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Editorial

A

dição que o leitor tem em mãos, melhor dizendo, na tela do computador, é a realização de um antigo sonho: uma publicação dedicada à literatura. São poucas as revistas que tratam do assunto, e escassas as que abrem espaço aos novos autores. Nosso objetivo é ser um ponto de encontro entre escritores e leitores. Com linguagem clara e acessível, queremos mostrar que a literatura é prazeirosa, divertida e edificante. Acreditamos apenas na existência de dois tipos de livros: os bons e os ruins. Portanto, fãs de gêneros vítimas de preconceitos, como a fantasia e a ficção científica, fiquem tranquilos. Há espaço para todas as obras, desde as clássicas até as contemporâneas, independente de gênero literário. Além das tradicionais seções de notícias, resenhas e lançamentos, temos uma matéria dedicada à história do vampiro literário e uma retrospectiva dos principais acontecimentos literários de 2011. Os escritores Enio Roberto, Álvaro Domingues e Beto Canales também marcam presença na revista. Os dois primeiros, como entrevistados. O último, assinando a coluna Lendo no escuro, sobre cinema e literatura. Aguardamos comentários e sugestões. Boa leitura.

Studio Cl Art

Luiz Fernando Cardoso EDITOR

EXPEDIENTE Editor: Luiz Fernando Cardoso Projeto gráfico e texto: Luiz Fernando Cardoso Capa: Daniel Argento e Felipe Bastos Colaborador: Beto Canales Ove Tøpfer


U ENTREVISTA

Enio Roberto

Divulgaçaõ

Em entrevista feita por e-mail, o escritor fala sobre o seu livro de estreia, influências e oficinas literárias

LUIZ FERNANDO CARDOSO

N

ascido em Porto Alegre, no dia 13 de novembro de 1955, o escritor Enio Roberto é formado em Direito, mas frequentou algumas aulas do curso de Letras. Trabalhou vários anos como advogado. Casado e pai de quatro filhos capricornianos, o autor participou de algumas oficinas literárias, além dos seminários da crítica literária Lea Masina, que é a principal incentivadora de Enio. Mar quente é o primeiro livro em seus dez anos de atividade. Segundo o escritor, a principal razão que o levou a publicar a obra foi “a busca de respaldo para a fundação de uma oficina, a modesta escolinha literária dirigida para alcoolistas e toxicômanos carentes”, que está sendo criada entre dois municípios do Rio Grande do Sul.

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Revista Literatsi

• O que o motivou a escrever textos literários? O cumprimento de um acordo com o psiquiatra. A fim de que meu tratamento para o transtorno de humor funcionasse, eu tinha de optar por uma atividade que requeresse, diariamente, tempo e atenção. • Por que o seu primeiro livro se chama Mar quente? Mar quente é alusivo ao Mar da China Meridional. Há muitos anos, um helicóptero que me transportava até Da Nang precisou fazer pouso forçado. Devido a um casarão branco que retenho até hoje na memória, assim como a existência de salinas por perto, arrisco dizer que o lugar era Nha Trang (em português equivale a “Casa Branca”). Aterrissamos na praia. A água encrespada indicava mar frio, a fe-


“Eu, de verdade, não queria publicar, me bastava compartilhar os textos com os colegas na oficina da Léa Masina.” bre alta que me acometia, devido a um ferimento, dava a sensação de baixa temperatura no mar. Minutos depois, deixei uma onda me pegar na altura dos joelhos. Para surpresa, achei a água quente. Muito quente. No conto “Em algum lugar do meu passado”, levo o personagem a instalar-se numa enseada. Com ele, a dúvida entre continuar seu casamento ou dedicar-se ao novo amor que ali surgia. Ao longo da narrativa, dá para deduzir que certos fatos não passam de alucinações do nosso infeliz protagonista. Devido ao seu abalo emocional, que equiparo ao meu de décadas atrás, nominei a praia, e o hotel em que o personagem se hospedou, de Mar Quente. Daí, até a coisa virar título, foi um pulinho.

