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MIGUELIN

- caipira, mineiro, contador de est贸rias


Carlos Vieira

MIGUELIN

- caipira, mineiro, contador de estórias

Revisão norma culta: João Batista Xavier Revisão linguagem caipira: Ulisses Martins Goulart

Belo Horizonte • 2010


Ficha Catalográfica Bibliotecária: Denise Cristina de Castro CRB 1941-6 V657

Vieira, Carlos Miguelin - caipira, mineiro, contador de estórias. / Carlos Vieira -- Belo Horizonte : Fundac-BH, 2010. 104 p. : il. ; 21 cm. ISBN 1. Literatura brasileira. 2. Contos brasileiros. 3. Crônicas brasileiras. 4. Ficção. I. Título.

CDU 869.0(81)-34

Revisão: João Batista Xavier

www.fundac.org.br

Diagramação e arte da capa: Josemar Lucas


Uma obra de ficção literária em que as personagens, os fatos, os conflitos são fictícios e sem quaisquer relações com eventos, pessoas ou situações da vida real.


Para ATHAYDE VIEIRA DE SOUZA, meu saudoso e amado pai, filho de Guarani do Rio Pomba, MG, contemporâneo do Miguelin de árduo trabalho, alma pura e coração grande.


Sumário

1. O “assuicídiu” do Albano Pedroso Netto .... 13 2. O namorico do Coronel Antônio Pedroso Netto com a Zizinha Rocha .... 23 3. A estória do Capitão Fortunato Silva e do valentão do seu filho Nestor Silva .... 31 4. Miguelin – caipira, mineiro, contador de estórias .... 45 5. Véia vira moça, véio vira rapáiz, cum o chá da casca da canela sassafráiz .... 63 6. O mundo religioso do Miguelin .... 75 7. A estória do Falante e do Calado e do bicho das sete cabeças .... 93


Nossa estória revela a saga de um coronel de terra, vista pela perspectiva de um afilhado seu - caipira e parceiro de caminhada desde as duas últimas décadas do século XIX até a metade do século XX, na Zona da Mata das Minas Gerais. Nesta época e neste cenário, um menino pobre de família cabocla, através de sua indômita tenacidade, se torna um próspero comerciante de gado, respeitável, temido. Cria uma prole numerosa. Torna-se delegado de sua cidade, chefe político e proprietário de sete fazendas. De repente, premido por uma doença aguda, devastadora, invalidante, pelas vicissitudes do dia-a-dia de uma família numerosa e pelos reveses de sua época e de seu meio, é vencido pela enfermidade e pela perda quase completa de sua riqueza material. Santa Maria do Desterro, Belém de Minas, Guarani, Rio Fundo, Tabuão da Serra, Realejo, Extrema... Zona da Mata mineira... seu mundo, na compra, engorda, transporte, abate e comércio de gado. Ao seu lado, sempre solidário, leal e disponível, o Miguelin, caboclo, contador de estórias, criado como afilhado-filho do coronel e de sua esposa, no âmago de uma prole de quatorze irmãos, narra e acompanha a senda do coronel e a sua própria através da dimensão de seu olhar, mineiro, caipira, universal.


Capítulo 1

O “assuicídiu” do Albano Pedroso Netto “Est miserum vivere arbitrio alterius” (1)

- Oh! Ocê vai trabaiá, vagabundo. A galinha da minina do Juaquim Perêra da Moenda ocê num guenta cumprá os’ôvo deila, Sô! - Quê isso Totonho? - Ocê tá munto novo pra casá rapáiz. Vai trabaiá mais. Ocê num trabaiô qui chega não Sô! - Ôh Totonho! Ocê tá ruinano minha vida. Ocê fazê isso cumigo? Eu já trabaiei dimais. - Qui nada Sô! - Eu já gastei sesseinta conto naqueila fazeinda. Botei máquina locumove, caldêra, máquina de café, formei lavôra pra vinte e cinco mil. Lá tem trezeinto carnêro, duzeinto capado na céiva, tem mais de trezeinta cabeça de porco, mais de trezeinta égua, uns trezeinto burro novo... E ocê vem mi falá isso, Totonho? - Não. Vai trabaiá mais Sô! - Totonho ocê tá ruinano minha vida. Sô home de fíbria, sô home nervoso, sô home sintido. O qu’eu trato, eu faço. Se num tivé jeito de fazê eu morro. - Qui morre qui nada Sô! Como o Coronel mostrava-se irredutível na fala e no semblante, o Albano Pedroso Netto foi até sua mãe, Briza, como a lhe pedir socorro: - Briza... Eu vim aqui... Eu namoro a fiia do Juaquim Perêra da Moenda. Eu têm boa intenção de casá cum eila. Eu levei sesseinta conto pra Fazenda do Lageado. Gastei tudo lá! Sentei máquina de café. - 13 -


Sentei máquina de arrôiz. Fiz ingém-de-cana. Eu têm dois jumento. Um cavalo campulina na cochêra. Trezeinto... A mãe, consternada pela situação desesperadora do filho, mas, sentindo, de outro lado, a oposição fria, insensível e irredutível do marido naquela situação, aconselhou: - Oh Aldin! Ocê já trabaiô munto, meu fiio. Trabaia mais um pôco. Ocê sabe qui mãe é mãe, mais pai é pai, tamém... E o seu pai é munto servero... - Ôh Briza... - Eile é seu pai, e eu sô sua mãe. Eu mermo num quéiro vê ocê perdê nada, e ocê deve obedecê eile. - Ôh Briza, ocê falô, falô, falô, mais ocê tamém tá é ruinano minha vida. O Albano Pedroso Netto continuava impaciente, desesperado, inconformado. Caminhou até o Zézinho Neto e falou... Foi até perto do Alvin e falou... Foi junto ao Clemente e ao Lucas e falou... A todos os irmãos e irmãs se dirigiu. Por último interpelou o Mindinho Netto. Este lhe retrucou: - Oh Aldin! O Totonho é assim mermo. É munto danado, é munto têso. Ocê sabe qui cond’eile inrreda inriba dum tréim, eile é brabo... A gente tem qui respeitá eile, né? Pobre infeliz do Albano Pedroso Netto! O mundo havia desabado sobre sua cabeça, e sua resistência em aceitar a oposição firme de seu pai a seu casamento trouxe à cena um matiz tragicômico: andava de um lado a outro; gesticulava sem parar; buscava apoio ora de um, ora de outro, ora de todos os membros da família. Quanto mais argumentava em favor de seu casamento com a Eunice da Silva Pereira, filha do Joaquim Pereira da Moenda, sem receber o devido amparo à sua causa, mais sua perplexidade crescia. De tempos em tempos, tapava os ouvidos com as duas mãos, como se não quisesse ouvir mais quaisquer ponderações, senão aquelas em defesa de seu matrimônio. Insistiu muito buscando apoio e compreensão. Tudo em vão. E, num ato tresloucado - e talvez derradeiro -, segurou pela cintura sua mãe e a levantou aos ares e, desvairadamente, vaticinou: - 14 -


- Ôh! Eu sô homo! O qui eu marco, eu cumpro... Ocês vai ficá sabeno de um acunticimento ruim cumigo. O Albano Pedroso Netto era de uma força de pegar quatro arrobas de um peso qualquer e jogar à distância sem demonstrar qualquer esforço no semblante. Repetiu a cena com alguns de seus irmãos e, derrotado, terminou no Zezinho Netto: - Oh, Zezim Neto! Dispede aqui de seu irmão. mília.

Abraçaram-se, comovidos, sob o olhar estarrecido de toda a fa-

Incontinenti, deixou a casa de seus pais e rumou de volta para a Fazenda do Lageado, no meio da noite, e, mais uma vez, sozinho. Ninguém se animou, na oportunidade, a ponderar com ele aquele ato irrefletido ou, mesmo, a lhe opor qualquer resistência. Longa havia sido sua caminhada – trinta léguas – para sua felicidade: receber a autorização e a bênção de seus pais para desposar a Eunice da Silva Pereira, filha do Joaquim Pereira da Moenda. E para tal, há oito dias, deixara a Fazenda do Lageado, na cidade de Santa Maria do Desterro, perto de Serra do Antão, rumo à Fazenda das Águas, na cidade de Tabuão da Serra, perto de Rio Fundo, Minas Gerais, de onde, soberano, seu pai, o legendário Coronel Antônio Pedroso Netto, sinônimo de árduo trabalho, constante rebeldia e muita bravura, comandava suas sete fazendas. E quem era o Joaquim Pereira da Moenda? Joaquim Pereira da Silva, cognominado Joaquim Pereira da Moenda, era um homem de muitos alqueires. Suas terras faziam divisas com as da Fazenda do Lageado. Futuro sogro de nosso cavaleiro Albano Pedroso Netto, porque dele aceitara, há um mês, o pedido de casamento de sua filha primogênita, Eunice da Silva Pereira. Esse grande fazendeiro era pai também do Mariano da Silva Pereira, casado com Dona Coralina, Dona Coralina Coração de Maria, e se tornaram herdeiros dos oitocentos e cinquenta alqueires de terra da Fazenda das Pedras, dos trezentos e cinquenta alqueires da Fazenda da Forragem e dos trezentos e setenta e cinco alqueires da Fazenda do Lageado, comprada do Coronel Antônio Pedroso Netto. - 15 -


O Albano Pedroso Netto, apesar de sua tenra idade, vinte e nove anos, terceiro filho dos quatorze do casal Antônio Pedroso Netto e Briza Matias Netto, superava a todos os irmãos na constância de sua lida, na determinação de seus desejos e na firmeza de suas atitudes. Era seguramente o orgulho do Coronel e com certeza seu sucessor no prestígio e na fortuna futuros. O Albano Pedroso Netto, nascido em quatro de abril de mil e novecentos, às nove horas da manhã, na cidade de Tabuão da Serra, Minas Gerais, desde cedo demonstrou um espírito jovem e um coração inocente, ingênuo, sem más intenções. Enfrentava sempre os desafios da vida de maneira entusiástica, atacando sempre frontalmente os obstáculos e se jogando impulsivamente no meio de suas contendas. Temperamento belicoso, egocêntrico, líder por natureza, exibia seu estilo direto e honesto, não permitindo que ninguém interferisse na sua liberdade, nem que lhe dissesse o que fazer. Tipo visionário, jeito manso, solitário por natureza, era levado a se comunicar mais pelos seus sonhos e fantasias. Se o mundo real se tornava muito aborrecido (o que acontecia com grande frequência) ou se se percebia incompreendido, tentava parar o mundo ou saltar fora da vida, principalmente quando de suas crises de depressão, momentos em que experimentava um grande desespero íntimo e uma dúvida mordaz, cruel, destrutiva quanto ao que fazer ou qual direção tomar. Na sua primeira juventude, teve muita dificuldade em definir suas ambições ou em acreditar que poderia alcançá-las, mas, logo no início de sua vida adulta, quando começou a atingir objetivos materiais bem definidos, ganhou rapidamente o respeito por parte de seus familiares e concidadãos. Com nove anos de trabalho na cidade de Santa Maria do Desterro granjeou a amizade e o respeito de quase todos (principalmente dos mais velhos), e tudo indicava que se tornaria um sólido pilar daquela comunidade. Sanguíneo, espontâneo, transparente, tinha um defeito imponderável - a impaciência. E, apesar de isso significar que sempre conseguia que as coisas fossem feitas depressa, muitas vezes lhe faltava determinação para consolidar suas vitórias, uma vez obtidas. - 16 -


Sofria também de uma tremenda inquietação e falta de pulso, apesar de seu estilo de vida dinâmico e cheio de ação. Em razão de tal característica, precisava de atividades que oferecessem um grande número de desafios e que fornecessem muito estímulo e agitação. Quase oito novos dias se passaram na caminhada de volta. De repente, avistou ao longe a Fazenda do Lageado - seu recanto querido - local de muitos desafios, de muitas lutas e de conquistas muito significativas. Quantas foram as ocasiões em que havia explicado, orgulhosamente: - É uma fazenda de trezeinto e seteinta e cinco arquêr de terra, trezeinta égua, duzeinto capado, quatruceinto carro de mio no paiór, vinte e cinco mil’arrôba de café, um cavalo campulina, trezeinto carnêro, trezeinto burrico novo... quareinta e cinco colono. Prezado leitor, como toda essa estória foi-me contada pelo Miguelin, testemunha viva e afilhado do Coronel Antônio Pedroso Netto, vamos deixá-lo continuar a narração: - Cond’eile chegô lá na Fazenda do Lageado, naqueile dia, tocô o sino incima da jinela do quarto deile, di modo disimbestado: Blem! Blem!... Blem! Blem!... Blem! Blem! E puxô a corda. - Pariceu quareinta e cinco colono. Aquilo tudo ispáiado qui nem uma guerra. Os colono apariceno tudo revortado: uns de purrete, ôtros de ispingarda nas cacunda, ôtros de garrucha e o feitô de revórve. Eiles veio sabê quê qui tinha acunticido. - Oh Sô Aldin, quê qui é qui hôve aí uai? Ânimo abatido, olhos enterrados no chão, consternado, o Albano Pedroso Netto dirigiu-se a seus colonos, ali no pátio, na frente da casa: - Pois’entonce... Eu tô chamano ocêis aqui hoje... Vim lá do Tabuão da Serra. Tive lá cum o Totonho. Tive lá cum a Briza. Tive lá cum os minino tudo. E quéiro fornecê ocês hoje. Dá’ocês um dinherim. Amanhã ocês qué i no cumérço, nas venda... O Albano Pedroso Netto foi dando a seus colonos de tudo – carne, arroz, feijão. E como faltavam vasilhas para carregarem os mantimentos, porque vieram para brigar chamados pelo sino (não esperavam se abastecer), eram assim ordenados: - Vai ali na cunzinha e pode panhá as vasia e os mantimento. - 17 -


deles:

Depois deu a cada colono dois mil réis; dois mil réis a cada um - Ôh Dilermano duis Sainto! Vem aqui qui eu ti dô dois mil réis. - Vem cá, Zé Serafim. Vou te dá um dinherim tamém. - Vem cá, Pedro Grande. - Ô’cê, Serafim Fiio. - Oh Gerardo Polinim, vem cá. - Vem aqui, Du Martim. - Vem cá, Juaquim Nado. - Francisco Nado. - Sirvino Nado. - Mestre Nado. - Zé Furtuna. - Duduca. - Jão Quinquim. - Zé Paxão, traiz aí tamém o Gumercino...

E assim o Albano Pedroso Netto foi servindo a cada um de seus colonos. Esses não entendiam o que estava acontecendo. Obedeciam, porém, sempre, cegamente, ao patrão, e ele parecia na sua sã consciência. Sua voz era firme, e, na verdade, quem poderia lhe desobedecer? Mesmo assim o feitor Dilermando dos Santos perguntou se ele estava passando bem: - Tô munto contrariado, Dilermano. O Totonho mi contrariô munto lá no Tabuão da Serra. Eu vô mermo é vê se mi aguento. Todos ali presentes sabiam que ele havia ido pedir a bênção do Coronel Antônio Pedroso Netto para suas núpcias com a filha do Joaquim Pereira da Moenda. Algum tempo após, um por um, os colonos foram se retirando. Quando o último ultrapassou os limites do pasto de porco magro, que era distante da casa da fazenda mais de quinhentos metros, e fechou a porteira, foram ouvidos dois estalidos. - 18 -


Miguelin acentuou que o Albano Pedroso Netto tinha uma garrucha de cabo de madrepérola, uma 320, e que o mesmo a levou dentro da boca e puxou: - Tá! Tá! E caiu. Caiu, e os derradêro colono iscutô o tombo. Não me contive e perguntei: - E ele conseguiu dar dois tiros dentro da boca, Miguelin? - Cunsiguiu. Eile airmou os dois cão dos gatilho e impurrô os cano da garrucha airmada deintro da boca... Puxô o primêro tiro – tá e, intrimeio a gastura da morte, saiu ansim o sigundo tiro - tá. - Hum! - Aí eile caiu pra lá, e eiles ôviu aqueile baruio. Dois dos empregados voltaram correndo, comentando: - Hôve um tréim lá no Aldin. Quando entraram na casa o encontraram, lá no seu quarto, esticado, inerte, morto. Saíram gritando: - O Aldin morreu. O Aldin morreu. O Aldin assuicidô. Todos voltaram. - O Dilermano duis Sainto qui era o feitô e era o mais sabido bateu pru Santa Maria do Desterro. Chegô no Santa Maria do Desterro e intilegrafô lá pru Tabuão da Serra: o Aldin tinha assuicidado pur mode da fiia do Juaquim Perêra da Moenda. - Vierum tudo imbarcado de tréim pru interro do Aldin Neto. O tréim sai lá do Rio Fundo e vem... E inté quatro hora da tarde dá de tá em Serra do Antão. O ôtro tréim pega e rasta pr’ali incima e vai pra inté sete hora da noite qui chegá dentro do Serra do Vale. Aí us pessoá disimbarcô e foi prá o Rio Claro inté na Fazenda do Lageado, distânça de duas légua e tanto, quase trêis de apé. As irmã: Beatriz, Cunsuelo, Luciana, Isabela, Constânça, Maria Froripes; e os irmão: Zezim Neto Fiio, Sebastião, Arbano, Cremente, Lucas, Mindim Neto, Arvino, e a minha madrinha Briza... O Coronel veio tamém: - Oh Sô! O minino morreu Sô! É burro Sô! Morrê pur causo duma moça Sô! Muié num vale isso não Sô! - 19 -


Os irmãos comentavam quando distantes do pai: - O Totonho divia é tê dexado o homo casá cum a fiia do Juaquim Perêra da Moenda... Uma moça boa... Totonho contrariô todo mundo... Nóis daqui num queremo é nada. Nóis quiria aqui mermo era o Aldin. Conta o Miguelin: - O interro foi munto cuncurrido. O falicido vistia camisa branca de casimira orora, carça preta e uns sapato munto bunito, num caxão munto largo e cor’azul, pruquê era sortêro. O Albano Pedroso Netto era um homem sem inimizades. Seu féretro foi acompanhado por quase todos os fazendeiros e colonos da região com suas respectivas famílias. Todos se revezavam no transporte do caixão: - Um pegava, ôtro quiria pegá. Eile passô de mão im mão nas duas légua e cinco quilômetro da Fazenda do Lageado até o cimitério, no arto do Santa Maria do Desterro. Foi interrado as trêis hora da tardinha, nos fundo da necrope, a isquerda, na parte dos pagão, pruquê um suicida... O cortejo parô na Matriz do Santa Maria do Desterro, onde o padre Jusé Venânço fêiz uma grande práitica. Contava mais de quinheintas pessoa no tudo da murtidão, deintro e fora da Igrêja. Continuou: - O padre Jusé Venânço era nêgo, mei gago e munto virtuoso. Eile custumava dizê qui dexô de sê branco pra sê franco. Eile num era ingual a esses padre safado qui anda pur’aí, hoje, não. Morreu dois ano dispôis do Aldin, na Serra do Antão. Aduiceu e num durô nada; uma infirmidade breve. Uma purcissão acumpanhô seu corpo do meio do camim de Serra do Antão inté Santa Maria do Desterro ino na Igrêja Matriz e adispôis pru cimitério. O túmalo deile é de frente do Aldin, mais tá na parte sagrada do cimitério. Que coisa hein Miguelin? É. O Aldin cumo’um assuicida foi interrado na parte pagã, lá no arto, no fundo, perto do muro, na isquerda de quem sobe. Ano trazado fui no Santa Maria do Desterro e adispôis de visitá a Eunice da Sirva Perêra, lá na cidade, subi inté o cimitério e visitei o túmalo do Aldin. Tava inscrito inriba da tampa deile: “Albano Pedroso Netto, 4.4.1900 - 30.3.1930, saudades de seus Paes”. Fiquei triste dimais. O túmalo tava tudo carcumido, sem cuidado; tudo abandonado. - 20 -


E quem mais estava enterrado lá? - O Juaquim Perêra da Moenda no mei do cimitério. E tamém seu fiio Mariano da Sirva Perêra, na inlameda ceintral, de fronte do Árvaro, perto do oratóirio - um túmalo munto bunito, todo preto, luzídio, cum um baita crucifixio incima deile; tão bem cuidado e artaneiro qui dá gosto de se vê! Como o Miguelin parecia anunciar o epílogo da estória, não me contive, e perguntei por que o Albano Pedroso Netto se matara? Não podia contrariar as ordens do pai e manter sua palavra sem precisar tirar sua vida? - O povo hoje num cumpriende isso, dotô, disse o Miguelin. O quê qui é raça, o quê qui é fíbria, o quê qui é moral. Naqueile teimpo tinha isso... Tinha essa qualidade... Hoje o povo num intende o quê qui é isso... E acrescentou: - Uma palavra era uma palavra. Cumo eile num pôde assustentá o qui tinha prumitido pru pai da moça deu dois tiro deintro da boca. E a Eunice da Silva Pereira (quis saber), nunca mais se engraçou com alguém? - Ficô sortêra a vida toda, assegurou-me o Miguelin. ... - Agurinha, ano trazado tive cum eila e cum seu irmão Mariano da Sirva Perêra e a muié deile, Dona Coralina. Eiles tudo me considera munto. Dispôis de munto teimpo do assuicidio do Aldin Neto, o Juaquim Perêra da Moenda saiu cumprano tudo inquanto é terra perto deile. Cumprô a Fazenda das Pedra, de oituceintos e cinqueinta arqueires de terra. Cumprô a Fazenda da Forrage. Cumprô a Fazenda do Lageado do padrim Antônho Pedroso Neto (a merma qui o Aldin se assuicidô). Cumprô a fazenda Toca do Lobo, de trezeintos e vinte arqueires. Eiles era gente rica, rica mermo. ... - Purisso qui o Coronel falava: - Oh Sô! Ocê num guenta cumprá os ovo da galinha daqueila moça... - 21 -


... - Eu mermo leimbro o dia qui o Juaquim Perêra da Moenda cumprô a fazenda do padrim Antônho Pedroso Neto pur quinheintos conto. E esticando o braço e balançando a mão direita como quem paga alguém, dramatizou: - Assim ó, ó, sem tirá o pé du lurgá, ó! E novamente com grande admiração exaltou o feito: - Quatruceinto carro de mio no paiór; dois burro na cochêra – um ispanhór e ôtro campulina; um chamava Polônuo e o outro chamava Araponga; um cavalo campulina pur nome de Quinhentão. Custô tudo quinheintos mi’réis. Finalizou entusiamado: - O Juaquim Perêra da Moenda pagô assim ó, sem tirá o pé du lurgá ó, quinheintos conto! Ela custô pru padrim Antônho Pedroso Neto treize conto. E cum o trabaio do Aldin eila foi pra quinheintos conto. Mais qui tragéidia, né? O moço trabaiá tanto ansim e no finár se assuicidá.

