermo Culleton, Especialista. Metodologia: Sandra M. Lohm Vargas, Especialista.

SÃO JOSÉ, 2012.


FICHA CATALOGRÁFICA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

W242c WALZBURIECH, Daniela. Crack: da queda do indivíduo ao retorno à sociedade./ Daniela Walzburiech, Luana Pacheco. – São José, 2012. 73 f. ; 21 cm.

Trabalho Monográfico (Graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo) – Centro Universitário Estácio de Sá de Santa Catarina, 2012.

Bibliografia: f. 22.

1. Crack. 2. Usuários. 3. Drogas. 4. Reportagem. I. PACHECO, Luana. II. Título. CDD 070


Dedicamos às nossas famílias, amigos, e àqueles que já perderam alguma pessoa querida por causa do crack.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos às famílias Pacheco e Walzburiech que sempre nos ajudaram durante o curso, dando apoio incondicional em todas as decisões tomadas durante o período acadêmico. Aos nossos amigos da faculdade, de infância e da vida que sempre nos apoiaram, e torceram por nós. A caminhada longa e cheia de desafios ficou agradável e animada ao lado de cada um deles. Ao Bruno Pacheco que sempre nos ajudava com as entrevistas, quando necessitamos ir a lugares arriscados. Agradecemos ao nosso professor orientador Billy Culleton, pela calma e dedicação na orientação deste trabalho. Sempre nos estimulando a superar os desafios e dando força até conseguirmos achar o tema do nosso projeto. À coordenadora do curso de Jornalismo, Regina Zandomênico, que sempre esteve disponível para tudo que precisássemos. Além de todos os professores que tivemos durante o curso e que contribuíram com a nossa formação. Enfim, agradecemos a todos que colaboraram com o trabalho, principalmente os entrevistados que fizeram parte da grande reportagem.


“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”. Clarice Lispector


RESUMO

O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado “Crack: da queda do indivíduo ao retorno à sociedade” mostra, por meio de uma grande reportagem em texto, depoimentos verdadeiros de usuários de crack, relatando a rotina da vida nas ruas, as dificuldades vividas e a difícil relação com os familiares. A grande reportagem mostra o problema social criado pelo crack, que faz pais de família abandonarem tudo para viverem nas ruas e roubar frequentemente para manter o vício. Em especial, a análise do antes e depois do uso do crack revela os efeitos e as reações que a droga provoca no organismo e no psicológico do usuário. Para conter o vício, alternativas estão sendo pensadas e analisadas pelo Governo Federal, como projetos para evitar e alertar sobre o vício, e também incentivo e apoio aos centros que já trabalham com os usuários. A campanha ‘Crack, é possível vencer’ é um exemplo de programa lançado pelo Governo para combater o vício desta droga. Palavras-chave: Crack. Drogas. Usuários.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................................9 2 OBJETIVOS.........................................................................................................................10 2.1 OBJETIVO GERAL...........................................................................................................10 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS..............................................................................................10 3 JUSTIFICATIVA.................................................................................................................11 4 ANTECEDENTES...............................................................................................................13 5 DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES....................................................................................15 6 FONTES CONSULTADAS................................................................................................17 6.1 ENTREVISTAS..................................................................................................................17 6.2 LIVROS..............................................................................................................................18 6.3 PERIÓDICOS.....................................................................................................................18 6.4 SITES..................................................................................................................................19 6.5 IMAGEM EM MOVIMENTO...........................................................................................20 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................................21 REFERÊNCIAS......................................................................................................................22 ANEXO A – Declaração de responsabilidade..................................................................... 23 GRANDE REPORTAGEM (TCC) ....................................................................................24 OBSERVAÇÕES...................................................................................................................74


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1 INTRODUÇÃO

O crack é um tipo de droga derivada da cocaína, pois concentra grande parte dos mesmos princípios ativos. Porém, apesar da semelhança, os efeitos pós-uso são diferentes. A droga que circula por Santa Catarina provém, 99%, da América Latina, principalmente de países com Paraguai, Peru, Colômbia e Bolívia. No Brasil, a pedra chega pelas fronteiras e Foz do Iguaçu é um dos limites mais utilizados. Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina (SSP/SC), as cidades que registram mais ocorrências em apreensões do entorpecente são Florianópolis, São José, Joinville, Palhoça, Blumenau, Criciúma, Itajaí, Tubarão, Lages e Chapecó. A capital de Santa Catarina é o município catarinense onde mais casos são registrados. Na cidade, o Maciço do Morro da Cruz, Tapera e a Favela do Siri são os principais pontos de tráfico. Por ser uma droga que causa vício individualmente, os usuários pensam que podem abandonar o vício a qualquer momento e, já voltar à vida normal. Mas o ideal é o acompanhamento psicológico, assim como ocorre nos centros de recuperação espalhados pela Grande Florianópolis. Os relatórios apresentados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública entre os anos de 2008 e 2011 mostram que Santa Catarina teve aumento de 509,96% nas apreensões de crack. Com relação às apreensões de cocaína, que é a matéria prima do crack, o aumento foi de 294,42%. As apreensões da droga em geral tiveram um aumento de 14,33%, sendo que em 2011, 1.884 apreensões foram realizadas. Em 2012, o número passou para 2.154 no estado. O efeito do crack no organismo é muito rápido. Em poucos segundos, a substância ingerida, ou inalada entra na corrente sanguínea. Cerca de 30 segundo após, o efeito já é observado no organismo e dura de cinco a sete minutos.


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2 OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Retratar as situações dos usuários de crack por meio de uma grande reportagem.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

a) Realizar pesquisa bibliográfica sobre o crack e sobre grande reportagem; b) Entrevistar famílias e usuários de crack; c) Acompanhar o tratamento de usuários e ex-usuários; d) Entrevistar profissionais da área da saúde, assistência social e segurança pública.


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3 JUSTIFICATIVA

A ideia deste projeto surgiu a partir da análise de vários temas em que as acadêmicas pensaram e haviam escolhido antes como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A vontade de desenvolver um projeto jornalístico em forma de grande reportagem ocorreu devido à paixão e aproximação de ambas com a escrita jornalística e com a facilidade no desenvolvimento da mesma, além de contar detalhadamente uma história. Usa-se o termo grande reportagem para designar “as matérias mais extensas, que procuram explorar um assunto em profundidade, cercando todos os seus ângulos”. (KOTSCHO, 2001, p.71). E foi justamente isso que foi feito, um estudo aprofundado e cercado de vários ângulos dentro do jornalismo. Para o autor, a grande reportagem rompe todos os organogramas, todas as regras sagradas da burocracia e, por isso mesmo, é o mais fascinante reduto do Jornalismo. A realização do projeto não foi baseada apenas na curiosidade de jornalistas, mas também na instigação como pessoas e moradoras de Florianópolis, que observam o aumento no número de moradores de rua espalhados pela cidade, tendo em vista que maioria é dependente do crack. O trabalho sobre o entorpecente também aproxima as acadêmicas do tema e as faz viver e entender um pouco a realidade que envolve os usuários e o crack. O trabalho ficou baseado na saída à campo, às ruas e aos ambientes onde os usuários são encontrados. Um dos principais motivos para a escolha e elaboração de uma grande reportagem em forma de texto sobre o crack foi pela curiosidade de conhecer a vida do usuário e quais os fortes motivos que o levam a largar a família, trabalho para viver nas ruas, sempre sujeitos aos perigos da violência. O crack é uma das drogas com maior poder de dependência. O efeito máximo é alcançado em trinta segundos e pode durar de cinco a sete minutos. Depois o usuário sente fadiga e intensa depressão e isso faz com que repita a dose (ARATANGY, 2000). O tema escolhido foi de extrema importância para as acadêmicas, pois possibilitou um maior entendimento sobre o assunto, para interesse pessoal e também um maior conhecimento para ser repassado aos outros. O crack é, hoje, um câncer na sociedade. Além de um problema social, a questão das drogas, inclusive o crack, é um impasse social que envolve altíssimos lucros, tem um forte mercado não fiscalizado e livre de


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impostos que são vinculadas a poderosos interesses financeiros atrelados à máfia, ao crime organizado e à corrupção. Por isso, é também, caso de segurança pública (VALLE, 1983). Os relatórios da Secretaria de Estado da Segurança Pública entre 2008 e 2011, Santa Catarina teve aumento de 509,96% nas apreensões de crack. Ainda teve um aumento de 294,42% no volume de apreensões de cocaína, que é matéria prima do crack (SANTA CATARINA, 2012a). A escolha das fontes e entrevistados não seguiu uma ordem e nem roteiro propriamente. Essas escolhas foram tomadas conforme a elaboração do trabalho, sempre buscando relacionar as pessoas entrevistadas a fim de que o tema ficasse “amarrado”. O lançamento do projeto “Crack, é possível vencer”, realizado neste ano pelo Governo Federal dá mais força ao projeto. A ideia que incentiva e trabalha com as instituições para que estejam preparadas para receber e atender os usuários que desejam buscar tratamento já está em vigor e sendo espalhada por todos os lugares. Produzir esta grande reportagem em forma de texto, utilizando o jornalismo como ferramenta para possibilitar um maior esclarecimento sobre o crack, é uma grande contribuição àqueles que veem os usuários como únicos culpados pela situação nas quais vivem.


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4 ANTECEDENTES

O problema das drogas já existe há anos, não é característica da sociedade atual. As tribos indígenas usavam alucinógenos nos rituais religiosos, porém nunca estiveram tão próximos do caos como nos dias de hoje (GUEDES, 1999). Muito presente e, frequentemente sendo apontada como um dos males do século XXI, o crack ficou conhecido nos Estados Unidos. O crack surgiu nas ruas de Nova Iorque, em 1985, e, de lá, chegou a outras partes dos Estados Unidos graças à fácil administração, baixo custo e poderosos efeitos. Passou, com isso, a constituir-se numa droga de abuso tal, em todo o país, perdendo só para o álcool, segundo Budd (1989 apud POSTERLI, 1997). No Brasil, segundo Inciardi (1991 apud POSTERLI, 1997), as primeiras apreensões de crack pela polícia ocorreram em 1991, em São Paulo. Em 1996, a cidade foi considerada a capital mundial do crack, gerando o grave problema de saúde pública. A estimativa foi de 120 mil dependentes na metrópole (POSTERLI, 1997). Em 2009, a Colômbia foi responsável por 43% do cultivo mundial da coca, seguida pelo Peru, com 38% e Bolívia, com 19%. Nesses países, a pasta base de cocaína que é fundamental para fabricação do crack, é produzida nos laboratórios. No Brasil, a pasta base entre pelas fronteiras do Acre, Roraima, Amazonas e Paraná (Foz do Iguaçu). A pasta base é fabricada nos laboratórios clandestinos, localizados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul (BRASIL, 2012b). O crack teve um forte aumento no mercado em São Paulo. “Em 1990 respondeu por 0,7% das apreensões policiais, já em 1995, representava 42% das apreensões do Departamento de Narcóticos”. (ARATANGY, 2000, p. 91). Em Santa Catarina, comparando dados do primeiro semestre dos anos de 2011 e 2012, as apreensões devido ao tráfico de drogas teve um aumento de 14,33%. No primeiro ano, ocorreram 1.884 apreensões, enquanto passou para 2.154 o número de apreensões (SANTA CATARINA, 2012b). Segundo Guedes (1999), o nome crack vem do verbo, em inglês, “to crack”, que significa pequenos estalidos. Assim, deu-se o nome à borra da cocaína, feita com folhas da planta Erythroxylum coca, misturada com a base da coca, transformada com o uso de


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bicarbonato de sódio, carbono de sódio ou/e soda cáustica. Então o usuário aquece a mistura e fuma. A droga nada mais é do que a cocaína base em pedra. Para entrar no organismo, como forma de uso, o crack geralmente é fumado com cachimbos improvisados, feitos de latas de alumínio e tubos de PVC (policloreto de vinila), que permitem a aspiração de grande quantidade de fumaça. A pedra, geralmente com menos de 1 grama, também pode ser quebrada em pequenos pedaços e misturada a cigarros de tabaco ou maconha – o chamado mesclado, pitico ou basuco. (BRASIL, 2012a).

