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O Arqueiro GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor José Olympio, publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de M aurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin. Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à Editora Sextante. Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser lançado nos Estados Unidos. A


aposta em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos. M as não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão. Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida.


T ítulo original: Leo Copyright © 2013 por Mia Sheridan Copyright da tradução © 2015 por Editora Arqueiro Ltda. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores. Esta obra foi negociada pela Bookcase Literary Agency, representando a Rebecca Fiedman Literary Agency. tradução: Ana Rodrigues preparo de originais: Taís Monteiro revisão: Cristhiane Ruiz e Luiza Miranda projeto gráfico e diagramação: Valéria Teixeira capa: Mia Sheridan adaptacão de capa: Miriam Lerner adaptação para ebook: Marcelo Morais CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONT E SINDICAT O NACIONAL DOS EDIT ORES DE LIVROS, RJ


S554c Sheridan, Mia O coração do leão [recurso eletrônico] / Mia Sheridan [tradução de Ana Rodrigues]; São Paulo: Arqueiro, 2015. recurso digital (Signos do amor; 2) T radução de: Leo Sequência de: A voz do arqueiro Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-8041-470-7 (recurso eletrônico) 1. Ficção americana. 2. Livros eletrônicos. I. Rodrigues, Ana. II. T ítulo. III. Série. 1526851

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3 Todos os direitos reservados, no Brasil, por Editora Arqueiro Ltda. Rua Funchal, 538 – conjuntos 52 e 54 – Vila Olímpia 04551-060 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818 E-mail: atendimento@editoraarqueiro.com.br www.editoraarqueiro.com.br


Este livro é dedicado ao meu marido. Você é a inspiração da vida real para todos os heróis de ficção que minha mente e meu coração inventam.


O le達o Um amante ardente e um guerreiro corajoso por instinto.


c a p í t u lo 1 EVIE, 14 ANOS LEO, 15 ANOS

stou sentada no telhado do lado de fora da janela do meu quarto, à noite, olhando para o céu escuro, observando o vapor da minha respiração subir no ar frio de novembro. Enrolo a manta rosa surrada com mais força ao redor do corpo e descanso a cabeça sobre meus joelhos dobrados. De repente uma pedrinha aterrissa perto de mim no telhado e logo desliza de volta para baixo até cair no chão. Levanto a cabeça e sorrio quando o escuto começar a escalar a treliça caindo aos pedaços na lateral da casa. Se ele engordar mais meio quilo, aquela coisa decrépita não o sustentará mais. Mas isso não importa agora. Ele não estará aqui para


escalá-la. Sinto um aperto no coração ao pensar nisso, mas controlo minha expressão quando ele finalmente chega à beira do telhado e engatinha até mim, todo desengonçado, muito alto e magro, os cabelos louroescuros. Ele dá um sorriso caloroso, deixando à mostra o espaço entre os dentes da frente que eu tanto amo, e se senta ao meu lado. Me inclino na direção dele e permanecemos sentados, as testas encostadas, por vários minutos, olhando nos olhos um do outro, antes de ele suspirar e endireitar o corpo. – Acho que não vou conseguir sobreviver sem você, Evie – diz, e parece estar segurando as lágrimas. Dou uma pancadinha com o ombro no ombro dele. – Isso é um pouco dramático, não acha, Leo? – retruco, tentando arrancar-lhe um sorriso. Funciona. Mas o sorriso logo desaparece. Leo esfrega a mão no rosto, fica quieto por um instante e diz: – Não. É um fato. Não sei o que responder. Como posso confortá-lo se me sinto exatamente do mesmo jeito? Ele olha para mim de novo e voltamos a nos encarar.


– Por que está me encarando? – pergunto, usando uma frase que sei que Leo vai entender. Foi a primeira coisa que disse a ele quando nos conhecemos. Por um instante, a expressão de Leo não se altera. Então, lentamente, um sorriso toma conta de seu semblante. – Porque gosto do seu rosto – retruca ele, sorrindo abertamente agora, mostrando de novo o espaço entre os dentes e também repetindo a frase que disse quando nos conhecemos. Ele é magrelo, desengonçado e tem os cabelos desgrenhados, mas é o garoto mais lindo que já vi. Não quero jamais deixar de olhar para ele. Não quero jamais ficar longe dele. Mas Leo está se mudando para o outro lado do país, e não há nada que possamos fazer em relação a isso. Nós nos conhecemos no primeiro lar adotivo para onde fomos mandados. Ele é meu melhor amigo no mundo todo, o garoto que passei a amar mais que tudo, o garoto que conseguiu me fazer acreditar que era seguro sonhar. Mas Leo está sendo adotado definitivamente. Estou muito feliz por ele enfim ter uma família, porque é muito raro isso acontecer com


adolescentes. Mas, ao mesmo tempo, tenho a sensação de que meu coração está se partindo. Leo me olha intensamente agora, como se pudesse ler a minha mente. E é claro que pode. Talvez eu seja um livro aberto, ou talvez o amor seja como uma lupa com a qual o dono do nosso coração enxerga o fundo da nossa alma. Ele continua me encarando em silêncio por vários segundos, e então percebo por seu semblante que ele tomou uma decisão. Antes que eu possa imaginar qual foi, Leo se inclina na minha direção e roça os lábios de forma delicada nos meus. Pequenas fagulhas parecem acender no ar ao nosso redor e estremeço levemente. Ele chega mais perto, segura meu rosto entre as mãos e olha bem dentro dos meus olhos, os lábios ainda a poucos centímetros dos meus. E sussurra: – Vou beijá-la agora, Evie, e quando isso acontecer vai significar que você é minha. Não me interessa a distância que haverá entre nós. Você. É. Minha. Vou esperar você. E quero que me espere também. Prometa que não vai deixar mais ninguém tocá-la. Prometa que vai se guardar para mim e apenas para mim.


O mundo todo parou e só existimos nós dois, sentados ali naquele telhado, em uma noite de novembro. – Sim – sussurro em resposta, a palavra reverberando na minha mente. Sim, sim, sim, um milhão de vezes sim. Ele faz uma pausa, os olhos ainda fixos nos meus, e sinto vontade de gritar “Me beije logo!”. Meu corpo está inebriado com a expectativa. De repente a boca dele está de novo na minha e ISSO é que é beijo. Ele começa com delicadeza, os lábios mordiscando os meus. Mas então algo dentro dele parece mudar e, do nada, Leo está passando a língua por toda a extensão dos meus lábios, pedindo para entrar. Um arrepio percorre minha espinha quando abro a boca para recebê-lo e deixo escapar um gemido involuntário. Ao me ouvir, ele geme também. Sua língua flerta com a minha – acariciando, duelando gentilmente – e sinto como se meu corpo fosse implodir de prazer apenas por sentir o sabor dele. Nós nos tocamos atrapalhadamente por algum tempo, e até nossa inexperiência é deliciosa nessa exploração mútua. Ao menos é o que acho, e espero que ele também. Estamos


aprendendo, decorando a forma e os sabores da boca um do outro. Logo já somos como dois parceiros de dança, nos movendo em perfeita sintonia, criando uma coreografia apaixonada de lábios e línguas. Eu me deito sobre o telhado, abraçando-o, enquanto continuamos a nos beijar. Nos beijamos por horas, dias, semanas, por uma vida inteira talvez. Nosso beijo é uma abençoada distração. É demais e não chega nem perto de ser o suficiente. É meu primeiro beijo e sei que também é o primeiro de Leo. E é perfeito. De repente, sinto algo frio e úmido atingir meu rosto e isso me desperta. Abro os olhos e ele também, e ambos vemos flocos de neve grandes e fofos caindo a nosso redor. Rimos, encantados. É como se os anjos houvessem preparado aquele show apenas para nós, para tornar o momento mais inesquecível das nossas vidas ainda mais mágico. Leo rola de cima de mim e me sinto congelar no mesmo instante. Sei que preciso entrar e que ele precisa voltar para casa. Essa constatação me atinge com força e sinto um nó na garganta. Lágrimas escorrem pelo meu rosto.


Ele me puxa para junto de si e nos agarramos um ao outro por um longo tempo, enquanto reunimos forças para nos despedirmos. Leo me afasta e a expressão atormentada em seu rosto é de cortar o coração. – Isto não é um adeus, Evie. Lembre-se da nossa promessa. Nunca se esqueça dela. Eu voltarei para você. Vou escrever mandando meu endereço novo assim que chegar a San Diego e assim vamos nos manter em contato. Quero poder carregar suas cartas comigo para relê-las sem parar. Também vou mandar meu número de telefone, só para garantir, mas quero que me escreva, está bem? Então, antes que nos demos conta, você terá 18 anos e poderei voltar para você. Vamos construir uma vida juntos. – Está certo – sussurro. – Escreva para mim assim que chegar lá, está bem? – Farei isso. Será a primeira coisa que farei. Ele me puxa uma última vez para um abraço e seca com beijos as lágrimas no meu rosto. Então se vira e segue em direção à treliça. Quando já está começando a descer, Leo se volta para olhar para mim e diz baixinho: – Para sempre, será apenas você, Evie.


Essa é a última coisa que ele me diz. Nunca mais vi Leo.


c a p í t u lo 2 Oito anos depois

Alguém está me seguindo. O homem já vem fazendo isso há uma semana e meia. E não tem a menor habilidade. Eu o percebi quase de imediato e venho observando-o enquanto ele me observa. Com certeza, não é um profissional. Mas não consigo encontrar uma única razão para alguém estar me seguindo pela cidade. Sobretudo alguém com a aparência desse cara. Ouvi dizer que uma das razões por que vários assassinos em série têm sucesso em atrair suas vítimas é o fato de serem homens de boa aparência, gentis, comuns. Mas ainda não consigo acreditar que o Adônis que vem me rastreando é alguém com quem eu precise me preocupar muito, mesmo sendo cautelosa. Talvez esteja sendo


ingênua, mas é apenas um pressentimento. O modo como cresci me treinou para reconhecer de imediato uma ameaça, e não é essa a sensação que tenho com esse homem. Além do mais, ele não parece ser do tipo que daria uma pancada na cabeça de uma mulher e a arrastaria para um beco escuro. Está mais para alguém que seria levado até lá por ela. Posicionei estrategicamente um estojo de pó compacto para observá-lo pelo espelho, espiei por uma fresta nas persianas da minha casa e pelo reflexo nas vitrines das lojas – fiz tudo isso com tanta facilidade que fiquei quase envergonhada pelos talentos risíveis dele como perseguidor. É claro que o cara não seria contratado por alguma organização ninja, nunca, em lugar algum. Mas permanece a dúvida. O que ele quer? Tenho que acreditar que é um caso de confusão de identidade. Talvez ele seja mesmo um investigador particular incompetente, trabalhando para alguém, e tenha colado na garota errada. Hoje ele não está me seguindo, o que é bom, já que estou indo a um velório e preferiria não ter essa distração. Willow vai ser enterrada hoje. A linda Willow, batizada assim – salgueiro, em inglês – em homenagem à


árvore, com seus galhos longos, feitos para ondular e se dobrar ao vento. Mas Willow não se dobrou quando o vento frio soprou. Ela quebrou. Se espatifou. Decidiu que não aguentava mais e enfiou a agulha de uma seringa no braço. Sinto a respiração presa na garganta quando me lembro de seu belo rosto, sempre marcado pela expressão triste e cautelosa. Crescemos juntas em um lar adotivo e a vida de nenhuma das duas começou como um conto de fadas. Eu a conheci na primeira casa para onde fui mandada, depois de um vizinho chamar a polícia por causa do barulho que vinha da festinha que minha mãe biológica estava dando. Quando os policiais apareceram, eu estava sentada no sofá, com meu pijama rosa dos Ursinhos Carinhosos, do lado de um cara que cheirava a dente podre e cerveja e estava com a mão dentro da minha roupa. O cara estava chapado demais para se afastar de mim rápido o suficiente, e havia vários saquinhos de metanfetamina em cima da mesa de centro. Minha mãe estava sentada no sofá à minha frente, observando tudo com uma expressão de desinteresse. Não sei se ela simplesmente não se importava ou se também estava


chapada demais para se importar. Acho que, no fim das contas, isso não tinha realmente importância. Fiquei sentada, imóvel, enquanto os policiais afastavam o homem de perto de mim. Àquela altura, eu já havia aprendido que não adiantava brigar. Desaparecer era a minha melhor opção, e se eu não conseguisse me enfiar dentro de um armário ou embaixo de uma cama, então dava um jeito de sumir dentro da minha própria cabeça. Eu tinha 10 anos. Acho que aquele primeiro lar adotivo era igual a uma gaveta de tranqueiras. Sabe, tipo aquela que você tem na cozinha, na qual guarda todos os cacarecos que não têm utilidade e que você não sabe mais onde colocar? Éramos todos como peças aleatórias jogadas ali, sem relação uns com os outros a não ser o fato de sermos todos tranqueiras. Alguns dias depois que eu cheguei, Willow apareceu, uma loirinha com jeito de fada e olhos sombrios. Ela não falava muito, mas naquela primeira noite subiu na minha cama, se acomodou entre mim e a parede e encolheu o corpo como uma bola. Durante o sono choramingou e implorou para que alguém parasse de machucá-la. Não


precisei de muita imaginação para deduzir o que acontecera com ela. Tomei conta dela o máximo que pude depois disso, mesmo Willow sendo apenas um ano mais nova. Nenhuma de nós era exatamente uma força a ser levada em consideração – duas garotas maltratadas, que já haviam aprendido que confiar nas pessoas era um negócio arriscado –, mas Willow parecia ainda mais frágil do que eu, e o menor dos maus-tratos já a deixava em frangalhos. Por isso eu assumia toda a responsabilidade e aceitava os castigos por coisas que tinham sido culpa dela. Deixava que ela dormisse toda noite comigo e contava histórias para tentar acalmá-la e afastar os fantasmas que a assombravam. Eu não tinha muita coisa neste mundo, mas era boa em contar histórias e sempre inventava uma nova para tentar dar sentido aos pesadelos dela. Para dizer a verdade, as histórias eram tanto para mim quanto para ela. Eu estava tentando entender, também. Ao longo dos anos, fiz o que pude para amar aquela garota, Deus sabe disso. Mas, por mais que eu quisesse, e por mais que tentasse, não consegui salvar Willow. Acho que ninguém teria conseguido, porque a triste


realidade era que ela não queria ser salva. Havia se convencido, desde bem cedo, de que não era digna de amor. Essa mentira se entranhou em sua alma e Willow passou a vivê-la e respirá-la. Isso foi a base para todas as escolhas que ela fez e para todos os corações que partiu, inclusive o meu. Um mês depois de Willow e eu termos nos mudado para aquele lar adotivo, um garoto de 11 anos apareceu por lá. Era alto, magrelo e bravo. Chamava-se Leo, grunhia sim e não como resposta para os responsáveis pelo lar adotivo e mal olhava nos olhos das pessoas. Quando ele chegou, estava com um braço engessado, com manchas roxas já começando a ficar amareladas no rosto e marcas no pescoço que pareciam ter sido causadas pela pressão de dedos. Ele dava a impressão de ter raiva do mundo e meu bom senso me dizia que devia ter uma boa razão para isso. Leo... Leo. Mas sei que não posso pensar nele. Não me permito fazer isso, porque é doloroso demais. De tudo o que já passei na vida, ele é a única coisa em que não consigo pensar por muito tempo. Leo tem um lugar no meu passado e é lá que o deixo... até o ponto que minha mente e meu coração conseguem.


Sou arrancada do meu devaneio quando o pastor sinaliza que eu vá até a frente, para o elogio fúnebre. Infelizmente, Willow nunca fez amizade com ninguém capaz de se levantar da sarjeta às nove da manhã de um domingo, por isso minha plateia é pequena e pelo menos metade dela é de pessoas de ressaca, se não ainda bêbadas. Posto-me atrás do púlpito, encaro o grupo e, nesse momento, eu o vejo, inclinado contra uma árvore, vários metros afastado do resto dos presentes. Vê-lo ali me surpreende. Eu tinha certeza de que não estava sendo seguida. Mas como e por que o homem estaria ali se não houvesse me seguido? Não tenho nenhuma dúvida de que nunca o vi com Willow. Teria me lembrado de um cara como ele. Encaro meu perseguidor misterioso por um instante e ele mantém o contato visual, com uma expressão indecifrável no rosto. Essa é a primeira vez que nossos olhares se encontram. Balanço a cabeça levemente, volto a me concentrar e começo a falar. – Era uma vez uma garotinha muito linda e muito especial, que foi mandada por anjos para uma terra distante, para ter uma vida encantada, cheia de amor e felicidade. Eles a chamavam de Princesa de Vidro, porque sua risada lembrava o tilintar dos sinos de vidro


pendurados no portão do paraíso, que badalavam cada vez que uma nova alma era recepcionada. Mas o nome era muito apropriado também porque a garotinha era muito sensível, amava profundamente e tinha um coração muito fácil de ser partido. Faço uma pausa rápida e continuo: – Durante os preparativos para a viagem dela a essa terra distante, um dos anjos mais novos cometeu um erro, houve uma confusão e a Princesa de Vidro acabou sendo mandada a um lugar aonde não deveria ir, um lugar feio, escuro, dominado por gárgulas e criaturas do mal. Mas quando uma alma é colocada dentro de um corpo humano, a situação é permanente e não pode ser modificada. Apesar de os anjos terem chorado de angústia pelo destino que a Princesa de Vidro teria que suportar, não havia nada que pudessem fazer a não ser observá-la e tentar encaminhá-la na direção certa, longe da terra das gárgulas e das criaturas do mal. Infelizmente, logo depois que a Princesa de Vidro chegou a essa terra, a crueldade das bestas ao redor provocou uma enorme rachadura em seu coração sensível. E embora muitas outras criaturas menos malvados tenham tentado amar e cuidar da princesa, porque ela era linda e


muito fácil de amar, o coração dela continuou a rachar até se esfacelar por completo, ficando partido para sempre. Fico em silêncio por um momento e então prossigo: – A princesa fechou os olhos pela última vez, pensando em todos os monstros que haviam sido tão cruéis com ela e feito seu coração se despedaçar. Mas criaturas do mal, não importa quão transtornadas sejam, nunca têm a última palavra. Os anjos, sempre por perto, desceram do paraíso e carregaram a Princesa de Vidro de volta para lá, onde curaram seu coração partido de uma vez por todas. A princesa abriu os olhos, deu seu lindo sorriso e sua linda risada, que ainda soava como o tilintar dos sinos de vidro, como sempre. A Princesa de Vidro enfim estava em casa. Volto para o meu lugar, passando no meio no grupo reunido, alguns rostos distraídos, outros ligeiramente confusos. Tenho certeza de que estão se perguntando por que acabo de narrar um conto de fadas infantil no velório de uma viciada em drogas. Mas isso é entre mim e Willow. Sei que, em algum lugar, ela ouviu a história e está sorrindo. Olho de relance para o homem apoiado na árvore e ele parece paralisado, os olhos ainda fixos nos


meus. Franzo a testa de leve. Se eu conhecia bem Willow, a presença daquele sujeito ali não significa boa coisa. Será que ela devia dinheiro a alguém? Ele vem me seguindo para descobrir se posso pagar a dívida dela? Franzo a testa de novo. Com certeza, não. Acho que depois de trinta segundos fica perfeitamente claro que meus investimentos financeiros são... hã... inexistentes. – Não entendi muito bem o que você disse, querida, mas foi bonito – comenta Sherry, colega de apartamento de Willow. Com “colega de apartamento”, quero dizer que era na casa dela que Willow passava a noite quando não estava por aí com algum namorado. Sherry é um pouco dura e aparenta uns dez anos a mais do que sua idade verdadeira. Seus cabelos são pintados de louro, mas a raiz de 2 centímetros é preta, entremeada de fios grisalhos. Ela está usando um decote generoso demais para um velório... aliás, é generoso demais até para uma boate com mulheres dançando dentro de gaiolas. A pele é curtida e castigada pelo sol e Sherry tem uma grossa camada de maquiagem aplicada no rosto. Os sapatos plataforma estilo stripper arrematam o visual. Mas, apesar da série de gafes em


matéria de moda, ela tem um bom coração e tentou ao máximo ser amiga de Willow. No entanto, acabou aprendendo a mesma lição que eu: se alguém está determinado a se autodestruir, não há muito o que se possa fazer a respeito. Quando volto a olhar, o homem misterioso sumiu.


c a p í t u lo 3

Fui de ônibus para o cemitério, mas Sherry me dá uma carona de volta para minha casa. Quando saio apressada do carro, acenando, depois de lhe agradecer, ela grita: – Vê se não some, querida! Entro correndo no apartamento e troco o vestido preto sem mangas e os sapatos de salto do velório pelo meu uniforme de trabalho. Sou camareira no Hilton durante o dia e trabalho em meio expediente como garçonete para um bufê, em geral nos fins de semana à noite, ou quando me chamam. Não é glamouroso, mas faço o que preciso para pagar o aluguel. Eu me sustento e tenho orgulho disso. Sabia que no dia em que


completasse 18 anos, teria que ir embora do lar adotivo da vez, e isso ao mesmo tempo me empolgava e me deixava em pânico. Finalmente deixei de fazer parte do sistema, e estava livre para viver do jeito que queria e decidir meu destino, mas também estava mais solitária do que nunca. Sem família e sem rede de segurança para me amparar se caísse, eu não tinha mais a garantia nem de um teto nem de três refeições por dia. Precisei acalmar a mim mesma durante os ataques de pânico que tive. Mas quatro anos se passaram e estou indo bem. Quero dizer, depende da sua definição de “bem”... acho que é muito relativo. Não é que eu não queira mais. Sei que tenho a tendência de “não correr riscos” em relação à maioria das coisas, incluindo ambição. Mas também sei que já passei por dificuldades suficientes para uma vida inteira. Não correr riscos pode ser tedioso, mas também é um desejo para quem nunca viveu assim antes. Por enquanto, estou satisfeita. Depois de descer do ônibus no centro da cidade, caminho rápido até a entrada de serviço do hotel enorme e bato o ponto bem na hora. Abasteço o carrinho de limpeza e sigo até o último andar do prédio, onde fica a


cobertura. Bato delicadamente na porta e, como não há resposta, abro-a com meu cartão. Entro com o carrinho e dou uma olhada no quarto. Pareceria vago se não estivesse um tanto bagunçado, então começo a fazer a cama. Ligo meu iPod e canto junto com Rihanna. Sorrio e rebolo enquanto coloco um lençol limpo na cama king size. Essa é uma das coisas que adoro nesse trabalho. Posso ficar perdida em meus próprios pensamentos e a limpeza é apenas uma atividade monótona de fundo. Jogo o edredom limpo sobre a cama e já estou começando a esticá-lo quando percebo um movimento pelo canto dos olhos. Eu me viro, sobressaltada, e deixo escapar um som abafado de surpresa. Há um homem parado atrás de mim, com um sorriso afetado no rosto, apoiado contra o batente da porta com um ar despreocupado. Tiro os fones de ouvido e pisco rapidamente, envergonhada. – Desculpe – digo. – Achei que não havia ninguém no quarto. Se quiser que eu volte mais tarde, não há problema nenhum. Passo as mãos pela saia do uniforme, nervosa. O olhar dele segue minhas mãos e desce até minhas pernas antes de voltar lentamente a encontrar meus olhos. Meu


coração está acelerado e sinto uma onda de ansiedade me dominar. Começo a rodar o carrinho em direção à porta. Ele se adianta com rapidez, me pegando de surpresa, e segura a barra do carrinho. – Não precisa, sério – diz ele, a voz suave. – Já estávamos de saída. Eu estava só curtindo o show. O homem sorri e seu olhar percorre meu corpo preguiçosamente de novo, dos pés aos seios. Eu mudo de posição, inquieta, me sentindo desconfortável. Nesse momento, uma mulher entra no quarto. É linda, os cabelos louros bem penteados, a maquiagem impecável, e fico constrangida no mesmo instante. Aceno com a cabeça na direção dela e começo a caminhar em direção à porta. – Eu volto mais tarde – murmuro. Mas os dois também estão seguindo para a porta e a mulher diz: – Estamos realmente saindo. Fique e termine o trabalho. – Ela me lança um olhar de desdém, dá de ombros e acrescenta: – E certifique-se de esvaziar a lata de lixo. A última garota que limpou o quarto esqueceu.


O homem sorri para ela e dá um tapinha em seu traseiro quando a mulher passa pela porta. Ela deixa escapar uma risadinha. Fico imóvel por um minuto depois de eles fecharem a porta ao sair, tentando recuperar a atitude descontraída de antes. Mas meu ânimo mudou subitamente e me sinto melancólica de um modo em que não quero pensar muito. Termino meu turno e, quando estou batendo o ponto para sair, minha amiga Nicole aparece atrás de mim e também bate o dela. – Esnobes cretinos do décimo segundo – resmunga. – Juro que parece que alguns hóspedes foram criados em um estábulo. Levo duas horas para limpar três quartos naquele andar. Nojento. Nem queira saber. Agora estou atrasada para pegar Kaylee. Você vai comigo até o ponto? Meu carro está na oficina. – Ela pega o casaco enquanto fala. Sorrio para Nicole e me encolho em meu próprio casaco enquanto caminhamos para a porta. – Poderíamos criar uma lista de itens “para ajudar a equipe de camareiras” para entregarmos quando os


hóspedes fizessem o check-in. O que acha? – sugiro em tom sarcástico. – Sim! Número um, por favor, pelo amor de Deus, enrole suas camisinhas usadas em papel higiênico e jogue-as no lixo. Está além das atribuições do meu cargo ter que esfregar suas... coisas secas no tapete porque você jogou a camisinha embaixo da cama. Simulo um som de vômito, mas estou rindo enquanto andamos apressadas para o ponto de ônibus. – Muito bem – continuo. – Número dois, por favor, não corte as unhas dos pés na cama. Prefiro não ser atacada por uma chuva de pedaços de unha quando sacudo seus lençóis e depois ter que ficar de quatro no chão catando todos eles. – Ah, meu Deus! Sério? Que porcos! Mas ela também está rindo, enquanto balança os cabelos louros. O ônibus dela está chegando ao ponto ao mesmo tempo que nós e só consigo lhe dar um abraço rápido. – Vejo você na quarta à noite – digo, depois atravesso a rua para o ponto onde vou pegar o meu ônibus, que vai na direção oposta.


Nicole sempre me faz sorrir com seu jeito descontraído e seu senso de humor. Ela é casada com um cara fantástico chamado Mike e eles têm uma filha de 4 anos, Kaylee. Ele é eletricista e ganha bem, mas Nicole trabalha como camareira uns dois dias na semana para conseguir uma renda extra e, como ela mesma diz, aumentar seu orçamento para sapatos. Nicole é louca por sapatos e, quanto mais altos, melhor. Não sei como ela consegue andar em cima daquelas coisas. Nós começamos a nos dar bem assim que nos conhecemos no trabalho, há três anos. Nicole e Mike me chamam para jantar pelo menos uma vez por semana. Adoro passar algum tempo com eles e com Kaylee e absorver a alegria e o conforto de uma família amorosa fazendo algo tão simples quanto comer juntos. O que os dois não podem entender completamente é que, para mim, jantar com uma família unida não é apenas especial, é tudo. Tudo o que eu nunca tive. Nicole e Mike sabem que cresci em lares adotivos, mas não sabem muito mais do que isso. São pessoas boas, trabalhadoras, que moram em uma casa de dois quartos muito bonitinha, em um bairro decente, e não quero levar histórias de vício em drogas, prostituição e


abuso sexual para o mundo deles. Não que os dois sejam ingênuos e não imaginem que essas coisas acontecem, mas em muitos sentidos Nicole e Mike são minha bolha, meu porto seguro longe daquele mundo, e quero manter as coisas assim. Pego na bolsa o romance que estou lendo e me concentro nele enquanto o ônibus começa sua jornada pela cidade até minha casa. Estou tão concentrada na leitura que quase passo do meu ponto e tenho que descer correndo. Caminho os cinco quarteirões até meu prédio, passo pela portaria e balanço a cabeça ao ver que a tranca está quebrada de novo. Está certo, a segurança não é exatamente perfeita ali, mas o lugar é limpo e meu apartamento tem uma varanda nos fundos, onde o sol bate e onde cultivo algumas árvores frutíferas em vasos grandes e muitas flores. Às vezes me sento ali fora à noite com um bom livro e me sinto satisfeita. E isso é o bastante. Estou um tanto desapontada por meu perseguidor obviamente estar de folga nesta noite. Não deixo de notar que esse não é um pensamento dos mais saudáveis. Ainda assim, sorrio.


Entro no boxe para tomar banho e fico parada embaixo do chuveiro por mais tempo do que deveria. Água quente não é de graça... mas me permito esse pequeno luxo hoje, enquanto deixo cair as lágrimas que sabia que viriam por causa de Willow. – Descanse em paz, princesa – sussurro enquanto a ducha quente cai sobre o meu corpo e se mistura ao choro. Depois de algum tempo, saio do banho e me seco. Visto uma calça de malha e um moletom folgado e vou à cozinha para preparar alguma coisa para o jantar. Aqueço um pouco da sopa de legumes que fiz uns dois dias antes e coloco o pão na torradeira. Ainda sobra sopa suficiente para encher um recipiente pequeno. Faço isso e vou até o apartamento da Sra. Jenner. Bato de leve na porta. Quando ela atende, sorrio e pergunto: – Já jantou? Se ainda não tiver comido nada, trouxe um pouco de sopa de legumes que eu fiz. Sei que a renda da Sra. Jenner é muito apertada desde que o marido morreu, por isso, sempre que tenho alguma coisa extra, levo para ela. A Sra. Jenner sorri, animada, e responde:


– Ah, querida, você é sempre tão gentil. Muito obrigada. Retribuo o sorriso. – De nada. Boa noite, Sra. Jenner. De volta à minha cozinha, coloco meu próprio jantar em uma bandeja e levo-o para o único outro cômodo, que é bem pequeno. Sento no chão e encosto no sofá de dois lugares enquanto como. Não há espaço para muitos móveis em uma quitinete, mas tudo bem, porque não recebo ninguém mesmo. Coloco o DVD de Um sonho de liberdade e começo a assistir. Não gasto o pouco que me sobra em TV a cabo, por isso tenho que me contentar com os DVDs que compro em bazares. Como normalmente prefiro ler, não me importo. Depois de lavar a louça, acabo pegando no sono diante da TV e, quando enfim me arrasto para a cama, já passa da meia-noite.

O alarme toca às sete da manhã. Saio da cama e visto minha roupa de corrida. O dia está frio, por isso coloco os protetores de ouvido e o casaco de flanela. Passo uns


dois minutos me alongando do lado de fora do prédio e, quando começo a descer a rua, a respiração sai em nuvens brancas de vapor à minha frente. Aperto na mão a chave da porta que está em meu bolso, como aprendi com o instrutor de autodefesa em um curso que fiz na escola técnica. Isso me acalma. Continuo a segurar a chave até chegar à trilha de corrida já meio cheia no parque, então fecho o zíper do bolso em que está a chave, coloco os fones de ouvido e pressiono o play no meu iPod. Corro os 5 quilômetros habituais e volto para casa me sentindo forte e cheia de energia. Tomo um banho rápido de chuveiro e seco meus cabelos longos e escuros. Depois de prendê-los em um rabo de cavalo, visto uma calça jeans velha e um suéter cinza largo. É meu dia de folga e só vou passear sem rumo, dar um pulo na biblioteca e passar o resto do dia na minha varanda, embaixo de uma manta, com um bom livro e uma xícara de chá. Me pergunto se com isso eu me qualificaria para receber a aposentadoria mais cedo. Enquanto outras garotas de 22 anos devem estar descansando para ir a alguma boate tarde da noite, eu aumento minha coleção de chá. Pois é...


Meia hora mais tarde, depois de fazer a cama e dar uma rápida arrumada no apartamento, estou começando a descer a rua em direção à biblioteca do bairro quando vejo um BMW prata-escuro estacionado a cerca de um quarteirão do meu prédio. Não entendo nada de carros, mas reparo no nome do modelo que aparece na parte de trás. M6. Dou um sorrisinho. Pelo visto ele está de serviço hoje. Chego à biblioteca e passo uma hora lá dentro, escolhendo uma nova leva de livros para a semana seguinte. Separo quatro romances, um livro de culinária com receitas de baixo custo e outro sobre a Segunda Guerra Mundial. Posso não ter dinheiro neste momento para fazer uma faculdade, mas o conhecimento está ao alcance de um cartão de membro da biblioteca, por isso escolho um assunto novo para ler a cada semana. No caminho de volta para casa, noto o homem moreno, alto e bonito mais ou menos um quarteirão atrás de mim, caminhando lentamente e fingindo falar ao celular. Tomo uma decisão. Sigo direto pelo meu prédio, acelero um pouco o passo e, quando viro a esquina, começo a correr e entro em um beco no meio do


quarteirão. Continuo em disparada, com a esperança de conseguir dar a volta e sair atrás do sujeito. Estou sem fôlego quando dobro de novo a esquina da minha própria rua. Caminho apressada até o fim do quarteirão e espio. Como eu imaginava, ele está parado no meio da rua, claramente confuso e sem saber onde me enfiei. Caminho pé ante pé até ficar atrás dele e digo bem alto: – É falta de educação perseguir estranhos. Ele se vira e dá um pulinho para trás enquanto deixa o ar escapar com força pelos lábios entreabertos. Seus olhos estão arregalados. – Meu Deus! Você quase me matou de susto! – Eu assustei você? – digo, pasma, encarando-o irritada. – É você quem está me seguindo sorrateiramente. – Inclino a cabeça para o lado. – A propósito, cão farejador, quando estiver seguindo alguém, é bom tentar ser um pouco mais discreto. – Aceno na direção dele. – Ficar encarando a vítima no meio da rua tende a denunciá-lo. – Estreito os olhos. O homem permanece em silêncio, fitando-me intensamente, os lábios entreabertos. Que lábios ele tem! Lindos... Não se distraia, Evie. Ele ainda pode ser um


assassino em série! Ou, no mínimo, um cara muito esquisito. Coloco as mãos nos quadris. – Mas não se desespere. Tenho certeza que, com um pouco de esforço, você pode melhorar. Deve haver algum tutorial ou alguma outra coisa que possa ajudá-lo. Quem sabe um livro sobre o assunto? Como perseguir alguém sorrateiramente: volume para iniciantes, talvez. – Ergo uma sobrancelha. Ele está imóvel e continua a me encarar em silêncio por vários segundos, então cai na gargalhada. – Ora, ora, você é mesmo uma figura, não é? Mas há admiração na voz dele. E a risada... Uau, é uma risada muito interessante. Eu o examino por um instante. Meu Deus, eu já tinha achado que ele era bonito antes, mas de perto o homem é devastador! O maxilar quadrado, o nariz reto, os olhos castanhos profundos. Se há alguma imperfeição nele, talvez seja o fato de ser um pouco perfeito demais, se é que isso é possível. É alto, tem os ombros largos e é bem masculino, com a sombra da barba por fazer que parece ser proposital, e não por descuido. E quando ele ri, juro que uma parte da minha alma – aquela que guarda


segredos até de mim mesma – tenta ir na direção dele, como se a felicidade desse homem fosse um ímã invisível para o meu coração. Que loucura. Nem sequer conheço esse cara. E tenho que me lembrar: perseguidor, potencialmente esquisito e assustador. – Muito bem – digo. – A brincadeira acabou. Por que está me seguindo? Estreito mais uma vez os olhos quando o encaro. Para ser sincera, não estou nervosa. Não há nenhuma vibração de perigo vindo desse homem. E já deparei com praticamente todas as formas de sordidez humana. Posso até dizer que sou uma especialista nesse assunto. Então, ele faz algo que me tira do prumo. Passa a mão pelos cabelos grossos, castanho-caramelo, abaixa a cabeça, mas levanta os olhos para mim e ergue as sobrancelhas de um jeito tímido e inseguro, só que muito, muito sexy. Eu quase desmaio. Aquele olhar, naquele momento, é fatal. Aposto que conquista muitas garotas de imediato só com aquele olhar. Endireito o corpo, chocada com meus pensamentos. Não sou do tipo que desmaie por causa de homem. E menos ainda do tipo que seja conquistada com facilidade. Volto a mim quando ele fala:


– Estou sendo assim tão óbvio, é? Então ele tem a decência de parecer envergonhado. Dá um passo na minha direção. Eu recuo um passo. Ele para. – Não vou machucar você – diz, e parece que o fato de eu desconfiar dele realmente o magoa. Jura? Preciso lembrá-lo mais uma vez de que é um perseguidor sorrateiro? E, para ser sincera, não estou com medo dele, mas também não o conheço, e manter uma distância saudável de estranhos é sempre uma boa ideia. – Sim, você está sendo assim tão óbvio. – Inclino a cabeça e minha voz agora é mais gentil: – Chega de joguinhos. Quero saber por que está me seguindo. Ele parece considerar se deve me responder ou não. Então me olha nos olhos e diz em voz baixa: – Conheci Leo. Ele me pediu para ver como você estava.


c a p í t u lo 4

Meu mundo parece parar de girar e fico paralisada e boquiaberta. – O quê? – Minha voz sai como um grasnado. Com um nome ele me deixa trêmula, me tira do prumo. Mas me controlo. Esse estranho não precisa saber o efeito que causou em mim. Endireito o corpo e pergunto em uma voz mais firme: – Como assim, conheceu Leo? Não demonstro o medo que sinto do que pode significar o uso do verbo no passado. É claro que me perguntei milhares de vezes se alguma coisa grave teria acontecido com Leo, tentando me convencer de que alguma coisa teria que ter


acontecido para ele não ter entrado em contato comigo durante todos esses anos. E principalmente por ele ter quebrado a promessa de me escrever assim que chegasse a San Diego. Minha mente criou um milhão de cenários naqueles primeiros meses para justificar por que o meu Leo, tão querido e lindo, havia desaparecido no mundo... um acidente de carro quando ia do aeroporto para o novo lar... um ladrão pego de surpresa na casa quando eles chegaram... Assim que fiz 16 anos, fui até a biblioteca e pesquisei os jornais da Califórnia, da semana em que Leo se mudou, procurando alguma matéria sobre a morte prematura de uma mãe, um pai e um filho adolescente. A cada busca infrutífera sentia ao mesmo tempo alívio e frustração, e meu coração se partia um pouco mais. Cheguei a criar uma conta falsa no Facebook para procurá-lo, mas não encontrei nada. Eu não tinha uma conta no meu nome na rede social. Havia pessoas de mais do meu passado que poderiam tentar entrar em contato comigo, e disso eu com certeza não precisava. O problema era que eu tinha poucos dados sobre a família que adotara Leo. Sabia apenas que o pai adotivo dele trabalhava em um hospital. Não sabia se era médico,


se fazia parte da administração do hospital ou de outro departamento. Essa informação, a cidade para onde estavam se mudando e o nome e a idade de Leo eram tudo o que eu tinha. É claro que, com minhas fontes de consulta limitadas – apenas o computador da biblioteca e matérias de jornal antigas –, não era de admirar que eu não houvesse ido muito longe. Como não tive sucesso nas minhas tentativas de encontrar alguma informação sobre Leo, jurei para mim mesma que pararia de ficar pensando nisso o tempo todo. Era doloroso demais, quase insuportável. Assim, no meu aniversário de 18 anos, o dia em que ele prometera aparecer para me buscar, fechei os olhos, as lágrimas escorrendo pelo rosto, e imaginei Leo sorrindo para mim de cima de um telhado, sob um céu de inverno, e foi ali que o deixei na mente. Levanto os olhos para o homem que me avalia com a testa levemente franzida. Ele não tenta se aproximar nem me tocar de forma alguma. Eu me viro, ando até os degraus de uma varanda que dá para a rua, alguns metros atrás, me sento e respiro fundo. Minhas pernas estão bambas. Repito a pergunta:


– Como assim, conheceu Leo? O homem caminha devagar na minha direção e gesticula para a escada onde estou sentada, pedindo permissão silenciosamente para se sentar também. Assinto. Ele se acomoda na outra ponta da escada, um degrau abaixo do meu, se vira um pouco na minha direção e se inclina para a frente, apoiando os cotovelos sobre as coxas musculosas. Sinto o perfume da colônia dele, um delicioso cheiro amadeirado de limpeza. O homem suspira e diz: – Leo morreu em um acidente de carro no ano passado. Éramos amigos, fazíamos parte do mesmo time da escola. Por alguns dias chegamos a pensar que ele sobreviveria, mas isso não aconteceu. Nós fomos visitálo e nesse dia ele me puxou para o lado e me falou um pouco sobre você. E me fez prometer que a procuraria e me certificaria de que você estava bem e feliz. Leo sabia que eu estava me mudando para cá para trabalhar na empresa do meu pai e que seria fácil ver pessoalmente como você estava. Ele está com a testa franzida e fala devagar, como se para se certificar de que está me dando as informações


da maneira correta. E também está escondendo alguma coisa. Não sei muito bem como sei disso, apenas sei. Me sinto entorpecida e confusa e fico em silêncio por um longo tempo. – Sei. O que exatamente Leo lhe contou a meu respeito? – pergunto, por fim, abaixando os olhos para o homem. Ele está me observando com atenção. – Só que conheceu você em um lar adotivo e que você era especial para ele. Disse que vocês perderam contato, mas que ele sempre se perguntou que rumo a sua vida havia tomado. Só isso. Não digo nada e ele continua: – Me mudei para cá em junho, mas levei alguns meses para me instalar. Então finalmente tive tempo para ser o perseguidor sorrateiro que prometi ser. Ele sorri para mim, me olhando através dos longos cílios cor de caramelo. Mas agora o sorriso é triste, inseguro. Ofereço um pequeno sorriso em retribuição. Não vou demonstrar quanto as palavras dele sobre Leo me magoam. Perdemos contato? E durante todos aqueles anos ele estava vivo, bem, morando em San Diego, e


jamais me escreveu nem uma linha, não telefonou nem tentou entrar em contato comigo de qualquer outra maneira? Por quê? Nem sei como digerir o fato de ter acabado de saber que ele morreu. Ele está morto. Preciso ir para casa e me encolher num canto por algumas horas. Preciso digerir isso. Levanto, ainda trêmula, e o homem se coloca de pé em um pulo ao meu lado. Seco as mãos suadas na minha calça jeans. – Lamento saber disso – digo por fim. – Parece que você não sabe muito sobre a nossa história, mas Leo foi uma pessoa que quebrou uma promessa que havia me feito. Isso aconteceu há muito tempo e não penso mais nele. Não havia razão para ele pedir que você checasse como eu estava. Se Leo quisesse saber que rumo a minha vida havia tomado, ele mesmo deveria ter entrado em contato comigo antes de... Bem, antes. Faço uma pausa breve e prossigo: – Ainda assim, foi gentil da sua parte manter a palavra que deu ao seu amigo. E agora seu trabalho está feito. Aqui estou eu, muito bem. Missão cumprida. Último desejo realizado. Forço um sorriso, mas tenho certeza de que mais parece uma careta. O homem não sorri de volta. Parece


aflito. – A propósito, posso saber o nome do meu perseguidor particular? Ele sorri, mas o sorriso não chega aos olhos. – Jake Madsen – responde, ainda me olhando fixamente. – Bem, Jake Madsen, ou perseguidor sorrateiro, obviamente você já sabe que meu nome é Evelyn Cruise. E também já sabe que todos me chamam de Evie. Estendo a mão para apertar a dele e, quando ele encosta nela, seu toque parece produzir minúsculas faíscas. De repente só consigo sentir minha mão. Todas as outras partes do meu corpo que não estão sendo tocadas por Jake Madsen pararam de existir. É muito estranho e me pergunto se ele está sentindo o mesmo. A julgar pelo modo como encara intensamente as nossas mãos, com um pequeno sorriso curvando um dos cantos dos seus lábios, parece que sim. Bem, então acho que existe alguma química entre nós. Grande surpresa... Quem não teria alguma química com um homem desse? Ele provavelmente está rindo por dentro e pensando Mais uma? Sério?. Tenho certeza de que todos os dias centenas de mulheres se derretem aos pés dele na rua.


Deve ser muito bom para ele. E o fato de que estou pensando nisso depois de ter acabado de escutar que o amor da minha vida não está mais neste mundo está me deixando muito, muito confusa, além de bastante assustada, para não falar na mágoa que estou sentindo. Preciso ir embora. Sou a primeira a me afastar e, quando faço isso, Jake franze a testa e levanta os olhos para encontrar os meus. – Tchau, Jake – digo. Então me viro e começo a caminhar em direção ao meu prédio. – Evie – chama ele. Eu me viro. – Vai sentir falta de mim, não vai? – Jake está sorrindo. – Sabe, Jake... Acho que vou. Dou um sorrisinho também, volto a me virar e acelero o passo para casa. Assim que fecho a porta do meu apartamento, arrio no chão, dobro o corpo em posição fetal e choro pelo meu amor, pelo meu Leo. Minhas lágrimas são de tristeza, de perda, de confusão, de mágoa. São lágrimas pelo garoto que perdi e que não me quis. Senti raiva e


decepção por todos aqueles anos, mas descubro que ainda sou capaz de sofrer por saber que a linda alma de Leo não caminha mais por esta terra, e a dor de perceber como isso é definitivo é quase demais para suportar. Finalmente adormeço ali mesmo onde estou, mas já sei por experiências passadas que não é necessário estar acordada para chorar.


c a p í t u lo 5 EVIE, 10 ANOS LEO, 11 ANOS

jantar neste lugar é sempre um caos. Meu trabalho é encher as jarras de água e colocar copos para todos. Estou parada diante da pia, enchendo a segunda das três jarras altas, enquanto todas as outras crianças se agitam ao meu redor, barulhentas, fazendo suas tarefas em relação ao jantar. Elas conversam, riem e algumas mais velhas brigam entre si. Eu ocupo meu lugar de costume à mesa, mas esta noite é diferente porque o garoto novo, Leo, está sentado ao meu lado, emburrado, na cadeira em que Alex, um menino orelhudo de 12 anos, costumava ficar. Alex foi embora há três dias, para outro lar adotivo. Este lugar


em que estamos é apenas um local provisório para crianças que precisam de abrigo imediato. No fim, todos vão acabar sendo transferidos. Esta é a primeira noite de Leo aqui. Ele ficou encarregado de colocar os guardanapos no lugar e noto que os dispôs à direita, quando deveriam ficar à esquerda. Só sei disso porque gosto de ler e aprendo coisas aleatórias assim nos livros. Enquanto estamos sentados esperando que a comida seja servida pelos donos do lar adotivo e pelas duas filhas adolescentes deles, Allie, uma menina de 13 anos com espinhas no rosto e pneuzinhos escapando pela cintura da calça, tão apertada que me parece dolorosa, pega uma ervilha da tigela que acabou de ser posta na mesa e joga em mim. – Ei, sua vagabunda – sussurra ela. – Ouvi dizer que a vadia da sua mãe não apareceu no tribunal hoje. Devia estar ocupada com algum cara em um beco, pra ganhar uns trocados. Filho de peixe, peixinho é, você sabe. Abro bem os olhos e sinto as lágrimas arderem. Não vou chorar. Não vou chorar. Abaixo os olhos para o prato.


É claro que não há segredos nesta casa. Quem quiser pode ouvir sem a menor dificuldade quando a assistente social conversa com os responsáveis na sala de estar, que fica na parte da frente da construção. E logo os rumores se espalham. Estamos todos dolorosamente conscientes de todos os pesadelos que cada um de nós enfrentou para acabarmos ali, naquela miscelânea de desespero. Eu também sei os segredos de Allie. Sei que a mãe dela morreu e que o pai basicamente enlouqueceu e não consegue trabalhar, nem tomar conta de Allie e da irmã dela. Mas não digo nem uma palavra. Estou segurando a mão de Willow por debaixo da mesa – ela está sentada bem à minha frente e aperta a minha mão com carinho, os olhos bem abertos encarando o prato. – Só estou sendo SINCERA, Evie – diz Allie, rindo, um som feio que parece um ronco. – É melhor você encarar a verdade. Por que será que toda pessoa propositalmente cruel parece se considerar o exemplo perfeito de uma franqueza necessária? Como se o alvo de seus comentários devesse agradecer a elas por destroçarem seu coração com aquele toque especial de honestidade.


