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Obras do autor publicadas pela Editora Record: Série Assassin’s Creed Renascença Irmandade A cruzada secreta Renegado


Tradução de Domingos Demasi

1ª edição


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B782r

Bowden, Oliver Renegado / Oliver Bowden; tradução de Domingos Demasi. – Rio de Janeiro: Galera Record, 2012.

Tradução de: Assassin’s Creed: Forsaken Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-01-40199-1 (recurso eletrônico) 1. Assassinos – Ficção. 2. Ficção inglesa. I. Demasi, Domingos. II.Título. III. Série. 12-6854

CDD: 823 CDU: 821.111-3

Título original em inglês: Assassin’s Creed: Forsaken Copyright © 2012 Ubisoft Entertainment. Todos os direitos reservados. Assassin’s Creed, Ubisoft e a logo da Ubisoft são marcas registradas de Ubisoft Entertainment nos Estados Unidos e/ou em outros países. Publicado primeiramente na Grã Bretanha em inglês por Penguin Books Ltd. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados. Composição de miolo da versão impressa: Abreu’s System Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela EDITORA RECORD LTDA. Rua Argentina 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução. Produzido no Brasil ISBN 978-85-01-40199-1 Seja um leitor preferencial Record. Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e nossas promoções.


Atendimento e venda direta ao leitor: mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.


Sumário Capa Obras do autor publicadas pela Editora Record Rosto Créditos Prólogo PARTE UM | Trechos do diário de Haytham E. Kenway 6 de dezembro de 1735 7 de dezembro de 1735 8 de dezembro de 1735 9 de dezembro de 1735 10 de dezembro de 1735 11 de dezembro de 1735 PARTE DOIS | 1747, doze anos depois 10 de junho de 1747 11 de junho de 1747 18 de junho de 1747 20 de junho de 1747 2 e 3 de julho de 1747 14 de julho de 1747 15 de julho de 1747 16 de julho de 1747 17 de julho de 1747 PARTE TRÊS | 1753, seis anos depois 7 de junho de 1753 25 de junho de 1753 12 de agosto de 1753 18 de abril de 1754 8 de julho de 1754 10 de julho de 1754 13 de julho de 1754 14 de julho de 1754


15 de novembro de 1754 8 de julho de 1755 9 de julho de 1755 10 de julho de 1755 13 de julho de 1755 1 de agosto de 1755 4 de agosto de 1755 17 de setembro de 1757 (dois anos depois) 21 de setembro de 1757 25 de setembro de 1757 8 de outubro de 1757 9 de outubro de 1757 27 de janeiro de 1758 28 de janeiro de 1758 PARTE QUATRO | 1774, dezesseis anos depois 12 de janeiro de 1774 27 de junho de 1776 (dois anos depois) 28 de junho de 1776 7 de janeiro de 1778 (quase dois anos depois) 26 de janeiro de 1778 7 de março de 1778 16 de junho de 1778 17 de junho de 1778 16 de setembro de 1781 (três anos depois) EPÍLOGO 16 de setembro de 1781 2 de outubro de 1782 15 de novembro de 1783 Lista de Personagens Agradecimentos Colofão Saiba mais


Prólogo Eu nunca o conheci. Não de verdade. Pensava que sim, mas só depois de ler seu diário percebi que realmente não o conhecia. E agora é tarde demais. Tarde demais para dizer a ele que o julguei mal. Tarde demais para dizer que sinto muito.


P ARTE UM

Trechos do diรกrio de Haytham E. Kenway


6 de dezembro de 1735 i Dois dias atrás, eu deveria estar comemorando meu décimo aniversário na minha casa, na Queen Anne’s Square. Em vez disso, a data passou despercebida; não há comemorações, apenas funerais, e nossa casa incendiada é como um dente enegrecido e podre entre as altas mansões de tijolos brancos da vizinhança. Por enquanto, estamos ficando em uma das propriedades do meu pai, em Bloomsbury. É uma boa casa e, embora a família esteja arrasada e nossas vidas destroçadas, pelo menos temos de agradecer por isso. Vamos continuar por aqui, chocados, no limbo — como fantasmas perturbados —, até nosso futuro ser decidido. O fogo devorou meus diários, então, iniciar este me dá a sensação de um recomeço. Por isso, devo provavelmente começar pelo meu nome, que é Haytham, um nome árabe, dado a um menino inglês que mora em Londres e que, desde o nascimento até dois dias atrás, levou uma vida dos sonhos protegida do pior do lixo que existe aí pela cidade. Da Queen Anne’s Square, podíamos ver a neblina e a fumaça que pairam sobre o rio e, como todo mundo, ficávamos incomodados com o fedor, que consigo apenas descrever como o de “cavalo molhado”. Mas não tínhamos de caminhar pelos rios de dejetos fedorentos vindos dos curtumes, açougues e traseiros dos animais e das pessoas. Os fluxos rançosos de efluentes que aceleram a passagem de doenças: disenteria, cólera, pólio... — Precisa se agasalhar, Sr. Haytham. Ou a gripe vai pegar você. Nas caminhadas pelos campos até Hampstead, minhas amas costumavam me desviar dos pobres desafortunados assolados por tosses e proteger meus olhos contra crianças com deformidades. Mais do que tudo, temiam doenças. Creio que porque não se consegue argumentar com doença; não se pode suborná-la nem lutar contra ela, pois não respeita riqueza ou reputação. É um inimigo implacável. E, é claro, ataca sem avisar. Portanto, todas as tardes me examinavam à procura de sinais de sarampo ou catapora e informavam sobre minha boa saúde à minha mãe, que vinha me dar um beijo de boa noite. Eu era um dos sortudos, sabe, que tinha mãe para me dar beijo de boa noite, e pai que também fazia isso. Que amava a mim e à minha meio-irmã Jenny, que falava sobre ricos e pobres, que fazia com que eu acreditasse na minha boa sorte e insistia para que eu sempre pensasse nos outros; e que empregava tutores e amas para cuidar de mim e me educar, para que eu crescesse como um homem de bons valores e de utilidade para o mundo. Um dos sortudos. Não como as crianças que têm de trabalhar nos campos e nas fábricas e lá em cima, nas chaminés. Mas, às vezes, eu ficava imaginando... essas outras crianças tinham amigos? Se tinham, então, ao mesmo tempo que, naturalmente, sabia muito bem que não devia invejar suas vidas, já que a minha era muito mais confortável, eu as invejava só por aquilo: seus amigos. Eu, eu não tinha nenhum, nada


de irmãos ou irmãs próximos da minha idade, e, para fazer amigos, bem, eu era tímido. Além disso, havia outro problema: algo que viera à luz quando eu tinha apenas 5 anos. Aconteceu numa tarde. As mansões da Queen Anne’s Square eram construídas próximas umas das outras, de modo que frequentemente víamos nossos vizinhos, ou na própria praça ou nos fundos dos terrenos. De um dos nossos lados, vivia uma família que tinha quatro meninas, duas mais ou menos da minha idade. Parecia que passavam horas pulando corda ou brincando de cabra-cega no jardim. E costumava ouvi-las enquanto permanecia sentado na sala de aula sob o olhar vigilante do meu tutor, o Velho Sr. Fayling, que tinha sobrancelhas grisalhas e grossas e o hábito de vasculhar o nariz, analisando cuidadosamente o que quer que tivesse escavado de lá, e em seguida, sorrateiramente, comendo-o. Nessa tarde em particular, o Velho Sr. Fayling deixou a sala, e eu esperei até que seus passos se afastassem antes de abandonar meus cálculos, ir até a janela e olhar por um tempo o terreno da mansão vizinha. Dawson era o nome da família. O Sr. Dawson era Membro do Parlamento — pelo menos foi o que meu pai dissera, mal disfarçando a expressão zangada. Eles tinham um jardim cercado por um muro alto e, apesar das árvores, dos arbustos e das plantas totalmente floridos, partes eram visíveis da janela da minha sala de aula, de modo que conseguia ver as meninas Dawson do lado de fora. Estavam brincando de amarelinha, para variar, e tinham improvisado um percurso no chão com bastões de palamalhar, mas não pareciam levar a brincadeira muito a sério. Provavelmente as duas mais velhas tentavam ensinar às duas mais novas como conseguir pontos melhores no jogo. Como um borrão de rabos de cavalo e vestidos cor-de-rosa amarrotados, gritavam e riam, e, de vez em quando, eu ouvia a voz de uma pessoa adulta, que era capaz de ser uma ama e que eu não podia ver porque ela estava sob um dossel de árvores. Abandonei meus cálculos na mesa por um momento, enquanto as observava brincar, até que de repente, como se ela pudesse sentir que estava sendo observada, uma das mais novas, mais ou menos um ano mais nova do que eu, olhou para cima e me viu na janela, e os nossos olhares se encontraram. Engoli em seco, então, hesitante, ergui a mão para acenar. Para minha surpresa, ela sorriu de volta. Em seguida, chamou as irmãs, que se aglomeraram, todas as quatro, esticando empolgadas o pescoço e protegendo os olhos do sol para olhar para a janela da sala de aula, onde eu permanecia como uma peça em um museu — mas uma peça que se mexia, que acenava e ficava ligeiramente rosada de constrangimento, e, mesmo assim, sentindo o suave brilho cálido de algo que talvez pudesse ser amizade. Que se evaporou no momento em que a ama delas surgiu de baixo da cobertura das árvores, olhou zangada para a minha janela, com um olhar que não me deixou nenhuma dúvida do que pensava de mim — um bisbilhoteiro ou coisa pior —, e então tirou as quatro meninas da minha vista. Aquele olhar que ela me deu eu já vira antes, e o vi novamente, na praça e nos campos atrás de casa. Lembra-se de como minhas amas me afastavam dos infelizes esfarrapados? Da mesma forma, outras amas mantinham as crianças distantes de mim. Nunca havia realmente pensado por quê. Não


questionei isso pois... não sei, acho que talvez porque não tivesse motivo; era simplesmente algo que acontecia e eu não via diferença.

ii Quando eu tinha 6 anos, Edith me deu de presente uma trouxa de roupas passadas e um par de sapatos com fivelas de prata. Saí de trás do biombo, usando meus sapatos novos com fivelas brilhantes, um colete e uma jaqueta, e Edith chamou uma das criadas, que disse que eu era a imagem perfeita do meu pai, o que, é claro, era a ideia. Mais tarde, meus pais vieram me ver, e eu poderia jurar que os olhos do meu pai marearam um pouco, ao passo que minha mãe não se prestou a qualquer fingimento e simplesmente caiu no choro ali mesmo, e depois no quarto, abanando a mão, até Edith lhe entregar um lenço. Parado lá, me senti adulto e instruído, embora sentisse novamente o calor nas bochechas. E me peguei imaginando se as meninas Dawson teriam me considerado realmente elegante na minha roupa nova, realmente um cavalheiro de verdade. Pensava nelas com frequência. Às vezes, as via da janela, correndo pelo jardim ou sendo conduzidas para carruagens diante das mansões. Fantasiei, um dia, ter visto uma delas furtar um olhar para mim, mas, se me viu, não houve sorrisos ou acenos dessa vez, apenas uma sombra daquele mesmo olhar exibido pela ama, como se o repúdio a mim fosse algo que se passasse adiante como conhecimento secreto. Tínhamos, portanto, os Dawson de um lado; aquelas esquivas Dawson, rabos de cavalo saltitando, enquanto, do outro, havia os Barrett. Era uma família com oito filhos, meninos e meninas, embora eu também raramente os visse; assim como os Dawson, meus encontros eram restritos a vêlos entrando em carruagens ou avistá-los à distância, nos campos. Então, uma vez, pouco antes de fazer 8 anos, eu estava no jardim e andava ao redor dele, arrastando uma vara pelos tijolos vermelhos e despedaçados do muro alto. De vez em quando, parava para virar pedras com a vara e observar os insetos que saíssem correndo de baixo — tatuzinhos de jardim, centopeias, minhocas que ziguezagueavam como se esticassem seus longos corpos —, quando cheguei à porta que dava para uma passagem entre a nossa casa e a dos Barrett. O pesado portão estava trancado com uma enorme e grossa corrente de metal enferrujado que parecia não ser aberto havia anos, e o olhei por um tempo, avaliando o peso dele nas mãos, quando ouvi um sussurro urgente em uma voz de menino. — Ei, você. É verdade o que dizem sobre seu pai? Veio do outro lado do portão, embora eu tivesse demorado um ou dois instantes para localizar aquilo — um instante em que fiquei chocado e quase sem me mexer, de medo. Então, quase saltei do meu próprio corpo quando vi, por um buraco na porta, um olho sem piscar que me observava. Novamente, a pergunta.


— Vai, fala logo, vão me chamar a qualquer segundo. É verdade o que dizem sobre seu pai? Com calma, me curvei para que meus olhos ficassem na mesma altura do buraco na porta. — Quem está aí? — perguntei. — Sou eu, Tom, que mora aqui do lado. Eu sabia que Tom era o mais jovem dos filhos, quase da minha idade. Já tinha ouvido chamarem seu nome. — Quem é você? — indagou ele. — Ou melhor, qual é o seu nome? — Haytham — respondi, e fiquei imaginando se Tom era meu novo amigo. O olho dele, pelo menos, tinha aparência amigável. — É um tipo estranho de nome. — É árabe. Significa “águia jovem”. — Bem, isso faz sentido. — Como assim “faz sentido”? — Ora, sei lá. Simplesmente faz. E só tem você aí? — E a minha irmã — retruquei. — E minha mãe e meu pai. — Uma família bem pequena. Concordei. — E aí — insistiu —, é verdade ou não? Seu pai é o que dizem que ele é? E nem pense em mentir. Posso ver seus olhos, sabe? Dá para saber na hora se está mentindo. — Eu não minto. Nem sei o que “eles” dizem que ele é, nem mesmo quem são “eles”. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma estranha e nada agradável sensação: que em algum lugar existia a ideia do que era considerado “normal”, e que nós, a família Kenway, não estávamos incluídos nela. Talvez o dono daquele olho notasse algo em meu tom de voz, pois se apressou em acrescentar: — Desculpe... desculpe, se eu disse algo inconveniente. Eu estava apenas interessado, só isso. Sabe, há um boato, e ele é terrivelmente emocionante, se for verdade... — Que boato? — Você vai achar que é bobagem. Sentindo-me corajoso, me aproximei do buraco e olhei para ele, de olho para olho, e perguntei: — Que história é essa? O que as pessoas dizem sobre meu pai? Ele piscou. — Dizem que ele foi um... De repente, houve um ruído atrás dele, e ouvi uma voz masculina zangada chamar seu nome: — Thomas! O choque fez com que ele recuasse. — Ah, meu pai — sussurrou rapidamente. — Preciso ir, estão me chamando. A gente se vê, espero. E, com isso, ele sumiu e fiquei pensando no que quis dizer. Que boato? O que as pessoas


andavam dizendo sobre nós, sobre nossa pequena família? Ao mesmo tempo, me lembrei de que era melhor me apressar. Era quase meio-dia — a hora do meu treino com armas.


7 de dezembro de 1735 i Eu me sinto invisível, como se estivesse preso num limbo entre o passado e o futuro. À minha volta, os adultos mantêm conversas tensas. Seus rostos estão com aparência de cansaço, e as senhoras choram. As fogueiras são conservadas acesas, é claro, mas a casa está vazia, exceto por poucos de nós e as posses que salvamos da mansão incendiada, e ela parece permanentemente fria. Lá fora a neve começou a cair, enquanto dentro de casa há uma tristeza que gela até os ossos. Com pouco mais a fazer do que escrever meu diário, tinha esperado colocar em dia a história da minha vida até agora, mas parece que há mais a dizer do que pensei no começo, e, é claro, houve outros assuntos importantes a serem tratados. Funerais. O de Edith hoje. — Tem certeza, Sr. Haytham? — perguntara Betty mais cedo, com a testa enrugada de preocupação, os olhos cansados. Durante anos, o tanto que consigo me lembrar, ela ajudara Edith. Estava tão arrasada quanto eu. — Tenho — falei, vestido como sempre, com meu terno e, hoje, uma gravata preta. Edith era sozinha no mundo, portanto foram os Kenway sobreviventes e os empregados que se reuniram debaixo da escada para um banquete de funeral, com presunto, cerveja e bolo. Quando acabou, os homens da funerária, que já estavam bêbados, colocaram o corpo na carruagem funerária para levá-lo à capela. Atrás dele, tomamos nossos lugares nas carruagens do séquito. Só precisamos de duas. Quando tudo acabou, fui para o quarto, continuar minha história...

ii Dois dias após ter falado com Tom Barrett e seu olho, o que ele dissera continuava mexendo comigo. Então, certa manhã, quando Jenny e eu estávamos sozinhos na sala de estar, decidi perguntar a respeito. Jenny. Eu tinha quase 8 anos, e ela, 21, e tínhamos tanto em comum quanto eu tinha com o homem que entregava o carvão. Menos, provavelmente, se pensarmos bem, porque o homem que entregava o carvão e eu pelo menos gostávamos de rir, enquanto raramente vi Jenny sorrir, quanto mais rir. Ela tem cabelos negros que brilham, e seus olhos são negros e... bem, “sonolentos” é o que eu diria, embora os ouvisse descritos como “pensativos”, e pelo menos um admirador foi longe demais ao dizer que ela tinha um “olhar obscuro”, seja lá o que aquilo quisesse dizer. A aparência de Jenny era um tema popular de conversas. Ela é muito bonita, ou assim frequentemente me dizem. Mas não para mim. Ela era apenas Jenny, que se recusou a brincar comigo tantas vezes que havia


muito tempo eu desistira de pedir; que eu sempre imaginava sentada em uma poltrona de encosto alto, a cabeça abaixada sobre o que estava costurando ou bordando — o que quer que fizesse com linha e agulha. E o olhar carrancudo. Aquele olhar obscuro que seus admiradores diziam que tinha? Eu chamava de olhar carrancudo. A questão era que, apesar do fato de cada um de nós ser pouco mais do que um convidado na vida do outro, como navios velejando em volta do mesmo pequeno porto, passando perto, mas nunca fazendo contato, tínhamos o mesmo pai. E Jenny, por ser doze anos mais velha, sabia muito mais sobre ele do que eu. Por isso, embora já houvesse anos que ela me dizia que eu era burro demais ou jovem demais para entender — ou burro demais e jovem demais para entender; e, certa vez, inclusive baixo demais para entender, independente do que isso quisesse dizer —, eu tentava envolvê-la em uma conversa. Não sei por quê, pois, como disse, sempre me recusei a ser sensato. Para irritá-la, talvez. Mas, nessa ocasião em particular, mais ou menos uns dois dias após minha conversa com Tom e seu olho, foi porque eu estava realmente curioso para descobrir o que ele quis dizer. Por isso, perguntei a ela: — O que as pessoas falam de nós? Ela suspirou teatralmente e ergueu a vista do bordado. — O que quer dizer, Fedelho Espertinho? — perguntou ela. — Só isso mesmo... O que as pessoas falam de nós? — Está se referindo a fofocas? — Se prefere. — E você liga para fofocas? Você não é muito...? — Eu ligo — interrompi, antes de entrarmos no assunto de eu ser muito jovem, muito burro ou muito baixo. — É mesmo? Por quê? — É que alguém disse uma coisa, por isso. Ela pôs o trabalho de lado, enfiando-o debaixo da almofada da poltrona ao lado da perna, e apertou os lábios. — Quem? Quem disse e o que foi que disse? — Um garoto, no portão do jardim. Ele disse que nossa família era estranha e que nosso pai era um... — O quê? — Não cheguei a descobrir. Ela sorriu e pegou o bordado de volta. — E foi isso que fez você pensar, é? — Bom, isso não faria com que você pensasse? — Eu já sei de tudo que preciso saber — disse ela de modo arrogante —, e digo uma coisa, estou pouco ligando para o que dizem sobre a gente na casa vizinha. — É, então diz para mim — pedi. — O que nosso pai fez antes de eu nascer?


Jenny sorria, às vezes. Ela ria quando tinha o controle da situação, quando podia exercer um pouco de poder sobre alguém — principalmente se esse alguém fosse eu. — Você vai descobrir — disse ela. — Quando? — No devido tempo. Afinal, você é o herdeiro varão dele. Houve uma longa pausa. — Como assim, “herdeiro varão”? — indaguei. — Qual a diferença entre isso e o que você é dele? Ela suspirou. — Bem, no momento, não muita, embora você treine com armas e eu não. — Você não? — Mas, pensando bem, já sabia disso, e acho que já tinha parado para pensar por que eu trabalhava com a espada e ela com a agulha. — Não, Haytham, não treino com espada. Nenhuma criança treina com espada, Haytham, pelo menos não em Bloomsbury, e talvez não treinem em toda a Londres. Ninguém, a não ser você. Não lhe disseram? — O quê? — Para você não dizer nada. — Sim, mas... — E nunca se perguntou por que... por que não deve dizer nada? Talvez eu tivesse. Talvez soubesse secretamente o tempo todo. Fiquei calado. — Em breve vai saber o que está reservado para você — afirmou. — Nossas vidas foram traçadas para nós, não se preocupe com isso. — Bem, e o que está reservado para você? Ela bufou em tom de brincadeira. — O que está reservado para mim é a pergunta errada. Quem está reservado para mim é mais acertado. Houve um vestígio de algo em sua voz que só fui entender direito muito depois, e a olhei, sabendo muito bem que não deveria perguntar mais e me arriscar a sentir a pontada daquela agulha. Mas, quando finalmente larguei o livro que estava lendo e deixei a sala, fiz isso sabendo que, embora não tivesse aprendido nada sobre meu pai ou minha família, eu tinha aprendido algo sobre Jenny: por que ela nunca sorria; por que ela era sempre tão hostil em relação a mim. Era porque ela tinha visto o futuro. Vira o futuro e sabia que este me favorecia, por nenhum motivo melhor do que o de eu ter nascido homem. Deveria ter sentido pena dela. E teria sentido — se ela não tivesse sido tão rabugenta. Sabendo o que sabia até ali, porém, o treinamento com armas no dia seguinte teve uma empolgação extra. Mas enfim: ninguém mais treinava com armas além de mim. De repente, a sensação era a de que eu provava um fruto proibido, e o fato de meu pai ser meu tutor apenas tornava o fruto mais suculento. Se Jenny estava certa e havia alguma carreira para a qual eu estava sendo


preparado para seguir, como outros meninos são treinados para o sacerdócio, ou para serem ferreiros, açougueiros ou carpinteiros, então ótimo. Eu concordava plenamente. Não havia ninguém no mundo que eu visse com mais respeito do que meu pai. A ideia de que ele estava passando seu conhecimento para mim era ao mesmo tempo reconfortante e emocionante. E, é claro, isso envolvia espadas. O que mais um garoto poderia querer? Relembrando o passado, sei que daquele dia em diante me tornei um aluno mais disposto e entusiasmado. Todos os dias, ao meio-dia ou depois do lanche, dependendo da agenda do meu pai, nos encontrávamos no que chamávamos de sala de treinamento, mas que, na verdade, era uma sala de jogos. E foi ali que minhas habilidades com a espada começaram a progredir. Não tenho treinado desde o ataque. De qualquer jeito, não ando animado para pegar em uma lâmina, mas sei que, quando pego, imagino aquela sala, com suas paredes escuras cheias de painéis de carvalho, estantes e a mesa de bilhar coberta que fora afastada para o lado para abrir espaço. E, nela, meu pai, com os olhos brilhantes, aguçados mas bondosos, e sempre sorrindo, sempre me incentivando: bloqueio, parada, jogo de pernas, equilíbrio, atenção, antecipação. Ele repetia essas palavras como um mantra, às vezes não dizendo mais nada durante uma aula inteira, apenas bradando as ordens, assentindo quando eu fazia certo, balançando a cabeça quando fazia errado, parando de vez em quando para afastar o cabelo do rosto e ir para trás de mim, a fim de posicionar meus braços e pernas. Para mim, eles são — ou foram — as imagens e os sons do treino de espada: as estantes, a mesa de bilhar, os mantras do meu pai e o ruído das espadas se encontrando... Madeira. Sim, madeira. Usávamos espadas de madeira para treino, para meu desgosto. O aço viria depois, dizia ele, sempre que eu reclamava.

iii Na manhã do meu aniversário, Edith foi especialmente mais do que amável comigo, e minha mãe cuidou para que eu tivesse tudo que mais gostava de comer no café da manhã daquele dia: sardinhas com molho de mostarda e pão fresco com geleia de cereja feita com as frutas das árvores de nosso terreno. Peguei Jenny me dando um olhar de escárnio, enquanto me empanturrava, mas não liguei. Desde a nossa conversa na sala de estar, seja lá o poder que ela tivesse sobre mim, mesmo minúsculo como tinha sido, ele havia, de algum modo, se tornado menos evidente. Antes disso, eu teria levado a sério sua zombaria, talvez me sentido um pouco bobo e constrangido com relação ao café do meu aniversário. Mas não naquele dia. Relembrando, imagino se o meu oitavo aniversário marcou o dia em que comecei a mudar de menino para homem. Portanto, não, não liguei para o lábio torcido de Jenny nem para os ruídos de porco que ela fez


para si. Só tinha olhos para minha mãe e meu pai, que só tinham olhos para mim. Eu podia garantir, pela linguagem corporal deles, os pequenos códigos que captei dos meus pais ao longo dos anos, que mais coisas estavam por vir; que os prazeres do meu aniversário continuariam. E isso se confirmou. Ao final da refeição, meu pai anunciara que, à noite, iríamos à White’s Chocolate House, na Chesterfield Street, onde o chocolate quente é feito de blocos maciços de chocolate importados da Espanha. Mais tarde, naquele dia, fiquei com Edith e Betty agitadas ao redor de mim, me vestindo com meu terno mais elegante. Então, nós quatro subimos em uma carruagem que esperava lá fora, no meio-fio, de onde furtei uns olhares para as janelas de nossos vizinhos e fiquei imaginando se os rostos das meninas Dawson estavam pressionados contra o vidro, ou os de Tom e seus irmãos. Esperava que sim. Esperava que pudessem me ver agora. Ver a todos nós e pensar: “Lá vai a família Kenway, saindo à noite, como qualquer família normal.”

iv A área em volta da Chesterfield Street estava movimentada. Conseguimos parar bem em frente à White’s e, uma vez ali, abriram nossa porta e nos ajudaram a atravessar rapidamente a rua apinhada e entrar. Mesmo assim, durante a curta caminhada entre a carruagem e o santuário da casa de chocolate, olhei para os dois lados e vi um pouco da realidade nua e crua de Londres: o corpo de um cachorro caído na sarjeta, um desabrigado vomitando em uma grade, vendedoras de flores, mendigos, bêbados, moleques chafurdando em um rio de lama que parecia ferver na rua. Então entramos, saudados por um denso cheiro de fumaça, cerveja, perfume e, claro, chocolate, além de uma barulheira de piano e vozes altas. Pessoas debruçadas sobre mesas de jogos, todas gritando. Homens bêbados devido a enormes canecas de cerveja; mulheres também. Vi alguns com chocolate quente e bolo. Todos, aparentemente, estavam em um estado de alta exaltação. Olhei para meu pai, que havia parado de repente, e senti seu incômodo. Por um momento fiquei preocupado que ele simplesmente se virasse e fosse embora, antes de um cavalheiro segurando no alto sua bengala atrair minha atenção. Mais jovem do que meu pai, com o sorriso solto e um piscar de olhos que era visível mesmo do outro lado do salão, ele agitava a bengala para nós. Até que, com um aceno agradecido, meu pai o reconheceu e começou a nos conduzir pelo salão, espremendo-se entre as mesas, passando por cima de cachorros e até mesmo de uma ou duas crianças, que se arrastavam aos pés dos farristas, presumivelmente atrás do que quer que pudesse cair das mesas de jogos: pedaços de bolo e talvez moedas. Chegamos ao cavalheiro com a bengala. Diferente do meu pai, cujo cabelo estava desgrenhado e mais ou menos amarrado para trás com um laço, ele usava peruca branca cheio de pó, com a parte de trás sustentada por uma fita de seda preta, e sobrecasaca de uma intensa e viva cor vermelha. Com


um gesto de cabeça, ele cumprimentou meu pai, depois voltou sua atenção para mim e fez uma exagerada reverência. — Boa noite, Sr. Haytham, que esta data se repita muitas vezes. Lembre-me, por favor, qual é a sua idade, senhor? Posso ver, pelo modo como se comporta, que é uma criança muito madura. Onze? Doze, talvez? Ao dizer isso, olhou por cima do meu ombro, com um sorriso e uma piscadela, e minha mãe e meu pai deram uma risadinha de agradecimento. — Eu tenho 8, senhor — falei, e me enchi de orgulho, enquanto meu pai completava as apresentações. O cavalheiro era Reginald Birch, um dos administradores antigos de suas propriedades, e o Sr. Birch disse que era um prazer me conhecer e depois cumprimentou minha mãe com uma demorada reverência, beijando as costas de sua mão. Sua atenção, em seguida, foi para Jenny. Ele segurou sua mão, curvou a cabeça e pressionou os lábios nela. Eu sabia o bastante para perceber que o que ele estava fazendo era um galanteio, por isso logo olhei para meu pai, esperando que ele interviesse. Em vez disso, o que vi foi ele e minha mãe aparentando estar emocionados, embora Jenny permanecesse com a cara inexpressiva, e assim ficou enquanto éramos conduzidos a uma sala privativa nos fundos do estabelecimento e nos sentamos, ela e o Sr. Birch lado a lado, enquanto os funcionários começavam a se agitar à nossa volta. Poderia ter ficado ali a noite toda, me abastecendo de chocolate quente e bolo, que eram trazidos à mesa em fartas quantidades. Tanto meu pai quanto o Sr. Birch pareceram ter gostado da cerveja. Mas, no fim das contas, foi minha mãe quem insistiu para que fôssemos embora — antes que me sentisse mal, ou eles —, e saímos para a noite, que, no mínimo, se tornara ainda mais movimentada do que horas mais cedo. Por um ou dois momentos, me senti desorientado pelo ruído e pelo fedor da rua. Jenny torceu o nariz, e percebi uma centelha de preocupação pelo rosto da minha mãe. Por instinto, meu pai chegou mais para perto de nós, como se tentasse nos proteger da barulheira. Uma mão suja enfiou-se diante do meu rosto, e ergui a vista para ver um mendigo silenciosamente pedindo dinheiro com olhos arregalados e suplicantes, de um branco brilhante em contraste com o sujo de seu rosto e cabelo. Uma vendedora de flores tentou se apressar em passar pelo meu pai e ir até Jenny e soltou um indignado “Ei!” quando o Sr. Birch usou a bengala para bloquear seu caminho. Senti um empurrão e vi dois moleques tentando nos alcançar com as palmas estendidas. Então, de repente, minha mãe soltou um grito, quando um homem irrompeu da multidão, sujo e com as roupas esfarrapadas, os dentes expostos e a mão esticada, prestes a arrancar seu colar. E, no segundo seguinte, descobri por que a bengala do meu pai tinha aquele barulho curioso ao ver uma lâmina surgir de seu interior quando ele girou para proteger minha mãe. Ele percorreu a distância até ela em um piscar de olhos, mas antes de retirá-la da bainha, mudou de ideia, talvez por notar que o ladrão estava desarmado, e a colocou de volta, empurrando-a para o lugar com um golpe surdo e


transformando-a novamente em uma bengala, no mesmo movimento em que girou para afastar a mão do baderneiro com uma pancada. O ladrão guinchou de dor e surpresa e recuou direto para o Sr. Birch, que o derrubou na rua e se lançou sobre ele, com os joelhos em cima do peito do homem e uma adaga em sua garganta. Prendi a respiração. Vi os olhos da minha mãe se arregalarem acima do ombro do meu pai. — Reginald! — gritou meu pai. — Pare! — Ele tentou roubar você, Edward — disse o Sr. Birch, sem se virar. O ladrão fungou. Os tendões das mãos do Sr. Birch se sobressaíam e as juntas dos dedos da mão no cabo da adaga estavam brancas. — Não, Reginald, não é desse jeito — disse meu pai. Ele estava parado com os braços em volta da minha mãe, que enterrara a cara em seu peito e choramingava baixinho. Jenny estava junto, de um lado, e eu, do outro. Em volta de nós, uma aglomeração havia se formado, os mesmos vagabundos e mendigos que tinham nos perturbado agora mantinham uma distância respeitosa. Uma respeitosa e amedrontada distância. — Falo sério, Reginald — disse meu pai. — Guarde a adaga, deixe-o ir. — Não me deixe passar um ridículo desse jeito, Edward — alegou Birch. — Não assim, diante de todo mundo, por favor. Nós dois sabemos que este homem merece pagar, se não com sua vida, pelo menos com um ou dois dedos. Prendi a respiração. — Não! — ordenou meu pai. — Não haverá derramamento de sangue, Reginald. Qualquer ligação entre nós acabará se não fizer imediatamente o que eu digo. Um silêncio pareceu cair sobre todos à nossa volta. Podia ouvir o ladrão balbuciando, repetindo, várias e várias vezes: — Por favor, senhor, por favor, senhor, por favor, senhor... Seus braços estavam imobilizados, as pernas se agitavam e se arrastavam inutilmente nas pedras imundas do pavimento, onde permanecia preso. Até que, finalmente, o Sr. Birch pareceu se decidir, e a adaga foi afastada, deixando para trás um pequeno corte sangrando. Quando se levantou, deu um chute no ladrão, que não precisou de outro incentivo para, com dificuldade, apoiar as mãos e os pés no chão e partir pela Chesterfield Street, agradecido por escapar com vida. O condutor de nossa carruagem havia recuperado o ânimo e agora estava na porta, insistindo para que nos apressássemos para a segurança do veículo. E meu pai e o Sr. Birch permaneceram parados, encarando um ao outro, com os olhos imóveis. Quando minha mãe me apressou para que eu passasse, vi os olhos do Sr. Birch brilhando com intensidade. Vi o olhar do meu pai encontrando o dele do mesmo modo, depois estendeu a mão para um aperto, dizendo: — Obrigado, Reginald. Em nome de todos nós, obrigado por seu pensamento rápido.


Senti a mão da minha mãe na parte de baixo das minhas costas, quando ela tentou me empurrar para dentro da carruagem, e estiquei a cabeça para trás para ver meu pai com a mão estendida para o Sr. Birch, que olhava para ele, recusando-se a aceitar a oferta de conciliação. Então, assim que me ajeitei na carruagem, vi o Sr. Birch estender a mão para apertar a do meu pai e o olhar fixo dele se desfazer em um sorriso — um sorriso acanhado, ligeiramente constrangido, como se tivesse acabado de se lembrar de voltar a si. Os dois apertaram as mãos e meu pai presenteou o Sr. Birch com um breve movimento de cabeça que eu conhecia tão bem. Significava que tudo fora resolvido. Significava que não era preciso dizer mais nada.

v Finalmente voltamos para casa, na Queen Anne’s Square, onde trancamos a porta e expulsamos o cheiro de fumaça e estrume e cavalo. E eu disse a minha mãe e meu pai o quanto havia gostado da minha noite, agradeci muito aos dois e garanti a eles que a confusão na rua não tinha estragado em nada a minha noite, enquanto pensava comigo que achava que aquilo tinha sido o ponto alto. Mas acontece que a noite ainda não havia terminado, porque quando subi a escada meu pai fez um sinal com a cabeça para que, em vez disso, eu o acompanhasse e seguiu caminho para a sala de jogos, e lá acendeu uma vela de parafina. — Quer dizer que gostou da sua noite, Haytham — declarou ele. — Gostei muito, senhor — falei. — Que impressão você teve do Sr. Birch? — Gostei muito dele, senhor. Meu pai deu uma risadinha. — Reginald é um homem que dá muito valor à aparência, à conduta e à etiqueta e à ordem. Não é como alguns, que têm a etiqueta e o protocolo como característica apenas quando lhes convêm. Ele é um homem honrado. — Sim, senhor — falei, mas devo ter parecido tão inseguro quanto me senti, pois ele me olhou bruscamente. — Ah — disse ele —, você está pensando no que aconteceu depois? — Estou, senhor. — Bem... o que achou? Gesticulou para uma das estantes. Parecia me querer perto da luz e seus olhos fixados no meu rosto. A luz do lampião brincou em suas feições e o cabelo negro brilhou. Seus olhos eram sempre amáveis, mas também podiam ser intensos, como agora. Notei uma de suas cicatrizes, que parecia cintilar mais brilhantemente sob a luz. — Bem, foi tudo emocionante, senhor — respondi; acrescentando rapidamente: — Embora eu tenha ficado muito preocupado com minha mãe. Sua rapidez em salvá-la... Nunca tinha visto alguém


se movimentar tão depressa. Ele riu. — O amor faz isso com um homem. Um dia, você descobrirá o mesmo por si só. Mas e o Sr. Birch? A reação dele? O que achou, Haytham? — Senhor? — O Sr. Birch parecia prestes a dar um severo castigo ao patife, Haytham. Você acha que era merecido? Meditei, antes de responder. Podia perceber, pela expressão do rosto do meu pai, aguçada e atenta, que minha resposta era importante. E, no calor do momento, suponho que eu tenha pensado que o ladrão merecia uma reação mais dura. Houve um instante, por mais breve que tivesse sido, em que uma ira primitiva desejou o mal dele pelo ataque à minha mãe. Agora, porém, sob o suave brilho do lampião, com meu pai me olhando amavelmente, me senti diferente. — Diga honestamente para mim, Haytham — induziu meu pai, como se tivesse lido meus pensamentos. — Reginald tem um aguçado senso de justiça, ou o que ele descreve como justiça. E é de certo modo... bíblico. Mas o que acha? — A princípio, senti uma imensa vontade de... vingança, senhor. Mas logo passou, e fiquei satisfeito em ver o homem dar clemência ao outro — respondi. Meu pai sorriu e assentiu, então, abruptamente, virou-se para a estante, onde, com um rápido movimento do pulso, movimentou uma alavanca, fazendo com que uma parte dos livros deslizasse para o lado, revelando um compartimento secreto. Meu coração acelerou quando ele retirou uma coisa dali: uma caixa, que me entregou, e, assentindo com a cabeça, mandou que eu a abrisse. — Um presente de aniversário, Haytham — declarou. Ajoelhei-me, apoiei a caixa no chão e a abri, encontrando um cinto de couro, que arranquei e coloquei rápido de lado, sabendo que, debaixo dele, haveria uma espada. E não uma espada de brinquedo de madeira, mas uma espada de aço reluzente com uma empunhadura adornada. Tirei-a da caixa e segurei-a nas mãos. Era uma espada curta e, embora, vergonhosamente, sentisse uma pontada de decepção com aquilo, soube logo que era uma bela espada curta, e era a minha espada. Decidi, na hora, que ela jamais deixaria o meu lado, e já estava alcançando o cinturão quando meu pai me deteve. — Não, Haytham — alertou. — Ela fica aqui e não deve ser removida ou mesmo usada sem minha permissão. Está claro? — Ele havia tirado a espada de mim e já estava colocando-a na caixa, deitando o cinturão por cima e fechando-a. — Em breve, começará a treinar com essa espada — continuou. — Há muita coisa que precisa aprender, Haytham, não apenas sobre o aço que tem nas mãos, mas também o que está em seu coração. — Sim, pai — falei, tentando não parecer tão confuso e decepcionado quanto me sentia. Eu o observei se virar e recolocar a caixa no compartimento secreto e, se tentou se certificar para


que eu não visse o livro que acionava o mecanismo, bem, então fracassou. Era a Bíblia do rei Jaime.


8 de dezembro de 1735 i Houve mais dois funerais hoje, dos dois soldados que estavam baseados no terreno de casa. Pelo que sei, o mordomo do meu pai, o Sr. Digweed, estava a serviço do capitão, cujo nome eu nunca soube, mas ninguém de nossa casa foi ao funeral do segundo homem. Há, no momento, muita perda e lamentação à nossa volta, é como se simplesmente não houvesse espaço para mais, por mais insensível que isso pareça.

ii Após o meu oitavo aniversário, o Sr. Birch tornou-se um visitante habitual da casa e, quando não estava acompanhando Jenny em passeios pela propriedade ou levando-a para a cidade em sua carruagem, ou sentado na sala de estar tomando chá e xerez e distraindo as mulheres com histórias da vida militar, ele se reunia com meu pai. Era evidente para todos que pretendia se casar com Jenny e que a união tinha a bênção do nosso pai, mas soube que o Sr. Birch havia pedido para adiar as núpcias; que ele queria se tornar o mais próspero possível a fim de que Jenny tivesse o marido que merecia, e que estava de olho em uma mansão em Southwark, para que ela mantivesse a vida a que estava acostumada. Minha mãe e meu pai estavam empolgados com isso, é claro, Jenny bem menos. De vez em quando a via com os olhos vermelhos, e ela criara o hábito de sair rapidamente dos aposentos ou de ficar à beira de um acesso de raiva, ou então com a mão sobre a boca, contendo as lágrimas. Mais de uma vez, ouvi meu pai dizer “Ela vai superar”, e, em uma ocasião, ele me deu um olhar de lado e revirou os olhos. Do mesmo modo que ela parecia murchar sob o peso de seu futuro, comigo acontecia o contrário com a antecipação do meu. O amor que sentia pelo meu pai constantemente ameaçava me tragar com sua completa magnitude; eu simplesmente não o amava, o idolatrava. Às vezes era como se compartilhássemos um conhecimento que era secreto para o resto do mundo. Por exemplo, ele costumava me perguntar o que os meus tutores estavam me ensinando, ouvia atentamente e então indagava “Por quê?”. Sempre que me perguntava algo, fosse sobre religião, ética ou moral, sabia se eu dava a resposta pelo conhecimento adquirido ou se repetia como um papagaio e dizia: “Bem, você acaba de me dizer o que o Velho Sr. Fayling pensa”, ou: “Nós sabemos o que um autor com cem anos pensa. Mas o que diz isto aqui, Haytham?”, e colocava a mão no meu peito. Percebo agora o que ele fazia. O Velho Sr. Fayling me ensinava fatos e realidades; meu pai me


pedia para que os questionasse. O conhecimento que eu adquiria pelo Velho Sr. Fayling — onde ele se originou? Quem escrevera assim e por que eu deveria confiar nesse homem? Meu pai costumava dizer: “Para ver de maneira diferente, primeiro devemos pensar diferente.” E isso parece estúpido, e você poderia rir, ou então eu olhar para trás, anos depois, e também rir, mas às vezes achava que podia realmente sentir o meu cérebro se expandir para ver o mundo à maneira do meu pai. Ele tinha uma maneira de ver o mundo que ninguém mais tinha, assim parecia; um modo de ver o mundo que desafiava a própria ideia de verdade. Claro que eu questionava o Velho Sr. Fayling. Um dia o desafiei e ganhei um golpe de sua bengala nos nós dos dedos, com a promessa de que informaria ao meu pai, o que ele fez. Depois, meu pai me levou ao gabinete e, após fechar a porta, sorriu e deu um tapinha na lateral do nariz. “Geralmente, Haytham, é melhor guardar seus pensamentos para si mesmo. Escondê-los em plena vista.” E foi o que fiz. E me descobri olhando as pessoas à minha volta, tentando enxergar dentro delas como se, de algum jeito, fosse capaz de adivinhar como viam o mundo, do modo do Velho Sr. Fayling ou do modo do meu pai. Escrevendo isto agora, é claro, posso perceber que estava ficando grande demais para minhas botas; sentia-me mais adulto do que a idade que tinha, o que não era nada atraente agora, aos 10 anos, como tinha sido aos 8 e depois aos 9. Provavelmente, eu era insuportavelmente arrogante. Provavelmente, me achava o homenzinho da casa. Quando fiz 9 anos, meu pai me deu um arco e flecha como presente de aniversário, e, praticando com ele no terreno de casa, torcia para que as meninas Dawson ou as crianças dos Barrett pudessem me ver das janelas. Já se passara mais de um ano desde que falei com Tom no portão, mas às vezes eu ficava vadiando por ali, na esperança de voltar a encontrá-lo. Meu pai era acessível em relação a todos os assuntos, exceto sobre seu passado. Nunca falava sobre a vida antes de Londres, nem sobre a mãe de Jenny, por isso tinha a esperança de que o que quer que Tom soubesse poderia se revelar esclarecedor. E, fora isso, é claro, queria um amigo. Não um parente ou babá ou tutor ou mentor — isso tudo eu tinha muito. Apenas um amigo. E torcia para que fosse Tom. Isso agora, é claro, não acontecerá. Eles o enterraram ontem.


9 de dezembro de 1735 i O Sr. Digweed veio me ver esta manhã. Bateu na porta, esperou minha resposta e então teve de baixar a cabeça para entrar, pois ele, além de ser calvo e ter os olhos ligeiramente esbugalhados e pálpebras cheias de veias, é alto e magro, e os vãos das portas de nossa residência de emergência são muito mais baixos do que aqueles que tínhamos em casa. O modo como se curvava enquanto se movimentava pelo local aumentava o seu ar de desconforto, a sensação de ser um peixe fora d’água. Ele era o mordomo do meu pai desde antes de eu nascer, pelo menos desde que os Kenway se estabeleceram em Londres, e, como todos nós, talvez até mais do que o restante da família, ele pertencia à Queen Anne’s Square. O que tornava sua dor ainda mais pungente era a culpa — sua culpa de que na noite do ataque estava longe, cuidando de assuntos familiares em Herefordshire; ele e o nosso motorista haviam retornado na manhã após o ataque. — Espero que consiga encontrar em seu coração um perdão para mim, Sr. Haytham — disserame ele em dias posteriores, com o rosto pálido e retorcido. — Claro, Digweed — respondi, e não soube o que dizer em seguida. Nunca me senti à vontade em me dirigir a ele pelo sobrenome. Isso nunca parecera direito na minha boca. Por isso, tudo que consegui acrescentar foi: — Obrigado. Naquela manhã, seu rosto cadavérico exibia a mesma expressão solene, e eu podia adivinhar que, fosse qual fosse a notícia que trazia, era ruim. — Sr. Haytham — disse ele, parando diante de mim. — Sim... Digweed? — Eu sinto terrivelmente, Sr. Haytham, mas chegou um recado da Queen Anne’s Square, dos Barrett. Eles desejam deixar claro que ninguém da residência Kenway é bem-vindo ao serviço funerário do jovem Thomas. Solicitam respeitosamente que, de modo algum, nenhum contato seja feito. — Obrigado, Digweed — falei, e observei-o fazer uma curta e sentida reverência e, em seguida, abaixar a cabeça para evitar bater na viga superior do vão da porta ao sair. Fiquei parado ali, por algum tempo, olhando inexpressivamente para o espaço onde ele estivera, até Betty retornar para me ajudar a tirar minha roupa de enterro e colocar uma das que uso no dia a dia.

ii


Certa tarde, poucas semanas atrás, estava debaixo da escada, brincando no curto corredor que ia do salão dos criados para a pesada porta com barras da sala da prataria. Era nesse aposento que ficavam armazenados os bens valiosos da família: a prataria, que só via a luz do dia em raras ocasiões em que minha mãe e meu pai recebiam convidados; peças de herança, as joias da minha mãe e alguns dos livros que meu pai considerava de grande valor — livros insubstituíveis. Ele mantinha o tempo todo consigo a chave do quarto, em uma argola presa ao cinturão, e só o vi confiá-la ao Sr. Digweed e, mesmo assim, por curtos períodos. Eu gostava de brincar no corredor ali perto porque o quarto era raramente visitado, então eu nunca era incomodado pelas amas, as quais, invariavelmente, me diriam para levantar do chão sujo antes que rasgasse minhas calças; ou por outro criado bem-intencionado, que puxaria uma educada conversa comigo e me forçaria a responder perguntas sobre minha educação ou meus amigos não existentes; ou talvez até por minha mãe ou meu pai, que me mandariam levantar do chão sujo antes que rasgasse minhas calças e então me forçariam a responder perguntas sobre minha educação ou amigos não existentes. Ou, pior do qualquer um deles, por Jenny, que zombaria de qualquer jogo que eu estivesse jogando e, se fossem soldadinhos de brinquedo, faria um mal-intencionado esforço para derrubar cada um dos homenzinhos de lata. Não, a passagem entre o salão dos criados e a sala da prataria era um dos poucos lugares da Queen Anne’s Square onde eu podia esperar evitar de verdade essas coisas, e, portanto, era para lá que eu ia quando não queria ser perturbado. Exceto nessa ocasião, quando um novo rosto surgiu na forma do Sr. Birch, que seguiu pela passagem justo no momento em que eu estava para alinhar meus soldados. Eu tinha uma lanterna comigo, apoiada no chão de pedra, e o fogo da vela tremulou e estalou na corrente de vento quando a porta da passagem foi aberta. De onde eu estava, no chão, vi a bainha da sobrecasaca e a ponta da bengala, e, quando meus olhos encontraram os dele olhando de cima para mim, fiquei imaginando se ele também mantinha uma espada escondida na bengala, e se ela fazia barulho, como a do meu pai. — Sr. Haytham, não esperava encontrá-lo aqui — disse ele com um sorriso. — Fiquei pensando, está ocupado? Então me levantei. — Só estou brincando, senhor — falei rapidamente. — Algum problema? — Ah, não — riu. — Aliás, a última coisa que quero é perturbar esse seu tempo de brincadeira, embora tenha algo que esperava discutir com você. — Claro — concordei, assentindo, meu coração aflito diante da ideia de outra sucessão de perguntas a respeito das minhas proezas em aritmética. Sim, eu gostava dos meus cálculos. Sim, eu gostava de escrever. Sim, um dia eu esperava ser tão inteligente quanto meu pai. E sim, um dia esperava ser seu sucessor nos negócios da família. Mas, com um gesto, o Sr. Birch mandou que eu continuasse minha brincadeira e até mesmo colocou a bengala de lado e arregaçou as calças para se agachar a meu lado. — E o que temos aqui? — perguntou, indicando as pequenas estatuetas de lata.


— É apenas um jogo, senhor — respondi. — Esses são seus soldados, não é? — indagou. — E qual deles é o comandante? — Não tem comandante, senhor — falei. Ele soltou uma risada seca. — Seus homens precisam de um líder, Haytham. De que outro modo saberiam a melhor maneira de agir? De que outro modo o senso de disciplina e objetivo despertaria neles? — Não sei, senhor — respondi. — Aqui — disse o Sr. Birch. E esticou-se para retirar um dos homenzinhos de lata do bando, esfregou-o em sua manga e colocou-o de lado. — Talvez devamos fazer deste cavalheiro aqui o líder... o que acha? — Se quer assim, senhor. — Sr. Haytham — declarou sorrindo o Sr. Birch —, esse jogo é seu. Sou um mero intruso, alguém que espera que possa me mostrar como é jogado. — Sim, senhor, então um líder seria ótimo, nessas circunstâncias. De repente, a porta da passagem se abriu outra vez, e ergui a vista, dessa vez para ver o Sr. Digweed entrar. Sob a luz bruxuleante, percebi que ele e o Sr. Birch trocaram um olhar. — O seu assunto aqui pode esperar, Digweed? — perguntou o Sr. Birch. — Certamente, senhor — respondeu o Sr. Digweed, fazendo uma reverência e saindo, a porta se fechando atrás dele. — Muito bem — continuou o Sr. Birch, a atenção voltando para o jogo. — Vamos então mover este cavalheiro aqui para ser o líder da unidade, a fim de inspirar seus homens para que realizem grandes feitos, liderá-los pelo exemplo e lhes ensinar as virtudes da ordem, da disciplina e da lealdade. O que acha, Sr. Haytham? — Sim, senhor — concedi, obedientemente. — Tem mais uma coisa, Sr. Haytham — prosseguiu o Sr. Birch, estendendo a mão para tirar outro soldadinho da tropa e depois colocando-o ao lado do comandante definido. — Um líder precisa de tenentes de confiança, não é mesmo? — Sim, senhor — concordei. Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual observei o Sr. Birch tomar um excessivo cuidado para colocar mais dois tenentes ao lado do líder, uma pausa que se tornou cada vez mais incômoda com o passar do tempo, até eu dizer, mais para romper o constrangido silêncio do que porque quisesse discutir o inevitável. — Senhor, queria falar comigo sobre minha irmã? — Por quê? Você consegue ver através de mim, Sr. Haytham — disse o Sr. Birch gargalhando alto. — Seu pai é um excelente professor. Vejo que lhe ensinou sobre manha e astúcia... entre outras coisas, sem dúvida. Não tive certeza sobre o que ele quis dizer, então fiquei calado. — Como vai seu treinamento com armas, se é que posso perguntar? — indagou o Sr. Birch.


— Muito bem, senhor. Continuo melhorando a cada dia, segundo meu pai — afirmei orgulhosamente. — Excelente, excelente. E seu pai já lhe revelou o motivo do seu treinamento? — perguntou. — Meu pai diz que o meu verdadeiro treinamento começará no dia do meu décimo aniversário — respondi. — Bem, imagino o que é que ele tem a dizer a você — observou, com a testa enrugada. — Realmente não faz ideia? Nem mesmo tem uma pista que instiga curiosidade e o deixa curioso? — Não, senhor, não tenho — confessei. — Só sei que ele vai me dar um caminho a seguir. Um credo. — Sei. Que interessante. E ele nunca lhe deu qualquer indicação do que poderia ser esse “credo”? — Não, senhor. — Que fascinante. Aposto que você não consegue esperar. E, nesse meio-tempo, seu pai lhe deu uma espada de homem com a qual deve aprender o seu ofício, ou ainda usam bastões de madeira para treinar? Ajeitei minha postura. —Tenho a minha própria espada, senhor. — Eu gostaria muito de vê-la. — Está guardada na sala de jogos, senhor, em um lugar seguro ao qual apenas meu pai e eu temos acesso. — Apenas seu pai e você? Quer dizer que também tem acesso a ela? Fiquei corado, agradecido à luz fraca na passagem de modo que o Sr. Birch não conseguisse ver o constrangimento em meu rosto. — O que eu quero dizer é que sei onde a espada está guardada, senhor, e não que sei como ter acesso a ela — esclareci. — Sei — sorriu o Sr. Birch. — Um lugar secreto, hein? Um espaço oculto dentro de uma estante? Meu rosto deve ter dito tudo. Ele riu. — Não se preocupe, Sr. Haytham, seu segredo está seguro comigo. Olhei para ele. — Obrigado, senhor. — Tudo bem. Ele se levantou, esticou-se para alcançar a bengala, limpou alguma sujeira, real ou imaginária, das calças e se virou para a porta. — E a minha irmã, senhor? — indaguei. — Não perguntou sobre ela. Ele parou, riu baixinho e estendeu a mão para desmanchar meu cabelo. Um gesto de que eu gostava muito. Talvez porque era algo que meu pai também fazia. — Ah, não há necessidade. Você me disse tudo o que eu precisava saber, jovem Sr. Haytham — disse ele. — Sabe tão pouco sobre a bela Jennifer quanto eu, e talvez esse precise ser o melhor jeito


em relação a essas coisas. As mulheres precisam ser um mistério para nós, não acha, Sr. Haytham? Não tinha a menor ideia do que ele estava dizendo, mas mesmo assim sorri e soltei um suspiro de alívio quando, mais uma vez, voltei a ter o corredor da sala da prataria só para mim.

iii Não muito tempo depois da conversa com o Sr. Birch, eu estava em outra parte da casa e seguia em direção ao meu quarto, quando, ao passar pelo gabinete do meu pai, ouvi vozes alteradas lá dentro: meu pai e o Sr. Birch. O receio de escolher um bom esconderijo significou que fiquei muito longe para poder ouvir o que diziam. E ainda bem que mantive distância, pois, no momento seguinte, a porta do estúdio abriu violentamente e o Sr. Birch saiu apressado. Estava furioso — sua raiva era evidente pela cor do rosto e dos olhos ardentes —, mas ao me ver no corredor ele parou repentinamente, embora continuasse agitado. — Eu tentei, Sr. Haytham — disse ele, ao se recompor e começar a abotoar o casaco, preparando-se para sair. — Tentei alertar seu pai. E, com isso, colocou o chapéu tricorne na cabeça e foi embora. Meu pai tinha aparecido na porta de seu gabinete e olhado fixo para o Sr. Birch e, apesar de ter sido claramente um encontro desagradável, era um assunto de adultos e não me dizia respeito. Havia mais coisas a se pensar. Apenas um ou dois dias depois, veio o ataque.

iv Aconteceu na noite da véspera do meu aniversário. Isto é, o ataque. Eu estava acordado, talvez agitado, por causa do dia seguinte, mas também porque tinha o hábito de levantar depois que Edith deixava o quarto para sentar no peitoril e olhar pela janela. De onde eu estava, via gatos e cachorros ou até mesmo raposas passando pela grama pintada pelo luar. Ou, se não estivesse procurando ver animais, apenas observava a noite, olhando para a lua, a cor de aquarela cinzenta que ela dava à grama e às árvores. A princípio, pensei que o que via à distância eram vaga-lumes. Já tinha ouvido tudo sobre vaga-lumes, mas nunca os vira. Tudo que sabia era que se juntavam em nuvens e emitiam um brilho pálido. Mas logo me dei conta de que a luz não era, de modo algum, um brilho pálido, e que, na verdade, acendia e depois apagava. Eu estava vendo um sinal. Minha respiração ficou presa na garganta. A luz flamejante parecia vir de perto da antiga porta de madeira no muro, a tal onde eu vira Tom naquele dia, e meu primeiro pensamento foi que ele tentava entrar em contato comigo. Agora parece estranho, mas nem por um segundo supus que o sinal era para qualquer pessoa além de mim. Estava ocupado demais vestindo calças, enfiando minha camisola


pelo cós e depois colocando os suspensórios. Nem liguei para casaco. Tudo em que pensava era que maravilhosa e terrível aventura eu estava prestes a ter. É claro que percebo agora, olhando para trás, que, na mansão ao lado, Tom devia ser outro que gostava de se sentar no peitoril e observar a vida noturna no terreno de casa. E, assim como eu, devia ter visto o sinal. E talvez Tom até mesmo tivesse tido uma ideia de imagem idêntica à minha: que era eu sinalizando para ele. E, em resposta, fez o mesmo que eu: saltou de onde estava e enfiou algumas roupas para ir investigar... Dois novos rostos tinham aparecido na casa da Queen Anne’s Square, uma dupla de ex-soldados carrancudos contratados pelo meu pai. Sua explicação foi a de que precisávamos dos dois porque ele recebera uma “informação”. Apenas isso. “Informação” — foi tudo que disse. E fiquei imaginando na ocasião, como imagino agora, o que quis dizer, e se aquilo tinha a ver com a acalorada conversa que eu ouvira entre ele e o Sr. Birch. O que quer que fosse, eu via muito pouco os dois soldados. Tudo o que realmente sabia era que um deles ficava parado na sala de estar, na parte da frente da mansão, enquanto o outro permanecia perto do fogo, no salão dos empregados, supostamente vigiando a sala da prataria. Ambos foram fáceis de evitar quando desci sorrateiramente os degraus para baixo da escada e deslizei para o interior da cozinha iluminada pela lua e silenciosa, que eu nunca vira tão escura e vazia e sem qualquer som. E fria. Minha respiração ficou instável e, logo depois, tremi, desconfortavelmente ciente de o quanto a cozinha era gelada em comparação ao que eu achava ser o escasso aquecimento do meu quarto. Perto da porta havia uma vela, que acendi, e, com a mão em concha junto à chama, ergui-a para iluminar o caminho enquanto saía para o pátio do estábulo. E, se eu achava que estava frio na cozinha, bem... lá fora fazia o tipo de frio que parecia que o mundo à sua volta era quebradiço e estava prestes a romper: frio suficiente para prender a minha respiração inconstante, para me fazer pensar novamente, enquanto permanecia parado ali, imaginando se aguentaria ou não continuar. Um dos cavalos relinchou e bateu com as patas no chão e, por algum motivo, o ruído me fez decidir, encaminhando-me, na ponta dos pés, de passagem pelos canis até um muro lateral e por um grande portão arqueado que levava ao pomar. Segui caminho pelo meio das estreitas macieiras desfolhadas, então estava do lado de fora, a céu aberto, dolorosamente ciente da mansão à minha direita, onde imaginei rostos em cada janela: Edith, Betty, minha mãe e meu pai, todos olhando para fora, vendo-me ausente do quarto e correndo loucamente pelo terreno. Não que estivesse de fato correndo loucamente, é claro, mas era isso que diriam; era isso que Edith diria, ao brigar comigo, e o que meu pai diria, ao me tacar a bengala por causa das minhas artes. Mas, se esperava um grito vindo da casa, não veio nenhum. Em vez disso, segui caminho para o muro que delimitava o terreno e comecei a correr depressa ao longo dele e em direção à porta. Ainda estava tremendo, mas, à medida que minha emoção crescia, ficava imaginando se Tom teria trazido comida para uma festa da meia-noite: presunto, bolo e biscoitos. Ah, e um grogue quente também


seria mais do que bem-vindo... Um cachorro começou a latir. Thatch, o cão de caça irlandês do meu pai, lá do canil no pátio do estábulo. O barulho fez com que eu parasse imediatamente, e me agachei sob os baixos galhos desfolhados de um salgueiro, até que cessasse tão repentinamente como havia começado. Mais tarde, é claro, entendi por que o latido havia parado tão abruptamente. Na ocasião, porém, não pensei em nada, pois não tinha motivos para suspeitar que Thatch tivera a garganta cortada por um invasor. Agora achamos que havia cinco deles no total, que avançaram sorrateiramente para nós com facas e espadas. Cinco homens seguindo para a mansão, e eu no terreno, alheio a tudo. Mas como iria saber? Eu era um menino bobo cuja cabeça fervilhava com aventuras e atos heroicos, sem falar que pensava em presunto e bolo, e continuei ao longo do muro até chegar ao portão. Que estava aberto. Pelo que eu tinha esperado? Acho que pensei que o portão estaria fechado e que Tom estaria do outro lado dele. Talvez um de nós tivesse de escalar o muro. Talvez planejássemos falar sobre os últimos acontecimentos. Tudo o que eu sabia era que o portão estava aberto, e comecei a ter a sensação de que alguma coisa estava errada, e, finalmente, me ocorreu que os sinais que tinha visto da janela do meu quarto não eram para mim. — Tom? — sussurrei. Não houve qualquer som. A noite estava totalmente silenciosa: nada de pássaros, animais, nada. Agora nervoso, estava para dar meia-volta e ir embora, voltar para casa e para a segurança da minha cama quente, quando vi uma coisa. Um pé. Margeei o muro um pouco mais para o portão, onde a passagem era banhada por um luar branco-sujo que dava a tudo um brilho suave, imundo — inclusive à pele do menino caído no chão. Estava meio deitado, meio sentado, apoiado contra o outro lado do muro, vestido quase exatamente como eu, com calças e camisola, só que não havia se preocupado em enfiar a sua para dentro, e ela estava torcida em volta das pernas, que formavam estranhos ângulos anormais sobre o duro barro sulcado da passagem. Era Tom, é claro. Tom, cujos olhos mortos me fitavam cegamente por baixo da aba do chapéu, meio torto na cabeça; Tom, com o luar brilhando no sangue que escorrera do talho em sua garganta. Meus dentes começaram a bater. Ouvi uma choradeira e me dei conta de que era eu chorando. Uma centena de pensamentos de pânico encheu minha cabeça. Então as coisas começaram a acontecer depressa demais para mim, até mesmo para me lembrar da ordem exata em que aconteceram, mas acho que começaram com o som de vidro quebrado e um grito que veio da casa. Corra. Sinto vergonha em admitir que as vozes, os pensamentos que se acotovelavam na minha cabeça, todos gritavam juntos aquela palavra. Corra.


