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Melhor do que estas peças, todas elas igualmente excelsas na capacidade dramatúrgica, na caracterização e no interesse superior, pouco tem o teatro, antigo ou moderno, para nos oferecer. James Joyce, 1900

E subitamente veio a hora em que a majestade de Ibsen se dignou olhar para mim pela primeira vez. Um novo poeta, de quem nos aproximaremos por muitas vias, agora que já conheço uma delas. Rainer Maria Rilke, 1906

O que Ibsen nos dá é mais do que nós próprios, somos nós próprios nas nossas próprias situações. As coisas que acontecem às suas personagens no palco são coisas que nos acontecem a nós. Uma consequência disto é serem as peças de teatro de Ibsen muito mais importantes do que as de Shakespeare. Outra consequência é serem ao mesmo tempo capazes de nos magoar cruelmente e de nos encher com o entusiasmo da esperança de escaparmos às tiranias dos ideais […] Bernard Shaw

Ibsen teve que criar, para as suas peças, um contexto de significado ideológico (uma mitologia efectiva), e teve que engendrar os símbolos e as convenções teatrais que usaria para transmitir a sua mensagem a um público corrompido pelas virtudes fáceis do palco realista. Estava na posição do escritor que inventa uma nova linguagem e tem que a ensinar aos seus leitores. George Steiner, 1961

A crítica ou a representação que converta Ibsen num reformador social ou num moralista destrói o seu conseguimento estético, e ameaça o lugar autêntico que ele ocupa no cânone dramático ocidental, logo a seguir a Shakespeare e, talvez, a Molière. Harold Bloom, 1994


Henrik Ibsen. Š Norsk Folkemuseum.


PEÇAS ESCOLHIDAS


As traduções inclusas neste volume contaram com o apoio financeiro de NORLA. Este volume obteve ainda o apoio do Comité Ibsen da Noruega.

Traduções: copyright © dos tradutores e Edições Cotovia Lda., Lisboa 2008 Apêndice: copyright © de Jorge Silva Melo e Edições Cotovia Lda., Lisboa 2008 Fotografias: copyright © fotos da capa e interior: Norsk Folkemuseum Todos os direitos reservados ISBN 978-972-795-265-6


Henrik Ibsen

Peรงas escolhidas volume 3

Cotovia


Índice

UM INIMIGO DO POVO

p. 11

ESPECTROS

129

CASA DE BONECAS

213

OS PILARES DA SOCIEDADE

305

A PÊNDICE Representações por Jorge Silva Melo

423


Esta publicação de 12 peças de Henrik Ibsen, em 3 volumes, inicia-se com as peças da maturidade, seguindo uma ordem cronológica regressiva. NOTA DO EDITOR:

Francis Henrik Aubert e Karl Erik Schollhammer, responsáveis por duas das traduções que integram este volume e falantes da língua portuguesa tal como se usa no Brasil, colaboraram na adaptação das suas próprias traduções ao português de Portugal, feita por Fernanda Mira Barros.

OS TRADUTORES: Francis Henrik Aubert nasceu em 1947, em Santos, Brasil. Licenciado em Letras e História pela Universidade de Oslo, Noruega, em 1968. Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo, em 1975. Professor Titular de Estudos Tradutológicos da Universidade de São Paulo desde 1994.

Susana Janic, nasceu em 1953 no Porto. De ascendência materna francesa, terminou em 1975 o curso de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mudou-se para a Dinamarca em 1977 onde viveu até finais de 2000, ano em que regressa a Portugal. Trabalha como tradutora freelancer do norueguês, do dinamarquês, do francês e do inglês. Karl Erik Schollhammer nasceu na Dinamarca e vive no Rio de Janeiro (Brasil) desde 1989. Professor associado no departamento de Humanidades da PUC-Rio, onde lecciona Estudos Comparatistas, Teoria Literária e Literatura Brasileira, é autor de diversos ensaios e tradutor de autores escandinavos como Peter Hoeg, Lars Nooren e Henrik Ibsen. É ainda responsável por diversas iniciativas no Brasil em redor do cinema escandinavo. Pedro Fernandes nasceu no Porto, onde frequentou o curso de Filosofia na Faculdade de Letras, e vive na Noruega desde 1981. Traduziu, entre outros autores, Jon Fosse, Jesper Halle e Niels Fredrik Dahl.

OS COLABORADORES: Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa. Estudou na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador do Teatro da Cornucópia (1973-79), estagiário na Schaubühne (com Peter Stein) e no Piccolo Teatro / Scala de Milão (com Giorgio Strehler), argumentista, professor, tradutor, ensaísta, autor de vários textos teatrais e realizador de cinema, dirige, desde 1996, a companhia teatral Artistas Unidos.


Um Inimigo do Povo Peça em 5 actos (1882)

Tradução de Francis Henrik Aubert A partir da edição: IBSEN, H. Nutidsdramaer 1877-99. Oslo: Gyldendal. 1962. 13.ª edição.


Esta peça foi publicada, em Copenhaga, em Novembro de 1882, e foi representada pela primeira vez em Janeiro de 1883 no teatro de Cristiânia.

