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KILLING SARAI - A NOVEL J. A. REDMERSKI

Este livro é uma obra de ficção. Todas as referências a pessoas reais, eventos ou locais são usados ficticiamente. Outros nomes, personagens, lugares e incidentes são produtos da imaginação do autor, e qualquer semelhança com fatos reais, lugares, pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência.

Copyright © 2013 J. A. Redmerski Todos os direitos reservados, incluindo o direito de reprodução no todo ou em parte, em qualquer forma.

Foto da capa por Michelle Monique Fotografia - Cubra modelo Nicole Whittaker

TRADUÇÃO E REVISÃO

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CAPÍTULO UM

Em algum lugar no México

Já faz nove anos desde que eu vi o último americano aqui. Nove anos. Estava começando a pensar que Javier matou todos eles. "Quem é ele?" Minha única amiga, Lydia, pergunta enquanto se coloca a minha vista. "Como você sabe que ele é americano?" Pressiono o meu dedo indicador contra os meus lábios e Lydia reduz seu sussurro, sabendo tão bem quanto eu que Javier, ou sua irmã desagradável vai nos ouvir e nos punir por espionagem. Sempre paranoica. Sempre assumindo o pior. Sempre se aproximando de tudo com cautela e armas, e com razão. Esse é o modo de vida cheio de drogas e assassinato e escravidão. Espio pela fresta da porta, deixando o meu foco de visão sobre o homem branco, alto, magro, que parece que nasceu com a incapacidade de sorrir. "Eu não sei." Sussurro suavemente. "Eu só posso dizer." Lydia aperta os olhos como se pudesse ajudá-la a ouvir melhor. Posso sentir o calor de sua respiração aquecendo a pele na minha garganta quando ela aperta mais contra mim. Nós assistimos o homem da sombra do pequeno quarto que temos compartilhado, desde que eles a trouxeram aqui há um ano. Uma porta. Uma janela. Uma cama. Quatro paredes sujas e uma estante com alguns livros no idioma Inglês que li mais vezes do que posso contar. Mas não estamos trancadas e nunca ficamos. Javier sabe que se alguma vez tentarmos escapar não vamos chegar longe. Não sei nem onde no México estou. Mas sei que onde quer que seja, não seria fácil para uma jovem como eu encontrar seu caminho de volta para os Estados Unidos sozinha. O

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segundo em que eu sair por aquela porta e fizer o meu caminho pela estrada escura e poeirenta sozinha, é o segundo que escolho o suicídio como o meu caminho. O americano vestindo um longo casaco preto sobre a roupa preta está sentado na cadeira de madeira na sala de estar, com as costas retas, e seu olhar habilmente filtrando cada movimento dentro do quarto. Mas ninguém parece perceber isso, exceto eu. Algo me diz que mesmo que Lydia e eu estamos completamente escondidas dentro do nosso quarto em um corredor escuro que mal nos permite ver a sala de estar que este homem sabe que estamos olhando. Ele sabe tudo o que está acontecendo ao seu redor: um dos homens de Javier que está na sombra do corredor oposto com sua arma escondida e pronta. Os seis homens que estavam à espera do lado de fora na varanda. Os dois homens logo atrás dele com rifles de assalto cimentado a suas mãos. Esses dois não tiraram seus olhos das costas do americano, mas acho que o americano, apesar de não encará-los, vê mais deles do que eles o veem. E depois há as pessoas mais óbvias no quarto: Javier, um perigoso traficante de drogas mexicano que está sentado diretamente em frente ao americano. Sorridente e confiante e completamente sem medo. E depois há a irmã de Javier, que veste seu vestido indecente habitual tão curto que ela não precisa se curvar para que todos na sala vejam que ela não usa calcinha. Ela quer o americano. Ela quer alguém que ela possa abusar sexualmente, mas esse homem ... há algo mais obsessivo em seus olhos quando se trata dele. E o americano sabe disso, também. "Eu só concordei em encontrar com você." Diz o americano em espanhol fluente. "porque estava certo de que você não iria desperdiçar meu tempo." Ele olha brevemente para a irmã de Javier. Ela lambe os lábios. Ele é imperturbável. "Eu só faço negócios com você. Livre-se da prostituta ou não temos nada a discutir." Sua expressão imóvel nunca vacila. A irmã de Javier, Izel, parece como se alguém apenas tivesse dado um tapa em seu rosto. Ela começa a falar, mas Javier a silencia com apenas um olhar e, em seguida, empurra a cabeça ligeiramente para trás para pedir que ela saia do quarto. Ela sai enquanto ela fala, mas como de costume, não sem uma série de maldições que a seguem, pela porta da frente.

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Javier sorri para o Americano e leva uma caneca de café aos lábios. Depois de tomar um gole, ele diz: "Minha oferta é de três milhões, Americano." Ele coloca a caneca sobre a mesa que os separa e, em seguida, se inclina para trás casualmente contra a cadeira, uma perna cruzada sobre a outra. "Entendo que o seu preço era de dois milhões?" Javier vira seu queixo em um ângulo, olhando para o Americano para o reconhecimento de sua oferta generosa. O Americano não lhe dá nada. "Ainda não sei como você consegue entender o que eles estão dizendo com tanta facilidade." Sussurra Lydia calmamente. Quero silêncio dela para que eu possa ouvir tudo entre Javier e o Americano, mas eu não ouço. "Viva apenas entre pessoas de língua espanhola durante anos e você aprende a compreendê-lo." Digo, mas eu nunca tiro os olhos deles. "Com o tempo, você vai ser tão fluente como eu sou." Sinto o corpo de Lydia tenso. Ela quer ir pra casa, tanto quanto eu queria quando fui trazida para cá aos quatorze anos. Mas ela sabe tão bem quanto eu que ela pode ficar aqui para sempre e o grande peso do que é a realidade finalmente a deixa quieta novamente. "A única razão pela qual um homem como você." Começa o Americano. "Ofereceria uma sobretaxa seria para conseguir algum tipo de poder para mim." Ele deixa escapar um pequeno suspiro provocador e inclina as costas contra a cadeira, deixando as mãos deslizarem pelos seus joelhos. "Ou isso, ou você está desesperado, o que me leva a crer que meu alvo, aquele que você quer que eu mate, estaria disposto a me pagar mais para matá-lo." O sorriso confiante de Javier desaparece do rosto. Ele engole em seco e endireita as costas sem jeito, mas tenta manter alguma confiança sobre a situação. Por tudo que ele sabe, isso pode ser exatamente o porquê de o Americano estar aqui agora. "Minhas razões não são importantes." Diz Javier. Ele toma um gole da caneca para esconder seu desconforto.

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"Você está certo." o Americano diz isso com calma. "A única coisa importante aqui é que você diga ao Guillermo lá atrás para abaixar a arma de trás de mim e que se ele não fizer dentro de três segundos, ele será morto." Javier e um dos homens que estavam por trás do Americano travaram os olhos. Mas três segundos passam rápido demais e eu ouço ressoar do tiro quase silencioso e um Pop! Quando uma mancha de sangue espirra no outro homem de pé ao lado dele. "Guillermo" bate no chão, morto. Ninguém, nem mesmo eu, parece saber como o Americano disparou o tiro. Ele nem sequer se moveu. O homem de pé ao lado do homem morto congela no seu lugar, seus grandes olhos negros sob seu cabelo preto oleoso. Javier prende os lábios e engole novamente, tendo um tempo mais difícil em esconder o seu desconforto cada segundo enervante que passa. Seus homens excediam em número ao americano, mas é óbvio que Javier não quer vê-lo morto. Não agora. Ele levanta a palma da mão para pedir aos outros para abaixar suas armas. O Americano puxa sua mão de dentro de seu casaco e coloca a arma em sua perna para que todos possam ver. Seu dedo permanece no gatilho. Javier olha nervosamente a arma uma vez. Lydia está cavando suas unhas em minhas costelas. Pego com cuidado e retiro as mãos dela, sentindo seu corpo relaxar agora que percebeu o que ela estava fazendo. Sua respiração é rápida. Coloco meu braço em torno do seu ombro e puxo-a para meu peito. Ela não está acostumada a ver as pessoas morrem. Ainda não. Mas um dia ela vai ficar. Apoiando um lado de sua cabeça com minha mão, eu pressiono meus lábios contra seu cabelo para acalmá-la. Javier gesticula com movimento descartando com dois dedos e diz: "Limpe essa bagunça." Para o outro atirador de pé atrás da Americano. O atirador parece mais do que feliz em obedecer, não querendo acabar como seu companheiro. Todos os olhos no quarto estão sobre o Americano. Não que eles não estivessem antes, mas agora eles são mais evidentes, muito mais observadores. "Você fez o seu ponto." Diz Javier. "Não estava tentando fazer um." O Americano o corrige. Javier acena com a cabeça em reconhecimento.

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"Três milhões de dólares americanos." Diz Javier. "Você aceita a oferta?" É óbvio que o americano fez mais do que tirar de Javier alguns entalhes. Ele pode não estar fugindo de medo ou encolhido no canto, mas é claro que ele foi colocado em seu lugar. E isso não é fácil de fazer. Preocupa-me o que Javier pode fazer em retaliação, quando ele sentir que tem a oportunidade. Preocupa-me só porque preciso do americano para me tire daqui. "O que eles estão dizendo?" Lydia pergunta, frustrada que ela tem um longo caminho a percorrer antes que seja capaz de decifrar qualquer coisa dita em torno deste lugar. Eu não respondo, mas aperto seu ombro uma vez para indicar que preciso que ela pare de falar. "Três e meio é o meu preço." Diz o Americano. O rosto de Javier cai e eu acho que suas narinas agora estão queimando. Ele não está acostumado a ser o segundo melhor. "Mas você disse-" "O preço subiu." O americano diz, apoiando as costas contra a cadeira novamente e batendo a coronha do revólver suavemente contra suas calças negras. Ele não oferece mais explicações e não precisa. Javier já parece aceitar. Javier concorda. "Sim. Sim. Três milhões e meio. Você pode terminar em uma semana?" O Americano se levanta, seu longo casaco preto caindo sobre seu corpo. Ele é alto e intimidador com cabelo castanho curto espalhado nas costas ligeiramente mais longo e espetado em cima. Puxo Lydia para longe da porta e a fecho suavemente. "O que você está fazendo?" Ela pergunta quando eu corro até a frágil arca de gavetas que mantém todas as roupas que ela e eu compartilhamos. "Nós estamos saindo." Digo, enquanto eu enfio tudo o que posso para dentro de uma fronha. "Pegue seus sapatos." "O quê?" "Lydia, não temos tempo para isso. É só pegar seus sapatos. Nós podemos sair daqui com o Americano." Enfio a fronha meio cheia e me movo para ajudá-la já que ela

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é lenta para entender o que exatamente está acontecendo. Eu a agarro pelo braço e a empurro contra a cama. "Eu vou ajudá-la." Digo enquanto me ajoelho na frente dela e deslizo seus pés descalços em seus sapatos. Mas ela me para. "Não ... Sarai, eu... eu não posso partir." Solto um suspiro pesado. Nós não temos tempo para isso, mas eu preciso fazer o tempo longo o suficiente para convencê-la de que ela precisa sair comigo. Eu olho em seus olhos. “Nós estaremos seguras. Podemos sair daqui, Lydia, ele é o primeiro Americano que já vi em anos. Ele é a nossa única chance." "Ele é um assassino." "Você está cercada por assassinos. Agora vamos lá!" "Não! Eu tenho medo!" Eu me calo em minha posição de joelhos e coloco a mão sobre sua boca. "Shhh! Lydia, por favor, me escuta-" Ela coloca os dedos sobre os meus e tira minha mão de seus lábios. Lágrimas escorrem de seus olhos e ela balança a cabeça rapidamente. "Eu não vou. Nós vamos ficar presas e Javier vai nos vencer. Ou pior, Izel vai nos torturar e nos matar. Eu vou ficar aqui." Eu sei que eu não posso fazê-la mudar de ideia. Ela tem aquele que olhar em seus olhos. Aquele que diz que ela está quebrada e ela provavelmente estará sempre quebrada. Coloco minhas mãos em seus ombros e olhou para ela. "Vá para debaixo das cobertas e finja que você estava dormindo." Digo. "Fique assim até que alguém venha e te encontre. Se eles sabem que você sabia sobre eu fugir e não contou a ninguém, eles vão te matar." Lydia acena com um movimento nervoso. "Eu vou voltar para você." Eu a sacudo pelos ombros, esperando que ela acredite em mim. "Eu prometo. A primeira coisa que vou fazer quando eu chegar à fronteira é ir à polícia." "Mas como você vai me encontrar?" Lágrimas sufocam sua voz.

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"Eu não sei." Admiti. "Mas o Americano vai saber. Ele vai me ajudar." Aquele olhar em seus olhos, é desesperado. Ela não acredita por um segundo que este meu plano insano funcionará. E eu provavelmente também não acreditaria há nove anos, mas o desespero faz uma pessoa fazer coisas malucas. O rosto de Lydia endurece e ela sobe para enxugar as lágrimas de suas bochechas. É como se ela soubesse que esta é a última vez que ela irá me ver. Eu a beijo duro na testa. "Vou voltar para você." Ela balança a cabeça lentamente e eu forço meu caminho através do pequeno quarto com a fronha pendurada sobre minhas costas. "Vá para debaixo das cobertas." Assobio para ela quando abro a janela. Quando Lydia se esconde debaixo do cobertor, eu escalo o meu caminho pela janela no calor suave de outubro. Eu me agacho baixo atrás da casa e faço o meu caminho pelo lado e através do buraco na cerca ao redor do lado sul do complexo. Javier tem homens armados por toda parte, mas eu sempre os achei eles bastante estupidos e carentes como seguranças para fugitivos do complexo, porque raramente alguém tenta escapar. A maioria dos guardas estão todos por ali de pé conversando e fumando cigarros e fazendo gestos vulgares para as outras meninas que estão escravizadas aqui. O que está em pé na entrada para o arsenal é o que tentou me estuprar há seis semanas. A única razão que Javier não o matou, é porque ele é seu irmão. Mas irmão ou não, ele é agora um eunuco. Tecendo meu caminho entre pequenos edifícios, faço-o pela linha de árvore e paro nas sombras das casas nas proximidades. Eu fico em pé e pressiono as costas contra o estuque e faço meu caminho com cuidado para frente, onde a cerca de arame farpado de três metros começa no portão da frente. Estranhos são sempre orientados para estacionar seus veículos apenas para além delas, de onde eles são escoltados até o complexo a pé. Ao Americano não seria permitido nada diferente.

Eu tenho certeza disso.

Espero. Uma grande faixa de luz do poste cobre o espaço entre mim e a área da porta que preciso chegar. Há um guarda postado lá, mas ele é mais novo e eu acho que eu posso levá-lo. Eu tive muito tempo para trabalhar essas coisas. Toda a minha vida de adolescente.

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Roubei uma arma no quarto de Izel no ano passado e a mantive escondida sob um piso no meu quarto e de Lydia desde então. O segundo que vi o Americano entrar na casa, puxei o piso para recuperá-la e a empurrei na parte de trás da minha calcinha. Eu sabia que ia precisar dela esta noite. Inalo uma respiração profunda e traço através da luz no grande campo descoberto e só espero que ninguém me note. Corro muito rápido com a fronha batendo contra minhas costas e seguro a arma tão apertada na minha mão que dói os ossos em meus dedos. Faço-o por cima do muro e respiro um suspiro de alívio quando eu encontro outra sombra para me esconder. Sombras se movem à distância, vindo da casa que deixei. Sinto mal do estômago e poderia realmente vomitar se eu não soubesse que tinha coisas mais importantes para fazer e rápido. Meu coração está batendo contra o meu peito. Eu noto o guarda de pé perto da porta da frente e encostado a uma árvore. O âmbar quente de um cigarro brilha em torno de seu rosto cor de cobre e depois desaparece quando ele tira seus lábios do filtro. A silhueta de seu rifle de assalto, dá a impressão de que ele tem a correia da arma sobre um dos ombros. Felizmente, ele não a está segurando engatilhada. Eu ando rapidamente ao longo da borda da cerca, tentando ficar escondida na sombra lançada pelas árvores do outro lado. Meus chinelos de dedo desgastados se movem sobre a areia macia sem fazer nenhum som. O guarda está tão perto que eu posso sentir o cheiro de seu odor corporal e ver o óleo brilhando em seu ar sujo. Chego mais perto, esperando que meu movimento não o atraia. Estou bem atrás dele e agora estou prestes a fazer xixi em mim. Minhas pernas estão tremendo e minha garganta se fechou até quase o ponto que eu mal posso respirar. Cuidadosamente e tão silenciosamente quanto possível, eu puxo minha arma para trás e lhe bato na cabeça com a coronha tão duro quanto eu posso. Uma forte pancada e uma quebra, vira o meu estômago. Ele cai inconsciente e o cigarro queimando atinge a areia ao lado de seus joelhos. Eu pego sua arma, praticamente tenho que arrancá-la do braço por causa do peso do seu corpo, e então eu saio correndo até o portão quebrado e para fora do complexo. Assim como eu esperava há apenas um veículo estacionado na frente: um carro preto brilhoso que é provavelmente o objeto mais fora de lugar nesta área por milhas.

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Nada aqui, além de favelas e sujeira. Este é um carro de cidade caro com brilhantes aros e atitude. Mais um obstáculo. Mas ao ver o carro minha confiança de que o Americano tenha deixado as portas abertas está diminuindo. Certamente ele não deixaria por estas bandas. Eu coloco a minha mão na porta de trás do lado do passageiro e prendo a respiração. A porta se abre. Eu não tenho tempo para ficar aliviada quando ouço vozes que vêm através do portão da frente e eu pego um vislumbre de uma sombra se movendo pelo canto do meu olho. Eu rastejo no piso de trás e fecho a porta rapidamente, antes que aqueles que se aproximam estejam perto o bastante para ouvi-la ser fechada. Ah, não ... a luz do teto. Eu cerro os dentes assistindo ao desbotamento da luz acima de mim tão lentamente que é torturante, até que finalmente ela apaga e me deixa na escuridão. Depois de empurrar a fronha debaixo do banco do motorista eu tento esconder a espingarda roubada logo atrás do banco, entre o couro e a porta. Isso me deixa com tempo suficiente para apertar o meu corpo pequeno, tão próximo do piso quanto eu posso. Eu envolvo meus braços apertados ao redor dos meus joelhos que são pressionados contra o meu peito e eu arqueio minhas costas e mantenho a posição embaraçosa. As vozes enfraquecem e tudo o que resta é o som de um par de pernas que se aproximam do carro. O porta-malas se abre e segundos depois ele fecha novamente. Prendo a respiração quando a porta da frente do lado do motorista se abre e a sobrecarga de luz aparece novamente. O Americano fecha a porta atrás dele e eu sinto o carro movimentar quando ele se posiciona no banco da frente. Uma. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Finalmente a luz desaparece. Eu ouço a chave sendo colocada na ignição e, em seguida, o motor ronrona à vida. Por que não estamos em movimento? Por que nós estamos sentados aqui? Talvez ele esteja lendo alguma coisa. E então ele diz em voz alta em espanhol: "Loção de manteiga de cacau. Hálito quente. Suor." Leva algum tempo para que o meu cérebro registre o significado por trás de suas palavras estranhas e eu perceba que ele está realmente falando comigo. Eu me levanto rapidamente de trás do assento e pego a arma, pressionando o cano contra a parte traseira de sua cabeça. "Basta dirigir." Digo em Inglês, minhas mãos tremendo segurando a arma no lugar. Eu nunca matei ninguém antes, e eu não quero, mas eu não vou voltar para esse complexo. O Americano levanta lentamente suas mãos. O brilho do seu relógio

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grosso de prata me chama a atenção, mas eu não o deixo me distrair. Sem outra palavra, ele coloca uma mão no volante e a outra no câmbio, colocando o carro em posição para dirigir. "Você é americana?" Ele pergunta calmamente, mas eu detecto o menor pingo de interesse em sua voz. "Sim, eu sou americana, agora, por favor, apenas dirija." Mantendo a arma apontada para sua cabeça, eu me manobro no banco de trás e tiro a arma de seu alcance. Eu o pego me olhando no espelho retrovisor, mas está tão escuro dentro do carro, apenas com as luzes baixas do painel que tudo o que posso ver são seus olhos por um breve momento, eles me varrem. Por fim, o carro entra em movimento e ele coloca as duas mãos no volante. Ele está sendo calmo e cauteloso, mas tenho a sensação de que ele não está nem um pouco preocupado comigo ou com o que eu posso ser capaz de fazer. Isso me assusta. Eu acho que eu preferia que ele estivesse implorando por sua vida, gaguejando palavras de apelo, me prometendo o mundo. Mas ele parece tão perigoso e tão desinteressado como ele estava dentro da casa, mesmo quando ele colocou uma bala na cabeça do atirador que ele tão casualmente chamou de Guillermo.

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CAPÍTULO DOIS

Fomos dirigindo por 28 minutos. Estive olhando o relógio no painel, os números azuis brilhantes já estão começando a queimar até meu subconsciente. O Americano não disse uma palavra. Nem uma palavra. Eu sei que não tem nada a ver com estar com medo. Eu sou a única com a arma, mas eu sou a única de nós que está com medo. E eu não entendo por que ele não falava. Talvez se ele apenas ligasse o rádio ... alguma coisa ... porque o silêncio está me matando. Eu tenho tentado manter meus olhos nele e, ao mesmo tempo tentado obter algum tipo de ideia do meu paradeiro. Mas até agora os únicos marcos que eu vi são árvores e a casa de estuque ocasional ou dilapidado edifício, tudo parece o mesmo que o complexo. Trinta e dois minutos e eu percebo que já baixei a arma em algum momento. Meu dedo ainda está no gatilho e eu estou pronta para usá-la se for preciso, mas eu era estúpida para pensar que eu poderia segurá-la apontado diretamente para ele por mais do que alguns minutos. Eu não sei o que eu vou fazer quando eu ficar cansada. Felizmente, a adrenalina está me mantendo acordada por agora. "Qual é o seu nome?" Pergunto-lhe, na esperança de atiçar o silêncio. Eu preciso fazer com que ele confie em mim, queira me ajudar. "Meu nome é irrelevante." "Por quê?" Ele não responde. Eu engulo um caroço na minha garganta, mas uma outra tentativa se forma em seu lugar. "Meu nome é Sarai." Ainda não há resposta. É tipo um sentimento de tortura, o jeito que ele me ignora. Estou começando a pensar que é exatamente o que ele está fazendo: torturando-me com o silêncio. "Eu preciso que você me ajude." Digo. "Eu tenho sido uma prisioneira de Javier desde que eu tinha quatorze anos de idade." "E você supõe que eu vou te ajudar, porque eu também sou Americano." Diz ele simplesmente. Hesito antes de responder: "Eu... eu ... bem, por que você não ajudaria?" "Não é o meu negócio interferir."

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"Então, qual é o seu negócio?" Pergunto com um traço de desgosto. "Matar pessoas a sangue frio?" "Sim." Um arrepio percorre minhas costas. Sem saber o que dizer para algo assim, ou mesmo se eu deveria, eu decido que é melhor mudar de assunto. "Você pode apenas me deixar do outro lado da fronteira?" Pergunto, cada vez mais desesperada. "Eu vou-" Eu baixo os olhos de vergonha. "Eu vou fazer o que você quiser. Mas, por favor, por favor, me ajude a atravessar a fronteira." Sinto lágrimas tentando forçar seu caminho para a superfície, mas eu não quero que ele me veja chorar. Eu não sei por que, mas eu simplesmente não posso deixá-lo. E sei que ele entende o que significa fazer o que ele quer. Eu me odeio por oferecer meu corpo para ele, mas como eu disse antes sobre o desespero... "Se você está se referindo a fronteira com os Estados Unidos." Diz ele e por algum motivo sua voz me surpreende. "Então você deve saber a distância é mais longa do que eu gostaria de tê-la em meu carro." Eu levanto as minhas costas do assento só um pouco. "B... bem quanto tempo você me permite?" Eu pego seus olhos escuros no espelho retrovisor novamente. Eles prendem o meu e isso também envia um arrepio pelas minhas costas. Ele não responde. "Por que você não vai me ajudar?" Pergunto, finalmente, aceitando o fato de que não importa o que eu diga para ele, é inútil. E quando ele ainda não responde eu digo exasperada: "Então, pare o carro e me deixe sair. Vou andar o resto do caminho sozinha." Acho que seus olhos apenas sorriram ligeiramente para mim através do espelho. Sim, tenho certeza que é o que eu vi. Ele sabe tão bem quanto eu que eu que estou melhor sendo arrastada para fora do complexo que saindo do carro e sair por conta própria. "Você vai precisar mais do que as seis balas que você tem nessa arma." "Então me dê mais balas." Digo, ficando mais irritada. "E essa não é a única arma que eu tenho." Isso parece ter despertado o seu interesse, embora pouco.

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"Eu tirei o rifle do guarda, bati na cabeça dele quando passei pela cerca." Ele balança a cabeça uma vez, tão sutilmente que se eu tivesse piscado naquele momento eu nunca veria isso. "É um bom começo." Diz ele e, em seguida, coloca os olhos de volta na estrada de terra por um momento e virá à esquerda no final. "Mas o que você vai fazer quando você sair? Porque você vai." Eu o odeio. "Então eu vou correr." "E eles vão pegar você." "Então eu vou furá-los." De repente, o Americano sai lentamente da estrada e para o carro. Não, não, não! Não era suposto acontecer isso. Eu esperava que ele continuasse dirigindo, porque ele sabia que se ele me deixasse aqui assim sozinha tudo o que aconteceu comigo estaria em sua consciência. Mas eu acho que ele não se importa muito.

Seus olhos escuros olhavam eventualmente para mim através do

espelho, e sem um traço de compaixão ou preocupação neles. Eu quero atirar na parte de trás de sua cabeça em princípio. Ele só me olha com aquele pequeno olhar o-que-você-está-esperando? E eu não me mexo. Olho atentamente para a porta e, em seguida, de volta para ele e, em seguida, para a minha arma e volto para ele novamente. "Você pode me usar como alavanca." Digo, porque é tudo que me resta. Suas sobrancelhas mal conseguiam se mover, mas é o suficiente que eu tinha a sua atenção. "Eu sou a favorita de Javier." Continuo. "Eu sou... diferente... das outras meninas." "O que faz você pensar que eu preciso de alavanca?" Ele pergunta. "Bem, Javier te pagou os três milhões e meio na totalidade?" "Isso não é assim que funciona." Diz ele. "Não, mas eu sei como Javier funciona e se ele não te deu o valor total antes de você sair, então ele nunca dará." "Você vai sair?"

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Eu suspiro profundamente e olho para fora da janela novamente e então, levanto a arma para trás e digo: "Você vai me levar para a fronteira." O Americano lambe o ressecamento dos seus lábios e, em seguida, o carro começa a se mover novamente. Estou improvisando tudo agora. Todas as partes planejadas de minha fuga terminaram quando entrei neste carro. Quando o Americano falou da fronteira com os Estados Unidos, saiu para mim como se eu estivesse mais perto das fronteiras de outros países que dos EUA e isso me assusta. Se estiver mais perto de Belize e Guatemala que dos Estados Unidos, então eu duvido muito que vou conseguir sair dessa viva. Eu olhei mapas. Sentei com eles dentro do quarto muitas vezes e corri a ponta do meu dedo sobre as pequenas estradas entre Zamora e San Luis Potosí e entre Los Mochis e Ciudad Juárez. Mas eu sempre bloqueava completamente da minha mente a possibilidade de estar mais para o sul, porque nunca quis aceitar que eu poderia estar tão longe de casa. Casa. Isso é realmente como uma palavra com espaço reservado. Nem tenho uma casa nos Estados Unidos. Não acho que eu realmente já tive. Mas mesmo assim, foi onde nasci e onde fui criada, apesar do pouco que minha mãe fazia realmente para me alcançar. Mas eu quero ir para casa, porque vai ser sempre melhor do que onde passei os últimos nove anos da minha vida. Posicionei minhas costas parcialmente contra a porta e parcialmente contra o banco para que pudesse manter meus olhos em frente ao Americano. Quanto tempo eu posso manter este ritmo ainda está no ar. E ele sabe disso. Talvez eu devesse matá-lo e levar o carro. Mas, novamente, não será bom quando eu estiver dirigindo sem rumo neste país estrangeiro que não vi nada diferente de violência e estupro e assassinato e tudo o mais inimaginável. E Javier é um homem muito poderoso. Muito rico. O complexo é sujo e enganador. Ele poderia ser como os barões da droga que vi, quando eu costumava ter o luxo de televisão Americana, aqueles com casas imaculadas, ricas, com piscinas e dez banheiros, mas Javier parece preferir a fachada. Eu não sei com o que ele gasta sua fortuna, mas não é com o setor imobiliário, tanto quanto eu sei. Já faz mais de uma hora. Estou ficando cansada. Posso sentir a queimação atrás dos meus olhos, espalhando levemente em torno das bordas das pálpebras. Eu não sei com quem eu acho que estou brincando. Tenho que dormir em

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algum momento e o segundo que eu cochilar, é quando vou acordar de voltar no complexo amarrada à cadeira no quarto de Javier, ou quando eu nem vou acordar. Preciso continuar falando para me ajudar a ficar acordada. "Você não pode simplesmente me dizer seu nome?" Eu tento mais uma vez. "Olha, eu sei que eu não vou sair deste país viva. Ou do seu carro por esse assunto. Eu sei que a minha tentativa de fuga foi desperdiçada no segundo que saí daquele portão. Então, o mínimo que você pode fazer é falar comigo. Pense nisso como minha última refeição." "Temo que eu não seja bom em ser o ombro para chorar." "Então o que você é bom?" Pergunto. "Além de matar pessoas, é claro." Percebo o queixo mover um pouco, mas ele não me olhou no espelho retrovisor por enquanto. "Dirigir." Ele responde. Ok, isso está indo a lugar nenhum. Eu quero chorar de frustração. Mais de quinze minutos de silêncio passam e eu noto que meus arredores estão começando a parecer muito familiar. Estamos andando em círculos e foi por todo esse tempo. Por um segundo eu começo a dizer alguma coisa sobre isso, mas eu decido que provavelmente é melhor que eu não deixe que ele saiba que eu estou em cima dele. Eu me inclino um pouco no assento e aponto a arma para ele e digo: "Vire à esquerda aqui." E eu faço isso pelos próximos 20 minutos, obrigando-o a seguir o meu caminho, mesmo que eu não tenha nenhuma ideia de onde eu estou nos levando. E ele toca junto, nunca suando a camisa, nunca me dando a menor impressão de que ele está preocupado ou com medo por ter uma arma em suas costas. Quanto mais fazemos isso, mais eu começo a perceber que mesmo que eu seja a pessoa com a arma, ele tem essa situação toda com mais controle do que eu pensei que eu tinha. No que eu fui me meter? Mais longos minutos passam e eu perco a noção do tempo. Eu estou tão cansada. Minhas pálpebras estão ficando mais pesadas. Eu tiro minha cabeça do encosto atrás de mim e pressiono o dedo contra o botão da janela para baixar o vidro. O ar quente da noite corre para dentro do carro, jogando meu cabelo castanho sobre o meu rosto. Eu forço meus olhos bem apertados e me posiciono de uma forma mais desconfortável para ajudar a me manter acordada, mas não demorou muito para

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eu perceber que nada está funcionando. O Americano observa cada movimento que eu faço do espelho. Percebo-o de vez em quando. "O que faz de você o sua favorita?" Ele pergunta e isso me atordoa. Eu tinha certeza que ele estava esperando todo esse tempo que eu cochilasse, se ele tivesse esperado mais alguns minutos, provavelmente é o que teria acontecido. Agora ele está falando comigo? Estou completamente confusa, mas eu vou levar isso. "Eu não fui comprada." Respondo. Por fim, ele me faz uma pergunta direta que poderia levar a uma conversa e talvez a sua ajuda, mas, ironicamente, o tema deixa difícil aproveitar a oportunidade. É difícil falar mesmo que eu seja a única que trouxe isso à tona. Eu espero por um longo momento antes de continuar. "Eu fui trazida aqui há muito tempo... por minha mãe.

Javier viu algo em mim que não viu nas outras

meninas. Eu chamo de uma obsessão doentia, ele chama de amor." “Eu vejo." Diz ele, e embora suas palavras sejam poucas, eu posso dizer que possuem mais peso do que parecem. "Eu sou de Tucson." Digo. "Tudo que eu quero é voltar para lá. Eu vou te pagar. Se você não quiser ... a mim ... Eu vou encontrar uma maneira de pagá-lo em dinheiro. Eu sou boa com minha palavra. Eu não vou tentar me esconder de você. Eu eventualmente pagarei minha dívida." "Se um traficante acredita que está apaixonado por você." Ele diz casualmente. "Não seria de mi que você teria que se esconder." "Então você sabe que eu estou em um grande perigo." Digo. "Sim, mas isso ainda não faz de você o meu problema." "Você é humano?" Eu o odeio mais a cada vez que ele fala. "Que tipo de homem não gostaria de ajudar uma jovem mulher indefesa de uma vida de escravidão e violência, especialmente quando ela escapou de seus captores e está diretamente pedindo sua ajuda?" Ele não respondeu. Por que isso não me surpreende? Suspiro pesadamente e pressiono as costas contra o banco novamente. Meu dedo no gatilho está apertado de estar na mesma posição curvada por tanto tempo contra o metal. Abaixando a arma mais para

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trás do assento de modo que ele não pudesse ver, eu troco as mãos o tempo suficiente para esquivar meus dedos por um momento e então eu coloco o meu polegar sobre a parte superior de cada dedo individualmente e pressiono para baixo para aliviar a rigidez. Você não percebe quão pesada é uma arma até você segurá-la sem parar por longos períodos de tempo. "Eu não estou mentindo para você." D. "Sobre Javier e seu dinheiro." Eu pego seus olhos me olhando pelo espelho novamente. "Eu tive muito tempo para ver como ele faz negócios." Continuo enquanto pego a arma na minha mão direita novamente apesar do argumento de meus dedos doloridos. "Ele preferia te matar que te pagar." Seus olhos são azul-esverdeados. Eu posso vê-los mais claramente agora que estamos atravessando uma pequena cidade, com as luzes da rua. E o pequeno é um eufemismo, porque em menos de um minuto somos engolidos pela escuridão da estrada desolada novamente com nada em vista, exceto o estrelado da desértica paisagem. E só então eu começo a falar, a minha última tentativa para me manter acordada. Eu não me importo mais se ele acrescenta algo a conversa unilateral, eu só preciso estar consciente. "Eu acho que se você tivesse uma filha ou uma irmã que você poderia se importar um pouco mais. Eu tive um pouco de vida antes que minha mãe me trouxesse aqui. Não era muito, mas era uma, no entanto. Morávamos em um pequeno trailer com baratas e paredes tão finas parecia como dormir exatamente num chão deserto no inverno. Minha mãe era uma escrava da heroína. Crack. Metanfetamina. Você citava isso e ela adorava. Mas eu não. Eu queria terminar a escola e obter uma bolsa de estudos para a faculdade o que me teria e faria uma vida para mim. Mas, então, eu fui trazida aqui e tudo isso mudou. Javier estava dormindo com a minha mãe por um tempo, mas ele sempre tinha os olhos em mim..." Acho que cochilei por um segundo. Eu abri os olhos em um estalo e tomei uma respiração profunda, apertando meu rosto perto da janela aberta para deixar o ar me bater. E a próxima coisa que eu sei, é que eu sinto uma dor em brasa ao lado da minha cabeça e tudo fica preto.

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CAPÍTULO TRÊS

O som da água escorrendo me acorda. Meus olhos abrem lentamente, vacilando na luz que entrava através de uma janela próxima. Eu posso dizer que estou em um quarto em algum lugar. Minha visão é turva e minha cabeça parece que foi batida contra uma parede de tijolos na noite anterior. O lado esquerdo do meu rosto parece inchado. Tento levantar, mas algo está amarrado em volta dos meus pulsos e meus tornozelos. Quando meus olhos gradualmente entram em foco, vejo que eu estou deitada em uma cama em um quarto sujo, papel de parede em tapeçaria e móveis empoeirados incompatíveis. A televisão se parece com a do complexo: antiga e, provavelmente, só pega um canal que eu tenho certeza que é o que passa as dramáticas novelas espanholas. Na minha linha direta de visão Eu vejo as espessas cortinas verdes na janela e empurrada contra elas está uma pequena mesa quadrada com uma única cadeira de madeira. Um sobretudo preto longo paira sobre as costas dela. Percebo o que deve ter acontecido e meus instintos, finalmente, se aproximam de mim, eu forço meu corpo sobre minhas costas para que eu possa ver o resto da sala. Então eu consigo encontrar o Americano que eu sabia que me trouxe aqui, onde quer que aqui seja. Ele me amarrou. Ah, não ... ele me amarrou. Quando eu o noto sentado em uma cadeira do outro lado da cama, me assusto e eu grito e caio da cama e para o chão, minhas mãos e pernas estão amarradas apertadas por isso não posso fazer nada para me preparar para o impacto. Eu bato duro no chão e a dor bate no meu quadril e através de minhas costas. "Oww!" Eu gemo alto. Em nenhum momento eu estou tentando soltar o tecido dos meus pulsos quando me contorço pelo chão. O Americano fica em pé sobre mim como um fantasma vindo do nada. "Por que você me amarrou?" Eu estou tremendo tão forte e espero que ele não perceba. Não quero que ele saiba o verdadeiro nível de meu medo. Ele se inclina e me pega do chão e me coloca de volta na cama. Eu tento chutar e bater nele até que eu percebo o quão estúpido é porque a única coisa que pode acontecer é me fazer cair e atingir o chão novamente. Sem responder, ele volta para o outro lado onde estava sentado e coloca a mão em uma bacia de água na mesa de cabeceira. Ele torce a água de um pano e leva-o no meu rosto, mas eu tento me afastar dele. Isso não o perturba.

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Nada parece perturbá-lo, realmente. Eu sei que eu não vou a lugar nenhum agora, então eu apenas deito aqui muito quieta, olhando diretamente em seus olhos, mesmo que ele não esteja olhando de volta para mim. Eu quero que ele me veja, veja a raiva em meu rosto, mas ele não se importa em olhar. "Você me deu um soco?" Eu não posso acreditar, mas mais uma vez eu posso. "Sim." Ele passa o pano molhado frio sobre o meu olho esquerdo e ao redor do osso. "Então você é um assassino e um agressor de mulher." Seus olhos escuros, finalmente, olham diretamente para os meus e sua mão para de se mover como se minha acusação ferisse de forma errada. Ele olha para o lado e volta a enxugar o meu rosto. "Eu não bato em mulheres." Diz ele. "A menos que tenham uma arma apontada para a minha cabeça." Eu não respondo a isso. Ele faz um argumento notável, se isso pode ser chamado de um argumento. "Eu tenho um olho preto?" "Não." Diz ele, puxando o pano molhado a distância. "Eu não bati em você tão forte. Só um pouco inchado." Eu olho para ele como se fosse louco.

"Não? No entanto, você me bateu forte o

suficiente para me derrubar inconsciente a noite inteira?" Ele se levanta da cama, sua altura pairando sobre mim, e vai até o casaco pendurado no encosto da cadeira. Ele enfia a mão em um dos bolsos e tira um frasco de comprimidos. "Você acordou pouco depois que eu te bati." Diz ele, enquanto torce a tampa do frasco. "Eu tive que drogar você." Eu pisco de volta em choque. Ele embaralha um pouco o comprimido branco na palma da sua mão e o entrega para mim. Então, ainda estou olhando para ele como se ele fosse louco, talvez agora ainda mais. "Você me drogou? O que é isso?" Quero dar um tapa nele. Se minhas mãos não estivessem atadas eu faria. "Pílula para dormir." Diz ele, colocando a pílula em meus lábios. "Inofensivo. Eu mesmo tomo. Você, por outro lado, só precisa de metade de um, agora eu sei disso." Eu cuspi o comprimido sobre o lençol amarelado debaixo de mim. "Eu acho que eu dormi o suficiente."

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"Faça como quiser." Ele desliza o frasco de volta para dentro de seu casaco e se move em direção a porta. "Onde você está indo?" Ele para na janela em vez disso e fecha a cortina o resto do caminho, mas permanece nela olhando para fora através de uma rachadura no tecido grosso. De costas para mim, eu tento calmamente trabalhar meus pulsos livres. "Em nenhum outro lugar no momento." Diz ele e depois se vira de novo e eu paro de lutar com as minhas restrições por um instante para que ele não perceba. "Tudo bem ... bem, então o que estamos fazendo aqui e por que estou amarrada?" Ele olha diretamente para mim. "Esperando os homens que Javier enviou aqui para te pegar." Eu apenas engoli. Lágrimas saltaram instantaneamente pelos cantos de meus olhos. Eu comecei a bater, tentando o meu melhor para ter minhas mãos e pernas livres, mas sem sucesso. Ele me amarrou melhor do que eles amarraram as costas dos porcos no complexo. "Por favor! Você não pode deixar que me levem! Eu estou te implorando..." "Está fora das minhas mãos." Diz ele olhando para fora da janela. "É por isso que eu ofereci a pílula. Achei que você preferiria estar inconsciente quando eles chegarem." Eu sinto que estou enjoada. Meu coração está batendo muito rápido, minhas entranhas estão endurecendo e eu sinto que eu não posso respirar. Eu forço meu corpo para sentar ereto e jogo minhas pernas para o lado da cama, tento ficar de pé. "Sentese." Diz ele virando-se para olhar para mim de novo. Lágrimas jorram de meus olhos e eu levanto minhas mãos amarradas para fora em direção a ele. "Por favor..." Eu engasgo com minhas lágrimas, meu peito estremecendo e sacudindo com respirações rápidas e irregulares. "Não deixe que eles me levem lá de volta!" "Eu vou perguntar mais uma vez." Diz ele virando-se para me encarar plenamente. "Você quer estar acordada para o que está para acontecer?" "Eu não quero que isso aconteça." Grito. Puxo meus braços para cima e tento trabalhar em soltar o tecido dos meus pulsos com a meus dentes. O Americano me ignora e se move em direção a uma longa maleta preta lisa separada deixada no chão, encostada

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na parede oposta. Levando-a pela alça ele coloca no final da cama perto de mim e vira as travas para levantar a tampa, bloqueando minha visão do que está escondido dentro. Um brilho acentuado de vigas de luz solar refletem contra a parte de trás da cortina e o som de freios barulhentos, torce meu estômago em nós. Eu congelo na beirada da cama, meus dentes ainda apertados ao redor do tecido, meus olhos arregalados e temerosos. Eu olho para e da porta e o Americano que fica no pé da cama, torcendo uma coisa de metal longo na ponta de um revólver preto liso. E, em seguida, tão rápido, mas tão casual como uma caminhada de manhã cedo, ele fecha a mala e a desliza para debaixo da cama e fora da vista. Ele vem em minha direção. Eu tento chutá-lo novamente, mas meus tornozelos amarrados me impedem de fazer qualquer coisa, mas quase me fazendo cair da cama. "Não! Deixe-me em paz! Por favor, não faça isso!" Com a mão livre, ele me agarra pelo braço e me puxa duramente pelos meus pés, a arma apontada para o chão na outra mão e então ele anda comigo desajeitadamente pela sala pequena e por um pequeno banheiro. Há uma batida na porta, mas o Americano não dá atenção a ela. Ele me arrasta para o banheiro e praticamente me empurra para dentro da banheira nojenta. Eu acho que a minha cabeça vai cair para o lado, mas ele me segura pelo tecido em meus pulsos e me aproxima o resto do caminho de forma segura. "Fique lá em baixo. Não levante a cabeça e não se mova." "O quê?" Pisco de volta confusa. Estou com tanto medo que sinto que vou perder o controle da minha bexiga a qualquer segundo. "Você entendeu?" Ele pergunta, pairando sobre mim. A seriedade em seus olhos é palpável. Eu hesitei, porque, não, eu não entendo, mas então eu apenas aceno com a cabeça em movimentos rápidos e espasmódicos. Ele alcança por trás de suas calças e desliza uma faca de algum lugar. Meus olhos crescem mais amplos, quando a afiada lamina prateada se move na minha direção. Só quando acho que ele vai me cortar, mesmo que não saiba por que ele vai passar por tudo isso apenas para me matar, ele corta os laços dos meus tornozelos. "Abaixe-se." Ele exige uma última vez. E assim, ele sai do banheiro e fecha a porta atrás de si. Congelada em estado de choque, levo um tempo para colocar minha cabeça em ordem. Eu olho para os meus pés desamarrados e me pergunto por que ele fez isso. Por que manter as minhas mãos

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atadas, mas permitir o uso de minhas pernas novamente para que eu possa fugir? Não importa. Eu preciso libertar minhas mãos, também. Eu mordo os nós apertados novamente, trabalhando com eles furiosamente, mas apenas fico frustrada. Eu mal conseguia levantar minha cabeça da banheira para obter uma melhor visão do banheiro, à procura de qualquer coisa que possa funcionar como uma faca ou tesoura para que eu possa tentar cortá-la em vez disso. Nada. Apenas uma profunda pia de plástico do tipo industrial com manchas de tinta, óleo e sujeira e um banheiro nojento sem tampa. A porta abre para o quarto de motel e eu ouço vozes dentro. "Onde ela está?" Ah, não... essa é a voz de Izel! Meu coração acelera tão rápido que eu me sinto tonta enquanto o sangue corre rapidamente para minha cabeça. Eu mordo o tecido ainda mais forte, torcendo os nós impossíveis com os meus dentes até doerem. "Javier pergunta por que você apenas não a levou de volta você mesmo." Acrescenta Izel com sua sensual marca, o tom sarcástico. Há mais vozes, masculinas, de língua espanhola entre si enquanto Izel fala só para o Americano. Suas vozes são abafadas. Eu não posso entender o que eles estão dizendo. "Sente-se." O Americano diz calmamente. "Nós não viemos aqui para visitar", Izel recusa. "Dê-me Sarai... ou-." Eu posso imaginá-la andando em direção ao Americano como a cobra rastejando que ela é. "Ou, você e eu podemos ficar sozinhos por um tempo primeiro. Eu gostaria disso." Sua voz para abruptamente e seu tom sedutor desaparece num instante. "Tudo bem! Muito bem! Porra puto. Você prefere atirar em mim a me foder?" "Sim. Eu preferiria." O Americano responde. "Traga-a para cá." Izel manda, sua voz cheia de desprezo. "Sente-se em primeiro lugar." Diz o Americano. De repente, eu ouvi armas armarem e instintivamente eu baixo o meu corpo de volta para a banheira tão plana como posso fazer eu mesma. Estou começando a entender por que ele me forçou aqui assim. "Há cinco de nós e um de vocês." Diz Izel venenosamente. Em seguida, um tiro soa e eu endureço contra o plástico duro debaixo de mim. Mais tiros. Balas crivam as paredes, dois movimento em linha reta através da

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parede do banheiro onde eu estava encolhida. Ouço vidro quebrar e o que soa como corpos debandando através da sala além de mim. Mais tiros ressoam e Izel grita maldições sobre o caos. As paredes tremem todas ao redor de mim, batendo grossas camadas de poeira da lâmpada exposta pendurada no teto danificado pela água. Eu ouço um alto barulho de coisa quebrada e, em seguida, o som da grande janela da sala quebrando, como se alguém ou alguma coisa a estivesse empurrado. Tudo fica em silêncio. Tudo o que eu posso ouvir agora é o meu coração batendo tão rápido e violentamente. Estou tão assustada que não posso mais controlar as lágrimas e meu corpo parou de tremer. Estou paralisada de medo. O cheiro acre de fumaça da arma paira no ar. O Americano está morto? É tudo o que posso pensar. Talvez eles estejam todos mortos e eu posso sair daqui viva. Vou subir o meu caminho para fora da banheira, mas então eu ouço Izel: "Foda-se. Eu não vou dizer nada!" Há um breve ataque de silêncio e então eu ouço o Americano dizer calmamente. "Você já me disse mais do que eu preciso saber." "Como é isso?" "Se Javier me queria vivo para matar Guzmán seus homens nunca teriam tirado em mim." "Ele realmente queria que você o matasse." "Então seus homens são simplesmente estúpidos." Izel não diz nada em resposta, mas posso imaginar a expressão que ela veste: azeda misturada com o mal. Silenciosamente, eu me arrasto para fora da banheira, cuidando para não fazer movimentos bruscos e eu alcanço a maçaneta da porta. Ela é aberta no segundo que meus dedos a toca como se ela não tivesse sido fechada de toda forma, embora eu saiba que ele tinha fechado. Deve ter sido destrancada quando ouvi alguém bater contra ela durante a luta. Eu abri apenas uma fresta. O espelho sobre a pia do lado de fora da porta está a vista. Tudo o que resta dele agora são três grandes fragmentos irregulares de vidro quebrado apenas pendurado na parede. Eu posso ver as costas do Americano,

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através do reflexo. "Devo te dizer." Diz ele. "Haverá um novo acordo agora." "Você não é o único a ser fazer negócios." Izel cospe as palavras. "Eu acredito que sou." Ele responde. "Primeiro, você vai me dizer quais eram os planos de Javier ao me trazer para o complexo." "Eu vou te dizer uma merda!" Um tiro abafado faz um som seco e rápido e, em seguida, Izel grita em dor. "Seu maldito atirou em mim!" O Americano se move e fica fora da vista do espelho, me deixando entrever Izel sentada na cadeira ao lado da parede. Seu rosto brilha com suor e sangue drena do ferimento a bala na coxa dela, com as mãos pressionadas sobre ela tentando parar o fluxo. Seu rosto bronzeado se contorce em agonia e raiva. Ela cospe no chão desafiadoramente. "Meramente uma ferida na carne." Diz o Americano. Eu me forço mais contra a porta. Um par de mãos estava aberto perto dos pés de Izel, um dos homens que o Americano acabou de matar. Eu engulo em seco e tento acalmar minha respiração. A porta se move quando meu quadril varre contra ela e eu chupo bruscamente a respiração que acabei de tomar. A cabeça de Izel se lança para o lado, enquanto ela enfrenta o espelho. Ela sabe que eu estou me escondendo aqui. Tento me afastar da porta e voltar para a escuridão do banheiro, mas ela me vê. Um sorriso se espalha por seu rosto. "Saia, Sarai." Diz ela harmoniosamente. "Javier sente sua falta." Eu não me movo. Talvez se eu ficar parada, o que ela vê no reflexo do espelho, vai começar a acreditar que é apenas a luz fazendo truques em seus olhos. Ela vira seu olhar para longe de mim, como se o Americano fizesse algo para recuperar sua atenção. "Javier quer Guzmán morto." Diz Izel. "Ele não o teria contratado e deixado sair com esse dinheiro se ele não quisesse." Ela zomba e balança a cabeça para o Americano e acrescenta: "Você é um tolo." Eu ouço o ranger da cama como se ele acabasse de sentar na ponta, de frente para ela. Enquanto ela está distraída, eu me posiciono mais para longe da borda da porta, mas de uma maneira que eu possa ter uma visão melhor da sala através do reflexo no espelho.

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Vislumbro outro corpo deitado ao acaso contra o chão do outro lado dela. "E se eu matar Guzmán." Diz o Americano: "Eu não terei nenhuma dificuldade para obter a outra metade do meu dinheiro." Foi uma declaração, mas, ao mesmo tempo, uma pergunta. Izel sorri. "É claro." Ela inclina a cabeça para um lado. "Ela já está pega por você." Sem resposta. Eu sei que Izel está se referindo a mim. "A menina não foi comprada ou vendida só para você saber." Acrescenta ela. "Eu não perguntei." "Você não precisa." Izel olha para o espelho novamente, sem mover a cabeça. "Vai ser o herói?" Ela diz isso com sarcasmo lascivo em sua voz. "Dificilmente." Diz o Americano. "Eu a estou usando como alavanca." Eu engulo em seco. Deveria ter mantido minha boca fechada... "Isso não vai ficar bem com o Javier. Ela não fazia parte do acordo. Você mantém a menina e Javier não ficará feliz." Um fio de cabelo preto cai sobre o seu rosto. Ela o pega como se afastasse o resto do seu cabelo para longe, mas a mão para na metade e ela a coloca de volta ao seu lado. A raiva ajuda a esconder um pouco do medo em seu rosto. Ela sabe que ele vai estourar os miolos por trás de sua cabeça. "A menina fica comigo até eu matar Guzmán e depois vamos fazer a troca. Ela pelo resto do meu dinheiro." "E se Javier não ligar para isso?" "Você não estaria aqui agora se ele não ligasse."

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CAPÍTULO QUATRO Izel vira o queixo desafiadoramente, a pele ao redor dos olhos escuros salpicados com pequenas manchas de sangue espirrado. "Você está cometendo um erro." Ela cospe, a derrota em sua voz. "Se você quer uma menina, Javier vai lhe dar uma. Só não aquela. Você só vai se tornar seu inimigo, fazendo isso." Eu conheço aquela preocupação na voz dela muito bem. Quando Javier fica infeliz, ele tende a culpar Izel. Se ela não voltar para o complexo comigo, ele vai bater nela sem sentido. Tanto quanto eu a odeio pelas coisas que ela tem feito para mim, eu não posso deixar de ter pena dela, às vezes, também. "Sua oferta ofende a minha inteligência." Diz o Americano. "Ela é a única que eu quero, porque ela é a única que ele se importa mais. Se Javier não tem más intenções, então ele não deve ter nada para se preocupar." Izel olha em direção à porta do banheiro rapidamente, enquanto ele fala. "Eu mantenho a menina até eu matar Guzmán. Javier me paga o restante do meu dinheiro. Eu dou a menina de volta. Todos nós saímos com o que queremos." Eu quero correr para fora do banheiro e tentar sair com um dos carros, mas eu sei que não vou fazer isso. Minhas mãos estão suando e picadas. Cortei minha mão esquerda em algum lugar, em algum momento. Eu não consigo lembrar quando isso aconteceu. Izel amaldiçoa em espanhol e pressiona as palmas das mãos sobre o assento embaixo dela e começa a levantar. O Americano muito casualmente levanta a arma e ela congela, raiva e resistência em seu rosto. "Dobre suas mãos atrás da cadeira." Diz o Americano. "Vá se foder." Um tiro! O corpo de Izel cai para o lado, quase derrubando a cadeira com ela. "Filho da puta!" Ela grita, segurando a mão dela sobre um ferimento fresco de bala na coxa oposta para combinar com o outro. O Americano nunca se move, sua expressão e postura sempre casual e controlada. "Dobre suas mãos atrás da cadeira." diz ele, mais uma vez com a quantidade exata de calma como antes. Desta vez, Izel é complacente. Relutante e desafiadora como sempre, mas complacente. "Saia do banheiro." Ouço o Americano dizer.

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Eu não quero isso. Eu calmamente empurro minhas costas contra a parede, empurrando minhas mãos amarradas por cima do meu peito e bloqueio meus dedos nervosamente diante de mim. Eu fungo as lágrimas, o sabor do sal escorre no fundo da minha garganta. O que devo fazer? Se eu ficar aqui assim isso só vai prolongar o inevitável. Não há nenhuma maneira de eu sair deste banheiro, exceto por aquela porta. Finalmente, eu faço o que ele diz. Tentando empurrar a porta aberta o resto do caminho, eu tenho que empurrar forte com o ombro por causa do corpo deitado no chão do outro lado. Eu tento não olhar quando eu passo em torno do braço esquerdo do homem, contorcido estranhamente atrás dele, mas eu vislumbro suficiente que faz meu estômago revirar. Especialmente quando vejo seus olhos. São sempre os olhos, sem vida e vazios e vidrados, que fazem mal ao meu estômago. Eu respiro fundo e passo por cima dele. Izel sorri na minha direção, não tão afetada pelos dois ferimentos de bala como imagino que alguém pudesse estar. Sua respiração é difícil e ela luta para manter a compostura com o fim de me provocar. "Venha aqui." Diz o americano e eu vou. Ele puxa a faca do bolso novamente e seus olhos evitam meus pulsos brevemente. Assumindo e esperando, é o que ele quer, eu mantenho minhas mãos trêmulas para ele. Ele desliza a lâmina atrás do tecido e corta me soltando. "Você disse a ele que você é uma prostituta?" Pergunta Izel. Eu engulo saliva que fica na minha boca. Eu não sou prostituta, mas ela sempre teve um jeito de alguma forma me fazer sentir vergonha por suas acusações. Eu finjo estar mais firme em meus pulsos, agora que eles não estão mais amarrados. Izel se volta para o Americanos, as mãos ainda vagamente dobradas atrás das costas. Ela diz com um sorriso maldoso: "Se você está se sentindo triste por ela, não sinta. Aquela pequena puta é tratada melhor do que ninguém, até melhor do que eu e eu sou sua irmã. Javier a tem sempre que ele quer. E ele não tem que tomar isso." Eu sinto meus dedos cavando em minhas mãos ao meu lado agora, mas a vergonha ofusca minha raiva. O que ela diz é só metade da verdade, mas agora não é o momento de me defender. Nada do que eu disser vai importar. Não para o Americano e, certamente, não para ela. Eu só me importo com o que o Americano pensa, porque eu preciso dele para me ajudar. Se ele pensar em mim como uma prostituta, ele certamente vai estar menos inclinado mais tarde. Se eu puder sempre convencê-lo a ajudar, isto é, que é duvidoso.

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Mostrando absolutamente nenhum interesse na óbvia tentativa de Izel em estragar meu caráter, o Americano aponta para a bolsa em cima da mesa junto à janela e diz para mim: "No zíper esquerdo, no bolso interno você vai encontrar uma corda." Eu ando pela sala com cuidado, meu coração batendo violentamente contra minhas costelas quando eu ando entre os dois, os pelos dos meus braços e da parte de trás do meu pescoço em pé quando eu passo por eles. Eu meio que esperava que Izel aproveitasse a oportunidade para me alcançar e me agarrar, mas fico aliviada quando ela não se atreve a se mover. Fazendo meu caminho através de mais corpos e destroços espalhados pela pequena área, desta vez estou com muito medo dos dois que ainda estão vivo na sala para me deixar abalar pelos olhos mortos olhando para mim do chão. Sinto o cheiro do sangue. Pelo menos, eu tenho certeza que o fraco fedor metálico é sangue. Tem muito disso ao meu redor. A cortina da janela quebrada soprava para dentro quando uma pequena rajada de vento quente empurra. Ponho a mão dentro da mala preta do Americano e mexo em volta procurando a corda. Estou nervosa demais para olhar dentro da mala. Não há como dizer o que ele carrega em tal coisa. Com o rolo de corda na minha mão, rapidamente me pergunto por que não usar esse material mais resistente em mim em vez de tiras de tecido do lençol da cama. Eu me viro e olho apenas para o Americano esperando pelo que ele pode me dizer para fazer a seguir, tentando fazer o menor contato visual possível com Izel. Ela nunca demora muito a me intimidar. O Americano acena com a cabeça em direção a Izel. "Amarre as mãos dela atrás da cadeira pelos seus pulsos." Ele instrui. Meu coração pula. Ainda tentando o meu melhor para evitar de olhar para ela, a tentativa é jogada para fora da janela com suas palavras e olhar para ela é exatamente o que eu faço. Ela certamente vai me pegar se eu ficar muito perto. O conflito nos meus olhos diz ao Americano todas aquelas palavras que eu não posso dizer, não posso. Ele mexe a arma em sua mão sutilmente em direção a Izel, seu pulso ainda apoiado em sua perna. "Ela não vai te tocar." Diz ele, apenas olhando para mim. "Se ela ao menos tentar se encolher de uma forma que eu sinta como ameaçadora, eu vou matá-la e ela sabe disso." Do canto do meu olho, eu vejo as narinas de Izel e sua boca se torce de raiva. O Americano acena em direção a ela novamente para indicar que eu devo continuar.

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Tateando a corda em meus dedos, eu passo por cima dos corpos novamente e lentamente faço o meu caminho em direção Izel, achando impossível não olhar para ela quanto mais perto que eu fico. Seu sorriso se espalha. Minhas mãos estão tremendo tão visivelmente que ela toma conhecimento, seus olhos castanhos as espiam brevemente, sem mover a cabeça. "Você realmente fez isso dessa vez." Ela provoca. "Como é que você passou por cima do muro? Será que Lydia te ajudou? " Estou quase atrás dela quando ela diz o nome de Lydia e eu paro morta no meu trajeto. Izel percebe minha reação exatamente pelo que ela é, sem preocupação. E ela corre com isso. Um sorriso ainda mais sádico se arreganha nos cantos dos seus lábios. "Ah, eu vejo." Diz ela. "Então ela te ajudou mesmo." Ela estala sua língua. "Lamentável para a pobre Lydia, ela será punida. Mas você já sabia disso, não é, Sarai?" "Lydia não tinha nada a ver com isso!" Eu grito em espanhol, como se eu ainda estivesse de volta no complexo. Eu sei que ela está tentando me pegar, mas eu também sei que o que ela está dizendo sobre Lydia ser punida é verdade e já estou me arrependendo da minha reação. Porque é exatamente o que ela queria ver. Toda essa situação só mudou da pior maneira. Não é mais apenas sobre mim. Eu deveria ter sabido disso antes de me arrastar pela janela. Javier e Izel sabiam o quão próximas Lydia e eu ficamos em seu curto período de tempo lá. Uma grande parte de mim quer desistir e voltar, mas agora com o Americano controlando a situação, isso não está mais nas cartas. "Pare de falar e amarre suas mãos para trás." Diz o Americano por trás. "Tudo bem. Vá em frente. Faça o que quiser com ela." Digo a Izel enquanto eu ando para trás de sua cadeira. "Eu saí. Ela não. É triste, mas não há nada que eu possa fazer sobre isso. Eu não vou voltar para aquele lugar, nem mesmo por ela." Espero que ela acredite em mim, que não me importo com o que acontece com Lydia, então talvez eles não a usem contra mim. "Eu disse para parar de falar." A frustração natural no tom do Americano, apesar de contido, é suficiente para obter a atenção de ambas. Izel e eu olhamos para ele ao mesmo tempo. Eu faço exatamente como ele diz, temendo que ele possa acabar me dando um tiro na perna logo, e eu agacho atrás de Izel e começo a amarrar seus pulsos.

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O Americano observa Izel aparentemente sem piscar, esperando que ela escorregue e lhe dê mais um motivo para atirar nela. Eu prendo bem seus pulsos, enrolando a corda semi-elástica três vezes, amarrando-a em um nó em cada rodada. Uma vez que a corda aperta sua pele, Izel joga a cabeça para o lado, na tentativa de me ver, seus dentes rangendo de raiva. "Cuidado." Ela se encaixa e seu longo cabelo negro cai para um lado em torno de seu rosto. Eu amarro o último nó ainda mais apertado, só porque eu posso. Se olhares pudessem matar, eu estaria morta dez vezes. "Agora se afaste dela." Instrui o americano. Ele se levanta da cama e desliza sua mala alongada debaixo dela. Eu saio com aceno de sua cabeça para trás, eu continuo a seguir suas instruções e sigo para ao lado dele. Ele pega meu pulso em uma mão e mala na outra e me caminha em direção à porta. Ele só solta meu pulso suficiente para pegar sua bolsa em cima da mesa e pegá-la. Ele deixa o seu longo casaco preto. Certamente ele o vê, mas tenho a sensação de que ele o está deixando caído sobre o encosto da cadeira de propósito. "Eu vou matar você, se você me deixar aqui assim." Izel rosna rangendo os dentes, mas sua ameaça sai grossa com desespero. Ela começa a lutar na cadeira, tentando trabalhar com as mãos livres. "Não me deixe assim! Como posso dizer a Javier o que você quer, se eu estou presa nesta sala?" A luz do sol enche a sala, quando o Americano abre a porta com dois dedos da mão segurando a mala. "Você vai conseguir ficar livre a tempo." Ele diz e sai pela porta comigo ao seu lado. "Informe a Javier que eu entrarei em contato e não perca ou descarte o número de telefone celular que eu o chamei." Ele puxa a porta fechada com os mesmos dois dedos e eu ouço a voz furiosa de Izel gritando palavrões para nós lá dentro, enquanto nós a deixamos lá. Ele me guia para o assento do passageiro na frente e fecha a porta atrás de mim quando estou dentro. O porta-malas se abre e ele esconde sua mala e a mochila preta dentro dele. Eu ouço quatro tiros abafados fora do carro quando ele atira nos dois pneus de cada um dos os caminhões estacionados em frente. Ele fecha a porta do lado do motorista e olha para mim. "Coloque o cinto de segurança." Ele diz e olha para longe dos meus olhos, girando a chave na ignição. O

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carro zumbi para a vida enquanto eu prendo meu cinto de segurança no lugar rapidamente. "Você atira em mulheres." Digo baixinho. Ele sai do espaço coberto de sujeira na frente do estranho motel na estrada, que realmente se parece mais com um barracão de cinco cômodos. O Americano pressiona o pé no freio e olha para mim de novo. "Ferida de raspão." Diz ele e coloca o carro em ponto inicial. "Ela vai viver. E aquilo dificilmente era uma mulher." Ele se afasta, o carro preto lustroso agita uma nuvem de poeira atrás de nós. Ele tem razão nesse aspecto. Izel é uma mulher, mas ela não merece ser tratado como tal e é sua própria culpa. Quando estamos acelerando pela estrada poeirenta e longe do motel, o Americano chega no console entre nós e pega um pequeno telefone celular preto. Correndo o dedo sobre a tela, a voz vem e de repente a voz de Izel enche o carro. Estou confusa com isso no começo, mas logo entendo que, se eu estiver certa, havia uma razão que ele deixasse seu longo casaco no quarto, depois de tudo. Eu escuto a voz de Izel gritando através do alto-falante minúsculo. "Ele se foi! Levante-se e me desate! Depressa!"

Um farfalhar abafa a voz e, em

seguida, outros estranhos, ruídos não identificáveis. "Tirem-me essas cordas!" Um dos homens foi deixado vivo? Olho para o Americano cujos olhos permanecem fixos na estrada à frente, mas seus ouvidos estão totalmente abertos para as vozes em sua mão. Ele sabia. Ele sabia o tempo todo que um deles estava lá fingindo estar morto. Tremo só de pensar que eu andava sobre o seu corpo, ou em torno dele, tão perto que ele poderia ter me pego pelo tornozelo e me levado com ele. Mais ruídos de confusão e rachaduras fluem através do viva voz. Ouço Izel dizer ao homem para lhe dar um telefone e segundos depois ela está falando com Javier. "Sim, Javier. Ele a levou. Ele os matou. Não." Ela fica quieta enquanto Javier, eu sei, sem ter que ouvi-lo, a ameaça do outro lado do telefone. "Sim." Ela diz com um tom grave como se estivesse forçando a si própria a concordar, embora isso tome todas as força dela para fazê-lo.

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Então eu ouço um sonoro tiro e logo após um baque! E eu só posso supor que ela acabou de matar o homem que a ajudou, provavelmente de raiva pelo que Javier disse. Tudo se torna quieto agora. Talvez Izel saiu da sala. Vários segundos se passam e ainda nada, apenas o estático zumbido baixo do viva-voz. O Americano, embora não seja famoso por expressões faciais, parece desapontado. Ele desliga o telefone, abaixa a janela ao lado dele e o joga para a estrada. Em seguida, ele faz uma nítida inversão de marcha e dirige na direção oposta. "Acho que você não ouviu o que você queria?" Pergunto com cuidado. Sua mão direita cai do volante e descansa na parte superior de sua perna. "Não." Ele responde. "Você ainda duvida do que eu disse a você?" Digo. Na minha visão periférica, eu o vejo virar a cabeça um pouco para me olha. Eu não estou confortável o suficiente com ele para encontrar seus olhos quando ele instiga isso. Eu nunca vou estar. Mas ele não responde. Um minuto depois, eu digo: "Eu não sou uma prostituta. Ela só estava tentando te atingir, caso você tenha qualquer pena de mim." Talvez eu esteja insultando a sua inteligência, assim como Izel fez em um ponto, mas esta é a minha maneira de me defender de sua acusação. Eu quero que ele saiba. E eu não quero que ele pense assim de mim. Eu continuo, finalmente olhando para ele agora que seus olhos estão de volta na estrada novamente. "Mas você nunca teve pena de mim, para começar." Mais uma vez, a minha tentativa de envolvê-lo em conversa parece passar despercebida e eu desisto e coloco minha cabeça contra a janela do carro. "Eu sei que você não é uma prostituta." Diz ele.

