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I ESCOLA NACIONAL DE FORMAÇÃO POLÍTICA DO LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE “EMERSON PACHECO”

“O poder pertence ao povo Nosso lema é unir as forças revolucionárias Podem surgir dos bairros, das ruas Dos conjuntos residenciais Das favelas, Mucambos, malocas e alagados O desejo de todo revolucionário, é fazer a revolução” Carlos Marighella


1. SOBRE A FORMAÇÃO POLÍTICA DO NOSSO MOVIMENTO Concepção de formação política no movimento popular: A formação política no movimento popular não se reduz a um espaço formal, a um curso. Não concebemos a formação de um militante apenas pelo seu tempo de estudo. Ao contrário, a formação é um processo integral que envolve diferentes aspectos e experiências, como os cursos, os processos de luta, as contradições de vida, a vivência dentro da organização, o estudo individual e muitas outras coisas. Aprendemos esse método com os movimentos do campo popular. Por isso, a formação política é sempre um processo coletivo, pois como dizia o educador Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os seres humanos se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Todas essas experiências coletivas permitem a um militante compreender sobre o mundo em que vive, ter clareza dos objetivos e da estratégia do movimento, fortalecer sua convicção política, ter capacidade de desenvolver o processo de organização, formação e acompanhamento com outras pessoas e também formular e levar adiante iniciativas de luta. Nosso método de formação: O método de formação popular segue a lógica prática – teoria – prática. Queremos “conhecer o mundo para transformá-lo”, como dizia Marx. Esse método evita que a gente cometa dois erros: ficar apenas na prática, no voluntarismo e na repetição, sem entender o significado daquilo que fazemos. Ou ficar apenas na reflexão, na teoria, ficar “mais sabidos”, sem saber como usar esse conhecimento. Assim, a formação no Levante está diretamente ligada àquilo que fazemos todos os dias. Exige avaliação e reflexão da nossa prática, planejamento dos passos seguintes, compreensão da conjuntura em que estamos atuando, para entender as transformações do mundo e aprender com nossos acertos e erros. Nesse processo, o conhecimento da realidade e de nós mesmos vai se ampliando, e só assim acumulamos realmente experiência. O papel dos cursos de formação: Os cursos de formação tem o papel de socializar os conhecimentos coletivos acumulados pelo movimento. Eles não são espaços onde algumas pessoas vão dar respostas prontas para nós. Ao contrário, são momentos em que a organização faz um esforço de síntese para que toda a militância tenha uma compreensão comum da nossa visão sobre a conjuntura, sobre os problemas que ela coloca e sobre os nossos desafios. Além disso, os cursos também são momentos especiais para intensificarmos a prática do estudo e socializar os conhecimentos acumulados na história de luta do povo brasileiro. O papel do estudo: A prática militante e os cursos não substituem o estudo individual. O mundo atual é extremamente complexo e acelerado e exige de nós o domínio de diferentes conhecimentos. As diferentes áreas da ciência produziram muitas ferramentas importantes para a compreensão de diferentes aspectos da realidade. Há um ditado que diz “saber é poder”. Portanto, a formulação de uma visão própria dos movimentos populares sobre o mundo depende muito da capacidade que temos de nos apropriarmos desses conhecimentos científicos. Nesse sentido, tanto a educação formal (espaço escolar/universitário) quanto o hábito do estudo individual são indispensáveis para a formação dos militantes do Levante.