PERSONAGENS Dr. Tomas Stockmann, médico da estância balnear · Sra. Stockmann, sua esposa · Petra, filha do casal, professora · Eilif, filho do casal, 13 anos de idade · Morten, filho do casal, 10 anos de idade · Peter Stockmann, irmão mais velho do médico, intendente da cidade, presidente do conselho de administração da estância balnear, etc. · Morten Kiil, mestre tanoeiro, pai de criação da Sra. Stockmann · Havstad, editor-chefe do jornal “O Mensageiro do Povo” · Billing, colaborador do jornal · Horster, capitão de longo curso · Aslaksen, tipógrafo Participantes numa reunião dos cidadãos, homens de todas as classes, algumas mulheres e um grupo de miúdos em idade escolar

A acção desenrola-se em uma cidade do litoral da Noruega meridional.


PRIMEIRO ACTO Anoitecer na sala de estar do médico, mobilada de forma modesta mas elegante. Na parede lateral, à direita, há duas portas, das quais a mais distante leva até ao hall e a mais próxima ao gabinete de trabalho do médico. Na parede oposta, bem diante da porta que dá para o hall, uma porta conduz à parte íntima da residência. No meio da mesma parede, uma lareira revestida de azulejos e, mais à frente, um sofá com um espelho por cima, e diante do sofá uma mesa oval coberta por um tapete. Na mesa há um candeeiro aceso. Nos fundos vê-se uma porta aberta que dá para a sala-de-jantar. Mesa de jantar posta, com um candeeiro aceso. Billing está sentado à mesa de jantar com um guardanapo debaixo do queixo. A Sra. Stockmann está de pé junto à mesa e oferece-lhe uma travessa com uma peça grande de carne assada. Os demais lugares ao redor da mesa estão vazios, a toalha de mesa está em desordem, como após a conclusão de uma refeição. SRA. STOCKMANN: Pois é, Sr. Billing, se o Sr. chega com uma hora de atraso, há-de contentar-se com comida fria. BILLING (comendo): Pois está uma delícia... excelente! SRA. STOCKMANN: Sabe o quanto o Stockmann insiste em ter horários fixos para as refeições... BILLING: Isso não me incomoda nada. Acho até que a comida tem um sabor melhor quando posso ficar à mesa a comer sozinho, sem ser incomodado.


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SRA. STOCKMANN: Muito bem, então, se aprecia assim... (Presta atenção a um ruído vindo do hall.) Pelos vistos, aí vem o Hovstad também. BILLING: Pode bem ser. Entra o Intendente Stockmann, de sobretudo, quépi e bengala. O INTENDENTE: Com sua amável licença, minha cunhada, muito boa noite. SRA. STOCKMANN (entrando na sala de estar): Ora, ora, boa noite. É o Sr.? Quanta gentileza vir fazer-nos uma visita. O INTENDENTE: Estava de passagem e então... (Lançando um olhar na direcção da sala-de-jantar.) Ah, mas vocês estão com visitas, quer-me parecer. SRA. STOCKMANN (algo constrangida): Não, de todo. É mera coincidência. (Rapidamente:) Não quer entrar e comer alguma coisa? O INTENDENTE: Eu! Não, muito obrigado. Deus me livre! Comida quente de noite! Pesa-me muito na digestão. SRA. STOCKMANN: Ora, uma vez só não lhe há-de fazer mal... O INTENDENTE: Não, não, Deus lhe pague. Eu fico com o meu chá e o meu pão com manteiga. Acaba por ser mais saudável, e um pouco menos dispendioso também. SRA. STOCKMANN (sorrindo): Não se ponha agora a achar que o Tomas e eu somos uns perdulários. O INTENDENTE: Você não, minha cara cunhada. Longe de mim tal pensamento. (Aponta para o gabinete de trabalho do médico.) Ele por acaso não está em casa? SRA. STOCKMANN: Não, foi dar um passeio a seguir à refeição... ele e os rapazes. O INTENDENTE: E isso será saudável? (Ouve.) Lá vem ele, pelos vistos. SRA. STOCKMANN: Não, não deve ser ele. (Batem à porta.) Se faz favor!


Primeiro acto

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O editor Hovstad entra pelo hall. SRA. STOCKMANN: Ah, é o Sr. Hovstad? HOVSTAD: Sim, queira desculpar-me, mas fiquei retido lá na gráfica. Boa noite, Sr. Intendente! O INTENDENTE (cumprimenta, algo reticente): Sr. editor. O Sr. certamente vem em trabalho? HOVSTAD: Em parte, sim. Um artigo para publicar no jornal. O INTENDENTE: Imagino que sim. Pelo que se ouve dizer, o meu irmão é um colaborador muito assíduo d’ “O Mensageiro do Povo”. HOVSTAD: Sim, ele digna-se escrever n’ “O Mensageiro” quando tem uma ou outra verdade a dizer sobre alguma coisa. SRA. STOCKMANN (dirigindo-se a Hovstad): Mas o Sr. não quererá...? (Aponta para a sala-de-jantar.) O INTENDENTE: Por quem sois. Não o culpo de escrever para o tipo de leitor que lhe será mais receptivo. De resto, pessoalmente eu não tenho a menor motivação pessoal para me indispor com o seu jornal, Sr. Hovstad. HOVSTAD: Pois, é o que me parece também. O INTENDENTE: De um modo geral, esta nossa cidade está tomada por um belo espírito conciliador — um espírito de cidadania. E isso vem, sem dúvida, do facto de termos um grande projecto comum que nos congrega… um projecto que é de igual interesse para todos os concidadãos conscientes... HOVSTAD: A estância balnear, claro. O INTENDENTE: Exactamente. Temos o nosso novo, belo e grande edifício da estância balnear. Não se esqueça do que lhe digo, Sr. Horvstad: a estância balnear será o primeiro dos sustentáculos da nossa cidade. Isso é indiscutível. SRA. STOCKMANN: O Tomas também é dessa opinião. O INTENDENTE: Que grande progresso esta terra conheceu nestes dois últimos anos! As pessoas têm dinheiro; há vida e