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CAPÍTULO CINCO Foram raras as ocasiões que vi tanto de qualquer outra parte do México durante o dia, além do complexo. Javier não era grande em passeios, ou dirigir em uma madrugada de domingo. Passei grande parte da minha vida enfiada por trás dessas cercas, só saindo quando Lydia e eu fomos realocadas com as outras meninas antes de outros traficantes perigosos virem se encontrar com Javier. Foi a maneira de Javier nos manter "seguras" no caso de um negócio correr mal. Mas nós sempre viajávamos à noite, por isso, apesar da situação que eu estou no momento, encontro-me em leve reverência quando olho para fora da janela do carro, enquanto a paisagem mexicana brilhante voa. Estávamos dirigindo por duas horas. "Estou com fome." Digo. Alguns segundos tranquilos passam antes que ele responda. "Não tenho nada para comer no carro." "Bem, nós não podemos parar em algum lugar?" "Não." Se eu pudesse, pelo menos, levá-lo a parar de responder às minhas perguntas assim, eu estaria quase satisfeita. "Se você está preocupado que eu tente fugir." Digo, virando-me para o lado para vê-lo melhor “Então vá a um drive-thru. Eu não tive nada para comer desde ontem de manhã. Por favor ..." "Não há drive-thru aqui." "Onde é aqui?" De repente, minha fome foi para o banco traseiro. "Pelo menos me diga onde eu passei os últimos nove anos da minha vida." Vi um sinal na estrada vários minutos atrás, mas eu não reconheci o nome de nada que eu vi nos mapas que eu me derramei uma e outra vez, a maioria dos mapas em um livro didático do ensino médio americano de 1997. "Estamos agora cinco milhas ao sul de Nacozari de García." Eu suspiro, frustrada comigo mesma por não ter nenhuma ideia de onde é, também. "Você está a menos de duas horas da fronteira com os Estados Unidos." Ele diz e me atordoa. Eu me precipito, me mexendo completamente no assento, minhas costas pressionando contra

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a porta do carro. "Mas você disse que eu estava... Você fez soar como se eu estivesse a dias da fronteira." "Não. Eu simplesmente disse que a distância era maior do que eu queria você como minha companhia." Eu cruzo meus braços furiosamente sobre o meu peito. Eu não tenho nenhuma ideia de onde eu chegaria estando com raiva afinal, com alguém como ele e até mesmo mostrando isso remotamente. Lembrando-me rapidamente de onde estou e com quem estou, coloco o meu rosto tímido novamente. "É para onde estamos indo?" Eu pergunto. "Para esse homem que você deveria matar para Javier nos Estados Unidos?" "Sim." Silêncio. Chego a lágrimas. Elas vêm do nada, queimando atrás dos meus olhos em direção a minhas bochechas. Mas eu não estou chorando porque eu estou tão perto de casa, eu estou chorando porque sua estranha personalidade estoica e respostas de uma palavra são o suficiente para me fazer querer me matar figurativamente. Eu soluço nas palmas das minhas mãos, deixando meu medo e frustração em relação ao Americano saírem, juntamente com tudo o mais enterrado, alívio que eu finalmente saí, medo de ser mandada de volta mais uma vez, preocupada com o quão duro Izel vai castigar Lydia, o mero fato de que eu estou em uma situação longe de qualquer solução fácil, a fome no meu estômago, a secura da garganta, não ter tomado um banho em dois dias, o fato de que eu poderia morrer a qualquer momento. A única coisa boa que eu posso explicar é que estou, de fato, ainda viva e não tão longe de casa como pensei que estava. Eu sinto o carro desviar para a direita, quando ele puxa para outra estrada. Olho para ele, fungando o resto das minhas lágrimas. Eu paro e limpo meu rosto com as palmas das mãos. Ele nunca diz nada, ele não tenta me consolar ou fazer perguntas. Ele não parece se importar e eu também, não me importo muito, que ele não se importe. Eu nunca esperei que ele fizesse. Mais trinta minutos ou mais e nós estacionamos em frente a uma loja de conveniência na estrada. Apenas um caminhão está estacionado na frente, um Ford branco com ferrugem ao longo das portas. "Se você quer comida." Diz o Americano, desligando o motor. "Vá lá dentro e coma." Eu já estou surpresa que nós paramos, quanto mais para me alimentar. Ele caminha

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para o meu lado do carro e abre a porta, provavelmente só para ter certeza que ele está do meu lado em todos os momentos, do que para ser um cavalheiro. Ele fica lá esperando pacientemente eu sair. Finalmente, eu saio, só depois de escorregar meus pés descalços para baixo no meu chinelo no chão. Este lugar não pode ser chamado de uma lanchonete de estrada, acho que precisaria de mais algumas mesas para isso, mas tem um lugar para sentar e comer, num canto escuro perto da única porta preta. Eu pedi um sanduíche de frango congelado feito no micro-ondas, o Americano, nada mais que um café preto. Nós dois parecemos fora do lugar aqui. Ambos obviamente sem genes espanhóis, em um lugar que claramente não é uma cidade turística, ele vestido com calça preta e sapatos caros, que foram provavelmente brilhantes alguma vez, mas agora estão cobertos de uma fina camada de sujeira. Eu sei que não devo ter um cheiro muito ruim. Não lembro a última vez que eu usei um desodorante. Eu devorei até a metade do sanduíche de frango e engoli a água engarrafada até que estivesse quase vazio. Eu aprendi há muito tempo atrás nunca beber a água nestes lugares, que não fosse de uma garrafa fechada, isso provavelmente vai me fazer mal. O Americano bebeu seu café, gradualmente, lendo o conteúdo de um jornal local de esportes.

Se eu não conhecesse bem, quase poderíamos passar por um casal não

convencional tomando café da manhã em qualquer cidade americana típica. Não convencional, porque eu só tenho vinte e três anos, e o Americano, ele é mais velho do que eu. Na faixa dos trinta e tantos, talvez. Se eu não soubesse o que ele era e eu só o visse sentado aqui um dia, como ele está agora com os dois pés no chão e os cotovelos cobertos pela camisa sobre a mesa, eu o acharia atraente para um homem velho. Ele tem um corte limpo, apesar da barba por fazer em seu rosto. Ele tem as maçãs do rosto afiadas e penetrantes olhos azul-esverdeados que parecem conter tudo, mas não revelam nada. E ele é muito alto, magro e assustador. Acho que é notável como ele me assusta mais do que Javier já fez, mas sem ter que dizer uma palavra. Ao mesmo tempo, eu sinto que estou melhor com o Americano do que eu já estive com os gostos de Javier. Pelo menos, por enquanto. Isso vai mudar, tenho certeza de que vai, quando ele tentar me passar de volta para ele. Mas eu vou morrer antes de deixar isso acontecer. "Você nunca vai me dizer seu nome?" Pergunto. Ele levanta os olhos do jornal, sem mover a cabeça. Eu posso sentir imediatamente que ele não se importa em me dizer,

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para ter essa informação pessoal com seu 'refém', mas, finalmente, ele me joga um prêmio. "Victor." Estou tão chocada que ele mesmo me disse que leva um segundo para eu pensar no que dizer em seguida. Eu dou gole na minha água "De onde você é?" Eu pergunto. Vale a pena a tentativa. "Por que você não termina sua comida?" Ele sugere e espreita de volta para o papel. "Você sabe o meu nome. Você sabe de onde eu sou. Por que você não cede um pouco para mim, Victor? " A amargura em meu tom de voz não foi um acidente. Eu acho que se ele fosse me matar, eu já estaria morta, então eu realmente não estou com tanto medo dele como minha consciência está me dizendo que eu deveria estar. Ele suspira com irritação e balança a cabeça de forma sutil. "Eu nasci em Boston." Diz ele. "Eu tenho uma irmã. Um ano mais nova que eu. Minha mãe está em algum lugar em Budapeste. Meu pai, está morto. Ele foi meu primeiro assassinato." Aquela pequena gota de bravura que convoquei evaporou direto dos meus poros. Eu olho cuidadosamente para ambos os meus lados, olhando para o homem atrás do balcão que nos vendeu a comida. Ele está no lado oposto da loja, varrendo o chão e não prestando nem um pingo de atenção em nós. Eu olho para trás para... Victor, nervosamente engulo o que restou da saliva na minha boca. "Você matou o seu pai?" Eu tenho que acreditar que era por algum motivo óbvio, seu pai bateu em sua mãe, algo nesse sentido. Ele acena com a cabeça. "Por quê? Quantos anos você tinha?" "Eu acho que você sabe o suficiente sobre mim." Diz ele e toma um gole de café, seus dedos longos e bem cuidados enrolados suavemente ao redor do minúsculo copo branco de isopor. "Você pediu para saber mais sobre mim e eu lhe disse. Era um favor. Não um convite para fazer mais perguntas." Eu me pergunto por que ele me disse algo assim, para começar. Talvez ele estivesse apenas tentando me assustar em sua apresentação assim eu pararia completamente de falar.

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Me levanto da pequena mesa. Ele levanta os olhos do jornal novamente. "Eu preciso usar o banheiro." Digo. Deixando o jornal na mesa ao lado de seu café, ele se levanta para se juntar a mim. Ele pega meu pulso delicadamente em sua mão e o puxo, balançando a cabeça. "Eu posso ir sozinha." Insisto. "Sim, mas eu vou com você." Eu cruzo meus braços sobre o peito e pisco de surpresa. "Você não pode estar falando sério. Eu não vou usá-lo com você em pé lá." "Então você não vai usá-lo." Minha boca cai aberta com o bate-boca. Eu olho para trás e para frente entre ele e a porta atrás dele que eu estou supondo que seja um banheiro, não há sinais evidentes que indiquem nada. Eu posso detectar o seu aborrecimento comigo, fracamente em seu rosto, isso me faz sentir como se eu tivesse interrompido seu caso de amor de todas as noites com uma taça de vinho e música clássica. Não levo muito tempo para entender, realmente. "Eu duvido que será como é nos filmes." Digo. "Eu tento sair pela janela depois de você tomar a decisão de deixar-me ir sozinha." Eu não estou tentando ser tagarela, estou apenas afirmando o óbvio. Espero que ele perceba. "Pegar ou largar." Diz ele. "Se você não for agora, você pode segurar um pouco." Eu mordo o interior da minha bochecha. "Tudo bem." eu desisto e passo ao redor e na frente dele. Ele entra atrás de mim no banheiro. Há um vaso que parece que ele nunca foi limpo uma única vez nas décadas que ele esteve aqui. Quatro paredes sujas com pintura descascada e uma marca de queimadura perto da pequena janela que duvido que eu fosse capaz de me espremer, se me tivesse sido dada a oportunidade de experimentar. O cômodo é tão pequeno que posso alcançar e tocar Victor enquanto ele está em pé de frente para a porta, de costas para mim, com as mãos dobradas para baixo em frente dele. Sentindo-me apenas um pouco envergonhada, infelizmente, fazer xixi na frente de um louco também, não é novidade para mim. Puxo meu short e calcinha para baixo e sento. Quando eu termino, eu tenho que secar. Papel higiênico realmente é um luxo que os americanos reconhecem.

Quando eu estou puxando para cima as minhas

roupas, eu observo os ombros de Victor por trás ficarem tensos. E então eu ouço vozes como se alguém acabasse de entrar na loja. Victor alcança atrás de suas calças e

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desliza a mão por baixo de sua camisa, pondo uma arma à vista, seu forte dedo indicador já em volta do gatilho. "O que é isso?" Pergunto, com medo, minhas mãos já estão tremendo. Victor abre uma fresta na porta espia lá fora, colocando sua mão livre atrás dele como se quisesse me dizer para ficar quieta. Então, ele vira a cabeça para mim brevemente e sussurra: "Fique aqui." E antes que eu possa questioná-lo, ou protestar, ele desaparece para fora da porta e eu fico ainda escondida dentro de outro banheiro. Só que este não tem uma banheira para ajudar a me proteger de balas perdidas e não acho conforto nisso. Apesar do meu medo, eu não consigo parar de tentar obter um vislumbre do que está acontecendo, então ando até a porta e abro uma brecha exatamente como Victor fez e pressiono meu corpo contra ela, olhando para fora. O meu hálito quente e instável preenche o espaço confinado entre a porta e o meu rosto. Eu mal consigo ver o balcão, onde o proprietário da loja está de pé ao lado com a vassoura que ainda segurava em suas velhas mãos gordinhas. Mas eu não posso ver seu rosto. E eu não posso ver Victor. Vários longos segundos cheios de ansiedade passam e ainda sem tiros. Eu tomo isso como um bom sinal. Percebo uma figura passar pela minha linha de visão, mas não é Victor. E, em seguida, um outro homem passa. Eu ouço vozes em espanhol, embora não totalmente claro para mim da minha posição atrás da porta. Algo sobre uma peça do carro e alguns segundos depois, o dono da loja diz que ele tem uma, mas ele vai ter que ir até lá atrás para buscá-la. Eu ainda não vejo nenhum sinal de Victor. Será que ele me deixou aqui? Esse pensamento estranhamente me deixam com mais medo ainda e eu abro a porta um pouco mais, tentando ter uma visão melhor. Primeiro meu pânico fora de hora de ser deixada sozinha aqui, depois duvido da minha sanidade, mas então eu percebo mais uma vez que, apesar de Victor ser um assassino e do fato de que eu estou sendo usada como alavanca em um jogo perigoso de pagar ou morrer, eu ainda sou uma garota sozinha nas partes mais perigosas de um país que eu não sou uma nativa. Goste ou não, Victor é a minha única proteção até que eu possa atravessar a fronteira e eu vou ficar com ele durante o tempo que eu puder, independentemente da minha necessidade desesperada de ficar longe dele, também.

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CAPÍTULO SEIS

Finalmente, vislumbro os rostos dos homens, fico aliviada que eles não se parecem de todo familiar. Eu começo a acreditar que estão apenas de passagem. Ficando um pouco claustrofóbica, abro a porta o resto do caminho. Eu inalo uma respiração profunda para me recompor e, em seguida, saio do banheiro, casualmente, como qualquer outro cliente que acabou de terminar de usar o banheiro. Victor está sentado na nossa mesa lendo o jornal como ele estava antes, quando eu contorno pelo canto. Ele mal olha para mim, o suficiente apenas para me deixar saber que ele não está satisfeito. "Você está pronto?" Pergunto em Inglês. "Eu certamente estou. Esse banheiro é nojento." Acrescento eu, fingindo descontentamento das instalações, como faria uma garota americana ranhosa. Espero que eu seja suficientemente convincente. Victor se levanta e desta vez leva-me pela mão ao invés do pulso, seus dedos entrelaçados com os meus. O gesto num primeiro momento, me surpreende. Mas logo percebo que ele está apenas entrando no jogo. Os dois clientes e o proprietário da loja olham diretamente para mim e de alguma forma tenho a sensação de que o meu pequeno ato de turista está atraindo mais atenção do que impedindo isso. E talvez seja porque os turistas nunca vêm a essas partes. Victor aperta minha mão com desaprovação. Segundos depois, em um movimento aparentemente muito rápido para eu acompanhar, os dois clientes, cada um leva um tiro na cabeça e caem mortos na minha frente no chão. Eu tropeço para trás no peito de Victor, cobrindo os ouvidos em uma reação tardia ao som suprimido dos tiros. Victor libera a minha mão e agarra-me pela cintura, pegando-me com um braço, aperta sua arma na outra mão. Ouço uma porta bater na lateral da loja e olho ainda pressionada contra Victor, usando seu corpo como suporte, para ver o dono da loja através da janela sem vidros fugindo sem dizer para onde. Victor me empurra para o lado e aponta sua arma para o homem através da janela. Um único tiro o leva para baixo antes que ele fique fora de alcance, seu corpo batendo no chão e poeira voando ao redor dele antes de ser levada pelo vento. Eu sigo meu

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caminho pela loja, ao longo dos dois corpos e em direção a Victor, meu coração batendo de forma irregular. "O que foi isso?" Ele agarra meu pulso novamente e me arrasta com ele de volta para os corpos. Eu tento afastar, mas a sua aderência é muito apertada. "Eles eram inofensivos." Digo exasperada, sentindo as lágrimas ardentes no fundo da minha garganta novamente. "E o dono... o que... por que você o matou?" Nós paramos ao lado de um dos corpos e Victor solta meu braço para que ele possa se ajoelhar ao lado dele. Pondo a mão no bolso de trás da calça jeans do homem, ele tira um maço de dinheiro mexicano. Peneirando as contas e não encontrando nada de nota, ele joga o dinheiro nas costas do homem morto e vasculha o resto de seus bolsos, encontrando uma arma escondida atrás de seu cinto. Mas não há nada de extraordinário nisso. Ele faz o mesmo com o outro homem, ainda não encontrando nada digno de nota, exceto um conjunto de chaves que ele decide colocar no bolso. "O que você está procurando?" "Você deveria ter ficado no banheiro como te disse" Estou surpresa com a acusação em sua voz. É tão diferente dele mostrar qualquer emoção, embora ainda não seja muito. "Eles não eram homens de Javier." Protesto. "Eu estive lá tempo suficiente para lembrar cada um deles." Victor sobe em uma bancada, parecendo ainda mais alto do que antes, mas sei que é apenas o meu medo dele pregando peças em meus olhos. "Você se lembra dos que você já viu." Diz ele. "Mas você é uma menina tola, se você acha que eles são seus únicos homens." Eu suspiro. "Mas eles só estavam perguntando sobre as peças do carro. Talvez eles tivessem tendo problemas com o carro. Eu os ouvi falar." "Você ouviu código." Ele me corrige. "Ele perguntou ao proprietário sobre uma peça que não pertence a esse caminhão." Ele olha para a janela da frente da loja onde outro caminhão está estacionado. "Quando o dono da loja disse que sim, que ele tinha a peça, ele estava dizendo a eles que você estivesse aqui." Sentindo-me uma tola, eu continuo fingindo, tentando voltar de meu momento de estupidez. "Então, por que eles não fizeram nada?"

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Ele balança a cabeça levemente para mim. "Eles estavam nos vigiando." Diz ele. "Ou então, eles iam tentar nos parar, tempo suficiente para conseguir ter mais homens aqui. Agora vem. Temos que sair." Quando eu não sigo rápido o suficiente, ele pega a minha mão e me leva para fora da loja e vai direto para o caminhão mais novo estacionado na frente, ainda nada além de um pedaço de metal velho, mas mais novo do que aquele Ford velho enferrujado que pertencia ao proprietário. Ele abre a porta do lado do passageiro. "Entre." Exige. Confusa, eu só olho para ele, mas a próxima coisa que eu sei, ele está me levantando do chão e forçando dentro da cabine. Não ousando lutar com ele sobre isso, ou perder mais do pouco tempo que eu sei que nos resta, eu espero até que ele pegue suas armas e malas de seu carro e empurre tudo entre nós no assento. Ele bate à porta de metal pesado, uma vez que ele entra do outro lado. "O que estamos fazendo exatamente?" Ele encontra a chave certa para ligar o motor na primeira tentativa e o caminhão ronca e cospe para a vida. Ele chega até o deslocamento da engrenagem ao lado do volante e engata a marcha do carro, por pouco perdendo o toldo de madeira frágil que cobria a frente da loja, quando ele faz uma perfeita curva fechada e ganha velocidade. "O carro é muito para uma fuga." Diz ele. "Eu precisava me livrar dele mais cedo, mas correr atrás de um veículo por aqui que não vá quebrar em 20 milhas é um sucesso ou um fracasso." "Eu me perguntava por que você dirigia algo tão agradável como aquele, para começar." Digo. "Eu não era um alvo, até então." "Mas agora você é por minha causa." Eu olho pelo espelho lateral, observando o redemoinho de sujeira caoticamente no rastro do caminhão. Nós passamos rapidamente pela paisagem árida, o caminhão balançando e saltando sobre os buracos até que nós o levamos de volta para uma estrada pavimentada. "Victor?" Pergunto, e ele olha para mim como se eu chamá-lo pelo seu nome tivesse atingido algum nervo enigmático.

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Decido não dizer o que pretendia, porque já disse isso antes e não fez diferença. Eu olho para longe e sinto seus olhos também me deixarem. "Não importa" Eu digo. Atenha-se ao novo plano, Sarai. Penso comigo mesma e me sinto ridícula quando, por uma fração de segundo me preocupo se ele pode ouvir meus pensamentos também. Vou esperar até chegarmos ao longo da fronteira e então vou fazer o que for preciso para ficar longe dele, mesmo se isso signifique que eu tenho que matá-lo. ~~~ Duas horas mais tarde, nós chegamos na fronteira e entramos no Arizona, sem qualquer problema com a patrulha da fronteira. Victor falou com um Inspetor da Patrulha da Fronteira, que viu claramente que tínhamos uma mala de aparência suspeita e dois sacos de duffle entre nós no assento. Eles tinham palavras em espanhol, apesar de elas serem poucas e não fazerem muito sentido para mim, o que me levou a acreditar que, como os homens lá atrás na loja de conveniência, era tudo uma espécie de código. Nem a mala, nem o saco ou até mesmo o caminhão foram verificados. Eu não me importo de saber o porquê. Não faz nenhuma diferença para mim se Victor tem conexões de algum tipo com a patrulha de fronteira que lhe permite fácil acesso dentro e fora dos Estados Unidos. Isso ainda é óbvio para mim. Mas eu não me importo. Tudo que me importa é o meu próximo passo. Me custa muito esconder meu alívio e ansiedade, sabendo que depois de nove anos, estou finalmente em solo dos EUA novamente. Eu quero abrir a porta deste caminhão que agora está andando a cinquenta quilômetros por hora pela estrada e saltar para fora, rolando machucada e sangrando por todo o deserto, pela paisagem e para a minha liberdade. Mas não posso. Tenho que esperar um pouco mais, pelo menos até pararmos em algum lugar onde existam lugares que eu possa me esconder. A cidade, talvez. Um posto de gasolina pouco solitário no meio do nada não vai acontecer. Se eu tiver a sorte de conseguir fugir, o único lugar que poderia ir é para um campo aberto, que abrange todo o espaço em todas as direções, tanto quanto posso ver. Eu não quero acabar como o proprietário da loja, de bruços no chão com uma bala nas costas. Finalmente, vejo um pequeno aglomerado de luzes e prédios no horizonte, ofuscado por uma cascata de montanhas ao fundo. Nós logo fazemos uma parada em

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um estacionamento atrás de um hotel de cinco andares em Douglas, Arizona. Eu saio do caminhão e fecho a porta enquanto Victor pega as malas do banco da frente. Observando a área, procurando o melhor caminho para correr que me proporcione um lugar para me esconder quando ele vier atrás de mim, eu vejo a única maneira de ir é atravessar a rua, onde mais prédios estão situados. Olho disfarçadamente para Victor e uso esse segundo que ele está colocando seus sacos de duffle no ombro e saio correndo em direção à rua. Precipitando-me pelo tráfego leve e facilmente não acerto os carros, eu chego ao outro lado, correndo a todo vapor passando por um pequeno edifício com janelas arqueadas. Meus chinelos fazem pressão debaixo dos meus calcanhares enquanto corro. Quase caio quando meus pés batem com força na calçada e a borracha desgastada fica torcida sob os pés. Mas recupero o meu equilíbrio a tempo e movo-me com mais força, olhando para trás apenas uma vez para ver se Victor está vindo atrás de mim. Vejo-o, correndo através de uma pequena multidão de pessoas e minhas pernas entram em ultrapassagem, tentando chegar o mais longe dele que eu puder. Já quase sem fôlego, forço meu corpo para frente, correndo por uma fileira de carros estacionados e atrás de outra série de edifícios. Eu vejo uma mulher carregando uma bolsa em um ombro, andando na minha frente. "Senhora! Por favor, me ajude!" Ela olha para cima quando chego mais perto, seu cabelo loiro caindo sobre seus ombros. "Por favor, você tem que me ajudar! Chame a-" Victor surge a minha direita, tendo ido pelo outro lado do edifício mais próximo, em vez de ficar diretamente atrás de mim. Ele permanece ao lado do prédio deixando-o esconder o seu paradeiro. Só eu posso vê-lo. Vislumbro a arma presa em sua mão ao seu lado, pressionada contra a lateral da perna. "O que aconteceu? Você está bem?" A mulher pergunta, fixando a bolsa firmemente embaixo do braço, provavelmente, no caso de eu poder tentar tirá-la dela. Meus olhos vagueiam entre os dois, e para trás, e em um ponto a mulher se vira para a esquerda para ver o que eu estou olhando, mas Victor fica escondido nas sombras. Eu sei por que ele não está se movendo. Eu sei por que sua arma está na sua mão em vez de escondida na parte de trás da calça. Se esta mulher vive ou morre é inteiramente por mim.

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"Senhorita?" Ela pergunta novamente, parecendo preocupada, mas desconfiada de mim da mesma forma. "Eu preciso chamar a polícia?" Eu tento recuperar o fôlego, apertando a minha mão no meu peito, mas eu percebo que ele não está mais no corredor que o está mantendo escondido. O pensamento de Victor atirando na mulher por minha causa. Ela põe a mão dentro de sua bolsa e tira um telefone celular. Victor levanta a arma um pouco. "Não!" Eu grito e a mulher para congelada com o telefone seguro em sua mão decorada com anel. Eu gesticulo freneticamente para ela. "Sinto muito. Achei que você fosse outra pessoa." Ela não parece convencida. Ela estreita os olhos para mim. Eu finjo uma pequena risada. "Realmente, eu sinto muito. Meus amigos e eu estávamos ... não importa. Eu tenho que ir." Me viro e começo a correr levemente na direção que eu vim, deixando-a ali pasma. Minutos mais tarde, eu estou contra a lateral do caminhão, os braços cruzados enquanto espero. Mais duas pessoas passam a pé, uma delas até acena e sorri para mim, mas eu não posso pedir-lhes ajuda, também. Eu não quero arriscar. Victor anda tão casual como se tivesse acabado de voltar de um passeio matinal. Ele abre a porta do lado do motorista novamente e coloca em seus ombros os sacos de duffle. Com minhas costas viradas para ele, eu sinto seus olhos em mim do outro lado do caminhão. "Você é um canalha assassino." Digo calmamente, nervosamente pressionando meus dedos em meus bíceps. "Vamos entrar." Diz ele, mas, em seguida, adiciona como um adendo: "E se você tentar correr de novo ou puxar qualquer outra coisa, eu vou ter certeza que voltará o assunto de como aquela sua amiga, Lydia não era? Te ajudou a escapar." A porta do caminhão se fecha com um estrondo, enquanto fico aqui paralisada. Eu o sigo de bom grado para o hotel. O lobby é um grande espaço decorado por claraboias e belas pinturas. Um mural de vitrais se estende muitos pés por todo o mezanino até o topo da escadaria de mármore. Os tetos maciços são sustentados por altas colunas de mármore. No interior, o edifício parece impróprio para a pequena cidade empoeirada que o rodeia. Victor me leva até as escadas após o check-in e meu interesse pelo ambiente dissipa com a sua voz. "Você pode tomar banho, se você quiser." Ele deixa cair uma mochila no

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chão entre as camas, a outra sobre a mesa perto da janela com vista para a cidade. Sua mala brilhante com o que eu estou supondo que são suas armas dentro, ele põe no pé da cama queen-size mais próxima da porta. Ele pega com ambos os braços e abre as cortinas amplas sobre a janela. Está ficando escuro lá fora. Eu vejo o brilho fraco dos poucos postes externos. "Victor..." Digo, mas ele me interrompe. "Eu preferia que você não me chamasse pelo meu nome." "Por que não? É o seu nome. Do que mais eu devo chamá-lo? " Eu me surpreendo cada vez que o desafio da menor maneira. Porque no interior, estou absolutamente apavorada com o que ele poderia fazer para mim. "Não importa." Diz ele, sentando-se à mesa e desfazendo sua mala. "É só tomar seu banho." "Olha." Eu digo, andando pelas camas em direção a ele. "Eu estou com medo. Você assusta o inferno fora de mim. Eu não vou fingir o contrário. Estou apavorada com o que está acontecendo comigo-" "Você tem uma maneira estranha de mostrar isso." Diz ele, nem mesmo me dando o luxo de seus olhos. Ele pega um tipo de dispositivo digital, menor que um laptop. "Eu diria que você foi muito anestesiada por trauma para deixar isso afetá-la da maneira que deveria." Ele coloca o aparelho sobre a mesa e, em seguida, a mochila no chão ao lado de seus pés. Eu acho que o dispositivo é um desses tablets digitais. Eu engulo, arredondando meu queixo. "Talvez eu tenha. Um pouco. Mas o que isso tem a ver com eu te chamar pelo seu nome?" O que ele me acusa é verdade, mas o que eu já passei não é problema seu. A não ser que ele tenha a intenção de me ajudar, o que nós já estabelecemos como sendo nada mais do que ilusões. "E por que você se importa?" "Eu nunca disse que eu me importava." "Então não faça especulação." Eu solto. O simples fato de que ele não vai sequer olhar para mim na metade do tempo quando ele está falando comigo, me deixa com raiva. E quanto mais ele faz isso, age como se eu não valesse a pena olhar no olho, mais me enfurece. E quando fico louca, sempre choro. É como tenho sido por tanto tempo quanto me lembro. E eu odeio isso. Eu nunca grito ou xingo ou bato em coisas ou

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pessoas. Eu choro. Toda maldita vez. Quando as lágrimas começam a brotar em meus olhos, eu viro as costas para ele e marcho rapidamente em direção ao banheiro. Mas eu paro e me viro para encará-lo mais uma vez, as minhas unhas cavando as palmas das minhas mãos. "Vá para o inferno!" É tudo o que posso dizer, na minha pobre tentativa de extravasar com palavras em vez de lágrimas.

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CAPÍTULO SETE Parece uma eternidade desde que eu tive um banho assim, quente. Eu tinha banhos de chuveiro no complexo em algumas a ocasião, eu era a única garota tendo em conta esse luxo, mas nunca um como esse. Eles estavam sempre mornos na melhor das hipóteses, mas nunca tão quentes que a água poderia queimar a pele das minhas costas. Nem mesmo girei o frio primeiro, permitindo-me aproveitar o calor até que se torne demais e eu seja forçada a desligar. Quero ficar aqui para sempre e não pensar sobre o que está esperando por mim no outro lado da porta, mas a realidade de tudo vence e é tudo que eu penso sobre. Sento-me no chão da banheira e puxo meus joelhos para o meu peito, envolvendo meus braços vagamente em torno deles e deixo o fluxo de água cair em mim de cima. Penso muito sobre Lydia, perguntando se ela está bem ou se Izel espancou ela por muito mais tempo do que o habitual, tudo por minha causa. Eu sei que ela fez. E embora não houvesse nada que eu pudesse fazer para deter isso, eu fiz uma promessa a Lydia que eu pretendo cumprir totalmente. Eu não vou deixar isso ir para sempre. Mas se eles descobrirem que ela sabia que eu estava saindo... Depois do que parece uma hora, a água quente começa a escorrer fria e eu saio, envolvendo o meu cabelo numa toalha dobrada ordenadamente na parte de trás do vaso sanitário. Eu gostaria de ter um conjunto de roupas limpas, calcinhas, pelo menos, perdi minha fronha de roupa no carro de Victor quando deixamos ele para trás. Deslizo meus shorts imundos de corrida em cima da minha calcinha e, em seguida, puxo a parte superior do top azul claro sobre meus seios. Javier sempre me proibiu de usar um sutiã. Quando saio do banheiro, Victor ainda está sentado no mesmo lugar que ele estava antes. Mas a mala já não está mais no pé da cama. Enquanto ando em direção à cama onde a mala tinha estado e começo a sentar, Victor procura e captura meus olhos. Ele não diz uma palavra, mas posso sentir que algo está diferente com ele. Por um momento, estou perturbada por seu incomum comportamento, mas aquele olhar calmo em seus olhos que de alguma maneira eu

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duvido que ele saiba que posso ver, imediatamente, captura completamente meu interesse. Parece quase... trágico. "Conte-me sobre sua mãe." Ele diz. Ele se vira na poltrona de frente para mim, dando-me toda a sua atenção, descansando seus braços ao longo do comprimento dos braços da cadeira e deixa que seus dedos balancem casualmente sobre as extremidades. As mangas brancas que ele está vestindo foram empurradas para cima logo abaixo dos cotovelos. Completamente surpresa com sua pergunta, eu apenas olho através da sala para ele fixamente. "Por quê?" Pergunto simplesmente, não tendo certeza de suas intenções com a informação. Eu vou em frente e sento ao pé da cama, trabalhando a toalha no meu cabelo com ambas as mãos para secá-lo. Mas é tudo só para o show, cada fibra da minha consciência está focada em Victor e cada movimento que ele faz. Ele não diz responde. E no caso de ele decidir mudar de ideia e voltar a não dar a mínima, eu falo antes que seja tarde demais. "O que você quer saber?" Espremo a última parte do cabelo com a toalha e, em seguida, solto-a no chão. Victor inclina a cabeça suavemente para um lado e depois interliga as mãos na frente dele, os cotovelos ainda descansando nos braços da poltrona. "Como é que ela conheceu Javier?" Eu considero por um momento. "Eu não sei." Digo. "Quero dizer, eu sei que tinha a ver com drogas e sexo. Da mesma forma que ela encontrava todo homem que ela trazia para nossa casa. Minha mãe e eu não falávamos muito." Ele inclina a cabeça para o outro lado pensativo. O que ele está esperando? Eu o estudo por um momento, tentando conseguir alguma ideia do que trouxe seu interesse na minha mãe e finalmente eu escolho contar pra ele tudo o que posso. Talvez porque eu precise de alguém para ouvir por mais tempo. Lydia e as outras meninas eram muito traumatizadas por seus próprios sequestros e experiências dentro do complexo para eu confiar nelas. E suas vidas eram muito mais caóticas do que a minha, muito

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mais... Injustas. Eu nunca poderia me levar a falar com as outras meninas sobre os meus problemas insignificantes, enquanto elas estavam sendo espancadas e estupradas e mentalmente e emocionalmente torturadas. Eu estava no paraíso em comparação com elas. Livrei-me da imagem e olhei para trás acima de Victor. "A primeira vez que vi o Javier, eu sabia que ele era diferente dos outros homens que minha mãe trouxe para casa. Mais poderoso de alguma forma. Ele andava com esse ar orgulhoso sobre ele. Sem medo. Confiante. Os outros homens... e havia um monte... eram canalhas. Eles não podiam esperar para chegar até a nossa pequena sala de estar e passar por mim antes de sentir a minha mãe. Eles eram repugnante, patéticos.” "E Javier não era?" Ele pergunta. Eu balanço minha cabeça, olhando em direção a parede agora. "Ele era nojento por causa do que ele era e como ele usava a minha mãe, sim, mas ele era muito profissional pra ser patético." "Profissional?" Ele olha para mim com uma ligeira curiosidade. "Sim." Digo com outro aceno. "Como eu disse, ele era poderoso. Embora eu não estivesse ciente do que, no momento, sobre quem ele era, eu sabia que ele era diferente. Parei de me preocupar com a minha mãe e as coisas que ela arrumou para ela quando eu tinha 12 anos de idade. Estava acostumada com tudo isso até então. Ela sempre conseguiu fazer isso em casa. Apesar de ser amarrada e, por vezes, espancada, ela nunca ligou para a polícia ou parecia com medo de nada, então eu acho que comecei a acreditar em sua segurança, tanto quanto ela." Olho para a parede novamente, minhas mãos pressionadas contra a borda da cama de cada lado meu, meu corpo curvando-se para baixo no meio dos meus ombros. "Mas quando eu vi Javier, eu fiquei com medo por ela novamente. Eu fiquei com medo por mim."

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Eu tranco meus olhos com Victor e digo: "No momento em que ele me viu, eu sabia que minha vida tinha acabado. Eu não sei como ou por que, nesse momento, mas eu sabia. A maneira como ele olhou para mim. Eu sabia que..." Meu olhar cai pro carpete no chão. "Afinal, por que você está me perguntando essas coisas?" Dirijo-me a ele de novo. "Por que o interesse de repente?" Eu o pego olhando sobre o tablet digital na mesa ao lado dele. Eu olho para o tablet por uma fração de segundo, também, perguntando sobre todos os segredos que ele contém. Victor se levanta da mesa e meus olhos o seguem enquanto ele caminha em direção a mim. Eu inclino a cabeça para trás o suficiente para ver o rosto dele, ele está muito perto, enchendo meu espaço e isso é assustador. "O quê?" Eu pergunto, confusa e ficando com a pior sensação. Ele se inclina e atinge o interior da mochila no meio das camas e recupera outra corda, assim como a que eu usei para amarrar Izel na cadeira. "Vire-se." Diz ele novamente. Eu balanço minha cabeça freneticamente. "Não." Eu digo e começo a ir até a cama. Ele me agarra pela cintura e me vira sobre o meu estômago. "Eu tenho que dormir um pouco." Diz ele, pressionando o joelho, embora com cuidado, no centro das minhas costas. "Você vai ter que se virar. Sinto muito." "Não me amarre! Por favor!" Tento me mexer pra me livrar, mas ele pega um dos meus pulsos com a mão livre e os fixa contra as minhas costas. Eu luto e chuto e me debato, mas ele é muito forte e sinto-me como um cervo sob a pata de um leão. "Você sente?! Então, não faça isso! Por favor, Victor”" Seu aperto em torno de meus pulsos, agora com ambos contidos atrás de mim, aperta forte e eu não posso evitar, mas acredito que tem tudo a ver comigo chamando-o pelo nome, ao invés de minha luta contra ele. Com um dos lados do meu rosto colado

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no colchão, sinto a corda enrolada em torno de meus pulsos e, em seguida, ele a amarra em vários nós firmes. Depois que ele está convencido de que sou incapaz de possuir as minhas mãos livres, ele se levanta da cama e em seguida, agarra meus tornozelos. Puxo um pé para trás e viro para dar um chute acertando o estômago dele, mas isso não intimida ele. Ele só me analisa, captura minha perna no ar na segunda tentativa e une meus tornozelos juntos com uma mão. Lágrimas banham meus olhos. Mas paro de lutar. Ele cuidadosamente me rola para o meu lado, me voltado para a parede de costas para a cama, onde sei que ele vai dormir. A ideia de ele estar atrás de mim assim durante toda a noite e não conseguir vê-lo me angustia demais. A lâmpada entre a cama desliga, deixando o quarto banhado em escuridão parcial. Ainda é cedo, logo após o pôr do sol, mas eu estou exausta o suficiente para que pareça duas horas da manhã. Choro baixinho no meu travesseiro por pouco tempo. Pensando em minha mãe e em todas as coisas que Victor me obrigou a lembrar. E penso sobre Lydia e Sra. Gregory, que viveu dois trailers acima de mim, elas são realmente a única família que eu já tive. E quando a posição desconfortável em que meus braços foram colocados se torna dolorosa, eu rolo meu corpo sem jeito para o lado oposto. Eu espreito através da escuridão para ver Victor na outra cama deitado de lado com as suas costas de frente para mim. Ele ainda está totalmente vestido. Percebo que ele tinha pelo menos tirado os sapatos, mas seus pés são cobertos por meias finas pretas. Eu me pergunto se ele ainda está acordado. "Victor?" "Vá dormir." Diz ele, sem mover um músculo. "Quando você me levar de volta para Javier, você vai pelo menos me dá uma arma?" Silêncio filtra através do espaço entre nós. "Você vai?" Pergunto novamente, agitando esse silêncio. "Isso vai me dar uma chance de lutar. Ou eu vou matar Javier ou a mim mesma, mas vou morrer sabendo que eu tentei."

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Os ombros de Victor sobem e descem lentamente, como se ele tivesse acabado de tomar uma respiração profunda. "Eu vou pensar sobre isso. Agora vå dormir."

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CAPÍTULO OITO Victor Eu estou acordado às 03h42min olhando para o cano da minha 9mm. "Qual é a senha?" A menina exige. Ela está mantendo uma distância respeitável. Impressionante. "A senha." Ela repete com firmeza, apontando com a cabeça em direção a mesa onde está o meu iPad. Eu não me movo. Ela pode ter coragem, mas ela ainda está inquieta e seria lamentável se ela me desse um tiro por acidente. "Maiúscula F, seis, oito, minúsculas 'k', três, zero, zero, cinco, maiúscula L, maiúscula P, minúscula 'w', seis." Eu poderia facilmente tomar a sua arma antes que ela dispare, no ângulo que ela posiciona, mas eu não estou pronto. Ainda não. Ela tenta relembrar cada caractere exatamente do jeito que eu disse eles. Sem ela ter que pedir, repito-o para ela e mesmo esse gesto parece confundi-la. Cuidadosamente, levanto as minhas costas da cama e ela segura a arma mais apertada. Se ocorresse de ela puxar o gatilho, ela só acertaria minha bochecha. A bala poderia passar através da minha mandíbula. Eu ficaria desfigurado, mas viveria. "Você não quer ver o que está no computador." Digo. "Você admite isso, então." Diz ela, nervosa. "Alguma coisa aconteceu. Você descobriu enquanto eu estava no chuveiro." Eu estou de pé agora. Ela ainda não atirou em mim. Ela não vai a não ser que eu tente ir atrás dela. Embora eu não estou mais tão impressionado. Se eu fosse ela, já teria colocado uma bala na minha cabeça. Eu aceno a minha resposta. Estou apenas ligeiramente surpreso que ela compreendeu tanto. Eu nunca deveria ter perguntado sobre sua mãe. Ela é uma garota inteligente, isto, embora ainda muito simpática e humana para sair dessa viva.

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Deixando a arma em sua mão direita e mantendo os olhos em mim, ela toma três passos e meio para trás e chega ao iPad, olhando entre ele e eu, um segundo cada, tempo suficiente para digitar a senha. Depois de um minuto cheio de frustração, incapaz de encontrar qualquer coisa, a menina aponta a arma para o iPad e vai até a mesa mais perto da parede. "Você levante isso." Ela exige. "Seja o que isso for." Suas mãos, ambas segurando e lidando com arma agora, estão tremendo. "Vou dizer a você uma última vez, você não quer ver isso." "Apenas mostre-me!" Ela está chorando agora. Lágrimas rolam pelo seu rosto. Percebo seu lábio tremendo no lado direito. Ela provavelmente está mal do estômago, seus nervos desgastados pra nada. Vislumbro as cordas que eu amarrei ela, deitadas no chão. Elas não foram cortadas. Ela tem mãos pequenas, pequenos pulsos. Inteiramente pela fuga artística de ter trabalhado ela mesma livre daqueles nós. Vislumbro o relógio entre as camas. Mas levou muito tempo para retirá-las, eu vejo. "Depressa!" Eu viro o iPad em torno da mesa na minha frente. Usando o meu dedo, abro a minha conta de e-mail privada e, em seguida, a pasta onde eu arquivei o anexo da mensagem que recebi ontem do meu contato. "O que você fez?" Fleischer perguntou na noite anterior através da transmissão de vídeo ao vivo. "A menina não fazia parte do acordo." Seu sotaque alemão sempre sangrando muito através do seu Inglês. "A filha de Guzmán estava lá." Disse. "Eu a vi no complexo antes de entrar na casa." Olhei uma vez em direção ao banheiro onde a menina ainda estava tomando banho depois de quinze minutos. "Javier Ruiz tem uma impressionante operação." "Tem certeza que você viu a mesma garota?" Fui ofendido pela falta de confiança de Fleischer em mim, que depois de anos de trabalho em conjunto e nunca estar errado em minhas avaliações que ele iria tentar adivinhar as minhas conclusões.

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"Era a mesma garota." Confirmei uniformemente. "Levei metade do dinheiro que Javier combinou e parti, como eu estava condenado a fazer". "E então, como é que você acabou com a outra garota?" "Ela escapou do complexo e escondeu-se no meu carro". "E você não sabia que ela estava lá?" Ele parecia surpreso. "Sim, eu sabia." Confirmei. "Então explique por que-" "Lembre-se, Fleischer, que você não é meu patrão. Seria sensato não falar comigo como se você fosse." Fleischer engoliu seu orgulho e levantou o queixo para parecer mais confiante em seu momento abaixo de mim. "O que Javier ofereceu para ter Guzmán morto?" "Não é uma fração do que Guzmán ofereceu para matar Javier e Izel e para o retorno seguro de sua filha." Eu acrescentei: "Eu poderia ter cumprido o contrato, enquanto eu estava lá." "Sim." disse Fleischer. "Mas isso não fazia parte do plano, o mesmo quanto a mantém a fugitiva com você." "A menina será útil." "Até agora, ela provou nada, mas." disse Fleischer, recuperando a confiança que eu tirei dele antes. "Tudo mudou. O plano. O contrato. Suas ordens." "Quais são as minhas novas ordens?" Perguntei. "Vonnegut não deu nenhuma nova ordem ainda." Disse ele. "Ele espera que eu entre em contato. Suas novas ordens vão depender das informações que recebo de você agora."

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Fleischer e eu fechamos os olhos para esse momento, ambos partilhando o mesmo pensamento: Você é meu irmão e eu não vou fazer nada para te trair, não importa nossa profissão ou as ordens que qualquer um de nós está sempre recebendo. Ninguém, mas nós dois sabemos que compartilhamos o mesmo pai. Mas, ao longo dos anos, desde a recruta pela Ordem quando éramos meninos, temos crescido separados. Muitas vezes, é fácil esquecer que compartilhamos o mesmo sangue, especialmente por Fleischer, primeiro nome Niklas, que tem vivido a minha sombra na Ordem por tanto anos. Eu simplesmente assinto com a cabeça, sabendo que Niklas iria retransmitir ao nosso empregador, Vonnegut, tudo o que eu precisava. Para manter a relação entre eu e meu irmão, eu ofereço a ele informações que ele nunca pediu: "A menina vai ser útil, Niklas." Eu repeti, chamando-o pelo primeiro nome para oferecer uma trégua. "Parece que ela é mais do que Javier gostaria que nós soubéssemos." Niklas assentiu em resposta, entendendo minha intenção. "Você quer usar a menina para o negócio pela filha de Guzmán." Ele afirma. "Se, se resumir a isso, sim." Digo. "Diga a Vonnegut que tenho isso sob controle, mas que vou aguardar quaisquer ordens que ele escolha." "Eu vou dizer a ele." Niklas concorda. Em seguida, cliquei no botão 'play', para assistir ao vídeo que Javier enviou para Vonnegut, em que Fleischer como meu contato, foi, então, ordenado para repassar para mim. É exatamente como pensei: Javier tem a amiga da menina, Lydia, em uma posição comprometedora. Ele quer que a menina veja isso, saber que se ela não se entregar ou me convencer a levá-la de volta a ele, Lydia vai morrer. Eu soube então enquanto observava a cena se desenrolar no vídeo diante de mimm, que este traficante mexicano era muito mais brutal do que a Ordem sabia.

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Ouvi o chuveiro desligado e corri meu dedo sobre a tela para desligar o vídeo, fechando o iPad depois. A menina vai ficar devastada. Se ela descobre sobre isso, isso vai deixá-la instável. Mas eu posso usar isso também para a minha vantagem. Com o vídeo gravado passando agora na tela, eu torço o iPad em torno da mesa para enfrentar a direção da garota. Ela olha para ele por apenas segundos, a arma tremendo em sua mão, e depois de volta para mim mais uma vez, com medo de que eu possa fazer uma jogada. Mas quando ela vê sua amiga, Lydia, ela volta a sua atenção apenas no vídeo, abandonando sua vantagem. Não tiro proveito disso. Deslizo minhas mãos nos bolsos da calça e fico aqui observando os olhos da menina alargar com ansiedade enquanto o vídeo é reproduzido. Javier circula Lydia que senta-se amarrada a uma cadeira, um lenço vermelho está enfiado em sua boca. Lágrimas e suor encharcam seu rosto. Seu olho esquerdo está inchado e machucado. Um filete de sangue pinga de uma narina. "Para você, Sarai." Javier diz para a câmera enquanto Izel fica ao lado de Lídia, seus cabelos arrancados nos punho de Izel. "Eu quero você de volta aqui em 36 horas." A menina aperta a mão livre sobre os lábios trêmulos. A arma não foi apontada diretamente em mim pelos últimos longos segundos. "Ou ela vai morrer e vai ser culpa sua." Izel puxa para trás o punho e o enterra no rosto já machucado e espancado de Lydia. O corpo amarrado de Lydia cambaleia para trás e mais lágrimas nascem de seus olhos. Sangue irrompe no seu lábio inferior. A menina deixa cair a arma no chão e chega ao iPad, o empurrando e limpando a mesa e, em seguida, ela cai no chão de joelhos, soluçando em suas mãos. Sento-me no final da cama, deixando a arma no chão e a menina sozinha em seu momento de desespero.

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CAPÍTULO NOVE Sarai Eu não consigo ver direito. Através das lágrimas ardentes, por meio do borrão na frente dos meus olhos, através da raiva e ódio e o ferido curto-circuito no meu sistema nervoso. Meu corpo de alguma forma encontrou o caminho para o chão. Eu coloco meu rosto pressionado contra o tapete. Não Lydia ... ninguém, mas ela. Ela é inocente e frágil. Ela nunca vai ser capaz de suportar isso. Não como eu.... Leva muito tempo para chegar à conclusão de que eu não sou mais aquela segurando a arma, que eu não estou mais no controle. Um momento de fraqueza, traumatizada com o sofrimento da minha amiga, retirou esse privilégio de mim. E mereço. Mereço não importa a punição que o destino considere apropriada a cumprir, porque eu fui embora e Lydia não. Deveria ter usado o telefone a menos de cinco metros de mim na cabeceira entre as camas, para chamar a polícia. Deveria ter chamado eles antes de obrigá-lo a acordar, mas fui muito insistente em saber que informação Victor sabia que eu não. Eu ainda tinha esperança de que talvez ele iria me ajudar, pelo menos pra me dizer a localização do complexo, então eu teria algo a dizer as autoridades. Deveria ter atirado nele quando tive a chance. Do canto do meu olho, vejo as meias pretas de Victor plantadas imóveis no chão. Inclino a cabeça para trás só um pouco, meus olhos se arrastam até a parte traseira da calça, para a cintura. Seus antebraços estão descansando ao longo do comprimento do topo das pernas, as palmas das mãos apoiada levemente nos joelhos. Ele se senta com as costas bastante retas, seu olhar fixo na frente. Finalmente, sua cabeça se move quando ele desvia os olhos para mim. "Eu sinto muito." Diz ele com absolutamente nenhuma emoção em suas palavras, ainda que de alguma forma eu detecte o mais leve indício de emoção escondida atrás de seus olhos.

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"Você tem que me levar de volta." Digo, levantando e ficando de pé. "Você não pode deixá-la morrer." Minha voz treme. Victor se senta na mesa de novo e começa a vasculhar sua mochila. Eu não importo-me de saber o que ele está fazendo ou o que ele pretende fazer daqui em diante. Sobretudo o que eu penso é em Lydia e o que eu vi nesse vídeo, a imagem vai ficar gravada na minha mente para sempre. Uma parte de mim quer culpar Victor por tudo isso, simplesmente porque ele é o que ele é e que ele poderia ter se tornado humano só o tempo suficiente para me ajudar a tirá-la de lá. Mas eu estou de volta culpando a mim mesma, porque, na verdade, eu nunca pedi a Victor para me ajudar a libertá-la. Ele se recusou a me ajudar, mesmo assim eu sabia que ele não iria voltar lá para ela. É tudo culpa minha. Eu poderia ter feito as coisas de forma diferente, planejado minha fuga diferente. Poderia ter forçado Lydia a sair pela janela comigo naquela noite. Parece que há um monte de coisas que poderia e deveria ter feito. Nunca imaginei que eu seria a menina muda no filme de terror correndo para a casa assustadora, ou lutando sobre meus próprios pés enquanto tropeçava através dos bosques escuros. Acho que por padrão estamos todos nós batendo nossas cabeças com a estupidez dos outros até que somos forçados nós mesmos a experiências traumáticas. O sol da manhã lentamente começa a inundar o quarto. O único movimento que fiz durante toda a noite foi virar para o meu outro lado no chão para manter Victor na minha mira. Eu não tenho medo dele. Não mais. Mas eu não podia evitar saber onde ele estava, no entanto. Minhas costas doem e meu rosto coça da marca do tapete desalinhado deixada na minha pele. Victor se senta na cadeira ao lado da mesa agora com seus sapatos como se ele estivesse esperando o dia chegar tranquilamente. Levanto o meu corpo dolorido do chão e fico em pé. "Eu não me importo mais com o que você faça comigo." Digo. "Só por favor me leve de volta para Javier. Não tenho muito tempo.

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O rosto de Victor revela curiosidade. "Não vou voltar para o complexo." Eu pisco, as lágrimas de volta, chocada com suas palavras. "O quê? Não..." Eu balanço minha cabeça em sinal de protesto. "Não, você tem que me levar de volta! Você viu o vídeo! Eles vão matá-la!" Ele se levanta da cadeira e endireita as mangas da camisa branca que ele veste agora enfiada habilmente na sua calça e os botões em torno de seus pulsos fortes. "O plano mudou." Diz ele tranquilamente. Eu praticamente me jogo na direção dele, parando a poucos centímetros de seu corpo, meus olhos arregalados, selvagens e incrédulos. "Não, Victor!" Ele recua. "Eu tenho que voltar! Você não entende! Nós... Eu tenho que ajudá-la! Quero Izel morta! Eu quero Javier morto pelo que ele fez!" "Ele vai ser." Diz Victor. Ele se vira para o lado e fecha a sua mochila. Eu pressiono os últimos centímetros de espaço entre nós e, em seguida, empurro ele com as duas mãos. "Eu vou voltar com ou sem você!" Ele pega-me pelos pulsos, prendendo-os firmemente dentro de seu alcance. "Por favor..." A palavra sai com cada grama de desespero em mim. Ele examina o meu rosto, tão perto que eu posso sentir o hálito quente exalando das suas narinas. "Basta ter paciência." Diz ele, atordoando-me com o silêncio. Ele solta os meus pulsos quando ele me sente começando a recuar e afastar dele. "Paciente?" Eu não posso acreditar no que ele está dizendo para mim. "Não há tempo para ser paciente! Como você pode dizer isso?" Ele se inclina e fixa as mãos debaixo do colchão da cama mais próxima da janela e o levanta para o lado revelando um espaço vazio debaixo cercado pela moldura de madeira que sustenta a cama. Ele pega os sacos de lona, oculta-os lá dentro e depois a mala, ajustando o colchão de volta. "Estou aguardando palavra." Diz ele.

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"Palavra de quem?" Ele suspira, irritado com a minha pergunta. "De Javier." "Por quê?" Eu não sei o que dizer, ou no que acreditar, tudo que eu sei é que a minha mente está girando com tudo que está acontecendo e eu não consigo acompanhar. Victor caminha até a porta e olha para mim. "Vamos lá." Diz ele, assentindo com uma inclinação para trás com sua cabeça para que eu o siga. "O quê, você não vai amarrar minhas mãos, ou me arrastar pelo corredor pelo meu pulso? E se eu fugir?" "Você não vai." "Então, você acha que não?" Eu me oponho Ele balança a cabeça uma vez. "Não, você não vai, porque eu sou o único de nós que sabe o caminho até Javier." Eu só fico parada aqui. Victor coloca a mão sobre a maçaneta prateada e abre a porta. "Você vem, ou você vai ficar aqui?" Talvez ele vá me ajudar depois de tudo. Talvez depois de ver o que Izel e Javier estão fazendo a Lydia, Victor se lembre de como se sente ao estar com remorso, se de algum modo ele já conheceu como essa sensação se parece. "Para onde estamos indo?" Eu pergunto, sabendo que não pode ser muito longe se ele está deixando as malas aqui. "Para o café da manhã."

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CAPÍTULO DEZ Victor Mais de duas horas se passaram e não houve nenhuma palavra. Nada de Niklas ou Vonnegut. Nada de Javier ou Guzmán. A menina está além do ponto de inquietação. Eu comprei o café da manhã no hotel, mas ela dificilmente comeu um pedaço, só remexeu o seu omelete com o garfo. Pode ser resultado da sua preocupação com a sua amiga, mas acho refrescante, a sua súbita incapacidade de fazer perguntas contínuas ou tentar conversar comigo. Pergunto-me se ela ainda tem intenção de tentar entrar em contato com membros da família. Acho que é difícil acreditar que, apesar da situação grave com sua querida amiga, ela também não demonstraria interesse em chamar a irmã, avó ou uma tia. Que ela não usou a única oportunidade que teve na noite passada enquanto eu estava dormindo. Isso me deixa com duas teorias: ela se preocupa mais com a vida de sua amiga, ou ela não deixou nenhuma família. Talvez as duas coisas. Estou bastante certo de que é isso. Eu sinto meu celular vibrando contra a minha perna e eu me levanto da mesa no lobby e alcanço para recuperá-lo. A menina fica imediatamente atenta a mim. O nome codificado do meu irmão é lido na tela. "Quem é?" A menina pergunta, levantando-se comigo. Eu corro meu dedo sobre a barra de resposta, mas mantenho o telefone, de frente contra meu peito. Apontando para a menina voltar a sentar, eu digo: "Eu quero que você fique aqui. Eu vou lá fora atender esta ligação. Eu confio que você estará aqui quando eu voltar". Eu sei que ela não vai a lugar nenhum. Claramente querendo nada mais do que seguir-me e ater-se a todas as minhas palavra, ela toma uma respiração profunda, pesada, cruza os braços e senta novamente no seu lugar.

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"OK." Ela range os dentes de atrás apertando suavemente os lábios. Eu saio pelas portas da frente e coloco o telefone no meu ouvido. "Eu vou colocar Javier nesta ligação." Diz Niklas. "Você está preparado?" "Sim." Respondo e aguardo enquanto Niklas faz a transferência. A voz de Javier ferve com raiva mal controlada quando ela chega até mim: "Você vai morrer pelo que você fez." Diz ele em Inglês. "Sarai deveria ter sido trazida de volta para mim no segundo que você achou ela!" "O que está feito, está feito." Digo. Eu ouço ele respirar fortemente em três percursos. Niklas fica escutando tranquilamente. Finalmente, Javier se controla. "Eu ainda quero o sucesso sobre Guzmán realizado pelo preço que nós concordamos, mas vou dar-lhe um outro um milhão de dólares americanos para também matar Sarai." Matar ela? Eu não esperava que minha comunicação com Javier me surpreendesse. De fato, isto é muito interessante. "Por que você quer vê-la morta?" Eu pergunto. "Isso não importa." Diz ele. "As razões não importam neste negócio. Você deveria saber disso." Eu sei disso, e esta é a primeira vez que eu já perguntei por que um cliente queria um alvo morto. "Eu tenho uma oferta melhor para você." Anuncio. "Você traz a amiga da menina, Lydia e uma outra garota do seu composto, uma foto será enviado para você imediatamente após esta ligação, à Green Valley, Arizona, em 24 horas. Eu troco com você essa garota por aquelas duas e então mais tarde eu vou matar Guzmán e, em seguida, dar-lhe as meninas de volta depois de já ter sido pago na íntegra."

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Eu não tenho que ouvir Niklas comentar para saber que ele está em completo desacordo com isso, mas ele permanece em silencio. "Você quer dizer a filha de Guzmán." Javier sonda, sabendo. "Estou certo?" "Sim." Digo. "Se isso já não estiver obvio, Guzmán vai pagar para tê-la de volta para ele." Javier ri. "E todo esse tempo eu pensei que ele estava tentando me matar!" Ele arrasta-se na sua revelação humorística. "Você é bom." Diz ele. "Eu dou isso a você. Nocautear dois contratos ao mesmo tempo. Mostrar a Guzmán sua filha, pegar o dinheiro para trazê-la para ele, em seguida, virar-se e matá-lo e pegar o dinheiro que eu paguei para tê-lo morto." Ele ri novamente. Eu me mantenho calmo e sem emoção. "É um acordo, ou não?" "Então você está passando o contrato para matar Sarai?" ele pergunta. "Agora." Começo. "Ela é a minha única alavanca. Uma vez que eu faça o que você pagou para ser feito, e der ela a você de novo, faça o que quiser com ela. Não é do meu interesse." Niklas termina a chamada depois de ter chego a outro acordo. Ele me liga de novo, uma vez que ele sabe que a linha de Javier foi desconectada. "Victor, você não pode fazer isso." Afirma Niklas. "Você está fechando acordos sem— " "Quais são as novas ordens de Vonnegut?" Eu pergunto. Eu olho pela janela para ver a menina ainda sentada ansiosamente no lobby do hotel. "Ele não deu ordens, ainda." Diz Niklas. "Você não tem permissão para aceitar esses acordos, apenas para aplicá-los." "Então diga a Vonnegut que eu estava apenas tentando manter as cartas na mão." Explico. "No momento em que Javier perceber que não tenho autoridade para

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oferecer e concordar com os termos é o momento em que ele acreditará que ele pode sair impune com mais exigências. Eu digo sem desrespeito, mas Vonnegut deve confiar em mim. Ele sempre confiou em minhas decisões antes. Ele não tem tido nenhuma razão para parar agora." Niklas permanece quieto. Eu acredito que ele reserva este fato contra mim, que a Ordem confia em mim, ainda que nunca lhe dessem o mesmo luxo. "Muito bem." Niklas concorda. "Eu vou dizer a Vonnegut. Mas Victor, você está se tornando desgovernado." Ele faz uma pausa, como se para decidir se ele deve ou não continuar. "Desde a missão em Budapeste no ano passado. Tenho notado a diferença em você. A Ordem acredito que não tem, mas é só uma questão de tempo." "Niklas." Eu digo a ele com cuidado como meu irmão e não como meu contato. "Agradeço por sua discrição. Agora, você vai fazer algo por mim?" "Quando eu já recusei?" Eu deixo Niklas, colocando o telefone de volta no bolso e volto pra dentro para encontrar a menina. Ela estava andando, quando ela me percebe, ela para e descruza os braços e os deixa cair para os lados, um olhar questionador carregado no rosto. "Venha comigo." Digo, pegando ela pelo cotovelo. "Para onde estamos indo?" Ela segue ao meu lado sem questionar ou argumentar. "Ao Green Valley." "Mas por que, Victor? O que está acontecendo?" Eu olho para ela por um momento e puxo o braço dela quando nós viráramos a esquina no topo da escada. "Eu vou dizer a você em breve." Digo. "Mas, primeiro, há algumas coisas que você precisa me dizer."

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Nós vamos até o corredor e paramos na frente da porta do nosso quarto enquanto eu pego meu cartão-chave dentro do meu bolso. A menina parece confusa. "Você precisa me dizer por que Javier Ruiz gostaria que você morresse." Sua expressão cai sob um véu de choque.

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CAPÍTULO ONZE Sarai Victor caminha rapidamente, mas casualmente pega o colchão de molas e levanta. Com um braço mantendo-se, ele alcança e agarra cada saco, um por um e os coloca de lado. "Eu não entendo." Digo, cruzando os braços e esfregando-os com as mãos opostas, para cima e para baixo como se houvesse um frio no ar. "Ele disse que ele ia me matar?" Victor abre o zíper da mochila na mesa e verifica através do conteúdo. "Não, ele me ofereceu um milhão para matá-la por ele." Eu pestanejo atordoada e apenas fico aqui em descrença, mais arrepios irrompem por todo o meu corpo. Victor surge na minha frente e coloca as duas mãos sobre meus ombros. Ele me empurra suavemente até a beira da cama onde eu sento de bom grado. Então ele senta em uma das cadeiras sob a mesa, virando-a totalmente ao contrário para que ele possa me enfrentar. "Por que Javier quer você morta, o suficiente para pagar tanto para ter você assassinada?" Distraidamente, eu levanto os meus olhos procurando os dele, ainda um pouco perdida em meus pensamentos. "Eu... eu não sei." Gaguejo. "Sim, você sabe." Ele insiste. "Talvez não diretamente, mas algo me diz que, no fundo, uma parte de você tem alguma ideia... Pense." Eu olho para o lado, tentando lembrar meu tempo no complexo, procurando o que poderia ser a resposta. Quando muitos longos segundos passam e eu não encontrei nada, Victor levanta a parte traseira da cadeira tempo suficiente para saltar mais perto de mim. Isso ganha a minha atenção novamente.

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"Eu preciso que você me diga tudo." Diz Victor com a intenção mansa. "Diga-me sobre seu relacionamento com Javier. Você disse que acredita que ele está apaixonado por você." Concordo com a cabeça em um movimento lento e rápido. "Sim. Ele me disse uma vez que ele estava apaixonado por mim, mas eu julgo melhor. Ele é louco. Possessivo. Mas ele me protegeu de coisas que as outras meninas tinham que passar." Não gosto de pensar sobre essas coisas, e muito menos falar abertamente sobre elas. Tenho vergonha e odeio-me pelo que elas suportaram. "Ele protegeu você?" Victor pergunta: precisando de mais informações. "Sim. Eu estava fora dos limites para os homens de Javier. E Izel, bem, Javier quase matou-a quando ela bateu no meu rosto uma vez. Depois disso, ela não tinha permissão para me tocar. E também foi permitido a mim, luxos que as outras meninas não tinham. Chuveiros quentes e boa comida e eu podia ver lugares fora do complexo. Eu ainda voava num avião pequeno com ele várias vezes. Javier raramente me deixava fora de sua vista. Izel odiava-me por isso, acusava Javier de 'ser mole', caído por uma ‘garota americana estúpida’.” Uma centelha de intriga passa pelos traços de Victor. "Que tipo de lugares você foi levada?" Eu dou de ombros suavemente e deixo minhas mãos caírem no meio das minhas coxas, meus dedos enrolando nervosamente ao redor um do outro. "Às vezes." Começo "Ele levava-me com ele para as casas de outros homens ricos, com piscinas azuis cintilantes em forma de ferraduras e outras coisas estranhas. Javier dizia que era apenas para fazer contato, mas eu sabia que estávamos lá pelo tráfico de drogas. E meninas. Às vezes a gente voltava com uma nova. Ele se vestia elegantemente num belo terno e sapatos pretos brilhantes como o seu." Dou uma olhada brevemente abaixo nos sapatos de Victor. "Ele não se parecia com o babaca que você viu no outro dia, vivendo na sujeira. Ele é rico, apesar do que você viu." "Eu juntei muito."

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Eu prossigo: "E é claro que ele fazia eu me vestir elegantemente, também." Eu baixo os meus olhos vergonhosamente, principalmente porque às vezes eu gostava disso, vestir-me elegantemente e ser tratada como uma princesa. Foi assim que eu sempre pensei sobre isso: uma princesa, tão perturbada quanto eram as circunstâncias. "Sentia-me como um troféu no seu braço." "Isso é exatamente o que você era." Ele diz e olho para ele de novo, silenciosamente atormentada pelas suas palavras. "Você se lembra de algo sobre os homens cujas casas você era levada?" "Sim." Digo acenando a cabeça. "Mas eu acho que eram casas de férias, ou alguma coisa assim." "Por quê?" "Porque eles mencionavam coisas sobre como eles estavam no México, só por uma semana, ou como eles estavam indo para a Califórnia, ou Nevada, ou Florida, lugares como esses." "Eles eram americanos?" "Alguns deles eram, eu tenho certeza que eles eram." Digo. "Eles não tinham acentos estrangeiros de qualquer maneira. Eles definitivamente não eram mexicanos, isso é certo." Eles podem ter vindo da americana, mas eu sabia que eles não me ajudariam como eu esperava que Victor faria. Eles eram tão maus quanto Javier. Dois deles já tentaram me comprar dele. Não, nenhum deles jamais teria me ajudado a escapar, então por isso eu considero Victor o primeiro americano que eu já vi em nove anos. Os homens perderam esse privilégio pela associação. "Você se lembra de algum de seus nomes?"

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Victor parece mais ansioso agora do que eu já o vi, mas ele ainda consegue manter uma fachada impassível quase impecável. Eu penso, tentando e necessitando lembrar. "Não." Digo, frustrada comigo mesma, " Agora não, mas ouvi os seus nomes na ocasião quando um se apresentava ao outro." Faço uma pausa e digo com mais emoção "Victor, o que é isso?" Seus perigosos olhos azulados travam nos meus. "No complexo, ou em qualquer lugar Javier poderia ficar de olho em você e controla-la, você não era uma ameaça para ele. Mas agora que escapou, você é uma ameaça maior do que ninguém, porque sabe muito. É evidente que Izel estava certa em pensar que ele era tolo com seus sentimentos por você, ele provavelmente nunca antecipou sua partida. Você estar viva e livre é uma ameaça para toda a sua operação e todos os envolvidos nisso." Penso nisso um momento, deixando a verdade óbvia das palavras de Victor entrar na minha mente. Eu posso nunca saber onde fui mantida no México, e até agora não seria capaz de dizer as autoridades americanas onde Lydia e as outras meninas estão sendo mantidas contra a sua vontade, mas sei os nomes, ainda escondidos na parte de trás da minha memória, mas no entanto, eles estão lá. E me lembro de rostos e conversas, embora casuais eles ainda mantinham muitos pequenos pedaços de informação que, suponho, entregues para as pessoas certas poderiam expô-los como traficantes de drogas e sexo. "Larsaw, ou talvez Larsen." Digo de repente quando o nome aparece na ponta da minha língua. "Gerald Larsen. Lembro que ele foi o primeiro americano que foi ‘apresentado’ quando Javier levou-me a minha primeira casa. Ele tinha cabelos brancos. Ele era gordinho. Mas nunca fui diretamente apresentada a ninguém. Não estava autorizada a falar. Aprendi seus nomes, ouvindo suas conversas." Victor parece pensar profundamente e balança a cabeça de repente. "John Gerald Lansen é o CEO da Balfour Enterprises e fundador da mais respeitável organização de caridade para acabar com a violência contra as mulheres nos Estados Unidos." Ele olha diretamente para mim. "A informação que você

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mantem, não importa quão insignificante você acha que tudo isso é, poderia derrubar um monte de gente de alto perfil. Eu imagino que se a notícia de que você escapou se espalha e certa pessoa, uma irmã vingativa, talvez." Diz ele, eu sei referindo-se a Izel. "Decide contar as pessoas certas, mais pessoas do que Guzmán vão querer pagar para ter Javier morto e Javier sabe disso." Isso me atinge como um choque de eletricidade e eu pulo da cama e tento correr até a porta. Victor pega-me no meio do caminho, agarrando-me pela cintura. Giro em torno dele, esmurrando ele cegamente. Eu consigo atingi-lo, mas não sei onde pois, meus punhos se movem desajeitadamente e num movimento tão caótico que os meus olhos não podem manter-se dentro da briga. Minhas costas batem no chão e eu olho para cima, meu cabelo ruivo chicoteando selvagemente em volta do meu rosto, vendo Victor prendendo-me, montando minha cintura. "Deixe-me ir! Deixe-me ir, maldição!" Debato-me sob seu peso, sem conseguir fazer muita coisa com as minhas pernas, minhas mãos presas contra o chão acima da minha cabeça, presa por ele. "Ele vai me matar! Alguém ajude!" Ele consegue segurar meus dois pulsos com uma mão, a outra ele pressiona sobre a minha boca para abafar meus gritos. Lágrimas disparam dos meus olhos. Eu imploro a ele várias vezes, a minha voz quase completamente fechada pelo peso de sua mão. "Eu não vou te matar." Ele diz calmamente. "Se fosse minha intenção, você já estaria morta." Ele espera que o meu corpo tenso acalme um pouco antes de eu sentir sua mão soltar muito levemente. "Você vai ficar quieta?" Concordo com a cabeça, porque eu ainda não posso falar com a mão dele sobre a minha boca. Finalmente, depois de um longo momento, Victor desloca sua mão lentamente.