É miserável (degradante) viver pelo arbítrio de outrem (1) - 22 -


Capítulo 2

O namorico do Coronel Antônio Pedroso Netto com a Zizinha Rocha Honor decorat honestum, et notat non honestum (2)

Após o “assuicídiu” de seu filho Albano Pedroso Netto, o Coronel Antônio Pedroso Netto, premido pela falta dele, mudou-se para Santa Maria do Desterro e assumiu a administração da Fazenda do Lageado por uns tempos e, abandonando a agricultura, passou a utilizá-la para o comércio de gado. Veio, de início, contrariado, um pouco a contragosto. Passados alguns meses, porém, e já o podemos encontrar perfeitamente adaptado à nova vida. O Miguelin, seu afilhado e fiel escudeiro, a meu ver, foi um dos fatores que logo fez o Coronel se sentir perfeitamente em casa, apesar da ausência de sua esposa, Briza. O outro motivo (talvez mais importante que o primeiro) tem a ver com uma tal de Zizinha Rocha. Perguntei ao Miguelin como naquelas circunstâncias fora convidado a morar na Fazenda do Lageado com o Coronel Antônio Pedroso Netto? - O Coroné Antônho Pedroso Neto, meu padrim, logo adispôis do assuicidiu do fiio Aldin Neto, foi tomá conta da Fazenda do Lageado. A madrinha Briza cuntinuô na Fazenda do Tabuão da Serra. E o padrim percisava de arguém, cumo eu, de cunfiança, pra recebê uma Marieta de Sôza, uma Mariquinha da Sirva, mermo um Coroné Arbano Saintos. Pricisava de arguém, inducado e discréito, cumo eu, pra réicibê as pessoa e fazê as honra da casa. E eu me saía muitio a gosto nesse sinão. E, além d’eu, o padrim tinha tamém uma cuzinhêra – Zizinha Rocha qui era esse o seu nome de cunhicimento, e Girda Maria - 23 -


Rocha, o de batismo. Todo mundo si cumentava dos dois. Ela passava o dia todo na casa da fazenda e, de noitinha, ia pra casa deila, donde morava cum’marido. E ocê sabe né, dotô, onde há brasa, há fogo. Eile gostava deila mermo. Eu sei qui eile gostava. Mas eu era novo e num pudia assuntá nesse porém, nada de tocá nesse assunto, né? - Era um namoro Miguelin, não era? - Oh dotô, eu cumo afiiado e fiio do Coroné num pudia ficá falano nessa coisa.... - Oh, Miguelin, fica tranquilo. - Era. Eu me aleimbro uma vêiz qui o Coroné foi levá uma partida grande de gado, dos boi do Santa Maria do Desterro pra inté no Ixtrema. E quand’eile ia já marcava o dia de vortá. A madrinha Briza morava no Tabuão da Serra junto cum o fiio mais véi, o Zezim Neto. Incondo o Coronel vortava da venda do gado ficava uins dia na Fazenda das Água e adispôis vinha de ôinbus do Tabuão da Serra inté Guarani e inlá pegava o tréim-de-ferro. Discia no Dom Juaquim e os capanga ia buscá eile lá. ... - O Coroné gostava muito de uns sujeito mei pirigoso. Todo assassino qui num prestava lá no Tabuão da Serra eile trazia pra trabaiá em Santa Maria do Desterro, na Fazenda do Lageado, pra cuidá da boiada, pra prantá café, pra batê pasto. Os pasto deile era uma maraviia; a gente pudia batê uma réigua de níver incima, de tão bem cuidado. ... - Eile falava grosso. Um caipirão mermo. Tinha uma defeitura no pé – a metade do pé dereito deile era cortada, e a butina deile tamém era cortada cumo uma curtina. Num largava a ispora e a tala. Andava só airmado. ... - O impregado já sabia qui eile ia chegá naqueile dia e foi buscá eile na istação. Chegaro dispôis na Fazenda do Lageado; o impregado vinha muntado numa besta rolada, capagano o patrão e carregano uma sanfona. O Coroné vinha muntado num cavalo baio de nome Moreno. Adispôis fiquei sabeno qui o Coroné trôce aqueila sanfona lá do Ixtrema. - 24 -


... - Logo, da chegada, tava eu, dona Zizinha e o Zezé Morêra pra arrecebê o Coroné. - Dona Zizinha era a Gilda Maria Rocha, não era? - É, eila mermo. O Coroné foi chegano (e pircibi num parecimento qui eile tava cum munta saudade da dona Zizinha) e disse pru marido deila ansim: - Oh Zezé Morêra! Tive o maió trabaio pra trazê essa sanfona pr’ôce lá do Ixtrema. Essa sanfona tem uns som munto gostoso, e ôce vai tocá essa sanfona bem pra longe, viu? Lá no pau d’alho, viu? Mais toca bastantinho, viu? Não percisa se preorcupá de vortá hoje não, Sô. - Intrô direto e foi pro quarto cum dona Zizinha. - E o marido não desconfiou Miguelin? - Oh dotô, o home era mermo um sem jeito, né? Parece qui gostava era do dinhêro qui intrava. Quantas vêiz eu vi a dona Zizinha durmino no quarto do Coroné e o marido durmino no ôtro quarto defronte. - O Coronel veio de onde, Miguelin? - Oh, o Coroné nasceu lá no Córgo da Ajuda e foi criado no Tabuão da Serra junto cum seu pai (Pedro Mariano Netto) e sua mãe (Maria das Graças Antônia) e os irmão. Eiles era tudo munto pobre. Era um home munto valente, munto trabaiadô, um bom cumerciante. ... - Cumprava e vindia munto boi. Levava a boiada pra Ixtrema, Guarani, Rialejo, qui na época tinha friguirífico ispaiado pur toda banda. Cum o dinhêro qui lucrava cumprava terra. Trocava tudo pur terra. Chegô a tê sete fazenda, mais as principár era a Imperiár e a Água Limpa, em Tabuão da Serra, e a do Lageado, no Santa Maria do Desterro. Morava na Fazenda das Água e fazia cumérço de gado di principarmente levano boiada de quinheinta a seisceinta cabeça da Fazenda do Lageado pra Fazenda Água Limpa, donde ingordava, curava os boi e levava pr’abatê no Ixtrema. ... - Condo eile chegava cum’a boiada na Fazenda Água Limpa, o povo juntava tudo lá pra fazê negócio; mais de cem pessoa e toda - 25 -


fazendêrada rica da região. Muntas vêiz ia acumpanhano a tropa pur ida do Santa Maria do Disterro inté Dom Juaquim ô ino do Rio Fundo inté Ixtrema. Outras vêiz ia na frente pur de tréim ô vortava de tréim, e os impregado levava ô trazia seu animár. Num tinha ainda a rodovia. Pegava o tréim no Dom Juaquim que ia inté Guarani. N’ôtro dia pegava o ixpressim qui passava no Tabuão da Serra e chegava no Ixtrema no ôtro dia adispôis as’onze hora. - E o Coronel era bravo, Miguelin? - Era bravo! Foi delegado em Tabuão da Serra. Lá era tudo mato; reigião cheia de pirigo. Os sujeito matava um infiliz numa fazenda e ia pra fazenda do ôtro. Eile pegava os assassino e levava pra Fazenda do Lageado pra trabaiá. Gostava só dos mais valentão. Assassino eile num se apreocurpava munto não; num gostava mermo era de ladrão. Ladrão eile mandava amarrá no toco e batê até matá. Cum’os assassino eile num importava e levava pra Fazenda do Lageado. Naqueila épuca todo fazendêro tinha os impregado e os jagunço e eiles matava uns’aus’ôtro pur nada, pur quarqué coisinha. Bastava falá: - Eu sô impregado do Coroné fulano de tár. - Ah, é? O ôtro arespondia: Eu sô impregado do Coroné fulano de quár. E nóis somo mais do qui ôces. - Cumeçava a briga e acabava as vêiz im morte. - Miguelin, o senhor me disse ontem que o Coronel Antônio Pedroso Netto costumava dar sal amargo aos empregados que não gostavam de trabalhar como castigo? - Isso mermo. Era di cumum. Uma vêiz um tár de tenente Montarvão vei investigá um rôbo de gado e pidiu colaboração do Coroné. Eile achô qui era um impregado deile pur nome de Etervino. Deu tanto óleo de rício pru coitado pra mode do mermo falá, qui eile cagô a noite todinha e dexô o porão da casa da Fazenda do Lageado em istado miseráve. Inda deu uns banho de afogamento numa represa do lado da casa da fazenda qui o Aldin tinha mandado fazê, adonde caía uma água qui nem cachuêra. Adispôis do sujeito apanhá bastante, um ôtro denunciô o ladrão, e num era o Etervino. Ficou num sem jeito. Mais o coitado já tinha apanhado e num tinha cumo di fazê vortá atráis, né? Ansim o ladrão foi levado pelo tenente e seus praça; se tivesse ficado o Coroné mandava matá eile de tanto surrá. - 26 -


- O Coronel enfrentava todo tipo de gente? Ou não bulia com gente rica como ele Miguelin? - Bulia sim, dotô. O Coroné num isculia cara nem cundição, não. Lembro uma vêiz qui eile prendeu dois rapáiz, fios do Coroné Fortunato Alves Sirvêra. Teve uma festa lá no Tabuão da Serra, e os minino aprontaro. O Coroné aprendeu eiles e amarrô os dois no tronco. Um cunsiguiu fugí de noitinha. O ôtro apanhô muit’ainda, mermo dispôis qui o pai vei pidí o Coroné pra sortá eile. O minino foi sorto só dispôis qui o Padre Angelito intircedeu. O Padre Angelito era dimais amigo do Coroné e era tamém bravo cumo eile – convidava as pessoa pra prucissão nas rua quand’eila passava. Às vêiz increspava cum uns sujeito qui num quiria acumpanhá o cortejo e mitia os braço neiles, obrigano eiles a participá. - Miguelin, quanto tempo passou sem a Dona Briza descobrir lá no Tabuão da Serra o romance do marido? - Uns trêis ano. - Isso tudo? - É. Ansim, nessa lida d’uma coisa e ôtra, trêis ano se passô e o Aldin Neto mais o Luca Neto vei visitá o pai. Num percisaro nem se assuntá e já ficaro sabeno de tudo. Retornaro pra cidade do Tabuão da Serra. ... - Pôcos teimpo dispôis chega um tár de Dijarma Lôrenço e o Nico Capitão, vino da Fazenda das Água, cum os interesse de trabaiá uns teimpo na Fazenda do Lageado. O Coroné, qui num era bobo nada, logo discunfiô qui ali tinha linha dura da madrinha Brisa ou dos fiios Cremente e Lucas, mais num cugitô quarqué pirigo, pruquê há munto (pra defendê sua prutigida), tinha mandado a cuzinhêra cum seu marido se aretirá fóra pra um terreno qui era chamado de Ranca Unha. Lá a Zizinha Rocha cum seu consorte, cumo dizia, pudia vendê umas cachaçinha e tocá um serviçinho lá naqueila banda de terra pra eiles. - Ranca Unha? - Ranca Unha. Era uma quebrada de terreno do padrim cum uma biboca na Fazenda do Lageado, lá imbaxo, donde dava um capim margoso neile. Aí pusero o nome de Ranca Unha. Capim margoso ranca’unha da gente s’ocê passá discarço no meio deile, né? Ponderou: - 27 -


- Eu acho qui foi a madrinha qui mandô o Dijarma Lôrenço e o Nico Capitão dá um pau de uma coça bem dada nessa muié, a merma de tár qui foi cuzinhêra da fazenda. Chegaro; juntaro cum aqueila turma da fazenda; se misturaro; se instalaro. Cavaro duas inxada boa; duas Osila; incabaro eilas bem incabado; amolaro. Trabaiaro indiante todo o dia. ... - De noite cunvidaro: - Vamo lá no Arranca Unha bebê umas cachaça? Num dimorô munto: disceu aqueila tuirma; mais de quareinta e cinco nêgo junto cum o tár Dijarma Lôrenço e o Nico Capitão. Chegaro lá, bebero inté; cumero cum vontade; deixaro bastante dispesa. Ela ficô munto sastisfeita. O marido deila, lá perto deila. Um bobão danado, aqueile. Eu sabia qui eila gostava do Coroné e pur minha conta de arrepará eu sabia qui o Coroné gostava deila tamém. Mas cumo? Num pudia falá! Um afiado num pudia falá. ... - Já tava munto tarde condo o feitô se prenunciô: - Oh! Oh! Vam’imbora, pessoá. Já bebemo nosso gole. Não vamo bagunçá mais não. E olha aí os dois cara no meio da tuirma: o Dijarma Lôrenço e o Nico Capitão. Dois jagunço – mau, feito duas cobra. ... - E a distânça era munta. Subiro primêro peila mata das onça; atravessaro a mata das parmêra, onde tem a cachuêra; adispôis arrudiaro o buraco do café. Munta portêra bateu. Os cachôrro tudo da fazenda latiu. Aí eiles chegaro de vorta. Chegaro, descero, intraro, lá imbaxo, num cômudo. Tiraro a rôpa fora pra durmí; deitaro. E mais tarde eiles fôro lá - tudo disfarçado, incapuzado - e dero uma coça neila e no marido deila. Incondo eila se viu apertada, caiu num brejal na divisa do Coroné Pitanga Simões cum o Coroné Antônho Pedroso Neto. O marido deila, coitado, caiu primêro incima duma caxa cheia de maribondo chiadô; e cumo demorô de saí! Daí tamém eile intrô de retirada ino pru brejo. Os dois apanharo, apanharo bastante até conseguí intrá no brejo. Os dois cangacêro num pudero intrá tamém no brejêro atráis deiles, pruquê se suijava a rôpa deiles, ia indispô suispeita qui condenava eiles, né? ... - Vortaro. Chegaro de novo pur tráis da fazenda; passaro pur - 28 -


fora, divagarim, pé pur pé. Intrarum pru quarto. Durmiro um sono sorto. ... - Nôtro dia, a muié, numa horinha forgada, mandô o homo lá na fazenda contá o Coroné, qui logo cumentô cum marido deila mermo: - Pois é Sô! Eu fui delegado no Tabuão da Serra, doze ano. Isso só pode ser coisa do Dejalma Lourenço e do safado do Nico Capitão. Eles fêiz isso aí mandado da Briza ou do Sebastião ou do Zé Neto ou do Clemente ou do Lucas. Isso só pode ser coisa deles. Outro daí mermo não fazia isso não! E o quê o Coronel fez, Miguelin? - O Coroné chamô seu feitô im segredo. Tinha a ixpiriênça de delegado lá no Tabuão da Serra, né mermo? Havia prindido até o Paulo Misquita, um cangacêro difíci qui tinha pur lá. Cum sua isperteza toda mandô justificá as rôpa e os sapato dos dois jagunço. - Ispiô tudo e ficô cunfirmado: É, foi eiles mermo qui foi lá. ... O dia de trabalho transcorreu sem aparente novidade até o entardecer, me contou o Miguelin: - Os dois homo mais o feitô e a cumpanhêrada toda - quareinta e cinco homo - viero recebê argum furnicimento e o pagamento, na casa principal da fazenda, quando o Coronel berrô: - Oh Sô Nico Capitão! Oh Sô Dejalma Lourenço! Escuta ôces dois Sô! Houve onte uma coisa lá embaixo na casa do Zezé Moreira. Ocês foro lá, bebero cachaça e viero imbora. E lá vortou dois sujeito e deu uma coça danada na dona Zizinha Rocha e no Zezé Moreira. Quase que mata eiles. E é ocês dois Sô! - Oh Sô Coroné! O senhô pode aprová qui é nóis dois? Nóis num bate im muié não, Sô Coroné! E home iguar a Zezé Moreira prá nóis é iguar mermo qui muié! A gente num bate nessas porquêra não, Coroné! - É ocês dois Sô! - Cadiquê Sô Coroné? Nóis somo home de batê im home, Coroné! E já qui o senhô tá é isticano essa cunversa aí, pode acertá nossa - 29 -


conta prá invitá pendenga, qui nóis vam’zimbora, agora mermo! Nóis num percisa disso aqui não, Sô Coroné! O Miguelim comentou que: - O Coronel não conversô mais. Correu neles o cobre de dois dias de serviço e eles vieram pra Santa Maria do Desterro e no outro dia pro Tabuão da Serra. E o Coronel não fez nada com eles depois não, Miguelin? - Cumé qui fáiz, sô dotô. Dois leão capuerêro! Dois cabra valente! Dois home de dicisão! - É? - E tava os dois no meio de quareinta e cinco home na hora qui o Coroné falô aqueilas coisa cum eiles. Eiles era dois home qui tinha corage! E quem mandou, Miguelin? - Só Deus qui sabe. Mais foi a madrinha Briza, né? Do Tabuão da Serra aqui na Fazenda do Lageado, num tinha ôtro jeito não, né? Perguntei em tom de gracejo: - E quem contou para ela essas coisas, Miguelin? Não foi o senhor não? - Não sinhô! É eiles qui avêro di pesquisado; ou mermo pur gente de Santa Maria do Disterro qui visitô lá no Tabuão da Serra e deve tê di contado: - A muié tá mandano lá, Briza. A muié tá dano as carta lá, Briza. Foi só o quê bastô!

A honra enfeita o honesto e aponta o desonesto (2) - 30 -


Capítulo 3

A estória do Capitão Fortunato Silva e do valentão de seu filho Nestor Silva Qui amat periculum in ilo peribit (3) Eclesiástico, 3,27

Tudo isso foi o Miguelin quem me contou, mas de início se referiu ao Capitão Fortunato Silva: - Eile tinha munto gado servage, aqueilas mulas servage, qui matava cachorro dos’ôtro e rombava quarquér cerca. A gente incontrava cum eile no seu carro-de-boi pela istrada: - Oh Capitão! Tem um gado rebentano cerca, matano cabrito, cachorro. Aqueile gado é do sinhô? - Ah é meu mermo. Ôce vai lá na fazenda e chama os impregado. Tráiz a cachorrada e manda incostá aqueile gado prá lá da Fazenda Passo Fundo, lá incima. - Oh Capitão! O gado tá instragano aí, tá dano munto prijuízo, tá matano criação, tá correno criança, cercano a gente. O gado do sinhô é munto bravo, Capitão. - Ah! É mermo! Chama os impregado lá. A gadaiada é assim mermo. Eiles é munto. Eiles invade mermo. - Sabe, Capitão, aqueile gado dá galope na gente. Rebenta nossa cerca, e num é cadiqui nóis discuida não. - Ah é? Toca pra lá e avisa os impregado. O Capitão Fortunato Silva, apesar de não controlar sua criação, era um homem digno, correto, ajuizado. Seu filho Nestor Silva, esse era um danado e vivia para fazer coisa errada. O pai estava sempre procurando orientar seus passos: - 31 -


- Meu fiio, num faiz isso, não. Nóis temo essa riqueza toda. É nossa. Vamo gozá disso. Num fica fazeno esses absurdo qui ôce faiz não. E o Miguelin, continuou: - E o Nestô Sirva parece qui num ovia. Suas istória era munta... Se ia passando um viandante ansim na istrada, indo pra um pagodinho, cum’a sanfona nas cacunda, eile chamava: - Oi, ôce vem cá cum essa sanfoninha sua. Vamo tocá um pôquinho. - Ninguém ôsava disobedecê eile. O sujeito chegava meio sem jeito e tocava ali perto deile até eile mandá pará: - É isso aí. Agora eu quéiro qu’ocê trata dos meus capado primêro. Adispóis ocê lava meu chiquêro. - Sim sinhô, Sô Nestô Sirva. - Ocê vai pru pagode, num vai? Mas ocê pode entrá cum essa rôpa suja mermo. Os pôrco meu é tudo caro. Era comum o sujeito nem reclamar: - Oh ocê sujô s’a rôpa. Ocê ia pru pagode, num ia? Ocê num ficou cum réiva, não, ficô? - Não, sinhô, num fiquei não. toda! sinhô.