Um dos motivos pelos quais o usuário começa a usar o crack é o rápido efeito da droga. Em 30 segundos já pode sentir o efeito e dura de cinco a sete minutos. Logo após, o usuário sente fadiga e intensa depressão e isso faz com que ele repita a dose. Em menos de três meses, o usuário pode se tornar dependente (ARATANGY, 2000). Segundo a autora, “a resposta fisiológica também é rápida: elevação da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos, o que aumenta o risco de enfarte e de derrame cerebral, por isso não se deve fazer exercício física nem antes, nem depois de consumir a droga”. (ARATANGY, 2000, p. 89-90). O usuário tem a tendência de roubar ou se prostituir para comprar a droga. Além de perder peso logo no início do consumo e passa a não cuidar mais do corpo, abandonando os princípios básicos de higiene. Para ela, o crack leva a marginalização do indivíduo, já que há a perda da vida tradicional (ARATANGY, 2000). Para Valle (1983, p. 2), além de um problema social, a questão das drogas, inclusive do crack, é um impassesocial que envolve altíssimos lucros. É um forte mercado. As drogas, assim, são vinculadas a poderosos interesses financeiros atrelados à máfia, ao crime organizado e à corrupção. Por esse lado, a droga é, também, caso de segurança pública.


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5 DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

As atividades tiveram início em setembro, com a realização das entrevistas e pesquisas mais aprofundadas sobre o assunto. Em 17 de setembro foi realizada a primeira visita ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps), no bairro Pantanal, em Florianópolis. E uma pré-entrevista no dia 20 de setembro foi feita com o psiquiatra Marcos Lopes. O psiquiatra falou sobre os perigos do vício e as formas como as pessoas ficam viciadas em pouco tempo após fazer uso do entorpecente. Depois da conversa com Marcos, uma leitura e resumo do livro ‘Pais, Filhos e Tóxicos’ foi realizada para auxiliar na realização e desenvolvimento de alguns pontos específicos do relatório, como desenvolvimento do tema, título e objetivos gerais e específicos. Outras obras também foram consultadas, como ‘Doces Venenos: conversas e desconversas sobre drogas’, ‘Drogas, problema meu e seu’, ‘Tóxicos e comportamento delituoso’, além de publicações do curso de jornalismo indicadas para a parte prática do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). No dia 24 de setembro, foi realizada a primeira visita ao Centro Pop, no centro de Florianópolis, localizado próximo a Passarela Nego Quirido. Na ocasião, a Assistente Social Leila Franzoni explicou os procedimentos de funcionamento do local, como a forma que os usuários são abordados todas as manhãs e o atendimento realizado na instituição. Na tarde do mesmo dia, uma viagem foi realizada até o município de Tijucas, na Grande Florianópolis. Uma entrevista feita com Manoela Silva, estudante de 17 anos, a mãe Eliete e a assistente social e conselheira tutelar Roseli. Na última semana de setembro as primeiras entrevistas com os usuários de crack e moradores de rua foram colhidas. Conforme as informações obtidas com os depoimentos, uma pesquisa paralela com profissionais era realizada para confirmar a veracidade dos depoimentos, como médico, coordenadora de equipe de drogas, especialistas e pedagoga. Na primeira quinzena do mês de outubro, entrevistas com os moradores de rua ainda eram realizadas. Ao todo, oito entrevistas foram colhidas com usuários de crack e moradores de ruas no centro de Florianópolis. O mês de novembro foi marcado para a realização das entrevistas finais e a finalização do relatório com as descrições obrigatórias propostas pelo Centro Universitário Estácio de Sá de Santa Catarina.


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Na primeira semana de novembro, uma visita foi feita no Centro de Tratamento Recanto Silvestre, localizado no município de Biguaçu, na Grande Florianópolis. O padre Luiz Prim mostrou as dependências físicas da instituição e explicou as atividades realizadas com os pacientes no período de tratamento em que eles permanecem no local. Dois usuários em tratamento participaram da entrevista. As reuniões sobre Políticas de Prevenção e Combate às Drogas realizadas na Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação, onde estavam presentes autoridades da própria secretaria, representantes da Secretaria de Segurança Pública (SSP), membros da Secretaria da Justiça e Cidadania, membros do Conselho Estadual de Entorpecentes e Secretaria da Saúde do Estado de Santa Catarina serviram de base e pesquisa durante o TCC. A última saída de campo foi realizada em 23 de novembro no Terminal Cidade de Florianópolis. Com o objetivo de presenciar e, mais tarde produzir uma reportagem, foi observado e filmado a forma como o crack é consumido e utilizado pelos usuários. Após duas tentativas de conversa com os usuários, que estavam divididos em dois grupos, houve repreensão por parte deles e não foi possível uma análise muito aprofundada sobre a forma como consomem a droga. Na última semana de novembro participamos do 1º Encontro Catarinense de Políticas Públicas sobre Drogas. Onde estavam presentes o governador Raimundo Colombo; o Secretário de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação; o Secretário da Educação, Eduardo Deschamps; o deputado estadual Ismael dos Santos; a deputada estadual Ana Paula Lima, o coordenador administrativo da Cruz Azul, representando as comunidades terapêuticas, Egon Schlüter; Robson Robin, coordenador geral de projetos estratégicos da Diretoria Nacional de Articulação e Coordenação de Políticas sobre Drogas.


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6 FONTES CONSULTADAS

6.1 ENTREVISTAS

Álvaro José Maranhão, artesão: Falou das diferenças da internação compulsória e centro de tratamento, pois já foi internado nos dois. Ana Paula Lima, deputada estadual: falou sobre a importância do combate ao crack, da intersetorialidade. Anderson da Silva: Falou dos anos que era traficante até virar usuário de crack e morar nas ruas. Anderson Marcelo, coordenador do Recanto Silvestre e professor de capoeira: Falou da vida de quando era usuário e como se tornou coordenador do Centro de Tratamento. Antônio dos Santos Pereira: Falou sobre o desejo de largar o vício. Cynthia Cristine Coelho, coordenadora de equipe e apoio às drogas: Explicou porque um usuário não podia ser atendido. Cláudio Monteiro, delegado da Divisão de Repressão à Entorpecentes (DRE): Falou sobre os principais pontos de entrada do crack em Santa Catarina. Diego da Silva: Falou sobre o tráfico do crack e como é a vida dentro do Cadeião do Estreito. Diego Francisco Tripolo, monitor de atividades: Falou sobre como a saída do tráfico e a participação em projetos sociais. Eduardo Deschamps, secretário de Estado da Educação: Disse que é necessário a junção de todas as secretarias para o enfrentamento às drogas. Egon Schlüter, coordenador administrativo da Cruz Azul: falou das comunidades terapêuticas. Eliete Silva, comerciante: Falou sobre a difícil convivência com o marido viciado. Everaldo de Almeida: Falou sobre o uso do crack desde a adolescência. Felipe Porto: Falou sobre vida como morador de rua e do vício. Fernando José do Santos, cobrador de ônibus da empresa Transol: Falou sobre os moradores de rua e usuários de crack que perambulam pelo Terminal Cidade de Florianópolis. Ismael dos Santos, deputado estadual: Falou que fará de tudo para as leis de combate às drogas.


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Ivone dos Santos Duarte, dona de casa: Falou da tristeza com o vício do filho, Carlos, e das formas de tratamento que procurou para recuperá-lo. Jairo Mendes, coordenador do Recanto Silvestre: Falou da vida de quando era usuário e como tornou-se coordenador do Centro de Tratamento. João José Cândido da Silva, secretário de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação: Falou das novas políticas públicas para o enfrentamento das drogas. Leandro Valle, funcionário do Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN): falou como começou a usar a droga e do afastamento do trabalho para o início do tratamento. Leila Franzoni, assistente social: Falou sobre as atividades realizadas no Cras, no centro de Florianópolis. Luciane Farias: Falou sobre a decisão de se prostituir para conseguir a droga e alimentar a dependência. Luiz Prim, padre e diretor técnico do Centro de Tratamento Recanto Silvestre: Falou sobre as atividades realizadas na instituição e sobre a internação compulsória. Manoela Silva, estudante: Falou sobre os problemas enfrentados com o vício de crack do pai. Marcos Lopes, médico psiquiatra: Falou dos efeitos do crack no organismo e dos perigos da droga. Raimundo Colombo, governador de Santa Catarina: disse que o Estado precisa vencer às drogas. Robson Robin, coordenador geral de projetos estratégicos da Diretoria Nacional de Articulação e Coordenação de Políticas sobre Drogas: Falou do tráfico de drogas na América Latina e no Brasil, e falou da intersetorialidade. Roseli Stain, assistente social do Cras no município de Tijucas: Falou sobre como ajudou a jovem Manoela a conseguir fazer com que a mãe fizesse denúncias sobre o pai. Sebastião Elias Gonçalves: Falou da troca da família pela solidão nas ruas. Simone Machado, diretora de Assistência Social: Falou do problema da droga para a sociedade.

6.2 LIVROS

BARCELLOS, Caco. Abusado: o dono do morro Santa Marta. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.


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LOBATO, Elvira. Instinto de repórter. São Paulo: Publifolha, 2005.

BARCELLOS, Caco. Abusado: o dono do morro Santa Marta. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: o diálogo possível. 4. ed. São Paulo: Ática, 2000.

6.3 PERIÓDICOS

GOMES, Emanuelle. Usuários de droga invadem Casa da Câmara no Centro de Florianópolis. Notícias do Dia, Florianópolis, 11 set. 2012. Disponível em: <http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/32937-os-bebes-gerados-pelo-crack.html>. Acesso em: 10 nov. 2012.

GOMES, S.A. A história do médico que sucumbiu ao crack aos 50 anos, em Joinville. Notícias do Dia, Joinville, 6 nov. 2012. Disponível em: <http://www.ndonline.com.br/joinville/noticias/37643-a-historia-do-medico-que-sucumbiuao-crack-aos-50-anos-em-joinville.html>. Acesso em: 10 nov. 2012.