E obedeci. Corri. Só que não na direção que eles queriam. Estaria fazendo o que meu pai me havia instruído e ouvindo meus instintos, ou ignorando-os? Tudo que sabia era que, embora cada fibra do meu corpo parecesse querer que eu fugisse do que eu sabia ser o perigo mais terrível, de fato eu corria em direção a ele. Corri pelo pátio do estábulo e irrompi na cozinha, mal fazendo uma pausa para admitir o fato de que a porta estava escancarada. De algum lugar ao longo do corredor, ouvi mais gritos, vi sangue no chão da cozinha e atravessei a porta em direção à escada, e vi outro corpo. Era um dos soldados. Estava no corredor, apertando a barriga, com as pálpebras tremulando loucamente e um fio de sangue escorrendo pela boca, enquanto escorregava morto para o chão. Ao passar por cima dele e correr para a escada, meu único pensamento era chegar até meus pais. O saguão de entrada estava escuro, mas cheio de gritos e pés correndo, e os primeiros anéis de fumaça. Tentei me orientar. De cima, veio outro grito, e ergui a vista para ver sombras dançantes na sacada, e, brevemente, o brilho de aço nas mãos de um dos nossos agressores. Enfrentando-o no patamar da escada estava um dos criados do meu pai, mas a luz tremulante evitou que eu visse o destino do pobre rapaz. Em vez disso ouvi e, com os pés, senti o baque surdo do seu corpo ao ser jogado da sacada para o chão de madeira não muito longe de mim. Seu assassino soltou um uivo de triunfo, e pude ouvir pés correndo enquanto ele seguia para mais além do patamar — em direção aos quartos. — Mãe! — gritei, e corri para a escada ao mesmo tempo que via a porta do quarto dos meus pais se abrir totalmente e ele surgir para enfrentar o intruso. Ele usava calça, e os suspensórios estavam puxados para cima dos ombros nus, o cabelo estava solto e caía livre. Em uma das mãos, segurava uma lanterna, na outra, sua espada. — Haytham — chamou, quando cheguei ao topo da escada. O intruso estava entre nós dois no patamar. Parou, virou-se para olhar para mim e, sob a luz da lanterna do meu pai, eu o vi completamente pela primeira vez. Ele vestia calça, colete-armadura preto de couro e uma pequena máscara cobrindo metade do rosto, do tipo usado em bailes de máscaras. E estava mudando de direção. Em vez de ir contra meu pai, vinha de volta pelo patamar, atrás de mim, sorrindo. — Haytham! — gritou meu pai outra vez, que se afastou da minha mãe e correu para o patamar atrás do intruso. Instantaneamente, o espaço entre eles diminuiu, mas não seria suficiente, e virei para fugir, então vi um segundo homem ao pé da escada, com espada na mão, bloqueando o caminho. Estava vestido do mesmo modo que o primeiro, embora notasse uma diferença: suas orelhas. Eram pontudas e, com a máscara, isso lhe dava uma medonha e deformada aparência do Mr. Punch. Por um momento, gelei, depois girei o corpo e vi que o homem sorridente atrás de mim tinha se virado para enfrentar meu pai, e as espadas se chocaram. Meu pai havia deixado a lanterna para trás e lutavam na semiescuridão. Uma curta e brutal batalha pontilhada por grunhidos e o repicar de espadas de aço. Mesmo no calor e perigo do momento, desejei que houvesse luz suficiente para vê-los lutar direito. Então acabou, e o assassino sorridente não sorria mais, largou a espada, tombou sobre o


parapeito com um grito, atingindo o chão lá embaixo. O intruso de orelha pontuda estivera a meio caminho da escada, mas havia pensado melhor e dado meia-volta para fugir para o saguão de entrada. Houve um grito vindo de baixo. Por cima do parapeito, avistei um terceiro homem, também usando máscara, que acenou para o homem de orelhas pontudas antes de ambos desaparecerem de vista debaixo da plataforma. Ergui a vista de relance e, na luz fraca, vi uma expressão dominar o rosto do meu pai. — A sala de jogos — disse ele. E, no instante seguinte, antes que minha mãe conseguisse detê-lo, saltou por cima do parapeito para o saguão de entrada abaixo. Quando saltou, minha mãe gritou “Edward!”, e a aflição em sua voz ecoou meus próprios pensamentos. Não. Meu único, solitário pensamento: ele está nos abandonando. Por que está nos abandonando? A camisola da minha mãe estava toda desalinhada quando correu pela plataforma em direção ao lugar onde eu estava, no topo da escada; seu rosto refletia terror. Atrás dela vinha outro agressor, que surgiu na escada do lado mais distante da plataforma e alcançou minha mãe ao mesmo tempo que ela me alcançou. Ele a agarrou por trás, com uma das mãos, enquanto outra, com a espada, investiu adiante, prestes a passar a lâmina pela garganta exposta. Não parei para pensar. Nem pensei sobre isso até muito tempo depois. Mas, com um movimento, avancei, estiquei-me, apanhei na escada a espada do atacante morto, ergui-a acima da cabeça e, com as duas mãos, enfiei-a no rosto dele antes que conseguisse cortar a garganta da minha mãe. Minha pontaria foi certeira e a ponta da espada enfiou-se pelo buraco do olho da máscara e através da órbita. Seu grito abriu um buraco irregular na noite, enquanto, girando, ele se afastava da minha mãe, com a espada momentaneamente enfiada no olho. Então ela foi arrancada, quando ele caiu sobre o parapeito, desequilibrou-se por um momento, mergulhou de joelhos e se arremessou para a frente, morto antes de a cabeça bater no chão. Minha mãe correu para os meus braços e apoiou com força a cabeça no meu ombro, mesmo quando apanhei a espada e segurei sua mão para descermos de volta pela escada. Quantas vezes meu pai tinha me dito, ao sair diariamente para o trabalho, “Você hoje é o encarregado, Haytham; cuide da sua mãe por mim”. Agora, eu realmente cuidava. Chegamos ao pé da escada, onde uma estranha quietude parecia ter baixado sobre a casa. O saguão de entrada agora estava vazio e ainda escuro, apesar de iluminado por um agourento brilho laranja bruxuleante. O ar começava a ficar mais denso de fumaça, mas, através da neblina, vi corpos: o assassino, o criado que fora morto mais cedo... E Edith, que jazia caída com a garganta aberta sobre uma poça de sangue. Minha mãe também viu Edith, choramingou, e tentou me puxar na direção da porta da frente, mas a porta da sala de jogos estava semiaberta e, vindo do interior, consegui ouvir o som de luta de espadas. Três homens, um deles meu pai. — O pai precisa de mim — falei, tentando me soltar da minha mãe, que percebeu o que eu estava


para fazer e me puxou com mais intensidade, até eu arrancar minha mão com tanta força que ela caiu no chão. Por um estranho momento, eu me vi dividido entre ajudar minha mãe a se levantar e me desculpar; a visão dela caída no chão — no chão por minha causa — era apavorante. Mas então ouvi um grito alto vindo da sala de jogos e isso foi o suficiente para me impulsionar pela porta. A primeira coisa que vi foi que o compartimento da estante estava aberto, e pude ver a caixa que continha a minha espada. Afora isso, a sala estava como sempre, deixada exatamente como depois do último treinamento, com a mesa de bilhar coberta e afastada para me dar espaço para treinar; onde, mais cedo, naquele dia, eu tinha sido orientado e repreendido pelo meu pai. Onde agora ele estava ajoelhado, morrendo. De pé diante dele, estava um homem com sua espada enfiada até o punho no peito do meu pai, a lâmina saindo pelas suas costas, pingando sangue no chão de madeira. Não muito distante, estava o homem de orelhas pontudas, que tinha uma ferida profunda de cima a baixo do rosto. Tinham sido necessários dois deles para derrotar meu pai, e só conseguiram depois desse tempo todo. Voei para cima do criminoso, que ficou em total surpresa e não teve tempo de puxar a espada do peito do meu pai. Em vez disso, girou para evitar minha lâmina, largando a espada ao mesmo tempo que meu pai caía no chão. Como um idiota, fui atrás do assassino, me esquecendo de proteger o flanco, e o que vi em seguida foi um movimento súbito com o canto do olho, quando o Orelhas Pontudas avançou. Se pretendia fazer aquilo e calculou mal o golpe, não tenho certeza, mas, em vez de me atacar com a lâmina, ele me golpeou com o botão do punho da espada, e minha visão escureceu; minha cabeça bateu em algo que levei um segundo para perceber que era uma das pernas da mesa de bilhar, e eu estava no chão, tonto, estatelado do lado oposto a meu pai, que estava caído de lado com o punho da espada projetando-se do peito. Ainda havia vida em seus olhos, apenas uma centelha, e as pálpebras tremeram momentaneamente, como se estivesse focando em mim, me captando. Por uns dois momentos, ficamos caídos de frente um para o outro, dois homens feridos. Seus lábios estavam se movendo. Em meio à escura nuvem de dor e pesar, vi sua mão se estender para mim. — Pai — falei. Então, no instante seguinte, o criminoso se aproximou e, sem parar, se abaixou e puxou a espada do corpo do meu pai. Ele se contraiu, o corpo arqueou com um último espasmo de dor enquanto os lábios se afastavam dos dentes sujos de sangue, e morreu. Senti uma bota do lado do corpo, que me empurrou para que eu deitasse de costas, então olhei para cima e vi os olhos do assassino do meu pai, e agora meu assassino, o qual, com um sorriso, ergueu a lâmina com as duas mãos, pronto para enfiá-la em mim. Se me envergonho em dizer que, apenas momentos antes, minhas vozes interiores haviam me ordenado que fugisse, então me orgulho em contar que neste momento estavam caladas; que enfrentei minha morte com dignidade e sabendo que fizera o melhor possível pela minha família; com gratidão porque, em pouco tempo, me juntaria a meu pai.


Mas é claro que não era para ser. Não é um fantasma que escreve estas palavras. Alguma coisa atraiu meu olhar, e foi a ponta de uma espada que apareceu entre as pernas do criminoso, que, logo então, foi enfiada de baixo para cima, abrindo seu tronco a partir da virilha. Percebi que a direção do golpe tinha menos a ver com a selvageria e mais com a necessidade de puxar meu assassino para longe de mim, e não empurrá-lo para a frente. Mas foi selvagem, e ele berrou, com o sangue esguichando enquanto era cortado. As entranhas caíam pelo talho no chão e sua carcaça sem vida seguia no mesmo caminho. Atrás dele estava o Sr. Birch. — Você está bem, Haytham? — perguntou. — Estou, senhor — arfei. — Um bom espetáculo — comentou, então girou com a espada para interceptar o homem de orelhas pontudas que vinha na direção dele com a espada brilhando. Fiquei de joelhos, apanhei uma espada caída e me levantei, pronto para me juntar ao Sr. Birch, que expulsara o homem de orelhas pontudas de volta para a porta da sala de jogos, quando, de repente, o agressor viu alguma coisa — alguma coisa fora de vista atrás da porta — e saltou para o lado. No instante seguinte, o Sr. Birch recuou e estendeu a mão para evitar que eu avançasse, ao mesmo tempo que, no vão da porta, o homem de orelhas pontudas reaparecera. Só que, dessa vez, tinha uma refém. Não era minha mãe, como temi a princípio. Era Jenny. — Para trás — vociferou Orelhas Pontudas. Jenny choramingava, e seus olhos pareciam tão grandes quanto a lâmina pressionada contra seu pescoço. Posso admitir... posso admitir que, naquele momento, estava mais interessado em vingar o meu pai do que proteger Jenny? — Fique aí — repetiu Orelhas Pontudas, puxando Jenny para trás. A bainha da camisola prendeu em volta dos tornozelos e os calcanhares foram arrastados pelo chão. De repente, a eles se juntou outro mascarado, que brandia uma tocha flamejante. O saguão de entrada agora estava quase repleto de fumaça. Eu podia ver chamas vindo de outra parte da casa, lambendo as portas para a sala de estar. O homem com a tocha correu para as cortinas, ateou fogo nelas, e mais partes de nossa casa começaram a queimar à nossa volta, o Sr. Birch e eu impotentes para deter aquilo. Avistei minha mãe com o canto do olho e agradeci a Deus ela estar bem. Jenny, porém, era outra questão. Enquanto era arrastada em direção à porta da mansão, os olhos estavam fixos em mim e no Sr. Birch, como se fôssemos suas últimas esperanças. O agressor que carregava a tocha se juntou a seu colega, abriu a porta com um puxão e disparou para fora em direção a uma carruagem que consegui ver lá fora, na rua. Por um momento, pensei que soltariam Jenny, mas não. Ela começou a gritar ao ser arrastada para a carruagem e jogada lá dentro, e ainda gritava quando um terceiro mascarado, no assento do condutor, sacudiu as rédeas, manejou o chicote de montaria e a carruagem saiu matraqueando na noite, deixando a gente para escapar de nossa casa incendiada e arrastar nossos mortos para longe


das garras das chamas.


10 de dezembro de 1735 i Embora fôssemos enterrar meu pai hoje, a primeira coisa em que pensei quando acordei esta manhã não tinha nada a ver com ele ou o funeral, mas com a sala da prataria na casa da Queen Anne’s Square. Não tinham tentado arrombá-la. Meu pai contratara os dois soldados porque estava preocupado com um assalto, mas nossos agressores tinham ido para o andar superior sem mesmo se importar em tentar assaltar a sala da prataria. Porque estavam atrás de Jenny, eis o motivo. E matar meu pai? Era parte do plano? Foi nisso que pensei, ao acordar em um quarto gelado — o que não era incomum ele estar gelado. Aliás, uma ocorrência diária. Só que aquele quarto de hoje estava especialmente frio. O tipo de frio que deixa os dentes trincados, que atinge até os ossos. Olhei para a lareira, imaginando por que não vinha mais calor do fogo, só para descobrir que ele estava apagado e a grelha estava plúmbea e repleta de cinzas. Desci da cama e fui até onde havia uma grossa camada de gelo do lado de dentro da janela, evitando que enxergasse lá fora. Arquejando de frio, me vesti, saí do quarto e fiquei totalmente surpreso pelo modo como a casa parecia silenciosa. Indo sorrateiramente para o andar de baixo, localizei o quarto de Betty, bati levemente, depois com mais força. Como não respondeu, fiquei parado ali pensando no que fazer, e uma ligeira preocupação por ela percorreu minha barriga. E como continuava sem resposta, me ajoelhei para olhar pelo buraco da fechadura, rezando para não ver algo que não devia. Estava deitada, dormindo, em uma das duas camas do quarto. A outra estava vazia e perfeitamente arrumada, embora houvesse um par do que pareciam ser botas de homem a seu pé, com uma tira de prata no calcanhar. Meu olhar voltou para Betty e, por um momento, percebi que o cobertor que a cobria subia e descia, e então decidi deixá-la dormir e me levantei. Caminhei devagar até a cozinha, onde a Sra. Searle sobressaltou-se um pouco quando entrei, me observou de cima a baixo com um olhar levemente desaprovador e então voltou ao trabalho na tábua de picar. Não que houvesse qualquer desavença entre mim e a Sra. Searle, ela apenas olhava com desconfiança para todo mundo, e com muito mais desde o ataque. — Ela não é uma das pessoas mais generosas deste mundo — dissera-me Betty uma tarde. Essa era outra coisa que havia mudado desde o ataque: Betty se tornara muito mais sincera e, de vez em quando, soltava insinuações de como realmente se sentia sobre as coisas. Não tinha me dado conta de que ela e a Sra. Searle nunca estavam de acordo, por exemplo, nem fazia qualquer ideia de que Betty julgava o Sr. Birch com desconfiança. Mas julgava:


— Não sei por que ele anda tomando decisões em nome dos Kenway — resmungara sombriamente ontem. — Ele não é da família. E duvido que algum dia será. De qualquer modo, saber que Betty não gostava muito da Sra. Searle tornava a governanta menos ameaçadora aos meus olhos, e se antes pensaria duas vezes ao entrar na cozinha sem me anunciar para pedir comida, agora não tinha esses receios. — Bom dia, Sra. Searle — falei. Ela me deu um leve cumprimento. A cozinha era fria, exatamente como ela. Em Queen Anne’s Square, a Sra. Searle tinha pelo menos três ajudantes, sem falar dos muitos empregados que passavam para lá e para cá pelas grandes portas duplas da cozinha. Isso, porém, foi antes do ataque, quando tínhamos a equipe completa, e não há nada como uma invasão de homens mascarados armados com espadas para afugentar os criados. Muitos nem mesmo voltaram no dia seguinte. Agora eram apenas a Sra. Searle, Betty, o Sr. Digweed, uma camareira chamada Emily e a Srta. Davy, que era a criada pessoal da minha mãe. Esses eram os funcionários que sobraram para cuidar dos Kenway. Ou, devo dizer, dos Kenway restantes. Sobraram apenas minha mãe e eu. Quando saí da cozinha, foi com um pedaço de bolo embrulhado em um pano que me foi dado com um olhar azedo da Sra. Searle, que, sem dúvida, desaprovava o fato de eu andar pela casa de manhã tão cedo, indo atrás de comida antes da hora do café, do qual ela se encontrava no processo de preparação. Gosto da Sra. Searle e, tendo em vista que ela é uma das poucas funcionárias que permaneceram conosco após aquela terrível noite, mesmo assim, gosto dela ainda mais. Há outras coisas agora para me preocupar. O funeral do meu pai. E minha mãe, é claro. Então me peguei parado no saguão de entrada, olhando para o lado de dentro da porta da frente e, antes que eu percebesse, estava abrindo a porta e, sem pensar — sem pensar muito, de qualquer modo —, me deixei levar degraus abaixo, para o lado de fora, para um mundo com névoas e geada.

ii — O que, em sã consciência, planeja fazer em uma manhã tão fria como esta, Sr. Haytham? Uma carruagem acabara de parar do lado de fora da casa, e na janela estava o Sr. Birch. Usava um chapéu mais pesado do que o habitual e um cachecol puxado até o nariz, de modo que, à primeira vista, parecia um assaltante de estrada. — Apenas olhando, senhor — respondi dos degraus. Ele puxou o cachecol para baixo, tentando sorrir. Antes, quando sorria, isso fazia com que seus olhos cintilassem, agora, eram como as cinzas frias e minguantes da fogueira, tentando, mas não conseguindo, gerar qualquer calor, tão tenso e cansado quanto sua voz quando falava. — Acho que talvez eu saiba o que procura, Sr. Haytham. — E o que é, senhor? — O caminho de casa?


Pensei a respeito e concluí que ele estava certo. O problema era, eu vivi os primeiros dez anos da minha vida sendo cuidado pelos meus pais e pelas amas. Embora soubesse que a Queen Anne’s Square estava perto, e mesmo à distância de uma caminhada, não fazia ideia de como chegar lá. — E está planejando uma visita? — perguntou ele. Dei de ombros, mas a verdade era que, sim, tinha me imaginado na concha do meu velho lar. Na sala de jogos. E me imaginei pegando... — Sua espada? Fiz que sim com a cabeça. — Receio que seja muito perigoso entrar na casa. De qualquer maneira, quer fazer uma viagem até lá? Pelo menos poderá vê-la. Entre, aí fora está mais gelado do que o focinho de um galgo. Não vi nenhum motivo para recusar, principalmente depois que ele apanhou um chapéu e uma capa nos fundos da carruagem. Quando paramos diante da casa, momentos depois, ela não parecia como a imaginara. Não, estava muito, muito pior. Era como se um gigantesco punho, como o de Deus, a tivesse golpeado de cima, rompendo o telhado e os assoalhos, abrindo um imenso buraco irregular dentro dela. Já não era tanto uma casa, mas o recorte de uma. Através de vidraças quebradas conseguimos ver o saguão de entrada e acima — por entre assoalhos destruídos até o corredor três andares a partir do térreo, tudo enegrecido com fuligem. Pude ver a mobília que reconheci, enegrecida e chamuscada, quadros queimados pendendo tortos nas paredes. — Sinto muito... é mesmo perigoso demais entrar, Sr. Haytham — observou o Sr. Birch. Depois de um momento, me conduziu de volta à carruagem, bateu duas vezes no teto com a bengala e partimos. — No entanto — informou o Sr. Birch —, tomei a liberdade de recuperar sua espada ontem — e alcançou debaixo do assento e retirou a caixa. Também estava suja de fuligem, mas, quando ele a colocou no colo e abriu a tampa, a espada estava dentro, tão reluzente quanto estivera no dia em que meu pai me dera de presente. — Obrigado, Sr. Birch. — Foi tudo que consegui dizer quando ele fechou a caixa e a colocou entre nós. — É uma bela espada, Haytham. Não tenho dúvidas de que você irá valorizá-la. — Vou, senhor. — E quando, me pergunto, ela sentirá o primeiro gosto de sangue? — Não sei, senhor. Houve uma pausa. O Sr. Birch prendeu a bengala entre os joelhos. — Na noite do ataque, você matou um homem — declarou, virando a cabeça para olhar pela janela. Passamos por casas que estavam apenas visíveis, flutuando no meio de uma bruma de fumaça e ar gelado. Ainda era cedo. As ruas estavam silenciosas. — Como sentiu aquilo, Haytham? — Eu estava protegendo minha mãe — afirmei.


— Aquela era a única opção possível, Haytham — concordou, assentindo —, e você agiu corretamente. Nunca pense o contrário um só momento. Mas, mesmo tendo sido a única opção, não muda o fato de que não é sem importância matar um homem. Para ninguém. Não é sem importância para seu pai. Não é para mim. Mas principalmente para um menino de tão tenra idade. — Não senti tristeza pelo que fiz. Apenas agi. — E, desde então, tem pensado nisso? — Não, senhor. Tenho pensado apenas no meu pai, e na minha mãe. — E em Jenny...? — perguntou o Sr. Birch. — Ah. Sim, senhor. Houve uma pausa e, quando ele falou a seguir, sua voz era monótona e solene. — Precisamos encontrá-la, Haytham — disse ele. Fiquei calado. — Pretendo partir para a Europa, onde acredito que está sendo mantida. — Como sabe que ela está na Europa, senhor? — Haytham, sou membro de uma importante e influente organização. Uma espécie de clube ou sociedade. Uma das muitas vantagens de ser sócio é que temos olhos e ouvidos em toda parte. — Como ela é chamada, senhor? — quis saber. — Templários, Sr. Haytham. Eu sou um Cavaleiro Templário. — Um cavaleiro? — surpreendi-me, olhando-o de modo penetrante. Ele deu uma curta gargalhada. — Talvez não exatamente do tipo de cavaleiro em que você está pensando, Haytham, uma relíquia da Idade Média, mas nossos ideais permanecem os mesmos. Do mesmo modo como os nossos antepassados, séculos atrás, partiram para espalhar a paz pela Terra Santa, também somos um poder invisível que ajuda a manter a paz e a ordem em nossa época. — Abanou a mão para além da janela, onde agora as ruas estavam movimentadas. — Tudo isso, Haytham, exige estrutura e disciplina, e estrutura e disciplina exigem um exemplo a seguir. Os Cavaleiros Templários são esse exemplo. Minha cabeça girou. — E onde vocês se encontram? O que fazem? Você tem uma armadura? — Depois, Haytham. Depois conto mais. — Meu pai era membro? Ele era um cavaleiro? — Meu coração disparou. — Ele estava me treinando para eu me tornar um? — Não, Sr. Haytham, ele não era, e receio que, pelo que eu estava ciente, seu pai só treinava espada com você para... bem, o fato de sua mãe estar viva prova o valor do seu aprendizado. Não, minha relação com seu pai não foi construída sobre minha qualidade de membro da Ordem. Alegrome em dizer que fui empregado por ele pelas minhas habilidades em gerenciar propriedades e não por causa de quaisquer ligações secretas. De qualquer modo, ele sabia que eu era um cavaleiro. Afinal, os Templários têm poderosas e abastadas conexões, e elas, às vezes, podem ser úteis aos


nossos negócios. Seu pai podia não ser um membro, mas era astuto o bastante para perceber o valor das conexões: uma palavra amigável, o repasse de informações úteis — inspirou fundo —, uma das quais foi a indicação sobre o ataque à Queen Anne’s Square. Eu contei a ele, é claro. Perguntei a ele por que seria um alvo, mas ele ridicularizou a própria ideia, falsamente, talvez. Brigamos por causa disso, Haytham. Vozes foram erguidas, mas só desejo agora que eu tivesse sido ainda mais insistente. — Foi essa a discussão que ouvi? — perguntei. Ele me olhou de lado. — Você ouviu, não foi? Não estava bisbilhotando, espero. O tom de sua voz me deixou agradecido como nunca me sentira. — Não, Sr. Birch. Ouvi vozes altas, só isso. Ele me encarou com dureza. Satisfeito por eu estar dizendo a verdade, olhou para a frente. — Seu pai era tão teimoso quanto impenetrável. — Mas ele não ignorou o alerta, senhor. Afinal, colocou os soldados. O Sr. Birch soltou um suspiro. — Seu pai não levou a ameaça a sério, e não teria feito nada. Como ele não me escutou, tomei a providência de informar à sua mãe. Foi por causa da insistência dela que ele colocou os soldados. Agora gostaria que eu tivesse substituído os soldados por homens de nossas fileiras. Eles não teriam sido tão facilmente superados. Tudo que posso fazer por ele no momento é tentar encontrar sua filha e castigar os responsáveis. Para isso, preciso saber por quê... qual foi o motivo do ataque? Diga, o que sabe sobre seu pai, antes de ele ter se estabelecido em Londres, Sr. Haytham? — Nada, senhor — respondi. Ele deu uma risadinha seca. — Bem, então somos dois. Aliás, mais do que dois. Sua mãe também não sabe de nada. — E Jenny, senhor? — Ah, a igualmente impenetrável Jenny. Tão frustrante quanto era bela, tão impenetrável quanto era adorável. — “Era”, senhor? — Modo de falar, Sr. Haytham... Pelo menos espero, de todo o meu coração. Continuo esperançoso de que Jenny esteja segura nas mãos de quem a sequestrou, que só tenha utilidade para eles viva. — Acredita que tenha sido levada para pedirem um resgate? — Seu pai era muito rico. É provável que sua família tenha virado alvo por causa da riqueza e que a morte de seu pai não estivesse nos planos. É com certeza possível. No momento, temos homens verificando essa possibilidade. Igualmente, a missão pode ter sido assassinar seu pai, e temos homens verificando isso também... Bom, eu estou porque, é claro, o conhecia bem e saberia se ele tivesse inimigos: inimigos com recursos para montar tal ataque, em vez de arrendatários descontentes... E não cheguei sequer a uma única possibilidade, o que me leva a acreditar que pode ter sido para resolver uma rixa. Nesse caso, trata-se de uma rixa antiga, algo relacionado com o


passado dele antes de Londres. Jenny, por ser a única que o conheceu antes de Londres, talvez tenha respostas, mas o que quer que possa saber, ela está nas mãos de quem a levou. De qualquer modo, Haytham, nós precisamos localizá-la. Houve alguma coisa no modo como ele pronunciou “nós”. — Como disse, acredita-se que Jenny foi levada para algum lugar da Europa, portanto, é na Europa que faremos uma busca por ela. E, por nós, Haytham, refiro-me a você e a mim. Dei um sobressalto. — Senhor? — falei, mal conseguindo acreditar no que tinha ouvido. — Isso mesmo — confirmou. — Você irá comigo. — Minha mãe precisa de mim, senhor. Não posso deixá-la aqui. O Sr. Birch me olhou de novo, em seus olhos não havia bondade nem maldade. — Haytham — disse ele. — Receio que não seja você quem toma essa decisão. — É minha mãe quem toma — insisti. — Sim, exatamente. — O que quer dizer, senhor? Ele suspirou. — Quero dizer, você falou com sua mãe desde a noite do ataque? — Ela estava muito abalada para receber qualquer um, a não ser a Srta. Davy ou Emily. Minha mãe permanece no quarto, e a Srta. Davy disse que eu seria chamado quando ela quisesse me ver. — Quando for falar com sua mãe, você a achará mudada. — Senhor? — Na noite do ataque, Tessa viu o marido dela morrer e seu menininho matar um homem. Essas coisas teriam tido um profundo efeito nela, Haytham. Pode não ser a pessoa de quem você se recorda. — Mais um motivo para ela precisar de mim. — Talvez o que ela precise seja ficar bem, Haytham... Possivelmente com menos lembranças daquela noite terrível. — Entendo, senhor — disse. — Lamento que isso tenha vindo acompanhado de um choque, Haytham. — Ele franziu a testa. — E posso estar completamente errado, é claro, mas tenho cuidado dos negócios do seu pai desde a morte dele, e, ao tomar providências com sua mãe, tive a oportunidade de estar pessoalmente com ela, e não creio que eu esteja errado. Não desta vez.

iii Minha mãe me chamou pouco antes do funeral. Quando Betty, que havia estado cheia de desculpas enrubescidas por causa do que chamou de seu


“pequeno cochilo”, me falou, meu primeiro pensamento foi que minha mãe mudara de ideia quanto a eu ir para a Europa com o Sr. Birch, mas eu estava enganado. Disparando para o quarto dela, bati na porta e apenas ouvi-a mandar que eu entrasse — sua voz agora tão fraca e fina, nem um pouco como costumava ser, quando era suave mas imponente. Estava sentada junto à janela, e a Srta. Davy se ocupava com as cortinas; embora fosse dia, mal havia algum brilho lá fora, e, mesmo assim, minha mãe agitava a mão diante do rosto como se estivesse sendo importunada por um pássaro zangado e não por alguns raios mortiços do sol de inverno. Finalmente, a Srta. Davy acabou, para satisfação da minha mãe, e, com um sorriso cansado, ela me indicou um lugar para sentar. Minha mãe virou o rosto para mim muito lentamente, me olhou e forçou um sorriso. O ataque cobrara dela um preço terrível. Era como se toda a vida lhe tivesse sido sugada; como se tivesse perdido a luz que sempre tivera, estivesse sorrindo ou de cara fechada, ou, como dizia meu pai, deixando sempre as emoções às claras. Agora, o sorriso lentamente deslizou dos lábios e se instalou de volta em um estupefato franzido de sobrancelhas, como se tivesse tentado, mas já não tivesse a força para manter qualquer aspiração. — Você sabe que não irei ao funeral, Haytham — disse ela inexpressivamente. — Sim, mãe. — Sinto muito. Sinto muito, Haytham, muito mesmo, mas não tenho forças suficientes. Não costumava me chamar de Haytham. Ela me chamava de “querido”. — Sim, mãe — concordei, sabendo que ela era... ela era forte o suficiente. “Sua mãe tem mais coragem do que qualquer homem que já conheci, Haytham”, meu pai costumava dizer. Eles se conheceram pouco depois de ele se mudar para Londres, e ela o havia perseguido — “como uma leoa persegue sua presa”, brincava meu pai, “uma visão tão arrepiante que inspirava reverência e respeito”, e ganhava um tapa na cabeça por essa piada em particular, o tipo de gracejo que você acha que pode conter um fundo de verdade. Ela não gostava de falar sobre a família. “Próspera” era tudo que eu sabia. E Jenny, certa vez, deu a entender que a família de nossa mãe a havia deserdado por causa de sua ligação com nosso pai. Por que razão, é claro, nunca descobri. Nas raras ocasiões em que importunei minha mãe sobre a vida de meu pai antes de Londres, ela havia sorrido misteriosamente. Ele me contaria, quando eu estivesse pronto. Sentado no quarto dela, percebi que pelo menos uma minúscula parcela do pesar que eu sentia era a dor de saber que jamais ouviria o que quer que fosse que meu pai estivesse planejando me contar no meu aniversário. Embora fosse apenas uma minúscula parte do pesar, devo deixar claro — era insignificante comparada ao pesar de ter perdido meu pai e à dor de ver minha mãe daquele jeito. Tão... desconsolada. Tão sem aquela coragem de que meu pai falava. Talvez tivesse se revelado que a fonte da força dela era ele. Talvez o massacre daquela terrível noite tivesse sido demais para ela aguentar. Dizem que acontece com soldados. Pegam a doença “coração do soldado” e se tornam sombras de si mesmos. De algum modo, o derramamento de sangue os transforma. Teria sido esse o caso dela?, fiquei imaginando.


— Sinto muito, Haytham — acrescentou ela. — Tudo bem, mãe. — Não... estou dizendo sobre você ir para a Europa com o Sr. Birch. — Mas sou necessário aqui, com você. Para cuidar de você. Ela deu uma risada delicada: — O soldadinho da mamãe, é? — e fixou em mim um olhar estranho, penetrante. Sabia exatamente para onde estava indo seu pensamento. De volta ao que acontecera na escada. Estava me vendo enfiar uma lâmina na órbita do olho do agressor mascarado. Então, desviou os olhos para longe, deixando-me quase sem fôlego com a crua emoção de seu olhar. — Eu tenho a Srta. Davy e Emily para cuidar de mim, Haytham. Quando forem feitos os consertos em Queen Anne’s Square, poderemos no mudar de volta e contratar mais funcionários. Não, sou eu quem deveria estar cuidando de você e nomeei o Sr. Birch responsável pela família e seu guardião, para que você possa ser cuidado de maneira apropriada. Isso é o que seu pai iria querer. Ela olhou de modo estranho para a cortina, como se tentasse lembrar por que estava fechada. — Sei que o Sr. Birch vai falar imediatamente com você sobre partir para a Europa. — Ele já falou, mas... — Ótimo. — Ela olhou para mim. Novamente, houve algo incômodo no olhar; percebi que ela não era mais a mãe que conheci. Ou eu não era mais o filho que ela conheceu? — É o melhor, Haytham. — Mas, mãe... Ela me olhou, então voltou a desviar rapidamente o olhar. — Você vai, e pronto — disse ela com firmeza, o olhar retornando para as cortinas. Meus olhos foram para a Srta. Davy como se procurassem ajuda, mas não encontrei nenhuma; em troca, ela me dirigiu um sorriso compreensivo, um erguer de sobrancelhas, uma expressão que dizia “Sinto muito, Haytham, não há nada que eu possa fazer, ela já decidiu”, e o silêncio baixou no quarto, não havia nenhum som, a não ser o clop-clop de cascos de cavalos vindo lá de fora, de um mundo que ignorava o fato de que o meu estava se despedaçando. — Está dispensado, Haytham — avisou minha mãe com um gesto. Antes, isto é, antes do ataque, ela nunca costumava me “convocar”. Nem me “dispensar”. Antes, jamais permitiria que eu deixasse sua presença sem pelo menos um beijo no rosto, e dizia que me amava, pelo menos uma vez por dia. Ao me levantar, me ocorreu que não tinha dito nada sobre o que aconteceu na escada naquela noite. Ela não me agradeceu por eu ter salvado sua vida. Na porta, parei e me virei para olhá-la, e fiquei imaginando se ela desejava que o resultado tivesse sido diferente.

iv


O Sr. Birch me acompanhou no funeral, uma pequena cerimônia informal na mesma capela que havíamos usado para Edith, com quase o mesmo número de participantes: o pessoal que trabalhava na minha casa, o Velho Sr. Fayling e algumas pessoas da equipe de funcionários do trabalho do meu pai, com quem o Sr. Birch foi conversar depois. Ele me apresentou a uma pessoa do grupo, o Sr. Simpkin, um homem que julguei estar no meio da casa dos trinta anos, e que me disseram que cuidaria dos assuntos da família. Ele se curvou um pouco e me deu um olhar que vim a reconhecer como um misto de falta de jeito e solidariedade, cada qual lutando para encontrar uma expressão adequada. — Vou estar em contato com sua mãe, Sr. Haytham, enquanto estiver na Europa — assegurou-me. Compreendi então que eu ia realmente; que não tinha escolha, que não podia dar qualquer opinião que fosse sobre o assunto. Bem, eu de fato tinha uma escolha, suponho — poderia fugir. Não que fugir pareça algum tipo de escolha. Tomamos a carruagem para casa. Entrando na casa, vi Betty, que me olhou e deu um leve sorriso. Aparentemente, as notícias sobre mim tinham se espalhado. Quando perguntei o que planejava fazer, ela me disse que o Sr. Digweed tinha arrumado outro emprego. Quando ela olhou para mim, seus olhos brilharam com lágrimas e, quando deixou o aposento, sentei-me na escrivaninha para escrever no diário com o coração pesado.


11 de dezembro de 1735 i Vamos para a Europa amanhã de manhã. Fico surpreso com quão poucos preparativos são necessários. É como se o incêndio já tivesse cortado todos os laços com a minha antiga vida. As poucas coisas que me restaram foram suficientes para encher apenas dois baús, que foram levados embora esta manhã. Hoje, vou escrever cartas, e também verei o Sr. Birch para contar sobre algo que aconteceu na noite passada, depois que me deitei. Estava quase dormindo quando ouvi uma leve batida na porta, sentei na cama e falei “Entre”, esperando plenamente que fosse Betty. Não era. Vi a figura de uma garota, que entrou rapidamente no quarto e fechou a porta atrás de si. Ergueu a vela para que eu pudesse ver seu rosto e o dedo que levou aos lábios. Era Emily, a loura Emily, a camareira. — Sr. Haytham — falou —, tenho algo a dizer que anda perturbando a minha mente, senhor. — Claro — disse, esperando que minha voz não traísse o fato de que, de repente, me senti muito jovem e vulnerável. — Eu conheço a criada dos Barrett — começou apressadamente. — Violet, que foi uma das que saíram da casa deles naquela noite. Ela estava perto da carruagem em que colocaram sua irmã, senhor. Ao passarem com a Srta. Jenny por ela até a carruagem, a Srta. Jenny fez contato visual com Violet, e lhe disse alguma coisa rapidamente, que Violet me contou. — O que foi? — perguntei. — Foi muito depressa, senhor, e havia muito barulho e, antes que ela pudesse dizer mais, a jogaram na carruagem, mas o que Violet pensa ter ouvido foi “traidor”. No dia seguinte, um homem foi visitar Violet, um homem com sotaque da região sudoeste do país, ou assim achou ela, que queria saber o que ela tinha ouvido, mas Violet disse que não tinha ouvido nada, mesmo quando o cavalheiro a ameaçou. Ele mostrou para ela uma faca horrorosa, senhor, que tirou do cinturão, só que ela não disse nada. — Mas ela contou para você? — Violet é minha irmã, senhor. Ela se preocupa comigo. — Você contou isso para mais alguém? — Não, senhor. — Eu contarei ao Sr. Birch, pela manhã — prometi. — Mas, senhor... — Sim? — E se o traidor for o Sr. Birch?


Dei uma curta risada e balancei a cabeça. — Não é possível. Ele salvou a minha vida. Estava lá, combatendo os... — Algo me ocorreu. — Mas há alguém que não estava lá.

ii Claro que mandei avisar ao Sr. Birch esta manhã, na primeira oportunidade, e ele chegou à mesma conclusão que eu. Uma hora depois, chegou outro homem, que foi conduzido ao gabinete. Ele tinha mais ou menos a mesma idade que meu pai, o rosto áspero, cicatrizes, e o olhar fixo e frio de algumas espécies marinhas. Era mais alto do que o Sr. Birch, e mais largo, e parecia encher todo o aposento com sua presença. Uma presença sombria. E olhou para mim. Do alto de seu nariz para mim. Do alto de seu desdenhoso nariz enrugado para mim. — Este é o Sr. Braddock — anunciou o Sr. Birch, enquanto permanecia parado no mesmo lugar pelo olhar fixo do recém-chegado. — Também é um Templário. Ele tem minha total e máxima confiança, Haytham. — Pigarreou e disse bem alto: — E modos às vezes em desacordo com o que eu sei que há em seu coração. O Sr. Braddock bufou e deu-lhe um olhar devastador. — Basta, Edward — ralhou Birch. — Haytham, o Sr. Braddock se encarregará de descobrir o traidor. — Obrigado, senhor — falei. O Sr. Braddock me olhou e então se dirigiu ao Sr. Birch. — Esse tal de Digweed — disse ele —, talvez você possa me mostrar o quarto dele. Quando fiz menção de ir com eles, o Sr. Braddock olhou para o Sr. Birch, que assentiu quase que imperceptivelmente e então se virou para mim, sorrindo, com uma expressão no olhar que implorava minha indulgência. — Haytham — pediu ele —, talvez você deva cuidar de outros assuntos. Seus preparativos para a viagem, talvez. E fui forçado a voltar para o meu quarto, onde vistoriei minha bagagem já arrumada e então retornei ao meu diário, no qual anotei os acontecimentos do dia. Momentos antes, o Sr. Birch chegou com a notícia: me contou que Digweed tinha fugido; seu rosto estava sério. No entanto, me garantiu que o encontrariam. Os Templários sempre encontram quem procuram e, enquanto isso, nada muda. Ainda vamos para a Europa. Eu me dou conta de que esta vai ser a última vez que escrevo aqui em casa, em Londres. Estas são as últimas palavras da minha antiga vida, antes de a nova começar.


P ARTE D OIS

1747, doze anos depois


10 de junho de 1747 i Hoje observei o traidor, enquanto andava pelo bazar. Usando um chapéu emplumado, fivelas e ligas coloridas, ele se pavoneava de barraca em barraca e cintilava sob o brilhante sol branco espanhol. Brincou e riu com alguns barraqueiros; com outros, trocou palavras irritadiças. Aparentemente, não era amigo nem déspota e, de fato, a impressão que criei dele, ainda que à distância, foi a de um homem honesto, até mesmo benevolente. Mas, por outro lado, não eram aquelas pessoas que ele estava traindo. Era sua Ordem. Éramos nós. Seus guardas permaneceram com ele, durante as rondas, e pude perceber que eram homens diligentes. Seus olhos nunca paravam de se mexer em volta do mercado e, quando um dos barraqueiros lhe dava um tapinha amigável nas costas e lhe empurrava como presente um pão de sua barraca, ele acenava para o mais alto dos dois guardas, que o pegava com a mão esquerda, mantendo livre a mão da espada. Excelente. Excelente homem. Templário-treinado. Momentos depois, um garotinho disparou do meio dos aglomerados e, de imediato, meus olhos foram para os guardas, e os vi tensos, avaliando o perigo e então... Relaxaram? Riram de si mesmos por serem nervosos? Não. Permaneceram tensos. Permaneceram vigilantes, pois não eram idiotas e sabiam que o menino poderia ser um despiste. Eram bons homens. Fiquei imaginando se haviam sido corrompidos pelos ensinamentos de seu empregador, um homem que pregava aliança a uma causa, enquanto promovia os ideais de outra. Esperava que não, porque já decidira deixá-los viver. E, se de algum modo parece conveniente eu ter decidido que vivessem, e que talvez a verdade tivesse mais a ver com minha apreensão de ter de enfrentar dois homens tão competentes, então a impressão é falsa. Eles podem ser cautelosos; indubitavelmente, deviam ser exímios espadachins; deviam ser habilidosos no ofício de matar. Mas, por outro lado, sou cauteloso. Sou um exímio espadachim. E sou habilidoso no ofício de matar. Tenho uma aptidão natural para isso. No entanto, ao contrário de teologia, filosofia, os clássicos e minhas línguas, particularmente o espanhol, no qual sou tão bom que sou capaz de passar por espanhol aqui em Altea, se bem que de certa maneira reticente, não sinto qualquer prazer na minha habilidade para matar. Simplesmente sou bom nisso. Talvez, se meu alvo fosse Digweed — talvez então eu pudesse ter certa gratificação em matá-lo com minhas mãos. Mas não é.


ii Por cinco anos, após deixarmos Londres, Reginald e eu percorremos a Europa, indo de país a país, viajando em uma caravana de funcionários e colegas cavaleiros que mudavam à nossa volta, entrando e saindo de nossas vidas. Éramos os únicos constantes, à medida que passávamos de um país para o outro, às vezes seguindo a pista de um grupo de traficantes de escravos turcos que se acreditava que estaria mantendo Jenny, e, ocasionalmente, agindo de acordo com informação a respeito de Digweed, a qual ficava a cargo de Braddock, que se afastava durante meses sem fim e sempre voltava de mãos vazias. Reginald era meu tutor e, nesse sentido, tinha semelhanças com meu pai. A primeira delas era que tendia a desdenhar de quase tudo referente a livros, sempre afirmando que existia um aprendizado superior, mais avançado do que aquele encontrado em velhos e empoeirados livros escolares, o que depois vim a conhecer como aprendizado Templário; e a segunda, insistia para que eu pensasse por mim mesmo. Eles diferiam no fato de que meu pai pedia que eu tomasse minhas decisões. Reginald, eu soube depois, via o mundo em termos mais absolutos. Com meu pai, às vezes eu sentia que o pensamento era suficiente — que o pensamento era um meio em si mesmo e a conclusão a que eu chegava de algum modo era menos importante do que o percurso. Com meu pai, fatos, e, revendo diários passados, percebo que mesmo o puro conceito de verdade, podiam ser sentidos como características inconstantes, mutáveis. Com Reginald, porém, não havia tal ambiguidade e, nos primeiros anos, quando eu poderia dizer ao contrário, ele sorria para mim e dizia que era capaz de ouvir meu pai em mim. Dizia o quanto o meu pai fora um grande homem e, de muitos modos, sábio, e certamente o melhor espadachim que ele já conhecera, mas sua atitude em relação ao aprendizado não era tão sábia quanto poderia ter sido. Envergonha-me admitir que, com o tempo, passei a preferir o modo de Reginald, o mais rigoroso modo Templário? Embora fosse sempre bem-humorado, rápido em entender uma piada e sorrir, carecia da alegria natural, até mesmo brincalhona, do meu pai. Por exemplo, vivia sempre abotoado e arrumado e era neurótico com pontualidade; insistia que as coisas estivessem ordenadas o tempo todo. Ainda assim, quase a despeito de mim mesmo, havia algo seguro em Reginald, uma certeza, tanto interna quanto externa, que me atraía cada vez mais com o passar dos anos. Um dia compreendi por quê. Era a ausência de dúvida — e, com isso, de confusão, indecisão e incerteza. Essa sensação — essa sensação do “conhecimento” que Reginald impregnava em mim — foi meu guia da juventude para a idade adulta. Nunca esqueci os ensinamentos do meu pai; pelo contrário, ele teria ficado orgulhoso de mim, porque questionei seus ideais. Fazendo isso, adotei novos. Nunca encontramos Jenny. Com o passar dos anos, despreocupei-me com a lembrança dela. Lendo meus diários antigos, o jovem eu nunca ligou a mínima para ela, algo de que de certa forma me envergonho, porque agora sou adulto e vejo as coisas de um modo diferente. Não que minha antipatia


juvenil por Jenny tivesse feito alguma coisa para impedir a caçada por ela, é claro. Nessa missão, o Sr. Birch tinha mais do que suficiente zelo por nós dois. Mas não era o bastante. A verba que recebíamos de Londres do Sr. Simpkin era generosa, mas não era infindável. Encontramos um castelo na França, escondido perto de Troyes, Landes de Champagne, no qual montamos nossa base, onde o Sr. Birch continuou o meu aprendizado, apadrinhando minha admissão como Adepto e depois, três anos atrás, como membro pleno da Ordem. Semanas se passaram sem qualquer menção a Jenny ou Digweed; depois, meses. Estávamos envolvidos em outras atividades templárias. A Guerra de Sucessão austríaca parecera devorar toda a Europa em sua boca gananciosa, e éramos necessários para proteger os interesses templários. Minha “aptidão”, minha habilidade em matar, tornou-se aparente, e Reginald foi rápido em notar os benefícios. O primeiro a morrer — não o meu primeiro “abate”, é claro; meu primeiro assassinato, deveria dizer — foi um comerciante ganancioso em Liverpool. Meu segundo, um príncipe austríaco. Após o extermínio do comerciante, dois anos atrás, voltei para Londres, somente para descobrir que o trabalho de reconstrução continuava em Queen Anne’s Square, e minha mãe... minha mãe estava cansada demais naquele dia para me receber, como também estaria no dia seguinte. “Ela também está cansada demais para responder minhas cartas?”, perguntei à Sra. Davy, que se desculpou e desviou os olhos. Depois cavalguei até Herefordshire, na esperança de localizar a família de Digweed, mas sem sucesso. Aparentemente, o traidor que havia em nosso lar não era para ser encontrado nunca — ou, deveria dizer, não é para ser encontrado nunca. Mas, por outro lado, o fogo da vingança dentro de mim queima menos intensamente nestes dias, talvez simplesmente porque cresci; talvez pelo que Reginald me ensinou sobre controlar a si mesmo, o domínio das próprias emoções. Ainda assim, por mais fraco que seja, o fogo continua a queimar dentro de mim.

iii A mulher do dono da hostale acabou de me visitar, lançando um olhar escada abaixo antes de fechar a porta. Chegou um mensageiro quando eu estava fora, disse ela, e me entregou a carta que ele trouxera, me dando um olhar lascivo, que talvez eu tivesse sido tentado a aproveitar, se minha mente não estivesse ocupada com outras coisas. Os acontecimentos de ontem à noite, por exemplo. Portanto, em vez disso, a acompanhei para fora do meu quarto e me sentei para decifrar a mensagem. Dizia que, assim que terminasse em Altea, eu deveria viajar, não para casa, na França, mas para Praga, onde me encontraria com Reginald nos aposentos do porão da casa em Celetna Lane, o quartel-general dos Templários. Ele tem um assunto urgente para discutir comigo. Enquanto isso, tenho queijo para um rato. Esta noite o traidor verá seu fim.


11 de junho de 1747 i Está feito. Quero dizer, o assassinato. E, embora não tivesse sido sem complicações, a execução foi limpa, uma vez que ele está morto e permaneço sem ser descoberto, e, por causa disso, posso me permitir certa satisfação por ter completado minha missão. Seu nome era Juan Vedomir e seu trabalho era, supostamente, proteger nossos interesses em Altea. Que ele tivesse usado a oportunidade para construir um império para si, isso foi tolerado; a informação que tivemos foi que ele controlava o porto e o mercado com mão bondosa, e, certamente, com os indícios obtidos naquele dia mais cedo, parecia gozar de algum apoio, ainda que a presença constante de seus guardas provasse que não era esse sempre o caso. Seria ele, porém, bondoso demais? Reginald achava que sim, mandou investigá-lo e, finalmente, descobriu que o abandono da ideologia templária por parte de Vedomir era tão completo que beirava a traição. Na Ordem, éramos intolerantes com traidores. Fui despachado para Altea. Vigiei-o. E, na noite passada, peguei o queijo e deixei minha hostale pela última vez, seguindo pelas ruas com calçamento de pedras até sua vila. — Sim? — disse o guarda que abriu sua porta. — Tenho queijo — falei. — Consigo sentir o cheiro daqui — retrucou ele. — Espero convencer o Señor Vedomir a me dar permissão de negociar no bazar. O nariz dele torceu um pouco mais. — O Señor Vedomir está interessado em atrair clientes para o mercado, e não afugentá-los. — Talvez aqueles com um paladar mais refinado discordem, señor. O guarda olhou-me de lado. — Seu sotaque. De onde você é? Era o primeiro que questionava minha cidadania espanhola. — Originalmente, da República de Gênova — respondi, sorrindo —, onde o queijo é um de nossos melhores produtos de exportação. — Seu queijo terá de percorrer muito caminho para superar o de Varela. Continuei sorrindo. — Tenho confiança de que sim. Tenho confiança de que o Señor Vedomir pensará isso. Ele pareceu incerto, mas se afastou e me deixou entrar para o amplo saguão, o qual, apesar da noite quente, era fresco, quase frio, como também escasso, com apenas duas cadeiras e uma mesa, sobre a qual havia algumas cartas de baralho. Olhei-as de relance. Um jogo de piquet, fiquei contente em perceber, pois era jogado por apenas duas pessoas, o que significava que não havia mais guardas


escondidos no madeiramento. O primeiro guarda me indicou que deixasse o queijo embrulhado em cima da mesa de cartas, e fiz o que me mandou. O segundo homem recuou, com uma das mãos no punho da espada, enquanto o colega me revistava atrás de armas, batendo inteiramente nas minhas roupas e, em seguida, vasculhando a bolsa que eu trazia a tiracolo, na qual havia algumas moedas, meu diário e nada mais. Eu não tinha lâmina. — Ele não está armado — informou o primeiro guarda, e o segundo homem assentiu. O primeiro guarda apontou para o queijo. — Você quer que o Señor Vedomir prove isso, imagino? Assenti com entusiasmo. — Talvez eu deva provar primeiro — disse o primeiro guarda, olhando para mim atentamente. — Eu esperava que fosse todo para o Señor Vedomir — rebati com um sorriso obsequioso. O guarda bufou. — Aí tem mais do que o suficiente. Talvez você deva prová-lo. Comecei a protestar. — Mas eu esperava que fosse todo para... Ele pôs a mão no punho da espada. — Prove — insistiu. Concordei com a cabeça. — Claro, señor — falei, e desembrulhei uma parte, tirei um pedaço e comi. A seguir, ele indicou que eu deveria experimentar outro bocado, o que fiz, fazendo uma expressão para mostrar o quanto seu sabor era celestial. — E agora que está aberto — sugeri, oferecendo o embrulho —, vocês também poderiam provar. Os dois guardas se entreolharam, então, finalmente, o primeiro sorriu. Então foram até uma grossa porta de madeira ao final do corredor, bateram e entraram. Apareceram novamente e sinalizaram para que eu fosse adiante e entrasse nos aposentos de Vedomir. Lá dentro, estava escuro e intensamente perfumado. Sedas ondulavam delicadamente no teto baixo quando entramos. Vedomir estava sentado de costas para nós, seu longo cabelo negro solto, usando camisola e escrevendo à luz de uma vela em sua escrivaninha. — Quer que eu fique, Señor Vedomir? — perguntou o guarda. Vedomir não se virou. — Creio que nosso convidado não está armado. — Não, senhor — disse o guarda —, embora o cheiro do queijo dele seja suficiente para abater um exército. — Para mim, Cristian, esse cheiro é perfume — riu Vedomir. — Por favor, peça ao nosso convidado que se sente, e estarei com ele em um momento. Sentei em um banquinho baixo junto a uma lareira vazia, enquanto ele rabiscava no livro, depois se aproximou, parando no caminho para apanhar uma pequena faca em uma mesinha.


— Queijo, hein? — Seu sorriso dividiu um fino bigode, enquanto ele erguia a camisola para se sentar em outro banquinho baixo do lado oposto. — Sim, señor — confirmei. Ele olhou para mim. — Ah! Disseram que você era da República de Gênova, mas posso perceber, pela sua voz, que é inglês. Sobressaltei-me, chocado, mas o largo sorriso que ele exibiu me disse que eu não tinha nada com o que me preocupar. Pelo menos, não por enquanto. — E eu, esse tempo todo, pensando que era muito esperto, escondendo a minha nacionalidade — observei, impressionado —, mas me descobriu, señor. — E, evidentemente, o primeiro a fazer isso, e é por esse motivo que sua cabeça continua sobre os ombros. Nossos dois países estão em guerra, não é mesmo? — A Europa toda está em guerra, señor. Às vezes fico imaginando se alguém sabe quem está combatendo quem. Vedomir deu uma risadinha e seus olhos dançaram. — Está sendo malicioso, meu amigo. Creio que todos nós conhecemos as alianças do seu rei Jorge, assim como suas ambições. Sua marinha britânica, dizem, se acha a melhor do mundo. Os franceses, os espanhóis... sem mencionar os suecos... discordam. Um inglês na Espanha tem sua vida nas próprias mãos. — Devo agora me preocupar com minha segurança, señor? — Comigo? — Ele abriu os braços e deu um sorriso torto, irônico. — Gosto de pensar que estou acima das preocupações mesquinhas dos reis, meu amigo. — Então a quem serve, señor? — Ora, à população da cidade, é claro. — E a quem penhora aliança, se não ao rei Fernando? — A um poder mais alto, señor — sorriu Vedomir, encerrando firmemente o assunto e voltando a atenção ao embrulho de queijo que eu havia colocado junto à lareira. — Agora — prosseguiu —, terá de perdoar minha confusão. Esse queijo é da República de Gênova ou é queijo inglês? — É meu queijo, señor. Meus queijos são os melhores onde quer que alguém plante sua bandeira. — Bom o suficiente para usurpar o Varela? — Talvez você possa comercializá-lo ao lado dele. — Mas e aí? Então eu terei um Varela infeliz. — Sim, señor. — Essas questões de negócios não são de sua conta, señor, mas são assuntos que me atormentam diariamente. Bem, deixe-me provar esse queijo antes que ele derreta, certo? Fingindo sentir calor, afrouxei meu lenço de pescoço, depois o retirei. Sorrateiramente, alcancei a bolsa pendurada no ombro e retirei um dobrão. Quando ele voltou a atenção para o queijo, larguei o dobrão dentro do lenço.


A faca cintilou sob a luz da vela, quando Vedomir cortou um naco do primeiro queijo, apoiou o pedaço no polegar e o cheirou — quase desnecessariamente; conseguia senti-lo de onde estava sentado — então jogou-o boca adentro. Mastigou-o pensativamente, olhou para mim, e em seguida cortou um segundo naco. — Hum — fez ele, após algum momento. — Está enganado, señor, este não é superior ao queijo de Varela. Aliás, é exatamente igual ao queijo de Varela. — Seu sorriso havia sumido e o rosto se tornara sombrio. Dei-me conta de que havia sido descoberto. — Aliás, este é o queijo de Varela. Sua boca estava aberta para gritar por ajuda, quando larguei o dobrão no lenço, com um movimento do punho, girei a seda e a transformei em um garrote, saltei adiante, com os braços cruzados, passei-o por cima de sua cabeça e em volta do pescoço. Sua mão com a faca fez um arco para cima, mas era lento demais e fora apanhado de surpresa, e a lâmina rasgou descontroladamente a seda acima de nossas cabeças, enquanto eu segurava o meu rumāl, a moeda pressionando sua traqueia, eliminando qualquer ruído. Segurando o garrote com uma das mãos, desarmei-o, joguei a faca numa almofada, então usei as duas mãos para apertar o rumāl. — Meu nome é Haytham Kenway — falei com indiferença, inclinando-me adiante para olhar dentro de seus olhos bem abertos, arregalados. — Você traiu a Ordem dos Templários. Por causa disso, foi condenado à morte. Seu braço se ergueu, em uma vã tentativa de arranhar meus olhos, mas desviei a cabeça e observei a seda esvoaçar levemente enquanto a vida o deixava. Quando acabou, levei seu corpo para a cama, depois fui à escrivaninha para apanhar o diário dele, conforme eu fora instruído. Estava aberto e meu olhar caiu sobre o que estava escrito: Para ver de manera diferente, primero debemos pensar diferente. Li a frase novamente, traduzi-a com cuidado, como se estivesse aprendendo uma nova língua: “Para ver de modo diferente, primeiro devemos pensar diferente.” Olhei para isso por alguns momentos, mergulhado em pensamentos, depois fechei o livro com um estalido e o enfiei na bolsa, voltando a atenção para o meu trabalho. A morte de Vedomir só seria descoberta pela manhã, ocasião em que eu estaria longe, a caminho de Praga, onde agora eu tinha algo para perguntar a Reginald.


18 de junho de 1747 i — É sobre sua mãe, Haytham. Ele estava diante de mim, no porão do quartel-general em Celetna Lane. Não fizera qualquer esforço para se vestir para ir a Praga. Usava sua origem inglesa como uma insígnia de honra: meias brancas limpas e bem-ajustadas, calções pretos e, é claro, sua peruca, que era branca e já havia espalhado a maior parte do talco nos ombros da sobrecasaca. Estava iluminado pelas chamas de tochas altas de ferro sobre postes, em ambos os lados, enquanto, montadas em paredes de pedras tão escuras que estavam quase pretas, havia tochas que brilhavam com halos de luz pálida. Normalmente, Reginald se portava de forma descontraída, com as mãos para trás e apoiado na bengala, mas hoje havia nele um ar formal. — Minha mãe? — Sim, Haytham. Está doente, foi meu primeiro pensamento e senti de imediato uma quente onda de culpa tão intensa que quase me deixou tonto. Havia semanas que eu não escrevia para ela; mal havia pensado nela. — Ela está morta, Haytham — disse Reginald, baixando a vista. — Uma semana atrás, ela caiu. Suas costas se machucaram seriamente, e receio que tenha sucumbido aos ferimentos. Olhei para ele. Aquele intenso fluxo de culpa foi-se rapidamente do mesmo modo que havia chegado e, no seu lugar, ficou uma sensação vazia, um lugar oco onde as emoções deveriam estar. — Sinto muito, Haytham. — Seu rosto descorado enrugou-se em compaixão e seus olhos eram bondosos. — Sua mãe era uma excelente mulher. — Está tudo bem — falei. — Temos de partir imediatamente para a Inglaterra. Haverá uma cerimônia fúnebre. — Sei. — Se você precisar... de qualquer coisa, por favor, não hesite em pedir. — Obrigado. — Sua família agora, Haytham, é a Ordem. Pode recorrer a nós para qualquer coisa. — Obrigado. Ele limpou a garganta, constrangido. — E, se precisar... você sabe, conversar, estou aqui. Tentei não sorrir diante da ideia. — Obrigado, Reginald, mas não será preciso. — Tudo bem.


Houve uma longa pausa. Ele desviou o olhar. — Está feito? — Juan Vedomir está morto, se é isso que quer saber. — E está com o diário dele? — Receio que não. Por um momento, seu rosto se abateu, depois ficou sério. Muito sério. Eu vira seu rosto fazer isso antes, em um momento irrefletido. — Por quê? — perguntou simplesmente. — Eu o matei pela sua traição à nossa causa, não foi? — frisei. — De fato... — disse Reginald cautelosamente. — Então, por que eu precisava do diário? — Contém as anotações dele. Elas são de nosso interesse. — Por quê? — perguntei. — Haytham, tenho motivo para acreditar que a traição de Juan Vedomir foi além da questão de sua fidelidade à doutrina. Creio que possa ter avançado e trabalhado com os Assassinos. Agora, por favor, me diga a verdade, você está com o diário dele? Tirei-o da bolsa e o entreguei, e ele foi até um dos candelabros, abriu-o, folheou-o rapidamente e logo fechou-o com um estalido. — Você leu? — perguntou. — Está em código — retruquei. — Mas nem todo ele — rebateu serenamente. Assenti. — Sim... sim, você tem razão, houve trechos que consegui ler. Seus... pensamentos sobre a vida. Uma leitura interessante. Aliás, fiquei particularmente intrigado, Reginald, com o quanto da filosofia de Vedomir era consistente com o que meu pai certa vez me ensinou. — É bem possível. — Ainda assim mandou que eu o matasse? — Mandei que você matasse um traidor da Ordem. O que é algo completamente diferente. Claro, eu sabia que seu pai pensava diferente de mim com relação a muitos... talvez a maioria... dos princípios da Ordem, mas isso porque ele não concordava com eles. O fato de ele não ser um Templário não fazia com que eu o respeitasse menos. Olhei-o. Fiquei imaginando se tinha errado em duvidar dele. — Ora, então é um livro que interessa? — Não pelas reflexões de Vedomir sobre a vida, isso é certo — sorriu Reginald, e me deu um sorriso de lado. — Como você diz, eram semelhantes às do seu pai, e nós dois sabemos o que sentimos a esse respeito. Não, são as passagens em código que me interessam, as quais, se estiver certo, contém detalhes do guardião de uma chave.


— Uma chave para quê? — Tudo a seu tempo. Fiz um ruído de frustração. — Assim que eu decodificar o diário, Haytham — pressionou. — Quando, se eu estiver certo, formos capazes de iniciar a fase seguinte da operação. — E quando poderá ser isso? Abriu a boca para falar, mas pronunciei as palavras por ele: — “Tudo a seu tempo, Haytham”, não é isso? Mais segredos, Reginald? Ele mostrou indignação. — “Segredos”? É mesmo? É isso o que você pensa? O que eu fiz exatamente para merecer sua desconfiança, Haytham, além de tê-lo colocado sob minha proteção, apadrinhado seu ingresso na Ordem, ter dado uma vida a você? Sabe, mereço ser perdoado por às vezes achar você um tanto ingrato, senhor. — Mas nunca conseguimos encontrar Digweed, não é? — lembrei, recusando-me a ser intimidado. — Nunca houve um pedido de resgate por Jenny, portanto, o motivo principal do ataque tem de ser a morte do meu pai. — Tivemos esperança de encontrar Digweed, Haytham. Isso é tudo o que sempre pudemos fazer. Tivemos esperança de fazê-lo pagar. Essa esperança não foi satisfeita, mas isso não significa que abandonamos nosso objetivo. Além do mais, eu tinha o dever de cuidar de você, Haytham, e isso foi cumprido. Você está diante de mim como um homem, um respeitado cavaleiro da Ordem. Acredito que não se dá conta disso. E não se esqueça de que esperava me casar com Jenny. Talvez, no calor do desejo de vingar seu pai, você veja a perda de Digweed como a nossa única falha significativa, mas não é, porque nunca encontramos Jenny, não é verdade? Mas, claro, você não pensa nem um pouco no sofrimento da sua irmã. — Você me acusa de insensibilidade? Crueldade? Ele balançou a cabeça. — Eu só peço que você dirija o olhar para suas próprias falhas antes de começar a lançar luz sobre as minhas. Olhei atentamente para ele. — Você nunca confiou em mim em relação à busca. — Braddock foi enviado para encontrá-lo. Ele me atualizava regularmente. — Mas você não me passava essas atualizações. — Você era um menino. — Que cresceu. Ele curvou a cabeça. — Então peço desculpas por não ter levado em conta esse fato, Haytham. No futuro, o tratarei como semelhante. — Então comece agora... comece por me falar sobre o diário — pedi.