- Entonce ocê num aburriceu, não, né? Óia, ocê sujô sua rôpa - Não, Sô Nestô Sirva, num aburrici não, sinhô. Num sujei, não O pai interferia sempre:

- Oh! Meu fiio. Num faiz isso, não, Nestor. Que idéia mais abestada. Ocê fazê esse home tratá de porco. O home tava ino pru baile. O Nestor Silva, às vezes, se tocava. - Oh! Capitão. Eu ia dá eile um par de rôpa. E dirigindo-se ao infeliz: - Agora, ocê vai alí e toma um banho. Toma esse sabão. Eu vô ti dá um parzim de rôpa e ocê vai chegá lá no pagode cum sua sanfoninha e cum uma rôpa grãfininha, viu? - 32 -


O Nestor Silva levava então o pagodeiro para seu quarto: - Oh, aquí, oh, veste esse par de rôpa. Coloca esse chêro. Ocê vai chegá lá no baile todo chêroso, viu? E ainda não satisfeito: mim.

- Ocê aind’antes pega sua sanfoninha e toca mais uns’troço pra - Sim sinhô!... - Cumeça logo sô, num fica aí nesse adevorteio não, toca logo! Adonde é mermo esse baile? - O baile é lá na Serra Quémada. E o pai não desanimava:

- Oh Nestor, num faiz assim não, criatura. Num é assim qui a gente aprucede. Era como eile não tivesse ouvido nada. O Miguelin acrescenta: - Num sei quantas veizes conta qui o Nestô Sirva quebrô o buteco do Jão Rodrigues. A cena sempre se repetia. - Oh moçada. Cheguei aqui. Está chegano aqui o Nestor Silva nessa merda aqui do Brejo Cumprido. ... - Começava seimpre quebrano umas garrafa no bar do Jão Rodrigues para provocá quem estava no recinto e nas imediação. Ninguém reclamava, não se ouvia um ai: - Oh Jão! (cum o revórve incostado na nuca do Jão Rodrigues ou de ôtro de qui eile num gostasse da cara): - Ocê vai cantá qui nem um galo e batê as’asa. - Có có ri ó có... Có có ri ó có… - Óia, ocê num tá cantano dereito. Tá munto disfarçado e disafinado. - Có có ri ó có… - 33 -


- Canta mais arto... E bate as’asa direitinho... - Có có ri ó có… Não satisfeito, saía pela rua e apontava a arma para a cabeça do primeiro que cruzasse seu caminho e ordenava: tiro.

- Agora ocê vai andá no currimão da ponte. Se caí, ocê leva um

E o cidadão ficava entre caí na ponte e levá um tiro ou caí no rio, de uma artura mais assustaidora ainda. Eventualmente, subia até a estação local do trem e ordenava a um dos dois agentes da estação: - Oh Sô Vale! Oh Sô Tião! Quarqué um dô’cêis qui tivé aí vai prununciano minha chegada. Era prontamente obedecido, sem qualquer contestação. Blem! Blem! Blem! O sino da estação ferroviária anunciava para Brejo Comprido que o Nestor Silva estava chegando. O agente, após soar o sino, sabia que tinha que deixar a estação e, chegando na beira do barranco, gritar na direção da cidade: - O Nestor Silva chegôôô... - O Nestor Silva chegôôô... - O Nestor Silva chegôôô. Anunciada para a comunidade local sua chegada, sempre apoteótica, descia o morro e passava em todas as vendas possíveis. Colocava todo mundo bebendo, por sua conta, sem naturalmente contribuir com um centavo sequer. Escolhia sempre alguém para cheirar a ponta do cano de seu revólver: - Qui chêro tem aqui esse revórve? - Chêro de pólvra. - Chêro de pólvra, não, seu mintiroso. Chêro de difunto. - Tá certo, Sô Nestô Sirva. Chêro de difunto. - Chêra de novo e arresponde direitinho! - Chêro de difunto. - 34 -


- Agora fala qui eu sô um jararacuçu e ocê é uma perereca. - Oh Sô Nestô Sirva! Eu sou uma perereca, e o sinhô é um jararacuçu. - Isso! Isso! Isso! Isso aí! Normalmente fazia parte de seu ritual demoníaco cortar um pedaço de toucinho ou pegar um saco de mantimentos e dar para alguém. Fazer fartura com a mão do próximo era uma de suas práticas mais prazerosas. Ninguém reagia. Todos tinham medo deile. Xingava sempre um dono de venda: - Ocê é um miseráve... O distrito era o do Brejo Comprido espremido entre a Serra do Antão e Santa Maria do Desterro. Lá vivia o Capitão Fortunato Silva, proprietário da Fazenda das Águas Mansas, que fazia, ao norte, divisa com a Fazenda do Lageado, e era inimigo confesso do Joaquim Pereira da Moenda, pai da Eunice da Silva Pereira. A Fazenda do Lageado se interpunha entre os dois homens de terra, tanto geograficamente, quanto pelo empenho do Coronel Antônio Pedroso Netto, que, desde que ali chegou, passou a ser elemento conciliador dos desafetos e das disputas latifundiárias dos dois senhores de terra. O Capitão Fortunato Silva era muito poderoso, e sua fazenda, talvez, a maior, na época, de todo o Vale. Recebera todo o patrimônio como herança de seu pai e, por sua vez, durante toda uma vida, de luta diária e tenaz, havia acrescentado a parte em vida reservada à sua mãe. Ali vivia desde o nascimento, em companhia de sua mulher, Jandina, e de seus sete filhos - três filhas e quatro filhos. Era respeitado tanto pela criação de gado quanto pelas atividades de cultivo da terra e, principalmente, pelas plantações de café e de cana. Como nada é perfeito, porém, conviviam com um osso duro de roer – o filho caçula, Nestor Silva. Desde principalmente o decorrer de sua adolescência e início de sua vida adulta, o Nestor Silva evidenciou um padrão de comportamento irresponsável e profundamente antissocial. A escola fundamental não o conseguiu prender: batia nos colegas e enfrentava a professora. Nunca se interessou por qualquer tipo de trabalho responsável, e seu tempo passava sempre vadiando. - 35 -


Muitas vezes, quando se lhe opunha muita resistência, o pai ou a vida, se evadia da casa paterna, sumindo vários dias, e só Deus poderia saber para onde e como. Andava armado com uma pistola 32 que mantinha como uma peça constante de seu vestuário, sempre postada na região do umbigo, entre a calça e o corpo. Brigas corporais não se contavam, e sempre era ele que, por nada, as iniciava. A todas as empregadas novas da fazenda molestava sexualmente ou, no mínimo, tentava e, sempre que rejeitado, respondia com agressões verbais e físicas. Como Nero, era um incendiário, e atear fogo em objetos e propriedades alheias era uma de suas competências, sempre às escondidas e na calada da noite. Quantos galos, passarinhos e pombas foram mortos, simplesmente por pulsão ou mórbido prazer, torcendo seus pescoços com as duas mãos e, rodopiando-os no ar, lançava-os à distância, como um arremessador de disco olímpico. A mentira era sua companheira inseparável, em coisas de e sem qualquer importância maior, como se fosse a via única e preferencial de sua comunicação. Mostrava-se, sem qualquer causa significativamente relevante, irritável e agressivo com as pessoas, e quantas vezes seu pai precisou ameaçá-lo com todos os tipos de castigos e restrições. Não adiantava. Tinha verdadeira adoração por sua mãe e para ela nunca levantou a voz ou a desobedeceu frontalmente. Ela além de muito carinhosa era a conciliadora de quase tudo de errado dele. Até os vinte e cinco anos, nunca se viu o Nestor Silva manter namoro, envolvimento afetivo ou relacionamento social por mais de um ano. O mais surpreendente talvez era o fato de nunca ter apresentado, quando era inquirido ou não, o menor vislumbre de remorso por quaisquer de seus atos evidentemente condenáveis. Seu pai não mediu esforços desde o início de sua juventude para lhe procurar orientação e ajuda.

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Iniciou sua peregrinação por Extrema, por ser mais próxima, tentou Belo Horizonte, por ser a Capital, e encerrou sua jornada com um eminente professor de Psiquiatria e sua equipe, que, após longo período de observação e tratamento, concluíram e vaticinaram: - A medicina não pode oferecer nada de concreto a seu filho. Tememos que, apesar de todos os cuidados possíveis que se possam ter com ele, venha terminar sua vida matando alguém, sendo morto ou preso numa penitenciária. Uma sentença dessas, mesmo para um homem prático, rude e realista, como o Capitão Fortunato Silva, acostumado já pela idade madura aos infortúnios e vicissitudes da vida, atingiu profundamente seu coração. Não se deu por vencido, porém. Não satisfeito, iniciou nova via crucis. Ninguém se guia somente pela ciência ou pela razão, quando se trata de resolver um problema de saúde ou uma séria dificuldade de um filho ou de uma pessoa de grande afeto. Mesmo em confronto frontal com sua formação católica, iniciou nova caminhada, dessa vez, pelas benzedeiras, curandeiros, bruxos e mesmo algumas visitas às reuniões espíritas e umbandistas. Nenhum resultado palpável. Com seu espírito prático, saiu procurando e chegou mesmo a contratar uma jovem mulher, muito vistosa, de exuberante sensualidade e expressiva beleza, para viver com seu filho e quiçá trazer mais significado e sentido responsável à sua vida. Levou-a mesmo para morar na fazenda, numa casa próxima à sua, e mesmo Dona Jandina, de início contrariada e relutante com a idéia extravagante e sem recato do marido, participou efetivamente, desde o início, da tentativa de união do casal, acompanhando os dois jovens com visitas constantes, conselhos e favores. Em cinco ou seis meses, o sonho do Capitão e de sua esposa desabou. As constantes agressões físicas e morais do Nestor Silva para com sua amásia e amante tornaram a vida dos dois e da família Pereira um verdadeiro inferno. Marieta Simplício, apesar de mais velha, prostituta e ambiciosa, não conseguiu suportar mais o conflituoso relacionamento e, sem reclamar ou mesmo avisar ao Capitão Fortunato Silva, de um dia para outro fugiu sem deixar rastro.

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Foi o Padre Dondino de Assis, Pároco de Serra do Antão e amigo particular do Capitão Fortunato Silva, que, após ter tentado todas suas possibilidades de conselheiro e líder religioso, teve a ideia de arranjar um ex-soldado da Polícia Militar - destemido, valente, atencioso - para ser como um guardacosta para o Nestor Silva. Deram-se muito bem. Não demorou muito, os dois passaram a ser como carne e unha: moravam no mesmo quarto dentro da propriedade principal da fazenda; saíam juntos; dividiam todas as intimidades, lazeres e arruaças. Tudo ia às mil maravilhas, mesmo que em parte, porque o Nestor Silva não havia mudado em nada sua vida e conduta. Seus pais, sim, muito mais confortados, porque sentiam que o filho estava muito mais protegido dos desdobramentos de seus costumeiros atos descontrolados, pela amizade, destemor e lealdade de seu então contratado anjo da guarda. Um ano após, ao voltar, para sua casa, com seu então companheiro inseparável, de uma noitada na zona boêmia de Serra do Antão, cruzou, de madrugada, com um cavaleiro desconhecido, num ponto desabitado, descampado, deserto da estrada e, como era seu costume, passou a afrontá-lo gratuitamente. O circunstante permaneceu calado e continuou na medida do possível sua caminhada. Nestor Silva e Ramiro Torres o perseguiram ainda por quase meia légua, ora à frente, ora atrás, com todo tipo de provocação verbal, gestual e mesmo física, como com algumas chibatadas no cavalo e no cavaleiro. Numa encruzilhada, a vítima apressou seu passo e entrou num caminho diferente daquele dos dois irresponsáveis baderneiros. Seguiram ainda por um bom tempo vitoriosos, exultantes, barulhentos, a sorver através de risos e comentários o ridículo a que haviam submetido o infeliz que ousara cruzar seus caminhos. De repente, um estalido ecoou na madrugada fria e estrelada, e um projétil zuniu, como um zangão célere e feroz, na frente da cabeça do Nestor Silva e atingiu o tórax do Ramiro Torres, na altura do coração. Um gemido de dor e sua queda de bruços ao solo se seguiram. Novos dois estalidos se ouviram, e o cavalo do Nestor Silva se adiantou e, puxado pelas rédeas, rodopiou, e ambos, montaria e cavalo, se projetaram ao chão. - 38 -


Nestor Silva levantou-se, e apesar da forte dor na coxa esquerda, vislumbrou no morro adjacente à estrada o vulto do agressor em movimento. Três novos tiros foram deflagrados, um a um, com ínfimos intervalos, intermediados pelos gingados de corpo de Nestor Silva, que, fugindo instintivamente de ser atingido, respondia à altura com o descarregamento de sua arma. O vulto movimentou-se em carreira pela vegetação, e Nestor Silva, mesmo ferido, montou o cavalo do companheiro e saiu no encalço de seu algoz. Vencida pequena distância em grande galope, talvez pela primeira vez na vida, num átimo, num instante, num momento de consciência e solidariedade, freou a montaria, deu meia volta e foi socorrer seu amigo – estatelado no chão, de costas, morto, semblante aterrorizado. Nestor Silva colocou o cadáver apoiado pela barriga no arreio do cavalo do companheiro, com a cabeça pendendo para um lado e as pernas para o outro. Seu cavalo ferido permanecia deitado e agonizante, atingido no pescoço. Retirou a arma do parceiro morto e sacrificou sua montaria com um único tiro. Voltando-se para o animal com o cadáver, segurou as suas rédeas, e - se colocando na frente do conjunto - se encaminharam os três, num silêncio sepulcral, para a Fazenda das Águas Mansas. O Delegado Macambira Pereira foi avisado pelo Capitão Fortunato Silva do terrível incidente. Três horas após o assassinato do Ramiro Torres, todas as providências policiais cabíveis já haviam sido tomadas. Os delegados das cidades vizinhas haviam sido avisados do ocorrido por telégrafo. Fazendeiros da região haviam sido convocados para que eles e seus sitiantes circunscrevessem uma grande área em volta do local do crime e impedissem a fuga do assassino. O delegado, mais dois soldados da Polícia Militar, e quatro amigos inseparáveis do mesmo, em comboio, devidamente armados até os dentes e com cachorros de caça, começaram a procurar em cada casa, casebre, grota, curral o então desconhecido e feroz facínora. - 39 -


As buscas continuaram ininterruptas por três longos dias, e nenhum indício que pudesse evidenciar a identidade do agressor ou seu paradeiro foi então levantado. O grupo militar e paramilitar se dispersou, mas ficou, para toda aquela região praticamente, a notícia de que se estava procurando um determinado assassino, além de suas características principais. O delegado, como as grandes potências, possuía também seus informantes anônimos, que certamente permaneceram como uma rede invisível na espreita e tocaia do homicida. O Nestor Silva continuou fazendo suas arruaças por muito tempo. Mas um dia caiu numa esparrela, num ardil, num logro arquitetado por ele mesmo, conta o Miguelin. Vinha descendo a rua Principal e, ao passar em frente ao grupo escolar, viu, através de janela aberta da sala de aula, a Maria Flor de Liz lecionando. Ela era filha de um dos mais ferrenhos adversários políticos de seu pai, o Dioclesiano Barbosa. Debruçou-se na janela e ficou postado do lado de fora da sala, na calçada, observando a aula, com atenção aparentemente respeitosa. Os Barbosa não eram de brincadeira. O Nestor Silva, porém, não conhecia limites de qualquer natureza, e, é possível que quando repartiram a prudência no mundo dos homens, seguramente nenhuma parte lhe foi reservada. A moça sorriu para um de seus alunos e mostrou uma alva dentadura com um dente de ouro logo nos da frente. O Nestor Silva num relance pressentiu uma oportunidade para se aproveitar da dedicada professorinha. Gritou para ela de fora para dentro da sala de aula: - Oh ocê riu bunito aí, professorinha. E repetiu: - Oh ocê riu bunito aí, professorinha. A Maria Flor de Liz, vindo o elogio de quem vinha, logo lhe percebeu a malícia, mas não se importou e continuou sua aula. Ensinava no primeiro ano para todas as turmas do grupo local. Era uma professora dedicada, carinhosa e amada por todos os seus alunos. E o Nestor Silva, que já tinha bebido umas pingas, não satisfeito com a reação da Maria Flor de Liz, continuou em tom provocativo: - 40 -


- Oh! ocê riu bunito aí, professorinha. Ocê riu bunito aí, professorinha. Não conseguindo um mínimo gesto de reprovação da professora como resposta, enfureceu-se: - Inda esta sumana eu vô lá na cidade e vô mandá pô um dente de ôro na minha mula iguár o d’ocê. E vou fazê eila ri igual’ocê. A moça despediu seus pequenos alunos e deixou, serenamente, a sala de aula, sem qualquer reação à provocação do fanfarrão, que, por muito tempo ainda, continuou zombando e procurando se satisfazer com a situação por ele criada. Passados alguns dias, não é que o Nestor Silva, montado em sua mula, se posta, na calçada, em frente ao grupo escolar, exatamente ao lado da sala da professora Maria Flor de Liz, chamando a atenção de todos com sua gritaria e com suas pantomimas! E, pasmem, não é que realmente a mula tinha um dente de ouro na sua arcada dental frontal superior, que ele procurava expor abrindo o focinho deila com as duas mãos e aos berros comparar com o da professorinha! Maria Flor de Liz, até então, havia mantido em absoluta reserva o primeiro episódio de escárnio perpetrado pelo Nestor Silva, quem sabe, orientada pelo seu espírito superior, pela sua educação genuína e por sua constituição e temperamento, sem qualquer traço de rancor e malícia. Mas tudo um dia clama por um limite: foi para sua casa e relatou todo o acontecido a seu pai, Dioclesiano Barbosa. Este mandou chamar todos os seus filhos e ponderou: - Meus fiios! O Nestô Sirva abusou da irmã d’ôces, hoje, lá na iscola – e relatou o ocorrido com todos os pormenores. - E, aí, nóis vamo tê qui sujá nossas mão cum aqueile home, concluiu. O filho mais velho, o José Barbosa, depois de pensar algum tempo, ponderou: - Não, nosso pai, nóis mermo num suja as nossas mão, não. Nem o sinhô, nem eu, nem os ôtro minino. O sinhô dá uma vorta e arranja aí um caçadô qui vem e limpa eile daí pra seimpre.

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Todos concordaram. O Dioclesiano Barbosa partiu para o Rio Fundo. Foi visitar seu amigo Adamastor Durães. - Oh cumprade! Ocê num tem aí um home qui tem corage de matá quarquér onça não, quarquér gato... - Tenho, uai. Tem o Sô Luiz Peçanha qui tá mei véi, mas tem os fio deile, tudo bom caçadô. O Senhor Luiz Peçanha não titubeou quando os dois coronéis de terra foram procurá-lo: - Ah! Sô Coração! Se percisá de matá, eu mato fáci, mas tém os minino meu qui tá mais novo. E êis gosta tamém de atirá na cova do ôio isquerdo das onça. São as próprias palavras do Miguelin, relatando-me o restante do ocorrido: - Viero pro Rio Casca: Ubardo, Jão, Orozinbo, Manel, Jusé Jão, Ernesto, Juaquim, Jusé Arves e mais o véio Luiz Peçanha. Viero todos cortá cana. E o teimpo foi passano. Um dia tava todos no canaviár, e o Manel ficô im casa. A casa era no arto, lá incima. O Manel Peçanha, o mais pirigoso da famíia, desceno na direição da Istação, topa, no mei do camim, cum o Nestô Sirva. Esse já tinha aprontado toda a sua habitual desordem lá embaixo e estava subindo: - Ocê sabe quem cô sô, Sô? - Não sinhô, coração - a família Peçanha toda falava manso e chamava os outros de coração. - Eu sô o Nestor Sirva. - Ah! O sinhô é o Sô Nestô Sirva? Eu num cunhecia o sinhô não, coração - eile sabia dereitim e tava ali era prá matá, era eile mermo. - É. Eu sô o Nestor Sirva e todo mundo aqui me cunhece. - Num sabia não sinhô, coração. - Óia, eu num tô gostano desse tár de “coração” seu não. Acorrege a prenúncia qui eu num tô gostano mermo desse jeito qu’ocê tá falano cumigo não. - É, coração? - 42 -


Nestor Silva, já devidamente irritado e furioso, levou a mão na cintura para pegar o revólver. Foi tudo muito rápido. Antes de pegar a garrucha, o Nestor Silva levou um tiro “na cova do olho esquerdo”, caiu e rolou morro abaixo. Continuou o Miguelin: - A nutícia correu dirrepente. Os Sirva revortô tudo. A Pulíça vei e intrumeteu no caso, pruquê, se arguém quisesse levá pra disforrá, tudo ia virá era guerra. O Manel Peçanha foi preso dois ano adespôis. Teve jurgado no juiz e ficô condenado. Acabô na Cadeia de Neves. Lá eile passô muntos ano. Incondo eile chegô de vorta pro Brejo Cumprido, pra dijunto de sua famíia qui cuntinuô viveno lá e num vortô mais pro Rio Fundo, os Sirva já tinha vindido tudo e ispaiado prum lado e prum ôtro desse mundão. Num é qui eile foi pará na Usina do Camarão e foi feitô neila munto teimpo! Haveno adespôis de cumprá inté um sítio num lurgá pur nome de Pôso Arto. Ni lá um sujeito atirô num pulítico importante, o Dr. Francisco Otaviano, e foi o Manel Peçanha quê discubriu tudo e denunciô. Ficô ansim nas graça do pulítico qui arranjô pra eile um lurgá de investigadô do Istado. E cumo ficamo sabeno no qui falarum, ansim acabô seus dia.