concedo entrevistas, num alegre festival que vai amolecendo minha insatisfação. Sei que algumas pessoas ficaram chateadas por causa de um fato extraliterário. No conto “Geleira”, há referência a Porto Alegre, sem, no entanto, eu havê-la nominado. Ao final da história, minha protagonista diz que a cidade é gélida, porque sua declaração de homossexualidade a tornou discriminada pelos habitantes. Quero agradecer pelos puxões de orelha desses leitores, mas não há como deixar de dizer-lhes que continuo dando razão à personagem. E mais: devemos agradecer à nossa conterrânea por colocar o dedinho na ferida menor. Se ela resolvesse atacar o preconceito da cor em terras gaúchas... bah, o estrago seria grande.

• Dos contos de Mar quente, qual o seu predileto? “Crocodilo e Lagartixa”, sem dúvida. Tive muitos amigos, queria escrever sobre aqueles bons tempos, cheguei a anotar num papel que minha próxima história precisava fazer a apologia da amizade como o maior dos sentimentos. Recentemente, Carlos André Moreira disse que o conto está entre os melhores do volume. Fiquei muito feliz.

• Quais dificuldades que você enfrentou para publicar seu primeiro livro? Nenhuma. Eu, de verdade, não queria publicar, me bastava compartilhar os textos com os colegas na oficina da Léa Masina – a crítica e mãe literária de diversos escritores desta província. Certo dia, ela usou um estratagema para me levar à edição. A seguir, quando finalizei o material, recebi um telefonema da Dublinense. Pronto, nascia o livro tão temido. Os editores Rodrigo Rosp e o Gustavo Faraon fizeram um trabalho excepcional.

Laura Longenecker

• Como tem sido a reação dos leitores ao seu livro? Se eu acreditasse em elogios, diria excelente. Meu livro de estreia é indicado por sites, jornais e revistas. Impressionante o número de vezes que Mar quente saiu em público. Recebo diversos e-mails,

Praia da cidade vietnamita de Nha Trang. A experiência vivida por Enio Roberto no local serviu de inspiração para o nome de seu livro de estreia.

• Qual foi o estratagema empregado por Léa Masina? Ela insistia em me levar a uma editora, principalmente depois que eu apresentava algum conto ao grupo. Eu resistia, prometia, achava defeitos horríveis, protelava, sem observar que toda jardineira precisa mostrar seu trabalho não só às borboletas. Pois foi ao término da minha apresentação de “Você lembra quando o prado floria?”, que ela se dirigiu à estante e, ao voltar, me pediu para pôr a mão sobre as costas de um livro. A fim de contentála, jurei que daria início à minha primeira publicação. O tal livro da estante era a Bíblia, o que me fez achar tudo muito engraçado, pois não sou católico, nem evangélico – muito menos espírita, como muitos pensam. Ainda em meio aos risos da Léa, e de uma colega, me dei conta do quanto essa verdadeira professora tornara aquele “meu” momento sublime, e tomei a decisão. Revista Literatsi

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U ENTREVISTA • Você escreve apenas contos ou se dedica a outros gêneros literários? Até o surgimento de Mar quente, eu só escrevia contos. Há poucos dias, comecei a planejar um romance. • Você costuma revisar e reescrever várias vezes seus textos? É o que mais faço! Revisar é respirar, reescrever é viver. • Quais escritores influenciam seu trabalho? Caio Fernando Abreu e os autores infantojuvenis que integravam a biblioteca do Grupo Escolar Padre Balduíno Rambo na década de 1970, me influenciam demais. Minha mãe era a bibliotecária daquele pequeno colégio estadual de curso primário. Até meus quinze anos, eu gostava de ir a uma das mesinhas forradas com plástico azul, para ler, e reler, um montão de vezes, todas as histórias. Só voltei a ter contato com livros de ficção depois dos meus