2. QUEM SOMOS? “Váyanse al carajo yanquis de mierda que aqui hay um Pueblo digno. Váyanse al carajo cien veces. Aquí estamos los hijos de Bolívar, los hijos de Guaicaipuro, los hijos de Túpac Amaru y estamos resueltos a ser libres.” Hugo Chávez Somos o Levante Popular da Juventude! Uma organização de jovens militantes voltada para a luta de massas em busca da transformação estrutural da sociedade brasileira. Somos a juventude do Projeto Popular, e nos propomos a ser o fermento na massa de jovens do país. - Somos um movimento de juventude que não baixa a cabeça para as injustiças e desigualdades e que se nacionalizou a partir da luta, com os escrachos aos torturadores em diversos estados do país; - Somos a juventude negra da periferia dos centros urbanos que está sendo assassinada pela PM e que luta pela desmilitarização da polícia; - Somos a juventude camponesa que luta por educação, pelo direito de permanecer no campo e construir um futuro digno; - Somos jovens que estiveram presentes de forma ativa nas diversas manifestações a partir de junho de 2013; - Somos parte da luta pelo passe-livre; Somos universitários e secundaristas, em campanha para construirmos um Projeto Popular para a Educação; - Somos a juventude em luta por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político! Pois desde as manifestações de junho de 2013, percebemos o abismo existente entre as demandas da juventude brasileira e o atual sistema político herdado da Ditadura e dominado pelos interesses do capital. - Somos a juventude que não se resigna ao ver os desmandos e abusos de poder dentro das instituições públicas. Devolvemos a merda que a Rede Globo nos faz assistir todos os dias, em 2013 também para denunciar o monopólio da mídia no Brasil. No ano de 2015 jogamos dólares falsos no maior corrupto da atualidade, Eduardo Cunha, e mostramos o brilho da liberdade de expressão jogando glitter em Jair Bolsonaro contra a ameaça constante de conservadorismo que este cidadão representa na vida da juventude, dos negors, das mulheres e da comunidade LGBT; Quando falamos sobre entendermos quem somos estamos falando da história da construção do nosso movimento, do que somos e de com quem nos relacionamos hoje, mas também de nos colocarmos como herdeiros de uma série de experiências da esquerda que nos inspira e nos vincula a uma forma de olhar para a realidade e agir sobre ela. Trata-se, portanto, de conhecermos a nossa história propriamente dita, a história e as características do nosso campo politico e o leito histórico ao qual nos filiamos. 3. NOSSA HISTÓRIA Este texto é um esforço de sistematização do processo de construção do Levante Popular da Juventude. Sabemos que uma história pode ser contada a partir de diferentes abordagens. Deste modo, cada militante do Levante que participou desse processo, ao recuperar a trajetória dessa organização pode dar ênfase a distintas dimensões. Portanto, não se trata aqui de definirmos uma história oficial, mas de apontarmos alguns marcos temporais fundamentais dessa construção, bem como identificar quais foram as principais influências que nos constituíram.


Antecedentes (2000 -2006): Ao resgatarmos a trajetória do Levante, a experiência do Rio Grande do Sul e o Acampamento Sepé Tiarajú, em São Gabriel, sempre são colocados como o ponto de partida. Veremos mais a frente que embora o batismo do Levante tenha se dado neste estado, o processo de conformação de uma organização da juventude com este determinado projeto político, não se restringiu ao Rio Grande do Sul. O campo político que gestou esta construção foi o da Via Campesina. Desde o final dos anos 90 percebia-se a necessidade de fortalecer o processo de organização da juventude dentro dos movimentos sociais camponeses, na perspectiva da formação de uma nova geração de militantes. Deste modo, no início dos anos 2000, os movimentos sociais da Via Campesina fortalecem processos organizativos dos seus jovens, destacam militantes para acompanhar os jovens dos movimentos, etc. Em 2005 a Consulta Popular, instrumento político de referência para grande parte dos quadros da Via campesina define em Assembleia Nacional a resolução “organizar a juventude da classe trabalhadora e, em especial, os jovens da periferia urbana”. A leitura da Consulta era de que seria indispensável para a construção de um projeto contra hegemônico no Brasil a inserção na juventude trabalhadora, principalmente nas massas das grandes periferias. Era portanto, necessário deslocar quadros de um contexto onde havia um razoável processo de organização, para constituir força social nos centros urbanos, onde este campo político, bem como as demais organizações de esquerda, tinham uma força