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QUE OS MORTOS ENTERREM SEUS MORTOS


Título: Que os mortos enterrem seus mortos © Herdeiros de Samuel Rawet e Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006 ISBN 972-795-178-3


Samuel Rawet

Que os mortos enterrem seus mortos e outros textos

Cotovia


Índice Contos Identificação (1969) Lisboa à noite (1969) QUE OS MORTOS ENTERREM SEUS MORTOS (1981) O riso do rato O casamento de Bluma Schwartz A oração Moira A trajectória Que os mortos enterrem seus mortos Trio Nem mesmo um anjo é entrevisto no terror Marinha Certeza A linha As palavras O alquimista Um homem morto, um cavalo, um rato morto A lenda do abacate O rato e o pombo Prisioneiro da nuvem BRRZKNG: pronúncia — bah! Novela Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado (1970)

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Identificação (1969)

— E então, meu filho, gostou do jantar? Está espantado até agora com a minha vinda, parece que nunca acreditou que eu viria de São Paulo para ver você aqui no Rio, no dia do aniversário. Nunca fiz isso, não é? Era sempre um telegrama, um presente pelo correio. Mas hoje fiz questão, e você vai saber por quê. Em primeiro lugar, vinte anos. Você está bem para a idade, forte, sadio, de boa cara. E elegante como o quê! Mais dois anos e está formado. Cardiologista. Você escolheu bem, muito bem, coração. Agora um detalhe, prepare-se que lá vem filme mexicano, você conhece, não é? Você nunca me fez perguntas, nos poucos dias em que nos víamos, você passou quase toda a sua vida em internatos aqui no Rio, e quando vinha visitá-lo passeávamos pela cidade, fazíamos compras. Nunca lhe faltou dinheiro. Depois do internato você ajeitou bem sua vida aqui, no apartamento, fez seu grupo de amigos e nunca me perguntou nada. Não, não diga nada. Não quero explicações, eu é que vou dar explicações. Você nunca me perguntou por família, parentes, pai. Um dia eu mesma lhe disse que seu pai morrera quando você era bem criança, e que nos havia deixado bem amparados. Você não fez cara de espanto, nem de tristeza. Insisto, não quero explicações, agora, nem interrupções. Não sei bem a idéia que você faz de 9


mim, como mulher, se me julga mais ou menos vulgar. Eu também não sei até que ponto me conheço. Esses problemas complicados de sensibilidade, compreensão! Na verdade não sei explicar exatamente por que me decidi a lhe falar hoje. Uma necessidade de franqueza? Não, já aprendi que se paga muito caro por um momento de franqueza, e não sei qual é bem a distância entre franqueza e fraqueza. Não, não foi isto, foi outra coisa, e não sei o que é. Alguns detalhes. Nasci em São Paulo mesmo. Gente modesta. Fiz o primário e o ginásio. Pai e mãe eram italianos, sem parentes aqui, e eu, filha única. Você deve ter parentes em algum canto da Itália, da América, da Turquia, não sei. Primeiro morreu meu pai, de tuberculose, numa época em que já não se morre de tuberculose, depois minha mãe, do coração. Aos dezoito anos me vi só. Arranjei trabalho num escritório, tive dois ou três namorados, até que meu chefe me convidou um dia para jantar. Belo restaurante, bela comida, ótimo vinho. Depois me convidou para dançar. Tudo belo, muito belo. Às quatro horas da manhã eu estava em seu apartamento, completamente embriagada. O resto é filme mexicano, mesmo. Escorreguei, é o termo que se usa. No dia seguinte, sem um quê nem porquê fui despedida. Veio tudo, tudo o que você pode imaginar. Trauma, e o resto. Dois meses depois eu estava recuperada, e livre do temor de engravidar. Você quer uma bebida? Eu quero, chame o garção, peça um uísque para mim e o que você quiser para você. O mesmo rosto de sempre, você é um mistério, meu filho, a mesma serenidade. Por um lado acho ótimo isto, realmente acho ótimo. Você me dá a impressão de alguém que amadureceu, realmente amadureceu, cedo, muito cedo. Os anos de 10