quarenta anos. Uma leve simetria, de Rafael Bán Jacobsen, é um livro formidável pelo qual um autor deve se permitir influenciar. Juntamente com O filho eterno, de Cristóvão Tezza, e Areia nos dentes, de Antonio Xerxenesky, foram os melhores romances que li nos últimos tempos. • Você foi aluno de oficina literária. Poderia falar um pouco sobre essa experiência? Primeiro, me deixe explicar que nenhuma oficina é igual à outra. Há diferenças extremas. Cursei as do tipo que ensinam teoria, exercitam, dão exemplos daquilo que segundo a visão do orientador é bom, ruim ou funciona. Outras são do tipo livre, com o caráter de observância a preponderar. Através da leitura e comentários dos textos dos próprios alunos, o oficineiro recolhe a técnica, e o soro que aplicará, se quiser, em seus escritos. As oficinas literárias não me deram talento, nem deixaram meu texto homogêneo

ENIO ROBERTO INDICA

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O GIRASSOL NA VENTANIA

FORA DO LUGAR

VESTÍGIOS DELA

Marco De Curtis

Rodrigo Rosp

Saul Melo

“Marco constrói suas histórias de modo artesanal. Para quem gosta de observar a técnica dos autores, apeguem-se na construção da frase, e nos vários diálogos que o livro contém. Imperdível.”

“Há muito que se aprender com esse autor. Seu domínio do fantástico é absoluto, o que resulta sempre, para nosso deleite, na estética do non sense. Se é que pode existir conto de cabeceira, ‘Sala de espera’ foi isso para mim, durante bom tempo. Espetacular.”

“A diversidade temática entre os contos, a busca da originalidade para dispô-la em cada etapa de cada narrativa, de modo a manter o leitor ligado o tempo todo, me fazem indicar esse belo livro.”

Revista Literatsi


“A coisa mais ridĂ­cula que pode existir num escritor ĂŠ a soberba. Cuide-se, isso estĂĄ acontecendo muito.â€? aos dos colegas – o painel de Mar quente estĂĄ aĂ­ a comprovar. O contato intenso com pessoas interessadas em alcançar o mesmo fim, e o pulsante criar literĂĄrio, ali, bem do teu ladinho, estĂŁo entre os motivos que me levam a dizer da utilidade desses laboratĂłrios. • Que conselho vocĂŞ daria ao escritores iniciantes? Desconfiar que seu texto nĂŁo estĂĄ maravilhoso, mesmo que as pessoas digam isso jurando sobre a BĂ­blia. Sempre hĂĄ no que mexer, acredite. Escreva um texto qualificado, original, ao invĂŠs de fazer um livro por mĂŞs, com parĂĄgrafos parecidos, repleto de soluçþes idĂŞnticas. Participe de oficinas e de blogues, visite sites literĂĄrios, discuta, mostre seus textos e reflita sobre as crĂ­ticas vindas de quem quer que seja. A coisa



mais ridícula que pode existir num escritor Ê a soberba. Cuide-se, isso estå acontecendo muito. • Você estå escrevendo o seu próximo livro? Estou iniciando a segunda pågina do meu primeiro romance. A história (fragmentada, para poder sonhar com um prêmio bom) se passa em 1968, entre uma praia do litoral do Rio Grande, onde as famílias da capital iam passar o verão, e o Vietnã do Sul. O liame para justificar a atuação do protagonista nesses dois locais extremos Ê a intromissão dos Estados Unidos na universidade e na política brasileira, ao mesmo tempo em que promovia a brutal e inesquecível Guerra do Vietnã, ou Guerra Americana, como referiam os habitantes daquele país. „

Leia a resenha do livro Mar quente no site www.literatsi.com/resenha/livro/mar-quente-2 Revista Literatsi