Ele riu, como se tivesse entrado em xeque no xadrez. — Você venceu, Haytham. Está bem, ele representa o primeiro passo na direção da localização de um templo... um templo da primeira civilização, que se imagina ter sido construído por Aqueles Que Vieram Antes. Houve um momento de pausa, no qual pensei “É isso?” e então dei uma gargalhada. A princípio, ele pareceu chocado, talvez se lembrando da primeira vez em que me falou sobre Aqueles Que Vieram Antes, quando tive dificuldade de me conter. — Aqueles que vieram antes de quê...? — zombei. — Antes de nós — retrucou de modo firme. — Antes do homem. Uma civilização anterior. Ele agora franziu a testa para mim. — Ainda acha isso engraçado, Haytham? Balancei a cabeça. — Não, não tão engraçado. Mais... — pelejei para encontrar as palavras —... difícil de entender, Reginald. Uma raça de seres que existiram antes do homem. Deuses... — Deuses não, Haytham, a primeira civilização de humanos que controlou a humanidade. Eles nos deixaram artefatos, Haytham, de imenso poder, de tal modo que podemos apenas imaginar. Acredito que quem conseguir possuir esses artefatos poderá, fundamentalmente, controlar o destino de toda a humanidade. Minha gargalhada perdeu a força, quando percebi o quanto ele se tornara sério. — É uma pretensão grande demais, Reginald. — De fato. Se fosse uma pretensão modesta, não estaríamos tão interessados, não é mesmo? Os Assassinos não estariam interessados. — Seus olhos cintilaram. As chamas das tochas brilhavam e dançavam neles. Eu já tinha visto esse seu olhar, mas apenas em raras ocasiões. Não quando me instruía em línguas, filosofia, ou mesmo nos clássicos ou nos princípios do combate. Nem mesmo quando me ensinava a doutrina da Ordem. Não, apenas quando falava sobre Aqueles Que Vieram Antes. Às vezes, Reginald gostava de rir daquilo que via como um excesso de paixão. Considerava isso uma fraqueza. Quando, porém, discorria sobre os seres da primeira civilização, falava como um fanático.

ii Estamos passando a noite no quartel-general dos Templários em Praga. Agora, ao me sentar aqui em um pobre quarto com paredes de pedras cinzentas, consigo sentir sobre mim o peso de milhares de anos de história templária. Meus pensamentos vão para Queen Anne’s Square, para onde os empregados retornaram depois que a obra ficou pronta. O Sr. Simpkin nos manteve a par dos avanços; Reginald inspecionara a


construção, mesmo enquanto íamos de país em país à procura de Digweed e Jenny. (E, sim, Reginald tinha razão. Termos fracassado na busca por Digweed: esse fato me corrói; mas quase nunca penso em Jenny.) Um dia, o Sr. Simpkin nos enviou a notícia de que o domicílio havia saído de Bloomsbury e voltado para Queen Anne’s Square, que a família estava novamente na residência, de volta ao lugar a que pertencia. Naquele dia minha mente seguiu para as paredes cobertas de madeira da casa onde cresci, e descobri que era capaz de imaginar distintamente as pessoas em seu interior — principalmente minha mãe. Mas, é claro, estava imaginando a mãe que conheci enquanto crescia, que brilhava como o sol e duas vezes mais cálida, em cujo colo conheci a felicidade perfeita. O amor que sentia pelo meu pai era muito forte, talvez até mais do que pela minha mãe, mas meu amor por ela era mais puro. Com meu pai, tinha uma sensação de reverência, de admiração tão grande que às vezes me sentia minúsculo perto dele e, com isso, vinha uma sensação implícita que só consigo descrever como aflição, que, de algum modo, eu tinha de viver à sua altura, crescer na imensa sombra projetada por ele. Com minha mãe, porém, não havia tal insegurança, apenas a quase esmagadora sensação de conforto, amor e proteção. E ela era linda. Eu adorava quando as pessoas me comparavam com o meu pai, porque ele era notável, mas, se diziam que eu parecia com a minha mãe, sabia que queriam dizer bonito. De Jenny, as pessoas diziam: “Ela vai despedaçar alguns corações”; “Ela terá homens brigando por ela”. Usavam a linguagem de luta e conflito. Mas não com minha mãe. Sua beleza era uma coisa suave, maternal, provedora, para ser comentada não com a prudência que a aparência de Jenny inspirava, mas com cordialidade e admiração. Claro que não conheci a mãe de Jenny, Caroline Scott, mas havia formado uma opinião a seu respeito: que ela era uma “Jenny”, e que meu pai fora cativado pela sua aparência, assim como os pretendentes de Jenny eram cativados pela dela. Minha mãe, porém, eu imaginava que fosse, de modo geral, uma espécie de pessoa inteiramente diferente. Ela era a velha e simples Tessa Stephenson-Oakley, quando conheceu meu pai. Era isso que, em todo caso, ela sempre disse: “a velha e simples Tessa Stephenson-Oakley”, o que não parecia nada simples para mim, mas não importa. Meu pai havia se mudado para Londres, chegando sozinho, sem criadagem, mas com uma bolsa grande o bastante para comprar uma. Depois que ele alugara uma casa em Londres de um rico proprietário de terras, a filha dele se ofereceu para ajudar meu pai a encontrar uma acomodação permanente, como também empregar uma criadagem para administrá-la. A filha, é claro, era “a velha e simples Tessa Stephenson-Oakley”. Ela fizera tudo, menos insinuar que a família não estava feliz com a ligação; aliás, nunca vimos o lado dela da família. Dedicava as energias a nós e, até aquela noite terrível, a pessoa que havia tido sua indivisível atenção, seu infinito afeto, seu amor incondicional, tinha sido eu. Mas, na última vez em que a vi, não havia sinal dessa pessoa. Quando me lembro agora do último encontro com minha mãe, me lembro da desconfiança em seus olhos e me dou conta de que era desprezo. Quando matei o homem que estava prestes a matá-la, mudei sob os olhos dela. Não era


mais o menino que se sentara em seu colo. Eu era um assassino.


20 de junho de 1747 A caminho de Londres, reli um antigo diário. Por quê? Algum instinto, talvez. Algum aborrecimento subconsciente... uma dúvida, suponho. O que quer que fosse, quando reli a anotação de 10 de dezembro de 1735, de repente eu soube exatamente o que deveria fazer quando chegasse à Inglaterra.


2 e 3 de julho de 1747 Hoje foi a cerimônia religiosa, e também... Bom, deixe eu explicar. Após a cerimônia, deixei Reginald conversando com o Sr. Simpkin nos degraus da capela. A mim, o Sr. Simpkin disse que tinha alguns papéis para eu assinar. Tendo em vista a morte da minha mãe, as finanças eram de minha responsabilidade. Com um sorriso obsequioso, disse que esperava que eu o considerasse mais do que satisfatório por ter cuidado dos negócios até então. Assenti, sorri, não revelei qualquer comprometimento, disse aos dois que precisava de um tempo para mim mesmo e saí, aparentemente para estar sozinho com meus pensamentos. Esperava que a direção da minha andança parecesse aleatória, ao seguir caminho ao longo da via, mantendo-me distante das rodas de carruagens que espirravam lama e esterco na estrada, costurando entre as pessoas que apinhavam as ruas: comerciantes com aventais de couro sujos de sangue, putas e lavadeiras. Mas não era aleatória. Não era de modo algum aleatória. Uma mulher em particular estava mais adiante, assim como eu, seguindo caminho por meio das multidões, sozinha e, provavelmente, perdida em pensamentos. Eu a vira na cerimônia, claro. Estava sentada com outras criadas — Emily e duas ou três outras que não reconheci — do outro lado da capela, com um lenço sobre o nariz. Tinha erguido os olhos e me visto — deve ter feito isso —, mas não fez sinal. Fiquei imaginando, será que Betty, minha antiga babá, ao menos me reconheceu? E agora eu a seguia, mantendo uma distância discreta, mais atrás, para que não me visse se, por acaso, olhasse para trás. Estava escurecendo quando ela chegou em casa, não em sua casa, mas onde agora trabalhava, uma mansão imponente que assomava no céu de carvão, não muito diferente daquela na Queen Anne’s Square. Fiquei imaginando se ainda trabalhava como babá ou se subira na vida. Usava uniforme de governanta debaixo do casaco? A rua estava menos apinhada do que antes, e me deixei ficar fora de vista, do outro lado da rua, observando-a, enquanto ela descia um curto lance de degraus em direção aos aposentos debaixo da escada e entrava. Quando ela estava fora de vista, atravessei a estrada e saí como se passeasse em direção à casa, ciente da necessidade de não chamar atenção caso houvesse olhos me observando de janelas. Houve uma época, quando menino, que eu espiava das janelas da casa na Queen Anne’s Square, vigiava os transeuntes irem e virem e ficava imaginando quais eram suas ocupações. Haveria um menino naquela casa me olhando agora, imaginando quem era aquele homem? De onde tinha vindo? Aonde estava indo? Por isso, caminhei ao longo do gradeado diante da mansão e olhei abaixo para ver as janelas acesas do que eu supunha que eram os aposentos dos criados, simplesmente para ser recompensado com a inconfundível silhueta de Betty surgindo no vidro e puxando uma cortina. Eu tinha obtido a informação que viera buscar. Voltei, após a meia-noite, quando as cortinas das janelas da mansão estavam fechadas, a rua


estava escura e as únicas luzes eram aquelas presas nas ocasionais carruagens que passavam. Mais uma vez, segui para a frente da casa e, com um rápido olhar para a esquerda e a direita, escalei o gradeado e caí silenciosamente na sarjeta do outro lado. Percorri-a rapidamente e então encontrei a janela de Betty, onde parei e, muito cuidadosamente, colei o ouvido no vidro, escutando por alguns momentos, até ficar satisfeito por não haver movimento no interior. Logo, com paciência infinita, pressionei as pontas dos dedos na parte de baixo da janela corrediça e a ergui, rezando para que não rangesse, e, quando minhas preces foram atendidas, entrei e fechei a janela em seguida. Na cama, ela se agitou ligeiramente — talvez por causa do vento que vinha da janela aberta; uma sensação inconsciente da minha presença? Como uma estátua, fiquei imóvel e esperei que sua respiração se normalizasse, e senti o ar à minha volta se acomodar, minha incursão absorvida pelo quarto, de modo que, após alguns momentos, era como se eu fizesse parte dele — como se sempre tivesse sido parte dele, como um fantasma. Então puxei a espada. Era apropriado — irônico, talvez — que se tratasse da espada que me fora dada pelo meu pai. Naquela época, raramente ia a qualquer lugar sem ela. Anos atrás, Reginald me perguntou quando eu esperava que ela provasse sangue, e provara, é claro, várias vezes. E, se eu estivesse certo sobre Betty, então provaria novamente. Sentei-me na cama e coloquei a lâmina da espada perto de sua garganta, em seguida, tapei sua boca com a mão. Betty acordou. Imediatamente, seus olhos se arregalaram de terror. Sua boca se mexeu e minha palma sentiu cócegas e vibrou quando ela tentou gritar. Contive a agitação de seu corpo e não disse nada, apenas permiti que seus olhos se ajustassem até que pudessem me enxergar, e ela deve ter me reconhecido. Como não poderia se cuidou de mim por dez anos, se foi uma mãe para mim? Como não poderia não ter reconhecido o Sr. Haytham? Quando ela parou de se contorcer, com a mão ainda sobre sua boca, sussurrei: — Olá, Betty. Tenho uma coisa que preciso lhe perguntar. Para responder, você terá de falar. Para falar, terei de tirar a mão de sua boca, e você pode ficar tentada a gritar, mas, se gritar... — pressionei a ponta da espada em sua garganta para frisar o que eu dizia. Então, bem devagar, levantei a mão de sua boca. Seus olhos estavam frios, como granito. Por um momento, me senti voltar à infância e quase fiquei intimidado pelo fogo e fúria que havia ali, como se a visão deles desencadeasse uma lembrança de levar uma repreensão à qual não pude evitar ser suscetível. — Eu deveria lhe dar umas palmadas, Sr. Haytham — sibilou. — Como ousa entrar sorrateiramente no quarto de uma senhora adormecida? Eu não lhe ensinei nada? Edith não lhe ensinou nada? Sua mãe? — Sua voz aumentava. — Seu pai não lhe ensinou nada? Aquela sensação infantil permanecia comigo, e tive de buscar dentro de mim mesmo uma determinação, lutando contra um impulso, simplesmente afastando a espada e dizendo:


— Desculpe, babá Betty, prometo nunca mais fazer isso, e que, de agora em diante, serei um bom menino. O pensamento em meu pai me deu a tal determinação. — É verdade que um dia você foi uma mãe para mim, Betty. É verdade que o que estou fazendo é uma coisa terrível, imperdoável. Acredite, não me sinto contente por estar aqui. Mas o que você fez também é terrível e imperdoável. Seus olhos se estreitaram. — O que quer dizer? Com a outra mão, alcancei o interior da sobrecasaca e tirei um pedaço de papel dobrado, que estendi para que ela o visse na quase escuridão do quarto. — Lembra-se de Laura, a ajudante de cozinha? Cautelosamente, ela fez que sim. — Ela me enviou uma carta — prossegui. — Uma carta em que me contou toda a sua relação com Digweed. Por quanto tempo o mordomo do meu pai foi seu amante, Betty? Não havia tal carta; o pedaço de papel que eu segurava continha nada mais revelador do que meu alojamento para a noite e contava com a luz fraca para enganá-la. A verdade era que, quando reli meus velhos diários, fui levado de volta àquele momento, muitos e muitos anos atrás, quando eu tinha ido procurar Betty. Ela tinha dado seu pequeno “cochilo até mais tarde” naquela manhã fria e, quando olhei pelo buraco da fechadura, eu vira um par de botas em seu quarto. Na ocasião, não me dera conta porque era jovem demais. Eu os vira com os olhos de um menino de 9 anos e não pensei nada sobre eles. Não na ocasião. Nem desde então. Não até a releitura, quando, como uma piada que de repente fazia sentido, eu entendi: as botas eram do seu amante. Claro que eram. Do que eu menos tinha certeza era se o amante dela era Digweed. Lembro-me de que costumava falar dele com grande afeição, mas, por outro lado, todos costumavam; ele havia enganado a todos nós. Mas, quando parti para a Europa, aos cuidados de Reginald, Digweed conseguira outro emprego para Betty. Mesmo assim, o fato de serem amantes era um palpite — um palpite bem pensado, cultivado mas arriscado, com terríveis consequências, se eu estivesse errado. — Lembra-se daquele dia em que dormiu até mais tarde, Betty? — perguntei. — Um pequeno “cochilo até mais tarde”, você se lembra? Ela assentiu cautelosamente. — Eu fui à sua procura — prossegui. — Eu estava com frio, sabe. E, no corredor do lado de fora do seu quarto... Bem, não gosto de admitir isso, mas me ajoelhei e olhei pelo buraco da fechadura. Senti-me corar ligeiramente, apesar de tudo. Ela esteve me encarando malignamente, mas agora seus olhos estavam firmes e os lábios torcidos de forma rabugenta, quase como se aquela antiga intromissão fosse tão ruim quanto a atual. — Eu não vi nada — esclareci rapidamente. — Nada, além de você, dormindo na cama, e também um par de botas de homem, que reconheci como as de Digweed. Você estava tendo um caso


com ele, não? — Ah, Sr. Haytham — sussurrou, balançando a cabeça e com os olhos entristecidos —, o que você se tornou? Em que espécie de homem aquele tal de Birch transformou você? Colocar uma faca na garganta de uma senhora com idade avançada como eu já é ruim demais... Ora, isso é péssimo. Mas olhe para você agora, distribuindo dor e mais dor, acusando-me de ter tido um caso, de ser destruidora de lar. Não foi um caso. O Sr. Digweed tinha filhos, é verdade, que eram cuidados pela sua irmã em Herefordshire, mas a mulher dele morreu muitos anos antes mesmo de ele ir trabalhar na casa. O nosso não foi um caso como está pensando com sua mente suja. Estávamos apaixonados, e envergonhe-se, se está pensando o contrário. Envergonhe-se. — Balançou a cabeça novamente. Sentindo minha mão a apertar o cabo da espada, fechei bem os olhos. — Não, não, não sou eu quem deve se sentir culpado de alguma coisa aqui. Pode tentar ser presunçosa comigo o quanto quiser, mas o fato era que tinha algum tipo de relacionamento, qualquer que seja o tipo... não importa de que tipo, com Digweed, e ele nos traiu. Sem essa traição, meu pai estaria vivo. Minha mãe estaria viva, e eu não estaria sentado aqui com uma faca na sua garganta, portanto não me culpe por sua situação no momento, Betty. Culpe a ele. Ela inspirou fundo e se recompôs. — Ele não teve escolha — disse ela, finalmente. — Jack não teve. Ah, a propósito, era esse o nome dele: Jack. Você sabia disso? — Eu vou ler o nome do traidor na sepultura dele — sibilei —, e saber disso não faz a mínima diferença porque ele teve, sim, uma escolha, Betty. Se era uma escolha entre a cruz e a espada, não me importa. Ele teve uma escolha. — Não... o homem ameaçou os filhos de Jack. — “Homem”? Que homem? — Não sei. Um homem que falou primeiro com Jack na cidade. — Você o viu? — Não. — O que Digweed disse dele? Era da região sudoeste do país? — Sim, Jack disse que ele tinha sotaque. Por quê? — Quando os homens sequestraram Jenny, ela deu um grito de traidor. Violet, da casa vizinha, ouviu-a, mas no dia seguinte um homem com sotaque da região sudoeste veio falar com ela... para alertá-la para não contar a ninguém o que tinha ouvido. Região sudoeste. Betty empalidecera, eu vi. — O que foi? — vociferei. — O que foi que eu disse? — Foi Violet, senhor — arfou. — Não muito tempo após sua partida para a Europa... pode ter sido até no dia seguinte... ela foi morta em um assalto de rua. — Eles cumpriram sua palavra — comentei. — Olhei para ela. — Fale-me sobre o homem que deu ordens a Digweed — pedi. — Não sei de nada. Jack nunca falou sobre ele. Só que falava sério; se Jack não fizesse o que


mandassem, iriam atrás dos filhos dele e os matariam. Disseram que, se contasse ao patrão, eles iriam atrás dos seus meninos, os cortariam e matariam lentamente, tudo isso. Contaram para ele o que pretendiam fazer com a casa, mas juro pela minha vida, Sr. Haytham, que disseram que ninguém iria se ferir; que aconteceria tarde da noite. Algo me ocorreu. — Por que precisaram dele? Ela pareceu perplexa. — Ele nem estava lá na noite do ataque — continuei. — Não era porque precisassem de ajuda para entrar. Eles pegaram Jenny, mataram meu pai. Por que precisaram de Digweed para isso? — Não sei, Sr. Haytham — disse ela. — Realmente não sei. Quando olhei abaixo para ela, foi com uma espécie de dormência. Antes, quando estava esperando que a escuridão caísse, a raiva estivera fervilhando, borbulhando dentro de mim, a ideia da traição de Digweed acendendo uma fogueira debaixo da minha fúria, a ideia de que Betty havia conspirado, ou mesmo soubesse, acrescentando combustível a ela. Eu queria que ela fosse inocente. Mais do que tudo, queria que seu namoro fosse com outro membro da criadagem. Mas, se fosse com Digweed, então eu queria que ela nada soubesse de sua traição. Queria que ela fosse inocente, pois, se fosse culpada, teria de matá-la, pois, se podia ter feito alguma coisa para deter a matança daquela noite e não o fez, então teria de morrer. Isso era... isso era justiça. Tratava-se de causa e efeito. Débito e saldo. Olho por olho. E algo no qual eu acreditava. Aquela era minha ideologia. Um meio de negociar uma passagem pela vida que faz sentido mesmo quando a própria vida raramente faz. Um meio de impor ordem no caos. Mas a última coisa que eu queria era matá-la. — Onde ele está agora? — perguntei suavemente. — Não sei, Sr. Haytham. — Sua voz tremeu de medo. — A última vez que ouvi falar nele foi na manhã em que desapareceu. — Quem mais sabia que vocês eram amantes? — Ninguém — retrucou. — Sempre fomos muito cuidadosos. — Sem contar com deixar botas à vista. — Elas eram tiradas bruscamente. — Seu olhar endureceu. — E a maioria das pessoas não tem o hábito de bisbilhotar pelo buraco da fechadura. Seguiu-se uma pausa. — O que acontece agora, Sr. Haytham — perguntou com uma hesitação na voz. — Deveria matá-la, Betty — falei simplesmente, e, olhando em seus olhos, vi surgir nela a compreensão de que poderia fazê-lo, se quisesse; que era capaz de fazê-lo. Ela choramingou. Levantei-me. — Mas não vou matá-la. Já houve muitas mortes como resultado daquela noite. Não voltaremos a nos encontrar. Pelos seus anos de serviço e de criação, eu lhe dou sua vida como recompensa e lhe


deixo com sua vergonha. Adeus.


14 de julho de 1747 i Após negligenciar meu diário por quase duas semanas, tenho muito para contar e preciso recapitular, voltando direto para a noite em que visitei Betty. Após deixá-la, voltei para o alojamento, dormi por algumas horas intermitentes, então acordei, me vesti e peguei uma carruagem de volta até sua casa. Ali, pedi ao condutor que parasse a certa distância, perto o bastante para que eu visse, mas não perto o bastante para levantar suspeitas, e, enquanto ele tirava uma soneca, agradecido pelo descanso, fiquei sentado olhando pela janela e esperando. O quê? Não sabia ao certo. Mas, outra vez, ouvia meus instintos. E, outra vez, ele se revelou correto, pois, não muito após raiar o dia, Betty apareceu. Dispensei o condutor, a segui a pé e, realmente, ela seguiu para o posto dos Correios em Lombard Street, entrou, reapareceu alguns minutos depois, então voltou ao longo da rua até ser engolida pela multidão. Observei-a ir embora, sem nada sentir, nem a ânsia de segui-la e cortar sua garganta pela traição nem mesmo os vestígios do afeto que um dia tivemos. Simplesmente... nada. Em vez disso, me posicionei em um vão de porta e observei o mundo passar, afastando mendigos e vendedores de rua com leves golpes da minha bengala, enquanto esperei por talvez uma hora, até... Sim, lá estava ele — o carteiro, carregando seu sino e a bolsa repleta de cartas. Saí da porta e, girando a bengala, fui atrás, chegando cada vez mais perto, até ele entrar em uma via lateral onde havia menos pedestres, e percebi que era a minha chance... Momentos depois, eu estava ajoelhado ao lado de seu corpo sangrando e inconsciente, em um beco, vasculhando o interior de sua bolsa de cartas, e o encontrei — um envelope endereçado a “Jack Digweed”. Li o que ela escreveu — dizia que ela o amava e que eu havia descoberto o relacionamento deles; nada ali que eu já não soubesse —, mas não era o conteúdo da carta que me interessava, e sim o seu destino, e ali estava ele, na frente do envelope, indicando que ficava na Floresta Negra, em uma cidadezinha chamada St. Peter, não muito longe de Freiburg. Quase duas semanas de viagem depois, Reginald e eu vimos St. Peter à distância, um agrupamento de edificações aninhadas no fundo de um vale normalmente viçoso, com campos verdejantes e áreas com floresta. Isso foi esta manhã.

ii


Chegamos lá por volta do meio-dia, sujos e cansados da viagem. Trotando lentamente pelas ruas estreitas, labirínticas, vi os rostos virados dos habitantes, olhando de relance dos caminhos, ou afastando-se rapidamente das janelas, fechando portas e puxando cortinas. Tínhamos morte em nossas mentes e, na ocasião, achei que eles de alguma forma sabiam disso, ou talvez se apavorassem facilmente. O que não sabia era que não éramos os primeiros estranhos a entrar cavalgando na cidade naquela manhã. Os habitantes já estavam apavorados. A carta fora endereçada aos cuidados do armazém geral de St. Peter. Chegamos a uma pracinha, com uma fonte sombreada por castanheiras, e pedimos informações para uma nervosa habitante. Outros conservaram-se à distância, enquanto ela apontava o caminho e depois saía furtivamente, olhando para os sapatos. Momentos depois, estávamos amarrando nossos cavalos do lado de fora do armazém e, ao entrarmos, o único freguês olhou-nos e decidiu fazer as compras em outra ocasião. Reginald e eu trocamos um olhar confuso, então observei a loja. Altas estantes de madeira revestiam três lados, carregadas com jarras e pacotes amarrados com barbante, enquanto, ao fundo, havia um balcão atrás do qual estava o lojista, usando avental, um largo bigode e um sorriso que havia se apagado como uma vela gasta, ao dar uma boa olhada em nós. À minha esquerda, havia um conjunto de degraus usados para se alcançar as prateleiras mais altas. Sobre eles estava sentado um menino, com cerca de 10 anos, pela aparência, filho do lojista. Ele quase perdeu o equilíbrio, na afobação para sair apressadamente dos degraus, e parou no meio do pavimento, com as mãos soltas, esperando suas ordens. — Boa tarde, cavalheiros — disse o lojista em alemão. — Parece que andaram cavalgando por um longo tempo. Precisam de suprimentos para continuar a viagem? — Indicou um recipiente com torneira sobre o balcão diante dele. — Talvez precisem se refrescar. Uma bebida? Em seguida, acenou para o menino. — Christophe, esqueceu os bons modos? Tire os casacos dos cavalheiros... Havia três banquinhos diante do balcão e o lojista gesticulou em direção a eles, pedindo: — Por favor, por favor, sentem-se. Olhei novamente para Reginald, percebi que estava para se adiantar e aceitar a oferta de hospitalidade, e o detive. — Não, obrigado — falei para o lojista. — Meu amigo e eu não pretendemos ficar. — Com o canto do olho, vi os ombros de Reginald arquearem, mas ele nada disse. — Só precisamos de uma informação sua — acrescentei. Uma expressão cautelosa caiu sobre o rosto do lojista como uma cortina escura. — Sim? — perguntou ele, desconfiado. — Precisamos encontrar um homem. Seu nome é Digweed. Jack Digweed. Você o conhece? Ele balançou a cabeça. — Não o conhece mesmo? — pressionei. Novamente, a cabeça balançando. — Haytham... — disse Reginald, como se pudesse ler minha mente por causa do meu tom de voz.


Ignorei-o. — Tem toda a certeza disso? — insisti. — Tenho, sim, senhor — respondeu o lojista. Seu bigode tremeu nervosamente. Ele engoliu em seco. Senti meu maxilar endurecer; então, antes que alguém tivesse chance de reagir, saquei a espada e, estendendo o braço, encaixei a lâmina debaixo do queixo de Christophe. O menino arfou, ergueu-se na ponta dos pés, e seus olhos se agitaram quando a lâmina pressionou sua garganta. Eu não havia tirado os olhos do lojista. — Haytham... — disse novamente Reginald. — Deixe-me cuidar disso, por favor, Reginald — pedi, e me dirigi ao lojista: — As cartas de Digweed são enviadas aos cuidados deste endereço — afirmei. — Deixe-me perguntar novamente. Onde está ele? — Senhor — implorou o lojista. Seus olhos dispararam de mim para Christophe, que fazia uma série de ruídos baixinhos, como se estivesse tendo dificuldade de engolir. — Por favor, não machuque meu filho. Seu apelo passou despercebido. — Onde está ele? — repeti. — Senhor — pediu o dono. Suas mãos imploravam. — Não posso dizer. Com um leve movimento do punho, aumentei a pressão da lâmina sobre a garganta de Christophe e fui recompensado com uma lamúria. Com o canto do olho, vi o menino se erguer ainda mais na ponta dos pés e senti, mas não vi, o desconforto de Reginald do meu outro lado. O tempo todo, meus olhos não deixaram os do lojista. — Por favor, por favor, senhor — disse ele rapidamente, as mãos suplicantes se agitando no ar como se ele tentasse fazer malabarismo com um vidro invisível — Não posso dizer. Fui alertado a não fazê-lo. — Ahá — reagi. — Quem alertou você? Foi ele? Foi Digweed? — Não, senhor — insistiu o lojista —, não vejo o Sr. Digweed há semanas. Houve... alguém mais, mas não posso dizer... não posso dizer quem. Esses homens, eles falaram sério. — Mas acho que nós sabemos que eu também falo sério — afirmei, com um sorriso —, e a diferença entre nós é que estou aqui e eles não. Agora, diga-me. Quantos homens eram, quem eram e o que queriam saber? Seus olhos foram de mim para Christophe, o qual, apesar de bravo e estoico e demonstrando um tipo de firmeza sob pressão que eu esperaria do meu próprio filho, mesmo assim, choramingou novamente, o que deve ter feito o lojista mudar de ideia, pois seu bigode tremeu um pouco mais, então ele falou, rapidamente, as palavras saindo aos trambolhões. — Eles estiveram aqui, senhor — revelou. — Mais ou menos uma hora atrás. Dois homens com casacos compridos pretos sobre túnicas vermelhas do exército britânico, que entraram na loja exatamente como os senhores e perguntaram sobre o paradeiro do Sr. Digweed. Quando disse, sem


mesmo me preocupar, eles se tornaram ameaçadores, senhor, e me disseram que mais alguns homens talvez viessem à procura do Sr. Digweed, e, se viessem, eu deveria negar que o conhecia, sob pena de morrer, e não revelar que estiveram aqui. — Onde está ele? — Em uma cabana, uns 25 quilômetros ao norte daqui, no mato. Nem Reginald nem eu dissemos uma palavra. Ambos sabíamos que não tínhamos um minuto a perder e, sem parar para fazer mais ameaças, ou para nos despedir, ou talvez até mesmo para nos desculpar com Christophe por deixá-lo morrer de medo, partimos porta afora, desamarramos e montamos em nossos corcéis, e os esporeamos aos gritos. Cavalgamos o mais energicamente que ousamos por cerca de meia hora, até termos percorrido cerca de 12 quilômetros de pasto, o tempo todo morro acima, os nossos cavalos começando a ficar cansados. Chegamos a uma fileira de árvores, e descobrimos que se tratava de um estreito segmento de pinheiros e, ao chegar do outro lado, vimos uma faixa de árvores se estendendo em volta do cume de um morro de ambos os lados. Enquanto isso, à nossa frente, o solo se inclinava para mais mata, à distância, ondulando como um imenso cobertor verde, manchado de mais plantações, prados e campos. Descemos dos cavalos e peguei a luneta. Nossos cavalos resfolegaram, e vasculhei a área à nossa frente, deslizando a luneta da esquerda para a direita, loucamente a princípio, com a urgência levando a melhor sobre mim, o pânico tornando-me indiscriminado. No final das contas, precisei me forçar a ficar calmo, inspirando fundo várias vezes e controlando fortemente os olhos, e começando novamente, dessa vez movimentando a luneta lenta e metodicamente pela paisagem. Na minha cabeça, dividi o território em uma grade e fui de um quadrado a outro, voltando a ser sistemático e eficiente, voltando a deixar a lógica se encarregar e não a emoção. O silêncio de uma brisa leve e cantos de pássaros foi quebrado por Reginald. — Você teria feito? — Feito o quê, Reginald? Ele se referia a matar uma criança. — Matar o menino. Você teria feito isso? — Há pouco sentido em se fazer uma ameaça, se não vai cumpri-la. O lojista saberia, se eu estivesse fingindo. Teria visto em meus olhos. Teria descoberto. Reginald mudou desconfortavelmente de posição em sua sela. — Quer dizer, então, que sim? Sim, você o teria matado? — Exatamente, Reginald, eu o teria matado. Houve uma pausa. Completei o quadrado seguinte de terra, então o próximo. — Quando a morte de inocentes fez parte de seus ensinamentos, Haytham? — indagou ele. Bufei. — Só porque me ensinou a matar, Reginald, isso não lhe dá a palavra final sobre quem mato e com que finalidade.


— Eu lhe ensinei honra. Eu lhe ensinei um código. — Lembro a você, Reginald, a distribuição de sua própria justiça fora da White, todos esses anos. Aquilo foi honrado? Ele corou ligeiramente? Certamente mexeu-se desconfortavelmente sobre o cavalo. — O homem era um ladrão — justificou-se. — Os homens que procuro são assassinos, Reginald. — Ainda assim — rebateu, com um toque de irritação —, talvez o seu zelo esteja obscurecendo seu juízo. Novamente, bufei com desdém. — Isso vindo logo de você. Seu fascínio por Aqueles Que Vieram Antes está rigorosamente dentro da política templária? — Claro. — É mesmo? Tem certeza de que não andou negligenciando seus outros deveres em favor disso? Tem escrito cartas e redigido um diário e lido ultimamente, Reginald? — Muito — disse ele, indignado. — Que não estivessem relacionados Àqueles Que Vieram Antes — acrescentei. Por um momento, ele vociferou, parecendo um homem gordo de cara vermelha a quem tivessem dado a carne errada em um jantar. — Eu estou aqui agora, não estou? — Com certeza, Reginald — concordei, justamente quando avistei uma nuvem de fumaça sair do meio da mata. — Vejo fumaça sobre as árvores, possivelmente de uma cabana. Devemos seguir para lá. Ao mesmo tempo, houve um movimento não muito distante, em uma plantação de abetos, e vi um cavaleiro subindo à distância o morro mais adiante do nosso. — Olhe, Reginald, ali. Está vendo? Ajustei o foco. O cavaleiro estava de costas para nós, é claro, e longe, mas uma coisa que achei que consegui ver foram suas orelhas. Tinha certeza de que eram orelhas pontudas. — Vejo um homem, Haytham, mas onde está o outro? — perguntou Reginald. Já puxando as rédeas da minha montaria, falei: — Ainda está na cabana, Reginald. Vamos.

iii Passaram-se talvez mais vinte minutos até chegarmos. Vinte minutos durante os quais forcei minha égua ao limite, arriscando-a por entre as árvores e por cima de galhos derrubados pelo vento, deixando Reginald para trás enquanto corria para onde tinha visto a fumaça — para a cabana onde, tinha certeza, encontraria Digweed.


Vivo? Morto? Não sabia. Mas o lojista dissera que foram dois homens que estiveram à sua procura, e avistamos somente um deles, portanto estava ansioso para saber do outro. Teria ido na frente? Ou ainda estava na cabana? Ali estava ela, localizada no meio de uma clareira. Uma atarracada edificação de madeira, um cavalo amarrado do lado de fora, uma única janela na frente e colunas de fumaça saindo pela chaminé. A porta da frente estava aberta. Escancarada. Ao mesmo tempo que eu penetrava rapidamente na clareira, ouvi um grito, esporeei a montaria para a porta e saquei a espada. Com grande alarido, chegamos às tábuas na frente da casa e, da minha sela, estiquei o pescoço para ver a cena lá dentro. Digweed estava amarrado a uma cadeira, com os ombros caídos, a cabeça pendendo. O rosto era uma máscara de sangue, mas podia ver que seus lábios se mexiam. Estava vivo e, à sua frente, estava o segundo homem, segurando uma faca suja de sangue — uma faca com lâmina curva e serrilhada — e prestes a terminar o serviço. Prestes a cortar a garganta de Digweed. Eu nunca tinha usado minha espada como lança e, acredite em mim, esse está longe do uso ideal para uma delas, mas, naquele exato momento, minha prioridade era manter Digweed vivo. Eu precisava falar com ele e, além do mais, ninguém o mataria a não ser eu. Então a lancei. Era tudo que tinha tempo para fazer. E, embora meu lançamento tivesse tão pouca força quanto pontaria, ela atingiu o braço do esfaqueador no momento exato em que a lâmina baixou, e foi o bastante — o bastante para enviá-lo cambaleando para trás com um uivo de dor, enquanto eu me jogava para fora da montaria e pousava no assoalho interno da cabana, rolava adiante e, ao mesmo tempo, arrancava a minha espada curta. E isso fora o suficiente para salvar Digweed. Fiquei bem ao lado dele. Uma corda manchada de sangue mantinha seus braços e pernas amarrados à cadeira. As roupas estavam rasgadas e pretas de sangue; o rosto, inchado e sangrando. Os lábios continuavam se mexendo. Os olhos deslizaram preguiçosamente acima para me ver, e fiquei imaginando o que ele pensou naquele breve momento em que me viu. Teria me reconhecido? Teria sentido uma pontada de culpa ou um lampejo de esperança? Então meus olhos foram para a janela dos fundos, apenas para ver as pernas do esfaqueador desaparecerem por ela, ao se espremer para fora e cair com um baque surdo no chão. Segui-lo através da janela me deixaria em uma posição vulnerável — não estava disposto a ficar preso na armação, enquanto o esfaqueador teria todo o tempo do mundo para enfiar sua lâmina em mim. Portanto, em vez disso, corri para a porta da frente, dei a volta na clareira e comecei a perseguição. Reginald estava chegando. Ele avistara o esfaqueador, tinha uma visão dele melhor do que eu, e já fazia mira com seu arco. — Não o mate — berrei, justamente quando ele disparou, e gemeu de desagrado quando a flecha se afastou do alvo. — Maldito seja, eu o tinha na mira — gritou. — Ele agora está no mato.


Dei a volta para a frente da cabana a tempo, os pés chutando um tapete de agulhas de pinheiro seco, bem a tempo de ver o esfaqueador desaparecer no limite das árvores. — Preciso dele vivo, Reginald — gritei de volta para ele. — Digweed está na cabana. Mantenha-o em segurança até eu voltar. E, com isso, corri para as árvores, com as folhas e os galhos chicoteando meu rosto, enquanto eu estrondeava adiante, a espada curta na mão. À minha frente, avistei uma forma escura na folhagem, avançando ruidosamente e com tão pouca graça quanto eu. Ou, talvez, menos graça, pois eu o estava alcançando. — Você estava lá? — gritei para ele. — Estava na noite em que mataram meu pai? — Não tive esse prazer, garoto — gritou ele de volta sobre o ombro. — Como eu gostaria de ter estado. Mas fiz a minha parte. Fui eu que arranjei tudo. Claro. Ele tinha sotaque da região sudoeste. Agora, quem tinha sido descrito como tendo sotaque da região sudoeste? O homem que havia chantageado Digweed. O homem que ameaçara Violet e lhe mostrara uma faca medonha. — Pare e me enfrente — berrei. — Você, que gosta tanto do sangue Kenway, vejamos se consegue tirar o meu! Eu era mais ágil do que ele. Mais veloz, e, agora, estava mais perto. Ouvira o chiado em sua voz, quando gritou para mim, e era apenas uma questão de tempo até eu pegá-lo. Ele sabia disso, e, em vez de se cansar ainda mais, decidiu virar e lutar, saltando um último galho derrubado pelo vento, o que o levou a uma pequena clareira, com um movimento giratório, a faca curva na mão. A faca curva, serrilhada, de aparência “medonha”. Seu rosto era cinzento e terrivelmente esburacado, como se marcado por uma doença infantil. E respirava pesadamente, ao passar as costas da mão pela boca. Ele perdera o chapéu durante a perseguição, revelando um cabelo que se tornava grisalho cortado bem curto, e o casaco — preto, exatamente como o lojista descrevera — estava rasgado, se movendo aberto, revelando a túnica vermelha da farda. — Você é um soldado britânico — observei. — Essa é a farda que visto — escarneceu —, mas minhas alianças estão em outra parte. — É mesmo? Então a quem você jura lealdade? — indaguei. — Você é um Assassino? Ele balançou a cabeça. — Eu sou livre, garoto. Coisa que você só consegue sonhar em ser. — Já faz muito tempo que alguém me chamou de garoto — falei. — Você pensa que fez seu nome, Haytham Kenway. O matador. O espadachim Templário. Só porque matou alguns comerciantes gordos? Mas, para mim, você é um garoto. É um garoto, porque um homem enfrenta seus alvos, de homem para homem, não sai furtivo atrás dele na calada da noite, como uma cobra. — Fez uma pausa. — Como um Assassino. Começou a jogar a faca de uma mão para a outra. O efeito era quase hipnótico — ou, pelo menos, era nisso que eu o deixava acreditar. — Você acha que não sei lutar? — perguntei.


— Ainda precisa provar. — Aqui é um lugar tão bom quanto qualquer outro. Ele cuspiu e gesticulou com uma das mãos para eu avançar e rolou a lâmina na outra. — Venha, Assassino — incitou. — Venha ser um guerreiro pela primeira vez. Venha ver como é. Venha, garoto. Seja um homem. Isso supostamente era para me irritar, mas, em vez disso, me fez me concentrar. Precisava dele vivo. Precisava que confessasse. Saltei sobre o galho para o interior da clareira, balançando um pouco desordenadamente para empurrá-lo para trás, mas recuperando rapidamente a postura, antes que ele conseguisse pressionar à frente com seu contra-ataque. Por alguns momentos circundamos um ao outro, cada um esperando que o outro lançasse seu próximo ataque. Rompi o impasse investindo adiante, golpeando, em seguida recuando instantaneamente para minha guarda. Por um segundo, ele pensou que eu tivesse errado. Então sentiu o sangue começar a escorrer face abaixo, e levou a mão ao rosto, os olhos se arregalando de surpresa. O primeiro sangue foi tirado por mim. — Você me subestimou — observei. Seu sorriso dessa vez foi um pouco mais tenso. — Não haverá uma segunda vez. — Haverá — retruquei e avancei novamente, fintando em direção à esquerda, em seguida indo para a direita, quando seu corpo já havia se comprometido com a linha de defesa errada. Um talho foi aberto no seu braço livre. O sangue manchou a manga em farrapos e começou a pingar no chão da floresta, vermelho brilhante sobre agulhas verdes e marrons. — Sou melhor do que você imagina — falei. — Tudo o que você pode esperar mais adiante é morte... a não ser que confesse. A não ser que me conte tudo que sabe. Para quem você trabalha? Dancei adiante e dei um golpe, enquanto sua faca falhava descontroladamente. Sua outra face abriu-se. Havia agora duas listras vermelhas no couro marrom de seu rosto. — Por que meu pai foi morto? Avancei novamente e, dessa vez, cortei as costas da mão que segurava a faca. Se esperava que largasse a faca, então fiquei decepcionado. Se esperava lhe dar uma demonstração de minhas habilidades, foi exatamente o que fiz, e isso se revelou no seu rosto. Seu rosto agora ensanguentado. Ele já não sorria. Mas ainda havia nele disposição para luta e, quando avançou, foi com velocidade e facilidade, jogou a faca de uma das mãos para a outra, a fim de me desorientar, e quase fez contato. Quase. Talvez até tivesse conseguido — se já não tivesse me mostrado aquele truque em particular; se não tivesse diminuído a velocidade por causa dos ferimentos que eu havia lhe infligido. Por isso, abaixei-me facilmente sob sua lâmina e golpeei acima, enfiando a minha na lateral de seu corpo. Ele me xingou na hora. Eu o atingira forte demais, e no rim. Ele estava morto. A hemorragia interna o mataria em trinta minutos; mas ele poderia desmaiar no mesmo instante. Se


sabia ou não disso, eu não sei, pois estava vindo novamente para cima de mim com os dentes à mostra. Estes, notei, agora estavam cobertos de sangue, e me esquivei facilmente, agarrei seu braço, torci-o para o corpo e quebrei-o no cotovelo. O som que ele fez não foi tanto um grito, mas uma aflita inalação e, enquanto eu esmagava os ossos de seu braço, mais por efeito do que por qualquer objetivo útil, sua faca caiu no chão da floresta com um baque suave, e ele foi junto, mergulhando de joelhos. Larguei o braço, que desabou de modo frouxo, um saco de ossos quebrados e pele. Olhando para baixo, pude ver que o sangue já se esvaíra de seu rosto e, em volta de seu diafragma, espalhava-se uma mancha negra. Seu casaco formava uma poça no chão em volta dele. Debilmente, com a mão boa, apalpou o braço solto e mole, e, quando ergueu a vista para mim, havia algo de quase queixoso em seus olhos, algo patético. — Por que você o matou? — perguntei tranquilamente. Como água escapando de um cantil rachado, ele se encolheu até ficar deitado de lado. Tudo o que lhe dizia respeito agora era que estava morrendo. — Diga-me — pressionei, e me curvei para perto de onde ele agora jazia, com as agulhas de pinheiros grudando-se ao sangue em seu rosto. Ele já dava seus últimos suspiros na palha do chão da floresta. — Seu pai... — começou, então tossiu uma pequena porção de sangue, antes de prosseguir. — Seu pai não era um Templário. — Eu sei — falei asperamente. — Ele foi morto por isso? — Senti minha testa franzir. — Ele foi morto por se recusar a entrar para a Ordem? — Ele era um... um Assassino. — E os Templários o mataram? Eles o mataram por isso? — Não. Ele foi morto pelo que possuía. — O quê? — Inclinei-me ainda mais à frente, desesperado para escutar suas palavras. — O que ele possuía? Não houve resposta. — Quem? — perguntei, quase berrando. — Quem o matou? Mas ele estava ausente. A boca se abriu, os olhos tremularam e se fecharam, e, por mais que eu o esbofeteasse, ele se recusou a recuperar a consciência. Um Assassino. Meu pai era um Assassino. Rolei o corpo do esfaqueador, fechei os olhos arregalados e passei a esvaziar seus bolsos para o chão. Saíram a habitual coleção de moedas, como também alguns pedaços esfarrapados de papel, um dos quais desdobrei para descobrir que era um conjunto de documentos de alistamento. Eram de um regimento, da Coldstream Guards, para ser exato, um guinéu e meio para se alistar, e mais um xelim por dia. O nome do tesoureiro estava na papelada. Era o tenente-coronel Edward Braddock. E Braddock estava com seu exército na República Holandesa, lutando contra os franceses. Lembrei-me do homem de orelhas pontudas que, mais cedo, eu vira partir a cavalo. De repente,


soube aonde ele estava indo.

iv Virei-me e voltei ruidosamente pela floresta para a cabana, demorando apenas momentos. Do lado fora, havia três cavalos pastando pacientemente debaixo da reluzente luz do sol; dentro, estava escuro e frio, e Reginald se encontrava diante de Digweed, cuja cabeça pendia, enquanto ele continuava sentado, amarrado à cadeira, e percebi, no momento em que bati os olhos nele... — Está morto — falei simplesmente, e olhei para Reginald. — Tentei salvá-lo Haytham, mas a pobre alma já tinha ido embora. — Como? — perguntei bruscamente. — De seus ferimentos — rebateu Reginald. — Olhe para ele, homem. O rosto de Digweed era uma máscara de sangue coagulado. Suas roupas estavam endurecidas com isso. O esfaqueador o fizera sofrer, isso era mais do que certo. — Ele estava vivo, quando saí. — E estava vivo quando eu cheguei, maldito seja — esbravejou Reginald. — Pelo menos me diga que conseguiu algo dele. Sua vista baixou. — Antes de morrer, ele disse que sentia muito. Com um frustrado golpe da minha lâmina, atingi um copo sobre a lareira. — Isso foi tudo? Nada sobre a noite do ataque? Nenhum motivo? Nenhum nome? — Malditos sejam seus olhos, Haytham. Malditos sejam seus olhos, você acha que eu o matei? Você acha que percorri todo esse caminho, negligenciei meus outros deveres, só para ver Digweed morto? Eu queria encontrá-lo tanto quanto você. Eu o queria vivo tanto quanto você. Foi como se eu conseguisse sentir meu crânio inteiro endurecer. — Duvido muito disso — vociferei. — Bem, o que aconteceu com o outro? — perguntou Reginald de volta. — Morreu. Reginald adotou um olhar irônico. — Ah, entendo. E a culpa foi de quem, exatamente? Ignorei-o. — O assassino, ele conhecia Braddock. Reginald recuou. — É mesmo? Na clareira, eu tinha enfiado os papéis no bolso, e agora mostrava-os em um punhado, como a cabeça de uma couve-flor. — Aqui... seus documentos de alistamento. Era da Coldstream Guards, sob o comando de


Braddock. — Não é a mesma coisa, Haytham. Edward tem uma força de 1.500 homens, muitos deles alistados no campo. Tenho certeza de que cada homem desses tem um passado condenável e tenho certeza de que Edward sabe muito pouco a respeito disso. — Mesmo assim, uma coincidência, não acha? O lojista disse que ambos usavam o uniforme do exército britânico, e meu palpite é de que o cavaleiro que vimos está a caminho dele agora. Ele tem... o quê? Uma hora à nossa frente? Não ficarei muito atrás. Braddock está na República Holandesa, não é? É para onde está seguindo. De volta a seu general. — Tome cuidado, Haytham — disse Reginald. O aço insinuou-se em seus olhos e em sua voz. — Edward é meu amigo. — Jamais gostei dele — confessei, com um toque de petulância infantil. — Ora, puxa! — explodiu Reginald. — Uma opinião formada por você, quando menino, porque Edward não lhe mostrou a deferência à qual estava acostumado... porque, devo acrescentar, ele estava fazendo o máximo possível para levar os assassinos de seu pai à justiça. Deixe-me lhe dizer uma coisa, Haytham, Edward serve à Ordem, é um criado bom e fiel e sempre tem sido. Virei-me para ele, e esteve na ponta da língua, para lhe dizer: “Mas meu pai não era um Assassino?”, quando me detive. Algum... pressentimento ou instinto... difícil dizer o quê... fez com que decidisse guardar essa informação para mim mesmo. Reginald me viu fazer isso... Viu as palavras se acumularem atrás dos meus dentes e viu até mesmo a mentira em meus olhos. — O criminoso — pressionou — disse mais alguma coisa? Você conseguiu arrancar mais alguma informação dele antes que morresse? — Apenas tanto quanto você conseguiria arrancar de Digweed — retruquei. Havia um pequeno fogão em uma extremidade da cabana e, perto dele, um cepo, onde encontrei parte de um pão, que enfiei no bolso. — O que está fazendo? — perguntou Reginald. — Conseguindo o máximo de provisões para a minha cavalgada, Reginald. Havia também uma tigela com maçãs. Precisava delas para minha montaria. — Pão mofado? Algumas maçãs? Não é o suficiente, Haytham. Pelo menos volte à cidade para pegar suprimentos. — Não há tempo, Reginald — aleguei. — E, de qualquer modo, a caçada será curta. Ele está apenas um pouco à frente e não sabe que está sendo perseguido. Com sorte, poderei alcançá-lo antes de precisar de suprimentos. — Podemos arranjar comida pelo caminho. Posso ajudá-lo. Mas o impedi. Eu ia sozinho, disse, e antes que ele pudesse argumentar montei na minha égua e a coloquei na direção em que tinha visto o homem de orelhas pontudas seguir, com uma grande esperança de conseguir alcançá-lo em breve. Ela, porém, foi frustrada. Cavalguei arduamente, mas, no final, a escuridão baixou; tornara-se


muito perigoso continuar e eu arriscava machucar minha montaria. Em todo o caso, ela estava exausta e, com relutância, decidi parar e deixar que descansasse por algumas horas. E, ao me sentar aqui, para escrever, me pergunto por que motivo, após todos esses anos em que Reginald foi como um pai para mim, mentor, tutor e guia, decidi cavalgar sozinho? E por que ocultei dele o que havia descoberto sobre meu pai? Eu mudei? Ele mudou? Ou aquele vínculo que antes nos uniu mudou? A temperatura caiu. Minha égua — e me parece apenas correto que eu lhe desse um nome e, assim, em homenagem à maneira como começava a esfregar o focinho em mim quando queria uma maçã, dei-lhe o nome de Scratch — estava ali perto, com os olhos fechados, e parecia contente, e eu escrevia meu diário. Pensei sobre o que Reginald e eu falamos. Fiquei imaginando se ele tinha razão em questionar o homem que eu me tornara.


15 de julho de 1747 Acordei de manhã cedo, assim que clareou, apaguei as brasas fracas da minha fogueira e montei em Scratch. A caçada continuou. Enquanto cavalgava, meditava sobre as possibilidades. Por que Orelhas Pontudas e o esfaqueador se separaram? Teriam a intenção de viajar à República Holandesa e se juntar a Braddock? Orelhas Pontudas estaria esperando que o colega o alcançasse? Não tinha como saber. Podia apenas esperar que, qualquer que fosse o plano deles, o homem que ia à minha frente não fazia ideia de que eu o perseguia. Mas, se não sabia — e como poderia saber? —, por que eu não o alcançava? E eu cavalgava depressa mas constantemente, ciente de que chegar a ele depressa demais seria tão desastroso quanto não alcançá-lo. Após uns 45 minutos, cheguei a um lugar onde ele havia descansado. Se tivesse forçado Scratch um pouco mais, eu o teria perturbado, o apanhado de surpresa? Ajoelhei-me para sentir o esmaecido calor de sua fogueira. À esquerda, Scratch farejou algo no chão, um pedaço de salsicha jogado fora, e meu estômago roncou. Reginald estava certo. Minha presa estava muito mais equipada para a viagem do que eu, com minha metade de um pão e maçãs. Amaldiçoei a mim mesmo por não ter vasculhado os alforjes de seu companheiro. — Vamos, Scratch — chamei. — Vamos lá, menina. Cavalguei o restante do dia, e a única vez que diminuí a velocidade foi quando tirei a luneta do bolso e observei o horizonte à procura de sinais da caça. Ele continuava à minha frente. Frustrantemente à minha frente. O dia todo. Até que, quando a luz começou a esmorecer, passei a me preocupar que o tivesse perdido completamente. Minha única esperança era estar certo quanto ao seu destino. No fim, não tive escolha, a não ser descansar de novo e encerrar o dia, montar acampamento, fazer uma fogueira, deixar que Scratch descansasse e rezar para que não tivesse perdido o rastro. E, ao me sentar ali, fiquei imaginando, por que não consegui alcançá-lo?


16 de julho de 1747 i Quando acordei esta manhã, tive um lampejo de inspiração. Claro. Orelhas Pontudas era do exército de Braddock, que tinha se juntado às forças comandadas pelo príncipe de Orange, na República Holandesa, onde Orelhas Pontudas deveria estar. O motivo de sua pressa era porque... Porque ele se ausentara e estava correndo para voltar, provavelmente antes que sua ausência fosse descoberta. O que significava que sua presença na Floresta Negra não fora sancionada oficialmente. O que significava que Braddock, como seu tenente-coronel, não sabia disso. Ou provavelmente não sabia. Sinto muito, Scratch. Mais uma vez, fiz com que ela cavalgasse arduamente — seria seu terceiro dia sucessivo — e notei o cansaço nela, a fadiga que diminuía a velocidade. Mesmo assim, passouse apenas cerca de meia hora até chegarmos ao resto do acampamento de Orelhas Pontudas e, dessa vez, em vez de parar para examinar as cinzas, incitei Scratch, e só deixei que descansasse no topo do morro seguinte, onde paramos. Apanhei a luneta e observei a área à nossa frente, quadro a quadro, centímetro a centímetro — até avistá-lo. Ali estava ele, uma pequenina mancha cavalgando acima o morro diante de nós, engolido por um ajuntamento de árvores enquanto eu observava. Onde estávamos? Não sabia se já tínhamos ou não passado a fronteira e entrado na República Holandesa. Havia dois dias que eu não via outra pessoa, só ouvira o som de Scratch e o da minha própria respiração. Isso logo mudaria. Esporeei Scratch e, vinte minutos depois, entrava no mesmo arvoredo no qual minha caça havia desaparecido. A primeira coisa que vi foi uma carroça abandonada. Perto, com moscas rastejando sobre olhos sem vida, estava o corpo de um cavalo, uma visão que fez Scratch recuar ligeiramente, sobressaltada. Assim como eu, estava acostumada à solidão: apenas nós, as árvores, os pássaros. Ali, de repente, pairava a feia lembrança de que, na Europa, ninguém nunca está longe de conflitos, de guerra. Cavalgamos um pouco mais devagar agora, com cuidado por entre as árvores e quaisquer outros obstáculos que pudéssemos encontrar. Seguindo em frente, tinha cada vez mais folhagem enegrecida, quebrada ou pisoteada. Houve alguma ação ali, isso era certo: comecei a avistar corpos de homens, membros espalhados e olhos esbugalhados, mortos, sangue preto e lama tornando anônimos os cadáveres, apesar dos vistosos uniformes — o branco do Exército francês, o azul do holandês. Vi mosquetes quebrados, baionetas e espadas rachadas, qualquer coisa ainda útil já tendo sido recuperada. Quando surgi da fileira de árvores, estávamos em um campo, o campo de batalha, onde jaziam ainda mais corpos. Evidentemente, tinha sido apenas um pequeno combate, pelos padrões de guerra, mas, mesmo assim, era como se a morte estivesse por toda parte.


Há quanto tempo isso ocorrera, não podia dizer com certeza: tempo suficiente para o campo de batalha ter sido saqueado, mas não o bastante para os corpos terem sido removidos. Calculo que aconteceu no dia anterior, a julgar pelo estado dos cadáveres e o cobertor de fumaça que ainda pendia sobre o pasto — uma espécie de mortalha, como a neblina da manhã, mas com o pesado e ainda pronunciado cheiro de pólvora. Ali a lama era mais grossa, e se movimentava com os cascos de cavalos e pés, e, quando Scratch começou a se esforçar para passar, puxei as rédeas, desviando-a para o lado, na tentativa de nos levar para dar a volta pelo limite do campo. Então, quando ela tropeçou na lama e quase me jogou no chão por cima de seu pescoço, avistei o Orelhas Pontudas adiante. A distância entre nós era a do comprimento do campo, talvez uns oitocentos metros, um borrão, uma figura quase indistinta que também batalhava no terreno grudento. Seu cavalo devia estar tão exausto quanto o meu, porque ele desmontou e tentava puxá-lo pelas rédeas, e suas reclamações percorriam o campo em vão. Peguei a luneta para ter uma melhor visão dele. A última vez que o vira de perto tinha sido doze anos atrás, e ele usava máscara, então me peguei imaginando — até mesmo esperando — que na primeira vez que o olhasse adequadamente pudesse ter algum tipo de revelação. Será que o reconheceria? Não. Ele era apenas um homem envelhecido e grisalho, como fora seu parceiro, sujo e exausto da cavalgada. Olhando-o agora não tive nenhuma sensação de reconhecimento imediato. Nada combinava com nada. Era apenas um homem, um soldado britânico, igual àquele que eu matara na Floresta Negra. Eu o vi esticar o pescoço ao olhar através da névoa para mim. Do casaco, tirou a própria luneta e, por um momento, nós nos observamos por meio de nossos telescópios, então observei-o correr até o focinho de seu cavalo e, com vigor renovado, dar puxões nas rédeas, ao mesmo tempo que dava olhares de relance para trás pelo campo, na minha direção. Ele me reconheceu. Ótimo. Scratch havia recuperado o apoio e puxei-a para onde o solo era um pouco mais firme. Finalmente, conseguimos fazer algum progresso. À minha frente, Orelhas Pontudas se tornava mais visível, e eu conseguia notar o esforço em seu rosto, enquanto puxava o próprio cavalo, depois vi que ele se dava conta de que estava atolado, e eu me aproximava cada vez mais e poderia cair sobre ele em questão de minutos. Então ele fez a única coisa que podia. Largou as rédeas e começou a correr. Ao mesmo tempo, a beirada à nossa volta terminou bruscamente e, mais uma vez, Scratch sentiu dificuldade para se apoiar. Com um rápido e sussurrado “obrigado”, saltei de cima dela para persegui-lo a pé. O esforço dos últimos dias me atingiu em uma velocidade que ameaçou me subjugar. A lama tomava minhas botas, tornando cada passo não como o passo dado em uma corrida, mas como se atravessasse um brejo, e a respiração arranhava o pulmão, como se eu estivesse inalando saibro. Cada músculo gritava comigo em protesto e dor, implorando para que eu não prosseguisse. Conseguia apenas esperar que meu amigo à frente estivesse tendo a mesma dificuldade, talvez até maior, porque a única coisa que me impulsionava, a única coisa que mantinha minhas pernas


bombeando e o peito puxando respirações irregulares era saber que eu conseguia diminuir a distância entre nós. Ele olhou para trás e eu estava perto o suficiente para ver seus olhos arregalados de medo. Ele agora não usava máscara. Nada para se esconder. Apesar da dor e exaustão, sorri para ele, morrendo de sede, sentindo os lábios secos, recuando sobre os dentes. Ele continuou avançando, grunhindo com o esforço. Tinha começado a chover, uma garoa que dava ao dia uma camada extra de névoa, embora estivéssemos presos dentro de uma paisagem colorida a carvão. Novamente, ele arriscou uma olhada para trás e viu que agora eu estava ainda mais perto; dessa vez, parou e desembainhou a espada, que segurou com as mãos, e os ombros caíam e ele respirava pesadamente. Parecia exausto. Parecia um homem que passara dia após dia cavalgando intensamente e dormindo pouco. Parecia um homem esperando para ser derrotado. Mas eu estava errado: ele me atraía adiante e, como um idiota, caí direitinho, e, no instante seguinte, cambaleava à frente, caindo literalmente, quando o chão cedeu e eu me arrastei direto para uma enorme poça de lama grossa e pegajosa que me deteve de imediato. — Oh, Deus — exclamei. Meus pés desapareceram, depois os tornozelos e, quando menos esperava, estava atolado até os joelhos, balançando desesperadamente as pernas, tentando puxá-las e libertá-las, enquanto, ao mesmo tempo, apoiava-me com uma das mãos no solo mais firme ao redor, tentando manter a espada erguida com a outra. Meus olhos foram para o Orelhas Pontudas, e agora era a sua vez de rir, ao avançar e descer a espada com as mãos em um golpe cortante, com bastante força, mas desajeitado. Com um bramido de esforço e um girar do aço, enfrentei e aparei o golpe, enviando-o alguns passos para trás. Então, enquanto ele perdia o equilíbrio, livrei um dos pés da lama e a bota, e vi minha meia branca, suja como estava, parecendo brilhante em comparação com a imundície em volta. Percebendo sua vantagem sendo desperdiçada, Orelhas Pontudas avançou de novo, agora golpeando adiante com a espada, e me defendi uma, depois duas vezes. Por um segundo, houve apenas o som de aço colidindo, de grunhidos e a chuva, então mais forte, correndo para dentro da lama, e eu, silenciosamente, agradecendo a Deus pela disposição do homem que eu caçava ter se exaurido. Ou não? Finalmente, ele se deu conta de que eu seria derrotado mais facilmente se fosse para trás de mim, mas percebi o que passava pela sua cabeça e ataquei com a espada, acertando-o no joelho, logo acima da bota, e fazendo-o cair estatelando-se para trás, uivando de agonia. Com um grito de dor e indignidade, ele se levantou, motivado talvez pela afronta de que a vitória não estava lhe sendo oferecida com mais facilidade, e me deu um chute com o pé da perna boa. Peguei-o com a outra mão e o torci com o máximo de força possível, o bastante para jogá-lo girando e se esparramando de cara na lama. Ele tentou rolar o corpo, mas estava lento demais, ou tonto demais, e o furei com a espada de


cima para baixo, enfiando-a através de sua coxa, direto até o chão, deixando-o espetado ali. Ao mesmo tempo, usei o cabo como apoio e, em um impulso, me livrei da lama, deixando a outra bota para trás. Orelhas Pontudas berrou e se contorceu, mas estava preso ao chão pela espada que saía da perna. Meu peso sobre ele, ao usar a espada como alavanca para me arrastar para fora da lama, devia estar sendo insuportável, e ele guinchou de dor e seus olhos se reviraram. Mesmo assim, ele agitou loucamente a espada, e eu estava desarmado, de modo que, ao escorregar sobre ele como um peixe perversamente jogado em terra, a lâmina me atingiu do lado do pescoço, abrindo um corte e deixando escorrer o sangue que provocou uma sensação de calor na minha pele. Minhas mãos foram para a sua e, de repente, estávamos brigando pela espada. Grunhindo e praguejando, lutamos, quando ouvi alguma coisa vindo de trás — algo que era certamente o som de pés se aproximando. Em seguida, vozes. Alguém falando holandês. Amaldiçoei. — Não — disse uma voz, e me dei conta de que era eu. Ele também deve ter ouvido. — Você chegou tarde demais, Kenway — rosnou ele. O ruído de pés atrás de mim. A chuva. Meus próprios gritos ao berrar “Não, não, não” quando uma voz atrás de mim disse, em inglês: — Você aí. Pare imediatamente. E me desvencilhei de Orelhas Pontudas, socando a lama molhada com frustração, enquanto me ajeitava, ignorando o som de sua gargalhada áspera e recortada, ao me levantar para enfrentar os soldados que surgiram do meio da névoa e da chuva, tentando parecer o mais alto possível, quando declarei: — Meu nome é Haytham Kenway, e sou aliado do tenente-coronel Edward Braddock. Exijo que esse homem seja colocado sob minha custódia. A gargalhada seguinte que ouvi, não tenho certeza se partiu de Orelhas Pontudas, que continuava imóvel, preso ao chão, ou talvez de alguém do pequeno grupo de soldados que se materializou diante de mim, como aparições vindas do campo. Do comandante, vi um bigode, uma imunda jaqueta molhada com duas fileiras de botões e enfeitada com galões encharcados que um dia tinham sido dourados. Eu o vi erguer algo — que pareceu lampejar pela minha linha de visão — e me dei conta de que ele me agredia com o cabo da espada, um instante antes de fazer contato, e perdi a consciência.

ii Não fazem com que um homem que vai morrer perca a consciência. Não seria nobre. Nem mesmo em um exército comandado pelo tenente-coronel Edward Braddock.


Então a coisa seguinte que senti foi água fria estapeando meu rosto — ou foi a palma de uma mão no meu rosto? De qualquer modo, me acordaram rudemente e, quando meus sentidos voltaram, levei um instante imaginando quem eu era, onde estava... E por que havia um laço de forca no meu pescoço. E por que meus braços estavam amarrados para trás. Estava na extremidade de uma plataforma. À esquerda, havia quatro homens, também, como eu, com laços nos pescoços. Enquanto eu observava, o homem mais distante à esquerda teve uma contração e se sacudiu, os pés chutando o ar. Um ofegar surgiu diante de mim e me dei conta de que tínhamos uma plateia. Não estávamos mais no campo de batalha, mas em alguma pastagem menor onde os homens haviam se reunido. Usavam as cores do Exército britânico e os chapéus de pele de urso da Coldstream Guards, e seus rostos estavam pálidos. Estavam ali por resignação, era claro, forçados a observar, enquanto o pobre infeliz do fim da linha dava os últimos chutes, com a boca aberta e a ponta da língua sangrando por ter sido mordida, saliente, e o queixo agitando-se na tentativa de engolir ar. Ele continuou a se contorcer e chutar, o corpo sacudindo o cadafalso, que tinha a mesma extensão da plataforma sobre nossas cabeças. Olhei acima e vi meu nó atado a ela, baixei os olhos para o banquinho de madeira no qual me encontrava, e vi meus pés, com meias. Houve silêncio. Apenas o som do homem sendo enforcado morrendo, o ranger da corda e a queixa do cadafalso. — É isso que acontece com quem é ladrão — berrou o carrasco, apontando para ele, em seguida caminhando pela plataforma em direção ao segundo homem, bradando para a multidão imóvel: — Você vai encontrar o seu criador na ponta de uma corda, ordens do tenente-coronel Braddock. — Eu conheço Braddock — gritei de repente. — Onde está ele? Tragam-no aqui! — Cale essa boca, você! — vociferou o carrasco, o dedo apontando, enquanto ao mesmo tempo seu assistente, o homem que tinha jogado água no meu rosto, aproximou-se pela minha direita e me estapeou novamente, só que, dessa vez, não foi para eu recuperar meus sentidos, mas para me silenciar. Rosnei e me debati, com a corda prendendo minhas mãos, mas não muito vigorosamente, não o suficiente para perder o equilíbrio e cair do banquinho sobre o qual estava perigosamente colocado. — Meu nome é Haytham Kenway — berrei, a corda afundando no pescoço. — Eu disse “Cale essa boca!” — rugiu o carrasco uma segunda vez e, novamente, seu assistente me bateu, com tanta força que quase me derrubou do banquinho. Pela primeira vez prestei atenção no soldado imediatamente à minha esquerda e percebi quem era. Orelhas Pontudas. Ele tinha em volta da coxa uma bandagem que estava negra de sangue. Olhou-me com olhos turvos, sombrios, com um sorriso lento, piegas, no rosto. Agora o carrasco tinha chegado ao segundo homem da fila. — Este homem é um desertor — bradou. — Deixou seus companheiros para morrer. Homens como vocês. Ele deixou vocês para morrer. Digam-me, qual deve ser o castigo dele?