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há movimento. Os edifícios e os terrenos aumentam de valor a cada dia. HOVSTAD: E o desemprego praticamente acabou. O INTENDENTE: Isso também. Para as famílias de posses, houve uma grande redução nos impostos que vão para a assistência aos pobres, e essa redução será ainda maior se este ano tivermos um excelente Verão, com grande afluxo de forasteiros… um bom número de doentes que possam espalhar a fama da nossa estância balnear. HOVSTAD: E, pelo que se diz, há realmente perspectivas nesse sentido. O INTENDENTE: Tudo parece muito promissor. Todos os dias nos fazem consultas sobre possibilidades de alojamento e coisas assim. HOVSTAD: Pois então o artigo do Dr. vem muito a calhar. O INTENDENTE: Então ele tem estado a escrever outra vez um artigo? HOVSTAD: Este é um que ele escreveu no Inverno passado. Uma recomendação da nossa estância balnear, salientando as boas condições sanitárias que aqui há. Mas naquela altura, entendi não publicar o artigo. O INTENDENTE: Aha! Havia um problema ou outro com o artigo, foi isso? HOVSTAD: Não, não foi isso. Achei foi que seria melhor esperar até agora, com a Primavera já em andamento. Porque é agora que as pessoas começam a planear as viagens estivais... O INTENDENTE: Bem pensado. Muito bem pensado, Sr. Hovstad. SRA. STOCKMANN: Pois é, o Tomas é realmente incansável na dedicação à estância balnear. O INTENDENTE: Bem, ao fim e ao cabo, ele é funcionário da estância balnear. HOVSTAD: Sim, e, ao fim e ao cabo, foi ele que deu início a tudo.


Primeiro acto

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O INTENDENTE: Foi ele? Realmente! De facto, uma vez por outra ouço dizer que há quem seja dessa opinião; mas devo admitir que eu considerava que eu próprio também tinha uma participação, ainda que modesta, neste empreendimento. SRA. STOCKMANN: Sim, é o que o Tomas está sempre a dizer. HOVSTAD: Sim, e quem há-de negar uma coisa dessas, Sr. Intendente? Foi o Sr. quem pôs a ideia em andamento e a fez tornar-se realidade; disso sabemos todos. Eu só quis lembrar que a ideia foi inicialmente concebida pelo Dr.. O INTENDENTE: Com efeito, de ideias a vida do meu irmão está cheia — infelizmente. Mas quando se trata de pôr qualquer coisa em prática, é necessário outro tipo de pessoa, Sr. Hovstad. E imaginei que ao menos nesta casa... SRA. STOCKMANN: Mas, meu querido cunhado... HOVSTAD: Mas como pode o Sr. Intendente pensar... SRA. STOCKMANN: Entre lá, Sr. Hovstad, e coma alguma coisa enquanto o meu marido não chega; ele não tarda. HOVSTAD: Obrigado. Só um bocadinho, talvez. (Entra na sala-de-jantar.) O INTENDENTE (em voz baixa): Esta gente que descende directamente de camponeses é estranha; não conseguem abandonar a grosseria. SRA. STOCKMANN: Mas porque há-de deixar que isso o preocupe? Você e o Tomas não podem repartir a honra como dois irmãos? O INTENDENTE: Certamente; mas parece que nem todos se contentam com uma divisão. SRA. STOCKMANN: Ora, que disparate!? Você e o Tomas dão-se maravilhosamente bem. (À escuta:) Creio que agora é ele a chegar. (Vai até à porta da entrada e abre-a.) DR. STOCKMANN (rindo e fazendo alarde do lado de fora): Olha, Katrine, aqui tens mais um convidado. Não é óptimo? Por favor, capitão Horster, pendure o sobretudo aí no cabide. Ah, pois é, você não usa sobretudo? Vê tu bem, Katrine,


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tive de o arrastar do meio da rua até aqui; ele não queria vir. O capitão Horster entra e cumprimenta a senhora da casa. DR. STOCKMANN (ainda à porta): Entrem lá, rapazes, entrem lá. Agora já estão todos esfaimados novamente! Venha cá, capitão Horster; agora vai aqui provar um belo assado… (Conduz Horster para dentro da sala-de-jantar. Eilif e Morten também entram.) SRA. STOCKMANN: Mas, Tomas, querido, não vês quem...? DR. STOCKMANN (volta-se à porta): Ah! És tu, Peter! (Adianta-se e estende-lhe a mão.) Que alegria! O INTENDENTE: Infelizmente, vou ter de sair não tarda nada. DR. STOCKMANN: Que disparate; já, já o grogue vem para a mesa. Não te esqueceste do grogue, pois não, Katrine? SRA. STOCKMANN: Bem se vê que não, a água já está a ferver e tudo. (Entra na sala-de-jantar.) O INTENDENTE: E com grogue, ainda por cima! DR. STOCKMANN: Pois então acomoda-te, meu caro, passemos uns momentos agradáveis. O INTENDENTE: Obrigado, mas eu nunca participo em celebrações regadas a grogue. DR. STOCKMANN: Mas não se trata de uma celebração. O INTENDENTE: Bom, quer-me parecer, porém... (Volta o olhar para a sala-de-jantar). É espantoso como eles conseguem comer tanta comida. DR. STOCKMANN (esfregando as mãos): Pois então, não é uma bênção ver a juventude a comer? Sempre de bom apetite, como deve ser! Precisam é de alimento! Energia! São eles que vão fuçar na matéria do futuro e fazer germinar as sementes novas, Peter. O INTENDENTE: Posso ousar perguntar o que vem a ser esse “fuçar” de que falas?