muito residual. A fundação – Rio Grande do Sul (2006): A partir de então no Rio Grande do Sul se constitui um grupo de trabalho para efetivar a construção de uma organização de juventude. Não havia uma formulação de como deveria ser esta organização, seu caráter, sua organicidade, sua concepção. No entanto, havia o ímpeto organizativo e a compreensão de que estas definições seriam forjadas no decorrer do processo. Na medida em que em se caminhava formava-se o caminho. Este núcleo inicial era composto por 2 quadros da Pastoral da Juventude Rural, um do MTD, um do MST, e um jovem universitário. Este grupo começa a desenvolver os primeiros laboratórios de organização de jovens, principalmente nas periferias de Porto Alegre, a partir da realização de encontros, debatendo os “problemas” da juventude. No decorrer dessas atividades incorpora-se a primeira liderança de origem popular a este núcleo. Em um desses encontros na comunidade do Morro da Cruz, se batiza esta incipiente organização de Levante Popular da Juventude. Ainda em 2005, se traça a primeira meta-síntese organizativa do Levante: a construção de um acampamento de fundação do movimento. No dia 7 de fevereiro de 2006 completavam-se 250 anos da morte do líder Guarani Sepé Tiaraju, símbolo da resistência indígena ao processo colonização europeia no Rio Grande do Sul. Rendendo homenagens a esta data a Via Campesina organiza um grande encontro na cidade de São Gabriel, onde Sepé havia morrido em combate. Neste evento estariam reunidos centenas de indígenas de diferentes etnias, quilombolas e camponeses dos Movimentos da Via Campesina. Aproveitando esta oportunidade, este núcleo propulsor do Levante desafiou-se a construir um grande acampamento de jovens, paralelo as demais atividades. O acampamento conseguiu reunir em torno de 700 jovens de todo estado. A maior parte dos participantes eram os jovens ligados aos movimentos da Via Campesina. Havia também uma parcela considerável dos jovens da base do Movimento de Trabalhadores Desempregados, além de algumas dezenas fruto do processo de mobilização deste grupo de trabalho nas periferias, e ainda em pequeno número nas universidades. O encontro em si teve muitos problemas organizativos e metodológicos, mas ele


contribuiu decisivamente para a conformação do Levante. As três frentes de atuação, territorial, camponesa e estudantil, que caracterizam o movimento, já estavam presentes desde o marco inicial da organização. O próprio núcleo propulsor do Levante era composto por camponeses, jovens de periferia e universitários. Além disso, a construção do Acampamento deu a este núcleo maior densidade política e capacidade organizativa fundamentais para que o movimento deslanchasse. Como resolução do Acampamento define-se como bandeiras de lutas prioritárias: Educação, Trabalho, Cultura e Lazer. Após o Encontro estabelece-se como segunda meta-síntese a realização de uma luta e como reivindicação prioritária elegeu-se a democratização do acesso à universidade. Havia uma compreensão de que esta luta, embora sendo pela educação superior, não deveria reproduzir a dinâmica do Movimento estudantil. A síntese política desse processo foi de que a luta pela construção de uma Universidade Pública e Popular passaria necessariamente por alterar a composição social do ambiente universitário a partir das cotas sociais e raciais. Deste modo, o Levante inaugura a luta por cotas nas universidades no Rio Grande do Sul, ocupando a reitoria da UFRGS, durante um dia, com centenas de jovens de escolas públicas, camponeses e universitários. Acampamento da Juventude do Campo e da Cidade (2008): A partir do olhar da conjuntura que os movimentos sociais da Via Campesina estavam desenvolvendo de que o eixo propulsor da luta de classes passaria a ser os grandes centros urbanos, visto as contradições que os trabalhadores passariam a viver dentro deste ciclo político um processo intenso de articulação campo e cidade passou a se orientar a partir dos movimentos sociais do campo. Os trabalhos com as Executivas de curso e com os Estágios Interdisciplinares de Vivência (EIVs) forjaram uma militância referenciada nos movimentos camponeses e no Projeto Popular. Estes jovens embora se somassem nas iniciativas amplas propulsionadas pela Via, acabavam não consolidando um processo organizativo, mas chegou muito perto disso com a realização do Programa de Formação Política da Juventude do Campo e da Cidade em mais de 15 capitais do Brasil entre os anos de 2006 e 2008, realizado em etapas numa parceria entre a juventude da Via Campesina e os coletivos urbanos locais que atuavam a partir do teatro, da dança, do hip hop, do funk, da litareratura, do maracatu, da cultura