Sem muito entusiasmo, os homens gritaram de volta: — Enforque-o. — Vocês é que mandam — sorriu o carrasco, e deu um passo para trás, plantou o pé na parte baixa das costas do condenado e empurrou, saboreando a reação de revolta dos homens que observavam. Tentei não pensar na dor da pancada do assistente na minha cabeça e continuei a me contorcer no exato momento em que o carrasco alcançou o homem seguinte, fazendo a mesma pergunta à multidão, recebendo a mesma resposta, submissa, em seguida empurrando o pobre infeliz para a morte. A plataforma estremeceu e balançou quando os três homens se sacudiram nas extremidades de suas cordas. Acima da minha cabeça, o cadafalso rangeu e gemeu e, olhando para cima, vi juntas brevemente se separarem antes de voltarem a se juntar. Em seguida, o carrasco chegou a Orelhas Pontudas. — Este homem... este homem desfrutou uma pequena estadia na Floresta Negra e pensou que conseguiria voltar sorrateiramente, sem ser notado, mas se enganou. Digam-me, de que modo deve ser castigado? — Enforque-o — murmurou a multidão sem qualquer entusiasmo. — Acham que ele deve morrer? — berrou o carrasco. — Sim — respondeu a multidão. Mas vi alguns homens balançarem discretamente a cabeça, e havia outros, bebendo de cantis de couro, que pareciam bem felizes com tudo aquilo, da maneira como alguém pareceria se estivesse sendo subornado com cerveja. Aliás, seria essa a razão da aparente letargia de Orelhas Pontudas? Ele continuava sorrindo, mesmo quando o carrasco foi para trás e plantou o pé na parte de baixo de suas costas. — Está na hora de enforcar um desertor! — gritou, e empurrou, ao mesmo tempo que eu gritava “Não!” e movimentava minhas amarras, tentando desesperadamente me soltar. — Não, ele deve permanecer vivo! Onde está Braddock? Onde está o tenente-coronel Edward Braddock? O assistente do carrasco surgiu diante dos meus olhos, sorrindo por trás de uma barba tosca e com apenas um dente na boca. — Não ouviu o homem? Ele disse “Cale essa boca” — e recuou o punho para me socar. Ele não teve essa chance. Minhas pernas saltaram para fora, derrubaram o banquinho e, no instante seguinte, estavam presas em volta do pescoço do assistente, cruzadas — e apertando-o. O homem gritou. Apertei com mais força. O grito dele se transformou em uma asfixia estrangulada e seu rosto começou a enrubescer, enquanto as mãos iam para minhas panturrilhas, tentando afastar minhas pernas. Movimentei-me de um lado para o outro, sacudindo-o como um cachorro com uma presa na mandíbula, quase derrubando-o, forçando os músculos da minha coxa, ao mesmo tempo que tentava livrar o peso do laço no pescoço. Entretanto, a meu lado, Orelhas Pontudas agitava-se na ponta de sua corda. A língua saiu por entre os lábios e seus olhos leitosos se


arregalaram, como se estivessem prestes a saltar da cabeça. O carrasco tinha ido para a outra ponta da plataforma, onde puxava as pernas dos enforcados para se certificar de que estavam mortos, mas a confusão na outra ponta chamou sua atenção e ele ergueu a vista para ver o assistente preso na perversa chave de perna e veio disparado pela plataforma na nossa direção, praguejando, ao mesmo tempo que alcançava sua espada para desembainhá-la. Com uma concentração de esforço, torci o corpo e puxei as pernas com força, carregando o assistente comigo e, por algum milagre de timing, o corpo se chocou com o do carrasco quando este chegou. Com um grito, ele caiu desordenadamente da plataforma. Na nossa frente, os homens estavam parados, boquiabertos com o choque, nenhum deles se mexendo para se envolver. Pressionei ainda mais as pernas e fui recompensado com um som de estalido e trituração que veio do pescoço do assistente. Começou a sair sangue de seu nariz. A força que fazia sobre meus braços começou a relaxar. Novamente, girei. Novamente me esforcei, e meus músculos protestaram, e deilhe um puxão, dessa vez para o outro lado, onde o bati com força no cadafalso. O cadafalso oscilando, rangendo e quebrando. Ele rangeu e reclamou ainda mais. Com um esforço final — não me restava mais força e, se aquilo não funcionasse, então era ali que eu morreria —, golpeei outra vez o cadafalso com o homem e, dessa vez, finalmente, ele cedeu. Ao mesmo tempo que comecei a me sentir apagar, como se um véu negro fosse estendido na minha mente, senti a pressão em meu pescoço relaxar de repente, quando o suporte desabou ruidosamente diante da plataforma, a trave tombou, e então a própria plataforma cedeu com o repentino peso de homens e madeira, caindo sobre si mesma com o lascar e despedaçar de madeira se desintegrando. Meu último pensamento, antes de perder a consciência, foi, Por favor, deixem-no viver , e minhas primeiras palavras, ao recobrar os sentidos no interior da tenda onde agora eu estava deitado, foram: — Ele está vivo?

iii — Ele quem? — perguntou o médico, que tinha um bigode de aparência distinta e um sotaque que sugeria que tinha tido um nascimento mais eminente do que o da maioria. — O homem de orelhas pontudas — respondi, e tentei me levantar, só para descobrir sua mão em meu peito forçando-me a ficar deitado. — Receio não fazer a menor ideia do que está falando — disse ele, não de modo indelicado. — Soube que você é conhecido do tenente-coronel. Talvez ele seja capaz de lhe explicar tudo quando chegar pela manhã. Deste modo, estou agora aqui sentado, escrevendo sobre os acontecimentos do dia e esperando minha audiência com Braddock...


17 de julho de 1747 Ele parecia uma versão maior e mais vistosa de seus homens, com todo o significado que sua posição implicava. As brilhantes botas pretas iam até o joelho. Usava uma sobrecasaca com enfeites brancos sobre uma túnica escura toda abotoada, um lenço branco no pescoço, e, em um grosso cinturão de couro marrom na cintura, pendia sua espada. O cabelo estava puxado para trás e amarrado com uma fita preta. Ele jogou o chapéu sobre uma mesinha ao lado da cama onde eu estava deitado, pôs as mãos nos quadris e fitou-me com aquele intenso olhar frio que eu conhecia bem. — Kenway — disse ele simplesmente —, Reginald não mandou me avisar que você vinha se juntar a mim. — Foi uma decisão de momento, Edward — aleguei, me sentindo jovem de repente em sua presença, quase intimidado. — Entendo — rebateu. — Pensou que podia simplesmente aparecer, não é mesmo? — Há quanto tempo estou aqui? — perguntei. — Quantos dias se passaram? — Três — respondeu Braddock. — O Dr. Tennant estava preocupado que você pudesse ficar com febre. De acordo com ele, um homem debilitado talvez não tenha condições de combatê-la. Tem sorte por estar vivo, Kenway. Não é todo homem que consegue escapar do cadafalso e da febre. Felizmente para você, também, fui informado de que um dos homens que seriam enforcados chamava por mim pessoalmente; caso contrário, meus homens talvez tivessem terminado o trabalho. Você viu como castigamos os malfeitores. Coloquei a mão no pescoço, que estava enfaixado por causa da luta com Orelhas Pontudas, e ainda doía da queimadura provocada pela corda. — Sim, Edward, tive uma experiência em primeira mão de como trata seus homens. Braddock suspirou, com um gesto dispensou o Dr. Tennant, que se retirou, fechando as abas da tenda ao sair; em seguida, sentou-se pesadamente, colocando uma das botas sobre a cama como se fixasse sua alegação sobre ela. — Não são meus homens, Kenway. Mas criminosos. Você nos foi entregue pelos holandeses na companhia de um desertor, um homem que havia se ausentado com um companheiro. Naturalmente, acharam que você era o tal companheiro dele. — E que fim levou ele, Edward? O que aconteceu com o homem que estava comigo? — É o homem por quem esteve perguntando, não é? O tal sobre o qual o Dr. Tennant me falou que você estava especialmente interessado, um... como foi que disse? “Um homem com orelhas pontudas”? — Ele não conteve um tom de escárnio na voz, ao dizer isso. — Esse homem, Edward... ele estava na noite do ataque à minha casa. É um dos homens que estivemos procurando nos últimos doze anos. — Olhei-o fixamente. — E descobri que ele estava


alistado no seu exército. — De fato... no meu exército. E daí? — Uma coincidência, não acha? Braddock sempre teve uma expressão séria, mas então ela ficou mais carregada. — Por que não esquece as insinuações, rapaz, e me diz o que realmente passa pela sua cabeça? A propósito, onde está Reginald? — Deixei-o na Floresta Negra. Sem dúvida, agora deve estar a meio caminho de casa. — Para continuar sua pesquisa sobre mitos e contos folclóricos? — comentou Braddock com um movimento desdenhoso dos olhos. Esse seu gesto me fez sentir estranhamente fiel a Reginald e suas pesquisas, apesar das minhas próprias apreensões. — Reginald acredita que, se conseguirmos desvendar os segredos do depósito, a Ordem será a mais poderosa desde as Guerras Santas, talvez para sempre. Teríamos o equilíbrio para governar completamente. Ele deu um olhar ligeiramente cansado, desgostoso. — Se você acredita mesmo nisso, então é igualmente insensato e idealista. Não precisamos de mágica e truques para convencer as pessoas de nossa causa, precisamos de aço. — Por que não usar ambos? — argumentei. Ele inclinou-se à frente. — Porque um deles é uma perfeita perda de tempo, eis o porquê. Olhei em seus olhos. — Talvez. De qualquer modo, não creio que a melhor maneira de se conquistar corações e mentes dos homens seja executando pessoas, não acha? — Novamente. Escória. — E ele teve de ser morto? — O seu amigo com... desculpe, como é mesmo? ... “orelhas pontudas”? — Sua zombaria não significa nada para mim, Edward. Sua zombaria significa para mim o mesmo que seu respeito, que é nulo. Pode achar que me tolera apenas por causa de Reginald... Pois bem, posso lhe assegurar que o sentimento é inteiramente mútuo. Agora, diga-me, o homem de orelhas pontudas, ele está morto? — Ele morreu no cadafalso, Kenway. Teve a morte que merecia. Fechei os olhos e, por um segundo, fiquei ali, alheio a quase tudo, exceto ao meu próprio... o quê? Uma espécie de mistura miserável e fervente de dor, raiva e frustração; de desconfiança e dúvida. Atento também ao pé de Braddock na minha cama e desejando que pudesse atacá-lo com uma espada e retirá-lo da minha vida para sempre. Aquele era seu modo de pensar, não era mesmo? Mas não era o meu. — Então ele esteve lá naquela noite, não? — indagou Braddock, e teria havido um ligeiro tom de zombaria em sua voz? — Ele foi um dos responsáveis pela morte de seu pai, e todo esse tempo ele esteve entre nós e nunca soubemos. Uma amarga ironia, não é o que você diria, Haytham?


— Realmente. Uma ironia ou uma coincidência? — Cuidado, rapaz, saiba que Reginald não está aqui agora para livrá-lo de encrenca. — Como era o nome dele? — Assim como milhares de homens em meu exército, o nome dele era Tom Smith... Tom Smith, do interior; não sabemos muito mais do que isso sobre eles. Em fuga, talvez dos magistrados, ou talvez tenha matado o filho de seu senhorio em um duelo, ou deflorado uma filha do proprietário de terras, ou talvez farreado com a mulher dele. Quem sabe? Não fazemos perguntas. Se você me perguntasse se me surpreende o fato de que um dos homens que caçávamos estava o tempo todo no meu exército, minha resposta seria não. — Ele tinha colegas no exército? Alguém com quem eu pudesse falar? Lentamente, Braddock tirou o pé do meu catre. — Como companheiro cavaleiro, você é livre para desfrutar minha hospitalidade aqui, e pode, é claro, conduzir as próprias investigações. Espero que, em retribuição, eu possa também recorrer à sua ajuda para nossos empreendimentos. — E quais seriam? — perguntei. — Os franceses montaram cerco na fortaleza de Bergen op Zoom. Dentro, estão nossos aliados: holandeses, austríacos, hanoverianos e hessianos, e, é claro, os ingleses. Os franceses já abriram as trincheiras e estão cavando uma segunda série de trincheiras paralelas. Em pouco tempo começará o bombardeio da fortaleza. Vão tentar tomá-la antes da temporada de chuvas. Acreditam que isso lhes dará uma passagem para os Países Baixos, e os Aliados acham que a fortaleza deve ser defendida a todo custo. Precisamos de cada homem com que pudermos contar. Deve entender agora por que não toleramos desertores. Você tem um coração voltado para a batalha, Kenway, ou está tão concentrado em vingança que não consegue mais nos ajudar?


P ARTE T RĂŠS

1753, seis anos depois


7 de junho de 1753 i — Tenho um trabalho para você — anunciou Reginald. Assenti, já esperando aquilo. Fazia muito tempo desde que o vira pela última vez, e havia tido a sensação de que o pedido para nos encontrarmos não era apenas uma desculpa para conversar, mesmo que o local do encontro fosse a White’s, onde estávamos sentados dando goles em cerveja, com uma atenta e — não deixara de notar — voluptuosa garçonete ansiosa por nos trazer mais. Em uma mesa à nossa esquerda, cavalheiros — os infames jogadores da White’s — se dedicavam a um turbulento jogo de dados, mas, fora isso, a casa estava vazia. Eu não o via desde aquele dia na Floresta Negra, seis anos atrás, e muita coisa tinha acontecido desde então. Juntando-me a Braddock na República Holandesa, servi com a Coldstreams no Cerco de Bergen op Zoom, depois até o Tratado de Aix-la-Chapelle no ano seguinte, que marcou o fim daquela guerra. Após isso, permaneci com eles durante várias campanhas para manter a paz, o que me deixou distante de Reginald, cuja correspondência chegava, ou de Londres, ou do castelo na Floresta de Landes. Ciente de que minhas cartas podiam ser lidas antes de serem enviadas, mantinha minha correspondência obscura, enquanto particularmente ansiava pelo momento em que poderia, enfim, me sentar com Reginald e falar sobre meus temores. No entanto, ao retornar a Londres e, outra vez, voltar a morar na Queen Anne’s Square, descobri que ele não estava disponível. Foi isto que me disseram: ele fora sequestrado com seus livros — ele e John Harrison, outro cavaleiro da Ordem, o qual, aparentemente, era tão obcecado quanto ele com templos, depósitos antigos e seres fantasmagóricos do passado. — Lembra-se de que viemos aqui no meu aniversário de 8 anos? — perguntei, querendo de algum modo adiar o momento em que eu descobriria a identidade da pessoa que deveria matar. — Lembrase do que aconteceu lá fora, o pretendente impulsivo prestes a distribuir com rapidez sua justiça na rua? Ele fez que sim. — As pessoas mudam, Haytham. — De fato... você mudou. Tem se preocupado principalmente com suas pesquisas sobre a primeira civilização — observei. — Estou muito perto agora, Haytham — afirmou, como se, com essa ideia, tivesse se livrado de uma pesada mortalha que estava usando. — Conseguiu decifrar o diário de Vedomir? Ele enrugou a testa. — Não, dei azar, e não por falta de tentativa, garanto. Ou deveria dizer “ainda não”, porque


existe uma decodificadora de códigos, uma italiana aliada dos Assassinos — uma mulher, dá para acreditar? Nós a mantemos no castelo francês, no interior da floresta, mas ela diz que precisa do filho para ajudá-la a decifrar o livro, e o filho dela anda sumido esses últimos anos. Pessoalmente, duvido sobre o que ela diz, e acho que, se quisesse, poderia muito bem decodificar o diário sozinha. Creio que está nos usando para ajudá-la a se juntar ao filho. Mas concordou em trabalhar no diário, se conseguíssemos localizá-lo e, finalmente, conseguimos. — Onde? — Aonde você irá em breve, para buscá-lo: Córsega. Então eu estava enganado. Não era um assassinato, mas um serviço de babá. — O que foi? — perguntou, ao notar a expressão do meu rosto. — Acha que é indigno de você? Muito pelo contrário, Haytham. Essa é a tarefa mais importante que já lhe dei. — Não, Reginald — suspirei —, não é não; simplesmente parece que é, no seu modo de pensar. — Ah? O que está dizendo? — Que talvez seu interesse nisso signifique que tenha negligenciado outras partes de suas obrigações. Talvez tenha deixado certas questões ficarem fora de controle... Perplexo, ele perguntou: — Que “questões”? — Edward Braddock. Ele pareceu surpreso. — Entendo. Bem, existe alguma coisa que queira me dizer sobre ele? Algo que tenha ocultado de mim? Pedi mais cervejas e a nossa garçonete as trouxe, pousou-as na mesa com um sorriso e então se afastou com os quadris balançando. — O que Braddock tem lhe falado sobre suas ações nos últimos anos? — perguntei a Reginald. — Tenho tido pouca notícia dele, e o visto muito menos — respondeu. — Nos últimos seis anos, só nos encontramos uma vez, pelo que lembro, e sua correspondência tem se tornado cada vez mais esporádica. Ele desaprova meu interesse em Aqueles Que Vieram Antes e, ao contrário de você, não tem guardado suas objeções para si mesmo. Parece que discordamos completamente sobre a melhor maneira de divulgar a mensagem dos Templários. Como resultado, não, ando sabendo pouco sobre ele; aliás, se quisesse saber sobre Edward, arrisco dizer que perguntaria a alguém que tivesse estado com ele durante suas campanhas... — Deu-me um olhar irônico. — Onde você acha que eu poderia encontrar tal pessoa? — Você seria um idiota se me perguntasse — caí na gargalhada. — Você sabe muito bem que, no que diz respeito a Braddock, não sou um observador especialmente imparcial. Nunca gostei desse homem, e agora gosto ainda menos, mas, na ausência de alguma outra observação mais objetiva, eis a minha: ele se tornou um tirano. — Como assim? — Crueldade, principalmente. Com os homens sob seu comando, mas também com inocentes. Vi,


com meus próprios olhos, pela primeira vez, na República Holandesa. — O modo como Edward trata seus soldados é assunto dele — comentou Reginald, dando de ombros. — Soldados reagem à disciplina, Haytham, você sabe disso. Balancei a cabeça. — Houve um incidente em particular, Reginald, no último dia do cerco. Reginald recostou-se para ouvir: — Prossiga... E continuei: — Estávamos de retirada. Soldados holandeses agitavam os punhos para nós, maldizendo o rei Jorge por não ter enviado mais de seus soldados para ajudar a liberar a fortaleza. Por que não tinham chegado mais homens, eu não sei. Teriam feito alguma diferença? De novo, não sei. Não tenho certeza se algum de nós, que estávamos estacionados no interior daquelas muralhas pentagonais, sabia como lidar com um ataque furioso francês, perpetrado da mesma forma brutal e impiedosa quanto foi mantido. “Braddock estava certo: os franceses tinham construído suas linhas paralelas de trincheiras e começaram o bombardeio da cidade, forçando uma aproximação das muralhas da fortaleza, e ali chegaram em setembro, quando enterraram minas abaixo das fortificações e as destruíram. “Atacamos do lado de fora das muralhas para tentar romper o cerco, mas sempre inutilmente, até que, em 18 de setembro, os franceses abriram caminho — às quatro horas da madrugada, se não me falha a memória. Pegaram as forças dos Aliados quase que dormindo, e fomos aniquilados antes que percebêssemos. Os franceses estavam massacrando a guarnição inteira. Sabemos, é claro, que finalmente se libertaram de seu comando e infligiram ainda mais danos aos pobres habitantes daquela cidade, mas a carnificina já havia começado. Edward providenciou um esquife no porto, e há muito tempo decidira que, se chegasse o dia em que os franceses abrissem caminho, ele o usaria para evacuar seus homens. Esse dia chegou. “Um grupo nosso seguiu para o porto, onde começou a inspecionar o carregamento de homens e suprimentos para o esquife. Mantivemos uma pequena força na muralha do porto, para manter afastado qualquer soldado francês saqueador, enquanto Edward, eu e outros permanecíamos na prancha, supervisionando o embarque de homens e suprimentos no esquife. Tínhamos levado uns 1.400 homens para a fortaleza de Bergen op Zoom, mas os meses de batalha haviam reduzido o número para cerca da metade. Havia espaço no esquife. Não muito... não era como se pudéssemos levar um grande número de passageiros; certamente não o número que precisava ser evacuado da fortaleza... mas havia espaço. — Olhei firme para Reginald. — Nós poderíamos tê-los levado, é o que estou dizendo.” — Poderiam ter levado quem, Haytham? Dei um demorado gole na minha cerveja. — Houve uma família que nos procurou no porto. Inclusive, havia um velho que mal conseguia andar, e também crianças. Dentre eles, surgiu um jovem, que chegou perto de nós e me perguntou se


havia lugar no barco. Eu confirmei com a cabeça, não vi por que não, e apontei para Braddock, mas, em vez de sinalizar para que as pessoas subissem a bordo, como eu esperava, ele ergueu a mão e mandou que saíssem do porto, acenando para que seus homens embarcassem mais depressa. O jovem ficou tão surpreso quanto eu, e abri minha boca para protestar, mas ele chegou lá antes de mim; seu rosto obscureceu e ele disse algo a Braddock, que não escutei, mas, obviamente, foi algum tipo de insulto. “Braddock me disse depois que o insulto foi ‘covarde’. Dificilmente a afronta mais insultante, e certamente não merecia o que aconteceu a seguir, que foi Braddock sacar a espada e enfiá-la no jovem ali mesmo onde ele estava. “Na maior parte do tempo, Braddock mantinha perto de si um pequeno grupo de soldados. Seus dois companheiros constantes eram o carrasco, Slater, e seu assistente... quer dizer, seu novo assistente, eu diria. O antigo eu matei. Esses homens, ele quase pode chamá-los de guarda-costas. Certamente, eram mais próximos dele do que eu. Se exerciam alguma influência sobre ele, não saberia dizer, mas eram ferozmente leais e protetores e correram adiante no mesmo momento em que o corpo do jovem caiu. Eles partiram para cima da família, Reginald, Braddock e esses dois de seus homens, e os abateram, cada um deles: os dois homens, uma mulher idosa, uma mais jovem e, é claro, as crianças, uma delas bem pequena, a outra, um bebê de colo... — Senti o queixo apertar. — Foi um banho de sangue, Reginald, a pior atrocidade de guerra que já vi... e receio ter visto muitas. — Entendo. Naturalmente, isso endureceu seu coração em relação a Edward — assentiu com intensidade. — Claro... claro que sim. Somos todos homens de guerra, Reginald, mas não somos bárbaros — ironizei. — Entendo, entendo. — Entende? Finalmente? Que Braddock está fora de controle? — Vamos com calma, Haytham. “Fora de controle”? A ira temporária é uma coisa. “Fora de controle” é outra completamente diferente. — Ele trata seus soldados como escravos, Reginald. Ele deu de ombros. — E daí? São soldados britânicos... Esperam ser tratados como escravos. — Creio que ele está se afastando de nós. Aqueles homens que serviam a ele, não eram Templários, eram agentes livres. Reginald assentiu. — Os dois homens na Floresta Negra. Esses homens faziam parte do círculo interno de Braddock? Olhei para ele. Observei-o com todo o cuidado ao mentir: — Não sei. Seguiu-se uma longa pausa e, para evitar fazer contato visual, dei um demorado gole na minha cerveja e fingi admirar a garçonete, grato pela mudança de assunto, quando Reginald se inclinou para


dar mais detalhes de minha futura viagem à Córsega.

ii Reginald e eu nos separamos do lado de fora da White’s e seguimos para nossas carruagens. Quando a minha havia se afastado certa distância, bati no teto para parar e meu condutor desceu, olhou para os dois lados, a fim de verificar se ninguém estava olhando, então abriu a porta e se juntou a mim no interior. Sentou-se à minha frente e tirou o chapéu, colocando-o no assento a seu lado, fitando-me com olhos brilhantes, curiosos. — Bem, Sr. Haytham — disse ele. Olhei para ele, inspirei fundo e dirigi a vista para fora da janela. — Devo partir por mar esta noite. Voltaremos à Queen Anne’s Square, onde farei as malas, depois seguiremos direto para o cais, se puder. Ele tirou um chapéu imaginário. — A seu dispor, Sr. Kenway, já estou me acostumando a essa coisa de ficar conduzindo por aí. É muito tempo parado, esperando, que eu não gostaria ficar, mas, por outro lado, bem, pelo menos não tem um francês atirando em você, ou seus próprios oficiais atirando em você. Aliás, eu diria que a falta de sujeitos atirando em você é um verdadeiro benefício a mais deste trabalho. Ele às vezes conseguia ser bem cansativo. — Está bem, Holden — falei, franzindo a testa com a intenção de fazê-lo calar a boca, embora a possibilidade fosse ótima. — Bem, de qualquer modo, senhor, descobriu alguma coisa? — Receio que nada de concreto. Olhei pela janela, lutando contra sentimentos de dúvida, culpa e deslealdade, imaginando se havia alguém em quem eu realmente confiasse — alguém a quem eu permanecesse verdadeiramente leal agora. Ironicamente, a pessoa em quem eu mais confiava era Holden. Eu o conhecera enquanto estava na República Holandesa. Braddock cumprira sua palavra e permitira que eu entrasse em contato com seus homens, para lhes perguntar se conheciam alguma coisa do “Tom Smith” que encontrara seu fim no cadafalso, mas não me surpreendi quando minhas investigações se mostraram infrutíferas. Nenhum homem que interroguei sequer admitiu conhecer Smith, se é que seu nome era mesmo esse — até que certa noite ouvi um movimento perto da entrada da minha tenda e sentei-me na beira do catre a tempo de ver uma figura aparecer. Era jovem, em seus vinte e tantos anos, cabelo ruivo cortado bem rente e um sorriso fácil e travesso. A figura, depois foi revelado, era o soldado raso Jim Holden, um londrino, um bom homem que queria ver a justiça ser feita. Seu irmão tinha sido um dos enforcados no mesmo dia em que quase encontrei o meu próprio fim. Ele tinha sido executado pelo crime de roubo de guisado — isso


fora tudo o que ele havia feito, roubado uma tigela de guisado porque estava faminto; uma transgressão que custaria, no máximo, açoitamento, mas o enforcaram. Seu grande erro, aparentemente, tinha sido roubar o guisado de um dos homens de Braddock, um membro de sua força mercenária particular. Foi isso que Holden me contou: que sua força de 1.500 robustos homens da Coldstreams Guards era formada principalmente de soldados do Exército britânico, como ele mesmo, mas que, internamente, havia um pequeno núcleo de homens selecionados pessoalmente por Braddock: mercenários. Estes incluíam Slater e seu assistente — e, mais preocupante, os dois homens que haviam cavalgado até a Floresta Negra. Nenhum desses homens usava o anel da Ordem. Eram criminosos, capangas. Eu me perguntava por quê — por que Braddock escolheu homens dessa estirpe para seu círculo interno, e não cavaleiros templários? Quanto mais tempo passava com ele, mais pensava ter a minha resposta: estava se afastando da Ordem. Penso agora em Holden. Eu havia protestado naquela noite, mas ele era um homem que vislumbrara a corrupção no âmago da organização de Braddock. Era um homem que queria justiça para o irmão e, como resultado, nenhuma quantidade de meus protestos fez a menor diferença. Ele me ajudaria, quisesse eu ou não. Concordei, mas com o trato de que sua ajuda seria o tempo todo mantida em segredo. Na esperança de enganar aqueles que pareciam sempre estar um passo à minha frente, precisava fazer parecer que desistira da ideia de encontrar os matadores do meu pai — para que não ficassem mais um passo adiante de mim. Assim, quando deixamos a República Holandesa, Holden adotou as funções de meu criado particular e cocheiro e, para todos os propósitos, pelo que dizia respeito ao mundo exterior, era exatamente isso que ele era. Ninguém sabia que, de fato, ele realizava investigações a meu favor. Nem mesmo Reginald sabia disso. Talvez principalmente nem Reginald. Holden viu a culpa escrita no meu rosto. — Senhor, não são mentiras que está dizendo para o Sr. Birch. Tudo que está fazendo é o que ele está fazendo, que é omitir certas informações, isso até o senhor ficar satisfeito de que o nome dele está limpo... E tenho certeza de que estará, senhor. Tenho certeza de que sim, pois ele é o seu amigo mais antigo, senhor. — Gostaria que pudesse compartilhar seu otimismo nessa questão, Holden. Realmente gostaria. Vamos em frente. Minha missão aguarda. — Com certeza, senhor, e, se me permite perguntar, aonde essa missão o leva? — À Córsega — falei. — Vou para a Córsega. — Ah, e no meio de uma revolução, segundo eu soube... — Exatamente, Holden. Um lugar de conflito é perfeito para se esconder. — O que vai fazer lá, senhor?


— Receio que não possa lhe contar. Basta dizer que não tem nada a ver com a procura dos matadores do meu pai e, portanto, é, para mim, apenas um interesse paralelo. É um serviço, um dever, nada mais. Espero que, enquanto eu estiver longe, você continue suas investigações. — Ah, certamente, senhor. — Excelente. E cuide para que isso permaneça em segredo. — Não se preocupe quanto a isso, senhor. No que diz respeito aos outros, posso dizer que o Sr. Kenway abandonou há muito tempo sua busca por justiça. Sejam eles quem forem, senhor, acabarão por baixar a guarda.


25 de junho de 1753 i Fazia calor na Córsega durante o dia, mas à noite a temperatura caía. Não muito — não ficava gelado —, mas era o suficiente para tornar uma experiência incômoda dormir sem um cobertor em uma encosta rochosa. Além do frio, porém, havia assuntos ainda mais urgentes para serem cuidados, tais como o pelotão de soldados genoveses que seguia morro acima, sobre o qual gostaria de dizer que se movimentava furtivamente. Gostaria de dizer isso, mas não podia. No topo do morro, em um platô, ficava a casa de fazenda. Eu estivera vigiando o local nos dois últimos dias, com minha luneta apontada para as portas e janelas de uma grande edificação e uma série de celeiros e prédios anexos menores, anotando entradas e saídas: rebeldes chegando com suprimentos e também partindo com eles. Durante o primeiro dia, uma pequena tropa deles — contei oito — deixou o conjunto e, quando retornou, me dei conta de que houvera uma espécie de ataque: os rebeldes corsos golpeando os seus senhores genoveses. Havia apenas seis quando retornaram, e esses seis pareciam exaustos e sangrando, mas, ainda assim, sem palavras ou gestos, ostentavam uma aura de triunfo. Chegaram mulheres com suprimentos não muito tempo depois, e as comemorações foram até tarde da noite. Esta manhã chegaram mais rebeldes, com mosquetes envoltos em cobertores. Estavam bem equipados e, aparentemente, tinham apoio; não admirava que os genoveses quisessem varrer essa fortaleza do mapa. Passei os dois dias me movimentando ao redor do morro para evitar ser visto. O terreno era rochoso, e eu mantinha uma distância segura das edificações. Na manhã do segundo dia, contudo, percebi que tinha companhia. Havia outro homem no morro, outro observador. Diferente de mim, ele permanecera na mesma posição, enfiado em um afloramento de rochas, oculto pelo arbusto e pelas árvores esqueléticas que de algum modo sobreviveram na encosta árida.

ii Lucio era o nome do meu alvo, e os rebeldes o escondiam. Se também tinham ligações com os Assassinos, eu não fazia ideia, e, de qualquer modo, não importava. Era ele quem eu queria: um rapaz de 21 anos, que era a chave para solucionar o enigma que atormentava Reginald havia seis anos. Um rapaz de aparência pouco graciosa, com cabelos até os ombros, que, pelo que pude


perceber observando a casa de fazenda, ajudava a carregar baldes de água, alimentar o gado e, ontem, torcer o pescoço de uma galinha. Então lá estava ele: isso eu já verificara. O que era bom. Mas havia problemas. Primeiro, ele tinha um guarda-costas. Um homem que usava as roupas e o capuz de um Assassino nunca se distanciava dele. Seu olhar costumava vasculhar a encosta enquanto Lucio apanhava água ou espalhava a comida das galinhas. Em sua cintura, havia uma espada, e os dedos da mão direita eram arqueados. Usaria a famosa lâmina oculta dos Assassinos? Fiquei imaginando. Sem dúvida que sim. Teria de ter cuidado com ele, isso era mais do que certo; sem falar nos rebeldes que estavam baseados na casa. O complexo parecia estar cheio deles. Outra coisa a levar em conta: estavam claramente planejando partir em breve. Talvez estivessem usando a casa de fazenda como uma base temporária para o ataque; talvez soubessem que os genoveses não demorariam a buscar vingança e viriam à procura deles. De qualquer modo, levavam suprimentos para os celeiros, sem dúvida empilhando-os bem alto nas carroças. Meu palpite era de que partiriam no dia seguinte. Uma incursão noturna, então, parecia ser a solução. E teria de ser hoje à noite. Esta manhã consegui localizar os aposentos onde Lucio dormia: ele dividia um anexo de tamanho médio com o Assassino e pelo menos outros seis rebeldes. Eles tinham uma senha, que usavam ao entrar nos aposentos, e fiz uma leitura labial através da luneta: Agimos no escuro para servir à luz. Portanto, uma operação que exigia alguma antecipação, mas, no mesmo instante em que estava me preparando para me retirar da encosta, para providenciar meu plano, vi o segundo homem. E meus planos mudaram. Aproximando-me o máximo dele, consegui identificá-lo como um soldado genovês. Se estivesse certo, aquilo significava que ele fazia parte do grupo avançado que tentaria tomar aquela fortaleza; o resto viria a seguir — quando? Mais cedo do que tarde, pensei. Eles queriam cobrar uma rápida vingança pelo ataque do dia anterior. Não apenas isso, mas queriam ser vistos reagindo rapidamente aos rebeldes. Esta noite, então. Então eu o deixei. Deixei que continuasse sua vigilância e, em vez de me retirar, permaneci na encosta imaginando um plano diferente. Meu novo plano envolvia soldados genoveses. O observador era bom. Ficara fora de vista e, quando escureceu, retirou-se sorrateira e silenciosamente de volta morro abaixo. Onde, fiquei imaginando, estaria o resto da força? Não muito distante; e, mais ou menos uma hora depois, comecei a notar movimento ao pé do morro e, até mesmo, em determinado momento, ouvi um xingamento abafado em italiano. Àquela altura eu estava a meio caminho do topo e, percebendo que logo começariam a avançar, fui para ainda mais perto do platô e da cerca do curral dos animais. Talvez a uns cinquenta metros de distância, conseguia ver um dos sentinelas. Ontem à noite, havia cinco no total, em volta do perímetro da fazenda. Hoje à noite, sem dúvida, aumentariam a vigilância. Peguei a luneta e apontei para o guarda mais próximo. Dava para ver sua silhueta, iluminada pela lua às suas costas. Estava diligentemente vasculhando a encosta abaixo dele. Ele não me veria, eu


seria apenas outra forma irregular na paisagem de formas irregulares. Não admirava que tivessem decidido se mudar tão depressa após a emboscada que fizeram. Aquele não era o esconderijo mais seguro que eu já vira. Aliás, teriam sido um alvo fácil, se não fosse o fato de a aproximação dos soldados genoveses ser terrivelmente desastrada. A conduta do observador deles mostrava todo o nível da operação. Aqueles eram homens para quem uma ação furtiva era claramente uma ideia estranha e desconhecida, e eu começava a ouvir cada vez mais ruídos vindos do pé do morro. Os rebeldes, quase certamente, seriam os próximos a ouvi-los. E, se os rebeldes os ouvissem, teriam mais do que oportunidade suficiente para escapar. E, se os rebeldes escapassem, levariam Lucio com eles. Então resolvi dar uma mão. Cada guarda era responsável por um trecho da área da fazenda. Desse modo, o mais próximo a mim teria de se movimentar lentamente de um lado para o outro através de uma distância com cerca de 25 metros. Ele era bom; cuidava para que, enquanto estivesse observando uma parte de sua área, o resto nunca ficasse totalmente fora de vista. Mas também se movimentava e, quando o fazia, eu tinha poucos e preciosos segundos para me aproximar. Foi o que fiz. Pouco a pouco. Até estar perto o bastante para enxergar o guarda: sua cerrada barba grisalha, o chapéu com a aba cobrindo os olhos com sombras escuras, e o mosquete pendurado no ombro. E, embora não conseguisse ver ou ouvir os pilhadores soldados genoveses ainda, estava ciente deles e, em pouco tempo, ele também estaria. Só podia supor que a mesma cena estivesse sendo desempenhada do outro lado do morro, o que significava que precisava agir depressa. Saquei minha espada curta e me preparei. Lamentei pelo guarda e lhe dediquei um silencioso pedido de desculpas. Ele nada fizera para mim, era um bom e diligente sentinela, e não merecia morrer. Então, ali, no declive rochoso, parei. Pela primeira vez na vida, duvidei de minha habilidade de seguir adiante com aquilo. Pensei na família no porto, morta por Braddock e seus homens. Sete mortes sem sentido. E de repente fui dominado pela certeza de que não estava mais preparado para aumentar o tributo da morte. Não podia passar na lâmina da espada aquele guarda, que não era meu inimigo. Não podia fazer isso. A hesitação quase me custa caro, pois, no mesmo instante, os desajeitados soldados genoveses finalmente fizeram sentir sua presença, e houve sons de pedras se chocando e um praguejar mais para baixo do morro, que foi carregado pelo ar da noite, primeiro até meus ouvidos, depois para os do sentinela. Sua cabeça deu um tranco e ele imediatamente alcançou o mosquete, esticando o pescoço e forçando a vista, olhando morro abaixo. Ele me viu. Por um segundo, nossos olhos fizeram contato. Meu momento de hesitação terminou e eu pulei, cobrindo a distância entre nós dois com um único salto. Estendida como uma garra, levei a mão direita vazia, e a espada na outra. Ao alcançá-lo, agarrei sua nuca com a mão direita e enfiei a espada na garganta. Ele estava prestes a alertar os companheiros, mas o grito morreu e virou um gorgolejar, enquanto o sangue escorria sobre minha


mão e abaixo pela frente de seu corpo. Mantendo a cabeça bem segura com a mão direita, abracei-o e, delicada e silenciosamente, baixei-o para a terra seca da fazenda. Agachei-me. Cerca de sessenta metros adiante estava o segundo sentinela. Era uma figura embaçada no escuro, mas podia ver que estava para se virar e, quando o fizesse, provavelmente me avistaria. Corri — tão depressa que, por um momento, pude ouvir o precipitar da noite, e o agarrei exatamente quando se virou. Outra vez, segurei a nuca do homem com a mão direita e enfiei-lhe a espada. Outra vez, o homem estava morto antes de cair no chão. Vindo de bem mais baixo do morro, ouvi mais barulho da tropa de assalto genovesa, felizmente sem saber que eu evitara que seu avanço fosse ouvido. Com certeza, porém, seus companheiros do outro lado eram igualmente ineptos e, sem o anjo da guarda Kenway, teriam sido ouvidos pelos sentinelas desse lado. Imediatamente, o grito se ergueu e, em momentos, foram acesas luzes na casa de fazenda e fluíram rebeldes carregando tochas acesas, calçando botas sobre os calções, arrastando jaquetas às costas e passando espadas e mosquetes uns para os outros. Ao me agachar, observando, vi as portas de um dos celeiros se abrirem e dois homens puxarem para fora, com as mãos, uma carroça, já repleta de suprimentos, enquanto outro chegava correndo com um cavalo. O momento da ação clandestina tinha passado, e os soldados genoveses em todos os lados souberam disso, abandonando a tentativa de atacar a fazenda silenciosamente, e correndo morro acima, aos gritos, em direção à casa de fazenda. Eu tinha uma vantagem — já estava na área da fazenda, além disso não usava uniforme de soldado genovês e, na confusão, consegui me movimentar entre os rebeldes apressados, sem levantar suspeitas. Fui para o anexo onde Lucio estava alojado e quase trombamos quando ele disparou para fora. Seu cabelo estava solto, mas ele estava vestido, e chamava outro homem, incitando-o a seguir para o celeiro. Não muito distante, estava o Assassino, que corria, puxando a túnica pelo peito e, ao mesmo tempo, desembainhando a espada. Dois invasores genoveses surgiram do lado do anexo e imediatamente o Assassino incumbiu-se deles, gritando por cima do ombro: — Lucio, corra para o celeiro. Excelente. Exatamente o que eu queria: a atenção do Assassino desviada. Nesse momento, vi outro soldado chegar correndo ao platô, se agachar, erguer o mosquete e fazer mira. Lucio, segurando a tocha, era seu alvo, mas o sujeito não teve a chance de atirar, pois eu me lancei para cima e estava sobre ele antes mesmo que tivesse me visto. Soltou um único clamor abafado quando enfiei minha espada até o punho em sua nuca. — Lucio — gritei. E ao mesmo tempo empurrei o dedo do morto que estava no gatilho, para descarregar o mosquete, mas inofensivamente, para o ar. Lucio parou, protegeu a vista para olhar através da área, onde dei um show ao me livrar do cadáver flácido do soldado. O companheiro de Lucio saiu correndo, que era exatamente o que eu queria. A certa distância, o Assassino ainda lutava e, por um segundo, admirei sua habilidade em rechaçar os golpes de dois homens ao mesmo tempo.


— Obrigado — berrou Lucio. — Espere — retruquei. — Temos de sair daqui antes que a fazenda seja invadida. Ele balançou a cabeça. — Preciso ir para a carroça — berrou. — Obrigado novamente, amigo. — Então virou e saiu em disparada. Maldição. Praguejei e parti na direção do celeiro, correndo paralelamente a ele, mas fora de vista, pelas sombras. À direita, avistei um invasor genovês prestes a deixar a encosta e penetrar na área da fazenda, e estava perto o bastante para eu ver seus olhos se arregalarem quando fizemos contato visual. Antes que pudesse reagir, agarrei seu braço, torci-o e enfiei a espada em sua axila, logo acima do peito, e deixei-o cair gritando, de costas nas pedras, ao mesmo tempo que apanhava sua tocha. Continuei avançando, mantendo-me paralelo a Lucio, cuidando para que ficasse fora de perigo. Alcancei o celeiro antes dele. Ao passar, ainda nas sombras, pude ver o interior pelas portas da frente até então abertas, onde dois rebeldes prendiam um cavalo à carroça, enquanto outros dois mantinham guarda, um deles disparando o mosquete, enquanto o outro recarregava e depois se ajoelhava para atirar. Continuei correndo, então disparei junto à parede do celeiro, onde encontrei um soldado genovês prestes a entrar por uma porta lateral. Enfiei a lâmina da espada para cima pela base de sua espinha. Por um segundo, ele se contorceu em agonia, empalado na lâmina, e empurrei seu corpo pela porta diante de mim, joguei a tocha na traseira da carroça e fiquei nas sombras. — Peguem-nos — bradei, no que esperava ser algo aproximado da voz e do sotaque de um soldado genovês. — Peguem a escória rebelde. E depois: — A carroça está em chamas! — gritei, dessa vez no que esperava ser algo aproximado da voz e do sotaque de um rebelde corso, ao mesmo tempo que saía das sombras, enganchando meu cadáver genovês e deixando-o cair como se tivesse acabado de matá-lo. — A carroça está em chamas — repeti, e agora voltei minha atenção para Lucio, que acabara de chegar ao celeiro. — Precisamos sair daqui. Lucio, venha comigo. Vi dois dos rebeldes trocarem um olhar confuso, cada qual imaginando quem eu era e o que queria com Lucio. Houve um som de disparo de mosquete, e madeira estilhaçou à nossa volta. Um dos rebeldes caiu, uma bala de mosquete encaixada em seu olho, e eu mergulhei para cima do outro, fingindo protegê-lo dos disparos de mosquete, mas, ao mesmo tempo, enfiando a lâmina da faca em seu coração. Era o companheiro de Lucio, deduzi, quando ele morreu. — Ele se foi — falei para Lucio, me levantando. — Não! — gritou ele, já choroso. Não admirava que só o considerassem apto para alimentar o gado, pensei, tendo em vista que se debulhou em lágrimas na primeira vez que um companheiro foi morto em ação. Agora o celeiro estava em chamas à nossa volta. Os outros dois rebeldes, vendo que não havia nada que pudessem recuperar, fugiram e correram de forma desordenada pelo terreno em direção à


encosta, misturando-se à escuridão. Outros rebeldes estavam em fuga, e, pela área da fazenda, vi que os soldados genoveses haviam incendiado também outros prédios. — Preciso esperar por Miko — berrou Lucio. Imaginei que Miko era seu guarda-costas Assassino. — Ele está ocupado. E pediu a mim, um colega membro da Irmandade, que cuidasse de você. — Tem certeza? — Um bom Assassino questiona tudo — observei. — Miko o ensinou muito bem. Mas agora não é o momento para lições sobre os princípios do nosso credo. Precisamos ir. Ele balançou a cabeça. — Diga-me a senha — pediu com firmeza. — Liberdade para escolher. Finalmente, pareci ter estabelecido confiança suficiente para convencer Lucio a vir comigo, e começamos a descer a encosta; eu, feliz, agradecendo a Deus por, enfim, estar com ele; ele, não estou certo. De repente, ele parou. — Não — recusou-se ele, balançando a cabeça. — Não posso fazer isso... Não posso deixar Miko. Genial, pensei. — Ele disse para você ir — retruquei — e encontrá-lo no fundo da ravina, onde nossos cavalos estão amarrados. Atrás de nós, na área da fazenda, os incêndios estavam mais violentos e eu conseguia ouvir o restante da batalha. Os soldados genoveses estavam eliminando os últimos rebeldes. De não muito distante, ouviram-se pedras ressoando, e avistei outras figuras na escuridão: uma dupla de rebeldes fugindo. Lucio também os viu e ia chamá-los, mas coloquei a mão sobre sua boca. — Não, Lucio — sussurrei. — Os soldados devem estar atrás deles. Seus olhos se arregalaram. — Eles são meus companheiros. São meus amigos. Preciso estar com eles. Precisamos nos certificar de que Miko está seguro. De bem alto acima de nós veio o som de súplicas e gritos, e os olhos de Lucio dispararam para lá, como se tentasse lidar com o conflito em sua cabeça: ajudar os amigos acima ou se juntar aos que fugiam? De qualquer modo, pude ver que ele decidira que não queria ficar comigo. — Estranho — começou, e eu pensei, agora sou “estranho”, hein? — Eu lhe agradeço por tudo que fez para me ajudar e espero que possamos nos encontrar novamente em circunstâncias mais felizes... Talvez quando eu puder expressar minha gratidão de uma maneira ainda mais completa... Mas, no momento, preciso estar com meu povo. Levantou-se para ir. Com uma das mãos sobre seu ombro, fiz com que ele descesse novamente ao meu nível. Ele se desvencilhou, com o queixo apertado. — Agora, Lucio — pedi —, escute. Fui enviado pela sua mãe para levá-lo para ela. Diante disso, ele recuou.


— Oh, não — lamentou-se. — Não, não, não. O que não era a reação que eu esperava. Tive de andar com dificuldade pelas pedras para alcançá-lo. Mas ele começou a me rechaçar. — Não, não — exclamou. — Não sei quem você é, apenas me deixe sozinho. — Ah, pelo amor de Deus — falei e, silenciosamente, o derrotei, ao lhe dar o golpe mata-leão, ignorando seus esforços e aplicando pressão, restringindo o fluxo de sua artéria carótida; não o suficiente para lhe causar dano permanente, mas o bastante para deixá-lo inconsciente. Ao jogá-lo para cima do ombro — uma coisinha pequena como ele — e carregá-lo morro abaixo, com cuidado para evitar os últimos bolsões de rebeldes fugindo do ataque genovês, fiquei imaginando por que simplesmente não o derrubei logo de início.

iii Parei à beira da ravina e baixei Lucio para o chão, depois encontrei minha corda, amarrei-a e jogueia para a escuridão abaixo. A seguir, usei o cinto de Lucio para prender suas mãos, passei a outra ponta por baixo de suas coxas e amarrei-as de modo que seu corpo inerte ficasse atravessado pelas minhas costas. Então comecei a lenta descida. Cerca da metade do caminho, o peso tornou-se insuportável, mas eu estava preparado para isso e consegui aguentar até que atingi uma abertura na face do rochedo que levava a uma caverna escura. Entrei com alguma dificuldade e tirei Lucio das costas, sentindo os músculos relaxarem agradecidos. Da minha frente, na caverna, veio um ruído. Um movimento a princípio, como um som se movendo, depois um clique. O som que faz a lâmina oculta de um Assassino quando se engata. — Eu sabia que você viria aqui — disse uma voz, uma voz que pertencia a Miko, o Assassino. — Sabia que viria aqui, porque era o que eu faria. Então ele atacou, disparou à frente, vindo do interior da caverna, usando meu choque e minha surpresa contra mim. Eu já sacava minha espada curta, e ela estava estendida quando nos chocamos, a lâmina dele cortando na minha direção como uma garra e encontrando minha espada com tal força que esta foi arrancada da minha mão, enviada deslizando para a boca da caverna e para a escuridão lá embaixo. Minha espada. A espada do meu pai. Mas não havia tempo para lamentar, pois o Assassino estava vindo na minha direção uma segunda vez, e ele era bom, muito bom. Em um espaço confinado, desarmado, eu não tinha chance. Tudo que eu tinha, aliás, era... Sorte. E foi uma questão de sorte eu ter pressionado o corpo contra a parede da caverna, e ele ter calculado ligeiramente mal, o bastante para se desequilibrar um pouquinho. Em quaisquer outras


circunstâncias, contra qualquer outro oponente, ele teria se recuperado imediatamente e terminado sua matança, mas não eram quaisquer outras circunstâncias e eu não era qualquer outro oponente, e o fiz pagar pelo minúsculo erro. Inclinei-me para ele, agarrei seu braço, torci-o e ajudei-o em seu impulso, a fim de que também partisse para a escuridão. Ele, porém, aguentou firme, puxou-me junto, arrastando-me para a boca da caverna, de modo que eu gritava de dor, enquanto tentava evitar ser arrastado para o espaço aberto. Deitado de barriga, procurei-o com os olhos e o vi, um braço segurando o meu e o outro tentando alcançar a corda. Senti a braçadeira de sua lâmina oculta, estendi minha outra mão adiante e comecei a apalpar suas presilhas. Ele percebeu tarde demais o que eu estava fazendo e desistiu de pegar a corda, em vez disso, concentrou os esforços na tentativa de que eu soltasse a braçadeira. Por um momento, nossas mãos lutaram uma contra a outra pela lâmina, que, quando abri a primeira lingueta, deslizou repentinamente mais acima de seu pulso e o fez guinar para um lado, sua posição ainda mais precária do que antes, o outro braço como um cata-vento. Era tudo de que eu precisava e, com um grito final de esforço, soltei a última lingueta, arranquei a braçadeira e, ao mesmo tempo, mordi a mão que segurava meu punho. Uma combinação de dor e falta de tração foi o bastante para, finalmente, empurrá-lo. Vi-o ser engolido pela escuridão e rezei para que, quando aterrissasse, não atingisse meu cavalo lá embaixo. Mas não veio nada. Nenhum som de queda, nada. A coisa seguinte que vi foi a corda, retesada e tremendo, e estiquei o pescoço e forcei a vista para procurar pelo escuro e fui recompensado com a visão de Miko, a alguma distância abaixo, muito vivo, e começando a subir de volta na minha direção. Segurei sua lâmina e a coloquei sobre a corda. — Se subir mais ainda, a queda o matará quando eu cortar a corda — berrei. Ele já estava perto o bastante, de modo que pude olhar em seus olhos, quando me encarou de baixo para cima, e vi a hesitação neles. — Você não merece sofrer uma morte dessas, amigo — acrescentei. — Comece a descida e viva para lutar outro dia. Passei lentamente a cortar a corda, e ele parou e olhou para o escuro abaixo, onde o fundo da ravina não era visível. — Você está com a minha lâmina — lembrou ele. — Ao vencedor, os espólios — rebati, com indiferença. — Talvez nos encontremos novamente — disse ele —, e eu consiga recuperá-la. — Sinto que apenas um de nós sobreviverá em um segundo encontro — previ. Ele assentiu. — Talvez — concordou, e em pouco tempo desapareceu na noite. O fato de que eu agora teria de escalar de volta e de ter sido forçado a ceder meu cavalo, era embaraçoso. Mas antes isso do que enfrentar o Assassino novamente. E, por enquanto, estamos descansando. Bem, eu estou descansando; o pobre Lucio continua inconsciente. Mais tarde, eu o entregarei aos parceiros de Reginald, que o levarão em uma carroça coberta, farão a passagem através do Mediterrâneo para o sul da França e, então, para o castelo,


onde Lucio se reunirá com a mãe, a decodificadora. Então alugarei um navio para a Itália, me certificarei de ser visto fazendo isso, referindo-me uma ou duas vezes ao meu “jovem companheiro”. Se e quando os Assassinos vierem procurar Lucio, será onde concentrarão seus esforços. Reginald diz que, depois disso, não serei mais necessário. Devo sumir na Itália, sem deixar vestígios, sem trilha para seguir.


12 de agosto de 1753 i Comecei o dia na França, tendo voltado da Itália. Não é uma tarefa fácil; está tudo muito bem claro, mas não dá simplesmente para “voltar” da Itália para a França. O motivo para eu ir à Itália foi despistar os Assassinos quando viessem à procura de Lucio. Por isso, ao voltar à França, que era o verdadeiro lugar onde escondíamos Lucio e sua mãe, eu colocava em risco não apenas minha missão recém-concluída, mas tudo aquilo em que Reginald andou trabalhando nos últimos anos. Era arriscado. Tão arriscado, aliás, que, se eu pensasse a respeito, o risco me tiraria o fôlego. Isso me fez perguntar: eu seria estúpido? Que tipo de idiota correria tal risco? E a resposta foi: um idiota com dúvida em seu coração.

ii Mais ou menos a cem metros do portão, encontrei com um patrulheiro solitário, um guarda vestido de camponês, com um mosquete atravessado nas costas, que parecia sonolento, mas estava alerta e vigilante. Ao nos aproximarmos dele, nossos olhos se encontraram por um momento. Os seus pestanejaram brevemente, ao me reconhecer, e ele balançou ligeiramente a cabeça para me dizer que eu estava livre para passar. Haveria outro patrulheiro, eu sabia, do outro lado do castelo. Saímos da floresta e contornamos a alta muralha que a delimitava até chegarmos a um grande portão arqueado de madeira no qual havia uma portinhola, onde estava um guarda, um homem que reconheci dos anos que eu havia passado no castelo. — Ora, ora — disse ele —, se não é o Sr. Haytham, já crescido. Ele sorriu e segurou as rédeas do meu cavalo enquanto eu desmontava, antes de abrir a portinhola pela qual entrei, piscando diante da súbita luz solar após o sombrio comparativo da floresta. Diante de mim, estendia-se o gramado do castelo, e, caminhando por ele, tive uma estranha sensação, percorrendo minha barriga, que eu sabia ser nostalgia pelo tempo que passara ali na minha juventude, quando Reginald havia... ...continuado os ensinamentos do meu pai? Ele dissera que sim. Mas, é claro, eu agora sabia que ele havia me enganado a respeito disso. Na parte de combate e ação furtiva, talvez ele tivesse feito isso, mas Reginald me criara nos moldes da Ordem dos Templários, e me ensinara que esse era o único modo; e que aqueles que acreditavam em outro eram, na melhor das hipóteses, mal orientados e, na pior, nocivos. Mas aprendi posteriormente que meu pai era uma dessas pessoas mal orientadas, nocivas, e quem


diria o que ele teria me ensinado à medida que eu crescia. Quem diria? A grama estava irregular e alta demais, apesar da presença de dois jardineiros, ambos usando espada curta na cintura, as mãos segurando o cabo, enquanto eu seguia para a porta da frente do castelo. Cheguei perto de um deles, que, ao ver quem eu era, assentiu com a cabeça. — É uma honra finalmente conhecê-lo, Sr. Kenway — disse ele. — Creio que sua missão foi bem-sucedida. — Foi sim, obrigado — respondi ao guarda, ou jardineiro ou seja lá o que fosse. Para ele, eu era um cavaleiro, um dos mais festejados da Ordem. Eu conseguiria realmente odiar Reginald por sua orientação ter me dado tal aclamação? E, afinal de contas, teria eu alguma vez duvidado de seus ensinamentos? A resposta era não. Eu fora forçado a segui-los? Novamente, não. Sempre tive a opção de escolher meu próprio caminho, mas ficara com a Ordem porque acreditava no código. Ainda assim, ele mentira para mim. Não, não mentiu para mim. Como Holden dissera? “Omitiu a verdade.” Por quê? E, mais ainda, por que Lucio reagiu daquele modo, quando lhe disse que ia encontrar sua mãe? À menção do meu nome, o segundo jardineiro olhou-me de um modo mais penetrante, então ele também fez uma reverência quando passei, o cumprimentei com um gesto de cabeça, sentindo-me de repente mais alto, e estufando o peito ao me aproximar da porta que eu conhecia tão bem. Virei-me para trás, antes de bater, a fim de olhar para o gramado, de onde os dois guardas ainda me observavam. Eu havia treinado naquele gramado, passara horas incontáveis aprimorando minhas habilidades com a espada. Bati, e a porta foi aberta por outro homem vestido de forma semelhante e que também usava uma espada curta na cintura. O castelo nunca estava tão cheio de funcionários quando morei nele, mas, pensando bem, quando vivi ali, nunca tivemos um hóspede tão importante quanto a decodificadora. O primeiro rosto familiar que vi pertencia a John Harrison, que olhou para mim, desviou os olhos e então me olhou novamente. — Haytham — alardeou —, que droga está fazendo aqui? — Olá, John — respondi do mesmo modo. — Reginald está? — Ora, sim, Haytham, mas espera-se que Reginald esteja aqui. O que você está fazendo aqui? — Vim ver Lucio. — Você o quê? — Harrison estava ficando com o rosto um tanto vermelho. — Você veio “ver Lucio”? — Ele agora estava tendo problema em encontrar palavras. — O quê? Por quê? O que você pensa que está fazendo? — John — falei delicadamente —, por favor, acalme-se. Não fui seguido da Itália. Ninguém sabe que estou aqui. — Bem, tenho muita esperança que não. — Onde está Reginald?


— Embaixo da escada, com os prisioneiros. — Ah? Prisioneiros? — Monica e Lucio. — Sei. Não fazia ideia de que eram considerados prisioneiros. Mas uma porta havia se aberto embaixo da escada e Reginald apareceu. Eu conhecia aquela porta; ela levava à adega, a qual, quando eu vivia ali, era um aposento de teto baixo, úmido, principalmente com estantes vazias de vinho se desfazendo de um lado e uma parede negra e úmida do outro. — Olá, Haytham — cumprimentou Reginald, taciturno. — Você não era esperado. Não muito distante dali, um dos guardas apareceu, e logo teve a companhia de outro. Olhei para eles e de volta para Reginald e John, que continuavam como uma dupla de clérigos preocupados. Nenhum dos dois estava armado, mas, ainda que estivessem, acho que conseguiria dominar os quatro. Se isso fosse preciso. — De fato — observei. — John estava mesmo me dizendo o quanto ficou surpreso com a minha visita. — Sim, realmente. Foi muito descuidado, Haytham... — Talvez, mas eu queria ver se Lucio estava sendo bem-cuidado. Agora que me disseram que é um prisioneiro, talvez eu tenha a resposta. Reginald deu uma risada. — Ora, o que você esperava? — O que me foi dito. Que a missão era reunir mãe e filho; que ela concordara em trabalhar no diário de Vedomir, se fôssemos capazes de resgatar seu filho dos rebeldes. — Eu não menti para você, Haytham. Realmente, Monica tem trabalhado no diário desde que encontrou Lucio. — Mas não do modo que imaginei. — Se a técnica da cenoura na vara não funciona, usamos só a vara — comentou Reginald, os olhos frios. — Lamento, se você ficou com a impressão de que havia mais cenouras do que varas. — Quero vê-la — pedi e, com um curto gesto da cabeça, Reginald concordou. Virou-se e nos conduziu pela porta, que abria para um lance de degraus de pedra que levavam abaixo. A luz dançava nas paredes. — Com relação ao diário, agora estamos perto, Haytham — informou ele, enquanto descíamos. — Até agora, conseguimos estabelecer a existência de um amuleto. De algum modo, isso se encaixa com o depósito. Se conseguirmos o amuleto... No pé da escada, fogaréus de ferro sobre estacas tinham sido instalados para iluminar o caminho até a porta, onde havia um guarda. Este se afastou para o lado e abriu a porta para entrarmos. Lá dentro, a adega era como eu me lembrava dela, iluminada pela luz tremulante de tochas. Em uma extremidade, havia uma escrivaninha. Estava presa ao chão, e Lucio, algemado a ela, e, a seu lado, estava a mãe, que era uma visão incongruente. Estava sentada em uma cadeira que parecia ter sido


trazida lá de cima para a adega especialmente para isso. Ela usava saia comprida e blusa abotoada até em cima, e pareceria uma carola se não fossem os grilhões de ferro enferrujados em volta dos seus punhos e dos braços da cadeira e, especialmente, uma máscara da infâmia em volta da cabeça. Lucio girou em seu assento, viu-me e seus olhos queimaram de ódio, e depois voltou ao trabalho. Eu havia parado no meio do aposento, entre a porta e os decodificadores. — Reginald, o que significa isso? — indaguei, apontando para a mãe de Lucio, que me olhou malignamente do interior da máscara da infâmia. — A máscara é temporária, Haytham. Monica não teve papas na língua esta manhã para condenar nossas táticas. Portanto, os trouxemos para cá para passarem o dia de hoje. — Ele ergueu a voz para se dirigir aos decodificadores. — Tenho certeza de que, amanhã, após terem recuperado as boas maneiras, poderão voltar à sua residência habitual. — Isso não está direito, Reginald. — Os alojamentos habituais deles são muito mais agradáveis, Haytham — assegurou-me impacientemente. — Mesmo assim, não deveriam ser tratados desse modo. — Nem o pobre menino, na Floresta Negra, deveria ter morrido de medo com sua lâmina na garganta dele — vociferou Reginald. Comecei a falar, minha boca trabalhando, mas as palavras me faltaram. — Aquilo foi... Aquilo foi... — Diferente? Por que envolvia a missão de encontrar os assassinos do seu pai? Haytham... — Ele segurou meu cotovelo e me conduziu para fora da adega e de volta ao corredor, e, novamente, subimos os degraus. — Isto é mais importante do que aquilo. Você pode não achar, mas é. Envolve o futuro inteiro da Ordem. Eu não tinha mais certeza. Não tinha certeza do que era mais importante, porém nada disse. — E o que acontecerá quando o código for decifrado? — perguntei, quando chegamos novamente ao hall de entrada. Ele olhou para mim. — Ah, não — falei, ao entender. — Não deve acontecer nada com eles. — Haytham, não ligo para o fato de você me dar ordens... — Então não encare isso como uma ordem — sussurrei. — Encare como uma ameaça. Mantenhaos aqui, após o trabalho deles ter terminado, se for preciso, mas, se lhes acontecer alguma coisa, você terá de se ver comigo. Ele olhou-me intensa e longamente. Dei-me conta de que meu coração martelava e roguei a Deus para que não fosse de algum modo visível. Alguma vez eu tinha ido contra ele daquele modo? Com tal força? Achava que não. — Está bem — disse ele, após um momento —, eles não serão afetados. Passamos o jantar quase em silêncio, e a oferta de um leito para eu passar a noite foi feita com relutância. Parti pela manhã; Reginald prometeu manter contato, com notícias sobre o diário. A


cordialidade entre nós, porém, acabou. Em mim, ele vê insubordinação; nele, vejo mentiras.