Não respondo e Allie logo encontra algo mais interessante com que se ocupar do que eu e meu silêncio. Depois de um instante, levanto os olhos e o menino chamado Leo está me fitando fixamente. Eu sustento seu olhar, e ele não o desvia de mim. – Por que está me encarando? – pergunto, irritada, sentindo o rosto quente, e morta de vergonha pelo que ele acabou de ouvir. O garoto continua a me encarar por um instante, então dá de ombros. – Porque gosto do seu rosto – diz ele, mas agora os cantos de seus lábios estão levemente erguidos, em um meio sorriso. Sei que Leo está implicando comigo, mas não é maldoso, e gosto do efeito de suas palavras em mim. Desvio o olhar, mas agora também estou disfarçando um sorriso.


c a p í t u lo 6

Acordo na manhã seguinte com a sensação de que um caminhão passou por cima de mim. Ainda sinto um nó na garganta quando lembro que Leo morreu em um acidente de carro. Fecho os olhos e, mais uma vez, o imagino sorrindo para mim em cima do telhado, em uma noite de inverno. Pela segunda vez na vida, deixo-o lá, na minha mente. Entro embaixo do chuveiro quente e fico ali por uma eternidade, sem me importar nem um pouco com a conta de luz. Hoje vou dedicar o dia a coisas reconfortantes. Vou ficar largada pela casa, tomar


sorvete, ler, então vou jantar na casa de Nicole e Mike. É só disso que preciso. Levo um bom tempo secando os cabelos, até que eles caiam pelas minhas costas em ondas negras, então visto uma calça jeans escura bem justa e um suéter transpassado branco que sempre faz com que eu me sinta bonita. Percebo que não tenho sorvete em casa e decido dar um pulo no mercado para comprar pelo menos dois potes. Correrei uns 2 quilômetros extras amanhã. Assim que coloco os pés para fora do prédio, vejo Jake encostado em um carro, os braços cruzados, sorrindo abertamente para mim. Ele está usando uma calça jeans de aspecto surrado e uma camisa cinza de manga comprida com uma camiseta preta por baixo. Essa é a primeira vez que o vejo usando jeans; mesmo durante a semana em que me seguiu pela cidade, estava de terno. Não deixo de perceber que ele fica muito bem de jeans. Paro, cruzo os braços e inclino a cabeça para a direita. – Está precisando de ajuda para encontrar seu cachorrinho perdido, imagino.


Ele semicerra os olhos em uma expressão divertida. – Na verdade, eu pensei em lhe oferecer uma bala. Meu furgão está bem ali... Agora ele está sorrindo. Será que estou sendo exagerada ou ele ficou ainda mais lindo da noite para o dia? Não consigo evitar e sorrio de volta, balançando a cabeça. Começo a caminhar e ele acerta o passo com o meu. Sinto novamente o perfume gostoso, amadeirado. Nossa, ele é muito cheiroso. Abro um pouco a boca, porque quero sorver aquele odor por todos os sentidos. Ah, meu Deus, estou mesmo fazendo isso? Sinto o rosto quente. Por favor, não permita que ele tenha visto isso! Não sei o que está acontecendo comigo. Por que não dá logo uma lambida nele, Evie?, resmungo para mim mesma, silenciosamente. Viro a cabeça e levanto os olhos para o perfil perfeito dele. Jake deve ter quase 1,90 de altura. Eu tenho 1,65. Mas ele está olhando para a frente. Deixo escapar o ar, aliviada. Resolvo quebrar o silêncio:


– Sabe, tenho certeza de que há um monte de garotas por aí que adorariam ter a oportunidade de serem perseguidas por você. Não me parece justo que você concentre toda a sua obsessão em mim. Ele sorri. – Mas decidi que gosto de me concentrar em você, Evie. Então ele para de sorrir. Olha de relance para mim, parecendo quase nervoso. Paro de caminhar e cruzo os braços. Ele para também e o flagro dando uma rápida olhada para os meus seios, agora pressionados pelos meus braços. Ah, espertinho. Mas gosto do fato de ele ter olhado, não consigo evitar. Respiro fundo e digo, séria: – Escute, Jake. Você me pegou de surpresa, ontem, falando sobre uma pessoa em quem eu não pensava há muito tempo, mas estou bem. Não precisa mais ficar checando como estou. Minha vida está bem. Não é empolgante. Não é glamourosa. Mas tenho tudo de que preciso. Sou, hã, feliz. Essa última parte acaba soando mais como uma pergunta do que como a declaração que eu pretendia


fazer, mas resolvo deixar para lá. Jake passa a mão pelos cabelos e dá aquele olhar inseguro... argh, aquele olhar fatal de novo!, e diz: – Só achei que talvez você tivesse ficado um pouco chateada depois que a deixei, ontem. E fui eu que a aborreci. Queria me certificar de que hoje você estava bem. Não bem no geral, bem hoje. Ele parece tão sincero, como se estivesse realmente preocupado comigo, que não consigo evitar um sorriso. – Eu estava bem ontem – minto. – Não gosto de saber que qualquer pessoa teve um fim trágico, mesmo alguém que não conheço mais. Mas não é nada que um bom sorvete não cure. É disso que estou indo cuidar agora. Quer me seguir até o mercado? Uma última perseguidinha, em nome dos velhos tempos? – Pisco para ele. Jake ri e voltamos a caminhar. – Não acho que seja perseguição se estou sendo convidado, mas, sim, adoraria acompanhá-la ao mercado. – Não sei se estou preparada para essa enorme mudança no seu status – brinco. – De perseguidor a acompanhante em um dia? Você vai achar que sou fácil.


– Mostre o caminho, engraçadinha – diz ele, e pega a minha mão. Me sobressalto um pouco e abaixo os olhos para nossas mãos unidas. Mãos dadas? Bem, isso é um pouco esquisito. E aqui está novamente aquela sensação cálida quando nos tocamos. O que só serve para tornar a situação ainda mais esquisita. Ele só está sendo gentil, Evie, porque acha que a deixou chateada. Controle-se! Mas continuo me sentindo desconfortável e acabo retirando a mão da dele, com a desculpa de procurar os óculos escuros na bolsa. Coloco-os no rosto, apesar de o dia não estar nada ensolarado, e seguro a alça da bolsa com as duas mãos, para que ele não se sinta tentado a pegar a minha mão de novo. Olho de relance para Jake e vejo que ele franze um pouco a testa, mas não diz nada e continuamos a caminhar. Toda a situação é mais do que estranha. – Então – digo, tentando deixar as coisas menos constrangedoras –, a empresa do seu pai é de que segmento? Ele me dá uma olhada rápida antes de responder:


– Fazemos um produto utilizado pela divisão de segurança interna do governo. Basicamente é uma tecnologia de raios X usada em aeroportos ao redor do mundo. Há várias outras aplicações mais simples, mas esse é nosso foco principal. Assinto e ele continua: – Meu pai começou a empresa há trinta anos. Uma parte dela funciona aqui e outra em San Diego, mas nos últimos anos a sede daqui estava passando por dificuldades. Eu tinha começado a trabalhar com meu pai há alguns anos, então me mudei para cá, para reforçar a área de Cincinnati. Na verdade, era só uma questão de reestruturar e realocar alguns empregados de primeira linha que estavam mais interessados em encher os próprios bolsos do que em fortalecer a empresa. Assinto de novo e viramos a esquina do mercado. – Seu pai deve confiar muito em você para lhe dar uma missão tão importante em tão pouco tempo – comento. Sinto o corpo dele se enrijecer um pouco ao lado do meu. – Nunca dei muita razão ao meu pai para confiar em mim. Mas ele faleceu há quase um ano, seis meses antes


de eu me mudar para cá. Jake está novamente com a testa franzida e não sei o que ele fez para precisar se redimir aos olhos do pai, mas por alguma razão tudo o que quero é fazê-lo sorrir. Por isso, agora sou eu que dou a mão a ele e o encaro. – Fico feliz por você ter alguma coisa com que se sustentar depois da sua curta carreira de perseguidor sorrateiro – digo, sorrindo. Ele cai na gargalhada. E mais uma vez aquela sensação me domina. Meu Deus, meus hormônios precisam se acalmar urgentemente. As coisas ficam bem descontraídas entre mim e Jake com bastante rapidez, e uma parte de mim fica entusiasmada com isso. Afinal, ele é lindo e parece ser um cara legal. Mas outra parte está um pouco preocupada. No entanto, não sei nada sobre esse homem além do pouco que ele me contou, e a ligação dele com Leo me deixa confusa. Decido não esclarecer essa confusão, ao menos não agora. Vejo uma garota linda, com longos cabelos ruivos, saindo do mercado quando estamos entrando. Ela se vira


para olhar para Jake, mas ele não parece sequer notá-la, o que me faz sorrir internamente. Já que estou ali, decido comprar mais algumas coisas e meu carrinho já tem vários itens quando chegamos ao corredor dos sorvetes. – De que sabor você gosta? – pergunta Jake, abrindo a porta do freezer. – Creme com nozes – digo, abrindo a porta de outra geladeira. Ele pega um pote de creme com nozes ao mesmo tempo que eu tiro um de outra marca. – Por que esse? – quer saber ele. – Este aqui é o dobro do preço. Só pode ser o melhor. Balanço a cabeça, negando. – Não tem a ver com preço, Jake. Este aqui é o melhor sorvete do mundo. Veja, é o que está escrito na embalagem – comento com a expressão séria. Ele olha de um pote para o outro. – Evie – começa, como se estivesse explicando algo para uma criança de 5 anos. – Você sabe que eles podem escrever o que quiserem na embalagem, certo? Não significa que seja verdade.


– Bem, sabe de uma coisa? Você está certo – retruco. – Mas também está errado. Acho que quase cem por cento da certeza de ser o melhor se refere à autoconfiança. Você pode até desconfiar que é o melhor, pode ter esperança de ser o melhor, mas se não tiver coragem para se declarar o melhor, em letras garrafais em uma embalagem, e deixar que os críticos se atrevam a testá-lo, então você provavelmente não é o melhor. Quem consegue resistir a um cara que acredita em si mesmo a esse ponto? Jake está me encarando mais uma vez daquele jeito intenso, mas me limito a colocar o pote de sorvete no carrinho e tomo a direção da fila do caixa, já deixei meu ponto de vista claro. Quando estamos terminando de passar as compras, Jake pega a carteira e tenta pagar pelas minhas compras, mas afasto o dinheiro dele e entrego meu próprio cartão. Encaro-o com um olhar severo até ele balançar a cabeça e guardar o dinheiro. Talvez eu não seja responsável pelo que parece ser uma empresa multimilionária, mas posso pagar pelas minhas compras, caramba. Voltamos ao meu prédio, caminhando em um silêncio confortável, cada um carregando duas sacolas do


mercado. – Então, posso saber o que você quis dizer quando comentou que nunca tinha dado muitos motivos para o seu pai confiar em você? – pergunto de forma casual, mas torcendo para ele me dar outras pistas sobre o que tinha falado. Se ele não era uma pessoa confiável, eu gostaria de saber logo. Jake suspira. – Fui um garoto terrível. Egoísta, rebelde. Fiz tudo o que meu pai não gostaria que eu fizesse. Se havia uma oportunidade de autodestruição, eu era o primeiro da fila. Não fui exatamente o sonho de qualquer pai ou mãe. Encaro-o com o que espero que seja uma expressão compreensiva e ele sustenta meu olhar com um ar triste. Jake parece não esperar que eu diga alguma coisa, por isso continuamos em silêncio. Quando chegamos à frente do meu prédio, empurro a porta com o pé e entro. – A sua portaria não tem tranca? – pergunta Jake. Quando me viro para olhar para ele, percebo seu rosto tenso. Jake parece irritado.


– Ah, não. Já liguei várias vezes para o síndico, mas obviamente isso não é prioridade para ele. Este bairro é bem seguro. Ninguém teria coragem de dizer que é o melhor do mundo, mas é decente – brinco, tentando deixar mais leve o estado de espírito subitamente tenso de Jake. Ele me segue e chegamos à porta do meu apartamento. Paro do lado de fora, Jake apoia as sacolas no chão e me olha com expectativa. – Hã, bem, obrigada, Jake – digo, sem intenção de convidá-lo para entrar no meu apartamento simples, minúsculo. – Foi uma ida ao mercado muito mais agradável do que imaginei que seria. Sorrio e continuo a olhar para ele, sem me mexer. Ambos viramos a cabeça quando Maurice, meu vizinho do outro lado do corredor, um negro grande e musculoso que trabalha na construção civil, abre a porta do apartamento e fica parado ali, os braços cruzados, encarando Jake com desconfiança. Ele parece capaz de dobrar um caminhão ao meio, mas na verdade não passa de um ursão fofo. Em troca de um ocasional prato de


bolinhos de mirtilos (favorito dele), ou de frutas vermelhas (o segundo favorito), ele toma conta de mim. – Oi, Maurice – cumprimento, ainda sorrindo. – Esse é o Jake. Estou bem. Está tudo bem. Hã... estamos bem – digo, constrangida. Maurice continua a olhar para ele como se o reconhecesse de algum site de denúncia de tarados sexuais, mas Jake se adianta e estende a mão para ele, simpático. – Maurice – cumprimenta. Meu vizinho finalmente cede, aperta a mão estendida de Jake e diz: – Jake. Imagino que no manual de códigos masculinos isso signifique que, por enquanto, as coisas estão bem. Ninguém diz nada por um longo minuto, até eu quebrar o silêncio: – Ah, obrigada, Maurice. Nos vemos mais tarde, então? Maurice fica onde está por mais um instante e depois diz: – Está certo. Estou aqui pertinho da porta, Evie. Se precisar de mim é só chamar, certo?


– Tudo bem, Maurice – respondo baixinho. Ele entra em casa, fecha a porta e Jake alterna o olhar entre mim e a minha porta, então suspira, passa as mãos novamente pelos cabelos curtos e franze a testa daquele seu jeito encantador. – Está certo, entendi. Não estou convidado a entrar. Pode ao menos me dar seu telefone, Evie? Permaneço imóvel. Ah, bem, por que não? Gosto dele. É um cara bonito e legal e faz com que eu me sinta bem de um jeito que ninguém consegue há muito, muito tempo. Para falar a verdade, de um jeito que talvez ninguém jamais tenha conseguido. Não desde Leo... mas não vou pensar nisso. Já se passaram oito anos. Eu era muito nova na época. Em minha vida adulta, ninguém jamais mexeu comigo do jeito que Jake Madsen mexe. Imagino que isso seja muito comum no Mundo de Jake, mas com certeza não é no Mundo de Evie, e a sensação é deliciosa, empolgante. – Me dê seu celular – digo. Quando ele me entrega o aparelho, digito o meu número e o devolvo a ele. Jake sorri para mim, então se afasta, dizendo:


– Cansei de persegui-la, Evie. Nosso relacionamento acabou de subir de nível. Eu rio. – Você tira a graça de tudo, sabia, Jake Madsen? Mas estou sorrindo como uma boba, e quando vejo o reflexo de Jake no espelho percebo que ele também está. Ah, meu Deus, Jake Madsen vai me ligar. Quero muito que Jake Madsen me ligue. Droga.


c a p í t u lo 7

Nicole passa para me pegar logo depois das cinco, e me acomodo no banco do carona do pequeno Honda prateado dela com uma garrafa de vinho tinto e um prato de brownies na mão. Kaylee adora brownies e eu adoro Kaylee. – Você está com a pele linda! – comenta Nicole, sorrindo. – Está usando um hidratante novo ou conheceu o príncipe encantado? – O quê? Não. Provavelmente é só o ar frio. Mas acho que demorei demais a responder, porque Nicole está com uma cara perplexa e fala, agitada:


– Ai, meu Deus! Com certeza encontrou. Você conheceu um cara. Uau! Nossa, estou esperando isso há séculos. Mas espere! Não me conte nada ainda. Mike precisa ouvir todos os detalhes. – O quê? Nicole, é sério. Não é nada. Na verdade... – Franzo a testa. – E se não for nada? Nicole está saltitando no banco do carro e comete umas vinte infrações de trânsito diferentes enquanto acelera em direção à sua casa. Quando para na entrada de veículos, ela desce e, embora esteja usando sapatos de salto agulha vermelhos que parecem perigosos, corre até o meu lado, praticamente me arranca do carro e pega a garrafa de vinho da minha mão. Ela abre a porta e Kaylee corre até nós, gritando: – Tia Evie! Tia Evie! Levanto-a no colo, rindo, e a abraço. Então afasto-a só um pouquinho e digo, séria: – Kaylee, não achei que isso fosse possível, mas você está mais bonita ainda. Estou preocupada com a possibilidade de Cinderela perder o emprego... Ela dá uma risadinha. – Não, a Bela! Quero ser a Bela!


– Muito bem, então a Bela está com sérios problemas. – Coloco-a no chão com cuidado e digo em um sussurro: – Trouxe brownies. Jante direitinho e vai ganhar o maior pedaço de todos. – Pisco para ela. – Está bem, tia Evie – sussurra ela de volta, em um tom conspiratório. Então sai correndo para continuar a brincar com as Barbies que abandonara no chão quando eu entrei. Nicole, que acabou de checar alguma coisa no forno com um aroma delicioso, abre a garrafa de vinho que levei, pega duas taças em um armário e começa a servir. – Pode abrir o bico – diz ela, enquanto Mike desce as escadas, os cabelos ainda úmidos do banho. – Evie – fala. – Como vai? Ele entra na cozinha e me dá um abraço rápido. Adoro Mike. Ele é um dos caras mais bacanas que conheço. – Ela está ÓTIMA – interrompe Nicole. – Conheceu um cara. Estava prestes a me contar os detalhes. Venha. Vamos nos sentar. – Estou falando sério, gente – digo. – Nic, você está exagerando. É só um cara lindo de morrer e divertido


que conheci quando ele estava me seguindo na semana passada. Arrio no sofá deles, pouso o vinho, pego uma revista que está sobre a mesa de centro e começo a folheá-la, só para implicar com eles. Nicole e Mike não se sentam. Ficam parados no meio da sala, me encarando. – O QUÊ? – pergunta Nicole, enfim, com a voz muito aguda. – Ele estava seguindo você? Por quê? Espere! Como você sabe que ele estava seguindo você? – Ela franze a testa. – Ele estava mesmo seguindo você? Mike continua em silêncio, mas me olha como se estivesse meio confuso e ligeiramente irritado com a possibilidade. Os dois se sentam no sofá menor à minha frente. Abaixo a revista e volto a pegar a taça de vinho. Penso em tudo o que aconteceu nas últimas 48 horas e de repente me sinto exaurida. Tomo um longo gole de vinho. Bem, se vou contar tudo, então tenho que contar tudo. – Bem, a questão é que... acho que vou ter que começar do início, pessoal.


Nicole dá uma olhada no relógio e volta a me encarar, como se eu estivesse prestes a contar a coisa mais importante do mundo. – O jantar ficará pronto em vinte minutos. Pode falar. Os olhos dos dois estão colados em mim. Adoro esse casal, de verdade. Há muito tempo já deveria ter contado mais a eles sobre o meu passado. Mas queria tanto deixar esse passado para trás... – Vocês sabem que cresci em lares adotivos – começo. – Nunca cheguei a contar por que, mas basicamente minha mãe era uma viciada que fazia o que fosse preciso para conseguir drogas. Ela nunca se importou muito em saber onde eu estava, se havia comida na geladeira ou se as minhas roupas estavam limpas. Também nunca se preocupou com quem levava ao nosso apartamento quando dava suas festinhas, e isso significa que não ligava em me expor a qualquer tipo de pervertido. Na verdade, algumas vezes ela não fez mais do que observar enquanto a situação ficava bastante imprópria entre mim e vários de seus namorados. – Dou outro longo gole no vinho. – É claro que ela estava tão doidona nessas ocasiões que é difícil dizer se tinha noção do que estava vendo ou não. Com sorte, eu conseguia


me fazer invisível na maior parte do tempo quando ela estava em um dos seus maus momentos e a festinha durava dias. Eu me escondia em um armário, embaixo da cama ou em qualquer outro lugar em que pudesse encaixar meu corpinho e sentisse que ficaria segura. Levanto os olhos e Nicole está com uma expressão devastada, lágrimas brilhando nos olhos. Já Mike tem um ar grave, o olhar fixo em Kaylee, que brinca com as bonecas junto à mesa de jantar, distante o bastante para não conseguir ouvir a conversa. – De qualquer modo – continuo, com um suspiro –, finalmente chamaram a polícia depois de uma dessas festinhas da minha mãe, e fui encontrada em uma situação comprometedora com um dos convidados drogados. Nicole deixa escapar um arquejo. O maxilar de Mike está cerrado. – Ah, querida... – sussurra minha amiga. Faço um gesto descartando a preocupação dela. Já faz tanto tempo... Parece ter sido em outra vida. Mas, para ser sincera, às vezes parece que foi ontem. Paro por um instante para organizar meus pensamentos e emoções.


– Quando fui para o primeiro lar adotivo, logo conheci um menino chamado Leo. Só ficamos na mesma casa por alguns meses, mas criamos um vínculo, e é difícil explicar como essa ligação era forte para alguém que não tenha estado numa situação como a nossa, se sentindo tão só no mundo naquela idade. – Faço uma pausa, perdida em pensamentos. – Não era só o fato de estarmos em uma situação parecida... – Paro de novo, pensando na melhor maneira de continuar. – Foi como se eu houvesse encontrado a minha outra metade, e finalmente me sentisse completa. Sei que pode soar absurdo, porque eu tinha só 10 anos, mas é a verdade pura e simples. Foi como se todos aqueles dez anos tão sofridos tivessem tido como único propósito me colocar ao lado daquele garoto, naquele momento, naquele lugar, e por isso eu só posso ser grata por qualquer sofrimento que tenha me levado a ele. Levanto os olhos para Nicole e Mike e os dois estão me encarando com a mesma expressão perplexa. Acho que nunca falei tanto sobre mim mesma para eles nos três anos em que nos conhecemos. – Evie – sussurra Nicole. Sorrio com carinho para ela e continuo:


– A princípio nossa ligação era como amigos. Eu quase chegava a pensar nele como um irmão mais velho, um protetor, mas os anos foram passando, nós ficamos mais velhos e nos apaixonamos. E a verdade é que, a partir do instante em que isso aconteceu, todos os momentos que passávamos juntos eram lindos, mesmo quando estávamos em lugares horríveis. Leo transformou o que poderia ser uma vida de pesadelo em um sonho. Faço uma pausa para respirar fundo e prossigo: – Eu ia e voltava do tribunal várias vezes, pois precisava testemunhar contra a minha mãe biológica, que nunca aparecia para cumprir as exigências da lei. – Preciso de um instante para deixar passar a dor daquela lembrança. – Leo fazia com que nem isso fosse ruim. Enquanto eu era amada por ele, sempre achava que tudo ficaria bem. Meus próprios olhos estão marejados agora e tenho que me recompor para seguir em frente. – Ele foi mandado para um lar adotivo diferente, mas próximo do meu, e me visitava sempre que conseguia. Nós nos encontrávamos no telhado do lado de fora do meu quarto. Sonhávamos juntos, planejamos uma vida


juntos. Éramos tão jovens, mas tão certos do que queríamos... Não consigo evitar o sorriso que toma meus lábios. – Quando eu estava com 14 anos e Leo com 15, ele foi adotado definitivamente por um casal. Foi bastante impressionante, porque é muito, muito raro que um adolescente seja adotado. Não sei nada sobre o casal que o acolheu, mas pelo que o Leo me contou eram muito bondosos e queriam mesmo dar um lar para um garoto que provavelmente não tinha mais esperança de ter um. Fiquei muito animada por ele, mas o problema foi que Leo descobriu que o novo pai adotivo tinha conseguido um emprego novo em San Diego e eles iriam se mudar logo. Prometemos que esperaríamos um pelo outro, que ele viria me encontrar quando eu fizesse 18 anos e que construiríamos uma vida juntos. Ele jurou que, assim que chegasse a San Diego, me escreveria com todas as informações, o endereço e o telefone novos, e que nos manteríamos em contato através de cartas. Leo me fez prometer que eu me guardaria para ele. Não poderia me imaginar fazendo nada diferente disso. Na minha mente e no meu coração, eu pertencia a Leo e ele a mim. A distância jamais mudaria isso.


– Meu Deus, querida – sussurra Nicole, levando a mão ao peito. Suspiro e continuo: – Ele apareceu para se despedir de mim na noite anterior à sua partida e me beijou pela primeira vez. E quando digo que me beijou, quero dizer que o beijo foi como um juramento. Já ouvi pessoas dizerem que se perderam em um beijo, mas nós dois nos encontramos no instante em que nossos lábios se tocaram. Foi como se ele tivesse me preenchido com aquele beijo. Volto a ficar em silêncio e, quando me dou conta, estou tocando os lábios com os dedos. Abaixo a mão e volto a olhar para Nicole e Mike, que me encaram sem parecer saber como reagir. – Meu Deus, querida – repete Nicole, e na verdade não há mesmo mais nada a dizer. Encaro minha amiga e solto a bomba: – Mas ele nunca me escreveu de San Diego. Nunca mais soube dele. Os dois parecem perplexos. – Mas... – começa Nicole. – O que... – diz Mike. Levanto a mão para detê-los.


– Eu sei. Tentei imaginar todos os cenários possíveis ao longo dos últimos oito anos, podem acreditar. Qualquer coisa que pensarem, eu investiguei. Mas como não sabia o sobrenome dos pais adotivos dele, não consegui ir muito longe. Havia tantas coisas que eu, com 14 anos, não pensei em perguntar... É claro que eu não tinha ideia de que precisaria de qualquer informação que fosse; achei que ele me diria tudo depois. Mas tentei descobrir se houve alguma razão física para ele nunca ter entrado em contato comigo. Nunca cheguei a lugar nenhum. – Mas vocês eram muito novos, Evie – começa a dizer Nicole, mas a interrompo balançando a cabeça vigorosamente. – Não, eu sei que éramos muito novos, mas o que sentíamos era muito, muito real. Para nós dois. Não tenho como explicar por que Leo me abandonou, por que mentiu para mim, mas sei que os sentimentos dele antes de partir eram verdadeiros. Não vou me convencer do contrário. Não sei por que isso mudou, mas ninguém vai me convencer de que o que tínhamos só existiu na minha cabeça – digo, e quando paro de falar mordo o lábio inferior.


Ouvimos um zumbido baixo vindo da cozinha e Nicole levanta de um pulo para desligar o forno. Menos de trinta segundos depois, está de volta ao sofá, me encarando fascinada. – De qualquer modo – digo, tentando melhorar o ânimo de todos –, tudo isso aconteceu há oito anos. Quase tenho que consolá-los sobre o triste fim da história. Então conto rapidamente sobre Jake e sobre a ligação dele com Leo, sobre o modo como o confrontei, e falo que ele apareceu naquele dia mesmo na frente do meu prédio e que pediu meu telefone. – Caramba! – grita Nicole. – Evie, é o destino. É sim. Quero dizer, lamento muito saber sobre o Leo. – Ela me fita com os olhos tristes. – Mas Jake é lindo, você disse? Caio na risada. Só Nicole mesmo. Ela pisca para mim, deixando claro que tinha mesmo a intenção de me fazer sorrir. – Sim, incrivelmente lindo. Nem parece humano de tão lindo. Não tenho ideia do por que ele iria querer passar mais tempo comigo, mas parece que quer.


Tanto Nicole quanto Mike estão me encarando como se eu tivesse duas cabeças. – Hã, querida, você tem se olhado no espelho ultimamente? – pergunta ela com carinho, enquanto Mike assente. – Evie, você tem noção de que, depois do nosso churrasco no Quatro de Julho, todos os caras solteiros que estavam aqui me ligaram no dia seguinte para saber se eu poderia falar bem deles para você? – diz ele. Faço um gesto com a mão descartando as palavras deles. – Mike, você sabe que tem alguns amigos muito estranhos, não sabe? – pergunto sorrindo. Ele ri. – Sim, eu sei. Nós, eletricistas, não somos conhecidos por nossas incríveis habilidades sociais, e basicamente o churrasco só tinha esse público. Mas ainda assim, eles são homens, Evie. E têm olhos. Naquele momento, Kaylee entra em disparada na sala, exigindo o jantar. E tenho que admitir que também estou com fome. Pelo visto, contar tudo queima muitas calorias.


Vamos todos para a cozinha e Nicole tira a travessa do forno, enquanto eu sirvo as bebidas. A mesa já está posta. – Tire a salada da geladeira, meu bem – pede ela a Mike, que pega uma tigela coberta de plástico e se junta a nós, trazendo várias embalagens de molho também. Todos nos sentamos e fazemos uma rápida oração antes de nos servirmos. Durante o jantar, conversamos descontraidamente. Perguntamos a Kaylee sobre a escolinha e brincamos com ela sobre um possível “namorado”. É divertido, acolhedor, e a sensação é maravilhosa, como sempre. Me pergunto, como todas as vezes em que janto na casa de Nicole e Mike, se algum dia terei minha própria família. Tenho esperanças, mas não me permito sonhar. É mais seguro assim. Por enquanto, me satisfaço em participar da felicidade dos meus amigos. Depois do jantar, Nicole começa a colocar a louça na máquina de lavar pratos e me ofereço para dar banho em Kaylee e colocá-la na cama. Nós subimos e preparo um banho morno. Batemos papo e rimos enquanto ela se esfrega. Quando já estou secando-a, Kaylee pede:


– Tia Evie, pode me contar uma história antes de eu dormir? Suas histórias são as MELHORES! Sorrio e abraço o corpinho enrolado na toalha. – Sim, meu amor, mas vai ser uma história rápida hoje, porque tia Evie está cansada e precisa trabalhar cedo amanhã, certo? – Certo! – concorda ela, animada. Ajudo-a a vestir a camisola e a escovar os dentes, então a coloco na cama e começo: – Era uma vez uma menininha tão doce, mas tão doce, tão incrivelmente doce, que quando alguém a beijava, os lábios da pessoa ficavam com um sabor delicioso de bala. – Eles também ficavam duros como as balas, tia Evie? – pergunta Kaylee, franzindo um pouco a testa. – Não, duros não, apenas com um gosto doce e com uma cor mais forte do que a cor natural. Não ficavam apenas saborosos, mas lindos também. Kaylee parece encantada. – A mãe beijou a menina e seus lábios ficaram com sabor de baunilha e cereja. A irmã menor também a beijou e os lábios da menina ficaram com sabor de chiclete.


– Mas, tia Evie, e se as pessoas não gostassem do sabor que ficava em seus lábios? – Bem, o sabor só durava cerca de três meses, e acabava enfraquecendo. Mas todos sempre adoravam o gosto porque, por algum motivo, o sabor de cada beijo tinha alguma ligação com a química do corpo da pessoa, e por isso acabava sendo o gosto certo no momento certo. Kaylee assente e se aconchega mais para o meu lado. – Bem, a história da garotinha e de sua capacidade única acabou se espalhando, e as pessoas passaram a chegar do mundo todo para beijá-la e ficar com os lábios com sabor de bala. Logo a multidão era tão grande que os pais dela começaram a cobrar para receber as pessoas. Largaram o emprego e montaram um negócio que chamaram de Lábios de bala. Kaylee boceja e eu também. – A garotinha foi ficando cada vez mais triste por causa de todas aquelas pessoas que apareciam dia após dia apenas para se aproveitar dela, para usar seu dom. Os pais perceberam que, a cada semana, ela se tornava mais distante e distraída. Viram sua garotinha doce começar a se apagar bem diante dos olhos deles.


A menina volta a bocejar. – Então os pais da garotinha resolveram se mudar, no meio da noite, para um país distante, e nunca mais se ouviu falar deles. Mas algumas pessoas acreditam que existe uma tribo de aborígines na Austrália com os lábios mais doces e rosados do mundo. Pisco para Kaylee e me levanto para ajeitar as cobertas ao redor dela. – Você foi meio apressada no final, tia Evie – diz ela, mas está com um sorrisinho sonolento no rosto. – Vou pensar em outro ainda melhor. Dou uma risada. – Muito bem, minha pequena crítica. Mal posso esperar para ouvir o seu final. – Sorrio de novo para ela, beijo sua testa e caminho até a porta. – Boa noite, lindinha – sussurro e então apago a luz. – Boa noite, tia Evie – escuto quando já estou fechando a porta.


c a p í t u lo 8 EVIE, 10 ANOS LEO, 12 ANOS

stou caminhando com a bandeja do almoço da escola na mão, em direção à mesa em que sempre costumo me sentar com Willow, no fundo do refeitório, quando vejo Denny Powell, o garoto que nunca perde a oportunidade de me humilhar. Olho rapidamente para um lado e para outro, procurando algum lugar em que não precise passar por ele. Não há. Além do mais, Denny já me viu e, se eu me virar e correr, ele vai tornar as coisas ainda piores. Levantar a cabeça e ignorá-lo ao passar é o melhor que posso fazer. Estou tão concentrada em minha missão de conseguir passar por ele que não percebo quando ele


estica o pé justo no momento em que já estou prestes a deixar escapar um suspiro de alívio. Como estou segurando a bandeja à minha frente, assim que meu pé se choca com a perna dele o peso em meus braços me puxa para a frente. Caio no chão e o macarrão com queijo, as cenouras cozidas e a gelatina que carrego espirram para todo lado, inclusive na minha blusa amarela de mangas curtas e no meu rosto e cabelos. Meu corpo entra imediatamente em modo de sobrevivência. Solto a bandeja, me viro e engatinho para trás, para longe de Denny, mas para cima da comida espalhada. Quando vejo que ele continua sentado onde estava, mal contendo a risada que cintila em seus olhos e faz seus lábios se curvarem de leve, levanto devagar, com a sensação de que estou fora do meu corpo. Estou toda suja de comida e do leite que escorreu para o chão quando a embalagem virou. Sinto meu rosto muito quente e meus olhos ficam marejados. As risadas já começaram e mais pessoas se juntam ao coro quando olho ao redor, em pânico. Denny enfim desiste de esconder o riso e dá uma gargalhada abafada. Percebo que o riso é agudo, anasalado. Vejo que algumas


pessoas me olham com uma expressão de pena, o que é quase pior que as risadas, por isso desvio o olhar rapidamente. De repente, sinto uma mão segurando meu braço com firmeza e escuto uma voz de menino dizer com calma: – Venha, Evie, vou levar você para se limpar. Olho para a mão no meu braço e depois meus olhos se desviam como em câmera lenta para o rosto da pessoa. É Leo McKenna, o garoto que se mudou no mês anterior para o mesmo lar adotivo que eu. Ele está uma série à minha frente, embora tenha feito 12 anos há algumas semanas. Eu só farei 11 anos daqui a três meses. Assinto rapidamente, então faço menção de sair de cima da comida, mas Leo me mantém no lugar. Quando olho de novo para o rosto dele, vejo que está encarando Denny Powell com um ar pensativo. Denny também percebe e pergunta com arrogância: – O que VOCÊ está olhando? – Estava só tentando imaginar como seria a sua aparência se você tivesse ao menos meio cérebro. Talvez fosse um pouco diferente ao redor os olhos... é difícil dizer. Exige uma imaginação muito vívida.


Denny se levanta de um pulo, o rosto vermelho, os punhos cerrados. – O que... Mas nesse momento ouvimos o barulho agudo de saltos altos caminhando apressadamente na direção do refeitório. Denny para onde está. Leo olha ao redor do lugar e diz: – Qualquer coisa pode ser engraçada, desde que aconteça com outra pessoa, não é mesmo? – Ele deixa escapar um som de desprezo e me guia na direção da porta. A diretora, Sra. Henry, acaba de entrar no refeitório e Leo agora se dirige a ela. – Evie deixou cair a bandeja sem querer. Vou levá-la até o banheiro. – Ah, está certo – responde a diretora, olhando preocupada para mim. – Vou chamar o servente para limpar isso. Você está bem, querida? Apenas assinto antes de nos afastarmos. Me pergunto por que Leo não contou a ela o que Denny fez, mas estou envergonhada demais para dizer uma palavra que seja. Willow vem atrás de nós, correndo, segura meu cotovelo e sussurra: – Evie, você está bem?


Ela parece estar sempre sussurrando, como se achasse que se falar muito alto as pessoas notarão sua existência. Olho para ela e sorrio para tranquilizá-la. Deixamos Leo no corredor e entramos no banheiro feminino. Limpo a blusa com toalhas de papel molhadas o melhor que posso e tiro os pedaços de comida do meu rosto e dos meus cabelos. Então fico parada por alguns instantes na frente do secador de ar quente para as mãos, até minha blusa estar quase seca. Suspiro em frente ao espelho, enquanto mordo a bochecha por dentro e encaro meu reflexo por longos minutos. Vejo o que todo mundo vê. Franja longa demais, porque ninguém me leva para cortar o cabelo regularmente, roupas velhas que já estão ficando apertadas, a necessidade de um sutiã para pré-adolescentes (sou envergonhada demais para pedir que alguém me compre um) e sapatos que fazem um barulho engraçado quando eu ando, porque a sola está soltando. Olho para a esquerda, onde Willow está. Ela também me observa em silêncio. Abre seu sorrisinho tímido e diz: – Aquele garoto gosta de você. Levanto as sobrancelhas.


– Leo? – Sorrio também. – Não, ele só não gosta de Denny Powell. – Provavelmente não gosta mesmo, mas gosta de você, sim. – Ela dá uma risadinha. Rio também, dou a mão a ela e saímos do banheiro. Leo está encostado na parede em frente ao refeitório com um pé apoiado na parede, as mãos enfiadas nos bolsos. Ele sorri quando o sinal toca e diz: – Venham, vou acompanhar vocês até a sala de aula. Então enfia a mão na mochila, pega um saquinho de amendoins, entrega para mim e dá uma piscadinha. Meu almoço.

Estou sentada na varanda da frente do meu lar adotivo, depois da aula, fazendo o dever de casa, quando Leo vem pelo caminho da frente. Arregalo os olhos quando vejo que ele está com um olho roxo e inchado e o lábio sangrando. – Ai, meu Deus. O que aconteceu? – murmuro. Me levanto e vou até ele.


Mas Leo sorri. Eu paro, ponho as mãos nos quadris e o encaro com um ar de indagação. – Leo, o que tem de engraçado no fato de você ter apanhado? – O fato de que Denny Powell está bem pior que eu. – Leo! Ele tem o dobro do seu tamanho! Poderia ter MATADO você! Não posso acreditar que fez isso. Por quê? Ele contrai os lábios e olha para mim como se estivesse irritado. – Porque ele pediu. Só por isso. Respiro fundo e estendo a mão para tocá-lo, mas então recuo. – Mas... seu rosto. Deve estar doendo – digo com uma careta. – Essa dor é do tipo fácil – retruca ele, então passa por mim e entra em casa. Sei o que ele quer dizer. Penso na frase “Paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras nunca me atingirão”, e em como a realidade é diferente disso. Paus, pedras e punhos PODEM quebrar os ossos de alguém, mas são as palavras que partem seu coração.


c a p í t u lo 9

No dia seguinte, durante meu intervalo no trabalho, percebo que perdi uma ligação e vejo que há uma mensagem de texto enviada de um número desconhecido. Me ligue quando tiver um minuto, linda. J.M. Ah, meu Deus! É de Jake. E ele me chamou de linda. Minha respiração acelera com o entusiasmo. Digito o número dele, nervosa, e Jake atende na mesma hora: – Evie.


– Oi, Jake. Por que estou soando tão ofegante? Droga. – Escute, estou correndo para uma reunião e só posso falar por um minuto, mas gostaria de levá-la para jantar hoje à noite. – Ah – digo, surpresa. – Hã, eu... – Evie, é uma pergunta simples. Basta responder com sim ou com sim – diz ele, brincando. Sorrio. – Eu... sim. Pode ser – respondo, me sentindo subitamente tímida e deslocada. Posso ouvir o sorriso na voz de Jake quando ele diz: – Ótimo. Pego você às sete. – H-hã – gaguejo, como uma idiota. – Te vejo hoje à noite, Evie – encerra ele, e desliga antes que eu possa gaguejar mais um pouco. Caramba!

Essa é uma daquelas ocasiões em que eu gostaria de ter uma banheira. Adoraria mergulhar em um banho de espuma antes do meu encontro com Jake. Não sei muito


bem por quê. Só parece algo que eu deveria fazer antes de um encontro com Jake Madsen. Um encontro com Jake Madsen! Eu me permito um momento de pânico. Estou completamente fora da minha zona de conforto nessa situação. Não me sinto nada segura. E se ele tentar me beijar? Talvez eu deva cancelar. Não tenho a menor ideia de como me comportar em um encontro... Procuro me acalmar. É só um jantar. Se me sentir desconfortável, direi a ele que não estou passando bem e voltarei para casa. Ótimo, posso fazer isso. Tomo um banho, me depilo toda e passo hidratante em cada centímetro do corpo. Tiro o esmalte antigo das unhas dos pés e pinto novamente com um vermelho maçã do amor. Enquanto as unhas secam, passo o secador cuidadosamente nos cabelos, então faço cachos com um modelador. Dou uma atenção especial à maquiagem. Passo a máscara de cílios como sempre, mas também uso um pouco de lápis preto nos olhos, blush e uma camada de gloss sabor morango.


Visto uma calcinha rendada preta, um sutiã combinando, e vou checar meu pequeno guarda-roupa. Não tenho ideia de onde Jake irá me levar, por isso fico olhando indecisa para as peças por alguns minutos, até finalmente decidir mandar uma mensagem de texto para Nicole. Eu: Jantar com Jake! Que roupa coloco? Ele não me disse aonde vamos. Nicole: O quê??? Vai ter que me dar um relatório completo amanhã. Calça preta, a blusa creme de renda que você usou no meu jantar de aniversário e aquelas sandálias pretas de salto alto. Casaco de lã preto. Mas só coloque o casaco depois que abrir a porta para ele. ;) Eu: Certo. Você salvou a minha vida. Bjs. Nos falamos amanhã. Nicole: Ah, sim, nos falaremos. ;) Fique bem. Tente tirar uma foto do Sr. Lindo para mim. Eu: Isso não seria nada constrangedor, né...? :p


Visto a roupa que Nicole sugeriu e me olho no espelho. A calça preta é comportada, mas a blusa é sexy demais... Fico me debatendo em frente ao espelho. Me pergunto se vou conseguir ficar vestida apenas com aquilo na frente de Jake. É uma blusa de alcinha e cintura alta. A parte de cima se molda aos meus seios, valorizando-os, e a parte de baixo é larguinha. Eu me afasto do espelho e respiro fundo. Resolvo abrir uma garrafa de vinho e tomar uma taça antes de Jake chegar, para me dar coragem e acalmar meus nervos. Acabo de tomar meu quarto gole quando escuto uma batida na porta. São 18h53. Jogo o resto do vinho na pia, lavo rapidamente a taça e vou até a porta. Jake sorri para mim quando abro. Reparo na calça cinza-escura, a camisa social branca, o cinto preto, os sapatos sociais pretos. Meu Deus... Jake entra sem ser convidado e, de repente, as mãos dele estão segurando meu queixo e me puxando com firmeza contra o corpo. Oi. Nossos olhos se encontram por um segundo e percebo um ar animalesco, primitivo, nos dele, antes que


sua boca capture a minha. Deixo escapar um gemido e passo os braços ao redor de seu pescoço. Meu coração está disparado. A língua de Jake invade o interior da minha boca e gemo mais uma vez quando minha própria língua encontra a dele. Nossa, que gosto bom! Isso está realmente acontecendo? Pressiono mais o corpo contra o dele e Jake deixa a língua passear por dentro da minha boca. Nossas línguas dançam juntas, embriagando-se uma na outra. É uma sensação deliciosa, forte e muito, muito excitante. Levo uma das mãos aos cabelos macios de Jake e corro os dedos por eles. Uma das mãos dele desce para a minha bunda e o toque é tão maravilhoso que deixo escapar um gemido contra a boca dele, que também geme. Aquele som provoca uma nova onda de desejo entre as minhas coxas. Sinto os joelhos fracos e me apoio nele. Seu beijo se tornou minha âncora neste mundo, a verdadeira razão da minha existência. Por isso, quando ele afasta a boca da minha, ofegante, e recua, emito um som de protesto. Quando


abro os olhos lentamente, vejo que Jake está sorrindo para mim. – Caramba, você sabe beijar. Abro um sorriso tímido enquanto tento me recompor, ainda ofegante, e cada vez que inalo sinto o delicioso perfume amadeirado dele. – Uau... – digo, como uma tola. Isso foi, hã, inesperado... e absolutamente enlouquecedor. – Sim – diz ele, ainda sorrindo. – Está com fome? Eu o encaro, ainda atordoada, e, quando enfim registro a pergunta, respondo: – Estou. Tranco a porta, visto o casaco e Jake me guia até o carro dele, estacionado em frente ao meu prédio. – A norma não seria você me beijar depois do encontro? – pergunto. – Não consegui esperar. – Ele pisca para mim. – Ou beijava você ou enlouquecia. Uau, gosto disso. Sorrio. Jake abre a porta do seu BMW para mim e continuo sorrindo para ele como uma idiota. Afundo no assento de couro macio e inspiro o perfume de carro novo. Já havia


ouvido falar a respeito, mas nunca tinha sentido. Agora entendo por que falam tão bem. Recosto a cabeça e fecho os olhos. Hummm, cheiro de carro novo. Jake fecha a porta do meu lado, dá a volta no carro e se acomoda atrás do volante. Agora, além do delicioso aroma de carro novo, sinto também o perfume delicioso de Jake. Nham. Ele dá partida, pega a minha mão esquerda e leva aos lábios. Então, ficamos de mãos dadas enquanto ele dirige com a mão esquerda. – Então, onde está me levando? – pergunto, sorrindo. – Gosta de frutos do mar? Pensei em irmos a um restaurante à beira do rio. – Sim, adoro frutos do mar. Ótima ideia. Continuamos em um silêncio confortável por alguns minutos, antes de as engrenagens na minha mente começarem a funcionar. Decido que preciso saber quais são as intenções reais de Jake Madsen no que se refere a mim. Já tenho a sensação de que todo o poder está nas mãos dele, e sei que ele é areia demais para o meu caminhão. Apesar disso, estou sentada no carro dele, deixando que me leve para jantar. Não sou uma garota


disposta a arriscar muito na vida. Sou assim e é assim que devo ser. Esse homem já conseguiu me tirar do prumo – me deixando toda zonza e eufórica – e só o conheço há uma semana. Adoro e odeio isso ao mesmo tempo. Percebo que Jake Madsen é o tipo de homem que toda mulher quer chamar de seu. Não sou imune a isso. Mas também não sou idiota. – Então, Jake – digo. E mordo o lábio por um instante antes de continuar. – Você já teve muitas namoradas? – Não. – Ele faz uma pausa, pensa um pouco e continua: – Houve muitas mulheres na minha vida, Evie, mas não, eu não namorei muitas delas. – Então ele me olha de relance, como se avaliando minha reação àquele fragmento de informação, e volta a olhar para a frente. – Não tenho orgulho disso, mas é a verdade. Isso a incomoda? – Ele parece perturbado. Não sei bem por que Jake dividiu isso comigo, mas desconfio e não gosto da ideia. Mantenho o rosto o mais inexpressivo possível e digo: – Jake, não posso ser mais uma garota pra quem você liga quando quer fazer sexo.


Ele não olha para mim quando retruca: – Não é isso que quero com você, Evie. Sinto um peso no estômago. Ah, merda! Sou uma idiota! – Ah. Eu só achei... quero dizer... eu... porque – balbucio. Ah, Deus, me mate agora, por favor? – Evie – diz Jake em voz baixa, enfim se voltando para me encarar –, o que quero dizer é que, quando fizer sexo com você, você será minha. Está claro agora? Ah! Fico olhando para a frente com os olhos arregalados, sem saber o que responder. As palavras dele, por mais inacreditavelmente arrogantes que sejam, fazem uma corrente elétrica disparar por entre as minhas pernas. Fecho-as bem, ficando confusa com minha própria reação. – Evie, olhe para mim. Você sente a mesma coisa, não sente? E Jake está certo, porque sei exatamente o que ele quer dizer. As faíscas entre nós são quase palpáveis. Nunca senti esse tipo de reação, esse calor, esse desejo, por qualquer outra pessoa. Jamais.