e dos mais diversos temas que envolvem a juventude. Foi esse rico processo que consagrou um importante momento que foi o Acampamento Nacional de 2008, envolvendo mais de mil jovens animados ao som de uma embrionária. Foi nesse momento que tivemos a certeza de que seria necessário uma ferramenta pra dar unidade e coesão pra aquela juventude tão disposta a luta que se encontravam os grandes centros urbanos. Nacionalização (2011/2012): Na medida em que estas várias iniciativas iam se forjando, a experiência do Levante no Rio Grande do Sul passou a inspirar os militantes desse campo político nos demais estados, que sentiam a necessidade de ter uma ferramenta. Passamos a consolidar um setor nacional da juventude da Consulta Popular, envolvendo inclusive os companheiros do Rio Grande do Sul propulsores da identidade e do método mais sistematizado, que percorreu todo o Brasil para construir as bases da nacionalização e ao poucos fortalecer a identidade do nosso movimento. Estabelece-se então a necessidade de criar um marco para a nacionalização do movimento. O


Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude seria ao mesmo tempo o marco e a meta-síntese impulsionadora do processo de nacionalização. Durante mais de 1 ano os estados se preparam para criar as condições de chegar ao Rio Grande do Sul, estado que simbolizava esse processo de construção. Em Fevereiro de 2012 cerca de 1300 jovens de 15 estados se reúnem na cidade de Santa Cruz do Sul (RS). Neste acampamento afirmamos a construção do Levante como uma organização Nacional e firmamos a nossa primeira carta de compromisso, delineando os primeiros traços desta ferramenta ao som da nossa embrionária batucada popular símbolo da nossa construção. Foi nesse momento que também consolidamos a primeira instância do Levante, a Coordenação Nacional. Dois meses após a sua fundação, o Levante constitui uma de suas ações de maior projeção na sociedade. Em abril de 2012, simultaneamente em 7 estados brasileiros o Levante promove uma onda de escrachos aos torturadores da Ditadura, denunciando a impunidade e recolocando na ordem do dia a luta por Memória, Verdade e Justiça, dando materialidade a orientação de uma de nossas grandes referência de luta Carlos Marighella “A ação faz a organização” - um mês após esse intenso momento de luta, a então ameaçada Comissão Nacional da Verdade é instalada, e inicia seus trabalhos. Os marcos referenciais desse processo: Muitas foram as influências para a construção do Levante. Muitos fatores determinaram a sua atual configuração. Mas é possível identificar as suas três principais. Em termos de projeto político o Levante herdou dos movimentos da Via Campesina e da Consulta Popular a defesa do Projeto Democrático e Popular como estratégia para a construção da Revolução Socialista no Brasil. Deste modo, o Levante se conforma enfaticamente como uma organização vinculada ao campo do Projeto Popular, vocacionada para a luta social popular. Em termos de método de trabalho e forma orgânica, o Levante se aproxima muito também das experiências das Pastorais da Juventude. Excetuando o elemento religioso, a compreensão de que o trabalho de formação política da juventude não deve estar dissociado da construção de laços de amizade, da vivência, do compartilhamento de vida é um legado das PJs, bem como a ênfase no acompanhamento pessoal. Por fim, a terceira fonte que contribuiu decisivamente na construção da identidade do movimento foi a relação de intercâmbio com os movimentos populares da América Latina. Tanto o Coletivo de Juventude da Via, quanto do Levante do Rio Grande do Sul estiveram presentes em várias edições dos Acampamentos Latinos. Essa participação nos possibilitou incorporar vários elementos indenitários dessa cultura política, como as batucadas, as músicas, as performances nos atos, o que levou as demais organizações a classificarem o Levante como a “esquerda festiva”. A ênfase nas técnicas de agitação possibilitou a construção de uma estética que fugia da tradição política brasileira, como mostraram os próprios Escrachos. Essa identidade foi imediatamente percebida como uma linguagem que dialogava com a Juventude. Uma organização que se pretende representar a juventude do povo brasileiro, deveria se expressar como tal. A animação como veículo de transmissão de uma mensagem política se transformou em uma marca do Levante. Em 4 anos de existência o Levante se constituiu como uma das principais referências de organização da juventude no Brasil, apesar de todos os limites estruturais para a construção desta organização. Apesar de estarmos longe do que queremos ser, temos a convicção que esta curta existência já deixou o seu legado.


