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silĂŞncio, imagem e poesia


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LÍVIA ARGOLO

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silêncio, imagem e poesia Primeira Edição


Copyright dessa edição © 2011: Almeida Teles Editor Ltda. Rua México 31 sobreloja 20041-145 Salvador, BA tel.: (71) 2115-0504 / fax (71) 2115-0500 e-mail: editor@almeidateles.com.br site: www.almeidateles.com.br Todos os direitos reservados.A reprodução não autorizada desta publicação,no todo ou em parte,constitui violação de direitos autorais (Lei 9.610/98) Projeto Gráfico e Capa: Lívia Argolo

CIP-Brasil.Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros,RJ Argolo,Lívia, 1990 Assunte: silêncio,imagem e poesia / Lívia Argolo. - 1.ed. - Salvador,BA : Lívia Argolo,2011.


À beleza escondida, ao mistério e às surpresas da Bahia que permanece encantante para além do tempo.


sumรกrio 9

caminho para o centro

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por entre os muros

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postais ao tempo

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bendito

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navegantes


caminho para o centro


O Poema da Bahia que não foi escrito, Carlos Drummond de Andrade Um dia – faz muito tempo, muito tempo – achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,mãe de nós todos, amante crespa de nós todos. Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia. Ela era para mim um desenho no atlas, onde nomes brincavam de me chamar: Boninal, Gentio do Ouro, Palmas do Monte Alto, Quijingue, Xiquexique, Andorinha. – Vem... me diziam os nomes, ora doces. – Vem! ora enérgicos ordenavam Não fui.

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Deixei fugir a minha mocidade, deixei passar o espírito de viagem sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo. Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira. Ainda carece fazer poema sobre a Bahia? Não. A Bahia ficou sendo para mim poema natural respirável bebível comível sem necessidade de fonemas.


Eu vim da Bahia, João Gilberto. Eu vim Eu vim da Bahia cantar Eu vim da Bahia contar Tanta coisa bonita que tem Na Bahia que é meu lugar Tem meu chão, tem meu céu Tem meu mar A Bahia que vive pra dizer Como é que faz pra viver Onde a gente não tem pra comer Mas de fome não morre Porque na Bahia tem mãe Iemanjá De outro lado o Senhor do Bonfim Que ajuda o baiano a viver Pra cantar, pra sambar pra valer Pra morrer de alegria Na festa de rua, no samba de roda Nas noites de lua, no canto do mar Eu vim da Bahia Mas eu volto pra lá Eu vim da Bahia Mas algum dia eu volto pra lá

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Céu da Bahia,Caetano Veloso Bahia de todos os santos, De São Salvador De Mãe Menininha do Gantois Quem vem de lá Sente saudade Do paladar E da brisa do mar de Ondina Sol de Amaralina Da pele morena e do vatapá A lua de “São” Jorge Amado Da cor do pecado De cravo, canela e jasmim Flutua no céu da Bahia De noite e de dia Na paz do Senhor do Bonfim Na Baixa do Sapateiro Encontrei você No calor da folia do carnaval Me olhou, me sorriu, me fez um sinal Dizendo que era do Abaeté Mas seu corpo dourado de Itapoã Tinha um cheiro gostoso Flor de maçã, meu amor Iaiá, Ioiô, Iaiá...

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Bahia de todas as contas,Gilberto Gil. Rompeu-se a guia de todos os santos Foi Bahia pra todos os cantos Foi Bahia

Rompeu-se a guia de todos os santos Foi Bahia pra todos os cantos Foi Bahia

Pra cada canto, uma conta Pra nação de ponta a ponta O sentimento bateu Daquela terra provinha Tudo que esse povo tinha De mais puro e de mais seu

Pra cada canto, uma conta Pra cada santo, uma mata Uma estrela, um rio, um mar E onde quer que houvesse gente Brotavam como sementes As contas desse colar

Hoje já niguém duvida Está na alma, está na vida Está na boca do país É o gosto da comida É a praça colorida É assim porque Deus quis

Hoje a raça está formada Nossa aventura plantada Nossa cultura é raiz É ternura nossa folha É doçura nossa fruta É assim porque Deus quis