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"Por que você não me mataria?" Eu pergunto, minha voz ainda trêmula e embargada pelas lágrimas. "Ainda me usando como alavanca?" "De certa forma, sim." Ele responde. Eu quero gritar de novo, enquanto eu tiver uma chance, mas suas palavras me mantém a partir de: "E eu não mato pessoas inocentes." O silêncio enche o pequeno espaço entre nós. "Ninguém é inocente:" Eu estalo, me surpreendendo. "Muito menos eu. Por anos eu deixei o assassino nojento me violar e eu nunca disse que não. Sentei-me e observei em silêncio enquanto ele e os seus homens e aquela irmã puta dele espancavam e estupravam e vendiam as meninas que eu me tornava íntima. Eu não fiz nada. Eu nunca gritei ou reagi ou me defendi de qualquer um deles. Nenhum único." Ouço minha voz começando a aumentar com raiva, mas não me importo. Eu cerro meus punhos no meu peito, olhando em seus olhos enquanto ele permanece sentado em cima de mim.

"Eu fingia que nada me incomodava, que as mãos de Carmen sendo

despedaçadas por aquele martelo não me intimidava! Eu não vacilei quando Marisol foi forçada a fazer um aborto por um médico açougueiro que a deixou sangrando até a morte em cima da mesa! Eu não derramei uma única lágrima quando a menina com sardas e cabelo vermelho foi morta na minha frente, porque o homem que veio comprála não gostou do que viu!" Eu trago os meus punhos e bato com eles no topo das pernas, de raiva, mas ele pega meus pulsos e os mantém solidamente. "Eu não sou inocente." Eu rujo. Sinto suas mãos distenderem meus pulsos, mas minha cabeça está muito nublada pela emoção para me importar. As coisas que eu admiti são as coisas que me assombraram durante muito tempo. Elas foram enterradas na minha alma, queimando até o meu âmago, deixandome sem emoção e tornando-me uma pessoa totalmente diferente do que eu deveria ser. Deixo minha cabeça cair para o lado, sentindo a angústia da derrota. Eu não posso mais olhar pra ele. Não por raiva ou ódio ou vingança, mas por vergonha. Eu não

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posso olhar um assassino nos olhos, não só porque eu não sou melhor do que ele, é possível que eu seja pior. "Você é muito forte." Diz ele e ergue seu corpo do meu. "Com forte instinto de sobrevivência. É a única coisa que a separa das outras meninas. Como elas, você ainda estava mantida lá contra a sua vontade. Você estava fazendo coisas contra a sua vontade. Você era física e emocionalmente abusada. Você não deve se culpar pela fraqueza delas." Ele volta para a mesa. Eu me levanto do chão e apenas olho através dele, tentando que as suas palavras façam sentido. Ou, talvez a culpa que eu nutri por tanto tempo está apenas tentando forçar-me a não acreditar nelas. Ele olha para mim e acrescenta: "Você fez a coisa certa." Eu balanço minha cabeça. "Não. Eu não fiz. Eu deveria ter feito alguma coisa para ajudá-las." Victor põe num ombro seu saco militar e leva a mala de viagem no outro. "Você fez." Diz ele, agora em pé na minha frente. "Você manteve a calma. Você esperou por sua oportunidade. Você fingiu um estágio de aceitação e confiou. Você está arriscando sua vida agora para voltar por essa menina." Ele passa por mim e vai em direção à porta, virando-se para olhar para trás, uma vez que ele chega lá. "Você é inocente." Ele diz. "E é por isso que você ainda está viva." Então, ele abre a porta e hesitante, eu o sigo para fora.

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CAPÍTULO DOZE

Chegamos em Green Valley quase três horas depois. Nós dois estivemos sentados em silêncio na maior parte da viagem. Eu tinha muito que pensar, muitas questões não resolvidas para resolver, que eu não concluiria em tão pouco tempo. E vai levar muito tempo para me livrar da culpa, se alguma vez conseguir. Eu não me importo que as coisas que Victor disse fazem sentido, eu ainda me sinto como a pessoa mais egoísta do mundo pelo que eu fiz. Eu provavelmente vou me sentir assim para sempre. E eu perguntei a Victor porque nós estávamos indo para Green Valley. Ele havia dito antes que iria me dizer o que estava acontecendo, mas quando chegou a hora, ele foi vago. Ele disse-me que tinha uma troca para fazer perto de Green Valley, mas não quis entrar em detalhes. Eu acho que toda a conversa que ele teve no hotel em Douglas foi o seu limite de palavras num diálogo. Porque ele se voltou pra dentro de si de novo assim rapidamente, o quieto, reservado, assassino intimidante que, por razões desconhecidas para mim, é com quem eu quase me sinto completamente segura. Paramos num estacionamento no final de uma estrada ladeada por estância de casas. Eu já estive aqui antes, uma vez com minha melhor amiga, quando sua irmã mais velha nos pegou da escola no seu carro novo. Nós tínhamos estado perdidas e ela usou este lugar para virar. Foram semanas antes da minha mãe me obrigar a ir ao México com ela e Javier. Este lugar familiar me faz lembrar que estou muito perto de casa. Estou tão perto que eu poderia andar até lá. Seriam necessárias várias horas, mas eu poderia fazer isso. Mas para onde eu iria? Victor desliga o motor da caminhonete. Eu presto atenção através do para-brisa para ver a divisão de árvores e arbustos que separam o estacionamento da interestadual. Um carro voa a cada poucos segundos. Mas o estacionamento está vazio, exceto um único carro estacionado a distância de uma lixeira. No entanto do outro lado do terreno, ao longo de um pequeno muro de concreto, há muitos veículos estacionados na parte externa de um shopping Center.

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Pergunto-me

por

que

ele

escolheu

um

lugar

público,

embora

predominantemente calmo e abandonado, para fazer o que quer que nós viemos fazer aqui. Porque Javier não se importa sobre público ou correr o risco de um inocente ser pego em seu fogo cruzado. "Fique no carro." Victor diz, pouco antes de fechar a pesada porta de metal. Ele anda por aí quando um elegante SUV preto entra no parque de estacionamento por trás das casas. Meu coração imediatamente começa a bater. Eu escapulo abaixo do assento, mas mudo para o lado dele de modo que, eu possa ter uma visão melhor de fora da janela. Eu quero ver, mas eu não quero ser vista. Victor começa a caminhar de volta na direção do carro e o SUV o segue. Eu engulo duramente e encontro-me praticamente no chão agora, o topo da minha cabeça pressionada com força contra o volante. A porta do lado do motorista se abre, expondo minha posição desconfortável. Esse outro homem está de pé ao lado de Victor, ambos olhando para mim. O homem estranho, que eu noto parecer um pouco com Victor: com sua alta estatura, cabelos castanhos, olhos azuis e maçãs do rosto esculpidas, acena com a cabeça para mim como se fosse sua maneira de dizer olá. Desnecessário dizer que, estou com muito medo e incerta dele, para dar a mesma cortesia. O homem, embora ainda me olhando como se eu fosse um tipo de espécime peculiar que merece estudo, diz algo a Victor em outro idioma. Não é espanhol. Victor responde a ele nessa mesma língua, que eu estou começando a achar que é provavelmente alemã. O homem finalmente olha para Victor. "Este é Niklas." Victor me diz. "Você vai andando com ele e me segue pra outro lugar aqui perto." Instantaneamente, sinto minha cabeça balançando pra cá e pra lá em recusa. Victor estende a mão para mim, mas a rejeito. Em vez disso, começo a andar até a saída pelo chão e vou em direção ao outro lado do carro. Sinto a mão de Victor envolver em torno da minha coxa.

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"Ele não vai prejudicá-la." Victor diz. "Esta caminhonete não é segura para você se Javier ou os seus homens abrirem fogo sobre nós." Eu olho pela janela para o SUV, supondo que ele tem algum tipo de janelas à prova de balas, talvez. Eu não me importo de ficar, eu simplesmente não quero ser deixada sozinha com este homem, veículo seguro ou não. "Isto não é muito cooperativo." O homem chamado Niklas diz em Inglês. Ele definitivamente tem um sotaque, ao contrário de Victor, que parece falar fluentemente em qualquer linguagem que ele saiba. "Sarai." Victor diz meu nome e ele me choca, fico imóvel, ele nunca me chamou pelo meu nome antes. "Eu estou pedindo para você cooperar." Eu procuro dentro dos olhos agressivos de Victor e mantenho o meu olhar por um momento, deixando minha mente sair da reação inesperada para a qual ela foi, quando ele dizendo meu nome. Meu corpo relaxa e, em seguida, logo após Victor deslizar os dedos longe da minha coxa. Eu olho pra cá e pra lá lentamente, ainda não tendo certeza, mas agora mais disposta. "Você vai me dizer o que vai acontecer?" Eu pergunto, olhando para os dois, mas Victor sabe que a pergunta é para ele. Niklas mantém os frios olhos azuis fixos em mim, mas parece mais uma natureza observadora do que uma possessiva. "Nós vamos nos encontrar com Javier não muito longe daqui, em uma área mais isolada. Lá, sua amiga será entregue a nós." Um sentimento escuro de incerteza de repente cresce dentro da boca do meu estômago. Eu estreito meu olhar sobre Victor. "Só isso?" Eu pergunto cética. "Não, Javier não estará apenas cedendo a isso. Ele vai..." Eu recuo novamente contra a porta do lado do passageiro, minha mão já na maçaneta no caso de eu precisar fazer uma corrida por isso. "...não há nenhuma maneira de que ele faria isso. Você está trocando-a por mim, não é verdade?" Minha voz se eleva. "Não é verdade!"

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"Sim." Diz Victor. Niklas permanece calmo e tranquilo e sempre tão observador. Está começando a me enervar. Mas, então, eu percebo e desvio o olhar de ambos. Eu observo a paisagem pelo para-brisa e os carros no outro lado da parede de concreto, mas eu realmente não vejo nada disso. Tudo o que vejo é o rosto de Lydia na minha mente, do jeito que eu a vi a última vez no vídeo: machucada e sangrando e com lágrimas e assustada. Eu sei que é o que precisa ser feito. Um comércio: eu por Lydia. Isso é algo que eu sei que Javier aceitaria, agora mais do que nunca. Mas ele quer me matar... Minhas mãos apertam o assento de couro esfarrapado abaixo de mim, meus dedos cavando o isolamento da almofada exposta. Todo o meu corpo treme de pavor. Mas então eu teimosamente forço o medo para fundo da minha mente. Talvez ele não me mate uma vez que ele me tenha de volta. Eu poderia continuar fingindo que estar com ele é onde quero estar. Eu poderia até fingir que Victor me sequestrou. Eu sei que posso enganar Javier. Eu sei que eu posso! Eu fiz isso por anos! Eu fiz ele confiar em mim, tanto que ele acreditava que me amava. Eu posso fazer isso novamente. Tempo suficiente até que eu ganhe a minha primeira chance de matá-lo. Sim, isso é exatamente o que eu vou fazer. Porque eu só me preocupo com mais duas coisas: a segurança de Lydia e matar Javier. Eu sei que quando eu fazer isso, eu assino minha própria sentença de morte. Izel ou um dos homens de Javier vão me capturar antes que eu possa obter um quilômetro do complexo e eles vão atirar pra me matar, assim como Victor fez com o proprietário da loja, antes lá no México. Mas, pelo menos, Javier estará morto. Abro a porta da caminhonete para encontrar Niklas de pé ali esperando por mim. Eu estava tão perdida em meus pensamentos que eu nunca sequer o vi sair e ir para o meu lado da caminhonete. Eu fecho a porta e olho sobre o capô da caminhonete para Victor, do outro lado. Eu nunca fui capaz de ler seu rosto, pois suas emoções, se ele tem alguma, parecem

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impenetráveis, mas agora mesmo eu detecto o menor indício de algo anormal em seus olhos. Poderia ser arrependimento? Não, talvez seja a indecisão ou ... não, não pode ser isso. "Eu vou fazer isso." Anuncio, sem tirar os olhos de Victor. "Se você puder ter Lydia longe com segurança, eu vou fazer isso." Victor concorda. Então, ele vai abre a porta da caminhonete e eu o impeço. "Mas Victor, por favor, leve-a para casa. Eu estou te implorando. Basta leva-la pra casa. Ela vive em El Paso, Texas. Com seus avós. Por favor." Victor não acena ou responder verbalmente nesse momento, mas eu sei, apenas por olhar nos olhos dele que ele irá fazer isso. Eu não sei por que eu acredito nisso, mas eu faço. Depois de transferir as malas da caminhonete para o SUV, ele fica dentro da caminhonete e o ronco do motor ligado segue segundos depois. "Venha." Diz Niklas, levando-me pelo braço, os dedos envolvendo um pouco mais rude ao redor do meu bíceps do que Victor jamais fez. Ele me orienta ao banco de trás, abrindo a porta e em pé diretamente atrás de mim como se estivesse certificando-se de que eu entre e não tente fugir. Uma vez que estou dentro, o cheiro de couro novo e aromatizante para carro preenchem meus sentidos. Uma barreira de jaula de metal separa o banco de trás do da frente, assim como um policial pode ter em seu carro de patrulha. Já me sinto presa. Eu ouço um som de clique quando Niklas bloqueia todas as portas depois que ele está dentro. Olho para a minha esquerda e para a direita para ver que não há interruptores de bloqueio dentro de uma das portas do banco traseiro. Eu estou verdadeiramente presa aqui. Vamos acabar na Interestadual 19, seguindo Victor de perto na antiga e velha caminhonete. "Você se tornou uma grande chave nas engrenagens." Diz Niklas do banco do condutor. Eu olho para cima para encontrar os seus olhos no espelho retrovisor.

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Eu não gosto muito dele. Não que deveria gostar dele absolutamente, considerando a situação, mas pelo menos com Victor, apesar de ser um assassino, sentia uma sensação de segurança. Mesmo antes no complexo quando eu o assisti pela fresta da porta com Lydia, eu tinha a sensação de que podia confiar nele, que ele iria me ajudar. Meus pressentimentos estavam completamente ausentes, eu admito, mas ele nunca me machucou. Independentemente do que ele é ou quais complicações eu causei a ele, ele nunca me tratou mal. Niklas, por outro lado, eu tenho a sensação que é um pouco mais intolerante. Eu tento manter os olhos na estrada à frente, mas é difícil não encontrar seu olhar no espelho de vez em quando. Porque ele está sempre observando. Eu engulo e digo: "Eu não pretendia provocar a você e Victor nenhum problema." Seus olhos estreitam de repente no espelho e eu capturo isso imediatamente. "Mas eu não entendo por que isso é um grande inconveniente para qualquer um de vocês, me ajudarem." Eu tento disfarçar a amargura nisso, mas eu não faço tão bem. "Victor." Diz Niklas friamente, que me parece da pior maneira possível. "Já que você está agora em uma base do primeiro nome com ele, deveria ter arrastado você de volta para Javier Ruiz no segundo que ele encontrou você." Eu odeio esse homem. Eu cerro os dentes e respiro bruscamente através de minhas narinas. "Mas ele não fez." Estalo. "E isso me diz que aparentemente, ele é mais humano do que você é." Minhas palavras ácidas não fazem ele parecer como eu esperava que seria. Em vez disso, ele faz algo que eu menos esperava: ele sorri. "Oh, eu vejo o que você acha que isso é." Diz ele com aquele sotaque alemão evidente. "Você acha que o encantou de alguma forma com os seus ar de menina inocente. Você não fez nada do tipo, só para você saber. Victor, tudo o que ele faz, ele faz para o melhor da nossa Ordem. Se ele acredita que é melhor não libertá-la ou entregá-la, não tem nada a ver com o seu bem-estar."

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Eu não quero acreditar nele embora uma pequena parte de mim faça, mas eu me recuso a dar a Niklas a satisfação de saber que ele conseguiu manter isso sob a minha pele. Eu viro meu queixo e olho para longe dele, colocando os olhos unicamente na caminhonete que Victor está dirigindo a nossa frente. Logo, nós desviamos para a direita e entramos numa empoeirada estrada não pavimentada à direita da Interestadual. A estrada serpenteia através de várias divisões de arbustos de baixo revestimento, e árvores jovens, mas principalmente não há nada além de sujeira e um infindável trecho de terra quase estéril de trezentos e sessenta graus em torno de mim. Algumas casas estão empoleiradas a distância no topo dos morros de terra, mas tenho a sensação de que esta divisão de terra não tem sido explorada a um longo tempo por quem a possui, ou qualquer outra pessoa desse assunto. A frente do SUV sobe mais alto sobre a terra quando subimos a colina. Uma vez que nós nivelamos até o topo e a poeira começa a assentar vejo quatro caminhões velhos, muito parecidos com o que Victor está dirigindo, estacionados a céu aberto, esperando por nós.

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CAPÍTULO TREZE

Oito homens do lado de fora dos caminhões, armados com rifles, todos eles homens de Javier. Eu segurei o assento de couro embaixo de mim, encontrando mais dificuldades para penetrar com a ponta dos meus dedos, do que os assentos desgastados no caminhão velho. Chegamos a uma parada há cerca de cem pés de distância. Mas eu não vejo Javier. Ou Izel. Eu começo a entrar em pânico quando inicialmente não vejo Lydia, também, mas então eu a encontro dentro do Ford de cor creme. Pelo menos, Tenho certeza que é Lydia. Eu pressiono meu rosto contra a gaiola de metal, tanto quanto eu posso, tentando ver melhor, mas isso não ajuda muito. Niklas vira a cabeça para me olhar. "Sente-se e fique fora de vista." Ele exige. Eu faço o que ele diz, não porque ele pediu, mas porque é provavelmente o melhor. A porta do caminhão se fecha. Victor sai à frente em direção a eles. Olho para cada um dos homens, um por um, perguntando qual foi enviado para falam por Javier já que ele não está aqui pessoalmente, mas depois eu vejo os cabelos pretos de Izel deslizando pela janela do caminhão verde quando ela sai. "Isso faz com que Javier tenha sido duas vezes muito covarde para vir ele mesmo." Eu disse em voz alta, não necessariamente para Niklas. "Ele sabe agora que Victor pode matá-lo com pouco esforço." Niklas, diz, olhando para fora da janela. "Eu diria que é uma jogada inteligente por parte de Javier." Izel tenta se aproximar de Victor com seu habitual andar sensual, mas ela está claramente com dor das feridas que ele deixou nas pernas e ela tropeça apenas quando ela passa pelo capô enferrujado. Um dos homens passou por cima rapidamente para

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ajudá-la, mas ela bate forte no rosto dele e grita palavrões a ele, dizendo-lhe para se afastar. Ela odeia piedade. Eu acho que ela odeia tudo, inclusive a si mesma. As palavras são trocadas entre Izel e Victor. Eu não posso ouvir o que eles estão dizendo, mas pela linguagem corporal, eu posso dizer que é o habitual: Izel tentando assustá-lo com ameaças sobre Javier e como ele é feito um muito perigoso inimigo o mesmo início da conversa que teve no motel outro dia. E, assim como antes, Victor não se incomoda com ela e só adiciona combustível para o fogo em sua expressão. Eu tento ouvir o que eles estão dizendo embora eu saiba que eu não posso, mas principalmente, eu tentei ver Lydia. Contra a exigência de Niklas, empurro-me mais perto da gaiola novamente, tentando um vislumbre dela pela janela. Eu estou certa de que é ela no banco do passageiro. Mas eu acho que há alguém sentado ao seu lado. Izel levanta a mão aos homens do caminhão atrás dela e um deles faz a volta para abrir a porta. Ele chega dentro e pega o que eu acho que é Lydia e arrasta-a para fora. "É ela!" Eu digo com entusiasmo, aliviada. Niklas vira sua cabeça. "Eu disse sente-se." Ele rosna com os dentes arreganhados. "Não estrague tudo mais do que você já tem feito." Eu congelo ao ouvir isso e caio para trás contra o banco de novo, embora apenas o suficiente para satisfaze-lo e afasta-lo. Lydia se parece com o inferno, mas pelo menos ela é capaz de andar. Pelo menos ela está viva. Ela está vestida com as mesmas roupas sujas que ela estava usando quando eu a vi naquele vídeo. As manchas de sangue deixadas na boca e nariz são evidentes na parte da frente da fina camiseta branca dela, mesmo a uma distância daqui. Suas mãos estão amarradas pelos pulsos para baixo na frente dela. Seu leve cabelo vermelho estar desgrenhado e sujo e emaranhado. Ela está chorando, olhando desesperadamente para nós no SUV e eu só posso imaginar que ela está supondo se eu estou aqui ou não. Eu quero correr daqui e para

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ela, a deixar que ela saiba que eu estou bem e que ela vai finalmente ir para casa, mas tudo que eu posso fazer, é desejar que eu pudesse fazer isso é tudo o que eu posso fazer. O homem a puxou para fora do caminhão com empurrões sobre o cotovelo, puxando-a asperamente fora do caminho e para o lado. Victor diz algo a Izel e ela sorri astuciosamente. Então ela olha para trás sobre o ombro nu e indica balançando dois dedos para o outro homem quem ela tinha acabado de dar um tapa, para fazer alguma coisa. Ele responde rapidamente, indo para a porta da caminhonete aberta, de onde Lydia foi retirada e ele atinge o interior para pegar a outra figura que eu vi que estava sentado ao lado dela. "Oh meu Deus." Digo também mais para mim mesma. "Essa é Cordelia. Por que eles trouxeram ela?" Eu olho para Niklas para que ele apresente uma resposta, mas ele não oferece uma. Cordelia e Lydia estão paradas lado a lado agora, ambas trêmulas com rostos cheias de lágrimas, ambas incapazes de parar de olhar para o SUV. Victor movimenta dois dedos em direção nós. Niklas se vira. "Você está pronta?" Eu engulo em seco. "Sim." Niklas abre a porta e quando ele sai os bloqueios ocultos do SUV clicam novamente. Ele aparece pela porta dos fundos aberta e estende a mão para mim. Relutante, eu a tomo. "Sarai." Ouvi a voz de Lydia no ar quando sai do SUV. Eu olho para cima enquanto me desloco pela porta aberta para ver o homem que a segurava pelo cotovelo empurrá-la para o chão coberto e colocou-a de joelhos. O outro homem faz o mesmo com Cordelia só porque ele pode. Eu começo a caminhar lentamente na curta distância para Victor, minhas pernas tremendo mais a cada passo. Eu sinto os olhos de Izel em mim, tão fria e

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predatória, mas eu não vou olhá-la. Recuso-me a dar-lhe a satisfação. Em vez disso, olho apenas para Victor e embora ele esteja olhando diretamente em meus olhos, eu sei que nem um pingo de sua atenção vigilante foi retirada daqueles que o rodeiam. Então ele olha para o lado, levantando a mão para mim e, instintivamente, eu paro. "Faça com que um de seus homens traga-as." Victor instrui Izel. Izel zombou, suas narinas dilatadas, fazendo-a parecer ainda mais detestável. Em seguida com a inclinação para trás de sua cabeça, ela ordenou o homem de pé sobre Lydia para fazer apenas isso. Ele move seu rifle pendurado no ombro pela cinta em volta das costas e, em seguida, estende as duas mãos agarrando Lydia e Cordelia cada uma com uma mão, levantando-as em seus pés. Victor olha para mim novamente. Ele estende a sua mão e enquanto eu ando em direção a ele eu sinto seu olhar aparentemente sem emoção penetrar o meu. Há algo em seus olhos, algo silencioso e misterioso e eu sinto que ele está tentando falar comigo através deles. Eu coloco a minha mão na sua e recolho os dedos em torno dele, cuidadosamente primeiro. Alguma coisa não parece bem, pela forma como esse olhar furtivo que eu vi em seus olhos segundos atrás. Com a aproximação do homem, Victor aperta a minha mão. Eu só vejo os olhos de Lydia agora, cheios de medo e esperança e alívio quando ela se aproxima. E então quando eles estão dentro do alcance de Victor, num movimento rápido e invisível, fui empurrada para o chão e vi Victor chegar tão rápido, agarrando o homem pela sua cabeça e tirando seu pescoço. Lydia e Cordelia caem em seus joelhos e a próxima coisa que eu sei, Victor tira o rifle semiautomático do homem e atira balas de pulverização em direção de Izel e outros. Lydia e Cordelia tentam agarrar-se a mim com o som de balas movimentando vociferantemente pelo ar em toda direções, mas eu as empurro tanto em seu estômago e empurro-as para encarar a sujeira das minhas mãos. "Abaixem-se!" Eu grito, a poeira chicoteando em minha boca. "Siga-me! Vamos!" E eu arrasto meu corpo tão rápido quanto possível através da sujeira para o SUV como um soldado rastejando pelo fogo inimigo.

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Mais tiros tocam para fora, dois ou três bateram na areia perto de nós, um silvo do lado de fora da porta aberta do SUV. E mesmo embora o SUV esteja dentro de 15 pés, eu sinto que é muito longe e que nós nunca vamos conseguir. Uma bala atinge o solo dois pés na frente do meu rosto, fazendo-me congelar e chegar a um ponto morto. Eu já perdi Victor de vista, mas eu vejo Niklas fugindo do SUV com uma arma agarrado com ambas as mãos enquanto ele dispara vários tiros em rápida sucessão. "Depressa!" Eu grito sobre o caos, torcendo minha cabeça para que eu possa ver se Lydia e Cordelia ainda estão me seguindo, meus braços apertando ainda mais forte para a sujeira. Lydia está gritando e eu vislumbro sangue na areia perto de seu pé. Cordelia, aterrorizada, move-se rapidamente para mim, forçando seu corpo na areia mesmo que ela esteja com os pulsos amarrados. Mas Lydia está estagnada e eu volto para ajudála. Se eu tiver que arrastá-la através do chão como se fossemos uma só na saraivada de balas, isso é o que eu vou fazer. "O meu pé!" Lydia grita para mim. "Não pare, Lydia! Empurre através disso! Você tem que se manter em movimento!" Eu finalmente viro de volta para ela e eu cobro a cabeça com ambos os braços quando outra bala passa num zoom, mas, por pouco nos atinge. Ela enterra o rosto na dobra do meu braço agora. Soluços balançam seu corpo. As balas param, mas o estranho o silêncio é quase tão assustador quanto o ruído. Após o que parece uma eternidade, eu tenho medo de levantar a cabeça e quando o pó começa a abaixar, eu só vejo dois corpos na vertical entre os mortos. Viktor e Niklas. Soluços de alívio absoluto arrepiam em mim, fazendo com que meu peito se contraia uma e outra vez até que eu me sinta vomitando. Eu nem sequer percebo que eu consegui sentar-me com os calcanhares nus cavando na areia. Em algum momento eu perdi meus chinelos. Lydia se joga em mim e eu envolvo meus braços em torno dela tão apertado que eu sinto meus dedos cavando em suas costas. Ela faria o mesmo se suas mãos não estivessem restringidas por esta corda.

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"Sarai! Sarai!" Lydia chora em meu ombro. Meu nome é tudo que ela pode dizer. "Eu sei, Lydia! Eu sinto muito que eu fiquei longe de você. Sinto muito!" Meu nariz queima de chorar tanto e tão duramente. Lydia se afasta e olha para mim, sacudindo a cabeça. "Não, não, você tentou." Ela diz enquanto eu trabalho furiosamente sobre os nós na corda até que finalmente ela fica com os pulsos livres. "Foi minha decisão de ficar. Mas, olha, olha Sarai, você manteve sua palavra. Você prometeu que iria voltar para mim." Eu a envolvi em meus braços novamente e nós apenas sentamos assim juntas, no chão sem qualquer cuidado sobre o mundo de pessoas mortas estabelecidas há não tão longa distância. Nós só nos afastamos quando vejo Niklas caminhando em nossa direção. Resumidamente, eu olho para trás no SUV e estou aliviada que Cordelia está numa distância segura, também. Ela senta-se encolhida no banco de trás, as pernas dobradas sobre o peito enquanto ela balança para trás e para frente em um estado de choque. Eu volto para Lydia e seu corpo machucado pego sua cara suja em minhas mãos, movendo seu longo cabelo avermelhado longe de sua boca e bochechas com os polegares. Eu pressiono os meus lábios contra sua testa. "Nós vamos levá-la para casa." Digo e um tom macio, lábios trêmulos um sorriso quebra no meu rosto. Ela sorri para mim. Um único tiro ressoa, rasgando através do grande espaço aberto. O sorriso de Lydia desaparece quando olho para trás em seus olhos. Que estranho, o silêncio traz o mau presságio de volta, banhando-nos em sua crueldade infinita. Eu sinto que o tempo diminuiu, que de alguma forma o mundo em torno de mim voou e deixou-me para trás para sofrer neste momento. É apenas eu e Lydia, olhando uma para a outra nos olhos. Os meus em descrença. Os dela espelham os meus, com algo que me enviam arrepios.

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É sempre os olhos.... Eu vejo aqueles olhos sem fundo até que a vida desliza completamente fora de si e sua cabeça cai para trás como uma mola partida. Mais um tiro é atirado para fora. Mesmo que eu assista a bala passando na frente do crânio de Izel, e Victor, quando sua arma cai novamente lentamente ao seu lado, eu me sinto como se eu nunca tirasse os olhos de Lydia, cujo corpo está pendurado precariamente em meus braços. E então, em um turbilhão de cor e movimento e som, volto ao o mundo de novo e eu grito para qualquer um que esteja escutando e puxo o corpo sem vida de Lydia contra o meu peito, balançando para trás e para frente com ela nos meus braços. Seus braços flácidos caem e oscilam embaixo dela. Eu sinto o sangue quente e grosso enquanto ele forma uma poça sob o tecido de sua camisa e sangra através de minhas mãos segurando-a de volta. Eu choro em seu cabelo até que eu sinto que o corpo está sendo erguido para longe de mim. "Não!" Eu grito para fora a quem quer que seja. "Fique longe de mim! Deixe ela em paz!" Minhas voz racha de tensões sob o peso da emoção, que eu nunca soube que eu possuía. "Temos que ir." A voz de Victor diz em algum lugar acima de mim. "Nós não podemos ficar aqui por mais tempo." "Não!" Eu ataco, chegando com uma mão e tentando empurrá-lo para longe. "Agora, Victor." Diz Niklas de trás. "Não há tempo para isso." Victor agarra-me pela cintura, puxa-me com facilidade e atira-me, de barriga para baixo, por cima do ombro. Eu chuto e grito e bato com meus punhos enquanto ele me transporta em direção ao SUV e longe do corpo de Lydia. "Nós não podemos deixá-la aqui!" "Nós temos."

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Ele me põe no banco de trás com Cordélia. "Victor! Você não pode! Por favor, não a deixe aqui assim!" Não há remorso em seus olhos. Vejo que embora oculto por trás do sempre presente mistério em seu rosto, eu vejo lá simples como se eu visse o nada. Ele fecha a porta e as trancas clicam no lugar novamente. Eu fico em absoluto silêncio, para onde é que eles estejam nos levando.

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CAPÍTULO QUATORZE

Victor

Niklas nunca sabe quando tem de permanecer em silêncio. Ele não tem a disciplina e por isto nossa Ordem sempre foi mais afeiçoada a mim. Estávamos juntos quando fomos recrutados nas idades de sete e nove anos, mais dois outros meninos da vizinhança que haviam sido bons amigos nossos. Nós estávamos jogando bola no campo atrás do pátio da escola, como fazíamos todos os sábados à tarde, quando os homens chegaram. Niklas e eu não sabíamos que éramos irmãos na época. Mas nós éramos os melhores amigos. Inseparáveis como irmãos deveriam ser. Por isso, talvez, no fundo, uma parte de nós sabia disso o tempo todo. Não foi até quatro anos depois, depois que minha mãe foi morta durante uma missão que descobrimos a verdade. A mãe de Niklas nos contou em segredo. Ele tem sido mantido em segredo desde então. "O que você fez, Victor? O que você estava pensando? Onde está a sua cabeça?" As juntas de Niklas estão brancas ao volante. Ele se vira para olhar para mim por poucos instantes, esperando por mim para dar-lhe uma resposta que eu não posso dar. Silenciosamente, eu mordo de volta a dor queimando através do meu quadril. Olho para Niklas. "Você deve dizer a Vonnegut que ele atirou primeiro." Digo e vejo o argumento ofuscar suas características instantaneamente. "Diga a ele que eu não tive escolha."

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"Victor." Ele balança a cabeça e então bate no volante com a palma da mão. "O que aconteceu com você?" Ele range os dentes, segurando o tipo de palavras que ele quer dizer, mas sabe que seria melhor não dizer. Ele bate no volante novamente. "Eu sempre fiz tudo que você já me pediu para fazer. Nem uma única vez eu me recusei. Raramente eu questiono você. Mas eu não o faço, porque eu confio em você como eu devo." Ele inala uma respiração afiada e eu noto seus olhos desviar para o espelho retrovisor. E então ele olha para mim. "Mas isto é diferente. Você está arriscando tudo: o seu lugar na Ordem, o seu relacionamento com Vonnegut, a sua vida, a minha vida." Ele corta o ar entre nós com sua mão. "Tudo por aquela menina." "Eu não estou fazendo nada dessa forma." "Então do que você chama isso?" Ele ajeita-se. "Se não for por ela, então por quê? Faça-me entender, Victor!" Ele desvia para a pista oposta da estrada para ficarmos próximo a um carro que se movimenta lentamente. "E por que você disse a ela o seu nome? Você se tornou instável. Eles eliminam os instáveis, Victor, você sabe disso." Ele força os olhos para trás na estrada sendo atingido por seus próprios nervos. “Sua mãe foi uma dessas queridas instáveis. " "Eu não vou deixar nada acontecer com você por minha causa." Digo. "Se você acha que deve dizer a Vonnegut a verdade, eu vou entender. Eu não vou usar isso contra você." Ele balança a cabeça, desanimado. "Não. Como sempre fiz, vou dizer lhe tudo o que você precisa que eu diga." Ele faz uma pausa e aperta o volante com as duas mãos, movendo a palma da mão de um lado sobre o cume do couro como se para manter sua mão de bater em outra coisa.

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"Eu espero que um dia você vá me dizer a verdade." Acrescenta ele, sem olhar para mim. "Sobre o que está acontecendo com você. Sobre o que realmente aconteceu em Budapeste. E se tem alguma coisa a ver com o que você está fazendo agora." "Não há nada para dizer." Digo. "Maldição! Eu não sou Vonnegut!" "Não, você é Niklas, a única pessoa neste mundo em quem eu confio." Eu aponto na frente. "Deixe-nos cair fora daqui. Preciso comprar um carro novo." Apesar de não querer mais nada além de gritar comigo todos os dias até que eu diga a ele algo satisfatório, Niklas cai completamente. Disciplina. Algo que ele nunca vai ter. Nós puxamos pelo portão da frente de uma concessionária de carros. "Pare ao lado." Digo. "Espere por mim." Sem objeção, Niklas faz como eu digo e estaciona ao lado do prédio do lado de um outro veículo de cliente. Antes de eu sair, eu olho para trás uma vez para a garota, Sarai. Ela está imóvel e perdida. Seus olhos estão abertos, mas independente de para onde ela esteja olhando de alguma forma eu sei que ela realmente não vê. Eu quero que ela olhe para mim, apenas por um momento. Mas ela nunca faz e eu vou embora.

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Sarai

Eu sinto que eu deveria estar como Cordelia, sentada ao meu lado ainda acordada e consciente de si mesma. Eu sei que vai levar meses de terapia para superar que ela se foi completamente. Eu sei porque eu passei pela mesma coisa depois que eu vi minha mãe morrer. A única maneira que eu sou como a pobre Cordélia em qualquer coisa é, que eu não consigo encontrar a vontade para falar. Eu apenas fico sentada aqui, deixando o tempo passar e ficar completamente incoerente a ele, entorpecida em meus esforços para me causar desconforto. Quinze minutos podem ser duas horas e eu realmente não saberia a diferença. Ao contrário de Cordelia, eu estou ciente de tudo ao meu redor. Eu apenas não me importo. Algum tempo depois, Victor emerge do edifício e abre a porta do SUV. Ele só olha para mim por um momento como se estivesse esperando por alguma coisa, eu acho que é para mim sair. Olhei para ele, deixando minha cabeça cair para os lados contra o assento. "Você não me fez ter que deixá-la lá." "Sim, eu fiz." Disse ele e pega a minha mão. "Ela vai ser encontrada em breve, se ela já não foi. Você tem a minha palavra." Eu pego a mão de Victor, mas olho para Cordelia antes de sair. "O que tem ela?" Victor transforma seu olhar em Niklas no banco do motorista. "Não há longas paradas nas entrelinhas." Ele instrui. "Encontre Guzmán no lugar que discutimos. O dinheiro para a filha. Informe-o sobre o rumo dos acontecimentos e que não conseguiu controlar a ausência de Javier, mas o trabalho será feito."

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"Tudo o que você quiser, Victor." Niklas concorda categoricamente, suas palavras tingidas com amargura e decepção. Victor puxa a minha mão e eu estou fora do SUV. Quando estamos indo embora, Niklas impede-nos. "Onde você vai?" Ele pergunta, pendurado parcialmente para fora da janela com seu braço apoiado na porta. "Por enquanto." Diz Victor, "Tucson. Aguardem meu contato para o resto." Niklas afasta. Enquanto Victor caminha ao meu lado em direção a um carro cinza escuro novinho em folha, eu caio atrás dele por um momento. "Por que estamos indo para Tucson?" Ele para no meio do passo e volta ao redor para me enfrentar. "Eu vou te levar para casa."

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CAPÍTULO QUINZE

Quando eu vejo minha 'casa' no horizonte muitos minutos depois, não me afeta do jeito que eu sempre sonhei que seria. Eu nem mesmo levanto a cabeça para a janela lateral do passageiro para olhar para ela enquanto nós passamos por ela. Porque eu sei que não há nada para mim aqui. Em vez de olhar para fora na cidade, eu assisto o movimento de asfalto preto rapidamente enquanto passamos por ele. "Onde você mora?" Victor pergunta. Finalmente, eu levanto a cabeça e viro para encará-lo. "Por que você está fazendo isso?" Victor suspira e coloca seus olhos de volta à estrada. "Porque eu acho que você já viu o suficiente." Ele puxa o carro da estrada para o estacionamento de uma loja de conveniência e o estaciona. Está começando a ficar escuro lá fora. "Você precisa dizer-me aonde levá-la." Diz ele e eu detecto o mais leve indício de desconforto em seu rosto. "Seu pai." Ele insiste, quando eu não respondo. Distraidamente, eu balancei minha cabeça. "Meu pai poderia ser um de cem homens em Tucson. Eu nunca o conheci." "A avó? Uma tia? Um primo distante? Onde você gostaria de ir? " Eu literalmente não tenho família. Desde que eu não sei quem é o meu pai, eu não conheço ninguém da minha família do seu lado. Eu nunca tive algum irmão, minha mãe teve suas trompas amarradas depois que ela me teve. Ambos os meus avós morreram quando eu era adolescente. Minha tia, Jill, vive em algum lugar na França por que ela poderia dar-se ao luxo de se mudar para lá e ela repudiou a minha mãe

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quando eu tinha 13 anos de idade. E por sua vez, ela me deserdou, me acusou de ser como a minha mãe mesmo que eu fosse tão diferente dela como a noite é do dia. Não querendo dar Victor qualquer razão para acreditar que ele me deve qualquer outra coisa, eu digo a única pessoa que vem à mente para que ele possa me largar e deixar ter qualquer tipo de vida que eu possa fazer por mim mesma. "Sra. Gregory." Sussurro silenciosamente, perdida na memória da última vez que a vi. "Ela vive cerca de dez minutos a partir daqui." Eu pego os olhos de Victor olhando para mim de lado e os meus se encontram por um momento. O que ele está esperando? Ele parece estar estudando meu rosto, mas eu não sei o porquê. Eu olho para longe e aponto na direção que ele deve ir em seguida. Victor coloca o carro na unidade e nos dirigimos para o parque de trailers onde eu costumava viver. Parece exatamente do jeito que era quando eu saí, com brinquedos quebrados espalhados em torno de jardas laterais, velhos carros batidos estacionados em vários pontos com grama crescida em torno dos pneus furados. Unidades de ar condicionados de janela cantarolam no início do ar da noite e os cães ladravam a partir de suas curtas correntes em volta das árvores. Quando passo pelo reboque azul pequeno em que eu vivi a maior parte da minha vida, eu mal conseguia olhar para ele. Mas eu pergunto-me, por um momento, quem vive lá agora e se eles nunca conseguiram livrarse da infestação de baratas incessante que a minha mãe nunca pode. "Aqui." Digo baixinho, apontando para o que eu espero que ainda seja a casa de dois trailers da Sra. Gregory. Mas, vendo o Bronco vermelho brilhante estacionado em frente, eu estou começando a pensar que não é. Depois de nove anos que eu não venho não esperaria que ela fosse. Eu vou sair, mas Victor para-me. "Tome isso." Diz ele, pegando em seu bolso interior do paletó.

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Ele puxa uma pilha de notas de cem dólares embrulhada e entrega-as para mim. Eu olho para ele e o dinheiro, hesitante só porque é tão inesperado. "Eu sei que é dinheiro de sangue." Ele diz, colocando-o mais para dentro do meu alcance. "Mas eu quero que você pegue-o e faça o que precisa com ele." Concordo com a cabeça em agradecimento e levo a pilha de contas nos meus dedos. "Obrigado." Eu começo a pé, mas eu paro e digo: "E Javier? Se ele está disposto a pagar muito para me matar, ele vai mandar alguém para me encontrar se você não vai fazêlo." "Ele vai estar morto antes que isso aconteça." "Você vai matá-lo?" Eu pergunto, mas, em seguida, acrescento: "Eu não quero dizer por mim, é claro, mas por outro homem?" Eu quero que ele me diga que, sim, é por mim, mas eu sei que essa não é a razão. "Você vai estar segura para viver a sua vida agora." Diz ele simplesmente. Nós compartilhamos um momento de silêncio e eu fico para fora do carro, fechando a porta suavemente atrás de mim. E então eu assisto o carro de Victor sair pela distância, as luzes dos freios penetrando na escuridão parcial no final da estrada. E então ele se foi. Só isso. O que aconteceu? Eu duvido que eu nunca vá ser capaz de envolver minha mente em torno dos últimos nove anos da minha vida e, mais ainda, assim, o último par de dias. Como eu estou aqui no final de uma garagem de um lugar familiar ao mesmo tempo tão estranho para mim, eu percebo que eu não posso me sentir. Pelo menos a pessoa que eu costumava ser, ou a pessoa que eu deveria ser, mas a oportunidade foi tirada de mim por Javier. Por minha mãe.

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Eu vivi uma vida de reclusão e bondage, de um prisioneiro de um traficante mexicano que embora tenha me tratado com um estranho tipo de bondade, abusou-me em outras formas. Eu tenho dormido com um homem que não amava e que não queria dormir a maior parte da minha vida jovem. E Javier é o único homem com que já estive sexualmente. Eu vi estupro e sequestro e abuso de todas as formas possíveis. E tenho visto a morte. Ah, sim, muita morte. Minha única amiga morreu nos meus braços, poucas horas atrás. Eu observei a vida deixar seu corpo enquanto ela me olhava. Depois de tudo isso, eu sinto que, enquanto vasculho essas memórias casualmente, como a digitalização de uma mão de cartas, nada disso está me afetando da maneira que deveria, a maneira que seria para uma garota normal. E sei o porquê. Eu odeio admitir isso para mim mesma: mais os anos em que passei a ser usada para isso. Era como minha vida era. Minha mente conformada e adaptada da melhor maneira que sabia. Mas agora estou de volta aqui em casa em Tucson, livre para fazer o que eu quiser. Eu podia caminhar algumas quadras para a pequena loja que eu costumava ir todos os dias depois da escola e comprar um refrigerante e um saco de Doritos. Se quisesse, eu poderia ir para a minha antiga escola elementar pela estrada e balançar nas oscilações ou deitar no campo que rodeia o edifício e apenas olhar para as estrelas até adormecer. Eu poderia roubar a moto no quintal da frente do lote número doze e passear para a casa do meu velho amigo há 20 milhas de distância. Mas o trailer atrás mim no final do concreto rachado na calçada é tão bom. E ele está bem ali. Está me levando mais tempo do que eu antecipei para caminhar até a porta e encontrar a única pessoa que eu sabia que podia me ajudar agora, ainda vive lá. Eu posso fazer o que eu quiser, mas eu acho eternamente difícil escolher por onde começar. Ou para começar de qualquer jeito. Eu acho que agora eu sei o que se sente como quando uma pessoa passou metade de sua vida na prisão e é liberada de volta para o mundo. Eles não sabem o que fazer com si mesmos, eles não sabem o que fazer para se adaptar à sociedade. Eles constantemente olham por cima do ombro. Eles não podem dormir por cinco horas ou acreditar que eles podem escolher o que comer e quando comer.

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Violência, escuridão e confinamento é tanto uma parte deles que a metade deles nunca aprende de outra maneira. Eu não quero ser assim. Mas agora, enquanto eu estou aqui olhando para a estridente luz na varanda da frente e deixo-a trazer manchas na frente dos meus olhos, eu me sinto como se ela fosse como eu estaria para sempre quisesse eu isso ou não. A sombra se move a frente da janela. Enfio a pilha de dinheiro no bolso de trás do meu short, tirando minha blusa para baixo sobre ele e então eu tomo uma respiração profunda. Eu subo os degraus de madeira e bato levemente na porta. "Quem é?" A voz de um homem pergunta a partir do outro lado. Estou bastante certa agora que ela está muito longe deste lugar. "É... Sarai. Eu morava em cima do lote quinze." A corrente das portas se movimenta e em seguida, a porta se abre. Um homem gordinho e baixo espreita para fora, para mim. "Como posso ajudá-la?" Ele está sem camisa e sua barriga redonda paira sobre o elástico de seu short de ginastica na altura do joelho. O cheiro de pipoca passa pela porta e por mim. "A Sra. Gregory não vive aqui mais?" É uma sensação estranha perguntar porque eu já sei que ela não mora. O homem balança a cabeça. "Desculpe, mas eu tenho vivido aqui por dois anos." Diz ele. "E eu nunca soube de uma Sra. Gregory." "OK, obrigado." Eu viro as costas para ele e desço os degraus. "Você está bem?" O homem chama.

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Eu olho para ele por um momento. "Sim, eu estou bem. Obrigado por perguntar." Ele balança a cabeça e fecha a porta, enquanto eu saio, o som das correntes deslizando de volta ao lugar rapidamente. Meus pés descalços movem sem dor sobre a estrada de areia e rocha desarrumada do parque de trailers. As luzes de rua montadas alto nos postes de luz, começam a diluir e banhar-me na escuridão, quando chego fim da estrada e deixo a propriedade. Um carro passa e estou instantaneamente na borda, pensando que poderia ser Javier aqui para me matar. Mas ele dirige para longe e me deixa só com um batimento cardíaco irregular e paranoicos pensamentos. Pelo menos eu sei que Izel está morta. Eu imagino o seu último momento deitada em seu estômago na areia com a arma em sua mão. Eu não vacilo ou recuo quando vi o tiro de Victor passar por seu crânio em sua parte superior do corpo batendo no chão virado para baixo como uma criança dormindo em seu bolo de aniversário. Não, eu sentia apenas a satisfação de vingança. Fiquei contente de vê-la morrer. Porque ela tinha que ir. Eu só queria que tivesse sido eu quem a matou pelo que ela fez para Lydia. Passeando por uma linha de cerca de uma dúzia de caixas de correio, eu vejo o sinal de parada para fora à frente, onde eu me lembro que passando por ele deveria me levar à escola primária. Eu decidi neste momento, pois é onde eu vou porque eu não tenho outro lugar para ir. E depois de muitos longos minutos de caminhada eu chego lá, contente de que nada do parque infantil mudou, pelo menos. A mesma velha gangorra enferrujada que lembrava ficar perto do balanço, com um assento elevado no ar. Três pilotos da primavera: o golfinho, um leão e uma morsa, são revestidas lado a lado dentro de um mar de encerrados seixos no playground. Eu faço o meu caminho através da grama seca e sento-me no mesmo balanço que eu sempre ia direto durante o recreio. E, felizmente, ele parece o mesmo, também. A maneira que eu mexo meus dedos em torno

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das correntes ligadas apenas acima da minha cabeça, como o assento de plástico adaptável cabe apenas à direita contra as minhas coxas. Mas eu sou muito mais alta agora do que eu era na época, então minhas pernas estão dobradas desajeitadamente embaixo de mim. Eu cavo os meus pés nas pedras frias e assisto a uma pequena luz branca a partir de um movimento de avião no céu distante, não fazendo nenhum som. E o único cara que eu vejo em meus pensamentos é Victor. Ele me ajudou, depois de tudo, mesmo quando eu tinha achado que ele nunca faria isso. Eu penso sobre a conversa que ele teve com Niklas no SUV e só cria para mim mais perguntas sobre Victor. Eu pergunto-me por que ele atirou primeiro. Eu pergunto-me por que ele apenas não continuou com o plano original para entregar-me, trocar-me por Lydia e, aparentemente, Cordelia, que eu não tinha qualquer ideia do porquê, era parte de tudo isso. Talvez ele soubesse que Izel teria me matado de qualquer maneira e depois tentar matar Victor e tomar Lydia e Cordelia de volta. É muito plausível que Javier ordenou Izel para ir junto com ele, fazer a troca e, em seguida, no segundo que ela tivesse a oportunidade, começasse atirando em nós. Eu não sei, existem muitas maneiras que a coisa toda poderia ter ido. E há muitas razões pelas quais Victor poderia ter feito o que fez. Tudo o que eu tenho certeza é que eu estou viva por causa de Victor. Estou em casa em Tucson por causa de Victor. Estou livre de uma vida que não era da minha escolha, por causa de Victor. Assassino de aluguel a sangue-frio ou não, ele salvou a minha vida. Chego ao redor e pego o dinheiro na parte de trás da minha bermuda. Eu corro o meu dedos rapidamente sobre as bordas, deixando que cada nota caia rapidamente para a próximo, expelindo uma pequena rajada de ar no meu rosto. Tem que ter pelo menos cinco mil dólares aqui. Eu começo a contar as extremidades de cada nota, mas paro um quarto do caminho e simplesmente aceito que não é muito. É o suficiente para alugar um quarto para a noite para que eu possa tomar um banho e descansar um pouco. Eu resolvo fazer exatamente isso, aliviada que consegui formular uma sólida primeira parte de um plano muito longo. Mas então eu percebo que eu nem sequer tenho uma carteira de motorista. Eu não tenho um único pingo de identificação para provar que eu sou eu, ou alguém. Eu vou ter a sorte se encontrar um hotel para alugar um quarto para mim, sem identificação, não importa quanto dinheiro eu tente

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subornar eles. E eu preciso gastar esse dinheiro sabiamente, fazer o que tenho que fazer para esticá-lo o máximo. Porque é tudo que eu tenho. No fundo da minha mente eu sei que eu poderia simplesmente ir à polícia e dizer-lhes minha história e que eles iriam me ajudar. Mas eu me sinto tão oprimida pela simples coisas com que trabalho, eu sei, que poderia ter remediado que me sinto completamente derrotada por isso tudo. Eu suspiro miseravelmente, deixando minha cabeça cair no meio dos meus ombros curvados e eu pressiono meus pés nas pedras um pouco mais, movendo-os em um padrão circular. E, então, pela primeira vez, no que parece uma eternidade, eu rompo em lágrimas de auto piedade. Não de raiva ou angústia, ou frustração. Eu choro por mim mesma. Soluços rolam pelo meu corpo. Eu deixo o dinheiro cair no chão ao lado dos meus pés descalços e aperto as correntes de cada lado de mim e deixo tudo para fora. Quando eu termino minutos mais tarde, eu levanto a cabeça e enxugo as lágrimas do meu rosto. Um conjunto de faróis acende na rua, do lado oposto do prédio da escola e vejo o carro até ele parar na estrada cerca de cinquenta metros de mim. É Victor.

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CAPÍTULO DEZESSEIS

Eu não levanto imediatamente. Acabei de olhar para fora sobre a grama no carro, sabendo o que eu quero fazer, mas tendo um momento difícil para descobrir se é o que eu deveria fazer. Mas, em seguida, finalmente eu me levanto, cedendo a esse desejo e pego o dinheiro do chão e vou para o carro. A janela desliza para baixo segundos antes de eu chegar lá. "Quem era a Sra. Gregory?" Victor pergunta com ambas as mãos descansando casualmente no volante. Abro a porta e entro, não há nenhuma necessidade para qualquer um de nós em questionar ou explicar por que ele está aqui. Nós dois já sabemos. Para a maior parte disso. Eu fecho a porta. "Ela era mais como uma mãe para mim que a minha verdadeira mãe." Uma brisa leve move-se através da janela aberta e atravessa meu cabelo. Victor permanece quieto olhando-me, deixando-me reviver os momentos. Eu mantenho meus olhos treinados na frente, olhando para a escuridão através do parabrisa impecável. "Passei a maior parte do meu tempo com ela." eu sigo em frente, vendo apenas o rosto da Sra. Gregory em minha mente agora. "Ela me dava o jantar à noite e nós assistíamos CSI1 juntas. Ela adorava assar seu próprio e temperado, Chex Mix2." Olho para ele, rindo levemente. "Ela era uma mulher de meia de idade. Não para mim, claro, mas ela falou para minha mãe inúmeras vezes. E uma vez, a Sra. Gregory viu um dos namorados da minha mãe olhando para mim..." Eu olho mais uma vez de forma acentuada e digo: "Ele foi um dos idiotas que pensavam que porque ele estava 1CSI:

Crime Scene Investigation é uma popular e premiada série dramática americana exibida pelo canal CBS. A série é centrada nas investigações do grupo de cientistas forenses do departamento de criminalística da polícia de Las Vegas, Nevada. 2 Chex Mix é um tipo de lanche mix que inclui Chex cereais de pequeno-almoço (vendida pela General Mills) como um componente importante. Há vendidos comercialmente pré-fabricados variedades de Chex Mix, assim como muitas receitas (muitas vezes impresso em caixas de cereal Chex) para caseiro Mix Chex. Embora conteúdos variam, a mistura geralmente incluem uma variedade de cereais Chex, batatas fritas, palitos rígidos, salgadinhos, frutas ou bolachas.

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dormindo com a minha mãe, ele poderia me dizer o que fazer. De qualquer forma, ele bateu duro na porta da Sra. Gregory, chamando meu nome. Foi muito engraçado." Eu ri de novo, descansando minha cabeça de volta no encosto. "Ela veio até a porta com uma espingarda na mão. Não estava carregada, mas ela não precisa estar. Esse cara parecia alguém que ficou maluco. Ele nunca chegou lá procurando por mim de novo." Sinto o sorriso desaparecer dos meus lábios quando outras memórias aparecem. "Ela ficou muito doente uma vez." Digo distante. "Tinha que fazer algum tipo de cirurgia na artéria, eu não sei, mas eu me lembro de estar tão assustada que ela estava para morrer. Mas ela conseguiu passar." Minha cabeça cai para o lado, ainda descansando contra o encosto de cabeça, e eu olho para a direita nos olhos de Victor. "Mas o que eu sempre lembro-me dela, o melhor foi que ela ensinou-me a tocar piano. Durante cinco anos, a partir do tempo que eu tinha oito anos de idade quando a conheci, até que eu comecei a sair com o meu melhor amigo mais, a Sra. Gregory me ensinou quase todos os dias que eu aparecia. Eu ia para lá depois da escola, às vezes esquecendo da minha casa, e eu tocava até meus dedos doerem." Eu olho para baixo em direção ao painel de instrumentos, arrependida. "Eu gostaria de nunca ter conhecido Bailey. Eu ainda me sinto mal hoje em dia por substituir a Sra. Gregory por meu amigo." Eu não posso falar sobre isso. Eu agito-me e inspiro profundamente, levantando minha cabeça do assento. E então eu passo o dinheiro ao longo na direção dele, pedindo-lhe para tomá-lo. "Guarde-o." Diz Victor, deslocando o carro na rua. "Você vai precisar dele depois." Eu empurro-o para baixo entre o meu lugar e o console. "Você sabe, você está em perigo de tornar-se um membro de confiança da sociedade." Brinco. Eu vejo seus olhos se moverem em direção a mim brevemente, sem mover a cabeça.

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"Talvez." Diz ele, puxando para autoestrada. "Basta deixá-la ser conhecida e esse é o caso, eu vou ter que amarrá-la novamente." Ele olha para mim e, apesar dos lábios não estarem sorrindo, vejo que seus olhos estão. Eu me viro para a janela ao lado porque ao contrário de Victor, eu não tenho absolutamente nenhum controle sobre o sorriso no meu rosto e eu não posso arriscar deixá-lo vê-lo. ~~~~ Nós paramos num hotel nos arredores de Tucson e em vez de fugir dessa vez eu ajudo-o a carregar as malas habituais ao nosso quarto no terceiro andar. O nosso quarto. Duas palavras juntas que dias atrás eu nunca teria imaginado usar com tanta naturalidade. Eu tinha perguntado sobre ter o meu próprio, mas ele insistiu que, eu fique por perto dele. Eu não tenho que perguntar por quê. Estar no prazo de alguém como ele, imagino que seja melhor assim, mas sinto que não, há algo mais do que isso que ele não está me dizendo. Estou desviado por esses pensamentos quando eu vejo o sangue na beira da camisa de Victor quando ele puxa-a pelo topo de sua calça. "Você está sangrando?" Eu ando mais para ele, tentando dar uma olhada melhor no lado de seu corpo. "Sim, mas eu vou ficar bem." "Mas por que... você levou um tiro?" Ele desabotoa a camisa dele por todo o caminho para baixo, expondo seu peito bem definido com músculos abdominais e embaixo, mas tudo que eu vejo tem mais sangue. Agora eu entendo por que ele estava com tanta pressa para entrar no quarto, porque ele parecia estranhamente inquieto desde antes que se separou de Niklas e Cordélia. "Vá até a recepção e peça uma garrafa de água oxigenada, gazes e álcool. Eles devem ter um kit de primeiros socorros." Eu fico olhando para seus olhos e o sangue, tentando ver a real ferida. Ele tira a camisa o resto do caminho e ela cai no chão.

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Finalmente, eu tomo conhecimento de seu físico. "Sarai?" Eu olho para ele. "OK, eu estarei de volta, logo." Corro para a porta, não está funcionando, mas caminho rapidamente para não chamar muita atenção para mim. Deus, eu me sinto como uma fugitiva. Leva vários minutos para a recepcionista encontrar tudo o que eu pedi, ela sai do lobby e olha na sala de limpeza. Ela só tinha um kit de primeiros socorros pequeno com alguns Band-Aids e antibióticos em pomada, fechados atrás da mesa. "Desculpe, eu não poderia encontrar nenhum peróxido, mas aqui está uma garrafa cheia de álcool." A menina entrega o frasco e uma caixa fechada de gaze enrolada sobre o balcão para mim. "O que aconteceu? Está tudo bem?" Agradeço-lhe e tiro as coisas do balcão. "Sim, está tudo bem. Meu uh, namorado, cortou a mão com sua faca de bolso." Balancei minha cabeça e revirei os olhos dramaticamente. "Ele estava tentando abrir uma dessas embalagens de plástico à prova de humanos. Eu disse-lhe que ia vir aqui e pedir uma tesoura, mas ele insistiu que ele conseguia." Eu reviro os olhos novamente para acrescentar algum efeito. A menina ri levemente. "Parece com o meu namorado." Eu ri com ela, agradeço a ela novamente e volto para o elevador sentindo como se eu não pudesse fugir dela rápido o suficiente. Victor tinha sua calça puxada para baixo sobre um lado de seu quadril na hora que eu cheguei de volta. Ele está de pé em frente ao espelho, torcido a cintura de um jeito, para que ele possa olhar melhor a ferida, o que eu vejo claramente agora. Há um pequeno buraco na carne mais grossa apenas atrás do topo de seu osso ilíaco. Ele não parece estar sangrando muito mais, porém há muito sangue nesta camisa, a prova que já tinha sangrado seu quinhão.

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Eu ando mais perto e coloco os suprimentos no suporte de TV na frente do espelho. "A bala ainda está aí?" Eu pergunto, olhando para a ferida mais atentamente. "Sim." Disse ele estendendo a mão para o álcool. "Mas não é profundo." Torcendo a tampa, ele derrama um pouco na ferida. Ele faz uma careta e fecha os olhos momentaneamente, até que a dor que queima facilita. "Você deixou ela lá todo esse tempo?" Eu pergunto, não encontrando razão potencialmente aceitável. "Por que não fez isso mais cedo? Ou foi a um hospital?" Percebo agora que ele não fez nada por essa ferida depois que ele me deixou, ele esperou até depois... "Victor?" Pergunto ao perceber. Ele caminha até sua mochila sobre a mesa perto da janela e alcança o interior. "Sim?" Ele mal olha para mim, mais ocupado com a faca que ele apenas pescou da bolsa. No último segundo, eu decidi não falar minhas hipóteses em voz alta. Porque eu estou provavelmente longe da marca e eu não quero parecer boba acreditando em algo assim absurdo. "Não importa." Digo. "Você precisa de ajuda?" Ele contempla a oferta. "Não, eu posso fazê-lo. Já fiz isso antes." Talvez essa mentira que eu disse para a recepcionista tinha alguma verdade nisso, afinal. Eu sorriso levemente pensando sobre isso e então eu movimento-me pela sala em direção a ele com o álcool e gaze em minhas mãos. "Você não pode sequer vê-lo totalmente." Aponto. "Eu posso ajudar. Apenas me diga o que fazer. Eu não sou completamente inútil." Mais uma vez, seu rosto aparece fracamente contemplativo e, em seguida, para minha surpresa, ele tira a calça e fica na minha frente praticamente nu, vestindo apenas uma apertada cueca boxer preta que se agarra a cada curva máscula e recuo a partir de sua parte inferior da cintura para os topos de suas coxas. É natural que eu

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olhe um pouco, especialmente porque ele é tão fisicamente apto, mas não deixo que isso me distraia. Essa bala merece todo a minha atenção e certifico-me de dar-lhe. Ele queima a lâmina da faca com um isqueiro por um tempo e entrega-a para mim. Eu nunca fiz nada parecido com isso antes e realmente sinto-me um pouco enjoada só pensando sobre isso, mas tento não deixar demostrar no meu rosto. Tomo a faca para segurar e esperar por ele para me instruir. "Como eu disse, não é muito profundo. Basta tirá-la com a extremidade da lâmina." Eu estremeço com a imagem que suas palavras criam em minha mente. "Mas e se eu cortá-lo?" "Não pode ser pior do que a bala fez. Agora se apresse." Diz ele, puxando o elástico em torno de sua cueca para baixo mais sobre o osso ilíaco para me dar melhor acesso. Secretamente, eu vislumbre a rígida curva de seu músculo do osso pélvico superior e em seguida, começo a trabalhar. Hesitante, eu trago a faca até sua pele e olho para ele, esperando que ele mude de ideia e faça sozinho, depois de tudo. Porque eu realmente não acho que eu possa fazer isto. "Vá em frente." Ele me pede. "Você não vai me machucar mais do que já está." Ajoelho-me para que meus olhos fiquem no nível da ferida e sinto meu rosto corar um vermelho intenso quando noto o contorno de sua masculinidade através da apertada cueca boxer. Mas ainda assim, não deixo seus óbvios bons genes me distraírem do assunto em questão. Cuidadosamente, eu insiro a ponta da lâmina na ferida, meu rosto apertado e torcido para algo horrível. Nervoso no início, ele leva muito tempo empurrando para mais longe e eu não faço até que ele se cansa de esperar.

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"É como puxar um Band-Aid fora de um machucado, Sarai." Diz ele, irritado. "Simplesmente faça e acabe com isso. Quanto mais tempo você arrastar pior ele me faz sentir." Eu mordo meu lábio inferior, pressiono duramente os dedos da minha mão livre ao redor da parte de trás da coxa, para obter uma melhor aderência ao redor da área e depois afundo a faca. Eu sinto seus músculos contraírem sob a minha mão, mas eu estou muito nervosa para olhar para cima, e ver a dor que eu sei que está em seu rosto. "Por que você voltou para mim?" Pergunto, em parte para tirar da minha mente o que estou fazendo, de resto realmente querendo muito saber. "Eu nunca deixei." Diz ele e eu olho para cima para ver seus olhos. Ele olha para o lado e, em seguida, acrescenta: "Eu pensei que você estava sendo seguida. Eu pretendia ficar para trás e esperar até Javier ou quem quer que ele enviou para você, mostrar-se aonde você estava." Surpresa por sua admissão, eu puxo a faca de sua carne e viro a cabeça para trás para olhar para ele. "Você estava me usando como isca?" Eu não sei se essa dor de repente que eu sinto é porque arrisquei a minha vida para pegar Javier, ou se é porque ele não se preocupa com o meu bem-estar, tanto quanto eu tinha começado a acreditar que ele pudesse. Victor suspira levemente, embora ainda irritado, mas parece mais por causa do que eu disse, do que pelo tempo que levo puxando o maldito ‘Band-Aid’. "Não." Diz ele. "Logo depois que eu puxei para a estrada principal, vi outro carro de passeio por lá. Um novo tipo de Cadillac. Preto com um preço bom. Eu pensei que não se encaixava perfeitamente com o bairro." Eu me sinto tola, antes que ele mesmo termine explicando. "Então eu me virei e estacionei na estrada e assisti para ter certeza." Lembro-me do carro agora, o único que passou por mim e me deixou extremamente nervosa.

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Eu volto a trabalhar para encontrar a bala, tentando ser mais cautelosa. "Sinto muito." Digo. "Pelo quê?" Finalmente, vejo a bala no meio do sangue e trabalhá-lo para fora, com o final da lâmina. "Por estar te acusando." A bala cai no chão e um jorro de sangue sai da ferida. "Pegue a gaze." Diz ele casualmente, apontando para ela em cima da mesa. Eu faço o que ele diz, enquanto ele derrama mais álcool na ferida sangrenta cerrando os dentes ainda mais do que antes. Eu pego a gaze da mesa e abro além da embalagem, desenrolando todo o rolo, o que não é suficiente para envolver em torno de sua cintura duas vezes, e muito menos quantas vezes fossem necessárias para ajudar a manter o sangue drenado. "Não tenho que costurá-la para cima ou alguma coisa?" Eu pergunto. "Não agora." Diz ele. "Eu não tenho nada para costurá-la. Você vai ter que embalá-la com a gaze." "Mas não vai-" "Vai ficar tudo bem." Ele assegurou-me, apontando para a gaze pendurada na minha mão. "Eu acho que Izel pegou você de volta por causa daquela feridas na carne que você deu a ela." Digo enquanto ajoelho para trás e para baixo ao nível da ferida. "Eu acho que sim." Diz ele. "Basta usar o dedo para embalá-lo para dentro. Colocar muita pressão sobre ela." Sem pensar nas minhas mãos tocando no sangue, eu começo a arrumar o buraco com a gaze até que não cabe mais. Mas eu vejo agora que ele realmente não é tão

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profundo, talvez uma polegada no máximo, e ele realmente parecia pior do que realmente é. Depois de cortar o excesso de gaze longe, ele puxa a cueca de volta onde ela fica logo abaixo de seu quadril. "Eu estou indo tomar banho." Diz ele caminhando para o banheiro. "Não abra a porta para ninguém. E fique longe da janela. Obrigado por sua ajuda." "Claro. A qualquer hora." Digo sem rodeios. Eu gostaria que ele fosse um pouco mais de conversação. Eu vou ter que remediar isso. Ele deslizou para dentro do banheiro e segundos depois, ouço a água correr. Eu caio para baixo no final da minha cama e ligo a televisão, em busca do noticiário local. Quando encontro, não posso fazer nada, mas olhar para o cabelo preto da mulher enquanto ela está fora da área onde: "dez corpos foram encontrados mortos mais cedo esta manhã", e o resto do que ela diz se desvanece na parte de trás da minha mente. Dói pensar em Lydia, a maneira horrível com que ela morreu. Dói saber que eu não poderia ajudá-la como eu prometi e que seus avós vão logo saber sobre sua morte e que eles estarão com o coração partido. A única coisa boa com que eu saí desse noticiário é saber que o corpo de Lydia foi encontrado, que não foi deixado lá para decair e virar pó sem nunca ser identificado.

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CAPÍTULO DEZESSETE Victor

A garota está dormindo quando eu saio do banho. Eu desligo as luzes do quarto e verifico novamente a porta antes de parar ao lado da cama dela. Ela está deitada em posição fetal, com um travesseiro comprimido contra o peito. Ela está imunda e poderia ter tomado um banho, mas estava exausta com tudo o que aconteceu. Eu estudo a forma como o seu longo cabelo ruivo, embora despenteado, destaca os contornos de seu rosto. Ela parece serena deitada ali, inocente. Apesar do cansaço, depois de tudo que ela passou, eu acho interessante que ela possa dormir. Eu vou precisar conseguir algumas roupas novas e sapatos para ela, em breve. Cuidadosamente, puxo a colcha sobre seu corpo e a deixo em seu sono profundo, sentando-me à mesa no outro lado do quarto. Estou quebrando minhas próprias regras mantendo-a ao meu redor dessa forma. Eu sei que deveria tê-la deixado no trailer e esperado por Javier vir em busca dela, porque, certamente, esse é um dos primeiros lugares que ele vai olhar, tornando mais fácil para eliminá-lo. Mas sinto que devo isso a ela, mantê-la viva. Pelo menos por agora. Pelo menos até que Javier Ruiz esteja morto. Ela já viu muita coisa, passou por muita coisa. Ela apresenta todos os sinais de ter perdido a capacidade de reagir ao medo e perigo apropriadamente. Ela é insensível ao perigo e isso por si só é uma sentença de morte. Uma vez que isso tiver terminado, eu a deixarei por conta própria novamente. Talvez ela encontre seu caminho, embora suas chances sejam pequenas. Entretanto é um risco que eu tenho que correr. Ela não pode ficar comigo por muito mais tempo; a vida que eu levo só vai levá-la a morte. Faço contato com Niklas através de uma transmissão de vídeo ao vivo em meu iPad, colocando o fone em apenas um ouvido para que eu possa controlar o volume da minha voz enquanto converso com ele.