Assinto. – Sinto – sussurro, com a sensação de que acabo de concordar com algo que não sei bem o que é. Ele sorri para mim enquanto para o carro diante de um restaurante chamado Chart House. Jake desliga o motor e se vira para mim. O rosto bonito está sério quando ele diz: – Posso lhe perguntar com quantos homens você já esteve, Evie? Jake parece estar prendendo a respiração enquanto aguarda a resposta. Sou pega desprevenida e sinto o rosto quente. Olho para a frente e respondo, em um tom petulante: – Um monte, Jake, mas não acho que se possa dizer que realmente namorei muitos deles. As narinas dele se dilatam e seu olhar se torna raivoso por um breve instante, antes que Jake consiga recompor sua expressão. Ele fica me encarando por algum tempo, em silêncio. – Você está me sacaneando – diz, por fim, em voz baixa. – Tudo bem você ter estado com um monte de mulheres, mas eu ter estado com um monte de homens é


um problema? – pergunto. – Sim, porque você é uma pessoa melhor do que eu – declara ele simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Jake... – começo. Mas não sei o que dizer. Ele parece pensar que sabe que tipo de garota eu sou. Tenho certeza de que minha inexperiência emana de mim. Mas o que ele não sabe é que nunca fui o suficiente para ninguém. Nenhuma das pessoas que precisei jamais quis ficar comigo. – Só quero uma resposta honesta. Só quero saber quantos homens já fizeram parte da sua vida. O maxilar dele está cerrado. Mas que coisa! O que ele tem a ver com isso? No entanto, quando eu perguntei, Jake foi honesto comigo. Suspiro. – Saí com alguns caras, quase todos apresentados por minha amiga Nicole. Nada sério, não saí com nenhum deles mais de três vezes. O último foi há um ano. Saímos para jantar uma vez. Ele me perguntou se poderíamos nos ver de novo, mas eu não quis. Esse nível de detalhamento é o bastante para você?


Sinto-me constrangida e irritada por ele ter insistido em saber. Explicar a situação em voz alta me faz perceber como minha vida social é patética. Ele me dá a mão. – E no ensino médio? – pergunta ele. – No ensino médio? – Balanço ligeiramente a cabeça e dou uma risada seca. – Não, eu não saía com ninguém naquela época. Ele fica me encarando por um instante, a expressão ao mesmo tempo firme e terna. Então se inclina na minha direção, coloca o dedo sob o meu queixo, levanta a minha cabeça e me dá um beijo doce nos lábios. – Está na hora de comermos. E de conversarmos sobre coisas mais amenas. Quero vê-la sorrir e ouvi-la gargalhar. Quero saber quem é Nicole, qual é o seu filme favorito, por que você adora correr tão cedo e quais são as músicas no seu iPod. Espere aí. Ele dá a volta até o meu lado do carro, abre a porta para mim e me ajuda a sair. Então me dá a mão e entramos no restaurante.


O restaurante é lindo, com uma vista encantadora do rio, a comida deliciosa, e nós rimos e conversamos durante todo o jantar. Falo sobre Nicole, Mike e Kaylee. Conto por que gosto tanto de correr, como cresci me sentindo impotente e como correr faz com que eu me sinta forte e capaz. Ele assente em silêncio, como se entendesse. Parece interessado em tudo o que digo. De tempos em tempos sorri e acena com a cabeça, me encorajando a continuar. Faz com que eu me sinta confortável e interessante. – Você se saiu mesmo muito bem, Evie – comenta. Franzo as sobrancelhas ligeiramente. Como assim? – Sou camareira em um hotel, Jake – digo, como se ele já não soubesse disso. – Jamais se envergonhe do trabalho honesto que você faz para pagar seu aluguel. É muito raro para alguém com o seu passado não repetir o ciclo... drogas, gravidez precoce, abuso doméstico. Tenha orgulho de si mesma. Você merece todo o respeito do mundo. Acho você incrível! – declara ele, me encarando com um olhar lindo e caloroso. Ninguém jamais me disse que tinha orgulho de mim. Nem uma única pessoa. E isso me afeta tão


profundamente que sinto os olhos marejados. Abaixo o olhar, constrangida, e tomo um gole do vinho. – Obrigada – sussurro. Ficamos em silêncio por um instante e, embora eu não tenha a intenção de entrar em detalhes sobre meu passado com Leo, a curiosidade é muito grande. Nas duas últimas vezes em que estive com Jake, ainda estava muito chocada com a notícia da morte de Leo, mas agora me pego dizendo: – Posso lhe perguntar sobre Leo? Os olhos de Jake encontram os meus e ele assente. – É claro – diz. Mas, de repente, parece um tanto cauteloso. – Ele foi feliz? Teve uma vida bacana? Jake demora um pouco a falar. – Não sei como responder a isso. Não o conheci muito bem. Quero dizer, a não ser no que dizia respeito a esportes e festas, esse tipo de coisa. Assinto. Percebo que estou mordendo o lado interno da boca, um mau hábito que achei que houvesse deixado para trás no último lar adotivo. Paro e respiro fundo. – Quando Leo foi embora, ele prometeu que manteria contato comigo e nunca mais me procurou. Tem ideia do


porquê? Jake parece triste, como se estivesse com pena de mim, e era exatamente por isso que eu não queria levantar esse assunto... Mas sinto que tenho que saber. – Lamento. Nem imagino. Não sei como era a vida dele em casa. E a primeira vez que Leo falou sobre você comigo foi quando ele estava no hospital, e já lhe contei tudo o que me disse. Assinto e tomo outro gole de vinho. Tenho a sensação de que tocar no nome de Leo acabou trazendo certa melancolia ao nosso encontro, por isso me recomponho, sorrio para Jake e digo: – Bem, pode parecer meio estranho falar isso, mas, se Leo tinha que mandar alguém, fico feliz que tenha sido você. Estou me divertindo muito. Ele fica em silêncio por um instante, com uma expressão estranha no rosto, mas então sorri e responde: – Também fico feliz por ele ter me mandado. Achei que estivesse fazendo um favor a Leo, mas parece que foi ele que me fez um favor. Depois que recolhem nossos pratos, Jake estende a mão através da mesa, pega a minha e diz: – Podemos nos ver de novo?


Concordo com um aceno de cabeça, os olhos baixos, me sentindo envergonhada. O garçom volta com o cartão de crédito de Jake, que assina o recibo rapidamente e pergunta: – Pronta? Ele se levanta. Sorrio e me levanto também. Jake me ajuda a vestir o casaco, me dá a mão e saímos do restaurante. No caminho para a minha casa, conversamos tranquilamente sobre a cidade e falamos de alguns dos nossos lugares favoritos. Jake me conta um pouco sobre como foi crescer perto da praia e, quando digo que adoraria ver o mar algum dia, ele segura minha mão e diz que gostaria muito de ser a pessoa a me apresentar o oceano. Não respondo, porque acho que é um pouco cedo para fazer planos que envolvam viagens. Seguimos pelos últimos quilômetros em um silêncio tranquilo, o rádio tocando baixinho ao fundo. Estacionamos a meio quarteirão do meu prédio, porque as vagas mais próximas estão todas ocupadas. Jake desliga o carro, mas não desce. Ele me olha e sorrio. Sinto como se o carro fosse um casulo


aconchegante, protegendo a nós dois do resto do mundo. – Você fica tão linda quando sorri... – comenta Jake. De repente, ele já está se inclinando na minha direção, pegando meu queixo e roçando os lábios nos meus com delicadeza. Então, encosta a testa na minha e me encara profundamente. Seu olhar é indecifrável e meu coração começa a bater mais rápido enquanto continuamos a nos fitar. Não sei se estou assustada ou se é a proximidade dele que está fazendo meu sangue correr mais rápido nas veias. É tudo tão intenso e tão rápido... Balanço a cabeça bem de leve e me afasto. – Qual é o problema? – pergunta ele, a voz baixa e gentil. Deixo o ar escapar. – Nenhum, é só que tudo isso é absolutamente novo para mim. Mas sorrio para Jake e ele retribui o gesto. Então me leva até a porta do meu apartamento e, embora tenha começado a noite com um beijo apaixonado, agora me dá um beijo quase casto, roçando os lábios nos meus e abrindo aquele sorriso lindo. Então


me deixa diante da porta aberta, desapontada e querendo mais. No entanto, a não ser que eu me jogue em cima dele – o que eu com certeza jamais faria –, minha única escolha é sorrir e observá-lo se afastar.


c a p í t u lo 1 0

Na manhã seguinte, acordo cedo para correr. Faço 5 quilômetros rapidamente ao redor do parque. A manhã está fria e o céu é uma mistura de tons de amarelo, laranja e azul-claro. Volto para casa e quando vou abrir a porta de entrada do prédio, percebo que a tranca foi consertada. Finalmente! Mas então franzo a testa e olho desconfiada para a nova tranca. Será que é só coincidência o fato de Jake ter ficado irritado com isso apenas alguns dias antes e hoje ela aparecer consertada como se por magia? Entro no meu apartamento pensando a respeito e tomo uma chuveirada rápida, cantando com o radinho


que deixo sobre a pia do banheiro. Me seco e visto o uniforme do Hilton. Meu turno hoje é cedo, e vou trabalhar como garçonete no bufê à noite. Será em uma festa em um dos hotéis mais elegantes do centro da cidade, e eles sempre pagam bem, por isso nunca recuso uma oportunidade desse tipo quando me oferecem. Seco os cabelos e prendo-os em um coque na nuca. Passo uma maquiagem leve e estou pronta para sair. Pego o celular sobre a bancada da cozinha e percebo que há uma mensagem de Jake. Sorrio antes mesmo de lê-la. Jake: Me diverti muito ontem. O que vai fazer hoje? Sorrio e logo digito uma resposta. Eu: Também me diverti muito :) Vou trabalhar nos dois empregos hoje. Só voltarei para casa bem tarde. Pego o casaco e saio. Quando passo pela porta da frente do prédio, lembro da tranca recém-consertada e mando outra mensagem rápida. Eu: A propósito, sabe alguma coisa sobre o conserto


da tranca da portaria do meu prédio? Sento no ônibus e um instante depois ouço o barulho do celular avisando que chegou outra mensagem. Jake: Talvez eu tenha ligado para o síndico e ameaçado processá-lo se ele não consertasse a tranca. Fico feliz por ele ter resolvido o problema. Você deve se sentir segura, sempre. Releio a mensagem e meu coração se aquece. Droga. Gosto dele. Muito. Será que essa história vai terminar bem? Fico sentada mordendo o lado de dentro da bochecha por um instante, pensando naquela situação absolutamente inesperada. Jake é areia demais para o meu caminhão. Nada nele faz sentido e tudo parece gritar “perigo”. Para mim, ter esperança em alguma coisa é assustador. Mas Jake parece gostar de mim de verdade, e diz que sente a mesma energia entre nós que eu sinto. Relaxe, Evie, vocês tiveram um encontro. E agora eu acabei de deixar a mim mesma de mau humor. Finalmente digito uma mensagem em resposta.


Eu: Bem, obrigada. Gostei do que fez. Alguns minutos se passam antes que eu receba outra mensagem. Jake: Faço qualquer coisa por você. Estou indo pra uma reunião. Tenha um bom dia/noite de trabalho. Posso ligar pra você amanhã? Suspiro. Eu: E se eu disser que não? Jake: Eu ligarei mesmo assim. ;) Tenha um bom dia, Evie. Sorrio de novo e guardo o celular na bolsa. Não vou ficar pensando demais nessa história. Com certeza vou ficar pensando demais nessa história. Mas não agora. No momento, estou quase chegando ao trabalho e tenho que dar conta de dois turnos em sequência. Concentrese, Evie.


Termino meu horário no Hilton e pego o ônibus de volta para casa a tempo de tomar uma ducha rápida. Por que lavar o cabelo de novo se vou ficar entrando e saindo da cozinha a noite toda e terminar cheirando a comida de qualquer modo? Deito para tirar um cochilo de uma hora. Ficarei acordada até tarde hoje e, quando possível, gosto de ter pelo menos uma hora para descansar antes do segundo turno. Visto um pijama e vou até a cozinha preparar um sanduíche para o meu lanche. Opto por um recheio simples de peito de peru, queijo e alface. Como com um pedaço de maçã, diante da bancada da cozinha. Então vou para a cama, programo o despertador para as seis da tarde e me deito. Adormeço pensando em Jake. O despertador toca e me arrasto para fora da cama. Sinto que poderia dormir o resto da noite. Mas por enquanto uma hora terá que bastar. Visto o uniforme do bufê – calça preta e uma camisa branca que já está passada e pendurada no meu armário. Dobro meu meio avental com cuidado e coloco-o na bolsa. Penteio os cabelos e volto a prendê-los no mesmo coque baixo que usei mais cedo. Lavo o rosto, escovo


os dentes e passo pouca maquiagem de novo, mas capricho no batom. Afinal, é uma festa à noite e, mesmo estando lá a trabalho, acho que posso me arrumar um pouco mais. O evento só começará às oito, mas minha chefe, Tina, gosta que cheguemos uma hora mais cedo para ajudar a arrumar tudo e a montar as bandejas. Saio de casa às seis e quinze, com tempo de sobra para pegar o ônibus de volta ao centro da cidade. Mais tarde, voltarei para casa de carona com algum outro garçom ou garçonete. Entro pela porta dos fundos do hotel onde acontecerá o evento, como Tina nos orientou, e sigo para o salão e em seguida para a cozinha logo atrás. – Evie! – chama uma vozinha aguda. Sorrio. Reconheceria a voz de Landon em qualquer lugar. Levanto os olhos e lá está ele, vindo apressado na minha direção, remexendo os quadris e balançando os braços. Landon é um amigo gay divertidíssimo e exagerado, que eu amo de paixão. Ele me levanta nos braços e gira comigo, gritando: – Nossa, quando tempo! Estava morrendo de saudade de você, Rostinho Bonito! O telefone não é um


substituto à altura. Por onde diabo você tem andado? Estou às gargalhadas quando ele me coloca no chão. – Ei, foi você que me abandonou – brinco. Mas então o encaro, séria, enquanto caminhamos na direção da cozinha. – Como está sua mãe? Ele suspira dramaticamente. – Quando saí ela estava resmungando sobre o trabalho porco que a moça que limpou a casa enquanto ela estava no hospital fez. Acho que posso dizer que ela está ótima. Landon tinha ido à sua cidade natal, no Missouri, para ajudar a mãe, que sofre de esclerose múltipla e fora parar no hospital dois meses antes. Ele é filho único e muito próximo da mãe, que aceita sua orientação sexual sem nenhuma restrição. Não há nada que Landon não faça por ela. É uma relação linda. – Que bom, Lan – digo. Levanto os olhos para ele e sorrio ao ver que meu amigo continua lindo e louro. – E o que meu Rostinho Bonito andou fazendo enquanto eu estive fora? – pergunta ele, abrindo as portas duplas que levam à enorme cozinha do hotel.


– Ah, o de sempre. Trabalhando, lendo, correndo, saindo com um cara muito gostoso... Começo a andar na frente dele, sabendo que serei puxada de volta. E sou puxada de volta. – O quê? – pergunta com um gritinho esganiçado que só mesmo ele é capaz de produzir. Todos os que estão trabalhando na cozinha olham para nós, reviram os olhos e voltam ao que estavam fazendo. Landon agarra meu braço e me leva até uma mesinha em um canto, em que há um livro de ponto. Assino meu nome rapidamente, me viro para ele e digo: – Para ser sincera, ainda não há muito o que contar. Eu, hã, conheci esse cara meio por acaso há pouco tempo, ele é amigo de um amigo, e... bem, tivemos um encontro ótimo. Ele é muito gostoso. E a coisa está nesse ponto. Mas estou com um bom pressentimento, sabe? – Franzo a testa. – Espere! Droga, não era para eu dizer essas coisas em voz alta, não é? Acabo de atrair má sorte... Landon está me escutando com toda a atenção e fica em silêncio por um instante depois que paro de falar,


com um dedo nos lábios, o quadril para o lado, me encarando com um ar pensativo. Finalmente ele diz: – Escute, Rostinho Bonito. Conheço você há quase quatro anos e, em todo esse tempo, nunca a ouvi sequer mencionar um cara, ou uma garota. Eu aceitaria essa opção também. Eu rio. – Portanto – continua Landon –, esse é um momento histórico. E me fez ganhar a noite. Sei que você não se mostra para o mundo com facilidade. – Ele me encara com uma expressão tristonha. – E sei que tem boas razões para isso. Mas para mim não importa se vai dar em alguma coisa ou não, Evie. Já estou muito feliz só por saber que você está disposta a arriscar. Nossa, como eu amo o Landon. – Obrigada, Lan – retruco, um pouco envergonhada. – E, a propósito, dizer uma coisa em voz alta não faz as coisas darem errado, caso contrário eu estaria gritando o tempo todo que as rosquinhas que como vão direto para o meu traseiro. Droga, estou viciado nas rosquinhas da Krispy Kreme. Não consigo ficar longe delas. Gargalho.


Ele abre o sorriso enorme que só ele consegue dar e diz: – Ah, também descobri uma coisa na minha cidade nesta última vez em que estive lá. Ao que parece, sou um clichê. Olho para ele, confusa. – Como assim, um clichê? – Você sabe, um clichê... o chefe assediando a secretária, por exemplo, é um clichê. – Sim, eu sei o que é um clichê, mas como assim você é um clichê? – Ah, sim. Bem, minha mãe lê muitos romances, e como na maior parte do tempo que passei na casa dela, ela estava dormindo, acabei lendo vários deles. Então ficou muito claro para mim que a garota linda cujo melhor amigo é gay é um tema recorrente. Isso é um clichê. Eu sou um clichê. Caio na gargalhada. – Entendi. Bem, mas dá certo. Acho que por causa da minha beleza inigualável, só posso conviver com homens que não se sintam tentados a me molestar a todo momento. Você é a minha única escolha – digo, então pisco para Landon e dou um tapinha em seu traseiro.


Meu amigo também ri, e deixa escapar um grunhido quando lhe dou um beijo. Uma hora depois, a cozinha está em plena atividade. Tina, uma mulher muito legal de cerca de 50 anos, dona de abundantes cachos louros e de uma risada gostosa, já cumprimentou a todos nós e está ajudando a arrumar as bandejas. Ela é proprietária do bufê e é uma ótima chefe, justa e prestativa, com um senso de humor incrível. Atravesso o salão oferecendo os deliciosos petiscos de Tina aos convidados, todos muito elegantes. As mulheres usam vestidos de noite longos e lindos e os homens vestem belos smokings. É um evento beneficente, para levantar fundos para a pesquisa sobre as várias possibilidades de autismo, então não consigo evitar uma certa simpatia por todos os presentes e os sirvo com um sorriso maior que o habitual. Já dei a volta no salão três vezes e me apresso em voltar à cozinha para encher outra bandeja. Landon está ao meu lado na bancada de aço inoxidável, enchendo a própria bandeja. – Menina, você viu o cara gostoso do outro lado do salão, perto do bar? Quase tive um ataque quando bati os olhos nele. Sério.


Dou uma risada. – Acho que não cheguei tão longe. Minha bandeja sempre chega vazia ao meio do salão. Mas dessa vez vou começar pelo outro lado. Pisco para ele, que sorri. Volto ao salão e vou na direção do bar, para avaliar o tal cara e poder fofocar depois com Landon. Paro junto a um pequeno grupo, sorrio, ofereço guardanapos a todos e estendo a bandeja. Está cheia de wafers salgados, cada um com uma colherada de caviar em cima. Me parece um negócio horroroso, mas as pessoas não param de comer, então o que eu sei, não é? Quando me afasto do grupo, vejo o homem de quem Landon devia estar falando. Ele está de costas para mim, mas mesmo assim já posso dizer que é bonito, com os ombros muito largos, a cintura estreita e uma bunda fantástica. Mas, para azar de Landon, há uma loura de vestido vermelho pendurada no braço do homem. Chego mais perto e, quando o casal se vira na minha direção, prendo a respiração e arquejo alto. É Jake. Ah, não! Droga! Merda! Merda! Merda! Sinto o coração apertado e fico imóvel por um instante, avaliando minhas opções de fuga. Tarde demais,


pois Jake me vê e a princípio fica surpreso, mas logo seus olhos assumem aquela expressão incrivelmente calorosa e ele sorri como se eu fosse uma velha amiga que ele não visse há uma década. Meu Deus! Como sou idiota. Fecho os olhos por um segundo e tento me recompor. Então dou um sorriso que torço para que pareça tão falso quanto realmente é. A decepção e a mágoa apertam ainda mais meu coração. – Evie – diz ele, se desvencilhando da mulher de vestido vermelho e vindo na minha direção, com um ar preocupado. – Não sabia que você estaria aqui. – Os olhos dele estão arregalados e colados em mim. Nossa, ele é lindo. E também é um babaca falso e mentiroso. Antes que eu possa dizer uma única palavra, a mulher o segue e diz: – Jakey, você conhece essa garota? O tom de irritação na voz dela não me escapa. E Jakey? Merda! Merda! Merda! Abafo um gemido. Dou uma olhada rápida nela e detesto admitir que, mesmo furiosa, ela também é deslumbrante. Seu vestido parece ter custado mais do que todas as minhas roupas


juntas, incluindo os sapatos. Então volto a olhar para Jake e sussurro tolamente: – Olá. Nossa, como eu sou idiota! Jake cerra o maxilar e, embora esteja falando com Vestido Vermelho, seus olhos ainda estão colados em mim. – Sim, eu a conheço. Essa é Evie Cruise. – Depois de um instante ele inclina a cabeça na direção da mulher e a apresenta: – Essa é Gwen Parker. Volto a olhar para Gwen e sussurro novamente: – Olá. Mais uma vez, como uma idiota. Gwen cruza os braços na frente dos peitões que parecem feitos de plástico e diz: – Não preciso ser apresentada, Jakey. Só estou surpresa por você conhecê-la. Ela volta a se enganchar no braço dele e me lança um olhar furioso. Jake respira fundo, o maxilar rígido de novo, e não parece nada satisfeito. Imagino que não deva ser nem um pouco agradável as pessoas descobrirem que ele é um babaca falso.


Estou tremendo e preciso ir para bem longe de Jake e Gwen. E quando digo longe, quero dizer para outro país. – Está bem, então. Tenham uma ótima noite. Começo a me virar, mas como estou tremendo muito, minha bandeja se inclina para a frente e um dos canapés desliza pela beirada antes que eu consiga evitar, aterrissando em cheio em cima da linda sandália prateada de Gwen. Por um segundo ninguém deixa escapar sequer um som, e fico paralisada de horror. Então Gwen guincha: – Ah, meu Deus! Você sabe quanto custam essas sandálias? Não, é claro que não sabe! São sandálias de 1.400 dólares! Nossa... Ainda estou paralisada, mas é impossível não registrar que eu nem imaginava que existiam sapatos de 1.400 dólares. Aquela minha estimativa de que todas as minhas roupas juntas deviam valer o mesmo que o vestido de Gwen parece ter sido muito, muito equivocada. E não a favor das minhas roupas. Landon vem correndo até nós, parecendo surgir do nada, e tira a bandeja das minhas mãos. Ao fazer isso, ele cola o rosto brevemente ao meu, os olhos


arregalados, e diz em um sussurro, quase sem mover os lábios: – Você está bem, Rostinho Bonito? Assinto brevemente e me abaixo perto de Gwen, que está usando um guardanapo para tentar limpar o caviar da sandália enquanto pragueja baixinho. – Desculpe – digo. – Por favor, deixe-me ajudá-la a limpar sua sandália. Se me acompanhar até o banheiro feminino, posso usar um pano para limpá-la. Aposto que vai ficar perfeita. Ela me olha com raiva, mas se levanta assim mesmo e sibila: – Está certo. Jake está parado observando a cena, o maxilar mais cerrado do que nunca. Se continuar assim por muito tempo, vai acabar deslocando a mandíbula. Landon se adianta de novo e oferece uma taça de champanhe a Jake, enquanto levo Gwen na direção do banheiro feminino. Quando chegamos, faço sinal para ela se sentar na poltrona. Gwen tira a sandália e me entrega, ainda emburrada. Pego um pacote de lenços umedecidos na cesta de brindes para os convidados e limpo


completamente a parte de cima do calçado. Depois estendo um dos lencinhos a Gwen, para que ela possa limpar a parte de cima do pé. Quando termino, estendo o sapato de volta para ela e digo: – Está como nova. Eu sinto muito, muito mesmo. Espero não ter estragado sua noite. Estou apenas sendo gentil. Na verdade, espero ter estragado completamente a noite dela, porque o sentimento com certeza é mútuo. Gwen ignora meu comentário, calça a sandália e vai até a pia para lavar as mãos. Lavo as minhas na pia ao lado. – Sabe de uma coisa? – diz ela, por fim. – Jake adora uma causa nobre. Entendo por que ele é amigo de alguém como você. Ela seca a mão e se vira. – É mesmo uma gracinha. Mas não crie ilusões, está certo? No fim das contas, é para a minha cama que ele vai e sou eu que o levo à loucura. Com isso, ela passa por mim, esbarra de leve na lateral do meu corpo e sai. Não vou chorar. Não vou chorar.


Droga, Leo. Por que você mandou justo esse cara? Ele me enganou direitinho. Toda aquela conversa de você sente o mesmo, Evie, para cá, ou você é tão incrível, Evie, pra lá, e... Meu Deus! Ele tem namorada! Pensar nisso me faz ter vontade de chorar de novo. Fico apoiada contra a parede do banheiro, respirando fundo e tentando dominar minhas emoções antes de sair dali. Volto à cozinha. Landon está lá. Ele me puxa para o lado e sussurra: – CACETE, Evie, é ELE, não é? Tipo ele, ele. CACETE, ele estava, tipo, andando de um lado para outro depois que você foi para o banheiro com a Barbie Vadia. Meu bem, a expressão do homem era trágica. O QUE está acontecendo? Suspiro, pego a mão dele e o levo de volta à bancada em que pegamos as bandejas cheias. – Obviamente ele tem uma namorada, Landon. E devia estar se borrando de medo de que nós duas descobríssemos o saco de bosta que ele é. É claro que sou uma idiota por ter ficado toda derretida por um cara depois de um único encontro e de algumas palavras melosas, enquanto ele estava só... nem sei o que ele


estava fazendo. É exatamente por isso que não preciso desse tipo de coisa. Nossa, foi tão humilhante! Franzo a testa e fecho os olhos por um instante antes de voltar a encarar Landon. Ele me olha com uma expressão triste e aperta a minha mão. – Evie, lembre-se do que eu lhe disse mais cedo. Não importa como essa história termine, estou feliz pra cacete por você ter arriscado. Está me escutando, Rostinho Bonito? – Landon segura meu rosto entre as mãos, me fita por um instante e sussurra: – Meu Deus, você é tão linda... Não é de espantar que o Diabo de Vermelho a estivesse fuzilando com o olhar. Consigo abrir um sorriso sincero para Landon, porque ele é tão, tão fofo... e também aperto a mão dele. – Ei, você acha que tem problema se eu ficar aqui abastecendo as bandejas, em vez de trabalhar no salão? – Acho que ninguém vai se importar. Além do mais, o coquetel está quase acabando e o jantar já vai ser servido. Por que alguém iria querer jantar às nove da noite está além da minha compreensão, mas acho que o tipo de pessoa que pode pagar 1.400 dólares por uma sandália faz as próprias regras.


– Ah, meu Deus! Você ouviu aquilo? – digo, ainda incrédula, enquanto encho uma bandeja com folheados que parecem deliciosos. – Ouvi. Mas, querida, na semana passada vi umas sandálias de tiras muito mais bonitas numa loja por 29 dólares. Só não comprei porque não tinha o meu número. Caio na gargalhada. Landon pisca para mim e segue em direção à porta. Passo o resto da noite na cozinha enchendo as bandejas com os pratos do jantar, para que os outros sirvam. Já estou nas sobremesas quando Tina aparece e comenta: – Evie, querida! Ouvi dizer que você derramou caviar no pé daquela loura alta, de vestido vermelho! Fico paralisada. Ah, não. Viro lentamente na direção de Tina e faço uma careta. – Derramei, Tina. Foi sem querer. Depois eu limpei o sapato para ela e ficou como novo. – Querida – continua ela, com um sorriso malicioso no rosto –, pareço estar chateada? Aquela mulher me


parece muito sem graça. Só lamento que você não tenha acertado os dois pés. Ela dá um apertão no meu ombro e sai da cozinha apressada. Deixo escapar um suspiro de alívio. Nossa, como Tina é incrível. Depois que o jantar é servido, inclusive o café, garçons e garçonetes são liberados para ir embora. Há outra equipe que cuida da limpeza e eles já estão em plena atividade na cozinha. Estou lavando as mãos na pia da cozinha industrial quando Landon volta. Percebo que está com a testa ligeiramente franzida enquanto caminha na minha direção. – O que houve? – pergunto. – Um passarinho me deu isto e pediu que eu entregasse a você e que lhe dissesse que é sua nova favorita. E preciso lhe falar uma coisa, Evie. Ele é gostoso, mas é estranho – comenta Landon, então me entrega uma bala de menta que reconheço como uma das que ficam nas cestas de brindes do banheiro. Franzo as sobrancelhas enquanto encaro o papel branco, simples, que embrulha a bala. Do outro lado do


pequeno embrulho estรก escrito em letras fortes: A melhor bala de menta do mundo. Fico encarando a bala por mais algum tempo, sem saber exatamente o que pensar. Por fim, jogo-a no lixo e volto ao trabalho.


c a p í t u lo 1 1 EVIE, 12 ANOS LEO, 13 ANOS

stou deitada no telhado abaixo da janela do meu quarto, olhando para o céu claro de verão. Adoro olhar para as estrelas porque elas me fazem acreditar que algumas coisas no mundo são permanentes. Eu me mudei para este lar adotivo há um ano e gosto bastante daqui. Meus novos guardiães tomam conta de três crianças, mas tenho um quarto só para mim, porque as outras duas meninas são irmãs e dividem um quarto. Meu espaço é pequeno – uma antiga área de serviço reformada –, mas tem uma janela que dá para uma parte pouco inclinada do telhado, e adoro vir até aqui e ficar deitada olhando para o céu.


Meus novos responsáveis claramente só nos recebem por causa do dinheiro que ganham como auxílio para cuidar de nós. Ainda assim, não são pessoas más; só não têm interesse pelas crianças, o que não é problema para mim. Na verdade, é até bom. Uma pedrinha atinge o telhado, ao meu lado, e sorrio. É o sinal de Leo de que está subindo. Posso ouvi-lo escalar a treliça e depois se arrastar pelo telhado até se deitar ao meu lado. Leo está usando um short de ginástica largo e reparo em seus joelhos ossudos de menino. Olho para ele e vejo que está com a testa franzida. – Qual é o problema, Leo? – pergunto. O rosto dele assume uma expressão de irritação e ele responde: – O que eu fiz para que ele me deteste tanto, Evie? Além de existir, é claro. Rolo o corpo na direção dele e apoio a cabeça no meu braço dobrado. – Leo... Mas ele me interrompe: – Ele mandou meu irmão morar naquele buraco do inferno só para me atormentar. Não tinha nada a ver


com Seth, tinha a ver COMIGO. Ele me odeia tanto que não consegue pensar direito e acaba magoando um garotinho inocente. Meus olhos se enchem de lágrimas, porque sei que ele está certo. Descobri, ao longo dos dois anos em que conheço Leo, que o pai dele é a própria encarnação do mal. O grande erro de Leo é ser o fruto de uma traição da mãe dele. E por causa do seu terrível pecado – ter sido GERADO –, o pai assumiu a missão de fazê-lo sofrer. O segundo erro de Leo foi amar o irmão mais novo, Seth, diagnosticado com uma severa forma de autismo e retardo no desenvolvimento. Como o pai de Leo sabia do amor de Leo por Seth, usava o garotinho para atingi-lo. Jogava garrafas de cerveja na cabeça de Seth, deixava o garoto sozinho o dia inteiro, largado à própria sorte enquanto Leo estava na escola, sem ter como tomar conta do irmão. Maltratava Seth de todas as maneiras possíveis, sempre para atingir Leo. O mais cruel era que Seth era sangue do sangue dele, mas o pai só o via como uma arma para usar contra a personificação de sua raiva e humilhação. – Colocaram Seth em uma instituição pública.


Ouço lágrimas na voz de Leo, por isso chego mais perto, colo o corpo ao dele e pego sua mão. – Aquele lugar vai matá-lo. Leo fora parar em lares adotivos por conta de uma surra fenomenal que o pai lhe dera depois que Leo aproveitara o sono do homem para tentar sufocá-lo. Leo fez isso porque o pai tinha ameaçado mandar Seth embora. Ele admitiu para mim que sabia que não levaria a tentativa de assassinato até o fim, mas estava com tanto ódio e com tanto medo de que o irmão fosse mandado para longe que quis desviar a atenção do pai para si mesmo. Já disse a Leo milhares de vezes como o acho corajoso, mas ele não acredita em mim. – Não me importo com nada relacionado a mim. – Leo suspira. – Só não quero que meu irmão pague por isso, e é o que vai acontecer agora, porque a minha mãe assinou os papéis autorizando a levarem Seth, apesar de eu saber que foi ideia daquele saco de bosta, para que ele pudesse voltar para cassa. E com certeza a noção de que isso me magoa só o deixou mais feliz. Não digo nada, mas a verdade é que, com Leo fora de casa, cuidar de Seth provavelmente é muito trabalho para eles. Antes de ser mandado para lares adotivos,


Leo fazia tudo pelo irmão, desde trocar suas fraldas até brincar com ele, dar-lhe banho e colocá-lo na cama toda noite. – Hoje, no tribunal, aquele filho da puta passou por mim no corredor e sussurrou “Seth se FOI, garoto. Espero que ele consiga aguentar...” Depois saiu rindo. Rindo, Evie! E minha mãe não é melhor do que ele. Ela se arrasta atrás do desgraçado como se ele a houvesse hipnotizado com aquela personalidade encantadora dele... As lágrimas agora correm pelo rosto dele, e continuo a segurar sua mão como se fosse minha tábua de salvação. – Você sabe que a única razão para eles terem aparecido hoje no tribunal foi para choramingar com o juiz sobre o azar na vida, por terem um filho que não presta para nada como eu, enquanto o outro é retardado. Talvez achassem que o juiz iria sentir pena deles e mandar os dois de férias para algum país tropical ou algo do tipo. Leo deixa escapar uma risada triste, amarga. – A questão, Evie, é que tentei proteger Seth a qualquer custo, mas sou tão imprestável que nem isso eu


consegui. O desgraçado está certo a meu respeito. Eu arruinei tudo. Acabo sempre fazendo alguma coisa para destruir todos os que me amam. No fim, ferro com tudo porque é assim que eu sou. Eu já tinha ouvido o bastante. – Pare com isso – falo em um tom gentil, e depois continuo com mais firmeza: – Pare! Você está errado, Leo, e não vou deixar que aquele lixo de ser humano o convença de que você não presta para nada. Você é corajoso, forte, nobre. Você é o meu Leo. Ele fica em silêncio agora, a respiração normalizada, mas o corpo ainda tenso. – Me conte uma história, Evie – diz, por fim. Respiro fundo e, por mais que pareça quase impossível, chego ainda mais perto dele. É uma noite quente de verão e já estou suada por causa da nossa proximidade, mas não me afasto. Ficamos em silêncio por vários minutos, até que me deito de costas e começo: – Era uma vez uma linda mulher que, apesar de seu rosto de anjo, era vazia por dentro. Bem no lugar onde deveria estar o coração havia apenas um enorme buraco. Devido a esse defeito, um ogro, feio por dentro


e por fora, conseguiu conquistar a mulher e ela se casou com ele. Um dia, ela precisou se afastar dele, porque não suportou mais sua personalidade e seu rosto feio. Até mesmo pessoas vazias têm um limite para suportar tanta feiura. Faço uma pausa rápida e continuo: – A mulher caminhou sem parar até chegar a um prado tranquilo e se deitou lá no meio, aproveitando o silêncio da noite. O que ela não sabia era que havia uma grande fera à espreita, um leão enorme, com a juba dourada e o rugido ameaçador de uma centena de leões. Enquanto a mulher linda, mas vazia, continuava deitada no campo, a fera se aproximou dela em silêncio, e quando a mulher abriu os olhos e o viu, ficou fascinada porque nunca se deparara com nada parecido com aquele leão. A fera pousou a pata enorme sobre ela para mantê-la deitada. Estranhamente, a mulher não sentiu medo, apenas curiosidade. Quando amanheceu, a bela acordou e achou que a noite anterior havia sido apenas um sonho. Mas a mulher agora estava grávida, de um menino. E esse lindo menino receberia os maiores dons dos pais: a beleza da mãe e o coração do pai, o coração de um leão.


Ficamos os dois quietos por mais um longo tempo. Então Leo vira o corpo na minha direção e me encara com olhos ardentes. – Eu te amo, Evie – sussurra ele. – Também te amo, meu Leo – murmuro em resposta.


c a p í t u lo 1 2

Landon me dá uma carona até em casa. Ele me convida várias vezes para tomar uns drinques para fechar a noite, mas só quero mesmo é me enfiar na minha cama e me esquecer do mundo. Não vi mais Jake depois do incidente do caviar, mas acho que foi melhor assim. Vê-lo com Gwen só aumentaria meu sofrimento e minha humilhação. E seria mais uma lembrança de quanto eu fui ingênua. Landon estaciona diante do meu prédio, me dá um abraço e me pede para ligar para ele no dia seguinte. – Tenho toneladas de pó para limpar no meu apartamento e quilos e quilos de roupa para lavar, mas se


precisar de companhia, posso deixar toda essa diversão de lado em um piscar de olhos. – Ele sorri e eu retribuo. – Amo você, menina – diz ele. – Também amo você, Lan – respondo, e saio do carro. Destranco a porta da frente do prédio e, é claro, meus pensamentos vão direto para Jake. Pensar no que ele e Gwen devem estar fazendo neste instante faz com que eu me encolha. Entro em casa e tomo uma ducha rápida. Depois escovo os dentes, visto uma camiseta velha e um short e me enfio na cama. Eu deveria ter imaginado que um homem bonito, seguro e bem-sucedido como Jake Madsen, que pode ter qualquer mulher, não escolheria uma garota como eu. Enrodilho o corpo ao redor do travesseiro e, finalmente, me permito chorar.

Acordo cedo na manhã seguinte e, mais uma vez, me arrasto para fora da cama. Tomo um banho, visto o uniforme do Hilton e seco os cabelos antes de prendê-los


em um rabo de cavalo. Coloco só um pouquinho de maquiagem e saio de casa para pegar o ônibus. Meu turno passa rapidamente, como de costume, e, ao meio-dia, meu humor já melhorou. Estava bem antes de Jake Madsen entrar na minha vida e vou ficar bem agora. Já sobrevivi a coisas piores, muito piores. Deixo o hotel pela saída de empregados e estou descendo o quarteirão na direção do ponto de ônibus quando um BMW prata emparelha comigo. Levanto os olhos e lá está Jake, sorrindo para mim enquanto se inclina por cima do assento do passageiro. Meu coração salta no peito e começa a bater disparado, mas mantenho o rosto impassível. – Quer uma carona, gatinha? – pergunta ele, erguendo as sobrancelhas. – Muito engraçado. Não, Jake. Prefiro ir de ônibus. – Continuo a caminhar. – Evie, precisamos conversar – diz ele, mas continuo andando. Ele só pode estar maluco. – Não, Jake, não precisamos – retruco sem olhar na direção dele.


Como há carros estacionados ao longo do meio-fio desse ponto em diante, Jake seria forçado a estacionar e sair do carro se quisesse continuar a falar comigo. É o que ele faz. Droga. Sento no ponto de ônibus e ele me alcança. – Evie – começa, a testa franzida. – Escute, o que você viu ontem à noite não foi o que você pensou que era. – Jake – interrompo. – Foi um dia longo. Estou pedindo pra você deixar isso pra lá, está certo? Você deveria ter me dito que tinha namorada. Não disse. Acabou. Vá embora. Eu me viro e vejo que o ônibus está vindo. – Gwen não é minha namorada, Evie. Esperava que tivesse uma ideia melhor a meu respeito depois do tempo que passamos juntos. Que seja, namorada, casinho, não interessa. Simplesmente não estou disposta. – Vou pedir de novo, Jake. Vá embora. – Não, Evie – diz ele, em voz baixa, atrás de mim. Agora estou furiosa. Muito cansada e... furiosa. Passei o dia limpando a sujeira de gente metida que acha que pode fazer o que quiser porque sempre vai ter


alguém de um nível mais baixo para resolver. E estou farta disso. Merda. Farta. Só o fato de Jake Madsen um dia já ter aparecido na minha porta de repente me irrita. Eu estava indo BEM! E agora aqui está ele, em seu BMW idiota, vestindo um terno idiota, com a namorada/casinho, seja o que for, idiota, em suas sandálias de 1.400 dólares, que acha que pode falar comigo como se eu não tivesse nenhum valor. E o que diabo ele quer de mim exatamente? Porque a questão é que eu já cansei de ficar só imaginando. Já cansei de Jake Madsen. Levanto, olho direto no rosto dele e despejo minha fúria: – Só para você saber, Jake: você não me conhece. Acha que conhece, mas está redondamente enganado. Portanto, não continue com isso, não continue a aparecer do nada achando que serei grata por você estar me agraciando com a sua presença. Depois de ontem, acho que está bem claro que não há razão para você estar aqui. Então estou lhe pedindo de novo para termos esta conversa em outro momento, tipo nunca. Tento me virar, mas ele pega minha mão e me puxa com delicadeza. Não tenho escolha a não ser me voltar


de novo para encará-lo. Nesse momento, reparo na intensidade de seu olhar. Ele me puxa mais para perto e diz rangendo os dentes, mais para si mesmo: – Não era minha intenção fazer isso em uma esquina, mas essa garota teimosa vai me obrigar. Então ele suspira e permaneço encarando-o de olhos arregalados, porque, sinceramente, de que outra forma eu poderia reagir sem fazer uma cena? Isso sem falar que estou muito cansada, não sei se já mencionei isso. Jake me fita por mais alguns instantes e sua expressão se suaviza antes de ele continuar: – Você acha que não conheço você, Evie? Vou lhe dizer o que sei a seu respeito. Naquela semana que passei seguindo você, soube que você pega um maldito ÔNIBUS para ir à casa de um senhor deixar cookies. Fico perplexa por um instante e depois balanço a cabeça, confusa. – O Sr. Cooper? – Minhas sobrancelhas estão franzidas agora. – Ele morava perto da casa em que vivi por quatro anos. Sempre foi gentil comigo. É viúvo. Solitário. E gosta muito de cookies com gotas de chocolate.


– Você leva duas horas de ônibus para ir e voltar, Evie – observa ele, a voz gentil. Respiro fundo. – Jake, tenho certeza de que você deve ter algum motivo para levantar esse assunto, mas... – O cara do outro lado do corredor, no seu prédio, iria me matar antes de me deixar sequer pensar em deixar você desconfortável de algum modo. – Maurice? – pergunto, e agora meu rosto é uma careta, porque estou absolutamente confusa. – Ele é mesmo do tipo protetor. – Como o cara de ontem à noite, que me fuzilou com o olhar quando achou que eu havia desrespeitado você em público? – diz Jake, delicadamente. – Landon? Ele é um dos meus melhores amigos. Ele... – Evie, acho que você não está entendendo o que estou querendo dizer, e vou ser mais claro, meu bem. Meu bem? Ele acabou de me chamar de meu bem? Um arrepio sobe pela minha espinha e não gosto nada disso. Não deixe que ele a enfeitice de novo, Evie. A expressão de Jake ainda é intensa, mas quase dolorosa quando ele volta a falar:


– Você diz “por favor” e “obrigada” para todo mundo, Evie. Quase esbarrou em um cachorro na rua e, quando desviou dele, disse “com licença”. Para um cão. E aposto que nem pensou duas vezes a respeito. Isso acontece porque sua boa educação está tão arraigada em você que faz parte da sua natureza. E, pelo que sei do seu passado, posso imaginar que ninguém tenha lhe ensinado essas coisas. Tudo isso vem de você. Estou sem fala, olhando para ele estupefata. – O que eu sei a seu respeito é que as pessoas que têm a sorte de contar com a sua confiança e com a sua amizade a protegem ferozmente, com a própria vida se preciso. E isso acontece porque você se dá a elas, e elas sabem que, se têm você, isso não é pouca coisa. Ele faz uma pausa rápida e continua: – E, Evie, quando você se afasta das pessoas, mesmo de estranhos, precisa saber que os olhos delas a acompanham. E vou lhe dizer o porquê, já que eu mesmo também me sinto assim. É porque elas não querem ver sua luz saindo de perto delas. Querem ver você indo na direção delas, e que fique com elas. – Eu...


– Então, talvez eu não saiba qual é o seu prato favorito nem o dia do seu aniversário. Mas o que sei a seu respeito é lindo, Evie, e isso faz com que eu tenha certeza de que quero saber mais. Jake se adianta, agora, e ficamos nos encarando no meio da calçada, em um ponto de ônibus. Mas a impressão que tenho é que estamos na lua. – Hã, Jake – digo. – O que é, Evie? – Perdi o ônibus. Vou precisar de uma carona. Ele fica me olhando em silêncio por um instante, até que o rosto lindo se abre em um enorme sorriso. Uau... Não dizemos mais nem uma palavra enquanto ele me leva até o carro. Jake abre a porta do passageiro e eu entro. Ele dá a volta e se acomoda atrás do volante, tudo isso com uma graça fluida, então sai com o carro, olha para mim e pede: – Quero que ouça o que tenho a dizer sobre ontem à noite. Mordo o lado interno da boca e, quando me dou conta do que estou fazendo, paro e olho para ele de


relance, tensa. Sim, ele está me enfeitiçando de novo. Mas estou alerta. Jake continua: – O pai de Gwen é diretor financeiro da empresa do meu pai. E com “empresa do meu pai” na verdade quero dizer “minha empresa”, porque essa é a realidade agora. Mas meu cérebro ainda está se adaptando a essa transição. Ele fica em silêncio por um momento. – De qualquer modo – continua –, conheço Gwen e o pai dela há muito tempo e, ao longo dos anos, Gwen e eu saímos algumas vezes, embora eu sempre tenha deixado claro para ela que não estava interessado em nada mais do que tínhamos... e tínhamos muito pouco. Gwen, por sua vez, deixou claro que estava interessada em mais, e ela foi criada para acreditar que podia ter o que quisesse e que, se choramingasse o bastante, acabaria conseguindo. Jake faz mais uma pausa e enfim prossegue: – Quando me mudei para cá, tentei ser amigo dela porque, apesar de Gwen ser mimada e superficial, eu a tratei de forma bastante desrespeitosa ao longo dos anos. Fiz isso em parte porque sentia que sacaneando Gwen eu estava, por tabela, sacaneando o meu pai, que ficava


constrangido com o modo como eu tratava a filha de um colega de trabalho dele. Jake volta a ficar em silêncio por um instante, então franze a testa ligeiramente e me pergunto o que ele deve estar pensando, mas continuo quieta. – Eu havia combinado de ir com Gwen ao evento de ontem há meses, e não tinha como desmarcar. É uma causa importante para mim, e achei que não haveria nenhum problema em levá-la comigo, como planejado. Assim que chegamos, percebi que havia cometido um erro, e isso foi antes mesmo de eu ver você lá. Não quero ficar satisfeita com isso, mas é o que acontece. Nossa, como estou achando isso bom. Mas o encaro com a testa franzida. – Gwen fez parecer que as coisas com você estavam muito íntimas – comento, olhando para a frente. – Isso é porque ela viu o modo como olhei para você, viu como você é bonita. Ela fez o que achou que funcionaria para manter você afastada de mim. Sei que Gwen a fez se sentir inferior, porque ela é mestre nisso. Mas, Evie, você poderia estar usando um saco de batatas e ainda assim teria mais classe do que Gwen com todos aqueles acessórios e aquele vestido de grife. E ela sabe


disso. E odeia saber. Foi por isso que ela quis diminuir você. Ele fica em silêncio novamente, antes de concluir: – Quase morri por não poder invadir aquela cozinha e explicar a situação para você, mas você estava trabalhando e eu não queria piorar ainda mais as coisas. Lembro-me da minha sensação depois que Gwen saiu daquele banheiro, de como me senti humilhada e magoada. Penso no orgulho que Jake me fez ter por trabalhar duro para me sustentar, mas naquele momento fiquei profundamente envergonhada não só do que faço, mas de quem sou. E essa vergonha arrasadora é o mesmo sentimento que me acompanhou pela maior parte da minha infância. Então abaixo os olhos para o meu uniforme do Hilton, para os sapatos gastos e olho ao redor, para o interior luxuoso do carro de Jake. – Jake – começo a dizer –, talvez eu não seja... Mas ele estaciona em uma vaga na frente do meu prédio, desliga o carro e vira o rosto lindo para mim. – Não, Evie. Antes de começar, pense se o que está prestes a dizer não vai contra tudo o que eu acabei de lhe falar na última meia hora. Se for o caso, simplesmente esqueça, está certo?