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DR. STOCKMANN: Isso terás de perguntar aos jovens quando... quando chegar a hora. Nós, como é evidente, não o vemos. Naturalmente. Afinal, dois velhos próceres como tu e eu... O INTENDENTE: Lá está, lá está. Outro termo bastante peculiar... DR. STOCKMANN: Não me leves demasiado a sério, Peter. Porque eu estou tão profundamente alegre e satisfeito... Sinto-me indescritivelmente feliz no meio de toda esta vida que germina, que brota. Que tempo maravilhoso, este em que vivemos! É como se todo um mundo novo se estivesse a formar à nossa volta. O INTENDENTE: Acreditas mesmo nisso? DR. STOCKMANN: Sim. Percebo que não te seja possível ver isso tão nitidamente quanto eu. Afinal, tu tens vivido no meio disto toda a tua vida, o que faz com que essa impressão fique mais apagada. Mas eu, que tive que permanecer naquele fim do mundo lá no Norte durante tantos anos, sem quase nunca ver uma pessoa diferente, que tivesse uma palavra de bonança para me dizer... para mim, isto é como se eu me tivesse mudado para uma agitada metrópole... O INTENDENTE: Hmm. Uma metrópole... DR. STOCKMANN: Sim, sim, bem sei que as condições aqui são modestas, em comparação com tantos outros lugares. Mas aqui há vida... uma promessa, uma miríade de coisas pelas quais trabalhar e lutar; e é isso o que importa. (Chama:) Katrine, o carteiro já passou hoje? SRA. STOCKMANN (falando da sala-de-jantar): Não, aqui não passou ninguém. DR. STOCKMANN: E os bons vencimentos, então, Peter! É algo que se aprende a apreciar quando já vivemos, como nós, de magras rações... O INTENDENTE: Por amor de Deus.


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DR. STOCKMANN: Ah, sim, podes imaginar que vivíamos uma vida apertada lá em cima, sim, muitas vezes. E agora, poder viver como um aristocrata! Hoje, por exemplo, tivemos carne assada para o jantar; e voltámos a ter carne assada para a ceia. Não queres uma fatia? Ou, ao menos, deixa-me mostrar-te o assado? Vem cá, pois... O INTENDENTE: Não, não, de forma alguma. DR. STOCKMANN: Ora, vem cá, pelo menos. Olha, temos até uma toalha de mesa! O INTENDENTE: Sim, já percebi. DR. STOCKMANN: E também conseguimos comprar um quebra-luz. Vês? Vem tudo das economias da Katrine. E torna a sala tão aconchegante, não achas? Põe-te aqui, nesta posição; não, não, assim não. Isso! Estás a ver, ali onde a luz cai, de forma concentrada... Cria um ambiente de elegância, não achas? O INTENDENTE: Bem, quando nos podemos permitir luxos destes... DR. STOCKMANN: Ah, sim, agora posso permitir-me. A Katrine diz que agora ganho quase tanto quanto gastamos. O INTENDENTE: Quase! DR. STOCKMANN: Mas um cientista há-de poder viver com uma certa distinção. Tenho a certeza de que um governador de província gasta muito mais por ano do que eu. O INTENDENTE: Mas é de esperar. Afinal, um governador, uma autoridade... DR. STOCKMANN: Então, um simples comerciante! Esse também gasta muitas vezes... O INTENDENTE: Pois, faz parte da sua condição. DR. STOCKMANN: De resto, eu, de facto, não gasto nada à toa, Peter. Mas considero que não me devo negar a alegria de ver gente em minha casa. Eu preciso disso, entendes? Eu, que fiquei tanto tempo longe de tudo e de todos... para mim é uma necessidade vital estar na companhia de pessoas jovens, activas, alegres, de mente aberta, movidas pela


Primeiro acto

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vontade de fazer coisas... e é isso o que são todas as pessoas que estão ali dentro a jantar com tanto apetite. Gostaria que conhecesses melhor o Hovstad... O INTENDENTE: Sim, o Hovstad, é verdade, ele contou-me que pretende publicar mais um artigo teu. DR. STOCKMANN: Um artigo meu? O INTENDENTE: Sim, sobre a estância balnear. Um artigo que escreveste no Inverno passado. DR. STOCKMANN: Ah! Sim, esse! Mas não quero que seja publicado tão imediatamente. O INTENDENTE: Porque não? Mas não é justamente este o momento apropriado? DR. STOCKMANN: Sim, é possível que tenhas razão; em condições normais... (Caminha de um lado para o outro.) O INTENDENTE (observando o irmão): E o que haveria de anormal nas condições actuais? DR. STOCKMANN (parando): Bem, Peter, isso eu não te posso contar ainda; pelo menos, não esta noite. Pode haver muita coisa anormal nas condições... ou talvez não haja coisa nenhuma. Pode ser apenas uma impressão minha. O INTENDENTE: Devo confessar que isto me está a parecer muito misterioso. Passa-se alguma coisa? Alguma coisa de que eu não possa saber? Quero crer que eu, na qualidade de Presidente do conselho da estância balnear.... DR. STOCKMANN: E eu quero crer que... ora, ora, não vamos agora atirar-nos ao pescoço um do outro, Peter. O INTENDENTE: Deus me livre! Não tenho por hábito atirar-me ao pescoço de quem quer que seja, como tu dizes. Mas tenho que insistir, com toda a veemência, que todas as providências devem ser tomadas de forma comercialmente correcta e por intermédio das autoridades legalmente constituídas. Não posso permitir que se aja por atalhos e desvios. DR. STOCKMANN: E por acaso eu sou alguém que se valha de atalhos e desvios?!