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“Ela ainda está com você?" Niklas pergunta, incrédulo. Eu não esperava nada menos dele. “Eu vou me livrar dela assim que eu eliminar Javier Ruiz." Digo. "Por agora, eu preciso dela por perto. Eu não posso perseguir Javier se ele estiver indo de um lugar para outro perseguindo ela." “Então você está usando-a como isca?" Ele parece aceitar mais essa perspectiva. Olho para Sarai para ter certeza de que ela não está acordada. "Sim." Respondo olhando para trás, mas imediatamente sinto como se eu estivesse enganando o meu irmão e, por sua vez, nosso chefe. Por resolver questões importantes por conta própria e por quebrar o protocolo pelo bem de uma missão bem sucedida, que eu era conhecido. Com o tempo as minhas decisões baseadas puramente em meu instinto foram aceitas e respeitadas por Vonnegut. Porque eu nunca errei. Mas, quebrar o protocolo enganando completamente a Ordem é um território novo para mim. E eu ainda não entendo completamente porque eu estou fazendo isso. "Bom." Diz Niklas. "De volta ao que interessa. O último paradeiro conhecido de Ruiz é de que ele estava nos limites de Nogales. Ele teve dificuldade em atravessar a fronteira com o Arizona, mas finalmente foi concedida a permissão, uma vez que seus infiltrados plantados no controle de fronteiras chegaram para ajudá-lo a passar. Nós acreditamos que ele está a caminho de Tucson, se ele já não estiver lá." Niklas acrescente. "Qual é o seu próximo passo? Vonnegut não fez nada além de passar as rédeas desta missão completamente para você. Tudo o que ele pede são as atualizações. E como você pode compreender, tenho certeza, ele acredita que está levando tempo demais para ser concluída. Javier deveria ter sido eliminado ontem e você deveria estar em um avião para a sua próxima missão, neste momento." "Estou consciente." Aponto. "No máximo mais 48 horas é tudo o que eu preciso." Niklas aceita, acenando com a cabeça ao responder.

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"Eu vou levar a garota comigo para Houston pela manhã." Continuo. "Informe A Casa Segura3 Doze da minha chegada." "Por que a Doze?" Niklas olha para mim cautelosamente. "Você sempre escolhe A Casa Segura Nove. A Doze não é o seu... devo dizer, tipo?" "Eu não estou indo lá para isso." Digo a ele. Ele acredita nisso, mas eu posso sentir que ele particularmente não concorda com isso. Algo está diferente com meu irmão, como meu contato e meu irmão e eu pretendo descobrir o quê. "Por que ir para Houston afinal?" Ele pergunta, aparentemente inteiramente irritado com as minha decisões. "Você poderia esperar ele vir até você e acabar de uma vez com isso. Por que, Victor, você está arrastando isso?" Raiva e frustração crescem em sua voz. "Estou levando a garota para lá para mantê-la segura." Digo e há questionamento mais do que suficiente em seu rosto para mostrar que ele está fora de si com o meu raciocínio. Então, para o bem da minha relação com o meu irmão, acrescento. "Niklas, é apenas temporário, garanto-lhe. Você tem que confiar em mim." "Muito bem." Niklas concorda com suspeita suprimida. "Vou alertar a Casa Segura Doze de sua chegada. Ela estará esperando por você." E, em seguida, o vídeo termina. Eu corro meu dedo sobre uma série de teclas sensíveis ao toque, invadindo o sistema pela porta dos fundos. Eu escolho uma longa série de comandos, limpando o dispositivo de todas as provas de correspondência e, em seguida, destruindo o sistema. Eu caminho tranquilamente passando por Sarai e levo o iPad para o banheiro, limpando minhas impressões digitais de cada centímetro quadrado dele, usando o que sobrou do álcool. E então eu o jogo na parte de trás do vaso sanitário. Me arrasto até a cama ao lado da janela e deito sobre minhas costas, olhando para o teto na escuridão.

3

Casa Segura ou Safe House – É a casa onde bandidos podem ficar em segurança.

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"Ele não gosta muito de mim. Gosta?" Eu estou bastante chocado que ela tenha conseguido fingir estar dormindo sem eu perceber. Ela estava fingindo? Ou eu estou ficando muito desfocado por causa dela? "Não, ele não gosta." Respondo sem olhar para ela. "Mas você gosta?" A pergunta me deixou confuso. Ela se levanta da cama e minha cabeça move para o lado para vê-la conforme ela se aproxima. Sem saber o que fazer, incapaz de lê-la, porque eu estou confuso por suas ações, eu não falo. Ela se deita ao meu lado. Seus joelhos estão levantados e pressionados juntos, suas mãos escondidas entre eles, e ela olha para mim. "Você deve voltar para a sua própria cama." Digo. "Eu só quero dormir aqui. Não é o que você pensa. Eu só estou com medo." "Você não teme nada." Digo, olhando novamente para o teto. "Você está errado." Ela se opõe. "Eu temo tudo. O que o amanhã irá trazer e se eu vou estar viva para ver o fim disso. Tenho medo de Javier ou de qualquer outra pessoa entrando por aquela porta e me matando enquanto eu durmo. Tenho medo de nunca ser capaz de viver uma vida normal. Eu nem ao menos sei com o que o normal se parece mais." "Há uma diferença gritante entre o medo e a incerteza, Sarai. Você não teme nada, mas é incerta sobre tudo." "Como você pode acreditar nisso?" Ela parece realmente confusa com a minha avaliação dela. Eu olho para ela e respondo. "Porque você não foi à polícia. Porque você não fez nenhum esforço para entrar em contato com alguém que você conhecia e você teve dezenas de chances de fazê-lo. Porque você voltou para o carro. Comigo. Um assassino. Porque você sabe que eu te mataria sem pensar duas vezes e eu não ficaria com

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remorso, mesmo assim você está deitada ao meu lado. Aqui nesta cama. Sozinha e voluntariamente." Eu estendo a mão e pego a arma do chão ao lado da cama e antes que ela saiba o que está acontecendo, o cano dela está pressionado debaixo de seu queixo, forçando a cabeça dela para trás. Eu empurro meu corpo contra o dela, nossos ombros se tocando, o peso da minha mão que segura a arma sustentado pelo peito dela. Meus olhos estudam os dela, questionamento e surpresa dentro deles, embora fracos. Eu olho para a boca dela, seus lábios macios e inocentes pressionados juntos suavemente. Eu me inclino e sussurro no lado da boca dela: "Porque você não está tremendo, Sarai.” E então, lentamente, eu retiro a arma, nunca removendo os meus olhos dos dela. "Eu não sou o Javier." Eu digo. "Você está enganada se você acredita que pode me manipular como você fazia com ele." Ela parece ofendida, apesar de estar muito fraco em seus olhos, eu vejo isso. É exatamente a reação que eu queria. Que eu precisava. Saber que a acusação é falsa. Sem argumentar, ela retira o olhar de mim e rola para o outro lado. Ela não se levanta e não volta para sua cama. E não forço-a. "Eu não estava com Javier por vontade própria." Ela diz, de costas para mim. "Eu não tenho nenhuma razão para manipular você." Um minuto de silêncio se passa; apenas o arrastar de pés se movendo pelo carpete no corredor do lado de fora da porta o interrompendo. "Estou feliz que você tenha voltado." Ela diz suavemente. "E Victor... Eu devo dizer a você, eu tenho sido uma mentirosa pelos últimos nove anos da minha vida. Tudo o que eu disse e fiz e expressei foi mentira. Eu gosto de pensar que eu já domino essa prática por agora." Ela faz uma pausa e eu não preciso pensar muito para saber o rumo que ela está indo com isso. "Eu notei que toda vez que você fala com esse homem, Niklas, sobre mim, você está mentindo." Ela levanta a cabeça para trás para me ver atrás dela. "Obrigada por me ajudar." E então ela se vira novamente e não diz nada para mim pelo resto da noite.

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Sarai

Eu acordo na manhã seguinte enrolada no lençol no centro da cama de Victor. Pergunto-me se ele dormiu aqui ontem à noite. "Vamos." Ele diz de algum lugar atrás de mim. "Nós temos duas horas antes de nosso avião partir e você precisa de algumas roupas novas." Movo-me na cama para vê-lo de pé no quarto, completamente vestido em seu terno e sua camisa branca ensanguentada, esperando por mim. Olho para a camisa colocada por dentro de suas calças, vendo uma mancha de sangue. "Eu não sou a única que precisa de roupas novas." Caminho até ele e estendo minha mão para levantar a camisa dele, mas ele fecha o paletó abotoando apenas um botão, para esconder o vermelho óbvio contra o branco do tecido. "Como você está se sentindo?" Pergunto, apenas um pouco magoada por ele ter negadome a chance de inspecionar a ferida dele. "Estou bem." "Mas você precisa, pelo menos, mudar essa gaze." "Eu sei." Ele diz levemente. "E receberá cuidados quando chegarmos a Houston." Nós dirigimos até uma loja de departamentos próxima, onde ele estaciona perto da entrada e sai. Eu permaneço sentada, não esperando que ele me faça entrar sem sapatos e da forma como estou aparentando.

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Antes de ele fechar a porta eu digo: "Eu provavelmente devo dizer-lhe o tamanho que eu visto." Ele fecha a porta sem me deixar terminar e caminha até o meu lado, abrindo minha porta e esperando por mim. "Você veste tamanho seis." Ele diz, surpreendendo-me. "Agora saia. Você não pode ficar aqui sozinha." "Eu não posso entrar, também." Eu aponto para meus pés descalços, que agora estão pretos na parte debaixo por andar por aí sem sapatos desde ontem. "Estou descalça. Sem camisa, sem sapatos, sem utilidade." Aparentando estar irritado comigo, Victor pega a minha mão e me puxa para fora do carro. Eu mal protesto. Nós ficamos na loja por no máximo quinze minutos antes de voltarmos para fora, eu com um novo par de calças legging cinza e casuais, uma camiseta branca simples e um par de tênis. Ele também me deixa pegar um pacote de meias brancas de cano baixo e um pacote com seis calcinhas brancas de algodão. Durante todo o tempo eu senti que estava esquecendo alguma coisa, mas foi somente quando estávamos de volta dentro do carro que lembrei: eu deveria ter comprado um sutiã. Faz tanto tempo desde que tive um que realmente esqueci a importância deles. Achei que íamos para um aeroporto comum e iríamos voar em um avião comercial, mas, em vez disso, nós dirigimos até um local de volta a Green Valley e embarcamos em um jato particular. Fazia sentido eu concluí, uma vez que ele não pode passar por uma revista de segurança em qualquer aeroporto público com uma mala cheia de armas, uma mochila com uma enorme quantidade de dinheiro e outra cheia de itens suspeitos. Enquanto no pequeno avião, Victor me presenteou com a minha própria carteira de motorista falsa, que parece tão real que poderia facilmente passar por algo do Departamento de Trânsito. Imaginei onde ele a conseguiu, mas nunca perguntei, presumindo que no início da manhã, pouco antes de sairmos, ele desceu até a recepção no lobby para pegar um "pacote".

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Hoje sou Izabel Seyfried, vinte anos de idade, de San Antonio, Texas. E a fotografia, eu não estou nem ao menos certa de como ele conseguiu tirá-la, mas é definitivamente de mim e tão recente que eu estou vestindo a mesma blusa imunda que eu tinha usado desde quando eu escapei do complexo. O pano de fundo natural da foto tinha sido removido e substituído pelo fundo azul desbotado do Departamento de Trânsito, então eu também não tenho a menor ideia de onde eu estava quando ele tirou a foto. Eu não sei, mas tenho uma carteira de motorista e isso é bom o suficiente para mim. "O lugar para onde estamos indo." Victor diz. "É seguro, mas a mulher que está lá não deve saber o seu nome verdadeiro. Ninguém deve saber daqui em diante. Vou me referir a você como Izabel e você precisa responder a esse nome casualmente como se fosse o seu próprio." "OK." Concordo. "Quem é essa mulher?" "Ela é um conexão... um tipo de contato. Mais como um apoio." Confusa, eu pergunto: "Mas se ela é uma de vocês, por que mentir para ela?" Ele toma um gole de água e coloca o copo na mesinha que saía pela parede do avião, debaixo da janela em formato elíptico. "É apenas uma precaução." Ele diz, inclinando a cabeça para trás contra o encosto de cabeça. "Quando uma pessoa é procurada por outras muito ricas, praticamente qualquer um pode ser seduzido." Eu levanto as minhas costas do assento. "Espere um segundo, o que você está dizendo? Você acha que todo mundo sabe que eu fugi de Javier?" "Eu não recebi nenhuma confirmação disso, mas é melhor se preparar com antecedência." Como se eu já não estivesse no limite o suficiente...

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CAPÍTULO DEZOITO

Nosso voo aterrissa em Houston logo após as doze e há um carro azul comum, que se parece com algo que minha mãe costumava dirigir, esperando por nós do lado de fora. Victor pega todas as três bolsas e as esconde dentro do porta-malas. A mulher dirigindo suponho que seja o contato. Mas ela parece tão comum, assim como seu carro. Eu esperava mais sofisticação, assim como Victor em seu terno preto e sapatos caros, mas na verdade ela parece mais como eu. "Eu não te vejo há anos." A mulher diz depois de Victor se acomodar no banco da frente. Sento-me no banco de trás, logo atrás ele. "Sim, faz um tempo." Victor responde. Quando a mulher sorri para ele, linhas profundas se formam em torno dos cantos da boca dela. Ela tem cabelo loiro, sua idade aparentando através de seu cabelo acima de tudo, a julgar pela quantidade de fios grisalhos misturados nele. E ela é muito mais velha do que Victor, dez anos pelo menos. Mas ela é muito bonita e asseada e sinto-me envergonhada comparando-me com ela no meu estado atual. Nós nos afastamos do edifício perto da pista de pouso privada e nos dirigimos a para autoestrada. "Eu me pergunto o que você trouxe para mim da selva." Acrescenta. Em seguida, ela olha para mim por alguns instantes. "E quem você trouxe junto? Garota bonita. Eu tenho o pressentimento de que ela não é..." "Não, ela não é." Victor interrompe. Eu não sou o que, exatamente? Então ele começa a falar com ela em Francês. Espanhol, alemão, francês? Quantas línguas que esse homem fala? Eu odeio o fato de que eu não consigo entender o que eles estão falando, mas eu sei que eles estão falando de mim. A mulher olha para mim pelo retrovisor algumas vezes, um

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sorriso com compreensão subindo pelos cantos dos lábios dela. Mas, mesmo em uma língua que eu não posso entender, eu posso dizer que ele não está sendo completamente honesto com ela. Ou, talvez eu não possa. Talvez seja apenas porque eu sei no fundo que não tenho nada que me preocupar quando se trata de Victor. Esse fato me surpreende mais a cada dia. "É um prazer conhecê-la, Izabel." Ela diz. Eu dou um pequeno sorriso para ela e decido que, uma vez que eu não tenho nenhuma ideia de tudo o que Victor acabou de dizer a ela sobre mim, será melhor não falar muito para evitar contradizer a história dele. Muitos minutos depois, estacionamos na garagem de uma casa humilde situada junto a outras casas semelhantes. Dois meninos passam voando em suas bicicletas ao longo da rua quando saímos do carro. Diretamente em frente, do outro lado da rua, um homem lava seu carro na garagem. A mulher que está conosco eleva sua mão e acena para ele que acena de volta. É um bairro muito típico, do tipo que todos os meus amigos da escola moravam quando eu estava crescendo e era mais respeitada pelas garotas populares do que um estacionamento de trailers. A mulher abre o porta-malas ao apertar um botão dentro do carro e eu me junto a Victor na parte de trás enquanto ele pega as malas dele. Mas eu não tenho a chance de perguntar a ele em particular sobre o que ele havia dito, quando ela se junta a nós segundos depois. "Você vai ter que desculpar a bagunça." Ela diz, tocando as chaves; uma bolsa oscila no outro ombro. "Eu realmente limpei, mas se eu tivesse mais alguns dias para preparar eu teria contratado alguém da Molly Maids." Ela acena para nós a seguirmos. "Entrem. Meu pobre Pimenta vai rasgar minhas cortinas da janela se ficarmos aqui." Eu ouvi o latido abafado de um cão pequeno por uma janela lateral, enquanto nos aproximamos da porta sob a garagem. O tecido se movendo de forma irregular por trás da cortina. Há outro carro estacionado na garagem, sob a parte coberta, mas é velho e parece estar estacionado ali daquela forma por vários anos. Quando ela abre a porta, o cheiro da comida, comida deliciosa, instantaneamente faz meu estômago roncar e doer.

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"O almoço está pronto." Diz a mulher nos levando para a cozinha. Ela coloca sua bolsa em cima do balcão; e desde já seu Pomeranian latidor está fazendo suas rondas, decidindo qual perna cheira mais, a minha ou de Victor. "Sente-se." Ela diz gesticulando para a mesa da cozinha. Não tendo que me dizer duas vezes, eu me sento na cadeira mais próxima, onde um prato vazio me aguarda. Victor senta na cadeira ao meu lado. A mulher se move como em uma valsa com uma tigela de cerâmica cheia de purê de batata em uma mão e um prato cheio de frango frito na outra e os coloca na nossa frente. Uma tigela menor de milho e uma cesta de pães vêm em seguida. Não me sentindo confortável em ser a primeira a servir, eu espero para ver se Victor vai servir algo antes de mim. "O que você gostaria de beber?" A mulher pergunta. "Eu tenho refrigerante, chá, leite, limonada." "Água está ótimo." Victor diz e, em seguida, ele olha para mim e casualmente acena com a cabeça para a comida, dando-me o OK para começar a encher o meu prato. "Da torneira." Ele acrescenta no último segundo. Alcanço o frango primeiro e pego um pedaço com o pegador. "Eu vou beber água também." Digo, olhando para ela enquanto coloco uma coxa de frango no meu prato. "Obrigada." Ela sorri docemente e caminha ao redor do balcão em direção à geladeira e começa a preparar as nossas bebidas, repreendendo o pequeno cachorro verbalmente mandandoo para fora da cozinha e longe de nós. No momento em que ela retorna com nossos copos, Victor e eu já colocamos toda a comida que queremos em nossos pratos. Ela coloca as nossas bebidas na nossa frente.

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Agradeço-lhe mais uma vez e, me sentindo melhor agora sobre "servir primeiro", eu pego minha colher e começo a comer, mas Victor me para, colocando dois dedos no meu pulso e abaixando minha mão de volta para a mesa. Meu rosto fica vermelho e eu abaixo meus olhos, na esperança de que a mulher não pense que eu tenho a pior etiqueta possível. Eu imagino que ela pode ser o tipo religiosa, e que temos que segurar as mãos ao redor da mesa desajeitadamente enquanto ela fala com Jesus e diz-lhe como somos gratos por este alimento e pelas tropas e todas essas coisas. "Ah Victor." Ela diz brincando. "Você não pode estar falando sério." Ele não diz nada. Eu olho para ele à minha direita, franzindo as sobrancelhas. Talvez ele seja quem sente a necessidade de orar. Certamente não... A mulher suspira e revira os olhos um pouco conforme ela alcança meu prato e o desliza para longe de mim. Estou completamente confusa agora. Eu dobro minhas mãos no meu colo debaixo da mesa, porque eu não tenho certeza o que fazer com elas. Eu me viro para Victor, momentaneamente perdida nas profundezas misteriosas de seus olhos sob a luz brilhante do lustre centrado acima da mesa. Eu engulo nervosamente e volto à realidade quando ouço a voz da mulher. "Ele não confia em ninguém." Ela me diz enquanto pega um pouco do purê de batata do meu prato e coloca na boca. Ela aponta a colher para mim e continua com a boca cheia. "Nunca confiou. Mas é esperado." Ela engole. "E completamente compreensível, estando nesse tipo de trabalho e tudo mais." Os olhos dela se viram para Victor e de repente ela muda o assunto, como se ele tivesse lhe dado algum olhar particular de aviso que eu perdi no momento em que eu virei minha cabeça para vê-lo também. "De qualquer forma." Ela continua, agora dando uma mordida no meu frango. "Vocês dois podem ficar aqui o tempo que for necessário. O quarto extra é no final do

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corredor." Ela dá uma mordida no meu milho e, em seguida, no meu pão, finalmente engolindo a comida com um gole do chá dela. Em seguida, ela desliza meu prato de volta para mim. Eu o pego hesitante, tocando a borda do prato e sentindo desconfortável em comer qualquer coisa que ela acabou de colocar a colher várias vezes. Victor desliza, em seguida, o prato dele em direção a ela e ela faz o mesmo com a comida dele. Preocupa-me que na casa de um de seus contatos, ele sinta a necessidade de fazê-la comer a comida primeiro e provar a ele que ela não a envenenou. Pergunto-me brevemente sobre a nossa água, mas percebo que deve ser por esse motivo que ele pediu que fosse da torneira. Ele tinha observando cada movimento que a mulher havia feito o tempo todo, enquanto eu estava metaforicamente babando encima da minha primeira refeição caseira desde que eu passava meu tempo na casa da Sra. Gregory. Victor acena para mim, deixando-me saber que está OK eu comer agora. E eu não dou mais nenhum pensamento à troca de germes e começo a comer imediatamente. A mulher, cujo nome eu aprendi ser 'Samantha', se encarrega da maior parte da conversa pelos próximos trinta minutos, enquanto nós comemos. Em um momento e outro, Victor acrescenta um comentário aqui e ali, mas acho que a sua vontade para conversar está ainda menor do que estava comigo ou Niklas. Mas ela não parece se importar. Na verdade, ela aceita isso mais do que eu aceitaria. Se os dois estivessem em um encontro agora, seria óbvio para todos no restaurante que ele não está afim dela de forma alguma e ela está completamente alheia a esse fato. Mas isso não é um encontro e tenho a sensação de que eu sou a única pessoa nesta sala que está alheia ao que está acontecendo. Minha teoria é confirmada quando, depois do almoço, as coisas entre os dois começam a... mudar. "Vocês irão dividir a cama?" Ela pergunta da porta do quarto extra. Tem apenas uma cama aqui. É uma pergunta que eu venho fazendo a mim mesma desde que, eu entrei aqui.

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"Se não." Ela continua, olhando para Victor de uma forma que talvez ela não esperava eu notar. "Eu posso arrumar uma cama para um de vocês no sofá." "Isso não será necessário." Victor reponde e eu não sei porquê, mas meu coração pula dentro do meu peito. "Eu não vou dormir." Então, meu coração volta ao normal. Sem graça, não vibrante, normal. Samantha parece satisfeita. E por alguma razão, eu estou instantaneamente... com ciúmes. Tentando me familiarizar com essa emoção fútil e absurda que acabou de infiltrar em minha cabeça, brigo-me a colocá-la para fora. Eu começo a olhar para objetos aleatórios dentro do quarto: a colcha simples e creme que cobre a enorme cama, o conjunto de cômoda e aparador colocados em paredes opostas, o grande baú de carvalho situado no pé da cama com um cavalo esculpido na lateral, a janela com cortinas igualmente simples e brancas onde um colar de contas de algum tipo oscila de um lado da haste da cortina. "Tudo bem então." Ela diz em pé na soleira da porta com as mãos embaladas à sua frente. "Sintam-se em casa. E Victor..." Ela olha para baixo de sua cintura. "Quando você estiver pronto para fechar isso, você sabe onde me encontrar." "Eu irei logo." Victor diz e, em seguida, ela sorri educadamente para nós dois e caminha pelo corredor, deixando-nos sozinho no quarto. "Por que exatamente estamos aqui?" Victor abre a mala de armas dele na cama e pega duas lustrosas armas de fogo pretas. Ele coloca uma debaixo do colchão e a outra em uma pequena mesa no canto do quarto. Em seguida, ele abre o guarda-roupa, retirando um terno novo depois de deslizar por vários outros pendurados nos cabides. Calças primeiro, em seguida, uma camisa de manga comprida, por último, um casaco combinando. "Você vai ficar aqui." Ele diz. "Até eu matar Javier. Eu vou voltar para Tucson mais tarde esta noite, ou para onde quer que seja que me disseram que Javier foi visto pela última vez e, em seguida, vou encontrá-lo e vou matá-lo."

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"Mas por que Houston?" eu pergunto, sentada na beira da cama. "Não havia uma... ‘Casa Segura' no Arizona em algum lugar mais perto? Sabe, talvez você devia ter me usado como isca, afinal de contas. Eu poderia ajudar você. Quero dizer, é provável que, quem quer que esteja me procurando, tem como um dos primeiros lugares para verificar o local onde eu morava, em torno de pessoas que eu conhecia." Eu paro, pensando comigo mesma como estou feliz agora que a Sra. Gregory já não vive onde ela costumava viver. "Você está certa." Ele diz. "E é por isso que seja provável que volte para Tucson. Eu vi onde você morou, onde a mulher com a qual você passou a maior parte do seu tempo morou. Ao levá-la lá na noite passada, você já ajudou ao mostrar exatamente onde Javier pode ser encontrado. Não há necessidade de arriscar mais sua vida ao mantê-la lá." "Então você tinha outra razão para me levar para casa." Eu digo, sentindo-me muito pequena agora. "Você só queria ver o local." Victor balança a cabeça e fecha a gaveta de cima da cômoda. Ele se vira para me encarar e algo desconhecido é evidente em seus olhos azul-esverdeados. Um longo suspiro sai de suas narinas. "Eu te levei pra casa porque era o que você queria." Ele diz e vai para a porta com todas as suas roupas dobradas cuidadosamente sobre um braço. "Mesmo você sabendo que eles iriam até lá procurando por mim?" Ele para na porta, de costas para mim, seus dedos na maçaneta prontos para abri-la. A cabeça dele se inclina para trás um pouco e os ombros caem. No mesmo instante, eu sinto como se eu tivesse ofendido ele. "Vou usar o chuveiro no quarto da Samantha." Ele diz e isso provoca uma dor aguda. "Você deveria se limpar, vestir suas roupas novas." E então ele sai, deixando-me aqui sozinha.

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CAPÍTULO DEZENOVE Em vez de ir para o chuveiro, eu mergulho em um longo banho quente na banheira. Meus músculos doem terrivelmente e não demorou muito depois de entrar na água, para começar a sentir os pequenos arranhões e cortes por todo o meu corpo, que não tinha percebido que estavam lá antes. Estou surpresa que não tenha nenhum tiro também. No momento em que termino, estou mais limpa do que jamais me senti agora que tenho roupas novas para colocar e que pude depilar-me. Victor tinha dito na loja de departamentos que eu podia escolher o que quisesse, e que não importa o quanto custava, só que eu precisava ser rápida. Eu escolhi a coisa mais fora de moda e casual que eu pude encontrar. Porque não importo-me com moda e honestamente não lembrome da última vez que algo como isso me importou. Depois que já estou vestida, puxo meu cabelo molhado para cima em um rabo de cavalo e, em seguida, vasculho as coisas deixadas de fora na pia do banheiro. Desodorante, creme dental e escova de dente, vários frascos de loção e outros cremes de diversos tipos estão alinhados ordenadamente contra o espelho. Tudo é novo e não há como dizer quanto tempo isso tudo ficou aqui parado esperando por um hóspede como eu vir e usar. E eu definitivamente começo a usar tudo, começando com o primeiro desodorante, um luxo que eu raramente tinha no complexo. Javier, em sua maior parte, se certificava que eu tivesse minhas necessidades atendidas com coisas agradáveis, mas ele deixava a parte das comprar para Izel e já que ela me desprezava muito, ela fazia questão comprar o mais barato e mais inútil que ela poderia encontrar. Quando se tratava de desodorante, o melhor que eu já recebi foi alguma marca estranha de um líquido rollon, que deixou, manchas vermelhas e inflamadas debaixo da minha axila. Eu escovo meus dentes e até mesmo uso fio dental pela primeira vez em muitos anos e então encontro-me olhando fixamente em frente ao espelho. Eu não me vejo realmente, mas penso sobre Victor e o que ele está fazendo no quarto de Samantha. Imagens explícitas dele transando com ela surgem em minha mente e isso me perturba mais do que queira admitir para mim mesma. Eu realmente não posso estar atraída por um homem como ele, posso? Um homem que matou mais pessoas que eu possa contar. Não importa que sinta-me segura com ele, ou

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que eu confie nele, a verdade é que ele é o que é, e eu seria estúpida de achar que ele não iria me matar se ele achasse de alguma forma que fosse necessário. Mas estou atraída por ele. Eu tenho sentimentos estranhos, desconhecidos por ele. E odeio isso! Eu balancei minha cabeça com raiva de mim mesma, finalmente, tomando conhecimento do meu próprio reflexo. A área ao redor do meu olho direito está amarelada por uma contusão. Meus lábios estão secos e rachados. Há um pequeno corte ao longo do osso da sobrancelha esquerda. Eu tenho o olhar cansado e... usado. Apenas o som de algo caindo no chão em outra sala no fim do corredor me retira da minha auto aversão. Eu abro a porta do banheiro primeiro e espreito pelo corredor. Eu ouço a voz de Samantha, mas não consigo entender o que ela está dizendo. Finalmente saio do banheiro, eu caminho tranquilamente por toda a extensão do corredor em direção a seu quarto, na ponta dos pés sobre o tapete o mais cuidadosamente possível. A porta está fechada, por isso pressiono meu ouvido contra a madeira e tento ouvir, mas no momento que a toco, ela range um pouco ao abrir e meu coração cai no meu estômago. Fechei os olhos com força e seguro minha respiração até que eu saiba que consegui dar distância. Eu não deveria estar fazendo isso, penso para mim, mas não posso evitar. Eu espio dentro do quarto mal iluminado. A televisão está ligada, mas está muito baixa ou sem som, e ela fornece a maioria da luz para o quarto. Vejo a camisa ensanguentada de Victor e o resto de sua roupa pendurada parcialmente sobre o lado de um cesto de roupa suja pressionado contra a parede perto do banheiro principal. Essa porta está aberta também. Empurrando a porta do quarto para abrir um pouco mais, apenas o suficiente para me espremer para dentro, eu ando pelo quarto de Samantha. E cada passo que dou me faz sentir muito mais violadora e rude. Mas tenho que saber. Porque o pensamento dele com ela está me torturando por dentro. Talvez mais tarde eu vá tentar descobrir o porquê. Agora, só quero saber. Eu atravesso o quarto até a porta do banheiro, onde eu espero do lado de fora dela, meu coração batendo no meu peito, preocupado que eles vão me pegar escutando. Quando, depois que alguns segundos passam e Samantha está falando de novo, sinto-me segura o suficiente para espreitar para dentro e dar uma olhada melhor, só esperando que a escuridão parcial do quarto ajude a impedir de ser vista.

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Victor Eu fico com as minhas mãos pressionadas contra o balcão, uma toalha enrolada em volta do meu corpo na cintura, depois de ter acabado de tomar banho. Encaro o espelho sobre a pia, inclinando meu queixo para um lado e depois o outro, sentindo-me como se deveria fazer a barba, mas decidir contra isso. Samantha senta-se no assento do vaso sanitário fechado com uma agulha e linha de sutura na mão, pronta para me costurar. "Você vai tirar a toalha?" Ela pergunta. "Eu não posso fazer isso direito com ela no caminho. E não é como se eu já não tenha visto antes." Eu começo a retirar a toalha, quando ela diz isso, mas então noto um som bem fraco, como o som de uma respiração afiada, que estou surpreso que tenha escutado. Eu olho para o espelho e olho para trás na porta não vendo nada, mas sabendo que Sarai está do outro lado. "Victor?" Samantha me pede, ficando irritada com a minha resposta lenta. "Não." Finalmente respondi, virando-me para que o lado onde a ferida está, fique de frente para ela. Eu me abaixo e ajusto estrategicamente a toalha sobre a parte de trás do meu quadril para que ela possa acessá-lo, depois amarrando-a firmemente do outro lado para segurá-la no lugar. "Se você insiste." Samantha diz e vai direto para o trabalho. Eu sinto o entrar da agulha uma vez e eu cerro os dentes por um momento até que a dor se desvanece. "Você nunca me disse por que você parou de vir aqui." Diz Samantha. "Foi para o melhor." "Besteira. Foi algo que eu fiz ou disse, ou talvez fosse algo que eu não fiz. Eu só quero saber. Sem ressentimentos. Sem constrangimento. Basta responder a pergunta que tem me incomodado por dez anos. Eu mereço isso." Após a segunda passagem da agulha através da minha pele, já não sinto mais. "Eu respeito você." Digo. "Não me pareceu certo continuar usando você." "Querido, você sabe melhor do que isso." Ela sorri para mim por alguns instantes. "Eu não me importo, que inferno, eu gostava." "Mas eu me importava." Samantha empurra a agulha de novo, sempre com cuidado. Em seguida, ela balança a cabeça. "Eu pergunto-me como você consegue fazer este trabalho com essa sua consciência. Eu acho que você é a única pessoa com consciência que consegue."

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"Bem, não foi nada que você fez ou deixou de fazer." Digo, ignorando por completo o comentário. "Então, eu espero que eu tenha respondido a pergunta o suficiente para satisfazê-la." "Pare de ser tão técnico comigo, Victor. Você sabe que eu odeio isso." Ela se levanta do assento do vaso sanitário e pega o iodo, derramando uma pequena quantidade em um pano de limpeza. Ela enxuga o pano e coloca ao redor da ferida costurada. "Ouvi dizer que você começou a ficar na ‘Casa Segura Nove’ em Dallas, quando você vinha por estas bandas." ela continua e posso prever onde ela vai com o resto. "Será que é porque aquela é mais jovem do que eu? Quero dizer, tudo bem se for. Estou ficando velha com o passar dos anos, eu admito." É exatamente o que previ que ela diria. Eu suspiro e encosto no balcão, cruzando os braços. Ela puxa um grande pedaço de gaze de um pacote para o coloca em seguida. Eu olho bem para ela, esperando que eu possa dizer o que estou prestes a dizer, sem deixa-la contra mim. Eu não vou deixar Sarai a sós com ela se ela acha que eu escolhi A ‘Casa Segura Nove’ ao invés dela por causa de algo tão absurdo quanto a sua idade. Samantha é uma assassina. E uma mulher que se sente desprezada, que também seja uma assassina é uma combinação fatal. "Escolhi a Nove, porque ela é uma prostituta e orgulhosa de ser isso." Digo, a verdade do jeito que ela precisa ser, para fazê-la entender. "Eu não poderia usá-la como ela me deixou usá-la. Porque você foi e ainda é minha amiga. Espero que você entenda." Ela ri levemente. "Você não tem nenhum amigo, Victor." Seu olhar me intriga enquanto ela coloca a gaze sobre a ferida e pressiona duas tiras de fitas ao longo de suas bordas. Em seguida, ela levanta-se e me olha com pensativos olhos verdes. Eu sinto a mesma coisa em seus olhos como eu sempre sentia quando vinha aqui, quando eu dormia com ela. Ela podia ter sido alguém que pudesse se apaixonar por mim, se eu fosse deixá-la ir tão longe. Ela começou a ficar muito perto e eu não podia deixar isso acontecer. Ela sempre foi gentil comigo. Ela era diferente das outras que eram mais como eu e só estavam interessadas em sexo. Porque ela não é irresponsável e perigosa e tola, o que é totalmente inaceitável. "Quem você pensa que está enganando, Victor?" Ela pergunta com um sorriso brincalhão, mas inofensivo. Eu puxo a toalha de volta sobre meus quadris, colocando-a em minha cintura.

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"O que você quer dizer?" Eu pergunto, olhando para ela com curiosidade. Samantha inicia a limpeza da bancada das sobras de bandagem e lava o sangue e iodo na pia com uma explosão de água. "Essa menina do corredor." Diz ela. "Izabel. Claro que nós sabemos que não é seu nome verdadeiro, mas independentemente disso, o que diabos você está fazendo com ela?" Ela deixa cair um punhado de tecidos sangrentos no lixo ao lado do vaso sanitário. "Eu disse a você." Digo. "Eu só estou ajudando ela até eu eliminar o meu alvo. Depois disso, ela está sozinha." Eu nunca poderia enganar completamente Samantha, mas o que me impressiona mais sobre agora é que ela parece saber mais sobre o que está acontecendo comigo do que eu mesmo sei. E não gosto dessa ideia. Eu olho para a porta do banheiro a vários metros de distância, pensando se Sarai ainda está escondida lá, ouvindo tudo que falamos. Eu sei que ela está. Eu posso sentir isso. Mas Samantha precisa parar. Agora. Porque não posso ficar enchendo a cabeça de Sarai com coisas que podem causar confusão. A menina já é confusa o suficiente como está. "Eu preciso me vestir." Digo, na esperança de detê-la do assunto. Eu alcanço minha cueca boxer limpa pendurada nas proximidades, mas os passos de Samantha voltam na minha frente. Ela cruza os braços e o sorriso que ela usava antes foi substituído por determinação. "Você não pode fazer isso. Você sabe disso." Chego ao seu redor e pego minha boxer de qualquer maneira, deixando a toalha cair no chão e piso nela. "Victor." Ela persiste. "Você não pode ser o herói. Não para ela ou para qualquer outra pessoa. Você sabe disso. O que você está fazendo, o que você está sentindo, só vai te matar." Eu puxo meus polegares do elástico, deixando-a estalar contra meus quadris e fecho Samantha com o olhar duro nos meus olhos. "Você está longe da marca, Sam." Eu digo, olhando para ela. "Você acha que você vê algo em mim com ela porque é o que você está acostumada a acreditar que você viu em mim com você." No mesmo instante, arrependo-me de minhas palavras. Samantha olha-me friamente, seus dedos pressionando agressivamente em seus bíceps. "O que você está dizendo? Isso é o que você pensa? Eu-" Ela não consegue olhar

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para mim e seus olhos desviam em direção ao chuveiro. Porque ela sabe que estou certo. Eu não deveria ter dito isso, mas ela não pode negar a verdade. Finalmente, ela olha para mim de novo, ferida e admissão em seus olhos. "Você está certo." Diz ela. "Eu sempre pensei em você dessa forma. Eu li a coisas entre nós de forma errada e, vi coisas que não estavam lá." Mantive-me em silêncio para deixá-la terminar, mas parece que ela já fez. "Eu realmente sinto muito por tudo o que fiz com você." Digo, e digo isso com toda a sinceridade. Ela balança a cabeça loira envelhecida. "Não, Victor, você fez tudo certo. Você viu que eu estava criando sentimentos por você antes que eu percebesse e você fez a coisa certa." Eu coloco minhas mãos debaixo de seus cotovelos e ela relaxa um pouco. "Espero isso..." Descruzando os braços, minhas mãos caindo. "Victor." Diz ela, colocando as duas mãos entre nós. "Por favor, não se desculpe por não ter os mesmos sentimentos por mim que eu estava tendo para você. Isso não é algo que você pode controlar, eu sei. E espero que você acredite em mim quando digo que você pode sempre confiar em mim. Você é a única pessoa na Ordem em que eu confio e posso verdadeiramente chamar... de meu amigo." "Eu pensei que você disse que eu não tinha nenhum amigo?" Eu sorrio fracamente. Relaxando um braço de volta contra o peito, ela dá um tapinha no meu ombro com a outra mão. "OK, talvez você só tenha a mim." Diz ela, sorrindo para mim. Mas então ela fica séria novamente. "E porque eu sou sua única amiga, você tem que confiar em mim, ouça-me quando eu lhe digo que o que você está fazendo com essa garota vai te exilar, ou matar, ou ambos." Eu começo abotoar minha camisa. Eu esperava que ela fosse largar o assunto por completo, especialmente se Sarai ainda está ouvindo do quarto, mas tenho a estranha sensação de que ela não está, o que relaxa minha mente um pouco. "Eu não estou fazendo nada com ela além de mantê-la a salvo até que tudo isso acabe." Eu insisto. "Ela merece uma chance de uma vida normal depois do que ela passou e eu decidi, em algum momento, tentar dar isso a ela." Eu coloco minha calça preta, e em seguida minha camisa. Samantha puxa minha gravata do cabide na parede e coloca ao redor do meu pescoço. Ela suspira. "OK." Diz ela, entregando-se. "Mas diga-me, e seja honesto com você mesmo antes de

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responder..." Ela hesita, os dedos dando uma pausa ao redor da gravata. Concordo com a cabeça. "Desde que ela está com você, você pode dizer que ela vai ser diferente do que você era anos depois de ser levado pela Ordem?" Sua pergunta calmamente me choca. Eu não esperava nada disso. "Mesmo eu vejo isso, Victor, e eu só passei uma tarde com ela, então eu sei que você também vê." Agora eu sei a que ela está se referindo, mas eu ainda estou muito surpreso com a revelação para comentar. Samantha detecta isso, a minha necessidade de ouvir mais do que eu já sei que é verdade dos lábios de outra pessoa, e não apenas dos meus. Precisando inconscientemente da validação. "Eu sei que você não pode me dizer alguma coisa sobre de onde ela veio, de quem ela está fugindo ou quanto tempo ela estava com aqueles de quem ela está fugindo, mas a julgar pelo o que vejo nela agora eu posso dizer duas coisas." Ela endireita minha gravata e deixa uma mão para o seu lado, a outra rapidamente levantando dois dedos. "Um." Ela tira um dedo. "Ela já está tão anestesiada com o que é “normal” que ela nunca poderia viver uma vida normal. Ela sabia que eu estava testando a comida para ela, porque você queria ter certeza de que não foi envenenada, mas isso não a afetou. Ela sentou-se na mesa com a gente, devorou o almoço como se fôssemos uma família normal de três partilhando de uma refeição da tarde no subúrbio." Ela se inclina sobre o balcão, cruzando os braços sobre o peito. "E dois." Ela continua. "Por ela ser desta maneira, eu soube que ela deve ter sido uma prisioneira, escrava do sexo ou não, por vários anos, nada menos do que cinco. E em sua tenra idade ela deve ter vinte e três, vinte e quatro anos não? (Ela faz um gesto com as mãos ao redor na frente dela brevemente), isso significa que ela deve ter sido bastante jovem quando ela foi levada. Como você. E ambos sabemos que quanto mais jovem se é, mais fácil é para moldá-los em quem ou o que você quer que eles sejam. Também como você." Cada palavra que Samantha falou é verdade e eu sei disso. Eu sei melhor do que ninguém. Eu deslizo o colete do meu terno em cima da minha camisa e gravata e abotoo todos os quatro botões. "Ela está na zona de 50/50." Digo. "Ela poderia ir para qualquer lado de igual maneira. E ela é forte o suficiente. E inteligente." Por fim, eu coloquei no meu paletó. "Eu só estou dando a ela sua primeira e única chance. Qual será a direção que ela escolherá

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para seguir será sua decisão. E eu não vou estar lá para ver. Ela estará em seu próprio país, de qualquer maneira." Samantha ergue a cabeça para um lado. Ela provavelmente não acredita totalmente em mim, mas ela finalmente esgotou suas advertências. Ela vem até mim, o mesmo sorriso doce sedutor que ela sempre usava minutos antes de eu chegar até ela no passado. Ela para em minha frente e seus dedos dançam para cima ao longo do tecido da minha jaqueta. Ela descansa as mãos em ambos os lados do meu pescoço, roçando levemente contra a minha pele. "Um último beijo." Diz ela olhando nos meus olhos. "Para relembrar os velhos tempos. Eu só quero me sentir jovem de novo, como eu sempre me senti quando você me visitava." Eu trago minhas mãos e coloco o rosto dentro delas, beijando-lhe a testa lentamente primeiro. "Nunca foi sobre você ser mais velha que eu, Sam. Você ainda é tão sexy hoje como você era há dez anos." E então eu toco meus lábios nos dela, arrastando a ponta da minha língua suavemente todo o lábio inferior e em sua boca.

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CAPÍTULO VINTE Sarai Eles estão no banheiro há bastante tempo. Mas não é da minha conta o que eles estão fazendo. Saí do quarto bem no momento que Samantha começou a costurar Victor, resolvi ficar na minha e largar de mão. Eu sinto que eu deveria ter ficado para ouvir o que eles falavam, pelo menos porque eu tenho certeza que alguns assuntos eram sobre mim e eu tenho o direito de saber, mas era muito intrusivo. E admito, não quero vê-los juntos. Apesar de sentir algum ciúme por Victor, que eu percebo é natural dada a situação extraordinária a que fui empurrada com ele, sei que ele nunca poderia estar interessado em alguém como eu, ou quem quer que seja, realmente. Exceto Samantha e outros como ela, suponho. Independentemente de sua diferença de idade, sei que foram íntimos antes. Eu a ouvi dizer isso diretamente antes de eu sair do quarto e gosto de pensar que sou inteligente o suficiente para montar o resto da imagem na minha mente, sabendo o pouco que eu sei. Seja qual for o seu relacionamento no passado, eu sinto mesmo que ela é atraente e, obviamente, uma mulher bondosa e inteligente, coisas que provavelmente não foi o que lhe trouxe aqui. E não foi só o sexo, também. É como se Samantha soubesse o tempo todo que sexo era só o que teria. Eu não sou nenhuma expert, mas é o que acredito em meu coração. Samantha é como ele, talvez não exatamente nos papéis que desempenham no seu mundo secreto do crime e do perigo e da morte, mas ela sabe que ele é muito disciplinado e sem emoção para se envolver. Victor poderia provavelmente nunca confiar a si mesmo com alguém de "fora". E quando se trata de me comparar com eles, eu sou o epítome do lado de fora. Eu olho em direção à janela coberta com uma cortina do quarto de hóspedes, onde Victor me deixou mais cedo. É muito escuro lá fora, mesmo que ainda seja nove horas. Eu estava do meu lado na cama, com um braço dobrado sob a cabeça embaixo do meu travesseiro. Meus pés estão frios, mas eu não me importo de me levantar e separar um par de meias do pacote que Victor comprou-me, então pressiono meus pés juntos na altura dos tornozelos e deslizo-os debaixo do cobertor.

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Victor entra no quarto. Ele deixa a porta aberta para que a luz do corredor se infiltre, em vez de ligar o interruptor. Tenho a sensação de que ele pensou de início que eu poderia estar dormindo. Ele está vestido da cabeça aos pés em sofisticação, mais do que eu já o vi e eu não posso deixar de olhar toda a sua beleza perigosa. Sua forma alta se move através do percurso da luz na porta e, em seguida, é banhado em sombra quando ele se aproxima da cama onde eu estou. "Você está indo embora, não é?" "Sim." Ele diz e senta-se ao meu lado, com as costas retas, as mãos apoiadas ao longo do topo das pernas. "Você vai voltar?" Ele leva um momento para responder e mantém os olhos fixos na janela a frente. "Provavelmente será melhor que eu não o faça." Diz ele. Meu coração cambaleia. Eu engulo. "Quando Javier estiver morto, ou Samantha irá levá-la onde você precisa ir, ou eu vou enviar Niklas para você." A parte de trás da minha garganta está começando a queimar, a parte superior do meu nariz, bem entre meus olhos está começando a coçar. Eu forço as lágrimas. Não quero que ele vá embora, muito menos que nunca mais volte. Eu quero ficar com ele, mas não sei por quê. "Mas e se os outros souberem?" Eu o lembro, na esperança de mudar sua mente sem que ele soubesse o motivo real. "E John Lansen? E quanto a todos os outros homens que eu vi? Victor, eles podem saber e talvez Javier não será o último a vir procurar-me." Eu realmente não me importo se eles vierem. Isso não é o que tenho medo. Tenho medo de Victor andando por aquela porta e nunca mais vê-lo novamente. Finalmente, eu consegui sentar-me, com a raiva torcendo minhas feições de início, até eu perceber isso e me deixar amolecer. Eu cruzo as pernas em estilo indiano na cama e chego perto para pegá-lo pelo pulso, puxando a manga do paletó. Eu meio que esperava que ele se afastasse de mim, mas ele não fez. Ele descansa a mão sobre o alto dos meus tornozelos cruzados com apenas um toque simples, e só o gesto, faz minha garganta fechar-se com a emoção. Eu olho para a minha mão, meus dedos tremendo nervosamente contra o punho de sua camisa.

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Ele não moveu a mão dele... eu fico pensando comigo mesma. Lágrimas se formam na borda das pálpebras, mas eu as respiro de volta rapidamente. "Eu sinto muito, Sarai." Diz ele me olhando nos olhos como se lutasse com o conflito e a indecisão. Tenho a sensação de que ele não quer me deixar aqui. Eu sinto isso... Eu sei disso... Lentamente, ele se levanta da cama. Sento-me, congelada em um abismo de autoderrota, raiva e medo. Medo! Como ele pode me acusar de não temer nada! Eu quero gritar com ele, dizer a ele o quão errado ele está, quando ele olha para as malas e pega a bolsa da arma em uma das mãos. Em vez disso, limpo as poucas lágrimas que conseguiram cair de meus olhos e digo no quarto para ele baixinho: "Victor, você estava errado." Ele vira só a cabeça para olhar para mim. "Você estava errado quando disse que eu não temo nada. Você estava tão errado..." Ele fixa o seu olhar em mim por apenas um segundo e depois vira-se e vai embora, fechando a porta e deixando a escuridão da sala me consumir novamente. ~~~ Samantha me deixou sozinha pela próxima hora e meia. Acho que ela queria dar um tempo para mim, porque quando ela finalmente entrou no quarto minutos atrás, eu poderia dizer que ela sentia algo por mim, enquanto eu estava enrolada na cama, olhando para a janela. Isso me faz pensar sobre o que falaram em seu banheiro antes, fazendo com que arrependa-me de não ficar mais tempo ao invés de ter saído. Eu odiaria ela por saber mais de mim, se ela fosse uma pessoa fácil de se odiar. Mas eu percebo que eu gosto muito dela por isso. "Você sabe, Victor faz essas coisas o tempo todo, Izabel." Ela me dá um tapinha no quadril com a palma da sua mão. Ela está sentada no mesmo lugar ao meu lado, onde Victor havia sentado. "Ele vai ficar bem." Ela sorri. "E eu tenho certeza que ele sabe que você é grata a ele por ajudá-la." "O que você pode me dizer sobre ele?" Pergunto. Ela inspira uma respiração profunda, concentrada e as sobrancelhas sobem como se a pergunta carregasse esse tipo de olhar. "Bem, eu estou supondo que você sabe o que ele faz para ganhar a vida, e por isso você

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provavelmente pode imaginar que fiz juramento por certa quantidade de sigilo que se eu quebrar poderia entrar em um monte de problemas." É verdade, mas ela está sorrindo e realmente parece meio louca por falar comigo, apesar de tudo. Ela pode não contar muito, mas alguma coisa é melhor que nada, eu suponho. Sento-me na posição vertical, deixando minhas pernas para o lado da cama para sentar com ela. Eu descanso minhas mãos no meu colo. Ela sorri para mim em um curto olhar e estende-me a mão. "Vamos falar sobre isso com uma xícara de café." Ela se levanta e eu coloco minha mão na dela e aceito. "Eu juro que é totalmente sem veneno." Ela brinca enquanto eu a sigo para fora da porta, pelo corredor. "Eu acredito em você." Eu acredito principalmente porque se Victor confiou nela o suficiente para deixar-me sozinha com ela, então isso é o suficiente para mim. Sentome à mesa da cozinha enquanto ela pega o café pronto no balcão, onde a cafeteira fica ao lado de um forno de micro-ondas gigante e velho. "Eu suponho que não há problema em dizer-lhe que ele está neste meio praticamente toda a sua vida." Ela coloca algumas colheres de café no filtro e fecha a parte superior da máquina de café. "Mas eu realmente só sei as coisas que ele me disse. Nada mais do que isso." "Que tipo de coisas?" Ela derrama a água na parte de trás da cafeteira, permitindo que as diferentes conversas que ela teve com Victor se materializem. "Bem, eu sei que ele ama café preto." Ela sorri. "Ele adora comida tailandesa e ele não vai tocar em atum com a língua de outra pessoa. Ele prefere uma boa cerveja ao invés de um bom vinho, mas apenas a melhor cerveja, de preferência alemã." Ela senta-se à mesa comigo e coloca uma das mãos ao lado de seu rosto, parecendo pensativa. "Para dizer a verdade, Victor prefere ir até a Alemanha para uma cerveja do que beber a cerveja aqui." Ela acena a mão para mim uma vez, removendo-a de seu rosto. "Ele é um homem muito especial." "Mas o que acontece com a sua família?" Eu pergunto. "Ele me disse que tinha uma irmã e que ele matou seu pai e algo sobre sua mãe estar em... Budapeste, eu acho?" Samantha balança a cabeça, sorrindo e talvez até pensando que o que eu disse a ela fosse um pouco divertido. Mas ela não está se divertindo com isso.

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"Não, boneca." Diz ela. "Se isso é o que ele disse a você, provavelmente era apenas para você parar de falar.” (Bem, ela está certa sobre isso, eu sei.) “Ele nunca iria contar a ninguém nada muito pessoal sobre sua vida, especialmente sua família. Nem mesmo pra mim. Eu nem sei se ele tem uma família." Eu fico longe do tema sobre eles dois o máximo que posso. "Você precisa saber, Izabel." ela olha-me atentamente para que eu encontre o seu olhar "Que Victor está arriscando muito... não, ele está arriscando tudo, ajudando você. E mesmo que ele a tenha deixado esta noite e não pretendendo voltar para você, o que ele já fez, e é o que você já sabe, eu não tenho nenhuma ideia do que isso significa, e ele já poderia ter selado o seu destino." Meu estômago aperta e tenho esse sentimento horrível no centro da minha garganta. Seu olhar se desloca suavemente e eu sinto como se ela estivesse de luto por mim, ou por meus sentimentos de alguma forma particular. Ela inclina as costas contra a cadeira. As últimas gostas do café e pingam no pote atrás dela. "Mas como você sabe o que ele está fazendo?" Eu pergunto. "Como você sabe que ele está me ajudando e que eu não sou apenas uma parte de sua missão?" "Porque ele nunca teria trazido você aqui." Diz ela quase com compaixão. "E ele não teria me pedido para não contar a ninguém, nosso empregador, ninguém, que ele fez isso." Eu levanto o meu olhar da mesa para olhar para ela, surpresa com a informação que ela recém me deu. Ela acena com a cabeça para mim como se confirmasse meus pensamentos, mesmo que eu nunca os falei em voz alta. "Sim." Ela diz. "Além de Niklas, eu sou a única pessoa que ele confia. Talvez não completamente, porque Victor é incapaz disso, mas ele confia em mim. E, escondendo-a aqui e me pedindo para arriscar minha vida por manter um segredo, é assim que eu sei." Ela está dizendo a verdade. Eu não posso acreditar no contrário, não importa o quanto tente. E eu tento. Eu acho que estou inconscientemente tentando encontrar algum motivo para não gostar dela ou para desconfiar dela, por causa do meu ciúme de antes. Mas eu não encontro nada. E não posso evitar, mas me perguntar se ela sustenta algo contra mim, se há alguma amargura persistente em relação a mim, porque Victor pediu-lhe para arriscar sua vida por mim.

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Mas eu sinto que não há. E faz que sinta vergonha de alguma maneira. Ela se levanta da mesa e volta para o pote de café. Mas então ela para no meio do caminho e congela no final do balcão, como se tivesse uma parede de vidro no caminho. Sua mão direita toca a borda do balcão, os dedos se curvando no punho enquanto sua cabeça se encaixa em torno de mim. Seus olhos estão arregalados em alerta e a visão de seu gesto, faz-me saltar na minha própria pele. E então eu ouvi algo, também, e meu coração começa a bater violentamente contra minhas costelas, pulando através dos meus ossos e em meus ouvidos. As sombras se movem através da janela da cozinha e, naquele momento, Samantha cai em direção ao chão, embora ainda em seus pés, e corre em direção a mim, puxando-me completamente da cadeira. Isso acontece tão rápido que eu não consigo cair tão graciosamente como ela. Eu quase caio na minha bunda, mas meu pé direito que me mantém ligado à terra onde eu giro em torno dela até que eu perceba o que houve e depois a sigo até o corredor. "Quem é?" Eu sussurro. Ela agarra meu braço e puxa-me para frente dela. Seu cão, Pepper, corre para a porta de trás, latindo furiosamente. "Fique quieta e volte para o seu quarto!" Ela sussurra. "Depressa!" Agacho-me para o chão, enquanto poderia realmente estar sentada sob ela, eu sinto como se estivesse em fuga através do tapete para a porta do quarto que se abria. Uma vez que eu estou lá dentro, Samantha vem logo atrás de mim e termina o caminho com os joelhos, empurrando os dois braços e apertando as mãos contra o peitoral grande de madeira ao pé da cama. Enquanto ela está movendo o peitoral, mais sombras se movem através da janela e ouço vozes sussurrando fora. E eles estão falando em espanhol. Eu giro em torno de Samantha, arrancando os olhos para longe da janela a tempo de vê-la levantar uma pequena porta de metal no chão, que estava escondida debaixo do peitoral. "Entre! Depressa! Agora!" No último segundo, que eu nem acho que eu realmente tenha tempo de sobra, eu alcanço debaixo do colchão e pego a arma que Victor deixou lá, empurrando-a na parte de trás da minha calça. A mão tremula de Samantha vem para me apressar e quando eu estou perto o suficiente, ela agarra meu braço e ajudame a descer, praticamente me empurrando para dentro do buraco sob o piso.

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A porta de metal se fecha sobre mim, deixando de fora a única luz que eu tinha que era brilhante e fina através da janela do quarto de hospedes que vinha da rua do lado de fora. E então eu ouvi o peitoral sendo movido por cima da porta de metal e meu coração afunda como uma pedra com o pensamento de ficar presa aqui, independentemente do que está lá em cima. Veja isso como mais uma coisa que eu temo, Victor: estar presa em um espaço pequeno. Ouço os passos de Samantha passarem por todo o andar de cima e, em seguida, o som da porta do quarto sendo fechada, uma vez que ela sai de lá. Tudo é estranhamente silencioso: o peso da minha respiração, o bombeamento de sangue através de meus ouvidos, e eu não consigo ouvir qualquer um deles mesmo que eu saiba que ambos devem ser estridentes no pequeno espaço confinado que me escondo. Eu não consigo ver nada, então eu ergo minhas mãos na minha frente e começo a sentir meu redor. Eu dolorosamente conto três paredes, à minha esquerda, à direita e em frente a mim, mas estou aliviada que atrás de mim não há uma quarta parede para me manter confinada. É um corredor estreito. Eu não tenho tempo para investigá-lo ainda mais quando eu ouço o primeiro tiro, embora suprimido como sempre soa os de Victor, mas eu sei que desta vez não é Victor. Pepper não está latindo mais. Eu ouço uma voz. Parece longe, mas ecoa em algum lugar acima de mim. É quando eu sinto um pequeno esboço sobre o meu cabelo e eu coloco a minha mão para sentir o teto. Há uma abertura, apesar de muito pequena para caber minha cabeça ou muito menos o resto do meu corpo, mas é um respiradouro e agora eu sei que é assim que ouvi o eco da voz. Há um outro tiro suprimido e desta vez, quando eu ouço a voz, eu sei que ela pertence a Javier.

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CAPÍTULO VINTE E UM

"Eu tenho quatro balas restantes na arma." Javier diz a Samantha em algum lugar da casa. "E eu vou colocar uma em você a cada dois minutos em que a minha doce Sarai ainda estiver na clandestinidade." Minha mão levanta involuntariamente e aperta no meu coração. "Victor está voltando." Diz Samantha em uma voz fraca e cansada. Isso me enche de pavor ao pensar onde Javier já atirou nela. "É mentira, puta! Você fede a mentiras. Agora diga-me onde está Sarai. Porque eu sei que ela está aqui." Como ele sabia que eu estava aqui? Em seguida, em espanhol, Javier grita: "Procure pela casa! Cada quarto. Vire de cabeça para baixo e a encontre!" Dois segundos depois o som de móveis sendo derrubados, vidros quebrando e os pés pisando por tudo ecoando no piso através das paredes. "Ela não está aqui." Diz Samantha como se empurrasse as palavras através de seus dentes. "Victor estava aqui antes. Com uma garota. Uma menina de cabelos negros que ele chamou de Izabel. Mas ele levou com ele quando ele saiu." Thwap! Outro som tiro e Samantha grita de dor, mas, em seguida, seus gritos são abafados e eu só posso imaginar que é pela mão de Javier. Ou talvez alguém dentro do quarto. Lágrimas escorrem quentes pelo meu rosto. Há um frio no ar, estado tão perto do chão frio lá de fora, mas a minha pressão arterial é tão alta pela incrível quantidade de estresse sobre os meus nervos que parece que minha cabeça está pegando fogo. "Eu sei que ela está aqui." Diz Javier friamente. "Eu sei que ela não saiu com ele, porque eu estava assistindo. Agora você tem menos de seis minutos. A última bala eu vou colocar em seu cérebro." Então a voz de Javier sobe: "Você ouviu isso, Sarai." Ele chama-me. "Em mais seis minutos você vai matá-la. Assim como você matou Lydia. Tudo que eu quero é levá-la para casa. Eu nunca poderia te machucar, você sabe disso." Minhas pernas estão tremendo. Após os ruídos dos saqueadores finalmente pararem, os conjuntos extras de passos, dois a julgar pelo padrão, voltam para a sala com Javier.

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"Vão lá fora." demanda Javier. "Olhem em todos os lugares, procure pelo bairro, mas não chamem a atenção. Vão!" Não posso deixar Samantha lá em cima com ele para morrer. "Eu disse que não há ninguém aqui." Ela grita. O barulho que ouço desta vez eu sei que é a mão de Javier em seu rosto e, em seguida, seu corpo batendo no chão. As vigas de piso sacodem em cima de mim com a força de sua queda. Sigo pelo caminho atrás de mim e começo a sentir o caminho através da passagem estreita, esperando que ele me leva para fora. Porque não vou deixá-la assim. Javier pode me levar de volta. Ele pode me matar se quiser, mas não vou me esconder aqui em baixo como uma covarde e deixá-la morrer por mim. Bang! Minha respiração engata e os meus ossos travam, mas eu continuo em frente e finalmente chego ao fim. Não há nada aqui, mas nada além de paredes e a mesma passagem que atravessei. Eu chego lá em cima e sinto-me em torno do limite máximo de outra porta de metal da escotilha. E com certeza, não é uma delas. E quando eu acho que não há nenhuma maneira que eu possa levantar a tampa até em cima e subir para a minha saída, sem fazer barulho suficiente para dizer a Javier exatamente onde eu estou, eu toco meu dedo do pé em um conjunto de quatro degraus de escadas e empurro os móveis para o canto. Eu forço os passos acima em vez de empurrá-los no chão para evitar qualquer ruído desnecessário e eu fico debaixo da escotilha. Escalando para o terceiro, tenho que dobrar para a frente para não bater a cabeça no teto. Chego com ambas as mãos, pressionando as palmas das mãos contra a escotilha e fecho meus olhos enquanto eu empurro, esperando que ela não esteja bloqueada por qualquer outra coisa e que onde quer que ela me leve, não seja em qualquer lugar onde Javier possa me ver. A porta se abre, rangendo, uma vez que faz-me estremecer e congelar segurando-a parcialmente aberta em cima de mim. Eu empurro novamente e caminho até o quarto degrau e minha cabeça surge dentro de um armário. Vejo que um colchão de espuma tinha sido dobrado e colocado em cima do alçapão para escondê-lo e não há tapete em cima da escotilha que coincide com o tapete no chão do armário, e eu o sinto com a ponta dos dedos, quando sigo para o resto do caminho e o deixo a inclinar-se contra a parte de trás da parede do armário. Eu saio e empurro silenciosamente através das roupas penduradas na barra acima.

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Bang! "Mais dois minutos, Sarai!" Eu ouço Javier avisar da sala de estar. Abro a porta do armário e caminho mais rapidamente agora, através do quarto de Samantha, pelo corredor e na sala de estar, onde Javier está esperando de mim, cada osso e músculo do meu corpo tremendo. "Ah, e lá está ela!" Javier levanta as duas mãos ao lado dele, a arma travada na direita. Ele sorri e parece realmente animado por me ver. Ele é louco... Suas mãos caem para os lados. "Eu senti sua falta, Sarai." Ele inclina a cabeça para um lado para parecer sincero. "Se você estava infeliz por que você não disse logo? Eu teria feito qualquer coisa que você quisesse, você sabe disso." Eu não me importo com o que ele tem a dizer, tudo que me importa é ter certeza de que Samantha está bem. Tentando manter meus olhos em Javier, meu olhar cuidadosamente varre o quarto à minha frente, olhando para ela. Finalmente, vejo os pés descalços saindo de trás da cadeira do outro lado da sala, a pele manchada com o sangue. "Samantha, você está bem?" Ela não responde, então eu sei que ela está muito ferida. Eu olhar para trás, Javier, implorando em meus olhos. "Vamos embora. Por favor. Javier por favor, não a machuque mais." Ele sorri para mim, parecendo pensativo, mas divertido. Ele está usando preto de cima à baixo: camisa de manga comprida preta, cinto preto, calças pretas, sapatos pretos. Coração preto. Ele levanta a arma para mim e faz um gesto para eu ir até ele. Ele enrola o dedo para mim. "Deixe-me vê-la." Eu ando mais perto, meus pés descalços movendo-se sobre as revistas de decoração espalhadas pelo chão. O relógio de pendulo de pé no canto tiquetaqueia ameaçadoramente atrás de mim. "Javier, ela vai morrer se não chamarmos uma ambulância." Digo quando chego mais perto. "Deixe-me ligar para o 911. Então nós podemos sair." Eu vejo os joelhos dela agora, mas é tudo que eu posso ver enquanto o resto é obscurecido pela cadeira e pela escuridão. Javier estende sua mão. "Ele te fodeu?" Ele pergunta e me puxa para mais perto dele pelos meus dedos. "Será que você o deixou foder você, ou você ainda é minha?" Ele se inclina para perto e inala o meu cheiro, uma mecha de cabelo caindo do meu rabo de cavalo que ele joga com as pontas de seus dedos. "Não." Eu disse sem fôlego. "Eu sempre vou ser sua."

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Ele está usando colônia, o mesmo tipo que ele sempre usava quando ele vinha para mim no meio da noite. E seu cabelo, um pouco longo por cima, está limpo e arrumado, do jeito que ele sempre usava quando ele me vestia e me levava com ele para as casas ricas. "Não minta para mim." Disse ele calmamente e eu sinto sua respiração no meu pescoço. "Você não sabe o que você fez para mim. Você não deveria ter saído." Chego com a minha mão esquerda e enrolo meus dedos suavemente ao redor da parte de trás do seu pescoço. Eu me inclino para ele, o lado do meu rosto navegando os botões abertos no topo de sua camisa até que eu sinta o peito na minha bochecha. "Eu sei e eu sinto muito." Beijo sua pele levemente. "Eu sinto muito por te deixar assim." Eu adiciono em espanhol. Tremo, tanto de prazer e de repulsa, quando ele desliza a mão na frente da minha calça e coloca dois dedos dentro de mim. Não importa que ele seja louco ou que ele é um assassino ou que ele poderia me matar a qualquer momento, o toque ainda me faz ficar molhada. É o meu corpo me traindo, a natureza humana me traindo, não a minha mente ou o meu coração. Eu tinha conformado anos atrás, reagir a ele deste modo. Um instinto de sobrevivência que eles não ensinam nas aulas de autodefesa. Javier tinha que acreditar que ele estava me excitando ou ele saberia que tudo sobre mim era uma mentira, também, e por isso o meu corpo aprendeu a reagir da maneira que ele sabia que iria me manter viva. Ele puxa os dedos para fora e leva-os aos lábios, inalando profundamente, seus olhos fechados como se os saboreassem. Em seguida, ele coloca-os na boca. Eu tomo um passo para trás, enquanto ele está distraído, para colocar uma distância entre nós, enquanto posso ter um controle, ainda que pequeno. "Eu não tenho certeza se quero mais você." Diz ele. Meu coração endurece. Se ele não me quer, então sei que ele vai me matar, especialmente depois de tudo que fiz, todos os problemas que causei. "Javier." Digo, tentando esconder o nervosismo em minha voz. "Vamos lá. Estou pronta para voltar." Seu lábio superior levanta e ele balança a cabeça. "Izel está morta." Diz ele sério, provavelmente se perguntando se eu fiz isso. "Eu sei que você a odiava. Eu não culpo você. Mas ela era minha irmã." Eu balanço minha cabeça e começo a fazer um pouco mais. "Eu...eu não a matei." Eu digo. "Eu não sabia."

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Javier ri. Eu dou mais um passo para trás e dois à minha direita, piso em uma peça afiada de plástico a parte de algum objeto aleatório, mas que não rompe a pele. Eu pressiono minhas mãos contra a parede atrás de mim. E então eu a vejo, Samantha, muito mais claro a partir deste ângulo. Eu abandono minhas extremas necessidades de prestar atenção a cada movimento de Javier enquanto ele se aproxima de mim lentamente, sorrateiramente, e tudo que eu posso ver agora é Samantha. Ela não está se movendo. Ela está caída com as costas contra a parede. Suas pernas ensanguentadas estão espalhadas no chão. Seus braços caem molemente de cada lado dela, os dedos desenrolados. Seus olhos. Eles estão abertos. E eles estão mortos. A bile se agita na minha barriga, minhas mãos começam a se solidificar, duras como metal, para os meus lados. Estou tremendo de raiva e ódio e culpa, e maldito Deus, de medo. "Você a matou." Eu digo, meus lábios tremendo. "Eu matei." Javier admite com orgulho. "No quinto tiro." "Mas você disse..." Eu olho para ele e para o corpo de Samantha, o meu coração se sente como se fechasse em si mesmo. "Você disse que se eu não-" Javier levanta a arma para mim, essa última bala agora eu sei por que não a usou com ela. Eu estou congelada, uma mão ainda está na parede atrás de mim, a outra de alguma forma veio até meu estômago, como se pudesse manter o vômito para baixo por estar lá. Eu tropeço em mais detritos e, em seguida, pressiono as costas contra a parede para deixá-la me segurar. Porque meu corpo ainda está me traindo, minhas pernas estão fracas e instáveis, ameaçando ceder debaixo de mim a qualquer momento. Eu olho através do pequeno espaço que separa Javier e eu e olho em seus olhos frios e escuros, sem fundo, não para o cano da arma apontada diretamente para mim, mas para seus olhos. Eu ouço um click, apenas um clique, e nós olhamos fixamente no rosto de cada um, nós dois confusos com o que aconteceu. Em seguida, um tiro ressoa e a cabeça cai contra a parede com as minhas costas. Eu sinto meu corpo deslizando para baixo até que eu estou sentada no chão, assim como Samantha. Sem movimento e caída, assim como Samantha. O quarto gira ao redor da minha visão como uma espessa nuvem de cinza. E eu fecho os olhos e deixo a escuridão me levar.