A expressão dele está cheia de ternura e meu coração bate mais forte. Fico encarando-o por um instante, então concordo: – Está certo. Ele sorri de novo para mim com aqueles dentes perfeitos e diz: – Boa resposta. Então Jake sai do carro, abre a porta para mim e me informa: – Passo para pegá-la hoje às seis e meia, e vou preparar o jantar para você. Gosta de bife? – Gosto – sussurro. – Você trabalha amanhã? – Não, é meu dia de folga. Jake me leva até a porta e, como fico parada ali, olhando para ele, sem me mexer, ele pega as chaves da minha mão, abre a porta e me dá um empurrãozinho para dentro. Então diz: – Vejo você mais tarde. E, Evie, arrume uma bolsa para passar a noite fora. – O que... – balbucio, mas ele já se foi.


c a p í t u lo 1 3

Entro no meu apartamento ainda zonza. Como esse dia conseguiu dar essa virada de 180 graus desde que acordei? Como esse homem, em um período tão curto de tempo, conseguiu assumir o controle de toda a situação? Meus nervos ameaçam colocar tudo a perder, mas me controlo. Confio em Jake. Quero isso. Sorrio e passo os braços ao redor do meu corpo depois de fechar a porta. Sento no sofá, mordendo o lábio distraidamente e pensando... eu não estava sendo ingênua. Minha intuição me disse para confiar em Jake e eu não estava errada. O alívio toma conta de mim, não apenas porque gosto dele, mas também porque sobrevivi


até aqui graças ao meu instinto em relação às pessoas. Isso é uma das coisas mais importantes que possuo... uma das únicas coisas que possuo. Às seis, estou de banho tomado, depilada e com cada centímetro da pele hidratado. Visto minha melhor calça jeans, junto com um suéter justo marrom-escuro com um decote em V que, embora seja de bom gosto, ainda assim mostra bastante do meu colo. E calço as botas marrons de salto alto. Meu cabelo está escovado e cai pelas minhas costas. Também apliquei uma maquiagem discreta. Arrumei uma bolsa pequena para passar a noite fora, com uma nécessaire básica e uma muda de roupa limpa para voltar para casa amanhã. Não tenho ideia do que levar para dormir, então jogo na bolsa uma calcinha a mais e minha única camisola decente, já que na maioria das vezes durmo de camiseta. Fecho o zíper antes que eu perca a coragem e resolva fugir para o México, para ajudar no combate à guerra contra as drogas – o que, neste momento, me parece uma opção muito menos assustadora do que passar a noite com Jake Madsen. Antes que eu tenha um ataque, resolvo ligar para Landon e assim que ele atende e diz “Rostinho Bonito!”,


eu disparo logo: – Vou passar a noite com Jake. Há um instante de silêncio e então: – Uau. Vamos voltar um pouco. No último capítulo desta novela, ele estava com a Barbie Vadia pendurada no braço e você estava limpando o pé dela. – Não limpei o pé dela – retruco. – Só o sapato. E, de qualquer modo, você perdeu o capítulo em que ele me pegou no trabalho, explicou que ela é filha de um parceiro de negócios e que eles tiveram um rolo ao longo dos anos. Agora a mulher quer Jake, mas ele não está interessado nela. Ele já tinha combinado de ir com ela ao evento de ontem à noite há muitos meses e não podia dar pra trás. Ah, e ele gosta de mim, tipo, gosta de verdade, e quer me conhecer melhor. E por conhecer melhor leiase “quero saber se você gosta de filmes de drama ou de ação”, mas também “arrume uma bolsa porque você vai passar a noite comigo.” – Espere – diz Landon –, isso foi o resumo do capítulo de ontem da novela ou o que aconteceu com Jake desde ontem à noite? – Muito engraçado – resmungo. – Você não está ajudando, Lan. Estou apavorada. Minha vida não é


assim. Essas coisas não acontecem comigo. No último sábado à noite, eu estava aconchegada no meu sofá, com um bom livro e pensando seriamente em arrumar um gatinho, pois vinha me sentindo um pouco solitária. Pensei que talvez houvesse um gatinho fofinho no abrigo de animais precisando de um lar, mas me perguntei se meu orçamento comportaria as despesas com veterinário. Essa foi minha maior preocupação na semana passada, Landon. – Muito bem, Rostinho Bonito, acalme-se. Você está começando a me deixar um pouco preocupado. Primeiro de tudo, você não precisa fazer nada se não estiver preparada, está bem? – Bem... mas a questão é que eu acho que quero. Isso é o mais louco. Gosto dele. Jake é gentil, atencioso, mas também é intenso, meio mandão... e ele me assusta um pouco, mas ao mesmo tempo faz com que eu me sinta bem, com que tenha confiança em mim mesma. Enfim, faz com que eu me sinta especial. E eu, bem, acho que quero dar uma chance a essa história. É loucura? Landon volta a ficar em silêncio por um instante, então diz:


– Não, não é loucura de jeito nenhum. Caramba, minha garotinha está crescendo. Esse Jake é um baita cara de sorte. Você sabe disso, não sabe? E, meu bem, você é especial. – Obrigada, Lan – sussurro. – Muito bem, agora vamos ao que interessa. Que calcinha você está usando? – Hum, de renda vermelha. Com sutiã combinando. Nicole tinha me dado dois conjuntos de calcinha e sutiã sexy de presente de aniversário de 21 anos. Na época ela disse que aquele era o meu ano e que tinha a sensação de que eu iria precisar de uma lingerie incrível. Minha amiga não foi tão precisa assim, mas agora eu não poderia estar mais aliviada por ter uma lingerie bonita para usar. Passar a noite com Jake não significava obrigatoriamente que faríamos sexo, mas havia uma chance de ele ver minha calcinha e meu sutiã essa noite. Ah, meu Deus! Pânico! – Perfeito. Onde vocês vão? – Jake vai cozinhar para mim na casa dele. – Cozinhar para você, hein? Sexy. Escute, bonitinha, meu melhor conselho para você é: relaxe e deixe as coisas fluírem. Se você se sentir confortável, vá em


frente. Caso contrário, deixe claro que não está pronta. E se ele gostar de você como você diz que gosta, vai deixar que determine o ritmo. – Está certo – sussurro. – Você sabe que eu amo você, não é, Landon Beck? – Eu sei, Rostinho Bonito. Como poderia não amar? Sou adorável. Eu rio e, nesse momento, a campainha toca. – Ele chegou! Preciso ir. Ligo para você amanhã – sussurro. – Está certo, meu bem. Se não ligar, vou sair por aí caçando você. Ah, também te amo – diz ele, e desligo rapidamente. Abro a porta e Jake sorri ao ver a bolsa de viagem na minha mão. E, meu Deus, será que algum dia vou me acostumar com o fato de ele ser tão bonito? Jake é tão grande, tão forte, e quero fazer coisas bem sacanas com ele... E, céus, nem me reconheço mais. Vá com calma, Evie! Jake sai comigo do apartamento e, quando vejo um movimento atrás do buraco da fechadura de Maurice, bato na porta e digo: – Boa noite, Maurice.


Continuo andando com Jake em direção à frente do prédio e logo ouço a resposta: – Boa noite, Evie. Jake segue para o apartamento dele, no centro da cidade. No caminho, me conta um pouco como foi seu dia de trabalho, que basicamente parece ter sido uma reunião atrás da outra. Ainda no carro, lembro de uma coisa e pergunto: – Falando em trabalho, como você sabia a que horas eu iria sair do trabalho hoje? – Liguei para o Hilton e disse que iria pegar você depois do expediente e que havia esquecido a que horas você iria sair – diz ele. – Hum, ardiloso. Acho que na verdade eles não deveriam lhe dar essa informação. – Sou muito persuasivo. – Ele pisca para mim. – Sim, acho que já percebi – resmungo. Entramos em uma garagem no subsolo e Jake para o carro em uma vaga marcada. Ele me ajuda a sair e pega minha bolsa de viagem. Jake usa um cartão para abrir a porta que leva a uma escada nos fundos e então me conduz até um lindo elevador, forrado com painéis de madeira. Digita um


código simples – não posso deixar de perceber que é 12-3-4, o que não me parece lá muito seguro, mas isso não é problema meu – e aperta o botão da cobertura. Quando saímos do elevador, só há uma porta, o que significa que o apartamento de Jake ocupa todo o último andar. Uau! Ele abre a porta para mim e observo o espaço à minha frente. Há janelas altas em todas as paredes e através delas tem-se uma linda vista da cidade. À nossa esquerda está uma cozinha moderna, claramente equipada com o que há de melhor, com armários pretos, bancadas de granito preto e eletrodomésticos de aço inoxidável. A mobília é contemporânea, toda em linhas retas e com poucos detalhes. A paleta de cor é formada basicamente por preto e cinza, com toques de branco. É tudo muito chique, elegante e caro... e eu detesto o resultado. É frio. Jake está me observando e diz: – É um condomínio corporativo. Você não gosta. É tão fácil assim perceber o que estou pensando? – Não, não – respondo. – É muito elegante. Só estava imaginando que precisa de um pouco de calor.


Talvez algumas almofadas coloridas jogadas por aí, ou algo parecido. Ai, meu Deus, estou mesmo dando conselhos de decoração a Jake? Cale a boca, Evie. Mas ele sorri. – Concordo. Mas não sei quanto tempo ficarei aqui. Mais para a frente, gostaria de comprar um lugar para mim. Entramos na sala, ele pega meu casaco e vou até a janela para olhar a cidade sob o céu do crepúsculo. Sinto o calor de Jake antes mesmo de o corpo dele encostar no meu, por trás. Jake passa os braços a meu redor e me puxa contra o peito firme. Por algum motivo, mesmo ciente de que nos conhecemos há tão pouco tempo, me sinto absolutamente à vontade com ele. Me derreto toda contra o corpo másculo. Ficamos parados desse jeito por vários minutos, em silêncio, o delicioso odor amadeirado dele enchendo as minhas narinas. Realmente preciso descobrir o nome do perfume que Jake usa, para saber quem o criou e indicar a pessoa algum tipo de prêmio Nobel. Jake abaixa a cabeça, afasta meus cabelos para o lado e sinto seus lábios contra a minha nuca. Estremeço.


– Meu Deus, Evie – sussurra ele –, sua pele é uma delícia. E seu perfume é tão gostoso... Você acaba comigo. E ainda nem tive você. O que isso fará comigo? Enrijeço ligeiramente o corpo. – Jake – começo a dizer, virando e passando os braços ao redor do pescoço dele. Inclino a cabeça para trás até fitá-lo direto nos olhos castanhos profundos –, quanto a isso... Ele examina meu rosto e diz: – Você está nervosa. – Não é uma pergunta. – Sim. Não. Quero dizer... – Balanço a cabeça e dou uma risadinha trêmula. – Que tal eu preparar o jantar, aí nós conversamos, ficamos juntos e então, se você quiser dormir no quarto de hóspedes esta noite, sem problemas para mim, está certo? Eu preferiria que passasse a noite na minha cama, mas quero que seja uma decisão sua e, se não estiver pronta, é só dormir no outro quarto. Só quero que passe a noite aqui, está bem? – Está bem – sussurro. – Ótimo – diz ele, os olhos se fixando na minha boca por um instante antes de encontrarem meu olhar.


Percebo o sorriso nos lábios dele quando captura meus lábios gentilmente entre os dentes, um de cada vez, me provocando enquanto os lambe e suga. Sinto um frio na barriga, as pernas bambas, e meu corpo automaticamente se cola ainda mais ao dele. Jake continua a brincar com minha boca por mais um bom tempo. Ele está me deixando louca e sabe disso. Por fim, sou eu que deslizo a língua para dentro da boca dele. Jake deixa escapar um gemido rouco, o que me excita ainda mais. Passo uma das mãos por debaixo da camisa dele. O corpo de Jake é cheio de músculos firmes e lisos, sua pele é quente e... nossa, como é gostoso acariciá-lo. Nosso beijo se torna mais exigente, nossas línguas se encontram, a minha seguindo intuitivamente o ritmo da dele. Inclino a cabeça para trás e o beijo fica ainda mais profundo, provocando fagulhas que parecem descer pelo meu pescoço, passando pela minha barriga, até chegar ao meio das minhas pernas. Passo a outra mão pela nuca de Jake, seguro a cabeça dele e corro os dedos pelos cabelos cheios e macios.


Volto à realidade quando sinto a elevação de uma cicatriz sob os cabelos macios, na base do crânio dele. Meus dedos começam a seguir a linha da cicatriz na parte de trás da orelha esquerda até o meio da nuca quando Jake afasta os lábios dos meus, o calor do beijo ainda em seus olhos. – O que aconteceu com você, Jake? – pergunto. Aquela parece ser uma cicatriz e tanto... Ele apenas me olha por algum tempo, como se estivesse decidindo se iria responder à minha pergunta ou não. Mas então diz: – Lembra daquela merda que eu lhe falei que fiz para desafiar meu pai? Assinto, a testa franzida. O calor nos olhos dele arrefeceu e agora Jake me observa com atenção. – Uma das consequências foi eu ter aberto a parte de trás da cabeça. Algum dia lhe contarei tudo a respeito, Evie, prometo. Mas que tal agora eu começar a preparar o jantar? Continuo de testa franzida enquanto estendo a mão para voltar a passá-la pela cicatriz. Os olhos de Jake


estão fechados e ele suspira antes de levantar a mão, pegar a minha e beijá-la. – Você é tão doce... – murmura. Então ele me leva até a cozinha e me senta sobre um banquinho alto. – Que tal eu lhe servir uma taça de vinho e deixá-la aqui por alguns minutos, enquanto troco este terno por outra roupa? – Que tal você ir se trocar enquanto eu abro o vinho e sirvo nós dois? – sugiro. – Perfeito. A adega fica embaixo daquele balcão, ao lado da geladeira grande, e o abridor está na gaveta logo acima. Os copos estão naquele armário – diz ele, apontando para um dos compartimentos superiores, com a porta de vidro, cheio de taças de vinho e espumante. – Certo. Ele sai da cozinha enquanto eu me dedico a escolher o rótulo. Dez minutos depois, quando Jake volta, está usando uma calça jeans bem surrada e uma camiseta preta. Ele está descalço e seus cabelos estão molhados. Deve ter tomado um banho rápido. Jake sorri para mim e lhe estendo uma taça de vinho.


– Tinto – digo. – Espero que esteja bom para você. Combina com carne vermelha e tal... Essa é a primeira vez que o vejo usando camiseta e é possível reparar melhor na largura de seus ombros, no peito largo e musculoso, nos bíceps bem definidos que se flexionam quando ele pega a taça da minha mão e a estende na minha direção, brindando: – Aos começos. Sorrio, encosto a taça delicadamente na dele e dou um gole, embora já tenha bebido um pouco enquanto esperava. Jake vai até a geladeira e pega um embrulho do açougue. Começa a abrir o pacote sobre a bancada e diz: – Posso lhe fazer uma pergunta? Você me disse na outra noite que não namorou ninguém durante o ensino médio. Por que não? Estou sentada na cozinha de Jake, bebericando meu vinho enquanto ele cozinha para mim. Me sinto protegida e relaxada, por isso respondo honestamente à pergunta, embora jamais tenha falado com ninguém sobre meus anos escolares. – Quando eu tinha 15 anos, minha mãe adotiva da vez, Jodi, foi diagnosticada com câncer. Ela e o marido


resolveram que não poderiam mais cuidar das crianças que moravam com eles. Eu não era próxima de nenhum dos dois, já que eles nunca se interessaram muito pelas meninas que abrigavam. Não eram maus, só indiferentes, ausentes. Só queriam saber de assistir à TV e não se preocupavam muito em saber com quem andávamos. Na maior parte das vezes, eles nos supriam com o que precisávamos em termos materiais. Mas emocionalmente, nunca fizeram o papel de nossos pais adotivos, ao menos não da maneira que se costuma esperar. Mas eu me sentia bem onde estava, gostava da casa e das outras meninas e achava que, considerando a situação, a vida não seria melhor que aquilo. Tomo um gole do vinho antes de continuar: – De qualquer modo, quando fui mandada para outro lar adotivo, acabei indo para a casa de mais um casal, e eles não faziam a menor questão de esconder que eu e as outras garotas éramos um peso, embora até onde eu saiba os cheques que os dois recebiam por nos acolher fossem a principal razão para estarmos lá. Eu, Genevieve e Abby éramos basicamente escravas deles. Cozinhávamos, limpávamos a casa e tomávamos conta dos filhos deles, gêmeos de 6 anos, que, preciso dizer,


serviram como um ótimo método de controle de natalidade para nós – se era essa a intenção deles. O casal passava o dia inteiro de papo para o alto, e quando queriam alguma coisa gritavam para pegarmos para eles. A mulher, Carol, vivia fazendo comentários desagradáveis a meu respeito, sobre meu corpo, meus cabelos, minha falta de personalidade. Ela era especialmente cruel comigo, mas no que dizia respeito aos cuidados conosco, seguia uma política de oportunidades iguais. Não gastava comigo e as meninas nem um centavo a mais do que o estritamente necessário, o que significava que nossas roupas estavam sempre velhas e pequenas demais. Na escola, as garotas se divertiam às minhas custas porque achavam que eu usava as roupas apertadas daquele jeito para chamar a atenção dos garotos. Me xingavam de vagabunda e de coisas piores, e os garotos me tratavam como se eu fosse mesmo uma vagabunda, por isso eu ficava o mais longe possível de todo mundo. Fiz uma pausa, sentindo a solidão daquela época me envolver. Dei mais um gole no vinho antes de continuar: – Minha autoestima não era nenhum primor, mas Carol se encarregou de minar o pouco que eu tinha. Por


isso eu não tinha nenhum anseio especial em fazer amigos ou arrumar um namorado. Costumava comer meu lanche na biblioteca todos os dias, ia para casa direto depois da aula e passava a tarde limpando a casa de Carol e Billy. No dia em que completei 18 anos, consegui um emprego no Hilton e saí de lá. O plano era passar três meses dormindo no sofá de Genevieve. Ela tinha deixado o lar adotivo seis meses antes, para morar com o namorado, e disse que eu poderia ficar com eles até juntar dinheiro suficiente para pagar o aluguel de um apartamento. Estava morando na casa dela há dois meses quando o namorado dela deu em cima de mim. Gen me botou na rua e eu não tinha para onde ir, então trabalhava durante o dia, ia para a biblioteca depois do expediente e dormia em uma mesa do canto por três horas, até eles fecharem. Então ficava indo de uma lanchonete a outra, tomando um café atrás do outro, até a hora de ir trabalhar de novo. No hotel felizmente há um banheiro na sala de descanso dos empregados e eles não se importam de usarmos. Faço uma nova pausa. – Dormi em um abrigo no centro da cidade uma noite, mas um velho tentou se enfiar na minha cama no


meio da madrugada. Além disso, alguém roubou o par de sapatos que eu tinha deixado embaixo da cama antes de dormir. Não poderia correr o risco de alguém levar o dinheiro que eu estava juntando para alugar um apartamento. Se isso acontecesse, eu voltaria à estaca zero, e isso era impensável. Finalmente dou uma olhada rápida em Jake, que está com uma expressão muito séria, o maxilar cerrado. Ainda assim, continuo. É como se uma comporta tivesse se aberto, e acho que não vou mais conseguir parar de falar. – No fim daquele mês, já tinha conseguido juntar o bastante para pagar o aluguel de um dos apartamentos que eu havia visto. Comecei a ligar para saber informações sobre eles e descobri que poderia me mudar para um naquele mesmo dia. Dormi no chão, usando minha mochila como travesseiro, e me cobri com uma manta rosa muito velha que eu tinha desde que era criança, até conseguir comprar alguns móveis de segunda mão. Consegui meu certificado de conclusão do ensino médio no ano seguinte, já que havia me mudado e começado a trabalhar antes de me formar.


Jake ainda me escuta atentamente, mas pega minha mão, a aperta com carinho e me oferece um sorriso para me estimular a continuar, embora seu rosto continue tenso. Há algo nos olhos dele que lembra muito a expressão de alguém com o coração partido. Enquanto eu falo, ele trabalha devagar. Agora há dois bifes já temperados em uma frigideira e ele está cortando em quatro várias batatas que acabou de lavar na pia à sua frente. – Quer que eu faça isso? – pergunto, acenando com a cabeça na direção das batatas. – Não, quero que fique sentada onde está, relaxe, tome seu vinho e converse comigo. Ele me dá mais um sorriso, o rosto parecendo relaxar um pouco. – Você passou por tanta coisa, Evie... – acrescenta, me encarando com olhos tristes. – Sim, mas a questão é que, de certa forma, tive sorte por ter me acontecido tudo isso. Jake franze a testa. – Como assim? – Bem – digo inclinando a cabeça e organizando meus pensamentos –, quantas pessoas você acha que


chegam ao próprio apartamento no fim do dia, por mais simples e pequeno que ele seja, e olham ao redor sabendo a sorte que têm? Quantas pessoas realmente reconhecem o que possuem porque sabem o que é não ter absolutamente nada? Passei por muita coisa para chegar onde estou e valorizo muito o que consegui. Essa é minha recompensa. Há uma intensidade no olhar de Jake que parece ser um brilho de orgulho. Não compreendo bem o que isso significa, mas fico satisfeita. Por fim, ele diz baixinho: – Eu nunca teria pensado na situação dessa maneira. Ficamos em silêncio por algum tempo, enquanto ele coloca as batatas em uma tigela e despeja um pouco de azeite sobre elas. Depois abre uma gaveta e começa a pegar vários temperos para adicionar à mistura. Mexe tudo com uma colher e, por fim, coloca em um tabuleiro. Jake liga o forno e, enquanto ele ajusta a temperatura e coloca o tabuleiro lá dentro, observo os músculos de suas costas se flexionarem sob a camiseta. Também reparo na bunda incrível que ele tem. Me pergunto o que faz um homem de calça jeans e descalço ser tão sexy. Tomo outro gole de vinho.


Jake tira da geladeira uma embalagem de salada Caesar já pronta e a coloca sobre o balcão. Então pisca para mim e diz: – Nem tudo é feito em casa. Não use isso contra mim. Eu rio. – Não precisa se preocupar. Já estou bastante impressionada. – Guarde os elogios para quando tiver experimentado tudo. Ele sorri e seu ânimo parece mais leve agora. Jake desliga o fogo sob a frigideira com os bifes e passa a salada para uma tigela. – Evie, me conte sobre o elogio fúnebre que você fez para a sua amiga, Willow. Quero saber mais – pede. Os olhos dele estão concentrados em mim, atentos. – Mais uma vez, não paro de falar sobre mim. Por que isso acontece toda vez que estou com você? – Me faça essa gentileza. Acho você fascinante. Reviro os olhos. Essa sou eu... fascinante. Mas respondo mesmo assim: – Eu costumava contar histórias para Willow quando éramos crianças e morávamos no mesmo lar adotivo. Ela


adorava. Mesmo depois que ficamos adultas e volta e meia eu precisava livrá-la de alguma confusão em que houvesse se metido... abuso de drogas, surra de algum namorado, o que fosse... – Aceno com a mão, tentando afastar as imagens que, no mesmo instante, invadem minha cabeça. – Pois bem, mesmo depois de adultas, Willow me pedia para contar uma das histórias dela. Me pedia cada uma pelo nome, mesmo que muitas vezes estivesse completamente chapada. Jake assente com a cabeça. – Parece que ela se sentia especial por ser dona das histórias. Não devia ser dona de muitas coisas. O que você fazia era lindo, Evie – diz, com delicadeza. Encaro-o em silêncio por algum tempo, porque de fato é lindo quando Jake coloca dessa forma. – No começo as histórias eram só bobagem de criança. Eu tinha uma imaginação fértil, que era bem útil. – Dou um risinho constrangido. – Eu era uma criança tentando compreender o incompreensível, entende? Ele balança a cabeça, como se entendesse – é claro que não entende, mas é gentil da parte dele querer que eu ache que sim. É tão difícil explicar como foi crescer em um lar adotivo para alguém que não tem ideia de como é


esse tipo de vida... É verdade que Jake não me contou nada sobre a época em que era criança, por isso não sei como foi. Mas já ficou claro que a família dele tem dinheiro e, ao menos nesse ponto, nossas infâncias com certeza foram muito diferentes. – Você vai me contar sobre Leo? – pergunta ele. Dou um gole no vinho. – Jake, já dividi tanta coisa com você por uma noite... Foi bom e isso me surpreende, porque não costumo trazer meu passado à tona com frequência, mas podemos deixar Leo para outra oportunidade? Pode ser? Não digo a ele que estou lutando um pouco com a sensação de estar traindo Leo de alguma maneira, mesmo sabendo racionalmente que isso é um absurdo. Ele me largou há muito tempo, e nem sequer está mais vivo. Estremeço ao lembrar disso. Jake me encara por alguns segundos e me sinto inquieta sob seu olhar intenso. Pergunto o que ele está pensando. Ele dá a volta ao redor da bancada e se senta no banco perto de mim. Me viro na direção dele, que pega a minha mão e diz:


– Estava só pensando em como sou grato por você estar aqui comigo. Também estava pensando que, até onde posso ver, você fez um trabalho incrível em não deixar seu passado torná-la uma pessoa dura. Não há nenhuma amargura ou rispidez em você, nada, nem em sua atitude, nem no modo como se comporta, ou em seus olhos, seu sorriso, no jeito como trata as pessoas. Você está sempre tomando conta das pessoas de sorte que têm o seu amor. Você é assim. A vida obviamente lhe tirou muito, e sei que você sofreu bastante, mas o fato de ter confiado em si mesma para superar isso e de não ter se permitido ficar cínica ou fria... isso é mérito seu. Aproprie-se disso. Era isso que eu estava pensando. Uma lágrima escorre pelo meu rosto. Não consigo evitar. Jake está acariciando minha mão em círculos lentos com o polegar e me encarando com aqueles olhos castanhos tão expressivos. É nesse momento que me apaixono por ele, bem ali, sentada naquela cozinha. Me apaixono perdidamente. É ridículo, porque é cedo demais para isso, mas é a pura verdade. Jake sorri para mim e indica uma pequena mesa de vidro em um canto perto da bancada. Me levanto e vou até lá, enquanto ele pega um jogo americano para dois


em uma gaveta e os dispõe sobre a mesa. Depois coloca os guardanapos e talheres também. Eu me sento e Jake vai pegar os pratos. Volta com eles e com a garrafa de vinho. Volta a encher nossos copos e então começamos a devorar a comida, que está deliciosa. – Muito bem, estou realmente impressionada – digo. – Está incrível. E é verdade. O bife está macio e suculento, as batatas bem temperadas, com a pele crocante e o interior macio. A salada está fresquinha e, embora tenha sido comprada pronta, é o complemento perfeito para o jantar que Jake preparou. Comemos em silêncio por alguns minutos, então eu digo: – Poderia me falar um pouco sobre os seus pais? Como seu pai morreu? Olho de relance para ele, um pouco tensa com a possibilidade de ter levantado um assunto doloroso, mas ele responde rapidamente: – Ataque cardíaco. Foi repentino. Ele ainda resistiu por uma semana, mas acabou tendo um coágulo sanguíneo. Na verdade foi isso que o matou.


– Lamento, Jake. – Faço uma pausa, porque a expressão dele parece ter endurecido. – Você deve sentir falta dele. Jake suspira. – Sim, eu sinto. Desperdicei muitos anos brigando com o meu pai e jamais terei isso de volta. – Sinto muito. Ele dá um sorrisinho. – Está tudo bem. De verdade. Não fiquei bem por um longo tempo, mas cheguei a um ponto em que as coisas melhoraram. – Ele faz uma breve pausa antes de continuar: – Agora percebo que há muitos caminhos na vida. Alguns deles nós escolhemos. Outros são escolhidos para nós. Tive minha parcela de culpa, como acontece com todo mundo, e também fiz algumas péssimas escolhas. Tenho que assumir a responsabilidade por isso. Mas a única coisa que conseguimos ao ficar cogitando o que seria da nossa vida se tivéssemos escolhido outro caminho é chegar a perguntas sem resposta e a uma tristeza que não pode ser curada. Não importa como chegamos onde estamos, tudo o que podemos fazer é seguir desse ponto em frente.


Jake faz outra pausa antes de continuar: – Vou lhe contar tudo sobre a minha vida, Evie. Você já falou tanto de você, e também quero lhe dar o que puder sobre mim, mas não hoje. Agora quero aproveitar o jantar, aproveitar sua companhia. Não vou trazer à tona um monte de merda que só vai me deixar de mau humor. Está bem? – Está bem – sussurro. E é verdade. Sinto-me como se soubesse ao mesmo tempo tudo e nada sobre Jake. Como isso é possível? Sei como é difícil compartilhar lembranças difíceis com outras pessoas e sei que é preciso estar pronto para isso. Ninguém deve pressionar. Também tenho certeza de que o homem sentado à minha frente é uma pessoa boa. Fico mais certa disso a cada minuto. O resto virá com o tempo. Todos têm um passado, certo? Jake segura a minha mão e a aperta. Quando terminamos de comer, eu o ajudo a tirar a mesa. Coloco os pratos na lava-louça enquanto ele põe as panelas de molho dentro da pia. Peço licença para ir ao banheiro e, quando volto, Jake pega a minha mão e me leva até o sofá. Ele me puxa para o colo, de modo que fico montada sobre suas pernas


fortes. O olhar de Jake é lânguido e... meu Deus, que lindo. Pouso a boca sobre a dele, porque não consigo me controlar. Passo a língua sobre os lábios úmidos e ele os abre. Dessa vez sou eu que gemo quando ele me segura pela nuca e me puxa, para que possa enfiar a língua mais fundo. Em um instante estamos nos beijando insaciavelmente. Tenho a impressão de que não conseguiríamos nos largar nem se uma manada de búfalos entrasse pela sala. Jake deixa escapar um gemido rouco e profundo, e sinto a umidade cada vez mais intensa entre as minhas pernas. Pressiono meu corpo sobre o colo dele e Jake afasta a boca da minha. – Cacete! – dispara ele, os olhos flamejantes. – Meu Deus, Evie, você é deliciosa. – A respiração dele sai entrecortada. – Jake – digo, também arfante –, não vou dormir no quarto de hóspedes. A expressão dele é de puro alívio e ele deixa escapar um suspiro. – Graças a Deus! Então Jake se levanta comigo ainda nos braços e passo as pernas ao redor de sua cintura. Ele me carrega


pelo corredor atĂŠ o quarto, me beijando ao longo de todo o caminho.


c a p í t u lo 1 4

Jake abre a porta semicerrada do quarto com o ombro. Embora o cômodo esteja na penumbra, vejo que a decoração é parecida com a do resto do apartamento. Na parede oposta há uma enorme cama de dossel preta, duas cômodas elegantes, também pretas, e duas mesinhas de cabeceira brancas, uma de cada lado da cama. No chão há um tapete branco e felpudo que parece imitar a pele de algum animal. Acho que as roupas de cama são cinza-escuras e brancas, mas não tenho certeza por causa da luz fraca. A única iluminação vem do que eu presumo ser o banheiro da suíte.


Jake me coloca no meio da cama, se levanta e tira a camisa. Fico boquiaberta ao ver o peito nu, másculo e lindo. Tenho um segundo para me deleitar com aquela visão antes de ele voltar para a cama comigo. Logo as mãos de Jake estão tirando o meu suéter, o que me força a levantar os braços para despi-lo pela cabeça. Então Jake abaixa os olhos para o meu corpo e, mesmo na penumbra, vejo que seus olhos têm uma expressão faminta. Meu coração dispara diante do poder desse olhar. Faíscas parecem atravessar todo o meu corpo, tanto pela excitação quanto pelo nervosismo. Isso está realmente acontecendo? – Me ajude, Evie, quero sentir sua pele contra a minha. Sim, sim, também quero sentir a sua pele. Levanto um pouco o corpo, abro o sutiã e desço as alças pelos braços e jogo a peça no chão. Esta é a primeira vez que um homem me vê nua e me sinto constrangida por um breve instante, mas o olhar de satisfação de Jake me faz relaxar. Ele apenas me encara por algum tempo, então sussurra:


– Meu Deus, você é ainda mais linda do que imaginei. A boca de Jake captura a minha, nossas línguas se encontram, o peito firme está colado contra os meus seios e minhas mãos deslizam pelas suas costas. Ele pressiona o quadril contra o meu e nossa, que sensação deliciosa. Gememos de prazer. Talvez eu devesse diminuir um pouco o ritmo de tudo isso, porque sou virgem e não sei se Jake deduziu isso ou não depois que lhe contei sobre a não existência da minha vida amorosa. De qualquer forma, acho que eu deveria me certificar de que ele está ciente desse “detalhe”, para que tudo corra bem. Jake se afasta ligeiramente para beijar meu pescoço e, ao mesmo tempo, segura meu seio por baixo com uma das mãos. O polegar dele roça no meu mamilo e deixo escapar um gemido, ao mesmo tempo que arqueio os quadris contra o membro rígido de Jake. Ai, meu Deus, que delícia. Ele geme baixo e em seguida leva a boca até o meu mamilo e começa a sugá-lo e lambê-lo até eu achar que vou morrer de prazer. Ele passa então para o outro seio. Agora meus dedos estão entrelaçados nos cabelos dele e eu não paro de gemer... Não sabia que


existia uma sensação tão boa e não quero que ela acabe nunca. Desço uma mão pelas costas dele enquanto, com a outra, exploro os músculos definidos de sua barriga. Ele arqueja, afasta a boca do meu seio e levanta os olhos para mim. Diante da expressão de absoluto desejo no rosto dele, deixo escapar: – Sou virgem. Jake continua a me encarar e, por incrível que pareça, o desejo parece ficar ainda mais evidente em seus olhos. É uma expressão tão intensa que me sinto constrangida e sussurro: – Está tudo bem para você? Ele fica em silêncio por um breve instante, antes de murmurar: – Nunca esteve melhor. A voz dele soa profunda, calorosa e levemente rouca. Então Jake cola a boca gulosa e exigente à minha de novo – lambendo, sugando, mordiscando –, e adoro isso. Sinto a mão dele no zíper da minha calça jeans e o calor de seu corpo se afasta no instante em que ele se ajoelha para tirar minhas botas e puxar a calça e a calcinha pelas minhas pernas. Jake joga tudo no chão e


volta para cima de mim, e começa a me beijar de novo. Agora, sinto uma de suas mãos deslizar para o meio das minhas pernas e afastá-las ligeiramente. Estremeço. Jake levanta a cabeça e sussurra: – Abra as pernas para mim. Obedeço. – Vou deixar mais fácil para você me receber – diz ele, e ao ouvir isso sinto a umidade entre as pernas aumentar. Quero isso. Quero tanto! Um dos dedos dele se move gentilmente dentro de mim e estremeço diante da invasão, embora a sensação seja incrível. Logo o polegar dele encontra o lugar e Jake começa a movê-lo em círculos lentos. Jogo a cabeça para trás e deixo escapar um gemido profundo. – Nossa, você é tão linda... Está gostoso? – pergunta ele, a voz soando tensa. – Muito – respondo em um arquejo. Jake enfia outro dedo em mim e fica movimentando os dois lá dentro, entrando e saindo, enquanto mantém o polegar no mesmo ponto, ainda em movimentos circulares. E a sensação é fantástica!


Começo a erguer os quadris de encontro à mão dele, e Jake passa a fazer movimentos mais rápidos com o polegar, mais firmes, enquanto os outros dedos entram e saem de mim. Sim, sim, sim. – Ah, meu Deus – arquejo. Jake geme. Arqueio a cabeça para trás no travesseiro, e apenas por uma fração de segundo tudo parece ficar paralisado. Então vou além e ondas contínuas de prazer me dominam. Gemo e grito o nome de Jake e, quando abro os olhos, vários segundos depois, ele está posicionando o corpo sobre o meu, só que agora está nu. Como perdi isso? Jake se inclina sobre mim para abrir a gaveta da mesinha de cabeceira e pegar uma camisinha. Fico olhando fascinada enquanto ele abre a embalagem com os dentes, fica de joelhos e desenrola o preservativo ao longo do – uau, essa parte do corpo dele também é linda – pênis grosso e rígido. – Posso tocar você, Jake? Me mostra como se faz? – sussurro, desejando com todas as forças dar a ele o mesmo prazer que ele acabou de me dar.


– Da próxima vez, meu bem. Estou por um fio aqui. Se você me tocar, nós dois vamos lamentar. Então, sinto seu peso novamente sobre mim e ele guia a ponta do membro ereto para a entrada no meu corpo. Abro mais as pernas, em um movimento automático. Jake me beija de novo, enfiando a língua lenta e profundamente na minha boca, dando uma pista do que virá a seguir, mais embaixo. Estremeço de expectativa. – Passe as pernas ao redor do meu corpo – pede Jake em um grunhido rouco. – Vamos ser rápidos agora para acabar logo com a parte dolorosa, está bem? – Está bem – sussurro, e nesse exato momento ele me penetra em uma arremetida funda. Eu grito ao sentir a dor atravessar meu corpo. Jake fica imóvel por algum tempo, então passa a se mover bem devagar. A dor começa a ceder até que a única sensação que resta é de estar sendo deliciosamente preenchida. Ele continua com os movimentos bem lentos, entrando e saindo até meu corpo relaxar ao seu redor. – Vou mais rápido agora. Você está bem?


A voz de Jake sai tão estrangulada que parece que ele está sentindo dor. – Estou – sussurro. Então ele começa a arremeter com mais força e mais rapidez, e a expressão de êxtase em seu rosto é a coisa mais linda que já vi, porque sou eu que estou lhe proporcionando isso. A boca de Jake volta a encontrar a minha e ele começa a enfiar a língua na minha boca do mesmo jeito que está enfiando o pau mais embaixo, e eu estou gostando disso. Bem, na verdade estou adorando. Sinto outra onda de fogo subir dentro de mim enquanto a pélvis de Jake pressiona a minha a cada estocada. A respiração dele fica entrecortada, eu volto a chegar à beira do clímax e deixo escapar um grito. Jake arremete de novo, uma, duas vezes, e mais uma. Então enfia o rosto na lateral do meu pescoço e solta um gemido rouco, enquanto move os quadris lentamente. Gozamos juntos. Ele fica imóvel por um instante, ainda dentro de mim, e o abraço com força, acariciando seus braços com as unhas. Ele começa a esfregar o rosto em meu pescoço e


sinto seu sorriso sobre minha pele antes que ele levante a cabeça, os lindos olhos procurando os meus. – Você está bem? – pergunta em um sussurro gentil, e afasta uma mecha de cabelo do meu rosto. Não, não estou bem. Estou mais do que bem. Estou maravilhosa. Fito os olhos de Jake com uma expressão sonhadora, o corpo quente e firme dele ainda pressionado contra o meu. – Estou – sussurro de volta, e ouço minha voz ainda ofegante. Ele sai de dentro de mim e deixo escapar um gemidinho de protesto, o que o faz sorrir. – Você gosta de mim dentro de você – diz. Sorrio. Sim, sim, eu gosto. – Deixe me livrar desta camisinha e pegar alguma coisa para limpá-la. Fique aqui. Ele se senta na beirada da cama, virado para mim, e veste a cueca e a camiseta. Então vai até o banheiro e escuto a água correndo antes que Jake volte com uma toalha molhada. Ele se senta na lateral da cama e diz em um tom gentil: – Abra as pernas e dobre os joelhos.


Fico um pouco envergonhada, mas confio nele e faço o que diz. Jake me limpa com a toalha morna e percebo que há sangue. Nossa, que vergonha... Mas ele não liga, o que me deixa menos tensa. Jake volta ao banheiro e escuto a água correr de novo. Procuro minha calcinha no chão rapidamente e a visto. Ele volta para o quarto com um copo de água e me oferece. Bebo o líquido em goles longos e sorrio para ele quando devolvo o copo. Jake pousa o copo sobre a mesinha de cabeceira, se deita perto de mim e me puxa de volta contra o peito firme, enquanto enfia o rosto em meus cabelos. Me viro em seus braços para encará-lo e fico olhando para o rosto bonito, correndo a mão pela lateral de sua face. – Você é minha agora, Evie. Diga que é minha – sussurra ele. Minha mão fica imóvel e olho dentro dos olhos dele. – Sou sua, Jake – murmuro, adorando o som dessas palavras.


Tenho a impressão de ver um vestígio de sofrimento nos olhos dele e fico confusa por um instante, mas então Jake sorri e me beija delicadamente. – Nunca passei por nada tão maravilhoso quanto isso – diz ele, e meu coração está pleno, porque me sinto da mesma forma. Me colo mais ao corpo quente dele e aprendo outra coisa linda sobre Jake Madsen. Ele gosta de dormir de conchinha.


c a p í t u lo 1 5 EVIE, 13 ANOS LEO, 14 ANOS

stou sentada no sofá do lar adotivo onde moro quando escuto uma batida na porta. Minha mãe adotiva, Jodi, grita da outra sala: – Evie, vá ver quem é! Eu me levanto para fazer o que ela diz. Reparo por um instante que estou usando um short jeans curto demais e um top sem sutiã, por isso abro apenas uma fresta da porta e coloco a cabeça para fora. Vejo Willow e Leo parados ali. Abro mais a porta e cumprimento: – E aí, gente? O que estão fazendo aqui?


– Podemos entrar? – pergunta Leo, e percebo que ele dá uma olhada rápida no meu corpo e que tem uma expressão tensa no rosto. Percebo que realmente não estou vestida para receber ninguém, mas a verdade era que não esperava receber ninguém. Olho para ele com uma expressão indagadora e Leo logo se vira para Willow, me dizendo tudo o que preciso saber. – Podem, claro – digo, acenando para que entrem. – Quem é? – grita Jodi lá de dentro. – Dois amigos – grito de volta. – Eles não vão demorar. Não há resposta, o que significa que Jodi voltou a atenção para qualquer idiotice que estivesse vendo na TV. Ela não vai nos incomodar. Leo se acomoda no sofá pequeno e indico o sofá maior, onde eu estava sentada, para Willow. Me sento perto dela e afasto os cabelos louros de seu rosto. Os olhos da minha amiga estão injetados e ela cheira a maconha. – Willow, o que houve? – pergunto, já que ela não diz nada e fica apenas olhando para a frente.


Ela continua impassível, mas depois de um momento contorce o rosto e se joga contra o meu peito. Fico imóvel por um instante, então levanto as mãos e acaricio seus cabelos, enquanto colo os lábios no topo de sua cabeça e murmuro: – Shh, está tudo bem. Me conte o que aconteceu, Willow. Espero, mas ela permanece em silêncio, a não ser por uma fungada ocasional. – Ela apareceu na minha casa completamente chapada – diz Leo, o maxilar cerrado. – Tive que tirá-la de lá sem que ninguém visse. Os donos da casa teriam chamado a polícia se a tivessem visto. Eles não têm o temperamento muito fácil. – Você sabe o que aconteceu? – Sim, ela estava murmurando alguma coisa sobre uma ida ao tribunal. O pai dela apareceu e ficou encarando-a de um jeito malicioso o tempo todo. Pelo jeito quer recuperar a guarda dela, mesmo nunca tendo dado a mínima para a filha nos últimos três anos. Isso foi tudo o que consegui tirar dela. Então alguns pseudoamigos a pegaram onde mora, deixaram-na


bêbada e chapada e a largaram sozinha para voltar para casa. E ela apareceu lá em casa. Belos amigos de merda. – Leo! – sibilo. – Não fale palavrão. – Cubro as orelhas de Willow. Ele fica me olhando por um longo instante, então seu rosto se abre em um sorriso. Fico chocada. – Do que está rindo? – pergunto. – De você. É tão fofinha! Bufo. – Sério, Leo, qual é o seu problema? Isso é SÉRIO! Ele para de rir e diz: – Eu sei, Evie, acredite em mim. Se soubesse quem são esses amigos dela, ensinaria uma lição a eles por darem drogas a uma garota de 12 anos e depois deixá-la voltar sozinha para casa. Continuo a acariciar os cabelos de Willow até perceber que ela está ressonando. Deito minha amiga no sofá, pego uma manta que está perto e cubro-a. Fico observando-a por um instante, mordendo o lado de dentro da minha bochecha. – O programa que Jodi está vendo dura uma hora. Vou precisar tirar Willow daqui antes que termine –


aviso a Leo. Ele assente. – Acho que até lá ela estará menos chapada. Venha se sentar aqui comigo para não a acordarmos. Passo para o sofazinho e me acomodo perto de Leo, o mais colada possível no canto. Ele franze ligeiramente a testa, mas não diz nada. Está agindo de um jeito diferente comigo nos últimos tempos, tanto na escola quanto nas nossas saídas, pelo menos uma vez por semana. Estou confusa. Leo agora fica muito em silêncio quando está comigo e tem sempre aquela expressão estranha no rosto. Não sei se está zangado comigo ou alguma outra coisa. Agora ele quase nunca diz que me ama, não como antes. Mas faz comentários sobre como sou fofa. Garotos são estranhos... Depois de um minuto de silêncio, levanto as pernas, cruzo-as em cima do sofá e me viro na direção de Leo. Quando olho para ele, vejo que está encarando meus peitos, mas ele logo desvia os olhos para os meus quando percebe que o estou observando. Seu rosto está vermelho.


Ah, meu Deus! Ele está constrangido por mim, porque percebeu que preciso muito de um sutiã. Meus seios não são enormes, mas são grandes o suficiente para que a ausência de um sutiã seja inaceitável. Ele deve estar com nojo de mim. Meu próprio rosto fica vermelho e pego uma almofada que havia caído no chão para abraçar, evitando o olhar dele. Depois de mais um minuto de silêncio constrangido, Leo diz: – Vi você conversando com Max Hayes no almoço hoje. Ele parece zangado de novo. O que está acontecendo com Leo? – Ah, sim, nós somos da mesma turma de orientação educacional. Ele é legal. Leo fica em silêncio por algum tempo, e então fala: – Ouvi dizer que ele ficou com Zoe Lucas E Kendall Barnes na semana passada. Eu preferiria que você não ficasse de conversinha com ele. O cara é um galinha. Eu rio. – Leo, não estou interessada em ficar com NINGUÉM, então relaxe, está certo? Não precisa ficar bancando meu irmão mais velho para sempre. Sei que


você me protegeu muito no colégio nos últimos anos, e sou grata por isso, mas Max Hayes não é uma ameaça para mim. Ele contrai o maxilar de novo, afasta os cabelos louro-escuros dos olhos e me encara, irritado. – Você não reconheceria uma ameaça nem se ela a acertasse no meio dos olhos, Evie. Olho para ele com os olhos semicerrados. Ah, não, ele não... sério? E agora sou eu que estou ficando irritada. – Ah, é, Leo. Esqueci que você é o cara experiente e que eu passo a vida em uma redoma de vidro! – exclamo irritada, dando uma olhada rápida em Willow, para me certificar de que não a acordei. Ela continua roncando. Leo me encara com uma expressão raivosa. – Não é isso que estou querendo dizer. Você só não sabe como funciona a cabeça desses caras. Não tem ideia do que Max está pensando quando está “só conversando” com você. – É mesmo? – digo, me inclinando na direção dele. – E como você sabe o que exatamente Max está pensando?


– Porque estou pensando a mesma coisa – retruca ele. Ficamos nos encarando por um longo instante, então Leo fecha os olhos, respira fundo e fala com mais calma: – O que quero dizer é que estou pensando coisas parecidas sobre outras garotas, por isso... é por isso que eu sei. Eu o encaro, sentindo um aperto estranho no peito. Não me permito pensar a respeito. Em vez disso, assinto e digo: – Obrigada por me abrir os olhos. Vou ter cuidado para não encorajar Max, está certo? Ele fica em silêncio por alguns segundos antes de desviar os olhos de mim para Willow. – Acho que ela já deve ter dormido o bastante. Vou levá-la para a casa dela, sem que ninguém veja. Levantamos rapidamente e quase nos esbarramos, mas Leo se afasta primeiro, vai até Willow e a sacode de leve. Ela se senta e murmura: – O que está acontecendo? Leo a ajuda a se levantar e diz:


– Vamos, Willow, se apoie em mim para eu poder levá-la para casa, está certo? – Certo – responde ela, parecendo um pouco mais consciente. Ele a leva até a porta, mal olha para mim quando abro a porta para eles e fala baixinho, por sobre o ombro, quando já está descendo a escada: – Vejo você amanhã na escola. Fecho a porta e fico parada ali por algum tempo, me perguntando por que a vida parece sempre tão dolorosa e confusa, e desejando de todo o coração ter alguém para me ajudar a vivê-la. Depois de alguns minutos, volto a me sentar sozinha no sofá.


c a p í t u lo 1 6

Começo a despertar aos poucos nas primeiras horas da manhã e sinto um corpo quente e firme contra as minhas costas. Sorrio ao lembrar da noite anterior. Fico parada por um momento, me deliciando com as lembranças. Então saio lentamente da cama e vou ao banheiro da suíte. Depois, volto a me aconchegar contra o corpo de Jake. Dessa vez, me acomodo de frente para ele e fico observando seu rosto lindo por algum tempo, a sombra da barba no maxilar másculo, a expressão de tranquilidade durante o sono. Ele abre um dos olhos e me dá um sorriso sonolento.