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O INTENDENTE: Pelo menos, tens uma tendência permanente para seguires pelos teus próprios caminhos. E, numa sociedade bem organizada, isso é inadmissível. Cabe ao indivíduo submeter-se ao todo ou, melhor dizendo, submeter-se às autoridades que têm por missão assegurar o bem comum. DR. STOCKMANN: Pode muito bem ser. Mas em que é que isso me concerne? O INTENDENTE: Pois é justamente isso, meu caro Tomas, que tu pareces não querer aprender. Mas, atenção! Vais acabar por pagar por isso, mais cedo ou mais tarde. Agora o aviso está dado. Adeus. DR. STOCKMANN: Mas estarás doido varrido? Estás redondamente enganado... O INTENDENTE: Não costumo enganar-me. De todo o modo, devo ir... (Cumprimenta na direcção da sala-de-jantar.) Adeusinho, cunhada. Meus senhores, até breve. (Retira-se.) SRA. STOCKMANN (entra na sala-de-estar): Ele foi-se embora? DR. STOCKMANN: Foi, e profundamente irritado. SRA. STOCKMANN: Mas, meu querido Tomas, o que foi que lhe fizeste desta vez? DR. STOCKMANN: Não lhe fiz coisa nenhuma. Afinal, ele não pode exigir que eu lhe preste contas antes da hora. SRA. STOCKMANN: E que contas são essas a prestar? DR. STOCKMANN: Hum... Deixa estar, Katrine. Que coisa estranha, a ausência do carteiro. Hovstad, Bolling e Horster levantam-se da mesa de jantar e entram na sala-de-estar. Eilif e Morten vêm logo atrás. BILLING (espreguiçando-se): Ah, uma refeição destas e, por Deus, uma pessoa sente-se um homem novo! HOVSTAD: O Intendente estava um bocadinho azedo hoje.


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DR. STOCKMANN: É por conta do estômago. Ele sofre de má digestão. HOVSTAD: Somos nós, principalmente, os d’ “O Mensageiro”, que ele não consegue digerir. SRA. STOCKMANN: Achei que o Sr. lidou relativamente bem com ele. HOVSTAD: Ah, sim. Mas não é mais do que um cessar-fogo. BILLING: É isso! Essa expressão resume tudo. DR. STOCKMANN: É preciso lembrarmo-nos de que o Peter é um solteirão, coitado. Não tem um lar onde se aconchegar; apenas negócios e mais negócios. E com todo aquele chá aguado que ele ingere…! Bem, vamos levar as cadeiras para junto da mesa, rapazes! Katrine, o grogue não vem? SRA. STOCKMANN (que vai na direcção da sala-de-jantar): Já estou a trazer. DR. STOCKMANN: Acomode-se aqui no sofá comigo, capitão Horster. Uma visita tão rara... por favor, sentem-se e fiquem à vontade, meus amigos. Os cavalheiros sentam-se ao redor da mesa. A Sra. Stockmann entra trazendo um tabuleiro com o aquecedor, as garrafas, os cálices e demais apetrechos. SRA. STOCKMANN: Pronto. Aqui está o arak. Este aqui é o rum. E eis o conhaque. Agora, cada um que se sirva como queira. DR. STOCKMANN (pega num cálice): É o que vamos fazer. (Enquanto mistura o grogue:) E agora os charutos. Eilif, tu sabes onde está a caixa. E tu, Morten, vai buscar o meu cachimbo. (Os rapazes entram na divisão ao lado.) Estou desconfiado de que o Eilif me fuma um charuto uma vez por outra; mas finjo não perceber. (Chama:) E o meu cortador, Morten! Katrine, por favor, diz-lhe onde guardei o cortador! Ora, aqui está! (Os rapazes trazem-lhe o corta-