Nosso campo político: À construção de força social em torno das reformas estruturais que a burguesia não pode realizar chamamos de Projeto Popular para o Brasil, esse processo busca alterar a correlação de forças e abre espaço para a construção do Brasil que queremos. Dizemos que as organizações que constroem esse projeto se situam no nosso campo político, no campo do projeto popular. Acreditamos que lutando por estas reformas combatemos a nossa dominação política, econômica, militar e ideológica pelo Imperialismo Norte Americano e também a política do Estado mínimo que privatiza as empresas estatais e reduz os direitos sociais aplicando as demandas do Neoliberalismo. Somos muito mais que a nossa bandeira, somos o nosso projeto de transformação da sociedade! Nosso leito histórico: Nossa inspiração tem vínculo profundo com a Esquerda Revolucionária que por meio da construção de um marxismo vivo deu origem à luta armada contra a ditadura no Brasil, à Teologia da Libertação, à revolução cubana, à revolução nicaraguense e outras experiências de libertação nacional na Ásia e África. Esse leito ao qual nos filiamos rompe com uma forma de olhar para a realidade, rompe com um olhar centrado na história europeia e nas demandas das suas revoluções, propõe e experimenta de forma vitoriosa análises e revoluções sem transposições mecânicas das experiências europeias cuidando de compreendermos profundamente a nossa realidade. São algumas características desse setor da esquerda mundial o forte vinculo com o seu povo, a organização popular com foco na tomada do poder, a luta central pelas reformas estruturais do seu Estado e a plena compreensão do Imperialismo como maior inimigo da humanidade. Carta compromisso do I Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude Nós, do Levante Popular da Juventude, no momento em que fundamos nossa organização, em nosso I Acampamento Nacional, com a participação de 1200 jovens de 17 estados brasileiros, nos comprometemos com a transformação profunda da realidade em que vivemos. Enxergamos um mundo dividido entre aqueles que exploram, e as trabalhadoras e os trabalhadores que têm o fruto de seu trabalho roubado. Esse é o sistema capitalista patriarcalracista, que mundialmente estabelece as formas de organização da sociedade na sua forma imperialista. Ele cria uma relação de dominação entre culturas e povos, destrói o meio ambiente, oprime e explora as mulheres, assassina a juventude negra, silencia gays e lésbicas e tolhe, cotidianamente, todos os nossos sonhos. O Brasil é um país de natureza e cultura fantásticas, mas carregamos as dores da escravidão, o saqueio das grandes potências, e uma história de uma elite dependente, mas que sempre concentrou o poder em suas mãos. Os meios de comunicação, a terra, a água, energia, a educação, o lazer e a oferta de saúde de qualidade ainda estão nas mãos dessa elite. Aos trabalhadores, restaram somente as periferias das grandes cidades, as encostas de morro e as beiradas de rio, extensas jornadas de trabalho e salários miseráveis; no campo, a reforma agrária e a produção de alimentos foram deixadas de lado e substituídas pela utilização de transgênicos e agrotóxicos, tudo orientado para a exportação. Nós, jovens, estamos no meio desse furacão: no campo, nas periferias e favelas, nas escolas e universidades, no trabalho. Somos constantemente disputados pelo projeto capitalista. É em contraposição a este projeto que nos lançamos ao desafio da construção do Projeto Popular.