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U LENDO NO ESCURO

Traças e pipocas BETO CANALES

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Revista Literatsi

vezes, o sujeito que está lá no cinema sentadinho comendo pipoca não leu e nunca lerá o livro. Da mesma forma que o leitor talvez nunca vá ao cinema. O resultado disso é a ampliação do leque de pessoas que conhecem, vivem a história. Claro que também existem os que irão ao cinema por causa do livro, e os que comprarão o livro em razão do cinema. Esses são, sem dúvida, os que mais aproveitam o que as duas artes têm para mostrar, além de incentivarem ambas. A conclusão é que um ajuda o outro. Ouso afirmar que atualmente um depende do outro. Sei que parece estranho, mas, se levarmos em conta a quantidade de crítica e de publicidade que gira em torno da telona, veremos que a ideia não é tão lunática assim. Já falei que os livros ficavam “na altura dos tornozelos, abaixo dos best-sellers”, o que é verdade em se tratando de literatura nacional. Todas as referências feitas até aqui foram para produtos de nossa querida terra brasilis. Se pensarmos em âmbito mundial, o fenômeno fica ainda mais espantoso. Observem, por exemplo, Anjos e demônios, do Dan Brown. A rigor, apesar de o livro ser relativamente bom de ler, até porque é fácil, não pode ser considerado “boa literatura”. É, na verdade, o que os críticos e mestres chamam de literatura de verão, ou de temporada. Não fará parte, certamente, do meio acadêmico. Ele usa uma fórmula bastante eficiente que desperta a curiosidade e coloca o pico de tensão sempre nas alturas. Isso torna a obra bastante

Arthur’s Free Clipart

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empre lembro de um cartum em que apareciam duas traças devorando um rolo de filme. Uma delas diz: “Prefiro o livro”. Sensacional a forma objetiva e engraçada que o autor encontrou para mostrar uma tendência bastante forte, também razoável e compreensível, que acontece cada vez com mais frequência e sucesso: livros que se tornam filmes. Não é de hoje que cinema e literatura andam de mãos dadas. Há muito tempo, essas duas belas artes – uma bem antiga, e a outra mais recente – caminham e crescem juntas. Por vezes, um empurrãozinho aqui e outro ali, com a “senhora” ajudando a lotar salas de cinema, e a “adolescente” fazendo o mercado editorial entrar em estado de graça, tudo de maneira harmoniosa e sem prévias combinações. A explicação para isso é simples: continuidade. Não da história propriamente dita, mas da vida curta da obra em si. Explico. Um escritor cria um romance belíssimo, bem escrito, bem estruturado, com uma linguagem apropriada e terá um público X. Seu público padrão. Depois, permanecerá nas prateleiras, na altura dos nossos tornozelos, escondido debaixo dos best-sellers (isso se ele tiver sorte de possuir uma editora com distribuição). Logo adiante, também com alguma sorte, estará nos balaios de descontos oferecidos em diversas feiras que vendem livros. Encerrando esse ciclo, somente a morte do próprio autor impulsionará mais alguns exemplares. Depois, o fim. “Caputz”. Sinistro, mas verdadeiro. Essa é a regra geral e, claro, possui exceções – mas não são delas que trato. Um belo dia, porém, por um acaso desses do destino, algum cineasta gosta da história e resolve filmá-la. Evidente que passa por todos os tropeços e exigências comuns ao meio e – depois de buscar e conseguir patrocínio, licenças e todo o resto – produz a tão esperada obra. É como mágica: o livro em que foi baseado o filme sai do imo e volta à moda. É lido, relido e comentado. Sua trajetória continua, enfim, tornando a literatura a grande vedete de tudo. Um outro detalhe interessante são as particularidades dos espectadores e leitores. Embora uma boa parcela do público pertença às duas classes. Por


