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EXCLUSIVO João Pessoa, Paraíba - QUINTA-FEIRA, 1 de novembro de 2012

A UNIÃO

Karina Simões Psicológa e sexóloga

Erotização precoce afeta o desenvolvimento Teresa Duarte

A

teresaduarte2@hotmail.com

sexualidade é hoje um tema bastante abordado na sociedade e os especialistas defendem que o sexo traz benefícios a saúde a exemplo de melhorias na pele, diminuição do risco de infarto, queima de calorias, melhoria na autoestima, aumento da imunidade, alivia a TPM (Tensão Pré-Mestrual), entre outros. Mas é bom as pessoas ficarem atentas porque o desejo rebaixado ou, muitas vezes, ausência total da vontade de fazer sexo, pode representar um sintoma de algum transtorno mais sério, como uma grave depressão. Quem fala sobre o assunto na entrevista a seguir, é Karina Simões. Ela é psicóloga Clínica Cognitivo Comportamental e sexóloga no Centro Universitário de João Pessoa (Unipê), fez especialização em Psicologia da Saúde e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), é membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC), e atua há mais de 10 anos em consultório no atendimento a adolescentes, adultos, casais e famílias.

Geralmente em qual faixa etária a sexualidade é despertada? Na infância, entre os quatro ou cinco anos é normal, por exemplo, a criança já despertar e questionar de onde ela veio? Se foi da barriga da mãe, como foi que ela foi parar lá? Desperta para beijos na boca com amiguinhos na escola etc. Sem falar que descobrem os órgãos genitais e que eles dão prazer. É uma fase de descoberta natural e saudável que tem que ser encarada com muita naturalidade e tranquilidade. É comum nos dias atuais pessoas assexuadas? Não é comum não. Os assexuados, termo pouco usado na verdade, acabam canalizando essa pulsão, ou seja, essa energia sexual, para outro lado e fatores da vida. Assim, canalizam e concentram a energia sexual muitas vezes para o poder, um status social vinculado à política, por exemplo, é bem comum.

A questão hormonal tem relação com o quadro da pessoa assexuada? Pode ter sim relação. Pois a sexualidade é a uma junção de fatores, social, psicológicos, hormonais e fisiológicos. Quando há alteração hormonal no nosso corpo, nossa sexualidade é alterada. Muitos podem desencadear o contrário, por exemplo, um quadro de hiper sexualidade ou de hipo sexualidade. O desejo rebaixado ou muitas vezes, ausência total, pode representar um sintoma de algum transtorno mais sério, como uma grave depressão. Existe tratamento para cura do assexuado? Não se fala em cura na Psicologia ou Psiquiatra, ou na ciência que estuda o comportamento humano. Atualmente, tem acontecido uma tentativa de compreensão para que seja encarado como uma não patologia, mas uma orientação sexual legítima. Mas, percebemos que tal critério se encaixa no distúrbio de hipoatividade sexual, ou mesmo no da aversão sexual. E se assim for,

deve ser tratado sim. Pois sendo um transtorno de aversão sexual, por exemplo, há tratamento específico para tal. O termo assexuado parece muitas vezes está sendo encarado e enquadrado como sintoma. Se olharmos por outro angulo, há estudiosos que nos afirmam que os assexuados podem ser vistos como uma quarta orientação afetivo sexual, levando em consideração as existentes: hetero, homo e bissexual. Qual a relação da sexualidade com o ato sexual? Sexualidade é um conjunto de fatores. Sexualidade é o corpo inteiro, por exemplo, já o ato é um pedaço apenas. O ato sexual é apenas uma parte da sexualidade. A sexualidade é ampla e abrangente. O beijo, o toque, caricia, o afeto, o olhar, etc... Fazem parte da sexualidade sem o ato apenas de penetrar por exemplo. O ato em si, com a famosa penetração do ato, é apenas um detalhe!

As pessoas assexuadas em sua grande maioria são do sexo masculino ou feminino? Anthony Bogaert, autor do livro “Entendendo a Sexualidade” afirma em uma pesquisa feita, que 70 milhões de pessoas não sentem atração sexual seja por homens ou por mulheres. Mas toda pesquisa tem sua margem de erro, principalmente quando estamos falando em sexo. Como você avalia o comportamento sexual das pessoas na sociedade atual? Hoje o comportamento sexual tem modificado sim. Tem tido bônus e ônus. Assim como em toda evolução. A evolução traz prejuízos conjugados. A sexualidade hoje tem sido mal explorada e mal aproveitada. A banalização parece ter tomado conta do mercado. E assim a erotização precoce na infância, vem estragando psicologicamente os adolescentes de amanhã e jovens também. Vem acontecendo uma confusão na identidade sexual e os valores e crenças ficaram meios perdidos. Não estou aqui fa-

zendo apologia a um sexo antiquado ou retrógado, de forma alguma. Mas precisamos de mais reformas políticas em reeducação sexual, nas escolas, nos órgãos públicos, na mídia, etc. As pessoas ficaram mais “soltas” na sexualidade, mas estão perdidas em como conduzí-la. É possível uma pessoa viver feliz sem o sexo? É possível sim. Há aquelas pessoas que podem fazer disso uma escolha, como o celibato por exemplo. E muitos são felizes nesse caminho.

Quais os benefícios do sexo para a saúde? São indiscutíveis os benefícios que o sexo pode trazer ao corpo e à mente de todos nós. Mas, gostaria de levar vocês a refletirem o bem maior que o sexo faz quando é feito com afetividade, com vontade e quando acontece com encontro entre almas. Porque quando você consegue unir os benefícios fisiológicos do corpo que o ato sexual pode propiciar a um ato de afetividade maior a sua mente, você entenderá o real valor da sexualidade a dois. Sexo e amor são diferentes e iguais ao mesmo tempo. Diferentes quando se faz numa intenção de ruptura, divisão ou obrigação, quando se faz sozinho mesmo a dois. São semelhantes

quando se faz com vontade e afetividade, quando o cheiro do outro parece ser o seu e se mistura num encantamento mútuo. São iguais quando, mesmo sozinho, se faz junto. Porque sexo com amor se faz a dois. O sexo traz diversos benefícios à saúde, a exemplo de melhorias na pele, diminuição do risco de infarto, queima de calorias, melhoria na autoestima, aumento da imunidade, alivia a TPM, entre outros. Crimes homofóbicos são realidade nos dias atuais. Esse comportamento de repugnância nas pessoas tem relação com a sexualidade? Sim e como tem. Muitos homofóbicos podem apresentar traços de transtornos de personalidade por exemplo. Falar sobre sexo ainda sofre preconceito dentro da sociedade. O atendimento em seu consultório é mais frequente pelo sexo feminino ou masculino? Já tenho mais de 10 anos atuando na área e vejo uma modificação na procura hoje. Posso dizer que hoje são equiparados homens e mulheres. Até porque eu estimulo muito quando é o homem que me procura, estimulo que ele traga a parceira, se assim for o caso. E vice-versa.

Após os 50 anos é comum em ambos os sexos a perda do apetite sexual. Isso é normal ou existem técnicas para que esse problema seja evitado? Há uma perda significativa sim, em muitos casos até antes dos 50 anos. Mas existem técnicas para que se cuide melhor e se tenha uma longevidade na atividade sexual com qualidade. Desde alimentação, prática de exercícios físicos até reposições hormonais e mesmo o equilíbrio e o tratamento psicológico para isso.

A sexualidade hoje tem sido mal explorada. A banalização parece ter tomado conta do mercado.


Jornal-Uniao-nov2012