Olorum se mexeu

Olorum se mexeu

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por entre os muros


Bahia Imortal, Ary Barroso. Salve a Bahia imortal Do Senhor do Bonfim Que toma conta de mim Terra tradicional Salve São Salvador. O poeta Castro Alves Pai da gente de cor Bahia que nasceu Cresceu forte e varonil Terra que foi o berço do Brasil

Gosto de ver o seu jeito de batucar As cadeiras bolindo, que é de amargar Oh, baiana, faz isso comigo, não Presta atenção e vai vendo como é Que a baiana dengosa, bate o pé E levanta o pó do chão Vira pra cá, ô lelê E vira pra lá, ô lalá Tem pena, Iaiá, tem pena Se é pecado roubar um beijinho só Eu vou ser pecador, juro que vou ser Oh, baiana faz isso comigo, não Quem peca não vai pro céu Cai no samba também Que te faz muito bem.

Bahia que canta Nas noites estreladas Das batucadas E as lindas baianas, faceiras Mexendo os quadris Salve a morena brasileira Chama o baiano pra sambar Deixa o baiano batucar.

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O Burgo, Gregório de Matos. A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar a cabana, e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, Para a levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos Mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, E eis aqui a cidade da Bahia. Deixa o baiano batucar.

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Senhora Dona Bahia, Gregório de Matos. Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna, e é que, quem o dinheiro nos arranca, nos arranca as mãos, a língua, os olhos (...) Esta mãe universal, esta célebre Bahia, que a seus peitos toma, e cria, os que enjeita Portugal (...) Cansado de vos pregar cultíssimas profecias, quero das culteranias hoje o hábito enforcar: de que serve arrebentar por quem de mim não tem mágoa? verdades direi como água porque todos entendais, os ladinos e os boçais, a Musa praguejadora. Entendeis-me agora?

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Triste Bahia, Caetano Veloso. Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás E estou do nosso antigo estado Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado Rico te vejo eu, já tu a mim abundante Triste Bahia, oh, quão dessemelhante A ti tocou-te a máquina mercante Quem tua larga barra tem entrado A mim vem me trocando e tem trocado Tanto negócio e tanto negociante Triste, oh, quão dessemelhante, triste... Pastinha já foi à África Pastinha já foi à África Pra mostrar capoeira do Brasil Eu já vivo tão cansado De viver aqui na Terra Minha mãe, eu vou pra lua Eu mais a minha mulher Vamos fazer um ranchinho Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua E seja o que Deus quiser Triste, oh, quão dessemelhante Ê, ô, galo canta O galo cantou, camará

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Ê, cocorocô, ô cocorocô, camará Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará Ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará Ê, triste Bahia, ê triste Bahia, camará Bandeira branca enfiada em pau forte Afoxé leî, leî, leô Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte O vapor da cachoeira não navega mais no mar Triste recôncavo, oh, quão dessemelhante Maria pegue o mato é hora, arriba a saia e vamo-nos embora Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora Oh, virgem mãe puríssima Bandeira branca enfiada em pau forte Trago no peito a estrela do norte Bandeira branca enfiada em pau forte


postais ao tempo


Bahia com H, João Gilberto. Dá licença, dá licença, meu senhô Dá licença, dá licença, pra yôyô. Eu sou amante da gostosa Bahia, porém Pra saber seu segredo serei baiano também Dá licença, de gostar um pouquinho só A Bahia eu não vou roubar, tem dó! Ah! Já disse um poeta que terra mais linda não há Isso é velho é do tempo que a gente escrevia Bahia com H! Deixa ver Com meus olhos de amante saudoso A Bahia do meu coração Deixa ver Baixa do Sapateiro Charriou, Barroquinha, Calçada, Tabuão!

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Sou um amigo que volta feliz pra teus braços abertos, Bahia! Sou poeta e não quero ficar assim longe da tua magia! Deixa ver Teus sobrados, igrejas, teus santos, ladeiras e montes tal qual um postal. Dá licença de rezar pro Senhor do Bonfim Salve! A Santa Bahia imortal, Bahia dos sonhos mil! Eu fico contente da vida em saber que Bahia é Brasil!


Bahia de todos os deuses, Manuel Rosa. Bahia, os meus olhos estão brilhando, Meu coração palpitando, De tanta felicidade. És a rainha da beleza universal, Minha querida Bahia, Muito antes do Império, Foste a primeira capital. Preto Velho Benedito já dizia, Felicidade também mora na Bahia, Tua história, tua glória, Teu nome é tradição, Bahia do velho mercado, Subida da Conceição. És tão rica em minerais, Tens cacau, tens carnaúba, Famoso jacarandá, Terra abençoada pelos deuses, E o petróleo a jorrar.