“É uma sensação especial e enriquecedora identificarmos uma história, conhecida somente das letras, interpretada por pessoas de carne e osso, representada por cenários, movimentos, sons e música.” popular (assunto para outro momento). O filme, por sua vez, é muito parecido. Tem de tudo: tiroteio, corrida de carros, efeitos, lutas, enfim, usa de todos os artifícios possíveis e clichês para se tornar popular. E, claro, consegue. Multidões foram ao cinema em razão do livro, e outras compraram o livro em razão do cinema. Perfeito. É pertinente mencionar que a crítica feita à Igreja Católica ajudou bastante, principalmente se considerarmos que o Vaticano “sugeriu” que os católicos não vissem o filme. Tiro no pé, evidentemente. Mas, mesmo sem essa mídia gratuita feita pelos senhores de anéis bonitos e roupas estranhas, o sucesso estaria garantido. Concluindo, os livros na altura dos olhos nas tão disputadas prateleiras também vivem cinema. Se beneficiam dele e o ajudam. Além desse lado comercial mencionado, importante o suficiente para condenar à morte a melhor das histórias em caso de insucesso, tem o lado artístico. É uma sensação especial e enriquecedora identificarmos uma história, conhecida somente das letras, interpretada por pessoas de carne e osso, representada por cenários, movimentos, sons e música. É mágica. A mágica da arte transformando o que havia somente nas páginas de um livro e em nossa mente (o que evidentemente não é pouco) em uma história que passa à nossa frente como se tivéssemos outras vidas ou outros sentidos. Enfim, tudo isso para explicar minha intenção aqui. Cinema e literatura. Estas duas aí ao lado são o motivo, o mote para esta coluna. Vou mostrar – ou pelo menos tentar – a forma como vejo uma e outra.

Juntas ou – por que não? – separadas. A intenção é que o jeito como a maioria das pessoas veem cinema e leem livros, ou seja, nada técnico ou rebuscado, venha à tona. Algo relacionado com o sujeito que come pipoca no cinema, e derruba algumas no chão, ou alguém que lê de pantufas e dobra as folhas do livro para marcar a página em que parou. Ou seja, pessoas comuns, admiradores e amantes do belo, aqueles que são o verdadeiro objetivo dessas faraônicas indústrias, sem esquecer, contudo, que apesar de serem produtos de consumo, muitas vezes à venda como batatas, não deixaram de ser arte. E já foi dito: “Sem a arte enlouqueceríamos”. Se eu fosse a outra traça, ao ouvir “Prefiro o livro”, responderia sem pestanejar: “Prefiro os dois”. „ Julie Elliott-Abshire

Beto Canales é escritor de contos e narrativas longas, autor do livro A vida que não vivi. Também é um dos editores dos sites Esquina do Escritor (www. esquinadoescritor.com.br) e 3AM Brasil (www.3ammagazine.com/brasil). Cinéfilo assumido, escreve as suas críticas de filmes, além de outros textos, no blogue Cinema e bobagens (www.cinemaebobagens.blogspot.com). Revista Literatsi

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U ANTOLOGIA O martírio do artista AUGUSTO DOS ANJOS Arte ingrata! E conquanto, em desalento, A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda, Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento!

Febre de em vão falar, com os dedos brutos Para falar, puxa e repuxa a língua, E não lhe vem à boca uma palavra!

Reprodução

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!... É como o paralítico que, à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra

Silêncio, de John Henry Fuseli

Vencedor AUGUSTO DOS ANJOS Toma as espadas rútilas, guerreiro, E à rutilância das espadas, toma A adaga de aço, o gládio de aço, e doma Meu coração – estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E qual mais pronto, e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Dmitry Mayatskyy

Meu coração triunfava nas arenas. Veio depois um domador de hienas E outro mais, e, por fim, veio um atleta, Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem... E não pôde domá-lo enfim ninguém, Que ninguém doma um coração de poeta!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d’Arco, Paraíba. Autor de um único livro: Eu (1912). Após a morte do escritor, em 12 de novembro de 1914, foram acrescentados mais alguns poemas ao livro, e o título passou a ser Eu e outras poesias. Cheios de lirismo e melancolia, os poemas utilizam um vocabulário científico. Os textos abordam temas como a morte, cemitérios e hospitais, entre outros.