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CAPÍTULO VINTE E DOIS Victor Estou a 40 mil pés acima do Texas, quando eu recebo a ligação. "Victor." Niklas diz ao telefone. "Javier não está em Tucson. Ele foi rastreado por ter usado um cartão de crédito de um velho conhecido pseudônimo seu, nos arredores de La Grange, Texas." Eu levanto minhas costas rigidamente do banco. "Isso é a menos de duas horas de carro de Houston." Eu digo, mais para mim. "Em que momento foi usado o cartão?" "As 3h desta tarde." Meu corpo fica rígido. Desligo o telefone, e eu o esmago na minha mão ao meu lado, enquanto eu me dirijo para a cabine do piloto. "Faça o avião voltar." Exijo. Menos de uma hora mais tarde, eu estou dirigindo no trânsito imprudentemente, chamando uma atenção desnecessária para mim. Mas acelero, passando por vários sinais de trânsito fechados, sem saber como consegui conduzir todo o caminho de volta para a casa de Samantha, sem ter sido parado por um ou dois policiais em uma perseguição em alta velocidade no meu caminho. Há um carro estacionado em frente na rua entre a casa de Samantha e um ao lado. Eu não lembro de tê-los visto antes quando eu saí. Com a minha arma na minha mão, fico abaixado ao sair e corro até a calçada, usando o carro de Samantha como um escudo por precaução. Não há luzes acesas dentro de casa. Está estranhamente quieta. O cão de Samantha normalmente estaria enroscado na janela fechada agora, tentando ver para fora após ouvir um veículo estacionar. Eu ouço um outro cão, maior, latindo no quintal do vizinho em frente e fico agachado, dando a volta por baixo da garagem e ao lado de um carro velho estacionado lá. Uma figura emerge ao lado da casa, apenas depois de se mover através do espaço silenciosamente e virar para a parede de tijolo por baixo da garagem. Eu o agarro pelo pescoço rápido demais para ele poder reagir e o jogo no chão. Sua arma atinge o concreto e nesse mesmo momento, eu coloco uma bala na têmpora, antes que ele tenha a chance de reagir. Outro homem chama um nome, procurando o homem que eu acabei de matar. Eu não espero que ele venha para este lado. Eu passo bem em frente a ele, elevo minha arma para o rosto dele e faço meu movimento antes que ele me perceba completamente. Seu

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corpo atinge a grama. Espero apenas alguns segundos no caso de haver mais, em seguida, eu corro para dentro da casa pela porta lateral debaixo do terraço. A casa foi destruída, o cão de Samantha está morto a tiros no chão da cozinha. Sinto cheiro de fumaça de pólvora, sangue, café fresco e colônia desconhecida. O primeiro corpo que eu vejo é Samantha. O segundo, de Javier. "Sarai", eu disse quando eu a vejo sentada contra a parede à minha esquerda, parcialmente oculta pela escuridão. Eu tiro minhas luvas pretas e as coloco dentro do meu bolso e passo por cima dela. "Sarai!" Ela não olha para mim, quando eu me agacho na frente dela. A arma que deixei debaixo de seu colchão está ao lado de seu pé. Eu a coloco na parte de trás da minha calça. Ambos os joelhos estão levantados para cima, contra o peito, as mãos paradas ao lado dela no chão. "Ele está morto." Diz ela, suas palavras distantes, como se ela ainda estivesse tentando processar a verdade. Ela levanta os olhos para mim, dor, confusão e desorientação residem dentro deles. "Eu o matei, Victor." Eu estendo a mão e a levanto em meus braços. "Eu vou te tirar daqui." Segurando-a perto do meu peito, eu a levo através da morte e dos detritos para fora da casa. Ela não fala, mas ela me agarra como se ela estivesse com medo que eu vá deixá-la. Ou, talvez, com medo que eu vá intencionalmente deixála ir. Eu a coloco cuidadosamente no assento do passageiro. Três carros da polícia passam voando em direção à casa a uma quadra de Samantha quando deixamos a cena, seguindo o limite de velocidade desta vez. Sarai está silenciosa e imóvel, sem emoção, por todo o caminho de volta para o aeroporto privado onde o jato nos aguarda. Há apenas um lugar para levá-la agora. Casa. Para minha casa na costa da Nova Inglaterra. ~~~ Meu motorista nos pega no aeroporto horas mais tarde. Sarai ficou todo o caminho até a minha casa de praia do lado do penhasco com a cabeça pressionada contra a janela do banco traseiro. Ela não se moveu. É a primeira vez desde que eu a encontrei no meu carro no México que, iria gostar da tagarela conversa unilateral com perguntas irritantes. Mas eu não recebo nada dela. E eu encontro-me em silêncio ansioso por isso.

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A primeira morte é sempre a mais difícil, aquela que você nunca esquece. Mas a primeira morte é também a que acaba com as chances de viver uma vida normal pela metade. Sarai não está mais na zona 50/50. Eu não deveria tê-la deixado lá... Visualizando o outro lado da calçada de paralelepípedos e chegando em casa, eu a levo para dentro e a deito no meu sofá. Já passou um mês desde que eu estive aqui e ainda cheira tão limpo como no dia em que deixei e parti para um trabalho de matar um homem em Columbia. É por causa de trabalhos como este que eu posso me dar a esses luxos. Mas é uma pena que por causa do que aconteceu com Sarai, eu vou ter que sair daqui em breve, também. Eu pensei que talvez eu conseguisse ficar em um lugar por pelo menos um ano neste momento, mas essa é a vida que eu levo, um caminho escuro e solitário acompanhado apenas com a solidão da morte. Sarai se estabelece em seu lado, com a cabeça apoiada contra um travesseiro no sofá. Eu retiro o meu paletó e o coloco sobre o encosto da cadeira ao meu lado e, em seguida, começo a ir para a cozinha para pegar um pouco de água, mas sua voz me impede de continuar. "A arma disparou." Estou na entrada da cozinha parado, viro para olhá-la por toda a extensão do piso de mármore e móveis caros. Eu ando em direção a ela novamente, lentamente, abrindo o botão da minha camisa. Espero pacientemente que ela continue. Ela ainda não olha para mim, mas fixamente para a rua à sua frente só vendo a cena enquanto ela a revive. "Eu estaria morta se não fosse por isso." Eu ando mais perto, ainda mantendo minha distância, como se uma parte de mim não quisesse perturbar seus pensamentos com a minha presença. Eu abro o botão no punho esquerdo e arregaço as mangas. "Eu congelei." Diz ela, lembrando. "Eu pensei que estava morta. Eu só estava ali à espera de morrer." Ela move a cabeça para trás apenas o suficiente para finalmente me ver. "Eu não sei como eu reagi tão rápido, mas quando sua arma disparou... aquele olhar em seu rosto... a próxima coisa que eu sei a arma que estava na parte de trás da minha calça está na minha mão e Javier está no chão. Eu não hesitei. Era como se alguém estivesse dentro da minha cabeça naquele momento. Ela era a pessoa que pegou a arma. Ela foi quem puxou o gatilho. Porque eu não sabia o que tinha acontecido até que tudo estava acabado." Ela olha para o lado novamente. "Eu o matei." Acrescenta ela distante. "Ele mereceu." Eu digo calmamente. Sua cabeça se encaixa de volta para me ver de novo, fazendo-me pensar que, quando ela olhou para

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mim momentos atrás, que ela não estava realmente me vendo de verdade. É como se minha voz só acordasse agora. Ela levanta-se do sofá. Vejo com curiosidade em um olhar vago, de canto. Vislumbro as mãos tremendo e os cantos de sua boca trêmula. Ela enrola os dedos para as palmas das mãos até que suas mãos estão fechadas no punho. E então ela dirige-se a mim. "Você saiu! Seu filho da puta! Você saiu!" Ela grita, batendo com os punhos contra o meu peito tão forte quanto ela pode. Eu a deixei. Eu fico imóvel e a deixo me bater até que ela não consiga mais fazer isso e seu corpo comece a cair exaustivamente aos meus pés. Mas eu a pego antes que ela atinja o chão, passando os braços em torno de seu pequeno corpo. Ela chora no meu peito, sufocando as lágrimas, agarrando as costuras do colete do meu terno com os dedos trêmulos. "Você me deixou..." Ela repete uma e outra vez até que as palavras se dissipam em um sussurro em seus lábios. "Você me deixou..." Eu a abraço forte. Desajeitadamente. Porque eu nunca fiz isso antes. Eu nunca passei por este tipo de tristeza e dor e teria sido o único que seria esperado para me ajudar a consertar isso. Minha mãe era a única que tinha me segurado assim quando eu era um menino e não lembro do jeito que me senti. Eu sinto que quero pressionar os meus lábios contra a parte superior de seu cabelo. Mas eu não faço. Eu tenho o desejo de apertar-lhe um pouco mais apertado e trazê-la completamente a mim. Mas eu não consigo. Eu simplesmente não consigo fazer isso. "Sarai." Eu digo, puxando-a suavemente para que eu possa ver os olhos dela. "Eu preciso que você me diga o que aconteceu. Conte-me tudo. Será que Samantha fez alguma chamadas telefônica? Será que ela recebeu alguma ligação estranha ou ela fez alguma menção disso?" A expressão de Sarai se distorce ofensivamente. "Você acha que ela teve algo a ver com isso?" Ela se empurra para longe de mim. "Ela morreu me protegendo! Como você pode pensar que ela teve alguma coisa a ver com isso?" Eu suspiro profundamente. "Não, eu não posso acreditar que ela tenha. Samantha era confiável. Mas ela e Niklas são as únicas duas pessoas além de você e eu, que sabia onde você estava." Eu passo em frente e coloco minhas mãos na parte superior dos braços, na tentativa de fazê-la entender e quando ela não me afasta sintome aliviado. "Tem que ter sido um deles e eu só estou tentando entender os fatos."

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"Então foi Niklas." Ela afirma com raiva com o pensamento nele. Seus olhos ficam selvagens e se estreitam. "Ele me odeia, Victor. Ele odeia que você esteja ajudando-me. Ele disse isso, quando eu estava no SUV com ele. Eu sei que foi ele!" Eu afasto-me dela, minhas mãos caindo de seus braços e eu passo um braço sobre minha barriga, apoiando o outro braço sobre ele. Esfregando a mão sobre a nuca e meu rosto, contemplo a situação. Sarai está certa. Niklas é a resposta óbvia e, apesar de muitas vezes o óbvio não ser a resposta, agora, deve ser. Porque é a única coisa que faz sentido. Meu irmão me traiu.

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CAPÍTULO VINTE E TRÊS Sarai "O que você está fazendo?" Eu pergunto quando Victor se aproxima do paletó na cadeira. Ele vai no bolso e tira um telefone celular que eu nunca vi ele usar antes e digita um número. "Eu vou trazer Niklas aqui." Atordoada, num primeiro momento eu só olho para ele. Mas então eu começo a entrar em pânico. Corro em direção a ele, agarrando-o pelo braço. "Não, você não pode deixá-lo saber onde estamos." Digo sem fôlego. "Por que trazê-lo aqui? O que você vai fazer?" Minha mente está frenética com cenários, nenhum dos quais eu posso imaginar terminando feliz. Eu fecho meus lábios quando ele levanta a mão para mim, Niklas atende na outra extremidade do telefone. "Javier Ruiz foi eliminado." Diz Victor, com toda a calma e profissionalismo como em qualquer outra vez que eu o ouvi falar com Niklas. "Sim." Ele responde a uma pergunta que eu não posso ouvir, mas eu inocentemente empurro minha cabeça um pouco para frente, como se fosse aumentar o volume de alguma forma. "A polícia chegou ao local antes que eu saísse do bairro. Não foi uma morte limpa." Ele ouve Niklas por um momento e continua. "Eu acredito que Samantha o levou lá. A menina estava viva quando cheguei antes de tirar Javier de lá. Ele atirou nela, mas ela conseguiu me dizer que ouviu Samantha ao telefone com alguém depois que eu saí para Tucson. Sim. Não, Samantha está morta. Informe a Vonnegut que a Casa Segura Doze foi comprometida. A limpeza deve ser enviada para lá imediatamente para confiscar seus arquivos. Sim. Sim." Ele olha para mim. "Isso não será necessário. A menina morreu de seus ferimentos. A deixei lá." Meu estômago se contorce em nós. Cruzo os braços sobre ele. "Niklas." Diz ele, deixando o profissionalismo por um momento. "Venha para a minha casa da Nova Inglaterra, logo que puder. Vamos começar a divisão do pagamento e então... eu gostaria de dizer-lhe o que aconteceu em Budapeste." Eu inclino minha cabeça suavemente para um lado, ao ouvir essas últimas palavras. Todo o resto que Victor disse a Niklas, eu entendo o que foi: uma mentira, um truque para fazê-lo vir aqui. Mas a última parte parecia real, pessoal. O fato de que ele disse

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isso na minha frente me parece peculiar. Eu sei que não tem nada a ver comigo, então por que ele iria me incluir nesta conversa particular? É neste momento que começar a entender que tem algo a mais de Victor nesta ligação para Niklas, mais do que algo sobre trabalho e sim sobre o que aconteceu em Budapeste que precisa ser dito porque sua consciência precisa ser limpa. Isso é o que as pessoas fazem quando fazem suas despedidas. Eu não sei por que, mas apesar de Niklas ter tentando me matar, eu sinto essa dor e tristeza por dentro. Porque eu sei o que Victor vai fazer. Eu sei que ele vai matá-lo. No entanto, eu sinto como se fosse a última coisa que ele queira... Ele coloca o telefone na mesa de vidro ao lado da cadeira e abre os botões de seu colete. "Eu não tenho mais para onde ir." Digo a ele do sofá novamente. "Eu sei que tenho sido um fardo, e eu sinto muito. Samantha me disse que você está arriscando tudo, até mesmo sua vida para me ajudar e eu não tenho nada para lhe dar em troca. Além de minha gratidão e eu sei que não é muito." Eu suspiro e acrescento: "E eu sinto muito por Samantha." Ele joga o colete e depois a gravata sobre o encosto da cadeira com sua jaqueta. "Foi minha decisão ajudá-la." Diz ele, enquanto abre sua camisa. "E Samantha era uma boa mulher." "Será que ela te amava?" Cruzo as mãos no meu colo. "Não." Diz ele, não olhando para mim. "Ela queria, mas era incapaz." Minhas sobrancelhas se enrugam em confusão. "Incapaz de amar?" Eu pergunto. "Ninguém é incapaz disso." "Você não pode se apaixonar por alguém que não está lá." Ele diz com naturalidade. "Eu saí antes que ela tivesse a chance." "Será que você amou?" Eu mentalmente seguro minha respiração. "Não, eu não amei. O amor é um impedimento neste negócio. Ele só vai te matar." Embora a sua resposta deixe um gosto amargo na minha boca, não posso negar que talvez ele esteja certo. Embora eu pense em Victor, mais que qualquer um sobre esse assunto, ele poderia passar pela vida sem amar alguém. E então percebi que nunca amei ninguém, também. "E eu sei que você não tem nenhum lugar para ir." Ele acrescenta. "Mas quando isso acabar e eu souber que você está segura, você está no seu próprio país. Vou ajudá-la a se estabelecer, dar-lhe um começo decente." Ele para e olha para mim atentamente,

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seus olhos travando nos meus como se fosse aproveitar a minha atenção. "Mas isso acaba em breve. Você tem estado comigo por muito tempo do jeito que está." Parece que de repente ele está com raiva de mim, ou pelo menos com raiva de si mesmo por me ajudar. Talvez tenha a ver com o que está acontecendo entre ele e Niklas, eu nunca poderia saber, mas desde seu telefonema com Niklas, Victor está diferente. E isso me enche de pavor. Ele se vira e caminha através de um arco de mármore que leva para outra parte da casa grande. De certa forma, lembra-me dos lugares Javier costumava me levar toda bem vestida e pelo braço, mas esta casa, apesar de enorme pelo que tenha visto, é menor do que as outras que estive. E mais escura, com pisos de madeira escura de cerejeira tão brilhantes que eu posso ver meu reflexo, e cobertos com tapetes de luxo com vermelhos profundos e marrons e cinzas. Altas cortinas cor de ferrugem vestem as janelas amplas que cobrem a totalidade de uma das paredes do chão ao teto e com vista para o mar turbulento abaixo. Mesmo fora da praia não é um paraíso à beira-mar brilhante, com areias brancas e céu azul. Aqui é cinza e sombrio e as ondas batem furiosamente contra as rochas muitos metros abaixo, no entanto, não está nem mesmo tendo uma tempestade. Pelas próximas horas, Victor fica fora de vista. Eu não sinto como se ele estivesse intencionalmente me ignorando, mas eu sei que ele quer ficar sozinho. Penso muito sobre Samantha. E Lydia. E Izel. E Javier. Tenho visto tanta morte. Eu matei um homem, esta noite, no entanto, a única coisa que ficou em minha mente é o fato de que eu já superei isso. Pelo menos a maior parte, ou seja, eu ainda não consegui tirar a minha mente. Eu ainda vejo os escuros, olhos quase negros de Javier olhando para mim com essa arma encravado na mão. Eu ainda estou tremendo agora, quando penso que puxei o gatilho, quando seus olhos seguiram os meus até seu corpo bater no chão. E eu nunca vou esquecer o que ele me disse antes de morrer: "Eu sabia que você tinha isso em você, Sarai." E eu me odeio por isso, mas eu... bem, eu sinto uma sensação fora do lugar de tristeza por Javier. Um vazio. Essa parte de mim que cresceu e o aceitou como sendo a única vida que eu tinha, se eu quisesse que ele fosse ou não, e sentia falta dele. Acho que é porque eu estava acostumada a ele depois de tanto tempo.

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"Sarai?" A voz de Victor agarra-me da memória. Eu olho para ele em cima de mim. Eu não o escutei chegando tão perto, ou percebi sua figura alta se aproximando do sofá, estava tão absorvida. "Niklas estará aqui em cerca de 20 minutos." Diz ele. "Você terá que ficar fora de vista. Você vai para o meu quarto e mantenha a porta fechada. Está entendido?" "Sim." Eu odeio o frio que sinto de novo, como senti quando eu o conheci. Todos os traços de empatia e abertura que eu senti crescer dentro de mim, por Victor ao longo do tempo que estivemos juntos sumiram. "O que você vai fazer?" "O que eu tenho que fazer." Ele passa por mim vestindo uma camisa de manga comprida preta e calças pretas. É refrescante vê-lo vestido com algo tão casual depois de apenas ter visto ele em ternos. Ele é atraente, em tudo o que ele escolhe para vestir, admito para mim mesmo. Eu o sigo para qualquer parte da casa que ele está indo. "Victor?" Eu chamo atrás dele, mas ele continua andando. "Eu poderia ajudá-lo." Eu não posso acreditar que estou dizendo isso. "Alguma vez você já... treinou alguém? Você sabe, para ser como você?" Victor para meio passo debaixo da entrada espaçosa, da sala com piso de mármore na frente. Eu vejo seus ombros subirem e ficarem em queda. Então, ele se vira para mim. "Não." Ele diz. "E eu nunca vou." Ele deixa por isso mesmo e entra no quarto onde continuo a segui-lo e uma vez que eu estou lá dentro, a beleza dele me tira o fôlego. Há quatro estátuas em tamanho real de mulheres gregas usando vestidos esvoaçantes, de pé e altas em todos os cantos desta redonda, sala em forma de cúpula. À minha direita outra janela grande com vista para o mar turbulento e em frente a ela, sentando-se em orgulhosa exibição está o mais belo piano que eu já vi. Eu tento tirar os olhos dele. "Mas por que não?" Eu pergunto, vindo por trás dele. "O que mais é que eu vou fazer da minha vida? Eu não posso voltar para lá. Eu não tenho nenhuma educação, nem sequer me formei. Eu não tenho amigos, nem família, nem história de trabalho. Victor, eu nem sequer tenho uma licença verdadeira de motorista ou certidão de nascimento ou cartão de seguro social. Eu não tenho identidade, pelo menos não uma legal."

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Ele deixa a sala com o piano, caminhando por uma saída do outro lado e eu fico perto dele. Agora estamos em uma pequena sala lateral, com uma estante que vai do chão ao teto situada na parede do fundo, cheia até a borda com livros, principalmente com capas de couro e uma mesa de tecido preta com vista em uma parede. A poltrona de couro fica no centro da sala com uma pequena mesa e lâmpada ao lado dela. "Você pode ter essas coisas de volta." diz ele caminhando em direção à mesa ao lado da cadeira. "Vai levar algum tempo, mas você pode consegui-las. Tanto quanto a educação, você pode obter um certificado, ir para uma faculdade comunitária." Ele olha para mim e acrescenta: "Vai ser difícil, mas é a única opção." Ele tem um livro escrito com uma espécie de tabela e começa a folhear as páginas de borda esfarrapada. "Mas isso não é o que eu quero." Digo. "Eu quero... fazer o que você faz. Eu sei que soa ridículo, mas-" "Isso soa ridículo." Diz ele, tirando o livro fechado na mão. "A resposta é não. Será sempre não, então não perca seu tempo ou o meu sobre isso." Ele passa por mim novamente. E eu o sigo de novo, através da sala com o piano e voltando para a sala de estar. Ele começa a me deixar parada aqui novamente, mas eu o impeço. "Eu quero ficar com você." De costas para mim, ele fica parado, silencioso e imóvel como se a minha admissão roubasse seus movimentos com uma voz de distância. Eu não quis dizer isso em voz alta, mas eu senti que era a única coisa que tinha com que jogar com ele. Por um longo momento, eu acho que ele vai responder, mesmo que apenas para me dizer não novamente e me dar uma palestra sobre como eu não sei o que eu estou falando ou o que eu estou pedindo. Mas ele não diz nada. E então, finalmente, ele faz menção de voltar para o seu quarto. Sentindo-me derrotada, eu sento em uma banqueta na cozinha e assisto ao vídeo da televisão de vigilância fixa dentro da parede à minha esquerda, uma tela dividida de quatro maneiras a mostrar quatro diferentes áreas da propriedade simultaneamente. E cada quadrado individual também muda para outra câmera a cada poucos segundos para mostrar ainda mais áreas da propriedade.

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Minutos depois, um carro preto lustroso, muito parecido com o que Victor usou quando saiu do complexo, entra pelo portão da frente. Victor, provavelmente assistindo a mesma tela em outra sala, entra na cozinha. "Ele está aqui." Ele anuncia e faz um gesto para mim com uma mão. "Lembre-se do que eu disse: fique quieta e não saia do meu quarto até que eu diga." Concordo com a cabeça nervosamente. Meu estômago está se remexendo de novo, meu coração já batendo duas vezes tão forte quanto segundos atrás. Eu desço da banqueta e caminho rapidamente para a sala imaculada de Victor onde há, obviamente, uma outra janela na parede feita sob medida. A maciça cama king-size está pressionada contra outra parede, vestida de roupa de cama preta e cinza bem apertada sobre o colchão de modo que não tenha rugas ou imperfeições que possam ser encontradas. Parece que é assim em todos os quartos que eu vi até agora: desprovido de imperfeições e sinais da menor desordem. Victor fecha a porta atrás de mim e eu tento me preparar mentalmente para o que está prestes a acontecer.

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CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Victor

Quando Niklas e eu éramos apenas crianças, antes de sermos levados pela Ordem,

ele

era

meu

melhor amigo. Nós brigavamos muito, mano-a-mano, sempre tentando superar o outro, e, apesar de nós dois muitas vezes sairmos com narizes sangrando e uma vez com um pulso quebrado, nada poderia fazer-nos virar contra o outro. Nós iríamos sair do campo

de

batalha,

discutindo sobre o que nós pensavámos que as nossas mães teriam esperando por nós para o jantar quando chegassemos em casa. E nós acordaríamos e iríamos para a escola no dia seguinte com olhos roxos combinando. Os que eu dei a ele eram maiores, é claro, mas, então, Niklas diria o mesmo sobre aqueles que ele me deu. Depois que fomos levados pela Ordem, as coisas entre nós começaram a mudar. Vonnegut, embora raramente fizesse um contato face-a-face, e isso não mudou até hoje, disse que eu mostrei potencial. Mas ele não disse nada sobre Niklas. E a primeira vez que eu vi o rosto de Niklas quando Vonnegut me promoveu, mais jovem do que qualquer assassino que já havia sido promovido, a Operador Completo quando eu tinha apenas 17 anos, eu vi em Niklas o que me endureceu contra ele: um coração invejoso. Eu sabia naquele momento que, um dia, eu poderia ser obrigado a matá-lo. Niklas é a única família que me resta. E apesar de desejar que as coisas não fossem dessa maneira, que eu estivesse errado sobre ele e que pudesse voltar para o modo como as coisas eram, eu sei que isso não é inteiramente possível. A verdade é que tenho vigiado minhas costas quando a questão envolve meu irmão desde o último ano.

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E o nosso pai é quem deve ser culpado por isso. Creio que eu deveria o ter escutado... Eu encontro Niklas na porta da frente. Ele entra, calmo e impassivo como sempre, exceto quando ele está com raiva de mim por seguir minha própria cabeça e escolher fazer as coisas da maneira que eu achar melhor. Eu fecho a porta atrás dele. "Este é um lugar muito melhor do que o último." Ele diz, olhando para o teto trabalhado, com as mãos juntas cruzadas atrás das costas. Eu me encontro estudando internamente suas expressões, procurando traços de mim e de nosso pai nele. Temos os mesmos olhos, embora os dele sejam mais azuis do que os meus; os meus tendem a parecer mais verdes, em alguns momentos, do que azul. Seu rosto é redondo, o meu mais magro. Mas acredito que o que mais nos separa são nossos sotaques. Nosso pai e a mãe dele eram ambos alemães. Eu nasci na França, minha mãe era uma espiã francês da Ordem. Meu pai nos levou para a Alemanha quando eu tinha dois anos de idade e não conheci Niklas até que eu tinha seis anos. Eu o ajudei a aprender a falar Inglês e Francês, mas ele não tinha o dom para lingüística que eu tinha, então ele nunca foi capaz de perder totalmente o sotaque. Mas, apesar das diferenças que temos, eu ainda vejo apenas uma versão mais jovem de mim quando o olho. Especialmente agora enquanto tento absorver o fato de que vou matá-lo. Eu não quero fazê-lo. Eu quero sair de perto disso e esquecer que jamais aconteceu, mas essa não é uma opção. Ele sorri para mim. Temos o mesmo sorriso, também. Lembro-me do nosso pai me dizendo isso. "Sim." Digo sobre a casa. "Pensei que era hora de eu dormi em algo mais sofisticado. Eu esperava que pudesse ficar aqui por um tempo." "Isso mudou?" Ele pergunta curiosamente, tendo razões para acreditar nisso a julgar pelo meu tom de voz. "Infelizmente."

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Gesticulo em direção à sala de estar. "Vamos nos sentar." Eu digo e ele segue. "Temos muito o que discutir." Ele se senta na cadeira ao lado da mesa de canto de mármore. Eu permaneço de pé. Sinto que ele se pergunta por que eu não me sento também, mas a curiosidade desaparece de seus olhos e é substituída por atenção quando eu começo. "Niklas." Digo. "No ano passado na minha missão em Budapeste, eu não estava sendo totalmente honesto com você." Niklas ri levemente, ajustando as costas contra a cadeira. Ele coloca o tornozelo esquerdo em cima do seu joelho direito e interliga os dedos na frente dele, seus cotovelos apoiados nos braços da cadeira. "Bem, essa não seria a primeira vez." Ele diz, ainda sorrindo, como se esta fosse mais uma conversa informal entre dois irmãos. "Você nunca foi de dizer até mesmo para mim seus segredos." "Eu fui ver o nosso pai." Eu falei. O sorriso caí do rosto dele. Ele inclinou o queixo ligeiramente, claramente confuso com a minha confissão. "Ele mandou me chamar." Acrescento. "Para quê? Por que ele iria chamar por você, Victor? Depois de todos esses anos sem nunca vê-lo uma única vez, por que ele chamaria você e não eu?" Eu não respondo. Descubro que é mais difícil dizer a verdade a ele do que imaginava que seria. Eu sempre soube que seria difícil, mas não tão difícil assim. "Victor?” Os olhos de Niklas estão cheios de preocupação e... dor. Ele se levanta da cadeira. "Apenas me diga, irmão, por favor." Eu engulo em seco e respiro fundo uma vez.

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"Niklas." Eu finalmente digo. "Sua mãe foi eliminada pela Ordem porque foram descobertas provas de que ela estava vendendo informações. Você já sabe isso." Ele balança a cabeça. "Mas, depois disso, porque ela era a sua mãe, a Ordem não podia confiar em você. Mesmo Vonnegut sentiu que você era instável, que um dia, mais cedo ou mais tarde, você iria vingar a morte de sua mãe e trair a Ordem." Ele continua a ouvir, seu rosto cada vez mais obscurecido pela dor e rejeição. E ver isso mata-me por dentro. "Eu fui a Budapeste para encontrar-me com ele." Digo e eu não posso mais olhar para o meu irmão. "Ele conversou com Vonnegut e ambos concordaram que você deveria ser eliminado, mesmo que apenas como medida de precaução, para prevenir o inevitável. Foi dada a mim a ordem para realizá-lo." A cabeça de Niklas se move abruptamente. Eu encontro seus olhos. "Vonnegut, é claro." Continuo. "Não sabia que éramos irmãos e, sendo eu o seu número um, ele sabia que eu podia realizar o trabalho, e também pelo fato de sermos tão próximos, como você é meu contato. Nosso pai queria que fosse eu a matá-lo, porque ele pensou que isso seria a coisa honrosa a fazer, que se alguém fosse tirar a sua vida que fosse eu, porque somos família e nenhum outro deveria ter esse privilégio." Niklas mal consegue colocar seus pensamentos em ordem. Ele mal pode falar, mas finalmente ele consegue e, quando o faz, machuca meu coração, tanto quanto sua expressão continua machucando. "Nosso pai queria que você me matasse?" "Sim." Digo suavemente. Ele começa a andar de um lado para o outro e, em seguida, traz as mãos para o topo da sua cabeça, passando-as com força entre os cabelos. Ele olha através de mim, seus olhos cheios de lágrimas. Eu nunca, uma única vez em nossas vidas, tinha visto o meu irmão

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chorar. Nunca. Nem sequer quando éramos crianças, ou quando a mãe dele foi assassinada. Eu cerro minha mandibula, impedindo as minhas próprias lágrimas. Eu cerro os dentes com tanta força que eu sinto a pressão em meu crânio. Mas eu mantenho uma cara séria, na medida que eu consigo. "Então, por que não o fez?" Ele põe para fora. "Por que eu ainda estou vivo? Diga-me, Victor." A primeira de suas lágrimas desce por sua bochecha e ele a alcança instintivamente para limpá-la, zangado com ela por tê-lo traído. "Você deveria ter me matado!" "Eu recusei." Digo. "Você era o único trabalho que eu não poderia realizar, Niklas. E então nosso pai tinha apenas uma única coisa a fazer: ele iria fazê-lo ele mesmo." O corpo de Niklas congela rigidamente, mais ferido por esta verdade do que pela verdade de antes. Outra lágrima escapa de seus olhos, mas desta vez ele não tem forças para limpá-la. "Eu o matei." Finalmente digo. "Nosso pai me disse que eu teria que fazê-lo, porque essa era a única maneira dele não terminar o trabalho. Então, eu atirei nele aonde ele estava de pé." Ele não pode olhar para mim. Eu sinto o conflito dentro dele, sua mente e seu coração tentando escolher quais emoções sentir e quais rejeitar: sua mágoa por aquilo que nosso pai fez, ou o seu amor por seu irmão, porque ambos são muito para assimilar de uma vez. Eu continuo: "Sendo o número um de Vonnegut, eu o convenci a poupar sua vida e fiz ele acreditar que o nosso pai estava desequilibrado, paranóico, e foi por isso que tive que matá-lo. Eu disse a Vonnegut que você era confiável e que queria a chance de provar isso para ele e para o resto da Ordem. Eu jurei assumir total responsabilidade sobre você..." "Total res..." Ele olha para mim. "Total responsabilidade sobre mim? O que, eu sou uma maldita criança? Tudo o que eu tenho feito desde que eu tinha sete anos de idade, eu fiz pela Ordem. Eu sou o único de nós que sempre fez o que lhe foi dito, que nunca

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questionou as ordens de Vonnegut, que nunca deu a ele ou a qualquer outro razão para questionar a mim!" Ele cerra os punhos nos lados dele. "Tenho esforçado-me para me tornar como você, Victor, para ser respeitado e confiável e receber a mesma glória que Vonnegut lhe dá desde antes de você ser promovido a Operador Completo! Eu não fiz nada para levantar..." "Você tem mentido para Vonnegut por mim há anos, Niklas. Como eu posso saber que você não iria se voltar contra mim quando fosse o momento certo? Você tem fingido ser o soldado de confiança de Vonnegut, o contato dele esperando para ser promovido a Operador Completo, e durante todo o tempo mentindo para ele sempre que eu pedi a você." "É disso que se trata?" Ele aponta para cima e, em seguida, abaixa a mão agressivamente de volta ao seu lado. "Você tem me testando todo esse tempo!? É isso o que que você tem feito! Não é?" "Não." Eu digo. "Eu nunca usaria você dessa maneira, Niklas. Eu matei o nosso pai para salvar a sua vida. Por que eu iria então arriscar sua vida, armando para você?" Ele não tem resposta. Ele apenas olha para mim confuso e magoado e com raiva e sem saber o que fazer com tudo isso. Ele cai para trás na cadeira, as pernas abertas, a parte superior do corpo largado para frente, apoiando a testa em sua mão. "Por que você está me dizendo isso agora?" Ele pergunta, levantando os olhos de volta para mim. "O que fez você decidir que hoje seria o dia em que você colocaria minha vida de cabeça para baixo? Você simplesmente acordou nesta manhã e disse para si mesmo: ‘Hoje eu acho que vou ferrar com a cabeça do meu irmão, porque eu não tenho nada melhor para fazer?’" "Eu senti que eu devia isso a você." Eu digo. "Você deveria saber a verdade antes de você morrer." Ele parece ligeiramente aturdido, como se tentando descobrir se ele tinha me ouvido direito. A mão dele cai de sua testa e ele endireita as costas contra a cadeira. "O que você quer dizer?"

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"Niklas." Eu vou direito ao ponto. "Eu sei que você disse para Javier Ruiz onde eu escondi a garota. Onde eu estava com a garota." Seus olhos se enrugaram com confusão. "Do que você está falando?" Eu ando alguns passos para a minha direita, minhas mãos agora nas minhas costas, aparentando estarem descansando lá. Minha arma está escondida com segurança na parte de trás da minha calça. "Quando você me ligou quando eu estava no meu caminho de volta para Tucson, você disse que a hora do último paradeiro conhecido de Javier era às três e doze da tarde." Eu movo a minha cabeça para o lado. "Por que demorou sete horas para você me dar esta informação?" Ele ainda não recuou. Eu estou começando a achar sua habilidade para encenar mais eficaz do que eu lhe havia dado crédito. Ele medita sobre a pergunta por um momento. "Eu liguei para você assim que eu mesmo soube. Victor, você sabe que nós nem sempre obtemos esse tipo de informação no instante que ela ocorre." "Talvez," eu digo. "Mas você e Samantha eram as únicas duas pessoas que sabiam onde eu estava e onde eu planejei deixar a garota." Ele aponta para mim, sua expressão transformada com descrença. "Mas você me disse que Samantha era a responsável. Você disse que a garota lhe disse que Samantha tinha recebido uma ligação..." "Eu menti." Ele ainda não recuou. Será que ele está dizendo a verdade? Eu levanto a minha arma para ele. Os olhos de Niklas se arregalam e ele coloca as mãos em minha direção. "Victor, eu não o traí. Eu juro pela minha vida, eu não disse nada a ninguém!"

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Meu dedo pressiona cuidadosamente o gatilho. "Você é meu irmão!" Ele grita. "Eu sempre fiz o que você me pediu, mantive seus segredos, joguei seu jogo entre Vonnegut e as ordens que ele te deu! Eu morreria antes de traí-lo!" Quando os olhos de Niklas desviam para trás de mim, eu sei que Sarai está em pé lá. "Eu lhe disse para não sair." Eu mantenho meus olhos em Niklas. Ele alterna o olhar entre nós dois, sua expressão marcada pelo choque e traição da minha parte. "Você disse que ela tinha morrido." "Eu menti sobre isso, também." Eu pressiono o gatilho um pouco mais. "Então, quem está mentindo para quem então? Quem está traindo quem?" Seus olhos continuam se movendo entre nós dois. "Victor! Não. Foi. Eu!" Ele ruge. Ele está mais bravo do que com medo, seu rosto contorcido com desgosto e descrença, seus punhos cerrados firmemente em seus lados. "Eu não vou implorar pela minha vida. Eu não vou fazer isso, irmão. Se você deve me matar então me mate, acabe com isso, mas saiba que eu não traí você!" No último segundo, eu abaixo a minha arma e tomo o fôlego que eu estava segurando nos últimos minutos. Então, eu me sento na cadeira mais próxima e despenco contra ela. O silêncio enche a sala. Eu nunca estive tão confuso sobre alguma coisa na minha vida. "Eu acho que ele está dizendo a verdade.", Sarai diz suavemente atrás de mim. Eu a sinto lá, de pé com os dedos envoltos sobre as costas da minha cadeira. Por um momento, eu quase os alcaço e os toco. Finalmente, eu levanto os meus olhos para Niklas e digo para Sarai. "Eu também acredito que ele está."

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"Como ela está viva?" Niklas pergunta, mais preocupado com ela do que com o fato de que eu decidi não atirar nele. Ele parece estar olhando mais para ela agora do que para mim.

Eu

ainda não posso dizer qual o nível de descontentamento que ele está sentimento a respeito disso, mas, talvez, uma vez que o choque passe eu consiga ser capaz de ler seu rosto com um pouco mais de facilidade. "Samantha também não disse a Javier onde estávamos." Eu digo. "Eu só disse isso a você para conseguir que você viesse aqui, porque eu estava certo de que você era a pessoa. Você foi o único que restou." "Samantha foi morta tentando proteger-me." Sarai fala. Eu gostaria que ela apenas parasse de falar e voltasse para o quarto. "Javier a matou." Ela acrescenta com tristeza em sua voz. "E Sarai matou Javier antes que eu chegasse lá." Eu digo. Niklas encara nós dois por um longo momento, talvez ainda tentando encaixar todas as peças em sua cabeça, e, provavelmente, ainda sentindo uma dor aguda por eu o ter enganando da maneira que fiz para trazê-lo até aqui. "Tudo bem." Ele diz, golpeando o ar em frente a dele com a mão. "Samantha não o fez, mas eu também não." Os dedos de Sarai se moveram do encosto da cadeira e tocaram a parte de trás dos meus ombros, provavelmente involuntariamente por ela estar tão nervosa. Por um momento, eu me vejo querendo seus dedos ali, mas eu me levanto rapidamente antes que meu irmão tire conlusções erradas, se é que ele já não tirou. "Do que se trata tudo isso?" Niklas pergunta. "Diga-me Victor, o que essa garota tem a ver com você?" Ele começa a andar de um lado para outro mais uma vez, olhando para mim de vez em quando, sua mente trabalhando exaustivamente. "Você foi ao México para ouvir a oferta de Javier, para ver qual oferta valia o contrato, a dele ou a de

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Guzmán. E então, na saída, você encontrar uma clandestina em seu carro, que claramente pertencia a Javier Ruiz..." "Eu não pertenço a ninguém." Sarai diz acidamente. "E meu nome não é garota, é Sarai." Eu levanto minha mão para ela e ela para de falar, mas seu olhar duro cresce mais obscurecido olhando para Niklas. Ela cruza os braços. Niklas a encara, mas ele me diz. "Eu já repassei as mentiras que você me disse para trazer-me até aqui para Vonnegut." Ele senta-se novamente na cadeira. "Você sabe tão bem quanto eu que retratar essa história vai levantar todos os tipos de questionamentos. Você não pode mantê-la escondida para sempre. Você poderá também ter formalmente solicitado um novo contato, porque eles vão nomear outra pessoa para você simplesmente por causa da nossa 'falta de comunicação', se é isso que nós vamos escolher dizer a eles." Ele balança a cabeça para mim, um leve sorriso de descrença em seus lábios. "Você fez tudo isso, você mentiu para a Ordem, você colocou toda

a

missão

em

perigo,

na

verdade

destruíu,

tudo

por causa dessa garota..." Ele zomba. "A Casa Segura Doze foi comprometida por causa dela." Niklas olha diretamente para Sarai, de pé atrás de mim, e, sem ter que vê-la, posso sentir o ressentimento fervendo dentro dela. "Tantos estão mortos por causa dela." Niklas diz. "Samantha. Aquela menina no Arizona. Os relatórios dizem que ela tinha apenas dezesseis anos de idade. Morta por causa da... Sarai " Ele sorri. Eu vejo o cabelo longo e avermelhado de Sarai chicotear atrás dela enquanto ela corre por mim. Eu poderia ter estendido a mão e a parado, mas Niklas merece qualquer retribuição que ela conseguir dar a ele antes que ele a coloque no chão.

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CAPÍTULO VINTE E CINCO

Sarai

Meu rosto queima com desprezo, lágrimas escorrendo dos meus olhos aos montes enquanto eu me lanço através da curta distância em direção a Niklas. Eu não me importo que ele pareça surpreso e ligeiramente divertido com o ataque contra ele, balançando os punhos caoticamente na minha frente em seu rosto. Em um flash, eu estou no chão de costas e Niklas está agachado em cima de mim, sua mão aperta em torno de minha garganta, tornando-me incapaz de recuperar o fôlego. Eu garro em seu pulso com ambas as mãos e tento chutá-lo, mas não há nenhuma maneira de eu me mover a partir deste ponto. Ele olha para mim e move sua mão da minha garganta para meu rosto, agarrando o meu queixo com os dedos, como uma morsa de bancada. Com a outra mão, ele prende meus pulsos juntos, forçando-os contra o meu peito. Ele vira meu queixo para um lado e depois o outro e eu provo a sobra dos produtos químicos de sua loção pós-barba quando ele pressiona o dedo contra a borda dos meus lábios. "Saia de cima de mim." Eu rosno sob o peso de sua mão. "Niklas." Victor diz calmamente por trás. "Deixe-a ir." Os olhos azuis de Niklas perfuraram os meus e ele me mantém aqui nesta posição por mais três dolorosos e longos segundos antes de fazer o que Victor disse. Tento recuperar o fôlego quando ele me libera, mas acho que a maioria, eu só seguro por mais tempo, até que ele se afastou de mim por completo. Eu levanto as minhas costas do chão, mas fico sentada sobre ele. Eu estou tão magoada, tão indignada com Niklas pelas coisas que ele disse, mas meu orgulho dói mais do que qualquer coisa. Porque eu sei que ele está certo.

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Eu olho para o chão, em vez de para cada um deles. Eu não quero que eles vejam a vergonha e culpa no meu rosto, embora seja evidente para qualquer pessoa que está aqui. "Niklas." Victor diz calmamente: "Lamento ter comprometido você." Eu olho para cima instantaneamente. Eu sinto uma mudança de humor na sala e, embora eu não saiba exatamente qual, eu posso dizer pela pausa na voz de Victor que é algo de mudança de vida. "Nós poderíamos elaborar um plano." ele continua com atenção em Niklas. "Vamos deixar Vonnegut acreditar que Sarai está de fato, morta-" "Ou podemos matá-la para torná-lo realidade." Eu viro minha cabeça de lado para olhar para Niklas, que está olhando de volta para mim com a mesma condescendência. Victor balança a cabeça, opondo-se à sua mordaz, ainda totalmente séria proposta. "Nós poderíamos elaborar um plano em conjunto." Victor continua no mesmo tom estoico. "Ou eu poderia fazer isso sozinho e você pode ir embora e não ter qualquer parte dela." Os olhos de Niklas se largam, seu corpo trava com firmeza. Ele parece ter perdido as palavras. E eu também posso não entender como essas coisas funcionam em seus negócios, mas eu realmente não preciso saber que o que Victor propõe é algo muito perigoso. É suicídio. Eu conseguir me levantar do chão. "Você tem uma escolha." diz Victor. "Segue com o meu plano e diz a Vonnegut que ela está morta, ou dizer-lhe a verdade, diga a ele tudo o que aconteceu aqui para garantir o seu lugar na Ordem. Eu não vou usar isso contra você. Eu vou levá-la comigo, deixa-la em algum lugar para que ela possa ir em frente com sua vida. E então eu vou continuar com a minha. A escolha é sua, Niklas. Mas eu não vou matá-la, e se Vonnegut descobrir que ela está viva, ele vai, justamente por isso, questionar a minha

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lealdade. E você sabe em primeira mão o que acontece quando nossa lealdade é questionada." "Eliminado como medida de precaução." Digo em voz alta, embora na maior parte para mim, lembrando o que Victor disse momentos atrás sobre o porquê eles ordenaram Niklas morto. Niklas está em choque. Ele balança a cabeça várias vezes como se estivesse tentando sacudir as palavras traiçoeiras de Victor para fora de sua mente. "Você de todos os cooperadores." Niklas consegue dizer: "...eu não entendo porque você está fazendo isso, por que você iria jogar fora tudo e se esconder-" Ele balança a cabeça novamente, incapaz de terminar a frase. "Não seria a primeira vez que eu arrisco a minha posição e minha vida para seguir a minha consciência ao invés de minhas ordens." Niklas toma uma respiração profunda e desvia o olhar para o teto. Então ele olha para mim e nós compartilhamos um momento suspenso nesta intrincada teia de mentiras, desprezo e ressentimento, um momento em que, apesar de tudo isso, percebemos que temos algo em comum: Victor salvou ambos igualmente, e por isso estamos na mesma. Ao mesmo tempo, olhamos para trás, para Victor. Niklas finalmente quebra o silêncio espesso. "Como eu sempre disse, meu irmão, eu nunca vou te trair." Victor concorda com a cabeça e vejo o alívio escondido dentro de seus olhos azulesverdeados. Eu me pergunto se ele teria matado Niklas onde ele está, se Niklas tivesse escolhido tomar o caminho alternativo. "Eu estou com você." Diz Niklas e olha para mim uma vez. "O que você quiser fazer. Mas, antes de fazer qualquer coisa, precisamos descobrir quem disse a Javier onde você estava." Quando os olhos de Niklas caem sobre mim mais uma vez, eles ficam lá e de repente eu sinto que ele está me culpando.

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Minhas sobrancelhas se enrugam na minha testa. Eu cruzo meus braços apertados sobre o peito. "Bem, eu com certeza não lhe disse." Eu cuspo. "Não olhe para mim desse jeito." Victor caminha entre nós e segura-me pelo pulso, levando-me para a cadeira mais próxima, onde sento voluntariamente. Meu estômago nada nervoso. Eu olho para os dois, minhas mãos segurando as extremidades dos braços da cadeira. "Não fui eu!" "Eu sei que não foi você." Diz Victor. "Mas eu preciso que você pense agora, Sarai. Você, em algum momento, falou com alguém desde que deixou o complexo? Qualquer um. Você já viu alguma coisa que talvez não parecesse certa, algo aparentemente insignificante?" Eu balancei minha cabeça, meus dedos nervosos fazendo um movimento circular contra os entalhes de grãos na madeira de cerejeira do design da cadeira. "Eu não sei." Eu disse sem fôlego, tentando desesperadamente pensar em alguma coisa, qualquer coisa que ele poderia estar procurando. Mas eu não posso. "Victor, eu não penso assim." Ele dá mais um passo, em seguida, olha para Niklas. Então, como se ele estivesse levado um tapa na cara por uma teoria, ele vira o corpo rapidamente de volta para mim. "Tire a roupa." Victor exige. Meu coração para. "O quê?" "Sarai, tire a roupa." Ele me puxa para cima da cadeira ao meu lado. Tento puxá-la para longe dele, mas ele aplica mais pressão. "Eu não vou tirar minhas roupas! Por que você me pede para...?" Eu gostaria de esbofeteá-lo com minha mão livre, direto no lado esquerdo do seu rosto. Ele agarra meu pulso. "Eu preciso que você confie em mim. Eu te trouxe até aqui agora faça o que eu digo e tire suas roupas, porra."

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Seu uso incomum de vulgaridade me choca em complacência. Meus olhos como dardos vão para frente e para trás entre eles, novamente, minha mandíbula aperta, minha respiração é pesada e curta a partir de minhas narinas. "Tudo bem." Eu digo, empurrando a minha mão da dele. "Mas não na frente dele." Victor leva-me pelo pulso e caminha comigo. Niklas passa em direção à entrada do quarto. "Você não tem nada que eu queira ver." Ouço Niklas dizer pouco antes de Victor fechar a porta. Eu já me sinto nua em pé no aberto e espaçoso quarto, com Victor me olhando e eu nem sequer tirei minhas roupas, ainda. Eu quero ficar o maior tempo possível, demorar de modo que talvez ele vá mudar de ideia, ou pelo menos me dizer o que é isso tudo, mas ele não perde mais tempo. E ele não me deixa perder mais do mesmo, também. "Tire-as. Agora." Eu começo com a minha camisa, puxando-a para cima da minha cabeça e expondo meus seios nus. Eu deixo cair a camisa no chão ao lado dos meus pés. Ele me olha, não com luxúria em seus olhos, mas com determinação. Eu me inclino e escorrego para fora da minha calça e tudo o que resta é a minha calcinha. Ele dá um passo certo para mim. Eu hesito. O espaço entre nós é cerca de dois metros, mas parece duas polegadas. Eu não quero tirar a minha calcinha, não porque eu tenho medo dele, mas porquê... eu tenho vergonha dele me ver assim. Quando ele chega perto e não exige que eu tire a calcinha, eu respiro um suspiro de alívio. "Deite-se na cama." Diz ele, e a respiração é sugada de volta para meus pulmões novamente antes que possa expelir completamente.

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Quando eu não ajo rápido o suficiente, ele envolve as mãos em volta dos meus braços e me empurra suavemente contra seu edredom de grife cara. Eu engulo um caroço na minha garganta. Quando eu começo a levantar os braços para os meus seios para cobri-los, sinto as mãos quentes de Victor em mim. Eu congelo, meus olhos arregalados e sem piscar. Ele levanta os braços acima da minha cabeça e começa a sentir cada centímetro da minha pele, pressionando seus dedos ao longo da parte inferior dos meus braços e depois para baixo em direção as minhas costelas antes de fazer o seu caminho para os meus seios. Seus olhos pegam os meus brevemente. Talvez ele quisesse aliviar meu medo dele com aquele olhar, mas tudo o que fez foi me fazer querer que ele me tocasse mais. A culpa do que pensei queima através de mim. Mas o toque de suas mãos em meus seios, massageando apenas uma pequena parte deles com seus dedos, fazem algo totalmente diferente. Imagino sua boca em meu mamilo... Eu forço esse pensamento ridículo para fora, e eu o vejo, com os olhos atentos e como habilmente, mas ao mesmo tempo, de forma agressiva, as mãos se movem em cada centímetro do meu corpo. Furtivamente eu inalo o cheiro de sua pele, seu cheiro natural que de alguma forma me faz querer que ele me beije. Ele se apoia e se afasta de mim, mas ele não terminou. Ele vai para minhas coxas, começando com a esquerda e aperta os dedos em torno da carne com as duas mãos. E, em seguida, a outra coxa. Quando os seus dedos tocam a pele sensível das minhas coxas, logo na linha da minha calcinha, eu suspiro. Ele para. Ele olha para mim, em toda a visão do meu corpo nu. Eu só posso imaginar o que ele está pensando, mas desta vez tenho a sensação de que seu olhar não é para aliviar meu medo dele, mas para estudar minha reação às suas mãos, estando em mim, tão perto da minha parte mais íntima. Pergunto-me por que ele iria estudar meu rosto em tudo, por que ele não levaria minha reação óbvia e rejeitá-la, movendo suas mãos para longe como eu esperava que ele fizesse. Mas ao invés disso, ele as deixa lá, a ponta de um de seus dedos. Eu sinto pastorear a carne na curva da

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minha perna apenas na borda da minha calcinha, em conflito sobre o que ele deve fazer. O que ele pode querer fazer. Ele se afasta e de repente me vira de bruços. "O que você está fazendo exatamente?" Peço, adaptando-me à mudança rápida do momento. Ele puxa minha calcinha até a metade, sobre as bochechas da minha bunda, move suas mãos aqui e ali, da mesma forma e, em seguida, faz o mesmo com meus quadris. "Estou à procura de alguma coisa." "O quê?" Eu peço. Então, de repente ele para, seu polegar movendo-se em um movimento circular em um determinado ponto logo acima da minha nádega direita, na parte de trás do meu osso ilíaco. A mesma área geral onde tirou a bala. "Um dispositivo de rastreamento." Diz ele. "Você tem um." Eu tento torcer minha cabeça ao redor para vê-lo melhor, mas dói meu pescoço. O flash de uma lâmina de prata me chama a atenção. Eu entro em pânico quando vislumbro a faca na mão e começo a torcer o meu corpo sem jeito. Mas ele me mantém para baixo, colocando o peso de sua mão na parte inferior das minhas costas, a mão com a faca lutando com meu ombro esquerdo. "O que você vai fazer?" Eu grito. "Eu tenho que parar isso." "Victor, não!" Eu me agito mais violentamente, tentando rolar minhas costas para que eu possa levantar-me. De repente ele está totalmente deitado em cima de mim, e sua proximidade, o calor de sua respiração ao lado de meu pescoço, leva o meu fôlego. Toda

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a minha estrutura solidifica embaixo dele e, em seguida, começa a relaxar, fundindo-se com o seu corpo quando sua voz dança ao longo da concha da minha orelha. "Vou ser gentil." Ele sussurra e os meus arrepios descem da pele da minha orelha, para toda a extensão da minha espinha. Ele aperta-se em mim por trás, sua dureza óbvia, por trás da fina camada da calça que nos separa. "Eu prometo." Diz ele no meu ouvido. "Mas tem que sair. Você entendeu? Você confia em mim?" Ele pressiona seus quadris em direção a mim novamente e eu sintome movendo contra ele involuntariamente. Fechei os olhos quando a sensação de formigamento entre as minhas pernas se move através de minhas costas e nas minhas dobras. "Sim." Eu sussurro. "Eu confio em você." "Bom." Ele diz em voz baixa e lentamente levanta-se de cima de mim. Fico muito quieta, pensando muito mais sobre Victor e o que ele fez para mim, do que a ameaça mais urgente. Uma parte de mim nem sequer se preocupa com o que ele vai fazer, que ele está prestes a cortar dentro de mim com uma faca, que vai doer como o inferno. E talvez essa seja a única razão pela qual ele fez o que fez, sabendo que de alguma forma que ele podia controlar o meu humor, as minhas emoções, com a esperança de que ele pudesse me tocar mais do que ele já tem. Eu me sinto como um brinquedo e Victor conhece cada botão meu para empurrar, para tocar, para me obrigar a fazer o que ele quer, sentir o que ele quer que eu sinta. E eu não me importo. Eu não sei como ele fez isso, mas eu não me importo. "Morda o travesseiro se você precisar." Diz ele. Eu chego e pego o travesseiro mais próximo de mim, esmagando-o contra meu peito. Eu aperto meus olhos fechados. A lâmina entra e eu grito de dor antes de enterrar meu rosto dentro do travesseiro, meu corpo inteiro endurece como um bloco de cimento.

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Em segundos, o dispositivo está fora e Victor fica no pé da cama, olhando para o espaço entre os dedos sangrentos para algo tão pequeno como um grão de arroz. Com a mão livre, ele pega a toalha que ele usou para se secar depois do banho, que estava deitada no chão nas proximidades. Ele o entrega para mim. "Exerça pressão sobre ele para parar o sangramento." Diz ele e anda pela sala até seu banheiro. Enquanto eu pressiono a toalha na parte de trás do meu quadril, eu ouço a água corrente na pia e, em seguida, o som dele vasculhando seu armário de remédios. Com uma mão segurando a toalha no lugar, eu me levanto da cama para encontrar a minha camisa, deixando cair a toalha apenas o tempo suficiente para colocá-la. Victor sai do banheiro com um frasco de comprimidos laranja apertado entre os dedos e passa direto por mim e vai para a porta.

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CAPÍTULO VINTE E SEIS Victor

"Niklas." Eu digo quando saio da sala "Isso parece familiar para você?" Eu passo até ele e mantenho o frasco de comprimidos com o dispositivo de rastreamento no interior. Ele leva-o em seus dedos. Ouço passos suaves atrás de mim quando Sarai sai do meu quarto, mas eu mantenho a minha atenção em Niklas. Ele olha de perto para o lado do frasco primeiro, mas depois gira a tampa e vira o aparelho na palma da sua mão. Ele olha para mim. "O mesmo tipo de dispositivo que eles usam nas meninas em Dubai." Diz ele. Ele olha para Sarai. "Você achou isso nela?" Então, ele devolve no frasco e aperta a tampa. "Eu odiaria perguntar onde." Niklas limpa a mão em sua jaqueta. "Se é um deles." Digo. "Isto significa que Javier Ruiz tem uma operação muito maior do que qualquer um de nós sabia. Eu nunca soube de um traficante como Ruiz ter acesso a esse tipo de tecnologia." "Eles não se preocupam com tecnologia." Diz Niklas. "Todos eles tratam de drogas, armas e meninas." "Se." Sarai diz e viro-me para vê-la. "Isso se Javier tinha uma operação muito maior. Ele está morto, lembra?" "Sim." Eu disse. "Mas isso não significa que a sua operação. Isso significa que ela vai ser repassada para quem mais estiver na fila de controle."

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"Bem, o que isso tem a ver com a gente?" Pergunta Sarai. Eu sinto vontade de dizer a ela para colocar alguma calça, enquanto está na frente de Niklas, mas eu paro. "Não existe um nós." Diz Niklas. Sarai olha pra ele e reajusta a toalha sangrenta contra seu quadril. "Então o que é que isso tem a ver comigo?” Ela endireita-se. "Ou, com qualquer um de vocês?" "Não tem nada a ver com você." Eu digo. "Não mais. Você foi de Javier e se ele tivesse lhe vendido ou prometido a outro comprador, você não teria estado em sua posse durante o tempo que você ficou. Ele não tinha intenção de deixar ninguém ter você. Agora que ele está morto você não tem nada mais a temer." Faço uma pausa. "Na medida em que ela tem a ver com a gente-" Eu paro ai, sabendo mais do que conto a ela, mais do que ela já sabe ou eu só vou colocá-la em mais perigo com a Ordem. E, a julgar pela expressão no rosto de Niklas eu falei demais, em sua opinião. Ele desliza o frasco de comprimidos no bolso do paletó. "Eu vou me livrar disso." Diz ele, em seguida, sem mover a cabeça eu vejo seus olhos evitar Sarai para uma fração de segundo. Seu ódio ferve sob a fachada calma e disciplinada, que ele está vestindo. "Então qual é o nosso próximo passo? Vou fazer a cobertura para você com Vonnegut, ou você vai trapacear?" Eu sei qual resposta ele quer e, por enquanto, é o que eu escolho fazer. "Diga a Vonnegut que estou pronto para minha próxima missão." Eu digo, não entrando em detalhes enquanto eu continuo. "E para colocar essa casa de volta no mercado. Estaremos deixando na parte da manhã." Sarai olha para mim com um olhar de confusão. Niklas concorda e aceita, porque ao contrário dela, ele sabe que esta casa foi comprometida pelo dispositivo de rastreamento que ele carrega no bolso. Javier Ruiz podia estar morto, mas o dispositivo ainda está em ordem e alguém pode ter vindo acompanhando suas posições desde quando Sarai escapou do complexo. Foi como Izel encontrou-nos tão rapidamente no motel no México. Quando entrei em contato com Javier e dei-lhe a minha localização para vir pegar a menina, Izel chegou meia hora mais cedo, ele

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deveria ter dado a nossa distância do complexo. Na época, eu achava que ela já estava na estrada com seus homens à nossa procura, e na verdade, ela tinha estado. Mas eu não sabia até agora que era porque ela já sabia onde estávamos. Foi também por causa do dispositivo que os dois homens entraram na loja fingindo serem clientes e falando com o proprietário da loja em código. Dado o fato de que eu matei todos os homens que vieram com Izel, pela primeira vez, eu presumo que Javier Ruiz queria um jogo mais seguro através do envio de apenas dois no segundo tempo. Eles foram apenas enviados para coletar informações e seguir-nos até Javier elaborar um plano melhor. Quando eu levei Sarai ao longo da fronteira era mais difícil manter-se com a gente. Eu imagino que ele havia enviado mais homens a seguir, possivelmente, até mesmo para emboscar-nos em algum momento, mas isso nunca aconteceu, e eu tenho que acreditar que era devido a nós já estarmos nos Estados Unidos. Era difícil até para Javier que tem poderosa influência, passar pela patrulha de fronteira, mesmo com alguns oficiais americanos corruptos. "Eu entrarei em contato com você assim que chegar suas novas ordens de Vonnegut." Niklas da passos até mim. Ele remove a parte sem emoção de ser um contato, e parece mais como meu irmão agora. "Eu sinto muito pelo que nosso pai fez." Digo a ele. Niklas baixa os olhos por alguns instantes. "Eu farei qualquer coisa para protegê-lo, porque você é meu irmão." Diz ele. "Assim como você fez para mim." Nós compartilhamos um momento tranquilo de entendimento, com a cabeça e ele segue seu caminho. "Ele me odeia, como eu já disse antes." Sarai fala atrás de mim. "Mas ele é fiel a você."

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Eu estava olhando para fora da janela grande de toda a sala, perdido em pensamentos ouvindo as ondas contra as rochas. "Sim." Eu digo. "Ele é." Ela dá um passo para mim e coloca a mão no meu pulso. "Você não poderia saber." Diz ela. "Que não era ele. Mas isso não importa agora. Eu acho que você limpou o ar com seu irmão em mais do que uma maneiras." "Talvez." Digo e vou embora. "Mas eu não posso me preocupar com isso agora." Ela me segue de volta para o meu quarto. "Devemos discutir sobre você." Entro no banheiro e ela está à porta, a toalha ainda pressionada contra seu quadril. "Venha aqui." Eu digo. Ela faz, sem duvidar. Eu coloquei minhas mãos em sua cintura e a viro de frente ao espelho. Instintivamente, ela coloca suas mãos sobre a borda do balcão, deixando a sangrenta toalha cair no chão. Enfiando meus dedos por trás do elástico da calcinha, eu os deslizo para baixo sobre seus quadris, deixando-os descansar a meio caminho no centro do seu bumbum. "Onde você gostaria de ir?" Eu pergunto enquanto abro o armário à minha direita. "Eu vou levá-la onde quer que você gostaria, mas precisamos fazer isso em breve. Espero que minhas novas ordens cheguem antes do fim do dia de amanhã e, eu não vou ter muito tempo de sobra entre levá-la onde você precisa ir e quando eu devo sair." Eu volto com o meu kit médico e coloco-o no balcão. Sarai não responde à primeira vista, talvez ela esteja decidindo sobre um lugar, mas meu instinto me diz que não é o caso.

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Eu posso ver o seu reflexo no espelho, mas ela não levanta a cabeça para olhar para mim. "Mas eu quero ficar com você." Diz ela com cautela. "Eu já lhe disse, não tenho para onde ir, nem identidade." "E eu lhe disse." Eu lembro-a. "Que tudo isso pode ser remediado. Você escolhe o lugar e eu vou cuidar do resto. Por agora, você tem a carteira de motorista que te dei." Eu limpo o ferimento de faca com peróxido e cobro toda a área em torno dele com iodo. Ela mal estremece com a dor pungente. "Eu não preciso de sua ajuda para me estabelecer em uma vida que eu não quero mais." Diz ela. Eu empurro a agulha e começo a costura-la. Nem mesmo essa dor, embora ligeiramente óbvia no rosto, pode detê-la das coisas que ela quer dizer. Eu esperava que seria, mas a sua determinação é inabalável agora. "Eu costumava sonhar com isso." Diz ela, com os olhos levantados para o espelho, mas agora tudo o que ela vê é o devaneio. "Ainda que eu mal conseguisse lembrar como o Arizona ainda parecia, eu costumava me imaginar vivendo naquela horrível reboque com um namorado e os amigos ao lado. Sonho inspirador realmente, eu sei." Ela zomba de si mesma. "Mas aquele lugar, depois de um tempo, era tudo que eu conseguia lembrar. Eu teria dado qualquer coisa para ser capaz de voltar para lá e continuar com a vida que foi retirada de mim. Mas depois do terceiro ano ou mais com Javier, eu parei de sonhar com isso. Desisti desejando que eu pudesse encontrar uma maneira de escapar. Lentamente, ao longo do tempo, aprendi a aceitar a minha vida do jeito que era. Eu odiava isso em primeiro lugar, é claro. Eu odiava Javier. Eu odiava que, apesar de ele nunca ter me estuprado, pelo menos não como você espera que o estupro aconteça, ele sabia que no começo eu não estava disposta, que eu só dei para ele, porque eu estava com medo e ele ainda assim fez sexo comigo e eu digo isso é estupro. Mas eu o odiava e odiava entregar-me a um homem que eu não queria." Vislumbro o movimento da garganta dela no espelho como ela engole a memória dolorosa e, ela faz uma pausa antes dela passar, tentando lembrar seus pensamentos.

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"Em algum momento." Diz ela. "Eu mesma parei de odiá-lo. Sei que parece loucura, e...e...e eu nunca o amei." Ela gagueja sobre suas palavras e sinto que ela está em conflito sobre as coisas que ela fala. "Mas eu parei de odiá-lo..." Ela pega os meus olhos no espelho. "Isso me faz mal? Quero dizer..." Ela lambe o ressecamento dos lábios. Eu enfio o último ponto e limpo a área novamente com álcool, apenas olhando para longe dela o tempo suficiente para ter certeza da minha técnica. "Quero dizer, porque eu parei de odiá-lo, isso significa que há algo de errado comigo?" Ela quer desesperadamente que lhe digam que não. Eu deslizo a calcinha de volta sobre seus pontos e vou lavar as mãos. "Isso significa que você é humana." Eu digo. Tentando evitar o seu desejo de continuar comigo, deixo-a de pé no banheiro e não ofereço mais de meus próprios pensamentos sobre o assunto. Mas ela é implacável e segue-me. Eu continuo com o meu negócio, com a intenção de obter algum sono muito necessário. Eu removo a minha camisa e saio da minha calça, lançando o interruptor de luz quando eu passo andando, deixando o quarto banhado em um tom azul escuro. "Victor." Diz ela suavemente por trás. "Por favor, leve-me com você. Eu já lhe disse antes, eu posso ajudar. Você pode ensinar-me, treinar-me para ser o que você acha que eu seria boa." "Você realmente não quer isso, não é?" Eu pergunto, conheço-a melhor do que ela conhece a si mesma. Eu puxo para trás o meu edredom e os lençóis e deslizo em minha cama. "Você não quer que eu te deixe. Sozinha no mundo. Livre para ser o que e quem você quer, para tomar suas próprias decisões. Ter relações sexuais com homens de sua escolha. Para ter uma vida normal. Porque é estranho para você.” Faço uma pausa. "Se eu lhe disser para matar alguém por causa de um trabalho, você não seria capaz de fazê-lo. Você não poderia obrigar-se a matar qualquer ser humano a sangue

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frio, sem saber nada de seus crimes ou suas famílias ou até mesmo por que eles estão sendo mortos. Você nunca poderia se tornar como eu. Nenhuma quantidade de treinamento poderia torná-la uma assassina, Sarai." Deito-me totalmente no meu travesseiro, elevando o lençol até a minha cintura. "Agora, durma um pouco. Vamos sair às seis da manhã e eu espero que você tenha escolhido um lugar onde você gostaria de ir para lá." Ela parece derrotada. Bonita e macia e danificada ali diante de mim parcialmente vestida à luz da lua brilhando através da janela do chão ao teto. Bonita, mas derrotada. Aquele olhar em seus olhos, que de alguma forma se agarra a minha alma e tudo que eu quero é que ela se vire e vá embora. Porque eu sei que se ela não o fizer, se ela me pressionar ainda mais com aqueles lábios suaves e olhos tristes, vulneráveis, eu vou sucumbir ao momento e querer transar com ela ou matá-la. Ela se vira e caminha em direção à porta. Eu a impeço. "Sarai." Eu digo, mas ela não se vira. "Você nunca aceitou a sua vida com Javier, ou você não... estaria aqui comigo agora." Eu tinha começado a dizer: Ou você não o teria matado, mas decidiu contra isso. Ela não diz nada e fecha a porta ao sair. Eu fico aqui olhando para as espessas nuvens que cobrem o céu e eu penso sobre as coisas que disse a ela, as mentiras que disse a ela. Ela poderia matar a sangue frio. Cada parte de mim me diz que, ela pode e que ela faria. De certa forma, me dói acreditar nisso, saber que sua inocência foi tirada dela há muito tempo e que, embora ela ainda tem uma chance decente de viver uma vida normal, o fato de que ela escolhe quer minha vida, é difícil de engolir. É difícil, principalmente porque eu quase quero dar a ela.