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Nega baiana, Tabuleiro de quindim, Todo dia ela está, Na igreja do Bonfim, Na ladeira tem, tem capoeira, Zum, zum, zum, Zum, zum, zum, Capoeira mata um! Zum, zum, zum, Zum, zum, zum, Capoeira mata um!


Só se vê na Bahia, Roberto Mendes Traz amor, traz amor, Traz amor daquele que sabe amar Traz amor, traz amor, Traz amor daquele que sabe amar, traz Pedra pisada de preto Luso bantu sudanesa Precipício de beleza Reconvexa alegria Ímã de toda utopia Rima de toda riqueza Tudo isso com certeza só se vê Só se vê na Bahia Gente que tira alegria da dor Do batecum do batente Todas as cores de gente Contas de todos os guias Uma nação diferente Toda prosa e poesia Tudo isso finalmente só se vê Só se vê na Bahia

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Saudade da Bahia, Dorival Caymmi Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia “Bem, não vá deixar a sua mãe aflita A gente faz o que o coração dita Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão” Ai, se eu escutasse hoje não sofria Ai, esta saudade dentro do meu peito Ai, se ter saudade é ter algum defeito Eu pelo menos, mereço o direito De ter alguém com quem eu possa me confessar Ponha-se no meu lugar E veja como sofre um homem infeliz Que teve que desabafar Dizendo a todo mundo o que ninguém diz Vejam que situação E vejam como sofre um pobre coração Pobre de quem acretida Na glória e no dinheiro para ser feliz

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bendito


Flor da Bahia, Dorival Caymmi Dor da Bahia Chega a machucar meu peito Na garganta dá nó Conviver com preconceito Dá revolta e dá dó Quem no coração Não faz distinção Compreende a minha dor Cor da Bahia É a paixão da minha vida Quando olho em redor A cidade construída Misturando suor Quanta história então De sangue e paixão Sobre o chão de Salvador Na Bahia Grão de amor é forte medra E eu sou flor da Bahia

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Semeada em chão de pedra Flor da Bahia Que oferece a primavera Desse grão Dessa flor Desse chão Desse amor Flor da Bahia É flor que ninguém arranca Quando o amor é maior Pele escura, pele branca Flor da pele é uma só Corpos que se dão Mais sementes são Sobre o chão de Salvador


Na Bahia, Noel Rosa Aonde é que o nosso grande Brasil principia? Na Bahia! Na Bahia! Aonde foi que Jesus pregou sua filosofia? Na Bahia! Na Bahia! Todo santo dia Nasce um samba na Bahia Samba tem feitiço Todo mundo sabe disso! A minha Bahia Forneceu a fantasia mais original Que se vê no carnaval! Em São Salvador Terra de luz e de amor Só o samba cabe Disso todo mundo sabe!

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Quando eu penso na Bahia, Caetano Veloso Quando eu penso na Bahia Nem sei que dor que me dá Ai me dá, me dá, me dá ioiô Se eu pudesse qualquer dia Eu ia de novo pra lá Eu deixei lá na Bahia Um amor tão bom, tão bom ioiô Meu Deus que amor Que desse amor só quem sabia Era a Virgem Maria Nasceu cresceu e lá ficou Mas quem sabe se esse amor Que ficou lá na Bahia, oi Já se acabou E se assim for Eu sei de alguém Que lhe quer muito bem Sou eu Eu quem? O seu ioiô

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A Bahia te espera, Herivelto Martins

Oh! Bahia da magia, dos feitiços e dá fé Bahia que tem tanta igreja E tem tanto candomblé Para te buscar Nossos saveiros já partiram para o mar Iaiá eufrásia, ladeira do sobradão Já tá formando seu candomblé Velha damásia da ladeira do mamão Tá preparando acarajé Para te buscar Nossos saveiros já partiram para o mar Nossas morenas roupas novas vão botar Se tu vieres irás provar o meu vatapá Se tu vieres viverás nos meus braços A festa de iemanjá Vem, vem, vem Vem em busca da Bahia Cidade da tentação Onde meu feitiço impera Vem, se me trazes o teu coração Vem, a Bahia te espera Bahia, Bahia, Bahia, Bahia