NICOLÁS, Lola. Crack devora 8,6% dos jovens brasileiros. Diário do Grande ABC, São Paulo, 12 set. 2010. Disponível em: <http://www.dgabc.com.br/News/5830270/crack-devora8-6-dos-jovens-brasileiros.aspx>. Acesso em: 10 nov. 2012.

SILVA, L. K. Os bebês gerados pelo crack. Notícias do Dia, Florianópolis, 21 ago. 2012. Disponível em: <http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/32937-os-bebes-gerados-pelocrack.html>. Acesso em: 10 nov. 2012.

VARGAS, Diego. Paraguaio preso com cocaína engomada em roupas pode estar envolvido em tráfico internacional de drogas via SC. A Notícia, Joinville, 19 set. 2012. Disponível em: <http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/noticia/2012/09/paraguaio-preso-com-cocaina-engomadaem-roupas-pode-estar-envolvido-em-trafico-internacional-de-drogas-via-sc-3890043.html>. Acesso em: 10 nov. 2012.


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6.4 SITES

BRASIL. Ministério da Justiça do Brasil. Santa Catarina inicia ações do programa Crack é possível vencer. 5 jul. 2012. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2012/07/05/santa-catarina-inicia-acoes-doprograma-crack-e-possivel-vencer>. Acesso em: 10 nov. 2012.

CRACK, nem pensar. 30 jul. 2009. Disponível em: <http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/cracknempensar/19,0,2532870,Projeto-que-buscano-esporte-alternativa-para-recuperar-jovens-dependentes-de-crack-em-Florianopolis-estaameacado.html>. Acesso em: 19 nov. 2012.

VARGAS, Diego. Consumo de crack avança em cidades do interior de Santa Catarina. Santa Catarina, 28 out. 2012. Disponível em: http://ctviva.com.br/blog/consumo-de-crackavanca-em-cidades-do-interior-de-santa-catarina/. Acesso em: 10 nov. 2012.

BRASIL. Ministério da Justiça do Brasil. II Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil. 2005. <http://www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/biblioteca/documentos/Dados_Estatisticos/popu lacao_brasileira/II_levantamento_nacional/Substancia/326828.pdf>. Acesso em 24 nov. 2012.

6.5 IMAGEM EM MOVIMENTO

CRIANÇAS vítimas do crack. Direção: Caco Barcellos. Rio de Janeiro: Globo, 2012, color. Disponível em: <http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2012/10/mae-luta-na-justicapara-poder-internar-filho-viciado-em-crack-em-mg.html>. Acesso em: 20 set. 2012.


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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Trabalho de Conclusão de Curso “Crack: da queda do indivíduo ao retorno à sociedade” mostra, por meio de uma grande reportagem, que o crack está cada vez mais em alta, por ser uma droga mais barata que a cocaína e com efeitos imediatos. Alerta sobre os perigos enfrentados pelo uso da droga. O crack leva à perda familiar e a falta de dignidade. Muitos usuários perdem todos os bens e viram moradores de rua. Não tem classe social, raça, escolaridade. Ele anda por todos os cantos. Onde há traficante; há a droga. E onde há tráfico, há tragédias e perdas. Observou-se com as entrevistas que todos os usuários, antes de usar o crack, já eram viciados ou consumiam outros tipos de drogas como a maconha, cocaína e até mesmo as ilícitas, como a bebida alcoólica. Constatou-se que somente 30% dos usuários que fazem tratamento ficam curados na primeira internação. Este índice aumenta com a volta às clínicas. Constatou-se, também, que as pessoas que são curadas do vício, tem algum tipo de fé, e faz parte do engajamento social. O trabalho mostra que ainda não há políticas públicas eficazes para o combate às drogas, entretanto, o Governo de Santa Catarina está lançando novas políticas de enfrentamento ao crack.


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REFERÊNCIAS

ARATANGY, Lidia Rosenberg. Doces venenos conversas e desconversas sobre drogas. São Paulo: Olho d’Água, 2000.

BRASIL. Ministério da Justiça do Brasil. Composição e ação no organismo. Brasília, 2012a. Disponível em: < http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/a-droga/composicao-e-acaono-organismo>. Acesso em: 20 nov. 2012.

BRASIL. Ministério da Justiça do Brasil. Tráfico e consumo. Brasília, 2012b. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/seguranca-publica/trafico-econsumo_1>. Acesso em: 20 nov. 2012.

GUEDES, Deusimar Wanderley. Drogas problema meu e seu. João Pessoa: Paraíba, 1999.

KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. 4. ed. São Paulo: Ática, 2001.

POSTERLI, Renato. Tóxicos e comportamento delituoso. Belo Horizonte: Del Rey, 1997.

SANTA CATARINA. Secretaria de Segurança Pública. Estatísticas de apreensões de entorpecentes entre os anos de 2008 a 2012 no estado de Santa Catarina. Florianópolis, 2012a.

SANTA CATARINA. Secretaria de Segurança Pública. Relatório estatístico semestral. Santa Catarina, 2012b. Disponível em: <http://www.ssp.sc.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=533:segurancaem-numeros&catid=92&Itemid=241>. Acesso em: 20 nov. 2012.

VALLE, João E. Problemas Sociais. In: CHARBONNEAU, Paul. Pais, Filhos e Tóxicos. São Paulo: Almed, 1983.


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CRACK: DA QUEDA DO INDIVÍDUO AO RETORNO À SOCIEDADE


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O uso abusivo do crack nas ruas

Florianópolis. 23 de novembro. 17h. O cenário em especial é o Largo da Alfândega, no centro. A rotina diária era cumprida pelo pessoal das barraquinhas, com movimento intenso no final da tarde da penúltima sexta-feira do mês de novembro. Longe dos pedestres e também da muvuca do comércio de frutas, doces e outros alimentos, um grupo de cinco homens chamavam a atenção: um deles deitado e com um cobertor enrolado nas costas, outro em pé e os outros três sentados no banco. As pessoas em questão são moradores de rua e usuários de crack também. A conversa parece animada, pois altas gargalhadas logo são ouvidas e chamam a atenção dos transeuntes que passavam próximo ao local. Além de ficarem em grupo, outra coisa chama a atenção: eles fumam cigarro e bebem algum tipo de destilado. A chuva que começou a cair de fininho, logo engrossou e os cinco homens juntaram os pertences enrolados em sacos de lixo e foram à procura de um local para se abrigar. Correram até o Terminal Cidade de Florianópolis e lá encontraram mais pessoas, que também fumavam e falavam alto. Quem esperava o transporte público no local, tentava desviar deles. Oito homens em um grupo conversando, uma mulher grávida deitada no chão entre dois


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cachorros e outro grupo com homens e mais duas mulheres, grávidas também. Esse era o cenário do terminal na noite de sexta-feira (23). Uma ação pouco incomum no meio de tantas pessoas foi observada: um homem de dread nos cabelos tinha nas mãos um saco plástico com pedras brancas, meio amareladinhas, o crack. Pegou uma delas, colocou dentro de uma lata de cerveja e logo acendeu. Naquela hora, o crack estava pronto para ser consumido. A latinha passa de mão em mão e todos os presentes cheiram o conteúdo do objeto. “Passa a bola, passa a bola” falam entre eles. Após algum tempo cheirando o conteúdo, as ações e atitudes tornaram-se mais intensas. Tudo o que eles fazem, torna-se mais intenso. Um usuário de camiseta vermelha percebe que estão sendo filmados, grita: “Estamos sendo filmados”, e sai correndo na direção da câmera, mas logo volta, porque outro usuário pede que ele pare e volte: “Relaxa aí, mano, é só um filme, não podem fazer nada, senta aí e vamos dar mais um trago”. Então o homem retornou ao local em que estava e voltou a usa a droga. Gritos, algazarras, brincadeiras deixaram curiosas e ao mesmo tempo apreensivas as pessoas que passavam no local. Segundo Fernando José dos Santos, cobrador da empresa de ônibus Transol, os usuários sempre fumam dentro do terminal. “A gente sempre chama a polícia e quando ela chega, eles saem, mas logo retornam aos mesmos bancos. As autoridades devem fazer alguma coisa em relação a isto”, suplica.


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A vinda da droga para Santa Catarina

Noventa e nove por cento da droga que chega a Santa Catarina tem origem nos países limítrofes. Os dados, divulgados pela Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) revelam que o entorpecente provém, principalmente, do Paraguai, Peru, Colômbia e Bolívia. No Brasil, a droga chega por meio das fronteiras, sendo Foz do Iguaçu, no Paraná, o principal caminho para a entrada da droga ilícita. Em Santa Catarina, o crack chega de formas diferentes. De acordo com Cláudio Monteiro, delegado da Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE), os vários tipos de drogas são trazidos por ‘mulas’, como são conhecidos as pessoas que transportam drogas, na fronteira Brasil-Paraguai. O delegado, que já atua na profissão há 10 anos, cita alguns casos de apreensões de crack feitas no Estado. “Já pegamos pessoas que tinham ingerido cápsulas de drogas. Elas ficam no estômago e depois são expelidas pelas fezes”. Outra forma de passar pela fronteira portando maconha, cocaína, crack ou outro tipo de entorpecente, ainda segundo o delegado Monteiro, é dentro dos caminhões. “Apreendemos grandes quantidades de drogas dentro de carros e caminhões. Geralmente, elas são encontradas dentro de compartimentos de veículos ou embaixo do estofado e bancos”. Quando um veículo é suspeito, sabemos os lugares onde procurar. Não tem erro”, relata ele.


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No mês de setembro, um jovem de 24 anos foi preso no Terminal Rodoviário Rita Maria, no centro de Florianópolis, com cocaína, que é a base do crack. O delegado da DRE relata que, em Santa Catarina, o crack chega na forma de pasta de cocaína. “Com o Diego, encontramos a droga engomada em peças de roupa. Desconfiamos da rigidez das peças e com o uso de um reagente, a cocaína foi identificada.”. Em Santa Catarina, os municípios que registram o maior número de apreensões de crack e outras drogas são Florianópolis, São José, Joinville, Palhoça, Blumenau, Criciúma, Itajaí, Lages e Chapecó. Na Capital, o Maciço do Morro da Cruz, o bairro Tapera e a Favela do Siri são os principais pontos do tráfico. “Esses são apenas os locais com mais registros de traficantes e usuários, mas atualmente nenhum bairro de Florianópolis está livre de qualquer tipo de droga, seja maconha, crack ou cocaína. Em alguns locais têm menos, outros mais, mas todas tem a compra e a venda de baseados, pó ou pedra”, explica Monteiro.