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CAPÍTULO VINTE E SETE

Sarai

Eu escuto o trovão e a chuva durante uma hora, incapaz de adormecer. Apesar do tempo ser tão tranquilo nesta casa, tão espaçosa e vazia. Vazia em quase todos os sentidos da palavra. Eu deito contra os lençóis frescos no quarto de visitas, observando as nuvens escuras de chuva no céu através dessa enorme janela. Eu ouço as ondas quebrando abaixo e vejo o oceano infinito em um flash estranho como faixas de raios em todo o céu turbulento. Vazio. Esta casa. Minha alma. A alma de Victor. É a única palavra adequada para o que eu sinto, do jeito que eu acredito que Victor se sente, apesar dele sentir, mais do que eu. Como alguém pode passar a vida tão clandestino, sem emoção, tão desapegado para alguém ou alguma coisa? Quando eu olho nos seus olhos eu vejo alguma coisa lá, embora adormecida e completamente indistinto, eu sei que ele está lá. E é poderoso. Quero entendê-lo, senti-lo, prová-lo em meus lábios. Quando o trovão começa a desvanecer-se enquanto se move ao longe, a chuva não é mais que um chuvisco suave. Eu não posso ouvi-la mais, mas eu ainda posso vêla escorrendo contra o vidro em regatos poéticos. O frio no ar levanta arrepios nas minhas pernas nuas até mesmo debaixo das cobertas, evocando visões de Victor deitado ao meu lado para me ajudar a manter-me quente. Eu decido levantar-me. Sinto-me tola e imprudente pelo que eu estou prestes a fazer, mas eu não importo-me. Se ele vai se livrar de mim amanhã, o que importa como isso aconteceu? Meus pés descalços movem-se silenciosamente através dos pisos de madeira e, em seguida, através do centro da casa. Coloco meus dedos relutantes na maçaneta da

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porta do lado de fora do quarto de Victor, faço uma pausa antes de empurrá-la para baixo suavemente. A porta clica e abre e eu ando para dentro. Eu o vejo em todo o espaço grande, deitado de costas, com a cabeça caída para um lado, de frente para mim. Seus olhos estão fechados, sua respiração estável. O lençol

cobre só a sua

barriga e coxas, deixando o resto de seu corpo nu exposto ao ar frio. Lembro-me de no início da noite, quando ele estava em cima de mim, pressionando-se em mim por trás e faz meu estômago e os quadris tremerem. Eu me aproximo, tentando ficar o mais quieta possível, mas ao mesmo tempo perguntando-me por que ficar quieta em tudo. Ele vai saber que eu estou aqui, eventualmente, e bem, é o tipo de ponto. Apressando-me para o lado de sua cama, eu o vejo por um momento, como seu peito tonificado sobe e desce a cada respiração tranquila. Como seus lábios estão fechados, delicadamente pressionados contra o outro, o que significa que ele está sonhando, se ele está sonhando, entretanto, deve ser pacífico, imperturbável pela violência que ofusca sua vida. Assim como eu, os pesadelos de suas experiências há muito que desapareceu, deixando apenas um sentido mórbido de normalidade para que os pesadelos não tentem visitar. Eu tiro minha camisa e solto no chão. Pressiono minhas mãos e joelhos contra a cama, eu me arrasto para ele, montando sua cintura. Em apenas um segundo, a parte de trás do meu cabelo é arrancado por sua mão e sua arma é enfiada debaixo do meu queixo, forçando o pescoço para trás, tanto que temo que se eu mover-me ele vá atirar. Eu não digo uma palavra, mas não tenho medo. Eu não sei ao certo se ele iria me matar ou não, mas não tenho medo dele de qualquer maneira. Ele enrola os dedos com mais força contra o meu couro cabeludo e sinto o cano frio da arma de fuga descer para o centro do meu pescoço. Mas, mais do que isso eu sinto sua dureza entre as minhas pernas e o conhecimento da arma estar em qualquer lugar em mim, fica em segundo plano. "Se você vai me deixar." Eu sussurro incapaz de ver os olhos dele. "Então me deixe dar uma última coisa para você."

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Ele puxa minha cabeça para trás ainda mais longe. A arma está pressionando no meu estômago agora. "Eu nunca estive com um homem com quem eu queria estar." Eu digo. "Eu quero ficar com você. Apenas uma vez. Eu quero saber qual é a sensação de ser a única no controle." Ele está em conflito, eu sinto isso na emissão de calor de sua pele, em seus tensos movimentos incertos. Em um exemplo, a arma se aprofunda no meu intestino e eu sinto que meu cabelo está prestes a ser arrancado por sua mão. Mas então ele cede, afrouxando o aperto um pouco, permitindo algum alívio para meu pescoço. Eu posso ver seus olhos agora, olhando para mim tão mortal e tão sedutor, embora eu saiba que ele não está fazendo isso de propósito. "Você não pode estar aqui." Diz ele, também num sussurro. Eu sinto seus olhos em mim, que paira sobre o meu corpo, meus seios nus, para baixo, para onde minhas coxas nuas são travadas frouxamente em torno de seus quadris. "Eu não me importo, Victor." Seu olhar se volta para o meu rosto, onde ele estuda a curvatura dos meus lábios. Então eu testemunho algo, um flash sobre seus olhos, algo assustador que eu nunca vi antes nele e eu fico tensa ao seu alcance. Ele me estuda calmamente como se eu fosse algo a ser destruído e em seguida, em última instância... Morta. Apesar de o meu medo crescer, eu ainda quero estar bem onde estou, presa nos braços impiedosos de um assassino. Sem me soltar ele levanta as costas da cama, o braço do qual sua mão está apertada dolorosamente dentro do meu cabelo é pressionado contra o meu ombro. Eu sento montada em seu colo, tanto que minhas coxas nuas tocam seus lados aquecem a minha pele da mesma maneira que eu imaginei. Eu posso dizer que ele está completamente nu por baixo do lençol fino que nos separa. "Se você quer me matar, então faça isso."

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Seus lábios se movem mais perto dos meus. "Mas se você fizer isso." Digo sem fôlego. "Deixe-me estar com você primeiro, por favor..." Meus olhos se fecham por vontade própria. Eu espero por tudo o que vai acontecer: morte ou sexo. Saúdo a ambos, meu corpo firme contra o seu, o meu coração bate tão rápido que eu sinto isso na minha cabeça e em minhas mãos. Quando eu sinto seus lábios contra os meus próprios, estremeço. Mas quando sinto o metal frio contra a minha têmpora, meus olhos abrem lentamente e olho para ele novamente. "Isso não pode acontecer, Sarai." Diz ele. Eu abaixo meus lábios nos dele. "Sim, pode." Eu sussurro para ele antes de cobri-los com a minha boca. Minhas coxas apertam sua cintura e sinto-me pressionando contra sua ereção, tremores se movendo através de minha pélvis e para baixo em meus joelhos. Eu me levanto e puxo o lençol entre nós, estabelecendo-me de volta para baixo em seu colo nu, sentindo imediatamente a diferença gritante do lençol retirado. Eu me movo contra seu pau, sentindo sua dureza através do tecido da minha calcinha o que me faz tremer. Mas posso dizer que ele não quer isso. Ele não me afasta, mas ele está em conflito. "Por favor, deixe-me fazer isso com você." Eu digo, olhando para baixo em seus belos olhos. Ele procura o meu rosto, seus dedos tocando suavemente meu rosto, um olhar de incerteza em suas feições, como se essa troca entre nós fosse algo totalmente novo para ele. Eu posso dizer que ele provavelmente nunca esteve com uma mulher que ele não pudesse devastar, estragar e domesticar. E quando eu acho que eu o prefiro assim, agora mesmo, neste momento, eu quero ser aquela que toma todas as decisões. Tenho certeza do porquê, mas isso não importa. Eu sinto seu corpo ceder ainda mais.

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Eu pressionar as palmas das minhas mãos contra o seu peito duro como pedra e empurro suavemente contra a cama, na esperança de que ele vai me deixar. Ele faz. Ele se deita, deixando as mãos descansar no topo das minhas coxas. Nós olhamos um para o outro e as palavras não são ditas. Elas não são necessárias. Enfio o dedo no elástico da minha calcinha, eu retiro uma perna de cada vez, eu nunca movo meus olhos dos dele. Sentindo-o entre as minhas pernas, pele na pele, é esmagador. Eu estava à frente, querendo tudo dele, o calor do seu peito contra o meu, o calor de sua respiração no meu pescoço. Tudo. Eu o beijo duro e profundo, a língua enrolando com a minha em uma dança de posição dominante, seus dedos pressionando na parte de trás da minha cabeça até que ele passa uma mão ao longo do meu corpo e do meu quadril. Ele aperta, empurrando seus quadris para mim. Ele quer tanto o controle, mas eu o lembro que é meu, empurrando meus quadris contra ele e o mantendo lá. Quando ele devolve o controle, eu o beijo levemente sobre os lábios e, em seguida, nos dois lados de seu queixo. Ele observa meu rosto, vislumbrando os meus lábios, querendo saboreá-los. E então eu começo a chorar. Eu sempre choro quando estou com raiva. Eu estou me tornando outra pessoa, a menina perdida de quatorze anos de idade, forçada a viver uma vida de escravidão, de dor e sonhos desfeitos. Flashes do rosto de Javier passam por minha mente de forma irregular. Eu sinto que estou em um carrossel e ele está girando tão rápido, todos os rostos de Javier indo e vindo antes que eu possa chegar e pegar um. Eu não posso pôr minhas mãos em apenas um para que eu possa vencê-lo à morte. E eu apenas choro mais, gritando para a noite e antes que eu perceba o que estou fazendo, Victor tornou-se o rosto de Javier que eu não conseguia pegar de outra forma. Eu balanço meus punhos para ele, batendo-lhe uma e outra vez no peito e nos braços, e ele não me impede. Porque eu sei que ele pode entender por que eu preciso neste momento tão desesperadamente.

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Gritando na noite, eu coloco tudo para fora. Um barril de lรกgrimas em meus olhos. Eu desmorono sobre ele e ele me engole em seus braรงos. Eu nรฃo posso respirar enquanto eu choro na curva do pescoรงo dele.

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CAPÍTULO VINTE E OITO

Victor

Bonita, mas derrotada e danificada. Danificada para o resto de sua vida e nenhuma quantidade de mutilação emocional nunca vai dar-lhe totalmente de volta a sua inocência. A menina é uma bomba-relógio do tempo, um perigo para si mesma e muito possivelmente a outros. Eu não tinha certeza antes, mas agora eu sei que ela é mais instável do que eu jamais poderia ter imaginado. E porque ela é tão hábil em esconder isso, não só de mim, mas também de si mesma, ela é mais perigosa do que eu. Eu sou disciplina. Sarai é raiva. Estou consciente das minhas escolhas em todos os momentos. As escolhas de Sarai são mais do inconsciente dela, à espreita de decidir por ela com base na gravidade do seu estado de espírito sem a intenção de deixá-la qualquer controle consciente sobre isso. Eu sei o que tenho que fazer. Eu embalo a parte de trás de sua cabeça na palma da minha mão, a minha arma descansando ao meu outro lado na cama. Eu sinto a imersão de lágrimas no meu ombro, seu corpo destroçado por soluços que se aglutinam em meus músculos. E seu doce local ainda pressiona contra meu pau cada vez que seu corpo tenciona. Mas eu a deixo lá, apesar da necessidade moral de me afastar. "Sarai." Eu sussurro contra a lateral de sua cabeça. "Eu sinto muito." Eu levanto a arma lentamente atrás dela. Ela inclina a cabeça e coloca a bochecha contra meu peito e faço uma pausa, esperando, embora eu não saiba por quê. Seus soluços começar a acalmar, sua mão esquerda permanece perto do queixo, onde os dedos descansam levemente contra minha clavícula.

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"Eu tenho uma tia na França." Diz ela em voz baixa, distante. "Irmã mais velha da minha mãe. Eu sei que a França é um longo caminho, mas você não tem que me levar lá, só me ajudar a entrar no avião." Eu levanto a arma um pouco mais, fixando o cano na parte de trás de sua cabeça, mas não a tocando. Eu não quero que ela fique com medo antes de morrer e apesar de eu saber que ela não teme nada, a morte é algo que todos nós tememos em nosso momento final, mesmo que apenas a menor parte de nós esteja consciente disso. Eu não quero que ela tema e ela não pode temer se ela não sabe o que está acontecendo. "Quantos anos você tinha quando se tornou o que você é?" Ela pergunta. Pego de surpresa com a pergunta e talvez mais, pela mudança do clima, hesito antes de responder. "Eu tinha nove anos." Ela funga e enxuga os olhos com a mão perto de seu rosto. "Você era muito jovem." Ela continua. "Eu acho que de uma maneira como eu, você nunca teve a chance de viver uma vida de sua escolha. Eu acho que talvez nós não sejamos assim tão diferentes um do outro." Ela faz uma pausa. "Só que eu poderia ser mais parecida com seu irmão do que gostaria de admitir. Ele é tão irritado quanto eu." Eu libero o meu dedo do gatilho e, lentamente, de modo que ela não saiba, movo o tambor para longe da parte de trás de sua cabeça. "Deve ter sido difícil crescer com Niklas." Diz ela. Eu deixo a arma de volta na cama ao meu lado e antes que saiba o que estou fazendo, estou segurando a parte de trás de sua cabeça na minha mão novamente. "Sim." Eu respondo. "Considerando as circunstâncias não convencionais." "Em vez de quem é o melhor jogador de beisebol, era quem é o melhor assassino."

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"Não." Eu digo. "Niklas nunca tentou ser melhor do que eu, ele só queria ser igual a mim. Nós nunca competimos com o outro, mas ele está competindo com todos os outros que já esteve perto de mim durante o tempo que ele está vivo." "Perto de você?" Ela pede. Concordo com a cabeça e levemente penteio meus dedos pelo cabelo. "Vonnegut, Samantha, minha mãe, nosso pai." Eu digo distante enquanto eu imagino esses eventos, olhando para o teto de escala. "E agora você." Eu ouço seu suspiro, mas ela não levanta a cabeça. "Você vê que você tem uma coisa que eu não tenho." Diz ela com cuidado, embora tenha a sensação de que ela está dizendo mais para si mesma. "Você tem alguém que te ama e que é leal a você e que vai matar por você." Ela levanta o corpo do meu e se levanta da cama. Então ela olha para mim. "Você é muito afortunado por têlo, Victor." Ela pega a calcinha da ponta da cama e a veste. Então ela pega sua camisa do chão e puxa sobre seu cabelo longo e desgrenhado e sobre os seios. "Sou grata." Diz ela olhando para trás "por tudo que você fez por mim. Eu acho que, no final, nada disso realmente importa, não salvar a minha vida, ou poupá-la. Mas eu sempre serei grata a você." Sarai sai do meu quarto, mas, em certo sentido, ela me levou com ela. Por um período de tempo desconhecido para mim, olho para o teto, imaginando o jeito que ela olhou antes de sair, como ela me usou para se vingar de Javier. No início, eu sei que ela não veio para o meu quarto para isso. Ela queria estar comigo. Ela queria sentir algo que nunca sentiu antes, mas a raiva e a vingança não faziam parte do seu plano. Autodestruição não era parte de seu plano, e apesar de usar esse momento para liberar um pouco do ódio dentro dela, a única coisa que eu sinto que esse momento fez foi fazê-la perceber o quão fodida ela realmente é. Um escuro e melódico som de piano desliza suavemente pela casa, tirando-me do meu transe. A peça para três vezes e começa tudo de novo enquanto ela tenta pegar as

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notas certas. Na quarta tentativa, os dedos se movem mais confiantes sobre as teclas, fluido, cuidadoso e perfeito. E em pouco tempo eu me encontro de pé ao lado da minha cama e piso em minha cueca. A peça continua tão elegante, bela e comovente que me tira do meu quarto e sou impotente para lutar contra ela. Eu tomo o corredor em um passo tranquilo, seguindo o som. A música fica mais alta, Sonata Moonlight em sua interpretação mais triste ainda, enchendo o vasto espaço vazio a minha volta. Eu fico em silêncio e ainda na porta de entrada que conduz a sala do piano. E eu a vejo como eu nunca vi antes. Ela é minha dona neste momento. Eu fecho meus olhos e deixo o curso da música através de mim; arrepios varrem sobre a minha pele como ondulações leves na superfície da água. Mas sou acordado desta atração muito rapidamente. A música para, Sarai torna-se confusa com as notas. Embora desapontado que tenha chego ao fim de forma tão abrupta, eu fico onde estou esperando que ela vá tocar de onde ela parou e terminar a peça até o fim. Sua forma suave parece vulnerável, frágil, no fraco luar que a envolve pela janela, como um halo de luz em torno de seu corpo, iluminando as pontas dos cabelos. Por favor, apenas toque, Sarai. Não pense sobre isso, apenas toque. Ela recomeça de onde parou, mas depois de algumas teclas, ela desiste. Frustrada com ela mesma, a parte superior do seu corpo arqueia para frente, com as mãos tocando suavemente sua testa. Sento-me ao seu lado no banco. "Eu vou te ensinar." Eu digo, arqueando meus dedos nas teclas. "Se é isso que você quer." Ela vira a cabeça para olhar para mim e quando ela faz, eu sei que ela está me perguntando se eu só estou me referindo à música. Ela acena com a cabeça lentamente. Eu começo do início e toco a peça por todo o caminho até o ponto onde ela parou. E então ela tenta novamente. E, novamente, até que através de minha orientação a

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vejo e ela está no controle das teclas do jeito que ela era antes, do jeito que ela me trouxe para esta sala. Sou eu, a cada segundo sombrio dele, assombra-me tanto que meus olhos se fecham com lágrimas na borda, mas só o meu coração consegue vertêlos. A peça termina no final desta vez, e o silêncio preenche o espaço em torno de nós dois. "Eu não quero dormir sozinha." Disse ela suavemente. E eu não vou forçá-la. Sarai cai dormindo enrolada ao meu lado na minha cama. Exatamente onde eu queria.

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CAPÍTULO VINTE E NOVE

Sarai

Quando eu acordo na manhã seguinte, o sol brilha pela janela enorme, mesmo com as cortinas estando fechadas. Eu estou sozinha na cama, mas eu sei que não estou sozinha em casa. Foram os sapatos de Victor batendo contra o chão para fora do quarto o que me acordou. Meu coração está exausto, mas minha mente e meu corpo se sentem revigorados. Não me lembro a última vez que eu dormi profundamente. Eu não acho que eu já tenha. Eu levanto o meu corpo do colchão, desembaraço-me do lençol. Eu não posso acreditar que fiz isso ontem à noite, mas eu fiz e acabou e posso enfrentar Victor e não ter vergonha ou me esconder dentro deste quarto para o resto da minha vida. Eu escolho ser realista. Quando saio da sala, pergunto-me por que não se levantou antes do amanhecer para sair como ele havia planejado. Ele está sentado na sala de estar sozinho quando entro, totalmente vestido com seu melhor terno com suas malas habituais sentadas no chão ao lado de seus pés, menos o saco com o dinheiro. Há um jornal nas mãos e uma caneca de café preto na mesa ao lado da cadeira. "Por que não saímos mais cedo?" Pergunto andando o resto do caminho para a sala. Ele abaixa o jornal e decide então dobrá-lo até a metade e colocá-lo sobre a mesa ao lado do café. "Eu pensei que você poderia estar com sono."

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Meu rosto corou interiormente, falhando em minha tentativa de não me envergonhar do meu discurso inflamado e sexual, mas realmente duvido que a resposta tenha nada a ver com isso. "Obrigada." Digo. Eu levanto os meus olhos para ele de novo. "Parece que você vai ter que me comprar outro par de sapatos." Indico, pressionando meus dedos dos pés descalços no frio chão duro, minhas mãos entrelaçadas deitadas no meu traseiro. Os sapatos que me comprara antes foram deixados em Samantha, quando tivemos que sair de lá com pressa. Eu não tive muita sorte com os sapatos ultimamente. "Ele já foi providenciado." Diz ele cruzando uma perna sobre a outra e endireitando seu colete. Eu olho ao redor da sala, olhando para os sacos de lojas de departamento ou talvez roupas de algumas mulheres que haviam sido deixados aqui por qualquer motivo. Uma mulher de meia-idade vestindo um short azul marinho com desbotado uniforme entra pela porta da frente carregando uma bolsa berrante em um braço e várias sacolas de grandes dimensões, por outro. Um conjunto de chaves soa estridentemente na mão dela depois que ela fecha a porta com o quadril. Ela consegue deixar as chaves em sua bolsa, torcendo o pulso sem jeito para alcançá-la. "Oh, você deve ser Izabel." Diz a mulher de olhos brilhantes. "Sou Ophelia. É bom conhecê-la." Eu aceno e apresento-me embora ela aparentemente já saiba o meu nome, bem, o nome que Victor me deu, de qualquer maneira. Ela deixa cair sua bolsa no meio do chão e caminha pelo grande espaço para a sala em minha direção, os sacos da loja ainda pendurados em seu braço e pelo que parece, começando a cortar a circulação. "Você estava certo sobre o tamanho." Diz ela olhando para Victor. Ela solta as sacolas no chão próximo ao sofá imaculado. "Eu tenho uma filha de seu tamanho." Diz

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ela, agora olhando para mim. "Por isso espero que eu tenha escolhido sabiamente. Meleena é um pouco maior, isso é certo." Ela faz um gesto com as mãos de forma dramática. Anéis adornam seus dedos. "É Claro, a culpa foi minha por apresentá-la a Versace e Valentino, mas ela é a garota mais invejada quando ela entra em qualquer sala, então eu suponho que a merda que eu e minha conta bancária damos valeu à pena. Aqui, deixe-me ver-te." Eu tento esconder o olhar estranho que eu sei que estou dando a ela quando ela escolhe e puxa um vestido bonito de uma sacola e o prende contra mim. Eu decidir olhar para outro lado, para Victor, esperando talvez que ele vai me dizer exatamente quem é essa mulher e o que ela está fazendo aqui. Seus olhos sorrir para mim. Eu faço um careta. Ele apenas sorri para mim? "Ele é perfeito." Diz Ophelia. Mas então ela deixa o vestido de lado e começa a puxar outros itens de vestuário da mesma sacola. A próxima sacola está cheia de caixas de presente, onde ela abre cada uma e desembrulha uma roupa envolta em papel de seda e tule extravagante que, provavelmente, custa mais do que deveria. Enquanto ela continua a falar sobre sua mimada, mas 'merecedora' filha ela passa por cada uma das roupas, mantendo-as contra mim, como se a imaginar como eu poderia parecer. Ou, talvez, imaginando como Meleena poderia parecer neles. Ela é muito estranha. "É claro que, depois que seu pai nos deixou, eu tinha que conseguir um emprego." Ophelia balança a cabeça e olha diretamente para mim como se ela ter um emprego fosse a coisa mais triste do mundo. "Então, para apoiar Meleena e seu senso de moda cara, eu entrei no negócio. Aqui, tente isso. É para um dia bonito, por isso você deve usar algo que combine com ele." "Que negócio exatamente?" Eu pergunto.

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Eu me viro para que minhas costas fiquem de frente para eles e então eu retiro minha camisa. Eu mal conseguia olhar para o vestido que Ophelia está segurando para mim, mais realmente curiosa sobre ela. Victor bebe seu café e finge estar lendo seu jornal. Ou, talvez ele não esteja fingindo. Eu não posso prever ele metade do tempo. "Economia Doméstica." Ela responde. Estou um pouco confusa e eu tenho certeza que ela pode dizer isso. "Você pode... dar ao luxo de comprar Versace e Valentino com um salário de empregada?" Eu pergunto, incrédula. "Sem ofensa." "Não levei." Diz ela, deslizando o vestido por cima da minha cabeça. "Mas, sim, eu posso. Eu só trabalho para aqueles que podem dar-se ao luxo de pagar-me. Celebridades, músicos, você sabe, as pessoas que têm mais dinheiro do que eles sabem o que fazer com ele. As pessoas ricas são rápidas em contratar alguém para fazer a mais insignificante das coisas apenas porque eles podem. Eu lucro com sua loucura." Ela olha para trás em Victor. "Sem ofensa." "Não levei." Ele diz e toma mais um gole de seu café. "Ah, eu vejo." Eu digo quando o tecido fresco, fino desce sobre a minha pele. Viro-me uma vez que eu estou vestida. "Sim, eu diria que este ficou absolutamente certo." Diz ela, apoiando as mãos nos quadris, olhando-me de cima a baixo. "Embora você deva usar um sutiã sem alças, pelo menos." Ophelia chega dentro de outra sacola, enquanto olhando por cima de Victor. "Parece que você estava certo sobre o tamanho do sutiã, também." Diz ela e sinto meu rosto corando novamente. Eu acho que ele teria uma boa ideia do meu tamanho, considerando...

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"As roupas eram as únicas peças que eu tive que parar e comprar no caminho para cá. Furtei o resto do quarto da minha filha. Há uma bolsa e algumas outras necessidades lá também." Ela coloca o sutiã na minha mão. "Eu aposto que em seu quarto há dinheiro suficiente nas coisas que ela nunca usou, para comprar um Bentley." Eu coloquei o sutiã sem alças, que ela deu-me depois de arrancar a etiqueta e ajudar-me a fechá-lo nas costas, desde que eu pareço ter tanta dificuldade para fazer isso sozinha. Em seguida, ela fecha o vestido de renda florida cor de rosa contra minhas costas e tento me admirar nele. É muito curto, parando a poucos centímetros acima dos joelhos. E coça ao redor do decote alto. Eu não estou acostumada a usar coisas como esta, pelo menos não em qualquer lugar, mas algumas horas em uma reunião social, onde tudo o que eu tinha a fazer era ficar lá em silêncio e ficar bonita. Com Victor, pareço fazer mais pela minha vida, do que ficar em torno em silêncio. Em seguida, vem os sapatos. "Eu... Eu não sei nada sobre saltos, eles não são uma boa ideia." Eu protesto gentilmente quando ela abre a primeira caixa. Não há nenhuma maneira que eu use aqueles. Sapatos lindos, sim, mas isso não acontecerá. Ophelia olha para Victor novamente. Ele acena para ela como se dizendo-lhe que está tudo bem. Ela fecha a parte superior da caixa desapontada e abre outra. "Não é exatamente o que eu teria escolhido para usar com este vestido em particular." Diz ela. "Mas eles combinam, pelo menos." Ela coloca as sandálias de tiras de cor creme no chão na minha frente e eu calçoas. O sutiã é desconfortável, qualquer sutiã provável seria, depois de não ter usado um por tanto tempo, cavando na pele debaixo dos meus braços. Eu tento lutar contra o desejo de ajustá-lo, mas perco essa batalha, depois de seis segundos. Eu sei que devo parecer pouco feminina agora, puxando o elástico apertado com os braços cruzados e meu rosto enrugado pelo desconforto. Quando acho que consegui consertar, relaxo meus braços para os meus lados e fico aqui sem jeito.

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"Você está bonita." Diz Victor da cadeira, o jornal descansando sobre suas pernas. Então você... "Obrigada." Digo e desvio o olhar. Eu nunca estive com tanto medo de fazer contato visual com ele antes. A humilhação é mais forte do que eu pensava. Quanto mais ele olha para mim mais paranoica eu fico sobre o que está acontecendo agora, dentro de sua mente. Eu não sei o que deu em mim na noite passada. Eu fui para o quarto dele com paixão e luxúria nos meus olhos, mas em algum ponto que eu não posso determinar, virei uma masoquista psicótica. Mas ele me deixou. E eu não sei como se sente sobre isso. Eu sei que ele não conseguiu nenhum prazer com isso e eu não esperava que ele fizesse, mas o único de nós que parece sentir se estranho sobre isso, sou eu. Victor se levanta da cadeira e deixa o jornal sobre a mesa. Ele enfia a mão no bolso direito e tira um maço de dinheiro. "Para as roupas de sua filha." Diz ele, colocando o dinheiro na mão de Ophelia. "E é o suficiente para pagar o seu tempo também." Ela deixa cair o maço em seu próprio bolso. "Então, eu acho que é isso." Diz Ofélia. "Se você decidir que quer voltar para essa região que você sabe como me encontrar. Minhas taxas permanecerão as mesmas para você." Victor concorda. "Eu vou fazer isso." Diz ele. Ophelia vira para mim com um grande sorriso de boca fechada. "Você mantenha-o na linha." diz ela. "E apenas tente os saltos. Você ficaria fabulosa." Eu sorrio de volta. "Eu vou pensar sobre isso."

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Ela me dá um tapinha no braço quando ela passa, levando a bolsa do chão em seu caminho para a porta da frente. Muito tempo depois de Ophelia sair, ainda estou olhando para a porta, não com ela em minha mente, mas não posso fazer-me olhar para Victor. Ele anda até a minha frente e encaixa meus cotovelos em suas mãos. Eu fico com meus braços cruzados vagamente sobre o meu estômago. "Sarai." Diz ele. Eu levanto os meus olhos para olhar para ele e antes que ele possa dizer fosse o que fosse que ele tinha planejado dizer, deixo escapar baixinho. "Eu sinto muito por... Victor, eu não sou louca ou... bem, sinto muito desculpe." "Não faça." Diz ele. Acabo olhando para ele. "Você

atua

muito

bem."

ele

continua.

"Você

pensou

em

atuar

profissionalmente?" Longos segundos antes de que eu possa gerenciar uma resposta. "Eu pensei que estava em um palco em algum lugar." Digo, e suas mãos caem dos meus cotovelos. "Mas realmente não tenho mais nenhum interesse em qualquer coisa assim. Eu só gosto de atuar para mim." Para evitar contato com os olhos mais uma vez, eu vou até o sofá e começo a organizar as roupas em uma pilha simples sobre a almofada. De costas para ele, digo: "Eu não tenho nenhuma ideia do que eu vou fazer quando chegar na casa da minha tia, mas vou descobrir alguma coisa. Um sistema de ensino e depois disso talvez vou entrar... " Eu não posso terminar, porque não sei o que dizer. Eu o evito, remexendo o tecido ansiosamente em minhas mãos agora. "Pelo menos eu vou ficar bem enquanto a vejo. Talvez ela vá me aceitar agora que estou vestindo roupas que não vêm da prateleira de promoção da loja de um dólar." "Você pode prometer uma coisa?" Victor pede. Eu me viro para olhar para ele. "Acho que te devo muito." Eu digo. "O quê?"

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"Só que você vai tocar para mim de vez em quando." "O que você quer dizer?" Ele inclina-se ao lado de uma estante e pega outra mala na mão. Em seguida, ele caminha em direção a mim e senta-se no sofá, abrindo as duas travas nas laterais. Quando ele abre, ela está vazia. Ele aponta brevemente a minha pilha de roupas. "Nosso avião sai em uma hora." Diz ele. "De agora em diante, até que eu diga o contrário, você é Izabel Seyfried e você está confiante em sua pele. Você é forte de espírito e de língua afiada, mas você me deixar fazer tudo o que falar, exceto quando você sente a necessidade de expor a sua opinião sobre qualquer assunto que você escolher, mesmo quando não é solicitado. Você não tem medo de nada, mas você exala um senso de vulnerabilidade que você sabe, em particular, é claro, vai dirigir a necessidade de um homem poderoso para saber que ele gostaria de ser o único a quebrar você. Você é rica, embora ninguém precise saber de onde seu dinheiro vem, só que você tem o suficiente para limpar a bunda com notas de cem dólares cada vez que você fizer uma merda. E o único homem em qualquer sala que pode domar você sou eu, o que nós vamos, certamente, ter que demonstrar, pelo menos uma vez durante esta missão. Portanto, tenha em mente que tudo o que eu posso fazer para você, ficara junto em conformidade. E tudo o que lhe disse para fazer, faça-o sem dúvidar, pois poderia ser a diferença entre a vida e a morte. Você entendeu?" Eu fico olhando para ele fixamente. "Você vai me levar com você?" Há cerca de cinquenta perguntas que rodam dentro da minha cabeça, mas essa é a única que eu poderia arrancar a partir da desordem. Ele dá um passo para mim. "Sim." Ele responde. "Eu vou te levar comigo em uma missão, porque quero que você veja o que é. Você precisa entender que a vida que levo não é vida para você." Ele toma minhas mãos nas suas e senta-se comigo no sofá, empurrando a mala de lado.

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"Felizmente, isso vai ajudá-la a ser mais aceita em uma vida lá fora, em vez disso, uma faculdade e um trabalho e amigos e namorados." Ele coloca os dedos ao redor das minhas mãos com mais firmeza e começo a olhar além dele, pensando no que ele disse, sobre suas razões para fazer isso. Momentaneamente, pergunto-me qual de nós ele está tentando convencer. "Sarai, me escute com cuidado." Diz ele. "Se você optar por ir comigo, você precisa saber que você poderá ser morta. Eu farei tudo em meu poder para mantê-la segura, mas não há uma garantia, porque não importa o quanto você confia em mim, você não deve nunca, em hipótese alguma confie em ninguém completamente. No final, você só pode confiar em si mesma. Eu não sou seu herói. Eu não sou a outra metade de sua alma que nunca poderia deixar nada de ruim acontecer com você. Confie sempre em seus instintos primeiro, e em mim, se você escolher, por último." Eu aceno apreensiva. "Então o que vai ser?" Ele pergunta. "França ou Los Angeles?" Eu realmente não tenho que pensar sobre isso, porque sei o que quero, mas eu finjo pensar sobre isso para me fazer parecer menos irracional. "Los Angeles." Digo deixando escapar um suspiro. Victor olha nos meus olhos por um momento, um olhar de contemplação e até um pouco de hesitação se instala em sua expressão. Ele se levanta e ajeita o terno. "Então arrume suas coisas." Diz ele enquanto ele se afasta. "Partimos em dez minutos."

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CAPÍTULO TRINTA Victor

Eu esperava que ela fosse escolher a França, mas sabia que ela iria escolher ir comigo. Eu ainda poderia muito bem levá-la para a França e deixá-la com tudo o que ela precisa e minha consciência estaria tranquila. Mas tenho ignorado o significado racional por causa de Sarai há muito tempo. Ela pode muito bem morrer em Los Angeles, mas dei-lhe uma escolha. Nem todas, ela desconhece algumas das potenciais consequências de sua decisão. Eu não disse exatamente tudo a ela, mas há um método para a minha loucura. Não posso permitir-lhe tempo para contemplar o que ela pode fazer, porque neste negócio, às vezes, uma decisão de vida ou morte vem quando você menos esperar. E esse é o tipo de cenário que ela precisa experimentar. Talvez uma parte de mim espera que ela não faça parte da missão, porque então eu serei livre das minhas... Deficiências, quando se trata dela. Mas a outra parte de mim, a parte que eu ainda estou lutando desde quando a trouxe comigo, tanto quanto eu posso... Isso é uma questão completamente diferente. Se ela viver, então eu vou achar que é necessário confrontá-la. Se ela morrer... Se ela morrer, então eu vou voltar à minha vida normal e nunca me encontrar em uma situação como essa novamente. "Seu nome é Arthur Hamburgo." Digo, colocando um envelope no colo de Sarai ao meu lado no jato particular. "Ele é dono de Hamburg & Sthilz, a agência imobiliária de maior sucesso na costa oeste. Mas o seu negócio mais lucrativo é mais clandestino." Atraída pelo meu silêncio, ela olha para cima além da foto que ela removeu do envelope. "Qual é o seu outro negócio?" Ela pergunta, como eu sabia que ela iria.

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"Não importa." Digo. "A informação que eu escolher para lhe dar é tudo o que você precisa." Ela ergue a cabeça para um lado. "Mas você sabe mais." Ela acusa. "Sim, eu sei." Admito. "Mas, como seu empregador, você nunca faz perguntas sobre a natureza pessoal de qualquer alvo, a menos que você esteja incerta sobre como você está indo para eliminá-lo. O que ele faz para ganhar a vida, quem é sua esposa, seus filhos, se ele tem algum, seus crimes, se ele tem qualquer um desses, não importa. Quanto menos você souber sobre sua vida pessoal, menor o risco de você se envolver emocionalmente. Eu lhe dou uma foto, digo o seu paradeiro frequente e hábitos, designo uma maneira em que eu prefiro o fato a ser realizado: confuso e em público para enviar uma mensagem, ou discreta e acidental para evitar uma investigação, e depois você se encarrega do resto." Ela pensa sobre isso por um momento, a foto de Arthur Hamburgo apertada em seus dedos. "Espere." Diz ela. "Então você está dizendo que você não só matar pessoas ruins. Você também mata pessoas inocentes?" Um pequeno sorriso, impróprio de mim eu admito, levanta nos cantos da minha boca. "Ninguém é inocente, Sarai." Repito algo que ela disse para mim uma vez. "As crianças, sim, mas todos os outros, eles são tão inocentes como você ou eu. Pense nisso desta maneira, se isso te faz sentir melhor: para ter um alvo colocado em você, você deve ter feito alguma coisa, ou ser envolvido em algo ilegal, ou 'ruim' como você o chamar." "Eu pensei que você disse que eu era inocente." Ela me lembra. "E é por isso que você não me matou." "Você era." Eu digo. "E não estava obrigado a matá-la por meu empregador. A oferta de Javier foi considerada um acerto particular, não passava por meu empregador primeiro. Acertos particulares são os que matam pessoas inocentes. As esposas querem ver seus maridos mortos acidentalmente para que elas possam receber sua herança. Os amantes desprezados pagam festas privadas para matar suas

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namoradas por ciúme e vingança. Eu não faço trabalhos como esses e meu patrão nunca me deu um. Minha Ordem trata apenas de crime, de corrupção do governo e uma série de outras coisas ruins que as pessoas ruins fazem. E, às vezes, eliminar as pessoas que possam ser considerados inocentes, mas que são uma ameaça para um grande número de pessoas inocentes, ou uma ideia." Suas sobrancelhas vincam suavemente quando ela olha para mim enquanto pensa. "Você poderia ter matado Robert Oppenheimer, se você soubesse que ele ia chefiar a invenção da bomba atômica? Ou eliminar um cientista antes de completar sua missão ao longo da vida para criar um vírus mortal em seu laboratório, que se destina apenas a ser usado contra um país inimigo em tempos de guerra?" "Sim, eu acho que eu faria." Diz ela. "Ainda que algo assim fosse uma espécie de brincar de Deus com a vida das pessoas. Você está condenando alguém de um crime antes que ele aconteça." Eu não respondo a isso, porque isso é exatamente o que é. "Então, se tudo o que eles merecem é morrer." Ela continua. "O que importa o que eu sei sobre suas vidas pessoais? Que importa o que eu sei sobre esse Arthur Hamburgo?" Ela olha para a foto. "Porque para alguns, os meios não justificam o fim." "Você quer dizer que eu possa sentir-me mal por alguém, porque seus crimes, não constituir uma sentença de morte?" "Exatamente." Eu digo. "E não é para você fazer essa ligação." "E o que te faz pensar que eu seria mole?" Ela pergunta, com os olhos cheios de vontade e curiosidade. "Eu não." Eu digo. "Não, com certeza. Mas para alguém que não cresceu com isto, que não matou pessoas desde que ela tinha treze anos de idade, seria uma coisa muito difícil de se acostumar." Sarai olha para a foto mais uma vez e depois de volta para mim.

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"Você tem feito isso por muito tempo." Ela diz com simpatia. "Eu não posso imaginar-" "Eu suportei vários anos de treinamento enquanto menino antes de eu ser enviado em uma missão com o meu mentor. Nessa idade, é fácil de ser moldado em qualquer coisa que eles queiram. Meu primeiro assassinato foi limpo. E eu dormi profundamente naquela noite." Ela olha para o lado, olhando para o nada, perdida em pensamentos. Só quando eu acho que ela pode começar a adivinhar toda essa missão, ela me surpreende. "OK, então o que é que eu vou fazer?" Eu tirar a foto das mãos. "Este serviço foi designado como limpo." Começo. "Mas Arthur Hamburgo raramente está sozinho em sua propriedade. Ele faz festas elaboradas 3 ou 4 noites por semana, apenas para as pessoas mais ricas e sempre apenas por convite. A segurança em sua propriedade é top de linha. Hamburgo escolhe a dedo cada um deles. Guardas de segurança que não são inábeis contratado de improviso. Não vai ser como é nos filmes em que entro na propriedade invisível e tiro todos os seus homens antes de lhe matar. Não é assim que funciona neste caso." Seu rosto está cansado e ansioso ao longo dos últimos segundos. "Então, como você chega?" "Entraremos pelo convite." Digo. "Hamburgo tem uma fraqueza, como todos os homens, e você e eu estamos indo para usá-la a nosso favor." Agora, ela parece um pouco nervosa. "Qual é a sua fraqueza?" "O sexo, claro." Digo como se ela já deveria saber a resposta. E eu sei que ela sabe. Ela recua um pouco debaixo daquela pele macia.

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"Será que isso vai onde eu penso que é?" "Provavelmente não." Disse. "Mas vai continuar a ser desagradável.” Sarai Meu estômago se amarra em um nó. Victor coloca a foto do velho longe dentro do envelope. E não consigo tirar essas imagens repugnantes da minha cabeça dele deitado nu em cima de mim, os vincos e dobras de seu problema de peso óbvio me sufocando como demais geleia em um PB & J4. Eu tremo. Certamente Victor não iria esperar que eu dormisse com esse homem, mesmo por causa de uma missão. Não sou uma prostituta de qualquer forma e serei amaldiçoada se eu me tornar uma. Nem por isso. Talvez eu tenha dormido com Javier todas as noites por anos, mesmo que eu não queria, mas isso era diferente. Essa era a minha maneira de sobreviver. E Javier, atrevo-me a dizê-lo, era atraente, apesar de suas falhas imperdoáveis. Isso era definitivamente diferente ... Não posso olhar para Victor agora, não porque estou brava com ele por isso, mesmo que sinta que eu deveria estar, mas porquê... porra, ainda estou pensando nisso. Tem que haver algo mais do que isso, algo que separa o que fazer a partir das coisas que ele espera que eu faça. Isso não vai deixá-lo ir tão longe, decido acreditar. Sim, é isso. Tem que ser. Um pouco de turbulência sacode o avião e me puxa para fora dos meus pensamentos. Estou segurando os braços quando viro para ver Victor. "Então qual é o plano? É óbvio que você trouxe-me por ser garota, e, encaixo perfeitamente nisso." Ele acena com a cabeça. "Sim, ser mulher tem suas vantagens em casos como estes. Lembre-se das coisas que eu lhe disse antes: você é minha submissa, mas às vezes sua língua te deixa em apuros. Você é uma vadia rica e mais do que tudo, você não tem medo de nada."

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É uma abreviatura comum para peanut butter and jelly sandwich. (sanduiche de manteiga de amendoim e geleia)

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Eu ri ironicamente. "Bem, de acordo com você, eu já tenho resolvida a questão de não sentir medo." "Sim." Diz ele mantendo sua expressão séria. "Mas talvez você sinta diferente quando você estiver lá e a ameaça estiver em torno de você. Você precisa ter certeza de que nada vai quebrar o controle que você tem sobre o seu medo. Hamburg será desligado de você no momento em que ele sentir isso. O medo para ele, é fraqueza, e, ele gosta de mulheres jovens imprudentes fortes. E os homens ainda mais fortes." Sinto meu rosto distorcer com nojo e leve choque, mas não pergunto o óbvio. Apenas tento deixar tudo na afundar, o que exatamente vamos fazer e como estamos fazendo. Porque tudo o que teorizei antes acaba de ser lançado para fora, pela janela. Victor disse que o que eu assumi que iria acontecer, provavelmente, não era certo, mas só estou um pouco aliviada pela verdade nisso. E 'um pouco' vai continuar ser a medida porque ele também disse que ainda seria desagradável.

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CAPÍTULO TRINTA E UM Chegamos a Los Angeles logo depois das seis da tarde. Fizemos o check-in no hotel mais extravagante que a cidade tinha para nos oferecer e Victor está no clima antes mesmo de irmos para o nosso quarto, no último andar com vista para a paisagem urbana. Ele exigiu, com o queixo erguido e seu comportamento dominante, que ficássemos na melhor suíte e não iria aceitar nada menos. E a recepcionista, enfeitiçada por seus olhos escuros e cintilantes, cancelou a reserva de um hóspede que já tinha feito a reserva para esta noite e deu a Victor as chaves da suíte. Ele é tão bom em fingir ser outra pessoa, que quase me leva a acreditar que é um bastardo rico que não se importa com as pessoas abaixo dele, ultrapassando sobre qualquer um. Mas ele faz isso com tanta graça e compostura que a sua atitude arrogante de rico não induz antipatia por ele, mas exige respeito instantaneamente. Eu estou seriamente começando a duvidar da minha capacidade de atuar em relação à ele. Apesar de ter feito isso há nove anos com Javier. Minha vida inteira foi um teatro e gosto de pensar que tenho experiência suficiente, mas Victor me intimida. Endireito as costas e caminho ao lado dele no meu vestido Valentino e sandálias rasteiras com a minha cabeça erguida. Eu sou forte, poderosa, rica e não posso ser tocada. Pelo menos é isso que espero que eu esteja passando. "Vai começar hoje à noite." Diz Victor ajustando suas malas no final da cama e, em seguida, ele pendura a roupa fina protegida por uma embalagem preta com um zíper na frente em um gancho na parede. "Se tudo correr como planejado, isso vai acabar amanhã à noite. Você vai precisar usar maquiagem e arrumar o cabelo. Lembre-se: tem que olhar e parecer como eles. Ah, e coloque saltos altos." Abrindo as travas do case de armas, ele retira uma de suas pistolas e começa a colocar o silenciador na extremidade do cano. "Qual é o plano então?" Pergunto, ignorando a minha necessidade de reclamar sobre os sapatos que ele quer eu use, já que espero conseguir andar com eles. "Esta noite nós vamos para o restaurante." Ele fala, ainda inspecionando a arma. "Antes de irmos até a mansão, vamos precisar de um convite e o restaurante é o lugar onde vamos conseguir um. Vou fazer a minha parte e você age como Izabel, não

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como Sarai. Lembre-se de continuar desse jeito sempre que estiver em público, mesmo quando você achar que ninguém está olhando." Ele olha para mim e volta a inspecionar a arma. "Hamburg está neste restaurante toda sexta à noite como um relógio. Mas nós nunca vamos vê-lo. Ele se esconde em uma sala privada com outros dois homens: seu assistente e o gerente do restaurante. Mas Hamburg está sempre atento ao que se passa no restaurante. E ele está sempre avaliando os convidados. Nós não podemos vêlo, mas é a certeza de que ele vai nos ver." "Avaliando-os?" Victor coloca a arma em cima da cama e fecha a case. "Sim." Diz ele. "Ele vai estar à procura de um casal. Precisamos fazer uma boa impressão." Isso está me preocupando a cada segundo. "Bem, eu tenho certeza que haverá muitos casais no restaurante em L.A." Eu quis soar sarcástica, mas ele não ligou muito. "É claro que haverá." Diz ele. "Mas ao contrário de todo o resto do restaurante, eu sei exatamente o que ele está procurando." Ele aponta para a minha bolsa. "Agora, prepare-se. Saímos em meia hora." Eu retiro o kit de maquiagem que Ophelia incluiu junto com todas as roupas que ela me deu e os levo até o banheiro. Estou meio animada para usá-lo. Nunca tive esse luxo com Javier, exceto quando ele me levava para as festas. E sempre gastei meu tempo para me arrumar, porque queria ficar perfeita. Eu queria saborear meu único momento a sós, onde senti-me como uma adolescente comum, de pé em frente ao espelho, arrumando-me antes que começasse outro dia na escola. Eu sempre fingia que era o motivo de estar me preparando. Isso foi até Izel entrar na sala sem ser convidada e me arrastar pelo braço, porque eu estava demorando demais. Mas desta vez, não finjo que estou em algum lugar que gostaria de estar. Estou focada e determinada e, naturalmente nervosa. Aplico a minha maquiagem em tempo recorde e escovo meu cabelo até que ele esteja bonito como seda, suavemente deitado nas minhas costas e então passo mais tempo do que quero ao tentar puxá-lo para cima. Depois de lutar durante 15 minutos, eu finalmente consegui fazê-lo parecer como o cabelo de uma 'cadela rica’ preso na parte de trás da minha cabeça com bastantes grampos pratas.

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Victor está vestido no seu habitual quando saio do banheiro, mas de alguma forma ele consegue ser ainda mais sexy. Eu calmamente fico boquiaberta quando o vejo ali em seu terno Armani, sapatos pretos polidos e tão alto. Olho para o meu vestido e, embora custasse alguns milhares de dólares, sinto como se não tivesse comparação ao dele. Talvez sejam as sandálias, talvez se eu colocasse saltos altos iria me sentir mais como seu igual. "Sem confiança." Diz ele e olho para cima. "Você fede a isso agora. Você precisa reverter isso, antes de sair da sala." Ele anda até mim. Tem o cheiro levemente da colônia e inspiro profundamente o seu cheiro. "Você sabe que é a garota mais bonita e mais importante na sala." Diz ele e por um momento perco-me com essas palavras, não querendo aceitá-las como mera instrução. "Você está sempre competindo com as outras mulheres, provando a todos ao seu redor que nunca pode ser igualada a ninguém e ninguém nunca deveria tentar, porque você vai deixá-los no chão apenas com uma virada da sua mão. Você não ri, você apenas dá um leve sorriso malicioso. Você não diz obrigada, apenas assume que os outros estão agradecidos pela oportunidade de atendê-la. E você nunca levanta a sua voz, porque não precisa, pois todos os seus desejos devem ser atendidos. E lembrese que você sempre cede para mim. Não importa o quê." Eu fico olhando fixamente para ele. "Sou uma verdadeira obra de arte." Eu digo. "Sinto isso quase pulsando em mim." Victor sorri o que envia um arrepio nas minhas costas. Ele levanta um dedo. "Só mais uma coisa." Ele diz e pega sua mochila. Ele tira uma pequena caixa de joias de marfim e entrega para mim. Abro o fecho e olho para dentro. Existem vários anéis deslumbrantes nas dobras de veludo de um lado, dois colares, um de ouro, outro de prata, com pingentes, pulseiras e brincos combinando. "Onde você conseguiu tudo isso?" Ele esconde sua arma dentro de sua camisa, abrindo os três primeiros botões para revelar uma tira preta ao lado do seu peito que só posso supor estar ligado a um coldre de arma. "Você não vai querer saber."

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Deixo por isso mesmo e coloco quatro anéis, dois de cada lado, e, em seguida, uma pulseira combinando com o colar e os brincos. Então pego minha pequena bolsa de mão branca e Victor dá seu braço antes de sairmos pela porta. LA é como é nos filmes: uma vasta infraestrutura crescendo com luzes, edifícios altos, carros caros, estradas brancas com palmeiras e casas de vários milhões de dólares. Dirigimos um conversível preto Roadster da Mercedes-Benz, porém com a parte superior abaixada, através da grande cidade. Ele estava estacionado na frente do hotel esperando por nós quando chegamos lá fora. Acho que fazer o que ele faz tem suas vantagens. Não é tudo sobre matar pessoas por dinheiro, mas ter tudo o que precisa à sua disposição, já que vai garantir a ele de realizar todos os trabalhos que recebeu. Chegamos ao restaurante, sem dúvida na parte mais rica da cidade, bem depois de escurecer. Um manobrista abre a porta para mim. Começo a sorrir e dizer-lhe obrigado uma vez que saio, mas me pego rapidamente e engulo o meu erro antes que alguém perceba. Em vez disso, eu levanto o meu queixo e nem sequer olho a cara do rapaz, e muito menos dou um sorriso ou um obrigado. Victor vem para o meu lado do carro e laço meu braço através do seu novamente quando ele caminha para o lugar. O restaurante tem dois andares, com uma varanda no andar de cima com vista para o piso inferior. A conversa em torno de mim soa como um zumbido constante, mas não está tão lotado que cada mesa está cheia. Além das vozes, está calmo aqui dentro, com paredes com pouca iluminação e semiescuro para criar uma atmosfera tranquila. Victor me puxa para o lado dele suavemente quando seguimos o garçom a uma cabine em forma circular com bancos de couro preto brilhante perto da parte de trás. Sento-me primeiro e, em seguida, Victor desliza ao meu lado. O garçom nos apresenta dois menus encadernados em couro, mas antes que ele possa colocar o meu totalmente em cima da mesa na minha frente, eu aceno com minha mão em direção a ele, agitando-a com um olhar de tédio. "Eu não vou comer." Digo como se me alimentar fosse algo que pudesse estragar o meu caminho para a iluminação. "Mas quero vinho." O garçom olha para o menu na mão e, em seguida, de volta para mim brevemente, parecendo confuso.

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Victor me dá um olhar que não consigo decifrar, mas sei que não é algo bom. Ele abre seu menu e após estudá-lo por um momento, as mãos de volta para o garçom e diz: "La Serena Brunello di Montalcino." O garçom acena com a cabeça, leva o menu, que aparentemente é a carta de vinhos e eu estou prestes a morrer de vergonha, e ele vai embora. "Desculpe." Sussurro. Os olhos de Victor me dão uma advertência. Leva-me um segundo, mas eu entendo o que estou fazendo de errado e limpo aquele olhar envergonhado do meu rosto rápido, endireitando as costas contra o banco e cruzando as pernas por baixo da mesa. Pus a minha bolsa à minha direita na mesa. Estar atuando em uma personagem é a coisa mais difícil que eu pensava, mas agora que já errei duas vezes em poucos minutos, estou mais determinada do que nunca para fazer tudo corretamente. Em questão de segundos, eu me torno completamente a Izabel Seyfried. Alcanço minha bolsa, retiro um espelho compacto e um batom cor de rosa e começo a aplicá-lo na mesa. Eu me certifico de olhar para mim muitas vezes, virando a cabeça sutilmente em ângulos diferentes e franzindo levemente meus lábios. "Guarde o batom." Diz Victor como o rico idiota e não o homem que sei que é. Olho suavemente para ele e faço o que ele diz, mas tomo meu tempo com isso. O garçom volta para nossa mesa com uma garrafa de vinho e, com ambas as mãos, mostra-o para Victor. Victor inspeciona visualmente e depois acena para o garçom que, em seguida, puxa a rolha e coloca-a em cima da mesa a frente de Victor. Ele inspeciona novamente, e, enquanto eu estou em silêncio me perguntando por que tanto esforço está sendo colocado nesses dois, não digo nada e finjo que não me importo. O garçom derrama uma pequena quantidade na taça de Victor primeiro e depois dá um passo para trás. Victor gira o vinho no copo por um momento, traz para o nariz e cheira-o antes de tomar um gole. Depois que Victor aprova, o garçom enche meu copo e o de Victor. Eu não olho o garçom nos olhos, porque assim como o manobrista, ele não é digno de minha preciosa atenção. Victor declina a comida para nós dois e o garçom deixa nossa mesa. "Eu nunca gosto desta cidade quando venho aqui." Diz ele tomando um gole de vinho.

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Eu encaixo meus dedos delicadamente em torno da haste da taça e faço o mesmo que ele, depois a coloco cuidadosamente de volta na mesa. "Bem, eu, pessoalmente, preferiria Nova York ou a França." Digo, sem ter ideia para onde estou indo com isso. "Eu não perguntei o que você prefere." Ele não olha para mim. Ele coloca sua taça sobre a mesa. "Por que me trouxe com você, então?" Pergunto, inclinando a cabeça. "Eu só estava tentando envolvê-lo na conversa." Eu olho para longe, cruzando os braços sobre o peito. Victor olha direto para mim. "Izabel, não se sente com os braços cruzados assim. Isso faz você parecer uma criança teimosa." Lentamente, meus braços caem e eu coloco minhas mãos juntas no meu colo, endireitando as costas. "Venha aqui." Diz ele em um tom mais suave. Eu deslizo sobre os poucos centímetros que nos separam e sento-me ao lado dele. Seus dedos dançam ao longo da parte de trás do meu pescoço enquanto ele puxa minha cabeça em direção a ele. Meu coração bate de forma irregular quando ele escova os lábios contra o lado do meu rosto. De repente, sinto sua outra mão deslizando entre as minhas coxas e meu vestido. Minha respiração para. Devo separá-las? Eu congelo e fico parada no lugar. Sei o que eu quero fazer, mas eu não sei o que devo fazer e minha mente está prestes a fugir comigo. "Eu tenho uma surpresa para você hoje à noite." Ele sussurra em meu ouvido. Sua mão se aproxima do calor entre as minhas pernas. Eu suspiro em silêncio, tentando não deixá-lo saber, embora eu tenha certeza que ele definitivamente sabe. "Que tipo de surpresa?" Eu pergunto com a cabeça inclinada para trás, descansando em sua mão. Só então outro casal caminha até a mesa, uma mulher loira alta com pernas nuas de quilômetros de extensão e um homem ainda mais alto com a mão em torno de sua cintura. Victor se levanta para cumprimentá-los. Eu fico onde eu estou, permanecendo na personagem, mas, ao mesmo tempo, realmente com a pretensão de estar decepcionada com a presença deles, porque estava curtindo o momento com Victor

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antes de sermos interrompidos, e por alguns minutos eu tinha esquecido o porquê de termos vindo até aqui. "Aria." A mulher se apresenta. "Prazer." Digo com repugnância óbvia. Ela se senta no outro lado da cabine arredondada. O homem senta-se depois no banco ao lado dela, assim como Victor ao se sentar. "Tem sido um bom tempo, Victor." O homem diz, com um sotaque que eu não posso identificar. Como eles se conheceram? "Tem sido sim, meu amigo." Victor diz enquanto aponta para o garçom. O garçom vem logo em seguida e pega o pedido de vinho do homem. "Izabel." Victor diz: "Este é o meu velho amigo Fredrik, da Suécia. Ele será o responsável pelos escritórios em Estocolmo, quando a expansão entra em vigor no próximo mês." "Oh, entendo." Digo, tomando um gole de meu vinho, observo 'Aria' de cima a baixo, por cima da borda da minha taça. Seus seios estão praticamente estourando fora da parte superior de seu vestido e me sinto inadequada de repente. Mas não deixo demonstrar. Sou a garota mais bonita e mais importante na sala, eu recordo. Não importa nem um pouco que o seu duplo-D deixa o meu C minúsculo ou que ela é muito bonita e tem os olhos azuis mais magnéticos que já vi em uma mulher antes. Volto o meu queixo com orgulho e olho para o outro lado. "Qual é o meu presente, Victor?" Os lábios de Victor alongam sutilmente e ele coloca sua taça de volta à mesa. "Fredrik e Aria, é claro." Diz ele. "Você tem sido tão boa ultimamente e a tenho negligenciado enquanto estive fora na Suécia, que eu queria comemorar esta noite." Fredrik sorri sedutoramente do outro lado da mesa para mim com seus lábios pressionados na borda da taça. Ele é lindo, com um cabelo ondulado escuro com suas maçãs do rosto fortes. "Não poderíamos celebrar sozinho?" Pergunto, não dando a Fredrik a minha atenção. "Eu não entendo o que você quer. Certamente você não está dizendo para eu foder com eles."

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Sorriso Victor é abertamente malicioso, mas secretamente orgulhoso pela forma como facilmente eu entendi o plano. Só espero que ele não vá mais longe do que isto... Sua mão se afasta das minhas pernas e ele coloca os dois braços sobre a mesa, inclinando-se nos cotovelos. "Não, claro que não." Diz ele, o que me surpreende. "Eu nunca iria compartilhar. Você sabe disso." Aria sorri para mim, continuamente tentando fazer contato com os olhos, o que me faz querer olha-la menos. A mão esquerda de Fredrik desaparece debaixo da mesa e, provavelmente, está entre as coxas dela, como Victor deixou a sua entre as minhas pernas poucos segundos atrás. "Victor nos contou..." Fredrik se inclina um pouco e abaixa a voz. "Que você prefere uma plateia. Aria e eu gostaríamos muito de assistir. Se isso fosse algo que você estaria disposta a permitir." Eu não tenho certeza quando a atuação acabou para mim, mas agora estou lutando para nadar pelo meu caminho através de sentimentos de luxúria e prazer que encontram meu lugar de volta para o mundo real. Por alguns longos segundos, eu não digo nada. Tudo o que posso pensar é em Victor ter sua chance comigo e Fredrik e Aria observando como ele faz. Estou de repente com formigamento entre as pernas. Mas tenho vergonha dos meus próprios pensamentos e tento forçá-los para fora da minha cabeça. "Izabel?" Ouço Victor falar. Pulo de volta para o presente, não inteiramente certa de como eu deveria agir. Talvez Victor devesse ter me preparado melhor, me dando as particularidades mais importantes como esta. Meus pensamentos estão atrapalhados, usando a minha taça de vinho como uma distração enquanto dedilho a haste com a mão direita o tempo todo, tentando ainda exalar essa personalidade auto possessiva de Izabel Seyfried que não estou exatamente sentindo mais. "Eu gostaria." Digo. Mas então eu olho friamente para Aria e acrescento: "Mas ela não. Apenas Fredrik." O rosto de Aria cai e, em seguida, torce levemente em amargura. A expressão de Victor permanece normal e levo isso como um sinal secreto de sua aprovação para a minha decisão de excluí-la. Antes que eu perca minha confiança, mantenho o diálogo fluindo. "Você deveria ter pensado melhor antes de convidá-la, Victor."

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Ele toca meu pulso sobre a mesa. "Muito bem." Ele fala e, em seguida, olha para Fredrik. "Encontre-nos no meu hotel em duas horas. Sozinho." Aria começa a se levantar e com raiva aponta a Fredrik para sair de seu caminho, para que ela possa sair da mesa. Ele levanta-se e pisa para o lado, mas quando aproxima-se para ajudá-la, ela o empurra com sua mão e se irrita com ele. "Saia de perto de mim." Ela trota sobre os saltos de seis polegadas para longe da mesa. É estranho como eu realmente me sinto mal sobre 'ferir os sentimentos dela’, independentemente da natureza da situação. Fredrik se senta novamente e o clima na mesa muda quando ele e Victor começam a falar sobre a expansão da empresa na Suécia, o que não tenho absolutamente nenhuma ideia do que se está falando. O que me confunde ainda mais é a forma como a conversa fictícia flui sobre uma coisa tão imaginária que se passa entre eles. É como se eles discutissem o comprimento de todo esse cenário e ainda tivesse tempo para ensaiar antes que todos nós viéssemos aqui. Mas eu estive com Victor o tempo todo e ele não teve a oportunidade de conversar sobre isto longamente com ninguém além de mim. Fredrik parece saber mais sobre o que está acontecendo do que eu. E, francamente, o que me preocupa um pouco. "Eu estou pronta para ir." Disse friamente mais como Izabel que Sarai. "Nós vamos sair quando eu estiver pronto." Diz Victor. "Mas eu quero ir agora." Insisto. "Não gosto deste restaurante. É escuro para caralho. Eu me sinto como se estivesse em um calabouço." Eu pego minha bolsa na mesa e me preparo para levantar. Victor agarra meu braço e me empurra de volta para o assento. "Eu disse que só iremos sair quando eu quiser. E pare de falar ou você vai se sentar em seus joelhos debaixo da mesa entre as minhas pernas." Eu engulo seco, um olhar de choque consumindo minhas feições. Vendo Fredrik na minha visão periférica, retorno a minha compostura rapidamente. Coloco a minha bolsa na mesa e me rendo a Victor totalmente. E mais uma vez, estou tentando sair dos meus pensamentos sujos.

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CAPÍTULO TRINTA E DOIS O garçom volta a nossa mesa, para nos oferecer mais vinho e verificar se precisamos de algo mais. Victor indica com um aceno que precisamos de nossas taças reabastecidas. Enquanto o garçom verte mais vinho para mim, noto a mão de Victor se mover ao longo da borda da mesa para mim e assim que o garçom retira a garrafa, minha taça cai derramando o vinho no meu vestido. Aconteceu tão rápido que se eu não estivesse observando Victor, nunca teria percebido que tinha sido ele quem o fez e não o garçom. Eu suspiro e minha boca fica aberta. E como se entrasse no modo totalmente Izabel, o garçom se precipita envergonhado para limpar o vinho da mesa e pede desculpas profusamente no processo. "I-na-cre-di-tá-vel." Digo, levantando-me do assento com minhas mãos e minha boca caídas e os olhos cheios de ira. "Seu idiota, olha o que você fez com o meu vestido." "Eu...eu sinto muitíssimo." Diz o garçom. "Eu quero falar com o proprietário." Victor demanda, levantando-se da cabine, também. Realmente causamos uma cena com sucesso. "Sim, senhor." Diz o garçom. "Eu vou buscar o gerente imediatamente." Ele começa a sair rapidamente, mas Victor diz: "Não, eu disse o proprietário. Não perco meu tempo com mais ninguém a não ser ele." Um pouco aterrorizado, o garçom se curva e sai sorrateiramente pelo restaurante. Ficando no personagem, eu ignoro a minha necessidade de perguntar sobre o que está acontecendo. Fredrik ainda está sentado com a gente, e tanto quanto eu sei... a quem estou enganando? Eu realmente não sei de nada. "Olhe para o meu vestido, Victor!" Victor pega o guardanapo de pano sobre a mesa na frente dele e começa a limpar o meu vestido com ele. "Está em ruínas." Reclamo através dos meus dentes. "Eu vou te comprar um novo." Diz ele. "Melhor ainda, o proprietário deste restaurante vai comprar um novo para você." Fredrik continua sentado calmamente tomando seu vinho.

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Em menos de dois minutos, o garçom está aproximando-se de nós novamente seguido por um homem alto, de ombros largos, cabelos grisalhos e uma covinha no centro do queixo. Ele anda com a cabeça erguida e as mãos cruzadas juntas na frente dele. "Eu peço desculpas pelo acidente com o garçom." Diz ele. "O vinho e a refeição, se vocês ainda preferirem nesta noite, serão por conta da casa." "Ah, mas isso não vai acontecer." Diz Victor aproximando-se do homem. "E estou ofendido que você não vá oferece-se para pagar o vestido junto com o jantar. Que tipo de restaurante é esse? Certamente que eu nunca mais apareço aqui novamente. Você é o proprietário deste... estabelecimento?" O homem estende a mão para Victor para cumprimentá-lo, mas Victor declinou. "Eu sou Willem Stephens." Respondeu, retirando sua mão. "Eu sou o responsável por este restaurante." "Então você é apenas o gerente?" Victor acusa. O garçom olha para o chão para evitar o olhar de raiva de Victor. "Eu pedi pelo proprietário." Acrescenta Victor. Willem Stephens concorda. "Sim, Marcus aqui me informou do seu pedido, mas estou com medo de que não seja possível esta noite. O Sr. Hamburg não está aqui." Fredrik se levanta da mesa e agora todos os olhos desviam para ele. Ele toma um último gole de vinho. "Peço desculpas." Diz Fredrik a Victor. "Mas eu devo ir." Então ele me olha por alguns instantes. "Vou encontrá-los no hotel em duas horas." Eu não lhe dou quaisquer olhares secretos ou sorrisos, apenas balanço a cabeça e volto para Victor e o problema com o meu vestido. Fredrik e Victor trocam despedidas rápidas e, em seguida, Fredrik deixa-nos à mesa com o gerente. "Em nome do Sr. Hamburg." Willem Stephens diz: "O vestido será pago e os senhores estão convidados a desfrutar uma refeição por conta da casa." A mão de Victor bate a mesa e, de repente, um segurança de terno está de pé ao lado de Willem Stephens como se tivesse surgido do nada. O garçom magro usa esta oportunidade para dar alguns passos atrás a fim de colocar distância entre ele e o resto de nós.

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"Por favor, senhor." Diz Willem Stephens, apontando uma mão em direção a Victor tentando apaziguar a situação. "Não há nenhuma necessidade para uma cena. Gostaria de falar comigo em algum lugar mais privado?" Victor caminha até ele, com a confiança e a intolerância que emana de cada poro. Da mesma forma, o segurança aproxima-se de Victor. Dois segundos de tensão silenciosa passam entre os dois, mas nenhum deles faz um movimento. Eu sei que Victor poderia facilmente derrubá-lo e isso tudo faz parte do plano. "Eu quero o vestido pago essa noite." Victor exige. "Três mil e quinhentos dólares. Em dinheiro. E vou pensar em não processar você ou Sr. Hamburg por causa do vestido e do sofrimento emocional da minha namorada." Acho isso um absurdo, mas, ao mesmo tempo, já ouvi sobre pessoas processando por coisas mais idiotas e ficar por isso mesmo. Willem Stephens concorda. "Muito bem", diz ele. "Eu vou buscar o montante. Se os senhores derem licença." O aceno sério de Victor encontra o dele e, então, Willem Stephens se afasta, com o garçom e o porteiro o seguindo logo atrás. Uma vez que eles fazem o seu caminho por entre as mesas calmamente, Victor vira-se para mim e faz o gesto para sentar-me com ele. "Eu amava esse vestido." Digo com os dentes cerrados. Com o mesmo guardanapo de pano de antes, Victor delicadamente dá pinceladas no tecido no meu peito para limpar. "Tudo vai estar bem, uma vez que saímos daqui", diz ele. Então ele me beija na testa. "Acho que você vai gostar Fredrik. Ele tem controle." Ele me beija novamente um pouco abaixo entre os olhos. "Ele vai esperar até terminarmos antes que se masturbe." "Como você sabe disso?" "Porque o conheço há muito tempo." Diz ele. Não posso acreditar que estou tendo essa conversa. Ou cada pedacinho disso é um show. Não entendo por que estamos mesmo fazendo isso tudo sem ninguém aqui para testemunhar. Mas o que confunde-me ainda mais é a facilidade com que fui esquecendo que é uma atuação. Ou eu estou me divertindo muito neste jogo perigoso com Victor, ou algo está seriamente errado comigo. Victor traça minha sobrancelha com a ponta do polegar e eu fico completamente perdida em seus olhos.