internato devem ter sido duros, solidão, angústia, deixa, deixa eu usar essas palavras. Nada lhe faltava, nada, você tinha casa, comida, roupa, estudos, dinheiro, nada lhe faltava, nada! Nada! Mas até o ponto em que posso julgar, tudo lhe faltou. Talvez você seja filho do meu ódio, talvez no fundo eu o tenha odiado antes mesmo de você nascer. Obrigada, mais uma pedra de gelo! Por Favor! Acabou a pedra do meu isqueiro. Obrigada, mais uma vez. Voltemos à franqueza, ou fraqueza. Uma coisa lhe garanto, sinto-me feliz por vê-lo como o vejo agora. E não sei se vou ainda ver você depois do jantar de hoje. Qualquer que seja a sua reação, eu a compreendo e aceito. Os filmes mexicanos têm um péssimo defeito, são péssimos filmes mexicanos. E vamos a eles. Sou uma puta! Bonita esta Avenida Atlântica no verão, a essa hora, e é gostoso jantar debaixo de um toldo, vendo gente. Muito bem, a mesma cara! Ótimo! Tomei essa decisão exatamente dois meses depois do episódio no escritório. Era tão firme, que consegui me equilibrar bem, fazer economias e administrar bem minha vida, até hoje. Um dia, por ódio ainda, desejei ter um filho. Você! Dizem que as putas sabem quando engravidam de quem foi a coisa. Balela! Creio que não há mais nada a dizer. Fim. Pelmex Produções! Sem dizer uma palavra, sem um gesto, olhando a calçada, ele a amou infinitamente, e amou todos os homens que com ela dormiram.

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Lisboa à noite (1969)

Só encontrou um lugar vago no balcão do bar. Entre um tipo alto, louro, robusto, e uma puta envelhecida. Ambos tomavam cerveja. Sentou-se e pediu cerveja, também. Tomou meio copo e girou o corpo apoiando as costas na quina do balcão. Cheia a pista do centro e cheias as mesas em torno. Ouviu entre o estrondo da orquestra num mambo gritos em inglês, francês e alemão. As mulheres eram quase todas portuguesas. Havia apenas uma espanhola e uma italiana. Uma delas abraçada a um marinheiro no canto da pista acenou-lhe assim mesmo, em meio ao riso, com o punho da mão esquerda fechada a balançar como cabeça de boneco. Respondeu enchendo as bochechas e soprando o ar com violência, o que provocou, como sempre, uma gargalhada na mulher. — Não me oferece uma cerveja, Isac. — A puta envelhecida deu-lhe uma cotovelada. — Você me conhece? — Há quatro meses você cá vem todos os dias, minto, faltou duas vezes. — Boa observadora! — Tenho tempo de sobra! Um bando alto e louro, à paisana, entrou às gargalhadas. 12


— Pelo jeito isto hoje fica apinhado de suecos. — A puta envelhecida, depois de virar o copo, ficou na mesma posição que a dele, encostada no balcão, de frente para a entrada, as pernas cruzadas. — Algum navio no porto? — Chegou à tarde. — Engraçado, não me lembro de você. — Azar o meu, meu brasileiro. O mais moço do bando aproximou-se dela e pôs as duas mãos sobre suas coxas. Ela envolveu-lhe o pescoço com os braços e deu-lhe uma leve mordida na orelha. — Viva Portiugaaal! — gritou o sueco, abraçando-a e erguendo-a bem alto antes de deixá-la no chão — Let's go dance! Ainda rindo, torceu o corpo e encheu novamente o copo. Dos bares do Cais Sodré era o que preferia. Tinha menos espelhos, mais luzes, e era o mais largo, detalhe que lhe permitia, do balcão, observar a sala toda. Só agora deu pela coisa. Em quatro meses, faltara apenas duas vezes. Depois daquele canto o que mais lhe agradava era o Solar da Madragoa, com a baixota e rechonchuda Hilde Silva atacando um fado com o vigor e a raiva de uma minhota ou alentejana, enfezada, sabia lá. As idéias iniciais sumiram com as primeiras semanas. Levantar material para uma novela sobre a Inquisição, e ver o resto, Évora, Nazaré, Braga. Foi se entregando à cidade com o mesmo peso que carregava nas outras. Apenas mais displicente. Acordar ao meio-dia. Tomar café na Suíça do Rocio, subir a Avenida da Liberdade, passar a tarde lendo no Parque Eduardo VII, lendo ou remoendo ódios, comendo às sete da noite, voltando à pensão para um cochilo antes 13