Por isso, nos comprometemos: Co m a luta pela construção de uma democracia popular, que socialize com qualidade as terras, a água, a energia, os meios de comunicação, o acesso à saúde, à educação, à moradia, ao transporte. Com a luta pela soberania, porque os povos devem tomar seu país e sua história nas mãos, sem serem sujeitados pelo imperialismo ou outros poderosos. O desenvolvimento deve ser ambientalmente sustentável e estar voltado ao interesse do povo. Com a prática permanente de solidariedade com todos os povos que sofrem e lutam. Com atenção especial para nossos hermanos latino americanos, que carregam a mesma história de opressão e luta que nós. Com a luta contra o machismo, na sociedade e dentro de nossa organização, pois, se os trabalhadores são explorados pelo sistema capitalista, as mulheres são duplamente oprimidas e exploradas: enquanto trabalhadoras, e enquanto mulheres, pelo sistema patriarcal. Temos que estar lado a lado com as organizações do movimento feminista no combate ao patriarcado, à violência sexista e à mercantilização do corpo e da vida das mulheres, assim como fomentar a autoorganização das mulheres do Levante. Com a luta contra o racismo, dentro e fora de nossa organização, porque a população preta é a mais explorada da classe trabalhadora e mesmo depois de 124 anos da falsa abolição continua sendo o alvo preferencial da violência de Estado. É necessário lutarmos junto ao movimento negro e outras organizações antirracistas para que possamos construir uma sociedade livre do racismo. Com a luta contra a lesbofobia, a transfobia e a homofobia, também dentro e fora de nossa organização, porque não existem relações afetivas mais normais e comuns que outras, e nenhuma orientação sexual deve ser motivo para legitimar desigualdades e opressões. Com a luta por um projeto de educação que sirva aos interesses do povo. Por isso, defendemos que exista um número suficiente de vagas tanto em creches quanto em escolas secundárias e universidades, bem como cotas sociais e raciais, no campo e na cidade. Por isso, também reivindicamos os 10% do PIB para a educação; a educação só terá qualidade se estiver voltada para os interesses do povo, atendendo todas e todos. Com a luta por transporte público, gratuito e de qualidade, enfrentando os aumentos nos preços de passagem. Com a luta por ampliação do acesso à cultura e ao lazer, contra sua mercantilização. Lutaremos para que existam mais possibilidades de produção e troca culturais, como música, teatro, artes visuais, cinema, dança, e tantas outras formas de expressão. Também utilizaremos da cultura e do lazer como formas de resistência, de resgate da nossa história e da nossa identidade de povo brasileiro. Com a luta contra o trabalho precarizado e informal. A luta pela garantia e expansão dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras (exploradas duplamente, no local de trabalho e em casa) é essencial para a criação de um país menos desigual. Pela jornada de 40 horas semanais, sem a redução de salários. Sabemos que para isso é extremamente necessária a massificação desta luta, trazendo cada vez mais jovens para o nosso projeto, porque só a juventude tem a força necessária para transformar essa sociedade. É com o trabalho coletivo, combatendo o individualismo e a estagnação, que tomaremos o futuro em nossas mãos. Esse é o caminho para a liberdade com que tanto sonhamos e precisamos para viver. Construiremos uma organização com coerência: devemos fazer o que dizemos e dizer o que fazemos; com autonomia, construída por aqueles que trabalham no Levante; com estudo e


disciplina, para dar cada passo com firmeza, conhecendo com profundidade o caminho que devemos trilhar; com o exercício de crítica e autocrítica, porque não devemos temer ou ocultar os erros, mas enfrentá¬los de frente, para, então, superá¬los. Entendemos que serão esses compromissos que garantirão a construção do Levante Popular da Juventude, do Projeto Popular e da Revolução Socialista brasileira. A tarefa não é fácil: não esperamos ter todas as respostas nem construir tudo isso sozinhos, mas nos desafiaremos a dar tudo o que pudermos, porque devemos nos construir como a juventude que ousa lutar, que constrói alternativas e que é parte do povo brasileiro. Somente com alegria, amor e muita animação chegaremos lá! Juventude que ousa lutar constrói o poder popular! I Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude, 5 de fevereiro de 2012, Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. Carta compromisso do II Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude Somos mais de três mil jovens, de vinte e cinco estados, reunidos no II Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude. Somos jovens da periferia, do campo, das universidades públicas e particulares, secundaristas, jovens trabalhadores. Somos mulheres, gays, lésbicas, transexuais, travestis, indígenas, quilombolas, negras e negros. Somos produtores de arte e cultura, em suas mais diversas expressões, ritmos e cores. Nesse momento de encontro nacional, ousamos reafirmar o nosso compromisso com a construção