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Três tesouros

Tolga Kostak

MACHADO DE ASSIS

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ma tarde, eram quatro horas, o sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição. Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou--se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe: – Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E... – Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E... – Não a conhece! Não a conhece! ... quer juntar a zombaria à infâmia? – Senhor!... E o sr. X... deu um passo para ele. – Alto lá! O sr. F... , tirando do bolso uma pistola, continuou: – Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão! – Mas, senhor, disse o sr. X..., a quem a eloquência do sr. F... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?... Revista Literatsi

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U ANTOLOGIA – Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher? – A corte à sua mulher! Não compreendo! – Não compreende! Oh! Não me faça perder a estribeira. – Creio que se engana... – Enganar-me! É boa! ... Mas eu o vi... sair duas vezes de minha casa... – Sua casa! – No Andaraí... por uma porta secreta... Vamos! Ou... – Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo... – Não; não; é o senhor mesmo... como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer... Escolha! Era um dilema. O sr. X... compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo. Surgiu, porém, uma objeção. – Mas, senhor, disse ele, os meus recursos... – Os seus recursos! Ah! tudo previ... descanse... eu sou um marido previdente. E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe: – Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! Parta imediatamente. Para onde vai? – Para Minas. – Oh! A pátria do Tiradentes! Deus o leve a salvamento... Perdoo-lhe, mas não volte a esta corte... Boa viagem! Dizendo isto, o sr. F... desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira. O sr. X... ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino. No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F... para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora. Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete: “Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P... Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. – Tua E...”. Desesperado, fora de si, o sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas. – Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X..., subiu; apareceu o moleque. – Teu senhor? – Partiu para Minas. O sr. F... desmaiou. Quando deu acordo de si estava louco... louco varrido! Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso: – Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!... Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. De origem humilde, estreou com o poema “Ela”, em 1855, no jornal A Marmota. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o primeiro presidente da entidade. Consagrado pela crítica e pelo público, Machado de Assis escreveu contos, crônicas, poemas, peças teatrais, ensaios e romances. Entre as suas principais obras estão Memórias póstumas de Brás Cubas, Papéis avulsos, Quincas Borba, Várias histórias e Dom Casmurro. No dia 29 de setembro, o escritor faleceu no Rio de Janeiro.

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U ENTREVISTA

Álvaro Domingues

Balão Editorial

O escritor fala sobre ficção científica e seu livro de estreia

LUIZ FERNANDO CARDOSO

N

erd assumido, Álvaro Domingues nasceu em 1955 e se formou em Engenharia Eletrônica. Casado e pai de três filhos também nerds, o escritor foi redator da revista Nova Eletrônica e editor das revistas Microhobby e MSX Micro na década de 1980. Os contos de Álvaro foram publicados nas revistas Somnium, Adorável Noite, Bits e Nossas Edições. Além disso, colaborou nos sites Blocos OnLine e PODespecular e no Projeto de mini e microcontos da Fábrica de Sonhos. Atualmente, ele mantêm dois blogues: Sombras e Sonhos (http://sombrasesonhos. zip.net/) e Blog do Pai Nerd (http://blogdopainerd. blogspot.com/). Sombras e sonhos é o livro de estreia de Álvaro Domingues. Na obra estão reunidos 38 textos do autor – contos, microcontos e um poema – que ex-

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ploram os anseios, temores, mitos e descrenças da humanidade. Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o escritor fala sobre ficção científica e poesia, entre outros assuntos. • O que o motivou a ser escritor? A vontade de escrever surgiu quando ainda era adolescente, ao descobrir a literatura de gênero, em particular, o policial (Sherlock Holmes) e a ficção científica (Asimov e Clark). Escrever se tornou um canal propício para dar vazão à minha imaginação. • Como foi o seu primeiro contato com a ficção científica? Creio que deve ter começado com a TV, nos seriados Além da imaginação, Viagem ao fundo do mar e Jor-


“Dizer algo que vale a pena ser lido em 140 caracteres é um bom exercício de criatividade.” nada nas estrelas. Na literatura, Julio Verne e posteriormente Asimov. • Na sua opinião, qual a atual situação desse gênero no Brasil? Ele tem crescido, mas não na velocidade que merece. Talvez porque seja um gênero que demande mais cuidado nas pesquisas. Ou porque ele dependa de que haja ciência de forte apelo popular para que se possa falar dela através de uma obra literária, como ocorreu em períodos de muita profusão de eventos de natureza científica, como a corrida espacial ou o boom de descobertas do final do século XIX. No caso do Brasil, quando o Dr. Zerbini fez os primeiros transplantes, surgiu até novela na TV sobre o tema. Para que haja ficção científica, tem que haver ciência. O que temos hoje é uma velocidade estonteante de mudanças de caráter tecnológico (produzidas fora do país) em que os gadgets em si são objetos de entretenimento, não uma ficção que se cria em torno deles tentando especular sobre seu futuro.