Quem ama o perigo nele perecerá (3) Eclesiástico, 3,27 - 43 -


Capítulo 4

Miguelin – caipira, mineiro, contador de estórias Arbore de dulci dulcia poma cadunt (4)

Miguelin nasceu em Rio Novo, cidade do interior de Minas Gerais, localizada na Zona da Mata, distante 18 Km da cidade de Rio Fundo e 210 Km do Rio de Janeiro. Ainda infante, ficou órfão de pai e de mãe, abatidos pela terrível gripe espanhola, e entregue à responsabilidade do Coronel Antônio Pedroso Netto e da Dona Briza Matias Netto, porque seus pais eram empregados e colonos da Fazenda das Águas, em Tabuão da Serra, Minas Gerais. Era também o tempo da Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914 e terminada no final de 1918, que apresentou o saldo de 10 milhões de mortos e 20 milhões de mutilados. Nessa mesma época, o mundo assistiu também estarrecido e impotente a uma outra máquina de matar – a gripe espanhola, que atacou, entre setembro e novembro de 1918, o planeta inteiro e deixou mais de 20 milhões de mortos – 1% da população. Só nos Estados Unidos, 500 mil pessoas morreram, mais do que o número de soldados mortos no campo de batalha durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã juntas. A primeira notícia do vírus da gripe espanhola no país foi de setembro de 1918, logo depois da chegada de um navio com imigrantes vindos da Espanha. Vários deles apresentavam sintomas da gripe. Outro relato dizia que alguns marinheiros sentiram estranhos sintomas a bordo de um navio que ancorou em Recife. O fato é que no início de novembro de 1918 a doença já tinha alcançado vários pontos do Brasil. - 45 -


As cidades portuárias foram as que mais sofreram. No Rio de Janeiro, morreram 17 mil pessoas em dois meses. Os familiares, desesperados, jogavam seus mortos na rua com medo de contrair a doença. As avenidas ficaram cheias de cadáveres e presidiários foram obrigados a trabalhar como coveiros. Os bondes circulavam abarrotados de corpos. Na frente das principais igrejas, milhares de famílias se reuniam para pedir ajuda a Deus. Em São Paulo, foram mais de 8 mil mortes. Entre as vítimas da gripe, estava o Presidente da República, Rodrigues Alves. Eleito para o cargo pela segunda vez, não pôde tomar posse e morreu no dia 16 de janeiro de 1919. Os médicos, também alarmados, não sabiam o que receitar e indicavam canja de galinha. O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Os jornais afirmavam que o tratamento deveria ser feito à base de pinga com limão ou uísque com gengibre. No Rio, o sanitarista Carlos Chagas comandou o combate à enfermidade. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe espanhola. Em todo o país foram cerca de 300 mil mortos. Hoje, já se sabe que a epidemia surgiu nos Estados Unidos, e não na Espanha. O primeiro caso foi registrado no Estado do Kansas, em março de 1918. Pesquisadores acreditam que o vírus teria saído de um cercado com porcos. O vírus da gripe quase sempre está presente nos corpos de aves. Os humanos não são infectados por eles: os animais domésticos, sim. Provavelmente os suínos do Kansas comeram dejetos das aves da região e passaram o vírus para seu dono. A classe científica nunca esqueceu a tragédia da gripe espanhola e tenta ainda hoje descobrir os motivos de tanta mortandade. Tanto é que pesquisadores da Escola Willian Dunn de Patologia, de Oxford, pretendem reconstruir o vírus da gripe espanhola. Os cientistas querem descobrir as razões que levaram o vírus a ser tão letal e, a partir dessas informações, desenvolver métodos de proteção contra futuras pandemias. E o próprio Miguelin, numa oportunidade, relembrou comigo sua origem: - Fui amparado pur’uma madrinha minha qui foi da única qui sobrô da sua famíia toda. Mermo teno pegado o coqueluche e tê deitado na cama de boi e pegado sereno da madrugada, inda’sim eu me arribei. - 46 -


Ressalto que tive o privilégio de conhecer o Miguelin, no derradeiro ano de sua vida, 2001, aos oitenta e dois anos, e logo fui seduzido pelo brilhantismo de sua habilidade de contador de estórias, pela sua extrema bondade e simplicidade, pela sua fé inabalável no Ser Superior. Ouvir suas estórias era um constante descortinar de um universo inesgotável de personagens, cenários, situações, tempos, fruto do imaginário e do simbólico de um caipira mineiro, de surpreendente vivacidade e riqueza verbal, retratando a realidade da Zona da Mata, principalmente das primeiras cinco décadas do século XX, tudo trazido num genuíno linguajar de um homem iletrado do interior das Minas Gerais, de alma limpa, pura e grande por natureza. O Miguelin lembrando seus primeiros anos de vida me confidenciou: - A gente pode dizê qu’eu nasci de novo. Eu me arribei e tô aqui inté hoje. Fiquei munto ruim, im teimpo d’eu morrê tamém, mais eu nasci c’uma vitalidade munto grande, sei pruquê fiquei sabeno qui é tarvez pur sê de 4 de agosto, qui é o mês da vitalidade. Continuou seu relato, emocionado: - Mais num é qui minha madrinha foi morrê tamém sem mais nem meno? E aí eu crisci junto cuns fiios do Coroné Antônho Pedroso Neto e aí passô sê minha madrinha, Briza Matias Neto. Foi ansim qui fiquei cum essa liberdade de falá do Totonho, da Briza, pur sê mermo paricido cum um fiio deiles, um fiio de adotivo. E era uma filharada: Beatriz, Consuelo, Luciana, Isabela, Constância, Maria Floripes, Zezinho Netto Filho, Sebastião, Albano, Clemente, Lucas, Mindinho Netto, Alvino, Aldo. Todos cavavam a vida numa propriedade muito boa, de seis ou sete alquér, munto boa mermo. Tinha lavoura de café, tinha pasto de criá carneiro. Ali a madrinha deile lidava munto, e o Coroné, que era tamém delegado, era munto respeitado, munto valente. Eile gostava de comprá uns bezerrinho por ali e i criando. Tirava lã e mandava para Ixtrema. Fornecia lã e naqueile teimpo os tecido era feito de lã e algodão, e o algodão era munto pouco aqui no Brasil. O teimpo foi passando. Com pouco ele comprou uma outra propriedade com nome de Fazenda do Mastro e pôs lá o Zezinho Neto Filho, o mais véio. E remendando a voz do Coronel dirigindo-se ao primogênito: - Pois é, Sô! Ocê tá trabaiano aqui e a sua muié tá trabaiano na vizinha. Agora ocê vai cum eila pra Fazenda do Mastro e nóis vai é cumprá bizerro e criá boi. - 47 -


E contou que o Coronel “foi lá num fazendeiro perto e sem um tostão de dinhero comprô uma boa manada de bezerro”: - Oh Sô, eu vô levá esses boi agora, mais num tenho o dinhêro. O Zezim Neto Filho foi cum uma incumenda pra Ixtrema e condo eile vortá eu venho e pago o cumbinado. Si quisé eu deixo aqui um fio da minha barba na garantia. - Qui nada, Totonho, pode levá. A gente cunhece a sua palavra pur demais. Pode sigui imbora. - E ansim foi se arrepetino: cumprá uma manada de boi e levá eila pra Queluz ô pra Benfica. Vem e cumpra outra manada de boi e assim pur diante, seimpre cumprano mais pra infrente. E o homo foi ficando cada veiz mais doido cum dinhêro. Comprô um burro forte de nome Torêro. - Oh Sô! Eu perciso cumprá um burro forte, Sô! O meu tá munto fraco, Sô! Vô é cumprá aqueile burro de istimação do Coroné Fernando Carvalhais, Sô! ... - E na primêra veiz qui o Coroné Fernando Carvalhais passô pela Fazenda das Águas eile cumprô o Torêro e o outro Coroné foi levado im ôtro burro pra sua fazenda. Im pôco teimpo, o Totonho virô um boiadêro respeitado. Sua vida era andá pela Zona da Mata cumprano e vendeno gado. E o resurtado vei logo. O Totonho virô boiadêro – era a vóiz geralr. De manada im manada, boi pra cima, boi pra baxo, mexe aqui, mexe ali, no fim do ano, eile cumprô mais a Fazenda da Baronesa. - Quanto mais tinha, mais incintivava seus fiios a trabaiá: - Oh! Ocês trabaia mermo, Sô. Trabaia dia e noite. Num é pra amanhecê o dia na cama, não, Sô! Eu qui sô eu fico andano, andano inté déiz hora da noite e as’veiz de madrugada, pra sarvá o tréim d’ôces, Sô! Lembra então o Miguelin, de passagem, da lida do Zezinho Netto Filho na Fazenda do Mastro: - Eile mermo era um sujeito qui trabaiava o teimpo intêro. Feiz um ingém-de-cana e passava o dia mueno cana, fazeno açúcra, fazeno cachaça, fazeno rapadura, inté cansá. Culhia tamém café qui tinha pur culhê ali e vindia... - 48 -


... - O Coroné num cansava de ripiti: - Oh Sô! Eu tô ficano véio, Sô! Todo mundo percisa trabaiá qui eu quéiro é um terreno pra cada um d’ôces. Eu agora arranjei um braço dereito pur nome Zé Torquato e nóis vamo é andá junto pra mais longe, lá prás banda de Ubá, Viçosa, Ipiranga, Dom Silvério, Guaraciaba. Fiquei assim sabendo que o Coronel Antonio Pedroso Netto, a seu modo, aumentava cada vez mais seu raio de ação; voltava, porém, sempre, com a boiada que negociava pelo mundo afora, para Queluz, Benfica, Petropólis, Extrema, locais na época com grandes frigoríficos. - De cada veiz chegava a negociá quinheinta, seisceinta cabeças de gado. E sempre vortava pro Tabuão da Serra cum munto dinhêro, cum vário pacote de dinhêro, imbruiados ni papé-de-jorná, e brincava seimpre cum seu neto Gerardo, fiio da Maria Froripes, deixano do lado da sua cama os imbruio c’as nota. Dia siguinte de manhãnzinha, incondo o Gerardo acordava, incontrava seimpre um dinhêro bão qui dava pra cumprá um cavalo. ... - Dicerto é qui foi ganhano dinhêro e adquirino seimpre mais cunhicimento. Seimpre ino inté mais adiante e na propriedade deile mermo eile virô um mero visitante. Essa senda terminô incondo cumprô a séitima fazenda, a do Lageado, na Santa Maria do Disterro, pru mode qui nessa épuca andava negociano munto prus lado da reigião de Sobrêra e de Viçosa. Entregô a diministração da Fazenda do Lageado pru Albano, o quár nóis chamava de Aldin. A Porcina Davi, impregada da Fazenda das Água, tava isperando um fiio deile. O Coroné intendeu qui cuns 250Km qui separava a Fazenda das Água, no Tabuão da Serra, inté a Fazenda do Lageado, na Santa Maria do Desterro, era um novo lurgá de morá qui ia fazê bem pro fiio qui tava cumeçano na maioridade - vinte e um ano. ... Segundo Miguelin, foi somente aí que parece que o homem se aquietou um pouco e completou seu tempo de delegado (doze anos) lá na cidade de Tabuão da Serra. Sua fortuna continuou crescendo cada vez mais. Agora tinha muitos colonos e empregados que faziam todo o trabalho de escolha e compra do gado para ele, sem o mesmo precisar de arredar o pé da Fazenda das Águas. - 49 -


Nesse ponto quis precisar a data. Perguntei-a ao Miguelin, que não se cansava de enfatizar que, nessa época, o Coronel passara a andar com roupa militar nas festas e nos dias especiais. Havia comprado uma carta patente de Coronel. - Que ano era esse, Miguelin? - 1926. E eile já tinha a carta patente de Coroné. Eu mermo condo me dei pur gente já chamava eile de padrim Coroné Antônho Pedroso Neto. - E você, Miguelin? Nessa época de 1926, o que estava fazendo de sua vida? - Óia, nessa épuca, eu tinha sido mudado pra Jumirim pra mode podê istudá. Passei a morá na casa do fiio de um parente do Coroné de nome Chico Neto. Eu tinha intão sete aino de idade. Foi nessa épuca qui o Aldin cumeçô se ingraçá cum a fiia do Juaquim Perêra da Moenda, a Eunice da Sirva Perêra. O terreno deiles era munto grande: ia cá do Cantagalo pra cima do Pontilhão do Carmo e do Zé Afonso Carnêro inté chegá lá imbaxo na Istação Nova – uma méidia duns cinco quilômatros. E ali siguia da Istação Nova e ia saí lá no Santa Maria do Disterro dano bem umas seis légua. E aí é qui siguia de perdê de vista indo inté a Parada do Fundão, pariano cum a Fazenda do Lageado, do Coroné Antônho Pedroso Neto, qui o Aldin tava tomano conta já uns teimpo. ... - O minino Aldin era divera munto trabaiadô. Sentô uma máquina de café munto ispicial. Foi lá no Rio Fundo e indiquiriu um máquina dessa da Leopoldina, qui foi levada na puxada de tréim inté na Istação Ferruviáira do Santa Maria do Desterro. Daí eile pegô uma junta de déiz boi e transportô junto cum os carrêro essa máquina locumove para a Fazenda do Lageado. Chegô lá e fêiz umas mudificação neila cum todo café da fazenda era juntado num terreno bem incima da máquina locumove. Os carro de café chegava da fazenda de todo lurgá e era depositado nesse terreno. De lá, cum os rodo, os colono impurrava o café pra deintro de uma ruela do tipo de incanamento, qui incaminhava o café pra deintro de um depósito deintro da máquina. O Miguelim maravilhado, continuou: Lá tinha uns negóço paricido cum caneca qui limpava o café todo da fazenda. Eu mermo nunca vi falá de ninhuma proeza da gran- 50 -


deza dessa inté naqueila épuca. Foi mermo uma idéia munto amaió da intiligênça no lurgá e naqueila épuca. ... - Mas o Aldin não parou aí. Sentou um ingém para trinta carro de cana. Formou lavoura para vinte e cinco mil arrouba de café. Sacos de arróiz, que não tem conta. Sacos de feijão, que não tem conta. Trinta égua, vinte bezerro, vinte carneiro. E aí começou a namorá a fiia do Juaquim Pereira da Moenda. E o namoro era pouco, como o povo falava, “com muito respeito né?” O Aldin era mermo muito trabaiadô e concentrado no trabaio e não tinha munto papo, não. E veio logo a vontade de casá co`eila. E ele foi falá com o Juaquim Pereira da Moenda – um homo muito reservado, de pouca conversa, muito sisudo. Entendi que ele de pronto aquiesceu: - Si o sinhô tá adisposto pra casá, casa mermo. A viela aqui im casa é mei apertado mermo. E esses namoro qui cumeça a demorá munto, num sei não! É meió acabá cum isso e casá logo. Foi aí que o Albano Pedroso Netto partiu para a Fazenda das Águas, na cidade do Tabuão da Serra, para pedir ao Totonho e à Briza a bênção para seu casamento com a Eunice da Silva Pereira. E nós já sabemos com os devidos detalhes o que infelizmente veio a acontecer, através do relato do Miguelin - Miguel Roberto Netto (ou Pedro Lobo Cordeiro), que nasceu em Rio Novo e foi batizado em Guarani do Pomba. Viveu, sobreviveu e encantou muitas pessoas pela Zona da Mata e principalmente pela região e arredores de Santa Maria do Desterro. Sua vida, a de um homem simples, típico caipira, muito inteligente, sempre sensível às necessidades do próximo, um especialista nas relações humanas. Educação primária, inteligência superior, mestre como contador de estórias. - Fui cobradô do Zé das Neves, do Juca Constânço. Sô maderêro; sô distiladô; sô fermentadô; sô cabuquêro; sô serradô; sô cutilêro; amolo quarquer instrumento; tudo é cumigo mermo. - O padrim Coroné Antônho Pedroso Neto mandô me chamá pra morá cum eile na Fazenda do Lageado, incondo o Aldin se açuicidô. Eile intão me pidiu pra sê um aguarnecedô invorta desse trecho, pra recebê as pessoa cum todo respeito e pra podê ajudá eile incondo era visitado ansim pur uma moça munto boa, ô uma muié munto boa. - 51 -


O Aldin tinha murrido ali e ali ninguém quis ficá. Até os cachorro vortô pro Tabuão da Serra. Intão incondo uma muié dessa aí vinha visitá a fazenda percisava duma pessoa cumo eu, pra arecebê quem vinha na fazenda visitá eile. Recebê uma Marieta Palermo, uma Henriquetinha Perêra, uma Nana Lobo Perêra, na qualidade qui eu era de minino afiiado, minino fiio do Coroné Antônho Pedroso Neto. Cumpriendeu? - Olha, Miguelin, essa parte eu não entendi bem. Ele lhe pediu para fazer o quê? - Eu um afiiado, fiio do Coroné, pircisava amais do quê prá mantê todos os respeito, pra arecebê uma moça, uma muié qui chegava na fazenda. O Coroné tava sozinho e... ronel?

- O Senhor era então uma espécie de relações públicas do Co- Hein?

- “Relações públicas”. Uma pessoa que ajuda outra pessoa a se comunicar com os outros e a sociedade. Entendeu? - Intindí. Indagora intindí. Refletiu mais um pouco e concluiu: - Mais, no fundo, dotô, eu era mermo é uma relação pirigosa pra guarnicê nos causos de quarquer muié do Santa Maria do Desterro qui aparicesse na fazenda. - Entendi. - Aí eu fiquei pur’ali uns ano inté qui o Cremente e o Lucas viero visitá o Coroné. Eiles era meus irmão de criação lá na Fazenda das Água, no teimpo qui eu era nuvim. ... - Nessa épuca as coisa já tavá meió e o Coroné me chamô e disse: - Pois’é, Miguelin, tirei ocê da iscola no Chico Neto, no Jumirim, Sô. Agora eu vô mandá ocê pra os Perêra de Santa Maria do Desterro, pra Dona Maria Amélia. O Clemente e o Lucas vei pra qui, e ocê vai aprendê mais um pouquim, viu? - Eile me tirô da iscola no Jumirim, im 1926. Minha professôra era a Dona Gerarda Pracópio. - Geralda Procópio – corrigi. - 52 -


- Não. Gerarda Pracópio mermo. Ela gostava munto de mim. Ela me deu uma saída munto bunita na minha nota, e um ofiricimento de amizade deila pra mim. Ela me deu um cartão pra ôtra professora qui eu guardei seimpre. Caso eu vié a percisá de intrá im ôtra iscola, era mermo qui um cartão do guverno. - O quê? - Era mermo qui um cartão do guverno... Aí, eu pudia intrá ansim na boa, na hora qu’eu quisesse, n’ôtra iscola, né? - Ah! - Passei vivê entonce na casa do Dotô Diamantino Lobo Perêra, irmão do Dotô Roberto Lobo Perêra, numa casa de catorze porta. - Adespôis duns teimpo eiles me chamô e dissero: - Óia Miguelin, ocê num chama Miguel Roberto Neto mais não; agora ocê é nosso irmão e vai chamá José Lobo Pereira. Ô famiia qui era distinta! Vivemo tudo junto cum essa finura. - Fiquei entonce uns teimpo cum eiles, cumo parte de guardacosta do Dotô José Lobo Perêra, cadiquê eiles apercibero qu’eu era minino magro mais cum munta corage no 32, sabe? - Uns teimpo eile morreu, eu arresorví partí no mundo e fui chegá im Ôro Preto. ... do?