do Projeto Popular para o Brasil. Com apenas dois anos de construção nacional, realizamos inúmeras lutas, seminários de formação, centenas de acampamentos estaduais e municipais, milhares de reuniões de células. Consolidamos um movimento nacional, de massas, comprometido com a democracia popular, a sustentabilidade, o desenvolvimento, a soberania dos povos, o feminismo, o internacionalismo e a solidariedade. Sabemos que ainda vivemos em uma sociedade dividida em classes, em permanente luta entre aqueles que exploram e as trabalhadoras e trabalhadores que têm o fruto de seu trabalho roubado. Esse é o sistema capitalista patriarcal e racista, mundialmente organizado na sua forma imperialista, que destrói a natureza, extermina a juventude negra, oprime as mulheres, invisibiliza e violenta as diversas formas de expressão da sexualidade, concentrando a riqueza e o poder nas mãos das elites. No Brasil a mesma classe dominante há mais de 500 anos explora e oprime nosso povo, e até hoje controla o poder político, a economia e os meios de comunicação. Uma elite violenta, que não tem problema em dizimar aqueles que discordam dela, como aconteceu durante a ditadura. O golpe faz 50 anos, e as marcas do período de chumbo continuam no nosso presente: a violência policial, o monopólio da mídia e o controle das empresas sobre a política de nosso país são suas marcas mais visíveis. Nos últimos anos, mesmo com as realizações dos governos neodesenvolvimentistas que trouxeram benefícios à população brasileira, não ocorreu nenhuma transformação estrutural na sociedade brasileira. São os limites do atual sistema político: a atual democracia brasileira não quer e não pode transformar estruturalmente o país. A elite escravocrata, ditadora e assassina permanece no poder, controlando o Congresso Nacional e o poder judiciário e não irá ceder a reformas que possam melhorar a vida do povo. Em 2013 estivemos nas ruas junto de milhões de jovens em todo o país. Com todas as suas


contradições, as manifestações de junho tiveram um caráter progressista e exigiram reformas estruturais na saúde, na educação, na mobilidade urbana e pela democratização dos meios de comunicação. Além disso, foram um marco da força e da vontade da juventude de ir às ruas lutar pelos seus sonhos, anunciando um novo ciclo de lutas sociais. Nós do Levante somos parte deste processo e nos comprometemos com as lutas da juventude brasileira, da classe trabalhadora na mudança do atual sistema político. Por isso, nos comprometemos: – Com a luta por memória, verdade e justiça. Pela revisão da Lei de Anistia e punição aos torturadores; – Com a luta pela democratização dos meios de comunicação e contra o monopólio da mídia, – Com a construção de um projeto popular pra educação. Com 10% do PIB pra educação pública, por acesso e permanência na educação infantil, fundamental e superior; por cotas raciais e sociais; pelo fim do fechamento das escolas no campo; - Com a luta e construção da Reforma Agrária Popular. Somente quando o campo e a cidade se unirem em torno do mesmo projeto avançaremos nas reformas estruturais e superaremos o modelo de agronegócio que assola o campo brasileiro; – Com a luta pelo direito à cidade. O espaço público deve ser ocupado pelo povo e para isso precisamos de transporte público de qualidade com tarifa zero. - Com a produção e a defesa da cultura popular brasileira, como forma de enfrentar a alienação, o individualismo e a indústria cultural que destrói a nossa diversidade. – Com o combate ao o machismo, pelo fim da violência contra a mulher, pela igualdade de salários e oportunidades; por creches para todas as crianças; – Com o combate à homofobia, por politicas publicas e lei anti-homofobia – Com o combate ao racismo, pela desmilitarização das PMs que promovem o extermínio da juventude negra; – Contra a criminalização dos movimentos sociais, pelo livre direito a organização e manifestação; – Com a luta por uma Constituinte exclusiva e soberana do Sistema Politico, através da realização do Plebiscito Popular. Muito fizemos até aqui, mas temos ainda muitos desafios no caminho. Para avançar na construção do Projeto Popular, é preciso muito suor, trabalho de base, formação política e agitação e propaganda. Construindo e multiplicando o Levante, nossa ferramenta de luta e organização. Nosso movimento deve estar voltado para a luta de massas, pois só ela pode mudar a vida da juventude e de todo o povo brasileiro. É também fundamental construir a unidade das forças populares, com humildade e generosidade, pois sabemos que a transformação da realidade é tarefa de milhões. É nosso compromisso central seguir firmes na luta e na construção da revolução brasileira. Sabemos que o mundo novo só será construído enfrentando o desafio cotidiano da igualdade e da democracia, sem nenhuma forma de opressão. Temos certeza que nossa coragem, firmeza e trabalho coletivo nos levará à vitória. Ousar lutar, organizando a juventude pro Projeto Popular! II Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude, 21 de abril de 2014, Cotia, São Paulo, Brasil.


História do Levante