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dor.) Muito bem, meus amigos. Eu fico pelo meu cachimbo, sabem. Com este já eu fiz muitas caminhadas com mau tempo lá na Noruega Setentrional. (Batem os cálices.) Saúde! Ah, é muito melhor estar sentado aqui, tranquilo e abrigado. SRA. STOCKMANN (sentada, tricotando): O Sr. retorna em breve ao mar, capitão Horster? CAPITÃO HORSTER: Devo zarpar na próxima semana. SRA. STOCKMANN: E vai até à América? CAPITÃO HORSTER: É essa a intenção, é. BILLING: Mas então não poderá participar nas eleições para o novo Intendente. CAPITÃO HORSTER: Vai haver novas eleições? BILLING: Não sabia? CAPITÃO HORSTER: Não. Não me meto nessas coisas. BILLING: Mas o Sr. preocupa-se com as questões públicas, ou não? CAPITÃO HORSTER: Não, não entendo nada disso. BILLING: Ainda assim, é preciso votar, ao menos. CAPITÃO HORSTER: Mesmo aqueles que não entendem nada do que se trata? BILLING: Não entendem? O que quer dizer com isso? A sociedade é como um navio; todos devem segurar o leme. CAPITÃO HORSTER: É possível que isso funcione bem em terra firme. A bordo, o resultado não seria bom. HOVSTAD: É estranho como tantos marítimos se importam tão pouco com as questões do país. BILLING: Muito estranho. DR. STOCKMANN: Os marítimos são como as aves migratórias: sentem-se em casa tanto no Norte quanto no Sul. Por isso mesmo, nós, os outros, temos de ser mais activos, Sr. Hovstad. Vai sair alguma coisa relevante para o interesse geral n’ “O Mensageiro” amanhã? HOVSTAD: Sobre as questões aqui da cidade, não. Mas depois de amanhã penso publicar o seu artigo...


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DR. STOCKMANN: Ah, pois, meu Deus! O meu artigo! Não, ouça, é melhor esperar. HOVSTAD: Acha? Pois tínhamos justamente um bom espaço disponível e parece-me que este é o melhor momento... DR. STOCKMANN: Sim, sim, pode muito bem ser que você tenha razão; mas terá de esperar, mesmo assim. Depois poderei explicar... Petra, de chapéu e sobretudo e com vários cadernos sob o braço, entra vinda do hall. PETRA: Boa noite. DR. STOCKMANN: Boa noite, Petra. Já chegaste, minha filha? Cumprimentos mútuos. Petra tira o chapéu e o sobretudo e coloca-os, com os cadernos, sobre uma cadeira junto à porta. PETRA: Com que então, aqui sentados e acomodados enquanto eu andei por fora a mourejar. DR. STOCKMANN: Então acomoda-te também. BILLING: Quer que lhe prepare um cálice? PETRA (aproxima-se da mesa): Obrigada, prefiro ser eu mesma a prepará-lo. O Sr. fá-lo sempre muito forte. Ah, é verdade, pai, tenho uma carta para ti. (Vai até à cadeira onde está a roupa.) DR. STOCKMANN: Uma carta! De quem? PETRA (procura no bolso do sobretudo): Recebi-a do carteiro quando eu ia mesmo a sair de casa... DR. STOCKMANN (levanta-se e vai até ela): E só ma trazes agora! PETRA: Eu realmente não tinha tempo para voltar a subir. Pronto, aqui está. DR. STOCKMANN (agarrando a carta): Deixa-me ver. Deixa-me ver, filha. (Observa o carimbo.) Exactamente! SRA. STOCKMANN: Era dessa que estavas à espera, Tomas?


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DR. STOCKMANN: Sim, esta mesmo. Depressa, tenho de ir já lá dentro... Onde é que está uma vela, Katrine? Voltaram a não pôr um candeeiro no meu gabinete? SRA. STOCKMANN: Ora essa, o candeeiro está lá, e aceso, na tua escrivaninha. DR. STOCKMANN: Óptimo! Óptimo! Com licença, é só por um instante... (Entra na divisão à direita.) PETRA: O que será, mãe? SRA. STOCKMANN: Não sei. Estes últimos dias o teu pai tem estado a todo instante a perguntar pelo carteiro. BILLING: É capaz de ser de um paciente de fora da cidade. PETRA: Coitado do pai! Está a trabalhar mais do que deve. (Prepara o seu cálice.) Ah, isto vai ser bom! HOVSTAD: A menina esteve a leccionar no curso nocturno hoje também? PETRA (tomando um pequeno trago do cálice): Duas horas. BILLING: E de manhã, quatro horas no Liceu... PETRA (senta-se junto à mesa): Cinco horas. SRA. STOCKMANN: E para esta noite, pelo que estou a ver, tem redacções para corrigir. PETRA: Uma pilha, sim. CAPITÃO HORSTER: Parece-me, então, que a menina também tem mais do que o suficiente para fazer. PETRA: Sim. Mas isso é bom. Fica-se tão deliciosamente cansado depois. BILLING: Gosta mesmo disso? PETRA: Gosto, porque depois dorme-se bem. MORTEN: Tu deves ser uma grande pecadora, Petra. PETRA: Pecadora? Eu? MORTEN: Sim, por trabalhares tanto. O Sr. Rørlund diz que o trabalho é o castigo que nos foi imposto pelos nossos pecados. EILIF (fazendo pouco caso): Ora, que burrice acreditar numa coisa dessas. SRA. STOCKMANN: Então, então, Eilif! Isso não se diz.