18 de abril de 1754 i Mais cedo, esta noite, encontrei-me na Royal Opera House, ocupando um assento ao lado de Reginald, que se acomodava para assistir à Ópera dos mendigos com evidente alegria. Claro que, da última vez que nos encontramos, eu o ameaçara, o que não era algo que eu houvesse esquecido, mas, evidentemente, ele havia. Esquecido ou perdoado, um dos dois. De qualquer modo, era como se o confronto não tivesse existido, o quadro-negro apagado, ou pela sua antecipação da próxima diversão da noite ou pelo fato de que ele acreditava que o amuleto estava perto. Estava no interior do teatro, aliás, em volta do pescoço de um Assassino que fora citado no diário de Vedomir, e depois localizado pelos agentes dos Templários. Um Assassino. Ele era meu alvo seguinte. Meu primeiro trabalho desde o resgate de Lucio na Córsega, e o primeiro a sentir a ferroada da minha nova arma: minha lâmina oculta. Ao pegar os binóculos de ópera e olhar para o homem do outro lado do salão — meu alvo —, fui atingido subitamente pela ironia. Meu alvo era Miko. Deixei Reginald em seu lugar e segui ao longo dos corredores do teatro, por trás dos assentos, passei pelos patronos da ópera, até me descobrir nos camarotes. No reservado onde Miko estava sentado, entrei em silêncio e bati delicadamente em seu ombro. Eu estava pronto para ele se tentasse alguma coisa, mas, embora seu corpo ficasse tenso e o ouvisse inspirar fundo, não fez qualquer movimento para se defender. Foi quase como se ele esperasse, quando estendi a mão e tirei o amuleto de seu pescoço — e percebi uma sensação de... alívio? Como se estivesse agradecido por renunciar à responsabilidade, feliz por não ser mais seu guardião? — Você deveria ter me procurado — suspirou. — Nós teríamos encontrado outro meio... — Sim. Mas, aí, você ficaria sabendo — retruquei. Houve um clique, quando soltei a lâmina, e o vi sorrir, percebendo que era aquela que eu lhe tomara na Córsega. — Sei que não importa, mas sinto muito — disse-lhe. — Eu também — falou, e eu o matei.

ii Algumas horas depois, participei da reunião na casa na Fleet and Bride, em volta de uma mesa com


outros, nossa atenção concentrada em Reginald, assim como no livro à nossa frente sobre a mesa. Estava aberto, e vi o símbolo dos Assassinos na página. — Cavalheiros — disse Reginald. Seus olhos brilhavam, como se estivesse prestes a chorar. — Tenho em minha mão uma chave. E, se o que este livro diz é verdade, ela abrirá as portas de um depósito construído por Aqueles Que Vieram Antes. Eu me contive. — Ah, nossos queridos amigos que governaram, decaíram e então sumiram do mundo — lembrei. — Você sabe o que encontraremos lá dentro? Se Reginald captou meu sarcasmo, não deu qualquer sinal. Em vez disso, apanhou o amuleto, ergueu-o e exibiu-o diante do silêncio das pessoas reunidas, enquanto a coisa começou a brilhar em sua mão. Foi impressionante, até mesmo eu tive de admitir, e Reginald olhou direto para mim. — Isto pode conter conhecimento — rebateu. — Talvez uma arma, ou algo ainda desconhecido, insondável em sua construção e seu propósito. Pode ser uma dessas coisas. Ou nenhuma delas. Ainda são um enigma, aqueles antecessores. Mas de uma coisa estou certo... O que quer que nos espera atrás daquelas portas será de grande benefício para nós. — Ou para nossos inimigos — contrapus —, se encontrarem primeiro. Ele sorriu. Eu estaria, finalmente, começando a acreditar? — Eles não encontrarão. Você providenciou isso. Miko morrera querendo encontrar outro meio. O que ele quis dizer? Um acordo entre Assassinos e Templários? Meus pensamentos se dirigiram a meu pai. — Suponho que você saiba onde fica esse depósito? — indaguei, após uma pausa. — Sr. Harrison? — chamou Reginald, e John adiantou-se com um mapa, desdobrando-o. — Qual é a precisão de seus cálculos? — perguntou Reginald, enquanto John circulava uma área do mapa, a qual, inclinando-me mais para perto, vi que continha Nova York e Massachusetts. — Acredito que o local esteja em alguma parte dentro desta região — disse ele. — É muito chão para percorrer. — Franzi a testa. — Peço desculpas. Queria poder ser mais exato... — Tudo bem — conciliou Reginald. — É o bastante para começar. E foi por isso que o chamamos aqui, Sr. Kenway. Gostaríamos que viajasse para a América, localizasse o depósito e tomasse seu conteúdo. — Estou às suas ordens — falei. Internamente, eu o amaldiçoei pela sua insensatez, e desejei que me deixassem em paz para continuar minhas investigações, então acrescentei: — Embora um trabalho de tal magnitude requeira mais do que apenas eu. — Claro — concordou Reginald, e me passou um pedaço de papel. — Aqui estão os nomes de cinco homens solidários à nossa causa. Cada qual está também perfeitamente de acordo em ajudá-lo no seu empreendimento. Com eles a seu lado, não lhe faltará nada. — Bem, então é melhor eu seguir meu caminho — declarei. — Eu sabia que nossa confiança em você não foi mal empregada. Já reservamos sua passagem


para Boston. Seu navio parte ao amanhecer. Parta, Haytham... e traga honra para todos n贸s.


8 de julho de 1754 i Boston cintilava ao sol, enquanto gaivotas grasnavam e circulavam acima, com a água batendo ruidosamente na parede do porto e a prancha martelando como um tambor, ao desembarcarmos do Providence, cansados e desorientados por termos passado mais de um mês no mar, mas fracos de felicidade por finalmente alcançar a terra. Parei de repente, quando marinheiros de uma fragata vizinha rolaram barris, através do meu caminho, com o som de uma trovoada distante, e meu olhar saiu do reluzente mar esmeralda, onde os mastros dos navios de guerra da Marinha Real, iates e fragatas balançavam lentamente de lado a lado, indo para a doca, os largos degraus de pedra que levavam de píeres e quebra-mares ao porto apinhado de casacos vermelhos, comerciantes e marujos, depois acima, passando do porto para a cidade de Boston propriamente dita, os pináculos das igrejas e os característicos prédios de tijolos vermelhos aparentemente resistindo a qualquer tentativa de arrumação, como se tivessem sido jogados do lado da colina por uma mão divina. E, por toda a parte, bandeiras do Reino Unido balançando delicadamente ao vento, só para lembrar aos visitantes — para o caso de terem quaisquer dúvidas — que os britânicos estavam aqui. A passagem da Inglaterra para a América fora agitada, para dizer o mínimo. Fizera amigos e descobrira inimigos, sobrevivendo a um atentado à minha vida — sem dúvida, pelos Assassinos, que queriam se vingar pela morte no teatro e recuperar o amuleto. Para os demais passageiros e tripulantes do navio, eu era um mistério. Alguns achavam que eu era um erudito. Eu disse a meu novo conhecido, James Fairweather, que eu “solucionava problemas”, e que viajava para a América para ver como era a vida por lá; o que fora preservado do império e o que fora rejeitado; que mudanças o domínio britânico havia feito. Que eram falsidades, é claro. Mas não inteiramente mentiras. Embora eu tivesse vindo por causa de um assunto templário específico, também estava curioso para ver aquela terra de que tanto ouvira falar, a qual era aparentemente tão vasta e seu povo estimulado por um indomável espírito pioneiro. Havia aqueles que diziam que esse espírito talvez um dia pudesse ser usado contra nós, e que nossos súditos, se trabalhassem essa determinação, seriam um inimigo formidável. E havia outros que diziam que a América era simplesmente grande demais para ser governada por nós; que era um barril de pólvora, prestes a explodir; que seu povo se cansaria das taxas que lhe eram impostas para que um país distante milhares de quilômetros pudesse guerrear com outros países também distantes milhares de quilômetros; e que, quando ele explodisse, talvez não tivéssemos recursos para proteger nossos interesses. Tudo isso eu esperava julgar por mim mesmo. Mas apenas como algo além da minha missão principal, que era... bem, creio que é justo dizer que, para mim, a missão havia mudado no caminho. Eu entrara no Providence mantendo uma série


particular de crenças e saíra, primeiramente, desafiando-as, depois abalando-as e, finalmente, mudando-as, e tudo por causa do livro. O livro que Reginald me dera: eu passara a maior parte do tempo a bordo do navio estudando-o atentamente; devo tê-lo lido não menos do que duas dúzias de vezes, e ainda não tenho certeza se o entendi. Uma coisa, porém, eu sei. Se antes via Aqueles Que Vieram Antes com dúvida, como o faria um cético, um incrédulo, e considerava a obsessão de Reginald com eles, na melhor das hipóteses, irritante, e, na pior, uma preocupação que ameaçava arruinar o próprio trabalho de nossa Ordem, eu agora não pensava mais assim. Eu acreditava. O livro parecia ter sido escrito — ou deveria dizer escrito, ilustrado, decorado, rabiscado — por um homem, ou talvez vários deles: vários lunáticos que tinham enchido página após página com o que a princípio tomei por alegações malucas e bizarras, próprias para serem ridicularizadas e então ignoradas. De algum modo, porém, quanto mais eu lia, mais enxergava a verdade. Ao longo dos anos, Reginald havia me contado (eu costumava dizer “me entediado com”) suas teorias sobre uma raça de seres que antecederam a nossa. Ele sempre afirmara que nascemos de seus esforços e, portanto, obrigados a servi-los; que nossos ancestrais haviam lutado para garantir a própria liberdade em uma longa e sangrenta guerra. O que descobri, durante minha travessia, foi que tudo isso se originava do livro, que, enquanto eu lia, estava tendo o que posso descrever como um profundo efeito sobre mim. De repente, entendi por que Reginald se tornou tão obcecado com aquela raça. Eu havia zombado dele, lembra? Mas, lendo o livro, não tive mais vontade de zombar, apenas sentir assombro, uma sensação de leveza dentro de mim que às vezes me fazia sentir quase tonto de emoção e um senso do que posso descrever como “insignificância”, de perceber meu próprio lugar no mundo. Foi como se olhasse por um buraco de fechadura, esperando ver outro aposento no outro lado, mas em vez disso enxergando todo um mundo novo. E o que aconteceu com Aqueles Que Vieram Antes? O que tinham deixado para trás e como isso poderia nos beneficiar? Isso eu não sabia. Era um mistério que havia confundido a minha Ordem por séculos, um mistério que me pediram que solucionasse, um mistério que me trouxe aqui, a Boston. — Sr. Kenway! Sr. Kenway! Estava sendo saudado por um jovem cavalheiro que surgiu do meio da multidão. Indo até ele, falei com todo o cuidado: — Sim? Em que posso ajudá-lo? Ele estendeu a mão para um cumprimento. — Charles Lee, senhor. É um prazer conhecê-lo. Fui solicitado a lhe mostrar a cidade. Ajudá-lo a se instalar. Eu havia sido informado sobre Charles Lee. Ele não fazia parte da Ordem, mas estava ansioso para se juntar a nós e, de acordo com Reginald, desejaria fazer amizade comigo na esperança de


garantir meu apadrinhamento. Vendo-o, lembrei-me: Eu agora era o Grão-Mestre do Ritual Colonial. Charles tinha longo cabelo negro, grossas costeletas e um proeminente nariz e, embora tivesse gostado dele de imediato, notei que, enquanto sorria ao falar comigo, mantinha um olhar de desdém para todos os demais no porto. Sinalizou para eu deixar minhas malas, e começamos a seguir caminho pelas aglomerações do comprido píer. Passamos por passageiros em estado de confusão e tripulantes que ainda levavam seus pertences para terra firme; por operários das docas, comerciantes e casacos vermelhos, crianças e cachorros agitados correndo a nossos pés. Bati no chapéu para uma dupla de mulheres que davam risadinhas e então perguntei a ele: — Você gosta daqui, Charles? — Suponho que haja certo charme em Boston — respondeu por cima do ombro. — Aliás, todas as colônias. De fato, suas cidades não têm a sofisticação ou o esplendor de Londres, mas o povo é determinado e trabalhador. Tem um espírito pioneiro que acho cativante. Olhei em volta. — É muito bom, realmente... ver um lugar que está finalmente caminhando com os próprios pés. — Pés manchados com o sangue de outros, receio. — Ah, isso é uma história tão velha quanto o próprio tempo, e uma daquelas que provavelmente não vão mudar. Nós somos criaturas cruéis e desesperadas, obstinadas em nossos modos de conquista. Os saxões e os francos. Os otomanos e os safávidas. Eu poderia prosseguir por horas. A história humana inteira não passa de uma série de subjugações. — Rezo para que um dia nos elevemos acima disso — retrucou Charles com sinceridade. — Enquanto você reza, eu agirei. Veremos quem terá sucesso primeiro, hum? — Foi uma expressão — alegou, com um pouco de mágoa na voz. — Sim. E uma expressão perigosa. As palavras têm poder. Maneje-as sabiamente. Ficamos em silêncio. — Você está a serviço de Edward Braddock, não? — indaguei, ao passarmos por uma carroça carregada com frutas. — Sim, mas ele ainda vai chegar à América, e pensei que talvez eu pudesse... bem... pelo menos até ele chegar... pensei que... Dei um passo agilmente para o lado, para evitar uma menininha com rabo de cavalo. — Diga — pedi. — Perdoe-me, senhor. Eu esperava... Esperava que talvez pudesse servir ao senhor. Se vou servir à Ordem, não consigo imaginar um mentor melhor do que o senhor. Senti uma leve pontada de satisfação. — Bondade sua dizer isso, mas creio que me superestima. — Impossível, senhor. Não longe dali, um jornaleiro com o rosto vermelho e usando boné apregoava a notícia da batalha no Forte Necessity: “Forças francesas declaram vitória em seguida à retirada de Washington”,


berrava. “Em reação, o duque de Newcastle promete mais soldados para conter a ameaça estrangeira!” A ameaça estrangeira, pensei. Em outras palavras, os franceses. Esse conflito, que chamavam de Guerra Franco-Indígena, estava prestes a se agravar, se os boatos fossem verdadeiros. Não havia um inglês vivo que não detestasse os franceses, mas eu conhecia um inglês em particular que os odiava com uma paixão de inchar as veias, que era Edward Braddock. Quando chegasse à América, era para lá que ele seguiria, deixando-me cuidar de meus próprios assuntos — ou assim esperava. Acenei para o jornaleiro ir embora quando tentou me extorquir uma moeda de seis pence pela folha. Eu não tinha vontade de ler sobre mais vitórias francesas. Enquanto isso, ao chegarmos aos nossos cavalos e Charles me dizer que cavalgaríamos até a Taverna Green Dragon, fiquei imaginando quem seriam os outros homens. — Você foi informado do motivo por que vim para Boston? — perguntei. — Não. O Sr. Birch disse que eu deveria saber apenas o que você achasse necessário. Ele me enviou uma lista de nomes e me fez garantir que você encontrasse essas pessoas. — E você teve alguma sorte com isso? — Sim. William Johnson nos espera na Green Dragon. — Você o conhece bem? — Não muito. Mas ele viu a marca da Ordem e não hesitou em vir. — Prove que é leal à nossa causa e poderá saber de nossos planos — prometi. Ele ficou radiante. — Eu não gostaria de nada mais, senhor.

ii A Green Dragon era uma ampla construção de tijolos com um telhado de duas águas inclinado e uma placa na porta da frente que ostentava o epônimo dragão. De acordo com Charles, era o mais famoso café da cidade, onde todo mundo, de patriotas a casacos vermelhos e governadores, se encontrava para conversar, tramar, fofocar e negociar. Tudo que acontecia em Boston, as chances se originavam aqui, na Union Street. Não que a Union Street por si só fosse cativante. Pouco mais do que um rio de lama, diminuiu nosso ritmo ao nos aproximarmos da taverna, para evitar que ela espirrasse em algum dos grupos de cavalheiros que se encontravam do lado de fora, apoiados em bengalas e tagarelando intensamente. Evitando carroças e fazendo rápidos cumprimentos para soldados montados, chegamos a um baixo estábulo de madeira, onde deixamos nossos cavalos, depois atravessamos com todo o cuidado os riachos de lama até a taverna. Lá dentro, fomos imediatamente apresentados aos proprietários: Catherine Kerr, que estava (sem querer ser descortês) mais para o lado volumoso; e Cornelius


Douglass, cujas primeiras palavras que ouvi ao entrar foram: — Vá se danar, vadia! Felizmente, ele não estava falando nem comigo nem com Charles, mas com Catherine. Quando os dois nos viram, seu comportamento mudou instantaneamente de hostil para servil, e cuidaram para que minhas malas fossem levadas para meu quarto no andar de cima. Charles estava certo: William Johnson já estava lá, e fomos apresentados em um quarto lá em cima. Um homem mais velho, vestido de modo semelhante a Charles, mas mostrando certo enfado com este, uma experiência que estava gravada nas linhas de seu rosto, levantou-se de onde estava estudando mapas para apertar minha mão. — Prazer — disse ele e, então, quando Charles saiu para ficar de guarda, inclinou-se para a frente e comentou: — Um bom rapaz, se fosse um pouquinho mais sério. Guardei para mim mesmo o que achava de Charles, indicando com os olhos que ele deveria continuar. — Soube que você está montando uma expedição — falou. — Acreditamos que há um sítio precursor nesta região — expliquei, escolhendo cuidadosamente as palavras, depois acrescentando: — Preciso do seu conhecimento da região e das pessoas para encontrá-lo. Ele fez um careta. — Infelizmente, um baú que continha minha pesquisa foi roubado. Sem ela, não tenho utilidade para você. Eu sabia, por experiência própria, que nada nunca era fácil. — Então vamos procurá-lo — suspirei. — Tem alguma pista? — Meu colega, Thomas Hickey, andou fazendo as rondas. Ele é muito bom em soltar línguas. — Diga-me onde posso encontrá-lo e cuidarei para acelerar as coisas. — Ouvimos boatos sobre bandidos agindo a partir de um complexo a sudoeste daqui — informou William. — Certamente, vai encontrá-lo lá.

iii Fora da cidade, o milho em uma plantação ondulava sob uma suave brisa noturna. Não muito distante, estava a alta cerca de um complexo que pertencia aos bandidos e, do interior, vinha o som rouco de uma festa. Por que não?, pensei. Todos os dias evitando a morte pelo laço do carrasco ou na ponta da baioneta de um casaco vermelho é motivo de festa para quem leva a vida como bandido. Havia vários guardas e parasitas perambulando ao redor dos portões, alguns bebendo, outros tentando montar guarda, todos em um constante estado de altercação. À esquerda do complexo, o milharal se erguia até o alto de um pequeno pico de morro e, nele, estava sentado um vigia curvado sobre uma pequena fogueira. Sentado curvado sobre uma fogueira não é bem a posição desejada para


um vigia, mas, por outro lado, era um dos poucos deste lado do complexo que parecia estar levando o trabalho a sério. Certamente, não tinham colocado nenhum grupo de batedores. Ou, se tinham, os grupos de batedores deviam estar se espreguiçando em algum lugar debaixo de uma árvore, totalmente bêbados, porque não havia ninguém para nos ver, Charles e eu, quando nos aproximamos sorrateiramente, e fomos para perto de um homem que estava agachado junto a um muro de pedra em ruína, vigiando o complexo. Era ele: Thomas Hickey. Um homem de rosto redondo, um pouco maltrapilho e provavelmente ele próprio muito afeiçoado ao grogue, se meu palpite estava correto. Aquele era o homem que, segundo William, era bom em soltar línguas? Parecia ter problemas em soltar as próprias ceroulas. Talvez, de modo arrogante, minha aversão por ele tenha sido alimentada pelo fato de que era o primeiro contato que encontrava desde que havia chegado a Boston para quem meu nome não significava nada. Mas, se aquilo me irritou, não foi nada comparado ao efeito que teve em Charles, que sacou a espada. — Mostre algum respeito, rapaz — rosnou. Contive-o com a mão. — Paz, Charles — pedi, então me dirigi a Thomas: — William Johnson nos mandou, na esperança de que pudéssemos... apressar sua busca. — Não preciso apressar nada — disse ele com a fala arrastada. — Também não preciso de nenhum de vocês de fala elegante de Londres. Já encontrei os homens que realizaram o roubo. A meu lado, Charles indignou-se. — O que faz, então, vadiando aqui? — Imaginando como lidar com aqueles patifes — respondeu Thomas, apontando para o complexo, então virou-se para nós com um olhar esperançoso e um sorriso descarado. Suspirei. Era hora de agir. — Certo, vou matar o vigia e tomar posição atrás dos guardas. Vocês dois se aproximam pela frente. Quando eu abrir fogo sobre um grupo, ataquem. Teremos o elemento surpresa do nosso lado. Metade cairá antes de ao menos perceber o que aconteceu. Peguei o mosquete, deixei meus dois companheiros e me esquivei até a beira do milharal, onde me agachei e mirei no vigia. Ele estava aquecendo as mãos, o rifle entre as pernas, e provavelmente não me veria nem me ouviria se eu me aproximasse montado em um camelo. Parecia quase covardia apertar o gatilho, mas o apertei. Praguejei, quando se arremessou à frente, enviando acima uma chuva de faíscas. Ele logo começaria a queimar e, se não fosse qualquer outra coisa, o cheiro alertaria seus compatriotas. Agora correndo, voltei para Charles e Thomas, que se aproximaram do complexo dos bandidos enquanto eu tomava posição não muito distante, apoiei a coronha do meu rifle no ombro e mantive na mira um dos bandidos, que estava — embora “oscilava” talvez fosse o termo mais correto — logo do lado de fora do portão. Enquanto eu observava, ele começou a se movimentar na direção do milharal, talvez para substituir o sentinela que eu já havia abatido e que agora assava em sua própria fogueira. Esperei até


ele estar à beira do milharal, pausando quando houve uma súbita calmaria na diversão do interior do complexo e, então, quando o barulho aumentou, apertei o gatilho. Ele caiu de joelhos, depois tombou para o lado, parte de seu crânio sumido, e meu olhar foi direto para a entrada do complexo, para ver se o tiro tinha sido ouvido. Não, foi a resposta. Em vez disso, o povo diante do portão havia dirigido sua atenção para Charles e Thomas, sacara suas espadas e pistolas e começara a gritar para eles: “Deem o fora!” Charles e Thomas demoraram-se, como eu havia mandado. Podia ver suas mãos coçando para sacar as próprias armas, mas aguardavam sua vez. Bons homens. Esperando que eu desse o primeiro tiro. O momento era agora. Sorteei um dos homens, aquele que eu achava que era o cabeça. Puxei o gatilho e vi jorrar sangue da parte posterior de sua cabeça, e ele cambaleou para trás. Dessa vez, meu tiro foi ouvido, mas não importava, porque ao mesmo tempo Charles e Thomas desembainharam as espadas e atingiram mais dois guardas, que tombaram com sangue jorrando de ferimentos no pescoço. O portão virou uma confusão, e a batalha começou de verdade. Consegui acertar mais dois dos bandidos antes de abandonar meu mosquete, saquei a espada e corri adiante, saltando para o meio do combate e ficando lado a lado com Charles e Thomas. Pela primeira vez, gostei de lutar com companheiros e derrubei três dos patifes, que morreram gritando, enquanto os colegas corriam para o portão e se entrincheiravam lá dentro. Em pouco tempo, os únicos homens que restaram fomos nós, eu, Charles e Thomas, os três respirando pesadamente e sacudindo o sangue de nosso aço. Olhei para Thomas com respeito renovado: ele desempenhou bem sua tarefa, com velocidade e habilidade que desmentiam sua aparência. Charles também olhava para ele, embora com um pouco mais de desagrado, como se a proficiência de Thomas na batalha o tivesse irritado. Agora, porém, tínhamos um novo problema: tomamos o lado de fora do complexo, mas a porta fora bloqueada por aqueles que recuaram. Foi Thomas que sugeriu que atirássemos no barril de pólvora — outra boa ideia do homem que anteriormente havia repudiado como bêbado —, e foi o que fiz, explodindo um buraco na parede, através do qual nos precipitamos, pisando nos corpos rotos e dilacerados que atulhavam a passagem para o outro lado. Corremos. Havia grossos tapetes e mantas no chão, enquanto requintadas tapeçarias estavam penduradas nas janelas. O lugar inteiro estava na semiescuridão. Havia gritos, de homens e mulheres, e sons de pés correndo, enquanto avançávamos rapidamente, eu com a espada em uma das mãos e a pistola na outra, usando ambas, matando qualquer homem em meu caminho. Thomas havia surrupiado um castiçal, e usou-o para enfiar na cabeça de um bandido, limpando miolos e sangue do rosto, quando Charles nos lembrou por que estávamos ali: para encontrar o baú de William. Ele o descreveu, enquanto corríamos por mais corredores sombrios, encontrando agora menos resistência. Ou os bandidos estavam fugindo de nós ou estavam se reunindo em uma força mais coesa. Não que interessasse o que estavam fazendo: precisávamos achar o baú. E o achamos, aninhado nos fundos de um budoar que fedia a cerveja e sexo e, aparentemente,


estava cheio de gente: mulheres seminuas, que pegaram roupas e saíram gritando, e vários ladrões carregando suas armas. Uma bala atingiu o caixilho da porta a meu lado, e procuramos abrigo quando outro homem, nu, ergueu a pistola para atirar. Nas proximidades do caixilho da porta, Charles retribuiu o disparo, e o homem nu desabou no tapete com um grosseiro buraco vermelho no peito, agarrando um punhado de roupa de cama ao cair. Outra bala arranhou o caixilho, e nos abaixamos. Thomas sacou a espada quando mais dois bandidos se arremessaram pelo corredor em nossa direção, Charles acompanhando-o. — Larguem suas armas — bradou do budoar um dos bandidos remanescentes —, e pensarei em deixá-los com vida. — Eu lhe faço a mesma oferta — falei de trás da porta. — Não temos nenhuma rixa com vocês. Quero apenas devolver o baú ao legítimo dono. Houve escárnio em sua voz. — Não há nada legítimo em relação ao Sr. Johnson. — Não vou pedir novamente. — De acordo. Ouvi um movimento ali perto e atravessei rapidamente o vão da porta. O outro homem havia tentado se aproximar sorrateiramente de nós, mas coloquei uma bala entre seus olhos e ele caiu pesadamente no chão, sua pistola deslizando para longe. O bandido remanescente atirou de novo e mergulhou em direção à arma do companheiro, mas eu já havia recarregado e antecipado seu movimento e enfiei uma bala em seu flanco quando se esticou para pegá-la. Como um animal ferido, dobrou-se como um canivete, voltando para a cama e pousando em uma úmida confusão de sangue e lençóis, e ergueu a vista para mim, quando entrei cautelosamente, a pistola estendida à minha frente. Ele me deu um olhar sinistro. Não foi daquele jeito que planejou terminar sua noite. — Gente da sua laia não precisa de livros nem de mapas — observei, apontando para o baú de William. — Quem o levou a isso? — Nunca vejo a pessoa — sibilou, balançando a cabeça. — São sempre mensagens deixadas em esconderijos e cartas. Mas eles sempre pagam, portanto nós fazemos os serviços. Aonde quer que eu fosse encontrava homens, como o bandido, que aparentemente fariam qualquer coisa, qualquer coisa, por algumas moedas. Foram homens como ele que invadiram o lar da minha infância e mataram meu pai. Homens como ele que me colocaram no caminho em que me encontro atualmente. Eles sempre pagam. Nós fazemos os serviços. De algum modo, através do véu da repugnância, resisti à vontade de matá-lo. — Bem, esses dias acabaram. Conte para seus amos que eu disse isso. Ele se ergueu ligeiramente, talvez percebendo que o deixaria viver. — Quem eu digo que você é? — Não precisa. Eles saberão — afirmei. E o deixei ir. Thomas começou a recolher mais saques, enquanto Charles e eu pegamos o baú e deixamos o


complexo. Sair foi mais fácil, pois a maioria dos bandidos, tendo decidido que a discrição era a melhor parte da bravura, ficou fora do nosso caminho, e seguimos até nossos cavalos e fomos embora galopando.

iv Na Green Dragon, William Johnson estava novamente estudando os mapas. Imediatamente vasculhou o baú, quando o devolvemos para ele, verificando se seus mapas e pergaminhos estavam lá. — Meus agradecimentos, Sr. Kenway — disse ele, recostando-se diante de sua escrivaninha, satisfeito por tudo estar em ordem. — Agora, me diga o que precisa. O amuleto estava pendurado no meu pescoço. Descobri-me admirando-o, após pegá-lo. Teria sido minha imaginação, ou ele pareceu brilhar? Não tinha brilhado — não na noite em que o tirei de Miko, no teatro. A primeira vez que o vi brilhar foi quando Reginald segurou-o na Fleet and Bride. Agora, porém, pareceu fazer em minha mão o que havia feito na dele, como se estivesse energizado — por mais ridículo que parecesse — pela crença. Olhei para ele, depois levei as mãos até o pescoço, retirei o amuleto por cima da cabeça e atravessei-o por cima da escrivaninha. Ele me encarou, enquanto o apanhava, percebendo sua importância, então olhou-o forçando a vista, estudando-o cuidadosamente, enquanto eu indagava: — As imagens no amuleto... elas lhe são familiares? Pode ser que uma das tribos tenha lhe mostrado algo semelhante? — Parece de origem Kanien’kehá:ka — disse William. Os mohawk. Minha pulsação acelerou. — É capaz de determinar uma localização específica? — perguntei. — Preciso saber de onde veio isso. — Com a retomada da minha pesquisa, talvez. Deixe-me ver o que consigo fazer. Assenti com a cabeça em agradecimento. — Antes, porém, gostaria de saber mais sobre você, William. Fale-me sobre você. — Falar o quê? Nasci na Irlanda, de pais católicos... o que, aprendi bem cedo na vida, limitou severamente minhas oportunidades. Por isso me converti ao protestantismo e viajei para cá a mando do meu tio. Mas receio que meu tio Peter não tivesse uma das mentes mais brilhantes. Procurou fazer comércio com os mohawk... mas optou por construir seu estabelecimento distante das rotas de comércio, em vez de bem perto delas. Tentei argumentar com o sujeito, mas... — suspirou — ... como disse, não era brilhante. Então peguei o pouco dinheiro que tinha ganhado e comprei meu próprio lote de terra. Construí uma casa, uma fazenda, um armazém e um moinho. Um começo humilde... mas bem situado, o que fez toda a diferença. — Foi assim então que veio a conhecer os mohawk? — Sim. E se mostrou um valioso relacionamento.


— Mas você não ouviu falar nada sobre o lugar dos precursores? De nenhum templo escondido ou construções antigas? — Sim e não. O que quer dizer que eles têm seus lugares sagrados, mas nenhum combina com o que você descreve. São montes feitos de barro, clareiras na floresta, cavernas escondidas... Mas tudo natural. Nenhum metal estranho. Nenhum... brilho esquisito. — Humm. Está bem escondido — observei. — Mesmo para eles, é o que parece. — Deu um sorriso. — Mas anime-se, meu amigo. Você terá seu tesouro. Prometo. Ergui minha taça. — Ao nosso sucesso então. — E muito em breve. Sorri. Agora éramos quatro. Éramos uma equipe.


10 de julho de 1754 i Tínhamos agora nosso quarto na Taverna Green Dragon — uma base, se preferirem —, e foi ali que entrei para encontrar Thomas, Charles e William: Thomas bebendo, Charles com aparência perturbada e William estudando seus gráficos e mapas. Cumprimentei-os e fui recompensado com um arroto de Thomas. — Encantador — despejou Charles. Sorri. — Anime-se, Charles. Ele vai acabar subindo no seu conceito — falei e me sentei ao lado de Thomas, que me deu um olhar agradecido. — Alguma novidade? — perguntei. Ele balançou a cabeça. — Apenas murmúrios. Nada definitivo, no momento. Sei que procura por notícia de algo fora do comum... Relacionado a templos e espíritos e tempos antigos e não sei o que mais. Mas... até agora, não posso dizer que meu pessoal tenha ouvido alguma coisa. — Nenhuma bugiganga ou artefato que tenha passado pelo seu... mercado clandestino? — Nada de novo. Duas armas adquiridas desonestamente... algumas joias provavelmente aliviadas de algum ser vivo. Mas você pediu para prestarmos atenção em histórias sobre brilhos e zunidos e ficar de olho em visões estranhas, certo? Pois eu não soube de nada disso. — Continue de olho — pedi. — Ah, pode deixar. Você me prestou um grande serviço, senhor... e pretendo pagar por completo a minha dívida... O triplo, se quiser. — Obrigado, Thomas. — Lugar para morar e comida da qual se alimentar é um agradecimento suficiente. Não se preocupe. Em breve, lhe serei útil. Ele ergueu a caneca, mas descobriu que estava vazia, e eu ri, dei-lhe um tapinha nas costas e observei, quando se levantou e saiu balançando à procura de cerveja em outro lugar. Então voltei minha atenção para William, indo até sua mesa, um apoio para livros, e puxando uma cadeira para me sentar perto dele. — Como anda sua pesquisa? Ele me olhou com a testa franzida. — Os mapas e os cálculos não estão combinando. Nada nunca é simples, lamentei. — E os seus contatos locais? — perguntei-lhe, sentando-me à sua frente.


Thomas havia entrado de volta ruidosamente, com uma caneca de cerveja espumante na mão e uma marca vermelha no rosto, onde fora muito recentemente estapeado, bem a tempo de ouvir William sugerir: — Precisamos ganhar sua confiança, antes de eles compartilharem o que sabem conosco. — Tive uma ideia de como fazer isso — anunciou Thomas com a fala arrastada, e nos viramos para encará-lo, variando os graus de interesse, Charles do modo como normalmente o olhava, com a expressão de quem tivesse acabado de pisar em cocô de cachorro, William com um ar divertido, e eu com genuíno interesse. Thomas, bêbado ou sóbrio, era um indivíduo mais inteligente do que Charles ou William o consideravam. E prosseguiu: — Existe um homem que resolveu escravizar nativos. Liberte-os e eles serão nossos devedores. Nativos, pensei. Os mohawk. Era uma boa ideia. — Você sabe onde são mantidos? Thomas balançou a cabeça. Mas Charles se inclinou. — Benjamin Church deve saber. Ele se dedica a procurar e a ajeitar... e também está na sua lista. Sorri para ele. Bom trabalho, pensei. E lá estava eu, imaginando a quem apelaríamos a seguir.

ii Benjamin Church era médico, e encontramos facilmente sua casa. Quando não houve resposta após batermos em sua porta, Charles não perdeu tempo em arrombá-la, entramos correndo e descobrimos que o lugar tinha sido revistado. Não apenas os móveis estavam de cabeça para baixo e os documentos espalhados por todo o assoalho, arrebentado durante uma procura desordenada, mas havia também vestígios de sangue no chão. Olhamos um para o outro. — Parece que não somos os únicos à procura do Sr. Church — comentei, com a espada desembainhada. — Maldição! — explodiu Charles. — Ele pode estar em qualquer lugar. O que vamos fazer? Apontei para um retrato do bom doutor pendurado acima da lareira. Este mostrava um homem no início dos 20 anos, o qual, não obstante, tinha uma aparência distinta. — Nós o encontraremos. Venham, eu mostrarei como. E comecei a expor para Charles a arte da vigilância, de se misturar com o que o cerca, desaparecendo, observando rotinas e hábitos, estudando movimentos em volta e se adaptando a eles, tornando-se um só com o ambiente, tornando-se parte do cenário. Percebi o quanto estava gostando do meu novo papel como tutor. Quando menino, aprendi com meu pai, depois com Reginald, e sempre aguardei ansioso minhas sessões com eles, sempre adorando a transmissão e a comunicação de novos conhecimentos — conhecimentos proibidos, do


tipo que não se encontra em livros. Ensinando a Charles, fiquei imaginando se meu pai e Reginald tinham se sentido do mesmo modo como me sinto agora: sereno, sábio e experiente. Mostrei-lhe como fazer perguntas, como espreitar, como se movimentar pela cidade como um fantasma, reunindo e processando informações. E, depois disso, nos separamos, realizamos nossas investigações individualmente, e então, mais ou menos uma hora depois, voltamos juntos, com a expressão sombria. O que ficamos sabendo foi que Benjamin Church fora visto na companhia de outros homens — três ou quatro —, que o tinham levado embora de sua casa. Algumas das testemunhas haviam suposto que Benjamin estava bêbado; outras notaram o quanto estava machucado e ensaguentado. Um homem que foi em sua ajuda recebeu uma facada nas tripas como agradecimento. Aonde quer que tivessem ido, ficou claro que Benjamin estava encrencado, mas aonde tinham ido? A resposta veio de um arauto, que bradava as notícias do dia. — Você viu esse homem? — perguntei-lhe. — É difícil dizer... — Balançou a cabeça. — Tanta gente passa pela praça, que é difícil... Enfiei algumas moedas em sua mão, e seu comportamento mudou imediatamente. Inclinou-se com um ar conspirador: — Ele foi levado para os armazéns da orla, logo a leste daqui. — Obrigado gentilmente pela sua ajuda — disse-lhe. — Mas se apresse — aconselhou. — Ele estava com homens de Silas. Tais encontros costumam acabar muito mal. Silas, fiquei pensando, enquanto costurávamos nosso caminho pelas ruas em direção à região dos armazéns. Quem era Silas? As aglomerações tinham diminuído consideravelmente por ocasião de nossa chegada ao destino, bem distante das vias principais, onde um leve cheiro de peixe parecia pairar sobre o dia. O armazém ficava em uma fileira de edificações semelhantes, todas enormes e transpirando um senso de erosão e mau estado, e eu teria passado direto por ele se não fosse por um guarda que se espreguiçava do lado de fora da porta principal. Estava sentado sobre um barril, com os pés em cima um do outro, mastigando, não tão alerta quanto deveria estar, de modo que foi bastante fácil deter Charles e empurrá-lo para o lado do prédio antes que fôssemos vistos. Havia uma entrada na parede mais próxima de nós, e verifiquei que não estava vigiada antes de experimentar a porta. Trancada. Do interior, ouvimos sons de luta e depois um grito de agonia. Não sou homem de jogar, mas teria apostado de quem tinha sido o grito de agonia: Benjamin Church. Charles e eu nos entreolhamos. Tínhamos de entrar ali, e depressa. Esticando o pescoço para o outro lado do armazém, dei outra olhada no guarda, avistei o denunciador brilho de chaves em sua cintura e soube o que devia fazer. Esperei até que um homem que empurrava um carrinho tivesse passado; então, com o dedo nos lábios, disse a Charles que esperasse, e saí do abrigo, cambaleando um pouco ao dar a volta para a frente do prédio, parecendo, para os devidos fins, que eu tinha bebido além da conta.


Sentado em seu barril, o sentinela olhou de banda para mim, com o lábio retorcido. Começou a tirar a faca da bainha, exibindo parte de sua lâmina brilhante. Cambaleante, endireitei-me, ergui a mão para reconhecer o aviso e fiz menção de ir embora, antes de tropeçar e esbarrar nele. — Epa! — protestou o guarda, e me empurrou com tanta força que perdi o equilíbrio e caí na rua. Levantei-me e, com outro aceno de desculpas, segui meu caminho. O que ele não sabia era que fui embora de posse da argola com as chaves, que eu havia retirado de sua cintura. De volta à lateral do armazém, tentamos algumas chaves antes de, para nosso grande alívio, descobrir aquela que abria a porta. Tremendo a cada rangido e guincho imaginário, abrimos a porta e entramos sorrateiramente no armazém escuro e cheirando a umidade. Dentro, nos agachamos perto da porta, nos adaptando lentamente ao novo ambiente: um vasto espaço, a maior parte na escuridão. Um vazio negro e ecoante parecia se estender ao infinito, a única luz vinha de três braseiros que haviam sido colocados no meio do aposento. Vimos, finalmente, o homem que estávamos procurando, o homem do retrato: Dr. Benjamin Church. Estava sentado, amarrado a uma cadeira, com um guarda de cada lado, com um de seus olhos roxo e machucado, a cabeça pendente e sangue pingando constantemente do corte de um lábio para o lenço branco sujo que ele usava. Diante dele, estava um homem bem-vestido — Silas, sem dúvida — e um companheiro, que amolava uma faca. O suave som de fricção que isso fazia tornava-o quase brando, hipnótico, e, por um momento, foi o único som no local. — Por que sempre tem de tornar as coisas difíceis, Benjamin? — perguntou Silas, com um ar teatral de tristeza. Percebi que ele tinha sotaque inglês e parecia bem-nascido. Continuou: — Simplesmente me dê uma recompensa e tudo será perdoado. Benjamin encarou-o com um olhar ofendido mas desafiador. — Não vou pagar por proteção de que não preciso — rebateu, destemidamente. Silas sorriu e abanou a mão para o abafado, úmido e sujo armazém. — É um fato que você precisa de proteção ou não estaríamos aqui. Benjamin virou a cabeça e cuspiu um bocado de sangue, que se esparramou no chão de pedra, então dirigiu os olhos de volta para Silas, que exibia um olhar como se Benjamin tivesse soltado gases durante um jantar. — Que falta de jeito — comentou. — Agora, o que faremos em relação ao nosso convidado? O homem que amolava as facas ergueu a vista. Era a sua deixa. — Talvez eu corte as mãos dele — estridulou. — Coloque um fim às cirurgias que realiza? Talvez a língua. Para acabar com sua tagarelice? Ou talvez corte seu pau. Para ele parar de foder com a gente. Um tremor pareceu percorrer os homens, por asco, medo e diversão. Silas reagiu: — São tantas opções, não consigo decidir. — Olhou para o homem da faca e fingiu estar perdido na indecisão, então acrescentou: — Faça as três. — Espere um momento — pediu Benjamin rapidamente. — Talvez eu tivesse me precipitado em


me recusar antes. — Sinto muito, Benjamin, mas essa porta já se fechou — disse Silas tristemente. — Seja razoável... — começou Benjamin, com um traço de súplica na voz. Silas pendeu a cabeça para o lado e suas sobrancelhas se uniram em uma falsa preocupação. — Eu preferiria achar que fui razoável. Mas você se aproveitou da minha generosidade. Não serei feito de tolo uma segunda vez. Cutter, o Talhador, avançou, colocou a ponta da faca sobre seu próprio globo ocular, esbugalhando os olhos e sorrindo loucamente. — Receio carecer de estrutura para suportar ser testemunha de tal barbarismo — observou Silas, com o ar de uma velha que se ofende facilmente. — Vá me procurar, após ter terminado, Cutter. Silas foi saindo e Benjamin Church berrou: — Você vai se arrepender disso, Silas! Está me ouvindo? Eu vou ter a sua cabeça! Na porta, Silas parou, virou-se e olhou para ele. — Não — protestou, com o início de uma risada. — Não, prefiro pensar que não vai ter. Então os gritos de Benjamin começaram, quando Cutter começou seu trabalho, com uma risadinha silenciosa, ao manejar a faca igual a um pintor dando suas primeiras pinceladas, como se estivesse no início de um projeto muito maior. O coitado do velho Dr. Church era a tela e Cutter pintava sua obra-prima. Sussurrei para Charles o que precisava ser feito, e ele foi em frente, percorrendo com passos rápidos a parte escura dos fundos do armazém, onde o vi colocar a mão na boca e chamar: — Aqui, seus idiotas — e se afastar imediatamente, rápido e silencioso. A cabeça de Cutter deu um tranco, e ele acenou para os dois guardas, olhando preocupado em volta do armazém, ao mesmo tempo que seus homens sacavam as espadas e se movimentavam cautelosamente em direção à parte de trás, de onde tinha vindo o barulho — embora houvesse outro chamado, dessa vez de um diferente ponto na escuridão, quase cochichado, “Aqui”. Os dois guardas engoliram em seco, trocaram uma olhadela nervosa, enquanto o olhar de Cutter vagava pelas sombras do prédio, o queixo pressionado, metade de medo, metade de frustração. Eu era capaz de ver sua mente funcionando: seriam seus próprios homens pregando uma peça? Garotos bagunceiros? Não. Era uma ação inimiga. — O que está havendo? — rugiu um dos vilões. Ambos esticaram o pescoço para olhar nos espaços escuros do armazém. — Pegue uma tocha — vociferou o primeiro para o companheiro, e o segundo homem disparou de volta para o meio do aposento, ergueu cuidadosamente um dos braseiros, então curvou o corpo, por causa do peso, ao tentar carregá-lo. De repente, um grito de dentro das sombras, e Cutter berrava: — O que foi? Que merda está acontecendo? O homem com o braseiro pousou-o no chão e, em seguida, checou dentro da escuridão.


— É Greg — berrou de volta. — Ele não está mais aqui, chefe. Cutter se controlou. — Como assim “ele não está mais aqui”? Ele estava antes. — Greg! — chamou o segundo homem. — Greg? Não houve resposta. — Estou dizendo, chefe, ele não está mais aqui. — E, nesse momento, como se para enfatizar a questão, uma espada surgiu voando do meio do escuro recôndito, deslizou pelo chão de pedra e parou aos pés de Cutter. A lâmina estava suja de sangue. — É a espada de Greg — disse o primeiro homem, nervosamente. — Pegaram Greg. — Quem pegou Greg? — vociferou Cutter. — Não sei, mas pegaram. — Seja você quem for, é melhor mostrar a cara — berrou Cutter. Seus olhos dardejaram para Benjamin e eu podia ver seu cérebro funcionando, a conclusão a que chegou: que estavam sendo atacados por amigos do médico; que aquela era uma operação de resgate. O primeiro bandido permaneceu onde estava, perto da segurança do braseiro, a ponta de sua espada cintilando à luz do fogo enquanto ele tremia. Charles continuava nas sombras, uma ameaça silenciosa. Eu sabia que era apenas Charles, mas, para Cutter e seu companheiro, era um demônio vingador, tão silencioso e implacável quanto a própria morte. — É melhor vocês darem o fora daqui, antes que eu acabe com seu amigo — estridulou Cutter. Foi para mais perto de Benjamin, prestes a colocar a lâmina em seu pescoço, e, de costas para mim, vi minha chance, então saí sorrateiramente do meu esconderijo, aproximando-me dele furtivamente. Nesse momento, seu companheiro se virou, me viu, e gritou: — Chefe, atrás de você! — E Cutter girou o corpo. Saltei, ao mesmo tempo que acionava a lâmina oculta. Cutter entrou em pânico e vi a mão que segurava a faca tensionar, prestes a acabar com Benjamin. Esticado ao limite, consegui afastar sua mão e fazê-lo recuar, mas eu também me desequilibrei e ele teve a chance de desembainhar a espada e me enfrentar de igual para igual, espada em uma das mãos, faca de torturar na outra. Por cima do ombro dele vi que Charles não tinha perdido a oportunidade e foi voando para cima do guarda, e seguiu-se o repique de aço, quando suas lâminas se encontraram. Em segundos, Cutter e eu também estávamos lutando, mas rapidamente ficou claro que ele estava fora do seu meio. Podia ser bom com uma faca, mas não estava acostumado a oponentes que reagiam; era um mestre torturador, não um guerreiro. E, enquanto suas mãos se moviam rapidamente e suas lâminas riscavam diante de minha vista, tudo que ele me mostrava eram truques, ilusionismos, movimentos que podiam aterrorizar um homem amarrado a uma cadeira, mas não a mim. O que eu via era um sádico — um sádico amedrontado. E, se há uma coisa mais repugnante e patética do que um sádico, é um sádico amedrontado. Ele não tinha antecipação. Nem qualquer trabalho de pés ou habilidade defensiva. Atrás dele, a


luta estava acabada: o segundo bandido caiu ajoelhado com um gemido, e Charles plantou o pé no peito dele e retirou a espada, deixando que ele caísse sobre a pedra. Cutter também viu isso, e deixei que ele assistisse, recuei e permiti que visse seu companheiro, sua última proteção, morrer. Houve um golpe surdo na porta — o guarda do lado de fora finalmente descobrira o roubo de suas chaves e tentava e fracassava em entrar. Os olhos de Cutter viraram para aquela direção, em busca de salvação. Não encontrou nenhuma. Aqueles olhos amedrontados voltaram para mim, eu sorri e então avancei e comecei meus próprios cortes. Não senti prazer nisso. Simplesmente dei-lhe o tratamento que merecia. E quando, finalmente, ele se dobrou no chão com um talho vermelho-brilhante na garganta e o sangue escorrendo pela frente do corpo, nada percebi além de uma distante sensação de gratificação, de justiça sendo feita. Ninguém mais sofreria pela sua lâmina. Esqueci as batidas na porta até elas pararem e, no repentino silêncio, olhei para Charles, que chegou à mesma conclusão que eu: o guarda tinha ido buscar ajuda. Benjamin gemeu e fui até ele, cortei as amarras com dois golpes da minha lâmina, e em seguida o segurei quando caiu da cadeira para a frente. De imediato, minhas mãos ficaram grudentas com seu sangue, mas sua respiração parecia normal e, embora ocasionalmente se apertassem quando se encolhia de dor, seus olhos estavam abertos. Ele estava vivo. Seus ferimentos eram dolorosos, mas não eram profundos. Ele olhou para mim... — Quem... Quem é você? — conseguiu dizer. Bati no chapéu. — Haytham Kenway, a seu dispor. Houve um princípio de sorriso em seu rosto, quando falou: — Obrigado. Obrigado. Mas... não entendo... por que está aqui? — Você é um Cavaleiro Templário, não é mesmo? — disse-lhe. Ele confirmou com a cabeça. — Eu também sou, e não temos o hábito de deixar colegas cavaleiros à mercê de loucos manipulando uma faca. Isso, além do fato de eu necessitar de sua ajuda. — E a terá — concordou. — Apenas me diga do que precisa... Eu o ajudei a se pôr de pé e chamei Charles. Juntos, o levamos até a porta lateral do armazém e saímos todos, saboreando o ar frio e refrescante após o cheiro abafado de sangue e morte lá de dentro. E, ao seguirmos de volta para a Union Street e para o santuário da Green Dragon, contei ao Dr. Benjamin Church sobre a lista.


13 de julho de 1754 i Estávamos reunidos na Green Dragon, sob as baixas e escuras vigas da sala dos fundos que agora considerávamos nossa, e a qual estávamos ocupando expansivamente e com rapidez para caber, nos amontoando até os empoeirados beirais: Thomas, que gostava de passar o tempo deitado sempre que não estava empunhando uma caneca de cerveja ou importunando quem nos hospedava pedindo mais; William, cujas linhas franzidas da testa se aprofundavam cada vez mais, enquanto se debruçava sobre cartas e mapas espalhados sobre uma mesa, indo dali para seu apoio para livros e ocasionalmente soltando um arfar de frustração, gesticulando para Thomas e sua caneca transbordante irem embora sempre que este cambaleava perto demais; Charles, meu braço direito, que se sentava a meu lado sempre que eu estava na sala, e cuja dedicação às vezes eu sentia como um fardo, em outras ocasiões como uma grande fonte de energia; e agora, é claro, o Dr. Church, que passara os dois últimos dias se recuperando dos ferimentos em uma cama que fora fornecida com relutância por Cornelius. Tínhamos deixado Benjamin deitado lá; ele fizera curativos nos próprios ferimentos e, quando finalmente se levantou, nos garantiu que provavelmente nenhum dano causado a seu rosto seria permanente. Eu havia falado com ele dois dias antes, quando o interrompi durante a aplicação do curativo no pior de seus ferimentos, certamente o mais doloroso de se olhar: uma área de pele que o tal Cutter removera. — Bem, uma pergunta para você — anunciei, ainda sentindo que não conseguira entender completamente qual era a daquele homem: — Por que medicina? Ele deu um sorriso sombrio. — Eu deveria responder que me preocupo com meu semelhante, certo? Que escolhi esse caminho porque me permite realizar um bem maior? — Isso não é verdade? — Talvez. Mas não foi o que me guiou. Não... Para mim foi uma coisa menos abstrata: eu gosto de dinheiro. — Há outros caminhos para a riqueza — aleguei. — Sim. Mas que melhor produto para se mascatear do que a vida? Nada mais é tão precioso... nem tão desesperadamente almejado. E nenhum preço é alto demais para o homem ou a mulher que teme um fim abrupto e permanente. Encolhi-me. — Suas palavras são cruéis, Benjamin. — Mas igualmente verdadeiras. Confuso, perguntei:


— Você fez um juramento para ajudar as pessoas, não fez? — Eu continuo seguindo o juramento, que não menciona preço. Simplesmente exijo compensação... justa compensação... pelos meus serviços. — E se a pessoa não tiver os fundos necessários? — Então há outros que lhe serão úteis. Um padeiro dá pão de graça a um mendigo? Um alfaiate oferece um vestido a uma mulher que não tem condições de pagar? Não. Por que eu deveria? — Você mesmo disse. — Lembrei: — Nada é mais precioso do que a vida. — Realmente. Mais um motivo para que uma pessoa garanta os meios de preservá-la. Olhei-o com desconfiança. Ele era novo — mais do que eu. E fiquei imaginando, será que já fui algum dia como ele?

ii Mais tarde, meus pensamentos retornaram para assuntos mais urgentes. Silas iria querer vingança pelo que acontecera no armazém, todos nós sabíamos disso; e era apenas uma questão de tempo antes que nos atacasse. Estávamos na Green Dragon, talvez o lugar mais visível da cidade, portanto, ele sabia onde nos encontrar quando quisesse desencadear o ataque. Mas eu tinha espadachins bastante experientes para fazer com que ele parasse para pensar e eu não tinha a intenção de fugir ou ir para um esconderijo. William havia contado a Benjamin o que tínhamos planejado — bajular os mohawk ao ir contra os traficantes de escravos — e ele então se inclinou à frente. — Johnson me contou o que vocês pretendem — disse ele. — Acontece que o homem que me sequestrou é o mesmo que procura. Seu nome é Silas Thatcher. Interiormente, praguejei contra mim mesmo por não ter feito a ligação. Claro. Além de mim, a ficha também tinha caído para Charles. — Aquele sujeito elegante é um traficante de escravos? — exclamou, sem querer acreditar. — Não se deixe enganar pela sua língua de veludo — disse Benjamin, assentindo. — É a criatura mais cruel e mais corrupta que já conheci. — O que pode me dizer sobre como ele age? — perguntei. — Ele emprega pelo menos cem homens, mais da metade é de casacos vermelhos. — Tudo isso por alguns escravos? Com isso, Benjamin soltou uma gargalhada. — Dificilmente. O homem é um comandante da Tropa de Elite do Rei, encarregado do Forte Southgate. Perplexo, ponderei: — Mas, se a Inglaterra quiser ter alguma chance de expulsar os franceses, ela deve se aliar aos nativos... não escravizá-los.


— Silas é leal somente ao seu bolso — observou William, de seu apoio para livros. — Se seus atos prejudicam a Coroa, isso é irrelevante. Enquanto houver compradores para seu produto, ele continuará a produzi-lo. — Então é mais um motivo para detê-lo — falei duramente. — Meus dias são passados em reuniões com os habitantes locais... na tentativa de convencê-los de que somos nós em quem devem confiar — acrescentou William —, que os franceses estão apenas os usando como instrumentos, que serão abandonados assim que vencerem. — Suas palavras devem perder a força que têm, quando colocadas diante da realidade dos atos de Silas — suspirei. — Tenho tentado explicar que ele não nos representa — disse ele com um olhar magoado. — Mas ele usa o casaco vermelho. Ele comanda um forte. Para eles, devo parecer um mentiroso ou idiota... Provavelmente os dois. — Ânimo, irmão — encorajei-o. — Quando entregarmos a cabeça de Silas a eles, verão que suas palavras eram verdadeiras. Primeiro precisamos descobrir um meio de entrar no forte. Deixem que eu penso nisso. Nesse meio-tempo, cuidarei do nosso último recruta. Com isso, Charles se endireitou. — John Pitcairn é o nosso homem. Eu o levarei até ele.

iii Nós nos encontrávamos em um acampamento militar fora da cidade, onde os casacos vermelhos verificavam diligentemente quem entrava e saía. Eram homens de Braddock, e fiquei imaginando se reconheceria algum, de minhas campanhas de todos esses anos passados. Duvidava. Seu regime era brutal demais, seus soldados eram mercenários, ex-prisioneiros, homens em fuga que nunca ficavam muito tempo em um mesmo lugar. Um deles agora avançou, a barba por fazer e o cabelo desgrenhado, apesar do uniforme vermelho. — Informem o seu assunto — ordenou, enquanto seus olhos nos exploravam, não gostando muito do que via. Eu estava para responder, quando Charles se adiantou, apontou para mim e disse ao guarda: — Novo recruta. O sentinela afastou-se para o lado. — Mais gravetos para a pira, hein? — arreganhou os dentes. — Podem ir então. Atravessamos o portão e entramos no acampamento. — Como você consegue isso? — perguntei a Charles. — Já esqueceu, senhor? Trabalho para o general Braddock... quando não estou servindo, é claro. Uma carroça de saída do acampamento passou sem pressa por nós, conduzida por um homem com chapéu de aba larga, e fomos para o lado para dar passagem a um grupo de lavadeiras que


atravessava nosso caminho. O local estava marcado por tendas, sobre as quais pairava uma nuvem baixa de fumaça de fogueiras por toda a área do acampamento, e que eram cuidadas por civis e crianças, seguidores do exército cujo trabalho era preparar café e fazer comida para seus amos imperiais. Roupas lavadas pendiam de cordas estendidas de coberturas diante das tendas; civis embarcavam caixotes com suprimentos em carroças de madeira, vigiados por oficiais montados a cavalo. Vimos um grupo de soldados lutando contra um canhão atolado na lama e mais homens empilhando caixotes, enquanto, na praça principal, havia uma tropa de vinte ou trinta casacos vermelhos tendo suas habilidades testadas por um oficial que dava gritos quase inteligíveis. Olhando em volta, ocorreu-me que o acampamento era inequivocamente obra do Braddock que eu conhecia: movimentado e ordenado, uma colmeia de atividade, uma tentativa severa de disciplina. Qualquer visitante teria creditado isso ao exército britânico e a seu comandante, mas, se observasse bem, ou conhecesse Braddock de longa data, como eu, conseguiria sentir o ressentimento que impregnava o local: os homens deixavam transparecer má vontade em suas atividades. Agiam não por um senso de orgulho que tinham da farda, mas por estarem sob o jugo da brutalidade. Falando nisso... Estávamos nos aproximando de uma tenda e, ao chegarmos mais perto dela, ouvi, com um formigamento e uma profundamente desagradável sensação na boca do estômago, que a voz que eu escutava berrar era a de Braddock. Quando tinha sido a última vez que o tinha visto? Vários anos antes, quando havia deixado a Coldstreams, e nunca tive tanto prazer em dar as costas a um homem quanto havia tido com Braddock naquele dia. Eu deixara a companhia jurando que faria o máximo para vê-lo pagar pelos crimes que testemunhei durante meu período com ele — crimes de crueldade e brutalidade. Mas eu não levava em conta os laços que uniam a Ordem; não levava em conta a inabalável lealdade de Reginald a ele; e, no final, tive de aceitar que Braddock continuaria como sempre foi. Não gostei. Mas tive de aceitar. A resposta foi simplesmente me afastar dele. Neste momento, porém, não podia evitá-lo. Estava no interior da tenda, quando entramos, em meio à repreensão a um homem com cerca da minha idade, vestido com roupas civis, mas que era obviamente um militar. Aquele era John Pitcairn. Estava parado ali, recebendo a carga total da ira de Braddock — uma ira que eu conhecia muito bem —, enquanto o general bradava: — Estava planejando se apresentar? Ou esperava que meus homens não notassem sua chegada? Gostei dele imediatamente. Gostei do modo como reagiu, sem pestanejar, seu sotaque escocês medido e calmo, sem se intimidar por Braddock, quando respondeu: — Senhor, se me permitir explicar... O tempo, porém, não tinha sido bondoso com Braddock. Seu rosto estava mais avermelhado do que nunca, a calvície aparecendo. O rosto tornou-se agora muito mais vermelho, ao rebater: — Ah, sem dúvida, gostaria muito de ouvir isso. — Eu não desertei, senhor — protestou Pitcairn. — Estou aqui sob as ordens do comandante Amherst.


Entretanto, Braddock não estava com ânimo para se deixar impressionar pelo nome do comandante Jeffrey Amherst; e, no mínimo, seu ânimo diminuiu. — Mostre-me uma carta contendo o selo dele e talvez eu livre você do cadafalso — rosnou. — Não tenho tal coisa — reagiu Pitcairn, engolindo em seco... O único sinal de nervosismo que mostrou; talvez pensando no laço apertando em volta do pescoço. — A natureza do meu trabalho, senhor, é... é... Braddock recuou, como se estivesse farto de toda aquela encenação — e talvez estivesse prestes a ordenar a execução sumária de Pitcairn —, quando aproveitei a oportunidade para me adiantar. — Não é o tipo de coisa mais desejável para se pôr em um papel — comentei. Braddock virou-se para olhar para mim, com um movimento brusco, vendo a mim e Charles ali pela primeira vez, e nos acolhendo com variados graus de irritação. Para Charles, ele não ligava muito. Eu? Coloquemos deste modo: a antipatia era mútua. — Haytham — disse ele simplesmente, meu nome soando como um palavrão em seus lábios. — General Braddock — devolvi, sem me importar em esconder meu desagrado pela sua nova patente. Olhou de mim para Pitcairn e talvez, finalmente, tenha feito a ligação. — Suponho que não deveria me surpreender. Lobos geralmente andam em alcateias. — O Sr. Pitcairn ficará fora algumas semanas — informei-lhe —, e o devolverei a seu posto apropriado assim que nosso trabalho estiver terminado. Braddock balançou a cabeça. Fiz o possível para esconder meu sorriso e consegui, principalmente por manter minha alegria interna. Ele estava furioso, não apenas por sua autoridade ter sido enfraquecida, mas, pior, por ter sido enfraquecida por mim. — Obra do diabo, sem dúvida — disse ele. — Já é ruim o bastante meus superiores terem insistido que eu lhe permitisse o uso de Charles. Mas nada disseram sobre esse traidor. Você não o terá. Soltei um suspiro. — Edward... — comecei. Braddock, porém, estava sinalizando para seus homens. — Já terminamos aqui. Mostrem a saída para esses cavalheiros — ordenou.

iv — Bem, não saiu como eu esperava — suspirou Charles. Estávamos novamente do lado de fora dos muros, com o acampamento às nossas costas e Boston diante de nós, estendendo-se ao longe para um mar reluzente no horizonte, os mastros e as velas de barcos no porto. Em uma bomba de água, à sombra de uma cerejeira, paramos e nos encostamos à parede, de onde podíamos observar as chegadas e as saídas do acampamento sem atrair atenção.


— E pensar que eu costumava chamar Edward de irmão... — lembrei-me arrependido. Já fazia muito tempo, e era difícil de recordar, mas era verdade. Houve um tempo em que respeitava Braddock, que o via, e via Reginald, como meus amigos e aliados. Agora, desprezava Braddock com toda a energia. E Reginald? Ainda não estava certo a seu respeito. — E agora? — perguntou Charles. — Eles nos expulsarão se tentarmos voltar. Olhando para o acampamento, consegui ver Braddock sair a passos largos de sua tenda, gritando como de costume, gesticulando para um oficial — sem dúvida, um dos seus mercenários escolhidos a dedo —, que se aproximou rapidamente. Atrás de Braddock veio John. Ele pelo menos ainda estava vivo; o mau humor de Braddock tinha sido aplacado ou desviado para outro. Para mim, provavelmente. Enquanto observávamos, o oficial reuniu os soldados que tínhamos visto treinando na praça do quartel e os organizou em uma patrulha. Então, com Braddock na liderança, começaram a sair do acampamento. Outros soldados e seguidores civis saíram apressados do caminho, e o portão, que anteriormente estivera apinhado de gente, foi logo desobstruído para permitir a travessia dos marchadores. Passaram por nós, a mais ou menos cem metros de distância, e os observamos, por entre os galhos baixos da cerejeira, enquanto desciam o morro e iam na direção dos arredores da cidade, ostentando orgulhosamente a bandeira do Reino Unido. Uma estranha espécie de paz baixou em seu rastro, e me empurrei para fora da parede e disse a Charles: “Vamos.” Permanecemos mais de duzentos metros atrás e, ainda assim, podíamos ouvir o som da voz de Braddock, que, no mínimo, começou a aumentar de volume enquanto seguíamos caminho para a cidade. Mesmo em movimento, tinha o ar de alguém que atraía a atenção das pessoas. Mas o que rapidamente ficou claro foi que aquela era uma missão de recrutamento. Braddock começou se aproximando de um ferreiro, ordenando ao pelotão que observasse e aprendesse. Todos os vestígios de sua fúria anterior haviam desaparecido e ele ostentava um cálido sorriso, ao se dirigir ao homem, mais como um tio preocupado do que como o tirano desalmado que realmente era. — Você parece desanimado, meu amigo — comentou, amavelmente. — O que há de errado? Charles e eu ficamos a certa distância. Charles, em particular, mantinha a cabeça baixa e permanecia fora de vista, com medo de ser reconhecido. Forcei a audição para ouvir a resposta do ferreiro. — Os negócios andam ruins ultimamente — disse ele. — Perdi minha barraca e também minhas mercadorias. Braddock jogou as mãos para o alto, como se aquele fosse um problema fácil de resolver, porque... — E se eu lhe dissesse que poderia acabar com seus problemas? — perguntou. — Eu ficaria, no mínimo, desconfiado... — Muito justo! Mas ouça. Os franceses e seus companheiros selvagens estão devastando a zona


rural. O rei tem nomeado homens como eu para montar um exército capaz de forçá-los a recuar. Junte-se à minha expedição e será ricamente compensado. Apenas algumas semanas de seu tempo e voltará carregado de moedas, então poderá abrir uma nova loja... maior e melhor! Enquanto conversavam, notei oficiais ordenando a membros da patrulha que se aproximassem de outros cidadãos e começassem a mesma ladainha. Enquanto isso, o ferreiro dizia: — Verdade? Braddock já lhe entregava documentos do serviço militar, que havia pescado do interior do casaco. — Veja por si mesmo — declarou orgulhosamente, como se estivesse entregando ouro ao homem, e não papéis para ele se alistar no exército mais brutal e desumano de que já tive conhecimento. — Aceito — disse o pobre crédulo ferreiro. — Só preciso saber onde assino! Braddock seguiu adiante, conduzindo-nos a uma praça pública, onde parou para pronunciar um curto discurso, e mais de seus homens passaram a perambular por ali. — Ouça-me, boa gente de Boston — anunciou, no tom de um tio, cavalheiro, prestes a transmitir excelentes notícias. — O exército do rei precisa de homens fortes e leais. Forças sombrias se agrupam no norte e cobiçam nossa terra e sua grande generosidade. Venho hoje diante de vocês com um pedido: se dão valor às suas posses, suas famílias, suas próprias vidas... então juntem-se a nós. Peguem em armas a serviço de Deus e do país, para que possamos defender tudo que criamos aqui. Alguns habitantes encolheram os ombros e foram embora; outros conversaram com os amigos. Outros ainda se aproximaram dos casacos vermelhos, presumivelmente interessados em emprestar seus serviços — e ganhar algum dinheiro. Não pude deixar de notar uma definitiva correlação entre o quanto pareciam pobres com o quanto provavelmente eram persuadidos pelo discurso de Braddock. Sem dúvida, ouvi-o perguntar ao seu oficial: — Aonde deveremos ir depois? — Talvez até Marlborough? — respondeu o fiel tenente, que, embora estivesse longe demais para eu vê-lo direito, tinha uma voz que soava familiar. — Não — retrucou Braddock —, os residentes de lá estão contentes. Suas casas são boas; seus dias, tranquilos. — Que tal a Lyn ou a Ship Street? — Sim. Esses recém-chegados geralmente logo se veem em grandes dificuldades. Eles têm mais probabilidades de agarrar uma oportunidade para encher a bolsa e alimentar os filhos. Não muito distante, estava John Pitcairn. Queria me aproximar dele. Olhando para os casacos vermelhos em volta, percebi que era de um uniforme que eu precisava. Coitada da pobre alma que se desgarrou do grupo para se aliviar. Era o tenente de Braddock. Ele se afastou dos demais, abriu caminho empurrando com os ombros, passou por duas mulheres bemvestidas, usando gorros, e rosnou quando passaram fazendo um ruído de desaprovação com a língua nos dentes — fazendo um excelente trabalho de conquistar corações e mentes dos habitantes locais em nome de sua majestade.


