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Lifesaving n3

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LIFE SAVING

CUIDAR DE NÓS

NEWSLETTER DAS VMER DE FARO E ALBUFEIRA

Implicações psicológicas do stresse Esta rubrica foi criada a pensar em si, que cuida de pessoas, que salva vidas, que é sujeito uma elevada carga de trabalho e de stresse. Possivelmente em muitos casos, deixamos para segundo plano o nosso auto-cuidado! Nenhum trabalho está isento de proporcionar desgaste físico e mental. A maior ou menor presença de cada um destes é decorrente da própria natureza da atividade, da organização e das condições de trabalho. Como é do conhecimento de todos, o trabalho em Emergência Pré- hospitalar é muito estimulante e heterogéneo mas engloba atividades simultaneamente penosas e difíceis para todos os trabalhadores. Mas o trabalho dos profissionais de saúde não envolve apenas sofrimento, ele também é fonte de conforto e satisfação, pela possibilidade que tem de aliviar o sofrimento e salvar vidas humanas. Este equilíbrio psíquico é possível, se a subjetividade de cada Trabalhador for respeitada, se não o que para uns é fonte de prazer para outros é fonte de sofrimento e de fadiga. É necessário uma reflexão constante sobre o trabalho que realizamos, ele faz parte da nossa vida, não pode ser causa de sofrimento físico, psíquico e emocional. Importa compreender as implicações psicológicas da atividade, para mitigar as suas consequências e recorrer a ajudas se necessário. Nesse sentido deixo-vos com um comentário realizado por um psicólogo convidado:

IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS DO STRESSE EM SITUAÇÕES DE EMERGENCIA A ação de emergência médica pré-hospitalar (ACMPH) encerra em si mesmo, contornos e similitudes a outros tantos contextos tidos cientificamente como de “Alta Performance”, os quais têm vindo a ser estudados e mapeados de forma científica. O mesmo, originou um novo enquadramento teórico e conceptual, a Psicologia da Performance, que tem vindo a ser recebido com elevado otimismo, relevo e interesse, pelos contextos organizacionais no geral, face às demandas profissionais e socias atuais. Um dos aspetos psicológicos presentes amiúde nestes contextos, é o famoso Stresse, considerado recorrentemente no dia-a-dia de diversos seres humanos espalhados nos quatro cantos do mundo. Estamos perante uma situação, propiciadora de stresse quando a avaliação que fazemos dos nossos recursos para a realização de uma determinada tarefa, é colocada em questão (Samulski, 2002). Ora, a intervenção de emergência médica, é realizada num espaço temporal limitado, (tão reduzido quanto possível) onde recursos, têm que ser mobilizados sob pena de as consequências serem penosas. O “stresse”, pode desempenhar um papel mediador na regulação

Referências Bibliográficas: Salmulski, D. (2002). Psicologia do Esporte. Brasil: Editora Manole, Lda.

emocional pessoal e profissional, podendo, situacionalmente, inibir -nos de revelar o nosso melhor, tornando-nos eventualmente mais permeáveis e frágeis, à ansiedade e a estados emocionais mais desfavoráveis para a performance. Propicia um aumento da probabilidade de desconcentração e auto boicote, com implicações na autoconfiança e propensão para o erro (Pina e Cunha; Rego; Cunha; Cabral-Cardoso, 2004). Após uma ACMPH, poderá seguir-se outra, deixando as implicações psicológicas da intervenção anterior “para trás” (em termos emocionais por exemplo podemos experienciar estados emocionais tão amplos e passíveis de desregular o profissional como a euforia ou a depressão), avançando vertiginosamente para novo contexto real de ação, sem a devida acomodação da experiência anterior. Situacionalmente, uma ACMPH, adquire contornos dramáticos, se tivermos em consideração que a mesma implica muitas vezes, um limbo temporal dicotómico. Estamos perante a vida e a morte...e a assunção de estar entre a vida e a morte (indevidamente regulada), poderá funcionar como um “gatilho” psicológico, que promove a descompensação psicológica do Profissional (no momento ou à posteriori), das mais variadas ordens, maximizando ainda mais as implicações já de si exigentes, de uma situação de performance que implique stresse.

Estar entre o fim da vida, e a esperança de mais uma oportunidade, é um “contrarrelógio” digno das mais elevadas aferições, havendo capacidade técnica do profissional, leitura estratégica da situação, homeostasia psicológica e capacidade de análise, bem como, melhor mobilização dos recursos físicos pessoais. Todo este elevado grau de exigência acarreta implicações, entre os quais se destaca a assunção de competência percebida para a execução da função, face a tão amplos requisitos. As funções de condução de veículos de porte elevado em condições de risco, acarretam um gasto energético e atencional adicional, que podem “desgastar” a melhor preparação da intervenção a realizar. “Só”, o incorreto entendimento psicológico face ao mesmo, poderá facilitar a irritabilidade ou frustração (muitas vezes, automática e silenciosa), reduzindo consequentemente as probabilidades de êxito na sua performance principal. Um Profissional de ACMPH, é um especialista na arte do ilusionismo. É alguém que faz parecer ao comum dos mortais, fácil o difícil, num ato de altruísmo. O segredo por detrás do pano do “mágico”, está na antecâmara, na preparação “fora do palco”, na assunção, compreensão e tomada de consciência das limitações pessoais e profissionais, de uma forma devida e cuidada. Só assim, é possível visar o aprimorar de estratégias e competências, que propiciem o desenvolvimento humano e profissional de uma forma sustentada e integrada, tendo por base processos de aprendizagem contínua, considerando saberes multidisciplinares, que edifiquem atuações de maior excelência e consistência, numa causa tão nobre como é a de salvar vidas. Silvia Labiza silvia.labiza@gmail.com Enfermeira VMER

Gonçalo Castanho goncalo@optimizeconsultors.com PSICÓLOGO

Pina e Cunha, M.; Rego, A.; Cunha, R.C. & Cabral-Cardoso, C. (2004). Manual do comportamento organizacional e gestão. Lisboa: Editora RH.

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LIFESAVING | FEVEREIRO 2017

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