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BILLING (a rir): Mas está correcto! HOVSTAD: E tu não queres trabalhar assim tanto, Morten? MORTEN: Pois claro que não. HOVSTAD: Queres ser o quê na vida? MORTEN: Gostava de ser viquingue. EILIF: Mas isso quer dizer que terias de ser pagão. MORTEN: Não faz mal, seria pagão. BILLING: Pois eu apoio-te, Morten! É exactamente isso o que eu digo. SRA. STOCKMANN (fazendo sinais): Não, certamente que não o diz, Sr. Billing. BILLING: Pois juro, por Deus! Eu sou um pagão, e orgulho-me disso. E veja bem, não tarda seremos todos pagãos! MORTEN: E, aí, vamos poder fazer tudo o que queremos? BILLING: Bem, repara, Morten… SRA. STOCKMANN: Agora vão lá para dentro, meninos. Têm que estudar para amanhã. EILIF: Eu poderia ficar mais um instantinho… SRA. STOCKMANN: Não podes, não. Vão já, os dois. Os rapazes dão as boas noites e entram na divisão à esquerda. HOVSTAD: A Sra. realmente acha que pode fazer mal aos rapazes ouvir este tipo de conversa? SRA. STOCKMANN: Não sei se faz mal ou se não faz mal. Mas não aprecio. PETRA: Sabes, mãe, acho que estás enganada. SRA. STOCKMANN: Pode muito bem ser. Mas não aprecio. Não aqui, dentro da minha casa. PETRA: Há tantas inverdades, tanto em casa como na escola. Em casa, silencia-se. Na escola, temos de mentir às crianças. HOVSTAD: Tem de mentir?


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PETRA: Claro, pois então! Há muitas coisas que temos de lhes ensinar e em que nós mesmas não acreditamos. BILLING: Pois, com certeza que sim. PETRA: Tivesse eu recursos e criaria a minha própria escola, e aí tudo seria diferente! BILLING: Ora, recursos… HOVSTAD: Pois, se pensa nisso a sério, menina Petra, tenho todo o prazer em providenciar um local. O meu pai, que Deus o tenha, deixou-me uma casa muito grande, que está quase vazia. Há uma sala-de-jantar imensa no rés-do-chão… PETRA (rindo): Sim, sim, muito obrigada. Mas não vai acontecer. HOVSTAD: Pois eu estou convencido de que a menina Petra acabará por entrar para o jornalismo. A propósito, já teve tempo de dar uma olhadela naquele conto inglês que nos prometeu traduzir? PETRA: Ainda não. Mas o Sr. tê-lo-á no prazo. O DR. Stockmann entra, vindo do seu gabinete, com a carta aberta na mão. DR. STOCKMANN (acenando com a carta): Pois podem crer que temos novidades aqui na cidade! BILLING: Novidades? SRA. STOCKMANN: Que tipo de novidades? DR. STOCKMANN: Uma grande descoberta, Katrine! HOVSTAD: A sério? SRA. STOCKMANN: Uma descoberta tua? DR. STOCKMANN: Sim, exactamente, minha. (Anda de um lado para o outro.) Que eles venham agora, como de costume, dizer que são invencionices de um doido! Eles que tenham cuidado! (Com uma gargalhada:) Eles que tenham mas é cuidado, é o que eu digo! PETRA: Mas, pai, diz lá do que se trata.


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DR. STOCKMANN: Sim, sim, dêem-me só um tempinho e já ficarão a saber de tudo. E pensar que o Peter estava aqui ainda há pouco! Por aqui se vê como nós, os seres humanos, andamos de um lado para o outro a fazer juízos de valor como toupeiras cegas… HOVSTAD: O que quer dizer, Dr.? DR. STOCKMANN (pára junto à mesa): Pois não é da opinião geral que a nossa cidade é um local saudável? HOVSTAD: Sim, claro, é mais que evidente. DR. STOCKMANN: Um local extraordinariamente saudável, de facto… um local que merece as recomendações mais elevadas, tanto para os doentes como para os de boa saúde... SRA. STOCKMANN: Sim, Tomas, querido, mas… DR. STOCKMANN: E assim a temos nós temos recomendado e louvado. Eu mesmo escrevi inúmeras vezes n’ “O Mensageiro” e em folhetos… HOVSTAD: Sim, sim… e então? DR. STOCKMANN: Esta estância balnear… a nossa estância balnear, a que se tem chamado a aorta da cidade, o centro nevrálgico da cidade… e sabe se lá que mais… BILLING: “O coração pulsante da cidade” foi como eu a denominei numa ocasião festiva … DR. STOCKMANN: Ah, pois, isso também. E por ventura vocês sabem o que é na verdade essa grande, esplêndida e tão elogiada estância balnear, que custou tanto dinheiro… sabem o que é? HOVSTAD: Não… o que é? SRA. STOCKMANN: Diz lá, o quê? DR. STOCKMANN: A nossa estância balnear inteirinha é um foco de pestilência. PETRA: A estância balnear, pai! SRA. STOCKMANN (ao mesmo tempo): A nossa estância! HOVSTAD (igualmente): Mas, Dr..… BILLING: Inacreditável!


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DR. STOCKMANN: A estância balnear inteira é um sepulcro tóxico, é o que vos digo. Um verdadeiro atentado à saúde! Todas as imundícies lá do Vale de Møll, todos aqueles detritos pestilentos que vêm lá de cima contaminam a água na tubagem que vai até ao reservatório; e essa maldita porcaria envenenada vai também até à praia… HOVSTAD: Até às instalações dos banhos de mar? DR. STOCKMANN: Exactamente. HOVSTAD: E como tem tanta certeza de tudo isto, Dr.? DR. STOCKMANN: Fiz investigações da forma mais conscienciosa possível. Ah, há já muito tempo que ando com uma desconfiança a este respeito. No ano passado ocorreram alguns casos inabituais de doença entre os utentes da estância… tanto febre tifóide como complicações gástricas. SRA. STOCKMANN: É verdade. DR. STOCKMANN: Na altura, acreditámos que os visitantes tinham trazido as doenças de fora com eles. Mas desde então… neste último Inverno… comecei a reflectir melhor. E fui analisar a água com os melhores meios disponíveis. SRA. STOCKMANN: Então é com isso que tens andado tão ocupado! DR. STOCKMANN: Sim, podes bem dizer que estive ocupado, Katrine. Mas aqui, é claro, faltavam-me as ferramentas científicas básicas. Por isso, enviei amostras de água doce e da água do mar para a Universidade para fazerem uma análise química precisa. HOVSTAD: E os resultados acabam de chegar? DR. STOCKMANN (mostra a carta): Aqui estão! Está comprovada a existência de substâncias orgânicas em decomposição na água… bactérias aos montes! Claramente danosas para a saúde estas águas, seja para uso interno ou externo. SRA. STOCKMANN: Que bênção, teres descoberto isso a tempo! DR. STOCKMANN: Bem o podes dizer.