– Está me observando dormir? – pergunta, brincalhão. – Quem é a perseguidora sorrateira agora? Rio e me aconchego mais ao calor do corpo dele. Jake passa os braços ao meu redor. Ficamos imóveis por algum tempo, então deixo a mão descer, porque a proximidade dele já está me inebriando de novo e preciso senti-lo. Ele geme quando minha mão encosta em seu pênis. Jake já está rígido e o acaricio gentilmente por sobre a cueca, sentindo-o inchar ainda mais. De repente estou deitada de costas e ele está em cima de mim. – Quer brincar, linda? – Quero – sussurro, acenando com a cabeça. – Está sentindo alguma dor ou está bem? Contraio as pernas juntas e me encolho levemente. Muito bem, estou dolorida. – Só um pouquinho – admito. – Bem, há outras coisas... – Ele deixa no ar. – Sim – murmuro. Logo Jake está beijando a minha barriga e enfiando a ponta da língua no meu umbigo. Ele tira a minha calcinha, a joga de lado e mergulha a cabeça para beijar a


parte interna da minha coxa. Estremeço, excitada quando ele enterra a cabeça entre as minhas pernas e, automaticamente, me abro para ele. Sinto que Jake inala meu perfume e ele logo diz em um gemido: – Adoro meu cheiro em você. Ele corre a língua macia em círculos ao redor do meu clitóris já inchado. Pressiono a cabeça com mais força contra o travesseiro e gemo. Ah, sim. Ah, meu Deus! Ele começa a lamber e chupar gentilmente, sugando a minha carne em um ritmo constante até eu sentir meu corpo acelerar. Grito quando um orgasmo me atinge. Jake enfia a língua dentro de mim enquanto meu corpo ainda convulsiona e a sensação é deliciosa. Arqueio a cabeça para trás no travesseiro enquanto entoo o nome dele sem parar. Jake volta a ficar em cima de mim, beija meu pescoço e se deixa cair ao meu lado, puxando-me para ele. Passo a mão por baixo de sua camiseta e traço os contornos dos músculos do abdômen. Agora é minha vez de explorar.


Me sento na cama e puxo a camiseta dele para cima, exatamente como ele fez com o meu suéter na noite anterior. Jake levanta os braços e o tronco por um instante para que eu possa passar a camiseta por sua cabeça, antes de jogá-la no chão. Ele está olhando para mim com uma expressão linda, preguiçosa, e seus cabelos estão desgrenhados. O belo peito musculoso está à mostra e, por um segundo, tudo o que consigo fazer é ficar olhando para ele, me embriagando naquela perfeição. Jake é real? Isto é real? Sinto um frio no estômago por estar aqui, nessa cama, com esse homem lindo, explorando o corpo dele enquanto ele explora o meu. Inclino o corpo para a frente e começo a beijar o peito dele, saboreando e lambendo até chegar a um dos mamilos rígidos. Lambo e sugo o mamilo pequeno, abocanhando-o como ele fez comigo na noite anterior. Jake geme e sorrio contra o seu peito, adorando poder lhe dar esse prazer. Minha mão desce pela barriga dele e levanto a cabeça para encará-lo. – Me ensine. Quero saber o que você gosta – sussurro.


– Só quero que me toque. Ele levanta ligeiramente o corpo e tira a cueca. Observo os músculos de seu abdômen se tensionarem e o pênis grande e duro salta, livre. Jake chuta a cueca para o chão, perto da cama. Me apoio sobre um dos cotovelos e abaixo um pouco o corpo para poder alcançá-lo. Quando envolvo o pênis duro como uma rocha nas mãos, sinto-o pulsar. Há uma pequena gota bem na ponta. Esfrego-a lentamente com o polegar, em círculos, o que o faz gemer ainda mais. – Mova a mão para cima e para baixo, meu bem – pede Jake em uma voz sufocada. – Assim. Ele coloca a mão sobre a minha e me mostra. A visão de nossas mãos juntas ao redor dessa ereção impressionante provoca faíscas entre as minhas pernas, embora eu tenha acabado de ter um orgasmo. Começo a mover a mão, devagar a princípio, então mais rápido, aprendendo o que ele gosta e respondendo aos ofegos e gemidos. Quando minhas carícias se tornam mais rápidas, sinto o pênis dele pulsar e inchar na minha mão. Jake arqueja:


– Evie! Então o líquido branco jorra na minha mão. – Ah, meu Deeeeus! – geme Jake, enquanto goza. Passo a mover a mão mais lentamente. Fico observando o pênis de Jake afrouxar na minha mão, então levanto os olhos para ele, incapaz de conter um sorriso enorme e orgulhoso, o que é ridículo, porque não fiz nada de mais, mas há algo muito empolgante em levar Jake ao orgasmo. Então, não consigo evitar me sentir muito satisfeita. Continuo sorrindo orgulhosa para ele, que cai na gargalhada, me pega pelos braços e me puxa para cima dele. Jake olha nos meus olhos e diz, ainda sorrindo: – Você tem um talento natural. Descanso a cabeça em seu ombro e enfio o nariz no pescoço dele. Ficamos deitados desse jeito por um longo tempo, até Jake dizer: – Vou preparar um banho para você e depois vou fazer o café da manhã. Então você vai passar o dia comigo. – Hum... autoritário – murmuro, mas sorrio. Tudo o que mais quero é passar o dia com ele.


Me levanto e começo a andar até o banheiro. Então olho para trás, com uma expressão sedutora, e pego Jake fitando minha bunda com um ar de admiração no rosto. Ele veste a camisa e a cueca, cobrindo o corpo incrível. É uma surpresa para mim que o lindo, enorme e perfeito Jake Madsen pareça ser um pouco modesto.


c a p í t u lo 1 7

Fico enfiada na banheira de hidromassagem de Jake até minha pele estar enrugada e meu corpo todo vermelho. Então me seco com uma das toalhas grossas e macias e hidrato a pele com a loção que está na minha bolsa de viagem, que Jake deixou no banheiro para mim. Visto uma calça jeans preta, justa, e uma blusa branca de manga comprida com decote em V, com um suéter cinza por cima. Trouxe tênis pretos, mas por enquanto opto por ficar descalça. Coloco um pouco de maquiagem e prendo os cabelos para trás em um coque baixo e frouxo. Então sigo o delicioso cheiro de café e bacon que vem da cozinha.


Jake está parado diante do fogão, mas olha por cima do ombro quando me ouve entrar e sorri para mim. – Omelete? – pergunta, usando uma pinça para retirar as fatias de bacon da frigideira. Ele as coloca em uma travessa coberta com papeltoalha, em seguida a pousa sobre a bancada, ao lado de outra que contém fatias de melão. Balanço a cabeça, recusando. – Só café e uma fruta. – Está certo, pode se servir à vontade. As xícaras estão no armário acima da cafeteira. O leite está na geladeira e o açúcar, sobre a bancada. Ele se vira novamente para o fogão e quebra dois ovos em uma frigideira. Preparo uma xícara de café para mim, sem açúcar, com uma quantidade generosa de leite. Sento diante da bancada e tomo meu café enquanto admiro a bunda de Jake até ele terminar de fazer a omelete e se juntar a mim. Ele ainda acrescenta bacon e frutas ao próprio prato. – Tenho cereal também, se preferir. – Não, sério, só isso está perfeito. Não costumo comer muito de manhã.


– Ora, meu bem, as coisas mudaram. Agora você vai precisar manter a energia. Ele pisca para mim, tentando conter o sorrisinho malicioso e parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo. Pego um pedaço pequeno de melão. – Está certo. Isso deve bastar. Como a fruta em duas mordidas pequenas e descarto a casca em um guardanapo à minha frente. Jake cai na gargalhada, me pega no colo e me coloca sentada sobre suas pernas, montada de frente para ele. Então começa a mordiscar meu pescoço e me fazer cócegas. Rio e dou gritinhos. – Estou vendo que preciso provar mais algumas coisas para você, sua atrevida. Jake mordisca minha orelha e rosna enquanto passa as mãos pelo meu corpo. Mal consigo respirar de tanto que rio. Atrevida? Sério? Quem ainda usa essa palavra? – Está bem! Está bem! Chega. Estou falando sério, Jake. – Estou me contorcendo sobre o colo dele e percebo que sentir seu corpo contra o meu é bom... muito bom.


Ele também está rindo, obviamente se divertindo, mas deixa escapar mais um rosnado, para se exibir. – Parece que agora consegui meter na cabeça da minha garota a importância de um bom café da manhã. Pressiono o corpo contra o dele e contorço os quadris, cheia de desejo de novo. – Falando em meter... – digo, lambendo a base do pescoço dele e beijando seu queixo. Jake geme. – Evie, achei que você tivesse dito que estava dolorida. Suspiro e me empertigo. – Estou. Será que um Tylenol pode fazer melhorar pelo menos um pouco? Ele cai na gargalhada de novo. – Meu Deus. Criei um monstro do sexo. Rio e saio de cima dele, mas acho que talvez esteja certo. – Muito bem, então. Onde você vai me levar? – Já foi ao zoológico? – Na verdade, não – digo, surpresa. – Vai me levar ao zoológico?


Sorrio, achando a ideia engraçada. Nunca cheguei a fazer esse tipo de coisa quando criança, e imagino que tenha deixado de me divertir bastante. E hoje em dia meu orçamento não me permite fazer programas do tipo nos fins de semana. – Ótimo. Trouxe algum sapato confortável? – Sim, um par de tênis. – Perfeito. Vou tomar um banho rápido e saímos depois. Assinto. Jake molhado do banho. Gostaria de ver isso. Nham. Ele termina de comer rapidamente enquanto tomo meu café, então coloca os pratos dentro da pia, me dá um beijo no rosto e vai para o chuveiro. Dois minutos depois, tenho a maliciosa ideia de surpreendê-lo, mas quando tento abrir a porta, vejo que está trancada. Acho um pouco estranho. Tudo bem... Volto à cozinha e aproveito para lavar as panelas da noite anterior e as que Jake usou no café da manhã. Também coloco a louça na lava-louças. Quando já estou terminando, Jake entra na cozinha usando uma calça jeans e um pulôver preto. Os cabelos cor de caramelo estão perfeitamente penteados e ainda um pouco úmidos.


Vou até ele, passo os braços ao redor de sua cintura e inalo o perfume amadeirado, fresco e delicioso. Fico com a cabeça apoiada contra seu peito por um instante. Parece impossível que eu tenha sentido saudade dele nesses dez minutos que passou no banho, mas não posso negar, senti. Levanto a cabeça e sorrio ante seu rosto másculo. Jake também sorri para mim. Ele abaixa a cabeça e beija a minha testa antes de sussurrar: – Minha Evie. Tão doce... Então ele se afasta e vou calçar o tênis.

É provável que este seja um dos melhores dias da minha vida. Lindo, claro, com alguns raios de sol para amenizar o frio. Jake e eu caminhamos pelo zoológico de mãos dadas, rindo e conversando tranquilamente. Fico fascinada com alguns animais e observo-os por um longo tempo antes de me virar para Jake, que parece estar sempre me observando com um sorriso. Ele parece deliciado com a minha reação tanto quanto estou deliciada com a experiência.


Paramos para comer cachorros-quentes e tomar sorvete na hora do almoço e, enquanto estamos sentados comendo, um pavão passa perto de nós. Ao que parece, eles andam livremente pelo zoológico. Encantada, pego o celular para tentar tirar uma foto e fico seguindo o bicho por toda parte como uma mãe superprotetora. Jake, ainda sentado, ri de mim enquanto eu pulo de um lado para outro como uma doida, tentando tirar uma foto. De repente o pavão se vira, para bem na minha frente e abre as penas em um show de beleza como eu nunca vi antes. Fico paralisada, totalmente fascinada por aquela linda criatura. Ele permanece imóvel à minha frente por vários segundos até que eu saio do meu estado de hipnose e começo a tirar fotos sem parar, enquanto converso com a ave. Depois de algum tempo, o pavão se afasta em direção a pastos mais verdes. Estou agitada quando volto correndo para onde está Jake. Ele continua sentado à mesa, com a testa um pouco franzida. – Veja! – exclamo, quase grasnando, enquanto lhe mostro as fotos do lindo pássaro que, claramente, quis se exibir para mim. Jake resmunga “Grande coisa” algumas vezes enquanto passo de uma imagem para


outra. Quando olho de relance para seu rosto, percebo sua expressão. – Você está com ciúme de um pássaro? – pergunto, sem acreditar. – O quê? Não. Mas vejo que está mentindo. – Você está com ciúme de um pássaro – repito, mas agora como uma afirmação. Volto a olhar para as fotos. – Ele é TÃO lindo. Nooossaaa, tãããão lindo – digo, esticando as sílabas com exagero para implicar com ele. – Muito engraçado – murmura Jake. Mas posso ver que, mesmo sem querer, ele está rindo. – Aquele bicho estava tentando invadir meu território – ele tem a cara de pau de dizer. – Reconheço um macho descarado quando vejo um. Caio na gargalhada, e vejo que Jake está tentando não rir, mas ele não aguenta e abre um sorriso largo para mim, mostrando os dentes brancos e perfeitos. – Você é ridículo – digo. Mas sento no colo dele e seguro seu rosto entre as mãos. Estamos sorrindo. No entanto, logo ficamos sérios, quando ele fixa o olhar nos meus lábios e eu sinto o volume sob minha bunda aumentar.


– Jake... – começo a dizer. – Evie... – termina ele. Então começamos a nos beijar ardentemente bem no meio do zoológico, enquanto nossos sorvetes derretem. Me afasto e apoio a testa contra a dele. – Tive um dia muito, muito bom mesmo, Jake. – Ainda não acabou, meu bem – diz ele. Então pega a minha mão e me levanta do colo. – Vamos ver os tigres.

Saímos do zoológico completamente exaustos, quando já são quase cinco da tarde. Enquanto Jake passa com o carro pelo portão, me viro para ele, me sentindo feliz e sonolenta. Ele me dá a mão e dirige usando apenas a mão esquerda. Seguimos em silêncio, escutando o rádio. Fecho os olhos algumas vezes, absolutamente segura e em paz no carro aquecido. Jake para em um estacionamento e percebo que estamos diante de um pequeno restaurante italiano. Ele dá a volta no carro, abre a porta para mim e me ajuda a descer. Então me guia para dentro do estabelecimento. Olho ao redor e percebo que o lugar é elegante, adorável


e está quase cheio, apesar de domingo à noite, ainda cedo. A hostess se apressa até nós com um sorriso caloroso e nos leva até uma pequena mesa nos fundos. Quando já estamos acomodados, o garçom se aproxima rapidamente e Jake pede uma garrafa de vinho tinto. O homem está de volta com o vinho antes mesmo que eu consiga ler mais de dois itens do cardápio. – A berinjela à parmegiana é muito gostosa – sugere Jake. Aceitando a dica dele, fecho o cardápio e levanto minha taça em um brinde. – Aos pavões charmosos! – exclamo, sorrindo. – Humpf – bufa Jake, de brincadeira, então sorri para mim e encosta a taça na minha. Deus, ele é tão incrível... Fazemos o pedido e ficamos conversando tranquilamente enquanto esperamos, de mãos dadas sobre a mesa. – Qual é seu horário de trabalho amanhã? – pergunta Jake. – Das dez às sete, a semana toda. Ele me observa por um instante, pensativo, então diz:


– Já pensou em fazer outra coisa? – Quer saber se tenho ambição de ser mais do que uma camareira? – É. Quero dizer, você sabe que não vejo nada de errado no que você faz. Só que você é tão inteligente que poderia fazer qualquer coisa. E estava me perguntando se pensa sobre isso. Suspiro. – Sim, na verdade penso. Adoraria cursar alguma faculdade, mas é preciso dinheiro para isso. Um dinheiro que, neste momento, eu não tenho. Mas o que eu realmente amo fazer é escrever. Tenho uma ideia para um livro... – paro de falar, sentindo-me envergonhada de repente. – Faça isso. Por que ainda não fez? Porque está fora da minha zona de conforto. – Bem, preciso de um computador para poder escrever. Eu costumava levar um pendrive para a biblioteca, mas não era nada prático. E às vezes, quando eu estava inspirada, a biblioteca estava fechada... Enfim. Simplesmente não funcionou. O garçom traz nosso jantar e começamos a comer. A comida está deliciosa, e não consigo evitar um gemido


depois da primeira garfada. – Está bom? – pergunta Jake, o olhar se intensificando ao se fixar na minha boca. – Ahã. – Vai passar a noite comigo de novo? – Não posso, Jake. Preciso me organizar para a semana. Tenho que ir para casa e arrumar tudo. – E amanhã à noite? – Também não posso. Tenho um trabalho no bufê que vai terminar tarde. Não costumo ter nada nas noites de segunda, mas vai haver uma exposição de arte qualquer em uma galeria no centro. – Olho desconfiada para ele. – Você não vai estar lá, não é? Ele sorri. – Não estava planejando ir, mas agora talvez eu veja o que consigo providenciar. – Não se atreva. – Preciso ir a San Diego na terça, para o meu escritório lá, mas estarei de volta na quarta à noite. Vai poder passar a noite comigo, então? Sorrio para ele. – Vou. Ele sorri de volta.


Comemos em silêncio por algum tempo, então digo: – Imagino que você tenha ido para a faculdade, então. – Sim, cursei a Universidade da Califórnia, em San Diego. Ao mesmo tempo eu trabalhava com o meu pai, aprendendo tudo sobre a empresa, já que o plano era que eu começasse a trabalhar lá quando me formasse. Só não imaginávamos ainda que eu teria que assumir o negócio. Foi nessa época que eu e meu pai acabamos desenvolvendo algo mais próximo de um relacionamento de verdade, como nunca havia acontecido antes. Eu tinha saído da casa dele, e foi exatamente isso que nos permitiu começar de novo. Foi a primeira vez em muito tempo que senti algo próximo da felicidade, estar longe dos meus pais, “me descobrindo”, para usar uma expressão bem clichê. Assinto. – Você não é próximo da sua mãe? Ele deixa escapar um grunhido zombeteiro. – Próximo? – Ele faz uma careta e fica em silêncio por alguns segundos. – Não. Continuo olhando para ele, mas Jake não fala mais nada e não sei o que dizer, por isso pego o garfo e


continuo comendo. Depois de mais algum tempo, ele diz baixinho: – Quero pagar os seus estudos, Evie. Levanto os olhos para ele, surpresa. – O quê? – Meu tom sai ligeiramente irritado. – Por que você faria isso? – Porque acredito em você. Porque acho que é inteligente, e que só precisa de um empurrãozinho para realizar seus sonhos. Balanço a cabeça devagar. – Jake, escute, essa é uma oferta muito generosa, mas trabalhei muito duro para chegar até aqui. Sei que, para você, minha vida não parece uma história muito bem-sucedida, mas estou indo bem, e vou dar um jeito de voltar a estudar em algum momento. O que quero dizer é que começamos a dormir juntos agora, e não sei exatamente como essas coisas funcionam, mas talvez devêssemos esperar para ver o rumo que essa história vai tomar antes de você começar a me oferecer grandes somas de dinheiro. O rosto dele está muito sério agora e fica claro que Jake não está nada satisfeito com o que acabei de falar.


– Antes de mais nada, acho que já deixei claro que, sim, eu considero a sua história muito bem-sucedida, considerando tudo por que passou. Em segundo lugar, preciso mesmo lembrar a você o que me disse na cama há menos de 24 horas, Evie? Caramba. Ele está furioso. Fico confusa, porque sei que disse muitas coisas a ele, e a maior parte delas tinha a ver com o que Jake estava fazendo com as mãos, e com a boca, e... Meu Deus, agora estou ficando excitada de novo. – Hã... – Você me disse que era minha, Evie. O que temos não é só sexo por diversão. Não é casual para mim. Achei que havia deixado isso bem claro. – E daí? Você é o que agora? Meu namorado ou algo do tipo? – Namorado, homem, amante, dê o nome que quiser, mas isso significa que vamos tomar conta um do outro dentro e fora do quarto. E, para mim, isso envolve lhe dar o dinheiro necessário para que realize seus sonhos. Uau. Muito bem, então. Ele está sendo autoritário, mas não consigo evitar o calor que se espalha pelo meu corpo diante da intensidade de suas palavras. Alguém


quer me proteger, tomar conta de mim... não estou acostumada com isso... – Jake... – Ao menos pense a respeito, está certo? Fico encarando-o por um instante, mas cedo. – Está bem. – Ótimo. – Ele dá algumas garfadas no jantar e muda de assunto: – Você também precisa começar a tomar algum tipo de contraceptivo. Não quero usar camisinha com você. Faço uma pausa, o garfo a meio caminho da boca. Está bem... – Já tomo pílula anticoncepcional. Minha menstruação é irregular e a pílula me ajuda a controlar. Tomo há anos. Ele me fita em silêncio por um instante e diz: – Muito bem, ótimo. Agora termine seu jantar. Totalmente autoritário. Mas muito doce também. E bem gostoso, mas... – Hã, Jake, se não vamos usar camisinha, acho que deveria perguntar... – Estou limpo. Sempre usei camisinha e faço exames regulares. Posso mostrá-los a você, se quiser.


Ele abaixa os olhos, com uma expressão que parece envergonhada. Não é essa expressão que me faz confiar em Jake. É simplesmente ele. O pacote inteiro. Preciso deixar isso claro, por isso me debruço por cima da mesa e pego a mão dele. Fico em silêncio por um instante, então digo: – Não, eu confio em você. Depois do jantar, Jake me leva de volta para minha casa e passamos algum tempo nos agarrando no carro. Mas então ele geme e se afasta, resmungando: – Isso está me matando... Em seguida, sai do carro e dá a volta para abrir a porta para mim. Dou um último beijo nele, abro a porta do meu prédio e entro praticamente saltitando.


c a p í t u lo 1 8 EVIE, 13 ANOS LEO, 15 ANOS

enduro a mochila no ombro enquanto desço a rua na direção do lar adotivo de Leo. Fiquei até tarde em um grupo de estudos, por isso não estou voltando com Willow, como costumo fazer. Leo começou o ensino médio há vários meses, e está sendo difícil não estudar mais na mesma escola que ele. É verdade que já não precisava me defender havia algum tempo – os outros alunos começaram a me ignorar depois do incidente com Denny Powell –, mas só vê-lo nos corredores já iluminava meu dia. Às vezes Leo apenas roçava a mão na minha quando nos cruzávamos no corredor, fingindo não me ver, ou deixava bilhetinhos


divertidos no meu armário. Isso me fazia sorrir. E estou sempre precisando de coisas que me façam sorrir... Quando viro a esquina da casa dele, vejo uma figura conhecida e solitária sentada nos degraus da varanda. Paro e fico observando-o por um instante, pois sei que ele não me viu, aparentemente perdido em pensamentos, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça inclinada para a frente. Sigo na direção dele e, conforme me aproximo, Leo levanta a cabeça e olha para mim. Seu rosto se abre em um sorriso. – Oi – digo, sorrindo também. – O que está fazendo aqui? – Só pensando – responde ele, parecendo mais sério agora. – Está muito barulhento lá dentro – acrescenta, gesticulando com a cabeça na direção da casa. Sento perto dele e assinto. – No que estava pensando? – Em Seth. – Ele faz uma pausa. – Estava imaginando onde ele está, como está se saindo... imaginando... – Ele se interrompe, emocionado. Instintivamente eu estendo a mão para pegar a dele e encosto-a no meu rosto, roçando os nós dos dedos


contra a minha pele. Leo se vira para me encarar, os lábios entreabertos. Meus olhos se fixam em sua boca e me pego imaginando como seria beijá-lo. Ai, meu Deus! Eu acabei mesmo de imaginar como seria beijar Leo? Ele sempre foi como um irmão para mim, mas nos últimos tempos... ando pensando nele de um jeito diferente. Me pego querendo que ele segure a minha mão, que sente perto de mim quando estamos vendo TV na sala da minha casa. Estremeço quando ele roça em mim acidentalmente. Eu o amo. Já sei disso. Amo Leo McKenna há tantos anos... mas será que estou me APAIXONANDO por ele? Quando nossos olhos se encontram, vejo em seu rosto uma intensidade que já havia visto antes, mas que nunca soube o que significava. Agora eu sei. É provável que seja igual à minha. Um único pensamento ocupa a minha mente: “Me beije!” – Quer caminhar um pouco? – pergunta Leo. Solto a mão dele e me levanto. – Claro. Andamos em silêncio por alguns minutos, então ele me dá a mão e me olha, envergonhado. Sorrio para ele


enquanto o calor parece emanar de nossas mãos entrelaçadas, subir pelo meu braço e se espalhar pelo meu peito. Leo sorri também e aperta minha mão com mais força. Entramos no parque e vamos até os balanços. Sento em um deles e Leo me empurra alto, me fazendo rir. Ele se apoia na trave do brinquedo, a alguns metros de distância. Sorri, mostrando o espaço encantador entre os dentes, e diz: – Adoro ouvir sua risada. Inclino a cabeça e balanço mais devagar. – É mesmo? Ele chega mais perto e segura as duas correntes do meu balanço, e tenho que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. – É, Evie, adoro. É a única coisa que me deixa feliz de verdade. Ficamos sérios, enquanto ele me encara. Sinto o coração disparar. Mas então Leo se afasta um pouco e enfia as mãos nos bolsos. Pisco e engulo em seco, nervosa. – Estava pensando... sei que no baile Sadie Hawkins da escola é a menina que costuma convidar o par, mas...


bem, eu queria saber se você iria comigo. O rosto dele está levemente ruborizado enquanto espera minha resposta. – Eu adoraria, Leo. Só que não tenho o que usar... Não imagino que faça muito o estilo de Jodi me comprar uma roupa para um evento desses. Abaixo os olhos, ruborizada também. Ele assente e fica me olhando pensativo, provavelmente se dando conta de que não havia pensado que precisaríamos de roupas elegantes. – Então vamos dizer que iremos ao baile e, em vez disso, viremos para cá e dançaremos sob as estrelas. Não precisamos de roupa especial para isso. Nossos pais adotivos jamais irão perceber que não estamos vestidos de forma adequada para um baile. – Leo me dá um sorriso um pouco triste, mas sei que está certo. Então o sorriso dele se alarga. – Só quero ficar com você. Só quero abraçá-la. – Como vamos fazer em relação à música? – pergunto baixinho. – Vou trazer meu rádio portátil. – Ele continua sorrindo. Não posso evitar sorrir de volta.


– Provavelmente seremos presos e passaremos a noite atrás das grades. – Vale a pena arriscar. Inclino a cabeça para o lado. – Muito bem. Encontro marcado, então. Dou um sorriso hesitante e ele retribui o gesto. Fica me encarando por algum tempo e então diz, muito sério: – Algum dia vou lhe comprar um monte das roupas mais lindas que existem. Sorrio para ele. – Não preciso de roupas elegantes, Leo. Só preciso de você. – Você pode ter as duas coisas – retruca ele, ainda sorrindo. Fico olhando para ele. Para o meu Leo. Como as coisas mudaram tão rápido? Será que me apaixonei por ele tão lentamente que nem me dei conta? Leo pega a minha mão, me tira do balanço e começamos a caminhar de volta... e meu coração passa a bater enlouquecido no peito. Nesse momento percebo que cair, seja de cara no chão ou de amores por alguém, é sempre um pouco assustador, mesmo que aconteça lentamente.


c a p í t u lo 1 9

Os

dois dias seguintes passam rapidamente entre o trabalho, idas a lavanderia e outras atividades rotineiras mas necessárias. Jake se oferece para me levar ao trabalho e me buscar, ou para que eu use o motorista da empresa dele, mas recuso. Não me incomodo de andar de ônibus. Posso ler durante a viagem e acho isso bom. Jake não parece muito satisfeito com a recusa, mas preciso manter minha independência. Já acho que as coisas estão acontecendo rápido demais entre nós e me assusta estar tão envolvida com alguém nessa velocidade. E se ele for embora? E se tudo terminar?


Falo com Jake na segunda-feira, entre um turno e outro, mas ele está trabalhando e parece distraído. Por isso não me estendo e digo que ligarei novamente na terça, quando ele já estiver em San Diego. Sinto o sorriso na voz dele quando diz que vai esperar minha ligação. Na segunda à noite, trabalho como garçonete para o bufê de Tina em uma pequena galeria de arte no centro da cidade. Landon também está lá, então, sempre que vamos reabastecer nossas bandejas na cozinha, conto a ele sobre o tempo que passei com Jake. Landon presta atenção em cada palavra e se abana dramaticamente quando deixo escapar alguns detalhes íntimos. – Se controle, amigo. Isso é tudo que você vai saber. Uma garota precisa guardar alguns segredos – digo, provocando, quando Landon pede mais informações quentes. – Não é justo, já estou esperando isso há muito tempo – resmunga Landon. Dou um tapinha de leve no ombro dele. – Você fala como se eu fosse a última virgem da face da terra. – Não a última da face da terra, mas provavelmente a última com mais de 21 anos. Já prestou atenção à


sociedade em que vivemos, Rostinho Bonito? Estava louco para saber para quem exatamente você estava se guardando – diz ele, então pisca e sorri para mim. – Não estava me guardando. Você poderia me seduzir a qualquer momento – retruco, batendo com o quadril no dele, brincalhona. – Pronto. Estou renunciando oficialmente à minha condição de gay. A partir de agora sou todo seu, Rostinho Bonito. Pode aproveitar! – Ha ha. Acho que não funciona dessa forma, Lan, mas agradeço a oferta. – Sorrio para ele e voltamos ao trabalho. Mais tarde, no entanto, penso sobre o que Landon disse sobre eu estar me guardando. Será que estava mesmo? Porque bem no fundo percebo que talvez não tenha sido totalmente sincera ao negar isso. Eu havia feito uma promessa, muito tempo atrás, e embora a pessoa não fizesse mais parte da minha vida, e agora jamais vai voltar a fazer, em algum lugar no meu íntimo eu sabia que, se me apaixonasse de novo, seria porque alguma coisa no homem em questão me fazia lembrar de Leo.


Na terça à noite, asso algumas fornadas de cookies com gotas de chocolate, depois deixo uma porção deles com a Sra. Jenner e outra com Maurice. Converso por alguns minutos com cada um, então sigo para o ponto de ônibus, para visitar o Sr. Cooper. Ele está sentado na varanda, como sempre, me esperando. Quando me vê chegando, se levanta sorrindo e me cumprimenta com um forte abraço. – Evelyn – diz, gesticulando para que eu me sente no balanço da varanda, como sempre faço, enquanto ele se acomoda na cadeira acolchoada. A noite está fria, então ele me oferece uma manta de retalhos de crochê para colocar sobre as pernas e eu permaneço de casaco. O Sr. Cooper também está com uma coberta sobre as pernas. – Como o senhor está? – pergunto, sorrindo. Pouso os cookies que também levei para ele sobre uma mesinha ao lado do balanço e retiro o papel que os cobre. Ele abre um sorriso caloroso.


– Não poderia estar melhor. Estou recebendo a visita de uma garota bonita e ela ainda chega com um prato de cookies caseiros. – Pegue um – digo, gesticulando na direção do prato. Depois que o Sr. Cooper se serve, faço o mesmo. Após um instante, ele pergunta: – E quais são as novidades, Srta. Evelyn? Termino de mastigar antes de responder, me sentindo um pouco tímida. – Estou saindo com um cara – digo baixinho. Ele parece surpreso por um momento, provavelmente porque nunca mencionei nenhum namorado desde que nos conhecemos. Mas então abre um sorriso largo. – E quem é o moço de sorte? – O nome dele é Jake. É dono de uma empresa que tem alguma relação com a tecnologia de raios X. – Aceno com a mão, indicando que não sei ao certo o que é. – Ele é gentil, inteligente, bonito e... – Paro de falar, constrangida, e abaixo os olhos. Mas o Sr. Cooper ainda está sorrindo e me observa com atenção. – Ora, ora, Evelyn, acho que está apaixonada.


– Ah, não! – Balanço rapidamente a cabeça. – Ainda não deu tempo para isso. Acabamos de nos conhecer. Ele me avalia por um instante e logo volta a sorrir. – Na primeira vez em que pousei os olhos na minha Mary, soube que ela era a mulher da minha vida. E não duvidei disso nem por um segundo durante os 43 anos seguintes. Olho para ele com tristeza, sentindo o coração apertado. Sei que a perda da esposa ainda é um assunto delicado para o Sr. Cooper, embora já faça muitos anos que ela faleceu. – Ele sabe o que viu em você, Evelyn? Não sei bem o que ele quer dizer, mas respondo: – Ele parece gostar de verdade de mim também. E faz com que eu me sinta... especial. Querida. Volto a ficar ruborizada. É meio esquisito falar sobre a minha vida amorosa com alguém que considero como um avô. – Ótimo. Porque você é especial. Soube disso na primeira vez em que a vi naquele pátio, brincando com tanta paciência com aqueles dois diabinhos. – Ele ri. – Então, mais tarde, sentada sozinha na varanda, parecendo triste, mas sempre mantendo a cabeça


erguida. Eu sabia que você estava sofrendo, mas também percebi como era corajosa. Abaixo a cabeça, lembrando daqueles dias. – Nunca fui corajosa, Sr. Cooper. Passei a infância apavorada, e a adolescência também. O tempo todo. – No final, minha voz não passa de um sussurro. – Sei disso, Evelyn. Mas o medo não impediu que fosse bondosa com todos a seu redor, comigo inclusive. Não a impediu de se sentar com um velho, na varanda da casa dele, só para conversar por algum tempo, por ter percebido que eu precisava de um rosto sorridente para me animar. E nunca a impediu de me levar um copo de água quando me via aparando a grama no verão. Mesmo agora, acha que não sei que é difícil para você chegar perto daquela casa? – Ele gesticula para o meu antigo lar adotivo. – Ou o esforço que precisa fazer para me trazer um prato de cookies? Levanto os olhos. – Adoro lhe trazer cookies, Sr. Cooper. São uma boa desculpa para vir vê-lo. – Entende o que quero dizer? – pergunta ele, sorrindo.


Volto a abaixar a cabeça e fico olhando para as minhas unhas, envergonhada. Ele continua: – Sabe por que a chamo de Evelyn em vez de Evie, como todo mundo? Balanço a cabeça. Achei que ele me chamasse assim por ser de uma geração mais formal, que prefere usar o nome verdadeiro das pessoas, e não o apelido. O Sr. Cooper fica em silêncio por um instante, obviamente organizando os pensamentos. – Não quero tocar em nenhum assunto pessoal demais, Evelyn, já que você nunca falou sobre as circunstâncias que a fizeram vir para o lar adotivo aqui do lado, há tantos anos. Mas sei que não posso dizer nada a favor da sua mãe, que a largou aí e nunca mais apareceu. Imagino que você também não tenha muitas coisas boas a dizer sobre ela. Continuo em silêncio. Ele está certo a esse respeito. – Mas sua mãe fez ao menos duas coisas certas. Ela lhe deu a vida e lhe deu o nome de uma dama. E é exatamente isso que você é, Evelyn: uma dama. Certifique-se de que esse cavalheiro com quem está saindo saiba disso. Ele sorri e então pisca para afastar as lágrimas.


Inclino a cabeça para o lado e digo: – Já que estamos falando sobre elogios, há algo que também gostaria de lhe dizer. – Fico em silêncio por um instante, séria agora, antes de voltar a falar. – Nunca recebi muito amor na vida. Muitas vezes, só fui alvo de ódio. Mas em todos os lugares por onde passei, sempre acabei encontrando ao menos uma pessoa que fosse gentil comigo e que fizesse me sentir especial. Quando morei aqui – gesticulo para a casa ao lado –, essa pessoa foi o senhor. Sempre foi bondoso comigo e sempre me fez acreditar que eu tinha valor. O senhor não imagina o que isso significa para mim. Obrigada. O Sr. Cooper seca uma lágrima. – Estou virando uma manteiga derretida depois de velho, hein? – diz. Mas dá uma risadinha e me olha sorrindo, com a mesma bondade com que sempre me tratou. – Ah – continua o Sr. Cooper, obviamente mudando de assunto –, adivinhe quem estava correndo pelo pátio só de calcinha e sutiã há alguns dias, depois de o cachorro ter arrancado a peruca dela e saído em disparada pela porta.


Quase engasgo com um pedaço de cookie quando caio na gargalhada. – O quê? Sei muito bem de quem ele está falando. Minha exmãe adotiva, Carol, sempre usou uma peruca e acreditava piamente que ninguém percebia. Na verdade, parecia que ela usava um castor morto em cima da cabeça. Eu costumava imaginar que coisa tão horrível jazia sob aquela peruca para Carol achar que ficava melhor com ela do que com o que escondia por baixo. Fazia alguns anos que o marido de Carol havia saído de casa, levando os dois diabinhos filhos deles. Pelo jeito ele se cansara da bruxa com quem era casado. Não posso dizer que o culpei por isso, já que também saí correndo de lá assim que pude. Só não sei o que o fez demorar tanto. – Pois é. Eu, o carteiro e metade do quarteirão ficamos parados vendo aquilo, rindo, e não levantamos um dedo para ajudá-la. Ninguém se sentiu culpado por isso. Não fiquei surpresa. Carol sempre fora maldosa com todos os que cruzaram seu caminho ao longo dos anos.


– O vira-lata sarnento achou que era uma brincadeira e correu ainda mais rápido. Não que fosse muito difícil driblá-la. A mulher ganhou uns cem quilos desde que você foi embora e provavelmente já precisava perder cem quilos na época em que você morava com ela. Não consigo me controlar. Rio tanto que preciso levar as mãos à barriga, embora saiba que estou sendo cruel. – E o que há embaixo da peruca? – pergunto por fim, os olhos arregalados. – Ah, Evelyn, querida, eu não colocaria sobre seus ombros o peso dessa descrição. Ainda estou lavando os olhos com ácido toda noite para tentar queimar a imagem que ficou gravada na minha retina. – Estamos os dois às gargalhadas. Ficamos conversando por mais algum tempo e, quando chega minha hora de ir embora, o Sr. Cooper pega a minha a mão e a beija. – Lady Evelyn – diz, sorrindo. – Até a próxima vez. Se cuide. Dou outro abraço apertado nele e desço os degraus da varanda, sorrindo.


Quando chego em casa, tomo um banho e visto um pijama. Escovo os dentes, sento na cama, pego o celular e ligo para Jake. Já estou sorrindo ante a expectativa de ouvir a voz dele. No entanto, é uma mulher que atende ao telefone, o que me pega de surpresa. Tanto que permaneço em silêncio por um instante, e ela precisa repetir: – Alô? – Hã, olá – balbucio. – Jake está? Minha sobrancelha está franzida e sinto um bolo na garganta. – Ele está no banho – retruca a mulher, claramente irritada. – Quem é? – Hã... eu falo com ele depois. – E desligo em seguida. Que diabo foi isso? Afundo nos travesseiros, com uma sensação de vazio. Tem uma mulher no quarto de Jake enquanto ele está tomando banho? Não sei o que pensar, ou o que fazer. Devo ligar de novo em meia hora? Ou apenas deixar para lá?


Por fim, apago a luz e tento dormir. Fico rolando na cama por horas, mas Jake não liga de volta.

De manhã, o toque do celular me faz acordar. Abro os olhos lentamente, grogue e desorientada. Só consegui dormir depois de uma da manhã, e ainda são só seis horas. – Alô – murmuro. – Evie. É o Jake. Fico em silêncio por um instante. – Oi – digo por fim, já mais desperta. – Ei, você não telefonou ontem à noite. Eu teria ligado para você, mas peguei no sono enquanto esperava sua ligação. Acabei de acordar. Estava preocupado. – Jake, eu liguei para você. Uma mulher atendeu seu celular. Ela disse que você estava no banho. – Há acusação e mágoa na minha voz. É a vez de Jake ficar em silêncio por um instante, e acho que o escuto praguejar, mas parece que ele cobriu o bocal do telefone com a mão.


– Caramba, Evie, me desculpe. Recebi um casal de amigos do escritório aqui no quarto, para tomarmos um drinque depois do jantar, e acho que a esposa do meu colega deve ter atendido meu celular. Eu estava no banho porque tenho uma reunião bem cedo agora de manhã e estava tentando dar uma pista aos dois de que estava na hora de irem embora. Não sei por que ela atendeu ao meu celular. Vou falar com ela. Você está chateada? Fico em silêncio por um instante. – Se isso é verdade, Jake, então não, não estou chateada. Só não entendo por que essa mulher atenderia ao seu celular e não lhe daria o recado. – Também não sei, mas eles estavam bebendo, e só pode ter sido por isso. É a única justificativa em que consigo pensar. Desculpe, meu bem. Você deve ter ficado magoada... Não respondo logo. – Fiquei confusa, Jake. Mas está tudo certo. Se foi isso que aconteceu, então não foi culpa sua. Ele deixa escapar um suspiro trêmulo. – Estou com saudades de você. Mal posso esperar para vê-la. Ainda posso pegá-la hoje depois do trabalho? – Ele parece preocupado.


– Pode – respondo. – Nos vemos mais tarde então, certo? – Certo. Evie, eu... realmente senti saudades de você. Sei que foram só alguns dias, mas estou ansioso para vêla. Começo a ficar derretida. Só um pouco. – Eu também, Jake. Nos vemos à noite. Desligo o celular e rolo na cama. Não tenho certeza do que estou sentindo. Gostaria de ser mais experiente nesse assunto. Respiro fundo. Tenho que decidir se confio em Jake ou não. Levanto. É melhor começar logo o dia. Tenho certeza absoluta de que não vou conseguir voltar a dormir agora.

À noite, quando saio do trabalho, Jake está me esperando encostado no carro, usando um terno cinzaescuro e óculos escuros modelo aviador. Ele sorri para mim, com aqueles dentes brancos, cintilantes. Meu Deus, como ele é sexy. – Oi – digo, sorrindo, ao me aproximar dele, ainda meio desconfiada por conta de ontem à noite.


– Oi – responde ele, ainda sorrindo, também. Ficamos ali parados, olhando um para o outro como dois patetas por alguns segundos, então caímos na risada e ele gira comigo nos braços. – Nossa, como eu estava com saudades! Do seu sorriso, do seu cheiro... – diz ele enquanto enfia o nariz no meu pescoço e inspira. – Do seu corpo junto ao meu... – Também estava com saudades – retruco baixinho. – Está com fome? – Sim, faminta. – Gosta de comida japonesa? Tem um lugar ótimo a alguns quarteirões da minha casa. Ele olha para mim, parecendo quase nervoso. Jake é uma dicotomia e tanto... em um momento é autoritário e possessivo, e no instante seguinte se mostra quase inseguro. Não sei bem a que conclusão chegar. Tenho certeza de que ele mexe comigo, mas também tenho certeza de que quero saber mais sobre ele. – Gosto de comida japonesa, sim, mas não posso sair para jantar usando o uniforme... – Que tal passarmos no restaurante, pedirmos os pratos para viagem e comermos em casa?


– Acho ótimo. Ele abre a porta do carro para mim e dá a volta até o lado do motorista. Seguimos até um pequeno restaurante e ele estaciona. – Sei que a aparência do lugar não é grande coisa, mas eles realmente têm o melhor sushi da cidade. – Confio em você – digo, sorrindo. – Do que você gosta? – Me surpreenda. Não há nada que eu me recuse a comer. – Corajosa. – Ele pisca. – Muito bem, volto logo. Ele tranca o carro e entra no restaurante. Ligo para Nicole. – Evie – diz ela ao atender, meio cantarolando. Meu Deus, Nicole devia arrumar um jeito de comercializar toda aquela empolgação. – Olá! Como vão as coisas? – Ah, está tudo bem. Você sabe, colocando roupas para lavar, passando pano no chão... Minha vida é tão glamourosa que chega a ser ridícula. E como você está? Rio. – Jake foi comprar comida para nós num restaurante. Estou esperando no carro. Escute, não


posso falar por muito tempo, mas queria lhe perguntar uma coisa. – É claro. Diga! – Bem, Jake foi a San Diego a negócios, e ficou lá de ontem para hoje. Combinamos que eu ligaria para ele ontem à noite, e quando liguei uma mulher atendeu e disse que ele estava no banho. Ouço o arquejo de Nicole. – Não é? – digo. – Aí hoje ele me ligou às seis da manhã e explicou o que aconteceu, mas eu... não sei... quis conversar com você a respeito para me certificar de que não estou fazendo papel de boba. – Qual foi a explicação dele? – pergunta Nicole, em uma voz calma. Conto a ela o que Jake me disse. – Hum... Bem, não parece tão absurdo. Acho que o que você deve fazer é ouvir a voz da sua intuição. Fico em silêncio por um instante, pensando. – Minha intuição me diz que ele é um cara realmente legal, que está mesmo interessado em mim e se preocupa comigo. Mas também tenho a sensação de que ele estava mentindo a respeito da mulher. Nicole não diz nada por um instante, então fala:


– Não tenho certeza se essas duas coisas podem ser verdadeiras, Evie... Suspiro. – Eu sei. Estou confusa. Meu coração me diz para confiar nele, mas... – Acho que você não tem como errar se ouvir seu coração, querida. Gosto de pensar que fazendo isso, mesmo que no fim descubra que estava errada, não vai estar errada. Faz sentido? – Faz. – Dou um sorrisinho. – Que mulher inteligente você é. – Dito isso, não quero vê-la magoada de forma alguma. Siga a sua intuição, mas se alguma coisa acontecer que a faça questioná-la, pare por algum tempo para avaliar. Não deixe que Jake embote sua mente com os feromônios que exala. Rio de novo. Bom conselho, já que ele realmente tem feromônios incríveis. Nesse momento, vejo-o vir em direção à porta de vidro do restaurante. – Ah, bem, ele está voltando. Obrigada, Nic. Amo você. – Também amo você, meu bem – sussurra ela em resposta.


Jake entra no carro, me entrega um saco de papel pardo que exala um cheiro delicioso e dá a partida. Depois de apenas cinco minutos estamos estacionando na garagem do prédio dele. Entramos no apartamento de mãos dadas e, no mesmo instante, vejo um MacBook branco sobre a mesa de jantar, com um laço de fita vermelho no topo. Olho para Jake e ele está com um sorriso inseguro no rosto, alternando o olhar entre mim e o laptop. – Jake, você não... – Evie – interrompe ele, levantando a mão em um gesto de “fique quieta” –, não fale nada até escutar o que eu tenho a dizer. Sei que seu primeiro pensamento é não aceitar o presente, mas, por favor, me escute. Levo as mãos aos quadris, uma das sobrancelhas erguida. – Quero fazer isso, mas não só por sua causa. É que acho você tão incrível que acredito que, ao tornar os seus sonhos realidade, isso fará com que o seu jeito de ser se amplie, mudando não só a sua vida, mas também a minha e a de muitas, muitas outras pessoas. Por favor, deixe-me fazer isso por você, Evie, e por todas as


pessoas que terão suas vidas transformadas quando lerem as lindas palavras que você guarda na alma. Estou com os olhos marejados e respiro fundo, trêmula. – Sem pressão, certo? – digo para Jake, mas com uma risadinha. Caminho até o computador e começo a examiná-lo. Levanto a tampa, ligo e observo a tela se iluminar. Então olho para Jake. – Você torna muito, muito difícil lhe dizer não. Sabia disso, Jake Madsen? Ele sorri para mim e fico encarando-o por alguns segundos, antes de dizer simplesmente: – Obrigada.

Mais tarde, depois de jantarmos, Jake e eu fazemos amor de forma lenta e doce diante da lareira da sala. Então levanto e ligo meu laptop para investigá-lo um pouco mais. Sorrio para Jake, que está acomodado no sofá, assistindo a um telejornal. Ele sorri também e pergunta: – Investigando? Nunca usou um Mac?