Uma vertente que pode vir a dar frutos é o vaporpunk (ou steampunk)1, já que tivemos um Imperador no Segundo Reinado que era entusiasta do desenvolvimento científico. Ou ainda, nos voltarmos paras as ciências humanas, como psicologia, história e sociologia, criando história alternativa ou uma viagem através dos sonhos, como em A origem ou Paprika. • Qual a sua opinião sobre os livros digitais? São mais uma mídia. Não creio que, por enquanto, substituam os livros de papel. • No seu livro há predominância de microcontos. O que o atrai nessa forma de texto? O autor deve ter um poder de síntese para criar uma história curta que leve o leitor a pensar. O Twitter está aí. Dizer algo que vale a pena ser lido em 140 caracteres é um bom exercício de criatividade. • Por que o título do seu livro é Sombras e sonhos? Uma boa parte dos textos fala de sonhos no sentido psicanalítico, ou seja, o que sonhamos ao dormir com conteúdo altamente simbólico. Neste sentido, a ciência predominante nos meus textos é a psicologia. Sombras é relativo a alguns contos com conotação sombria, em que toco nos medos do ser humano, em especial o medo da morte.

Félix Nadar

• Poderia falar sobre a sua produção poética? A poesia teve um jeito engraçado de entrar na minha vida. Eu detestava poesia, por ter tido o primeiro contato com ela na escola e, na época, me parecia “coisa de menina”. Quando comecei a gostar, ao ler Álvares de Azevedo e Manuel Bandeira, me senti incapaz de produzir algo que se aproximasse daquilo. Meu primeiro poema surgiu apenas no ano 2000, após ter tido coragem de postá-lo num grupo de escritores na internet e de ter sido bastante elogiado. O que eu busco normalmente nos meus poemas é gerar um sentimento no leitor a partir de metáforas e sons.

Os livros do escritor Julio Verne foram um dos primeiros contatos de Álvaro Domingues com a ficção científica.

1. Vertente da ficção científica nascida na década de 1980, quando os escritores Kevin Wayne Jeter, Tim Powers e James Blaylock escreveram romances que se passavam em uma Era Vitoriana alternativa (século XIX), com direito a cientistas loucos e incríveis máquinas movidas a vapor.

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U ENTREVISTA • Você segue algum ritual na hora de escrever? Eu simplesmente escrevo.

Scavone, André Carneiro, Giulia Moon, Martha Argel, entre outros.

• Quais escritores influenciam o seu trabalho? Ray Bradbury, Neil Gaiman, Michael Hende são os mais flagrantes. Do mainstream brasileiro, sem dúvida um pouquinho de Machado de Assis. Mas procuro ler muito, sobretudo meus pares, escritores novos e antigos da FC [ficção científica] e fantasia brasileiras: Roberto Causo, Jorge Luiz Calife, Rubens Teixeira

• Que conselho daria aos escritores iniciantes? Leiam muito e escrevam. Pesquisem sobre o assunto que pretendem escrever. • Está trabalhando no seu próximo livro? Sim. Pretendo escrever um romance que mistura fantasia e FC. „

ÁLVARO DOMINGUES INDICA

TRILOGIA PADRÕES DE CONTATO

FUNDAÇÃO

O HOMEM DUPLO

Jorge Luiz Calife

Isaac Asimov

Philip K. Dick

“Jorge Luiz Calife colocou a FC brasileira no cenário mundial, e este livro é sua obra prima. Divertidíssimo.”

“Este livro é um marco na FC mundial e muito importante na obra de Asimov. Obrigatório.”

“Dick é sempre uma excelente referencia para quem curte FC inteligente.”

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Amostra - Literatsi #1  

Versão parcial da primeira edição da revista Literatsi.