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HOVSTAD: E o que pretende fazer agora, Dr.? DR. STOCKMANN: Evidentemente, corrigir a situação. HOVSTAD: E é possível? DR. STOCKMANN: Tem de ser possível. Caso contrário, a estância balnear será completamente inútil… perdida. Mas não é caso disso. Sei muito bem o que deve ser feito. SRA. STOCKMANN: Mas, querido Tomas, porque mantiveste tudo isto em segredo? DR. STOCKMANN: E achas que eu deveria ter saído por aí a falar a torto e a direito disto, sem ter a mais absoluta certeza? Não, não, tão doido assim eu não sou. PETRA: Mas a nós, aos de casa… DR. STOCKMANN: Nem a viv’alma! Mas amanhã já podes ir a correr ter com o “Texugo”… SRA. STOCKMANN: Tomas! DR. STOCKMANN: Está bem, está bem, com o teu avô. Agora, sim, ele vai ter com o que se espantar! Ele sempre achou que eu tinha um parafuso a menos. Como tantos outros também acham, pelo que sei. Mas agora é que esses bons cidadãos vão ver… agora vão ver! (Anda de um lado para outro, esfregando as mãos.) Vai ser um tumulto nesta cidade, Katrine! Nem se imagina. Toda a canalização das águas terá de ser refeita. HOVSTAD (levanta-se): Toda a canalização? DR. STOCKMANN: Sim, é lógico. O ponto de colecta está numa posição muito baixa. Terá de ser deslocado para um ponto mais elevado. PETRA: Então tinhas mesmo razão. DR. STOCKMANN: Sim, lembras-te bem disso, não é, Petra? Manifestei-me contra o projecto quando começaram a construção. Mas, na época, ninguém me quis dar ouvidos. Pois agora terão o troco… sim, porque naturalmente preparei um relatório para a administração da estância balnear; está pronto há uma semana; eu só estava à espera da chegada disto aqui (mostra a carta). Mas agora o relatório


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tem de ser despachado de imediato. (Retorna ao seu gabinete e volta com um maço de papéis.) Vejam! Quatro folhas bem cheias de letra miudinha! E vou juntar a carta. Um jornal, Katrine, dá-me uma coisa qualquer para fazer o embrulho. Óptimo. Assim. Entrega à… à… que diabo é o nome da rapariga? Entrega à criada, pronto. Diz-lhe que leve o pacote ao Intendente, imediatamente. A Sra. Stockmann sai com o pacote pela sala-de-jantar. PETRA: Que achas, pai, que o tio Peter vai dizer? DR. STOCKMANN: E o que pode ele dizer? Deve ficar feliz, acho eu, pelo facto de uma verdade tão importante vir à luz do dia. HOVSTAD: Permite-me que eu faça uma pequena nota sobre a sua descoberta n’ “O Mensageiro”? DR. STOCKMANN: Sim. Ficaria muito grato. HOVSTAD: É desejável que o público tome conhecimento o quanto antes. DR. STOCKMANN: Sem dúvida. SRA. STOCKMANN (retorna): Ela acaba de sair com o pacote. BILLING: Macacos me mordam se o Sr. não se vai tornar na principal figura desta cidade, Dr.! DR. STOCKMANN (visivelmente satisfeito, anda de um lado para outro): Ora, ora. No fundo, não fiz mais do que a minha obrigação. Tive sorte, apenas, contudo… BILLING: Hovstad, não acha que a cidade devia fazer uma manifestação de apoio ao Dr. Stockmann? HOVSTAD: Eu, pelo menos, apoio. BILLING: Vou falar com o Aslaksen acerca disso. DR. STOCKMANN: Não, não, meus amigos, deixemos essas palhaçadas de lado. Não quero saber de comemorações. E se a administração da estância balnear quiser conceder-me um aumento de salário, não aceitarei. Katrine, digo-te desde já que não aceitarei.


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SRA. STOCKMANN: E fazes muito bem, Tomas. PETRA (ergue o cálice): Saúde, pai! HOVSTAD e BILLING: À sua saúde, Dr.! Saúde! CAPITÃO HORSTER (brindando com o médico): Que tudo isto só lhe traga alegrias. DR. STOCKMANN: Obrigado, meus amigos! Estou tão feliz … é uma bênção saber que se é merecedor da nossa cidade natal e dos nossos concidadãos. Viva, Katrine! Ele segura-a pelo pescoço com as duas mãos e rodopia com ela. A Sra. Stockmann grita e opõe-se. Risos, salva de palmas e vivas ao médico. Os rapazes enfiam o rosto no vão da porta entreaberta.


Peças escolhidas,vol.III