As apreensões Em 2011, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Santa Catarina, divulgou dados referentes às drogas. Foram 4.289 pessoas apreendidas por posse de drogas e 3.920 foram enquadradas por tráfico. Já em 2012, até o mês de


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setembro, os números diminuíram. Houve cerca de 3.330 apreensões por posse e pouco mais de três mil por tráfico de drogas. Florianópolis foi o município onde o maior índice foi registrado, seguido por São José e Blumenau. Penha, no Norte do estado, foi a cidade catarinense com maior redução de traficantes detidos pela polícia, seguido por Itajaí e Tijucas, na Grande Florianópolis. O número correto de ocorrências registradas pelo crack não são confirmadas, porque as apreensões de drogas ou prisões são registradas como drogas em geral e não divididas em categorias. Luiz Ricardo Duarte, diretor de Segurança Cidadã da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, ressalta que os números não podem ser contabilizados corretamente. “A SSP não tem esses dados, é difícil de saber também, porque muitas vezes em uma apreensão o policial que atende coloca apenas que o motivo foi a droga e não especifica qual”. Duarte ressalta que há épocas em que a polícia realiza mais abordagens e aumenta

o

monitoramento

e

controle

em

determinadas

regiões

e,

consequentemente, o número de apreensões. “Em Florianópolis, a temporada do verão exige um monitoramento maior, devido à grande circulação de moradores e turistas nas praias e centro da Capital”.

Cadeião do Estreito Diego da Silva é um desses detidos. O jovem de 25 anos está preso no Cadeião do Estreito, em Florianópolis, há 51 dias e deve permanecer lá até que o


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juiz decida onde ele irá cumprir a pena, já que o Cadeião é apenas um centro de triagem. Ele é usuário de drogas e trabalha com o tráfico desde os nove anos. Diego conta que começou usando maconha e cocaína. “Aos 19 anos minha mãe me internou no Centro de Recuperação de Toxicômanos e Alcoolistas (Creta) em Florianópolis”. Lá, ficou internado por 10 dias apenas. “Foi um período legal e um bom tratamento, pois consegui largar a cocaína. Nunca mais usei”. Meses após a internação, ele conheceu o crack. “A sensação que tenho quando uso o crack é a mesma que sentia quando usava a cocaína”, relata. Para manter o vício, ele começou a furtar e, no segundo ato, foi preso. “Roubei a bolsa de uma senhora na Praça XV e saí correndo. Mas ruas depois eu fui capturado”. A vida no tráfico logo foi retomada. Diego conta que, por dia, conseguia vender R$ 2.000 em entorpecentes e que R$ 500 eram destinados para consumo próprio. Hoje, Diego é casado e pai de cinco filhos: uma menina de sete anos, do primeiro casamento, um menino de quatro anos, outro de dois, o caçula de sete meses e outro que a mulher está esperando. De acordo com Edgar Oliveira de Sá, chefe de segurança do Cadeião do Estreito, a unidade comporta 150 presos. A média de entrada e saída neste ano gira em torno de 158 a 209 presos por mês. O tráfico gera problemas econômicos, educacionais e na saúde. Todos os setores da sociedade são afetados direta ou indiretamente e o dever do Estado é agir para encontrar soluções para banir ou, pelo menos, diminuir os efeitos e


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estragos que a pedra de crack causa. No final de novembro, mais uma campanha foi lançada para combater a droga em Santa Catarina. Trata-se do programa “Crack, é possível vencer”.

PARA ENTENDER O CRACK:

O que é o crack? É uma droga ilícita e que possui substâncias psicoativas de ação estimulante do sistema nervoso central. É obtido a partir da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada (Erythroxylum coca), com bicarbonato de sódio e água. A mistura é aquecida em temperatura superior a 100ºC, passando pelo processo de decantação, em que as substâncias líquidas e sólidas são separadas. Com o resfriamento, forma-se a pedra de crack.

Como surgiu? O crack surgiu nos Estados Unidos na década de 1980, em bairros pobres de Nova Iorque, Los Angeles e Miami. Em 1990, a droga chegou ao Brasil, inicialmente em São Paulo e depois passou para os demais estados.

Quais os efeitos psicológicos? Com o uso, a droga pode causar euforia, confiança, insônia e perda de apetite. Quanto mais o usuário usa, mais ele necessita. O efeito da droga dura até sete minutos, por isso o usuário sente a necessidade de repetir a dose. Isso faz com que ele se vicie mais fácil. Pode também, resultar em psicoses.


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Quais os efeitos fisiológicos? Pupilas dilatadas, vertigens, espasmos musculares, destruição de neurônios, aumento de temperatura que pode levar ao acidente vascular cerebral (AVC), convulsão, e parada cardíaca. Os dependentes possuem o corpo magro, pois a droga inibe a fome.

Quais são os fatores de risco? Disponibilidade, círculos de amizade, questões psicológicas e sociais e uso de outras drogas.

Quais os problemas relacionados ao crack? Afastamento familiar, problemas sociais, tráfico, roubos e furtos, violência, problemas de saúde dos usuários, índice alto de abortos.

Onde encontrar tratamento? Unidades básicas de saúde ou centros de saúde; Centro de referência de Assistência Social (Cras), Centro de referência especializado de assistência social (Creas), Centro de atenção psicossocial (Caps); Comunidades terapêuticas.

Quais os tipos de tratamento? Internação ou tratamento ambulatorial, tratamento psicoterápico, medicamentoso e de autoajuda.


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DEPOIMENTOS


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A influência das drogas no comportamento do usuário

Reconhecer ser dependente de crack não são todos que conseguem. Pedir ajuda é ainda mais complicado. Antônio dos Santos Pereira, 45 anos, é carioca e mora em Florianópolis há 27 anos. Pouco tempo atrás, ele tinha uma vida que qualquer homem gostaria de ter. Contava com o amor dos filhos, um menino de 13 anos e uma menina de nove, que moravam com ele. A casa era confortável, toda mobiliada, e nada faltava. Mas devido ao crack ele perdeu tudo. “Perdi porque eu quis e porque mereci. Mas pior do que perder essas coisas matérias, é eu ter perdido a dignidade”. A expressão de início é triste, por ser dependente e por ter se afastado dos filhos por causa da droga, mas também uma pontinha de esperança porque a data da mudança estava próxima. Ele vai mudar de cidade, de hábitos. “Para sair das drogas, o usuário precisa adotar algumas ideias. Uma delas é se afastar das pessoas que te remetem à droga, ao maldito crack”. Para cumprir esse objetivo, Antônio vai se mudar para Goiás e morar com a irmã. A cidade é pequena e, segundo o próprio Antônio, ideal para ajudá-lo na recuperação. “É uma cidade onde todo mundo conhece todo mundo. Lá, você não pode dar um espirro, que todo mundo sabe que você deu aquele espirro. São pessoas simples e puras. É o primeiro pensamento para quem quer largar isso. Você precisa focar isso na sua mente, no seu querer”. A viagem para Goiás


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surgiu no momento em que decidiu pedir ajuda. “Eu percebi que se eu ficasse aqui não ia durar muito tempo”. Ele explica que na hora em que decidiu mudar de vida, ligou primeiramente para a irmã, que logo se prontificou em vir buscá-lo. “Eu decidi ir pra Goiás porque a minha irmã é evangélica e no meu momento maior de lucidez, durante todos esses 45 anos de vida e depois de todos os problemas que eu vivi, e que eu criei também para os outros, eu nunca aceitei a ajuda de ninguém, eu nunca pedi, eu nunca quis a ajuda”.

O crack A história dele com o entorpecente teve início há 14 anos, com o uso da maconha. “Eu usava só a maconha, nunca tive problemas com a droga. Usava e conseguia levar uma vida tranquila”. O crack surgiu há três anos na vida de Antônio. Com a perda do pai, o melhor amigo, ele entrou em depressão. “Meu pai era a minha base, o meu melhor amigo. Ele morreu de uma forma muito repentina. Demorou para cair a ficha”. Ele conta com lágrimas nos olhos o momento da morte do pai, Valdomiro. “Falei com meu pai por volta de 13h e ele estava animado em vir para Florianópolis me visitar e conhecer os netos, que até então, não conhecia, pois ele morava com a filha há muitos anos na região Centro-Oeste. E por volta das 16h30 Elisabete (a irmã) ligou dizendo que meu pai havia sofrido um infarto”.


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Muito abatido, ele se afundou na maconha, usando a droga todos os dias. Como a droga ‘amiga’ não o fazia esquecer os problemas, ele procurou um calmante mais forte. “Foi nessa época que o crack surgiu”. Repetindo muitos casos similares, alguém ofereceu a droga. “Um amigo da empresa ofereceu”. Ele conta que na primeira vez recusou, mas não resistiu na segunda. “Eu queria alguma coisa que anestesiasse toda a dor que eu estava sentindo” Como era de se esperar, Antônio provou uma vez, provou duas e não largou mais. A pedra começou a fazer parte da rotina do técnico em informática. No começo usava quando se sentia muito triste, mas logo a dependência começou a falar mais alto e o uso começou a ficar frequente, cerca de três vezes por semana e quando percebeu, já estava usando diariamente. “Eu saía do trabalho e ficava vagando pela Praça da Alfândega. Meu ponto era ali”. Mesmo sabendo que o crack é uma droga e que causa problemas graves à saúde, Antônio continuou o uso até o dia 1° de outubro. “Essa data vai ficar marcada na minha vida. É o dia mais importante pra mim. Naquela manhã eu renasci de novo e tomei a melhor decisão da minha vida. Um dia antes eu havia vivido um pesadelo”.

A queda É novamente com lágrimas nos olhos que ele fala do episódio que marcou a vida dele. “Eu morava com os meus dois filhos, eles tinham tudo o que


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precisavam. Tinham conforto, internet, celular e tudo mais o que adolescente pode querer. Mas minha casa foi assaltada e eu, sob o efeito do crack, discuti com meu filho. Não briguei por achar que ele fosse o culpado, mas por ele não ter trancado a porta. Eu o xinguei muito, disse coisas que não poderia ter falado”. As lágrimas caem enquanto ele relata a cena. Na mesma hora, o filho saiu de casa e não aceitou mais conversar com o pai. “Eu sei que errei. Estava com essa maldita droga no organismo e por causa dela perdi as pessoas mais importantes da minha vida. Antes, o crack nunca me atrapalhou, mas nessa data eu vi o que ele pode fazer, o quanto ele pode estragar uma família”.

A reintegração Antônio viajou dia 10 de outubro para Goiás. A equipe de assistentes sociais entrou em contato com a irmã dele uma semana depois. Segundo a irmã, ele havia arrumado um trabalho e começou a frequentar a igreja, dizendo até estar disposto a entrar para o coral evangélico.

Do desgosto da família à vida nas ruas

“Perdi toda a confiança da minha família”. É com essa frase que Everaldo de Almeida, de 24 anos, começa a contar seu drama de vida. Primeiro foi a


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dependência, depois a expulsão de casa e, por fim, a rua. A história de Everaldo no mundo das drogas começa quando completou 14 anos, enquanto morava em São José. Ainda jovem, trabalhava com o pai, auxiliando na área da construção. As poucas amizades, que ele acreditava que eram verdadeiras, marcaram um caminho na vida dele, selaram um destino que não imaginava que um dia pudesse chegar. A palavra arrependimento é a que fala mais alto quando olha para o passado e vê a pessoa que se tornou hoje. “Eu fumava apenas cigarro na época e fui a uma festa com meus amigos. Senti que havia alguma coisa diferente. Um amigo ofereceu e eu fiquei receoso de aceitar, pois não conhecia a droga e nunca nem tinha ouvido falar. Usei a primeira vez e nem senti nada, mas na segunda a sensação foi diferente. A partir daí, o vício começou”. Para manter o vício, ele começou a vender os próprios objetos pessoais, as roupas, o celular e o aparelho de som e depois passou a furtar as coisas dos pais, dos irmãos e dos amigos. Foi nessa época que a família começou a desconfiar do envolvimento do filho com as drogas. Quando a confirmação veio, ele foi expulso de casa, mas logo retornou. A mãe o convenceu a deixar a droga de lado e voltar à escola. Conseguiu isso por apenas algumas semanas. A concentração nos estudos durou o mesmo tempo. Logo ele estava nas ruas e na companhia de “más influências”, para a tristeza da mãe.