de sair aí pelas dez. Um cinema. Os bares. Casas de fado. — O senhor é brasileiro, e se chama Isac? — A fala carregava nos erres, embora não muito forte. — Veio passear em Lisboa? — Não! Coçar o saco! O tipo alto, louro, robusto, à sua esquerda gargalhou forte, sempre a repetir, coçar o saco, coçar o saco, até que perguntou: — O que é coçar o saco? Aumentou a gargalhada ao receber a explicação, deu-lhe umas palmadas nas costas, apresentou-se como Johansen, holandês residente em Portugal há quase quinze anos. — Nunca ouvi esta expressão por estes lados! — Eu aprendi no Rio, não sei se em Portugal se usa, ainda vou perguntar. O sueco voltou com a mulher, pediu duas bebidas e desejou happy New Year e merry Christmas a todo mundo, virou um pouco de seu uísque nos copos de cerveja de Isac e Johansen, eufórico, berrando, it's good, it's good, Portiugaaal, e arrastou de novo a mulher para a pista. Um rápido silêncio enquanto bebiam a mistura, sorrindo. — O senhor é brasileiro e se chama Isac? — Judeu! — Judeu? — Brasileiro. — Brasileiro? Silêncio. Pausa. Johansen pede que lhe troquem o copo e tragam outra cerveja, duas, oferece uma a Isac. Ouve-se um mambo com os músicos fazendo coro. 14


De repente um grito de mulher e uma bofetada no rapazote magricela que a espancara. Estava embriagado. O negro angolano veio da porta, e sem amarrotar a farda levantou-o pela gola e pelo cós das calças, atravessou com ele o salão, e o que se ouviu depois foi apenas o choque de um corpo com o calçamento da rua. A orquestra continuou o mambo. Isac e Johansen bebiam. — Judeu? — Judeu! — Brasileiro? Tirou do bolso do blusão o maço de cigarros, ofereceu um a Johansen e este acendeu os dois. Abriu o fecho-éclair, começava a sentir calor, embora na rua, mesmo sendo maio, ainda sentisse frio de madrugada. Passara o tempo das infinitas perguntas, das múltiplas possibilidades de quem estivesse a seu lado. Agora era Johansen, se dizia holandês, radicado em Lisboa há quase quinze anos, o mês era maio, o lugar, Cais Sodré, e fumavam e bebiam juntos. Quando subiu na Praça Mauá só pensava na Inquisição, rever os lugares, colher informações, catar livros, anotar detalhes de tortura e cortejo de execução. Uma semana depois, diante de um cálice de conhaque, em pleno inverno, percebeu que não tinha vocação para pesquisa, que a Inquisição era um assunto remoto, e até certo ponto infantil, que havia outras coisas, entre preguiça e tensão, uma vontade doida de ver a ponta de Sagres, vontade apenas. Chegou a sonhar com o Infante D. Henrique, com aquele mesmo barrete ou o que fosse das gravuras, uma tira de pano caindo, à esquerda, à direita? Mas não foi ao Algarve. Rascunhou alguma coisa e rasgou. A atualização de uma lenda tcheca. História de cangaceiro e 15


massapê é que não podia fazer. Nunca saiu do Rio antes. Nem mesmo São Paulo conhecia. Escrever era apenas uma aspiração, um desejo meio vago, quando deixava à noite a firma de publicidade que o empregara. Tinha dois meses ainda pela frente, e a preocupação com o dinheiro que ia acabando, e que conseguira reunir para os seis meses de licença. Achou que numa história da Inquisição sentir-se-ia à vontade, poderia fundir episódios pessoais, familiares, seus pais eram romenos, histórias conhecidas apenas de ouvido, perseguições, autos-de-fé. Tinha trinta anos, alguma ambição, e não sabia muito bem o que era ser escritor. Achava no início que era ter tempo, tempo de sobra, coisa que nunca teve. Agora tinha-o demais, e era aquilo. Nada! Uma coisa pelo menos descobriu naqueles quatro meses, talvez escrever não fosse nada daquilo que ele achava que devia ser, e que vira à sua volta, talvez o melhor fosse isto mesmo, este nada, este esvaziamento. O resto se tivesse que vir, viria espontaneamente. — Judeu? — Judeu! — Brasileiro? Começou a achar Johansen engraçado. O jeito alto, corpulento, o topete louro e bem aprumado. A Holanda era uma boa terra. Tulipas. Mas não iria à Holanda. Era por demais preguiçoso. Bastava estar ali sentado conversando com um holandês. A Holanda era aquilo mesmo que diziam, os diques, os canais. Spinoza, lembrou-se agora. Por um triz e esse desgraçado era português. Foi nascer lá. Conhecia Spinoza? Sim, Johansen conhecia muita coisa. Isac permaneceu mudo, tomando cerveja, a orquestra a trocar mambos por 16


