LIFE SAVING
É TICA E DEONTOLOGIA QUANDO A RESPOSTA É NÃO
NEWSLETTER DAS VMER DE FARO E ALBUFEIRA
O QUE FAZER EM CASO DE RECUSA DE TRANSPORTE?
- “Não.” - “Sr. Costa, é importante ser visto no Hospital!” - “Não posso, não vou, estou atrasado para o trabalho”, atirou petulante, com a mesma relutância dos 5% a 15% dos doentes que recusam transporte para o Hospital no contexto da emergência préhospitalar (EPH) (1,2). E são os homens adultos, como aquele quarentão, que registam maiores taxas de recusa, (1,3) fundamentalmente, pela não percepção da gravidade da situação clínica, por considerarem o problema resolvido ou, menos frequentemente, por motivos económicos (4). Os extremos etários são mais permeáveis ao transporte, seja pela ansiedade e preocupação parental nas idades pediátricas, (5) como pela gravidade da poli-patologia crónica com agudizações frequentes no segmento geriátrico. (3,6)
- “Não me pagam as horas que vou andar entre análises e médicos”, justificava-se, “e foi só mesmo um toquezinho com o carro, só chapa”, ilustrando a experiência de Knight et al que coloca os acidentes de viação (10,8%), bem à frente das quedas (5,8%) ou das intercorrências médicas (3,3%) como o contexto que mais recusas verifica, (1) possivelmente por alguma sensação de imunidade decorrente de litros de adrenalina nas veias. Mas essa atitude pode ter consequências nefastas, potencialmente fatais, sendo responsável pela ida aos serviços de saúde de 20% dos doentes, dos quais 2% ficam internados e 1% morrem por razões relacionadas com o motivo original da chamada para a EPH (1,7). Estes valores variam com as populações seleccionadas podendo atingir os 14,7% de hospitalizações e 6,8% de mortes. (8) Como conciliar a autonomia de um doente aparentemente consciente e orientado com a atitude que o profissional considera ser do seu melhor interesse é uma questão ética central no contexto da EPH, estabelecendo-se com um dos principais conflitos éticos que os profissionais encontram na rua. (9) O Sr. Costa tem direito ao cumprimento da sua vontade mesmo que tal possa ser fatal para si ou para outros? Existem várias maneiras de aplicar algum paternalismo médico em doentes que poderão não ser capazes do melhor julgamento, não se focando nas consequências negativas das suas opções. A técnica “look foward in time” em que o profissional transcende a questão imediata mudando o foco para um cenário mais globalizante é uma estratégia útil e legítima que deve ser devidamente contrabalançada com o direito à auto-determinação. (4) E quando a resposta permanece a mesma: - “Não.” Estará um doente em urgência emocionalmente capaz para assinar consentimento? Sérgio Menezes Pina
Médico VMER s.menezespina@gmail.com
Bibliografia 1. Holder, P. et al. (2012). Patients refusing prehospital transport are increasingly likely to be geriatric. Emergency medicine international, 2012, s. 905976. 2. Knight, S. et al. (2003). Against all advice. Annals of Emergency Medicine, 42 (5), s. 689–696.
3. Eberhardt M, Ingram D ,Makuc D, et al. (2001). Urban and Rural Health Chartbook: Health, United States. National Center for Health Statistics; 4. Nordby, H. et al. (2013). Should paramedics ever accept patients’ refusal of treatment or further assessment? BMC Medical Ethics, 14 (1), s. 44. 5. Janicke, D. M., Finney, J. W. & Riley, A. W. (2001). Children’s health care use: a prospective investigation of factors related to care-seeking. Medical care, 39 (9), s. 990–1001. 6. Yung, R. L. (2000). CHANGES IN IMMUNE FUNCTION WITH AGE. Rheumatic Disease Clinics of North America, 26 (3), s. 455–473
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LIFESAVING | FEVEREIRO 2017
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