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A primeira passagem pela polícia veio nessa época. Everaldo se envolveu com um bandido profissional e que também era menor de idade. Os dois tiveram a ideia de assaltar um carro na Praia da Armação, em Florianópolis. O plano deu certo, conseguiram abordar o carro e o motorista. O único azar foi uma viatura da polícia passar no local na hora. Everaldo e o amigo se esconderam, mas no final apenas ele foi preso, pois o comparsa conseguiu escapar. “Meu parceiro era profissional e apesar de termos a mesma idade, 16 anos na época, ele conhecia esse mundo do crime de trás para frente. Quem dançou fui eu. Lembro até hoje do desgosto da minha mãe quando me viu algemado”, desabafa Everaldo. A irmã dele estava ouvindo o noticiário local no momento, quando o apresentador do Jornal do Meio Dia, Hélio Costa ,divulgou a notícia que um tal de Everaldo havia sido preso na noite anterior. “Minha irmã diz que logo pressentiu que era eu”. Não demorou meia hora e o telefone da casa tocou: era a polícia informando da prisão. Por ser menor de idade, ele foi transferido para um centro de internação para jovens. Ficou apenas alguns meses. A venda dos objetos ele conseguiu controlar, mas o consumo da droga foi aumentando proporcionalmente. Primeiro apenas uma vez ou outra, depois todos os finais de semana, até que o consumo virou diário. “Aos 19 anos fui internado em uma clínica de reabilitação, obrigado pela minha família. Fiquei lá por nove meses, sem usar nada durante o período que


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permaneci na clínica”. Mas logo que saiu teve uma recaída e a rotina de antes voltou ao normal.

A vida nas ruas Hoje, ele acha que pode largar o crack sozinho. Prova disso é o controle que diz ter sobre a droga: “Em uma escala de 0 a 10, penso que estou no nível quatro de dependência e isso tende a diminuir mais. Eu não quero fumar, mas nem sempre eu consigo”. O apoio do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) surgiu há quatro meses, por indicação de um conhecido, também usuário de crack. Dizer que Everaldo mora em algum lugar não é certo, pois atualmente ele está dormindo na rua. Mas é andando pelas ruas do bairro Estreito, próximo ao Estádio Orlando Scarpelli, que ele pode ser encontrado. Durante cinco dias por semana, Everaldo encontra no Cras, apoio e conforto durante o dia. “Todos os dias pela manhã eu atravesso a Ponte Pedro Ivo a pé e passo o dia no Cras. Ganho alimentação e um lugar para descansar, além do atendimento com psicóloga e assistente social”, conta Almeida. Everaldo vive hoje o mesmo drama que muitos jovens da mesma idade passam, já passaram e, com certeza, vão passar. A dependência por uma droga, especialmente o crack é uma coisa quase inexplicável. O desejo enorme de querer parar não se sobressai diante da vontade e desejo de fumar uma pedra.


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A família de Everaldo já fez inúmeras tentativas para que ele voltasse para casa, mas ele diz que se sente bem na rua. “Morando na rua não tenho compromisso com ninguém, não devo nada para ninguém”. Everaldo estava pedindo esmolas em um semáforo no centro de Florianópolis, quando a irmã o viu, saiu do carro e tentou levá-lo para casa, mas ele não foi.

Crack: a opção de morar nas ruas

É grande a quantidade de pessoas que trocaram a família, os filhos, o conforto, o carinho dos entes queridos pelas ruas, pelas drogas, pelo crack. Na escolha, acabam preferindo a solidão. Sebastião Elias Gonçalves, de 50 anos, já reside nas ruas de Florianópolis há um ano. Ele trocou os filhos e a esposa pelo crack. “Um dia acordei e percebi que aquele não era meu lugar, que eu precisava sair dali, porque eles não me entendiam mais. Eu precisava ficar sozinho”, conta Gonçalves.


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E assim ele fez. “Eu briguei com minha mulher e saí de casa. Nunca mais voltei”. Disse que iria procurar um hotel até resolver as questões da separação, mas foi direto morar na rua. “Ninguém da minha família sabe onde estou”. A família é evangélica e ele se sente diferente por isso, não se sente membro e nem participante daquele ambiente. “Saí de casa porque não sou um deles. Eu sou usuário de crack e eles não aceitam isso”. Sebastião esconde dos filhos que mora nas ruas, enquanto sua família vive no bairro Dona Vanda, em São José. “Às vezes, vou visitar meus filhos, mas não quero morar com eles. Eu gosto de viver sozinho. Não ando com ninguém e durmo sozinho, assim, evito confusão. Eu falo com as pessoas, mas logo saio, sou responsável pelo o que eu faço e não pelos outros.” Gonçalves estudou até a quarta-série. Trabalhou grande parte da vida como pedreiro, no ramo da construção civil, mas hoje não exerce nenhuma atividade permanente devido à dependência. Faz alguns bicos entre consertos de objetos e lavação de carros para conseguir dinheiro e manter o consumo da droga.

A vida de mendigo Hoje Sebastião vive sozinho, dorme quase todos os dias no Terminal idade de Florianópolis e sonha em largar o vício. Os problemas de saúde dificultam a respiração, a fala e a locomoção. “Quando vou visitar meus filhos me arrumo, tomo banho, pois quero que eles me vejam bem”.


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Sebastião conta que a ex-mulher é a única pessoa da família que sabe que ele mora nas ruas. “Certa vez ela me encontrou pedindo dinheiro no Terminal Cidade. Lembro-me da expressão do rosto dela até hoje. Foi uma cara de espanto por não acreditar que era eu que estava ali.” A mulher perguntou se ele estava pedindo esmola mesmo e ele confirmou, ainda implorando que ela não contasse nada aos filhos. Sebastião diz que naquele momento pensou, pela primeira vez na vida, em pedir ajuda, mas que o desejo passou e logo o sentimento de derrota foi mais forte. “Eu não vou conseguir largar essa droga, eu sei que não. Até hoje não conheço ninguém que conseguiu”. Se durante o dia Sebastião fica no Cras, à noite, ele perambula pelas ruas do centro de Florianópolis em busca de dinheiro para comprar o crack. “Geralmente paro nos bares abertos à noite e peço dinheiro. Sempre digo que é para comprar comida, alguns dão, outros já imaginam que seja para comprar droga e ainda ameaçam chamar a polícia”.

Crack: não há distinções de classe social

“Oi, moça, bom dia! Meu nome é Felipe Porto, eu tenho 33 anos, e estou vendendo livros. Eu trabalho na empresa da minha mãe, o ‘Lar das Carmelitas’, que é uma instituição que cuida de criancinhas abandonadas em Santa Maria. Estou em Florianópolis vendendo esses livros que são publicados pela editora da


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minha mãe para ajudar a instituição e também conseguir dinheiro para o tratamento do meu irmão, que é dependente e usuário de crack. A instituição tem uma filial aqui em Florianópolis. Você quer me ajudar comprando um livro? Tenho obras de vários assuntos e com preços variados.” É com essa conversa que Felipe aborda as pessoas no Terminal Rodoviário Rita Maria, no centro de Florianópolis. A conversa sobre conseguir dinheiro para ajudar o irmão drogado é só uma desculpa. O drogado na história é ele mesmo. E o dinheiro para conseguir ajudar no tratamento é apenas para ele manter o vício do crack. Assim como a maioria dos usuários que frequentam o Cras, Felipe passa o dia na instituição se alimentando e descansando. Quando o horário no local termina, ele vai vender os livros. Olhando para Felipe Porto, nem se percebe que ele é morador de rua. Bem apresentado e com ótima oratória, ele é formado em Economia e é ex-professor de Matemática. ‘Ex’ mesmo, pois o vício não permitiu que ele continuasse a lecionar. Felipe é natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Deixou os pais, a mulher, as duas filhas gêmeas e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para morar em Florianópolis e tentar uma vida melhor, com mais liberdade para fazer as coisas rotineiras, inclusive manter o vício da cocaína.

Florianópolis


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Quando chegou à capital catarinense não tinha onde morar e foi parar nas ruas. Ali conheceu pessoas, o crack e uma nova vida. Sem dinheiro, subiu o morro e foi pedir ajuda para o traficante. O chefe do morro lhe deu um lugar para dormir e toda a proteção que ele precisaria ter para morar numa favela, mas em troca ele teve que assaltar, vender drogas para adolescentes, intimidar as pessoas e colocar medo em quem não concordava com as decisões do traficante. No comércio, ele não se deu bem. Tinha pena de quem queria fumar e não tinha o dinheiro suficiente. No final, fornecia a droga por um preço mais baixo. Essa atitude de Felipe não agradava o chefe, pois representava perda de dinheiro. Então, ele resolveu focar nos assaltos. A decadência começou quando resolveu assaltar uma lotérica de Florianópolis. Pegou a arma com o ‘bando’, entrou no local no dia anterior para conhecer quem trabalhava lá e estudou as ruas de fuga. Felipe observou e quando o último cliente saiu, ele entrou apontando a arma para a atendente. Com o assalto anunciado, foi até o balcão e puxou a bolsa cheia de dinheiro que havia recolhido. Mas a atendente fez o mesmo, então ele deu uma coronhada na cabeça da moça, que desmaiou na hora. Para o azar dele, a viatura do Bope havia sido acionada pelo dono da lotérica, durante a confusão dentro do estabelecimento. “Quando eu coloquei meus pés na cadeia, me arrependi de tudo o que tinha feito”, conta. A vida e a rotina da prisão é muito triste, de acordo com o usuário. Após sair da prisão, por ter bons antecedentes criminais e ensino


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superior completo, Felipe voltou às ruas. Na ocasião, surgiu a ideia de vender livros e até agora parece que a atividade parece ter dado certo. “Ganho muito dinheiro vendendo meus livros, quase R$ 100 por dia. O problema é que gasto a mesma quantia consumindo drogas”, relata Felipe. Hoje, o ex-professor passa as manhãs no Cras, toma café, almoça, recebe lanche, com direito a banho e local agradável para descansar. Queria muito sair das ruas e ir, a princípio, morar no albergue, mas devido à situação com a Justiça, ele não tem permissão por possuir passagem pela polícia.