– Não, mas sempre fui muito boa com computadores. Provavelmente vou logo pegar o jeito. Exploro o computador por mais uns quinze minutos, enquanto Jake continua a assistir ao noticiário. Por fim, acesso a internet e entro no meu e-mail, que quase nunca checo. Como eu esperava, não há nada além de spam. Dou uma olhada rápida na direção de Jake. Ele está concentrado na TV, por isso entro no Google e digito o nome dele no campo de busca. Logo percebo que a maior parte das entradas é sobre Jake assumindo o comando da empresa do pai. Mas não presto atenção a elas. Me concentro na história que aparece no topo da busca, que é sobre um jantar beneficente que aconteceu em San Diego na noite de terça-feira, aquela na qual a mulher atendeu ao celular dele. Há fotos de Jake no evento conversando descontraidamente com vários homens mais velhos, lindo. Vou até a última foto da matéria e fico paralisada. Lá estão Jake e Gwen, mais deslumbrantes do que qualquer casal tem o direito de ser, como se houvessem sido feitos um para o outro. Gwen está rindo e Jake se inclina na direção dela, sorrindo e provavelmente dizendo algo engraçado e íntimo.


Fecho o laptop com força e Jake levanta os olhos. Quando percebe a expressão em meu rosto, ele se levanta. – Qual é o problema, meu bem? – pergunta. Caminho até a porta e começo a vestir o casaco. – Evie! – diz ele, soando confuso e frenético. – O que aconteceu? Por que está indo embora? – Aquela mulher no seu quarto ontem à noite era Gwen, não era, Jake? – O quê? – Ele franze a sobrancelha, confuso. – Não. É claro que não. Você acha que eu convidaria Gwen para tomar um drinque no meu quarto depois do modo como ela a tratou? – Bem, não estou achando que você a levou ao seu quarto para tomar um drinque, Jake. Só sei que você parece muito satisfeito sussurrando no ouvido dela nas fotos do evento beneficente a que foram ontem à noite. Ele volta a me olhar confuso por um instante, então passa a mão pelos cabelos, antes de dizer: – Evie, foi um evento beneficente patrocinado pela minha empresa. Gwen estava lá com o pai. Ela tentou falar comigo várias vezes e eu não lhe dei atenção. Quando ela me encurralou na frente de um fotógrafo, me


inclinei no ouvido dela e disse que a sorte dela é que eu não sou do tipo que gosta de registrar o desprezo que sinto em público. Gwen riu, como se eu estivesse brincando, e eu não estava. Foi isso. Não falei mais com ela durante o resto da noite. Fico olhando para ele, o casaco meio vestido, sentindo a mágoa, a incerteza e a confusão lutarem dentro de mim. Respiro fundo. – Quero acreditar em você, Jake, só... não quero... – Evie, escute... Meu Deus, se você soubesse... – Ele se interrompe, deixando escapar uma risada sem humor. – Se eu soubesse o quê? Os olhos dele encontram os meus e fico surpresa com o desespero que vejo em seu rosto. Mas será sincero? – Se você soubesse quanto é absurdo você achar que eu a trairia com qualquer pessoa, ainda mais com Gwen! Sinceramente, se você pudesse entrar na minha mente, também estaria rindo. – Jake... – Por favor, confie em mim. Por favor, não vá embora.


Os olhos de Jake parecem cheios de angústia. Eu o encaro atentamente, para avaliar sua sinceridade, e sinto que está falando a verdade. Por isso, deixo que me leve de volta para a sala, tirando o casaco no caminho e jogando-o sobre um banco perto da porta. Mais uma vez, sigo Jake e a voz do meu coração. Mas, no fundo, torço para que isso não faça de mim uma tola.


c a p í t u lo 2 0

Trabalho para o bufê outra vez na quinta, e volto tarde para casa. Estou exausta quando me enfio na cama, mas o pagamento é bom e fico grata pela sensação de segurança que ter um pouco de dinheiro extra me dá. Na sexta-feira, Jake me convida para ficar com ele. Pego carona com um colega, porque Jake precisa resolver alguma coisa e não pode ir me buscar. Quando entro no apartamento, ele me levanta no ar e me beija. – Estou preparando um banho para você, para que recupere a energia, pois vou levá-la para dançar hoje. – Dançar? Não sei dançar.


– É claro que sabe. Só não sabe que sabe. Já foi a alguma boate? – Não, já fui a bares, mas... – Não faz sentido uma garota de 22 anos nunca ter saído para dançar. Quero ser o primeiro a levá-la. Quero ter o máximo possível de primeiras vezes com você. – Ele sorri para mim. – Você sabe que preciso trabalhar amanhã, não é? – Não vamos ficar até muito tarde. – Hum... Está bem, mas ainda há uma falha em seu plano. Não tenho roupa para ir a uma boate. Ele dá um sorrisinho matreiro. – Dê uma olhada na cama. – Jake – digo, levando as mãos aos quadris –, você não precisa comprar roupas para mim. – Faça isso por mim, Evie. Comprei só um vestido e um par de sapatos. Para mim significa muito fazer isso. Por favor, aceite. Levanto a sobrancelha, sem entender bem, mas vou em direção ao quarto para dar uma olhada no vestido. O que Jake teria escolhido para eu usar em uma boate? Entrei no quarto e vi, sobre a cama, um vestidinho sexy, de um ombro só, azul-pavão, com um cinto preto


na cintura. Ao lado dele, um par de sapatos de salto alto e fino que deixariam Nicole babando. Passo o dedo pelo tecido sedoso do vestido e tenho que admitir que adorei. Quando me viro, Jake está encostado no batente, os braços cruzados e um sorrisinho satisfeito no rosto. Sorrio também. – Adorei. Obrigada. Foi você mesmo que escolheu? – Bem, a vendedora da Saks me ajudou um pouco. Mas disse a ela a cor que queria e dei uma olhada nas roupas que você deixou aqui, para saber o tamanho. – Azul-pavão, hein? – Levanto uma sobrancelha. Ele dá de ombros. – Gosto da cor. Só não me peça para levá-la perto do zoológico. Rio, dou um beijinho rápido nele e sigo para o banheiro, já tirando as roupas de trabalho. Jake me prepara um banho de banheira, então vai para a cozinha a fim de fazer um jantar rápido para mim, porque já comeu. Afundo nas bolhas com aroma de lavanda que Jake comprou e aumento a intensidade do jato da banheira. Depois de uns vinte minutos, sinto o corpo e a mente


rejuvenescidos. Saio da água já fria e começo a me arrumar. Visto uma calcinha rendada preta e o vestido que Jake me deu de presente. Cabe perfeitamente e é muito sexy, colando-se a cada curva do meu corpo. Não tenho seios muito grandes, mas minha cintura é fina e as pernas longas, e tenho que admitir que esse modelo me favorece. Seco os cabelos com o secador e formo ondas soltas com as mechas. Capricho na maquiagem, usando uma sombra escura e esfumada. Nos lábios aplico um gloss cor de boca. Quando entro na cozinha, Jake se vira e fica imóvel, enquanto seus olhos percorrem meu corpo, a expressão cada vez mais ardente. – Você está estonteante. Sorrio, meio constrangida. – Obrigada. Tenho um comprador particular que está bem familiarizado com o meu corpo. Jake sorri e pousa uma tigela sobre o balcão. – Massa primavera com camarão – diz. Eu me sento, começo a comer e digo ainda na primeira garfada:


– Meu Deus, isto está delicioso! Foi você que fez? – Não há nada de mais nesse prato. Foi só picar alguns legumes e colocar um pouco de massa para cozinhar. Não acredito. Está gostoso demais. – Da próxima vez sou eu que vou cozinhar para você. Já me mimou muito. – Acostume-se. Gosto de mimar você. Então ele tira o suéter de manga comprida que está usando e não acredito no que vejo. A camiseta branca que Jake está vestindo por baixo do casaco tem uma estampa grande na frente que diz Melhor do Mundo em letras pretas e em negrito. Quase engasgo com a comida. Começo a tossir e levo rapidamente o guardanapo à boca para não cuspir tudo em cima de Jake. – O que foi? – pergunta ele, fingindo inocência. Aponto para a camisa. – Melhor o quê do mundo? – digo, tentando controlar as gargalhadas. – Ah, isso? – retruca ele, apontando para o peito. – O que você quiser. Melhor Cara do Mundo, Melhor Amante do Mundo, Melhor Cozinheiro do Mundo. – Ele


gesticula na direção da massa ao dizer a última parte. – Pode escolher o que quiser, sou o melhor. Sorrio. – Ah. Bem, admiro muito sua autoconfiança. Mas sabe, você agora abriu brecha para que seus críticos testem seus talentos. Jake se inclina sobre a bancada, um sorriso diabólico no rosto. – Só me importo com um crítico. E estou esperando ansiosamente para ser testado por ele. Quanto mais provas, melhor. – Ele pisca para mim. Sorrio de novo. – Você é ridículo, sabia? Jake dá uma gargalhada. – Termine. Vou me trocar enquanto você come e então iremos. – Você não vai usar sua camiseta de Melhor do Mundo na boate? – grito quando ele já está se afastando. – Você não quer fazer propaganda de mim por toda a cidade, quer? – grita ele de volta, e posso ouvir o sorriso em sua voz. Dez minutos depois ele está na cozinha de novo, usando uma calça preta e uma camisa social cinza-clara,


com cinto e sapatos pretos. Nham.

A boate no centro da cidade a que Jake me leva é moderna e badalada, com um ar de loft nova-iorquino. Temos sorte e conseguimos uma mesa perto do bar bem na hora em que um grupo pequeno está indo embora. Jake puxa uma cadeira para mim e, quando a garçonete se aproxima, ele pede uma água e eu uma taça de Chardonnay. A mulher nem se dá o trabalho de olhar para mim. Está tão ocupada encarando Jake que me pergunto se chegou a ouvir meu pedido. Mas cinco minutos depois ela está de volta com meu vinho, e só aceno com a cabeça. Jake aproxima a cadeira para ficar bem perto de mim e enfia o rosto no meu pescoço, falando gracinhas e me fazendo rir enquanto conversamos e bebo meu vinho devagar. Olho ao redor, para a decoração bonita e moderna, e penso em como Landon acharia esse lugar incrível. Ele está sempre falando sobre as boates que conheceu


quando esteve em Nova York e Los Angeles. Acabo pensando em voz alta e Jake sugere: – Por que não manda uma mensagem para ele e pergunta se quer se juntar a nós? Eu o encaro, surpresa. – Mesmo? – Claro. Eu adoraria conhecer seus amigos. Hesito por um momento, mas... por que não? – Está certo. Pego o celular e mando uma rápida mensagem de texto para Landon. Ele responde alguns minutos depois dizendo que está acabando de jantar com um amigo, mas que adoraria nos encontrar. Quarenta e cinco minutos mais tarde, vejo meu amigo entrar. Eu me levanto e aceno animada para ele. Landon se apressa até nós, seguido por um cara de cabelos escuros. Quando está quase chegando à nossa mesa, ele exclama: – Rostinho Bonito! Eu me jogo nos braços dele e grito também, acima da barulheira da boate: – Oi!


Landon me afasta e diz bem alto: – Garota, você está gostosa! – Então se vira para Jake, que está parado perto de nós, aperta a mão dele e diz: – Obrigado por nos convidar. Jake sorri e acena com a cabeça. – É bom conhecê-lo oficialmente. Landon puxa para o lado o cara bonito que está atrás dele e o apresenta como Jeff Stoltz. Dou uma olhada no rapaz, achando que me parece muito familiar. Então me dou conta de que a cor do cabelo é diferente, mas... – Alguém já lhe disse que você se parece com o... – Matt Damon? – completa ele, sorrindo. – Sim, já ouvi isso uma ou duas vezes. – Só isso...? Eu rio e gesticulo para que se sentem. Os dois se acomodam à mesa. Enquanto Jeff pede bebidas e Jake está olhando para o outro lado, Landon chama a minha atenção e se abana, fazendo um gesto com a cabeça na direção de Jake. Sorrio, sem ter como discordar. Pedimos mais drinques e jogamos conversa fora. Jake é charmoso e agradável e estou me divertindo muito.


Já tomei três taças de vinho quando Jake se levanta, me puxa contra si e sussurra: – Quero você na pista de dança. Meu coração começa a bater um pouco mais rápido e oscilo ligeiramente, mas de repente dançar não parece mais tão assustador. Tenho a ligeira desconfiança de que essa nova coragem se deve às três taças de vinho. Aceno para os rapazes e sigo Jake até a pista de dança. Está tocando um remix de “One More Night”, do Maroon Five, e subitamente estou nos braços de Jake, o corpo dele se movendo junto com o meu, e acho fácil seguir os movimentos sexy de seus quadris. Passo os braços ao redor do pescoço dele e dançamos juntos. A não ser pelo sexo, essa é a experiência mais erótica que já tive com Jake. – Eu deveria ter imaginado que você dança muito bem – sussurro no ouvido dele. Jake sorri e pressiona o corpo ainda mais contra o meu, me fazendo fechar os olhos e me pendurar com mais força no pescoço dele. Seria muito deselegante ter um orgasmo na pista de dança de uma boate? Rio para mim mesma. Está certo, talvez eu tenha exagerado um pouquinho na bebida.


A música muda, sinto um tapinha no ombro e vejo Landon sorrindo para mim. Jake segura meu queixo entre as mãos, me dá um beijo rápido e intenso e me vira na direção de Lan. – Vou ao banheiro – diz. – Tome conta dela. Landon assente e logo me gira na pista. Rio e acompanho seus passos. – Jeff parece muito legal, Lan – digo, girando de volta para os braços dele. – Ele é. Acho que gosto mesmo dele. Queria que você o conhecesse melhor, para me dar sua opinião – comenta, parecendo um pouco nervoso. – Gostei do que vi até agora. – Ótimo. Acho ele incrível. E gostoso. Quero dizer, talvez não tão gostoso quanto seu bofe, mas gostoso. Landon ri e me faz girar novamente. – Onde você o conheceu? – No Starbucks. O salão estava lotado e ele me perguntou se poderia dividir a mesa comigo. Acabamos ficando lá conversando por três horas. – Que bacana! Sorrio para ele e giro. Estou adorando tudo. O barato do vinho, a batida da música, o fato de um dos meus


melhores amigos estar ali se divertindo comigo, estar nos braços de Jake... Dez minutos depois, bem quando estou começando a acreditar que talvez seja uma dançarina realmente talentosa – ou talvez seja apenas o vinho, não tenho certeza –, um cara alto de cabelos escuros, usando uma camiseta preta justa, agarra minha mão e tenta me puxar para ele. Balanço a cabeça em uma negativa e aponto para Landon. Quando Landon vê o que está acontecendo, segura minha outra mão e tenta me puxar de volta. Mas, ao que parece, o cara não está disposto a aceitar dois “nãos” como resposta, porque me puxa com mais força e tropeço na direção dele. Há uma breve agitação enquanto Landon tenta me levar para longe do fortão, que por sua vez tenta me virar para que seu corpo musculoso fique entre mim e Landon. Levanto os olhos para o rosto do homem e percebo que ele já bebeu demais. De repente, o cara que estava me segurando voa para longe e vejo Jake, lívido, levantando o homem do chão pela parte de trás do colarinho. Jake diz alguma coisa perto do rosto dele, que levanta as mãos em um gesto


zombeteiro de paz e se afasta cambaleando. Fico imóvel, olhando para o rosto furioso de Jake. Aquela expressão... Jake observa o homem se afastar, o maxilar tenso, então se volta para mim. Me sinto levemente zonza. Deve ser o álcool. Afasto qualquer coisa da mente e abro um sorriso para Jake. – Meu herói – sussurro, e quando Jake abaixa o rosto em direção ao meu, deve perceber que estou mesmo levemente embriagada, porque balança a cabeça, sorri e passa os braços ao meu redor. Sorrio para ele também e voltamos a dançar. Uma hora mais tarde, estou suada, ofegante e meus pés estão me matando. Jeff se juntou a nós na pista de dança pouco minutos depois de Jake afastar o fortão de mim, e estamos todos nos divertindo muito juntos. Jake se inclina para a frente e diz alguma coisa para Landon, que assente e sopra um beijo para mim. Sopro outro para ele e aceno para Jeff, que acena também. Então Jake pega a minha mão e se afasta comigo da pista de dança. Peço um segundo a ele para ir ao banheiro, então lhe dou um beijo rápido e me afasto. Depois de fazer xixi,


me arrumar um pouco diante do espelho, saio do banheiro. Olho ao redor, confusa. Jake não está à vista. Finalmente o localizo perto da porta, o rosto tenso enquanto diz algo a uma mulher que não consigo ver bem, porque a cabeça dela está virada, e há alguém parado logo atrás, ocultando a maior parte de seu corpo. Tudo o que consigo distinguir são os cabelos castanhos presos para cima e as pernas longas e bem torneadas. A mulher se vira e sai pela porta. Jake, então, olha na direção do banheiro, parecendo nervoso. Ele não me vê, porque já estou caminhando em sua direção, me espremendo através de um grupo de pessoas paradas no bar. Jake vai até o segurança e diz alguma coisa rápida. Então, levanta os olhos e, ao me ver, não consegue disfarçar uma expressão passageira de surpresa. Mas logo seus traços se suavizam e ele pega a minha mão. – Pronta? – pergunta. – Com quem você estava falando? – digo, a testa levemente franzida. Ele me olha e fica em silêncio por um instante, antes de responder:


– Era só uma mulher bêbada, fazendo uma cena. O segurança chamou um táxi para ela e eu a levei até a porta. Espere, deixe-me pegar um copo de água para você no bar antes de irmos. – Estou bem – respondo. – Você parece irritado. – Não, não. Ela estava só sendo meio agressiva. Tentou dar em cima de mim e eu disse que não. Foi só isso. – Jake dá um puxão de leve na minha mão. – Agora confie em mim em relação à água. Amanhã de manhã você vai ficar feliz por ter bebido esse copo, ainda mais porque vai estar trabalhando. Ele pede a água quando chegamos ao bar e fica observando enquanto bebo o líquido todo. Sorrio quando termino e pouso o copo sobre o balcão. – Me leve para casa – peço. – Antes que eu tenha que arrancar mais mulheres de cima de você. Jake ri e balança a cabeça. Caminhamos até a porta e Jake se inclina para dizer alguma coisa ao segurança. Em poucos minutos o homem faz um sinal para Jake e o manobrista chega com o carro. No caminho de volta, Jake parece meio tenso, mas logo relaxa, quando começamos a rir lembrando dos passos de dança cinematográficos e


hilariantes de Landon, que dublava a música exagerando na performance para nos divertir. Acho que nunca ri tanto na vida. Quando estacionamos na garagem do prédio de Jake, ele desliga o carro e, em vez de sair, olha para mim, segura meu rosto entre as mãos e começa a me beijar úmida e intensamente. A sensação dos lábios dele nos meus é tão gostosa que retribuo com o mesmo entusiasmo. Então Jake me puxa para o colo dele e eu pressiono o corpo para baixo. A sensação é maravilhosa. Continuo o movimento. De repente, escuto o som de tecido se rasgando. Paramos de nos beijar, confusos. Quando me afasto ligeiramente de Jake, percebo que a costura da entreperna da calça dele está rasgada até o meio. – Ai, meu Deus – arquejo. – O rapaz aí embaixo parece o Incrível Hulk. Ele ergue uma sobrancelha. – Rapaz? Assinto lentamente. – Ele está zangado? – Ainda não. Mas se você continuar a se referir a ele como “rapaz”, talvez fique. Ele é um homem com h


maiúsculo. Você não vai querer vê-lo zangado. – Ah, eu com certeza quero vê-lo zangado. Ele dá uma gargalhada e diz: – Venha, vamos subir. Jake me ajuda a descer do carro e me guia em direção à entrada do prédio. Quando passamos pela mesa na portaria, ele me posiciona bem na frente do corpo, para esconder a calça rasgada, e caminha colado em mim enquanto cumprimenta o porteiro da noite: – Olá, Joe. O homem olha para nós com uma expressão confusa. Tenho uma crise de riso enquanto Jake me apressa até o elevador e praticamente me empurra lá para dentro. Gargalhamos enquanto o elevador sobe. Quando entramos no apartamento, cambaleamos contra a parede, ainda rindo. O corpo dele está pressionado contra o meu. De repente, fico séria. – Jake, nunca fui inconsequente em toda a minha vida, e quero lhe agradecer por me permitir ser. Sei que isso pode soar meio louco, e talvez até meio tolo, mas, de verdade, representa muito para mim. Então, muito obrigada por hoje.


Pisco para ele, de repente me sentindo um pouco emotiva. Jake não tem como saber, mas em um espaço tão curto de tempo ele vem me dando tantas coisas que eu sempre quis, mas nunca havia conseguido ter. Ele também está me encarando muito sério, agora, como se compreendesse perfeitamente. – Tudo o que quero é ter muitos outros momentos inconsequentes com você, minha linda. Os olhos dele passeiam pelo meu rosto, cheios de satisfação e carinho. Então Jake captura minha boca com a sua, enquanto pressiona meu corpo com força contra a parede. Nos beijamos por um longo tempo, a língua de Jake invadindo minha boca, me fazendo gemer. Agora já estou quase sóbria, mas o gosto dele é embriagante. Jake me levanta e passo as pernas ao redor dele. Abaixo a mão até a parte já rasgada da calça e o acaricio o melhor que posso, já que nossos corpos estão colados. Ele deixa escapar um gemido baixo e o som faz a umidade entre as minhas pernas aumentar. Jake tira uma das mãos da minha bunda, me pressiona com mais força ainda contra a parede e rasga


minha calcinha. Abro os olhos, surpresa, e arquejo, então gemo quando os dedos dele chegam até meu sexo. – Sempre molhada para mim – diz ele, em um suspiro. Apoio a cabeça contra a parede e Jake lambe e beija meu pescoço. A sensação é tão incrível que começo a me contorcer contra o corpo dele, esfregando o centro do meu prazer na enorme ereção que sinto pressionada com força contra mim. Quando Jake afasta o quadril, solto um gemido de protesto. – Coloque o meu pau pra fora, Evie... O pedido sai em um grunhido. Eu abaixo a mão, passo-a através da calça rasgada, enfio-a dentro da cueca e liberto-o, como ele pediu. Jake segura minha bunda com mais força enquanto arremete para a frente, me empalando contra a parede. Deixo escapar um grito quando ele me preenche, todos os meus músculos internos tensos ao redor do pênis muito rígido. Ficamos nos encarando por vários segundos, e o calor e a intensidade que emanam dele me deixam hipnotizada.


Jake continua a me olhar enquanto se afasta lentamente, quase saindo todo de dentro de mim, e logo volta a arremeter, me atingindo onde mais preciso daquele contato. Ah, meu Deus, que delícia. Fecho os olhos sem perceber e deixo escapar um gemido profundo, os lábios entreabertos. Escuto Jake sibilar, um som baixo e gutural. É nesse momento que as coisas ficam mais intensas. Jake domina minha boca mais uma vez e começa a arremeter com mais força, mais fundo, quase me castigando, minhas costas batendo contra a parede. Mas adoro cada minuto, adoro me sentir possuída por esse homem lindo, que me penetra com força, excitado demais para ser gentil. Jake leva a mão ao ponto de união dos nossos corpos e pressiona o dedo contra o meu clitóris. Começo a ofegar e a gemer dentro da boca dele quando sinto um orgasmo se aproximar e me atingir com força. Ele afasta a boca da minha para dizer, novamente em um grunhido, ainda arremetendo, me imprensando contra a parede: – Minha. Só minha. Só. Minha. Para sempre.


Jake parece selvagem, fora de controle. Os olhos dele estão fechados e os lábios entreabertos quando o orgasmo se aproxima. Então ele joga a cabeça para trás e emite um gemido profundo. Sinto o sêmen quente jorrando dentro de mim. Ele abaixa os olhos languidamente para mim enquanto continua entrando e saindo do meu corpo, agora devagar, aproveitando o clímax ao máximo. – Você é tão lindo – digo. Ele sorri, os olhos cheios de calor, enquanto abaixa o meu corpo até o chão. Seus braços devem estar doendo... – Você que é linda. Beijo-o docemente nos lábios, então ajeitamos as roupas, ele me pega pela mão e me leva para a cama.


c a p í t u lo 2 1

No

sábado de manhã, acordo me sentindo surpreendentemente bem. Fico grata por isso, já que meu turno começa às dez. Tomo uma ducha, da qual estou precisando muito, já que Jake e eu simplesmente desabamos na cama ontem à noite depois de nos acabarmos de dançar na boate e das atividades contra a parede. Sorrio ao lembrar. Seco um pouco os cabelos e faço uma trança solta que deixo cair sobre o ombro, coloco um pouco de maquiagem e visto o uniforme. Dou um beijo de despedida em Jake e me debruço sobre ele para enfiar o rosto em seu pescoço. Jake geme e resmunga:


– Não me provoque. Estou a três segundos de fazê-la chegar muito atrasada no trabalho. Dou uma risadinha, mais um beijinho rápido no rosto dele e deixo-o na cama. Já na porta, dou uma olhada para trás e Jake está deitado de costas, enroscado nos lençóis. Ninguém deveria ter o direito de ser tão bonito àquela hora da manhã. Não é justo. Sorrio para mim mesma. Jake pediu que um dos motoristas da empresa dele me pegasse na portaria. O carro está esperando por mim quando saio do prédio. Não me incomodo de andar de ônibus, mas poderia me acostumar a esse conforto. Levo menos de dez minutos para bater o ponto. O dia passa rápido, embora eu esteja cansada por termos dormido tarde ontem à noite e por todo o esforço físico que fizemos. Antes de pegarmos no sono, Jake e eu combinamos que ele me buscaria no trabalho, mas no meio do expediente meu gerente me pergunta se quero sair uma hora mais cedo. Pelo jeito havia funcionários demais escalados para trabalhar no mesmo horário, e aproveito a oportunidade. Mando uma mensagem de texto para Jake, mas ele não me retorna até eu bater o ponto, então troco de


roupa rapidamente e pergunto a uma colega que está saindo ao mesmo tempo que eu se pode me dar uma carona até o endereço de Jake. Ela me deixa na frente do prédio e tento ligar mais uma vez para Jake, mas ele não atende. Peço para uma pessoa que está entrando segurar a porta para mim e entro também. Pego o elevador até a cobertura sozinha e, como me lembro do código simples que Jake usou para chegar ao andar dele, digito-o. Espero que ele não se incomode por eu chegar mais cedo, mas por que se incomodaria? E se ele não estiver em casa? Bem, se for o caso, terei que descer de novo e esperar na portaria enquanto continuo tentando falar com ele pelo celular. Deve haver algum café aqui perto... Quando o elevador se abre, percebo que a porta do apartamento está entreaberta. Escuto vozes vindo lá de dentro. Estranho e paro na lateral da porta, sem saber se devo bater. Ao decidir que sim e erguer a mão, escuto uma mulher dizer: – Você não precisa agir assim. Me deixe melhorar as coisas, querido. Fico paralisada. Que diabo está acontecendo? Jake responde e sua voz soa tensa, raivosa:


– Não comece com essa merda. Expliquei a você em San Diego qual é a natureza da nossa relação. E o resumo é que não há relação alguma, certo? – Você está mentindo para si mesmo, Jake. Não pode simplesmente cair fora. Não pode me abandonar. – O cacete que eu não posso. Vá embora daqui. Eles ficam em silêncio por alguns segundos, então escuto um farfalhar e Jake grita: – Saia DAQUI! Parece que a mulher está chorando. Ouço passos na direção da porta e entro em pânico. Merda! O que devo fazer? Mas antes que consiga conceber algum plano, a porta é aberta com força e me pego encarando os olhos furiosos de Jake. Ele me vê e uma expressão de choque domina seu rosto antes que diga, baixinho: – Merda, Evie. Que diabo você está fazendo aqui? É como se eu houvesse sido estapeada. Fico parada ali, boquiaberta como um peixe estúpido, e nesse momento uma mulher sai pela porta. Ela é linda, com cabelos castanho-claros cheios que descem até os ombros e olhos grandes e verdes. É mais velha do que Jake e eu, deve ter quase 40 anos. Ela olha para mim,


então para Jake, depois volta a me fitar com uma expressão zombeteira. – Sério, Jake? Já? Jake fecha os olhos por um segundo, então repete em uma voz que parece prestes a sair do controle: – Vá embora daqui. A mulher o ignora, caminha até onde estou e estende a mão. – Meu nome é Lauren – diz. Mas pelo modo como fala, tenho certeza de que não está nada feliz em me conhecer. Como não tenho ideia do que fazer, aperto a mão dela e sussurro: – Prazer em conhecê-la, meu nom... – Mãe! – grita Jake. – Se não for embora agora, juro por Deus que vou chamar a segurança para arrastá-la pelas escadas. Ele está com o maxilar muito tenso e os punhos cerrados ao lado do corpo. Mãe? Estou estupefata e fico abrindo e fechando a boca sem dizer nada, feito uma idiota. Imagino que tenha subestimado a idade da mulher, mas ela realmente não


parece ter mais do que 35 anos. Acho que é isso que chamam de poder do dinheiro. Um relance de mágoa passa pelo rosto de Lauren, mas ela se empertiga e diz: – Muito bem, Jake, vai ser do seu jeito. – Então entra no elevador, se vira, me encara e afirma: – Você é apenas uma de muitas. Precisa saber disso. Sinto-me como se tivesse sido atacada de novo, e arquejo quando a porta do elevador se fecha. Me apoio contra a parede à minha direita. Que diab...? Jake está parado do lado de fora do apartamento, olhando para a frente, imóvel, a não ser pela veia pulsando no pescoço. Vou até o elevador e aperto o botão para descer. Isso parece tirar Jake do transe. Ele se adianta três passos, pousa a mão no meu braço e diz: – Evie! Aonde você vai? – Ele agora parece desesperado. – Estou indo embora, Jake. É óbvio que você não me quer aqui. Me desculpe por ter vindo, mas saí mais cedo do trabalho e pensei que não haveria problema em vir.


Liguei para você... – Paro de falar, os olhos cheios de lágrimas, porque estou me sentindo confusa e estúpida. – Evie, meu bem, por favor. Me deixe explicar. Desculpe. Desculpe de verdade. Continuo estragando tudo. Ele passa a mão pelos cabelos e parece inseguro como um garotinho. Cedo, de novo. Deixo que ele me guie para dentro do apartamento e me conte que diabo foi aquilo. Mas deixo meu casaco e minha bolsa perto da porta, para o caso de precisar sair correndo.

Jake fecha a porta e me leva até a sala. Então, puxa uma poltrona estofada em couro para a frente do sofá e me coloca sentada diante dele. A seguir, pega minhas duas mãos. – Antes de mais nada, me perdoe por tê-la feito se sentir mal por ter vindo. Você pode aparecer aqui a qualquer hora que queira. Eu jamais poderia imaginar que minha mãe... – Ele suspira. – Nós... não nos damos bem. A situação não está boa entre nós, como você deve ter percebido. – Jake agora deixa escapar uma risada


estrangulada. – Eu não tinha ideia de que ela apareceria aqui hoje. Na última vez em que a vi, disse que não queria contato nenhum com ela, nunca mais. Eu o encaro confusa, mas não digo nada. Espero que continue. – É complicado, mas a minha mãe tem problemas, problemas sérios, e fez da minha vida em casa um inferno. Foi por causa dela que agi da forma como agi quando era adolescente, e também é culpa dela a relação artificial entre mim e meu pai. Jake olha dentro dos meus olhos, o rosto muito triste. – Quando vi você parada ali, não consegui acreditar que vocês estavam prestes a respirar o mesmo ar. Ela é uma desgraçada cruel e fará ou dirá qualquer coisa para conseguir o que quer. Não fiquei com raiva por você estar aqui, mas por estar próxima daquela víbora. É óbvio que você não teve culpa nenhuma de nada, mas perdi a cabeça e estou muito arrependido. – Há súplica nos olhos dele. Fito nossas mãos unidas, então volto a encará-lo e ele prossegue:


– Ela só fez aquele comentário sobre você ser uma entre muitas porque queria se vingar por eu a ter expulsado daqui. Ela sequer a conhece, Evie. E com certeza não sabe nada importante a meu respeito. – Jake – digo, apertando as mãos dele. – Quando você fala comigo sobre sua vida, tenho a sensação de que está falando em código. Consigo compreender a essência, mas na verdade você não me conta nada. Ele suspira. – Vou lhe dar alguns exemplos. Só me dê algum tempo, está certo? Nunca falei sobre essas coisas com ninguém, e é difícil para mim. Passei tantos anos tentando fingir que não existiam... Sei que não é uma atitude nada saudável, mas só... confie em mim, está bem? Pode fazer isso? Jake me olha com uma expressão desesperada, como se minha resposta fosse uma questão de vida ou morte para ele. Eu posso? Eu devo? Confio nesse homem? Digo a primeira coisa que me vem à cabeça: – Está certo, Jake. Confio em você. E apesar de todas as minhas dúvidas, é verdade: realmente confio nele. Isso me deixa feliz ao mesmo tempo que me apavora. Nada mais faz sentido.


Ele está escondendo coisas. E situações estranhas acontecem a toda hora. Eu não deveria me sentir segura com Jake. E, no entanto, me sinto. Tenho que reavaliar minha capacidade de julgamento. – Mas você pode me dizer apenas uma coisa? Por que ela está na cidade? – Em parte porque meu pai mudou o testamento quando estava no hospital e deixou a empresa para mim. Ela não ficou feliz com isso, e está aqui para fazer um apelo ao conselho da companhia. Não vai funcionar, mas ela vai tentar. Principalmente porque a empresa é uma forma de me controlar, e ela está furiosa por ter perdido isso. Assinto bem devagar, com a testa franzida. Ficamos ambos em silêncio por um longo tempo, até que ele continua: – Pode me perdoar por falar com você daquele jeito, por fazê-la se sentir daquele jeito? Por favor, me perdoe por toda essa situação horrorosa. – Jake me encara com tristeza. Respiro fundo. – Sim, eu o perdoo. E você não precisa se desculpar pela sua mãe, Jake. Sei melhor do que ninguém que não


podemos evitar os pais que temos. Ele me fita profundamente. – Obrigado. – Então abaixa os olhos para as nossas mãos unidas, levanta-as e beija os nós dos meus dedos, um de cada vez. – Não quero fazer nada para magoá-la, Evie. Nunca. Meus sentimentos por você são tão fortes... Eu... Meu Deus, estou me sentindo tão deslocado, e há toda essa confusão... Será que você pode ter paciência comigo? Por um instante, me pergunto se Jake está prestes a começar a chorar, mas ele apenas me olha com a mesma expressão triste e, por fim, faço a única coisa que parece certa. Passo os braços ao redor dele e o puxo mais para perto. Sinto seu corpo relaxar com o meu toque.


c a p í t u lo 2 2

Jake pega um cardápio do restaurante chinês no fim da rua e o examino até decidir o que quero – frango com brócolis e rolinho primavera. Ele liga para o restaurante para fazer o pedido e pergunto se ele se importa se eu tomar um banho rápido antes do jantar. Ter passado o dia todo limpando quartos de hotel não faz com que me sinta fresca e limpa. – É claro que não me importo – responde Jake. – E não precisa me perguntar. Minha casa é sua casa, está bem? Ele me olha como se fosse muito importante que eu entendesse isso.


– Está bem, Jake. Tomo um banho rápido e visto uma regata e um short. Penteio os cabelos e os deixo soltos. Volto para a sala, dou uma olhada na cozinha, mas não vejo Jake. A porta que leva à varanda está aberta e vou até lá para dar uma espiada. Ele está apoiado no parapeito baixo, com as mãos sobre ele, olhando para a vista da cidade. Me aproximo, passo os braços por sua cintura e apoio a cabeça em suas costas. Jake pega as minhas mãos e respira fundo. Por mais abalada que eu esteja por ter esbarrado com a mãe dele, sinto que, nesse momento, Jake precisa mais de mim do que eu dele. Não é a primeira vez que sinto empatia por pessoas que têm problemas com os pais, afinal, cresci em lares adotivos. Mas nunca imaginei que a situação de Jake fosse tão extrema que ele tivesse que expulsar a mãe da própria vida. Depois de alguns instantes, aperto o corpo de Jake com carinho e passo as mãos por baixo de sua camiseta. Me abaixo e beijo a base das costas dele, e vou subindo a língua aos poucos pela coluna. Sorrio contra a pele dele.


Quando começo a subir um pouco mais a camisa, sinto Jake ficar tenso e paro, sem saber se estou fazendo alguma coisa errada. Percebo nesse momento que nunca vi as costas dele e me pergunto se também há cicatrizes ali... mas não me lembro de ter sentido nada quando estávamos na cama... Então o momento passa, Jake deixa escapar o ar e se vira. Agora meu rosto está na altura da barriga dele e pressiono os lábios contra ela. – Evie – diz ele em um sussurro. Jake se apoia na murada e fico de joelhos à sua frente. Desabotoo o jeans que ele está usando e sorrio ao ver que seus olhos estão cheios de desejo. Os lábios de Jake estão entreabertos e, diante de sua expressão, sinto a umidade entre as minhas pernas. Pressiono as coxas uma contra a outra, aproveitando a sensação. Junto com o frio no estômago, sinto também uma onda de desejo e de expectativa. Estou mesmo prestes a fazer isso? Abro o zíper da calça de Jake e a desço pelas pernas dele, devagar, enquanto me preparo mentalmente. Logo depois, abaixo a cueca e o belo pênis está livre, duro


como pedra. Levanto os olhos e vejo que Jake está com os braços abertos, apoiados na mureta. O corpo está inclinado para trás, o traseiro apoiado. Devo estar parecendo um pouco insegura, porque ele diz: – Me coloque na boca, Evie, por favor. O desejo que vejo nele faz com que eu me torne mais ousada, como se não houvesse jeito de fazer aquilo errado. Jake é a imagem da perfeição, o corpo tenso de desejo, a ereção poderosa. Sinto a boca cheia d’água ao olhar para ele. Não sei se vou fazer isso direito, mas decido seguir em frente de acordo com o que me dá prazer. Estou tão excitada que, quando passo a língua pela lateral do pênis rígido, sou eu que gemo. Inspiro o cheiro dele, limpo e amadeirado, mas também um pouco mais almiscarado ali. Adoro tudo o que ele exala. Apoio os lábios contra a ponta larga e sugo delicadamente. Passo a língua pela parte de baixo, adorando a sensação da pele macia. Jake me recompensa com um gemido baixo e gira os quadris de leve. Seguro a base do pênis com uma das mãos e enfio-o mais fundo na boca. Começo a chupar de forma ritmada.


– Ahhh – geme ele. – Evie... sua boca... isso, assim... Jake range os dentes, enfia as mãos nos meus cabelos e puxa. Deveria doer, mas estranhamente adoro a sensação, que me deixa ainda mais excitada. Continuo chupando, acariciando o membro de Jake com a boca enquanto subo e desço a mão, como ele me mostrou. Sinto o pênis inchar na minha boca e deixo escapar outro gemido, enquanto ele começa a arremeter os quadris, trepando com a minha boca, dirigindo meu movimento. Adoro o fato de ele ter perdido o controle. Adoro estar provocando isso. – Ah, meu Deus, vou gozar, meu bem. Mas continuo a chupá-lo, trabalhando com a boca e com a língua, gulosa, louca para fazê-lo gozar. Sinto os primeiros jatos de sêmen na boca, grosso e salgado, e engulo tudo, sugando-o até o último espasmo. – Nossa! A voz dele ainda está rouca de paixão. Guardo o pênis de Jake de volta na calça, e nesse momento o interfone toca. Nossa comida chegou.


Olhamos para a porta ao mesmo tempo e caímos na gargalhada. Jake, que ainda está passando a mão pelos meus cabelos, murmura: – Eu realmente criei um monstro do sexo. Rio e ele me ajuda a levantar. Dou um beijo rápido em seus lábios e o sigo de volta para dentro do apartamento.

Jantamos no chão da sala de estar. Jake ligou a TV em um jogo, mas não está prestando muita atenção. Rimos, damos comida um na boca do outro e ele está doce e galante. Voltou a ser o meu Jake. A sombra da visita da mãe parece ter desvanecido. Imagino que um bom boquete seja capaz de distrair um homem de alguns eventos perturbadores da vida. Anotado. Depois do jantar, Jake me diz que vai tomar um banho rápido. Levo os pratos para a cozinha e coloco-os na lavadora. Quando estou ajeitando a pilha de correspondência, Jake aparece atrás de mim, me vira e, com facilidade, me coloca sentada sobre a bancada. Então segura a minha nuca e minhas pernas se abrem


para ele, permitindo que ele pressione o corpo plenamente contra mim. Jake sorri e me dá um beijo lento e profundo, enquanto acaricio os músculos rígidos de suas costas. – Olá – digo, sorrindo, quando ele interrompe o beijo. – Como foi seu banho? – Ótimo – responde ele, mordiscando meu lábio. – Mas senti sua falta. – Temos que agendar um banho juntos, então. Estou esperando ansiosamente para ficar molhada junto com você, Jake Madsen. – Abro meu sorriso mais atrevido. Uma expressão estranha passa pelo rosto de Jake, mas ele logo disfarça, sorri e diz: – Ah, tenho uma lista de coisas para fazer juntos. – Uma lista, é? – retruco, sorrindo também, tentando me convencer de que aquele olhar estranho foi fruto da minha imaginação. – Ahã – murmura ele, roçando o nariz no meu. – Com códigos de cores e tudo o mais. – Bem, temos que começar a trabalhar nela o mais rápido possível, então. Ele me beija de novo, mas agora é mais exigente, mais intenso. Em poucos minutos estamos ofegantes,


nos agarrando, as mãos em todas as partes do corpo um do outro. Me sinto perdida. Excitada. Minha calcinha já está toda molhada, meus mamilos rígidos contra o peito firme dele. Deixo escapar um gemido quando Jake puxa a alça da minha regata pelo meu ombro. Seus olhos estão escuros, velados. Ele passa a língua pelos lábios ao puxar a outra alça e expor meus seios nus. A pulsação aumenta entre as minhas pernas. – Por favor, Jake – sussurro, e nem sei exatamente o que estou pedindo. – O que você quer, meu bem? Me diga. – Mais – me limito a dizer, e o sorriso sexy e lento dele faz com que a umidade entre as minhas pernas aumente ainda mais. Jake encaixa as mãos em meus seios e roça os polegares nos mamilos. Deixo escapar um gemido ao senti-los ainda mais rígidos. Uma descarga elétrica parece atingir meu sexo, deixando-o cada vez mais pulsante. Arqueio a cabeça para trás, a boca aberta, enquanto Jake suga meus mamilos e os excita com a língua, como um especialista.


Ele se afasta e resmungo pela ausência da boca quente em meus seios. Nesse momento, reparo no volume que se eleva à frente da calça jeans dele e em seus olhos cheios de desejo. Ele me levanta da bancada e me joga por cima do ombro. Dou um gritinho e rio enquanto Jake caminha em direção ao quarto. Ele me joga na cama e deixo escapar mais um gritinho, ainda rindo, quando ele se atira em cima de mim, sorrindo. Mas em seguida, ele ergue o tronco e a expressão em seu rosto se torna séria. – Você é tão linda, Evelyn... Sorrio para ele, mas acho que não chego nem perto de sua beleza nesse momento – olhando para mim, iluminado pela luz do luar. Abro as pernas para acomodá-lo e o encaro. – Prove que está dizendo a verdade. Ele beija a minha boca lentamente. A essa altura, além de sexy é também uma tortura, pois estou excitada demais. Ergo os quadris e Jake leva a mão ao meu short, bem no meio das minhas pernas. Então diz em um gemido: – Meu Deus, Evie, você está encharcada.


Ele se levanta e observo enquanto tira a camiseta, e logo a calça e a cueca. Noto a perfeição rígida e máscula. Jake agarra meus quadris e me puxa para a lateral da cama, de modo que minha bunda fica posicionada bem na beirada. Ele tira meu short, minha calcinha e a regata que estava enrolada na minha cintura. A cama é da altura perfeita para que ele permaneça de pé, e quando sinto o pênis pulsando na entrada do meu corpo, deixo escapar mais um gemido. Jake segura o pau e usa a ponta dele para acariciar meu clitóris. Acho que vou gozar neste instante. Ele passeia com o membro ereto pelo meu sexo, me provocando, me torturando, me deixando cada vez mais perto do clímax, mas sem chegar ao ponto de me permitir gozar. – Jake – gemo, desesperada de desejo. Ele ri, mas se posiciona e me penetra. Arquejo e meu corpo se fecha ao redor dele, se acostumando ao tamanho, antes de relaxar no momento em que ele começa a se mover. Jake geme alto. – Meu Deus, Evie. Você é tão apertada, tão quente... Que delícia... Ele começa a arremeter e, no ângulo em que meu corpo está posicionado, cada estocada acerta meu


clitóris. – Mais forte – sussurro, erguendo o quadril para que ele possa enfiar mais fundo, completamente entregue à posse de Jake. Ele continua gemendo enquanto mete com mais força, e sinto o orgasmo se aproximando. Ergo o tronco até ficar meio sentada e agarro as nádegas contraídas dele, maravilhada ao sentir os músculos duros como pedra. Então Jake leva a mão até o meio das minhas pernas e pressiona o polegar contra meu clitóris. É o que basta para me arrebatar em um orgasmo descomunal, meu sexo pulsando em volta do pênis dele. Volto lentamente a mim, Jake ainda arremetendo, e observo quando ele também é dominado pelo próprio gozo e se derrama dentro de mim, os olhos fechados, os lábios entreabertos, entregue ao prazer, me enchendo de calor. O desejo ainda me aquece só de ver o rosto dele. Adoro essa expressão. Jamais vou deixar de adorar. Jake deixa o corpo tombar para a frente e estremece ao enfiar o rosto no meu pescoço. Ambos respiramos ofegantes por longos minutos, até que ele sai de dentro de mim e me beija lenta e profundamente. Jake rola para o lado e ficamos deitados juntos.


Foi incrível. Achei que poderia morrer. De verdade. Quando olho para Jake, vejo que ele sorri, olhando para o teto. – Por que está sorrindo? – pergunto, sorrindo também. – Eu sabia que seria assim com a gente. – Sabia, não é? – Ahã. Desde a primeira vez que a beijei. Continuo sorrindo e me inclino para beijá-lo. – Vou me limpar, já volto. Quando termino de usar o banheiro, Jake já está sob as cobertas, de cueca e camiseta. Me aconchego contra ele e ficamos sussurrando, namorando, até adormecermos.


c a p í t u lo 2 3 EVIE, 14 ANOS LEO, 15 ANOS

orrio em direção ao céu enquanto Leo se aproxima de mim atravessando com cuidado o que passei a chamar mentalmente de “nosso telhado”. Continuo a olhar para o céu enquanto o provoco: – Oh, quem será que está vindo? Será que é o meu leão ou o meu menino? – Se sou metade de cada, não poderia ser um ou outro. Só posso ser ambos – diz Leo, com um sorriso na voz. Penso por um instante. – É, acho que você tem razão. Mas só para registrar, não importaria quem aparecesse. Amo os dois do mesmo


modo. – Não tem medo do leão? Nem um pouquinho? – Não. Na verdade o leão é meu favorito... é o lado seguro, forte. É ele que luta bravamente por quem ama, é o mais poderoso. É ele que brilha quando vejo aquele fogo em seus olhos. Nesse momento olho para Leo e lá está aquela expressão ardente que faz meu coração bater mais forte, confusa e empolgada ao mesmo tempo. Ele me fita por um momento e logo seus olhos descem para a minha boca. Então ele os fecha, vira a cabeça e fita o céu. Então, Leo muda de assunto: – Hoje encontrei novamente meus novos pais adotivos. Parece que vou me mudar para morar com eles no fim do mês. Daqui a duas semanas. Me viro para ele e apoio a cabeça na mão, o cotovelo descansando no telhado. – É mesmo? E você ainda gosta deles como achou que gostava? – Sim. Eles são.... sim, são legais de verdade. Ele não fala muito, mas parece ser um cara legal. Ela é meio nervosa, mas também é bacana. Ela me toca


muito, tentando ser maternal. Acho que nenhum dos dois está acostumado a conviver com adolescentes. Leo fica em silêncio por um instante, antes de continuar: – Eles também me disseram que há uma boa possibilidade de ele aceitar um emprego novo, no sul da Califórnia. – Ele me encara, nervoso. – Não está nada decidido ainda, mas... eles disseram que é provável. Os dois não paravam de falar em como seria divertido morar perto da praia. Sinto o coração afundar no peito. – O quê? – sussurro. – Escute, não há nada certo ainda, está bem? Só quis falar logo com você para não ser um choque se realmente acontecer. Escute, Evie, talvez não seja a pior coisa do mundo. Quero dizer, um de nós ter uma família estável... isso nos daria muito mais oportunidades para ter um bom começo depois que você fizer 18 anos. Não seremos tão sozinhos. – Sim, mas isso será daqui a QUATRO anos, Leo! Vamos passar quatro anos separados? Ele suspira.