Eu o segui a distância até ele chegar ao final da rua, onde havia um atarracado prédio de madeira, uma espécie de depósito, e, com um olhar para ver se não estava sendo observado, apoiou o mosquete em uma viga, depois abriu as calças para mijar. Claro, ele estava sendo vigiado. Por mim. Checando para ver se não havia outro casaco vermelho por perto, aproximei-me, torcendo o nariz por causa do acre fedor; aparentemente, mais de um casaco vermelho tinha se aliviado naquele local em particular. Então soltei minha lâmina com um suave tik, que ele ouviu, tensionando o corpo ligeiramente enquanto urinava, mas sem se virar. — Seja quem for, é melhor ter um bom motivo para estar atrás de mim enquanto estou mijando — ameaçou, balançando e em seguida colocando o pau de volta para dentro das calças. E reconheci sua voz. Era o carrasco. Era... — Slater — falei. — Esse é meu nome: não vá gastá-lo. E quem é você? Ele fingia estar com problemas com os botões, mas eu podia perceber a mão direita se afastar na direção do cabo de sua espada. — Talvez se lembre de mim. Meu nome é Haytham Kenway. Novamente, ele ficou tenso, e sua cabeça se endireitou. — Haytham Kenway — estridulou. — Realmente... eis um nome de grande influência, pois é. Eu esperava ter visto você pela última vez. — E eu a você. Vire-se, por favor. Um cavalo e uma carroça passaram pela lama, enquanto, lentamente, Slater virava o rosto para mim, seus olhos indo diretamente para a lâmina em meu punho. — Você agora é um Assassino, é? — zombou. — Um Templário, Slater, como seu chefe. Ele sorriu com desdém. — Seu pessoal não tem mais nada que atraia o general Braddock. Justamente o que eu suspeitava. Era por isso que ele tentara sabotar meus esforços para recrutar uma equipe para a missão de Reginald. Braddock se voltou contra nós. — Puxe sua espada — falei para Slater. Seus olhos piscaram. — Você vai me atacar, se eu fizer isso. Concordei com a cabeça. — Não posso matá-lo a sangue-frio. Não sou o seu general. — Não — disse ele —, você é uma fração do homem que ele é. E puxou a espada... Um segundo depois, o homem que antes havia tentado me enforcar, e a quem eu tinha visto ajudar a chacinar uma família inteira, no cerco a Bergen op Zoom, jazia morto a meus pés, e olhei abaixo para seu corpo ainda se contorcendo, pensando apenas que precisava tirar seu uniforme antes que ele o ensanguentasse todo.


Tirei-o e voltei para junto de Charles, que me olhou com as sobrancelhas erguidas. — Bem, você certamente parece com o papel que está representando. Dei-lhe um sorriso irônico. — Agora, vamos alertar Pitcairn sobre nossos planos. Quando eu lhe der o sinal, você provoca um tumulto. Usaremos a distração para passarmos despercebidos. Enquanto isso, Braddock dava ordens. — Muito bem, vamos em frente — ordenou, e aproveitei a oportunidade para me enfiar nas fileiras da patrulha, mantendo a cabeça baixa. Braddock, eu sabia, estaria concentrado no recrutamento, e não em seus soldados. Do mesmo modo, confiei no fato de que os homens da patrulha ficariam tão aterrorizados em atrair sua ira que também estariam muito preocupados com o alistamento de novos soldados para notar um rosto novo em suas fileiras. Fui para junto de Pitcairn e, em voz baixa, disse: — Olá novamente, Jonathan. A meu lado, ele teve um leve sobressalto, olhou para mim e exclamou: — Sr. Kenway? Fiz sinal de silêncio com a mão e olhei de relance para me certificar de que não tínhamos atraído qualquer atenção indesejável, antes de continuar: — Não foi fácil dar essa escapulida... mas aqui estou eu, para resgatá-lo. Dessa vez, ele manteve a voz baixa. — Você acha honestamente que conseguiremos escapar disto aqui? Sorri. — Não tem fé em mim? — Eu mal o conheço... — Conhece o suficiente. — Olhe — cochichou —, gostaria muito de ajudá-lo. Mas você ouviu Braddock. Se ele farejar isso, estamos perdidos. — Eu cuidarei de Braddock — tranquilizei-o. Ele olhou para mim. — Como? — perguntou. Dei-lhe um olhar que dizia que eu sabia exatamente o que estava fazendo, enfiei os dedos na boca e assobiei bem alto. Era o sinal que Charles esperava, e saiu correndo do meio de dois prédios para a rua. Ele havia tirado a camisa e a usava para esconder o rosto; o resto de suas roupas também estava em desalinho; usara lama em si mesmo para que não parecesse em nada um oficial do exército que de fato era. Parecia, aliás, um louco, e prontamente se comportou como um deles, ficando diante da patrulha, que foi levada a uma desorganizada parada, surpresa ou confusa demais até mesmo para erguer as armas, quando Charles começou a gritar: — Ei! Vocês são ladrões e patifes, cada um de vocês! Vocês juram que o império vai... vai nos


recompensar e nos honrar! Mas, no final das contas, só causam a morte! E por quê? Por pedras e gelo, árvores e riachos? Alguns franceses mortos? Pois bem, não queremos isso! Não precisamos disso! Portanto, peguem suas promessas falsas, suas bolsas tentadoras, suas fardas e suas armas... peguem todas essas coisas de que gostam tanto e as enfiem na bunda! Os casacos vermelhos se entreolharam, boquiabertos de descrença, tão perplexos que, por um momento, fiquei preocupado que não fossem reagir. Até mesmo Braddock, que se encontrava a certa distância, simplesmente ficou parado, com o queixo caído, sem saber se ficaria zangado ou se deveria se divertir com aquela inesperada explosão de puro desvario. Eles simplesmente desviariam e seguiriam seu caminho? Talvez Charles tivesse a mesma preocupação, porque, repentinamente, acrescentou: — Fora vocês e sua guerra falsa — e adicionou seu toque magistral. Esticou a mão, juntou um pouco de cocô de cavalo e jogou na direção geral do grupo, e a maioria, inteligentemente, se desviou. Quer dizer, apenas os sortudos: o general Edward Braddock não estava incluído neles. Ele parou, com cocô de cavalo na farda, não mais indeciso se devia se divertir ou se ficava furioso. Agora estava furioso, e seu rugir pareceu sacudir as folhas das árvores: — Atrás dele! Alguns dos homens se destacaram do grupo e foram agarrar Charles, que já tinha se virado e agora estava correndo, passou por uma venda, em seguida virou à esquerda entre a venda e uma taverna. Essa era a nossa chance. Mas, em vez de aproveitá-la, John disse apenas: — Droga! — O que foi? — indaguei. — É a nossa chance de escapar. — Acho que não. Seu homem acaba de entrar em um beco sem saída. Precisamos salvá-lo. Gemi internamente. Aquela era mesmo uma missão de salvamento — mas não do homem que eu havia pretendido salvar. E eu também saí correndo na direção do beco; só que não tinha a intenção de satisfazer a honra do nosso nobre general; simplesmente tinha de evitar que machucassem Charles. Tarde demais. Quando cheguei lá, ele já tinha sido preso, e recuei, rezando silenciosamente enquanto ele era arrastado de volta para a via principal e levado diante de um general Braddock fervilhando de raiva, o qual já alcançava sua espada, quando decidi que as coisas tinham ido longe demais. — Solte-o, Edward. Ele se virou para mim. Se era possível seu rosto ficar mais sombrio do que já estava, então ficou. À nossa volta, ofegantes casacos vermelhos trocavam olhares confusos, enquanto Charles, seguro por um soldado de cada lado e ainda sem camisa, me lançava um olhar agradecido. — Você novamente! — ladrou Braddock, furioso. — Achou que eu não voltaria? — rebati igualmente. — Estou mais surpreso com o quanto facilmente você foi desmascarado — tripudiou. — Está ficando fraco.


Eu não estava disposto a trocar insultos com ele. — Deixe-nos ir... e John Pitcairn conosco — falei. — Eu não terei minha autoridade desafiada — exclamou Braddock. — Nem eu. Seus olhos se inflamaram. Nós o tínhamos perdido realmente? Por um momento imaginei-me sentado a seu lado, mostrando-lhe o livro e observando a transformação ocorrer com ele, do mesmo modo como ocorrera comigo. Conseguiria ele ter a mesma sensação de súbita compreensão que eu tive? Conseguiria ele voltar para nós? — Coloquem todos em correntes — vociferou. Não, decidi que ele não conseguiria. E novamente desejei a presença de Reginald, porque ele teria cortado essa discussão pela raiz: teria evitado o que aconteceu a seguir. Que foi eu ter decidido que conseguiria enfrentá-los; e entrei em ação. Em um abrir e fechar de olhos, minha lâmina estava do lado de fora e o casaco vermelho mais próximo morreu com um ar de surpresa no rosto quando o ataquei. Com o canto do olho, vi Braddock disparar para o lado, sacar a espada e gritar para outro soldado, que pegou uma arma, já carregada. John o alcançou antes de mim, sua espada brilhando abaixo e cortando o pulso do homem, não separando a mão, mas cortando através do osso, de modo que, por um momento, a mão sacudiu na extremidade do braço e a arma caiu inofensivamente no chão. Outro soldado veio na minha direção pela esquerda e trocamos golpes — um, dois, três. Pressionei-o adiante até suas costas ficarem contra a parede, e minha estocada final foi entre as correias que atravessavam sua túnica, direto no coração. Girei o corpo e enfrentei um terceiro homem, aparei seu golpe e varri minha espada pelo seu diafragma, mandando-o para o chão. Com as costas da mão, limpei o sangue do rosto a tempo de ver John furar outro homem, e Charles, que havia tomado a espada de um de seus captores, liquidar o outro com algumas estocadas seguras. Então a luta acabou e eu encarei o último homem que estava de pé — e o último homem que estava de pé era o general Edward Braddock. Teria sido tão fácil. Tão fácil acabar aqui. Seus olhos me disseram que ele sabia — sabia que, em meu coração, eu tinha de matá-lo. Talvez, pela primeira vez, ele tenha percebido que quaisquer laços que tivessem nos unido, dos Templários, ou do respeito mútuo por Reginald, já não existia. Deixei o momento se ajustar, então larguei a espada. — Eu contive hoje minha mão, porque você foi outrora meu irmão — disse-lhe —, e um homem melhor do que isso. Mas, se nossos caminhos voltarem a se cruzar, todas as dívidas serão esquecidas. Virei-me para John. — Você agora está livre, John. Nós três, eu, Charles e John, começamos a nos afastar. — Traidor! — gritou Braddock. — Vá então. Junte-se a eles em sua missão insensata. E, quando


se vir subjugado e morrendo no fundo de algum buraco escuro, rezo para que as minhas palavras hoje sejam as últimas de que se lembrará. E, com isso, ele saiu andando, passando por cima dos cadáveres de seus homens e abrindo caminho com os ombros por entre os curiosos que assistiam. Nunca se estava muito longe de uma patrulha de casacos vermelhos pelas ruas de Boston e, com Braddock capaz de chamar reforços, decidimos nos afastar. Enquanto ele partia, lancei um olhar para os corpos de casacos vermelhos mortos, caídos na lama, e refleti que, com relação ao recrutamento, não tinha sido a tarde mais bemsucedida. Não foi de admirar que os habitantes nos evitassem enquanto nos apressávamos pelas ruas em direção à Green Dragon. Estávamos cheios de pingos de lama e sujos de sangue, e Charles lutava para vestir novamente suas roupas. John, enquanto isso, estava curioso para saber sobre meu sentimento em relação à Braddock, e lhe contei sobre o massacre no esquife, terminando por dizer: — As coisas nunca foram as mesmas, depois disso. Combatemos juntos mais algumas vezes, porém cada saída era mais perturbadora do que a anterior. Ele matava e matava: inimigo ou aliado, civil ou militar, culpado ou inocente... não importava. Se achasse que uma pessoa era um obstáculo, ela morria. Ele afirmava que a violência era a solução mais eficiente. Tornou-se seu mantra. E isso despedaçou meu coração. — Devíamos tê-lo detido — disse John, olhando para trás, como se pudéssemos tentar imediatamente. — Suponho que tenha razão... Mas mantenho uma tola esperança de que ele ainda pudesse ser salvo e trazido de volta à razão. Eu sei, eu sei... é uma bobagem acreditar que uma pessoa tão envolvida com morte possa mudar subitamente. Seria mesmo uma bobagem? Fiquei imaginando, enquanto caminhávamos. Afinal, eu não havia mudado?


14 de julho de 1754 i Ao ficar na Green Dragon, estávamos no lugar certo para ouvir qualquer ruído contra nós, e meu ajudante Thomas mantinha o ouvido aguçado. Não que isso fosse uma tarefa árdua para ele, é claro: prestar atenção em qualquer sinal de uma trama contra nós significava bebericar cerveja, enquanto bisbilhotava conversas e estimulava outros a contarem rumores. Ele era muito bom nisso. Precisava ser. Tínhamos feito inimigos: Silas, é claro; porém mais preocupante, o general Edward Braddock. Na noite anterior, eu me sentei à escrivaninha do meu quarto para escrever no meu diário. Minha lâmina oculta estava sobre a mesa, a meu lado, a espada ao alcance da mão, no caso de Braddock lançar de imediato seu inevitável ataque para dar o troco, e eu sabia que seria assim dali em diante: dormir com um olho aberto, com as armas nunca longe da mão, sempre olhando por cima do ombro, cada rosto estranho pertencendo a um inimigo em potencial. Só de pensar nisso era cansativo, mas que outra opção havia? De acordo com Slater, Braddock havia renunciado à Ordem dos Templários. Ele agora era uma pessoa imprevisível, e a única coisa pior do que uma pessoa imprevisível é uma pessoa imprevisível com um exército à disposição. Eu podia pelo menos me consolar em saber que agora eu tinha uma equipe escolhida a dedo e, mais uma vez, estávamos reunidos na sala dos fundos, fortalecidos com o acréscimo de John Pitcairn, um problema mais temível para qualquer um dos nossos dois oponentes. Quando entrei na sala, eles se levantaram para me cumprimentar — até mesmo Thomas, que parecia mais sóbrio do que de costume. Lancei um olhar sobre eles: os ferimentos de Benjamin tinham sarado satisfatoriamente; John parecia ter se livrado dos grilhões do posto junto a Braddock, seu ar angustiado substituído por uma nova leveza de espírito; Charles ainda era um oficial do exército britânico e estava ansioso para que Braddock pudesse reconvocá-lo e, consequentemente, quando não olhava com desprezo para Thomas, ostentava um ar preocupado; enquanto isso, William continuava diante de sua mesa, com pena na mão, ainda trabalhando arduamente, comparando as marcas no amuleto com o livro e seus próprios mapas e gráficos, ainda perplexo, os detalhes reveladores mantinham-se esquivos. Tive uma ideia a esse respeito. Gesticulei para se sentarem, e me sentei entre eles. — Cavalheiros, creio que encontrei a solução para nosso problema. Ou melhor, Ulisses encontrou. A menção do nome do herói grego teve de algum modo um efeito variado sobre meus companheiros e, enquanto William, Charles e Benjamin assentiam sabiamente, John e Thomas pareciam de certo modo confusos; Thomas o menos constrangido. — Ulisses? É um novo membro? — arrotou.


— O herói grego, seu burro — disse Charles, desgostoso. — Permitam-me que explique — falei. — Entraremos no forte de Silas sob o pretexto de parentesco. Uma vez lá dentro, revelamos nossa armadilha. Libertar os presos e matar o traficante de escravos. Fiquei observando enquanto absorviam meu plano. Thomas foi o primeiro a falar. — Astucioso, astucioso — sorriu. — Gostei. — Então vamos começar — continuei. — Primeiro, precisamos conseguir um comboio...

ii Charles e eu estávamos em um telhado contemplando do alto uma das praças públicas de Boston, ambos vestidos como casacos vermelhos. Olhei abaixo para minha farda. Ainda havia um pouco de sangue de Slater no cinto de couro marrom e uma mancha nas meias brancas, mas, fora isso, eu parecia com o personagem. Charles também, embora implicasse com o uniforme. — Eu tinha esquecido o quanto essas fardas são desconfortáveis. — Receio que sejam necessárias — observei —, para melhor efeito de nossa trapaça. Olhei para ele. Pelo menos não teria de sofrer por muito tempo. — O comboio deverá chegar em breve — disse-lhe. — Atacaremos ao meu sinal. — Entendido, senhor — retrucou Charles. Na praça abaixo de nós, uma carroça virada bloqueava a saída mais distante, e dois homens sopravam e bufavam na tentativa de endireitá-la. Ou, diria eu, fingiam soprar e bufar para desvirar a carroça, pois os dois homens eram Thomas e Benjamin e a carroça tinha sido virada de propósito por nós quatro poucos momentos antes, colocada estrategicamente para bloquear a saída. Não muito distante dela estavam John e William, que esperavam à sombra da barraca de um ferreiro das proximidades, sentados em baldes virados de ponta-cabeça, os chapéus puxados bem para baixo sobre os olhos, como dois ferreiros descansando, preguiçosamente, durante o dia, vendo o mundo passar. A armadilha estava armada. Coloquei a luneta sobre o olho e observei a paisagem mais além da praça, e, dessa vez, eu o avistei — o comboio, um pelotão de nove casacos vermelhos vindo em nossa direção. Um deles dirigia uma carroça de feno, e, a seu lado, na boleia, estava... Ajustei o foco. Era uma mohawk — uma linda mohawk, que, apesar de estar acorrentada ao lugar, ostentava uma expressão orgulhosa, desafiadora e sentava-se empertigada, em nítido contraste com o casaco vermelho a seu lado, na condução, cujos ombros eram curvados e tinha um cachimbo com a haste comprida na boca. Notei que ela tinha um machucado no rosto, e fiquei surpreso em sentir uma onda de raiva ao ver isso. Fiquei imaginando quanto tempo se passara desde que a haviam capturado e como, de fato, tinham conseguido isso. Evidentemente, ela reagira.


— Senhor — falou Charles a meu lado, alertando-me —, não é melhor dar o sinal? Pigarreei. — Claro, Charles — respondi, enfiei os dedos na boca e dei um assobio baixo, observando meus companheiros abaixo trocando sinais “Pronto”, e Thomas e Benjamin continuando o fingimento de tentarem desvirar a carroça. Esperamos — esperamos até os casacos vermelhos marcharem para a praça e se depararem com a carroça bloqueando o caminho deles. — Que droga é essa? — exclamou um dos guardas da frente. — Mil perdões, senhores... parece que tivemos um pequeno e infeliz acidente — desculpou-se Thomas, com as mãos abertas e um sorriso insinuante. O líder dos casacos vermelhos notou o sotaque de Thomas e imediatamente adotou um ar de desdém. Seu rosto era um tom de púrpura, a irritação não chegava a ser tão grande para competir com a cor de sua túnica, mas era bastante viva. — Tirem isso daí... e depressa — vociferou, e Thomas tocou uma mão servil no cacho de cabelo sobre a testa antes de se virar para ajudar Benjamin com a carroça. — Claro, milorde, imediatamente — disse ele. Charles e eu, agora deitados de bruços, observávamos. John e William continuavam sentados com os rostos escondidos, mas também observavam a cena, enquanto os casacos vermelhos, em vez de simplesmente marcharem contornando a carroça, ou mesmo — Deus me livre — ajudarem Thomas e Benjamin a colocar a carroça de pé, continuavam parados, e o guarda líder parecia se tornar cada vez mais e mais furioso, até finalmente sua calma se esgotar. — Olhem... ou vocês tiram a carroça do caminho ou passaremos por cima dela. — Por favor, não façam isso. — Vi os olhos de Thomas se direcionarem acima para o telhado onde nos encontrávamos, então para o lado, onde William e John estavam prontos, a mão no cabo da espada, e ele pronunciou a frase para entrarmos em ação, que era: — Estamos quase acabando. Em um só movimento, Benjamin havia sacado a espada e a enfiara no soldado mais próximo, enquanto, antes que o guarda líder tivesse uma chance de reagir, Thomas fizera a mesma coisa, uma adaga surgindo do interior de sua manga, a qual, do mesmo modo rápido, penetrou no olho do casaco vermelho. Ao mesmo tempo, William e John irromperam do esconderijo, e três soldados caíram diante de suas lâminas, enquanto Charles e eu saltamos de cima, pegando os mais próximos de surpresa: quatro homens morreram. Sequer lhes concedemos a honra de dar seu último suspiro com dignidade. Preocupados em manchar suas roupas com sangue, já estávamos despindo as fardas dos mortos. Em questão de momentos, havíamos puxado os corpos para um estábulo, fechado e trancado a porta e, em seguida, fomos para a praça, seis casacos vermelhos tinham tomado os lugares de nove. Um novo comboio. Olhei em volta. A praça não estivera movimentada antes, mas agora estava deserta. Não fazíamos ideia de quem poderia ter assistido à emboscada — os coloniais que odiavam os ingleses e ficaram


contentes em vê-los morrer? Simpatizantes do exército britânico que, naquele exato momento, estavam a caminho do Forte Southgate para alertar Silas sobre o que aconteceu? Não tínhamos tempo a perder. Saltei para o lugar do condutor, e a mohawk logo se afastou — pelo menos o máximo que suas amarras permitiram — e me deu um olhar cauteloso, mas rebelde. — Estamos aqui para ajudar você — tentei tranquilizá-la. — Juntamente com os que são mantidos no Forte Southgate. — Então me solte — disse ela. Pesarosamente, eu lhe disse: — Não até estarmos lá dentro. Não posso arriscar que uma inspeção no portão dê errado. — E fui recompensado com um olhar desgostoso, como se tivesse dito exatamente o que ela esperava. — Cuidarei para que fique segura — insisti —, tem minha palavra. — Balancei as rédeas e os cavalos começaram a se mover, enquanto meus homens caminhavam de cada lado da carroça. — Você sabe alguma coisa sobre a operação de Silas? — perguntei à mohawk. — Quantos homens poderemos esperar? Qual a natureza de suas defesas? Ela, porém, não disse nada. — Você deve ser muito importante para Silas, para ele ter lhe dado seu próprio comboio — forcei, mas ela continuou me ignorando. — Gostaria que confiasse em nós... embora suponha que seja natural você ser cautelosa. Portanto, seja. — Como não houve resposta, concluí que minhas palavras tivessem sido em vão, e decidi me calar. Quando, finalmente, chegamos ao portão, um guarda se adiantou. — Alto — ordenou. Puxei as rédeas e paramos, eu e meus casacos vermelhos. Olhando mais além da prisioneira, bati na ponta do chapéu para os guardas. — Boa noite, cavalheiros. Pude perceber que o sentinela não estava com disposição para conversa-fiada. — Informe seu assunto — disse ele inexpressivamente, encarando a mohawk com olhos interessados, luxuriosos. Ela lhe retribuiu com seu próprio olhar venenoso. Por um momento, refleti que, quando cheguei a Boston, quis verificar que mudanças o mando britânico fizera naquele país, que efeito nossa governança causara em seu povo. Para a nativa mohawk, estava claro que qualquer que tivesse sido o efeito não fora para o bem. Falávamos piamente em salvar aquela terra; em vez disso, nós a estávamos corrompendo. Agora apontei para a mulher. — Entrega para Silas — falei, e o guarda assentiu, umedeceu os lábios e a seguir bateu na porta para que ela se abrisse e nós seguíssemos lentamente em frente. Dentro, o forte estava tranquilo. Descobrimo-nos perto das ameias, paredes baixas de pedra escura onde canhões se enfileiravam, direcionados para Boston, em direção ao mar, e casacos vermelhos com mosquetes a tiracolo patrulhavam de um lado para o outro. O foco de sua atenção era


vigiar os muros externos; temiam um ataque dos franceses e, olhando das ameias para baixo, mal nos olharam uma segunda vez, enquanto avançávamos com a carroça e, tentando parecer o mais normal possível, seguíamos nosso caminho para uma área afastada, onde a primeira coisa que fiz foi cortar as amarras da mulher. — Viu? Estou libertando você, exatamente como disse que faria. Agora, se me permitir explicar... Mas sua resposta foi não. Com um último olhar para mim, ela saltara da carroça e desaparecera na escuridão, deixando-me com a evidente sensação de assunto não resolvido: querendo me explicar para ela; querendo passar mais tempo com ela. Thomas fez menção de ir atrás dela, mas o detive. — Deixe-a ir — falei. — Mas ela vai nos denunciar — protestou. Olhei para onde ela tinha ido — pois já era uma lembrança, um fantasma. — Não, não vai — garanti, e desci, olhando em volta para me certificar de que estávamos sozinhos no pátio, em seguida me juntei aos outros para lhes dar as ordens: libertar os presos e evitar serem descobertos. Eles assentiram gravemente, cada qual entregue à missão. — E Silas? — perguntou Benjamin. Pensei no homem das risadinhas que eu vira no armazém, que deixara Benjamin à mercê de Cutter. Lembrei-me da promessa feita a Benjamin que ele teria sua cabeça, e olhei agora para o meu amigo. — Ele morre — falei. Observei os homens se misturarem com a noite e decidi ficar de olho em Charles, meu pupilo. E o vi se aproximar de um grupo de casacos vermelhos e se apresentar. Olhei através do pátio para ver que Thomas havia se envolvido com outra das patrulhas. William e John, enquanto isso, caminhavam despreocupadamente na direção de um prédio que pensei ser provavelmente a estacada, onde os prisioneiros eram mantidos, em que um guarda, agora mesmo, mudava de posição e se movimentava para bloquear o caminho deles. Olhei para checar se os outros guardas eram mantidos ocupados por Charles e Thomas e, quando fiquei satisfeito, acenei para John um discreto polegar para cima, então o vi trocar uma rápida palavra com William, ao se aproximarem do guarda. — Posso ajudá-lo? — ouvi o guarda dizer, sua voz sendo levada pelo pátio, justamente quando John lhe deu uma joelhada nos testículos. Com um gemido baixo, igual ao de um animal em uma armadilha, largou seu pique e caiu de joelhos. Imediatamente, John apalpou sua cintura, apanhou uma argola com chaves e, com as costas para o pátio, abriu a porta, apanhou uma tocha de um suporte e desapareceu lá dentro. Observei ao redor. Nenhum dos guardas tinha visto o que estava acontecendo no interior da estacada. Os que estavam nas ameias olhavam diligentemente para o mar; os de dentro tinham a atenção desviada por Charles e Thomas. Olhando de volta para a porta da estacada, vi John reaparecer e depois conduzir para fora o primeiro dos prisioneiros.


E, de repente, um dos soldados nas ameias viu o que estava acontecendo. — Ei, você aí, o que está fazendo? — berrou, já apontando o mosquete, e o grito ascendeu. Imediatamente, corri para as ameias, onde o primeiro casaco vermelho estava para apertar o gatilho, subi saltando os degraus de pedra e já estava sobre ele enfiando minha lâmina embaixo de seu queixo com um único movimento perfeito. Agachei-me e deixei seu corpo cair sobre mim, pulando sob ele para espetar o guarda seguinte no coração. Um terceiro homem estava de costas para mim, mirando em William, mas bati minha lâmina atrás dele e depois dei o coup de grâce em sua nuca, quando caiu. Não muito distante, William ergueu a mão em agradecimento, depois virou-se para enfrentar outro guarda. Sua espada agitou-se e um casaco vermelho caiu diante da lâmina e, quando William se virou para enfrentar um segundo homem, seu rosto estava sujo de sangue. Em alguns momentos, todos os guardas estavam mortos, mas a porta para um dos prédios anexos fora aberta e Silas aparecera, já irritado. — Uma hora de silêncio foi tudo que pedi — rugiu. — Em vez disso, sou acordado menos de dez minutos depois por essa cacofonia maluca. Espero uma explicação... e é melhor que seja boa. Ele parou de repente, a explosão morrendo em seus lábios e a cor drenada de seu rosto. Em volta do pátio estavam os corpos de seus homens, e balançou a cabeça quando olhou para a estacada, onde a porta estava escancarada, nativos se precipitavam para fora e John insistia para que fossem mais rápidos. Silas desembainhou a espada, enquanto mais soldados surgiam atrás dele. — Como? — esganiçou. — Como isso aconteceu? Minha preciosa mercadoria foi solta. É inaceitável. Podem estar certos, terei as cabeças dos responsáveis. Mas, antes... antes vamos limpar esta bagunça. Seus guardas vestiam as túnicas, prendendo espadas na cintura, municiando mosquetes. O pátio, vazio, a não ser por cadáveres, um momento atrás, de repente encheu-se de mais soldados, ansiosos por revanche. Silas estava fora de si, gritando com eles, gesticulando freneticamente para que os soldados pegassem as armas e, acalmando-se um pouco, continuou: — Fechem o forte. Matem quem tentar escapar. Não me importa se for um dos nossos ou um... deles. Quem se aproximar do portão deve virar cadáver! Estão me entendendo? A luta continuou. Charles, Thomas, William, John e Benjamin movimentaram-se por entre os soldados e tiraram partido de seu disfarce. Os homens que atacavam eram levados a lutar entre si, pois não tinham certeza de qual homem vestido com farda do exército era amigo e qual era inimigo. Os nativos, desarmados, se abrigaram para esperar a luta terminar, mesmo quando um grupo de casacos vermelhos de Silas formou uma linha na entrada do forte. Vi minha chance — Silas havia se posicionado em um lado de seus soldados e os estimulava a serem impiedosos. Estava claro que não se importava com quem morresse, desde que sua preciosa “mercadoria” não tivesse permissão de escapar e seu orgulho não fosse afetado no processo. Gesticulei para Benjamin, nos aproximamos de Silas e soubemos que ele nos avistara com o canto do olho. Por um momento, pude ver a confusão percorrer seu rosto até compreender que,


primeiro, éramos dois dos intrusos e, segundo, que ele não tinha como escapar, pois estávamos impedindo que alcançasse o resto de seus homens. Em todo caso, parecíamos uma dupla de leais guarda-costas protegendo-o do mal. — Você não me conhece — disse-lhe —, mas creio que vocês dois já são bem conhecidos... — falei, e Benjamin Church se adiantou. — Eu lhe fiz uma promessa, Silas — disse Benjamin —, e pretendo cumpri-la... Acabou-se em segundos. Benjamin foi muito mais piedoso com Silas do que Cutter tinha sido com ele. Com seu líder morto, a defesa do forte se desfez, o portão se abriu, e permitimos que o resto dos casacos vermelhos saísse. Atrás deles vieram os prisioneiros mohawk, e avistei a mulher de antes. Em vez de fugir, ficou para ajudar seu povo: era tão corajosa quanto bonita e determinada. Enquanto ajudava membros de sua tribo a fugirem do maldito forte, nossos olhos se encontraram, e me descobri arrebatado por ela. Então ela sumiu.


15 de novembro de 1754 i Estava congelando, e a neve cobria todo o solo à nossa volta quando partimos bem cedo naquela manhã, na direção de Lexington, em perseguição a... Talvez “obsessão” seja uma palavra muito forte. Então “preocupação”: minha preocupação com a mulher mohawk da carroça. Especificamente, em encontrá-la. Por quê? Se Charles tivesse me perguntado, eu teria dito que queria encontrá-la porque sabia que seu inglês era bom e eu achava que poderia ser um contato útil com os mohawk para ajudar a localizar o sítio precursor. Era o que teria dito, se Charles tivesse me perguntado por que eu queria encontrá-la, e teria sido parte verdade. Parte. De qualquer modo, Charles e eu iniciamos uma de minhas expedições, dessa vez para Lexington, quando ele avisou: — Receio ter más notícias, senhor. — O que foi, Charles? — Braddock insiste que eu volte a servir sob seu comando. Tentei me livrar, implorando, mas não adiantou — disse ele tristemente. — Sem dúvida, ainda está zangado por ter perdido John... Sem falar na humilhação que lhe causamos — observei de modo pensativo, imaginando se não deveria ter acabado com ele na ocasião, quando tive a chance. — Faça o que ele quer. Enquanto isso, trabalharei para que você seja liberado. Como? Eu não tinha certeza. Afinal, houve um tempo em que eu poderia ter confiado em uma carta formal de Reginald para fazer Braddock mudar de ideia, mas se tornou claro que Braddock não tinha mais afinidade com nossos modos. — Lamento perturbá-lo — desculpou-se Charles. — A culpa não é sua — retruquei. Eu sentiria falta dele. Afinal, Charles já tinha feito muito para localizar minha mulher misteriosa, que, segundo ele, seria encontrada fora de Boston, em Lexington, onde aparentemente estava incitando confusão contra os britânicos, que eram liderados por Braddock. Quem poderia culpá-la, após ter visto seu povo aprisionado por Silas? Portanto, Lexington era onde estávamos — em um acampamento de caça recentemente desocupado. — Ela não está muito longe — avisou-me Charles. E eu imaginei, ou senti minha pulsação se apressar um pouco? Havia muito tempo desde que uma


mulher me fizera sentir desse jeito. Passei minha vida estudando ou me movimentando por aí, e, quanto a mulheres em minha cama, nunca tinha havido nenhuma séria: as lavadeiras ocasionais durante meu período na Coldstreams, garçonetes, filhas de estalajadeiros — mulheres que haviam fornecido consolo e conforto, físico e de outras maneiras, mas ninguém que eu pudesse de modo algum descrever como especial. Essa mulher, porém: eu vira algo em seus olhos, como se fosse uma espécie de espírito semelhante — outra solitária, outra guerreira, outra alma machucada que via o mundo com olhos exaustos. Estudei o acampamento. — A fogueira acaba de ser apagada, e a neve, mexida recentemente. — Ergui a vista. — Ela está perto. Desmontei, mas, quando vi que Charles estava para fazer o mesmo, o detive. — É melhor você voltar para Braddock, Charles, antes que ele comece a desconfiar. Posso cuidar das coisas por aqui. Ele concordou, deu meia-volta com o cavalo, e o observei partir, depois voltei minha atenção ao solo coberto de neve à minha volta, imaginando qual tinha sido o meu verdadeiro motivo para mandá-lo embora. E eu sabia exatamente qual era.

ii Avancei de mansinho por entre as árvores. Tinha voltado a nevar, e a floresta estava estranhamente silenciosa, a não ser pelo som da minha própria respiração, que formava vagalhões de vapor diante de mim. Movimentava-me rápida mas cautelosamente, e não demorou muito para que eu a avistasse, ou pelo menos suas costas. Estava ajoelhada na neve, um mosquete apoiado em uma árvore, enquanto verificava uma armadilha. Aproximei-me, o mais silenciosamente possível, e a vi ficar tensa. Ela tinha me ouvido. Meu Deus, ela era boa. E, no instante seguinte, ela tinha rolado para o lado, apanhado o mosquete, olhado rapidamente para trás e disparado pela mata. Corri atrás dela. — Por favor, pare de correr — gritei, enquanto nos lançávamos pelo cobertor de neve da floresta. — Quero apenas conversar. Não sou seu inimigo. Ela, porém, continuava. Eu arremetia agilmente pela neve, me movimentando depressa e facilmente transpondo o terreno, mas ela era mais rápida e, em seguida, subiu em uma árvore, elevando-se para transpor um terreno mais difícil, indo de galho em galho, sempre que podia. No final, afastou-se cada vez mais na floresta e teria me escapado, se não fosse por um golpe do azar. Ela tropeçou na raiz de uma árvore, cambaleou, caiu, e, imediatamente, eu estava em cima dela, não para atacar, mas para ajudá-la, e estendi a mão, ofegando, enquanto conseguia dizer:


— Eu. Haytham. Eu. Venho. Em. Paz. Ela me olhou como se não tivesse entendido nenhuma palavra que eu disse. Senti o começo do pânico. Talvez tivesse me enganado sobre ela na carroça. Talvez ela não falasse mesmo minha língua. Até que, subitamente, respondeu com: — Você é ruim da cabeça? Perfeito no meu idioma. — Ah... desculpe. Ela deu uma tediosa balançada de cabeça. — O que você quer? — Bem, para começar, seu nome. — Meus ombros se erguiam à medida que recuperava o fôlego, que estava fumegante no frio congelante. Então, após um período de indecisão — pude notar isso percorrendo seu rosto —, ela disse: — Sou Kaniehtí:io. — Então quando tentei e fracassei em repetir seu nome, ela disse: — Pode me chamar de Ziio. — Mas agora me diz por que você está aqui. Alcancei o amuleto no pescoço e o tirei para mostrar a ela. — Sabe o que é isto? Inesperadamente, agarrou meu braço. — Você tem uma? — perguntou. Por um segundo, fiquei confuso, até perceber que ela não olhava para o amuleto, mas para minha lâmina oculta. Examinei-a por um momento, sentindo o que só posso descrever como uma estranha mistura de emoções: orgulho, admiração, então tremor, quando, acidentalmente, ela ejetou a lâmina. A seu favor posso dizer, porém, que ela não se encolheu, apenas olhou acima, para mim, com grandes olhos castanhos, e me senti afundar mais um pouco quando ela comentou: — Eu vi seu pequeno segredo. Retribuí o sorriso, tentando parecer mais confiante do que me sentia, e ergui o amuleto, começando novamente. — Isto. — E balancei o objeto. — Você sabe o que é? Tomando-o na mão, ela o olhou bem. — Onde o conseguiu? — Com um velho amigo — falei, pensando em Miko e lhe dedicando uma reza silenciosa. Fiquei imaginando, era ele quem deveria estar aqui em vez de mim, um Assassino em vez de um Templário? — Eu só vi essas marcas em apenas um único lugar — disse ela, e senti uma emoção instantânea. — Onde? — É... É proibido para mim falar disso. Inclinei-me em sua direção. Olhei-a nos olhos, esperando convencê-la com a força da minha convicção.


— Eu salvei seu povo. Isso não significa nada para você? Ela nada disse. — Olhe — pressionei. — Não sou eu o inimigo. E talvez ela tenha pensado nos riscos que corremos no forte, que havíamos salvado muitos de seu povo de Silas. E talvez — talvez — tenha visto algo em mim de que gostou. De qualquer modo, ela assentiu e então respondeu: — Perto daqui, existe um morro. No topo, cresce uma árvore poderosa. Venha, veremos se você fala a verdade.

iii Ela me conduziu até lá, e apontou para baixo de nós, onde havia uma cidade que disse se chamar Concord. — A cidade abriga soldados que procuram expulsar meu povo destas terras. São liderados por um homem conhecido por Bulldog — explicou. Então entendi. — Edward Braddock... Ela se virou para mim. — Você o conhece? — Ele não é meu amigo — garanti, e nunca havia sido tão sincero. — Todos os dias, mais pessoas do meu povo são mortas por homens como ele — disse ela ferozmente. — E sugiro que coloquemos um fim nisso. Juntos. E me olhou intensamente. Havia dúvida em seus olhos, mas também pude ver esperança. — O que propõe? De repente, eu soube. Eu soube exatamente o que tinha de ser feito. — Temos de matar Edward Braddock. Deixei que pensasse na informação. Então acrescentei: — Mas, antes, precisamos encontrá-lo. Começamos a seguir morro abaixo em direção a Concord. — Não confio em você — disse ela francamente. — Eu sei. — Ainda assim continua. — Talvez eu prove que está enganada. — Isso não acontecerá. Seu queixo estava endurecido. Ela acreditava naquilo. Eu tinha um longo caminho a percorrer com aquela mulher misteriosa, cativante.


Na cidade, nos aproximamos da taberna, onde a detive. — Espere aqui — pedi. — Uma mohawk pode atrair desconfiança... se não mosquetes. Ela balançou a cabeça e, em vez de ficar, colocou seu capuz. — Esta não é a primeira vez que tenho estado entre seu povo — explicou. — Posso me cuidar. Eu esperava que sim. Entramos e encontramos grupos de soldados de Braddock bebendo com uma ferocidade que teria impressionado Thomas Hickey, e nos movimentamos entre eles, bisbilhotando as conversas. Descobrimos que Braddock estava em viagem. Os ingleses planejavam alistar os mohawk para marchar mais para o norte e combater os franceses. Percebi que até os soldados pareciam atemorizados por Braddock. Todas as conversas eram sobre o quanto ele podia ser impiedoso, e como até seus oficiais tinham pavor dele. Um nome que ouvi foi George Washington. Ele era o único com coragem suficiente para questionar o general, de acordo com uma dupla de casacos vermelhos falantes que espreitei. Quando fui para o fundo da taberna, encontrei o próprio George Washington sentado com outro oficial em uma mesa afastada, e ficou um tempo ali, para escutar a conversa dos dois. — Diga-me que tem boas notícias — disse um deles. — O general Braddock recusou a oferta. Não haverá trégua — retrucou o outro. — Maldição. — Por quê, George? Que motivo ele deu? O homem que ele chamava de George — que eu supus ser George Washington — respondeu: — Ele disse que uma solução diplomática não era de modo algum uma solução. Que permitir uma retirada dos franceses somente retardaria um inevitável conflito... um conflito que eles agora controlam. — Há algum mérito nessas palavras, por mais que deteste admitir. Ainda assim... não percebe que isso é imprudente? — Isso também não me agrada. Estamos longe de casa, com forças divididas. Pior, receio que uma sede de sangue pessoal torne Braddock descuidado. Isso coloca os soldados em risco. Não gostaria de dar más notícias a mães e viúvas só porque o Bulldog quis provar uma questão. — Onde o general está agora? — Reagrupando os soldados. — Então presumo que deve estar no Forte Duquesne. — Possivelmente. A marcha para o norte certamente tomará tempo. — Pelo menos isso acabará em breve... — Eu tentei, John. — Eu sei, meu amigo. Eu sei... Braddock tinha partido para reagrupar seus soldados, contei para Ziio, do lado de fora da taberna. — E eles estão marchando contra o Forte Duquesne. Vai demorar até estarem prontos, o que nos


dará tempo de formar um plano. — Não será preciso — disse ela. — Nós o emboscaremos perto do rio. Vá e reúna seus aliados. Eu farei o mesmo. Mandarei avisar, quando for o momento de atacar.


8 de julho de 1755 Já haviam se passado oito meses desde que Ziio pedira que eu esperasse o aviso dela, mas finalmente ele veio, e viajamos para Ohio Country, um vale onde os ingleses estavam para iniciar uma importante campanha contra os fortes franceses. A expedição de Braddock tinha como propósito destruir o Forte Duquesne. Todos nós tínhamos estado ocupados durante aquele tempo, mas ninguém ficou mais ocupada do que Ziio, descobri, quando finalmente nos encontramos e vi que ela trouxera consigo uma grande quantidade de soldados, a maioria nativos. — Todos esses homens são de muitas tribos diferentes... unidos pelo desejo de verem Braddock ser mandado para o quinto dos infernos — explicou. — Os abenaki, os lenape, os shawnee. — E você? — perguntei-lhe, após serem feitas as apresentações. — Quem você representa? Um leve sorriso. — Eu mesma. — O que quer que eu faça? — perguntei finalmente. — Você ajudará os outros a preparar... Ela não estava brincando. Coloquei meus homens para trabalhar e juntei-me a eles na construção de bloqueios, enchendo uma carroça com pólvora para fazer uma armadilha, até tudo estar em seus lugares, então me descobri sorrindo, dizendo a Ziio: — Mal posso esperar para ver a expressão no rosto de Braddock, quando a armadilha finalmente for acionada. Ela me deu um olhar de desprezo. — Você sente prazer nisso? — Foi você quem me pediu para ajudá-la a matar um homem. — Não me agrada fazer isso. Ele é sacrificado para que a terra e o povo que vive nela possam ser salvos. O que motiva você? Alguma injustiça passada? Uma traição? Ou simplesmente a emoção da caçada? Mais sereno, falei: — Você me interpretou mal. Ela apontou para as árvores, na direção do rio Monongahela. — Os homens de Braddock estarão aqui em breve — lembrou. — Devemos nos preparar para sua chegada.


9 de julho de 1755 i Um batedor mohawk a cavalo falou-me rapidamente algumas palavras que não entendi, mas, ao gesticular para trás, em direção ao vale do Monongahela, pude adivinhar o que dizia: os homens de Braddock haviam atravessado o rio e logo estariam diante de nós. Ele saiu para informar ao resto dos participantes da emboscada, e Ziio, parando a meu lado, confirmou o que eu já sabia. — Estão vindo — disse simplesmente. Eu tinha adorado ficar junto a ela em nosso esconderijo, a proximidade. Portanto, foi com muito pesar que olhei para fora, sob a franja de uma vegetação rasteira, e vi o regimento surgir do limite das árvores ao pé do morro. Ao mesmo tempo eu o ouvira: um rumor distante que ficava mais alto, o qual anunciava a chegada não de uma patrulha, não de um grupo de reconhecimento, mas de um regimento inteiro de soldados de Braddock. Primeiro, vinham os oficiais montados a cavalo, em seguida os tocadores de tambor e os porta-bandeiras, depois os soldados marchando, então os carregadores e os seguidores civis vigiando o comboio com a bagagem. A coluna toda se estendia para trás, quase até onde a vista alcançava. E à frente do regimento vinha o general em pessoa, balançando suavemente ao ritmo do cavalo, a respiração congelada enevoando o ar adiante, e George Washington a seu lado. Atrás dos oficiais, os tocadores de tambor mantinham uma batida firme, pela qual éramos eternamente gratos, pois, nas árvores, havia franco-atiradores franceses e indígenas. Em terreno alto havia um grande número de homens deitados de bruços, a vegetação rasteira puxada para cima deles, esperando o sinal de atacar: uma centena ou mais de homens à espera de acionar a armadilha; uma centena de homens com a respiração presa, quando, de repente, o general Braddock ergueu a mão, um oficial a seu lado ladrou uma ordem, o som dos tambores cessou e o regimento parou, cavalos relincharam e espirraram, pateando o solo duro, coberto de neve, a coluna gradualmente ficando em silêncio. Uma calma sinistra instalou-se em volta dos homens na coluna. Na emboscada, prendemos a respiração, e tenho certeza de que cada homem e mulher, assim como eu, perguntou a si mesmo se tínhamos sido descobertos. George Washington olhou para Braddock, depois para trás, onde o resto da coluna, oficiais, soldados e seguidores civis estavam parados, na expectativa. Em seguida, olhou novamente para Braddock. Ele pigarreou. — Está tudo bem, senhor? — perguntou. Braddock inspirou fundo.


— Estou apenas saboreando o momento — respondeu, então inspirou fundo novamente e acrescentou: — Sem dúvida, muitos devem imaginar por que forçamos tanto nosso avanço para oeste. Estas são terras selvagens, ainda indomadas e não povoadas. Mas não será sempre assim. No devido tempo, nossas propriedades não serão mais suficientes, e esse dia está mais perto do que você pensa. Precisamos garantir que nosso povo tenha amplo espaço para crescer e prosperar ainda mais. O que significa que precisamos de mais terra. Os franceses entendem isso... e se empenham para evitar tal crescimento. Eles margeiam nosso território... levantando fortes e formando alianças... esperando o dia em que talvez possam nos estrangular com o laço que construíram. Isso não pode acontecer. Temos de cortar a corda e mandá-los de volta. É por isso que cavalgamos. Para lhes oferecer uma última chance: os franceses irão embora ou morrerão. A meu lado, Ziio lançou-me um olhar, e pude perceber que não havia nada de que ela gostaria mais do que interromper de imediato a pomposidade do homem. Dito e feito. — Está na hora de atacar — sussurrou. — Espere — falei. Quando virei a cabeça, vi que ela me olhava, e nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância. — Dispersar a expedição não é o bastante. Precisamos garantir que Braddock fracasse. Caso contrário ele com certeza tentará novamente. Matá-lo, foi o que eu quis dizer, e jamais haveria um momento melhor para uma investida. Pensei rapidamente, então, apontando para um pequeno comboio de reconhecimento que se afastou do regimento principal, expliquei: — Vou me disfarçar como um deles e seguir avançando até ficar a seu lado. A emboscada me fornecerá a proteção perfeita para desferir o golpe mortal. Segui meu caminho abaixo em direção ao solo e fui de mansinho na direção dos batedores. Silenciosamente, soltei a lâmina, enfiei-a no pescoço do soldado mais próximo e já estava desabotoando sua jaqueta antes mesmo de ele cair no chão. O regimento, agora a uns trezentos metros de distância, começou a se movimentar com um ruído igual ao de um trovão se aproximando, os tambores recomeçaram e os índios usaram o repentino ruído como proteção para começar a se movimentar pelas árvores, ajustando suas posições, preparando a armadilha. Montei no cavalo do batedor e passei um ou dois momentos acalmando o animal, deixando que a égua se acostumasse a mim, antes de conduzi-la abaixo por uma pequena descida em direção à coluna. Um oficial, também montado, avistou-me e ordenou que voltasse para minha posição, então acenei uma desculpa e comecei a trotar na direção da coluna, passei pelo comboio de bagagem e pelos seguidores civis, passei pelos soldados a pé, que me lançaram olhares ressentidos e falaram mal de mim pelas minhas costas, e passei pelo bando, até chegar quase ao nível da frente da coluna. Agora perto, mas também mais vulnerável. Perto o suficiente para ouvir Braddock falar com um de seus homens — um do seu círculo interno, seus mercenários. — Os franceses reconhecem que são fracos em todas as coisas — dizia ele —, por isso se


aliaram aos selvagens que habitam estas matas. Um pouco mais do que animais, eles dormem em árvores, colecionam escalpos e até mesmo comem seus próprios mortos. Piedade é complacência demais em relação a eles. Não poupem nenhum. Não sei se deveria ou não dar uma risadinha. Comem seus próprios mortos. Ninguém ainda acreditava nisso, não é mesmo? O oficial parecia pensar a mesma coisa. — Mas, senhor — protestou —, são apenas histórias. Os nativos não fazem nada desse tipo. Na sela, Braddock se virou para ele. — Está me chamando de mentiroso? — rosnou. — Eu me expressei mal, senhor — disse o mercenário, tremendo. — Peço desculpas. Sinceramente, sou grato em servir. — Em ter servido, você quis dizer — vociferou Braddock. — Senhor? — reagiu o homem, apavorado. — Você é grato em “ter servido” — repetiu Braddock, sacou a pistola e disparou contra o homem. O oficial caiu do cavalo para trás, um buraco vermelho onde estivera seu rosto, o corpo fazendo um ruído surdo sobre o chão extremamente seco da floresta. Enquanto isso, o tiro assustara os pássaros das árvores e a coluna, de repente, parou, os soldados tirando os mosquetes dos ombros, sacando armas, acreditando que estavam sob ataque. Por alguns momentos, permaneceram em alerta total, até vir a ordem para descansar, e a notícia seguiu de volta para eles, uma mensagem entregue em tons sussurrados: o general acabara de matar um oficial. Eu estava perto o bastante da frente da coluna para ver a reação chocada de George Washington, e apenas ele teve a coragem de ir contra Braddock. — General! Braddock girou o cavalo para ele, e talvez tenha havido um momento em que Washington achou que receberia o mesmo tratamento. Até Braddock estrondear: — Não tolerarei dúvida entre aqueles sob meu comando. Nem compaixão pelo inimigo. Não tenho tempo para insubordinação. Corajosamente, George Washington contrapôs: — Ninguém nega que ele errou, senhor, só que... — Ele pagou pela traição, como devem pagar todos os traidores. Se vencermos esta guerra contra os franceses... Não, quando vencermos esta guerra... será porque homens como você obedeceram a homens como eu... e o fizeram sem hesitação. Precisamos ter ordem em nossas fileiras, e uma clara cadeia de comando. Líderes e seguidores. Sem tal estrutura, não haverá vitória. Está me entendendo? Washington fez que sim com a cabeça, mas rapidamente desviou os olhos, guardando para si seus próprios sentimentos, então, quando a coluna se movimentou uma vez mais, ele se afastou da frente, fingindo que cuidaria de um assunto em outra parte. Percebi minha chance e conduzi meu cavalo para a retaguarda de Braddock, ficando a seu lado, mas ligeiramente atrás para que não pudesse me ver.


Ainda não. Esperei, aguardando o momento propício, até, de repente, surgir uma agitação atrás de nós, e o oficial que estava do outro lado de Braddock afastou-se para investigar, deixando somente nós dois na frente. Eu e o general Braddock. Saquei a pistola. — Edward — falei, e desfrutei o momento, quando ele girou na sela e seus olhos foram de mim para o cano da minha pistola e então novamente para mim. Sua boca abriu-se, para quê, eu não tinha certeza, provavelmente para pedir ajuda, mas eu não lhe daria essa chance. Agora não havia escapatória para ele. — Não é tão divertido do outro lado do cano, não é mesmo? — falei, e apertei o gatilho... Exatamente no mesmo momento em que o regimento foi atacado — maldição, a armadilha fora acionada cedo demais — minha montaria sobressaltou-se e o tiro se perdeu. Os olhos de Braddock brilharam com esperança e triunfo, quando, de repente, havia franceses por toda a nossa volta e começou a chover flechas das árvores acima de nós. Braddock puxou as rédeas de seu cavalo, com um grito, e, no momento seguinte, levava seu cavalo na direção do limite das árvores, enquanto eu permanecia ali, a pistola disparada na mão, aturdido pela abrupta reviravolta nos acontecimentos. A hesitação quase me custou a vida. Encontrei-me no caminho de um francês — jaqueta azul, calças vermelhas — sua espada balançando e seguindo direto para mim. Era tarde demais para acionar minha lâmina. Tarde demais para desembainhar a espada. Então, com a mesma velocidade, o francês estava voando para fora de sua sela, como se puxado por uma corda, a lateral de sua cabeça explodindo em um jato vermelho. No mesmo momento, ouvi o tiro e vi, em um cavalo atrás dele, meu amigo Charles Lee. Agradeci com um gesto da cabeça, mas teria de demonstrar a ele posteriormente minha efusiva gratidão, quando avistei Braddock sumir no meio das árvores, chutando os flancos de seu corcel e dando uma rápida olhada para trás, para ver se eu o estava perseguindo.

ii Gritando incentivos para minha montaria, segui Braddock floresta adentro, passando por índios e franceses que corriam morro abaixo em direção à coluna. Diante de mim, choveram flechas sobre Braddock, mas nenhuma atingiu o alvo. Agora também as armadilhas que tínhamos montado foram acionadas. Vi a carroça, carregada de pólvora, rolar do meio das árvores e dispersar um grupo de atiradores antes de explodir e mandar cavalos sem cavaleiros para longe da coluna, enquanto, acima de mim, franco-atiradores nativos abatiam soldados apavorados e desorientados. Braddock continuava frustrantemente adiante de mim, até que, afinal, o terreno passou a ser demais para seu cavalo, que empinou e o jogou no chão. Uivando de dor, Braddock rolou na terra e brevemente tateou à procura da pistola, antes de


abandonar essa ideia, pôs-se de pé e começou a correr. Para mim, era uma simples questão de alcançá-lo, e esporeei minha montaria para avançar. — Nunca pensei que fosse covarde, Edward — falei, ao alcançá-lo, e apontei minha pistola. Ele parou onde estava, girou e olhou nos meus olhos. Ali — ali havia arrogância. O desdém que eu conhecia tão bem. — Venha, então — escarneceu. Trotei para mais perto, arma em punho, quando, subitamente, houve o som de um tiro, minha égua caiu morta abaixo de mim e desabei no chão da floresta. — Quanta arrogância — ouvi Braddock bradar. — Sempre soube que ela seria seu fim. Agora, a seu lado, estava George Washington, que ergueu o mosquete para mirar em mim. Instantaneamente, tive uma forte sensação, misturada a pânico e satisfação, de consolo de que pelo menos seria Washington, que claramente tinha consciência e não era em nada parecido com o general, que tiraria a minha vida, e fechei os olhos, pronto para aceitar a morte. Lamentei por não ter visto os assassinos de meu pai serem levados à justiça, e por ter estado angustiantemente perto de descobrir os segredos de Aqueles Que Vieram Antes, mas não ter entrado no depósito; e desejei que tivesse sido capaz de ver os ideais de minha Ordem espalhados para mundo. No final, não fui capaz de mudar o mundo, mas, pelo menos, mudei a mim mesmo. Não tinha sido sempre um homem bom, mas tentei ser um homem melhor. O tiro, porém, não veio. E, quando abri os olhos, foi para ver Washington derrubado de seu cavalo, e Braddock girar o corpo para ver seu oficial no chão, lutando com uma figura que reconheci de imediato como Ziio, que não só tinha pegado Washington de surpresa como o desarmara e tinha sua faca na garganta dele. Braddock aproveitou a oportunidade para fugir, e eu me pus de pé e corri para a clareira onde Ziio segurava Washington firmemente. — Depressa — gritou ela para mim. — Antes que ele escape. Hesitei, sem querer deixá-la sozinha com Washington, e, sem dúvida, mais soldados a caminho, mas ela o atingiu com o cabo da faca, fazendo com que os olhos dele revirassem, tonto, e soube que ela podia cuidar de si mesma. Então fui, uma vez mais, atrás de Braddock, dessa vez, ambos a pé. Ele ainda tinha sua pistola, e correu para trás de um enorme tronco de árvore, girando e erguendo a mão com a arma. Parei e rolei para um abrigo, ao mesmo tempo que ele atirava, ouvi a bala se chocar inofensivamente contra uma árvore à minha esquerda e, sem parar, saltei para fora do abrigo para continuar a perseguição. Ele já estava de pé, na esperança de correr mais do que eu, mas eu era trinta anos mais jovem do que ele; não havia passado as duas últimas décadas encarregado de um exército, engordando, e ainda nem começara a suar quando ele começou a diminuir a velocidade. Olhou para trás e seu chapéu caiu, quando ele pisou em falso e quase caiu sobre as raízes descobertas de uma árvore. Fui mais devagar, deixando-o recuperar o equilíbrio e continuar correndo, então voltei a persegui-lo, agora em marcha lenta. Atrás de nós, os sons de tiros, de gritos, de homens e animais sofrendo, tornaram-se mais fracos. A floresta parecia afogar o ruído da batalha, deixando apenas o


som da respiração desigual de Braddock e o de seus passos sobre o macio chão da floresta. Novamente, olhou para trás e me viu — viu que agora eu quase não estava correndo e, finalmente, caiu, exausto, de joelhos. Movi o dedo, soltei a lâmina e me aproximei dele. Com os ombros se erguendo, enquanto pelejava para respirar, ele perguntou: — Por quê, Haytham? — Sua morte abre uma porta; não é nada pessoal — respondi. Enfiei a lâmina nele e observei o sangue borbulhar em volta do aço, e o corpo dele ficou tenso e sacudiu-se na agonia da empalação. — Bem, talvez seja um pouquinho pessoal — comentei, ao baixar seu corpo moribundo para o chão. — Afinal de contas, você encheu o meu saco. — Mas somos irmãos em armas — alegou. Suas pálpebras tremiam enquanto a morte lhe acenava. — Um dia, talvez. Mas não mais. Você acha que esqueci o que fez? Todos aqueles inocentes massacrados sem pestanejar. E para quê? Isso não gera paz para impedir seu caminho para uma decisão. Seus olhos focaram, e ele olhou para mim. — Errado — disse ele, com uma surpreendente e súbita energia interna. — Se usássemos a espada com mais liberalidade e com mais frequência, o mundo seria dotado de muito menos problemas do que hoje. Pensei. — Nesse caso, concordo — retruquei. Peguei sua mão e tirei o anel que ele usava com o penacho dos Templários. — Adeus, Edward — falei, e fiquei esperando que morresse. Nesse momento, porém, ouvi o som de um grupo de soldados se aproximando e percebi que não teria tempo de escapar. Em vez disso, deitei de bruços e me arrastei para baixo de um tronco de árvore caído, onde fiquei diretamente no nível dos olhos de Braddock. Sua cabeça estava virada para mim, os olhos brilhavam, e percebi que ele me denunciaria se pudesse. Lentamente, sua mão se estendeu, um dedo torto tentando apontar na minha direção, quando os homens chegaram. Maldição, eu deveria ter dado o golpe mortal. Vi as botas dos homens que chegavam à clareira, imaginando qual teria sido o resultado da batalha, e vi George Washington abrir caminho por entre um pequeno grupo de soldados, correr adiante e se ajoelhar ao lado de seu moribundo general. Os olhos de Braddock ainda se moviam. A boca se movimentava como se quisesse formar palavras — palavras para me denunciar. Fiquei imóvel, contando os pés: seis ou sete homens pelo menos. Conseguiria derrotá-los? Mas, percebi, as tentativas de Braddock de alertar seus homens sobre minha presença estavam sendo ignoradas. Em vez disso, George Washington tinha colocado a cabeça sobre seu peito, ouviu e


exclamou: — Está vivo. Debaixo do tronco de árvore, fechei os olhos e praguejei, enquanto os homens erguiam Braddock e o levavam embora. Mais tarde, reuni-me com Ziio. — Está feito — disse-lhe. Ela assentiu. — Agora que já fiz minha parte do acordo, espero que você faça a sua — acrescentei. Ela assentiu novamente e fez um sinal para que eu a seguisse, e saímos cavalgando.


10 de julho de 1755 Cavalgamos a noite toda e, finalmente, ela parou e indicou um monte de terra diante de nós. Era como se tivesse surgido da própria floresta. Fiquei imaginando se eu teria visto aquilo por mim mesmo. Meu coração acelerou e engoli em seco. Teria imaginado, ou foi como se o amuleto tivesse repentinamente acordado em meu pescoço, se tornado mais pesado, mais quente? Olhei para ela, antes de caminhar até a abertura e escorregar para dentro, onde me encontrei em um pequeno aposento que havia sido revestido com cerâmica simples. Havia um círculo de pictogramas envolvendo-o, levando a uma depressão na parede. Uma depressão do tamanho do amuleto. Fui até ela e tirei o amuleto do pescoço, contente por vê-lo brilhar ligeiramente na minha palma. Olhando para Ziio, que retribuiu meu olhar, seus próprios olhos arregalados de medo, aproximei-me do entalhe e, quando meus olhos se ajustaram à escuridão, vi que duas figuras, pintadas na parede ajoelhadas diante dele, lhe estendiam as mãos como em uma oferenda. O amuleto agora parecia estar mais brilhante, como se o próprio artefato estivesse antecipando sua reunião com a estrutura da câmara. Quanto tempo tinha aquilo? Imaginei. Quantos milhões de anos até o amuleto ter sido desbastado daquela própria rocha? Percebi que estive prendendo a respiração, e agora a soltei de uma vez, ao estender a mão e pressionar o amuleto para o interior da concavidade. Nada aconteceu. Olhei para Ziio. Então, dela para o amuleto, onde seu antigo brilho começava a se apagar, quase como se espelhando minhas próprias expectativas frustradas. Meus lábios se mexeram, tentando encontrar palavras. — Não... Tirei o amuleto, tentei novamente, mas nada ainda. — Você parece decepcionado — comentou ela ao meu lado. — Pensei que tivesse a chave — falei, e foi com desânimo que ouvi o tom de minha própria voz, a derrota e a decepção — que abriria alguma coisa aqui... Ela encolheu os ombros. — O lugar é este, isto é tudo. — Eu esperava... — O que eu esperava? — ...mais. — Essas imagens, o que significam? — perguntei, me recuperando. Ziio foi até a parede para observá-las. Uma em particular pareceu atrair o olhar dela. Era um deus ou uma deusa usando um antigo e intricado adorno de cabeça. — Isso conta a história de Iottsitíson — explicou ela atentamente —, que veio ao nosso mundo e o moldou, para que a vida pudesse vir. Foi uma árdua viagem a dela, repleta de perdas e de grandes


perigos. Mas ela acreditava no potencial de seus filhos e no que poderiam realizar. Embora tenha ido há muito tempo do mundo físico, seus olhos ainda zelam por nós. Seus ouvidos ainda escutam nossas palavras. Suas mãos ainda nos guiam. Seu amor ainda nos dá força. — Você me prestou uma grande gentileza, Ziio. Obrigado. Quando ela olhou novamente para mim, seu rosto estava suave. — Sinto muito por você não ter encontrado o que procura. Segurei sua mão. — Preciso ir — falei, sem querer ir, de modo algum, e então ela me deteve: se inclinou e me beijou.