Futuro Felipe tem planos na vida. Quer sair das ruas, construir família e, principalmente, controlar o vício para, mais tarde, deixá-lo. A família dele, que mora no Rio Grande de Sul, nem imagina a vida que ele vive aqui. Nas ligações para a mãe, Felipe diz estar muito bem, morando em um apartamento com vista para o mar e que ainda vai ser pai. As duas filhas gêmeas eram o xodó de Felipe enquanto ainda estava em Porto Alegre. Hoje só fica a saudade e o desejo de, em um futuro próximo, voltar a conviver com as meninas. “Penso nas minhas filhas todos os dias, mas na situação que estou hoje, não quero que ninguém da minha família me veja”. Talvez, em um futuro próximo, ele possa realizar tudo isso. “Eu sempre tive tudo o que eu queria, carro do ano, apartamento maravilhoso, mas perdi tudo. Talvez Deus queira me mostrar o verdadeiro significado das coisas”.


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O amor pelo crack Ao chegar ao Cras em qualquer dia da semana, é possível encontrar um casal sentado na porta de entrada do local. Anderson da Silva, 29 anos, é natural de Pato Branco, no Paraná, e mora em Florianópolis desde os três anos de idade. Sua companheira, Luciane Farias, da mesma idade, o acompanha sempre. A rotina de Anderson no mundo das drogas começou muito cedo e de uma forma bem pesada. Aos 12 anos, quando saiu de casa, ele foi morar nas ruas e logo chegou ao tráfico. “Com 12 anos eu saí de casa e fiquei morando na rua por algum tempo, até chegar à favela. Comecei a trabalhar muito cedo com o tráfico. E hoje me arrependo muito disso”. No início ele começou com o uso da maconha. Assim foi até os 22. E por influência dos amigos começou a usar outras drogas. “Até os 22 eu trabalhei com o tráfico e morei no Morro da Caixa, na capital de Santa Catarina. A vida no morro não é fácil, mas morar lá é uma grande lição de vida, nossa vida nos becos é um livro aberto. Aprendi muita coisa, principalmente a me virar sozinho”. Após conhecer a quarta namorada, ele saiu do morro, da favela e do mundo do crime. “Conheci uma mulher que mudou a minha vida e me colocou no caminho certo. Ela só não conseguiu me livrar das drogas”. Dessa mulher, ele está separado há oito anos. Diz que ainda gosta dela, mas devido a problemas particulares de cada um, eles se divorciaram.


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Luciane Hoje vive com Luciane, que está grávida, porém o filho não é dele. Luciane, é prostituta e nem mesmo ela sabe quem é o pai do bebê. Os dois se encontraram na rua. Ele diz que ficou comovido com a situação dela e resolveu ajudar, oferecer proteção. “Mesmo vivendo anos no mundo do crime, aprendi a proteger as pessoas, porque um dia posso precisar delas. Vi a Luciane precisando de ajuda e não vou negar, ainda mais ela estando grávida”. Sobre Luciane, não define um final para os dois, pois ainda nutre um sentimento pela ex-mulher que foi a responsável por tirá-lo do morro e da vida ilegal. “A Lu eu vou ajudar enquanto puder, enquanto Deus permitir”.

Prostituição Luciane é usuária de crack desde os 15 anos. Ela conta que já cheirava cocaína quando experimentou o crack pela primeira vez. Na ocasião não sentiu nada. “A primeira vez eu usei por influência de uma amiga. Na segunda, eu decidi usar sozinha, como já havia utilizado em outra oportunidade”. A jovem, que tinha constantes brigas com a mãe, saiu de casa e virou garota de programa para se sustentar e manter o vício. “No começo era uma troca de favores, eu transava e os meus clientes bancavam as minhas vontades. Foi dessa forma que comecei a usar meu corpo para ganhar dinheiro. Tive que sair de casa porque minha mãe não aceitava isso”, conta Luciane, que


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complementa contando que ao ver que o dinheiro vinha de uma forma fácil, começou a se prostituir de verdade. Luciane casou-se aos 22 anos com um dos clientes. Na época, largou a profissão e logo engravidou. “Resolvi parar de usar o crack assim que engravidei. Dei prioridade à minha filha Mariana”. Com cinco anos de casamento, ela conta que o mundo ruiu ao seu redor. Flagrou o marido com outra mulher na cama do casal. “Meu mundo caiu, ele não respeitou nem a nossa filha. Ele me traiu na minha cama”, desabafa. A decepção foi tão grande, que ela voltou a usar o crack. “A droga é assim, começamos a usá-la quando algo muito forte atinge nosso emocional. Na época o crack foi meu refúgio, trouxe-me calmaria e me fez sentir bem”. Com o retorno ao vício, Luciane voltou a se prostituir. Deixou a filha Mariana, de seis anos, com a mãe em Porto Alegre e há três meses trocou a capital gaúcha pelas ruas de Florianópolis. Aqui continuou a prostituição e logo engravidou. “Depois que descobri a gravidez, estou tentando ficar longe da droga, mas ainda fumo o crack, mesmo sabendo dos riscos para o meu bebê”. Por meio da ajuda de alguns funcionários, Luciane conseguiu se instalar por alguns dias no albergue, no centro de Florianópolis. Foi lá que conheceu Anderson. Agora, com o apoio um do outro, os dois tentam abandonar o crack e começar uma nova vida. Eles passam todo o dia no Cras, ao lado da passarela Nego Quirido. “Aqui temos a atenção dos assistentes sociais, pedagogos e psicólogos. É como se fosse a nossa casa. Almoçamos, tomamos café e banho”.


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Segundo Leila Franzoni, assistente social, os usuários enxergam o local como um lar. O Cras atende cerca de 30 a 40 moradores de rua por dia.

O mundo do crime Na linguagem do morro, Anderson era um arquiteto, ou seja, armava as coisas, organizava fugas. Conhecia a favela como ninguém. Sabia de todos os becos, ruas e vielas. Foi por muito tempo o braço direito de traficantes conhecidos nas favelas de Florianópolis, como Papagaio e Neném da Costeira. Para os dois, trabalhou em épocas diferentes, mas realizava praticamente o mesmo trabalho: fazia cobranças. As cobranças diziam respeito a quem devia dinheiro para o tráfico ou para quem contava coisas sobre os traficantes para a polícia. “No morro, as coisas eram rápidas. Se hoje a polícia subisse a favela atrás de algum bandido companheiro, no outro dia algum barraco amanhecia de luto. Os chefões não perdoavam”. Um dos serviços que Anderson não se orgulha nem um pouco de ter realizado é sobre os presentes que os encarregados precisavam dar aos traficantes todo final de ano. Eles eram obrigados a matar pessoas. E caso não matassem, outro encarregado fazia o serviço, matando as duas pessoas juntas. “Entreguei 12 presentes para os meus chefes. E hoje me arrependo de cada atitude feita”.


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Anderson tem alguns cursos técnicos no currículo: geomensura, escolta armada, atendimento às empresas e planejamento. O objetivo dele agora é ir para São Paulo fazer mais cursos e terminar o supletivo. A viagem já está marcada, será na primeira semana de 2013.

Violência: mais um dos malefícios do crack

Manoela Silva de 17 anos, é uma filha corajosa. Não são todos que tem a coragem de denunciar a violência contra a mulher, principalmente denunciar o próprio pai, Josué Silva. Ele, batia na mãe, Eliete da Silva, e o motivo era o crack. A jovem conta que ele sempre usou outros tipos de droga, como a maconha. “Ele era pescador, ia para Santos e lá, como os pescadores ficavam muito tempo no mar, acabavam usando a maconha para relaxar”. Josué chegava a ficar oito meses em alto-mar, enquanto Eliete cuidava da peixaria da família e dos filhos. “Na gravidez do meu segundo filho, o Josué nem acompanhou. Eu estava grávida de quatro meses e ele foi para Santos, quando voltou já tinha ganhado o bebê”, comenta Eliete. Há cinco anos, Josué, que estava com 50 anos, descobriu um tumor no cérebro. Eliete ficou nove meses em Florianópolis cuidando do marido, que estava internado. Todos achavam que ele não iria sobreviver, entretanto, após o tratamento, ficou curado.


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Depois da recuperação, Josué começou a usar crack. Ele, que até então era uma pessoa querida e calma, tornou-se agressivo e passou a espancar a mulher. “Lembro a primeira vez que aconteceu: eu estava no guardando peixes no freezer, quando ele veio por trás e me pegou pelo pescoço”. No momento, a filha caçula Manoela que chegou em casa e viu a cena, pediu ajuda ao irmão: “Mano, o pai tá matando a mãe!” A situação desesperadora só terminou quando Eliete deu um chute no marido e conseguiu soltar-se. Depois desse episódio, as agressões tornaram-se mais frequentes. Como Manoela é a única que morava com eles, sempre presenciava os fatos. “Eu já fui até a delegacia de bicicleta e ninguém me ajudou, eu não sabia o que fazer”, desabafa a caçula. A jovem, que hoje estuda no terceiro ano do ensino médio e se prepara para prestar vestibular para o curso de Psicologia, participava do coral na escola, coordenado por Roseli Stain, assistente social de Tijucas. Certo dia, depois de uma palestra sobre drogas, ministrada por Roseli, Manoela resolveu se abrir e desabafar: “A Manô começou a chorar depois da palestra e me contou a história que passava na casa dela”, diz a assistente social. “Então, conseguimos convencer a mãe dela que a melhor forma era denunciar o marido. Afinal, a lei Maria da Penha serve para isto”, complementa. Com a ajuda da profissional, a família conseguiu colocar o pai para fora de casa. Eliete e Manoela ficaram com a casa e com o carro, enquanto Josué ficou com o barco e uma casinha bem próxima à residência.


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Mesmo oferecendo uma casa ao marido, Eliete ainda deve R$ 60 mil para Josué, que serão pagos em 10 vezes de R$ 6 mil, por ordem do juiz. Eliete diz que já pagou mais que isso, até porque Josué vive extorquindoa. “Eu já dei dinheiro para ele reformar o barco, comprei móveis novos e ainda dou comida para ele. Esses dias ele deixou dois eletrodomésticos estragados na porta da minha casa para eu arrumar, sem contar que ele sempre vem me pedir dinheiro e eu dou. Ele diz que é para comprar comida, depois descubro que ele queria mesmo é comprar o crack”. Mãe e filha contam até com bom humor algumas situações presenciadas por elas enquanto o pai está sob efeito da droga. “A gente tem que rir para não chorar em algumas situações. Esses dias ele veio aqui perto do almoço, e nós estávamos comendo. Ele fez aquela cara de cachorro sem dono. Ficamos com pena dele e falamos pra ele ficar”. Seguindo os caminhos do pai, o irmão mais velho de Manoela, de 32 anos, que mora em São Joaquim, também usa a droga quando vai para Tijucas. “A diferença entre o meu pai e o meu irmão, é que o mano consegue parar quando ele quer, o pai não.”