blues, blues por valsas, valsas por xaropadas italianas, permaneceu mudo, tomando cerveja, fumando, enquanto Johansen falava! Spinoza, Kant, Bach, o último livro de Sartre, o último filme de Bergman, que não fora exibido em Lisboa, mas de que tivera conhecimento através de uma revista francesa. Johansen falava, era viajado, conhecia toda a Europa, tirava suas férias na Inglaterra, França e Itália. Não, não queria voltar à Holanda. Família kaput com a guerra. Johansen falava, falava, falava, Isac permaneceu mudo, tomando cerveja, a orquestra a tocar, tomando cerveja e fumando, Johansen falava. — Judeu? — Judeu! — Brasileiro? Subitamente pareceu-lhe ver em Johansen uma contração de medo. Novo silêncio. Já não falava. Fumava. Bebia. Olhava-o com um jeito de intriga bem dissimulado. — Vou embora, vou comer alguma coisa! Pagaram a conta, Isac ainda viu o sueco agarrado à puta envelhecida dançando e gritando happy New Year, Portiugaaal, foram comer camarões e bolinhos de bacalhau numa casa ao lado. Tomaram vinho branco. Johansen começou a interrogá-lo. O que fazia? Em que trabalhava? Por que estava em Portugal? De onde era? Não viu inconveniente em responder. Brasileiro, publicitário, estava de férias, e viera a Lisboa coçar o saco. — Judeu? — Judeu! — Brasileiro? Johansen tentou se despedir, queria ir para casa. Isac insistiu. Por que não continuavam a beber? Foram 17


a um bar em Alfama, mais sombrio, menor, sentaram-se na mesa com duas mulheres e Johansen transfigurou-se. Abraçou-se às duas, beijou-as, começou a contar piadas pornográficas, bebeu sete ou oito doses de uísque, e cantou, depois de pedir num berro que a orquestra o acompanhasse, uma bela canção alemã. Bom barítono. Palmas por toda a parte. Johansen tombou sobre a mesa, parecia cochilar. As mulheres passaram para outra mesa, eles haviam deixado de pedir bebida. Isac bebera pouco. Estava lúcido. Olhava Johansen dobrado sobre o tampo, as mãos caídas, o topete desfeito. Mas enganara-se, não cochilava. Em pouco ergueu a cabeça, um rosto envelhecido, os olhos abertos, a voz rouca. — Você não sabe o que é o ódio, Isac, nem o medo! Quem é você? — Brasileiro! — Judeu? — Judeu! — Brasileiro? — Brasileiro! — Tem passaporte? Mostrou-lhe o passaporte, enquanto pedia um uísque. Fora revolvido. Voltara aos pontos de interrogação. Quem era Johansen? O que era Johansen? Recebeu o passaporte de volta, enfiou-o no bolso de dentro do blusão e continuou fitando um rosto que não conhecia, envelhecido, espantado, cansado. Johansen sacudiu-se, pegou no copo de Isac e esvaziou-o em um gole. Agora estava decidido a ir embora. O cantor do conjunto veio lhe perguntar se queria cantar mais alguma coisa. Johansen sorriu, agradeceu, aprumou o corpo num bocejo violento, ajeitou o topete com os dedos, e Isac viu-o como antes, o rosto mais 18


jovem, sem cansaço, como no Cais Sodré, apenas com uma tensão que já conhecia, e uma lucidez fácil de derrubar com meio copo apenas. Saíram. No táxi sentiu-lhe o nervosismo, concordou em continuar a beber. Foram a uma transversal da Avenida da Liberdade. Um cabaré enorme, por demais iluminado, barulhento, entraram no meio do show. Um cantor baixinho, esquelético, de cravo na lapela, sacudia com sentimento uma canção de Aznavour. Pediram cerveja. Johansen voltou a falar. Falou como antes, pletórico, exaltado, o rosto mais moço ainda, falou apenas sobre judeus, elogiou-os a valer, se desdobrava em elogios, apenas Isac entreviu lugares-comuns. Não era o Johansen de antes, não era a espontaneidade do Johansen no Cais Sodré. Era um homem que se aturdia agora, a um passo de perder o controle. — Você é judeu, Johansen? — Não, mas gostaria de ser. Depois do cantor, veio uma cantora, depois um ilusionista, depois um contorcionista, depois um cómico, depois de novo o cantor com uma outra música de Aznavour. Você não sabe o que é o ódio, Isac, nem o medo! Johansen levantou-se e foi ao banheiro. Isac pagou a despesa e continuou sentado. Quando viu Johansen sair do banheiro e tomar a direção da porta da rua sem olhar para ele, levantou-se e seguiu-o. Desceram juntos uma ladeira, e chegaram à Avenida. Fazia frio. Três, quatro horas? Ergueu o fecho até à gola. Johansen estava em mangas de camisa e parecia não sentir nada. Procurava disfarçar uma inquietação. Fez parar um táxi e sem dizer uma palavra sentou-se no banco traseiro e tentou impedir que Isac entrasse. Com 19