- Qual a idade que o senhor tinha quando partiu para o mun-

- Uns vinte’dois ano. Parti e cunsigui lurgá na Cumpania Henrique Guarnelli lá im Ôro Preto. - Companhia o quê? - Henrique Guarnelli, do Dotô Rico Henrique Guarnelli. A muié deile era a madame Chanda. Mi impreguei cum essa gente. Cumecei di contrato, adespôis passei pra turma de cima, passei pra cabuquêro, pra batê barranco. O Chefe lá era o Anjo, o Gringo. - Ângelo, não é? - É. Anjo, Gringo. Adespóis de munto teimpo luitano, trabaiano, uma veiz eu cheguei neile e pidi conta. Pedí pr’eile mi mandá imbora. - 53 -


- Não. Diss’eile: Ocê aprendeu a trabaiá bem nessas máquina Miguelin... E é munto arresorvido. Eu vô é ti dá armeinto de ordenado. - Oh Anjo! Eu quéiro é i imbora. O sinhô dá a minha saída. Dá uma saída bunita pra mim na minha cartêra. - Quê qui é isso, Miguelin. Eu vô armentá ocê... - Oh Anjo, num carece. Eu quéiro mermo é i imbora. - Inté qu’eile viu qui num quiria ficá mermo... - Tá bem, dô uma saída bunita pr’ocê. Vô colocá na sua cartêra maquinista de martelete e trabuquêro. - Aí eu intrei na Cumpania Manel Durães pur influênça do Mário Sargado qui era um trabuquêro amigo lá de Santana do Paraíso. E eu qui tava ganhano seteinta mil réis a hora na Guarnelli passei a duzeintos mil réis a hora na Manel Durães. - Que diferença, hein, Miguelin? - É. E eu num tava caçando dinhêro mermo não. Tava só queireno mudá. E eu passei prá pronto mermo: entrei cumo pronto – trabuqueiro de maquinista. Ganhei munto dinhêro; cumprei munta rôpa. Fui im Bel’lorizonte na primêra veiz e gastei o dinhêro quase tudo lá. ... - Aleimbro bem qui tava na rodoiviáiria, cundo ôvi me chamano? - Miguér! Miguér! - Era o Sirvino Nado, duis antigo colono do Ardin, ricunhici logo, mais eile tava munto magro e cum cara triste, falei qu’eile! E eile falô: - Num cunsigo ficá mais aleigre não, nem um puquim... Eu era alegre cum minha muié e meus fíio, num vô isqueçê disso. Meu coração tá cum firimeinto qui num vai sará mais... - Me contô e disse qui despôis do acunticido cum Aldin, saiu, casô e foi trabaiá na cidade, numa fáibrica de munto sirviço. Trabaiava munto todo dia, fazia serão prá ganhá mais e criá os cinco fíio qui teve casado cum a Crodirde. Falô qui todo mês ficava um dinhêrim prá passiá e qui dava pra juntá incunumia de futuiro, qui a Crodirde ia guardano... - 54 -


- Eile trabaiava até ais’déiz... ô ais’zone hora da noite... e ia imbora. Aqueile dia, falô qui táva cum muita sardade da Crodirte e arresorveu imbora ais’seis da tarde. Aí eile passô, cumprou uns sargadim prá fazê surpresa prá eila... Chegô im casa, tudo feichado! Só a poirta da cunzinha tava incostada... Intrô, passô na cunzinha dexô os sargado na mesa e ôviu... Ôviu: Hum... Hum... Ái... Ái... Ái... Hum... Ái... Hum... Ái... Hum.. - Eile vortô na cunzinha, pegô duas faca nas mão, impurrô a poirta do quarto, e viu a Crodilde e o Vandim, seu vizim, os dois peladinzim, eile incima deila. Eiles assustô. E o Sirvino deu facada, deu facada, munta facada nos dois... Mais de déiz facada neila, mais de doze facada neile... Já tinha dois dia qui o Sirvino tava sumido de lá. Falô qui o retato deile saiu no jorná. - Virei foi um bicho Miguér, só parei cundo eiles cairo no chão. Vi munto sangue no chão, neiles, eiles caído no chão cum munto sangue... Saí curreno, os vizim me viro saí, mais sumi... ... - Êile me ixpricô ansim, e arripitia: Hum... Hum... Ái... Ái... Paricia qui aquilo ficô na cabeça deile! ... - Falô: vô vortá lá, eiles num morreu não! Vou vortá lá prá cabá o sirviço? Eiles num morreu não! Meu coração tá firido, mais gosto da Crotilde e dos meus fíio... - Num vorta não, Sirvino, vai infrente e súmi... Vai fazê ôtra vida mais longe! Vai prá Sum Paulo, pro Goiáis... Se os minino quizé, um dia te percura. Deus Pai oia procê, e ocê num matô! Eiles tão firido, mais firiro ôce primêro! ... - Num vorta não! Se vortá, cê vai sê preso e morrê na cadeia. Purquê o firimento deiles êiles vê, o seu, qui tá deintro d’ôce ninguém vê não! - Eiles vão sará Miguel, e eu, nunca! Nunca vô ficá sem essa dôr no coração! sumi.

- Vai imbora Sirvino! - Falei e dei um dinherim pra’judá eile ... - 55 -


- Depois que o senhor voltou de Belo Horizonte, continuou bem no emprego? - Não, eu tava queireno muvimeinto. Aí, fui pra Mariana e cunsigui pra trabaiá na Mina da Passage. Deus me ajudô pruquê eu tinha ajudado um conterrâneo meu lá na minha terra, o Ogênio. Eile me incontrô e prumeteu pra mim qui ia me colocá lá na mina cumo canudêro. - Ai o senhor ficou quanto tempo? - Mais uns teimpo. Adespôis eu vim pra Usina Carlo Trivelatto, aqui im Serra do Antão, im 1939. - Como Crivelatto? - Carlo Trivellato, de italiano, né? ... - Por que o senhor disse que Deus o ajudou? - Puquê acunticeu qui dois camarada maducou lá cum o sirviço... - Dois camaradas o quê? bom.

- Os dois bubiô cum o sirviço e o balancêro me oiô cum zóio

- Oh! Miguelzinho, eile falo: nóis mandô dois camarada imbora pruquê eiles azarô o tréim aqui. Ocê vai trabaiá de bambotage de iluminação. ... - Cumecei, mití o pau daqui; mití o pau dali. E cumo num tenho mermo priguiça, já no fim d’uma sumana, eu fui levado a um tar de Araújo. E o Araújo preguntô diréitamente pru seu adijuinto: - Cumé? Esse rapáiz trabaiô bem aqui? - Ih! O páitio aqui num deu puêra. Capotage, certo. Váicuo certo. Tudo certo. Eile merece trabaiá aqui. É homo qui vale pur dois homo. - E aí fui pogredino. Fui ronda. Fui feitô. Cheguei a trabaiá chefiano até seteinta e cinco home. Não percurava arrodeio, se percisava acorregia o rumo: - Oh moço! O caminho é pur’aqui, num é pur’ali. - 56 -


... E como a estória estava ficando muito séria, só se falava de trabalho e mais trabalho, arrisquei uma pergunta indiscreta: - Miguelin, pode me contar a estória daquela namorada que o senhor levou para casar e o padre não deixou? - Ah! Uma veiz eu quis casá cum uma Perêra de Castro. Moça boa, mais boa mermo! - Por que ela era boa? - Uai, uma moça trabaiadêra, munto inducada. Eu quis casá cum essa moça... - Qual a idade do senhor na época? - Dizessete. - E já queria casar? - É. - E a moça, qual a idade dela? - Dizessete, tamém. - Bonita? - Bunita. Munto bunita. - E ela queria casar com o senhor, Miguelin? - Ih! Quiria. Mais quiria mermo. - Você já tinha namorado ela? Como é que era: você olhava só? Com muito respeito, não é? - Oiava, só oiava! Cum respeito dimais, uai. casar?

- Conversava o que com ela? Como você sabia que ela queria

- Quiria... Eu eira séirio. A moça, condo qué casá, pregunta se a gente tá cum as boa intenção. E aí eila dá o apêrto se a gente qué casá mermo, ou se tá só bubiano. ... - Pois’entonce, eu partí cum os papér pro Pontal de Serra do Antão pra incontrá o Padre Pedro. - 57 -


... - Apiei pur perto, prá cheguá no tôco da árvre e dexá minha mula. Ví o Padre e fui dizeno: Oh Padre! Eu vim aqui pruquê eu tô queireno casá cum minha prima. - Não, não, num pode não! Eile deu de batê os péis, pulô e arredô pra’tráis de ispanto. Aí eile me xingô todo. Me xingô num sei de quê e só num me xingô de Padre. E foi m’isculachano, só m’isculachano, isculachano... - Êita Padre, num é qui eile me cunhicia, tinha um cunhimento da famíia toda e sabia qui a moça era prima’minha de premêiro grau! ... - Oh rapáiz, ocê num pode casá cum essa moça não! Ela é cumo sua irmã. Num tem mais muié no mundo, não? - Muié não, Sô Padre! A Guiomar num é muié não. Ela é moça donzela. - E ocê num é homo? Ansim cumo ôce é homo, eila é muié desde o dia qui eila nasceu... ... - Aí eu intindi... e amansei. - E aí eile falô cum fala firme qui num dava pr’eu casá mermo não. - Intindi... - Mais aí eile ispixô assuntano e in’siguida me pidiu duzeinto mi’réis. - Incumo eu aindava seimpre cum revorvim, até arrevuô na minha cabeça um pensameinto de atirá neile. - Oh! O senhô tá me martratano, Padre! - Mais dá ô num dá pr´eu casá, Sô Padre? - Oh Sô, ocê deixa aí o dinhêro, eu vô vê; mais fica sabeno: num posso ainda ti agarantí nada. ... - Aí fui diréitamente percurá minha tia e falei cum eila: Oh Tia! O Padre só não me chamô de cachorro vira-lata, nem de Padre. Do resto eile me chamô e me xingô... E falei tudo ixplicadim pra eila. - 58 -


... - E o que sucedeu? - Aí eu saí adiante e fui passá lá na casa d’um tár de Chiquim Balduíno e preguntei pra eile e pro irmão deile Bastião Balduíno se êis num quiria casá cum a Guiomar. Eu tava sabeno qui êis tinha uma tendênça pro lado deila. Cunversei e ixpriquei tudinho pra êis a ixpricação do Padre Pedro, qui era pruíbido eu casá cum eila pur impedimento do causo qui a gente sê quaise cumo irmão, inté de mermo sangue. ... - Miguelin! Você pediu a moça em casamento e acabou passando ela para os outros? - É mermo, passei! Cumo eu num pudia casá cum eila, passei eila pro ôtro. E o nêgo do Sebastião Balduíno, casô mermo cum eila. Num era do gosto da minha tia, qui ante disso num gostava de ver a fiia cum argum quemadim ô do tipo’amorenado. Eu num casei cum eila, mas eu coloquei eila. - Oh Miguelin! Só o senhor mesmo, Miguelin. E o senhor gosta dela até hoje, não é mesmo? - Não... Mais ô meno! Eu tenho munto respeito cum eila. Logo adespóis do acunticido eu cunversei cum eila. Despôis de casada eila cuntinuô munto bunita, tava munto bem e até me falô: - Pois’é, primo. Num deu né mermo? - Eu tav’ali percisano d’um dinherim pra viajá e, num vê só qui sem pidi eila, eila me deu uma cartêra qui tinha achado, cum déizessete mi’réis deintro. - E o senhor não quis casar mais com mais ninguém, Miguelin? - Não! Daí prá cá eu fiquei voluve. - Volúvel? - É! Voluve mermo. - Ficou difícil, não é? - É, ficô difíci... Eu óio e num é os ôio deila. Eu óio e num é os dente deila. Eu óio e num é a cara deila. Eu óio e num é a Guiomar... - 59 -


... vida?

- Compreendo. Mas, Miguelin, nenhuma outra mulher na sua

- Uma veiz eu cumecei namorá uma tár Gerarda, da Lilica. Cumecei inté cum fé cum eila. Era uma moça parrudinha... mas eila era munto vigarista. Um dia eu namorei cum eila lá na cidade, dispôis larguei eila lá na casa deila e vim’imbora. O sinhó num sabe qui eila vortô pra cidade e passiô cum um tár de Zé Subrim! ... - Foi a minha prima Guiomar mermo qui vei me percurá e abriu meus’ôio: - Oh primo, Pois’é! Ocê quis casá cumigo... num deu! Nóis num pudemo casá. Agora eu vô casá cum o Tião. Mais a sua namorada num é ligítima cum’cê não, Miguér! Eu vô ti falá verdade: eila passiô cum Zé Subrim onte lá na cidade. ferno!

- Aí, eu terminei o tréim de veiz. Oh Capeta! Qui vai prus in...

- Eu num quéiro nada cu’esse diabo mais não. Saí, fui m’imbora deila. E daí prá cá é só: pá, pá, pá... Pá, pá, pá... Eu pra cá, ela pra lá. Cada um pru seu lado. Ninhuma é prá casá mais. Colocou a mão esquerda espalmada sobre o coração e pude dimensionar o quanto foi significativo o amor que o Miguelin sentiu pela Guiomar. Não deixou nenhum filho por aí, não, Miguelin? - Não. Graças a Deus não! Eu sô home munto sincério. Fui criado cum o Coroné Antônho Pedroso Neto, e eile mi insinô as coisa de moralidade, e prindi munto. - É, realmente o senhor teve um bom professor nesse assunto, acrescentei. O Miguelin fez que não entendeu. Continuou: Neca.

- Eu fui cobradô do Juca Constânço. Fui cobradô do Zé da

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Fui pagadô do Vardemar Home e era da cunfiança deile mais qui os fiio deile. Só aí percebi o significado de moralidade que o Miguelin estava empregando e, realmente, não deixa de ser um aspecto da moralidade, a honestidade no trato com o dinheiro dos outros.

De boa árvore, bom fruto (4) - 61 -


Capítulo 5

Véia vira moça e véio vira rapáiz cum o chá da casca da canela sassafráiz Naturae sequitur semina quisquis suae (5)

Aproveitei, sim, o Miguelin, certa feita, para pesquisar, garimpar mesmo, seus conhecimentos sobre Medicina Popular. Conversamos quase duas horas sobre vários tipos de doenças humanas e os tratamentos que faziam parte de sua experiência, de seu universo não acadêmico, popular, caboclo. Sua forma de diagnosticar e tratar mostrou-se puramente intuitiva e prática. Sua proposta diagnóstica e terapêutica não usava qualquer recurso da medicina oficial, ou da medicina religiosa, espiritual ou mágica. Sua Medicina era baseada numa proposta de fitoterapia popular, com recursos próprios de seu habitat natural vegetal e animal e uma boa dose de bom senso nas normas de higiene alimentar, emocional, mental. Deparei-me, porém, sobretudo, com um ser humano confiante, seguro, determinado, dentro de seu paradigma, de seu universo e de seus meios. Defrontei-me com um mineiro interiorano, sem educação formal, mas profundamente voltado para procurar responder positivamente às necessidades de seu semelhante. Em tudo e sempre se mostrou feliz e realizado quando podia colaborar com seu saber e fazer para minorar o sofrimento do próximo, sem almejar qualquer retribuição a si próprio sob qualquer forma ou pretexto. Foi assim que me contou, por exemplo, o tratamento que indicou para o pai do Manoel Felício: - 63 -


- Era um rapáiz qui tava trabaiano cumigo. Aí, eile cramô pro pai deile qui morava no Córgo Novo. Eile tinha cumprado aqueila propiedade qui era do Zé Martim. - Oh Miguelin, o sinhô num sabe arguma coisa pro meu pai? - Ué, as vêiz eu sei, uai! - O sinhô cunhece munto chá, munta coisa... - Cunheço argum, uai! - E você conhece o quê? Miguelin, perguntei. - Cunheço argum chá de reimédio. - Ahm! Que bom! - O Rapáiz intonce mi falô ansim: o meu pai sente umas dor nas côxa. Beim nos ôsso das coxa, vai de inriba inté imbaxo inté ferruá nos turnuzelo. Biservo, num fico próxumo, pra num vê eile ansin cum essa dor qui prijudica munto eile. Já foi no méidico. A dor num sarô. Tornô vortá. A dor cuntinuô. E tá’inté pió. Tá deintro das coxa, vai deintro dos osso deile, num sabe? - Ô meu fi, ocê tá veno aqueila moita lá, tá veno? Aqueila moita qui parece uma mariazinha? Ta veno lá naqueila groita, lá ó?... Ocê tá veno lá?... - Tô. Falou: - Mais logo, ind’antes d’ocê i imbora, ocê vai lá naqueila moita e tira ômeno quatro raíz daqueila. Aquilo é o pacová do mato. - Cumé qui chama? - Pacová. - Pacová? - Pacová. Aqueile é o do mato. Lá no Zé Botêio Pinto tem o pacová de casa. - Sei. - Ocê logo leva umas trêis raiz pru seu pai. - São quatro raízes ou são três, Miguelin? - 64 -


- Trêis. - Tem que ser raiz, não é, Miguelin? - É. Ocê leva umas trêis raiz pro seu pai. Tem uma raiz grossa inguár cará de mariazinha. E ocê passa lá no Orozimbo e pega meu pau de canela sassafráiz qui tá lá - eu tava cum intensão de tirá a casca deile e fazê o mantimeinto aqui. Mas pode leva, a casca é muito mindicinár. Cumo ocê vai tratá é do seu pai, ocê pode intão levá o meu pau. É um pau de sete parmo. Peguei meu pau no mato da casa do Orozimbo e tava arreservano eile. É um pau munto jeitado! Ia lisá eile pra fazê um cabo de machado. Mais ocê pode levá a casca deile e pode inté laivrá o pau tamém se percisá. Ocê chega lá e tir’um punhado de casca neile, bastantim viu? Pega uma nódea deile boa, beim no pé do pau ansim, uns vinte ceintímetro. Eile tem ceinto e vinte ceintímetro de cumprimento. Ocê corta, raspa aqueila casca deile de vinte ceintímetro e bota pra cunzinhá pro seu pai. Mais ocê iscói uma vasilha qui cabe ô meno di uns trêis litro dágua. E fala cum eile pra num tirá a vasíia do fogo logo não. É munto líquidio. Mermo incondo tivé quaise secano, tem ainda munto líquidio deintro deila. Cê leva e fala pra eile i tumano aquilo... Cum café amairgo, umas trêis veiz ô dia... - Espera aí! Como é qui faz o chá? – Perguntei interessado pelos detalhes. - Tiça no fogo uma vasíia qui leva trêis litro e põe prá cunzinhá. - Põe para cozinhar o quê? - Bota no fogo! Vai punhá no fogo prá cunzinhá, num é? - Pois é, mas põe o que lá dentro. O pacomá? - A... - A casca? - A casca da canela sassafráiz. - O quê? fráiz.

- Sassafráiz. A canela sassafráiz! Punhá casca da canela sassa- Sassafrás? - 65 -


- É. - Hum! - Aí... - Como é que a gente corta a casca da canela? - Quebr’eila, mass’eila, desfi’eila. Esse rapáiz intão... - Mas o senhor falou num pau que o senhor tinha e falou também numa raiz? O rapáiz levou os dois? - A raiz...Eile levô a raiz... E passô lá no meu pau e levô eile tamém. - Pôs os dois então? - É, levô... Botô na garupa da bicicreta e levô. - Pois é, mas põe para cozinhar os dois? A raiz e o pau? E a casca do pau? - É. - E aí? Cozinha quanto tempo? - Tem qui cunzinhá bem cunzido. Bem cunzido, mermo né? - Bem, cozido... é quanto tempo, Miguelin? Uma hora, duas horas, dez horas? - Uma méidia... Punhá prá cunzinhá... Quatro litros dágua... A hoira qui tivé dois litros dágua pode cumeçá usá. Bebeno aquilo... Ô cum café ô intão puro... - Isso aí dá quantas horas mais ou menos? - Pra cunzinhá? - É. - Vai gastá mais de hoira. Pra fazê casca sortá líquidio, é mei difíci, viu? - Mas, Miguelin, quantas horas? - Ah... duas hoiras. - Eu acho muito pouco duas horas. - Trêis hoiras intão. Cum duas hoiras já cumeça produzí. - 66 -


- Ah, entendi. ... - Com três hora já tem uma boa produção. Mas, vai mexendo ou deixa lá quieto? Fica lá fervendo... Fica tampado ou não? - Cum tampa! Num pode sê distampado. - Aí, ele levou e fez isso para o pai dele, e o pai dele sarou. Mas o pai dele tomou quantas vezes ao dia e qual a quantidade? - Ficô pur ali usando aquilo, ingirino de teimpo im teimpo, incondo num tava cum a barriga cheia, né? - Pois é, mas quantas vezes ao dia? - Cum’ele tava doido prá sará, nesse negóço de chá é ansim, aquil’eile foi interrano a mão mais, e mais, né. Deive tê bebido, bibido mais vêiz. ... - Aí, condo passô uns teimpo eile vortô e me disse: - Oh Sô Miguelin, o pacová e a canela sassafráiz cumeçô a curá meu pai, tá quaise são. Ele tá teno uma grande nuvidade nas perna, qui tá inté já dexano eile alegre. - Ué, fala cum eile qui é aquilo mermo. Vai tirando uns vinte ceintímetro de casca no pau, tira um tantim de pacová duma raíz daqueila e bota prá cunzinhá tudo junto e vai tomano. - Mais eu num cunhecia eile. E, pois o homo sarô! - O quê que sarou? - O homo, pai do rapáiz sarô. - Ah, o homem sarou. ... - Adispôis de mais um teimpo o rapáiz incontra cumigo travêis, pariceno jogadô de isporte alegre e dize: - Pois’é, Sô Miguelin, o papai tá bom qui eile só. - Pois’é, num é qui num cunheço eile inté dijahoje! Mais dagora já tô cum sintimento de munto prazê disso. ... - 67 -


- Passou um certo teimpo e um dia o pai do rapáiz, vem passando de carro, para, alguém salta do carro e... - O sinhô é o Sô Miguelin, num é? - Sô eu mermo. Eu sô o Miguelin. - Oh Sô Miguelin, aqueile reméidio qui o sinhô insinô o minino... O meu minino tava cum tanta vontade de mi vê bão e são. O reméidio bateu e valeu. Fui tumá e valê! Tô são hoje. Uma hurinha dessa o sinhô vai lá im casa, Sô Miguelin, qui vô dá o sinhô uma prenda, argum agrado, inté uma gurja de dinhêro. O sinhô vai armuçá lá, vai durmí lá, palavriá cum nóis um puquim... - Pois sim, vô’paricê lá sim sinhô, dêx’istá... - Nóis partiu, deu adeus e êis saiu... Num vortei atráis, num percurei sabê do home mais nada. - Faço coisa pros’ôtro, num é di interessado não sinhô. - Mais, qui eile tá são, tá. ... tinha?