13 de julho de 1755 — Sr. Kenway, encontrou, afinal? Essas foram as primeiras palavras que Charles Lee me dirigiu, quando entrei na nossa sala na taverna Green Dragon. Meus homens estavam todos reunidos, e me olharam com um ar de expectativa, em seguida seus rostos demonstraram frustração quando balancei a cabeça. — Não era o lugar certo — confirmei. — Creio que o templo nada mais era do que uma caverna pintada. Ainda assim, continha imagens e escritas precursoras, o que significa que estamos perto. Precisamos redobrar nossos esforços, expandir nossa Ordem e estabelecer aqui uma base permanente — continuei. — Embora o local nos escape, estou confiante de que o encontraremos. — Verdade! — declarou John Pitcairn. — Viva, viva! — concordou Benjamin Church. — Além do mais, creio que está na hora de darmos as boas-vindas a Charles à congregação. Ele demonstrou ser um discípulo leal... e tem servido infalivelmente desde o dia em que veio a nós. Você poderá compartilhar todo o nosso conhecimento e colher todos os benefícios que implica tal dádiva, Charles. Alguém se opõe? Os homens permaneceram em silêncio, lançando olhares de aprovação para Charles. — Muito bem. — Prossegui: — Charles, venha cá. — Quando ele se aproximou de mim, perguntei: — Jura defender os princípios de nossa Ordem e tudo que defendemos? — Juro. — Nunca compartilhar segredos nem divulgar a verdadeira natureza do nosso trabalho? — Juro. — E fazer isso a partir de agora até a morte... custe o que custar? — Juro. Os homens se levantaram. — Então, bem-vindo à nossa congregação, irmão. Juntos, prenunciaremos o alvorecer de um novo mundo, um mundo marcado por objetivo e ordem. Dê-me sua mão. Peguei o anel que havia tirado do dedo de Braddock e o enfiei no de Charles. Olhei para ele. — Você agora é um Templário. Com isso, ele sorriu. — Que o pai do conhecimento nos guie — pedi, e os homens se juntaram a mim. Nossa equipe estava completa.


1 de agosto de 1755 Eu a amo? Era uma pergunta que achava difícil de responder. Tudo que eu sabia era que gostava de estar com ela e passei a estimar o tempo que passávamos juntos. Ela era... diferente. Havia algo nela que eu nunca tinha sentido em outra mulher. Aquele “espírito” de que falei antes parecia surgir em cada palavra e em cada gesto seu. Eu me descobria olhando para ela, fascinado pela luz que parecia permanentemente iluminar seus olhos, e ficava imaginando, sempre imaginando, o que se passava por dentro? No que ela estava pensando? Eu achava que ela me amava. Ou devo dizer, acho que ela me ama, mas ela é assim como eu. Há muita coisa sobre si mesma que mantém escondida. E, assim como eu, acho que sabe que o amor não pode progredir, que não podemos viver nossas vidas juntos, nem nesta floresta nem na Inglaterra, que há muitas barreiras entre nós e nossas vidas juntos: sua tribo, para começar. Ela não deseja deixar sua vida para trás. Vê seu lugar com seu povo, protegendo sua terra — terra que eles acreditam estar sob ameaça de gente como eu. E eu também tenho uma responsabilidade perante meu povo. Os princípios de minha Ordem estarão alinhados com os ideais de sua tribo? Não tenho certeza de que estão. Se me pedissem que escolhesse entre Ziio e os ideais que fui educado para acreditar, o que eu escolheria? Estes são os pensamentos que têm me incomodado nas últimas semanas, mesmo quando me deleitei com aquelas doces horas roubadas com Ziio. Tenho pensado no que fazer.


4 de agosto de 1755 Minha decisão foi tomada em meu lugar, pois, esta manhã, tivemos uma visita. Estávamos no acampamento, cerca de oito quilômetros de Lexington, onde não tínhamos visto ninguém — nenhum outro ser humano — durante várias semanas. Eu o ouvi, é claro, antes de vê-lo. Ou melhor, deveria dizer que ouvi o distúrbio que ele causou: um esvoaçar a distância, quando as aves deixaram as árvores. Nenhum mohawk teria feito com que elas se comportassem daquela maneira, eu sabia, o que significava que era outra coisa: um colono, um patriota, um soldado inglês, talvez até mesmo um batedor francês, muito distante de seu caminho. Ziio deixara o acampamento quase uma hora atrás, para caçar. Mesmo assim, eu a conhecia muito bem para saber que ela teria visto as aves perturbadas; ela também teria alcançado seu mosquete. Subi rapidamente na árvore de vigia e fiz uma varredura da área em volta de nós. Lá, a distância — lá estava ele, um cavaleiro solitário trotando lentamente pela floresta. Seu mosquete vinha pendurado no ombro. Usava chapéu tricorne e um casaco escuro abotoado até em cima; não era um uniforme militar. Freando o cavalo, ele parou e o vi meter a mão em uma mochila, tirar uma luneta e colocá-la sobre o olho. Observei-o dirigir a luneta acima, para o alto do dossel das árvores. Por que para cima? Rapaz esperto. Ele procurava as denunciadoras colunas de fumaça, o cinza contra o céu azul brilhante do início de manhã. Olhei abaixo para a nossa fogueira, vi a fumaça que serpeava acima seu caminho para o céu, então olhei de volta para o cavaleiro, observando-o movimentar a luneta pelo horizonte, quase como se... Sim. Quase como se tivesse dividido a área em uma grade e se movimentasse metodicamente por ela de quadrado a quadrado, exatamente do mesmo modo que... Eu fazia. Ou um dos meus pupilos fazia. Permiti-me relaxar ligeiramente. Era um dos meus homens — provavelmente Charles, a julgar pela sua constituição e pelas roupas. Observei-o ver as colunas de fumaça da fogueira, recolocar a luneta na mochila e começar a trotar em direção ao acampamento. Agora que estava perto, vi que era Charles, e desci da árvore e fui para o acampamento, pensando em Ziio. De volta ao chão, olhei em volta, e vi o acampamento através dos olhos de Charles: a fogueira, os dois pratos de estanho, uma lona amarrada entre árvores, debaixo da qual estavam as peles com que Ziio e eu nos cobríamos para nos aquecer à noite. Baixei a lona para ocultar as peles e depois me ajoelhei junto à fogueira e recolhi os pratos de estanho. Momentos depois, seu cavalo chegou à clareira. — Olá, Charles — falei, sem olhar para ele. — Você sabia que era eu? — Vi que estava usando seu treinamento: fiquei muito impressionado. — Fui treinado pelo melhor — retrucou. E ouvi o sorriso em sua voz, ergui a vista, para, afinal,


vê-lo olhar abaixo para mim. — Sentimos sua falta, Sr. Kenway — disse ele. Assenti. — E eu de vocês. Suas sobrancelhas se ergueram. — É mesmo? Você sabe onde nós estamos. Enfiei uma vara no fogo e observei sua ponta incandescer. — Eu queria saber se vocês eram capazes de agir na minha ausência. Ele apertou os lábios e assentiu. — Creio que você sabe que somos. Qual o verdadeiro motivo de sua ausência, Haytham? Olhei abruptamente acima, da fogueira para ele. — Qual poderia ser, Charles? — Talvez você esteja gostando da vida aqui com a sua índia, suspenso entre dois mundos, sem responsabilidades com nenhum deles. Deve ser bom ter umas férias como essas... — Cuidado, Charles — alertei-o. Subitamente ciente de que ele olhava abaixo para mim, levantei-me e o encarei, para ficarmos em igualdade de condições. — Talvez, em vez de se preocupar com minhas atividades, você deveria se concentrar nas suas. Diga-me, como estão as coisas em Boston? — Temos cuidado das coisas que você mandou que cuidássemos. Com relação à terra. Assenti, pensando em Ziio, imaginando se haveria outra maneira. — Algo mais? — perguntei. — Continuamos procurando sinais do sítio precursor... — disse ele, e ergueu o queixo. — Sei... — William planeja liderar uma expedição à câmara. Sobressaltei-me. — Ninguém me perguntou sobre isso. — Você não estava lá para que se perguntasse — justificou Charles. — William pensou que... Bem, se quisermos encontrar o local, então este é o melhor lugar para se começar. — Vamos enfurecer os nativos se começarmos a montar acampamento em suas terras. Charles me deu um olhar como se eu tivesse perdido o bom-senso. Claro. Por que nós, os Templários, deveríamos nos preocupar em perturbar alguns nativos? — Estive pensando no local — falei rapidamente. — De algum modo, ele agora parece menos importante... — Desviei a vista para longe. — Você planeja omitir mais alguma coisa? — perguntou de um modo impertinente. — Estou lhe avisando... — falei e verguei os dedos. Ele olhou em volta do acampamento. — Onde está ela, afinal? Sua amante... índia? — Em nenhum lugar que possa lhe interessar, Charles, e eu agradeceria que eliminasse esse tom


da sua voz, quando, no futuro, se referir a ela, ou serei obrigado a eliminá-lo à força. Seus olhos estavam frios quando olhou para mim. — Chegou uma carta — informou, enfiou a mão na mochila e retirou-a, de modo que caísse a meus pés. Olhei abaixo e vi meu nome na frente do envelope e, imediatamente, reconheci a caligrafia. A carta era de Holden, e meu coração se apressou só de ver aquilo: uma ligação com minha antiga vida, minha outra vida na Inglaterra e as preocupações que eu tinha ali: encontrar os assassinos do meu pai. Eu nada fiz ou disse que traísse minhas emoções ao ver a carta, acrescentando: — Mais alguma coisa? — Sim — disse Charles —, uma boa notícia. O general Braddock sucumbiu aos ferimentos. Finalmente morreu. — Quando foi isso? — Ele morreu logo após ser ferido, mas a notícia só agora chegou a nós. Assenti. — Então esse assunto está encerrado — falei. — Excelente — disse Charles. — Então devo retornar, não? Dizer aos homens que está desfrutando a vida aqui na floresta? Podemos esperar apenas que nos agracie com sua presença em alguma ocasião no futuro. Pensei na carta de Holden. — Talvez mais cedo do que imagina, Charles. Tenho um pressentimento de que logo terei de me afastar para cuidar de um assunto. Vocês têm se mostrado mais do que capazes de cuidar das coisas. — Dei-lhe um fraco e melancólico sorriso. — Talvez continuem a fazer isso. Charles puxou as rédeas do seu cavalo. — Como queira, Sr. Kenway. Direi aos homens que o esperem. Enquanto isso, por favor, transmita nossos cumprimentos à senhora sua amiga. E, com isso, ele se foi. Fiquei um pouco mais agachado diante da fogueira, a floresta silenciosa à minha volta, então disse: — Pode sair agora, Ziio, ele já se foi. — E ela pulou de cima de uma árvore e veio caminhando a passos largos para a clareira, o rosto parecendo trovejar. Levantei-me para encontrá-la. O colar que ela sempre usava reluzia ao sol da manhã e seus olhos flamejavam raivosamente. — Ele estava vivo — disse ela. — Você mentiu para mim. Engoli em seco. — Mas, Ziio, eu... — Você me disse que ele estava morto — continuou, a voz aumentando. — Você me disse que ele estava morto, para eu lhe mostrar o templo. — Sim — admiti. — Eu fiz isso, e sinto muito por ter feito isso.


— E que história é essa de terra — interrompeu-me. — O que aquele homem disse sobre esta terra? Estão tentando tomá-la, é isso? — Não — neguei. — Mentiroso — gritou. — Espere. Posso explicar... Mas ela já tinha desembainhado a espada. — Eu deveria matá-lo pelo que fez. — Você tem todo o direito de estar zangada, amaldiçoar meu nome e querer que eu vá embora. Mas a verdade não é a que acredita que seja — comecei. — Vá! — disse ela. — Vá embora daqui e não volte nunca mais. Pois, se voltar, arrancarei seu coração com minhas próprias mãos e o darei para que os lobos comam. — Apenas me escute, eu... — Eu juro — gritou. Baixei a cabeça. — Como queira. — Nesse caso, terminamos — disse ela, então se virou e deixou que eu empacotasse minhas coisas e voltasse para Boston.


17 de setembro de 1757 (dois anos depois) i Quando o sol se pôs, pintando Damasco de uma cor marrom-dourado, eu caminhava com meu amigo e companheiro Jim Holden à sombra das muralhas de Qasr al-Azm. E pensava nas três palavras que haviam me trazido aqui. “Eu a encontrei.” Eram as únicas palavras na carta, mas me disseram tudo que precisava saber e foram o suficiente para me transportar da América para a Inglaterra, onde, antes que qualquer outra coisa pudesse acontecer, encontrei-me com Reginald na White’s para colocá-lo a par dos acontecimentos em Boston. Ele sabia bastante do que havia acontecido, é claro, através de cartas, mas, mesmo assim, esperara que ele mostrasse interesse no trabalho da Ordem, particularmente no que dizia respeito a seu velho amigo Edward Braddock. Eu estava enganado. Tudo que lhe importava era o sítio precursor e, quando lhe contei que tinha novos detalhes a respeito da localização do templo e que deveriam ser achados no interior do Império Otomano, ele suspirou e deu um sorriso de êxtase, como um viciado em láudano saboreando seu xarope. Momentos depois, ele perguntava: — Onde está o livro? — com um tom impaciente na voz. — William Johnson fez uma cópia — avisei, e peguei minha bolsa para devolver o original, o qual deslizei pela mesa em sua direção. Estava envolto em pano, amarrado com barbante, e ele me olhou agradecidamente antes de alcançá-lo, desfazer o laço e retirar a cobertura para contemplar seu adorado volume: a envelhecida capa de couro marrom, o timbre dos Assassinos em sua frente. — Estão fazendo uma busca minuciosa na câmara? — perguntou, ao embrulhar novamente o livro, refazer o laço e depois afastá-lo avidamente. — Eu gostaria muito de ver pessoalmente essa câmara. — Certamente — menti. — Os homens estão montando um acampamento ali, mas enfrentam ataques diários dos nativos. Seria muito arriscado para você, Reginald. Você é o Grão-Mestre do Ritual Britânico. Seu tempo é melhor aplicado aqui. — Entendo — concordou. — Entendo. Observei-o cuidadosamente. Para ele, haver insistido em visitar a câmara teria sido admitir que negligenciaria seus deveres como Grão-Mestre e, obcecado como era, Reginald ainda não estava pronto para fazer isso. — E o amuleto? — perguntou.


— Está comigo — respondi. Conversamos um pouco mais, porém houve pouca cordialidade e, quando nos separamos, parti imaginando o que havia em seu coração e o que havia no meu. E comecei a me ver não muito como um Templário, mas como um homem com raízes Assassinas e crenças Templárias, cujo coração fora perdido brevemente para uma mohawk. Em outras palavras, um homem com uma perspectiva singular. Consequentemente, estive menos preocupado em descobrir o templo e usar seu conteúdo para estabelecer uma supremacia dos Templários, e mais com a junção das duas disciplinas, a Assassina e a Templária. Refleti de que modo os ensinamentos de meu pai frequentemente haviam se encaixado com os de Reginald, e comecei a ver as semelhanças entre as duas facções, em vez das diferenças. Mas antes — antes havia o assunto inacabado que tinha ocupado minha mente por tantos anos. Encontrar os matadores do meu pai ou encontrar Jenny era o mais importante agora? De qualquer modo, queria me libertar dessa longa sombra escura que pairou sobre mim por tanto tempo.

ii E foi assim, com estas palavras — “Eu a encontrei” — que Holden começou outra odisseia, que nos levou ao coração do Império Otomano, onde, durante os quatro anos anteriores, ele e eu seguimos o rastro de Jenny. Ela estava viva — foi essa a sua descoberta. Viva e nas mãos de traficantes de escravos. Enquanto o mundo lutava a Guerra dos Sete Anos, chegamos perto de descobrir sua localização exata, mas os traficantes mudaram de lugar antes que fôssemos capazes de nos mobilizar. Depois disso, passamos vários meses tentando encontrá-la, então descobrimos que fora levada para a Corte otomana, como concubina no palácio de Topkapi, e seguimos para lá. Novamente, chegamos tarde demais; ela fora levada para Damasco, para o grande palácio construído pelo governador otomano em exercício As’ad, Pasha al-Azm. E, portanto, viemos para Damasco, onde eu vestia roupas de um rico mercador, caftã e turbante, como também volumosas calças salwar, sentindo-me nem um pouco constrangido para falar a verdade, enquanto, a meu lado, Holden usava mantos simples. Ao entrarmos pelo portão da cidade e seguir pelas ruas estreitas e sinuosas em direção ao palácio, notamos que havia mais guardas do que o normal, e Holden, tendo feito seu dever de casa, me passou as informações, enquanto andávamos a passos lentos na poeira e no calor. — O governador está nervoso, senhor — explicou. — Parece que o grão-vizir Raghib Pasha de Istambul tem uma rixa com ele. — Entendo. E ele está certo? O grão-vizir tem uma rixa com ele? — O grão-vizir o chamou de “camponês, filho de um camponês”. — Então parece que tem mesmo uma rixa.


Holden deu uma risadinha. — Exatamente. E o governador teme ser deposto e, como resultado, está aumentando a segurança por toda a cidade e, especialmente, no palácio. Está vendo todas essas pessoas? — Indicou uma agitação de cidadãos não muito distante, atravessando nosso caminho. — Estou. — Estão indo para uma execução. Aparentemente, um espião no palácio. As’ad Pasha al-Azm está vendo-os em toda a parte. Em uma pequena praça apinhada de gente, vimos um homem ser decapitado. Morreu com dignidade, e a multidão rugiu sua aprovação, quando a cabeça cortada rolou para as tábuas enegrecidas de sangue do patíbulo. Acima da praça, o palanque do governador estava vazio. Ele permanecia no palácio, segundo os rumores, e não ousava mostrar a cara. Quando acabou, Holden e eu demos meia-volta e nos afastamos, seguindo em direção ao palácio, percorremos seus muros e notamos quatro sentinelas no portão principal e outros posicionados em portões laterais arcados. — Como é lá dentro? — perguntei. — Duas alas principais: a haramlik e a salamlik. Na salamlik é onde ficam os salões, as áreas de recepção e os pátios de entretenimento, mas é na haramlik onde encontraremos a Srta. Jenny. — Se ela estiver lá. — Ah, ela está lá sim, senhor. — Tem certeza? — Tanto quanto Deus é minha testemunha. — Por que ela foi transferida do palácio de Topkapi? Você sabe? Ele me olhou e pareceu sem jeito. — Bem, a idade, senhor. No início, quando era jovem, ela foi altamente apreciada; é contra a lei islâmica aprisionar outros muçulmanos, sabe, portanto, a maioria das concubinas são cristãs... Muitas delas capturadas nos Bálcãs... E, se a Srta. Jenny era tão graciosa como diz, bem, tenho certeza de que deve ter atraído muita atenção. O problema é que não há falta delas, e a Srta. Kenway... Bem, ela está na casa dos 40 anos, senhor. Já faz muito tempo que não tem deveres de concubina. Ela é pouco mais do que uma criada. Suponho que se possa dizer que ela foi rebaixada, senhor. Pensei naquilo, achando difícil acreditar que a Jenny que um dia conheci — a linda, imperiosa Jenny — estivesse em uma posição tão baixa. De algum modo, eu a imaginei perfeitamente preservada e desempenhando uma função de autoridade na Corte otomana, talvez já alçada à posição de Rainha Mãe. Em vez disso, ela estava aqui, em Damasco, na casa de um governador impopular prestes a ser deposto. O que faziam com criadas e concubinas de um governador deposto? Fiquei imaginando. Possivelmente, tinham o mesmo destino da pobre alma que vimos ser decapitada mais cedo. — E os guardas lá dentro? — indaguei. — Não creio que permitam homens no harém. Ele balançou a cabeça.


— Todos os guardas do harém são eunucos. A operação para torná-los eunucos... puta merda, senhor, não vai querer ouvir isso. — Mas vai me contar assim mesmo? — Bem, sim, não vejo por que eu deva carregar sozinho esse fardo. Eles cortam a genitália do pobre sujeito, depois enterram o sujeito na areia até o pescoço por dez dias. Apenas dez por cento dos pobres ferrados sobrevivem ao processo, e esses sujeitos são os mais durões dos durões. — Certo — falei. — Outra coisa: a haramlik, onde as concubinas vivem, os banhos ficam lá. — Os banhos ficam lá? — Sim. — E por que está me dizendo isso? Ele parou. Olhou de um lado a outro, semicerrando os olhos por causa do sol. Satisfeito por ver que era seguro, inclinou-se à frente, agarrou uma argola de ferro que eu não tinha visto, de tão bem coberta pela areia sob nossos pés, e deu um puxão para cima, abrindo um alçapão e revelando alguns degraus que desciam para a escuridão. — Depressa, senhor — sorriu —, antes que apareça o sentinela.

iii Uma vez na parte de baixo dos degraus, tomamos conhecimento do ambiente. Estava escuro, quase escuro demais para se enxergar, mas da esquerda vinha o filete de um córrego, enquanto adiante se estendia o que parecia uma passarela usada para entregas ou manutenção dos canais de água corrente; provavelmente, uma mistura de ambos. Não dissemos nada. Holden sondou o interior de uma mochila de couro para tirar uma vela e uma caixa de iscas para fogo. Acendeu a vela, prendeu-a na boca e tirou da mochila uma pequena tocha, que acendeu e prendeu acima da cabeça, projetando um suave brilho alaranjado por toda a nossa volta. De fato, à nossa esquerda estava um aqueduto, enquanto o caminho irregular sumia no meio da escuridão. — Vou nos conduzir até bem debaixo do palácio e sob os banhos — disse Holden sussurrando. — Se eu estiver certo, sairemos em uma sala com um tanque de água doce, bem debaixo dos banhos. Impressionado, comentei: — Você manteve isso em segredo. — Gosto de ter um velho truque na manga, senhor. — E ficou radiante. — Mostrarei o caminho, posso? E, com isso, ele foi em frente, mergulhando no silêncio, enquanto seguíamos ao longo do caminho. Quando as tochas se consumiram, foram jogadas fora e acendemos duas novas na vela presa na boca de Holden, depois caminhamos mais um pouco. Finalmente, a área diante de nós alargou-se


para formar uma câmara mal iluminada, onde a primeira coisa que vimos foi um tanque, suas paredes revestidas com placas de mármore, a água tão clara que parecia reluzir à escassa luz fornecida por um alçapão aberto acima de alguns degraus próximos. A segunda coisa que vimos foi um eunuco, que estava ajoelhado de costas para nós, enchendo um cântaro de barro no tanque. Usava na cabeça um alto kalpak branco e mantos ondulantes. Holden olhou para mim com o dedo nos lábios, então começou a avançar sorrateiramente, uma adaga já na mão, mas o detive segurando seu ombro. Queríamos as roupas do eunuco, e isso significava evitar manchas de sangue. Aquele era um homem que servia às concubinas em um palácio otomano, e não um casaco vermelho comum em Boston, e eu pressentia que sangue em suas vestes não seria fácil de explicar. Portanto, passei à frente de Holden na passarela, inconscientemente flexionando os dedos e, em minha mente, localizando a artéria carótida no eunuco, aproximando-me quando ele terminou de encher o cântaro e se levantou para ir embora. Mas então minha sandália arrastou na passarela. O ruído foi mínimo, mas, mesmo assim, no espaço confinado, soou como a erupção de um vulcão, e o eunuco se encolheu. Congelei e, internamente, praguejei contra minhas sandálias, quando sua cabeça balançou para olhar acima para o alçapão, na tentativa de localizar a fonte do ruído. Como não viu nada, pareceu ficar completamente imóvel, como se tivesse percebido que, se o som não tinha vindo de cima, então devia ter vindo de... Ele girou o corpo. Houve algo em suas roupas, sua conduta, o modo como se ajoelhou para encher o cântaro: nada disso havia me preparado para a velocidade de sua reação. Nem para a habilidade. Pois, ao girar, ele se agachou e, com o canto do olho, vi o cântaro em sua mão chicotear rapidamente na minha direção, tão depressa que teria me derrubado se eu não tivesse mostrado velocidade igual e me esquivado. Eu tinha escapado dele, mas apenas por um triz. Quando recuei rapidamente para evitar outro golpe com o cântaro, seus olhos se movimentaram acima de meu ombro e viram Holden. A seguir, ele se virou para dar uma rápida olhadela nos degraus de pedra, sua única saída. Estava avaliando suas opções: fugir ou ficar e lutar. E ele decidiu por ficar e lutar. O que fez dele, como tinha dito Holden, um eunuco — muito — durão. Ele deu alguns passos para trás, enfiou a mão por baixo do manto e tirou uma espada, batendo simultaneamente o cântaro de barro na parede para lhe fornecer uma segunda arma. Então, com a espada em uma das mãos e o cântaro quebrado na outra, ele avançou. A passarela era muito estreita. Apenas um de nós poderia enfrentá-lo de cada vez, e eu era o mais próximo. A ocasião de se preocupar com sangue nos mantos havia passado, e soltei minha lâmina, eu mesmo recuando um pouco, adotando uma posição pronta para enfrentá-lo. Ele avançou, implacavelmente, o tempo todo me olhando fixamente. Havia nele algo temível, algo que eu não conseguia determinar, mas então me dei conta do que era: ele provocou em mim uma sensação que nenhum oponente jamais havia feito. Como teria dito minha velha babá Edith, ele me causou arrepios.


Era sabido o que ele tinha passado, o procedimento que o tornou um eunuco. Sobrevivendo a isso, nada lhe causaria medo, muito menos eu, um parvo desajeitado incapaz até mesmo de ser bemsucedido em se esgueirar por trás dele. Ele também sabia disso. Sabia que me causava arrepios e usava isso. Estava tudo ali, em seus olhos, que não registravam qualquer emoção enquanto a espada em sua mão direita golpeava na minha direção. Fui forçado a fazer um bloqueio com a lâmina e quase girar para evitar o golpe subsequente, que veio de sua esquerda, ao tentar e quase conseguir enfiar o cântaro quebrado no meu rosto. O eunuco não me deu tempo para descansar, talvez percebendo que o único modo de derrotar a mim e Holden era nos fazer recuar ao longo da estreita passarela. Novamente, a espada brilhou, dessa vez com um movimento de antebraço, e, mais uma vez, aparei com a lâmina, fazendo uma careta de dor, ao usar o antebraço para deter um golpe secundário com o cântaro, então retribuindo com um golpe ofensivo, afastando-me ligeiramente para o lado direito e mandando a espada em direção ao seu esterno. Ele usou o cântaro como escudo, e minha espada o destruiu, salpicando barro na pedra abaixo de nós, e chapinhando no tanque. Minha espada precisaria ser amolada depois desta. Se eu saísse desta. E maldito seja aquele homem. Era o primeiro eunuco que eu conhecia e já estávamos lutando. Fiz sinal para Holden ir para trás e para não ficar debaixo dos meus pés quando eu recuasse, na tentativa de me dar mais algum espaço e, ao mesmo tempo, me organizar internamente. O eunuco estava me derrotando — não apenas por causa de sua habilidade, mas porque eu o temia. E o temor é o que o guerreiro mais teme. Abaixei-me, trazendo as lâminas para me apoiar, e olhei em seus olhos. Por um momento, ficamos imóveis, envolvidos em uma silenciosa mas feroz batalha de vontade. Uma batalha que venci. De algum modo, seu domínio sobre mim se rompeu, e tudo que bastou foi um movimento de seus olhos para me dizer que ele também sabia disso; que a vitória psicológica não era mais sua. Avancei, a lâmina lampejando, e agora foi a hora de ele recuar, defendendo-se bem e firmemente, porém não mais com o controle da situação. Em determinado instante, ele até mesmo grunhiu, os lábios recuando sobre os dentes, e vi o início de suor brilhar de modo fraco em sua testa. Minha lâmina movimentava-se rapidamente. E agora que o fazia recuar, comecei a pensar de novo em manter suas roupas livres de sangue. A batalha havia mudado de direção; agora era minha, e ele sacudia-se violentamente com a espada, seus ataques tornando-se cada vez mais desorganizados, até que pude ver minha chance, caí quase de joelhos e dei uma estocada de baixo para cima com a lâmina, perfurando seu queixo. Seu corpo se contraiu e os braços se estenderam como se tivesse sido crucificado. A espada caiu e, quando os lábios se abriram amplamente em um grito silencioso, vi o prateado da minha lâmina empaladora no interior de sua boca. Então o corpo dele desabou. Eu o impelira todo o caminho até a parte inferior dos degraus, e o alçapão estava aberto. A qualquer momento, outro eunuco desceria para saber que fim tinha levado o cântaro com água. De


fato, ouvi passos acima de nós e uma sombra passou pelo alçapão. Recuei, agarrei os calcanhares do morto e arrastei-o comigo, tirei seu chapéu e o enfiei na minha cabeça. O que vi a seguir foram os pés descalços de um eunuco descendo os degraus e esticando a cabeça para observar abaixo a câmara do tanque. Ver-me com o chapéu branco foi o bastante para desorientá-lo por um precioso segundo, e ataquei, agarrei seu manto e puxei-o degraus abaixo em minha direção, chocando minha testa contra seu nariz antes que ele pudesse gritar. Os ossos trituraram e quebraram, e ergui sua cabeça para evitar que o sangue pingasse na roupa, ao mesmo tempo que seus olhos reviravam e o corpo relaxava, tonto, contra a parede. Em questão de momentos, ele recuperaria os sentidos e gritaria pedindo ajuda, e eu não podia permitir isso. Então enfiei com força a mão aberta no nariz amassado, enfiando lascas de ossos quebrados em seu cérebro e matando-o instantaneamente. Segundos depois, subi correndo os degraus e, com muita cautela, bem devagar, fechei o alçapão, dando-nos pelo menos alguns momentos escondidos antes de chegarem reforços. Em algum lugar, presumivelmente, uma concubina esperava um cântaro com água ser entregue. Nada dissemos, apenas vestimos os mantos dos eunucos e enfiamos nossos kalpaks. Como fiquei contente em me livrar daquelas malditas sandálias. Então olhamos um para o outro. Holden tinha pingos de sangue em suas roupas, onde eu esmagara o nariz do usuário anterior do manto. Raspei-os com a unha, mas, em vez de arrancá-los, como esperava, eles ainda estavam um pouco úmidos e a roupa ficou um pouco lambuzada. No final, usando uma complicada série de aflitas expressões faciais e furiosas sacudidas de cabeça, decidimos, por consenso, deixar as manchas de sangue e correr o risco. Em seguida, abri cuidadosamente o alçapão e me enfiei no aposento acima, que estava vazio. Era uma sala escura, fria, revestida de um mármore que parecia luminescente, graças a uma piscina que cobria a maior parte do espaço do chão, a superfície lisa, silenciosa, mas de algum modo viva. Com o caminho livre, virei-me e acenei para Holden, que me seguiu do alçapão para o aposento. Ficamos por ali um momento, estudando o ambiente, trocando olhares cautelosamente triunfantes antes de seguir para a porta, abri-la e penetrar no pátio que havia depois.

iv Sem saber o que havia do outro lado, fui flexionando os dedos, prestes a soltar a lâmina a qualquer momento, enquanto Holden não tinha dúvidas de que estava pronto para alcançar sua espada, ambos bem-aprumados para uma luta, se fôssemos recebidos por um pelotão de eunucos rosnadores, um amontoado de uivantes concubinas. Em vez disso, o que vimos foi uma cena saída diretamente do céu, uma vida após a morte repleta de paz e serenidade e belas mulheres. Era um pátio amplo pavimentado de pedras pretas e brancas, com uma fonte em funcionamento no centro e circundado de pórticos ornados e em colunas,


sombreados por árvores e vinhas suspensas. Um lugar de descanso, dedicado à beleza, serenidade, tranquilidade e meditação. O fluir e borbulhar da fonte era o único som, apesar de todas as pessoas ali. Concubinas em seda branca esvoaçantes estavam sentadas em bancos de pedra, meditando ou bordando, ou atravessando o pátio, com os pés descalços percorrendo em silêncio a pedra, impossivelmente altivas e aprumadas, amavelmente cumprimentando umas às outras com gestos de cabeça ao passarem; entre elas movimentavam-se criadas, vestidas de modo semelhante, mas fáceis de serem identificadas porque eram mais novas ou mais velhas, ou não tão bonitas quanto as mulheres a quem serviam. Havia um número igual de homens, a maior parte em volta dos limites do pátio, observando e esperando serem chamados para servir: os eunucos. Fiquei aliviado em notar que nenhum olhou em nossa direção; as regras sobre contato visual eram tão complexas quanto os mosaicos. E isso servia perfeitamente para nós, dois eunucos de aparência desconhecida tentando achar o caminho em um lugar estranho. Ficamos perto da porta para os banhos, que ficava parcialmente obscurecida pelas colunas e vinhas do pórtico e, inconscientemente, adotei a mesma pose dos outros guardas — costas retas, as mãos unidas diante do corpo — enquanto meu olhar varria o pátio à procura de Jenny. E lá estava ela. Não a reconheci de imediato; meus olhos quase passaram por ela. Mas, ao olhar novamente, para onde uma concubina descansava sentada com as costas para a fonte, tendo os pés massageados pela mulher que a servia, me dei conta de que a mulher que a servia era minha irmã. O tempo cobrou seu preço na aparência dela e, embora ainda houvesse um vislumbre da beldade que tinha sido, o cabelo negro estava salpicado de grisalho, o rosto era cansado e enrugado e a pele havia perdido um pouco a firmeza, revelando escuros vazios debaixo dos olhos; olhos cansados. Que ironia eu ter reconhecido a expressão no rosto da garota de quem ela cuidava: o modo presunçoso e desdenhoso com que olhava para baixo do nariz. Cresci vendo essa expressão no rosto de minha irmã. Não que eu tivesse prazer na ironia, mas não podia ignorá-la. Enquanto eu a encarava, Jenny olhou através do pátio para mim. Por um segundo, suas sobrancelhas se enrugaram, em confusão, e fiquei imaginando se, após todos aqueles anos, ela havia me reconhecido. Mas não. Eu estava muito longe. Estava disfarçado de eunuco. O cântaro — era para lhe ser entregue. E talvez ela estivesse imaginando por que dois eunucos tinham entrado nos banhos e dois outros tinham saído de lá. Ainda mantendo uma expressão confusa, ela se levantou, se ajoelhou diante da concubina a quem servia e começou a se afastar, serpeando por entre concubinas vestidas de seda, ao atravessar o pátio em nossa direção. Deslizei para trás de Holden, no instante em que ela baixou a cabeça para evitar as vinhas que pendiam do pórtico e parou cerca de trinta centímetros de nós. Ela nada disse, é claro — era proibido falar —, mas, por outro lado, não precisava. Espreitando por cima do ombro direito de Holden, arrisquei uma olhada em seu rosto e vi quando os olhos dela foram de Holden para a porta da câmara dos banhos, e o significado era claro de se entender: cadê minha água? Em seu rosto, enquanto ela exercia aquela pequena autoridade que possuía, pude ver


uma lembrança da garota que Jenny tinha sido, um fantasma da arrogância que um dia me fora tão familiar. Enquanto isso, reagindo ao olhar furioso que recebia de Jenny, Holden baixou a cabeça e estava para se virar em direção à câmara de banhos. Rezei para que ele houvesse tido o mesmo lampejo de inspiração que eu e tivesse percebido que, se conseguisse, de algum modo, atrair Jenny para dentro, então poderíamos efetuar a nossa fuga quase sem causar agitação. De fato, ele estava estendendo as mãos para indicar que houve um problema, e então gesticulou para a porta da câmara dos banhos, como se dissesse que precisava de ajuda. Mas Jenny, longe de estar disposta a fazer isso, por sua vez notara algo na roupa de Holden e, em vez de acompanhá-lo à casa de banhos, deteve-o com o dedo em riste, o qual primeiro apontou para ele e, em seguida, baixou para indicar algo em seu peito. Uma mancha de sangue. Os olhos dela voltaram a se regalar, e novamente eu observei, notando dessa vez sua vista ir da mancha de sangue na roupa para o rosto de Holden, e o que ela viu ali foi o rosto de um impostor. Sua boca se abriu. Ela deu um passo para trás, depois outro, até se chocar com uma das colunas, e o impacto subitamente sacudiu-a fora de si, chocada e aturdida, e, quando abriu a boca, prestes a infringir a regra sagrada e pedir ajuda, saí de trás de Holden, e cochichei: — Jenny, sou eu. Haytham. Ao dizer isso, olhei nervosamente para o pátio, onde todos continuavam como antes, abstraídos do que estava acontecendo debaixo do pórtico, então olhei de volta para ver Jenny me encarando, os olhos ainda mais arregalados, já ficando tomados por lágrimas, enquanto os anos ficavam para trás e ela me reconhecia. — Haytham — sussurrou —, você veio por minha causa. — Sim, Jenny, sim — respondi baixinho, sentindo uma estranha mistura de emoções, uma delas pelo menos era culpa. — Eu sabia que viria — disse ela. — Eu sabia que viria. Sua voz estava aumentando, e comecei a me preocupar, lançando outro olhar em pânico para o pátio. Então ela se adiantou, estendeu as mãos, tomou as minhas nas delas e passou roçando por Holden para olhar, implorando, em meus olhos. — Diga para mim que ele está morto. Diga que o matou. Dividido entre querer que ela mantivesse silêncio e querer saber o que ela estava dizendo, sussurrei: — Quem? Dizer que quem está morto? — Birch — cuspiu e, dessa vez, sua voz saiu alta demais. Para além de seu ombro, avistei uma concubina. Deslizando na nossa direção embaixo do pórtico, talvez a caminho dos banhos, ela parecia perdida em pensamentos, mas, ao som de uma voz, ela ergueu a vista, e a expressão de calma serenidade foi substituída por outra, de pânico — e ela voltou-se para o pátio e gritou a única palavra que temíamos. — Guardas!


v O primeiro guarda a chegar correndo não percebeu que eu estava armado, e soltei a lâmina e a enfiei no seu abdômen, antes que percebesse o que estava acontecendo. Seus olhos se esbugalharam e ele grunhiu partículas de sangue no meu rosto. Com um grito de esforço, prendi meu braço em volta dele e puxei-o comigo, forçando seu corpo ainda agonizante contra um segundo homem que veio correndo em nossa direção, e mandei os dois aos trambolhões de volta para os ladrilhos preto e branco do pátio. Chegaram mais, e a luta começou. Com o canto do olho, vi o clarão de uma espada e virei-me no momento exato para evitar que ela fosse enfiada no meu pescoço. Girando, segurei o braço armado do agressor, quebrei-o e enfiei minha lâmina de baixo para cima em seu crânio. Agachei-me, girei o corpo e dei um chute para afastar as pernas de um quarto homem, então me levantei, pisei no seu rosto e ouvi o crânio ser triturado. Não muito distante, Holden havia derrubado três eunucos, mas agora os guardas já sabiam do que éramos capazes e se aproximavam com mais cautela, juntando-se para combater, enquanto nos protegíamos atrás das colunas e trocávamos olhares preocupados, cada qual imaginando se conseguiríamos voltar para o alçapão antes que fôssemos aniquilados. Sujeitos espertos. Dois deles avançaram juntos. Fiquei ao lado de Holden e os combatemos, enquanto outro par de guardas vinha pela direita. Por um momento, foi lá e cá, enquanto ficávamos costas com costas e combatíamos os guardas no pórtico até eles recuarem, prontos para lançar o ataque seguinte, chegando cada vez mais perto, se aglomerando. Atrás de nós, Jenny estava na porta da câmara do banho. — Haytham! — chamou, um toque de pânico na voz. — Precisamos ir. O que fariam com ela, se fosse capturada agora? Fiquei imaginando, qual seria o castigo dela? Tive medo só em pensar. — Vão vocês dois — sugeriu Holden por cima de seu ombro. — De jeito nenhum — devolvi. Novamente veio um ataque e de novo lutamos. Um eunuco caiu moribundo com um gemido. Mesmo na morte, mesmo com o aço de uma espada em suas entranhas, esses homens não gritavam. Por cima dos ombros dos que estavam à nossa frente, avistei mais homens precipitando-se para o pátio. Eram como baratas. Para cada um que matávamos, havia dois para tomar seu lugar. — Vá, senhor — insistiu Holden. — Eu os mantenho aqui atrás, depois sigo vocês. — Não seja idiota, Holden — bradei, incapaz de evitar o tom de zombaria na voz. — Não tem como mantê-los aqui. Vão acabar com você. — Já estive em encrencas piores do que esta, senhor — grunhiu Holden, o braço da espada agitado enquanto ele trocava golpes. Mas consegui notar a falsa bravata em sua voz. — Então não vai se importar se eu ficar — falei, ao mesmo tempo que aparava um dos golpes da espada do eunuco, e respondia, não com minha lâmina, mas com um soco no rosto que o mandou girando para trás.


— Vá! — berrou ele. — Morreremos. Morreremos nós dois — retruquei. Holden, porém, tinha decidido que não era mais hora de cortesias. — Escute, companheiro, ou vocês dois saem daqui ou nenhum de nós vai sair. O que vai ser? Ao mesmo tempo, Jenny puxava minha mão, a porta para a câmara dos banhos estava aberta e mais homens chegavam pela esquerda. Ainda assim, hesitei. Até que, finalmente, Holden se virou, gritando: — Com sua licença, senhor — e, antes que eu pudesse reagir, empurrou-me porta adentro e fechou-a com um estrondo. Seguiu-se um momento de abalado silêncio na câmara dos banhos, enquanto eu me estatelava no chão e tentava absorver o que tinha acontecido. Do outro lado da porta, ouvi os sons da batalha — uma batalha também estranha, silenciosa, muda — e uma batida na porta. A seguir, um grito — um grito que pertencia a Holden, e me levantei, prestes a dar um puxão na porta para abri-la, mas fui contido, quando Jenny agarrou meu braço. — Não pode ajudá-lo agora, Haytham — disse ela suavemente, no momento em que veio outro grito do pátio, era Holden gritando: — Seus desgraçados, seus malditos desgraçados sem pau! Dei uma última olhada para a porta, então tranquei-a, enquanto Jenny me arrastava para o alçapão no chão. — Isto é o melhor que conseguem fazer, seus babacas? — ouvi acima de nós, ao descermos os degraus, a voz de Holden agora ficando cada vez mais indistinta. — Venham, seus capados de merda, vejamos como se saem contra um dos homens de Sua Majestade... A última coisa que ouvimos, enquanto corríamos de volta pela passarela, foi o som de um grito.


21 de setembro de 1757 i Eu esperara nunca mais ter prazer em matar, mas, para o padre copta que mantinha guarda junto ao mosteiro de Abou Gerbe no monte Ghebel Eter, abri uma exceção. Devo admitir que gostei de matálo. Ele se curvou caindo para a terra da base de uma cerca que circundava uma pequena área, o peito arfando e seus últimos suspiros saindo intermitentes enquanto morria. Acima, um homem crocitou, e olhei para onde os arcos e os pináculos do mosteiro de arenito apareciam no horizonte. Vi o cálido brilho de vida na janela. O guarda moribundo gorgolejou a meus pés e, por um segundo, ocorreu-me liquidá-lo rapidamente — mas, pensando melhor, por que lhe mostrar piedade? Por mais lentamente que ele morresse, por mais dor que sentisse enquanto isso acontecia, aquilo não era nada — nada — em comparação à agonia imposta àquelas pobres almas que haviam sofrido no interior do cercado. E uma em particular, que agora estava sofrendo lá. Eu descobrira, no mercado de Damasco, que Holden não tinha sido morto, como eu pensara, mas capturado e transportado para o Egito e para o mosteiro copta em Abu Gerbe, onde transformavam homens em eunucos. Portanto foi para onde eu vim, rezando para que não fosse tarde demais, mas, no fundo do coração, sabendo que seria. E foi. Examinando a cerca, percebi que era enterrada bem fundo no chão para evitar que predadores noturnos cavassem por baixo dela. No interior do cercado, ficava o lugar onde enterravam os eunucos até o pescoço na areia e os mantinham ali por dez dias. Não queriam que hienas roessem os rostos dos homens enterrados durante esse período. Absolutamente não. Não, se aqueles homens morriam, era por causa da lenta exposição ao sol ou das feridas que lhes eram infligidas durante o processo de castração. Com o guarda morto atrás de mim, entrei sorrateiramente no cercado. Estava escuro, apenas a luz da lua me guiava, mas podia ver que a areia em volta estava manchada de sangue. Quantos homens, fiquei imaginando, tinham sofrido aqui, mutilados e depois enterrados até o pescoço? De não muito longe veio um gemido baixo, forcei a vista, avistei uma forma irregular no chão no centro do cercado, e soube de imediato que pertencia ao soldado James Holden. — Holden! — sussurrei, e um segundo depois estava agachado onde sua cabeça emergia da areia, arfando diante do que vi. A noite estava fria, mas os dias eram quentes, tortuosamente quentes, e o sol o havia queimado tão terrivelmente que era como se a própria carne de seu rosto tivesse sido crestada. Os lábios e as pálpebras eram crostas e sangravam, a pele estava vermelha e descascando. Eu tinha à mão um cantil


de couro com água, desarrolhei-o e o coloquei sobre seus lábios. — Holden? — repeti. Ele se mexeu. Seus olhos pestanejaram e se abriram e se focaram em mim, turvos e cheios de dor, mas com reconhecimento, e muito lentamente o espectro de um sorriso surgiu em seus lábios rachados e petrificados. Então, do mesmo modo rápido, o sorriso sumiu e ele passou a se contorcer. Se tentava se livrar da areia ou se foi tomado por uma convulsão, eu não tinha certeza, mas a cabeça batia de um lado para o outro, a boca ficou escancarada, e me inclinei à frente, segurei seu rosto com as mãos para evitar que ele se machucasse. — Holden — falei, mantendo a voz baixa. — Holden, pare. Por favor... — Tire-me daqui, senhor — disse roucamente, e seus olhos brilharam úmidos ao luar. — Tireme. — Holden... — Tire-me daqui — implorou. — Tire-me daqui, senhor, por favor, senhor, agora, senhor... Outra vez sua cabeça começou a sacudir dolorosamente da esquerda para a direita. Estendi de novo as mãos para segurá-lo antes que ficasse histérico. Quanto tempo eu teria até enviarem outro guarda? Coloquei o cantil em seus lábios e deixei que bebesse mais água, depois tirei das costas uma pá que havia trazido e comecei a retirar areia ensopada de sangue da área ao redor de sua cabeça, conversando com ele, ao mesmo tempo que ia expondo seus ombros e o peito nu. — Sinto muito, Holden, sinto muito. Eu nunca deveria tê-lo deixado. — Eu mandei que fizesse isso — conseguiu dizer. — Eu lhe dei um empurrão, lembra-se...? Enquanto eu cavava, a terra ficava cada vez mais preta de sangue. — Oh, meu Deus, o que fizeram com você? Mas eu já sabia e, de qualquer modo, tive minha prova, momentos depois, quando cheguei à sua cintura para encontrá-la envolta em bandagens — também espessas, pretas e com sangue coagulado. — Cuidado aí embaixo, senhor, por favor — pediu ele, muito, muito baixinho, e percebi que ele se encolhia, contendo a dor. A qual, no final, foi demais para ele, que perdeu a consciência, uma bênção que me permitiu desenterrá-lo e levá-lo daquele lugar maldito para nossos dois cavalos, que estavam amarrados em árvores ao pé do morro.

ii Deixei Holden em uma posição confortável, então me levantei e olhei morro acima na direção do mosteiro. Chequei minha lâmina, prendi a espada na cintura, coloquei munição nas duas pistolas e as enfiei no cinturão, depois fiz o mesmo com dois mosquetes. A seguir, acendi uma vela e uma tocha, peguei os mosquetes, subi novamente o morro, onde acendi uma segunda e uma terceira tochas. Afugentei os cavalos e então joguei a primeira tocha no estábulo, o feno pegando fogo com um


agradável vuuump; a segunda tocha, joguei-a no vestíbulo da capela, e quando esta e o estábulo estavam se incendiando lindamente, corri para o dormitório, acendendo mais duas tochas no caminho, quebrei as janelas dos fundos e joguei as tochas lá dentro. Então voltei para a porta da frente, onde havia apoiado os mosquetes em uma árvore. E esperei. Não por muito tempo. Em momentos, apareceu o primeiro padre. Abati-o, joguei o primeiro mosquete para o lado, apanhei o segundo e usei-o no segundo padre. Outros mais começaram a aparecer, e descarreguei as pistolas e depois corri para o vão da porta e iniciei o ataque com a lâmina e a espada. Corpos caíam à minha volta — dez, onze ou mais — enquanto o prédio queimava, até eu ficar ensebado com sangue de padres, minhas mãos cobertas com ele, rastros dele escorrendo pelo meu rosto. Deixei que os feridos gritassem em agonia, enquanto os padres restantes no interior se escondiam — sem querer se queimar, aterrorizados demais para correr para fora e enfrentar a morte. Alguns arriscaram, é claro, e vieram atacando, brandindo espadas, só para serem abatidos. Outros, escutei-os queimar. Talvez algum tenha escapado, mas eu não estava com disposição para ser minucioso. Providenciei para que a maioria morresse; ouvi os gritos e senti o cheiro de carne queimada daqueles que se esconderam no interior, então passei por cima dos corpos dos mortos e moribundos e fui embora, enquanto o mosteiro se incendiava atrás de mim.


25 de setembro de 1757 Estávamos em uma cabana, a uma mesa, com as sobras de uma refeição e uma única vela entre nós. Não muito distante, Holden dormia, febrilmente, e, de vez em quando, eu me levantava para trocar o trapo de sua testa por um mais fresco. Precisávamos deixar a febre seguir seu curso e somente então, quando estivesse melhor, continuaríamos nossa viagem. — Nosso pai era um Assassino — disse Jenny, quando me sentei. Era a primeira vez, desde o resgate, que falávamos sobre esses assuntos. Estivemos preocupados em cuidar de Holden, fugir do Egito, e encontrar abrigo a cada noite. — Eu sei — falei. — Você sabe? — Sim. Descobri. Deduzi que era isso que você queria dizer durante todos aqueles anos. Lembra-se? Você me chamava de “Fedelho Espertinho”... Ela apertou os lábios e mexeu-se desconfortavelmente. — ...e o que disse sobre eu ser o herdeiro varão. Como, mais cedo ou mais tarde, eu descobriria o que estava reservado para mim? — Eu me lembro... — Pois bem, aconteceu que, mais tarde do que cedo, descobri o que estava reservado para mim. — Mas, se você sabia, então por que Birch está vivo? — Por que ele estaria morto? — Ele é um Templário. — Assim como eu. Ela recuou, a fúria anuviando seu rosto. — Você... você é um Templário? Mas isso vai contra tudo em que nosso pai... — Sim — rebati, no mesmo tom. — Sim, sou um Templário, e não, isso não vai contra tudo em que nosso pai acreditava. Desde que descobri sua filiação, passei a ver muitas semelhanças entre as duas facções. Comecei a imaginar se, tendo em vista minhas raízes e minha atual posição na Ordem, não estou na posição perfeita para, de algum modo, unir Assassinos e Templários... Parei. Percebi que ela estava ligeiramente bêbada; de repente, suas feições se contorceram e ela fez um ruído de repugnância. — E ele? Meu ex-noivo, dono do meu coração, o vistoso e encantador Reginald Birch? Que fim levou ele, diga-me, por favor! — Reginald é meu mentor, meu Grão-Mestre. Foi ele quem cuidou de mim nos anos após o ataque. Seu rosto se contorceu no ar de escárnio mais horrível, mais amargo que eu já tinha visto. — Ora, não é que você foi o sortudo? Enquanto você estava sendo cuidado, eu também estava...


por traficantes turcos de escravos. Eu me sentia como se ela pudesse ver através de mim, como se pudesse ver exatamente quais tinham sido minhas prioridades em todos aqueles anos, e baixei a vista e então olhei para o lado da cabana onde Holden se encontrava. Um aposento repleto de meus fracassos. — Lamento — falei. Como se para os dois. — Lamento mesmo. — Não lamente. Eu fui uma das sortudas. Eles me mantiveram pura para vender à Corte otomana e, depois disso, fui bem-cuidada no palácio de Topkapi. — Ela desviou o olhar. — Poderia ter sido pior. Afinal, eu estava acostumada àquilo. — A quê? — Presumo que você idolatrava nosso pai, não é mesmo, Haytham? Possivelmente ainda idolatra. Seu sol e sua lua? “Meu pai, meu rei”? Pois eu não: eu o odiava. Toda aquela sua conversa de liberdade... liberdade espiritual e intelectual... não se estendia a mim, sua própria filha. Não havia armas de treinamento para mim, lembra-se? Não. Nada de “Pense diferente” para Jenny. Era apenas “Seja uma boa garota e se case com Reginald Birch”. Que belo casamento seria. Arrisco dizer que fui mais bem-tratada pelo sultão do que teria sido por ele. Certa vez, eu lhe disse que nossas vidas já tinham sido planejadas, lembra-se? Bem, em um sentido eu estava errada, é claro, porque não creio que nenhum de nós poderia ter previsto como as coisas sairiam, mas e em um outro sentido? Em um outro, não poderia estar mais certa, Haytham, porque você nasceu para matar, e matar é o que tem feito, e eu nasci para servir aos homens, e servir aos homens é o que tenho feito. Mas meus dias de servir aos homens acabaram. E quanto a você? Ao terminar, ela levou aos lábios a caneca de vinho e gorgolejou. Fiquei imaginando que lembranças terríveis a bebida a ajudava a esquecer. — Foram os seus amigos Templários que atacaram a nossa casa — disse ela, quando a caneca ficou vazia. — Tenho certeza disso. — Mas você não viu nenhum anel. — Não, mas e daí? O que isso significa? Eles os tiraram, é claro. — Não. Não eram Templários, Jenny. Desde então tenho deparado com eles. Eram homens de aluguel. Mercenários. Sim, mercenários, pensei, mercenários que trabalhavam para Edward Braddock, que era próximo de Reginald... Inclinei-me adiante. — Eu soube que nosso pai tinha alguma coisa... alguma coisa que eles queriam. Você sabe o que era? — Ah, sim. Eles levaram na carruagem, naquela noite. — E...? — Era um livro. Novamente tive uma sensação de frigidez, de dormência. — Que tipo de livro?


— Marrom, encadernação de couro, ostentando o brasão dos Assassinos. Assenti. — Você acha que o reconheceria, se o visse novamente? Ela deu de ombros. — Provavelmente — arriscou. Olhei para onde estava Holden, o suor reluzindo em seu tronco. — Quando a febre ceder, nós iremos. — Para onde? — Para a França.


8 de outubro de 1757 i Embora fizesse frio, o sol brilhava naquela manhã, um dia que seria mais bem descrito como “matizado pelo sol”, com uma luz brilhante despejando-se através das copas das árvores para pintar o chão da floresta com retalhos dourados. Cavalgávamos em fila de três, eu na liderança. Atrás de mim estava Jenny, que havia muito tempo se desfizera das roupas de criada e vestia um manto que pendia pelos flancos de seu cavalo. Um grande capuz escuro estava puxado sobre sua cabeça, e o rosto parecia assomar de dentro dele como se estivesse olhando do interior de uma caverna: sério, intenso e emoldurado por um cabelo salpicado de grisalho que caía pelos ombros. Atrás dela vinha Holden, que, assim como eu, usava uma sobrecasaca toda fechada, lenço de pescoço e chapéu tricorne, porém, na sela, pendia um pouco para a frente, o rosto pálido, doentio e... assombrado. Ele havia falado muito pouco, desde que se recuperara da febre. Houve momentos de minúsculos vislumbres do antigo Holden — um sorriso passageiro, um vestígio de sua sabedoria londrina —, mas eram passageiros, e ele logo voltava a se fechar. Durante nossa travessia do Mediterrâneo, ele se mantivera retraído, sentado sozinho, matutando. Na França, tínhamos vestido disfarces, comprado cavalos e começado nossa viagem para o castelo, e ele cavalgara em silêncio. Parecia pálido e, tendo-o visto andar, achei que ainda sentia dores. Mesmo na sela, eu o via se encolher de vez em quando, principalmente em terreno acidentado. Eu mal aguentava pensar na dor que ele suportava — física e mental. A uma hora de distância do castelo, paramos e prendi minha espada na cintura, coloquei munição na pistola e a enfiei no cinturão. Holden fez o mesmo, e lhe perguntei: — Tem certeza de que está bem para lutar, Holden? Ele me lançou um olhar recriminador, e notei as bolsas e os anéis escuros embaixo de seus olhos. — Desculpe-me, senhor, mas foram meu pau e meus colhões que tiraram, e não a minha energia. — Desculpe, Holden, não quis sugerir nada. Sei a resposta e isso para mim é o bastante. — Acredita que haverá luta, senhor? — perguntou e, novamente, eu o vi se encolher ao puxar a espada para mais perto da mão. — Não sei, Holden. Realmente não sei. Ao nos aproximarmos do castelo, vi o primeiro dos patrulheiros. O guarda parou diante do meu cavalo e olhou-me por debaixo da aba larga do seu chapéu: o mesmo homem, percebi, que estivera aqui na minha última visita, quase quatro anos atrás. — É você, Sr. Kenway? — perguntou.


— Sim, sou, e tenho dois acompanhantes — respondi. Observei-o cuidadosamente, enquanto seu olhar ia de mim para Jenny, depois para Holden e, embora tentasse ocultar, seus olhos disseram-me tudo o que eu precisava saber. Ele fez menção de levar os dedos à boca, mas eu já havia saltado do cavalo, agarrado sua cabeça e enfiado minha lâmina através do olho e para o interior do cérebro e rasgado sua garganta, antes que conseguisse emitir outro som.

ii Ajoelhei-me apoiando uma das mãos no peito do sentinela, enquanto o sangue jorrava rápida e densamente do talho aberto em sua garganta, como se fosse uma segunda boca sorridente, e olhei para trás, por cima do ombro, para onde Jenny me fitava com um franzido da testa e Holden estava empertigado em sua sela, a espada desembainhada. — Você se importaria de nos dizer o que foi isso? — pediu Jenny. — Ele estava para assobiar — expliquei, analisando a floresta à nossa volta. — Da última vez, ele não assobiou. — E daí? Talvez eles tenham mudado os procedimentos para o ingresso. Balancei a cabeça. — Não. Eles sabem que estamos vindo. Estão nos esperando. O assobio teria alertado os outros. Não teríamos conseguido atravessar o gramado antes de caírem sobre nós. — Como sabe? — perguntou ela. — Eu não sei — retruquei. Embaixo da minha mão, o peito do guarda subiu e desceu uma última vez. Olhei abaixo para ver seus olhos revirarem e o corpo dar o último espasmo antes de morrer. — Eu desconfio — continuei, limpando as mãos sujas de sangue no chão e me levantando. — Passei anos desconfiando, ignorando o óbvio. O livro que você viu na carruagem naquela noite... ele está com Reginald. Se não estou muito enganado, ele o pegou naquela casa. Foi ele quem organizou o ataque à nossa casa. Ele é o responsável pela morte do nosso pai. — Ah, agora você sabe disso, não é? — escarneceu. — Antes, eu me recusava a acreditar. Mas agora, sim, eu sei. As coisas começaram a fazer sentido para mim. Por exemplo, certa tarde, quando eu era criança, encontrei Reginald perto da sala da prataria. Aposto como, na ocasião, ele procurava pelo livro. O motivo por ter se tornado íntimo da família, Jenny... o motivo por ter pedido sua mão em casamento... era porque ele queria o livro. — Não precisa me dizer isso — rebateu ela. — Naquela noite, tentei alertá-lo de que ele era o traidor. — Eu sei — admiti, então pensei por um momento. — Nosso pai sabia que ele era Templário? — Não a princípio, mas eu descobri e contei para ele. — Foi quando discutiram — falei, agora entendendo.


— Eles discutiram? — Eu os ouvi, um dia. E, depois disso, nosso pai contratou os guardas... Assassinos, sem dúvida. Reginald me disse que estava alertando nosso pai... — Mais mentiras, Haytham... Ergui a vista para ela, tremendo ligeiramente. Sim. Mais mentiras. Tudo que eu sabia... minha infância inteira, tudo foi construído baseado nelas. — Ele estava usando Digweed — contei. — Foi Digweed quem disse a ele onde o livro estava guardado... Encolhi-me diante da súbita recordação. — O que foi? — perguntou ela. — Naquele dia, na sala da prataria, Reginald me perguntou onde ficava guardada a minha espada. Eu lhe disse que era em um lugar secreto. — Na sala de bilhar? Assenti. — Eles foram diretamente para lá, não foram? — lembrou ela. Assenti novamente. — Eles sabiam que não estava na sala da prataria, porque Digweed lhes dissera que tinha sido mudado de lugar, e foi por isso que seguiram direto para a sala de bilhar. — Mas eles não eram Templários? — frisou ela. — Como assim? — Na Síria, você me disse que os homens que nos atacaram não eram Templários — observou ela com um tom zombeteiro. — Não podiam ser seus amados Templários. Balancei a cabeça. — Não, não eram. Eu lhe disse, eu os enfrentei desde então, e eram homens de Braddock. Reginald deve ter planejado me instruir na Ordem... — pensei novamente, e algo me ocorreu — ...por causa, provavelmente, da herança da família. Usar Templários teria sido arriscado demais. Eu poderia ter descoberto. Poderia ter vindo aqui mais cedo. Eu quase peguei Digweed. Quase os peguei na Floresta Negra, mas então... — lembrei-me da cabana na Floresta Negra. — Reginald matou Digweed. Era por isso que sempre estavam um passo à nossa frente... e ainda estão. — Apontei na direção do castelo. — E o que vamos fazer, senhor? — perguntou Holden. — Vamos fazer o que eles fizeram na noite em que nos atacaram na Queen Anne’s Square. Vamos esperar até o cair da noite. Então entraremos lá e mataremos gente.