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"O que você vai fazer comigo?" Pergunto timidamente. "Você disse que eu fui boa." Ele levemente beija a sobrancelha que tinha acabado de tocar. "Qualquer coisa que eu queira fazer com você." Diz ele com uma voz calma e controlada. Ele toca a outra sobrancelha com a ponta do polegar e os segue ao longo do meu queixo. Fecho os olhos suavemente e sinto o cheiro dele, saboreando sua proximidade e tento forçar-me a não acreditar na verdade, que nada do que ele está dizendo para mim é real. Seus lábios escova contra os meus. "Você tem problema com isso, Izabel?" "Não." Tremo quando a palavra sai, enquanto meus olhos permanecem ainda fechados. Mas eles se abrem quando Willem Stephens faz o seu caminho de volta para a nossa mesa. "Em virtude dos problemas." Diz ele, estendendo um envelope para Victor. "Há quatro mil aqui." Victor pega o envelope em sua mão e o enfia no bolso escondido no interior do paletó. Willem

Stephens,

em

seguida,

tira outro

envelope,

com

uma

forma

quadrangular, de seu próprio bolso e entrega-o a Victor. "Sr. Hamburg gostaria de estender suas desculpas ao convidá-lo a sua mansão amanhã à noite." Diz ele. Victor hesita ao pegar o envelope, olhando para ele cético e desinteressado no início. "É uma festa privada." Willem Stephens continua. "Posso assegura-los que, se o senhor optar por ir, o Sr. Hamburg irá tornar financeiramente interessante." "Por acaso aparento precisar de assistência financeira de alguma forma?" Victor pergunta, fingindo estar ofendido com a ideia. Willem Stephens balança a cabeça firmemente. "Não, senhor." Diz ele. "Mas nunca se pode perder uma oportunidade de se ter mais. O senhor não concorda?" Victor contempla um momento e, em seguida, estende a mão para a minha mão. Eu a tomo e damos um passo para fora da cabine. "Vou considerar isso." Diz Victor e saímos do restaurante.

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~~~ "Como você sabia que iria dar certo?" Pergunto animadamente no segundo que entramos no Roadster e fechamos as portas. Não consigo me conter mais. Só espero que não haja problema em estar fora do personagem agora. "Não sabia." Diz ele. "Mas como-" Ele olha para mim, com uma mão descansando casualmente no topo do volante. "Todas as mesas no restaurante possuem escutas." Diz ele olhando para a estrada. "Hamburg senta numa sala privada assistindo os seus convidados irem e virem, pegando os casais da multidão baseando-se primeiro na aparência. Quando ele vê um casal que desperta seu interesse a próxima fase é ouvir a conversa deles." Estou finalmente compreendendo tudo agora. "Mas por que você não me contou isso antes de irmos? Eu provavelmente poderia ter tentado agir melhor se eu soubesse que o cara estava ouvindo." "Bem, tecnicamente, eu não sabia se ele estava ouvindo. E não lhe disse algumas coisas, porque queria ver o quanto você pode improvisar sobre pressão, mesmo tendo pouca informação sobre o que está acontecendo." "Isso explica sua conversa com Fredrik." Eu digo e o nome dele (Frederik) na minha língua enquanto Sarai abre um tópico totalmente diferente. "Se é mesmo o nome real dele." Faço uma pausa e falo com as bochechas vermelhas. "Ele não vai estar realmente no nosso hotel não é?" O olhar lento de Victor está repleto de diversão. "Não, Sarai, ele não vai ficar no hotel esperando por nós." Bem, isso é um alívio. Apesar de que, o pensamento de Victor... "Então, quem era ele, então? Obviamente, ele sabia mais sobre o que estava acontecendo do que eu." Voltamo-nos para outra rua bem iluminada e passamos por um sinal amarelo antes de ficar vermelho. "Sim, seu nome é Fredrik e sim, ele é realmente sueco. Ele trabalha para a minha Ordem, apesar de não fazer o que faço. Ele simplesmente nos ajuda em momentos como estes." "E a mulher, Aria?"

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"Tenho certeza de que ela era apenas uma mulher qualquer que Fredrik pegou em algum lugar." Ele me abre um sorriso. "Ele é bom nesse tipo de coisa." Eu coro e desvio o olhar. "Você parece decepcionada?" Pergunta Victor. Eu olho para ele, envergonhada por sua pergunta. E aquele leve sorriso ainda está enterrado em seu rosto. "Humm, não." Digo. "Por que você pergunta isso?" Victor olha para trás para a estrada. "O que, você não acha Fredrik atraente?" Acho que ele está brincando comigo. "Bem, sim, eu estaria mentindo se dissesse que ele não é atraente, mas não sinto-me atraída por ele, se é isso que você está pensando." Sinto-me atraído por você, Victor, só você .... Ele sorri e não diz mais nada sobre isso. Meu rosto fica cada vez mais quente, toda vez que o vejo rir ou sorrir, isso porque não estou completamente acostumada a ver isso, o que só me faz corar mais, e, parece que uma centena de borboletas bêbadas está tendo uma orgia no meu estômago. "Então, qual é o nosso próximo passo?" Eu pergunto. "Vamos aproveitar o tempo de inatividade até amanhã à noite." Diz ele. E isso é exatamente o que fazemos. Victor me leva para comprar um vestido novo com os quatro mil dólares que ganhamos do gerente. Voltamos ao nosso hotel no tempo suficiente para mudar de roupa. Fico embasbacada com ele quando o vejo completamente vestido. Ele usa um cardigã justo cinza, com um decote em V, sob uma camisa branca de mangas compridas de botão. Fica ainda casual, com a camisa para fora da calça jeans azul escuro. Um par de sapatos de couro preto com cadarço adornam seus pés. Eu só o vi usar ternos caros e sapatos, por isso é um pouco de um choque vê-lo em qualquer outra coisa. Embora ele ainda consiga refletir sofisticação e riqueza de forma perfeita. Eu uso um vestido de verão de seda e outro par de sandálias rasteiras caras, contente por estar fora dos saltos dolorosos. Após terminarmos a reunião com Fredrik, afinal de contas, o que foi inteiramente inocente. Nós três saímos para um coquetel no terraço de outro hotel de luxo e, apesar de eu ter que ficar no personagem como Izabel Seyfried todo o tempo,

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tenho a sensação de que Fredrik sabe que não sou realmente a cadela que estou retratando a ser. Acho que ele é refrescante e, quanto mais Victor e eu estamos com ele durante toda a noite, mais eu gosto de sua companhia. É quase... normal, como se eu tivesse encontrado alguma maneira de apreciar as coisas ao meu redor como todos os outros e encaixar-me com a sociedade. No fundo da minha mente, eu sei que não vai durar, mas pelo menos estou experimentando-o sem ter que olhar constantemente sobre o meu ombro. Nós nos separamos de Fredrik logo após a meia-noite quando Victor sente que é melhor voltarmos ao nosso hotel e descansar um pouco. Amanhã vai ser muito diferente a partir desta noite e isso deveria ter me preocupado. Mas já estou jogando o jogo. Estou tão imersa, tão envolvida com o meu alterego, que teve mais diversão em uma noite que Sarai teve na vida. Estou ansiosa e animada para amanhã chegar logo, não tem medo e nem dúvidas como acho que Victor secretamente quer que eu seja. Não, esse mundo subterrâneo que ele está me abrindo lentamente não está tendo o efeito em mim que ele tinha planejado. É isso só me faz querer mais.

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CAPÍTULO TRINTA E TRÊS Víctor "Fredrik diz-me que você está com uma garota." Diz Niklas ao telefone. "Izabel, não é?" "Sim." Respondo. "Obviamente era necessário." Ele sabe. Eu nunca estive tão dividido antes. Niklas ou Sarai? Eu sinto essa necessidade extrema de ser seletivo sobre qualquer coisa que diga a ele a partir de agora em diante. Mas não posso mentir para ele sobre Izabel e Sarai sendo a mesma, porque há muitas maneiras de Niklas descobrir a verdade. Ele provavelmente já tem a prova de que precisa. Se eu mentir, ele vai saber que não confio nele com ela, o que poderia colocar Sarai em mais ainda perigo. "Eu dei a Sarai uma escolha de onde ela gostaria de viver e ela escolheu Califórnia. Essa é a única razão pela qual eu a trouxe junto." Ouço Niklas respirar concentrado. "Mas você a trouxe junto para uma missão? Por quê?" "Porque, por enquanto, ela é conveniente." Digo. "Considerando o curto período de tempo que foi dado para realizar este acerto, não houve tempo para preencher com qualquer outra pessoa." Eu sei que esta não é a maior das explicações. Existem várias mulheres em Los Angeles que trabalham para a Ordem como Fredrik, e uma delas poderia facilmente ter tomado o lugar de Sarai e fazer tão perfeitamente como Fredrik. Mas espero que Niklas confie na minha palavra com relação a ela. Ele não está em campo como eu. Não é tão íntimo com o processo de realização de um sucesso real como eu sou. Apesar de ter matado pessoas assim como eu, ele não está no mesmo nível, já que não possui a minha experiência. "Ela vai matar-se, se continuar aí." Diz Niklas. "Sim, você está certo." Parei e contemplei as minhas palavras e, em seguida, decidi uma abordagem diferente. "É a razão pela qual eu a trouxe, se você quer saber a verdade." Eu posso dizer imediatamente que suas preocupações mudaram, que finalmente ofereci-lhe uma explicação que pode ficar contente ao aceitá-la.

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"Não posso eu mesmo matá-la." Continuo como se, finalmente, admitisse isso para ele. "Eu vou, se eu tiver que, mas você está certo, Niklas, em acreditar que fui afetado por ela de alguma forma. Só você percebeu isso antes de mim, ou melhor, você percebeu antes que eu deixasse-me acreditar. A menina tem que ser removida completamente de vista." "Eu poderia matá-la para você." Diz Niklas com sinceridade e não por rancor ou ódio por uma mudança. Ele simpatiza comigo e meu plano está funcionando. "Independentemente da sua natureza, Victor, você é humano. Eu entendo. Eu posso ajudá-lo. Deixe-me matá-la para você." Eu suspiro levemente no telefone. "Não. Ela é meu problema e vou lidar com isso. Ela quer ser o que somos." Niklas zomba ao ouvir isso. "Não há melhor maneira de fazê-la entender que é totalmente inviável dar a ela o que quer, jogando-a numa missão em primeiro lugar. Assim, vou deixar a missão matá-la." "E se isso não acontecer?" "Então eu vou fazer isso." Digo. "Não importa o que aconteça, Sarai vai morrer na Califórnia amanhã à noite." "Sinto muito, irmão." Diz ele com simpatia real. "Ter relações com mulheres que não seja sexo nunca funciona, você sabe disso. Nós não fazemos isso por uma razão e esta situação que você se meteu com ela só está provando a validade desse motivo." "Estou ciente, Nikla." Digo e mudo de assunto rapidamente. "Dê-me os detalhes da mansão." Após uma breve pausa e eu sinto a aceitação dele com as minhas mentiras, Niklas começa a falar: "Há dez quartos e uma suíte máster, que é o quarto do Arthur Hamburg localizado no quarto andar. Seis banheiros. Uma hidromassagem no térreo, lado leste. Uma sala de jogos, com cinco mesas de sinuca. Uma sala de cinema que está localizada na parte de trás, no extremo norte da mansão. Há uma saída escondida atrás da tela de projeção que leva para baixo da casa e para o lado de fora, perto das portas traseiras. Há outra porta escondida no terceiro andar, extremo sul, perto do corredor com o piso de mármore preto. Esse não temos certeza sobre onde ele leva, mas a empregada disse que, assim como a sala secreta na suíte de Hamburgo, está bloqueado por uma fechadura eletrônica. Ela não tem o código de acesso. E você não vai ter tempo ou a oportunidade de quebrar o código de acesso de qualquer porta, então você vai ter que fazê-lo à moda antiga."

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"E as câmeras?" Pergunto. "Há uma em cada quarto, exceto na suíte de Hamburgo." "Eu suponho que não haveria." Digo. "Não é possível imaginar que um cara como ele seja tolo o suficiente para gravar as provas necessárias para prendê-lo pra sempre. Isso funciona a meu favor." "Sim." Niklas concorda. "Tudo o que você fizer naquele quarto apenas aqueles que estiverem dentro saberão." "E a empregada?" Mentalmente anotei todas as informações que ele estava me dando. "Você deve procurar uma mulher chamada Manuela. Ela usa um crachá como todo o pessoal. Encontre-a perto do quarto com a hidromassagem, precisamente às oito horas. Mas não fale com ela. Ela vai trabalhar perto da prateleira de toalha, onde o envelope foi escondido. Quando você fizer contato visual com ela, basta acenar uma vez, para reconhecê-la e ela vai colocar uma pilha de três toalhas em cima das toalhas onde o envelope pode ser encontrado. Mas isso não pode ser realizado até às oito horas, por isso, se Hamburg convidar vocês dois para o quarto dele antes disso, você terá que protelar." "E nada que discutimos ontem à noite mudou?" Pergunto. "Não. Tudo deve ser realizado conforme o planejado. A arma de Hamburg está localizada no lado da cabeceira da cama mais próxima da janela. Há outra arma em uma maleta desbloqueada no chão do armário." Eu deixei a cena correr pela minha mente por um instante. "Esta é a primeira vez para mim." Digo. "E eu pensei que já tinha visto de tudo." "Eu concordo." Diz Niklas. "Mas é o que é, e, não é diferente de qualquer outro acerto de nossa perspectiva." Ele está certo sobre isso. Apesar das circunstâncias únicas, não tenho nenhum problema na realização deste trabalho. Sarai, por outro lado, duvido que seja capaz de digerir. "Ligue-me assim que o trabalho for concluído." Diz Niklas. "Eu gostaria de obter as informações de volta para Vonnegut o mais breve possível. Esperemos que isso vá compensar os atrasos e os problemas que você encontrou e criou para a missão com Javier e Guzmán." Eu ouvi a acusação leve em suas palavras, mas era de se esperar e deixei para lá.

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"Vou fazer isso." Digo. Antes de terminar a chamada, Niklas diz: "Victor, você sabe que tem que ser feito. Para o seu bem e até mesmo para o dela." Não vou matar Sarai e eu vou fazer tudo ao meu alcance para me certificar que ninguém mais na mansão vai fazê-lo também, mas, no fundo, eu sei que, o que meu irmão disse é verdade. Eu deveria matá-la por causa de mim e dela. Mas eu não posso. E eu não vou.

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Sarai É a noite da missão e minha adrenalina já está bombeando tão dura por mim que eu não posso ficar parada. Depois de um banho, me visto depois de Victor escolher o vestido que eu deveria usar, mais uma vez estou de volta a ficar sem sutiã. "Eu me sinto nua." Digo olhando para o fino tecido, sendo praticamente possível ver através do vestido de seda. Instintivamente, tento puxar as pontas do vestido para baixo para cobrir mais a pele, desapontada que o esforço não fez magicamente o tecido se expandir. Se curvarme apenas um pouco, alguém atrás de mim seria capaz de ver tudo. Felizmente estou pelo menos, usando uma calcinha. Victor fica lá, olhando para mim, aparentemente perdido em sua própria mente. Ele parece meio preocupado, até mesmo triste. "Eu não vou recuar disso." Digo-lhe, ficando com a sensação de que há algo na sua expressão. "Eu quero fazer isso. Aconteça o que acontecer comigo, não vai ser culpa sua." Talvez eu seja um pouco presunçosa ao pensar que ele ainda se preocupa e insinuo isso em voz alta, mas realmente acho que este é o seu jeito. E não importo-me muito mais em deixá-lo saber como sinto-me. Sobre tudo o que aconteceu entre nós. Sobre os meus sentimentos, embora eu ainda não saiba o que eles são. Sobre os sentimentos dele, sempre são mais cautelosos do que os meu. Aproximo-me dele e enrolo meus dedos em torno da lapela de seu paletó de cada lado. Então eu empurro para cima na ponta dos pés e o beijo suavemente nos lábios. "Eu posso fazer isso." Digo. "Talvez eu esteja sendo imprudente e não sei no que estou me metendo. Não, eu retiro o que disse. Estou sendo imprudente e sei exatamente no que estou me metendo. Eu sou louca por fazer isso, por querer ser uma parte disso. Mas você me conhece bem, que não sou igual a todo mundo. E mesmo que eu tivesse uma chance, mesmo se pudesse ir embora agora e tentar ser como todo mundo, eu não quero. Tenho medo de morrer. E não posso dizer que não estou. Mas eu não quero morrer, apesar de estar preparada para isso.” Por um momento, parece que Victor vai dizer algo para mim, talvez ele vai tentar mais uma vez me fazer mudar de ideia, mas ele se afasta e pega as chaves do carro sob o criado-mudo. "Nós precisamos ir." Diz ele que segue para a porta do nosso quarto de hotel.

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Sinto-me desapontada, até mesmo um pouco magoada. Eu queria que dissesse algo para mim, qualquer coisa que possa ficar na minha mente e no meu coração que ele realmente não quer que eu prossiga com isso. Talvez, lá no fundo, eu sei que eu vou ser morta e essa última parte desesperada de mim quer saber, antes de morrer, se alguém se importa. Que Victor se importa. Porque ele é realmente a única pessoa que eu tenho no mundo.

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CAPÍTULO TRINTA E QUATRO

No caminho para a mansão, Victor me fez lembrar mais uma vez. "Nunca saia da personagem. Não importa o que aconteça ou o quão desconfortáveis as coisas podem tornar-se para você. Não rompa a atuação." "Certo." Digo. "Não importa o quê, não vou romper a atuação. Eu prometo." Esse olhar que ele deu-me, embora indistinto, diz-me que ele tem suas dúvidas. Chegamos à propriedade de Arthur Hamburg, às sete e meia e vemos um alto portão eletrônico de ferro e um guarda de segurança. Victor segura nossos convites fora da janela do carro para ele. O guarda os inspeciona primeiro e depois caminha até um painel situado ao lado de um posto de segurança pequeno e coloca um fone de ouvido. Eu o ouvi levemente através da janela aberta nos descrever e, em seguida, descrevendo os convites. Poucos segundos depois, ele desliga e dá os convites de volta para Victor. Ele desliza para dentro do posto e logo após o portão de ferro se abre, permitindo-nos o acesso para a enorme propriedade. Depois de passar sobre a calçada de paralelepípedos com um comprimento de pelo menos dois hectares, estacionamos o carro em frente à mansão, próxima a uma infinidade de carros igualmente caros. Saímos e Victor circula seu braço no meu e caminhamos em direção à casa. Aproximamos das gigantes portas duplas, passando por duas colunas de mármore em ambos os lados e, em seguida, debaixo de uma escada para a varanda. Somos recebidos na porta por outro guarda de segurança armado, e é quando eu observo todos os outros seguranças postados ao redor do imóvel. Lembro-me que Victor contou sobre eles e eu começo a sentir-me um pouco desconfortável. Mas depois que nossos convites são inspecionados novamente e seguimos para dentro, as inquietações diminuem sendo substituídas por admiração. Estive em muitas casas ricas antes, mas esta é de longe, a mais impressionante, com tetos altos que sobem quatro andares no centro da mansão, abrindo-se em uma enorme claraboia circular. Estátuas gregas bonitas são exibidas na parte de baixo do térreo. Sempre que alguém anda, o som de seus sapatos batendo suavemente no mármore ecoa como se estivesse dentro de um museu em vez de uma mansão de propriedade privada na

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Califórnia. Eu ouço o que soa como uma pequena cachoeira e, em seguida, percebo a minha direita, por baixo de um arco de cinco metros, uma bela fonte rochosa branca situada no centro da sala. Antes que eu encontre-me admirando este lugar a maneira como uma garota que nunca viu tanta riqueza em sua vida faria, mudo minha expressão para parecer principalmente desatenta, estreitando os olhos suavemente, como se uma parte de mim está entediada. E quando alguém chama minha atenção, escolho quem devo cumprimentar

sutilmente

em

reconhecimento

ou

a

quem

devo

ignorar.

Principalmente, eu ignoro as mulheres ou olho para elas brevemente com olhos de desaprovação. Victor caminha comigo através da enorme sala e somos então recebidos por um homem, embora este homem não seja Arthur Hamburg. Ele é muito mais jovem, com o cabelo loiro-castanho e olhos castanhos. "Bem-vindos a Propriedade Hamburg." Diz ele. Ele estende a mão e Victor o cumprimenta. "Eu sou Vince Shaw, assistente do Sr. Hamburgo." "Eu sou Victor Faust e esta é a minha senhora, Izabel Seyfried." Eu estendo minha mão para o homem, que com a palma para baixo, ele a leva em seus dedos e se inclina beijando o topo. Eu me pergunto se esse é realmente o sobrenome de Victor. Ele não parece preocupado com o seu verdadeiro nome... a menos que 'Victor' não seja seu verdadeiro nome, e nem... Eu não posso pensar nisso agora. 'Vince' pega uma taça de champanhe de uma bandeja enquanto um garçom circula pelo ambiente. O garçom se aproxima com a bandeja para nos servir. "Por favor, pegue uma taça." Diz Vince e Victor pega uma da bandeja e a dá para mim antes de pegar outra para si mesmo. "Peço desculpas." Vince diz. "Mas eu estava curioso para saber onde você adquiriu seu convite." Victor toma um gole e é lento para responder, como se ele fosse importante o suficiente para fazer o homem esperar por isso. "Izabel e eu fomos convidados no restaurante do Sr. Hamburg ontem à noite. Houve um incidente."

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"Oh, sim, claro." Diz Vince com um sorriso de reconhecimento, mas respeitoso. Então, ele vira para mim. "Vocês foram compensados em virtude do ocorrido com o seu vestido, eu presumo?" "Sim, eu fui." Digo e tomo um gole. "Mas devo dizer, suponho que poderia ter sido tratado de forma diferente." "Oh? De que forma seria?" "Bem, ele passou a ser meu vestido favorito. Era sentimental para mim, se você quer saber. O garçom deveria ter sido demitido de seu trabalho." "Ah, sim." Diz Vince. "Bem, isso certamente pode ser arranjado. Eu vou falar com o Sr. Hamburg sobre isso pessoalmente. Ou seja, talvez você queira comentar o fato quando ele se encontrar com vocês dois mais tarde." "Não." Falo piscando meus olhos. "Eu acredito que você vai me salvar de ter que repetir-me." Eu olho para Victor, que parece estar satisfeito com o meu desempenho. "É claro." Disse Vince. "Não diga mais nada. Isso será feito." Ele sorri, revelando seus dentes retos e brancos. Sinto-me terrível em ser o motivo que aquele pobre homem será demitido, mas vou sentir me melhor, dizendo a mim mesma que ele não deveria estar trabalhando para um homem como Hamburg de qualquer maneira. Afinal, se fomos enviados aqui para matá-lo, só pode significar que ele é um canalha, de alguma maneira, forma ou classe. Nós conversamos com Vince por um curto tempo, mas a maioria eu só beberiquei meu champanhe e ouvi os dois falando. De vez em quando, levanto a minha mão, dobrando minhas unhas à vista, indiferente estudando-os com tédio. Percebo Victor olhar para o relógio uma vez. "O Sr. Hamburg vai descer para receber seus hóspedes a qualquer momento." Diz Vince. "Por enquanto, fique à vontade para apreciar o champanhe e hors d'oeuvres5. Ah, lá está ela!" Ele acena a mão em direção a nós e vira-se. "Eu gostaria que conhecessem Lucinda Graham-Spencer." Ele sorri para Victor. "Certamente você a conhece?" Uma mulher deslumbrante usando um vestido branco apertado que abraça suas curvas de ampulheta aproxima-se com um homem de terno.

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Hors d'Oeuvres é um termo francês para aqueles aperitivos servidos antes das refeições.

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"Sim, eu já a ouvi tocar." Diz Victor. "Em um show em Londres no ano passado. Ela é brilhante." "Queriiiiido, como está?" A mulher chamada Lucinda Graham-Spencer pergunta estendendo os braços dramaticamente a Vince. Victor e eu nos afastamos para o lado e ela pula entre nós para plantar dois quase beijos em cada uma das bochechas de Vince. Eu reviro os olhos. Não apenas na personagem, também. "Lucinda." Vince diz, voltando-se para Victor. "conheça Victor Faust." Ele gesticula apresentando-me. "E Izabel Seyfried. Eles são convidados do Sr. Hamburg." Lucinda se inclina para Victor da mesma forma que ela fez com Vince e beija cada bochecha. Então ela vira-se para mim. Os olhos de Victor estreitam para mim em particular, mas não o suficiente para uma dica e eu com certeza não posso ler sua mente. Então, eu ajo como minha intuição diz. "É um prazer conhecê-la." Digo educadamente, mas sem deixar o meu ar de importância diminuir. Eu beijo suas bochechas, em contrapartida, as minhas mãos seguram delicadamente em torno de seus braços como as dela estão nos meus. Os olhos de Victor sorriem para mim agora, aprovando minha escolha e, provavelmente, aliviado por minha decisão. Aparentemente, esta mulher é de uma estatura muito maior do que eu poderia ser, e embora não tenha nenhuma ideia que tipo de musicista ela é ou por que ela é tão importante, sei que deve ser famosa por seus próprios méritos e só faria me fazer uma idiota se eu evitasse alguém tão respeitada quanto ela. Na verdade, nós provavelmente poderíamos ser chutados para fora, se eu fizesse deste modo. Vince deixa Victor e eu em paz enquanto caminha com a mulher através da sala a fim de apresentá-la para os outros convidados. Eu o ouvi, notando que ele diz a mesma coisa para todo mundo que encontra e que todos aqui são apresentados como "convidados do Sr. Hamburg”. Eu começo a pensar como Victor pretende conseguir a atenção exclusiva do Sr. Hamburg com tantas outras pessoas aqui, inclusive com casais para competir conosco. Victor serpenteia a mão livre ao redor da parte de trás da minha cintura e caminhamos pela sala lentamente, fingindo falar sobre as pinturas e as estátuas. Ele aponta sutilmente para isto e aquilo e comenta sobre os detalhes, a cor ou a emoção que retrata. É tudo inútil, são observações desinteressantes que realmente não

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merecem reconhecimento verbal, na minha opinião, mas atuo junto de qualquer maneira. Logo, percebo que ele estava usando esse tempo para chegar do outro lado da sala sem parecer perdido ou como se nós precisássemos da companhia de alguém para nos fazer sentir bem-vindo. "Eu preciso encontrar as instalações." Diz Victor, colocando a taça de champanhe em uma mesa na entrada do corredor. "Você vai ficar bem sozinha?" "Claro." Eu disse com um ar de irritação. "Eu sou perfeitamente capaz de ficar sozinha." Ele beija meus lábios e, em seguida, caminha pelo corredor. Observo até que ele vira a esquina no final. Eu sei que ele não está olhando para as "instalações" e começo a ficar nervosa quando ele se foi por mais de alguns minutos e ainda estou aqui sozinha. Espero que eu não aparente precisar de ajuda. Vou conseguir de qualquer maneira. "Sou Muriel Costas." Uma mulher diz ao aproximar-se de mim com outra mulher e um homem mais jovem. "Eu nunca te vi aqui antes." "Izabel Seyfried", falo e saboreio meu champanhe muito lentamente, deixando-a saber que isso tem mais a minha atenção do que ela. "E suponho que você não tenha visto desde que nunca estive aqui antes." Ela sorri, trazendo sua própria taça aos lábios cor de rosa. Ela tem cabelos negros longos em cascata sobre os ombros, que termina logo abaixo dos seios macios, seu decote é empurrado para ser visto no vestido cinza apertado que ela usa. A mulher que estava ao lado dela lança seus olhares para ela mais uma vez, provavelmente perguntando-se, se ela vai deixar-me ir embora com a atitude que dei-lhe. Sorrio para ela também e volto minha atenção para o jovem que não pode ser muito mais velho do que eu. Eu ofereço-lhe um leve sorriso sedutor apenas para irritar Muriel e ele pega. Mas então seu olhar desvia de forma submissa quando ela o olha. "De onde vem?" Ela me pede. "De onde vem o quê?" Ela e a outra mulher se olham com sorrisos suaves, obviamente compartilhando uma opinião sobre mim. "Seu dinheiro" Diz Muriel como se eu deveria saber a linguagem. Ela bebe o champanhe. "Você é rica, mas ninguém precisa saber de onde seu dinheiro vem."

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Todo o meu rosto escureceu com um sorriso confiante. "Somente alguém que se sente ameaçado sempre faz esse tipo de pergunta." Falo enquanto olho para as duas brevemente, exibindo calmamente a minha vitória do controle. É evidente para mim que esses são cães perdidos de Muriel Costas e dependentes de quem os oferecem melhores pedaços, eles não são imunes à influência. Victor reemerge do corredor. O rosto de Muriel se ilumina quando ela o vê. Ela se apresenta de imediato, oferecendo-lhe a mão para um beijo habitual que sei que não tem nada a ver com os costumes e sim com o desafio. Victor admite o gesto e olha em seus olhos escuros, assim, ele ergue num meio-arco e segura um pouco a mão dela, mais do que eu gosto. Mas Muriel está satisfeita e faz questão de me olhar diretamente nos olhos para deixar-me saber o quanto. Eles apresentam-se e iniciam uma conversa inútil misturando tudo de novo. Mas, em vez de demonstrar um pingo de ciúmes, porque sei que nada iria satisfazer Muriel mais do que isso, eu afasto-me dos quatro com o queixo levantado de forma importante e encontro o meu próprio pequeno grupo de homens para misturar-me. Eu não tenho certeza se este é um ato que Victor aprova, mas eu não olho para trás para descobrir. Se eu fizer isso, iria passar por ciumenta e quebraria toda ostentação que fiz. E Izabel Seyfried não ficaria com ciúme fácil. Ela nem ficaria. Eu não ofereço a minha mão para esses três homens, apenas a minha encantadora e confiante conversa de que eu nunca iria oferecer a uma mulher. Eu nem esperava que isso acontecesse, mas neste momento em que eu levo as coisas inteiramente em cima de mim é que vejo que sou mais para esse papel do que imaginava, mas eu estou começando a dar a Izabel Seyfried suas próprias características. Traços que Victor nunca tecnicamente disse-me para dar a ela. Eu escolho, porque parece certo fazê-la desprezar as mulheres um pouco demais e amar os homens um pouco intensamente. Afinal de contas, se vou fazer o papel de alguém, eu poderia muito bem preencher todas as peças que faltam a sua personalidade e torná-la inteiramente realista. Durante minha conversa com esses homens, cujos nomes já esqueci, Victor junta-se a nós. Eu sinto sua mão em volta do meu braço, apertando-o duramente. "Você sabe que eu não gosto quando você se afastar de mim." Diz ele.

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Os homens não dizem nada, mas nos ouve atentamente, como se intrigados com a exibição do domínio de Victor sobre mim. Eu rio maliciosamente. "Eu sei que você não gosta." Digo. "Mas estava ficando... abafado lá com sua bisavó." Os olhos de Muriel travam com os meus ao ouvir isso e sorrio para ela levemente em troca. Ela e seus companheiros caminhar na direção oposta, para outro pequeno grupo de pessoas. Victor puxa meu braço, fazendo com que o champanhe na minha taça escorra ao redor. O sorriso maldoso desaparece da minha cara em um instante. Ele se inclina em direção ao meu ouvido e diz em voz baixa: "Eu não posso suportar a ideia de fazer isso, Izabel, mas se tiver, vou deixar você ir embora." Sua respiração dança ao longo da lateral do meu pescoço, fazendo-me ter arrepios. "Eu não vou fazer isso de novo." Respondo sem fôlego, virando o pescoço em um ângulo de modo que minha boca chega a sua. Eu fecho meus olhos para beijá-lo, ao sentir seus lábios perto dos meus tão perto que quase posso prová-los, mas, em seguida, ele afasta-se. Os homens que estavam ao nosso lado estão boquiabertos em sua própria maneira particular quando meus olhos abrem-se novamente. Arthur Hamburg sai da sala de chafariz com quatro homens de terno e toda a atenção volta para ele.

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CAPÍTULO TRINTA E CINCO O homem aparentava ser ainda mais velho do que era naquela foto. E mais pesado. Estimo que ele deva estar nos seus sessenta anos, com altura média, mas que não chega a um metro e oitenta e pesa menos que 136 Kg, pois as partes mais destacadas do seu corpo são, o estômago e as bochechas. Enquanto ele fica lá na frente da sala com seus capangas ao lado, não o vejo como um homem com um simples excesso de peso e de idade madura, vejo um homem mau que vai morrer esta noite. É tudo o que posso pensar: ele vai morrer. E eu vou estar lá para testemunhar isso. De repente, minhas entranhas travam, comprimindo meu peito e meu estômago em um nó rígido, fazendo-me sentir que não posso respirar. Eu respiro através de meus lábios entreabertos e o deixo sair muito lentamente pelas narinas. Acalme Sarai. Apenas mantenha a calma. Eu não achava que ele iria me afetar dessa maneira, sabendo que o destino de um homem praticamente estava sendo controlado, se ele vive ou morre simplesmente ao possuir este conhecimento que não tinha. Mas, apesar da ansiedade que sinto, a realidade da situação me atrai, e não estou arrependida de vir aqui. Posso não saber o que Arthur Hamburg fez para merecer a morte, mas confio nas palavras de Victor e sei que ele está longe de ser inocente ou não estaríamos aqui. Arthur Hamburg aborda seus convidados, agradecendo a todos por terem vindo esta noite e ele conversa, falando sobre coisas supérfluas a que todos balançam a cabeça, concordam, sorriem e oferecem a sua própria aceitação. E ele faz piadas que o faz rir antes de mais ninguém, mas eles sempre riem muito, porque é claro, seria rude não sorrir. Até eu me pego rindo levemente de uma piada que todo mundo parece achar engraçada e que eu realmente não sei. Victor move-me ao redor para ficar na frente dele, pressionando a parte de trás do meu corpo contra a frente dele. Sua boca explora meus ombros nus, as mãos descansando em meus quadris. Mas o carinho é breve, apenas para mostrar, e sua atenção está de volta a Arthur Hamburgo, que noto em curto prazo que nos observa com o olhar fixo do outro lado da sala. Posso ver o debate em seus olhos, a súbita mudança em seu comportamento. Depois de mais algumas palavras, ele encerra a conversa e deixa todos se misturarem e divertirem da maneira que vinha fazendo antes de entrar na sala.

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A próxima coisa que eu sei, ele está andando em linha reta em direção a nós.

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Víctor Arthur Hamburg aperta minha mão quando eu mesmo me apresento e a Izabel. "Meu assistente me disse que você encontrou um problema no meu restaurante ontem à noite." Ele sabe muito bem que éramos nós dois. Ele nos olhava daquele quarto privado dele, ouviu nossas interações na mesa através do minúsculo microfone situado no interior da mesa central. "Sim." Eu disse com um aceno de cabeça. "Desculpe-me por dizer isso, mas acredito que uma mudança na forma como a sua gestão contrata sua equipe deveria estar a caminho." Hamburg sorri para encobrir o que ele realmente está fazendo: estudando a Sarai e a mim, nos conhecendo mais do que ele já tinha no restaurante, imaginandonos com ele em seu quarto. Ele poderia se importar menos sobre o incidente no restaurante ou ser processado. Mas isso não tem nada a ver com o porquê dele nos ter convidado a aqui. "Você é de L.A.?" Ele pergunta. "Não." Eu disse, puxando Sarai mais perto para mim com um braço em torno de seu quadril, com minha mão descansando perto do seu osso pélvico. Os olhos de Hamburgo desviam para vê-lo lá. "Stockholm." Ele olha intrigado. "Você não soa com um estrangeiro." diz ele. Eu respondo dizendo em sueco: "Sou fluente em sete línguas." E então eu repito em Inglês, para que ele entenda. Ele balança a cabeça com um sorriso impressionado. Então ele olha para Sarai. "E quanto a você?" "Ela é de Nova York." Eu respondo por ela. Sarai se cala neste momento. Hamburg se vira para mim novamente e pergunta: "Ela é sua..." Ele procura na sua mente para a forma mais segura de fazer a pergunta. "Minha propriedade?" Eu digo para ele, deixando-o saber que é perfeitamente aceitável para falar sobre as coisas contrárias ao tabu. "Sim, ela é. E na maioria das vezes, ela gosta do que faz."

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Ele levanta uma espessa sobrancelha envelhecida. "Na maioria das vezes?" Ele pergunta curioso. "O que o ela acha do resto?" Ele olha para Sarai, um leve sorriso nos cantos dos lábios envelhecidos. "O resto de mim tem uma mente própria." Diz Sarai como Izabel. Eu suspiro e balanço a cabeça, esfregando os dedos ao longo de seu osso ilíaco. "Sim, ela tem, admito." Falo. "Eu prefiro uma mulher que tem personalidade." "Então, você já está acostumado a essa vida, presumo?" Hamburg pergunta e sei que está se referindo a total submissão, de possuir uma mulher que vai fazer qualquer coisa e tudo o que é dito a ela, sem rachar na menor expressão de desconforto ou recusa. "Uma vez." Rspondo. "Estou contente com Izabel, independentemente de sua boca algumas vezes." Hamburg a observa mais de perto agora, assim como eu. Ele gosta tanto de mulheres como dos homens, afinal. E ele também gosta de mulheres que desafiam, como Izabel. A única diferença é que aqueles que ele gostava eram forçados aqui contra sua vontade. De repente, Hamburg levanta o queixo com orgulho e diz, "Eu gostaria muito de falar com você em particular. Na minha suíte. Se você estiver interessado em ofertas lucrativas. Você está interessado, não está?" Ele sorri e molha os lábios brevemente com a língua. Penso por um momento, brincando com a sua cabeça, deixando-o saber apenas pelo olhar nos meus olhos que estou interessado, mas não desesperado. "Estou disposto a ouvir a proposta, pelo menos." Digo. Seus olhos se iluminam. Ele fala com o homem de terno ao lado dele, sussurrando algo em seu ouvido e se volta para nós, assim que o homem segue para o elevador de vidro para o piso superior. "Venham comigo." Diz Hamburg e nós dois o seguimos em direção ao elevador. Hamburg nos fala sobre a construção de sua mansão, enquanto esperamos o elevador de vidro fazer o seu caminho de volta vazio. E ele divaga sobre a quantidade de dinheiro que colocou como se explicasse secretamente para mim que ele pode pagar seja qual for o meu preço. Posso sentir Sarai ficando cada vez mais nervosa à medida que seguimos em direção ao piso superior. A certa altura, ela agarra minha mão e olha para baixo para ver os seus dedos delicados emaranhados no meu.

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Eu aperto-lhe a mão suavemente, deixando-a saber que estou aqui e que vou fazer tudo ao meu alcance para mantê-la segura. Olho para seus olhos e agora tudo o que vejo é Sarai olhando de volta para mim, a menina corajosa, mas ansiosa e complicada que tem feito crescer meu lado protetor. Nós andamos por um corredor enorme, onde na frente é a entrada para o quarto dele, intrincado e exagerado como o resto da casa. Dois homens de ternos ficam de guarda do lado de fora dela. Cada uma deles, como aqueles nas escadas, carregam armas escondidas debaixo de suas roupas. Mas eu não. Não desta vez. Porque sei que Sarai e eu seremos verificados antes de nos deixar entrar, e encontrar em cada um de nós, dois indivíduos ricos, que não têm nenhuma razão para estar carregando armas de fogo, mudariam os pressupostos iniciais de Hamburg sobre nós. Ele poderia se sentir ameaçado e mudar de ideia sobre nos deixar entrar. Nós paramos na entrada e eu levanto os meus braços ao meu lado para deixar um guarda me revistar. Sarai faz o mesmo, mas não está tão calma neste momento. "Isso é realmente necessário?" Ela sussurra, enquanto o outro guarda a acaricia. "Desculpe, minha querida." Hamburg diz assim que empurra as portas da suíte. "Mas sim. Às vezes é necessário ser muito cuidadoso." Quando os guardas não encontram nada, eles afastam-se e, pouco antes de Hamburg fecha a porta com nós três dentro de seu quarto, diz aos guardas, "Vocês podem ir. Vou precisar de um pouco de privacidade para a próxima hora." Os dois guardas acenar seu reconhecimento e deixam o posto para fora do seu quarto.

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CAPÍTULO TRINTA E SEIS Sarai A segunda das grandes portas duplas tranca-se atrás de nós, sinto meu coração afundar no buraco do meu estômago. Mas, livro-me disso e faço o meu melhor para manter a fachada da minha Izabel Seyfried. Enquanto deixo o meu olhar varrer pelo grande quarto, estou surpresa com a rapidez que Arthur Hamburg vai direto ao ponto. "Vou te dizer o que eu gostaria e lhe darei a oportunidade de nomear o seu preço." Ele aponta para Victor sentar-se na cadeira de couro próxima. Victor senta-se e vejo-me sendo deixada de lado, em pé sozinha. As máscaras têm de cair, agora que os dois estão sozinhos na privacidade do quarto. Arthur Hamburg não é mais o homem repugnantemente charmoso que fingia ser lá fora na frente de todos. Não, ele é mal, um bastardo doente que Victor foi enviado para cá para matar. Ele não está mais olhando para mim como uma convidada de sua mansão, que merece uma taça de champanhe e respeito, sou apenas um peão em seu jogo sexual que não é mais digna de seus olhos ou de sua conversa. Apenas Victor é digno de tais luxos. Victor é o que ele quer. Percebo isso agora. Mas há muito mais do que sei. E leva pouco tempo para o resto se desenrolar. "O que é que você quer?" Victor pergunta calma e, astuciosamente. Ele descansa as costas contra a cadeira e coloca o tornozelo esquerdo na parte superior do joelho direito. Arthur Hamburg senta-se na cadeira a frente de Victor, um sorriso diabólico desliza em suas feições duras. "Eu gosto de assistir." Diz ele. "Mas nada da merda da posição do missionário." Ele faz uma pausa e acrescenta: "Você fode a menina, a cada momento e faz o que eu pedir para fazer com ela e, mais tarde, se você estiver interessado e, por um dinheiro extra, vou ficar de joelhos na sua frente." Ele sorri e, pela primeira vez desde que eu entrei aqui, seus olhos vão até mim. Enquanto estou secretamente tendo um ataque de ansiedade, Victor pondera por um momento, fazendo parecer que ele está tomando a oferta em consideração. Victor olha para mim.

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"De jeito nenhum." Respondo bem na hora. "Ele é nojento, Victor. Eu não concordo com isso. " Victor se levanta e casualmente me leva pelo braço. "Você vai fazer o que eu lhe disser para fazer." Diz ele. Balanço a cabeça para trás e para a frente, olhando entre eles, tentando não sair da personagem, mas acho cada vez mais difícil de continuar. Eu posso fazer isso, eu digo a mim mesma ao ouvir as batidas fortes do meu coração que elevam sobre a minha voz na minha cabeça. Victor não vai machucar-me. Seja como for. Preciso acreditar nisso. Por que ele iria matar o porco logo agora? Eu não entendo ... Com meu cotovelo ainda no aperto de sua mão, Victor se vira para Arthur Hamburg e diz: "Quinze mil." E o rosto de Hamburg ilumina-se. "E vai ser mais quinze, se eu deixá-lo ir para baixo em mim." Eu sinto meus olhos arregalados no meu crânio. "É um acordo." "Não." Falo e tentando arrancar meu braço do aperto, mas então, Victor estreita os olhos para mim e eu desisto. "Deite-se sobre a mesa." Diz Victor. O quê?... Ele olha para a mesa pesada de mármore quadrado à minha direita, movimentando nada além de seus olhos. "Agora, Izabel." Ele exige. Oh meu Deus... Hesitante, vou até a mesa e ponho meu estômago e peito lá, deixando a cintura para cima. Já sinto o ar na sala roçando o tecido da minha calcinha. Engulo seco. Victor vem atrás de mim e levanta o resto do meu vestido curto, da minha bunda, até a minha lombar. Uma de suas mãos aperta a minha bunda. "Faça-a chorar." Diz Arthur Hamburg da cadeira atrás de mim. "Eu tenho algumas coisas que você pode usar se quiser." "Eu posso fazê-la chorar sem eles." Diz Victor, puxando minha calcinha para baixo, deixando-a cair em torno de meus tornozelos. Eu suspiro desconfortavelmente como estou exposta. "Mas eu ainda posso usá-los. Tem sido um tempo desde que eu realmente a machuquei."

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Arthur Hamburg faz um barulho estranho que nunca ouvi antes. "Oh, sim, eu gostaria muito de ver isso." Ele roça as mãos e sorri com um prazer assustador. "O quão pequena ela é? Eu tenho um bastão de borracha." Eu congelo contra a mesa, o comentário dele sugando o ar para fora de meus pulmões. Você está brincando comigo? Estou pronta para matá-lo agora. Ele poderia ser meu primeiro assassinato. E estou pronta para fazê-lo! Minhas mãos começam a tremer debaixo do meu peito. Mantenha-se na personagem, Sarai ... não importa o quê. Então, de repente, como se não estivéssemos mais no quarto com esse desgraçado maldito doente, sinto os dedos de Victor deslizarem em mim e fico instantaneamente molhada. Eu suspiro drasticamente, o hálito quente que emana dos meus lábios reveste as polegadas da mesa de mármore contra o meu rosto com umidade. Eu o assisto aparecer e desaparecer a cada respiração rápida que dou. "Abra suas pernas." Instrui Victor. No começo não faço, mas quando ele coloca ambas as mãos entre as minhas coxas e as força, expondo-me totalmente, não luto contra ele, apenas lido com a borda da mesa com meus dedos e endireito as costas. Minha mente luta com o errado disso tudo. Eu sei que é errado e repugnante, pois aquele homem está sentado lá assistindo isso acontecer. Mas outra parte de mim, a parte que está começando a bloquear a presença de Arthur Hamburg da minha mente por completo, deseja que Victor tenha a sua vez comigo. Eu tento fechar os olhos e imaginar apenas Victor na sala e funciona um minuto ou dois, até que ouço a voz de Arthur Hamburg novamente. "Sim, ela é muito rosa. E muito pequena." Diz ele e cerro os dentes. Victor começa a enrolar. "Você sabe." Diz ele. "Talvez você possa me mostrar o que tem. Vou foder um pouco primeiro, abri-la um pouco, e então-" "Não diga mais nada." Arthur Hamburg diz com um sorriso sádico em sua voz. Ouço-o levantar-se da cadeira e, em seguida, seus sapatos batem contra o chão enquanto caminha. Vejo que as calças dele já estão desabotoadas, com a camisa para fora da calça de forma descuidada sobre seu estômago grotesco. Ele deve ter se tocado a pouco. Quando aproxima-se do que parece ser um grande armário, ele para no meio

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do caminho e volta-se para Victor. Ele parece estar contemplando intensamente até que fala. "Estaria tudo bem se eu permitisse que a minha esposa assistisse comigo?" Depois de uma pausa momentânea, Victor responde: "Uma pessoa extra não fazia parte do acordo." Ele pondera sobre isso. "Mas eu acho que está bem. Ela está lá embaixo?" "Ah, que bom." Diz Arthur Hamburg, esfregando as mãos gordas juntas. Ele continua caminhando em direção ao armário, abrindo as portas enormes para revelar um cabine maior do que um quarto médio. "Não, eu a mantenho aqui." Huh? Você a mantem ai? Percebendo que isso se teve mais do que apenas a ação de Victor, eu olho para cima, assim que ele passa por mim. Sem ter ideia do que ele está fazendo, eu não tenho certeza se eu deveria ficar onde estou, ou fazer o que devo fazer e levanto-me deixando meu vestido cair de volta sob a minha bunda. E aguardo mais alguns minutos. "Não fique muito chocado quando você vê-la." Diz Arthur Hamburg. Parece que está apertando uma série de números em um teclado de prata na parede do lado de dentro do armário. "De certa forma, a minha Maria é como sua Izabel." "É mesmo?" Victor diz entrando no armário com ele. Outra porta maciça se abre da parede dentro do armário para revelar uma outra sala. "Sim." Arthur Hamburgo continua. "Embora ela é muito mais submissa do que a sua." Então eu ouvi um baque alto e um estrondo assim os dois desapareceram em algum lugar dentro da sala escondida. Eu luto para puxar minha calcinha e corro para o espaço a fim de ver o que está acontecendo, quase tropeçando no caminho por causa dos saltos. "Victor!" "Venha aqui, Izabel, agora!" Eu o ouvi gritar e, embora ele tenha me chamado de Izabel, eu sei que pelo tom de urgência em sua voz ele está falando para mim como Sarai. Uma vez que eu faço o meu caminho passando pelas prateleiras altas dentro do armário e entro no quarto escondido, fico chocada e confusa com o que eu vejo, incapaz de formar pensamentos muito menos palavras. Victor tem a cara de Arthur Hamburg

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pressionada contra a parede com um laço enrolado em torno de seu pescoço grosso. O rosto dele incha sobre o tecido restritivo, sua pele fica vermelho escuro e roxo. Uma mulher encontra-se em uma cama ao lado da parede usando um longo e transparente vestido branco de algodão que tem estado manchado pela urina e sangue. "No armário." Diz Victor, pressionando seu corpo contra o homem grande. "Há uma maleta no chão com uma arma dentro. Pegue-a." Concordo com a cabeça rapidamente e corro de volta para o armário atrás de mim para procurar a maleta, encontrando-a em segundos. Eu pego a arma e corro de volta para dentro da sala. Ele libera uma mão e eu dou a ele. Victor empurra a arma contra a têmpora de Arthur Hamburg e libera seu corpo. Ele se engasga com o ar, emitindo sons de asfixia desesperados, enquanto ele tenta recuperar o controle de sua respiração. Em seguida, Victor lhe dá um tapinha para baixo, verificando se há armas. Quando ele está satisfeito que não há nenhuma, Victor enfia a mão no bolso da calça e tira um par de luvas de borracha e os joga para mim, indicando para eu colocá-los. Faço-o rapidamente. "Agora, aqui estão as coisas como vão acontecer." Victor diz para Arthur Hamburg. "Infelizmente, você vai viver. Se fosse a minha escolha, eu lhe mataria ontem à noite no restaurante, ou qualquer outra noite de sexta antes disso. Mas você vai viver." O quê. Está. Acontecendo? Eu não posso envolver minha mente em torno desta mudança inesperada dos acontecimentos. "Se você não veio aqui para me matar." Diz Arthur Hamburg, sua voz tremendo de medo, mas misturado com surpresa. "Então porque diabos você está aqui? Dinheiro? Eu tenho muito dinheiro. Eu vou te dar o que quiser." Victor empurra Arthur Hamburg no chão e mantém a arma apontada para ele. O suor derrama do rosto e do pescoço do homem, absorvendo por sua camisa branca. Em seguida, Victor pega dentro do seu bolso escondido no paletó e me entrega um pequeno envelope amarelo. "Abra." Ele me instrui. Enquanto vou fazer isso, Victor se volta para ele.

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"A morte será regida como um suicídio." Diz Victor e eu estou ficando ainda mais confusa. "Ela deixou um bilhete assinado por sua própria mão. Tudo que você tem que fazer é esperar uma hora depois que deixa-lo, e chamar alguém." "O que diabos você está falando?" Arthur Hamburg irrita-se, apesar de ter uma arma sendo apontada para ele. Não consigo decidir para quem olhar, o homem doente no chão ou a pobre mulher deitada na cama. De repente, ela olha para mim com olhos tristes, fracos e atormentados e um frio corre pelo meu corpo. "Victor temos que ajudá-la." Eu começo a mover em direção a ela. "Não." Diz Victor. "Deixe-a." "Mas-" "Remova o conteúdo do envelope." Ele interrompe. Eu tiro um pedaço de papel dobrado em primeiro lugar, tentando entender a sensação através das luvas de borracha apertadas em minhas mãos. "Leia isso." Diz ele. Cuidadosamente, eu a desdobro e olho para baixo para a caligrafia bonita com tinta azul. E assim começo a ler a carta em voz alta, sentindo-me enjoada e com meu coração dolorido.

Meu querido marido,

Eu não posso mais fazer isso com você. Envergonhei minha família, nossos filhos, nós nos envergonhamos, Arthur. Eu não te amo mais. Eu não me amo. Eu não amo ninguém, porque não posso. Eu não tenho sido capaz de sentir uma emoção válida em doze dos trinta anos que fui casada com você. Eu não posso mais viver assim. Tantas vezes eu quis procurar ajuda, talvez conseguir a medicação. Não sei, mas depois de tanto tempo, depois de anos querendo ajuda, comecei a não me importar. Eu sinto muito que você teve que me ver desse jeito. Eu sinto muito que eu não poderia vir para lhe pedir ajuda. Mas eu não queria ajuda. Eu só queria que acabasse.

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E é isso que estou fazendo. Estou terminando isso.

Adeus, Arthur. Atenciosamente, Mary O homem não pode tirar os olhos de sua esposa. Seu queixo flácido vibra, enquanto ele tenta segurar as lágrimas. Mas eu ainda não sinto um pingo de remorso por ele. Não só porque eu ainda estou lutando para descobrir por que isso aconteceu, mas porque sei que ele é um homem doente e não merece remorso. "Por que você está aqui?" Ele pergunta com um tremor na voz rouca. Victor olha para mim. "Dê-me o cartão SD." Diz ele. Eu puxo o pequeno cartão quadrado no fundo do envelope e o coloco na mão livre de Victor. Ele entrega a Arthur Hamburg com o objeto entre polegar e o dedo indicador. "Todas as informações neste cartão já foram transferidas para o meu patrão. Os nomes na sua extensa lista de clientes, os locais de suas operações subterrâneas, a prova em vídeo de sua querida esposa foram registros que você não sabia nada sobre. Está tudo aqui." Ele joga o cartão SD no peito de Arthur Hamburg. "Se alguém vir me procurar ou a Izabel por causa da morte de sua esposa por não ter sido um suicídio, todas essas informações serão liberadas para o FBI. Devemos sair daqui ilesos e, como acolhidos, como fomos quando entramos pelas suas portas da frente. Está entendido?" Estou tremendo. Eu estou tão confusa, nervosa e insegura. Incerta de tudo. Arthur Hamburg assente, ainda com o suor escorrendo de seu queixo e sobrancelhas. A mulher estende a mão, mas depois cai de volta para seu lado. Duas seringas descasam vazias perto de suas pernas. Ela está fortemente drogada. Meus olhos olham para o que restou dela, uma vez que as curvas de seus braços e em torno de seus tornozelos estão pintados por marcas de agulha. Eu não posso aguentar mais, corro até ela com a total intenção em ajuda-la. Mas Victor chega e agarra-me pelo braço, impedindo. Ele olha intensamente nos meus olhos, a arma ainda apontando para Arthur Hamburg.

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"Ela é o alvo." Diz ele para mim, puxando-me para mais perto dele. "Vá para a sala perto do criado-mudo ao lado da cama há uma janela. Há outra arma na gaveta. Traga-a para mim." Eu quero dizer que não, que não vou fazer isso, mas a decisão que tomo voa até minha mente. Eu faço isso porque uma parte de mim ainda confia em Victor tanto quanto o resto de mim quer parar com isso antes que vá longe demais. "OK." Eu digo e corro de volta para o quarto principal. Acho a arma exatamente onde Victor disse que estaria e a seguro nervosamente pelo cabo e a levo tão cuidadosamente quanto posso, de volta para o quarto escondido, é como se eu estivesse aterrorizada que algo vai explodir na minha mão. Talvez seja porque sei o que ele está prestes a fazer com isso. É mais pesada, mais mortal, mais ameaçadora do que qualquer arma que já segurei. Mesmo a que usei para atirar em Javier não era assim. Eu sinto meu coração bater nas solas dos meus pés. "Agora troque comigo." Diz Victor. Ele está usando um par de luvas pretas agora. Eu vou até ele, balançando nas minhas pernas trêmulas, e lhe entrego a arma. Eu tomo a outra e certifico de mantê-la apontada para Arthur Hamburg. Eu mal consigo segurá-la em linha reta. Sinto o mesmo de quando me escondi no carro de Victor, a arma é tão pesada em minhas mãos que só queria largá-la e livrar-me dela. Victor olha para mim, com o seus olhos azul-esverdeados intensos e ligeiramente empáticos. "Você confia em mim?" Concordo com a cabeça lentamente. "S...sim. Eu confio em você." "Tampe seus ouvidos." Ele instrui e eu não hesito. Sem outra palavra, ele caminha até a esposa e se inclina para a frente, erguendo-a da cama em uma posição sentada. Seu corpo está tão fraco e desligado que ela mal pode ficar em pé sozinha. Seus olhos abrem e fecham aparentemente de exaustão ou das drogas, Victor coloca a arma na mão dela, dobrando seus dedos em torno do punho e dedo indicador no gatilho. Sinto-me como se fosse ficar doente, mas a adrenalina não me deixa. Victor posiciona seu corpo na frente dela e empurra a arma debaixo do queixo e puxa o gatilho com o dedo dela. Eu ouço o tiro ecoar pela sala de paredes espessas, mas meus olhos fecham antes de eu ver o sangue.

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Arthur Hamburg grita o nome de sua esposa e depois despenca para o chão, seu corpo enorme tremendo de emoção. Victor está atrás de mim de uma forma que me faz pensar que ele está tentando proteger meus olhos da visão horrível da esposa. É um gesto silencioso que acho inesperado e reconfortante. "Você tem uma hora." Diz Victor. "Você pode querer colocar a sua história em ordem." "Foda-se! Foda-se!” Arthur Hamburg grita, cospe vomitando insultos. Ele nos aponta friamente, mal levantando o rosto do chão. "Foda-se!" "Isso nunca teria acontecido." Acrescenta Victor. Em seguida, ele envolve um braço em volta do meu ombro e andamos para fora do quarto escondido, ainda me protegendo da visão da melhor maneira possível. Quero me livrar dele tempo suficiente para correr de volta e chutar o filho da puta nojento no estômago com os meus saltos, mas não posso ver a mulher que está morta a poucos metros dele. Não é a visão sangrenta dela que faz parecer tão frio, eu já vi muita morte para ser afetada dessa maneira, mas é a terrível sensação dela ser inocente e a necessidade de ajudar que se torna insuport��vel. O que Victor fez?

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CAPÍTULO TRINTA E SETE Victor Eu paro Sarai na porta da suíte e a viro para me encarar, minhas mãos em seus braços. Eu a balanço. "Ouça-me." Digo e ela levanta os olhos. "Você está ainda no personagem quando nós saímos daqui. Aja como você fez antes que isso acontece. Você entendeu?" Balanço-a novamente. Ela acena irregularmente e, em seguida, toma uma respiração profunda, engolindo o caroço em sua garganta. Nós pisamos no corredor e eu tranco o interior da porta da suíte antes de fechála. qando sairmos em segurança desta mansão e para fora dessa propriedade, está tudo nas mãos de Hamburg. Se ele decidir que ele nos quer mortos, mais do que quer ficar de fora da prisão e perder toda a sua fortuna, então os próximos cinco minutos vão ser complicados. Eu tenho uma arma, a arma que estava dentro da pasta no armário. Nove balas estão na câmara. Não estou totalmente confiante de que eu posso apagar os guardas que estarão atirando em nós com apenas nove balas. Se eu estivesse sozinho e não tendo Sarai para proteger, eu poderia conseguir. "Cabeça erguida." Sussuro duramente para Sarai à minha direita. Ela levanta o queixo e eu deslizo minha mão ao redor da sua cintura, enquanto caminhamos casualmente para o elevador de vidro. Os dois guardas que tinham sido posicionados fora do quarto de Hamburg estão longe de serem vistos, mas há um no final do corredor. Como os outros, ele está usando um fone de ouvido. Passamos por ele casualmente e Sarai usa seu charme, sorrindo um sorriso pouco venenoso para ele. Enganado por ela, ele sorri como um idiota, até o elevador nos deixar no andar de baixo. "Ah, aí está você." Vince Shaw, assistente de Hamburg, fala quando saímos do elevador no piso térreo. "Vocês dois já estão de saída? Vocês deveriam ficar um pouco mais. Lucinda vai tocar para nós nesta noite." Ele fica com as mãos cruzadas ordenadamente na frente dele. Eu sorrio e balanço a cabeça. "Eu adoraria, mas tenho um voo cedo para pegar." "Mas eu quero ficar." Sarai diz como Izabel, e com um pequeno gemido em sua voz.

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"Não desta vez." Eu digo. "Você sabe que eu sempre perco um vôo cedo quando eu não durmo pelo menos seis horas na noite anterior." "Por favor, Victor?" Ela deita sua cabeça no meu braço. Eu ignorar seus esforços artificiais completamente e alcanço para apertar a mão de Vince. "Foi um prazer conhecê-lo." Digo. "Você também. Talvez você possa aproveitar mais a festa da próxima vez." "Talvez." Eu puxo Sarai perto de mim quando andamos em direção à saída. Pouco antes de nós chegarmos a alta porta dupla, ouço a voz de Hamburg passar através da mansão da varanda do quarto andar e nós paramos em nossos caminhos. "Victor Faust." ele chama por sobre a multidão. Eu sinto o coração de Sarai batendo na mão dela quando ela agarra a minha. Eu dou um passo pra longe da porta e volto para a luz para que eu possa vê-lo totalmente. Ele se limpou bem num curto espaço de tempo, a camisa colocada de volta dentro de suas calças, seus cabelos grisalhos que estavam encharcados de suor, lustroso sobre a sua cabeça, provavelmente pelo seus dedos do que um pente. Um momento de silêncio, embora de apenas alguns segundos, na melhor das hipóteses, é tenso. Eu acho que Sarai parou de respirar. Hamburg sorri para nós, suas mãos repousando sobre o guarda-corpo da varanda. "Estou ansioso para vê-lo mais uma vez." Diz ele. Eu aceno. "Até então." Eu digo. O porteiro abre um lado da porta para nós, quando saímos da mansão. Nenhum de nós sentiu seguros até dirigir pelo menos dois metros da entrada da garagem e passar pelo portão sem sermos parados ou baleados. Dirijo ao redor da cidade por trinta minutos antes de voltar ao hotel para certificar-me de que não estamos sendo seguidos. Sarai fica em silencio o tempo todo, olhando para o para-brisa. Ela não tem o olhar de alguém que está traumatizada. Ela está duvidando de mim. Ela está lamentando sua decisão de ter tomado parte no que aconteceu. “Sarai—”

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"O que foi isso?" ela grita, sua cabeça girando para olhar para mim. "Por que aquela mulher foi o golpe? Ela era inofensiva, Victor. Ela precisava de nossa ajuda! Ela era inocente! Não poderia ser mais óbvio!" "Você está certa sobre isso?" Pergunto, mantendo a minha atitude calma. Sarai começa a gritar mais comigo, mas ela para e deixa cair o queixo. "Talvez não." Diz ela, perguntando-se novamente agora. "Mas ele manteve-a naquela sala. Ela estava drogada. Indefesa. Uma prisioneira. Eu não entendo..." Ela olha para o para-brisa novamente. "Pareceu isso, sim." Eu digo. "Mas Mary Hamburg era apenas tão merecedora quanto Arthur." "Quem ordenou o golpe?" Ela pergunta: seu olhar fixado em mim. "Por que matá-la e não ele?" "Mary Hamburg ordenou o golpe em si mesma." Digo e os olhos de Sarai se anuviaram com descrença. "Os dois tinham estado envolvidos em inúmeros casos de estupro e assassinato, mortes acidentais causadas por asfixia erótica, mas no entanto, assassinato, tudo coberto por sua grande conta bancária. Eles estiveram envolvidos neste estilo de vida na maioria de seu casamento. Há anos atrás, Mary Hamburg, de acordo com ela: decidiu que não queria fazer mais parte dessa vida. Seus demônios a pegaram. Quando ela tentou falar com Arthur sobre eles ficarem fora, buscando ajuda e endireitar a sua vida, ele se virou contra ela. Longa história encurtada, ele a tem viciada em heroína e mantida trancada no interior daquele quarto para que ela não possa destruir tudo o que tinham. Mas ele a amava. Em sua própria maneira demente, ele a amava. Era evidente para mim por sua reação com a morte dela." Sarai balança a cabeça lentamente, tentando absorver a verdade. "Como você sabe de tudo isso?" "Eu li o arquivo." digo. "Eu não costumo fazer isso, mas neste caso eu pensei que fosse necessário." "Porque eu estava com você." Ela diz e eu aceno. "Você sabia que eu teria perguntas." "Sim." Ela olha ao longe. "Como ele pôde mantê-la fora de vista pública por tanto tempo? Alguém tinha que saber de algo. Seus filhos. A carta dizia que tinham filhos."

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"Sim, eles tinham." Digo. "Duas crianças que vivem em algum lugar na Europa e não queriam ter nada a ver com qualquer um deles. E Hamburg não deixou Mary fora de vista inteiramente. Ele alegou que ela estava em seu leito de morte. Câncer terminal. Uma vez ou outra, quando uma aparição pública era necessária para manter qualquer suspeita afastada, ele a vestia, a drogava e a colocava sentada numa cadeira de rodas ao seu lado por não mais que alguns minutos. Era o suficiente de uma aparição para as pessoas verem que Mary Hamburg de verdade, parecia estar morrendo de câncer por causa de seu peso e dos efeitos que a heroína tinha sobre ela. Ninguém fazia perguntas." Eu ignoro o manobrista e dirijo-me para o estacionamento do nosso hotel e desligo o motor. Sentamo-nos em silêncio por um momento, envoltos pela fraca iluminação azulcinza, embutidas em vigas de concreto acima de nós. "Mas como ela ordenou o golpe nela mesma?" Ela passa suas mãos na parte superior do cabelo dela. "Eu apenas não-" "Havia poucas pessoas permitidas dentro do quarto onde ela estava escondida. Empregadas apenas. Imigrantes ilegais. Com medo de serem enviadas para o seu país, e provavelmente por suas vidas, Arthur Hamburg sabia que elas não iriam falar. Pelo menos, era o que ele pensava, porque foi uma das empregadas domésticas que ajudou Mary Hamburg armar o golpe." "Ela deveria apenas ter matado ela mesma." diz Sarai. "Se fosse comigo, eu não passaria por todos os problemas." "Você faria se você não pudesse fazer você mesma a tirar sua própria vida. Há muitas pessoas assim por aí, Sarai. Prontas para morrer, mas com medo de fazer elas mesmas." Ela não responde. "Você acha que virão atrás de nós?" Indaga. Eu abro a minha porta e saio, em seguida movendo-me para o seu lado. "Agora, não. Ele poderia já ter feito isso antes de deixarmos da mansão se fosse esse o caso." Eu estendo minha mão a ela. Ela coloca seus dedos nos meus e eu a ajudo a sair do carro.

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Depois de fechar a porta, eu adiciono. "Hamburg tem muito mais a perder. Mas isso não impede que ele invente algum tipo de plano para se vingar de mim, de alguma maneira que ele pense que pode não estar relacionado com." "Ou eu." la diz e olha para mim irremediavelmente. "Ele pode querer se vingar de mim." Acionei o alarme do carro duas vezes e o carro apita, ecoando em voz alta através do estacionamento. Desta vez eu não respondo. Eu ando com ela no elevador e subo até nosso quarto no piso superior. Eu não penso em nada sobre Arthur e Mary Hamburg ou o que rolou hoje à noite. Principalmente, eu penso em Sarai e o que ela passou comigo. Ela não morreu, mas eu sinto que outra parte dela morreu. E é cem por cento minha culpa. Eu sabia que não deveria tê-la levado lá. Estou plenamente consciente das minhas próprias ações e como elas são imperdoáveis. Eu vim com prazo no momento que Sarai não se afastou na última chance que eu lhe dei. Deveria ter sido eu, naquele momento, que deveria ter colocado um ponto final para ela não ter nada a ver com isso. Eu escolhi um caminho diferente. E não me arrependo. Existem mais algumas coisas que Sarai e eu precisamos conversar e eu totalmente espero que a maneira que eu toquei nela na suíte de Hamburg esteja entre as primeiras. Preparo-me para isso, mas quando caminhamos para o quarto e ela arranca seus saltos, ela espanta-me quando fala: "Eu quero matá-lo." Ela senta-se na extremidade da cama e vira a cabeça para olhar para mim, determinação em seus olhos. "Aquele homem precisa morrer, Victor. Ele precisa pagar pelo que fez. Ele precisa pagar com sua vida. Apenas como ela fez." Aí está a minha prova. Sarai tem o sangue de um assassino; não há mais dúvida. Eu sei que eu não fiz ela dessa forma. A vida fez isso, não eu. Mas eu sei que eu sou aquele que, finalmente, puxou o que estava cobrindo seus olhos para vê-lo. "É só uma questão de tempo antes que um golpe seja ordenado a ele, também." Eu digo. Eu tiro minha jaqueta e gravata, colocando-os sobre o encosto da cadeira. "Deveríamos ter feito isso quando tivemos a oportunidade.” Diz ela.

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Desabotoando os botões da minha camisa, eu a olho sentada lá, olhando para a parede, e gostaria de saber de que forma ela está imaginando que ela está matando Hamburg. É sangrento. É vingativo. Eu tenho certeza disso. Eu coloco minha camisa sobre a cadeira junto com minha jaqueta e caminho em direção a ela, tirando meus sapatos no caminho. "Se nós tivéssemos feito hoje à noite." Disse, sentando na extremidade da cama ao lado dela. "Nós não teríamos conseguido sair de lá vivos. Não era parte da missão. Cada missão deve ser planejada precisamente. Desvie-se de qualquer parte dela e você triplica sua chance de se expor ou morrer." Sentamo-nos em silêncio, ambos olhando para fora à frente, ambos com nossos pensamentos. Eu quero saber se os dela são sobre mim. Eu não posso evitar que os meus sejam sobre ela.