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São Salvador, Dorival Caymmi

São Salvador, Bahia de São Salvador A terra de Nosso Senhor Pedaço de terra que é meu São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do branco mulato A terra do preto doutor São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do Nosso Senhor Do Nosso Senhor do Bonfim Oh Bahia, Bahia cidade de São Salvador Bahia oh, Bahia, Bahia cidade de São Salvador

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Bahia berço do Brasil, Baianinho

Ê, ê, ê, Bahia Bahia de São Salvador Terra dos capoeiras Do famoso candomblé Tema da festa da Ribeira A festa do lava-pés Salve Senhor do Bonfim Que os baianos tem muita fé Ê, ê, ê, Bahia Bahia de São Salvador Glória à heroína Maria Quitéria Mulher de grande valor Lutou pela liberdade E contra o terrível preconceito Bahia, berço do Brasil Terra de São Salvador Que o mundo inteiro encantou

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Você já foi à Bahia? Dorival Caymmi

Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá! Quem vai ao Bonfim, minha nêga, Nunca mais quer voltar. Muita sorte teve, Muita sorte tem, Muita sorte terá Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá! Lá tem vatapá Então vá! Lá tem caruru, Então vá! Lá tem munguzá, Então vá! Se quiser sambar Então vá!

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Nas sacadas dos sobrados Da velha São Salvador Há lembranças de donzelas, Do tempo do Imperador. Tudo, tudo na Bahia Faz a gente querer bem A Bahia tem um jeito, Que nenhuma terra tem! Lá tem vatapá, Então vá! Lá tem caruru, Então vá! Lá tem munguzá, Então vá! Se quiser sambar Então vá!


Na Baixa do Sapateiro, Ary Barroso

Bahia, terra da felicidade Moreno! Eu ando louca de saudade Meu Senhor do Bonfim Arranje outro moreno Igualzinho, pra mim Na Baixa do Sapateiro Eu encontrei um dia Um moreno mais folgado Da Bahia Pedi-lhe um beijo, não deu Um abraço, sorriu Pedi-lhe a mão Não quis dar Fugiu... Bahia Terra de felicidade Moreno! Eu ando louca de saudade Meu Senhor do Bonfim Arranje outro moreno Igualzinha pra mim Aí Bahia, aí, aí... Aí Bahia, aí, aí...

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navegantes


Farol da Barra,Galvão e Caetano Veloso

Quando o sol se põe Vem o farol Iluminar as águas da Bahia No Farol da Barra, o encontro é pouco A conversa é curta, tudo é tão rápido como se furta Como a luz bate nas águas Como tudo que se passa Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do-sol Bem cabia uma profecia: até o ano 2000, O Farol além do pôr-do-sol será o pôr-do-som Onde verás uma realejo, onde verás um violão

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Praga de Baiano, Galvรฃo e Jorginho Gomes

Vamos bater os tambores Balanรงar as cadeiras Sacudir nossos pandeiros Que os dedos jamais foram feitos Pra contar dinheiro Pra apertar gatilho Vamos nรณs... Juntos,juntos Joguemos juntos Uma praga de baiano Juntos, juntos Joguemos juntos Uma praga de baiano Para que tudo de novo Vire tudo ao contrรกrio O pobre compre fiado E o rico pague adiantado

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Retrato da Bahia, Riachão Quem chega na praça Cayru Olha pra cima o que é que vê Vê o Elevador Lacerda Que vive a subir e a descer É o retrato fiel da Bahia Baiana vendendo com alegria Coisinha gostosa de dendê Lá na rampa do mercado Saveirinho abarrotado Muito fruto, em bom bocado Tudo bom pra se comer É o retrato fiel da Bahia Baiana vendendo com alegria Coisinha gostosa de dendê

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Falsa Baiana, João Gilberto

Baiana que entra no samba e só fica parada Não samba, não dança, não bole nem nada Não sabe deixar a mocidade louca Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras Deixando a moçada com água na boca A falsa baiana quando entra no samba Ninguém se incomoda, ninguém bate palma Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba Salve a Bahia, senhor Mas a gente gosta quando uma baiana Samba direitinho, de cima embaixo Revira os olhinhos dizendo Eu sou filha de São Salvador

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Lavagem do Bonfim, Gilberto Gil