– Não sei. Espero que não. Mas estou tentando ver o lado positivo disso tudo, certo? Ficamos os dois olhando para o céu por um longo tempo antes que Leo se vire para mim e diga: – Sabe qual é a maior qualidade de todos os leões? – Não. – A lealdade – responde ele, sorrindo e exibindo aquele espaço entre os dentes tão fofo. – Não importa quanto tempo fiquemos longe um do outro. Não importa a distância, não importa nada, jamais amarei alguém além de você. Jamais. Assinto, mas estou muito triste. Um brilho divertido aparece nos olhos dele. – E sabe o que mais? Os leões gostam muito de atacar mulheres. Então ele se vira e começa a me fazer cócegas, me rolar de um lado para outro e rosnar em meus ouvidos. Rio e dou gritinhos. – Leo – sussurro. – Você vai acordar todo mundo lá dentro! Me afasto dele. Rio novamente quando ele me encara com um ar malvado. – Você é louco – digo.


Então ficamos deitados lado a lado, de mãos dadas. Mas me sinto melhor. Leo é meu. E sempre será.


c a p í t u lo 2 4

Os próximos dois dias são tranquilos, sem grandes acontecimentos. Fico em casa no domingo e na segunda, pois acho que dar um pouco de espaço em um relacionamento recente deve ser uma boa ideia. Jake parece não concordar, mas não me pressiona. Ele precisa viajar novamente para San Diego, e pega um voo na terça de manhã, para estar no escritório a tempo de participar de reuniões o dia todo. Me sinto um pouco ansiosa em relação à viagem por causa do que aconteceu na última vez, mas tento me tranquilizar o máximo possível.


Jake me telefona várias vezes enquanto está fora, entre as reuniões, e ver seu nome na tela do celular sempre me dá um frio no estômago. Deus, realmente preciso me controlar. Não paro de pensar sobre como meu relacionamento com Jake está fora da minha zona de segurança. Se ele chegar à conclusão de que não sou o bastante para ele, como sobreviverei a isso? Paro e respiro fundo quando esses pensamentos me assaltam, e de algum modo consigo resistir à tentação de retornar ao meu casulo. Em vez disso, me mantenho ocupada no trabalho, saio para correr e coloco em dia a leitura de um livro que havia deixado de lado nos últimos tempos. Almoço com Nicole na terça à tarde e conto as novidades da minha vida, que de repente se tornou interessante. Rimos como se fôssemos adolescentes e me sinto ótima por compartilhar minha felicidade com ela. Faço perguntas sobre seu relacionamento com Mike, coisas que jamais teria coragem de perguntar antes. É normal querer fazer sexo o tempo todo? Segundo ela, no começo sim; depois de cinco anos de casamento, com uma filha de 4 anos, não tanto. É possível se apaixonar por alguém que se conhece há menos de um mês? Ela


diz que deve ser mais tesão do que amor, mas que assim mesmo devo aproveitar. Checamos nossas agendas e ela me convida para jantar no sábado da outra semana. Eu concordo, ela me abraça na saída do restaurante e diz: – Convide Jake. – Está bem – respondo, ansiosa para apresentá-lo às três pessoas que mais amo no mundo. À noite, ligo para Jake no hotel e conversamos por uma hora, até eu me sentir tão cansada que não consigo mais ficar acordada. Na quarta de manhã, chego ao trabalho às dez e vou direto limpar a cobertura. Bato três vezes na porta, espero um instante e, como ninguém responde, uso a minha chave para entrar. Empurro o carrinho de limpeza para dentro e olho ao redor, confusa. O lugar está imaculado. Obviamente ninguém usou o quarto, o que é estranho, porque sei que não teriam me mandado limpálo a menos que alguém o houvesse ocupado na noite anterior. Pego meu walkie-talkie e estou prestes a pressionar o botão para falar com meu gerente quando ouço um barulho. Franzo a testa e digo em voz alta:


– Olá? Ninguém responde e dou alguns passos mais para dentro. Sinceramente, se houver algum serial killer ali, vou arrebentar a cabeça dele com o walkie-talkie. Espere... É melhor pegar o spray de alvejante também, caso precise de munição extra. Esticando o pescoço, dou uma espiada pelo canto da porta e o que vejo? Parado do outro lado do quarto está Jake, as mãos enfiadas nos bolsos, sorrindo para mim. Não sei se é o choque por vê-lo ou apenas a reação instantânea às minhas emoções, mas largo minhas “armas” no chão, dou um gritinho de felicidade e atravesso o quarto correndo para me jogar nos braços dele. Jake me pega, rindo, e gira comigo enquanto o encho de beijos. Deixo escapar mais um gritinho, seguro o rosto dele entre as mãos e agora beijo sua boca, rindo com ele o tempo todo. Jake se entrega ao beijo. Estamos agindo como se não nos víssemos há séculos. O engraçado é que é assim mesmo que me sinto, e a alegria que enche meu peito é inquestionável. Abraço-o com mais força e aproveito a sensação de tê-lo nos braços. Senti tanta saudade... o que é uma loucura, porque só se passaram três dias! Mas ele parece encarar minha reação


como perfeitamente normal, e continua a me beijar, repetindo meu nome sem parar, os dois absorvidos nesse momento estranho e feliz. Não faço grandes análises. Só aproveito. Enfim fico imóvel, mas não o solto. Fecho os olhos e me deleito com a voz rouca de Jake contra o meu ouvido, o cheiro que só ele tem e a batida de seu coração contra o meu. Não consigo explicar direito, mas sei que se pudesse congelar o tempo naquele segundo e viver aquela sensação para sempre, era o que eu faria. Depois de um longo momento, ele me coloca no chão. Olho dentro de seus olhos castanhos, gentis. – O que está fazendo aqui, Jake? – Queria fazer uma surpresa. Quando nos falamos no domingo, você comentou que iria limpar a cobertura durante toda a semana, se ela estivesse ocupada. As engrenagens da minha mente começaram a funcionar... – Ele sorri. – Fiz a reserva na terça de manhã, antes de viajar. Quanto tempo você costuma demorar para limpála? Eu o encaro, confusa. – Você reservou a suíte só para passar comigo o tempo que eu demoraria para limpá-la?


– Reservei. Ah, ok. – Hum... quanto tempo demoro para limpá-la? Quando os hóspedes são muito bagunceiros, cerca de uma hora e meia, eu acho. – Estamos falando aqui de verdadeiros porcos. Rio baixinho. – Ah, certo, então talvez eu possa esticar para duas horas. Ele começa a abrir o zíper do meu uniforme. – O que está fazendo, Jake? – Não quero desperdiçar tempo. Entendi. – Hã, Jake... – começo a dizer, mas ele está fazendo uma coisa tão deliciosa no meu pescoço que esqueço de continuar. Pego a mão dele e o levo para a poltrona grande, do outro lado do quarto. Não me esqueço de trancar a porta no caminho. Não vai ser nada bom se formos pegos. Eu o empurro para cima da poltrona e os olhos dele já estão com aquela expressão lânguida. Meu Deus, só a cara dele já me deixa molhada. Será que Jake sabe disso?


Monto nele e seguro seu rosto entre as mãos, olhando dentro de seus olhos por alguns segundos, antes de colar meus lábios aos dele. Mordisco e deslizo a língua para dentro de sua boca. Jake assume o controle e seu beijo é faminto, possessivo. Nossas línguas se enroscam, dançam, e Jake volta a levar as mãos ao zíper do meu vestido, abrindo-o todo agora, com força. Ele desce o vestido pelos meus ombros e abaixo os braços para que consiga tirá-lo sem interrompermos o beijo. Quando a roupa chega aos meus quadris, finalmente paro de beijá-lo e me levanto. Jake se recosta na poltrona, me observando com o olhar ardente, enquanto tiro a roupa para ele. Um de seus braços está apoiado no braço da poltrona e a mão descansa no colo. As coxas estão abertas e a ereção poderosa se destaca na calça social preta. Jake é a tradução perfeita de todos os sonhos eróticos que já tive na vida, e sinto meu sexo latejar só de olhar para ele. Desço o vestido pelos quadris e deixo-o cair no chão. Os olhos de Jake acompanham o movimento e sobem novamente, passeando pelo meu corpo. Vejo que o pau dele pulsa na calça e quase gemo de desejo, mas consigo permanecer em silêncio enquanto abro o sutiã e o deslizo


pelos braços. A calcinha é a próxima. Enfio os polegares no cós e desço-as pelas pernas. Chuto os sapatos para longe e fico parada diante de Jake, nua, deixando seus olhos me percorrerem de cima a baixo. A expressão de prazer evidente no rosto dele é a única coisa que me dá confiança para ficar parada ali, exposta como nunca estive antes. Jake desabotoa a calça, abre o zíper e deixa o pênis livre. Ele se acaricia preguiçosamente enquanto continua a me olhar com uma expressão ardente. Agora não consigo mais evitar e deixo escapar um gemido. Ah. Deus. Nossa... – Quero que se toque, Evie – diz ele, a voz engasgada, parecendo mal conseguir se controlar. Estou tão excitada que não hesito em fazer o que ele diz. Levo as mãos aos seios, passo os dedos pelos mamilos, fecho os olhos e jogo a cabeça para trás, a boca aberta em um gemido de prazer. Então abaixo a mão até meu sexo, úmido de desejo. Passeio os dedos pela abertura da vagina até o clitóris, movendo-os em círculos lentos e gemendo sem parar agora. – Meu Deus, preciso estar dentro de você agora, meu bem – avisa Jake em uma voz rouca, me agarrando


pelos quadris e me levando de volta para cima dele. Meus joelhos estão apoiados na lateral da poltrona. Ele me puxa para baixo com força, enfiando o pau duro dentro de mim, me fazendo gritar de surpresa e de prazer enquanto me preenche completamente. Ergo o corpo até deixar apenas a ponta de seu pau dentro de mim, então desço com força sobre ele, fazendo Jake grunhir e jogar a cabeça para trás. Meu Deus, que delícia. Grito também, tomada pelo prazer. Então repito o movimento, levantando o corpo devagar e descendo com violência. Isso! Ah, meu Deus, isso! Imagino a cena vista de longe, eu nua, cavalgando-o, Jake completamente vestido embaixo de mim, e fico ainda mais louca de tesão. Continuo a subir e descer o corpo, sem pensar em nada que não o orgasmo que está prestes a me dominar. Enquanto isso, a boca de Jake captura meu mamilo, sugando-o quase com violência. Jogo a cabeça para trás e o cavalgo com determinação, enquanto gememos e arfamos. As mãos de Jake estão agora nos meus quadris, me puxando mais rápido e mais forte para baixo, até que nós dois gritamos


juntos, o jato quente do esperma dele me preenchendo ao mesmo tempo que sou consumida por ondas de prazer. Por um instante, tenho a impressão de ver estrelas quando o clímax me domina. – Cacete – grunhe Jake, capturando a minha boca e me beijando apaixonadamente, enquanto ainda gememos na esteira do orgasmo. Eu também o beijo com fervor, e nos agarramos um ao outro com força, a respiração arquejante. Ficamos abraçados por um longo tempo, enquanto nossa respiração volta ao normal. Me inclino para trás e olho para ele, sorrindo. – O que você está fazendo comigo? – pergunto, impressionada. – O que você está fazendo comigo? – retruca ele, sorrindo. Dou uma risada. Ah, sim. Me levanto de cima dele e me afasto. Vou até o banheiro me limpar. Quando volto, Jake ainda está sentado na cadeira. Eu me visto. Ainda temos mais ou menos uma hora e eu gostaria de tomar um banho, mas acabamos passando esse tempo relaxando na cama. Jake me conta sobre a


viagem, me faz rir com a história do cara tagarela que sentou ao lado dele no avião. Rio, implico com ele e curtimos a companhia um do outro até o relógio nos dizer que preciso voltar ao trabalho. Ajeito o edredom em cima da cama e limpo rapidamente a poltrona que usamos, sorrindo para Jake. Então saio com o carrinho, Jake me dá um beijo de despedida e sigo para o próximo quarto. Uso o walkietalkie para avisar ao meu gerente que a suíte da cobertura está limpa. Não consigo conter o sorriso bobo que permanece estampado em meu rosto pela hora seguinte.


c a p í t u lo 2 5

Ao longo dos dez dias seguintes, nos acomodamos em uma espécie de rotina. Corro pela manhã, trabalho e então, na maior parte das noites, vou direto para o apartamento de Jake, onde jantamos juntos e conversamos sobre nosso dia. É agradável e confortável, e nunca me senti mais feliz. Espero ansiosamente para encontrar com ele no fim do dia. Ele me levanta no ar, me abraça com força, me beija e gira comigo, como se eu fosse a coisa mais importante de sua vida. Mas também sinto a necessidade de conhecê-lo melhor. Tenho sido paciente e compreensiva, mas quero saber o que ele não está me contando. Quero saber o que


obviamente ainda o assombra, que o deixa com aquela expressão distante quando acha que não estou prestando atenção. Há algo que nos separa e, até que Jake se abra para mim, tenho medo de não conseguir me aproximar mais de quem ele é de fato. Também tenho medo de que Jake não esteja se abrindo comigo porque não quer que fiquemos mais íntimos, e esse seria um modo de me manter a uma certa distância. Uma semana depois, na sexta à noite, fazemos amor ardentemente, como sempre, e depois Jake me puxa para seus braços e sussurra no meu ouvido enquanto pegamos no sono. Mas no meio da madrugada, acordo sozinha e, quando levanto para procurar Jake, encontroo parado em silêncio na varanda, com um copo na mão, cheio de um líquido âmbar. – Não está conseguindo dormir? – murmuro, passando os braços ao redor do corpo dele, por trás. – Não. – Jake suspira. – Achei que um drinque ajudaria. Volte para a cama, meu bem. Vou me juntar a você em um minuto. Percebo que o rosto dele parece tenso.


– Está certo – digo, então aperto o corpo dele mais um pouco e o solto. Volto sozinha para a cama, um pouco perturbada. De manhã, Jake diz que tem uma surpresa. É meu dia de folga e ele agendou um dia inteiro de spa para mim. Fico animada, porque jamais fui a um lugar desses. Estou me acostumando a deixar Jake cuidar de mim, embora ainda seja um pouco difícil. Ele acha graça do meu entusiasmo e diz que já está tudo marcado. Então ele me manda para o chuveiro e me informa que um carro passará para me apanhar em uma hora. – Divirta-se, meu bem. Não vejo a hora de jantar com seus amigos hoje à noite. O tom de voz de Jake é gentil, mas ele parece nervoso e preocupado e não sei o que dizer para melhorar seu humor. Talvez seja trabalho demais. Vou aproveitar os serviços do spa, hoje, então à noite farei o que puder para ajudá-lo a relaxar. Venho me tornando muito adepta dessa prática. – Por que você é tão bom pra mim? – pergunto, e passo os braços ao redor do pescoço dele. – Adoro mimá-la. Fazer você feliz me deixa feliz – retruca Jake, sorrindo e olhando fundo nos meus olhos.


Tomo um banho rápido, visto uma calça de ioga cinza-escura, uma regata branca e um agasalho azul leve. Calço o tênis e tomo um café da manhã rápido com Jake, com cereal e frutas, enquanto dou uma olhada no folheto do spa que fica a alguns quarteirões do prédio dele. Dou um beijo em Jake quando o interfone toca e desço correndo. Tenho uma manhã e uma tarde deliciosas no spa luxuoso, recebendo tratamento completo: cuidados faciais, manicure e pedicure, corte e luzes nos cabelos e massagem corporal. Adoro todos os profissionais a meu redor e passo o dia não apenas relaxando, mas também conversando animadamente com todos. Estou saindo da sala de massagem, me preparando para assinar alguns papéis na recepção, quando uma loura que vem descendo o corredor me dá um esbarrão. – Ah, desculpe! – exclamo. – Sem problema – murmura ela. Mas então para de repente. Ah, meu Deus, é Gwen. Merda! Bem, lá se foi o ótimo dia que eu estava tendo. – Oh! – diz ela, surpresa. – Evie, não é?


Sua expressão deixa claro que ela está tão feliz em me ver quanto estava na última vez. A temperatura no spa parece cair vários graus. – Isso mesmo. Olá, Gwen. Prazer em vê-la. Tento dar a volta por ela para passar, mas ela bloqueia o meu caminho. – Engraçado encontrar você aqui. Imagino que tenha sido um presente de Jake – diz ela, como se soubesse muito bem que eu jamais poderia pagar aquele lugar com os meus trocados. Empertigo a coluna. Se ela está pretendendo transformar este encontro em uma briga de cão e gato, não vou fugir como se tivesse algo de que me envergonhar. – Isso mesmo – respondo, com um sorrisinho falso. – Ele gosta de me mimar. – Sei – retruca ela, com um sorriso que mais parece uma careta. – Aposto que sim. Escute, Evie, vou cumprir meu papel de boa amiga e ser direta com você. Sei que deve estar achando que não tem muitas razões para confiar em mim, considerando que na última vez em que nos encontramos eu exagerei alguns fatos da


minha relação com Jake. Mas acho que é bom que você saiba de umas coisinhas. Fico encarando-a, em silêncio, e Gwen entende isso como uma deixa para continuar. – Conheço Jake há muito tempo. Em todos os estados de... sobriedade. Ele nem tem ideia de algumas coisas que acabou me contando sob o efeito do álcool ou de outras substâncias. Mas, sóbrio ou não, tudo sempre terminava na mesma coisa. Ele jamais amará outra mulher que não seja ela. Se você acha que Jake ama você, precisa saber que ele está apenas tentando transformá-la nela. Já o vi fazer isso muitas vezes. Ele pega uma pobre vítima, usa bastante a garota, lhe dá um monte de presentes bonitos, a faz achar que ele gosta dela de verdade, então a dispensa quando se torna óbvio que a garota não é ela. Você nunca será o bastante para ele, Evie. Não é você que ele quer de verdade. Morro mil vezes ao ouvir essas palavras. É meu maior medo. Nunca serei o bastante para ninguém. Jamais. Ninguém nunca quis ficar comigo. Não de verdade. Na minha vida, sempre fui jogada fora por aqueles que pensei que me amavam. Não posso passar por isso de novo. Não posso.


Passo por Gwen, tentando desesperadamente me afastar dela, magoada até a alma. – Ele tem a imagem dela nas costas – diz ela atrás de mim. – Com certeza você já viu, não é? Me viro para Gwen com os olhos arregalados, a boca aberta em uma pergunta, e ela apenas ri. – Ele não deixou você ver. É claro. Fuja enquanto pode, querida. Então Gwen se afasta e me deixa ali, com o coração partido em mil pedaços. Me sinto frágil, como se pudesse desmoronar ali mesmo, no meio daquele spa luxuoso. Vou até o balcão, entorpecida, e assino os papéis necessários. A recepcionista me informa que todos os custos, incluindo as gorjetas, já foram pagos e que eles esperam voltar a me ver em breve. Abro um sorriso forçado e saio. Jake me pediu para lhe enviar uma mensagem de texto quando eu estivesse terminando, para que ele pudesse mandar um motorista me pegar, mas não faço isso. Opto por caminhar até o apartamento dele, a cabeça ainda girando. Chego à portaria sem sequer me lembrar de ter caminhado até lá. Toco a campainha e o porteiro abre a porta para mim. O sorriso do homem congela no


rosto ao me ver, mas ele não me pergunta o que há de errado. Apenas interfona para o apartamento de Jake e fala com ele em um tom baixo. – O Sr. Madsen vai esperá-la na porta do elevador – diz o porteiro, me guiando para dentro e pressionando o código que leva à cobertura. O elevador leva uma eternidade para chegar ao andar de Jake. Quando a porta se abre, lá está ele, me esperando, uma expressão perplexa no rosto. Basta um olhar para mim e Jake fica pálido. – Evie, meu bem, o que houve? – pergunta. Então passa os braços ao meu redor e me leva para dentro do apartamento. Me deixo guiar, sem saber o que fazer. Jake fecha a porta, me vira na direção dele, segura meu rosto entre as mãos e olha dentro dos meus olhos. – Evie, fale comigo, meu amor. O que houve? – Tire a camisa, Jake – digo em uma voz inexpressiva. – O quê? Meu bem, não estou entendendo – retruca ele, confuso. – Me deixe ver suas costas, Jake – digo, encarandoo, quase implorando para que ele ria e fale que estou


sendo ridícula. Em vez disso, ele parece começar a compreender e fecha os olhos. Quando volta a abri-los, parece devastado. – Evie, com quem você falou? Meu bem, me deixe explicar primeiro. – Não! – grito, furiosa agora, a voz trêmula. – Me mostre suas costas, Jake! Ele fecha os olhos de novo e abaixa a cabeça, então começa a levantar a bainha da camisa e a despe completamente. Por um segundo fica ali parado, de peito nu, olhando nos meus olhos, implorando por algo que não compreendo. Ele me dá as costas devagar e volta a abaixar a cabeça. Levanto os olhos e deixo escapar um arquejo. Uma tatuagem ocupa toda a parte de cima das costas dele e, depois que a examino melhor, solto um grito estrangulado e ando cambaleante para trás. O desenho é feito em nuances de preto, com lindas espirais nas extremidades. É a parte de dentro do picadeiro de um circo. No centro está o mestre de cerimônias, o rosto virado para o lado, perdido na sombra. Há uma garotinha de cabelos claros caminhando


por uma corda bamba em um dos extremos e vários palhaços, homens e mulheres, do lado direito. Quando olho mais de perto, os rostos dos palhaços não são tolos ou engraçados, mas apavorantes, cruéis, com dentes afiados pingando sangue e olhos injetados e enlouquecidos. E no meio do picadeiro, na parte central do desenho, há uma criatura, meio homem, meio leão, com o lado humano ligeiramente virado para o lado, de modo que suas feições não são claras. O lado leão está exposto por completo, furioso, rugindo, as patas levantadas no ar, lançando-se na direção da garota que segura um arco flamejante. Meus olhos se dirigem devagar para a direção da garota, como se eu estivesse em transe, e sinto a respiração presa na garganta. Seu rosto é calmo, sereno, com um leve sorriso nos lábios, e ela olha diretamente para o homem-leão, sem qualquer vestígio de medo. Ela é jovem, mas a reconheço no mesmo instante. Ela sou eu. E ela é uma domadora de leões. Ah, meu Deus. Meu Deus, meu Deus...


Saio do meu transe e volto ao momento presente. Deixo escapar um grito sufocado. Ao ouvi-lo, Jake se sobressalta, mas permanece parado com a cabeça baixa, sem me encarar. Dou a volta e seguro o queixo dele entre as mãos, fazendo os olhos torturados encontrarem os meus. Minhas mãos estão trêmulas, meu coração bate descompassado, mas minha voz é firme quando pergunto: – Por que está me encarando? O olhar de Jake se perde no meu por longos segundos antes que ele sussurre em resposta: – Porque gosto do seu rosto. Volto a cambalear para trás, chorando, então me viro e saio em disparada. Abro a porta do apartamento e corro para o elevador. Lá, pressiono o botão, desesperada. A porta se abre no mesmo instante. Entro apressada e aperto o botão que me leva à portaria. Quando a porta do elevador já está se fechando, Jake sai do apartamento e parece tão desesperado quanto eu. – Evie – chama em uma voz engasgada, no momento em que a porta se fecha de vez. Saio zonza pela porta da frente do prédio e começo a correr.


c a p í t u lo 2 6

Continuo correndo até sentir meus pulmões queimarem e perceber que as lágrimas pararam de cair. Então passo a andar, mas não paro de me mover. Minha mente agora é um turbilhão e não consigo parar de pensar naquela tatuagem. Quero chorar e gritar, dar socos em alguma coisa. Depois, estranhamente, quanto mais me afasto do prédio de Jake, mais entorpecida me sinto, até que passo a andar de modo letárgico pela rua. Paro quando vejo um pequeno parque. Entro, me sento em um banco e tiro o celular da bolsa. Há


dezessete ligações perdidas de Jake. Apago todas e ligo para Nicole. – Oi, meu amor – atende ela, animada. – Nicole – começo a dizer, mas minha voz falha. – Evie, qual é o problema, querida? – pergunta ela, a preocupação agora clara na voz. – Ele estava mentindo para mim, Nicole. – Quem? Jake? Querida, sobre o quê? Onde você está? – Saí correndo. Não sei. Estou em um parque... Não sei. Espere, estou vendo uma placa... Leio o nome do parque e digo a ela. – Estarei aí em quinze minutos. Aguente firme, querida. Fico sentada no banco, olhando para o nada, até o pequeno carro de Nicole estacionar perto do meio-fio. Entro e, quando ela vê meu estado, abre os braços e me acolhe. Minha amiga continua me abraçando enquanto choro lágrimas que pensei não ter mais. – O que aconteceu, meu amor? Me conte – pede Nicole, secando meu rosto com os polegares. – Ele é o Leo, Nic. Aquela história que Jake me contou sobre Leo ter morrido em um acidente de carro


não é verdade. Porque ele é o Leo. – Olho para ela com a testa franzida. – Mas também é Jake. Não consigo entender. Nicole parece estupefata. – Ele é Leo? O seu Leo? O Leo? Mas por que não lhe contou? Como você descobriu? – Nicole, podemos ir para a sua casa? Quero lavar o rosto e... pode ser? – É claro, vamos. Ela sai com o carro. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos. Nicole deve saber que preciso descansar por alguns minutos, porque não me faz mais nenhuma pergunta no caminho. Entramos na casa dela e está tudo muito quieto. – Cadê a Kaylee? – pergunto. – Está com a mãe de Mike hoje, vai passar a noite na casa da avó. Achei que seria legal ter uma noite só de adultos, já que iríamos conhecer Jake. Ela se vira para me olhar e morde o lábio. Suspiro. – Posso ir ao banheiro lavar o rosto e me arrumar um pouco? Estou um horror.


– Claro! Vá em frente. Vou fazer um chá para nós... ou você prefere alguma bebida mais forte? – Ela sorri. Rio pela primeira vez desde que deixei o spa. – Mais tarde. Por enquanto, chá está ótimo. Me arrumo no banheiro, ajeito os cabelos desalinhados e seguro uma toalha fria e úmida sobre os olhos por alguns instantes. Quando volto para a sala, estou me sentindo melhor. Vejo que Nicole se acomodou em uma das pontas do sofá, com uma xícara de chá quente na mão. Ela gesticula para a minha xícara, que está na mesinha perto da poltrona à direita do sofá. Sento e puxo a manta que está atravessada no braço da poltrona para o meu colo. Pego o chá e tomo um gole. – Me conte o que aconteceu hoje – pede Nicole. Começo a falar sobre meu encontro com Gwen no spa e, quando chego à parte sobre meu confronto com Jake e sobre a tatuagem, Nicole deixa escapar um arquejo. – O quê? VOCÊ era a mulher tatuada nas costas dele? Nossa... Uau, que história louca. Mas, espere, não estou entendendo... o que significa tudo isso?


Com dificuldade, conto a ela sobre a família de Leo, sobre o irmão dele, sobre todo o sofrimento que isso causava. Em seguida, falo sobre a história que inventei para tentar aliviar o sofrimento de Leo, ao menos por um instante. Só choro de novo uma vez, quando volto a me lembrar de um telhado em uma noite quente de verão, e de um menino arrasado em meus braços. Levanto a cabeça e vejo que minha amiga também está com lágrimas nos olhos. – Nossa, Evie – diz ela, em uma voz abafada. – Ele carregou essa história na própria pele por todos esses anos. Isso é... Caramba. É lindo. – Ele mentiu para mim, Nic, duas vezes. Durante minha vida, aquele menino me destruiu... e agora o homem me enganou. Não tenho ideia de como devo me sentir. Estou magoada e muito confusa. – Você vai dar a ele a chance de lhe explicar as coisas, meu bem? Não estou dizendo que será capaz de perdoá-lo. Não tenho ideia do que ele vai dizer, mas acho que precisa escutá-lo. – Ela me encara com uma expressão preocupada.


Penso nas palavras dela por alguns minutos, então suspiro. – Acho que devo isso a mim mesma, também. Só não consigo digerir tudo neste momento. Preciso de tempo. – Claro, meu bem. Procure-o quando estiver pronta. Deixe ele falar. Você merece respostas. Assinto e dou um gole no meu chá. Nicole volta a falar, hesitante, com delicadeza: – Minha querida, você realmente não o reconheceu? Nem um pouquinho? Fico em silêncio por vários minutos, pensando na pergunta dela. – Sabe, Nicole, ele está tão diferente... Acho que agora, que sei da verdade, posso ver o menino que ele foi em alguns traços, mas, quero dizer... veja bem, quem foi o primeiro menino que você beijou? Nicole sorri. – Jimmy Valente. Tínhamos 14 anos. Namoramos por um ano. – Certo. Você consegue trazer o rosto dele à mente neste exato momento?


Ela olha para o teto, se concentra, então franze a testa. – Não, acho que não consigo. – Muito bem. Agora, imagine que esse Jimmy Valente fosse um garoto magrelo e invocado, com roupas gastas, na última vez em que o viu. Então, oito anos depois, você esbarra com esse homem enorme, lindo, em um terno de grife, com os cabelos mais escuros, os dentes bem tratados, e esse homem lhe diz que se chama... sei lá... Tom Smith. Talvez você não o reconhecesse também. Me sinto na defensiva, porque sinceramente, como eu não o reconheci? Afinal, ele foi o amor da minha vida até Jake, ou... espere... Meu Deus, que confusão! – Além do mais, Nic, você tem que entender que, depois que Leo partiu e nunca mais voltou a entrar em contato comigo, sofri tanto que, na minha mente, ele permaneceu aquele menino que se sentava no telhado comigo, quase... não sei, congelado no tempo. Foi mais fácil me convencer de que ele permanecia ali. Doía demais imaginá-lo andando pelo mundo, sem se importar comigo. Havia o mundo real e havia aquele menino... perdido no passado. Jake apareceu como parte do


mundo real, completamente desconectado daquele garoto no telhado. – Esfrego os olhos. – Nossa... estou conseguindo me fazer entender? – Sim, acho que sim. Há algumas coisas do meu passado... nada muito traumático, mas, você sabe, coisas que prefiro deixar no passado por uma razão ou outra. Coloco essas coisas em uma categoria especial que chamo de “coisas em que decidi nunca mais pensar”. – Ela dá uma risadinha. – Sim. É por aí. – Sorrio. Ficamos em silêncio por algum tempo, então volto a falar: – A questão é que acho que uma parte de mim o reconheceu, uma parte visceral, mais instintiva. Só não me perguntei a respeito porque, para ser sincera, não queria descobrir. Talvez eu realmente soubesse e tenha escolhido não admitir para mim mesma. Sempre fui boa em isolar coisas que me faziam sentir mal. Tudo era tão intenso com Jake... Leo... o que for. Meu Deus, estou me sentindo numa dessas séries malucas em que as pessoas começam a voltar à vida do nada. Esfrego os olhos inchados e Nicole me olha com uma expressão triste.


– Esse modo de ser lhe foi útil por muito tempo. Era um mecanismo de defesa. Assinto, concordando com ela. Ficamos em silêncio de novo e vejo que Nicole está com a testa franzida. – Qual era o nome completo de Leo? Tento me lembrar por um instante. É claro que eu sabia o nome e o sobrenome dele, mas o nome do meio? Então, arregalo os olhos e sussurro: – Leo Jacob McKenna. – Abaixo a cabeça. – Sou completamente cega? – Não, claro que não. Tudo parece claro agora porque você já sabe a verdade. Você foi... envolvida. Não é difícil entender. Mas ele lhe deve uma explicação. Precisa lhe contar que diabo aconteceu há oito anos e por que mentiu para você agora. Então você poderá decidir se consegue aceitar o que ele tem a dizer. Sinto mais uma vez o peso da situação e meus olhos se enchem de lágrimas. – Vou perdê-lo mais uma vez, não vou? Não sei se consigo fazer isso duas vezes. Não sei se sobreviverei a isso de novo. A dor me domina e levo a mão ao peito.


– Muito bem, não entre em pânico. Vamos dar um passo de cada vez. Mike estará em casa às cinco. Vamos ter um jantar agradável, só nós três. Abriremos uma garrafa de vinho. Você passará a noite aqui, conosco. Vai se sentir melhor pela manhã, então poderá decidir se está pronta para deixar o menino leão falar. – Ela pisca para mim. Deus, sou tão sortuda por ter Nicole como amiga... Amigos são a família que você escolhe. Nunca esteve mais claro para mim que tomei decisões muito acertadas nesse quesito. Depois do jantar e de atualizar Mike sobre o limbo que é a minha vida neste momento, abrimos uma garrafa de vinho e chego mesmo a dar risada em uma ou duas tentativas dos dois de me animar, contando histórias de fracassos amorosos na adolescência. No entanto, por mais que os dois tenham conseguido me distrair um pouco, sei que terei que encarar a realidade pela manhã, por isso pego emprestado um pijama de Nicole e vou me deitar. Me acomodo na cama e ligo o celular. Há catorze chamadas novas de Jake/Leo. E quatro mensagens de texto basicamente me implorando para ligar para ele,


além de uma mensagem de voz. Com os dedos trêmulos, pressiono as teclas para ouvir. Fecho os olhos quando a voz dele entra no meu ouvido. “Evie, pelo amor de Deus, eu... Por favor, ligue para mim. Estou ficando louco, aqui. Você saiu correndo e nem sei se está bem. Meu bem, por favor, me diga ao menos se está bem. Pelo menos isso. Mesmo se não quiser conversar comigo... mesmo se não quiser nunca mais me ver...” Ele faz uma pausa e escuto a respiração trêmula. “Por favor, me avise se está bem, em segurança. Fui até sua casa e você não estava lá. Está tarde e eu... Por favor, esteja bem.” Há outra pausa antes de ele desligar. Uma lágrima rola pelo meu rosto. O que vou fazer? Digito rapidamente uma mensagem de texto de duas palavras e mando para Jake/Leo: “Estou bem.” Espero alguns minutos, mas não há resposta. Desligo o celular e caio em um sono agitado.


Na manhã seguinte, acordo cedo, e a casa de Nicole está em silêncio. Não quero acordá-los, por isso escrevo um bilhete rápido e vou embora sem fazer barulho. Pego o ônibus para casa. Entro no meu apartamento, tomo um banho quente e demorado e, quando termino, me sinto revigorada e pronta para encarar o dia, com o que quer que ele possa me trazer. Visto minha calça jeans favorita e um suéter verde de manga três quartos. Calço as botas curtas marrons e prendo os cabelos em um coque frouxo, após secá-los ligeiramente com o secador. Depois, coloco um pouquinho de maquiagem. Sigo com a minha rotina como em um transe, os olhos ainda um pouco vermelhos e inchados. Há semanas não faço compras direito para a casa, por isso saio em busca de café. Vou andando até um Starbucks a cerca de vinte minutos de distância e, quarenta e cinco minutos depois, com a cafeína correndo pelo meu corpo e meio bolinho de mirtilo no estômago, me sinto quase humana. Viro a esquina para o meu prédio e, no mesmo instante, vejo o BMW prata de Jake parado na frente da portaria. Desço o quarteirão lentamente e ele está diante


de mim antes mesmo que eu chegue à metade do caminho. Sua aparência é péssima. Parece não ter pregado o olho, e não consigo evitar a vontade de tranquilizá-lo. Jake está com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, me olhando... um olhar de anseio e de incerteza. Percebo que aquela expressão de insegurança – a mesma que fez meu coração bater mais rápido desde o início – é toda Leo, e essa constatação é como um soco no estômago. Sei que ele mentiu para mim, sei que não deveria confiar nele, mas não posso evitar. Meu coração grita: seu Leo está de volta! Bem à sua frente! Vá até ele. Seu menino lindo está aqui. AQUI! O amor que sinto é tão avassalador que quase caio de joelhos ali mesmo. Isso não é bom. Quero me manter distante. Quero parecer fria, calma e controlada. Quero permanecer neutra até que ele me diga algo que faça meu coração derreter. Ao mesmo tempo, não quero que ele fale nada que faça meu coração derreter. Imploro em silêncio que ele diga algo que faça meu coração derreter. Estou tão perdida...


Então fujo. De novo. Tento passar por ele. Tento correr o mais rápido que posso para a segurança do meu apartamento. Tento escapar da confusão e do medo que sinto e, sim, do amor, mas Jake me alcança sem a menor dificuldade e me agarra por trás. Tento lutar, mas ele é forte demais e me carrega até a porta do meu prédio. Então, diz no meu ouvido: – Me dê a chave, Evie. Como uma criança obediente, pego a chave na bolsa e entrego a ele. É o meu menino, mas também é o meu leão. E, que Deus me ajude, amo os dois da mesma forma. Ainda assim, isso não quer dizer que o perdoo. Onde está Maurice quando realmente estou sendo acuada? Jake abre a porta do prédio e me carrega para dentro como se eu não pesasse mais do que uma pluma. Em seguida, destranca a porta do meu apartamento, entra comigo, me coloca no chão e fecha a porta. Ficamos nos encarando, ele respirando com dificuldade e eu furiosa, por vários segundos. Finalmente, ele abaixa a cabeça e passa a mão pelos cabelos. Ah, Deus, não faça isso! – Evie, precisamos conversar. E tem que ser agora.


– Por que você acha que pode decidir quando precisamos conversar? Não sou eu que devo decidir isso, Jake? Ou devo chamá-lo de Leo? Por favor, me diga como devo chamá-lo. Ele fecha os olhos por um instante, como se estivesse cansado demais para lidar comigo. Inacreditável. – Evie, por favor. Podemos conversar? Você vai me escutar? Tenho vivido um inferno. Por favor. Só quero que me diga que vai me ouvir... realmente me ouvir. – Um inferno, você? Ah, por favor, Jake. Não quero tornar as coisas mais difíceis para você. Por favor, sente-se. Posso lhe servir uma bebida? Algo para beliscar? – digo com raiva. Ele suspira, como se mal estivesse conseguindo me tolerar. – Sente-se, Evie. Agora. Quero voar para cima dele. Quero mandá-lo para o inferno. No entanto, faço o que ele diz e afundo no sofá. Jake continua de pé. Finalmente, ele deixa o ar escapar e passa a mão pelos cabelos. De novo! Quantas vezes já fez isso até


agora? Está tentando me matar. Jake também se deixa cair no sofá, mas do lado oposto ao meu. – Se precisar de alguma coisa, vá pegar agora. Esta conversa deve demorar um pouco. Vá pegar o que for necessário para deixá-la confortável e depois fique quieta nesse sofá. Encaro-o por um longo tempo, então também suspiro. – Não preciso de nada, Jake... Leo. Por favor, vamos terminar logo com isso. Aperto a parte de cima do nariz, tentando afastar uma dor de cabeça que ainda nem começou. Ele chega mais perto agora e, de repente, tudo aquilo é demais para mim. O cheiro dele, a expressão em seu rosto, minhas próprias emoções... afundo o rosto entre as mãos e começo a chorar. Jake/Leo não diz uma palavra, mas o escuto se aproximar ainda mais e, no momento seguinte, estou no colo dele, aconchegada em seus braços, o rosto dele enfiado em meus cabelos. Afasto as mãos do rosto e digo, entre soluços: – Eu esperei por você! Esperei, esperei e você simplesmente desapareceu. Não sabia se estava vivo ou morto. Não sabia se você havia apenas decidido começar


uma vida nova e me apagar da antiga, ou qualquer outra coisa! E mesmo assim eu esperei. Aliás, para ser bem sincera, mesmo não admitindo isso nem para mim mesma, ainda estava esperando até o dia em que você voltou à minha vida, se apresentando com outro nome. Nunca deixei de esperar por um menino que me descartou como se eu fosse nada! Estou quase sufocando com os soluços agora, mas Jake/Leo apenas me abraça com mais força e me embala, sussurrando sons reconfortantes contra os meus cabelos. E como é possível que esse homem queira me consolar? Ele é a causa dessas lágrimas. Mesmo assim, me agarro a ele. Depois de alguns minutos, me acalmo e olho para ele. Há lágrimas silenciosas descendo por seu rosto também. Seco-as com os polegares. E logo minhas mãos estão percorrendo as faces dele, os dedos traçando a linha das sobrancelhas, do maxilar forte, do nariz, meus olhos seguindo o caminho dos meus dedos, examinando cada detalhe do rosto másculo, mas finalmente vendo também o menino que ele já foi... me permitindo ver o


menino que talvez eu soubesse o tempo todo que estava ali. Minhas mãos ficam imóveis e olho dentro dos olhos castanhos profundos. Então, de repente, de algum modo, estamos nos beijando. A língua de Leo está invadindo a minha boca e estamos gemendo. Quando ele despe meu suéter, abaixa as alças do meu sutiã e excita meus mamilos com a língua, arquejo seu nome: – Leo... Um rugido de pura satisfação sobe pela garganta dele. Em um instante, estou deitada no sofá e ele exige: – Diga meu nome de novo. – Leo, Leo, Leo – sussurro em um gemido, estendendo os braços para envolvê-lo, passando as pernas ao redor de seu corpo. – Faça amor comigo, Leo. Não sei o que ele vai me contar, sobre o motivo que o levou a quebrar a promessa que me fez, e por que estava mentindo. Não sei se vou ser capaz de perdoá-lo. Mas, não importa o que aconteça, quero fazer amor com ele. Quero tê-lo, o meu Leo, quero gritar o nome dele, ao menos uma última vez. Ele volta a se ocupar dos meus seios, dando beijos reverentes ao redor dos mamilos rígidos, antes de sugá-


los, um de cada vez. Me contorço de prazer e me esfrego contra o pênis rígido que sinto através do tecido da calça. Estou ardendo de desejo, cada centímetro do meu corpo implorando por esse homem. – Por favor – peço. – Preciso de você. – Minha Evie – sussurra ele, chegando para o lado e despindo minha calça jeans e minha calcinha. Então Leo enfia a mão por entre as minhas coxas e roça o dedo em meu clitóris inchado, enquanto volta a sugar meu mamilo. Ele começa a mover o dedo no mesmo ritmo em que chupa meu seio. Eu dobro um dos joelhos e o apoio contra a lateral do sofá, para permitir a Leo um maior acesso. E não paro de sussurrar o nome dele enquanto seu polegar continua a acariciar meu clitóris e ele enfia outro dedo dentro de mim. Ele entra e sai bem devagar, tornando meu prazer ainda mais doce. Leo toca meu corpo como se fosse um instrumento musical e me deixa embriagada de prazer, louca de desejo. Qualquer pensamento racional se foi. Abro os olhos, as pálpebras pesadas, e deixo escapar outro gemido. Leo agora se afastou dos meus seios e


observa meu rosto. Seu maxilar está cerrado, no esforço de manter o controle, enquanto adia o próprio prazer para garantir o meu. Os dedos dele acariciam e invadem, mudando o ritmo, mantendo-me no limite, até eu estar prestes a chegar ao orgasmo. – Leo! – imploro, erguendo os quadris na tentativa de me satisfazer com a mão dele. Ele enfia mais um dedo em mim e acelera o ritmo, acariciando e penetrando compassadamente. Gemo alto e sussurro: – Isso! Leo geme também, então os únicos sons na sala são os de nossa respiração ofegante, e a única sensação é a dos dedos dele deslizando para dentro e para fora de mim. – Goze para mim, Evie – diz ele em um grunhido. Nesse momento, meu corpo se tensiona e eu me arqueio no sofá, enquanto ondas de um orgasmo intenso me invadem. Grito o nome dele e ouço o zíper da calça se abrindo. Logo Leo está em cima de mim, as mãos nos meus quadris. Ele gira o meu corpo, me deixando de


quatro, e penetra meu sexo encharcado com um gemido baixo. Não tenho certeza se o gemido é meu ou dele. De joelhos atrás de mim, Leo começa a arremeter, repetindo meu nome sem parar, enquanto eu digo: – Leo... Leo... Leo... Meu cérebro está turvo de paixão, mas em algum lugar no fundo da minha mente compreendo que, mesmo que já tenhamos feito amor dezenas de vezes, estamos nos encontrando aqui e agora, como Evie e Leo, e sinto vontade de gritar, tamanha a intensidade desse momento. Ele continua a me penetrar ritmicamente, segurando meus quadris para que possa arremeter cada vez mais fundo. É selvagem, quase rude, o pênis dele atingindo o colo do meu útero a cada investida. Sinto mais um orgasmo crescendo em mim ao ouvir o som das coxas dele batendo contra minha bunda. A respiração de Leo se torna mais ofegante e ele continua a repetir meu nome. Cada penetração se torna mais firme e mais rápida. O cheiro da mistura dos nossos sexos enche a sala. Leo inclina o tronco para a frente e alcança meu clitóris. Então, pressiona o dedo contra ele. Outro orgasmo me domina. Jogo a cabeça para trás e movo o


quadril contra o pau dele. Leo geme, ruge, e suas estocadas vão se tornando mais lentas. Ele agora entra e sai de mim languidamente, entregando-se ao próprio orgasmo. Leo finalmente para de se mover e apoia a cabeça contra as minhas costas, enquanto nossas respirações vão voltando ao normal. Ficamos desse jeito por um longo tempo, até minhas pernas cederem e eu começar a afundar no sofá. Leo se afasta, me pega pela cintura e gira meu corpo novamente. Estamos colados um ao outro. Então ele me coloca sentada sobre seu colo, se recosta no sofá, segura meu rosto entre as mãos e olha bem fundo nos meus olhos. – Eu te amo, Evie – diz, baixinho. – Não importa o que você vá achar do que estou prestes a lhe contar, precisa saber disso. Sempre te amei. Nunca deixei de amar. Nem por um segundo, nesses oito anos. Assinto e fecho os olhos para conter as lágrimas que ameaçam voltar a cair. – Deixe eu me limpar e então conversaremos, está certo? – digo.


Ele concorda, enquanto fecha o zíper do jeans, e em seguida apoia os cotovelos sobre as coxas. Me visto e vou até o banheiro. Ao voltar, Leo permanece na mesma posição, agora com a cabeça baixa. Quando eu me sento a seu lado, ele se recosta no sofá. Demora algum tempo para me encarar, até que diz: – Acho que o melhor lugar para começar é pela minha chegada a San Diego.


c a p í t u lo 2 7

-Certo. Mas, primeiro, por que mudou de nome? Ele suspira. – Lauren achou que seria mais fácil ter um novo começo se eu começasse a usar meu nome do meio e, é claro, meu novo sobrenome. A princípio me recusei, mas depois daquela primeira semana, concordei. Queria me tornar outra pessoa... Sinceramente, queria escapar de mim mesmo. É claro que uma mudança de nome não é suficiente para isso, mas na época me pareceu ao menos um primeiro passo. Me matriculei na escola como Jake Madsen e, desde então, ninguém nunca mais me chamou de Leo.


Concordo com um gesto de cabeça. Não posso fingir que não compreendo a atitude dele. Várias vezes, ao longo da minha vida, se alguém houvesse me oferecido a oportunidade de ser outra pessoa que não Evie Cruise, eu teria achado uma oferta bem tentadora. – Você precisa saber que naquela noite, quando a deixei, estava sendo sincero em cada palavra que disse. Falei aquilo do fundo da minha alma. Sabia que jamais amaria outra garota, e estava certo. Nunca houve mais ninguém. Ele olha para mim, parecendo inseguro. – Você me contou que houve muitas mulheres, Leo – murmuro, virando a cabeça e olhando pela janela por um instante. Não posso mentir; agora que descobri quem ele é, saber das outras me magoa profundamente. – Nenhuma delas significou nada para mim. Nenhuma. Não me orgulho disso. Na verdade, tenho vergonha. Mas nunca senti nada por ninguém a não ser por você. Fiz muita besteira nessa vida, Evie, mas nunca amei nenhuma outra garota. Precisa acreditar nisso, mesmo que não entenda.