um pouco de violência segurou a porta e conseguiu entrar. — Você está com medo de quê, Johansen? — Vocês me perseguem! — Vocês quem, Johansen? Isac pediu ao chofer que os levasse a Portas de Santo Antão. O pequeno bar e restaurante deveria estar aberto ainda. Johansen apoiou os braços no encosto da frente e a cabeça nos braços, parecia soluçar. Saltaram e ocuparam a primeira mesa da única fileira que acompanhava o balcão com os tamboretes. Quando pediu camarões e uma garrafa de vinho branco Isac já tinha afastado a hipótese de paranóia. — Vocês quem, Johansen? Em poucos minutos Johansen esvaziou a garrafa. Pediu um conhaque. Dois. Outra garrafa de vinho. Um uísque. — Você é brasileiro e se chama Isac? — Judeu! — Judeu? — Brasileiro! — Brasileiro? E os outros? — Que outros? — Estão aí por perto? — Não há outros, Johansen, estou só. — Eu o odeio, Isac, odeio os judeus! Eles me perseguem! — Você é holandês, Johansen? — Não! Sou alemão! Encostou os ombros na parede, de lado, e esticou as pernas. Estava completamente embriagado, completamente, a cabeça oscilava, as mãos tremiam. Só a voz se mantinha inalterada, uma fala metálica. 20


— Eu sei o que é o medo, Johansen, e o ódio! Johansen falava sozinho, baixo. Não havia ninguém no bar. O garção se retirara para os fundos, e o homem da caixa parecia alheio a tudo. — O ódio fica, mas o medo cansa, pulveriza, e num instante de fraqueza a gente mesmo se destrói, se entrega. Um riso dominou-lhe o corpo todo, um riso que contagiou Isac, e em meio à gargalhada dos dois, Johansen estendera as duas mãos sobre os ombros de Isac, e encaravam-se os dois, rindo, em meio à gargalhada, Johansen berrou: — Eu sou nazista, odeio vocês todos, e finalmente vocês me localizaram. O homem da caixa assustou-se, o garção veio dos fundos. — Não é nada, não se preocupem, está meio de porre. A conta! Ultrapassaram o Rocio, e se encaminharam em direção ao Chiado. Johansen passara a mão direita pelo seu ombro e seguia cambaleando. Isac reprimiu com violência um jorro de idéias vagas e nítidas, de sentimentos confusos e paixões bem definidas, toda uma torrente a girar em torno de um nome apenas. — Onde é que eles estão? Acendeu vários cigarros enquanto caminhavam em silêncio, ao acaso, cruzando ruas, retrocedendo, embicando em vielas. Na sua inocência, ou pretensa inocência, recompôs várias infâncias e fundiu tudo em um mundo que deu aquele tipo a seu lado, em um mundo que tudo permitiu e que em vez de acordar do pesadelo, trocava de pesadelos, apenas. Regressaram, ainda ao acaso, ao Rocio. Isac chamou um táxi e acomodou 21


Johansen, dizendo ao chofer que o levasse para casa, ele lhe daria o endereço. Johansen soluçava no banco, soluçava alto. — Vocês não vão me levar, não vão me prender? Por quê? Bateu a porta com violência, o carro arrancou. Tomou a rua em direção ao Largo junto ao rio e estacionou perto do cais das lanchas de Cacilhas. Amanhecia. Os morros em volta apareceram. Um grupo de operários embarcou na primeira lancha atracada. Quando tomou o caminho de regresso à pensão não estava bem certo se havia gaivotas, mas de uma coisa estava seguro. Nunca faria o trabalho sobre a Inquisição.

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"que os mortos enterrem seus mortos" e outras histórias  

Contos do escritor brasileiro Samuel Rawet

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