O crack e os problemas na família

O crack é uma droga que não destrói apenas a vida do viciado e usuário. Todas as pessoas que vivem perto são afetadas, principalmente os pais, que têm


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aquele amor incondicional pelos filhos e os veem os mesmos se autodestruírem por uma pedra de crack. A moradora de Palhoça, na Grande Florianópolis, Ivone dos Santos Duarte, de 61 anos, é mais uma mãe que sofre pelo uso abusivo de crack do filho, Carlos Augusto Duarte, de 38 anos. Ela mora no bairro Frei Damião, considerado um dos bairros mais violentos de cidade. Quando perguntada se gosta de morar lá, mesmo com os altos índices de violência, ela diz que sim. “Aqui é a minha vida e tudo o que construí está aqui”. Mãe zelosa e amiga, ela tem quatro filhos: Carlos Augusto, 38 anos, Mariana, 35, Joseph, 27, e Joana, de 24 anos. Todos receberam a mesma educação e as mesmas oportunidades, mas apenas um deles caiu no mundo das drogas. Quando jovem e já com os quatro filhos, o marido João Duarte, abandonou a família e simplesmente desapareceu. “Meu marido trabalhava para uma empresa que realizava obras nas estradas na BR-282. Eles paravam em várias cidades, e vinham para casa a cada dois meses. Mas nas datas previstas para voltar, o João não apareceu”. Ivone então resolveu entrar em contato com a empresa e foi informada que o marido havia pedido demissão há algumas semanas e ninguém sabia para onde ele havia ido. Anos depois, ela encontrou um colega que trabalhou com o marido no período do sumiço. Para surpresa dela, o homem contou que ele conheceu uma


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mulher em uma das cidades onde eles ficavam e, quando a empresa mudou de lugar, ele decidiu ficar com ela. Por causa da ausência paterna, todos os filhos foram obrigados a começar a trabalhar desde cedo. Carlos iniciou os trabalhos em uma madeireira, com 14 anos. Foi nessa idade que ele conheceu a maconha, apresentada por um primo de 17, que trabalhava no mesmo local. Com o uso frequente da maconha, logo o filho de Ivone estava usando outros tipos de droga, como cocaína e o crack. “Meu filho sempre foi trabalhador, ninguém acredita que ele usa o crack, porque é uma ótima pessoa”, conta a mãe. Carlos casou-se com 20 anos e ainda continuava a usar a droga, até o segundo filho do casal nascer. “Ele conseguiu parar por alguns meses, por força de vontade mesmo, mas algum tempo depois ele teve a primeira recaída”. Aos 26 anos, Carlos foi internado em uma clínica de reabilitação e saiu limpo e recuperado. Mas quatro anos depois, quando a família mudou de cidade e foi morar em São Pedro de Alcântara, ele passou por problemas familiares e voltou a usar a droga. Em julho deste ano, Carlos deixou a mulher e os filhos e resolveu voltar a morar com a mãe, em Palhoça. Por dois meses ele ficou no bairro Frei Damião, mas em setembro pegou suas coisas e foi morar na casa de outro usuário. “Sei que meu filho hoje fuma todos os dias e não sei onde isso vai parar”, conta Ivone com a voz embargada.


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“Quando meu filho aparece aqui eu fico desesperada. Eu juro”. A mãe diz isso por não saber o que o próprio filho pode fazer, quais as reações e atitudes. “Ele chega aqui horrível, parece outra pessoa. Grita muito, fala sozinho, abre a geladeira, come e vai dormir. Fica assim por um bom tempo. Daí vai embora de novo e quando precisa de alguma coisa ele volta e repete tudo de novo”. Apesar da vontade de sair do vício, ele demonstra que o desejo é apenas momentâneo, pois em dois dias já está nas ruas buscando mais droga para saciar o vício. “É difícil ver meu filho nessa situação e não poder fazer nada. Ele era um homem de família, ama os filhos, mas é corrompido pelo crack”, diz a mãe. Ivone relata que já procurou tratamento no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e não teve bons resultados.

O que diz a instituição? A coordenadora de equipe de apoio às drogas do município de Palhoça, Cynthia Cristine Coelho, conta que o tratamento contra usuários é feito. “Nós atendemos usuários de drogas, mas ele tem que vir até aqui, para que possamos fazer a análise do indivíduo e encaminhá-lo ao melhor local. A nossa política não permite procurar os usuários”, justifica a coordenadora. “Provavelmente, o filho da dona Ivone não quer fazer o tratamento, por isso ele não comparece para a avaliação”, explica.


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“O crack é psicoestimulante”, afirma médico

Assim como as outras drogas (maconha, cocaína, óxi, LSD), o crack é um problema social. Pensa errado, quem acha que apenas o usuário é que sofre influência pelo uso do entorpecente. A família, mesmo de longe, acompanha todo o sofrimento. Em entrevista, o médico psiquiatra da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Marcos Antônio Lopes explica os motivos de termos um número tão expressivo de usuários e viciados no crack.

Por que alguém cai no vício do crack? Dr. Marcos: O crack tem uma forte dependência. O efeito age de forma muito rápida no organismo do usuário e dura no máximo 7 minutos. Quanto mais a pessoa usar, mais rápida a droga é absorvida e menos tempo dura o efeito. O crack é muito mais intenso do que a cocaína. É uma substância psicoestimulante.

Quais pelos motivos quais as pessoas usam o crack? Dr. Marcos: Primeiramente para fugir da realidade. A busca de emoções também é outro motivo. As pessoas querem se sentir diferentes, e principalmente livres. Tudo que o usuário sente, com a droga ele irá sentir de modo mais intenso.

Quem usa a droga?


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Dr. Marcos: Não é somente moradores de rua que usam a droga, como a maioria pensa, pessoas da classe A usam frequentemente. Costumo dizer que não há classe social envolvida diretamente ao uso de qualquer droga. Não existe um público específico.

O que falta do ponto de vista social para evitar o uso ou ao menos controlálo? Dr. Marcos: Primeiramente, faltam mais ações das secretarias da Saúde, Assistência Social, Segurança Pública e Educação. Todas devem estar interligadas para que possam ser uma ferramenta ou uma porta para auxiliar o usuário na busca por ajuda. Acredito que faltam também ações de qualificação para os profissionais lidarem com a droga de uma forma que convençam os usuários de que abandonar a droga é o melhor caminho.


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O TRATAMENTO


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Recuperação: uma esperança para a cura

Portões abertos e pessoas trabalhando no jardim. Árvores, o som dos pássaros, açudes, uma capela e animais. Esse é o cenário do Centro de Tratamento Recanto Silvestre, localizado no bairro Fundos, em Biguaçu, na Grande Florianópolis, que trata dependentes químicos. O Recanto existe há 12 anos e foi fundado pelo padre Luiz Prim, de 55 anos, e que é natural de Ituporanga, no Vale do Itajaí. Formado em Filosofia, Estudos Sociais e Teologia, o padre sentiu a necessidade de ajudar usuários de drogas e familiares, pois segundo ele, via o desespero de mães lhe pedindo ajuda. “O centro de tratamento surgiu com proposta da comunidade em uma área onde o Estado deixou a desejar”, confessa Prim. Das 2.000 pessoas que já passaram pelo Recanto Silvestre, estima-se que 30% delas pararam de consumir as drogas definitivamente. A diretoria da instituição apenas estima, pois não consegue manter contato com todos. Porém, grande parte daqueles que ainda moram na região da Grande Florianópolis hoje estão recuperados, conseguindo inserir-se novamente na sociedade. A instituição Recanto Silvestre comporta 30 pacientes, sendo que há disponíveis oito vagas sociais, ou seja, o estabelecimento disponibiliza vagas para quem deseja largar o vício das crack, mas não tem condições financeiras


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para efetuar o pagamento, que hoje equivale a R$ 933. No momento, o espaço abriga homens com idade entre 18 e 60 anos. Durante o dia, os reeducandos cuidam das atividades domésticas, trabalham na jardinagem, fazem aulas de capoeira, artesanato e reciclagem. O dinheiro arrecadado na venda do artesanato e nos trabalhos de reciclagem está sendo guardado para ser entregue, em partes, quando o ‘ex-usuário’ sair. De acordo com o padre, o dinheiro será um pequeno auxílio para que todos consigam se reintegrar na sociedade ou até que comecem a trabalhar.

O tratamento Padre Prim conta que o Centro de Tratamento Recanto Silvestre tem três princípios básicos: Espiritualidade, Disciplina e o Trabalho. “Primeiro vem a espiritualidade, que não é necessariamente acreditar e seguir um Deus. O indivíduo precisa ter fé em algo e acreditar em algo bom e maior. Em seguida vem a disciplina, onde o indivíduo aprende a honrar, seguir e respeitar os horários. E em terceiro lugar vem o trabalho, onde o paciente e ex-usuário aprende a dar valor ao que tem, nem que seja pouco”, explica o padre. Seguindo o tratamento, que dura seis meses e é realizado em três etapas, o usuário precisa aderir a algumas atitudes mentais para que o resultado seja positivo e satisfatório: Honestidade, ou seja, responsabilizar-se por suas atitudes e ações seja onde for; Boa vontade para estar disposto a fazer o tratamento e


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vencer cada etapa; e Receptividade, para ter a mente aberta ao programa de cognição e conhecimento. Além do padre Prim, que atua como diretor técnico da instituição, o Recanto Silvestre trabalha com uma equipe de profissionais capacitada e qualificada que tem coordenadores, psiquiatra e psicólogos. Os coordenadores que trabalham no locam são ex-usuários de drogas e já passaram pela reabilitação.

Os reeducandos É o caso de Jairo, de 55 anos. Magro, alto, moreno e com a aparência de cansado e bem abatido, ele conta que começou a fumar maconha aos 14 anos e que um ano depois, já injetava cocaína na veia. Ainda jovem, com 28 anos, ele descobriu que havia contraído o vírus HIV e também Hepatite C. Por querer a auto-destruição, Jairo aderiu ao crack. “Primeiro nós usamos a droga para cobrir os sentimentos ruins e as perdas, usamos para nos libertar de alguma coisa que sentimos estar presos, mas depois é a droga que nos prende e não conseguimos viver sem ela”, desabafa o ex-usuário com uma expressão triste nos olhos, lembrando-se dos quatro filhos que não vê, pois a família afastou-se dele quando perdeu o emprego devido ao vício. Jairo diz que em 1994, a internação se tornou necessária e ele foi para uma clínica de reabilitação no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis.


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Com a eficiência do tratamento, aliada à vontade de parar e se recuperar, ele parou com o crack. Porém, em 2006, teve uma crise e logo voltou a consumir o entorpecente. O retorno às drogas o fez interna-se novamente. Desta vez, a decisão foi dele. Hoje, Jairo está há seis anos sem usar drogas e usa a experiência para coordenar o Recanto Silvestre. “Fico feliz em trabalhar aqui, não quero que ninguém passe pelo que passei, sempre tento mostrar as conseqüências e as perdas que a droga traz”, ressalta ele. Atualmente mora com o irmão no bairro Sertão do Imaruí, em São José. Ele já voltou a falar com filhos e isso, na opinião de Jairo, é o mais importante. Anderson Marcelo tem uma história parecida com a de Jairo. Assim como o coordenador, Anderson usou drogas e perdeu muitas coisas por isso. À primeira vista, ninguém imagina que ele já foi usuário de crack, pois o porte físico alto e forte retrata uma pessoa saudável, ainda mais sabendo que ele ministra aulas de capoeira aos pacientes do Recanto. Anderson é natural de Florianópolis, mas morou um tempo com a avó no município de Joinville, Norte de Santa Catarina. Foi lá que teve o primeiro contato com a maconha e também com o álcool, aos 13 anos. Quando voltou para Florianópolis, aos 18, ele começou a experimentar a cocaína. Aos 27 anos, aderiu ao crack. Um ano depois, ele sofreu duas importantes perdas: a esposa e o grupo de capoeira.