Ele suspira e abaixa a cabeça. Quando levanta os olhos novamente, diz: – Cheguei a San Diego em um domingo à noite. Na segunda-feira de manhã, comecei a escrever uma carta para você. Escrevi um pouco na terça e na quarta. Pretendia fazer isso todos os dias da semana, até sexta, e então colocaria a carta no correio no sábado. Parei de escrever na quinta. – Por quê? O que aconteceu na quinta? – pergunto baixinho, voltando a olhar para ele, mas quase com medo de saber. Leo fica em silêncio por um instante. – Na quinta à tarde – continua –, eu estava no porão tentando aprender a jogar sinuca. Tínhamos uma mesa grande, forrada de feltro vermelho e... Enfim, eu estava só matando tempo. Meu novo pai, Phil, estava no trabalho. Minha mãe, Lauren, como você sabe... – Ele faz uma pausa e uma careta. – Ela desceu usando uma camisola muito curta. Me senti constrangido, mas nunca havia tido uma vida familiar normal. Achei que talvez fosse assim que as mães agissem, que andassem pela casa de roupa de dormir. Ao menos foi disso que tentei me convencer.


Meus olhos estão arregalados, porque tenho quase certeza do que ele vai me contar e eu não quero ouvi-lo dizer essas palavras. – Ela se serviu de um drinque, então serviu um para mim também. Aceitei, embora agora todos os tipos de alerta estivessem soando. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Jogamos sinuca por algum tempo. Terminei meu drinque primeiro e ela me serviu outro. Lauren fazia poses sensuais para as tacadas, se inclinando sobre a mesa, e estranhamente, quando o álcool começou a fazer efeito, ficou cada vez mais fácil fingir que a situação era normal. – Leo deixa escapar uma risada sem humor e abaixa os olhos. Ele suspira, ainda sem me encarar, e continua a história: – Depois de algum tempo, Lauren começou a se roçar em mim, a me tocar. Eu era um garoto novo, cheio de hormônios, sob o efeito de dois drinques. Estava confuso, sem entender direito o que estava acontecendo com aquela mulher que achei que quisesse ser minha mãe. Ele volta a suspirar, parecendo torturado e muito envergonhado.


– Caramba, como é difícil contar isso... Quero tocá-lo para lhe transmitir força, mas de algum modo sei que essa não é a coisa certa a fazer, portanto permaneço imóvel e em silêncio. Depois de um instante, ele continua: – Por fim, ela ficou completamente nua, se inclinou para trás na mesa e começou a me implorar para possuíla. Lauren me seduziu, sim, mas não me esforcei muito para resistir. Trepei com minha nova mãe em cima da mesa de sinuca no porão, enquanto meu pai estava no trabalho. Não é nojento? – Ele exala com força e fecha bem os olhos por um instante. Lágrimas rolam livremente pelo meu rosto agora, e sufoco um soluço. Ele permanece olhando para a frente quando prossegue: – Jantamos como uma família naquela noite e meu pai fez um brinde ao “novo filho” deles. Mal consegui manter a comida no estômago. Odiava a mim mesmo e não conseguia parar de pensar em como havia tido coragem de fazer uma coisa daquelas. Tinha decepcionado uma pessoa que me amava e que confiava em mim. De novo.


Leo fica em silêncio por um longo tempo. – Os dois haviam tentado por vários anos ter um filho – diz ele finalmente –, mas em vão. Phil deixou claro para mim que agora estava feliz por ter conseguido, por ter alguém que um dia poderia assumir a empresa dele. Havíamos conversado muito naquele dia, antes de tudo acontecer, e ele tinha feito com que eu me sentisse bem comigo mesmo; disse que me achava inteligente. Quando Leo voltou a se calar, consegui reunir forças para perguntar: – Você não me disse que seu pai adotivo trabalhava em um hospital, aqui? – Sim, ele trabalhava. A tecnologia de raios X que agora é usada nos aeroportos começou como um equipamento médico. Assinto com a cabeça e peço que ele continue. Uma expressão de dor passa pelo rosto dele quando me ouve dizer seu nome, mas ele vai em frente: – De qualquer modo, aquela tarde no porão bastou para que eu percebesse que, mais uma vez, as pessoas só queriam me usar. Primeiro tinham sido meus pais biológicos, para que eu tomasse conta do meu irmão e


fosse o alvo da raiva que eles sentiam do mundo, e depois aquelas duas pessoas. Minha nova mãe, por razões óbvias, mas meu novo pai também. Foi fácil ver que o interesse dele era ter um filho para usar como burro de carga, ter alguém para treinar e transformar no que ele queria. Leo faz uma pausa e continua: – Ninguém jamais se importou com quem eu era. Todos só queriam saber o que eu poderia fazer por eles, a não ser você, Evie, e meu irmão, Seth. E agora eu havia destruído vocês dois. Tinha prometido a Seth que tomaria conta dele e, naquele momento, meu irmão estava apodrecendo em alguma instituição pública que eu nem sabia onde era. E tinha prometido a você que me guardaria para quando a encontrasse de novo, que seria fiel, e demorou menos de uma semana para que eu a traísse. Sinceramente, cheguei a pensar em cortar os pulsos, tamanho o ódio que sentia de mim mesmo. Pego um lenço de papel em uma caixa perto do sofá e seco o rosto. – Leo, com certeza agora você sabe que ela se aproveitou de você, certo? – pergunto, em voz baixa. A expressão dele endurece.


– Sei o que todos os livros de psicologia dizem sobre isso e, sim, ela estava errada. Mas eu poderia ter resistido mais. Poderia ter fugido. Poderia ter... sei lá... feito mais do que fiz. E não apenas isso, Evie. As coisas não terminaram naquele dia. Aquilo continuou a acontecer regularmente até o dia em que saí de casa e fui para a faculdade. E mesmo depois que eu não estava mais morando lá, Lauren tentou continuar, mas aí eu conseguia evitá-la. Ela alega que é apaixonada por mim e que soube disso no instante em que me viu no lar adotivo. Que doença é essa? Por Deus, eu tinha 15 anos... – Leo passa a mão pelo rosto. – Você não achou que poderia confiar em mim o bastante para me contar? – pergunto, tensa, o choro deixando minha voz aguda. – Pensei um milhão de vezes em como poderia lhe explicar o que aconteceu. Precisava desesperadamente de você. Achei que morreria de saudades. Mas o que eu diria? Nem eu mesmo conseguia ver sentido naquilo tudo, então como conseguiria explicar a você? Estava sentindo tanta vergonha... Depois, acabei encarando a saudade que sentia de você como uma penitência por ser quem eu era, alguém que destruía as pessoas que amava.


A única coisa que eu não conseguia superar era quanto o meu silêncio deveria estar fazendo você sofrer. Leo continua a olhar para a frente, impassível. – Mas acabei me convencendo de que, ficando afastada de mim, você tinha uma chance de lutar. Cheguei à conclusão de que estava destruído e que algumas pessoas não têm jeito, não podem ser mudadas. Ou, quando podem, é apenas por um amor tão grande que destrói quem o oferece. Eu não tinha o direito de prejudicar você mais do que achava que já havia feito, Evie. Me convenci de que saber a verdade a meu respeito a teria magoado mais do que ser abandonada por mim. Eu só queria desaparecer. Mas você precisa entender que me odiei a cada instante por deixá-la. E sofri tanto quanto você. Ficamos em silêncio por um longo tempo. Ainda estou secando os olhos, tentando digerir as palavras de Leo, quando ele continua: – Cresci muito durante o verão em que me mudei para a Califórnia, e comecei a praticar esportes, fazer exercícios. Isso ajudou um pouco como válvula de escape, e continuei ao longo do ensino médio, mas não foi o bastante. Então passei a beber, a usar drogas, a


virar a noite em boates, a usar as garotas. Fiz isso em parte pelo desprezo que sentia por mim mesmo, pela necessidade de qualquer coisa capaz de anestesiar minha dor, mas em parte também porque Lauren ficava furiosa ao me ver sair com um monte de garotas. E eu tinha passado a desprezá-la. É uma escrota manipuladora. Estava mentindo para Phil, estava... Eu o interrompo: – Ela é uma pedófila, Leo. Ele enfim me encara. – Acho que sim, mas assumo minha parcela de responsabilidade, também. Principalmente porque continuamos a fazer sexo e a enganar meu pai. – Leo desvia o olhar e uma expressão de vergonha domina seu rosto. – Você chegou a tentar contar a ele? – pergunto. – Alguns meses depois que tudo começou, pensei nisso, mas me sentia tão culpado, com tanta vergonha do meu papel na história... E se ele não acreditasse em mim? E se acreditasse e aquilo o destruísse? Eu conseguiria viver com mais essa culpa? Acabei me concentrando apenas em me entorpecer cada vez mais. E, mesmo sentindo cada vez mais vergonha de mim


mesmo, eu queria tanto ter uma família. Gostava de tudo o que eles estavam me dando, de todo aquele luxo, as viagens, coisas que eu nunca tinha tido. E isso fazia com que me odiasse ainda mais. Ele passa novamente a mão pelo rosto. – Enfim, o ensino médio foi uma tragédia. Fiz da vida dos meus pais um inferno. Lauren sempre livrava minha cara com meu pai, por razões óbvias, e o pobre coitado apenas tentava me ajudar. Mas não havia ajuda possível para mim, não naquela época. Phil deve ter pensado um milhão de vezes: Que merda nós fizemos quando adotamos esse garoto? Mas ele nunca, jamais, me disse nada do tipo. Agora Leo passa a mão pelos cabelos. – As coisas começaram a ficar melhores para mim quando fui para a faculdade. Finalmente estava a alguma distância da minha mãe. – Ele deixa escapar uma risadinha sem humor. – E comecei a pensar com mais clareza. Meu pai e eu passamos a sair juntos de vez em quando, e conseguimos desenvolver uma relação bacana. Phil deve ter ficado em dúvida se algum dia eu seria confiável o suficiente para aprender o funcionamento da empresa, mas cerca de um ano depois que saí de casa


ele me convidou para trabalhar com ele. Aceitei e a partir daí ficamos cada vez mais próximos. Foi muito bom. Ele era um cara legal. Viciado em trabalho e distraído, mas um homem decente. Leo faz uma pausa e continua: – Quando me formei, ele e Lauren me compraram um Porsche de presente. Na noite da minha festa de formatura, ela me encurralou no meu quarto e fez mais uma de suas investidas. Eu a repeli e ela ficou tão furiosa que me disse que não pretendia me contar daquela forma, mas que tinha recebido informações sobre o meu irmão, anos antes, pelo advogado da família. O rosto dele é uma máscara de sofrimento, mas não o toco. Não posso. São muitas informações para digerir e tudo o que consigo fazer é ouvir o que Leo está me contando e tentar entender da melhor forma possível. Foram tantos anos de tristeza, sofrimento, dúvidas, e agora enfim sei o que aconteceu. – Estava sempre pedindo a Lauren que descobrisse alguma informação, para que eu pudesse visitar Seth – prossegue ele. – Ela me falou que ele havia morrido três anos antes, de pneumonia, mas que não tinha me contado porque sabia que eu ficaria chateado. Meu


Deus... Chateado? Eu tinha praticamente criado aquele menino desde o dia em que ele nasceu. E Lauren estava simplesmente jogando aquela informação na minha cara como vingança por eu não querer fazer sexo com ela. Ele para e não consigo mais me conter: seguro a mão dele e aperto-a com força. Leo vira a cabeça na minha direção. Uma expressão de dor atravessa seu rosto mais uma vez antes que ele volte a falar. – Saí correndo de lá, peguei meu carro novo e saí dirigindo em alta velocidade, como um imbecil, cantando pneu nas curvas, de uma forma suicida mesmo. Então, em algum momento, perdi o controle, bati de lado em um caminhão e capotei seis vezes. Pelo menos foi isso que me disseram. Não me lembro de nada, só de ter acordado no hospital com a cabeça enfaixada e tubos por todo o corpo. Deixo escapar um arquejo. – Eu havia fraturado o maxilar, arrebentado o malar direito e quebrado o nariz. Tinha um corte de 20 centímetros na parte de trás da cabeça, três costelas quebradas, uma ruptura no baço, dois braços e uma perna quebrados. Passei seis meses no hospital,


enquanto reconstruíam meu rosto e meu corpo se curava. – Meu Deus... – sussurro. Ele apenas assente, o rosto inexpressivo. – Não havia mais nada que eu pudesse fazer além de ficar ali deitado, refletindo, por isso, de certa maneira, o acidente foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Praticamente não tive outra escolha que não encarar meus demônios. A parte desagradável era que Lauren me visitava todo dia e eu não tinha para onde correr. Uma vez, quando eu já estava havia cerca de um mês no hospital, Lauren apareceu para me dizer que tinha convencido os médicos a me deixarem ir para casa com ela depois das minhas próximas cirurgias. Assim ela poderia cuidar de mim, para que eu voltasse a ficar bem. Protestei, fiquei furioso e falei que agora que eu tinha mais de 18 anos, não a deixaria chegar perto de mim de jeito nenhum. Ela tentou me convencer arrancando as minhas cobertas e se jogando em cima de mim. – Leo deixa escapar um som de desgosto e se encolhe. – Não havia nada que eu pudesse fazer. Estava literalmente indefeso. Minha única reação possível foi ficar dizendo o tempo todo para ela parar com aquela palhaçada, que eu


não ficaria mais quieto a respeito daquilo. Foi quando meu pai entrou. Lauren se afastou de mim de um pulo e ficamos imóveis, perplexos por um longo tempo. Finalmente meu pai falou: “É por isso? Todos esses anos, é por isso que você nos odeia.” Foi como se enfim tudo se encaixasse na cabeça dele. Então meu pai começou a apertar o peito, Lauren começou a gritar e apertou o botão para chamar a enfermeira. Ele teve um forte ataque cardíaco. – Ah, meu Deus, Leo – sussurro, mais lágrimas descendo pelo meu rosto. Ele continua, mas a voz agora parece cansada, o tom quase monocórdio: – Meu pai recuperou a consciência na manhã seguinte e achamos que ele ficaria bem. Cinco dias depois, porém, ele desenvolveu um coágulo e foi isso que o matou. É um quadro comum depois de um ataque cardíaco. Na manhã em que ele voltou a si, me levaram até o quarto dele em uma cadeira de rodas. Meu pai levou a mão ao peito e falou que lamentava muito, que não me culpava por nada. Chorei como um bebê. Aperto a mão dele novamente.


– No dia seguinte, os advogados do meu pai foram ao hospital e ele mudou o testamento. Deixou a empresa só para mim. Lauren tem o suficiente para manter o padrão de vida com que está acostumada até o dia em que morrer. Mas a empresa é cem por cento minha. Ficamos em silêncio por um instante, e eu me lembro de uma coisa: – Foi Lauren quem apareceu no seu quarto de hotel em San Diego e atendeu ao celular quando eu liguei? Ele passa a mão pelo rosto mais uma vez. – Foi. Ela descobriu que eu estava na cidade e me surpreendeu no meu quarto. Falei com todas as letras que ou ela ia embora ou eu chamaria a segurança. Eu sabia muito bem que a situação poderia ficar feia, e não estava disposto a lidar com isso. Então, disse que iria tomar banho e que trancaria a porta. Caso ela não houvesse ido embora quando eu saísse, eu a colocaria para fora. Àquela altura eu não estava preparado para contar a você todos os detalhes sobre ela, por isso menti. As mentiras começaram a se acumular, e eu não sabia como lidar com aquilo sem lhe contar tudo. Uma confusão. E tudo por minha culpa. Leo faz uma pausa breve e continua:


– Ela também apareceu na boate a que fomos naquela noite, com Landon e o namorado dele. Joe, o segurança, disse a ela onde estávamos quando Lauren falou quem era. Foi naquele momento que decidi que precisava lhe contar tudo. Só tinha que descobrir como fazer isso. Ele respira fundo, e parece se animar um pouco. – Enfim, depois que meu pai morreu, no dia seguinte, eles mandaram o psicólogo do hospital para me ver. Gostei dele. Era direto, objetivo, e logo nos entendemos. Ele começou a me atender regularmente depois disso, e me abri com ele. Foi a primeira vez que conversei sobre meu passado, a primeira vez que falei de você. Uma das coisas que ele me disse que fez muito sentido foi: “Olhar para o passado pode ser doloroso, mas você tem duas escolhas: ou foge dele ou aprende com ele.” Eu já havia fugido, me mantendo entorpecido. Não tinha funcionado. Estava na hora de aprender. Fecho os olhos por um minuto e, quando volto a abri-los, estamos nos encarando com lágrimas nos olhos. – Percebi que durante todo aquele tempo não houve um só dia em que você não fosse a primeira coisa em


que eu pensava de manhã e a última antes de dormir. Eu sou seu, Evie. Sempre fui. Leo balança a cabeça com tristeza. – Precisei quase morrer para perceber que tinha que fazer alguma coisa a esse respeito, mandar meus medos para o inferno. Não conseguia mais conviver com sua ausência. Mas era apavorante, e eu não sabia como você reagiria quando me visse. Os médicos tiveram que reconstruir várias partes do meu rosto, nada tão drástico, mas o bastante para que, junto com todas as outras mudanças que haviam ocorrido desde que eu tinha 15 anos, você pudesse não me reconhecer de imediato. Na primeira vez em que Gwen me viu quando me mudei para cá, ela disse que tinha adorado o que o médico havia feito, que ele me tinha me aperfeiçoado. Como se eu houvesse quase morrido para conseguir cirurgia plástica de graça. Gwen é inacreditável. Nós até conseguimos dar um pequeno sorriso. – Você tem uma foto sua de antes do acidente? – pergunto baixinho. Leo pensa por um instante. – Tenho minha carteira de motorista antiga. Espere um instante.


Ele pega a carteira no bolso do casaco, tira o documento de dentro e me entrega. Entendo o que Leo quer dizer. Antes do acidente o rosto dele já era lindo, devastador, mas era mais rude, menos hollywoodiano. Não acho que fosse tão diferente assim, mas consigo ver um pouco mais do menino que ele foi. De qualquer forma, posso ter essa impressão só porque agora sei quem ele é. Eu lhe devolvo o documento e Leo continua sua história: – Assumi a empresa do meu pai depois que saí do hospital e informei ao conselho que iria me mudar para Cincinnati. Quando cheguei aqui, encontrei você. Mas estava tão, tão nervoso... Tinha todos aqueles sentimentos guardados, e havia sonhado com você todas as noites nos últimos oito anos, mas não sabia se estava casada, talvez com filhos... não sabia de nada. Também me perguntei se seria a mesma garota que eu tinha conhecido, se minhas fantasias sobre você não seriam em parte uma criação da minha mente. Por isso decidi segui-la por algum tempo, observá-la um pouco. Logo vi que continuava sendo a minha Evie, só que ainda conseguia ser mais bonita do que eu me lembrava, mais


bonita de todas as formas, por mais incrível que isso pudesse parecer. Você me deixou sem fôlego, e eu ainda não tinha nem chegado perto de você. Tinha pensado em me apresentar como alguém que havia conhecido Leo, mas não sabia a melhor maneira de dizer isso, ou se você me reconheceria. Estava tentando descobrir o que fazer, tentando avaliar a situação, quando você me surpreendeu. Sei que parece que eu estava tentando manipulá-la, mas tente entender. Percebi que estava ainda mais apaixonado do que quando tinha 15 anos, e só a estava seguindo havia uma semana. Não podia arriscar lhe contar a verdade e fazê-la fugir de mim. Ele faz uma pausa, respira fundo e continua: – Você me pegou de surpresa naquele dia e me forçou a tomar uma decisão naquele momento. Então, quando notei que não havia me reconhecido, deixei escapar a mentira sobre Leo ter morrido. Você me disse que ele a havia traído, por isso continuei a mentir. Queria tanto continuar perto de você... não queria que me dissesse para deixá-la em paz. Leo balança a cabeça, a expressão tão vulnerável. Desvio o olhar, porque ainda não estou pronta para dizer nada.


– Em vários momentos, quase lhe contei tudo. Achei que você tivesse descoberto quem eu era na noite em que a levei para casa depois do nosso primeiro encontro, quando ficamos sentados no carro com as testas encostadas, como na noite do nosso primeiro beijo, no nosso telhado. Lembro desse instante no carro e percebo que senti alguma coisa, mas decidi não investigar essa sensação mais a fundo. Queria tanto aproveitar aquela empolgação de estar ali com Jake... Também me lembro daquele momento estranho na cobertura do Hilton, quando Leo me fez aquela surpresa. Ali eu também soubera, não é? E na boate, quando a expressão furiosa dele ao me defender de algum modo me foi familiar... Só que, mais uma vez, decidi não pensar no significado daquilo. Recordo de todas as vezes em que deixei que ele me afastasse da minha zona de conforto... De como confiei nele apesar das dúvidas que não paravam de surgir na minha cabeça e das coisas que Leo não explicava... Algo em mim decidiu confiar nele cegamente, e agora eu entendo o porquê.


– Não sei se fiz a coisa certa, Evie, mas depois de mentir para você, disse a mim mesmo que precisava de algum tempo para fazê-la perceber que estávamos destinados a ficar juntos. Então eu lhe contaria a verdade. Foi ficando cada vez mais difícil fazer isso, e eu estava tão absurdamente feliz por ter você de volta à minha vida, por poder abraçá-la, fazê-la sorrir... E também por poder redescobrir você. Acabei adiando o momento com medo de você decidir me deixar, com medo de não me perdoar por abandoná-la. Ele passa os dedos pelos cabelos e faz uma pausa antes de prosseguir. – Lamento tanto! Me desculpe por magoá-la, por enganá-la quando nos reencontramos e por todas as mentiras que continuei a contar depois. Mas, Evie, não consigo me arrepender completamente do que fiz, porque isso fez você perceber como éramos juntos sem termos que falar logo sobre o modo como a magoei, sem o fardo de ter que encarar os obstáculos do nosso passado. Isso faz algum sentido? Ou me torna um babaca completo? Respiro fundo antes de responder:


– Não sei, Leo. O que sei é que nem sequer posso colocar toda a responsabilidade sobre os seus ombros. Para ser honesta, durante todo o tempo eu senti que havia algo entre nós tão familiar, que me chamava a atenção o tempo todo, e simplesmente escolhi não admitir. Paro de falar por algum tempo e deixo que ele absorva minhas palavras antes de continuar: – Sempre tive o costume de ignorar as coisas que não queria encarar, de colocá-las em um lugar escondido na mente. Acho que é por isso que sou boa em criar histórias. Ser capaz de escapar para uma terra de sonhos era um instinto de sobrevivência para mim. Talvez eu também tenha feito isso com você. No meu íntimo, eu sabia que havia algo que estava escondendo de mim mesma. Deixei que você mentisse para mim, porque a mentira parecia tão boa... Admito isso agora. Ele agora se vira completamente para mim, os olhos suplicantes. – Não vou deixar que assuma a responsabilidade por nada disso. Talvez você tenha feito algumas escolhas inconscientes, mas não pode se culpar. Eu tomei todas as decisões. Sou o único culpado nessa situação.


Entendo que você precise de um tempo para digerir tudo. Mas por favor, por favor, Evie, não posso perdê-la de novo. Não vou conseguir sobreviver duas vezes a isso. Pode ao menos tentar me perdoar? Entender meus motivos? – A voz dele está sufocada. Fico um tempo em silêncio, então digo baixinho: – Não sei. Preciso de algum tempo, Leo. Você acaba de me fazer voltar oito anos da minha vida... uma vida que era muito difícil... para nós dois. – Dou uma risadinha seca. – Podemos... Pode me dar um pouco de tempo para pensar? Por favor? Leo olha para a frente por um longo minuto, então começa a se levantar sem desviar os olhos de mim. – Sim. É difícil para mim, porque já perdemos tanto tempo... Mas, é claro, vou lhe dar o que você precisar. Ele se levanta e vai direto para a porta. Coloca a mão na maçaneta, mas para por um instante e diz, sem se virar: – Sabe seu dom de contar histórias, Evie? Não tem nada a ver com você se perder em sua mente, ou em viver em uma terra de sonhos. Tem a ver com a beleza do seu coração, com sua capacidade de dar a volta por cima até mesmo na pior das situações. Essa é uma das


razões para eu ter amado você em todos os dias da minha vida desde os 11 anos. Com isso, ele abre a porta e sai. Encaro a porta fechada por um instante, então puxo os joelhos contra o peito e deixo as lágrimas rolarem mais uma vez.


c a p í t u lo 2 8

Acabo pegando no sono no sofá, mental e fisicamente exausta por tudo o que aconteceu nas últimas 24 horas. Me sinto dolorida, vazia, e imagino, entorpecida, que deve ser a essa sensação que as pessoas se referem quando dizem que estão deprimidas. Quando acordo, já passa das oito da noite. Então, coloco uma pizza congelada no forno e como, encostada na bancada da cozinha, mal sentindo o sabor. Caio na cama às dez da noite, depois de assistir a Coração valente em DVD, e durmo direto até as sete da manhã, quando o despertador toca.


Me arrasto até o trabalho e, quando entro com o carrinho de limpeza na suíte da cobertura, sou assaltada por lembranças de mim e Jake – não, de mim e Leo – na poltrona do quarto. Coloco os fones de ouvido e inicio a limpeza. Minha mente também começa a trabalhar, tentando dar sentido a tudo o que Leo jogou no meu colo ontem. Não sou, de forma nenhuma, especialista em abuso sexual com pessoas do sexo masculino, mas não posso deixar de imaginar que é uma questão bastante complicada, já que quem abusa não costuma usar força ou violência. Lauren definitivamente não usou, embora esteja claro para mim que ela se aproveitou da ingenuidade e da inocência de um menor, do filho dela, pelo amor de Deus... Mesmo que o próprio Leo se recuse a responsabilizá-la por completo. E, de fato, ele tem alguma responsabilidade, não tem? Talvez eu devesse conversar com um especialista, para tentar entender melhor. Deus, que situação horrorosa. Achei que já houvesse ouvido tudo na vida. Mas esse tipo de história sempre acontecia antes de as crianças serem levadas para lares adotivos. Balanço a cabeça.


Mas e quanto à decisão dele de não me procurar por causa da vergonha que estava sentindo? Relembro a devastação, o desespero que se abateram sobre mim conforme os meses foram passando e não recebi nenhum contato dele. Então o imagino em San Diego, se entorpecendo com álcool e drogas, fazendo sexo com um monte de garotas aleatórias e depois mulheres aleatórias. Me encolho, incomodada. Mas, meu Deus, ele tinha 15 anos! E era um garoto com um passado complicado, sem ninguém para orientálo. Leo fez a escolha errada, mas será que consigo perdoá-lo agora pelo que fez naquela época, sabendo que, se ele pudesse voltar atrás e aconselhar aquele menino magoado e confuso, o ajudaria a tomar uma decisão diferente? Então, a terceira questão. A mentira que ele me contou para entrar na minha vida. Mais uma vez, colocando os próprios desejos e necessidades antes dos meus. Não posso dizer que a linha de raciocínio dele tenha sido completamente infundada. Pensando a respeito de tudo, tenho a vantagem (ou desvantagem?) de saber que


Leo e eu somos mágicos juntos, que combinamos de todas as formas possíveis. Seria mais fácil colocá-lo no passado e vê-lo como a pessoa que me abandonou e que não era digna de confiança se eu agora não o conhecesse intimamente. E sei que ele é um bom homem. Isso eu não posso negar. Será que tudo isso é mesmo tão confuso? Ou será que estou respondendo às minhas próprias perguntas com tanta facilidade por estar apaixonada por Jake – quer dizer, por Leo Madsen? Paro de passar o aspirador de pó enquanto esse pensamento ressoa na minha mente. Estou apaixonada por Jake/Leo Madsen. Sim, é claro que estou. Já há algum tempo. Sim, amei o menino que ele foi. Mas meu amor pelo homem tem uma intensidade que eu jamais poderia ter imaginado aos 14 anos. Só preciso continuar pensando em tudo isso por mais um ou dois dias. Lamento, Leo. Sei que não quer me dar muito tempo, mas você também não pode me apressar. Saio do quarto com o carrinho de limpeza e me dirijo ao próximo quarto.


No dia seguinte, encontro Landon depois do trabalho para tomarmos um café e para que eu possa colocá-lo a par de tudo o que aconteceu desde a última vez que nos vimos. E também para finalmente contar tudo a ele sobre Leo... Jake... que é Leo. Deus! Ele me encara boquiaberto depois que eu falo por meia hora, sem parar, para contar tudo. – Se sabia que iria jogar tudo isso em cima de mim, por que me convidou para um café em vez de marcar em um bar, onde eu poderia tomar alguma coisa alcoólica? Caramba! Dou um sorrisinho. – Bem, porque estou temporariamente abstêmia. Se começar a beber agora, talvez não pare nunca mais. – Certo. Bem... uau é o mínimo que tenho a dizer. O que você vai fazer? Suspiro. – Estou tentando decidir. Então começo a contar a ele as conclusões a que cheguei até o momento e por quê. Landon assente. – Detesto mentiras, Rostinho Bonito, mas quando penso a respeito, consigo entender a situação dele. Que


Jake/Leo tenha querido começar do zero com você, para ver como seria. Não sei se foi certo, e com certeza não foi honesto, mas posso entender como a mente dele funcionou. Concordo com um aceno de cabeça. – Não gosto do que ele fez, mas ao mesmo tempo é mais duro, para mim, ignorar o fato de que somos muito, muito bons juntos. Ainda assim, tenho a sensação de que teria dado a ele uma chance de se explicar e teria tentado ouvi-lo, se ele ao menos houvesse se apresentado como Leo logo de início, e é difícil aceitar o que ele fez sabendo disso. – Penso um pouco, com a testa franzida. – Eu acho. Landon assente, parecendo pensativo também. – Mas ele não quis contar com isso. E havia acabado de passar seis meses em uma cama de hospital, pensando que você foi, e é, a única mulher que ele amará na vida. Leo deve ter tido muitas dúvidas se você o aceitaria de volta. – Ele levanta a mão. – Estou só fazendo o papel de advogado do diabo aqui. Suspiro. – Eu sei. É que são tantas emoções misturadas... Estou apenas tentando organizar todas elas.


Landon fica em silêncio por algum tempo e em seguida diz, parecendo nervoso: – Sabe, conheço um pouco sobre abuso sexual masculino. – O quê? – sussurro. – Ah, meu Deus, Lan, você nunca comentou nada. – Eu sei. É uma questão bastante difícil para mim, mesmo eu já tendo superado o que aconteceu. Quis lhe falar a respeito várias vezes, mas era tão difícil levantar o assunto... Leo tem o mérito de ter conversado sobre todos os detalhes. É uma questão bastante confusa para nós, sobreviventes. – Quem foi? Quantos anos você tinha? – pergunto baixinho. – Eu tinha 14 anos. Foi um vizinho. Felizmente ele se mudou pouco depois de começar a abusar de mim. Mas carreguei esse segredo por algum tempo, antes de conseguir contar à minha mãe. Eu havia começado a agir de um modo estranho e ela estava confusa, não entendia o que estava acontecendo comigo. Um dia não aguentei mais e falei tudo a ela. Mamãe logo me levou a um psicólogo. Uma das partes mais confusas para mim foi sentir que provavelmente eu tinha desejado aquilo,


porque meu corpo tinha cooperado. Talvez Leo também tenha se debatido com essa questão. É bem comum isso acontecer. – Com certeza – digo. – Ele se sente responsável por ter deixado acontecer. E por ter permitido que continuasse. – A questão é que pessoas que cometem abuso sexual são manipuladoras muito talentosas e fazem as vítimas se sentirem parcialmente responsáveis pelo que acontece. Dessa forma, é menos provável que sejam denunciadas. Além do mais, Leo tinha o fator adicional de que a pessoa que abusava dele era a mãe adotiva. Ele faz uma careta, mas continua: – Falar com um especialista o ajudaria a compreender que agir de forma impulsiva e se tornar promíscuo na verdade são reações muito comuns em pessoas que passaram por algo parecido com o que ele passou. Não sei se eu estaria bem como estou se não tivesse conversado logo com alguém a respeito. Meus olhos estão marejados, e pego a mão de Landon. – Obrigada por dividir sua história comigo. Essa é só mais uma razão por que você é tão incrível, Lan.


Ele sorri. – Sei que, neste momento, você tem muitos sentimentos conflitantes pelo seu menino, bons e ruins, e sei que ainda está decidindo se vai ser capaz de superar o que ele fez. Mas Leo também é um sobrevivente, assim como eu, e ele merece todo o crédito por ter se recuperado como se recuperou. Nem todos conseguem. Aperto a mão dele. – Eu já disse que te amo, hoje? Ele sorri e pisca para mim. – Não a culpo. Sou mesmo apaixonante.

Passo os dias seguintes em um ritmo tranquilo. Basicamente vou de casa para o trabalho e de volta para casa. Na segunda à noite, passo duas horas ao telefone com Nicole, atualizando-a sobre a situação. Embora contar mais uma vez a história de Leo me deixe emotiva de novo, Nicole consegue me fazer rir, como sempre. Tenho mesmo amigos incríveis.


Na terça à noite, quando chego do trabalho, há um envelope pardo sob a minha porta. Abro-o enquanto tiro os sapatos e flexiono os pés inchados do dia inteiro. Há duas folhas dentro do envelope. Quando puxo a primeira, prendo a respiração ao ver que é de Leo e percebo do que se trata. É a carta que ele começou a escrever para mim quando chegou a San Diego. Ah, meu Deus! Me deixo cair no sofá, as mãos trêmulas, e começo a ler o texto escrito com a letra adolescente de Leo. Ele guardou a carta. Segunda-feira: Querida Evie, Já sinto saudades de você. Tanto que você nem iria acreditar. Ou talvez acreditasse. Torço para isso e torço para que você também já esteja sentindo a minha falta. Enquanto o avião voava por cima do oceano ontem à noite, tudo em que eu conseguia pensar era em quanto gostaria de estar vivendo aquela experiência toda com você. Continuo a colecionar na mente coisas que quero lhe contar, lhe mostrar,


experimentar com você. Decidi que vou escrever todas, assim, quando eu for pegá-la, daqui a apenas quatro anos, poderemos começar a fazer juntos tudo o que está na lista. Nada é tão divertido ou interessante como quando estou com você. Não sei como você consegue fazer isso... como faz com que as coisas mais banais pareçam mágicas. Talvez seja isso que o amor faz. E eu te amo, Evelyn. Do fundo do meu coração. P.S.: Coloquei meu endereço e meu telefone no fim desta carta. Escreva para mim assim que recebêla! Terça-feira: Bem... É muito esquisito chamar outras pessoas de pai e mãe, mas foi assim que Lauren e Phil me pediram para chamá-los. Phil parece mais entusiasmado a respeito, e Lauren deu a impressão de estar meio irritada com isso. Talvez ela se ache jovem demais para ter um filho adolescente. Para uma mãe, ela é bonita, mas ninguém é tão bonita quanto você. Quando você me olha com esses olhos grandes e castanhos e abre aquele sorriso que guarda


só para mim, tenho a sensação de que meu coração vai saltar para fora do peito. Neste exato momento, estou imaginando seus lábios perfeitos e sinto tanta vontade de beijá-los de novo que chega a doer. Não paro de pensar no nosso beijo e em como aquele foi, sem dúvida, o melhor momento de toda a minha vida. Minha mãe (Lauren) hoje me perguntou se eu não gostaria de começar a ser chamado de Jacob, ou de Jake, para ser uma espécie de um novo começo, aqui. Pensei a respeito e achei que talvez fosse legal deixar para trás a pessoa que eu fui, deixar minha vida antiga no passado. Mas então percebi que isso incluiria você e disse que não. De seu Leo Quarta-feira: Oi, Evie, Ontem à noite fomos a um restaurante em que as ondas do mar chegavam à altura das janelas! Era assustador, mas lindo. Não quis contar aos meus novos pais que aquele era o primeiro restaurante “de


verdade” a que eu ia, porque sempre que eu digo alguma coisa assim eles ficam com uma expressão triste e isso faz com que eu me sinta mal. Sei que você sabe exatamente do que estou falando. Você sempre sabe. É disso que mais sinto falta quando penso em você. Fiquei tão triste quando pensei nisso ontem à noite... aí preferi pensar que aquele restaurante vai ser o lugar aonde vou levá-la quando for pedir você em casamento. Acho que não será mais surpresa se eu lhe contar agora, mas você já sabe que vamos nos casar um dia, então não tem importância você saber o lugar em que farei o pedido. Vou tentar manter segredo sobre o anel que vou lhe dar e as palavras que vou dizer. Haha. Te amo, Evie. Vou te amar para sempre. Seu Leo Estou chorando de soluçar enquanto me imagino esperando por esta carta. Então penso em Leo escrevendo-a, ainda cheio de esperança, meu menino lindo. Só até o dia seguinte...


Sinto vontade de socar alguma coisa, de jogar alguma coisa longe só para ouvi-la se espatifar. O som acompanharia a sensação que toma meu coração agora. Quando me acalmo, fico sentada por um longo tempo olhando para a parede, antes de pegar a segunda carta, escrita mais recentemente, com a letra de adulto de Leo. Para a minha Evie, a única que soube me amar antes mesmo que eu soubesse como amar a mim mesmo. Eu já lhe contei que passei seis meses deitado naquela cama de hospital, refletindo sobre a minha vida, sobre todas as razões pelas quais eu nunca havia conseguido ficar sozinho comigo mesmo por tempo suficiente para realmente pensar em quem eu era ou sobre o que estava sentindo. O que não lhe contei foi o papel central que você teve em me ajudar a seguir na direção da cura. Minha Evie, você é a pessoa mais pura e mais forte que já conheci. Alguém que se viu diante das piores circunstâncias e ainda assim amou e cuidou desinteressadamente de todos ao seu redor. Como


alguém tão cheio de bondade e de luz um dia pôde notar uma pessoa como eu? Como você conseguiu ver em mim o que eu estava lutando tanto para conseguir ver também? Eu ficava me perguntando o que, durante todos aqueles anos, quando você olhava direto nos meus olhos, sem se abalar, e via quem eu era de verdade, o que a fazia continuar perto de mim. O que a fazia me amar apesar de quem eu acreditava ser. Eu pensava nisso hora após hora, e a única conclusão a que cheguei foi que talvez, apenas talvez, houvesse alguma coisa boa em mim, algo minimamente decente. Naquele momento foi a primeira vez que pensei algo semelhante e fiquei surpreso por sequer levantar essa possibilidade. Durante todos aqueles meses que passei olhando para o teto e para dentro da minha alma, foi você, Evie, você, a responsável pelo milagre de que eu me lembrava sem parar: tantos anos atrás, você havia me escolhido. Por favor, por favor, me escolha de novo. Passarei o resto da minha vida tentando ser uma pessoa à sua altura, esforçando-me para lhe dar


tudo o que uma pessoa maravilhosa como você merece. Vou lhe provar que “para sempre” não é apenas uma expressão, não é apenas uma medida de tempo que não termina, mas é também um lugar, o lugar onde guardarei seu coração. Sempre seu, Leo As lágrimas continuam a correr soltas pelo meu rosto quando levo as cartas ao peito. Fico sentada ali por um longo tempo, até que tomo minha decisão. Tomo um banho rápido, visto uma calça jeans, uma bata azul-turquesa e minhas botas marrons. Decido chamar um táxi. Coloco um pouco de maquiagem, seco rapidamente os cabelos e prendo-os em um rabo de cavalo baixo. Quando o táxi avisa no meu celular que já chegou, desço correndo. Checo o endereço da empresa de Leo e digo ao motorista. Me recosto no banco enquanto vejo a cidade passar, o coração batendo tranquilamente no peito. Eu me sinto calma e segura. É como se todas as peças houvessem se encaixado. Como esse sempre


tivesse sido o meu caminho, e agora eu estivesse de volta a ele. Entro no enorme saguão, quase todo de vidro. Quando estou indo em direção à recepção, vejo um elevador com paredes de vidro começando a subir. Vejo também um inconfundível par de ombros largos entre o grupo de pessoas ali dentro, de costas para mim. Corro na direção do elevador, olhando para cima, e um homem alto, de cabelo preto, me vê e sorri para mim. Começo a fazer gestos na direção de Leo. O homem finalmente compreende, dá um tapinha no ombro de Leo e aponta na minha direção. Leo se vira como em câmera lenta e eu jamais vou esquecer sua expressão. Ele parece confuso a princípio, mas quando percebe que estou sorrindo e me vê formar com os lábios as palavras “escolhi você”, uma emoção visceral domina o rosto lindo. Ele começa a abrir caminho entre as pessoas até chegar à frente do elevador, que para no andar seguinte. Então Leo corre na direção da escada rolante mais próxima, embora ela esteja indo no sentido contrário. Corro para a escada rolante enquanto ele abre espaço entre as pessoas que sobem, pulando três, quatro


degraus de uma vez, apesar dos gritos e grunhidos de quem tenta subir. Mas Leo não se importa. Está completamente concentrado em mim quando enfim pula por cima da lateral da escada, já próximo o bastante do chão para não se machucar. Corremos um para o outro, ele gira comigo no ar, o rosto pressionado contra os meus cabelos enquanto eu rio, choro e continuo a recitar como um mantra: – Escolhi você, escolhi você, Leo. Para sempre. De repente nos damos conta de que as pessoas estão paradas ao nosso redor, batendo palmas e assoviando. Leo sorri para mim, o rosto cheio de amor e felicidade. – Eu te amo, Evie – diz ele, a expressão agora séria. – Eu te amo, Leo, meu leão fiel. – Você ainda acredita nisso, mesmo depois de tudo? – Os olhos dele estão arregalados, encarando os meus bem no fundo. Assinto. – Agora mais ainda. Você encontrou coragem para pular através do fogo por mim. E encontrou a si mesmo do outro lado, não foi? Ele me fita por um longo instante.


– Acho que sim. Mas foi você que segurou o aro para mim. – Essa é a parte fácil, meu menino lindo. Acreditar em você não exige esforço nenhum. Nunca exigiu. Ele continua a me fitar, com os profundos olhos castanhos que eu adoro ardendo de amor. Então Leo sorri. – Vou levá-la de volta para o meu covil e atacar você agora. Sorrio também. – Sim, por favor. E saímos pela porta de mãos dadas rumo ao nosso para sempre.


E p í lo go Sete anos depois

Estou parado na sacada da nossa casa, vendo minha esposa brincar na piscina com nossos filhos, Seth, de 6 anos, e Cole, de 4. Como sempre, a visão dela de biquíni é o que me chama a atenção primeiro. Mas então rio baixinho quando meu caçula tenta afundar o irmão mais velho em um ataque furtivo. Volto para o nosso quarto e visto a sunga. Sorrio ao ver o notebook aberto sobre a escrivaninha de Evie. O primeiro livro dela está quase pronto e talvez eu seja suspeito para dizer, mas acho o resultado brilhante. Ela diz que não se importa se vai vender bem ou não, que o


sucesso para ela está em simplesmente escrevê-lo, em sair de mais uma zona de conforto. A xícara vazia ao lado do computador dela tem os dizeres Melhor Mãe do Mundo. Ela mesma comprou. Saio para a varanda e meus meninos gritam “Papai!” em uníssono enquanto corro e me jogo na piscina com toda a força. Evie dá um gritinho, pois eu a deixo ensopada. Ela também mergulha e logo passa os braços ao redor do meu pescoço. Ficamos rindo e nos beijando enquanto nossos filhos gritam “Eca!” do outro lado da piscina. Nosso primogênito, Seth, é a minha cara, mas tem o espírito firme e gentil da mãe. Ele ri à toa e é o primeiro a consolar alguém que teve um dia difícil. Seth consegue encontrar beleza em tudo. Não esperamos muito para tê-lo. Éramos jovens, mas estávamos ansiosos para começar o resto de nossas vidas. O tempo já havia tirado muito de nós. No dia em que colocaram Seth em meus braços, na maternidade, olhei bem dentro dos olhos dele. Ainda me sentia abalado e extremamente comovido por ter assistido à minha esposa trazê-lo ao mundo com tanta coragem. Mas vi uma profundidade nos olhos dele que


não parecia pertencer a um recém-nascido. Ele não chorou, ficou apenas me encarando com firmeza, como se pudesse ver minha alma. E, assim como os olhos de sua mãe, os dele pareciam me dizer que havia ficado satisfeito com o que vira. Naquele momento, prometi-lhe que nunca deixaria de dar o devido valor àquele olhar. O irmão dele, nosso Cole, é a cara de Evie, com cabelos castanhos e grandes olhos também castanhos. Ele também tem um sorriso que ilumina qualquer lugar. Veio ao mundo gritando e não parou de fazer barulho desde então. Sorrio. É meu filhote exuberante, sempre pulando e rindo, cheio de energia e de vida, e extremamente leal e apaixonado. Minha mulher diz que me vê nele e só consigo me sentir confuso quando ela afirma isso. Mas Evie sempre viu o melhor em mim. Talvez, na idade de Cole, eu fosse como ele, se tivesse tido o mesmo começo de vida. Evie já me convenceu várias vezes de que a teoria dela está certa. Porque é assim que ela é. Esse é seu dom. Todos têm na própria mente uma história sobre quem são. Essa história nos define, determina nossas ações e nossos erros. Se a sua história é cheia de culpa, medo, ódio por si mesmo, a vida pode parecer uma desgraça.


Mas, se você tem muita sorte, talvez uma outra pessoa lhe conte uma história melhor sobre você, uma história que consiga penetrar em sua alma, que fale mais alto do que o conto infeliz que você se convenceu que vivia. Se deixar essa nova história realmente falar alto em seu coração, ela se tornará sua paixão e seu propósito. E isso é uma coisa boa, é a melhor de todas as coisas. Porque é a própria definição de amor, nada menos. Há muitos anos, Evie me perguntou sobre a minha tatuagem, e lhe contei que havia feito no dia do aniversário de 18 anos dela, no dia em que havíamos imaginado começar nossa vida juntos. Tinha passado meses desenhando-a junto com o tatuador, usando a única foto que tinha da minha Evie, a foto que ela me dera quando tinha 13 anos. Naquela manhã, entrei no estúdio bem cedo e só saí bem depois de anoitecer. Então fui para casa e bebi até não lembrar de mais nada, tentando desesperadamente apagar a dor e o vazio que sentia. Evie passou o dedo por cada traço da tatuagem e, depois de um longo tempo, a primeira coisa que ela quis saber foi por que o mestre de cerimônias estava


escondido na sombra. Eu me virei para ela, olhei dentro dos profundos olhos castanhos e disse que, na época, eu não sabia se ele, que orquestrava tudo aquilo, era bom ou cruel. Ainda não tenho certeza disso. Mas, às vezes, quando olho para o rosto lindo de Evie me fitando cheio de amor, ou vejo meus filhos brincando juntos no chão, enchendo nossa casa de alegria, acredito que o mestre de cerimônias deve ser bondoso. O mundo todo é um circo. Às vezes você escolhe seu número e às vezes ele lhe é determinado. Eu perambulei a esmo pela arena por tempo demais, rugindo e urrando, acreditando que não era corajoso o suficiente para pular através do fogo. Mas, durante todo esse tempo, Evie permaneceu lá, firme e calma. “Não posso fazer o fogo ir embora”, ela parecia dizer. “Não posso lhe garantir que você não vá se queimar. Mas posso segurar o arco para você. Posso permanecer forte, porque acredito em você. Porque você é meu.” E, no fim, eu pulei. E o outro lado era tão glorioso quanto os olhos dela haviam prometido.


Agr a d e c im e n t o s

Um obrigada muito especial a vocês, minhas meninas queridas, que leram o livro antes de ele ser publicado – minha torcida organizada particular! Seu encorajamento é inestimável para mim. Nunca teria tido a coragem de lançar esta história se não fosse por vocês. Da Croácia à Califórnia, vocês arrasam!


Sobre a autora Š Jenny Gaskins/ Jenny G P hotography


Mia Sheridan começou a escrever na tentativa de superar a dor da perda da filha. Publicou seu primeiro livro online e, em cerca de uma semana, ele chegou à lista de mais vendidos. Desde então, ela não parou de escrever e se tornou uma autora apaixonada por tecer histórias de amor sobre pessoas destinadas a ficarem juntas. Seu jeito vívido de escrever conquistou o público e a levou ao topo das listas dos prestigiosos USA Today, The Wall Street Journal e The New York Times. Mia mora em Cincinnati, Ohio, com o marido e os quatro filhos. www.miasheridan.com www.facebook.com/miasheridanauthor


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Sumário Créditos Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20


Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Epílogo Agradecimentos Sobre a autora Informações sobre a Arqueiro

Mia sheridan série signos do amor #2 o coração do leão (oficial)  
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