- E o que ele tinha, Miguelin? O quê que o senhor acha que ele - Um rematismo nos ôsso. - E esse remédio é bom para reumatismo? - Hein? - Esse remédio é bom pra quê? - Rematismo. Dor nos ôsso. - Dor nos ossos e mais o quê?

- E ajuda prumá na sua caluna vertebrár. Ajuda se a caluna tá mei cansada. Ajuda liviá sá caluna na lombar e na vertebrár... érna tamém. - Numa hérnia, não é? Na coluna o quê? - Caluna dorsár, lombár, vertebrár. Dorsarmente, qui é subino lá pro arto da cabeça. ... - Oh Miguelin. O que é bom para essa doença que dá tristeza, - 68 -


que a pessoa fica triste, a tal de depressão? Que tratamento o senhor acha bom? - A nanoscada é boa cum certeiza, uái! - Onde que a gente encontra isso? - Lá pros mato tem; eila é uma fruta qui a gente pode cumê eila cum pimenta do reino. - Hum! O Senhor pode comê-la com pimenta-do-reino. E ela é boa para o quê, para tristeza, para depressão, o quê? - Isso mermo. Pr’essas pessôa ansim é qui dá. Tem paricimento de mancha rôxa e fica triste. Tano ansim, pode sabê qui tá cum manicunia, né? - Tá com quê? - A tár de manicunia! Cundo o rifirido ficá xôxo, fala prá deintro deile mermo... Tá cum manicunia! Infiá a nanoscada nel’aí qui ela é boa. coisa?

- Que mais pode ser bom? Só ela que o Senhor sabe ou tem mais - O quê qui eu sei, prá indicá, é só! Só eila qui tira e cura. ... - E para caganeira, o quê que é bom? - Prá essa desagradáve? - É. O senhor chama é caganeira mesmo?

- Piriri, o piriri gangorra cundo aquilo vai-e-vorta, caganêra mermo, feirmentação do istâmago, dilurimento cum currumichão na barriga, carririnha cum isguicho de biquinha, tud’isso acumpanhado de munto fedô. Esse mal’estar tem inté ôtros nome, qui cá pru intindimento é intistino disandado. O duicido de caganêra avacua cum gimido e no lurgá donde chegá arreda logo as cumpania. - O que é bom para isso? - Tuma o chá de quinino do campo, qui é o macaé. Tamém mané mago, ô a lavadêra, ô pão. É eile mermo: quinino do campo. Tem qui guentá, pruquê êita chá qui é margôso! - Quinino do campo? - 69 -


- É. Quinino do campo. Chama mané mago. - Mané mago ou magro? - É eile mermo, mané mago: pão, erva di urubu, tamém é eile mermo. - E como é que usa, Miguelin? Faz chá? - Munto fáci! Só iscolê e pegá aí sete fôinha. Esfreiga ansim... Pô as fôinha isfreigada deintro dum copo dágua, tamém cum pôquim de bicairbonato. É só bebê aquilo. Vai vê: corta duma vezada. A caganeira va’imbora e o sufrido fica logo cum cara de filiz. - Num isquece não, cê pode percisá dirrepente, chama quinino do campo. - Eiles fáiz tamém esse chá pra maleita. Pega e intonce manipula eile, né? - Ah, vejo que a quina é mesmo um santo remédio, não é? - Vô falá dinovo: quinino do campo! Num é quina não a quina é ôtra. Leimbra: quinino do campo é uma pranta piquena ansim, qui chama pão, mané mago. As muié usa prá lavá rôpa cum eile. - Aqueile reméidio qui chama aralém as fáibrica de fazê reméidio, fáiz é cum eile. ... - Isturdia, vinh’eu passano, iscurreguei na carçada. Um dos péis currêu pra freinte e ôtro ficô, a peirna arreganhô, eu caí. Dona Zezé viu aqueila vergonha tudinha! E me acudiu. Eila puxô ma’mão e me levantô. Sinti um dulirimeinto, mais qui vergônha! ... Num pude nem gemê! Leimbrei logo do preparado da arnica. ... - Indirigi prá casa, incontrei o danado do preparado prá passá nas virias e no catuvêlo machucado. Tumei tamém o chá da arnica qui curô a dôr, sarô os matoma e os machucado! - É, Miguelin, parece um santo remédio. É fácil assim de preparar e aplicar? - Aprindi usá arnica cundo era muçim. Pur causo da bicicreta do Cremente, irmão do Aldin. Uma bicicreta nuviiinha! Ele ganhô a - 70 -


bicicreta, tentô... Tentô... e num aprindeu! - Eu ficava cá, só oiano aqueila maravíia! Aqueilas roda, os chifrim de bigode, tudo briano! O Cremente chegô e falô: - Miguér, fica cum esse tréim dos infeirno procê. Eu gosto mermo é de cavalo! - Passava dia eu pegava pôquim. Subia, impurrava... Subia, arrumava ansim, impurrava eila e eila topava nos meu carcanhá. Aindava e eila vinha, me batia, e foi... Impurrava eila, eila ia... Eila negava, eu ia... Fui arruxiano pra toda banda. Dulurido daqui, ôtro dulurido dali... - Minha madrinha Brisa sintiu meu sufrimento e me acudiu: vai buscá arnica minino! Eila apreparô, cum arco e canfôr pra passá, e chá das fuiinha pra tumá. Mim’sinô e aprindi! - Apricá nos machucado, nos matoma e arruxiado e nos dulurido. E tumá um pôquim do chá. De manhã, de tairde e de nuitinha. Acaba tudim! ... - Miguelin, e para regular as mulheres? Aquele negócio de menstruação alterada. O que que é bom? - O Carapiá é bom pr’eilas. - Pur’aí fala quêl’é forte. Mais’eu sei só dizê, num sei, pruquê num sô muié! - Mais podê dizê qui eile é forte, cuntinuo dizeno, mais é cum as palávra qui sai da boca das muié. - Eu vi também uma tal de Caetana falando. Dizem que ele é mesmo um bom regulador. - Sei dizê qui o carapiá regula moça e muié. Izempro: muié qui já’tá’í fora da contage; ôtra muié qui num tá cum meistruação derêito: ô farta, ô num pára. A muié desaregulada ficá ansim mei parda, mei vermêia, as vêis cum cabeça duída. Tomá o chá de nove fio da raiz do carapiá arresorve. E é bão! Nove fio. Nove fio é forte, corta mermo. ... - Quando o Senhor fala do chá com nove folhas, é carapiá mais o quê? - 71 -


- Não, num põe mais nada não. É só as nove fôia do carapiá pra sujeito ofendido de cobra. - É bom? - É. O carapiá dá munta serventia. O carapiá... A raiz deile... - Ind’onte incuntrei o tár de Zé Filício: foi no méidico e ficô ino e vortano, ino e vortano... Fêiz inzame, reméidio de bebê, ôtro reméidio, cumprimido, injeção, pumada... Foi muntas vêiz pur causo dum buraquim no mei da parma da mão, qui purgava e num sarava. Um czema qui sortava um puzozim! Num tinha dotô qui curava... Num tinha fairmacêtico qui arresorvia. Muntos méidico, muntos fairmacêtico, num dava conta... - Nóis fumo precurano, precurano e aí incontramo a raiz do carapiá. O Zé Filício tomô o chá da raiz do carapiá, secô o puzo, sumiu o fuiinho, cabô o czema, cabô tudo! - Cum a rama do carapiá tamém fáiz chá prá dá quem tá quereno dá colápis. - Derrame? - Hum?.. - Não é derrame, Miguelin? - Não! Só prá negóço do coração! É pessoa sintino ameaça de colápis. - Pegá a rama do carapiá e pô pá secá. O sujeito invêis de tomá café, põe a fôia do carapiá ansim, na parma da mão, cumo eila tava lá no cipó. Tira ansim a berada do lado do dedão polegá. Uma fôia mais meia. A fôia qui saí cum talim, inriça fora. A fôia qui saí peladinha, cunzinh’eila e tuma no copo dágua. Pode doçá cum açúcra pruquê é munto margoso! É qui nem o café margoso mermo! É margoso! cê vai achá uma gustusura de bão, só adespôis qui pará de tumá. Num tem portança, é bão, cumbate aqueila gastura qui vai sintino condo qui qué chegá o colápis. - E fravurece as vêia de rispiratóira! - As vias respiratórias, não é Miguelin? - Isso! As vêia rispiratóira. - 72 -


... - E aquilo, Miguelin, da mulher ficar mais fogosa, do homem ficar mais fogoso? - Hum!.. Mais forgoso? - É. Mais fogoso. - Canela sassafráiz! - O povo é danado mermo! Véve percurando um milagroso... Num dá sussêgo mi preguntano cumo fáiz sinfuguetá. Véia vira moça e véio vira rapáiz cum chá da casca da canela sassafráiz. - Como é o negócio: a velha vira moça e o velho vira rapáiz com o chá da canela alçafrás? - Sassafráiz! - Essa eu gostei, Miguelin... Ah! Ah! Ah!.. É muito boa: “véia vira moça e véio vira rapáiz cum o chá da casca da canela sassafráiz”... ... - Conta para mim, Miguelin, sassafrás é bom mesmo, esse negócio é bom? O Senhor já tomou isso? - Não. Nunca tumei não. ... - Ela é boa pra caluna tamém. Sempri’tô buscano munto deila lá pr’as pessoa qui me pede pr’eilas... cum dor nos dedo, uma dor nas canela, uma dor nos ôsso do braço... - Então é mesmo uma canela? Como essa canela é? - É uma canela da fôia lisiiinha e vém num tronco qui é isbranquiado, cum casca preta. Condo’qué’vê si é ligítima, busca urbiservá o isbranquiado imbaxo, nus’péis deila. ... - O senhor já receitou esse chá pra quem, Miguelin? - Passei prá Creuza lá, qui tem umas dor na coluna. O Jisulino tamém já usô eila munto. - Quem? - Jisulino, um fazendêro lá. - 73 -


- E onde, Miguelin, o senhor arranja a canela sassafrás, por lá? - Ah! Eu vô buscá lá no quintar da Dona Ervira, qui é uma crente. E eila seimpre fáiz uma impricação: - Aí Sô Miguelin, o sinhô vei buscá mais levanta difunto, né? - Eu vim, Dona Ervira. - Cumo num respondê? É dilicado... Mió falá pôco e invitá cunversa... A gente num pode ficá espichano esse tipo de assunto, né?

Cada qual conforme seu natural (5)

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Capítulo 6

O mundo religioso do Miguelin “Pater noster, qui es in caelis, sanctificetur nomem tuum. Adveniat regnum tuum. Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra. Panen nostrum quotidianum da nobis hodie. Et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostri. Et ne nos inducas in tentationem: sed libera nos a malo. Amen”

Durante o período em que convivi com o Miguelin, tive o prazer e a honra de recebê-lo por duas vezes na minha casa, por cerca de aproximadamente uma semana cada vez. Presenciei, diariamente, que, antes de o mesmo se recolher ao final do dia ao leito, deixava a casa, encostava a porta principal e do lado de fora retirava o chapéu, que lhe acompanhava durante todo o dia, ajoelhava-se e, de mãos postas ao peito, olhos fechados e face apontada para os céus, em silêncio, permanecia em contato com o Superior. Durante todo o dia não se percebia qualquer manifestação semelhante a essa, seja ao se levantar, à mesa na hora das refeições ou em qualquer outro momento ou circunstância, e também não mostrava qualquer artefato, amuleto, ritual ou expressão que indicasse uma determinada definição religiosa. Uma noite inteira dediquei-me a perscrutar sua suposta formação religiosa e sua maneira de chegar a Deus que possa ter sido incorporada e exercida ao longo de sua vida. Disse-me, então, o Miguelin: - Condo eu morava lá no Santa Maria do Disterro rezava ali um Pai Nosso, uma Ave-Maria, uma Sarve-Rainha, adorava a Nossa Sinhora do Rusário. - 75 -


... - Daí uns teimpo, fui pro Serra do Antão. Tava no Serra do Antão im lá o patrão, o Italiano, gostava qui nóis intregasse adoração prá São Jusé. C’uns teimpo passei meu coração tamém pro São Jusé a pedido deile: - Oh Miguelin, cê num qué vim fazê uma reza qui’m casa, não? Tô mei véi ansim, mais num dêxei perdê minha fé não. Fui cumpradô de café, dispôis prantadô de café, passei pra vendedô de café e São Jusé é qui mi ajudô munto. Ôce vem rezá qui’m casa... Nóis gosta munto d’ôce. Qué cô cê reza cum nóis. ... - Fiquei cum crença em São Jusé uns teimpo. Mais, aí, eu falei cumigo: Oh meu Deus Pai! Eu num posso ficá nessa fé no São Jusé suzim, não! Eu tô cum fé no meu Deus, qui é o Deus Pai! Mais num consegui mi dicidi, fiquei naqueila confusão... prá lá, prá cá. ... Foi um tár de passár de ano, mex’aqui, mex’ali, léro-léro dessa geinte, fumo ino e êis formaro aí a Igrêja de São Jusé. Foi bom ficá ali cunviveno cum essa gente catóilica uns teimpo. Andei de adorar pur lá uns teimpo. Mais aí, eu vi que eiles num trataro direito a image da Santa Ifigêna. Num trataro eila ceirto não. Eiles num pusero eila no artá. Tin’dia qui fartava vela, tin’dia qui fartava frô. Puser’eila lá escundinha num cantim. Aí pensei cumigo: num pode! A Santa Ifigêna é santa importante, gosto munto deila! Os sordado daqui também é devoto deila. Eila num merece farta de cunsideiração dessa não, uái! Cuns temp’ali andei veno umas cuisinha errada ali tamém. ... - Tava mei guniado e aí o sinhô Nestô me convidô prá Assembréia e eu fui lá prá Assembréia cum eile. Fui chegano, orei lá cum eiles e eiles quisero logo qui eu intregasse já... Aí eu disse: - Não, num pó fazê a gente intregá fáci ansim não. Ansim não!.. qui adespôis a gente dá de arrependê. Eu vô ficá aqui uns teimpo... Mais uns teimpo... E vô meditá... Vô meditá tudo cumo é... Prá adespôis intregá. - Nos curto os irmão cumeçava dá cada tistimunho danado! Eu era assim, eu era assado. Eu fazia disso, eu fazia aquilo. Eu já fiz disso, eu já fiz daquiilo, eu já fiz aquilôtro... - 76 -


- Ahn!.. Hoje graça’Deus lairguei esse fairdo prá lá. Eu tô é cum Jesus no coração. Eu passei nas água, tô na terra, tô na graça... Eiles falava umas coisa qui era muito pesada! Só pudia sê coisa prá lá, prá lá do capeta mermo. Eu falei: - Oh! Eu num fiz tanta côs’errada ansim não, uai! Eu num vô mim’tregá não! Mais ficava quitim e num falava cuns irmão não. Passô uns teimpo, intrô um pastô novo. Um sujeito mei isprivitaido, mei falante, mei jeitoso: - Ôh Miguelin, ôce percisa intregá seu caminho pra Jesus. - Óh Pastô, eu tô esperano. Eu aquerdit’im Deus firmimente, im Jiová. Cundo fui batizado, e adespôis qui cunfessei, eiles me falaro: tem Pai, Fíio, Isprito Sainto! Hum... É ansim, uái?... prifiri uma isperteizinha: vô ficá só cum Pai! Tô inté hoje cum Êile, cuntinuo ubuservano tudim puraí... ... - Passô uns teimpo vortô o Pastô: - Oh Miguelin, a casa da Assembréia tá percisano de um machado. Sô Nestô falô cô ôce tem machado munto bom. Ôce pudia imprestá, dá ou vendê mais barato pr’Assembréia. A Casa de Deus tá percisano dum machado... ... - Intão fiquei naqueila situação. Er’um machado munto bão, qu’eu carregava cumigo já pur munto teimpo. Cumé cô ia fazê? Passei ficá assuntano uns dia. E o sinhô sabe? O Pastô já tavá é cum balaio airmado cum’a irmã, um’môça qui judava toda sumana na rumação d’Assembréia... A muié deile, coitada, era uma muié cum’a defeitura, mei tantã, mei leijada. Dispôis duns dia, eile panhô a irmã-crente cum eile junto e foi, disapariceu e levô tamém meu machado, sem falá, sem pagá... - Ah... Ah... Ah... Oh Miguelin, só o Senhor mesmo para cair numa esparrela dessa. Ah, Ah, Ah... E aí então complicou você acreditar nele! Não é Miguelin? - No mermo dia qui tava meu coração apreparado p’reu intregá na Assembréia, vai o danado do pastô fugi cum a môça, dainda levô o meu machado e... Num deu não, uai. E agora você pode acreditar em quem? - No Deus Pai, uái! - 77 -


... e falô:

- Topei cum Dona Ernestina Baião eila me deu uma bíblia véia

- Oh Sô Miguelin, o sinhô pode ficá cum essa bíblia... Vai, vai leno cum meu fiio Gustavo. Pode lê de novo, ôtro dia lê de novo, lê ôtra vêis, qui num tem ripitição... As paláivras fala cum cê cada hoira, cada dia de mode diferente. Num tem ripitição! Esse livro é muito poderoso. Cum eile ôce fala cum Deus. Tratá deile cum atenção é lê eile, todo dia ô toda hora qui pudé. - Aí eu garrei na bíblia! Eu falei: eu num queiro aquerditá em ninguém mais não, mais queiro cuntinuá cum Deus. Eu sô munto camarada... - Oh Miguelin, o senhor sabe ler o bastante para ler a Bíblia? - Eu leio um pouco, doutô! Dá pra lê a bíblia sim! Hoje minha leitura caiu... Cuns 56 prá cá meus óius parô de lê, m’a mão parô de escrivinhá, num tô pegano no pau mais nem prá riscá, eu tô cum a mão... O senhor não, está aí mexendo... Mexendo... Mexendo. ... - Quais outras religiões já tentaram levar o senhor, Miguelin? - Muntas. Era seimpre ansim: oh Sô Miguelin, nóis tudo gosta munto do sinhô. O sinhô pudia intrá pra nossa religião... Mas eu já num pudia! Num pudia pruquê, indante, lá cum povo do Serra do Antão eu já tinha perdido a fé neiles. Isturdia intrei na Igrêja, cum o padre pregano a práitica, falano bunito... paricia tudo cum atençaõ, ninhum táva ôvino nada. Os filéis tudo séiros e bunitão! Tinh’uma moça namorano... na minha frente. Um fazendêro cumprano um boi... do meu lado. E outro home, assim oh! Tudo cunversando num chiadim baxim... Prá’cabá, o padre benzeu: in nome do Pai, Fiio, Ispríto Sainto. Amém! O fazendêro qui tava cumprando o boi, ripitino cum o Padre, falô siguino: Pai, Fiio, Ispríto, Sainto, boi! - Óia, cinqueinta conto eu cumpro o Boi! - Aí... num cunsigui... Num quero sê catóilico... Lairguei ansim, tá... Eu vô adorá só o meu Deus Pai! ... - Como é que o senhor reza, ora ou conversa com Deus? - Vô pro mato, lá no mei... Iscôlo um pau maió que tivé. Drobo - 78 -


nos juêi, nos péis do pau de árvre e oro: Oh! Meu Deus! Todo poderoso! Qui ainda nas asas do veinto e inrriba das água do mar, eu vim aqui, tô posto aqui, diante do senhô; pido perdão dos meu pecado. Crei im Deus Pai, poderoso, criador... eteirno. Amém. ... que é?