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Nesse momento é que ele resolveu ir para a reabilitação. “Não podemos voltar para os lugares que nos fazem lembrar a época em que usávamos drogas. Eu praticamente vendi a minha casa, pois toda vez que entrava nela, eu saia logo carregando um objeto para vender e comprar a pedra”, diz o coordenador. Hoje, com 38 anos, está casado e morando com a esposa. Entre as 25 pessoas que estão internadas no Recanto Silvestre, um jovem, moreno, de cabelo curto, Leandro Valle, de 27 anos, e morador de São José, é usuário de cocaína e crack. Ele é funcionário do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e pediu afastamento, há três meses, para fazer o tratamento. Leandro chegou até o Recanto após deixar o carro como pagamento pelo uso de drogas. “Comecei a usar a droga porque eu não gosto de cerveja, então um dia eu perguntei para um amigo traficante qual era a droga que daria o mesmo efeito que eu sentia quando tomava 10 cervejas. Então ele me apresentou a cocaína”. O consumo do crack não demorou muito para chegar até ele.

Internação Compulsória Álvaro José Maranhão, de 45 anos é mais um paciente da instituição. Natural de Belém do Pará, ele veio para Santa Catarina especialmente para o tratamento. De acordo com ele, os problemas familiares eram muitos na família.


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As brigas constantes com a mãe, após o casamento com a atual mulher, Miriam, levaram Álvaro para o pior caminho, as drogas. No momento ele não entendeu, mas mesmo dando amor e carinho à mulher, ela pediu o divórcio em 2010. Após seis meses separados, os dois reataram o casamento, mas as brigas não cessaram. A situação tomou um caminho diferente um mês depois que Miriam e Álvaro voltaram a moram juntos. Após uma briga, a mãe dele contou o real motivo do descontentamento com a relação de ambos: Mirian, antes de casar com Álvaro era prostituta e só casou com ele pelo dinheiro. Ele sentiu-se traído, pela mãe e pela esposa. Devido tamanha decepção, o uso do crack foi uma das atitudes tomadas para esquecer, pelo menos momentaneamente, os problemas pessoais. Além do crack, usou também o óxi, que é a pasta-base da coca, mais cal e gasolina. Em três meses, Álvaro já estava viciado. A mãe dele, Leopoldina, de 65 anos, é dona de uma clínica de reabilitação, em Belém. Entretanto, resolveu internar o filho, em uma clínica de São Paulo. “Foi por essa decisão que eu fiquei mais magoado com a minha mãe, pois ela me internou compulsoriamente. Em São Paulo eu passe fome e as pessoas me trataram muito mal”, desabafa o reeducando. Depois que saiu de São Paulo, ele mesmo procurou uma clínica que fosse bem longe da família. No Recanto Silvestre, com as aulas de artesanato, Álvaro aprendeu a fazer belas esculturas. Quando terminar o tratamento ele já tem planos: focar no trabalho e vender as obras.


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Para o padre Prim, a internação compulsória não funciona: “Não adianta internar à força, a pessoa tem que querer tratar-se de verdade”. Quando o usuário não quer fazer o tratamento, mas a família quer que ele faça, o padre faz a abordagem domiciliar, que é uma conversa com o usuário para tentar convencê-lo de que a droga só traz perdas. “A pessoa usa a droga para se satisfazer e o uso dela é acumulativo. O usuário só percebe o mal que ela faz quando é demitido do emprego ou desentende-se com a família. O tratamento infelizmente só é opção quando ele percebe as perdas”.

O início da reintegração na sociedade

É na comunidade do Monte Serrat, bairro localizado no centro de Florianópolis, que mais um projeto social, entre tantos realizados nos morros da Capital, ajuda, oferece e proporciona alternativas diferentes para os participantes. O Centro Cultural Escrava Anastácia, dirigido pelo padre Vilson Groh, surgiu em 2007 e foi criado com o intuito de oferecer alternativas ao mundo da criminalidade, do narcotráfico e da violência contra os adolescentes. De acordo com o coordenador Toninho, o projeto proporciona reinserção familiar, comunitária, social, escolar e laboral. Diego Francisco Tripolo, de 24 anos, é monitor na instituição, mas até chegar nesse lugar, passou por muitos problemas na vida, a começar pelo


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envolvimento com drogas, o que desencadeou todos os outros percalços sofridos. Morador da comunidade Chico Mendes, ele era um dos meninos do tráfico local. Com apenas 12 anos, começou a vender drogas por influência do irmão. O dinheiro era tentador, chegava a tirar de três a quatro mil reais por mês. Ele conta que a droga vinha de fora do Brasil. “Eu ajudava o meu irmão a vender drogas. Ele pegava com os fornecedores para vendermos aos usuários lá do morro (Chico Mendes)”, admite. Os clientes dele eram usuários da região, vizinhos e também “playboys da cidade”. Quando o irmão de Diego foi preso, ele resolveu parar com a venda, o tráfico e principalmente com o uso. “Já vi muita coisa na comunidade, mortes de inocentes e amigos sendo executados. Então quando eu conheci o projeto Procurando Caminho, vi que a vida do tráfico não leva a nada”, conta.

O projeto Durante todos os dias da semana, os jovens participam de atividades como o surfe, futebol, dança, teatro e informática. “Aqui ficamos com a mente ocupada e não pensamos em fazer besteira, vimos que podemos nos dar bem por meio do esporte”, destaca o jovem.


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AS AUTORIDADES


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Quais medidas devem ser tomadas para vencer as drogas?

“O usuário deve ter um tratamento digno para a cura do vício do crack e a articulação é fundamental para melhor acolhermos os usuários”, disse João José Cândido da Silva, secretário de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação, no 1° Encontro Catarinense de Políticas Públicas sobre Drogas, realizado, no bairro Ingleses, em Florianópolis. “Nossa atuação deve ocorrer em conjunto com as demais secretarias”, ressaltou o secretário. O evento que ocorreu nos dias 27, 28 e 29 de novembro, teve a participação de 750 técnicos de diversas áreas da saúde, segurança pública, educação e assistência social do estado. O debate foi acerca de novas formas de combater as drogas, principalmente o crack. O encontro promovido pela Secretaria de Estado da Assistência Social, contou com a presença de representantes de servidores das secretarias estaduais do Trabalho e Habitação (SST), da Saúde, Educação, Justiça e Cidadania, Segurança Pública, Casa Civil, além do Conselho Estadual de Entorpecetes (Conen), Cruz Azul, Associação Catarinense de Comunidades Terapêuticas e Federação

Catarinense

de

Comunidades

Terapêuticas,

Prefeitura

de

Florianópolis e Frente Parlamentar de Combate e Prevenção às Drogas da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). O governador Raimundo Colombo participou da abertura do evento, dia 27 e afirmou que fará o possível para atender e ajudar os usuários. “Há uma


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grande necessidade de o Estado coordenar o combate às drogas. Darei apoio financeiro para podermos vencer as drogas, o Estado contribuirá para a construção do que for necessário para a implantação das políticas”, reiterou Colombo. Na Secretaria de Assistência Social, a atuação ocorre por meio dos 342 Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e dos 86 Centros de Referência Especializados em Assistência Social (Creas), em um trabalho de orientação e encaminhamento junto às famílias. Também existem cinco Centros de Referência Especializados para Atendimento da População em Situação de Rua (Centro POP). Em Florianópolis, o Centro POP fica localizado em um anexo da passarela Nego Quirido. É pela abordagem de rua ou pelo acolhimento das assistentes sociais que se chega até os usuários. Por meio do Pacto de Proteção Social, estima-se que até 2014, serão investidos 21,1 milhões de reais para a construção de 79 Cras e 5,8 milhões de reais para a construção de 27 Creas. Totalizando 106 equipamentos a mais no Estado de Santa Catarina para atender a população. Na educação, o foco principal é a informação, por meio da divulgação, que age no eixo da prevenção de crianças e adolescentes contra as drogas. Os professores devem observar e alertar sobre aqueles que já são usuários ou que tenham indícios de tráfico. Durante o evento, o Secretário da Educação, Eduardo Deschamps, afirmou ser a favor da intersetorialização. “Nós não


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podemos pensar no carente ou no estudante, de forma isolada; temos que juntar as secretarias, os órgãos e agir de forma integrada”.

Sobre o assunto Ismael dos Santos, deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD), baseou-se em alguns dados da Secretaria de Segurança Pública. No discurso, ele falou que no primeiro semestre de 2012, 500 assassinatos foram registrados em Santa Catarina, entre jovens de 18 e 24 anos. Desse total, 80% dos homicídios são por envolvimento com drogas. Para Ismael, as leis contra as drogas devem ser aproveitadas e aprovadas. “Queremos que essa aprovação seja um marco histórico em Santa Catarina de estratégicas para o combate às drogas”, enfatiza. A deputada Ana Paula Lima (PT) acredita que o enfrentamento às drogas deve ocorrer em três eixos: prevenção, tratamento e assistência, neste caso cuidando do usuário e o tráfico de drogas. “A droga entra justamente em locais onde não temos possibilidades de estrutura e uma base forte. E ela vem com a violência”, ressalta a deputada. O coordenador administrativo da Cruz Azul, Egon Schlüter, explica que 80% das internações de usuários são feitas por comunidades terapêuticas, como a Cruz Azul. “O que diferencia as comunidades terapêuticas das demais clínicas é a efetiva participação do usuário. O ambiente é de multi-ajuda, internação


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voluntária, o tratamento tem começo, meio e fim, promove inserção social e laborterapia”, explica o coordenador. Robson Robin, coordenador-geral de projetos estratégicos, da Diretoria de Articulação e Coordenação de Políticas sobre Drogas Nacional, conta que, por ter trabalhado no Federal Bureau of Investigation (FBI), ele acredita que a atuação deve ser feita junto à repressão, tratamento e prevenção da droga. “Antes eu achava que só a repressão era necessária, mas a monopolização da droga não deu certo. Temos que quebrar os paradigmas e sermos intersetoriais”, diz Robson Robin. Para ele, os Estados devem ter as próprias políticas. “Acredito na reinserção social e profissional do usuário, para que ele não volte a usar a droga”, complementa. Encontros entre todas as áreas do Estado devem ser realizados em 2013 para a elaboração de propostas e leis para o combate às drogas e melhorar a vida da população.


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OBSERVAÇÕES

* Usamos nomes fictícios para os usuários. * O trabalho não contêm fotos para não expor a imagem do usuário.


CRACK: DA QUEDA DO INDIVÍDUO AO RETORNO À SOCIEDADE