Lavagem do Bonfim, quinta-feira Sai da Conceição da Praia a primeira Talagada de batida na Praça Cairu Levanta a pista ao alto o Lacerda Mais parece um corredor que envereda Uma pista de corrida a correr pro céu azul Olha a vertigem, Virgem Maria! Te segura, criatura, que o dia Inda tá menino moço, o almoço inda tá cru Segura bem na mão da menina Poupa o coração, que é só na colina Que o santo serve o caruru Timbau, pandeiro, som de guitarra Tanta roupa branca, tanta algazarra Zona franca de folia, de fé, de devoção Foto de lambe-lambe, alegria Vai passar pelo moinho da Bahia Mais de trinta graus de calor, amor e emoção Lembra bem dos degraus da igreja Guarda um pouco de suor pra que seja Misturado às águas e às mágoas de lavar o chão Faz tempo que passou da calçada Segura os joelhos nessa chegada Que o peito arde de paixão

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Salva-Vida, Caetano Veloso

Místico pôr-do-sol no mar da Bahia E eu já não tenho medo de me afogar Conheço um moço lindo que é salva-vida Vida Um da turma legal do Salvamar Que é fera Na doçura, na força e na graça Ai, ai Quem dera Que eu também pertencera a essa raça Salva-vida Onda nova Nova vida Vem do novo mar Sólido simples vindo ele vem bem Jorge Límpido movimento me faz pensar Que profissão bonita pra um homem jovem Jovem Amar de mesmo a gente, a água e areia No dia Da Rainha das Águas Do presente Ai, ai Luzia A firmeza dourada Dessa gente

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Bahia minha preta, Caetano Veloso

Bahia, minha preta Como será Se tua seta acerta o caminho e chega lá? E a curva linha reta Se ultrapassar esse negro azul que te mura O mar, o mar? Cozinha esse cântico Comprar o equipamento e saber usar Vender o talento e saber cobrar, lucrar Insiste no que é lindo E o mundo verá Tu voltares rindo ao lugar que é teu no globo azul Rainha do Atlântico Sul Ê ô! Bahia, fonte mítica, encantada Ê ô! Expande o teu axé, não esconde nada Teu canto de alegria ecoa longe, tempo e espaço Rainha do Atlântico

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Te chamo de senhora Opô Afonjá Eros, Dona Lina, Agostinho e Edgar Te chamo Menininha do Gantois Candolina, Marta, Didi, Dodô e Osmar Na linha romântico Teu novo mundo O mundo conhecerá E o que está escondido no fundo emergirá E a voz mediterrânica e florestal Lança muito além a civilização ora em tom boreal Rainha do Atlântico Austral


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Toda Bahia Chorou,Raio e Boa Voz

Toda Bahia chorou Toda Bahia chorou No dia em que a capoeira Angola Perdeu seu protetor Mestre Pastinha foi embora Oxalá quem o levou Lá pras terras de Aruanda Mas ninguém se conformou Chorou general, menino Chorou mocinha, doutor Pretas velhas, feiticeiros Ogãs e Babalôs Berimbau tocou iúna Num toque triste de morte E a capoeira foi jogada Ao som da triste canção Da boca do mandingueiro

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De dentro do coração E não houve na Bahia Quem não cantasse esse refrão Iê vai lá menino Mostra o que o mestre ensinou Mostra que arrancaram a planta Mas a semente brotou E se for bem cultivada Dará bom fruto e bela flor Iê vai lá menino Mostra o que o mestre ensinou Mostra que arrancaram a planta Mas a semente brotou E se for bem cultivada Dará bom fruto e bela flor Camará...


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Marinheiro só,Domínio Público Eu não sou daqui Marinheiro só Eu não tenho amor Marinheiro só Eu sou da Bahia Marinheiro só De São Salvador Marinheiro só Lá vem, lá vem Marinheiro só Como ele vem faceiro Marinheiro só Todo de branco Marinheiro só Com o seu bonezinho Marinheiro só Ô, marinheiro marinheiro Marinheiro só Ô, quem te ensinou a nadar Marinheiro só Ou foi o tombo do navio Marinheiro só Ou foi o balanço do mar Marinheiro só

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Composto em Caecilia Light 45 corpo 8,5 com títulos em Droid Serif Bold corpo 11. Impresso em couché fosco 170 g/m ²


Assunte: silêncio, imagem e poesia