- E esse tal de Kardec, Miguelin? Esse tal de Kardecismo, como - É espritismo, bobo!.. Aquilo eu num mexo, não! Cum isso não! - Eles tentaram levar o Senhor pra lá também? - Tentaro. Mais eu nunca garrei nisso não.

- E o que o senhor sabe dessa religião? Eles acreditam que as pessoas voltam aqui na terra, acreditam na reencarnação, não é? O que o senhor acha disso? - Óia, negóço de redicadernacão num intendo não, sei bem não! Mais eu só sei qui esse tár de ispritismo num é coisa boa não. Pircisa tê coragem pr’ôce mexê cum isso é fogo? - O quê? - Mexê cum isso é fogo. FOGO. - Ah! - Ispritismo num é coisa boa não. Mexê cum isprito! Num é bom!.. Num é bom sê isprita não. ... - Um dia reiteirei o pedido de como o Miguelin se comunicava com o Superior. - Óia, na hora de deitá cheg’alí na minha porta, no sítio do Dr. Cacau e óio pro céu, pra queile lado do norte e pro lado do cruzêro do súr. Aqueile lado do norte seimpre tem um jeitão ansim carmo, fica tudo mais na carma... - Oh Deus poderoso! Oh Deus qui ainda nas asa do vento e vai nas água do mar! - Oh meu Sinhô Deus, eu me intrego aqui na preseinça dos óio do Sinhô. Pode me vê todo, pur fora e pur deintro e inté o meu coração! Tô baxado aqui pidino perdão dos meus pecado... e vô fazê minh’oração pru Sinhô: - 79 -


- Crei’ im Deus Pai... Crei’ no Pai, no Fíio, no Ispríto Sainto. Amém. - Sinhô Deus qui’stá no céu têm cumpiedade de nóis. - Sinhô Deus qui’stá no céu tenha cumpiedade de nóis. - Sinhô Deus qui’stá no céu tenha cumpiedade de nóis, nessa hora tão cumpricada qui vivemo aqui no Brasil. Óia pur nóis! - Aí, eu rezo mais... trêis Pai Nosso qui Jesus ensinô prá nóis, e falô qui é pro’cê fazê essa oração pro Pai. - Pai Nosso qui tá nuis céu... têm piedade de nóis! - Oh Deus de Abrão, de Jiová, de Jó, têm piedade de nóis. - Pai Nosso qui tá nuis céu... têm piedade de nóis! - Oh Deus de Moisés, Salumão... oh Deus de Samuel, Ezequiel, Isaías... - Pai Nosso qui tá nuis céu... têm piedade de nóis! - Oh Deus de Pedro, Paulo, Luca, Mairco, Mateuso, Jão... têm piedade de nóis e desse mundo todo! Óia pur nóis! ... - Oh Miguelin, esse negócio de Adão e Eva que a Bíblia nos fala, como é que é? Conta pra mim como é que esse negócio? - Oh dotô, vô ti falá... Esse primêro céu qui nóis tá veno qui vai inté onde as vista arcança, esse céu azul buniito!.. Qui a gente vê e qui tamém têm inté pintado nas parede das igrêja, num é o céu da Rialeza de Deus não. A despôis, lá bem despôis, tem o céu duis aistro, dais istreila, do universo. Despôis ainda é qui vem o céu da Rialeza – onde tá tudo separadim. Lá é qui foi criado o início duis teimpo, vévi o Deus Pai, o Jeová cuns’anjo, os serafim e os querubim. ... - Mais inlá tamém no início duis teimpo vai incontrá um anjo, o Luis Belo. Eile era munto intiligente, cum a cabeça infiada nuis livro apreindeu munta ciêincia, artos cunhicimento e ficô bão na sabedoiria. Eile era amigo do Pai e ficava veno o Pai... O Pai, o Deus Pai qui é o dono de tudo, incrusive da ciência e da sabedoria! Intonçe o Luis Belo, achô qui era Deus tumém e cumeçô a fazê anjo lá no céu... e foi fazeno, e foi fazeno e foi fazeno. A tuirma deile crêceu e ficô um mun- 80 -


tão! E o Luiz Belo tava só gostano pruquê já tava grande aqueiles qui cumeçô adorá a buniteza deile. E Deus, lá de longe, tava veno e tava urbiservano aquilo tudo e veno aqueila situação ino, ino cada vêis ino cum aqueila tuirma de mei de banda e separano dos’ôtros, o Luis Belo gostano da mardade, aquilo ino inté onde chegava... ... - Um dia Deus apuximô, arresolveu chegá no meio deiles e preguntô: - Oh Luis Belo, o quê qui ôce fêiz por’aqui? - Oh meu Deus! Eu tô sabido cumo o Sinhô. Olha o tanto de anjo meu qui eu fiz prá mim e já têm pur aqui tudo. falô:

- Muito bem, Deus arrespondeu. E passado uns teimpo, Deus - Então faz um anjo aqui pr’eu vê.

anjo.

- O Luis Belo fêiz só ansim cum a mão... tá... e já apariceu um - Intão faiz ôtro. - Tá... fêiz ôtro. - Faiz um pritim assim. - Tá... tava feito. - Faiz ôtro branquim assim... Amarelim... Pardim assim. - Tá... tava feito... - Aí Deus achô de dá um jeito naquilo e fêiz um truque. - Agora faz cinco assim assim assim aí pra mim.

- Tá. Nada. O Luis Belo num conseguiu! Deus arrumô um truque e amarrô. Mermo assim Deus disse: - Óia, ôce tá muito sabido mermo, heim sô. Ôce num vai podê ficá aqui no céu mais não. Ôce tá muito sabido... ôce pega sês’anjo seu e desce, vamo, desce lá pra baixo. - O Luis Belo num teve ôtro jeito, desceu. Vei cá pra terra. ... - Logo qui chegô cum sua tuirma de anjo, eile viu o Adão e - 81 -


a Eva lá no Jairdim do Éden. O teimpo foi passano... Foi passano... Tudo sem qui fazê. E os anjo deile cumeçô a preguntá: o quê qui vamo fazê? - Eu acho qui eiles já tava pensano narguma coisa ruim, arguma mardade, né? Eles tinha abandonado o Deus Pai! Num tava mais na glória do céu, dijunto cum Deus Pai, e já cumeçava pensá bestêra... ... - O Luis Belo num dexô pr´a ninguém. Foi eile mermo e bateu lá pro Jairdim do Éden e fêiz de conta qui era uma cobra. E cumo cobra é faci iscondê im carqué lurgá... Ficou escondim, quetim... Um dia viu a Eva suzinha e chamô a Eva: - Ôh Eva! Ôh Eva! - Oi. O quê qui é côce qué, cobra? - Blá. Blablá. Bablablá... Despôis qui já tava cum a Eva naqueila sedução tôda, preguntô: - Pruquê qui ôce num come o fruto daqueila árvre lá? - Oh Miguelin, a cobra naquela época como é que ela era? - Ah, er’um jararacussuzão danado! Eu têm desém deila na minha bíblia – uma cobra ansim cum listra di atravessada... - Mas ela, naquela época, ainda não fazia mal não, né? - Fazia não! Era até munto carma. Munto inducada... Vivia forgada só infeitano o Jairdim do Éden. Num murdia ninguém, num olhava prá ninguém, uma maravíiia! - Come daqueile fruto lá, Eva! Deixa de cê boba. Fruto bom é aqueile, sá boba. O dia côce cumê o fruto ôce vai ficá inxergano inguali eu. Ôce vai ficá sabeno munta coisa, tanta coisa, inguali mermo o Deus. - Será? - É, uai. rerá...

- Mais o Sinhô Deus falô qui quem cumê daqueile fruto lá mor- Hum, ah, o véi mentiu pr’ôce, sá boba. Pó’cumê sem medo!

- E a bubinha da Eva cumeu. Foi só a Eva cumê qui aí caiu aqueilas escama dos ôio deila... - 82 -


Cundo as escama dos ôio deila caiu, eila passô a inxergá dimais mermo. E inxergô qui eila tava nua, peladinha, pircibeu tudo, suas parte da intimidaide e pircibeu tamém as mardade.. - E aí eila virô ansim c’um tudo distampadim e chamô o Adão: - Adão! Ôh Adão! - O quê, Eva? - Vem cá, sô! - Eile vei. Chegô juntim. Eile gostava munto deila. Os dois viveno ali, naqueile jardim... Cumeno sem trabaiá, né? Uma maraviia de vidão. Os dois cumo dois irmão; os dois uma belezinha ali, né? - Eva e Adão... Adão e Eva. ... - A Eva num falava munto não, cumeçô aí... e foi logo falano: Ôce num saaabeee!... Eu cumi do fruto proibídiiuuo!... - Comeu? - Comiii!.. - Quem te mandô ôce cumê? - Foi a cobraaa!.. E a Eva tava toda incantada. - O quê que eila falô cum cê? - Falô qui, prá eu cumê, qui eu ia passá inxergá ingual’a Deus, tudo, tudim mermo. - E eu já cumi, Adão! Côme agora ôce aqui tamém, Adão! - Adão, num guentô e tá! Cumeu tamém. No qui eile cumeu, eile ficô inxergano dimais e viu qui eile tava nu e qui a Eva nua. Sintiu qui eile gostava deila. E logo um viu o ôtro. Aqueilas particularidaide dum e de ôtro. Um viu, ôtro viu e pensô: tá bom dimais! Aí Adão tamém falô: - Ôh Eva, já qui nóis cumeu mermo... qui intão aqueile Deus fique pur lá... e nóis fica pur cá. Cê topa Eva, nóis vamo sigui nossa vida! - Parô um puquim e eiles pensaro: Mais se Deus aparecê pur aqui... Eile vai vê nóis dois pelado... Num pode! Olhô prus lado e tivero o isprito intonce de marrá umas fôia pra tampá... aqui embaixo - 83 -


neiles... Nos dois... E nos peito da Eva, marraro intão purção de fôia da figuêra. ... - Êitas bubim! Deus tava veno tudo lá de cima! - Passô uns teimpo, Deus apresentô lá no Éden. - Óh Adão! Nada. O Adão tá caladim. - Óh Adão! E nada. Falô seis vêize. Nada, nada. Na séitima vêiz, o Adão arrespondeu. - Sinhô. - O quê qui ôce tá fazeno aí tão tapado. - Oh Sinhô, a muié qui o Sinhô me arrumô cumeu do fruto pruibídio. Me deu e eu cumi. Eu cumi o fruto e vi qui tava nú e vi eila nua tamém. A seirpente é qui deu eila de cumê o fruto. Ela viu qui tá nua. Viu eu nu tamém. Vimo uns’os’ôtro nu. Aí rumamo de tampá tudo! - Ah, então foi a seirpente! - Foi, eu vi eila saindo divagarim, óiano prá tráis e sumiu. - Deus num ficô cum reiva não, mais falô severarmente. Pois’é! Maldita vai sê seimpre a seirpente. Ela vai cumê do pó da terra e vai vivê puraí... vai acumpanhá o home cum a sina de mordê no carcanhá deile, mais eile tamém vai ismagá a cabeça deila seimpre. E ôces dois?!.. agora, vamo!.. Ôces dois sái logo daqui afora do Jardim do Éden... Ôces dois vai lavrá a terra pr’ôces cumê o pão cum o suô dos seus rôsto... Ôces errô!.. Cumeteu farta. Cumetê farta é pecado! - E eiles ficaro dirriçado num tôco de maçã, a Eva cum os braço nos oimbro do Adão ovino aquilo, despôis dero as mão e foro saíno pur’aí, aqui na Terra, andano pur arguns lurgá, arguns teimpo... ... - O teimpo só tem aqui na Terra... pruquê pro Deus Pai o teimpo num passa não! Num tem onte, num têm amanhã. Tudo vai passá mas prá Êile nada vai passá. Êile vê tudo, tá de próxumo de tudo, e falô: minha palávria num passará! - Cum o passá duis teimpo o Adão e a Eva criô o Abel, despôis o Caim e mais ôtro, e mais ôtro, e mais. O Caim todo mundo sabe: é invejoso! Ficô cum inveja do Abel e matô o Abel. Virô criminoso! Aí Deus apariceu dinôvo, agora pro Caim: - 84 -


- Óh Caim? - Sinhô! - Cadê seu irmão Abel? - Ôh Sinhô! Pur acaiso eu sô argum guardião do Abel? - Óh Caim. Eu tô aqui pruquê o sangue deile derramô e reclamô Cumigo. Eu vi tudo, ôce matô o Abel, num é? Eu num vô deixá ninguém te matá não, pruquê se arguém te matá vai ficá condenado seteinta e cinco vêize... - Mais Abel, num bubia não! Ôce pega sua isposa (eila era irmã deile mermo) e sarta pro ôtro laido do rio Tietê e vai vivê do laido de lá. Sai daí! No laido de cá ôce num pode vivê mais não. Do outro laido ôce pode criá outras idéia, ôtras ardêia, sem sujá o rio... - O Caim c’um a famíia passô pro ôtro laido e foi criano seus fíio... Criô muntos fíio... E fôro viveno do jeito deiles pra lá, mei cumpricado. Andaro munto no sol e lá eiles criaro a cidade qui chamô de Enoch. Ôce pode vê qui num tem ninhum Enoch branco. Os Enoch é tudo nêgo. Despôis eiles decêro mais e fôro mais prá baxo e residiro lá imbaixo da Áifrica. E lá na Áifrica intão ficô! Cuntinuano cum esse povo nosso irmão ainda mais murinim, só armentano... ... - E do outro laido o povo cuntinuô cresceno tamém. E desse laido um povo mais branco ficô fazeno munto progreisso, rumô munta diversão munto pecado e fazeno mardade. E Deus, qui óia tudo, tava seimpre urbiservano. Chegô uns teimpo aquilo num tava prá guentá mais não, e Deus chamô Noé: - Óh Noé! Ôce fáiz uma arca pr’ôce. Eu vô mandá um dilúrvio e vai arrassá esse mundo deiles; essa terra vai enchê d’água. Aqueile qui quisé i c’ôce, ôce sarva das água. Qui num quisé, ôce dêxa. Ôce fáiz uma arca grande! E ôce vai no mato aí e pega casal de tudo bicho e tráiz prá deintro da arca. - Os bicho era tudo manso naqueile teimpo. E eile foi pono: casal de burro, casal de pombo... E foi pono... E foi pono... E foi pono... Impurrô os eilefante qui num quiria cabê! - E condo chegô o dia deile... O dia qui ia tê o dilúrvio... Noé andô sem cansá e num cansô de avisá, saiu cumunicando cum as pessoa e cumpriu a palávria. ... - 85 -


- Foi im munto lurgá, todo mundo tava ocupado, cuidano dos afazê... Noé chegô num cumérço lá, falô niguém ôviu, tudo apressaido... chegô na venda lá, falô e o povo tava bebeno pinga, tocando sanfona, jogando sinuca e eile disse: - Pois’é, gente, tô quereno sarvá ôceis... Hoje vai cuntecê um dilúrvio e vai arrassá a terra. Foi Deus qui mandô eu construí a Arca, colocá um casár de cada bicho neila e chamá ôcês. Quem quisé i cumigo... vamo ino, num é prá isperá! ... - O povo num acreditô: - Eita Noé, dêxa de sê bobo... vamo bebê um gole, sô! Vamo jogá uma sinuquinha, Noé! Ôce tá ficano doido, sô? Num mexe cum isso não, Sô Noé! Vamo divertí um pôquim... Vamo tomá gole... Tá todo mundo dançano, vem ôcê agoira prá fazê pará? Oh, Noé! O quê qui acaba, sô! O que qui acaba é nóis mermo, a terra nunca vai arrassá não, Noé! Rumá prá lá, fica’qui, qui tá’tudo munto bão! ... - Nessa hora cumeçô uns reilâmpago, uns pingo, uma chuva fininha já tava caino. ... - Óh gente, o mundo vai arrassá... Quem quisé me acumpanhá, tô chamano, vamo... E o Noé foi passano im cada lurgá e chamano... Avisano... Chamano... ... - É! A chuva foi choveno! Foi choveno, foi choveno. Cumeçô a iscorrê água nos môrro, nos barranco. Quarse cundo num dava mais teimpo, eile apruximô da Arca e cumeçô tentá subi. Os qui tava deintro neila, já tava pavorado cum Noé! Eiles dispejano água prá fora cum barde pra eila num afundá e Noé fazeno força prá subi. Foi eile cabá de intrá, apariceu um Anjo e fechô a poirta! - Fechou a porta por fora, Miguelin? - É, pur fora! - E a Arca foi desceno no mei daqueile tainto dágua qui já tava mandado pur Deus... Foi passano... Nuns lurgá o pessoár pidia socorro! Passano, nôtros lurgá o pessoár tava cum as água já nos juêi e chorano e cramano: - 86 -


- Oh Noé, dêxa eu intrá na Arca, Noé! Oh Noé, dêxa, nóis vai morre tudo, Noé. Oh Noé... - E o Noé arrespondia: - Agoira, gente, num tem mais jeito não! O Anjo já fechô a Airca pelo laido de foira! - Miguelin, como é que o Noé ia escutar lá dentro, se estava tudo fechado? - Escuitava, dotô! Tinha um buraco lá incima dond’eile ia adespôis sortá uma pomba... Cum munta água pur toda banda, já tava cumbinado, qui só a pomba pudia i lá vê, adespôis, onde tava a terra firme. A Arca tinha tamém uma lêra de jinelinha nos laido lá incima, né? O Noé incostava beim na jinelinha óiva, ovia e arespondia gritano: o anjo fechô a poirta! ... - Então, Miguelin, o fato é que por onde a Arca ia passando o povo ia reclamando? - Eles ouviam a voz do Noé falando que agora já não tinha mais jeito. E o deluvio durou, durou, durou... A partir do quinto dia Noé começou a soltar a tal pomba... Ela voou, voou, voou... Não achou terra firme e voltou, pousou na Arca. - É, mais no seixto dia eile sortô foi um urubu. Merma coisa! Vuô, vuô, vuô e num achô onde posá. Vortô prá posá na Arca. - O Noé cuntinuô ansim: ora sortava a pomba, eila vortava, punh’eila prá discansá. Ora sortava o urubu, ora sortava ôtro bicho qui vuava. Hum!... Levô trinta dia prá pomba cunsigui vortá c’um gaíio dessa vassurinha no bico... Gaíim de nada, paricia um fiapim de cabeilo no bico... posô na Arca e dexô caí no chão! Noé intendeu tudim, a pompa quiria dizê qui as ponta das árvre já tava apariceno... ... - Cum os teimpo a chuva foi raleano, raleano, a água foi baxano, foi baxano... Cumpretô de quareinta e cinco dia prá vê o vincimeinto total do Dilúrvio. Foi condo a Arca deu um arrancão, balançô os bicho tudo e garrô num lurgá lá. Num sei se foi Noé ô argum bicho qui abriu a poirta, e a bicharada saiu e ispaiô pur’aí. Os qui tava acumpanhano o Noé, desceu cum eile e cumeçô a trabaiá. ... - 87 -


- Quer dizer que nós viemos então foi desse pessoal, Miguelin? - É, nóis somo descendente deiles. - Desse pessoal de Noé, né? - É, de Noé. Nóis num somo descendente de Adão mais não. ... Nesse momento o Miguelin já demonstrava sinais de estar resistindo ao sono – os olhos já os mantinha com dificuldade, quase todo o tempo fechados, os bocejos se insinuavam de tempos em tempos, cada vez em períodos mais curtos. Entrávamos já pela madrugada, e eu ainda me senti no direito de explorar um pouquinho mais o Miguelin e disse: - Oh Miguelin, o senhor já está com sono e precisa ir deitar. Mas o senhor está podendo ainda me contar de novo aquela estória do Salomão só pra a gente não perder um fechamento da nossa conversa hoje? ... Ele coçou a cabeça e continuou: - Pode! Primêro eu vô falá qui Salomão foi um rei... Foi um rei qui num iscuitava prá sigui Deus Pai não. De tudo eile tinha mais de mil. - Mil e uma namorada no harém deile. Mil e tanto dinhêro. Mil e tanto barrote de vinho... Aí eile pensô: - Eu vô inventá uma diversão pra eu podê controlá mais essas namorada. - Foi aí qui eile primêro inventô o violão. Foi eile qui inventô o violão. Despóis eile inventô a sanfona... Despóis o tamborim... E assim foi inventano... E mandô fazê um grande salão... E toma diversão no harém. - Salomão é o rei da sabedoria, né, Miguelin? - Salomão era muito sáibio... Tem munta istóira da sabiduria deile na bíblia, pruquê despôis eile abandonô as vaidade e as grandeza qui ainte eile vevia cunsiguino e aceitô Deus. Eile iscreveu munta coisa bunita na bíblia. Foi eile tamém qui falô qui os home são munto mais pirigoso qui os animár. Falô qui os animár são mais ceirto do qui os home; nos animár pode tê mais cunfiança qui nos home. Qui eiles tem uma coroa de beleza qui os home num tem. - 88 -


- Como assim, Miguelin? Não estou entendendo. - O sinhô pode constatá qui um cavalo num pirsegue a égua qui já tá armentada... Um cachorro num pirsegue a cachorra qui eila já tivé armentada... Um boi num pirsegue a vaca se eila tivé armentada. O home tem isso de pirsegui a muié de quarqué jeito... Armentada ô num armentada... Os animár é mais certo nesse tréim qui os home. Uma cã num aceita o cão de jeito ninhum se eila já tivé cheia! - O quê? Uma cã? - É, uma cã... Uma cachorra. - Ah, é? - É. - Oh Miguelin, quer dizer que os animais só fazem sexo para procriar? - É, só prá criá. É nóis home fazemo tamém pur isporte, pur safadeza, pur isperteza - uma danêra, né? - Oh Miguelin, realmente Salomão é um exemplo de sabedoria. O senhor lembra daquela estória dele, em que ele tinha de entregar um filho pra uma, de duas mulheres que diziam ambas que eram a mãe da criança? - Leimbro! - Ele, com a esperteza dele, disse que ia mandar cortar o pescoço do minino e entregar uma parte para uma e outra parte para outra. A mãe verdadeira logo falou que a outra era a mãe legítima do minino. E ele cabou entregando o minino para ela, porque só uma mãe verdadeira pode ter um gesto desse, não é? - Ele era munto sabido. ... O sono agora doía nos dois. Aproveitei e disse: - Isso mesmo, grande Miguelin. Vamos fechar essa conversa nossa hoje com aquela cantoria sua sobre o Salomão? Vamos? ... Ele não pestanejou: Ei hoje eu vô cantá pr’ôces - 89 -


A décima de Salomão Salomão é um rei sabido Inventô a diversão. Foi eile tamém qui inventô A dança de salão Inventô tamém a sanfona, O pandêro, o violão. Ei hoje eu vô cantá pr’ôces A décima de Salomão Salomão é um rei divirtido Inventô a diversão E pra namorá s’as mil e uma namorada Deintro e fora do salão Teve tamém qui inventá a sanfona, o pandêro, o violão. Ei hoje eu vô cantá pr’ôces A décima de Salomão Salomão é um rei sabido, divertido, sabichão Inventô a diversão E a dança de salão Tudo pra namorá Suas mil e uma namorada deintro e fora do salão Pra uma dava uma óiada Pra outra num dava não - 90 -


Pra uma piscava os ôio Pra outra pegava na mão Pra uma dava um chicrete Pra outra um bãobão Pra uma dava um biquini Pra outra um corrêão Pra uma dava uma carcinha Pra outra um sutião. Êta rei sabido esse tár de Salomão Foi eile qui inventô a sanfona, O pandêro, o violão E pra eilas toda dava carinho Pra ninhuma um safanão Pena qui num sobrô ninhuma deilas Pra mim nem pro Sô Jão.

“Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja vosso nome. Venha a nós vosso reino. Seja feita vossa vontade, assim nos céus como na terra. O pão nosso de cada dia nos dais hoje. E perdoais nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Não nos deixeis cair em tentação: mas livrai-nos de todo mal. Amém” (6) - 91 -


Capítulo 7

A estória do Falante e do Calado e o bicho das sete cabeças In angustiis apparent amici (7)

Disse o Miguelin que alguém leu para ele, certa feita, no Almanaque Abril, essa estória que se tornou uma de suas favoritas. Era uma vez dois irmãos. Um falante e um calado, que trabalhavam de ambulante por aqueles rincões do Vale do Santa Maria do Desterro. Um falava muito, e o outro era ativo e não falava nada. O falante falava demais, falava pelos braços, falava pelas pernas, falava pelos cotovelos... O calado sempre calado, mas era muito sabido. O falante falava, falava, falava... O calado não gostava de falar... Trabalhavam uns tempos para um fazendeiro, e o falante se mostrava insatisfeito com a situação e queria seguir em frente. Era sempre a mesma estória: - Oh mano! Vamo imbora desse tréim aquí... O povo aqui já deve ter injuado de nóis tamém. Vamo percurá um novo rumo. Vamo percurá um novo patrão. - Uái se ôce qué nóis vamo. - Vamo juntá nossa tralha e segui im frente. O calado era muito conformado, não refutava nada mesmo e acompanhava sempre o irmão. O falante nem esperava. Era o calado que chegava para o Coronel e: - Oh Sô Coroné, nóis tamo in’imbora. Se o sinhô tivé aí um dinheirim tá bom, mais se num tivé, tá bom tamém. - 93 -


E assim saíam andando em busca de um novo lugar. E o falante falando: - É mano, o tréim tá feio, mais nóis há de arranjá outro lurgá lá na freinte. Dessa feita não andaram muito e encontraram uma nova propriedade, e não foi difícil o Falante conversar com o fazendeiro: - O sinhô qué dá nóis sirviço aí? - Uái, tem serviço aí. Tem munto serviço! Cumé qui o sinhô chama? - Eu me chamo Falante. - E esse sinhô aí? Cumé qui o sinhô chama? - Eu me chamo Calado. - É pelo nome é qui a gente custuma cunhecê as pessoa. Não se sabe propriamente por que, mas o Coronel foi logo propondo um contrato: - Óia! Ocês dois vai trabaiá pra mim o ano inteiro. Agora, na hora qui chegá o fim do ano eu aceirto cum ocês. Aqueile qui eu gostá mais vai casá cum minha fíia e pode i morá naqueila prupiedade lá no arto daqueile morro. O outro vai tê de ficá trabaiano cumo impregado du ôtro. O tempo passou, e adivinhem quem foi o escolhido. O Coronel chamou o calado e disse: - Pode prepará pra casá co’a minha fíia. - Mais eu perciso arranjá uma rôpa próipia, sinhô Coroné. - Óia, eu já pruvidenciei tudo: sapato, terno, chapéu... Tudo... Pur minha conta mermo! Disse o Miguelin que o casamento foi na Igreja local, muito arrojado, com muita gente, com muito acompanhamento. - Eu mermo tive por lá e presenciei toda a festança. E assim como combinado, o Calado foi morar na propriedade do morro. Tudo muito bem arranjado. O Falante, ficou como seu empregado. E o tempo foi passando. - 94 -


Como de costume, o Falante continuou falando, falando, falando... E, não tardou muito, começou a esquentar a orelha da mulher do Calado. Sua fala era a mesma de sempre: in-com-for-mada! - Pois’é né Sô. Agora ocê virô fazendêro... Arrumô essa muié aí... Eila gosta d’ocê mermo... Só ind’imbora suzim... O Calado, como sempre, calado. E o Falante, falando. Não demorou muito, e a mulher chamou o Calado: - Oh! Calado, eu num guento aqueile sô irmão mais! O home fala prus braço, prais perna, prus cutavelo. Cumé qui nóis pode arranjá cum eile? Só se ocê mandá eile imbora. Eu num guento tulerá mais eile não! Só tuler’eile pur causo d’ôce. - Ocê tem razão! Eu vô mandá eile imbora por uns teimpo. Vô dá eile uma mula, ô um animár de transporte, um dinheirinho... Na hora qui eile deixá de falá um pôco aisvêis, aí eile vorta. Na primeira vez que o Falante começou com sua falação: - Ah! Eu vô imbora!.. Ocê agora é fazendêro, né? Num parece nem meu irmão mais... Vô tumá um jeito d’eu me mandá pr’esse mundo afora. O Calado não esperou mais. Selou uma mula muito boa. Separou um bom cabresto. Pôs uma capa boa, uma capa gaúcha, na garupa da mula, e correu um bom dinheirinho no irmão: - Aqui, mô irmão. Tum’esse dinherim. Ocê vai viajá e percisa de dinhêro. Num pode saí assim sem um tustão! A gente num sabe nunca o que qui ocê vai incontrá prá freinte. - Oh! É isso mermo qui eu quéiro! Até a vorta!... - Vai cum Deus, meu irmão! E o Falante prontamente montou na mula e rumou pela estrada afora. E a mesma falação foi se repetindo por cada lugarejo que passava. Falava, falava, falava. Todo mundo ficava assim olhando. E ali onde falava bastante dormia. No outro dia, pegava a mula e seguia, mas não sem antes sempre desabafar: - Ah! Vô m’imbora. Eu lairguei mô irmão. Ele casô co’a fíia do fazendêro... Ficô rico. Agoira eile num tá sabeno me tratá. Eu lairguei deile e fui m’imbora. Vô vê se cunsigo miorá minha vida. - 95 -


Essa cena repetiu-se por muitas vezes. Um dia o Falante, após muito andar, chegou numa encruzilhada. E o Miguelin me explicou: - Essa incruzíiada era anssim... A intrada da isqueirda era boa, mais quem intrasse nas dereita acabava incontrano um bicho cum sete cabeça, pirigoso, qui nada pudia cum eile, qui nada matava eile. A gente pudia atirá, inté de fuzir, qui nada, num importava. Eile era todo acapotado. Er’um bicho foirte, mas foirte mermo! Sete cabeça! Sete cabeça iguár sete cabeça de cavalo. E cumia tudo, animár ô gente qui topasse cum eile naqueilas banda do campo, num iscapava nada da linha deile não. - E de onde apareceu esse monstro, Miguelin? pena.

- Eile era um prínspe incantado qui tava ali cumprino uma - Mas ele vivia assim naquele descampado?

- Não. Eile tinha uma casa donde eira o canto deile. Lá, tinha, ansim ispaiado no chão, um muntão de ôro, um muntão de prata, um muntão de dinhêro. Er’um saco de prata aqui, ôtr’ali, ôtro aculá. O mermo cum ôro e cum o dinhêro. E tinha tamém ôro, prata e dinhêro no chão, tudo no Deus dará. Dizem que, quando o Falante estava para alcançar a encruzilhada dessa sua caminhada, foi por muitos admoestado de que não devia entrar à direita: - Óia, num infia pur’aí não... Aí tem um bicho pirigoso... O bicho das sete cabeça! - Ah! Eu queiro incontrá quêsse bicho. Eu vô intrá. Eu vô lá! E assim o Falante entrou pela direita e seguiu. Lá, na frente, depois de muito andar, lá ao longe, uma casinha como que convidava a ser visitada. Chegou, bateu na porta da frente e entrou. Ficou como que estarrecido com a imagem que se apresentou e não conseguiu sair do lugar. O bicho das sete cabeças (como se fosse sete cabeças de cavalo) foi logo atacando: lava...

- O sinhô tá pariceno é um mercadô judeu, hein? – O bicho fa- 96 -


E repetiu: - O sinhô tá pariceno é um mercadô judeu im busca d’argum ôro, arguma prata, argum dinhêro. O sinhô pode intrá, intra mais pra cá. Apontou com uma das cabeças um banco, convidando o Falante para assentar. O Falante pela primeira vez na nossa estória ficou imóvel no corpo e na fala. O bicho das sete cabeças não se apressou e aguardou nosso herói tomar fôlego da situação, o que (pasmem) não tardou. O monstro vendo que o Falante já se mostrava refeito, sem muita cerimônia foi logo explicando: - Óia! Eu vô fazê trêis pregunta pr’ocê. Se ocê num me arespondê, eu vô te cumê. Ocê tem qui acertá as trêis! Se errá quarquer uma, eu te cumo!.. Continuou: - Mais se ocê arespondê a primêra deilas, ocê dá nessa primêra cabeça minha uma facãozada e eila cai. Óia aqui, esse facão bem amolado, esperano: corta mermo! Se ocê arespondê a ôtra, ocê dá facãozada nessa ô cabeça aqui e eila cai. E se ocê arespondê a derradêra, ocê dá uma facãozada só nessa teircêra cabeça e eila cai e as ôtras tamém cai. E, sem esperar, lá se foi a primeira pergunta: - Quár é o fíio do seu pai e da sua mãe qui num é seu irmão? Marcô? E o Falante, ainda mudo, repetiu mentalmente: mão?

- Quár é o fíio do meu pai e da minha mãe qui num é meu irE a resposta não veio... A segunda pergunta veio em seguida: - O quê qui mais parece cum’a metade da lua? Marcô? - Cruiz credo cum essa, é ainda mais difíci, pensou. E finalmente: - O que qui foi onte, é hoje e será amanhã? Marcô essa tamém? - 97 -


Sem qualquer tempo para uma melhor reflexão do Falante, o bicho das sete cabeças repetiu pausadamente cada uma das três perguntas e, num tom de ameaça, anunciou: - Amanhã de tarde, seis hora da tarde, queiro respoista de tudo. Ocê vai tê o teimpo, o dia todo, pra chegá na concrusão. Se ocê errá, quarqué uma, uma ô ôtra, já sabe, eu vô cumê ocê! E o bicho sumiu rapidamente lá para dentro da casa. E o Falante, que costumava falar, falar, falar... Ficou calado. Pensava, pensava, pensava... E nada!.. Pensava, pensava, pensava... e nada. Pensava... Aí lembrou-se do irmão distante e lamentou sua ausência. Não é que, por um elo de transmissão de pensamento, lá à distância, o irmão Calado, deu falta também de seu irmão e falou com sua mulher: - Óia, muié, essa noite eu sunhei cum o Falante. Eile pode tê intrado numa picada errada. Num é qui tô sentino farta deile! Eile fala munto pruquê é munto besta. Ele num sabe é nada e eu vô atráis deile. E o Calado muito cedo, ainda escuro, bem antes do amanhecer, partiu numa mula esperta em busca do irmão. O mesmo caminho do Falante foi sendo percorrido pelo Calado e a cada um que encontrava interpelava: - Oi moço! Oi moça! Ô sinhô! Ó sinhora! Ocê viu passá pur aqui um rapáiz amuntado na mula de crina tosada, mei crina, cum’a forja na garupa, uma capa, uma garrucha? - Passô sim, sinhô! Um rapáiz qui cunversa bastantim, né? - É. - Chama Falante, né? - É esse mermo! É mô irmão. Ele chama Falante e eu chamo Calado. Pode ir pur’ali. - indicavam sem pestanejar. E o Calado foi continuando porque o Falante tinha andado longe. Lá na frente, pedia novas informações. Todos o conheciam. Indicavam sua direção sem dificuldade. - 98 -


Quando chegou na encruzilhada do dragão, tinha por lá uma casinha assim embaixo da estradinha: - Ô meu sinhô!.. - Diga! - E num passô aqui onte um rapáiz amuntado na mula tosada de mei crina, cum’a capa na garupa e uma forja?.. Eile é mô irmão. Ele cunversa ansim sem pará, bastantim... - Ah intão é eile qui teve pur’aqui, sim! Conversô bastante. Falô no sinhô. Falô na sua isposa. Falô lá no fazendêro seu sogro. Eu mermo dei uns consêio pra eile. Pra mode deile num intrá naqueila picada das dereita, pruquê mora um bicho aí na freinte, pirigoso, qui devora tudo cunto caí no seu arredó. E a gente pode inté atirá neile, qui num vale nada! Fiquei sabeno qui eile oviu a gente mais num ligô não, e cabô intrando... Fosse o sinhô, tamém num arventurava, de quarquer mode foge deessa picada, num eintra não! O Calado não pensou nada que não fosse partir em auxílio a seu irmão Falante, agora certo de que o mesmo tinha se metido nessa enrascada. Não demorou meia hora, e já estava batendo na mesma porta no amparo ao irmão. Como a não resposta durou algum bocado, abriu e entrou. Abraçaram-se. Mesmo nessa circunstância ainda custou um bom tempo para o Falante falar: - Oh meu irmão! O negóço aqui tá fei! Eu cheguei aqui e incontrei pela freinte um bicho de sete cabeça! Me fêiz trêis pregunta e me deu esse facão qui tá aqui. Se eu arespondê a primêra pregunta eu dou uma facãozada na primêra cabeça deile prá eila caí. Se eu arespondê a segunda, eu dô ôtra facãozada na segunda cabeça deile prá eila caí. E se eu respondê a tercêra, eu dô uma facãozada na tercêra cabeça e eila vai caí junto cum as ôtras tudo. ... - Quê intão qui eile preguntô pr’ôce, meu irmão? - “Quem é qui é fíio do sô pai e da sá mãe qui num é sô irmão?” E eu tô aqui matutano esse teimpo todo e num sei quem é fíio do mô pai e da m’a mãe qui num é mô irmão? - É ocê mermo rapáiz! É ocê mermo, uái! Cundo eile chegá ocê - 99 -


dize: sô eu! Eu num sô irmão d’eu, e sô fíio da m’a mãe e do mô pai, intão sô eu mesrmo mermo. E feirro na cabeça deile. ... - É mermo sô! “E o quê qui mais parece cum a metade da lua?” - É a ôtra metade, bobo! Cê fala cum eile qui é a outra metade. Eu vô iscundê lá atráis e ocê fala cum eile qui é a ôtra metade. ... - E “o quê qui foi onte, é hoje e será amanhã?” - É o teimpo, Sô! O teimpo é tudo isso cumpreto. Raiçocina pr’ocê vê. - Oh!.. É mermo! O Falante ficou exultante de alegria. Começou a pensar quando o bicho das sete cabeças chegasse e como tudo ia acontecer. O Calado saiu e escondeu a mula bem longe da casa e voltou e ficou escutando atrás de um saco enorme de ouro que estava num canto da sala. Olha, prezado leitor, não tenho muita certeza se o saco era realmente de ouro, de prata ou mesmo de dinheiro? Acredito, porém, que esse pequeno detalhe, nesta altura da estória, não interessa muito. Certamente, dá no mesmo, a estória não vai ser prejudicada na sua essência. O certo é que o Calado estava lá, totalmente escondido, e junto ao irmão, seu outro pedaço do Eu, aguardando a fera do dragão para o acerto de contas. Mais um pouco o bicho das sete cabeças chegou: - Cumé Sô? O sinhô é o mercadô judeu qui tava pur aí, né? Eu vim sabê das minha pregunta qui eu fiz, onte. E ocê sabe qui se errá quarqué uma, eu cumo ocê aqui agora. - Eu sei Sô bicho das sete cabeça. Num dá pro sinhô me dá um poquim mais de teimpo? Num dá pra gente fazê um acordim quarqué, não? Essa situação tá parecendo os apocalipse, os fim dos tempo! - Óia, num dianta querê istendê mais cunversa não, Sô mercadô judeu. A paciênça tem limite. Cabô seu teimpo! Qual é o fio do seu pai e da sua mãe qui num é seu irmão? - Sô eu, sô. E váput vupit – lá se foi a primeira cabeça da fera pro chão. - 100 -


... - E o quê qui parece cum a metade da lua? - A ôtra metade, uái. Pá! – lá se foi a segunda cabeça. ... - E o quê foi onte, é hoje e será amanhã? - O teimpo! Tá! - e pronto. A terceira cabeça rolou com as outras mais quatro; tudo de uma só vez pro chão. E aí a fera dragrão desencantou e apareceu um príncipe que, saindo e antes de desaparecer, foi dizendo: - Ocê pode pegá tudo qui tem aí. É seu. O Falante e o Calado carregaram as mulas de sacos de ouro, prata e dinheiro. Não coube tudo, porque a fortuna era muito grande. O Miguelin, ao fechar a presente estória, um pouco antes de rolar a primeira cabeça da fera, levantou-se da cadeira e, de pé e com tamanha emoção e dignidade, brindou-nos com o relato de cada cena num crescendo, como se representasse um “grand finale”. E, por fim, sentando-se novamente, foi como se estivesse representando a derradeira cena do último ato de uma peça teatral onde as cortinas foram se fechando, as luzes do palco esmaecendo, como se um único foco de luz ressaltasse sua face marota, concluindo: - Me der’um um saco de dinhêro, mas, cumo eu sô mei ispirdiçado, cabei cum tudo.

Nas ocasiões é que se conhecem os amigos (7) - 101 -


Meu caro Miguelin. Você está fazendo falta. Há nove anos você nos deixou. Como sou grato ao Superior de tê-lo conhecido, mesmo infelizmente somente nos seus últimos meses, no ocaso de sua vida e já nas suas oitenta e duas primaveras. Olha, oh ser humano iluminado e genial contador de estórias, você muito nos enriqueceu no nosso relativo pequeno tempo de convívio e, estou certo, também a todos seus semelhantes, que tiveram o privilégio de conviver com sua pessoa. Acredito que realmente a Providência Divina deve lhe ter reservado somente aquele único saco de dinheiro que mesmo assim nunca pensou acumular em toda a sua vida. Em compensação quanto cobre, quanta prata, quanto ouro e quanta descontração, carinho, alegria, soube a todos nós sempre presentear, com sua inteligência prodigiosa, naquele seu corpo miúdo, naquela sua vida simples, naquela sua alma bondosa e fraterna e naquele seu espírito superior.

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MIGUELIN