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CAPÍTULO TRINTA E OITO

Sarai Eu não quero nunca que Victor me deixe. Eu não podia suportar essa ideia antes, mas agora... agora as coisas são muito diferentes. Nossas almas se tornaram íntimas, querendo ele admitir para si mesmo ou não. Nós somos um no mesmo e eu não quero imaginar ficar sozinha sem ele. Nunca. "Sarai, me desculpe pelo que fiz." Olho para ele. Eu sei o que ele quer dizer, mas eu não sei o que lhe dizer de volta. "Espero que você acredite em mim quando eu digo que eu não tenho nada com isso. Era meramente um show. Eu espero que você entenda isso." Eu acredito nele. Eu sei que eu não posso olhar uma pessoa normal no olho e dizer-lhe o que aconteceu, sem ela pensar que eu fiquei louca, ou que tenha sucumbido à síndrome de Estocolmo. Mas Victor poderia me ter da sua maneira muitas vezes. Ele poderia ter estuprado me. Ele poderia ter cedido algumas vezes que mostrei atração por ele. Mas ele nunca cedeu, e ele sempre afastou-me. Até algumas noites atrás, quando eu escorreguei em sua cama. Ele não afastoume em seguida, mas sei que no fundo ele estava mais em sintonia com a raiva que eu estava sentindo naquele momento do que eu mesma fiz. Sem olhar para ele, pergunto com uma calma na voz. "Se ele não tivesse de colocar o código de acesso para o quarto mais cedo...você teria transado comigo?" Eu observo-o olhar na minha direção, mas eu não encontro seus olhos. "Não." Ele responde com uma voz calma para coincidir com a minha. Ele suspira. "Sarai, eu não podia forçá-lo a abrir o quarto. Ele pode ter socado um código de pânico e alertado os guardas da casa, ou-" Eu olho para ele, finalmente, tranco meus olhos nos seus. "Mas você iria querer isso?" Ele fica quieto. Eu vejo uma luta em seu rosto.

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"Lá não." Diz ele. "Não daquele jeito.” Eu levanto o meu vestido sobre minha cabeça e solto-o no chão. "Você quer agora?" Pergunto. Ele não responde, mas eu aprendi que a única maneira de obter o que eu quero dele, é não ceder. Levanto-me da cama e movo para estar entre as suas pernas. Ambas as suas mãos sobem lentamente pelas minhas coxas e ele dobra seus dedos no elástico da minha calcinha. Seus lábios tocam minha barriga, a ponta da sua língua pastoreia a pele entre as minhas costelas tão suave, gerando calafrios por todo o meu corpo. Passo meus dedos pelo seu cabelo enquanto ele desliza minha calcinha pelos meus quadris e para baixo das minhas pernas. Então eu sento com as pernas abertas no seu colo. Eu o beijo suavemente e sussurro uma vez mais. "Você quer, Victor Faust? Se esse é seu nome." Eu cutuco o lado da sua face com meu queixo. "Somente sob uma condição." Ele sussurra calorosamente na minha boca. "Qual condição?" Ele beija meus lábios lentamente. "Que eu esteja no controle desta vez." Eu separo minha boca perto da dele, provocando-o com um beijo que eu quero que ele tome de mim, meus dedos delicadamente fechados em torno de sua mandíbula. Ele olha em meus olhos por um momento, lendo meus pensamentos. E então, ambos os seus braços envolvem possessivamente em torno de meu corpo, esmagando-me contra ele. Seu beijo é voraz, seus dedos fortes cavando na pele das minhas costas, e eu posso sentir a dureza de seu pau tão distintamente sob o tecido de sua calça, que me faz tremer. Meus lábios se abrem e todo o meu corpo estremece apenas por senti-lo lá, querendo-o dentro de mim, mais do que, eu acho, que nunca quis tanto algo em minha vida. Ele lança uma mão por dentro do meu cabelo, forçando minha cabeça para trás e expondo meu pescoço para ele. Ele beija minha garganta para cima em uma perfeita linha reta, até que encontra novamente a minha boca e leva meu lábio inferior em seus dentes. Sinto dois de seu dedos deslizando por mim embaixo.

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Eu suspiro, minha cabeça ainda forçada para trás em seu alcance e eu impulsiono meus quadris suavemente contra os seus dedos. "Eu quero você dentro de mim." Eu digo ofegantemente. Eu não posso nem fodendo, aguentar mais. Com meus lábios nos dele, as nossas línguas quentes emaranhadas, eu manuseio desajeitadamente o botão de sua calça e, em seguida, deslizo o fecho para baixo. Ele me vira em cima da cama, rastejando em cima de mim e nunca quebra o beijo enquanto tira suas calças com uma só mão. E quando eu sinto o calor de seu corpo nu, envolvo minhas pernas ao redor dele, esmagando-o com minhas coxas, empurrando-me em direção a ele para que eu possa sentir a ondulação de seu pau contra minha umidade. Sua boca procura o meu pescoço e meu peito até que seus dentes encontram os meus mamilos e os morde apenas forte o suficiente para fazer-me choramingar. "Isso vai contra tudo o que eu sou, Sarai." Ele diz e, em seguida, beija-me. "Não, não vai." Eu sussurro e beijo de volta. "É você tornando-se mais quem você realmente é." E, em seguida, ele desliza seu pau dentro de mim lentamente. Eu mal posso manter meus olhos abertos. Minhas pernas tremem e meu corpo tem calafrios com pequenos tremores que se explodem e se infiltram em meu interior. Eu suspiro e empurro meus quadris para frente para forçá-lo mais profundo. Nunca imaginei que o sexo poderia ser assim, da maneira que o meu corpo está reagindo ao dele, nunca poderia ser como isso. Ele levanta seu corpo do meu, ainda de joelhos entre minhas pernas e agarra minhas coxas apertadas nas mãos, puxando-me em direção a ele. Ele fode-me lentamente primeiro, tão lentamente que me deixa louca. Com cada impulso, ele empurra mais profundo até que minhas coxas estão tremendo e eu não posso mais mantê-las ao redor de seu corpo. A parte de trás de minha cabeça se arca contra o travesseiro e eu gemo e suspiro e escavo meus dedos na carne de seus quadris. Ele começa a me foder mais forte e eu aperto o travesseiro acima da minha cabeça, antes de pressionar minhas mãos contra a cabeceira da cama, forçando-me contra ele, sentindo seu pau inchar dentro de mim.

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Ele desmorona sobre mim novamente e eu sinto a umidade de sua boca no meu seio. Minha garganta. Meus lábios. Seu peito se esforça com uma respiração veloz e eu posso sentir seu coração batendo contra o meu. Ele começa com uma velocidade própria, e enquanto ele fode-me lentamente, ele beija profundo e quente e com fome, ele alcança uma das mãos para baixo entre as minhas pernas e move seus dedos em um constante movimento persistente em meu clitóris. Eu passo meu dedos em seu cabelo, segurando-o tão apertado, gemendo em sua boca, degustando a sua língua. Tão em sintonia um com o outro, nós gozamos juntos. Ele tira para terminar, mas não para de mover seus dedos até que o meu tremulo corpo finalmente se acalma e minhas pernas trêmulas se dissolvem como um mingau ao lado dele. Ele repousa sua cabeça suada entre os meus seios, e eu escovo meus dedos através de seu cabelo. Ficamos assim por muito tempo nesta noite, na quietude e no pensamento. E tudo o que eu posso pensar é como nunca quero deixar esse quarto com ele. ~~~~ Deitei enrolada nos lençóis com Victor. As cortinas da janela estão totalmente abertas e olho através do quarto para o céu fracamente iluminado pelas luzes da cidade abaixo dela. Victor adormeceu algum tempo depois de fazer amor comigo. Fazer amor? Não tenho certeza que eu entendo o verdadeiro significado dessa frase. Eu não acho que essa coisa entre nós é amor, ou até mesmo luxúria. É algo mais, algo poderoso e inconfundível que nenhum de nós foi capaz de ignorar. Mas não tem um rosto. Ou um nome. Talvez ele não fez amor comigo, mas ele também não só transou comigo. Foi definitivamente algo mais. Eu ouço o seu coração bater calmamente contra a minha bochecha. Eu sinto a sua respiração suave no topo do meu cabelo. Seu corpo está morno, quase quente, enquanto encontro-me envolvida pelos seus braços. Seu cheiro natural, é de desmaiar, mas também reconfortante e puxa-me para ele como uma abelha para o néctar. "Onde eu vou a partir daqui?" Eu sussurro em meus pensamentos íntimos em voz alta e em seguida, enterro-me ainda mais ao lado dele quando não tenho uma resposta. "Nós vamos descobrir isso." diz Victor, e aperta seu braço suavemente em volta de mim.

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Eu não tinha ideia que ele estava acordado. Eu levanto a minha cabeça de seu peito e deito-me contra seu braço para que assim eu possa ver seu rosto. "Você não vai embora?" É uma tacada longa, mas estou esperançosa. Um segundo de silencio passa entre nós e o seu peito nu sobe e desce com uma respiração profunda e constante. "Sarai, você sabe que eu não posso levar você comigo." Diz ele e meu coração afunda. "Apenas não é realista. Minha vida está na Ordem. Tem sido assim sempre. Não seria como acordar um dia e decidir que eu odeio meu trabalho e querer encontrar algo melhor. Se eu deixar a minha Ordem, pois isso é precisamente o que eu teria que fazer, o próximo golpe que seria organizado seria em mim. E em você." Tenho vontade de chorar, mas não choro. Deitei minha cabeça no seu peito, muito desanimada para olhá-lo mais. Eu olho por todo o espaçoso quarto, meus dedos arqueados no músculo da parte superior do seu tórax. "Eu acho que a única coisa que posso fazer é deixar que você viva a sua vida-" "Mas-" Ele aperta-me novamente. "Deixar você viver a sua vida." Ele continua. "Mas vou visitá-la de vez em quando. Certificando-me de que você está bem, que você está segura e que tem tudo que precisa." Eu não estou satisfeita com isso, mas eu sei também, que é tudo o que eu vou tirar dele. E é melhor que nada. Ele está certo e eu não posso negar isso. Eu quero sempre estar com ele, de qualquer forma que ele se permitir para ter-me, mas eu não esperava que ele arriscasse qualquer uma das nossas vidas para que isso acontecesse. Eu tenho que deixá-lo ir... "Isso é, se você quiser que eu visite." Diz ele. Detecto uma mudança no momento para algo mais leve. Parece-me estranho vindo dele. Eu levanto de seu braço e sustento minha parte superior do corpo sobre o peso de um braço, olhando para ele. Ele está sorrindo. Não apenas seus olhos, mas seus lábios, também. Ele é tão lindo para mim.

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Tão perigosamente belo. Eu me rendo ao momento e empurro minha mão livre divertidamente contra seu lado, rindo levemente sob a minha respiração. "Claro que eu quero." Eu digo. Então, ele pega o meu pulso e cuidadosamente me puxa para baixo em seu peito. Ele corre seus dedos para baixo de um lado do meu rosto e depois o outro, todo o tempo olhando de perto meus olhos, acho que além deles. Gostaria de saber o que ele está procurando nessa profundidade. Seja o que for, eu espero que nunca encontre para que podemos ficar assim para sempre. Ele coloca ambas as mãos sobre os lados do meu rosto e leva os meus lábios aos seus. "O que você fez comigo?" Ele diz. "Eu ia te perguntar a mesma coisa." Eu mordisco seu lábio inferior. Ele pressiona suavemente o seu pau contra mim. "Parece que nós criamos um pouco de problema." Ele diz e empurra contra mim um pouco mais forte. Eu faço o mesmo. Eu suspiro levemente, minha pele estourando com calor e tremores. Ele me beija, mas, em seguida, puxa sua boca fora uma polegada da minha, provocando-me. Inclino-me mais, pressionando meus seios contra o seu peito, querendo o gosto de sua boca, mas ele só me dá um pouco. Ele empurra seus quadris novamente, segurando seu pau contra mim, suas mãos firmes segurando minha bunda. Ele está tão duro, do caralho. Eu quero. Minha boca se abre até a metade e minha respiração estremece através de meus lábios. "Você quer que eu foda você?" Ele sussurra. "É isso que você quer?" Eu arquejo em suas palavras em meu ouvido. Eu não posso responder. Eu não posso pensar direito. "Você quer, Sarai?" Acrescenta, o calor de sua respiração dançando nos meus lábios separados. Eu forço meus quadris contra ele, tentando me posicionar sobre seu pênis de uma forma que eu possa empurrá-lo dentro de mim sem que qualquer uma das nossas mãos faça. "Sim..." Eu suspiro. "Foda-me como você foderia Izabel."

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"Tem certeza?" "Sim..." Eu não posso respirar. "Diga de novo...Izabel." Meus olhos abrem pesadamente enquanto eu olho para baixo para ele. Eu ofego levemente através de meu lábios. Ele os toca com o seu. Antes que eu possa responder, ele levanta da cama em uma posição sentada, mantendo-me em seu colo. A ponta da sua língua se move ao longo da minha clavícula. Ambos os meus seios estão esmagados em suas mãos. "Diga, Izabel." Ele exige e movimenta sua língua contra um mamilo. "Diga-me que você quer que eu te foda." “Eu quero que você me foda.” Ele torce a parte de trás do meu cabelo em sua mão e se levanta da cama com minhas pernas montadas ao seu redor, nos seus quadris esculpidos. Ele me leva para a mesa perto da janela e força-me em cima com minha barriga para baixo. Meus braços saem à minha frente, batendo seu celular e sua arma para o chão, minhas mãos segurando a borda arredondada da mesa. Seus dedos cavam em meus quadris quando ele empurra meu corpo para trás em direção a ele. Ele aperta minha bunda. Forte. Eu inalo agudamente quando sinto suas mãos entre minhas pernas, espalhando-me para ele. O calor de seu corpo duro cerca-me quando ele inclina-se sobre as minhas costas, arrastando a ponta da sua língua em toda o meu pescoço. Sinto seu pau ali esperando por mim e eu tento forçar-me para trás contra ele, mas sua mão firma a parte de trás do meu pescoço, forçando a minha bochecha contra a mesa. "Por favor, Victor." Digo ofegantemente, cada parte de mim abrindo-se para ele. Eu ofego e gemo bem alto quando ele enfia seu pau dentro de mim, meus dentes abocanhando seu dedo indicador enquanto sua mão pressiona gentilmente ao lado do meu rosto. Não, eu nunca imaginei que o sexo poderia ser assim...

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CAPÍTULO TRINTA E NOVE Dormimos demais na manhã seguinte e somos despertados pela camareira batendo na porta do lado de fora. Eu acho que ele não estava encenando na Mansão de Hamburg, quando disse que ele sempre perde um voo cedo se ele não dorme o suficiente na noite anterior. Ou, talvez foi só minha culpa. Eu acho que tenho jogado ele completamente fora de suas rotinas normais. Victor sai da cama e eu não posso evitar e admiro sua forma nua antes de ele se vestir rapidamente. Ele abre a porta para dizer a camareira que vamos sair mais tarde, e que não é pra voltar por pelo menos uma hora. Eu não quero ir pra qualquer lugar. Depois da noite passada, eu só quero... "Prepare-se para ir." Diz ele andando de volta para o quarto comigo. "Eu vou levar você para ficar com uma senhora que eu conheço em San Diego. Você vai ficar segura lá até eu conseguir resolver o resto, te colocar em um lugar que você possa ficar por conta própria. Mas agora, tenho que ligar para Niklas e deixá-lo saber sobre ontem à noite. E eu estou bastante certo de que eu estarei fazendo uma viagem para a Alemanha logo para encontrar-me com meu empregador." Eu só quero falar sobre ontem à noite, ou fazer o que fizemos ontem à noite novamente agora. "Isso não soa bem." Digo quando saio da cama. Eu tenho um mau pressentimento quando ele disse sobre o encontro com o seu empregador. Ele coloca seus sapatos e deixa cair sua bolsa de apetrechos no pé da cama. "Não, geralmente não." Ele diz, vasculhando a bolsa. "Estas duas últimas missões têm criado uma série de perguntas sobre mim e minha capacidade de carregálas para fora como ordenado. Vou ter de comunicar a ele cara a cara para dar-lhe mais uma explicação completa do que se passou e por que as coisas aconteceram dessa maneira." "O que você vai dizer-lhe sobre mim? Você acha que ele saberá que ainda estou viva?" Ele encontra um pequeno punhado de balas e começa a carregar sua 9mm. "Eu descobrirei isso no caminho." Isso também, me dá uma sensação ruim.

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"OK, então, quem é esta senhora em San Diego?" Eu olho para ele agora com um olhar cuidadoso. "Ela não é alguém que você -" "Não." Diz ele, escondendo a arma na parte de trás de suas calças. "Ela não tem nada a ver com a minha Ordem e não sabe de nada do que eu faço. Ela é apenas uma amiga. Conheci seu marido e ela numa missão há cinco anos. É uma longa história, mas não, não é nada parecido." "E o marido dela?" Ele olha para mim uma vez. "Ele não está mais lá." Ele diz. "Por que não? Ele morreu? Eles são idosos?" Eu não posso evitar de fazer todas essas perguntas; Quero saber tudo o que eu puder sobre o lugar que ele me levará. Victor faz uma pausa e, em seguida, diz: "Sim, ele está morto. Ele era meu alvo." "Oh..." Eu não me sinto mais tão confiante de ir até lá. "Você vai ficar bem." Diz Victor, percebendo a preocupação no meu rosto. "Ela não sabe que fui eu." Ele anda em direção a mim, colocando suas mãos sobre os meus ombros. "Eu irei lá embaixo na recepção, liberar o quarto e ligar para Niklas." Ele inclina-se e beija minha testa. "Fique à vontade. Eu estarei de volta em alguns minutos e em seguida vamos embora." Eu aceno, olhando em seus olhos. "OK". Victor deixa o quarto e eu pego um vestido mais casual desta vez e uma calcinha limpa e entro no chuveiro.

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Victor Niklas está com raiva de mim. Eu posso ouvir em sua voz que ele está se esforçando para não ser muito óbvio, que em si mesmo é fora de personagem para ele. "Você disse que iria contatar-me tão logo a missão terminasse." Niklas diz no telefone. "Se foi realizado ontem à noite como planejado, então, por que você está me ligando só agora metade de um dia mais tarde?" Solto minha respiração através do meu nariz. "Leve isso como você quiser, Niklas." Eu digo, ficando tão irritado com ele como ele tem sido comigo. "Você tem que parar de se preocupar tanto comigo." "Eu sou o seu contato." Ele repreende-me. "Sim, mas a parte de você que tem tornado-se tão dolorosamente assíduo sobre como eu escolho fazer as coisas, é meu irmão. Talvez você deveria se reiterar com a sua parte de contato, dessa forma podemos ambos voltar ao mais simples, um relacionamento estritamente profissional." "Entendo." Diz ele. "Você não precisa mais de um irmão agora que você tem aquela garota. Obviamente, ela ainda está viva." Eu deveria ter previsto isso, mas não fiz. "Você não foi substituído, menos ainda por uma mulher." Eu digo. Talvez Sarai não tinha substituído o meu irmão, mas ela se tornou algo a mais para mim e eu não posso explicar isso. Nem para mim mesmo e definitivamente não para Niklas. "Eu tenho novas encomendas." Niklas anuncia, deixando o tópico amargo sozinho. "Eles são de última hora, mas acho que é melhor acabar com isso antes de você ir para a Alemanha se encontrar com Vonnegut. Não dê-lhe mais motivos para duvidar de suas habilidades." "É uma missão?" "Será uma." Diz ele. "O cliente está em Los Angeles e gostaria de encontrar você pessoalmente." "Isso não é padrão." Eu digo. "Primeiro Javier Ruiz, agora esse daí que encontrar-me cara a cara?"

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Eu prefiro passar apenas por Vonnegut e nunca encontrar um cliente em pessoa, mas infelizmente, às vezes, riscos maiores devem ser tomados. "Ela é uma mulher muito meticulosa." Niklas diz. "Quais são as ordens?" "Encontre-a no lado de fora da rua South Spring, 639. Ela estará usando uma blusa branca com um broche de borboleta prata no peito esquerdo. Ela estará lá à uma e meia." "Isso é em menos de uma hora." Eu digo, olhando para o relógio no alto da parede no saguão. Baixo a minha voz para um sussurro quando um hóspede do hotel passa por mim. "Você tem tempo suficiente para chegar lá saindo do hotel." Diz ele. "E por favor, me ligue assim que esse encontro acabar dessa vez." Eu suspiro calmamente. "Eu irei." Eu digo e desligo o telefone. Depois de pagar para um outro dia inteiro por usar o quarto, desde que aparenta que vamos ficar por aqui por mais tempo do que só uma hora, eu tomo o elevador de volta para a informar Sarai de nossa pequena alteração de planos. Em seguida eu saio, deixando-a no quarto para que assim eu possa encontrar com o cliente em particular. Eu dirijo em direção ao local, chegando com vários minutos de antecedência e estaciono em uma vaga a poucos metros de onde eu irei encontrá-la. Eu fico dentro do carro e espero. E tudo o que eu realmente posso pensar é Sarai.

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Sarai Eu nunca fui para San Diego antes. Tecnicamente, esta é minha primeira vez na Califórnia. Fico imaginando como que essa senhora é, o que ela sabe, como ela e Victor são amigos. Eu tenho um monte de perguntas, como sempre, que eu não deixarei Victor escapar de nenhuma sem responder no caminho até lá. Eu varro a minha mão pelo espelho no banheiro, limpando um pedaço através da umidade que enevoa-se sobre o vidro. E sorrio com o meu reflexo. Pela primeira vez desde que conheci Victor, eu estou começando a sentir-me contente, aliviada pela perspectiva do meu futuro. Porque antes, tudo o que podia ver era escuridão, um vazio que não tinha início ou fim, tudo pendurado lá na incerteza. Mas agora eu tenho algo para olhar para a frente. Eu tenho um propósito. E eu não vou desperdiçar um segundo do mesmo. Eu espremo a água do meu cabelo com uma toalha e, em seguida, prendo acima de forma descuidada na parte de trás da minha cabeça. Após sacá-lo e vestir-me, vou para a sala principal e começo a ligar a televisão quando escuto uma batida na porta da quarto. Eu dou uma olhada para o relógio ao lado da cama. Não passou uma hora, já. Colocando o controle remoto de volta na cama, eu ando em direção a porta para responder, mas apenas quando pus minha mão sobre a maçaneta, a voz do outro lado me congela no lugar. "É Niklas. Victor enviou-me para pegar você." Meus dedos se movem pra longe da maçaneta muito lentamente. Dou um passo de distância da porta. Ele bate levemente novamente. "Você está aí? Sarai? Vamos lá e deixe-me entrar. Eu sei que você despreza-me, e francamente eu estaria melhor tomando uma cerveja em um bar meio pitoresco em algum lugar, mas Victor precisava de minha ajuda." Ele está mentindo. Victor teria dito se ele tivesse enviado Niklas aqui. Ele teria dito-me antes de sair, ou ele teria me ligado. Dou uma olhada pro telefone ao lado do cama. Talvez ele ligou enquanto eu estava no chuveiro.

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Dou outro passo longe da porta, meus instintos puxando-me para trás como uma dúzias de mãos. Há mais uma série de batidas e em seguida, silêncio. Eu fico parada no centro do quarto, perfeitamente parada, perfeitamente quieta. O único som que ouço é um zumbido fraco vindo de uma luz. Movendo-me rapidamente através do quarto, eu pressiono o meu rosto perto da porta e tento observar atentamente através do olho mágico. O que eu posso ver do corredor está vazio. Ele foi embora. Mas então, se ele realmente foi, por que estou ainda com medo de que ele esteja logo atrás da porta em algum lugar, esperando que eu coloque a minha cabeça para fora para olhar? Pressiono meu olho em outro ângulo contra o olho mágico, tentando obter uma visão melhor à esquerda e à direita. Em seguida, ouço vozes e vejo uma sombra em movimento ao longo da parede. Meu batimento cardíaco acelera e eu prendo a respiração até que os dois homens passaram. Soltei a minha respiração longa e pesadamente. Mas o alívio é de curta duração quando vejo Niklas novamente. Eu salto para trás e me afasto da porta rapidamente e corro para a bolsa de apetrechos de Victor, vasculho para encontrar a arma de Arthur Hamburg. Victor deixou-a para mim. Nunca se sabe. Mas tenho a sensação de que ele me deixou por causa de Arthur Hamburg. Não de seu irmão. Não há nenhum lugar para esconder-me nesse lugar. Absolutamente nenhum lugar que Niklas não poderia facilmente encontrar-me em menos de um minuto. Eu inalo uma respiração rápida e acentuada quando ouço o som minúsculo de clique de uma chave cartão deslizando na fechadura e destrancando-a. Ele deve ter pegado a chave mestra da camareira. Em meio segundo, e muito tarde pra eu perceber e remediar o meu erro, eu vejo que a corrente na porta está ainda destrancada. Eu corro até ela, sabendo em meu coração, que eu não chegaria na porta a tempo para passar a corrente e trancá-la antes que Niklas entrasse no quarto. E assim que a porta se abriu, estou caindo contra a parede atrás dela, segurando a arma em ambas as mãos contra o meu peito, meu coração bombeando sangue tão rápido através de minhas veias que meus olhos se contorcer perto dos cantos e sinto minha jugular latejante. A porta fecha e trava automaticamente, e Niklas e eu ficamos cara a cara, cada um com uma arma apontada para o outro.

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"Ah, aí está você." Ele diz com esse olhar fulgente em seus olhos que mostra apenas o quanto ele odeia-me. Eu mantenho meu dedo pressionado contra o gatilho e, embora esteja tremendo, eu consigo segurar a arma estável e apontando para a sua cabeça. "Eu vou matar você." Eu adverti. "Sim, eu sei." Diz ele, exalando mais confiança do que eu, de longe. "Você foi a pessoa que atirou em Javier Ruiz, afinal de contas.” Ele suspira dramaticamente e sacode sua cabeça. "Sarai, eu quero que você saiba que eu não curto isso, matar mulheres inocentes. Eu nunca quis matá-la ou feri-la por essa questão, mas o que você fez ao meu irmão... bem, eu não posso ter isso." Mantendo a arma apontada para ele e meu dedo firme no gatilho, eu começo a me afastar da porta. Ele se move com meus movimentos. "Por que você se importa com o que Victor faz com sua vida pessoal?" Ele vira a sua cabeça para um lado. "Victor não tem uma vida pessoal. Nenhum de nós podemos ter isso. É como óleo e água. Certamente você já sabe disso agora." "Ele está levando-me para algum lugar hoje." Digo rapidamente, perdendo qualquer confiança que eu tinha, o que não era muito para começar. "Ele está se livrando de mim. Ele já disse-me que eu não posso ficar com ele. Por que você apenas não pode deixar assim? Ele está fazendo o que você quer." "Não é o que eu quero, Sarai." Conseguimos nos guiar para longe da porta e estamos no centro do quarto agora. "Eu estou apenas tentando protegê-lo. Ele é meu irmão, caralho!" Sua raiva repentina faz-me tremer. Eu reparo o dedo que está no gatilho contrair. "Niklas, por favor, só deixe-me ir embora. Você está certo e eu sei disso. Eu reconheci isso por um tempo, que eu só estou tornando as coisas mais difíceis para Victor." "Você vai fazer ele ser morto!" Ele grita, empurrando as palavras através de seus dentes e o cano da arma na minha direção. "Mesmo se ele deixa você sozinha hoje, mesmo se ele nunca mais ver você novamente, foda-se, mesmo se ele mata você, o que já aconteceu, é suficiente para que a ordem o mate! Você não vê?" Seu rosto está vermelho, quente, com raiva, sua

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expressão distorcida pela dor. "Eles vão matá-lo! Se ele for para a Alemanha, ele está morto, Sarai. Ele te disse isso? Aposto que não lhe disse isso." Não quero acreditar nisso. Eu agito a minha cabeça e quase perco o foco, apertando a minha arma mais forte. "Você não sabe isso." Eu digo, mas no fundo eu acredito nele. "Se isso é verdade, então por que ele iria mesmo assim?" Um sorriso de escárnio aparece na borda da boca de Niklas. Seus dentes moem juntos por trás de seus lábios fechados. "Porque Victor é teimoso." Ele diz. "E um pouco demasiado confiante quando se trata de Vonnegut. Victor tem sido sempre o seu número um, ele sempre foi o melhor. Ele é o melhor no que faz do que todos aqueles que estão sob Vonnegut que vieram antes dele, e ele é ainda o melhor. Mas ser o melhor não o torna imune para o código. Ele tem estragado muito, demais desde que, envolveu-se com você, que não haverá nenhuma exoneração." "Então, deixe-me falar com ele-" "Você fez o suficiente!" Ele ruge.

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CAPÍTULO QUARENTA Victor O cliente está atrasado. Cinco minutos atrasado, mas até mesmo um minuto para alguém que Niklas descreveu como ‘meticuloso' não cai bem comigo. Dois minutos mais e estou indo embora. Eu vejo as pessoas andarem pela rua e eu as estuda pela roupa que estão usando até a maneira que seguram suas cabeças quando andam e falam com aqueles andando ao seu lado. Eles são realmente apenas turistas e residentes? Ou, são iscas? Espiões? Eu não posso nunca ser cuidadoso demais. Isso poderia ser uma armação, como qualquer missão, mas uma como esta, que coloca um nó de incerteza na ponta do meu estômago... Espera.... Eu lembro da minha conversa com Niklas anteriormente: "Encontre-se com ela na rua South Spring, 639. Ela estará usando uma blusa branca com um broche de borboleta de prata no peito esquerdo. Ela estará lá à uma e meia." "Isso é menos de uma hora." Eu digo. "Você tem tempo suficiente para chegar lá do hotel." Eu tinha muito tempo para chegar até aqui do hotel... Eu aperto o volante com as duas mãos, minha mente correndo cem milhas por segundo. Como Niklas sabia disso? Ele não tinha ideia de onde em Los Angeles, Sarai e eu estávamos hospedados. Ele não poderia saber que eu poderia chegar no endereço de onde eu estava naquela quantidade de tempo. A menos que ele sabia exatamente onde estávamos o tempo todo.

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Sarai "Niklas... se você me matar, você vai fazer do seu irmão um inimigo." Minha garganta está seca como lixa, meus pulmões pesados. "Se tudo o que você está dizendo é verdade, se o destino de Victor já está selado, então, o que você ganharia matandome?” Eu levanto a minha voz em desespero e medo. "Não vai resolver nada!" Ele não quer matar-me. Eu não sei se é por causa do que eu disse sobre Victor se tornar seu inimigo, ou se está apenas em conflito, mas seja o que for, é a única coisa que está mantendo-me viva agora mesmo. "Olha o que você tem feito!" Ele enfia a arma no ar em direção a mim, sua mão segurando a coronha tão apertado que suas articulações dos dedos estão brancas. Ele move-se para frente. Eu para trás. “Niklas...por favor.” Eu imploro. Eu não quero atirar nele. Eu sei que é mais provável ele matar-me, mas eu não quero atirar nele. Ele treme de raiva pelos seus olhos por um instante e ele arredonda seu queixo desafiadoramente, sua mandíbula apertada, seus olhos queimam e suas narinas estão em chamas. Sim, ele quer me matar afinal das contas. A porta abre-se e eu ouço um tiro, apenas quando Niklas vira a cabeça para ver Victor entrando como uma tempestade no quarto. E então, outro tiro abafado passa através do quarto, mas Niklas, já correndo na direção de Victor, consegue evitar o tiro e eu ouço a bala passar através do ar a apenas um metro de mim e incorporar-se no interior da parede. Minha arma cai da minha mão e eu caio de joelhos. Demoro alguns segundos para perceber que fui atingida, e uma vez que percebo, eu sinto a queimação da dor no meu estômago. Sangue quente embebe o tecido de meu vestido. Deitei-me de lado, ambas as mãos pressionando firmemente sobre a ferida. A mesa bem na minha frente balança em sua base de madeira quando Victor e Niklas caem sobre ela. Minha pequena caixa de joias cai e bate no chão, quebrando e dispersando as joias. Victor, em cima de Niklas, chove seus punhos para baixo nele, golpe após golpe até que a mesa não aguenta o peso e cai de lado, enviando os dois ao chão. A lâmpada alta que ficava sobre o encosto da cadeira bate na mesa, o cabo arrancado da parede e a lâmpada quebrada em pedaços.

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Niklas está agora em cima de Victor, batendo várias vezes no seu rosto, mas Victor alcança para cima e agarrando a garganta de Niklas, levanta-o de cima dele, batendo as costas dele forte contra o chão. Victor se levanta e chuta Niklas na cara antes de forçar seu caminho através do quarto para pegar sua arma. Em segundos, ele está de pé sobre o corpo rendido de seu irmão com o cano apontado para seu rosto. "Victor, não mate-o!" Eu tento gritar através da dor. Ele pisca para voltar o foco que estava momentaneamente perdido por uma raiva cega, e ele olha para mim. "Por favor, não mate-o," repito com uma voz suave, desesperada. "Ele tentou te matar." Diz ele, olhando para mim com uma expressão confusa, como se ele não pudesse acreditar no que eu estou dizendo. "Ele atirou em você." Pressiono minha mão direita mais forte sobre a ferida, o sangue se movendo nas entrelinhas de todos os meus dedos. Estou começando a me sentir fraca. "Victor, ele é seu irmão. Ele só está aqui, porque ele estava tentando proteger você." Ele olha para a frente e para trás entre eu e Niklas, ambos deitados, sangrando e desamparados no chão, nos cantos os postos do quarto. Seu rosto é consumido por conflito e dor e coisas que eu não posso possivelmente entender, porque eu nunca tive um irmão ou irmã, não sei qual é a sensação de ser amada dessa forma. Talvez Victor nunca soube também, até agora. Tento levantar minha cabeça, mas estou tão fraca que minha bochecha permanece pressionada contra o tapete desalinhado. "Niklas é tudo o que você tem, a única família que sobrou." Digo. "Eu daria qualquer coisa para ter alguém que cuide de mim o tanto que ele cuida de você. Qualquer coisa." O quarto fica muito quieto. Eu posso ver os olhos de Victor, nublando com... Não tenho certeza. Ele está mesmo, realmente, olhando pra mim afinal de contas? Eu sinto que posso ouvir Niklas falando, mas soa abafado e distante em meus ouvidos. Vejo o teto agora. Apenas o teto. Milhares de minúsculos orifícios abrem para mim de dentro do material, e eu sinto que eu posso ver cada um deles quando eles empurram para baixo sobre mim de lá de cima. Esse calor. O que é esse calor que eu sinto ao meu redor que parece um cobertor?

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"Sarai?" Eu escuto uma voz dizer, mas de quem é a voz não posso dizer. Tudo o que vejo é negritude. Tento levantar minhas pálpebras, mas elas estão muito pesadas. Eu escuto a voz novamente e uma pancada de dor irradia pelo meu corpo quando sinto que estou sendo levantada no ar. Eu tento gritar, mas não acho que qualquer um pode realmente ouvi minha voz. Tento gritar...

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CAPÍTULO QUARENTA E UM Eu sinto que estava sonhando por dias. A mesma série constante de imagens e vozes ao meu redor sempre parecem calmas, ainda que persistentes. As imagens, elas são o que diz-me que não é real, porque todos que eu vejo já estão mortos. Javier. Izel. Lydia. Samantha. Minha mãe. Eles caminham por mim com uma espécie de estado calmo e contemplativo, como se eu não estivesse mesmo aqui. Eu quase posso tocar o cabelo da minha mãe quando ela passa. Eu devo estar sonhando. Mas os sonhos estão desaparecendo lentamente e as vozes estranhas e desconhecidas que ouço estão cada vez mais distintas. Sinto como se eu estivesse presa dentro de minha própria mente e como tivesse esquecido de que ela controla meu corpo. Porque não posso mover nada. Nem os meus olhos, ou os meus lábios ou minhas mãos. Eu nem posso dizer se estou respirando sozinha. Mas, principalmente, o que eu penso sobre são as vozes, como mais claras elas estão se tornando. Encontro-me concentrando tão forte quanto posso, para que possa focar em suas palavras, mas nunca consigo ir além do som. Pelo menos, não até ouvir a voz de Victor à distância. "Eu não ficarei aqui por muito tempo hoje." Eu o ouço dizer a alguém. Eu tento acordar, mas acho que o esforço tem o efeito oposto, porque em um instante fui consumida pela escuridão e todas as vozes desapareceram. Mais tempo passa. Mais sonhos. Mais vozes. E depois, assim de repente como se um interruptor tivesse sido invertido no meu cérebro, minhas pálpebras abrem-se e vejo que eu estou deitada em uma cama de hospital. Victor está sentado ao meu lado em uma cadeira. "Você está acordada." Ele diz e sorri para mim. "Por quanto tempo eu não estive?" Eu estou ainda tentando me reencontrar. "Três dias." Diz ele. "Mas você ficará bem. Eles mantiveram você sedada a maioria do tempo que você ficou aqui." Eu tento levantar minhas costas do travesseiro, mas a dor no meu estômago é demais. Eu me encolho e minhas mãos vem exercer pressão sobre a área, mas Victor

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pega minhas mãos e guia de volta para baixo. "Você ainda não pode ficar se mexendo muito." Ele diz e levanta. Ele pega um travesseiro extra de uma cadeira, e o posiciona sob a parte de trás da minha cabeça. Em seguida, ele pressiona um botão ao lado da cama para elevá-la para permitir-me sentar verticalmente. Uma intravenosa corre ao longo do topo da minha mão, colada na minha pele com fita branca. Isso coça como louco. "A bala não afetou nenhum órgão." Victor fala enquanto senta de volta na cadeira. “Você teve sorte.” O rosto de Niklas vem na minha mente. “Ou o seu irmão é apenas um péssimo atirador.” Eu olho para baixo para meus braços descansados sobre a cama no meu lado. Eu quero saber o que aconteceu com Niklas e sinto que deveria esperar que ele esteja morto, mas não posso. "Ele está...?" "Não." Diz Victor. "Metade de mim queria matá-lo, mas a outra metade não poderia fazer isso. Gostaria apenas de saber qual metade tinha ganhado se você não estivesse viva naquele momento." Eu alcanço através da cama algumas polegadas com minha mão em busca da sua. Ele cruza seus dedos com os meus. "Estou feliz que você não fez." Eu digo, empurrando um sorriso fraco na superfície do meu rosto. "Eu não poderia viver comigo mesma se eu tivesse sido a razão pela qual você matou seu irmão. Eu...eu nunca deveria ter me metido entre vocês. Eu não sabia o que estava fazendo, Victor. Eu sinto muito." Ele aperta a minha mão. "Você fez algo que ninguém mais pôde." Diz ele, e espero ansiosamente para ele me dizer o que isso poderia ser. "Você me fez lembrar que eu tenho um irmão, Sarai. Nós nos sentamos praticamente como estranhos lado a lado em uma mesa nos últimos vinte e quatro anos. E eu vejo agora, que apesar de seus defeitos, ele nunca traiu-me nenhuma vez." Ele faz uma pausa e seu olhar guina. Então ele olha de volta para mim.

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"Em certo sentido, ele traiu-me quando foi lá para matar você." Ele continua. "Ele me traiu quando enganou-me para que chegasse até você. Sim, isso é uma traição. Mas é um tipo muito diferente de traição." "Eu sei." Eu digo. "Olhe para mim." Ele olha. "Você fez a coisa certa. Independentemente do que ele fez para mim, você fez a coisa certa e eu nunca quero que você ache que vou sentir-me diferente." Ele não fala, mas eu conheço esse olhar em seu rosto, é o conflito que está sempre por lá. Gostaria de saber se ele nunca vai ser livrar disso. Em seguida, ele diz. "Mas você fez outra coisa que ninguém nunca poderia ter feito." Suas características amolecem e meu coração está derretendo lentamente. "Você fez-me sentir emoções reais. Você me destravou." Eu alcanço e toco seus lábios com os meus dedos, minha mão embalando o seu queixo. As mudanças de assunto estão muito rápidas. "Niklas nunca mais vai machucar você." Diz ele. "Ele me deu sua palavra. E além do mais, ele sabe que se alguma vez ele tentar, eu não hesitarei em matá-lo na próxima vez." Então, de repente, acrescenta. "Você é tão importante para mim como ele é." Eu estou atordoadamente quieta. Victor se levanta e caminha para a janela, cruzando os braços, olhando para fora para o dia bem iluminado. Eu posso ver que há tantas outras coisas que ele quer dizer, tantas pontas soltas que ele quer amarrar comigo. Mas as coisas mudaram desde que Niklas atirou em mim. Eu posso sentir isso. E não vou brigar mais com ele, porque sei que tem que ser dessa maneira, que tem que acabar da forma que vai acabar. "Não espero vê-lo alguma vez mais, Victor, e eu entendo." Eu tenho dificuldade de engolir. Não quero dizer estas palavras. "É melhor assim, eu sei." "Sim, infelizmente é." Diz ele distante, de costas para mim. "Eu não posso manter você segura com a vida que vivo. Eu queria, mas no final, eu não podia. Eu sabia melhor, mas eu... " Eu espero calmamente. "...Mas eu estava errado." diz ele, embora eu quisesse que ele falasse outra coisa. "Me desculpe, mas não há nenhuma outra maneira." Meu coração está quebrando...

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"Prometa-me uma coisa." Eu digo e ele vira somente a cabeça para olhar para mim. "Não vá para a Alemanha. Não vá ao encontro daquele homem, seu empregador ou qualquer inferno que ele seja. Niklas contou-me sobre o que acontecerá se você for pra lá. Por favor, não vá..." Eu ouço-o suspirar baixinho e ele olha de volta para fora da janela. "Eu não posso prometer isso." Ele diz e meu coração se desfaz. "Mas posso prometer que não vou ficar lá e deixar alguém matar-me." Isso não faz sentir-me melhor, mas eu sei que é tudo o que ele vai me dar. Ele deixa a janela e tira um pacote de uma maleta que estava sobre uma mesa próxima. Ele anda de volta para meu lado e coloca-o na minha mão. É uma longa caixa preta colocada dentro de um pacote de papel esfarrapado que tinha sido coberto de fita em algum momento. Eu puxo a caixa do pacote e abro a tampa. Uma única pilha de dinheiro está dentro, junto com um envelope que foi dobrado longitudinalmente para caber e algumas outras partes aleatórias de papel. "O que é tudo isso?" "Seu certidão de nascimento verdadeira, cartão social de segurança, registros de tiro, no qual você está atrasada em alguns que você deverá cuidar disso em breve." Ele aponta para o envelope dobrado enquanto estou abrindo para ver o conteúdo. Eu olho para a minha certidão de nascimento primeiro. Sarai Naomi Cohen. Nascida em 18 de julho, 1990. Tucson, Arizona. Eu digo meu nome completo na minha cabeça três vezes, apenas para que possa sentir que é real para mim, real como costumava ser. Isso não acontece. "Como você conseguiu isso?" Eu olho para Victor." "Tenho minhas maneiras.” Diz ele com um sorriso por trás de seus olhos. "Eu também arrumei pra você uma conta bancária. Os detalhes são o resto dos documentos na caixa." "Obrigado, Victor." Digo, colocando minha certidão de nascimento no meu colo. "Por tudo.” Significa muito pra mim o que eu estou dizendo a ele. Eu estaria morta muitas vezes se não fosse por ele. Mas dizer estas coisas para ele, essa despedida, esta retalhando cada última batida que resta do meu coração.

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"Quando você vai embora?" Pergunto. Eu realmente não quero saber a resposta. Eu coloco os documentos de volta no envelope e fechei dentro da caixa. "Em alguns minutos." Diz ele e bloqueio minhas lágrimas. Eu quero ser forte para ele, porque sei que isto é difícil para ele também. "Mas há mais uma coisa antes de eu ir." Ele vai para a porta e abre-a. Entra a Sra. Gregory. Estou tão chocada que a única parte do meu corpo que se move são as lágrimas fluindo pelo meu rosto. Minha mão sobe sobre minha boca. Eu olho para frente e para trás entre eles. Eles estão ambos sorrindo, Victor nem tanto, mas sorrindo no entanto. Sra. Gregory, parecendo muito mais velha do que eu lembro-me dela, caminha em direção a minha cabeceira com os braços abertos e ela envolve-me em um abraço. Ela cheira ao perfume Sand&Sable. Ela sempre usava. "Oh, Sarai, eu senti muito a sua falta." Ela me aperta suavemente, sabendo como não machucar-me. Sua voz é pesada de emoção, mas ela está vibrante de alegria. "Senti sua falta também." Eu digo, apertando-a de volta. "Eu nunca pensei que iria vê-la novamente." Ela afasta-se e senta ao meu lado na cama, correndo seus dedos longos e envelhecidos através do meu cabelo. Mas

então

meu

sorriso

desvanece

e

meu

coração

finalmente

morre

completamente quando eu olho de volta para onde Victor ficou, para ver que ele foi embora. Por um longo momento, as coisas que a Sra. Gregory estava me dizendo pareciam um som abafado, forçado em algum lugar longe no fundo da minha mente. Eu quero pular dos limites desta cama e correr atrás dele. Engulo duro, empurrando minhas cicatrizes de emoções para baixo no mais profundo de mim, e ajeito-me tanto quanto eu posso por causa da Sra. Gregory. Eu volto para ela e desfruto de nossa reunião.

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CAPÍTULO QUARENTA E DOIS Isso foi seis meses atrás. Hoje, a vida é muito diferente. A conta bancária que Victor criou para mim tinha dois milhões de dólares. Eu peguei o avião com Sra. Gregory quatro dias depois de Victor ir embora, só então eu encontrei a força para olhar para os outros documentos que ele tinha deixado dentro da caixa. Um era as informações da minha conta bancária e na parte de trás, rabiscado por Victor: Seu lucro por executar o trabalho. Sinceramente, Victor Ele me deu sua parcela do dinheiro que Guzmán pagou para ter Javier morto. Eu acho que foi justo, uma vez que fui eu que tecnicamente o matou. Mas a vida é definitivamente diferente. Eu voltei a viver no Arizona com a Sra. Gregory. Na cidade de Lake Havasu. E eu tenho dinheiro suficiente para que não tenha que trabalhar, mas para manter minha mente ocupada e tentar ficar em conformidade com esta vida de normalidade, eu trabalho as noites em uma loja de conveniência. A Sra. Gregory não gosta. Isso a assusta. Ela diz que é perigoso trabalhar em lugares como este, que ficam abertos em todas as horas da noite. Acontece que ela está certa. Eu fui assaltada na minha segunda semana lá, mas quando o cara estava do outro lado do caixa apontando a arma para mim, tudo que eu podia fazer era ver seus olhos. Quando ele olhou para baixo para o dinheiro que coloquei em sua visão, esbofeteei a arma para o lado, consegui agarrá-la de sua mão e depois bati no seu rosto com ela. Foi estúpido, realmente. Mas foi instinto. Eu não fico muito intimidada pela escória de usuários de metanfetamina que roubam mulheres jovens em lojas de conveniência. Isso é brincadeira de criança. Mas eu, definitivamente, não sou uma durona reformada criada pelas minhas experiências extraordinárias, também. Basta perguntar para a aranha que rastejou em mim na outra noite, enquanto eu estava lendo um livro na cama. A Sra. Gregory quase teve um ataque cardíaco de tão alto que eu gritei.

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Fui para a escola para obter meu GED6 e passei no teste dois meses atrás. Não foi muito difícil para mim, embora lutei com a matemática. Agora estou inscrita na faculdade da comunidade, embora eu não saiba o porquê. Eu realmente não tenho interesse nisso no 'mundo real', mas... bem, normalidade. Essa tem sido minha desculpa para tudo nesses dias, para sair com meus amigos de novos, para fingir estar interessada em seus objetivos de vida. Isso faz eu sentir-me uma pessoa terrível que eu tenho que fingir essas coisas, mas não posso forçar-me a gostar de algo só porque eu deveria. Mas nem tudo é tão insuportável. Eu amo a Sra. Gregory e eu passo a maior parte do meu tempo com ela. Ela tem artrite avançada, que seus dedos estão retorcidos e ela não pode tocar muito piano, mas ela ainda ensina-me e eu ainda toco, às vezes por horas, até que meus dedos estão com câimbras e minhas costas estão duras. Eu finalmente dominei Sonata ao luar. E cada vez que eu toco, eu penso em Victor e à noite que ele sentou ao piano comigo. A saúde da Sra. Gregory está ficando pior. Eu cuido dela, mas sei que ela não vai ficar aqui para sempre, e que um dia vou ficar sozinha novamente. Eu gosto de pensar que talvez Victor ainda está lá fora, observando-me e, às vezes eu engano a minha mente para acreditar que ele está. Mas a realidade é que eu nem sei mesmo se ele ainda está vivo. Eu tento não pensar nisso, mas acaba sendo tudo o que sempre penso, exceto quando estou perdida no piano. Eu sinto falta dele. Eu sinto muito a falta dele. Algumas pessoas acreditam que, quando duas pessoas se separam, ao longo do tempo elas curam. Eles começam a se interessar por outras pessoas. Eles continuam com suas vidas. Mas isso nunca aconteceu comigo. Sinto um vazio mais profundo agora do que sentia quando vivia no complexo. Este é mais doloroso, mais insuportável. Tenho saudades de tudo sobre Victor. E eu seria uma mentirosa se dissesse que não penso nele sexualmente em uma base diária. Porque penso. Eu acho que estou viciada nele. Tem sido tão difícil para mim adaptar-me em quase tudo, mas o grande esquema das coisas, seis meses não é um tempo muito longo. Não em comparação com os nove anos que fiquei no complexo. Então, eu estou com esperança de que quando GED - General Educational Development em português Desenvolvimento Educacional Geral. Os testes são um grupo de cinco testes de diferentes assuntos que, quando aprovado, certifica que o aplicante tem competências acadêmicas de nível médio americano ou canadense. 6

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mais seis meses se passarem, estarei melhor. Eu serei 'normal'. Meus amigos, embora eu não possa contar sobre minha vida, e, eu acho que é por isso que tive tanta dificuldade de me aproximar deles, são realmente ótimos. Dahlia é um ano mais velha que eu. Beleza média. Inteligência média. Carro médio. Emprego médio. Nós somos iguais nos caminhos da média, mas não poderíamos ser mais diferente se tratando de todo o resto. Dália não pula com qualquer som que assemelhase remotamente a uma bala. Eu pulo. Dália não olha por cima do seu ombro em todos os lugares que ela vai. Eu olho. Dália quer se casar e ter uma família. Eu não. Dália nunca matou ninguém. Eu faria isso novamente. Mas sou grata, não importa como muitas vezes eu sonho em estar em outro lugar. De ser outra pessoa. Sou grata porque eu escapei. Sou grata porque estou em casa. Embora 'grata' seja muito diferente de 'satisfeita' e apesar de finalmente ter uma vida normal que muita gente adoraria ter, estou tão longe de estar satisfeita quanto possa estar. Victor Faust fez muito mais do que me ajudar a escapar de uma vida de abusos e servidão. Ele mudou-me. Ele mudou a paisagem dos meus sonhos, os sonhos que eu tinha todos os dias de viver normalmente e livre e por conta própria. Ele mudou as cores da paleta de primárias para arco-íris, tão escuras como as cores do arco-íris podem ser, e não passa um dia sem que eu não pense nele ou sobre a vida que poderia ter tido com ele. Embora perigosa e por fim curta, é o que eu quero. Porque foi uma vida que se adaptou melhor comigo e, bem, teria sido uma vida com Victor. Eu ainda não estou pronta para deixá-lo ir... "Aí está você." Sra. Gregory diz da porta do meu quarto. "Você vem comer?" Eu pisco para voltar para a realidade. "Oh sim, estarei lá num segundo. Preciso lavar minhas mãos bem rápido." "Tudo bem." Diz ela; seu sorriso brilha. Eu realmente sou a filha que ela nunca teve. E, eu acho que é seguro dizer que ela é a mãe que nunca tive. Sra. Gregory, ou Dina, sempre cozinha cachorro quente e chili nas noites de sexta-feira. Sentamo-nos juntas na mesa da cozinha assistindo à televisão HD montada na parede da cozinha. Está passando o jornal. Está sempre passando nesse horário.

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"Então, você e Dahlia já decidiram um lugar para passar as férias de verão?" Engulo a minha comida para baixo com um gole de soda. Começo a responder quando alguma coisa no jornal prende o meu olho. Um repórter está no lado de fora de uma mansão muito familiar, conversando com um homem muito familiar. Distraidamente, eu coloco o meu garfo de volta no meu prato... "Claro que desejava poder ir com vocês duas." continua Dina. "Mas estou velha demais para essas coisas". Estou demasiada absorta na televisão para dar-lhe atenção: "Sim Senhora." Arthur Hamburg diz no microfone. "Todos os anos eu faço meu melhor para contribuir. Este verão, estou planejando um evento para arrecadar um milhão para a minha nova caridade, Projeto de Prevenção, em homenagem a minha esposa." O repórter acena positivamente com a cabeça e olha fracamente arrependido, reposicionando o microfone na frente dele. "E isso é prevenção de drogas ou de suicídio?" "Prevenção de drogas." Arthur Hamburg, diz. "No meu coração, minha Mary não cometeu suicídio. A dependência das drogas foi o que matou-a. Eu quero fazer a minha parte ajudando outras pessoas que são viciadas em drogas e também para ajudar a prevenir o abuso de drogas antes de começar. É uma doença tão terrível neste país." Assim como mentir, a violência sexual e assassinato, seu bastardo. "Sim, é mesmo, Sr. Hamburg" O repórter diz. "E por falar em doença, eu entendo que você também já foi dando dinheiro para pesquisa de câncer por causa de- " "Eu tenho." Arthur Hamburg corta-o. "Ainda me sinto terrível sobre mentir a todos sobre a doença de minha esposa e eu duvido que eu nunca desculpei-me o bastante por isso. Mas como eu disse antes, eu estava apenas protegendo-a. Pessoas podem aceitar o câncer, mas eles não tem tanta aceitação sobre o uso de drogas e fiz o que eu tinha que fazer para proteger minha esposa. Mas sim, está certo que eu também doei a pesquisa do câncer." Você é como um pedaço de merda. Eu cerro os dentes. "Sarai?" Dina diz do outro lado da mesa. "Você decidiu por Florida ou Nova York?"

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O resto das palavras de Arthur Hamburg murcham no fundo da minha mente. Eu penso na pergunta de Dina por um longo tempo, olhando através dela. Eu olho para ela finalmente e pego meu garfo e respondo. "Não, na verdade eu acho que vamos fazer uma viagem para Los Angeles nesse verão." Eu cortei um pedaço do pão do cachorro-quente que estava no meu prato e enchi de chili e dei uma mordida. "Los Angeles?" Dina diz curiosamente e, em seguida, dá uma mordida no seu próprio. "Vai fazer a coisa de Hollywood, hein?" "Sim." digo distantemente. "Será ótimo." Eu tenho trabalhos inacabados lá. Eu sorrio para mim mesma pensando nisso e, encubro com outro copo de refrigerante.

Leia a continuação da história de Victor e na Sarai em... REVIVENDO IZABEL

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Para ver mais sobre os personagens de KILLING SARAI , visite a página do Pinterest do autor: PINTEREST.COM/JREDMERSKI/KILLINGSARAI/ OUTROS LIVROS POR J.A. REDMERSKI *** THE EDGE OF NEVER THE EDGE OF ALWAYS (Coming November 2013) DIRTY EDEN -THE DARKWOODS TRILOGY#1 – THE MAYFAIR MOON #2 – KINDRED #3 – THE BALLAD OF ARAMEI SOBRE O AUTOR J.A. Redmerski, New York Times, USA Today and Wall Street Journal A autora de bestselling vice em North Little Rock, Arkansas com seus 3 filhos, dois gatos e um maltês. Ela é uma amante da televisão e livros que te empurram ao limite e é uma grande fã de AMC's ‘The Walking Dead’. www.jessicaredmerski.com www.facebook.com/J.A.Redmerski www.twitter.com/JRedmerski www.goodreads.com/JRedmerski Aviso: Spoilers a frente! Se você não leu THE EDGE OF NEVER, não continue.

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Dê uma espiadinha do primeiro capítulo da sequência de J.A. Redmerski THE EDGE OF NEVER, THE EDGE OF ALWAYS: THE EDGE OF ALWAYS CAPÍTULO UM Andrew Há alguns meses atrás, quando eu estava imobilizado naquela cama de hospital, eu não imaginava que eu estaria vivo hoje muito menos estar esperando um bebê e noivo de um anjo com um mês indecente. Mas aqui estou eu. Aqui estamos nós, Camryn e eu, ocupando sobre o mundo ... de uma forma diferente. As coisas não saíram como nós as planejamos, mas, novamente, as coisas raramente o fazem. E nenhum de nós mudaria a forma como acabou mesmo se pudéssemos. Eu amo essa poltrona. Era a poltrona favorita do meu pai e a única coisa que ele deixou para trás que eu queria. Claro, eu herdei um cheque gordo que irá estabelecer Camryn e eu por um tempo e é claro que eu tenho o Chevelle, mas a poltrona foi igualmente sentimental para mim. Ela odeia ela, mas ela não vai dizer isso em voz alta, porque era do meu pai. Eu não posso culpá-la, é velha, ela fede e há um buraco no colchão dos dias de fumante do meu pai. Eu prometi a ela que eu ia conseguir alguém aqui para limpá-la, pelo menos. E eu vou. Assim que ela descobrir se vamos ficar em Galveston ou mudar para Carolina do Norte. Eu estou bem com qualquer um, mas algo me diz que ela está se privando do que ela realmente quer por causa de mim. Eu ouço a água do chuveiro desligando e segundos depois um grande estrondo vibra através da parede. Eu pulo da poltrona, deixando o controle remoto cair no chão quando eu corro para o banheiro, a beira da mesa de café corta essa porcaria fora da minha perna enquanto eu passo. Eu abro a porta do banheiro. "O que aconteceu?" Camryn balança a cabeça para mim e sorri, inclinando-se para pegar o secador de cabelo do chão ao lado do vaso sanitário. Eu respiro um suspiro de alívio. "Você é mais paranoico do que eu." Ela ri.

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Ela olha para a minha perna enquanto eu a esfrego com os meus dedos. Coloca o secador de cabelo de volta no balcão e chega até mim beijando o lado da minha boca. "Parece que eu não sou a única de nós que precisa se preocupar em ser propenso a acidentes.” Ela sorri. Minhas mãos se apoiaram nos cotovelos dela e eu a puxo para mais perto, deixando uma mão cair para tocar sua barriguinha arredondada. Eu mal posso dizer que ela está grávida. Aos quatro meses, eu pensei que ela estava, pelo menos, emulando um bebe hipopótamo, mas o que eu sei sobre isso? "Talvez." Eu digo, tentando esconder o vermelho na minha cara. "Você provavelmente fez isso de propósito só para ver o quão rápido eu poderia chegar aqui." Ela beija o outro lado da minha boca e depois vai para me matar, beijando-me totalmente e profundamente enquanto pressiona seu corpo nu molhado contra o meu. Eu gemo contra sua boca, passando os braços ao redor dela. Mas então eu me afasto antes de cair em sua armadilha desonesta. "Caramba mulher, você tem que parar com isso." Ela sorri para mim. "Você realmente quer que eu pare?" Ela pergunta com o sorriso de más intenções

dela.

Essa merda me aterroriza quando ela faz isso. Uma vez depois de uma conversa misturada com aquele sorriso, ela parou de fazer sexo comigo por três dias inteiros. Piores três dias de minha vida. "Bem, não." Eu digo nervoso. "Eu só quero dizer agora. Temos exatamente 30 minutos antes de nós termos que estar no consultório do médico." Eu só espero que ela fique com tesão durante toda a sua gravidez. Já ouvi histórias de horror sobre como algumas mulheres vão de querê-lo o tempo todo, até que elas ficam muito grande e, em seguida, se você tocá-las elas se transformam em duendes cuspidores de fogo. Trinta minutos. Droga. Eu poderia dobrar ela sobre o balcão rapidinho... Camryn sorri docemente e puxa a toalha na haste da cortina do chuveiro e começa a se secar. "Eu vou estar pronta em dez." Diz ela enquanto ela acena pra mim. "Não se esqueça de molhar a Georgia. Você achou o seu telefone?" "Ainda não." Digo quando eu começo a ir em direção a porta, mas paro e acrescento com um sorriso sexualmente sugestivo: "Ummm, poderíamos..."

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Ela fecha a porta na minha cara. Acabo saindo rindo. Corro em todo o apartamento, procurando em almofadas e em lugares estranhos as minhas chaves e finalmente as encontro escondidas debaixo de uma pilha de lixo postal no balcão da cozinha. Eu paro por um momento e pego uma determinada parte do correio em meus dedos. Camryn não me deixa jogá-las fora, porque era o que ela olhou ao dar a telefonista do 911 meu endereço na manhã que tive a convulsão na frente dela. Eu acho que ela se sente como se aquele pedaço de papel ajudou a salvar minha vida, mas realmente o que isso fez foi ajudá-la a eventualmente entender o que estava acontecendo

comigo.

A

convulsão

era

inofensiva.

Eu

tive

várias.

Inferno, eu tive uma quando estávamos no hotel em Nova Orleans antes de começarmos a compartilhar um quarto. Quando eu finalmente disse a ela sobre isso mais tarde, desnecessário dizer, ela não ficou feliz comigo. Ela se preocupa o tempo todo que o tumor vai voltar. Eu acho que ela se preocupa com ele mais do que eu. Se isso acontecer, aconteceu. Nós vamos passar por isso juntos. Nós sempre vamos passar por tudo juntos. "Hora de ir, querida!" Eu grito da sala de estar. Ela sai do nosso quarto, vestida com uma calça jeans bastante apertada e uma camiseta igualmente apertada. E saltos. Sério? Saltos? "Você vai apertar a cabecinha dele nessa calça jeans." Digo. "Não, eu não vou apertar a cabeça dele." Ela nega, enquanto pega sua bolsa no sofá e coloca nos ombros. "Você está tão segura de si mesma, mas vamos ver." Ela pega a minha mão e eu a levo para fora da porta, testando a maçaneta da fechadura antes de fechá-la firmemente atrás de nós. "Eu sei que é uma menina." Eu digo com confiança. "Cuidado, quer apostar?" Ela sorri olhando para mim. Saímos para o ar leve de novembro e abro a porta do carro para ela, apontando para dentro, com a palma para cima. "Que tipo de aposta?" Eu pergunto. "Você sabe que eu sou bom em apostar." Camryn desliza sobre o assento e eu corro para o meu lado e começo a entrar e descanso meus pulsos em cima do volante, olho para ela, esperando.

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Ela sorri e mastiga suavemente o interior de seu lábio inferior, pensando por um momento. Seu cabelo longo, loiro desaba sobre os ombros, os olhos azuis brilhando de emoção. "Você é o único que parece tão certo." Ela finalmente disse. "Então, você define a aposta e eu vou concordar com ela ou não vou." Ela para abruptamente e aponta o dedo severamente para mim. "Mas nada sexual. Eu acho que você praticamente tem essa área coberta. Pense em algo..." Ela gira sua mão ao redor na frente dela: "Eu não sei... ousado ou significativo." Hmmm, eu estou oficialmente perplexo. Eu deslizo a chave na ignição, mas dou uma pausa antes de ligá-lo. "OK, se for uma menina, então eu escolho o nome dela." Digo com um sorriso suave, orgulhoso. Suas sobrancelhas se contorcem um pouco e ela vira o queixo em um ângulo. "Eu não gosto dessa aposta. Isso é algo que nós dois devíamos participar, você não acha?" "Bem, sim, mas não confia em mim?" Ela hesita. "Sim... Eu confio em você, mas..." "Mas não com um nome do bebê." Levanto uma sobrancelha interrogativamente para ela, mas na verdade eu só estou mexendo com sua cabeça. Ela não pode mais me olhar nos olhos e ela parece desconfortável. "Bem?" Pressiono. Camryn cruza os braços e diz: "Que nome você tem em mente, exatamente?" "O que faz você pensar que eu já tenho um escolhido?" Eu giro a chave e o Chevelle ronrona à vida. Ela sorri para mim, inclinando a cabeça para um lado. "Oh, por favor. Você obviamente já tem um escolhido, ou você teria tanta certeza que é uma menina para fazer aposta comigo quando temos um ultrassom para fazer." Eu olho para longe sorrindo e colocando o carro em marcha à ré. "Lily." Eu digo e mal consigo pegar os olhos de Camryn enquanto estamos saindo do estacionamento. "Lily Marybeth Parrish." Um pedaço discreto de sorriso nos cantos dos lábios.

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"Na verdade, eu gosto disso." Diz ela, e seu sorriso fica maior e maior. "Eu admito, eu estou um pouco preocupada, por que Lily?" "Nenhuma razão. Eu só gosto deste nome." Ela não parece convencida. De brincadeira ela estreita os olhos para mim. "Estou falando sério!" Eu digo, rindo suavemente. "Eu tenho pensado em vários nomes

na

minha

cabeça

desde

um

dia

depois

que

você

me

contou."

Um sorriso aquece Camryn e se eu não fosse um cara, eu me afetaria com o momento e iria me permitir corar como um idiota. "Você ficou pensando em nomes em todo esse tempo?" Ela parece feliz, surpresa. OK, então eu corei qualquer de maneira. "Sim." Admito. "Ainda não pensei em um nome bom de menino, ainda, mas nós temos vários meses para pensar sobre isso." Camryn fica apenas olhando para mim, sorrindo. Eu não sei o que está acontecendo dentro de sua cabeça, mas eu percebo que meu rosto está ficando mais vermelho quanto mais ela olha para mim assim. "O quê?" Eu peço e soltou uma risada. Ela se inclina sobre o assento e levanta a mão para o meu rosto, os dedos puxando meu queixo para o lado. E então ela me beija. "Deus, eu te amo." Sussurra. Leva um segundo para perceber que eu estou com um sorriso tão grande que o meu rosto se sente esticado. "Eu também te amo, agora coloque o seu cinto de segurança." Eu aponto para ele. Ela desliza para trás e para o lado dela e clica o cinto de segurança no lugar. Enquanto nós chegamos no consultório médico, ambos ficamos olhando para o relógio no painel. Mais oito minutos. Cinco. Três. Eu acho que ele afeta a ela tão forte como ele me faz quando nós saímos para o estacionamento do prédio. A qualquer momento iremos conhecer o nosso filho ou filha pela primeira vez. Sim, há alguns meses atrás, eu não achei que eu estaria vivo... ********** "A espera está me matando." Camryn sentada ao seu lado na sala de espera se inclina e sussurra. Isso é tão estranho. Sentado no escritório do doutor com garotas grávidas em todos os lados de nós. Eu sou o tipo que tem medo de fazer contato visual. Algumas delas parecem irritadas. Todas as revistas para rapazes parecem ter um homem na

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capa, em um barco segurando um peixe com o dedo em sua boca. Eu finjo estar lendo um artigo. "Só estamos sentados aqui por cerca de dez minutos." Sussurro de volta e passo a palma da minha mão em sua coxa, deixando o resto da revista no meu colo. "Eu sei, eu só estou nervosa." Enquanto eu vou para pegar a mão dela, uma enfermeira de uniforme rosa sai por uma porta lateral e chama o nome de Camryn e nós a seguimos de volta. Sento-me contra a parede enquanto Camryn se despe e, em seguida, coloca em um desses vestidos do hospital. Eu a provoco sobre seu bumbum estando em exposição e ela finge estar ofendida, mas o rosto corado a entrega. Sentamos e esperamos. E esperamos um pouco mais até que uma outra enfermeira chega e tem toda a nossa atenção. Ela lava as mãos na pia por perto. "Você bebeu bastante água uma hora antes do exame?" A enfermeira pergunta depois das saudações. "Sim, senhora." Diz Camryn. Eu posso dizer que ela está com medo que algo possa estar errado com o bebê e o ultrassom que vai mostrá-lo. Já tentei lhe dizer que tudo vai ficar bem, mas isso não a impede de se preocupar. Ela olha para o outro lado da sala para mim e eu não posso ajudar, além de levantar-me e mover-me para o lado dela. A enfermeira faz uma série de perguntas e coloca um par de luvas de látex. Eu ajudo a responder as perguntas que eu consigo, porque Camryn parece cada vez mais preocupada a cada segundo que passa e ela não fala muito. Eu aperto-lhe a mão, tentando aliviar sua mente. Após a enfermeira esguichar um gel em sua barriga, Camryn toma uma respiração profunda. "Uau, isso é que é uma tatuagem que você tem aí." Diz a enfermeira. "Deve ter sido muito especial para colocar uma tão grande quanto as costelas." "Sim, é definitivamente especial." Camryn diz e sorri para mim. "É de Orfeu. Andrew tem a outra metade. Eurydice. Mas é uma longa história." Eu orgulhosamente levanto minha camisa sobre minhas costelas para mostrar a enfermeira minha metade. "Impressionante." Diz a enfermeira, olhando para ambas as tatuagens em turnos. "Você não vê isso aqui todos os dias."

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A enfermeira deixa por isso mesmo e move a sonda através do gel apontando a cabeça do bebê e do cotovelo e outras partes. E eu sinto o aperto de Camryn na minha mão lentamente aliviando quanto mais a enfermeira percorre e sorri ao explicar como 'tudo está parecendo bom’. Eu vejo o rosto de Camryn ir de nervoso e duro para aliviado e feliz, e isso me faz

sorrir.

"Então, você tem certeza que não há nada para se preocupar?" Camryn pergunta. "Tem certeza?" A enfermeira acena e me olha por alguns instantes. "Sim. Até agora eu não vejo nada de preocupação. O desenvolvimento é exatamente da forma que esperamos que sejam. Movimento e pulsação é normal. Eu acho que você pode relaxar." Camryn olha para mim e tenho a sensação de que estamos pensando a mesma coisa. Ela confirma quando a enfermeira diz: "Então, eu entendo que vocês estão curiosos para saber o sexo?" E nós dois apenas damos uma pausa, olhando para o outro. Ela é tão linda. Eu não posso acreditar que ela é minha. Eu não posso acreditar que ela está carregando meu bebê. "Vou levar essa aposta." Camryn finalmente concorda, me pegando de surpresa. Ela sorri brilhantemente e segura na minha mão e nós olhamos para a enfermeira. "Sim." Responde Camryn. "Se isso for possível agora." A enfermeira passa a sonda de volta para uma área específica e parece estar dando uma última verificação de suas descobertas antes de anunciar...

TRADUÇÃO E REVISÃO

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J a redmerski killing sarai (1) lido (esperando o livro 2)