9 de outubro de 1757 i A data acima diz 9 de outubro, a qual anotei ali, de forma um tanto otimista, ao final da anotação anterior, com a intenção de que esse pudesse ser um relato contemporâneo de nossa tentativa de invasão do castelo. Na verdade, estou escrevendo isto vários meses depois, e, para detalhar o que aconteceu naquela noite, preciso projetar o passado.

ii Quantos haveria lá? Seis, na última ocasião em que fui. Reginald teria reforçado a defesa, nesse meio-tempo, sabendo que eu poderia vir? Pensei que sim. Talvez dobrado. Doze, então, mais John Harrison, se ainda residisse lá. E, é claro, Reginald. Ele estava com 52 anos, e suas habilidades teriam diminuído, mas, mesmo assim, eu sabia que nunca devia subestimálo. Portanto, esperamos, e desejamos que, finalmente, fizessem o que de fato fizeram, que foi enviar um grupo de busca pelo patrulheiro desaparecido, três homens, que vieram portando tochas e as espadas desembainhadas, marchando através do gramado às escuras, as luzes das tochas dançando nos rostos austeros. Observamos enquanto se materializavam da escuridão e sumiam no meio das árvores. No portão, passaram a chamar o nome do guarda, depois se apressaram ao longo do perímetro externo em direção aonde supostamente estaria o patrulheiro. Seu corpo estava onde eu o deixara, e, nas árvores próximas, Holden, Jenny e eu tomamos posição. Jenny ficou recuada, armada com uma faca, mas fora da ação; Holden e eu estávamos bem mais adiante, onde subimos em árvores — Holden com alguma dificuldade — para observar e esperar, tensos, quando o grupo de busca descobriu o corpo. — Ele está morto, senhor. O líder do grupo esticou o pescoço para o corpo. — Algumas horas atrás. Dei um piado de pássaro para Jenny, que fez o que havíamos combinado. Seu grito por socorro foi emitido das profundezas da floresta e rasgou a noite. Com um gesto nervoso da cabeça, o líder do grupo conduziu os homens para o meio das árvores, e vieram ruidosamente na nossa direção, onde estávamos posicionados, esperando por eles. Olhei pelo meio das árvores e vi a forma de Holden alguns metros distante e fiquei imaginando se ele


estava suficientemente bem, e pedi a Deus que estivesse, porque, no momento seguinte, a patrulha corria por entre as árvores abaixo de nós, e saltei do galho. Peguei primeiro o líder, minha lâmina penetrando em seu olho e no cérebro, matando-o instantaneamente. De minha posição agachada, cortei acima e para trás, abrindo a barriga do segundo homem, que caiu de joelhos com as entranhas brilhando através de um enorme buraco em sua túnica, e então caiu de cara no macio chão da floresta. Olhando em volta, vi o terceiro homem cair diante da ponta da espada de Holden, que olhou em volta, o triunfo escrito por todo o rosto, mesmo no escuro. — Belo grito — comentei com Jenny, momentos depois. — Foi um prazer ajudar. — Ela franziu a testa. — Mas, escute, Haytham, não ficarei nas sombras, quando chegarmos lá. — Ergueu a faca. — Quero lidar pessoalmente com Birch. Ele roubou minha vida. Pela misericórdia que demonstrou por não mandar me matar, eu retribuirei deixando-o com seu pau e... Ela parou e olhou para Holden, que estava ajoelhado ali perto, olhando para longe. — Eu vou... — começou ela. — Isso mesmo, senhorita — disse Holden. Ergueu a cabeça e, com uma expressão que nunca vira antes em seu rosto, sugeriu: — Mas cuide para tirar o pau e os colhões antes de matá-lo. Faça aquele desgraçado sofrer.

iii Contornamos o perímetro de volta ao portão, onde um solitário sentinela parecia agitado, talvez imaginando aonde teria ido o grupo de busca; talvez sentindo que havia algo errado, seu instinto de soldado em ação. Mas, fosse qual fosse seu instinto, não foi o suficiente para mantê-lo vivo, e, momentos depois, estávamos nos agachando para passar pela portinhola e nos mantendo abaixados para seguir através do gramado. Paramos e nos ajoelhamos junto à fonte, prendendo a respiração por causa do som causado por três homens que saíam pela porta da frente do castelo, botas martelando o pavimento, gritando nomes. Um grupo de busca enviado para descobrir o primeiro grupo de busca. O castelo agora estava em alerta máximo. Que invasão silenciosa que nada. Pelo menos tínhamos reduzido o número deles em... Oito. Ao meu sinal, Holden e eu irrompemos de trás da cobertura da fonte e caímos sobre eles, cortando todos os três antes mesmo que tivessem a chance de sacar a espada. Tínhamos sido vistos. Do castelo, veio um grito e, no instante seguinte, o cortante estampido do disparo de um mosquete, e balas estalaram na fonte atrás de nós. Corremos dali. Na direção da porta da frente, onde outro guarda nos viu chegando e, enquanto eu subia estrondeando os poucos degraus em sua direção, ele tentou se virar e fugir. Era muito lento. Enfiei a espada através da porta que se fechava e pela lateral de seu rosto,


usando meu impulso para a frente para forçar a abertura da porta e irromper por entre ela, rolando pelo hall de entrada, enquanto ele caía para longe com sangue fluindo do queixo destroçado. Do patamar acima veio o estalido do disparo de um mosquete, mas o atirador havia mirado alto demais e a bala estalou inofensivamente na madeira. Em um instante, eu estava de pé e investindo na direção da escada, subindo para o patamar, onde o atirador abandonou seu mosquete com um berro de frustração, puxou a espada da bainha e veio me encontrar. Havia terror em seus olhos; meu sangue fervia. Eu me sentia mais animal do que homem, agindo por puro instinto, como se tivesse levitado do meu próprio corpo e observasse a mim mesmo lutar. Em momentos, eu tinha cortado o atirador e jogado seu corpo por cima do corrimão para o hall de entrada abaixo, aonde chegara outro guarda, bem a tempo de encontrar Holden, que irrompera pela porta da frente com Jenny atrás dele. Saltei do patamar com um grito, aterrissando suavemente sobre o corpo do homem que havia acabado de jogar lá de cima, forçando o recém-chegado a girar para proteger sua retaguarda. Foi toda a oportunidade que Holden precisava para atropelá-lo. Com um sinal da cabeça, virei e corri de volta escada acima, a tempo de ver uma figura surgir no patamar, e me abaixei, ao ouvir o estalido de um disparo enquanto uma bala se chocava contra a parede de pedra atrás de mim. Era John Harrison, e eu estava em cima dele antes que tivesse a chance de sacar a adaga, então agarrei uma parte de sua camisola e o forcei a se ajoelhar, recuando minha lâmina para desferir um ataque. — Você sabia? — rosnei. — Que ajudou a matar meu pai e a corromper minha vida? Ele baixou a cabeça em admissão e enfiei a lâmina em sua nuca, secionando a vértebra, matandoo instantaneamente. Desembainhei a espada. Diante da porta de Reginald, parei, olhei de um lado a outro do patamar, então recuei e estava para arrombá-la com um chute quando percebi que estava entreaberta. Agachando-me, empurrei-a e ela girou para dentro com um rangido. Reginald estava parado, vestido, no centro de seu quarto. Ele era exatamente assim, sempre um adepto fútil da etiqueta — ele se vestira para encontrar seus assassinos. De repente, surgiu uma sombra na parede, projetada por uma figura escondida atrás da porta e, em vez de esperar que a armadilha funcionasse, enfiei a espada através da madeira, ouvi um grito de dor do outro lado, então entrei e deixei que a porta se fechasse com o corpo do último guarda preso a ela, olhando para a espada atravessada em seu peito com descrentes olhos arregalados, ao mesmo tempo que seus pés raspavam o chão de madeira. — Haytham — disse Reginald friamente.

iv — Foi o último dos guardas? — perguntei, os ombros agitados enquanto recuperava o fôlego. Atrás de mim, os pés do moribundo ainda raspavam a madeira, e podia ouvir Jenny e Holden do outro lado


da porta, lutando para abri-la com aquele corpo se debatendo no caminho. Finalmente, com uma derradeira tosse, ele morreu, o corpo soltou-se da lâmina, e Jenny e Holden entraram subitamente. — Sim — respondeu Reginald. — Apenas eu agora. — Monica e Lucio... estão seguros? — Sim, em seus quartos, no corredor. — Holden, você me faria um favor? — pedi por cima do ombro. — Poderia ir ver se Monica e Lucio estão ilesos? A condição deles talvez ajude a determinar a quantidade de dor a que vamos submeter o Sr. Birch. Holden empurrou o corpo do guarda para longe da porta, disse “Sim, senhor” e saiu, fechando a porta atrás de si, fazendo isso com certa determinação que não escapou a Reginald. Reginald deu um sorriso. Um longo, lento, triste sorriso. — Fiz o que fiz pelo bem da Ordem, Haytham. Pelo bem de toda a humanidade. — Às custas da vida do meu pai. Você destruiu a nossa família. Pensou que eu nunca fosse descobrir? Ele balançou a cabeça tristemente. — Meu caro rapaz, como Grão-Mestre, é preciso tomar decisões difíceis. Eu não lhe ensinei isso? Eu o promovi a Grão-Mestre do Ritual Colonial, sabendo que você também teria de tomar decisões semelhantes e tendo fé em sua habilidade para tomá-las, Haytham. Decisões tomadas na busca de um bem maior. Na busca de um ideal que você compartilhava, lembra-se? Você pergunta se eu pensei que você nunca fosse descobrir? E é claro que a resposta é sim. Você é engenhoso e tenaz. Eu o treinei para ser assim. Tive de considerar a possibilidade de que, um dia, você descobrisse a verdade, mas esperava que, quando esse dia chegasse, você tivesse uma concepção mais filosófica. — Seu sorriso era forçado. — Em vista da contagem de corpos, devo supor que estou decepcionado a esse respeito, não? Dei uma risada seca. — Sim, Reginald. Está mesmo. O que você fez é uma corrupção de tudo em que acredito, e sabe por quê? Você fez isso não com a aplicação de nossos ideais, mas com fraude. Como podemos inspirar crença, quando o que temos em nossos corações são mentiras? Ele balançou a cabeça, com repugnância. — Ora, vamos, isso é asneira ingênua. Eu havia esperado isso de você, como um jovem adepto, mas agora? Durante uma guerra, você faz o possível para garantir a vitória. O que você faz com essa vitória é o que conta. —Não. Temos de praticar o que pregamos. Caso contrário nossas palavras são vazias. — Falou o Assassino que existe em você — observou ele, as sobrancelhas arqueadas. Dei de ombros. — Não me envergonho de minhas raízes. Tive anos para reconciliar meu sangue Assassino com minha crença de Templário, e fiz isso. Eu podia ouvir Jenny respirando a meu lado, respiros alterados, ásperos, que se tornavam mais


apressados. — Ah, então é isso — zombou Reginald. — Você se considera um moderado, não é mesmo? Eu nada disse. — E pensa que pode mudar as coisas? — perguntou, com o lábio torcido. Mas a pessoa seguinte a falar foi Jenny. — Não, Reginald — declarou ela. — Matar você é se vingar do que fez conosco. Ele voltou a atenção para ela, notando pela primeira vez sua presença. — E como você está, Jenny? — perguntou, erguendo ligeiramente o queixo e depois acrescentando hipocritamente: — Vejo que o tempo foi bondoso com você. Ela agora produzia sons baixos de rugidos. Com o canto do olho, vi a mão que segurava a faca avançar ameaçadoramente. Ele também viu. — E sua vida como concubina — continuou — foi gratificante para você? Devo imaginar que deve ter visto tanto do mundo, tantas pessoas diferentes e culturas variadas... Ele estava tentando instigá-la, e funcionou. Com um uivo de raiva nascido de anos de subjugação, ela arremeteu para ele, como se para matá-lo com a faca. — Não, Jenny...! — gritei, mas era tarde demais, porque, é claro, ele estava preparado para ela. Jenny estava fazendo exatamente o que ele esperava que fizesse, e, quando ela chegou à distância de um ataque, Reginald sacou a própria adaga — devia estar enfiada atrás do cinto — e evitou facilmente o golpe da faca. Em seguida, Jenny uivou de dor e de indignação, quando Reginald agarrou e torceu seu pulso, a faca caiu no chão, e o braço dele se prendeu em volta do pescoço dela, com a lâmina junto à sua garganta. Por cima do ombro dela, ele olhou para mim, e seus olhos cintilaram. Eu estava na ponta dos pés, prestes a saltar para a frente, mas ele pressionou a lâmina na garganta de Jenny e ela choramingou, os braços no antebraço dele tentando soltar o aperto. — Oh-oh — alertou Reginald, e já fazia a volta, mantendo a faca na garganta dela, empurrando-a de volta para a porta, a expressão no rosto dele mudando, mas de triunfo para irritação, quando ela começou a se debater. — Fique parada — disse-lhe por entre dentes. — Faça o que ele manda, Jenny — recomendei, mas ela agitava-se violentamente para se livrar do aperto, cabelos molhados de suor grudados em seu rosto, como se estivesse tão revoltada por estar sendo agarrada por ele que preferia ser cortada a passar mais um segundo em tal estreita proximidade. E ela foi cortada, pois escorria sangue de seu pescoço. — Quer parar quieta, mulher? — vociferou ele, começando a perder a compostura. — Pelo amor de Deus, você quer morrer aqui? — É melhor isso, e meu irmão matar você, do que permitir sua fuga — sibilou ela, e continuou a retesar-se contra ele. Vi os olhos dela seguirem para o chão. Não muito longe de onde lutavam, estava o corpo do guarda, e dei-me conta do que ela estava fazendo um segundo antes de acontecer: Reginald tropeçou


na perna estendida do cadáver e pisou em falso. Apenas um pouquinho. Mas o bastante. O bastante para que, quando Jenny, com um grito de esforço, arremessou o corpo para trás, ele tropeçou no corpo e perdeu o equilíbrio, chocando-se pesadamente com um som surdo contra a porta — onde minha espada ainda estava bem presa atravessada na madeira. Sua boca abriu-se em um grito silencioso de choque e dor. Ainda segurava Jenny, mas sua força cedeu e ela caiu para a frente, deixando Reginald preso à porta e olhando de mim para seu peito, de onde se salientava a ponta da espada. Quando ele fez uma careta de dor, havia sangue em seus dentes. Então, lentamente, ele escorregou da espada e se juntou ao primeiro guarda no chão, as mãos no buraco do peito, o sangue encharcando suas roupas e já começando a se empoçar no chão. Virando ligeiramente a cabeça, ele conseguiu olhar para mim. — Tentei fazer o que era certo, Haytham — disse ele. Suas sobrancelhas se uniram. —Você com certeza entende isso. Olhei abaixo para ele e tive pena, não dele, mas da infância que ele me tirara. — Não — respondi, e, enquanto a luz se apagava de seus olhos, quis que ele levasse junto minha indiferença para o outro lado. — Filho da puta! — berrou Jenny atrás de mim. Ela se colocara de quatro, e rosnara como um animal. — Você está com sorte por eu não ter cortado suas bolas — mas não creio que Reginald a estivesse escutando. Aquelas palavras teriam de permanecer no mundo corpóreo. Ele estava morto.

v Veio um ruído do lado de fora, passei por cima do corpo e abri a porta, pronto para enfrentar mais guardas, se necessário. Em vez disso, fui saudado pela visão de Monica e Lucio passando pelo patamar, ambos carregando trouxas e sendo conduzidos em direção à escada por Holden. Tinham o rosto pálido e esquelético por causa do longo tempo de encarceramento e, quando olharam por cima do corrimão para o hall de entrada abaixo, a visão dos cadáveres fez Monica arfar e pressionar em choque a mão fechada sobre a boca. — Sinto muito — falei, sem saber direito pelo que estava me desculpando. Por surpreendê-los? Pelos cadáveres? Pelo fato de terem sido mantidos reféns por quatro anos? Lucio lançou-me um olhar de puro ódio e então desviou a vista. — Obrigada, senhor, mas não queremos suas desculpas — retrucou Monica num inglês mal falado. — Agradecemos por finalmente ter nos libertado. — Se esperarem por nós, partiremos pela manhã — sugeri. — Se é que está bem para você, Holden. — Sim, senhor. — Acho melhor partirmos tão logo juntarmos as provisões necessárias para voltarmos para casa — alegou Monica.


— Por favor, esperem — pedi, e pude ouvir a fadiga em minha voz. — Monica. Lucio. Por favor, esperem, e viajaremos juntos pela manhã, para garantir sua passagem segura. — Não, obrigada, senhor. — Eles tinham chegado ao pé da escada, e Monica virou o rosto para olhar acima para mim. — Acho que já fez o bastante. Sabemos onde fica o estábulo. Se pudermos nos servir de alimentos da cozinha e pegar uns cavalos... — Claro. Claro. Vocês têm... alguma coisa com que se defender, para o caso de toparem com bandidos? — Desci rapidamente os degraus e abaixei-me para pegar a espada de um dos guardas mortos. Entreguei-a a Lucio, oferecendo-lhe o cabo. — Pegue isto, Lucio — falei. Você precisará proteger sua mãe durante a viagem para casa. Ele agarrou a espada, olhou para mim, e pensei ter visto uma suavidade em seus olhos. Então ele a enfiou em mim.


27 de janeiro de 1758 Morte. Houvera muita, e haveria mais. Anos atrás, quando matei o esfaqueador na Floresta Negra, errei ao esfaqueá-lo no rim e apressar sua morte. Quando Lucio me enfiou a espada no hall de entrada do castelo, por acaso errou um órgão vital. Seu golpe foi desferido com ferocidade. Do mesmo modo que a de Jenny, sua ira foi gerada durante anos de raiva e sonhos de vingança reprimidos. E, como eu próprio, era um homem que passara a vida inteira procurando vingança, mal poderia censurá-lo por isso. Mas ele não me matou, obviamente, pois estou escrevendo isto. Foi o suficiente, porém, para me causar um sério ferimento e, pelo resto do ano, fiquei de cama no castelo. Estive em um precipício sobre o grande infinito da morte, entrando e saindo do estado inconsciente, ferido, infeccionado e febril, mas lutando cansativamente, algumas fracas e bruxuleantes chamas de espírito dentro de mim se recusando a apagar. Os papéis foram invertidos e, agora, foi a vez Holden cuidar de mim. Toda vez que recobrava a consciência e acordava agitado em meio aos lençóis molhados de suor, ele estava lá, ajeitando a roupa de cama, aplicando flanelas frescas com água fria em minha testa ardente, me acalmando. — Está tudo bem, senhor, está tudo bem. Apenas relaxe. Já passou pelo pior. Já mesmo? Já passara pelo pior? Um dia — quanto tempo, durante minha febre, não faço ideia — acordei, agarrei o braço de Holden, puxei o corpo para ficar sentado, olhei intensamente em seus olhos, para perguntar: — Lucio. Monica. Onde estão? Eu tivera aquela imagem — uma imagem de um furioso, vingativo Holden abatendo ambos com a lâmina. — A última coisa que disse, antes de apagar, senhor, foi para poupá-los — disse ele, com uma expressão que sugeria não estar muito feliz com aquilo —, e poupá-los foi o que eu fiz. Nós os mandamos embora, com cavalos e suprimentos. — Ótimo, ótimo... — ofeguei e senti a escuridão aumentar para me reivindicar novamente. — Não pode culpar... — Covardia, isso é que foi... — Estava ele dizendo pesarosamente, quando voltei a perder a consciência. — Não há outra palavra para isso, senhor. Covardia. Agora, feche os olhos e descanse... Eu vi Jenny, também, e, mesmo no meu estado febril e ferido, não pude deixar de notar a mudança nela. Era como se tivesse conquistado uma paz interior. Uma ou duas vezes, estive ciente da presença dela sentada ao lado da minha cama, e a ouvi falar sobre a vida na Queen Anne’s Square, de que modo ela pretendia voltar e, como dizia, “cuidar dos negócios”. Eu temia pensar. Mesmo semiconsciente, encontrava lugar em meu coração para ter pena das


pobres almas encarregadas dos negócios dos Kenway, quando minha irmã Jenny retornasse para o local. Sobre uma mesa ao lado da cama estava o anel Templário de Reginald, mas não o coloquei, o apanhei ou mesmo toquei nele. Pois agora, afinal, eu não me sentia nem Templário nem Assassino, e não queria ter nada com nenhuma das duas ordens. Então, cerca de três meses após Lucio ter me esfaqueado, saí da cama. Inspirando fundo, com Holden segurando meu antebraço esquerdo com ambas as mãos, tirei os pés de baixo dos lençóis, coloquei-os sobre o frio chão de madeira e senti a camisola deslizar até os tornozelos, ao ficar de pé pela primeira vez durante o que pareceu uma existência. De imediato, senti uma pontada de dor no ferimento na lateral do corpo e botei a mão ali. — Estava muito infeccionado, senhor — explicou Holden. — Tivemos que cortar fora um pedaço de pele apodrecida. Fiz uma careta. — Aonde quer ir, senhor? — perguntou Holden, após termos caminhado lentamente da cama até a porta. Isso me fez sentir um inválido, mas, na ocasião, fiquei feliz em ser tratado como tal. Minha força retornaria em breve. Então eu estaria... De volta ao meu velho eu? Fiquei imaginando... — Acho que quero olhar pela janela, Holden, por favor — pedi, e ele concordou, conduzindo-me até ela para que eu pudesse olhar os lugares onde passara a maior parte da minha infância. Ao ficar parado ali, me dei conta de que, durante grande parte da minha vida adulta, quando pensava em “lar”, eu me imaginava olhando por uma janela, ou para o jardim da casa da Queen Anne’s Square ou para os terrenos do castelo. Eu chamara ambos de lar e ainda chamava, e agora — agora que sabia toda a verdade sobre meu pai e Reginald — eles passaram a ter um significado ainda maior, quase uma dualidade: duas metades da minha juventude, duas partes do homem no qual me tornei. — Já basta, Holden, obrigado — falei, e deixei que me conduzisse de volta à cama. Deitei-me, subitamente sentindo-me... detesto admitir, mas “debilitado”, após minha longa jornada de ida e volta à janela. Mesmo assim, minha cura estava quase completa e a ideia era o bastante para trazer um sorriso ao meu rosto, enquanto Holden se ocupava em juntar uma caneca d’água e uma flanela usada, tendo no rosto uma estranha, sombria e indecifrável expressão. — Que bom vê-lo novamente de pé, senhor — comentou, quando percebeu que eu estava olhando para ele. — Devo agradecer isso a você, Holden — falei. — E à Srta. Jenny, senhor — lembrou-me. — Claro. — Nós dois ficamos algum tempo preocupados, senhor. Foi uma recuperação delicada. — Que terrível teria sido, sobreviver a guerras, a Assassinos e eunucos criminosos, só para


morrer nas mãos de um rapaz imaturo — comentei com uma risadinha. Ele assentiu e gargalhou secamente. — Isso mesmo, senhor — concordou. — Seria mesmo uma amarga ironia. — Bem, sobrevivi para lutar mais um dia — falei — e, em breve, talvez em mais ou menos uma semana, nós partiremos, viajaremos de volta às Américas, e ali continuarei meu trabalho. Ele olhou para mim e assentiu. — Como quiser, senhor — concordou. — Isso será tudo por enquanto, senhor? — Sim... sim, é claro. Desculpe, Holden, por ter sido um estorvo durante os últimos meses. — Meu único desejo era vê-lo recuperado, senhor — disse ele, e saiu.


28 de janeiro de 1758 A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um grito. Um grito de Jenny. Ela havia entrado na cozinha e encontrado Holden pendendo de um varal de roupas. Eu sabia, antes mesmo de ela entrar correndo no meu quarto — sabia o que acontecera. Ele deixou um bilhete, mas não teria sido preciso. Holden se matou por causa do que os padres coptas haviam feito com ele. Era simples assim, e sem surpresa, não mesmo. Sabia, desde a morte de meu pai, que um estado de surpresa é um bom indicador da mágoa que virá. Quanto mais paralisado, pasmado e entorpecido alguém se sente, mais demorado e mais intenso é o período de lamentação.


P A R T E QU A T R O

1774, dezesseis anos depois


12 de janeiro de 1774 i Ao escrever isto, ao final de uma tarde agitada, há apenas uma pergunta em minha mente. É possível que... Que eu tenha um filho? A resposta é: Não sei ao certo, mas há pistas, e, talvez mais persistentemente, uma sensação — uma sensação que constantemente me importuna, puxando a barra do meu casaco como um mendigo insistente. Não é o único peso que carrego, é claro. Há dias me sinto subjugado pela memória, pela dúvida, pelo arrependimento e pelo pesar. Dias nos quais sinto como se fantasmas não me deixarão em paz. Após enterrarmos Holden, parti para as Américas, e Jenny retornou para viver na Inglaterra, de volta à Queen Anne’s Square, onde, desde então, permanece em glorioso estado de solteirona. Sem dúvida, tem sido o assunto de incontáveis fofocas e especulações sobre os anos que passou fora, e, sem dúvida, isso lhe convém perfeitamente. Nós nos correspondemos, mas, embora preferisse dizer que as experiências que compartilhamos nos uniram, o fato que não se pode disfarçar é que elas não fizeram isso. Nós nos correspondíamos porque tínhamos o mesmo nome Kenway e achávamos que devíamos nos manter em contato. Jenny não me insultava mais, portanto, nesse sentido, acho que nosso relacionamento melhorou, mas nossas cartas eram entediadas e superficiais. Éramos duas pessoas que passaram por muito sofrimento e muita perda para durar uma dúzia de existências. O que poderíamos discutir em uma carta? Nada. Portanto, nada era o que discutíamos. Nesse meio-tempo — eu estava certo — chorei pela morte de Holden. Jamais conheci um homem melhor do que ele, e jamais conhecerei. Para ele, porém, a força e o caráter, que ele tinha em abundância, simplesmente não eram suficientes. Sua masculinidade lhe tinha sido tirada. Não conseguiu viver com essa condição, não estava preparado para isso, e, assim, esperara até eu estar recuperado para tirar a própria vida. Lamentei por ele e provavelmente sempre lamentarei, e lamentei também a traição de Reginald — o relacionamento que tivemos um dia e as mentiras e as traições nas quais minha vida foi baseada. E lamentei o homem que eu tinha sido. A dor na lateral do corpo nunca passou realmente — de vez em quando, ela latejaria — e, apesar do fato de eu não ter dado permissão para o meu corpo envelhecer, ele estava determinado a fazer isso de qualquer maneira. Pelos pequenos e grossos saíram das minhas orelhas e do meu nariz. De uma hora para outra, eu já não era tão ágil como antes. Embora minha posição na Ordem fosse mais importante do que nunca, fisicamente, eu não era o homem que fui. Em meu retorno às Américas, encontrei uma propriedade rural na Virgínia, onde plantei tabaco e trigo, e cavalgava em volta dela, ciente de que meus poderes minguavam lentamente


com o passar dos anos. Montar e desmontar do meu cavalo era mais difícil do que antes. E não quero dizer difícil, só mais difícil, porque eu continuava mais forte e mais rápido e mais ágil do que um homem com a metade da minha idade, e não havia um trabalhador na minha propriedade capaz de me superar fisicamente. Mas, mesmo assim... não era tão rápido, tão forte ou tão ágil quanto antes. A idade não se esquecera de me cobrar seu preço. Em 1773, Charles também voltou para as Américas, e se tornou um vizinho, um colega dono de uma propriedade na Virgínia, distante apenas metade de um dia a cavalo. E havíamos nos correspondido, concordando que precisávamos nos encontrar para conversar sobre assuntos Templários e planejar para aumentar os interesses do Ritual Colonial. Discutimos principalmente o crescente ânimo de rebelião, as sementes de revolução flutuando na brisa e como melhor capitalizar esse ânimo, porque nossos colonizadores estavam cada vez mais cansados de novas regras impostas pelo Parlamento britânico: a Lei do Selo; a Lei da Receita; a Lei de Indenização; a Lei de Comissários da Alfândega. Eles estavam sendo pressionados com tantos impostos e se ressentiam do fato de que não havia ninguém para representar seus pontos de vista, para registrar seu descontentamento. Certo George Washington estava entre os descontentes. Esse jovem oficial, que um dia cavalgara com Braddock, havia renunciado à patente e aceitado uma recompensa em terras para ajudar os ingleses durante a guerra contra franceses e índios. Suas simpatias, porém, haviam mudado nos anos intermediários. O oficial cheio de energia e entusiasmo, a quem eu havia admirado por ter uma perspectiva compassiva — pelo menos mais do que seu comandante —, era agora uma das vozes mais importantes do movimento antibritânico. Isso, sem dúvida, porque os interesses do governo de Sua Majestade conflitavam com suas próprias ambições comerciais. Ele expusera fatos na Assembleia da Virgínia para tentar introduzir uma legislação que banisse a importação de produtos da Grã-Bretanha. O fato que fosse uma legislação condenada só fez aumentar o crescente sentimento de insatisfação nacional. A Festa do Chá de Boston, quando aconteceu em dezembro de 1773 — apenas mês passado, aliás —, foi o auge de anos — não, décadas — de descontentamento. Ao transformar o porto na maior xícara de chá do mundo, os colonizadores estavam dizendo à Grã-Bretanha e ao mundo que não estavam mais dispostos a viver sob um sistema injusto. Uma rebelião total estava certamente apenas a uma questão de meses à frente. Por isso, com a mesma medida de entusiasmo com que cuidava das minhas plantações, ou escrevia para Jenny, ou saltava da cama — em outras palavras, bem devagar —, decidi que estava na hora de a Ordem fazer os preparativos para a vindoura revolução, e convoquei uma reunião.

ii Reunimos, todos juntos pela primeira vez em mais de 15 anos, os homens do Ritual Colonial com


quem eu compartilhei tantas aventuras vinte anos atrás. Ficamos agrupados sob as vigas baixas de uma taberna deserta chamada The Restless Ghost, nos arredores de Boston. Não estava deserta quando chegamos, mas Thomas havia providenciado para que logo tivéssemos o lugar só para nós, expulsando os poucos bebedores que se amontoavam sobre as mesas de madeira. Aqueles de nós que habitualmente usavam fardas, agora vestiam roupas civis, com casacos abotoados até o pescoço e chapéus puxados para cima dos olhos, e nos sentamos em volta de uma mesa com canecas à mão: eu, Charles Lee, Benjamin Church, Thomas Hickey, William Johnson e John Pitcairn. E foi aqui que soube pela primeira vez do garoto. Foi Benjamin quem primeiro tocou no assunto. Ele era o nosso homem dentro dos Filhos da Liberdade de Boston, um grupo de patriotas, colonizadores antibritânicos que tinham ajudado a organizar a Festa do Chá, e, dois anos atrás, em Martha’s Vineyard, ele teve um encontro. — Um garoto nativo — informou ele. — Não era alguém que eu já tivesse visto antes... — Não era alguém de quem se lembrava ter visto antes, Benjamin — corrigi. Ele fez uma careta. — Não era alguém de quem me lembrava ter visto antes, então — corrigiu. — Um garoto que veio na minha direção e, com ousadia, exigiu saber onde estava Charles. Dirigi-me a Charles. — Ele estava à sua procura. Você sabe quem é? — Não. — Mas houve algo evasivo no modo como falou. — Vou tentar outra vez, Charles. Você desconfia quem pode ser esse garoto? Ele se recostou no assento e olhou à distância, para o outro lado da taberna. — Acho que não — disse ele. — Mas não tem certeza? — Havia um garoto em... Um incômodo silêncio pareceu baixar sobre a mesa. Os homens ou pegaram suas canecas ou encurvaram os ombros ou encontraram alguma coisa para inspecionar na fogueira ali perto. Nenhum fez contato visual comigo. — Que tal alguém me dizer o que está havendo? — pedi. Aqueles homens — nenhum deles era um décimo do homem que Holden tinha sido. Eu estava farto deles, completamente farto deles. E meus sentimentos estavam prestes a se intensificar. Foi Charles... Charles quem primeiro olhou por sobre a mesa, olhou nos meus olhos e disse: — Sua mulher mohawk. — O que tem ela? — Sinto muito, Haytham — disse ele. — Sinto mesmo. — Ela está morta? — Sim. Claro, pensei. Houve tantas mortes.


— Quando? Como? — Durante a guerra. Em 1760. Quatorze anos atrás. A aldeia dela foi atacada e incendiada. Senti a boca apertar. — Foi Washington — declarou rapidamente, olhando para mim. — George Washington e seus homens. Queimaram a aldeia e a sua... ela morreu lá. — Você estava presente? Ele ruborizou. — Sim, tínhamos esperanças de falar com os anciãos da aldeia sobre o sítio precursor. Mas não houve nada que eu pudesse fazer, Haytham, posso garantir a você. Washington e seus homens baixaram com toda a força sobre o lugar. Estavam com ânsia de sangue naquele dia. — E havia um garoto? — perguntei. Seus olhos afastaram-se piscando. — Sim, havia um garoto... novinho, com cerca de 5 anos. Cerca de cinco anos, pensei. Tive uma visão de Ziio, do rosto que um dia amei, quando era capaz de tal coisa, e senti uma melancólica contracorrente de dor por ela e repugnância por Washington, o qual, obviamente, tinha aprendido uma ou duas coisas por ter servido com o general Braddock — lições de brutalidade e crueldade. Pensei na última vez em que estivemos juntos e a imaginei no nosso pequeno acampamento, fitando além das árvores com uma expressão pensativa no olhar, e as mãos, quase inconscientemente, indo para a barriga. Mas não. Afastei a ideia. Fantástica demais. Forçada demais. — Ele me ameaçou, esse garoto — dizia Charles. Em circunstâncias diferentes, talvez tivesse achado graça da imagem de Charles, com seu 1,80 metro sendo ameaçado por um garoto nativo de 5 anos — isto é, se ainda não estivesse tentando absorver a morte de Ziio —, e quase imperceptivelmente inspirei fundo, sentindo o ar em meu peito, e afastei a imagem dela. — Eu não era o único dos nossos lá — citou Charles defensivamente, e olhei em volta da mesa, interrogativamente. — Prossiga. Quem mais? William, Thomas e Benjamin, todos assentiram, os olhos fixos na escura madeira nodosa do tampo da mesa. — Não pode ter sido ele — exclamou William, contrariado. — Certamente não pode ter sido o mesmo garoto. — Ora, vamos lá, quais são as chances? — concordou Thomas Hickey. — E você não o reconheceu em Martha’s Vineyard? — perguntei então a Benjamin. Ele balançou a cabeça, deu de ombros. — Era apenas um garoto, índio. Todos são parecidos, não é? — E o que você estava fazendo em Martha’s Vineyard? O tom de sua voz foi impaciente.


— Descansando. Ou fazendo planos para forrar seus bolsos, pensei, e disse: — É mesmo? Ele enrugou os lábios. — Se as coisas saírem como pensamos, e os rebeldes se organizarem em um exército, então estou na fila para me tornar médico-chefe, Sr. Kenway — disse ele —, uma das posições mais altas do Exército. Penso que, em vez de questionar por que eu estava em Martha’s Vineyard naquele dia, talvez me devesse algumas palavras para me parabenizar. Olhou em volta da mesa, atrás de apoio, e foi recebido por assentimentos hesitantes de Thomas e William, os dois me dando ao mesmo tempo olhares de lado. Admiti. — Esqueci completamente as boas maneiras, Benjamin. De fato, será um grande reforço para a Ordem o dia em que obtiver essa patente. Charles pigarreou alto. — Enquanto também esperamos que, se tal exército vier a ser formado, o nosso querido Charles seja indicado comandante-chefe. Não enxerguei exatamente, pois a luz da taberna era muito fraca, mas pude sentir Charles enrubescer. — Nós fazemos mais do que meramente esperar por isso — protestou ele. — Sou o candidato óbvio. Minha experiência militar supera em muito a de George Washington. — Sim, mas você é inglês, Charles — suspirei. — Nascido na Inglaterra — cortou ele —, mas um colonizador de coração. — O que tem no seu coração pode não ser suficiente — afirmei. — Veremos — rebateu ele, indignado. Veremos realmente, pensei, cansado, então voltei minha atenção para William, que, até então, se mantivera cauteloso, embora fosse óbvio o porquê, considerando que seria o mais afetado pelos acontecimentos da Festa do Chá. — E qual a sua atribuição, William? Como estão os planos para a compra da terra nativa? Todos nós sabíamos, é claro, mas precisava ser dito, e ser dito por William, gostasse ele ou não. — A Confederação deu sua bênção à negociação... — começou. — Mas...? Ele inspirou fundo. — É claro que você conhece, Sr. Kenway, nossos planos para levantar fundos... — Folhas de chá? — E conhece, é claro, tudo sobre a Festa do Chá de Boston? Ergui as mãos. — A repercussão tem sido sentida em todo o mundo. Primeiro a Lei do Selo, agora isso. Nossos colonos estão se revoltando, não estão?


William me disparou um olhar repreensivo. — Alegro-me por ser uma situação que o diverte, Sr. Kenway. Dei de ombros. — A beleza de nossa abordagem é que temos todos os ângulos cobertos. Aqui, em volta da mesa, temos representantes dos colonizadores — apontei para Benjamin —, do exército britânico — indiquei John — e, é claro, o nosso próprio homem de aluguel, Thomas Hickey. Por fora, nossos afiliados não poderiam ser mais diferentes. O que vocês têm no coração são os ideais da Ordem. Portanto, você tem que me desculpar, William, se permaneço de bom humor apesar da sua contrariedade. É somente porque acredito que é exatamente isso, uma contrariedade, e bem pequena. — Bem, espero que tenha razão, Sr. Kenway, porque o fato que importa é que essa avenida de arrecadação de fundos está agora fechada para nós. — Por causa da ação de rebeldes... — Exatamente. E tem outra coisa... — O quê? — perguntei, sentindo todos os olhos sobre mim. — O garoto estava lá. Ele é um dos líderes. Lançou caixotes de chá no porto. Todos nós vimos. Eu, John, Charles... — O mesmo garoto? — Com quase toda a certeza — disse William —, seu colar é exatamente como o que Benjamin descreveu para mim. — Colar? — perguntei. — Que tipo de colar? — E mantive o rosto impassível, tentando não engolir em seco, mesmo quando Benjamin passou a descrever o colar de Ziio. Isso não significa nada, disse a mim mesmo, quando terminaram. Ziio estava morta, portanto, é claro que o colar teria sido passado adiante — se é que era o mesmo. — Há mais alguma coisa, não há? — suspirei, olhando para seus rostos. Eles assentiram em uníssono, mas foi Charles quem falou. — Quando Benjamin o encontrou em Martha’s Vineyard, era um garoto de aparência normal. Durante a Festa do Chá, já não era mais. Usava o manto, Haytham — disse Charles. — O manto? — De um Assassino.


27 de junho de 1776 (dois anos depois) i Foi nessa época, ano passado, que provei que estava certo e que Charles estava errado, quando George Washington foi de fato nomeado comandante-chefe do recém-formado Exército Continental, e Charles foi feito major-general. Enquanto fiquei mais do que feliz em saber da notícia, Charles ficou irado e, desde então, não parou de se enfurecer. Ele gostava de dizer que George Washington não tinha condições de comandar uma tropa de sargentos. O que, é claro, como geralmente é o caso, não se tratava de algo verdadeiro nem de totalmente falso. Enquanto, por um lado, Washington revelava componentes de ingenuidade em sua liderança, por outro, obtivera algumas vitórias notáveis, muito especialmente a libertação de Boston em março. Também havia conquistado a confiança e a esperança de seu povo. Não havia dúvida a respeito, tinha algumas boas qualidades. Mas não era Templário, e queríamos a revolução liderada por um dos nossos. Não apenas planejávamos controlar o lado vencedor como pensávamos que tínhamos mais chances de vencer tendo Charles como encarregado. E, assim, maquinamos um complô para matar Washington. Simplesmente isso. Um complô que poderia ter funcionado muito bem, se não fosse por uma coisa: aquele jovem Assassino. Aquele Assassino — que poderia ou não ser meu filho — que continuava sendo um incômodo no nosso lado.

ii Primeiro foi William. Falecido. Morto no ano passado, pouco antes do começo da Guerra da Independência. Após a Festa do Chá, William começou a intermediar um negócio para compra de terra indígena. Houve, porém, muita resistência, pelo menos entre a Confederação dos Iroqueses, que se encontrou com William em sua propriedade. Pelo que sabia, as negociações tinham começado muito bem, mas, no meio do caminho, algo foi dito e as coisas tomaram uma direção errada. — Irmãos, por favor — suplicara William. — Tenho confiança de que encontraremos uma solução. Os iroqueses, porém, não estavam ouvindo. A terra era deles, argumentaram. Taparam os ouvidos à lógica apresentada por William, que era a de que, se a terra passasse para as mãos dos Templários, então poderíamos mantê-las longe das garras de qualquer que fosse a força que emergisse vitoriosa do conflito prestes a acontecer.


A dissidência efervesceu entre os membros da confederação nativa. A dúvida ficou à espreita entre eles. Alguns argumentaram que nunca poderiam competir com todo o poderio do exército britânico ou colonizador; outros achavam que entrar em um acordo com William não era uma solução melhor. Eles tinham esquecido de como os Templários haviam libertado seu povo da escravidão de Silas duas décadas antes; em vez disso, lembravam das expedições que William organizara para o interior da floresta a fim de tentar localizar o sítio precursor; as escavações na câmara que havíamos encontrado. Essas afrontas estavam frescas em suas mentes, impossíveis de serem omitidas. — Paz, paz — argumentou William. — Eu não fui sempre um defensor? Eu não procurei sempre protegê-los do mal? — Se quer nos proteger, então nos dê armas. Mosquetes e cavalos para que possamos nos defender — discorreu em resposta um membro da Confederação. — Guerra não é a solução — pressionou William. — Nós lembramos que vocês avançaram as fronteiras. Ainda hoje, seus homens cavam a terra... sem mostrar qualquer respeito pelos que vivem nela. Suas palavras são doces como o mel, mas falsas. Não estamos aqui para negociar. Nem para vender. Estamos aqui para dizer a você e aos seus que deixem estas terras. Lamentavelmente, William recorreu à força para fazer valer seu ponto vista, e um nativo foi baleado, com a ameaça de mais mortes no futuro, a menos que a Confederação assinasse o contrato. Para seu crédito, os homens disseram não; recusaram-se a se curvar diante da demonstração de força por parte de William. Que amarga vindicação deve ter sido, quando seus homens começaram a cair com balas de mosquetes em seus crânios. Então o garoto apareceu. Fiz o homem de William descrevê-lo para mim em detalhes, e o que ele disse combinou exatamente com o que Benjamin dissera sobre o encontro em Martha’s Vineyard, e o que Charles, William e John tinham visto no porto de Boston. Ele usava o mesmo colar, o mesmo manto de Assassino. Era o mesmo garoto. — Esse garoto, o que ele disse a William? — perguntei ao soldado que estava diante de mim. — Ele disse que planejava garantir um fim aos planos do Sr. Johnson, impedir que ele reivindique essas terras para os Templários. — William respondeu? — Sim, senhor, ele disse ao seu matador que os Templários haviam tentado reivindicar a terra para proteger os índios. Disse ao garoto que nem o rei Jorge nem os colonizadores se importavam o suficiente para proteger os interesses do iroqueses. Revirei os olhos. — Não era um argumento especialmente convincente, tendo em vista que ele estava no processo de massacrar os nativos quando o garoto atacou. O soldado baixou a cabeça. — Possivelmente não, senhor.


iii Se fui um pouco filosófico demais quando se tratou da morte de William, bem, houve fatores extenuantes. William, ainda que dedicado e diligente em seu trabalho, nunca foi a pessoa mais bemhumorada e, diante de uma situação que exigia diplomacia com força, cometeu um erro crasso nas negociações. Embora me doa dizer isso, ele arquitetou sua própria queda, e receio que eu nunca tenha sido alguém que tolerasse a incompetência: nem quando jovem, quando supunha que era algo que herdara de Reginald; e agora, tendo passado meu aniversário de 50 anos, muito menos ainda. William fora um maldito de um idiota e pagou por isso com a vida. Igualmente, o projeto para garantir a terra nativa, se bem que importante para nós, não era mais nossa principal prioridade; não o era desde o eclodir da guerra. Nossa principal tarefa agora era assumir o controle do exército e, tendo fracassado pelos meios limpos, recorreríamos aos sujos — assassinando Washington. Contudo, aquele plano sofreu um golpe, quando o Assassino, a seguir, escolheu como alvo John, o nosso oficial do exército britânico, atacando-o por causa de seu trabalho de eliminar os rebeldes. Novamente, embora fosse irritante perder um homem tão valioso, isso talvez não tivesse afetado nossos planos se não fosse pelo fato de que no bolso de John havia uma carta — infelizmente, a que detalhava os planos para matar Washington, mencionando o nosso Thomas Hickey como o homem escolhido para realizar o feito. Sem demora, o jovem Assassino apressou-se para Nova York, tendo Thomas como o próximo de sua lista. Thomas estava falsificando dinheiro lá, ajudando a levantar fundos e também se preparando para o assassinato de Washington. Charles já estava lá, com o Exército Continental, portanto eu mesmo fui de modo despercebido para a cidade e aluguei uma residência temporária. Mal havia chegado e recebi a notícia: o garoto tinha alcançado Thomas, mas a dupla havia sido presa e jogada na Prisão de Bridewell. — Não pode haver mais erros, Thomas, está entendendo? — disse-lhe, quando o visitei, tremendo de frio e revoltado por causa do cheiro, da gritaria e dos ruídos da cadeia, quando, de repente, na cela ao lado, eu o vi: o Assassino. E reconheci. Ele tinha os olhos da mãe, o mesmo cabelo preto, a postura orgulhosa do queixo. Era a imagem dela. Sem dúvida, era meu filho.

iv — É ele — disse Charles, ao deixarmos juntos a prisão. Dei um sobressalto, mas ele não notou: Nova York estava congelando, nossos bafos pendendo em nuvens, e ele estava preocupado demais em se manter aquecido. — Quem? — O garoto.


Sabia exatamente o que ele queria dizer, é claro. — Que droga que você está falando, Charles? — perguntei irritado, e soprei as mãos. — Lembra que eu falei para você de um garoto que encontrei em 1760, quando os homens de Washington atacaram a aldeia indígena? — Sim, lembro. E esse é o nosso Assassino, não? O mesmo do porto de Boston? O mesmo que matou William e John? Esse é o garoto que está lá agora? — Sim, Haytham, parece que sim. Fiz a volta em torno dele. — Percebe o que significa isso, Charles? Nós criamos aquele Assassino. Dentro dele queima o ódio por todos os Templários. Ele viu você o dia em que a aldeia dele queimou, não foi? — Sim... sim, eu já tinha dito a você... — Espero que ele também tenha visto o seu anel. Espero que ele use a impressão do seu anel na própria pele durante algumas semanas após o seu encontro. Estou certo, Charles? — Sua preocupação com o garoto é comovente, Haytham. Você sempre foi um grande protetor dos nativos... As palavras congelaram em seus lábios porque, no instante seguinte, agarrei parte de sua capa e o empurrei contra a parede de pedra da prisão. Elevei-me sobre ele, e meus olhos queimaram no interior dos seus. — Minha preocupação é com a Ordem — falei. — Minha única preocupação é com a Ordem. Corrija-me se eu estiver errado, Charles, mas a Ordem não prega o massacre insensato de nativos, o incêndio de suas aldeias. Isso, devo lembrar, esteve visivelmente ausente de meus ensinamentos. Sabe por quê? Porque é o tipo de comportamento que cria... como vou descrever isso?... “má vontade” entre aqueles que esperamos convencer sobre o nosso modo de pensar. Isso causa uma apreensão indefinida no lado inimigo. Exatamente como o fez aqui. Homens estão mortos e nossos planos ameaçados por causa de seu comportamento dezesseis anos atrás. — Meu comportamento, não... Washington é... Larguei-o, dei um passo para trás e cruzei minhas mãos nas costas. — Washington vai pagar pelo que fez. Cuidaremos disso. Ele é brutal, isso está claro, e não está apto a liderar. — Concordo, Haytham, e já dei um passo para garantir que não haja mais interrupções, para matar dois coelhos com uma cajadada, por assim dizer. Olhei-o de modo penetrante. — Prossiga. — O garoto nativo vai ser enforcado por tramar a morte de George Washington e pelo assassinato do diretor da prisão. Washington estará presente, é claro... planejo garantir isso... e poderemos usar a oportunidade para matá-lo. Thomas, é claro, ficará mais do que feliz em aceitar a missão. Só falta você, o Grã-Mestre do Ritual Colonial, dar sua bênção à missão. — Está em cima da hora — aleguei, e pude perceber a dúvida em minha própria voz. Mas por


quê? Por que eu ainda me importava mais com quem vivesse ou morresse? Charles abriu os braços. — Está em cima da hora, mas às vezes são esses os melhores planos. — Realmente — concordei. — Realmente. — E então? Pensei. Com uma palavra, confirmaria a execução do meu próprio filho. Que espécie de monstro seria capaz de tal coisa? — Faça — ordenei. — Muito bem — retrucou ele, com uma súbita satisfação de encher o peito. — Então não vamos perder mais um só momento. Esta noite, faremos correr por Nova York a notícia de que um traidor da revolução encontrará seu fim.

v Para mim, é tarde demais para ter um sentimento paternal agora. O que quer que houvesse dentro de mim antes que fosse capaz de criar meu filho tinha sido corrompido ou consumido havia muito tempo. Anos de traição e massacres haviam cuidado disso.


28 de junho de 1776 i Esta manhã acordei nos meus alojamentos com um sobressalto, sentei-me com postura na cama e olhei em volta do quarto estranho. Do lado de fora da janela, as ruas de Nova York estavam agitadas. Era imaginação minha, ou tinha um peso no ar, um nervosismo nas conversas que se erguiam até minha janela? E, se havia, isso teria alguma coisa a ver com o fato de que, hoje, haveria uma execução na cidade? Hoje, eles enforcariam... Connor, era esse seu nome. O nome que Ziio lhe dera. Fiquei imaginando como as coisas poderiam ter sido diferentes se nós dois o tivéssemos trazido juntos ao mundo. Connor ainda seria seu nome? Ele ainda teria escolhido o caminho dos Assassinos? E, se a resposta a essa pergunta fosse não, ele não teria escolhido o caminho dos Assassinos porque seu pai era Templário, então no que isso me tornaria, a não ser uma abominação, um acidente, um híbrido? Um homem com lealdades divididas. Mas um homem que decidiu que não podia permitir que seu filho morresse. Não hoje. Eu me vesti, não com minhas roupas normais, mas com um manto escuro com capuz que puxei para a cabeça. Depois corri para o estábulo, localizei meu cavalo e o apressei na direção da praça da execução, passando por apinhadas ruas enlameadas, cidadãos assustados saindo correndo do meu caminho e sacudindo os punhos para mim ou observando-me com os olhos arregalados por baixo das abas dos chapéus. Estrondeei em frente, para onde as aglomerações tornavam-se mais compactas à medida que os espectadores se reuniam para assistir ao enforcamento. E, enquanto cavalgava, pensei no que estava fazendo e me dei conta de que não sabia. Tudo que sabia era como me sentia, que era como se estivesse dormindo, mas fosse acordado de repente.

ii Ali, em uma plataforma, a forca esperava a próxima vítima, enquanto uma multidão de tamanho razoável antecipava a diversão do dia. Nas laterais da praça, havia cavalos e carroças, sobre os quais as famílias subiam para ver melhor: homens de aparência covarde, mulheres baixas com rostos apreensivos, preocupados, e crianças imundas. Visitantes estavam sentados na praça, enquanto outros andavam sem destino: mulheres formando grupos para fofocar, homens bebendo cerveja ou vinho de frascos de couro. Todos estavam ali para ver meu filho ser executado. Por um dos lados, chegou uma carroça flanqueada por soldados e vi de relance Connor lá dentro,


antes de saltar dela um sorridente Thomas Hickey, que em seguida também o puxou da carroça, ao mesmo tempo que zombava dele. — Não pensou que eu perderia sua festa de despedida, pensou? Soube que Washington em pessoa estará presente. Espero que nada de mal aconteça com ele... Connor, com as mãos amarradas à frente, disparou um olhar carregado de ódio para Thomas e, mais uma vez, admirei-me com o quanto de sua mãe encontrava-se em suas feições. Mas, com o desafio e a bravura, hoje também havia... medo. — Você disse que teria um julgamento — vociferou ele, enquanto Thomas o arrastava. — Receio que traidores não tenham julgamento. Lee e Haytham acertaram isso. Para você, será direto para a forca. Gelei. Connor estava para ser morto pensando que eu assinara sua sentença de morte. — Eu não morrerei hoje — afirmou Connor com orgulho. — O mesmo não pode ser dito de você. Mas ele estava dizendo isso por cima do ombro, enquanto os guardas que tinham escoltado a carroça até a praça usavam hastes de pique para espetá-lo, forçando-o na direção do cadafalso. O ruído aumentou, enquanto a multidão se dividia ao meio e se esticava para tentar agarrá-lo, socá-lo, derrubá-lo no chão. Vi um homem, com ódio nos olhos, prestes a lhe dar um soco, mas eu estava perto o suficiente para conter o soco ao ser desferido, torcer o braço do sujeito dolorosamente para suas costas e depois jogá-lo no chão. Com olhos flamejantes, ele ergueu a vista para mim, mas, ao me ver olhando-o do meu capuz, isso o deteve, e ele se levantou e, no momento seguinte, foi engolido pela multidão agitada, rebelde. Enquanto isso, Connor tinha sido empurrado mais ainda ao longo do corredor de maus-tratos vingativos, e eu já estava longe demais para deter outro homem que subitamente arremeteu à frente e o agarrou — mas perto o bastante para ver o rosto do homem debaixo do capuz; perto o bastante para ler seus lábios. — Você não está sozinho. Basta dar um grito quando precisar. Era Achilles. Ele estava ali — ali para salvar Connor, que respondeu: — Esqueça-me... Você precisa deter Hickey. Ele está... Mas, então, foi arrastado dali, e terminei a frase na minha cabeça: ...planejando matar George Washington. Por falar no diabo. O comandante-chefe tinha chegado com uma pequena escolta. Depois que Connor foi empurrado para a plataforma e um carrasco colocou o laço em seu pescoço, a atenção da multidão voltou-se para o lado oposto da praça, onde Washington estava sendo conduzido para uma plataforma alta na parte de trás, da qual, ainda agora, os guardas expulsavam um grande ajuntamento. Charles, como major-general, também estava com ele, e isso me deu uma oportunidade de comparar os dois: Charles era bem mais alto do que Washington, embora com certa indiferença em comparação ao charme natural de Washington. Olhando-os juntos, percebi de imediato por que o Congresso Continental havia escolhido Washington em vez dele. Charles parecia tão britânico.


Em seguida, Charles deixara Washington e, com dois guardas, atravessou a praça, abrindo a golpes caminho pela multidão, então subiu os degraus do cadafalso, de onde se dirigiu à multidão, que pressionava adiante. Eu me descobri pressionado entre corpos, fedendo a cerveja e suor, usando os cotovelos para tentar e conseguir espaço no meio da multidão. — Irmãos, irmãs, companheiros patriotas — começou Charles, e um silêncio impaciente baixou sobre a multidão. — Vários dias atrás, descobrimos uma trama tão vil, tão covarde que só de repetila agora perturba meu ser. O homem diante de vocês planejou matar nosso muito amado general. A multidão arfou. — Exatamente — rugiu Charles, aquecendo o assunto. — Que perversidade ou loucura o motivou, ninguém sabe. E ele mesmo não apresenta defesa. Não mostra remorso. E, embora tenhamos pedido e suplicado que compartilhasse o que sabe, ele se mantém em silêncio mortal. Nisso, o carrasco adiantou-se e colocou um saco de estopa na cabeça de Connor. — Se o homem não se explicar... se não confessar e expiar... que outra opção existe a não ser esta? Ele tentou nos enviar para os braços do inimigo. Desse modo, somos forçados pela justiça a enviá-lo para longe deste mundo. Que Deus tenha piedade de sua alma. Agora que ele tinha acabado, olhei em volta, tentando localizar mais homens de Achilles. Se aquilo se tratava de uma missão de salvamento, então estava na hora, não? Mas onde estavam eles? Que droga estavam planejando? Um arqueiro. Deviam estar usando um arqueiro. Não era o ideal: uma flecha não conseguiria cortar a corda completamente, o melhor que os salvadores poderiam esperar era que ela cortasse fibras suficientes para que o peso de Connor a rompesse. Mas teria de ser precisa. Teria de ser disparada de... Longe. Girei para checar os prédios atrás de mim. De fato, no local que eu teria escolhido, havia um arqueiro, parado no batente de uma janela alta. Enquanto eu observava, ele puxou a corda do arco e mirou ao longo da linha da flecha. Então, no momento em que o alçapão se abriu com um estalo e o corpo de Connor caiu, ele disparou. A flecha riscou acima de nós, embora eu fosse o único ciente dela, e disparei meu olhar para a plataforma a tempo de vê-la talhar a corda e enfraquecê-la — é claro —, mas não o bastante para cortá-la. Corri o risco de ser visto e descoberto, mas fiz o que fiz de qualquer maneira, por impulso, por instinto. Puxei a adaga de dentro do manto e joguei-a, observei-a viajar pelo ar e agradeci a Deus quando ela cortou a corda e completou o serviço. Quando o corpo estremecido e — graças a Deus — ainda muito vivo de Connor caiu pelo alçapão, ergueu-se um arfar à minha volta. Por um momento, me vi em um espaço cerca de um braço de distância por toda a minha volta, enquanto a multidão se afastava, em choque, de mim. Ao mesmo tempo, avistei Achilles mergulhando por baixo do cadafalso onde o corpo de Connor havia caído. Em seguida, eu estava lutando para escapar, quando a calmaria então em choque foi substituída por um urro vingativo, chutes e socos foram mirados em mim e guardas começaram a abrir caminho à


força pela multidão na minha direção. Soltei a lâmina e cortei um ou dois espectadores — o suficiente para tirar sangue e fazer com que outros agressores parassem para pensar. Mais tímidos, agora, eles finalmente abriram espaço à minha volta. Corri para fora da praça e voltei para o meu cavalo, com as vaias da multidão enfurecida ressoando nos meus ouvidos.

iii — Ele pegou Thomas antes que conseguisse alcançar Washington — informou desanimadamente Charles mais tarde, quando estávamos sentados nas sombras da taberna Restless Ghost, para comentar os acontecimentos do dia. Estava agitado e olhava constantemente por cima do ombro. Ele parecia como eu me sentia, e quase invejei sua liberdade de expressar seus sentimentos. Quanto a mim, tinha de manter minha confusão escondida. E que confusão: Eu tinha salvado a vida do meu filho, mas efetivamente sabotara o trabalho de minha própria Ordem — uma operação que eu mesmo decretei. Eu era um traidor. Tinha traído meu povo. — O que aconteceu? — perguntei. Connor havia alcançado Thomas e, antes de matá-lo, exigira respostas para algumas perguntas. Por que William tentara comprar a terra de seu povo? Por que estávamos tentando matar Washington? Assenti. Dei um gole na minha cerveja. — O que Thomas respondeu? — Ele disse que, aquilo que Connor procurava, ele jamais encontraria. Charles olhou-me, os olhos arregalados e fatigados. — E agora, Haytham? E agora?


7 de janeiro de 1778 (quase dois anos depois) i Charles começara a ficar ressentido com Washington, e o fato de nossa tentativa de assassinato ter fracassado somente aumentou sua ira. Ele tomou como uma afronta pessoal que Washington tivesse sobrevivido — como ousa? —, portanto, nunca o perdoou por isso. Logo depois, Nova York caiu sob o poder dos ingleses, e Washington, que quase foi capturado, levou a culpa, não somente por parte de Charles, que ficou excepcionalmente decepcionado pela subsequente incursão do general através do rio Delaware, apesar de o fato de sua vitória na Batalha de Trenton ter renovado a confiança na revolução. Para Charles, era mais vantajoso que Washington continuasse perdendo a Batalha de Brandywine e, consequentemente, a Filadélfia. O ataque de Washington aos ingleses em Germantown tinha sido uma catástrofe. E agora era o Vale Forge. Após vencer a batalha de White Marsh, Washington havia levado suas tropas para o que ele esperava que fosse um local mais seguro para o novo ano. O Vale Forge, na Pensilvânia, foi o terreno alto que ele escolheu: vinte mil colonizadores, tão pessimamente equipados e exaustos que os homens descalços deixaram uma trilha de pegadas sangrentas quando marcharam para montar acampamento e se preparar para o inverno que chegava. Estavam em um matadouro. O fornecimento de comida e roupa era dolorosamente insuficiente, enquanto cavalos eram dominados pela fome ou morriam a seus pés. Tifo, icterícia, disenteria e pneumonia se espalhavam incontrolavelmente pelo acampamento e matavam milhares. O moral e a disciplina eram tão baixos que praticamente não existiam. Ainda assim, a despeito da perda de Nova York e da Filadélfia e da longa, lenta, congelante morte de seu exército em Vale Forge, Washington tinha seu anjo da guarda: Connor. E este, com a convicção da juventude, acreditava em Washington. Nenhuma palavra minha teria possibilidade de convencê-lo do contrário, isso era certo; nada que eu pudesse dizer o convenceria de que Washington era de fato responsável pela morte de sua mãe. Na mente dele, os Templários eram os responsáveis — e quem poderia censurá-lo por ter chegado a essa conclusão? Afinal, ele viu Charles lá, naquele dia. E não apenas Charles, mas William, Thomas e Benjamin. Ah, Benjamin. Meu outro problema. Ele tinha sido, naqueles últimos anos, uma desgraça para a Ordem, para dizer o mínimo. Após tentar vender informações aos ingleses, fora levado diante de uma corte de averiguações em 1775, chefiada por ninguém menos importante do que o próprio George Washington. Na ocasião, Benjamin era, como havia previsto todos aqueles anos atrás, o médicochefe e diretor geral do serviço médico do Exército Continental. Ele foi condenado por se “comunicar com o inimigo” e preso, e, para todos os efeitos e propósitos, permaneceu assim até o


início deste ano quando foi solto — e imediatamente desapareceu. Se ele havia desistido dos ideais da Ordem, exatamente como fizera Braddock anos antes, eu não sabia. O que sabia era que provavelmente ele era a pessoa por trás do roubo de suprimentos com destino a Vale Forge, o que, é claro, estava piorando a situação para as pobres almas acampadas lá; que ele abandonou os objetivos da Ordem em favor de lucro pessoal; e que precisava ser detido — uma missão que abracei, começando nos arredores de Vale Forge e cavalgando através do gelado agreste da Filadélfia coberto de neve até chegar à igreja onde Benjamin havia montado acampamento.

ii Uma igreja abandonada. Não apenas por sua antiga congregação, mas pelos homens de Benjamin. Dias atrás, eles tinham estado ali, mas agora — nada. Nada de suprimentos, nada de homens, apenas restos de fogueiras, já frios, e áreas irregulares de lama e solo sem neve onde tendas haviam sido armadas. Amarrei meu cavalo nos fundos da igreja e fui para seu interior, onde tinha, assim como lá fora, apenas um frio entorpecente e de congelar os ossos. Ao longo dos corredores, havia restos de mais fogueiras e, perto da porta, uma pilha de madeira, a qual, ao inspecionar mais de perto, notei que eram bancos da igreja que tinham sido cortados. A reverência é a primeira vítima do frio. Os bancos restantes estavam em duas filas de ambos os lados da igreja, diante de um púlpito imponente, mas há muito sem uso, e o pó flutuava e dançava em largos feixes de luz projetados através de vidraças encardidas no alto das grandiosas paredes de pedra. Espalhados pelo áspero chão de pedra, havia vários caixotes de cabeça para baixo e restos de fardos, e, por alguns momentos, caminhei por ali, parando ocasionalmente para desvirar um caixote na esperança de que pudesse encontrar alguma pista de onde Benjamin tinha ido. Então, um ruído — passos vindos da entrada —, e gelei antes de disparar para trás do púlpito, no momento em que as enormes portas de carvalho rangeram lentamente e, de modo assustador, se abriram, e uma figura entrou: uma que poderia ter seguido exatamente meus passos, pelo modo como percorreu o chão da igreja, como eu o fizera, desvirando e investigando caixotes e até mesmo xingando baixinho, como eu. Era Connor. Olhei-o do meio das sombras atrás do púlpito. Ele usava seu manto de Assassino e tinha um olhar intenso, e observei-o por um momento. Era como se eu estivesse olhando para mim mesmo — uma versão mais jovem minha, como um Assassino, o caminho que eu teria seguido, o caminho para o qual estava sendo preparado para tomar, e o teria tomado, se não tivesse sido pela traição de Reginald Birch. Observando Connor, o que senti foi uma violenta mistura de emoções; entre elas, arrependimento, amargura, até mesmo inveja. Aproximei-me. Vejamos o quanto ele é realmente um bom Assassino.


Ou, colocando em outros termos, vejamos se eu ainda tinha esse talento.

iii E eu ainda tinha. — Pai — disse ele, depois que o derrubei e coloquei a lâmina em seu pescoço. — Connor — falei sarcasticamente. — Suas últimas palavras? — Espere. — Péssima escolha. Ele se debateu e seus olhos se incendiaram. — Veio checar Church, não é mesmo? Ver se ele roubou o suficiente para os seus irmãos ingleses? — Benjamin Church não é meu irmão — rebati com impaciência. — Não mais do que os casacos vermelhos e o rei idiota deles. Eu esperava algo ingênuo. Mas isso... Os Templários não lutam pela Coroa. Buscamos o mesmo que você, rapaz. Liberdade. Justiça. Independência. — Mas... — Mas o quê? — perguntei. — Johnson. Pitcairn. Hickey. Eles tentaram roubar terras. Saquear cidades. Assassinar George Washington. Suspirei. — Johnson quis possuir a terra para que pudéssemos mantê-la segura. Pitcairn visava incentivar a diplomacia... que você estragou de tal forma que foi o suficiente para iniciar uma maldita guerra. E Hickey? George Washington é um coitado de um líder. Ele perdeu quase todas as batalhas de que tomou parte. O homem está arruinado pela incerteza e pela insegurança. Dê uma olhada no Vale Forge e verá que minhas palavras são verdadeiras. Estaríamos muito melhor sem ele. Pude perceber que o que eu dizia causava um efeito nele. — Olhe... Por mais que adorasse me bater com você, a língua de Benjamin Church é tão grande quanto seu ego. Você, claramente, quer as mercadorias que ele roubou; eu quero que ele seja castigado. Nossos interesses são parecidos. — O que você propõe? — perguntou cautelosamente. O que eu propunha?, pensei. Vi seus olhos irem para o amuleto no meu pescoço, e os meus, por sua vez, foram para o colar que ele usava. Sem dúvida, sua mãe havia lhe falado sobre o amuleto; sem dúvida iria querer tirá-lo de mim. Por outro lado, os emblemas que usávamos em nossos pescoços, ambos eram lembranças dela. — Uma trégua — falei. — Talvez... talvez algum tempo juntos nos faça bem. Afinal de contas, você é meu filho, e talvez ainda possa ser salvo de sua ignorância. Houve uma pausa.


— Ou posso matar você agora, se preferir — sugeri com uma gargalhada. — Sabe aonde Church foi? — indagou ele. — Receio que não. Esperava emboscá-lo, quando ele ou um de seus homens voltasse aqui. Mas parece que cheguei tarde demais. Já vieram e limparam o local. — Talvez eu consiga rastreá-lo — disse ele, com um estranho tom arrogante na voz. Recuei e fiquei observando, enquanto ele me fazia uma ostensiva demonstração do treinamento de Achilles, apontando marcas no chão da igreja onde os caixotes haviam sido arrastados. — A carga era pesada — anunciou. — Provavelmente foi colocada em uma carroça para transporte... Havia rações dentro dos caixotes... e também suprimentos médicos e roupas. Do lado de fora da igreja, Connor gesticulou para uma parte da neve remexida. — Havia uma carroça aqui... levada lentamente sob o peso, ao ser carregada com os suprimentos. A neve ocultou os rastros, mas restou o suficiente para que ainda possamos seguir. Vamos... Peguei meu cavalo, juntei-me a ele e, juntos, cavalgamos, Connor indicando a linha dos rastros, enquanto tentava evitar que minha admiração transparecesse. Não era a primeira vez que me via impressionado pelas semelhanças em nosso conhecimento, e notei que ele fazia exatamente o que eu teria feito na mesma situação. Cerca de 25 quilômetros após o acampamento, ele girou na sela e me deu um olhar triunfante, ao mesmo tempo que indicava a trilha adiante. Havia uma carroça avariada, seu condutor tentava consertar a roda e murmurava, enquanto nos aproximávamos: — Que azar... Vou morrer congelado se não consertar isso... Surpreso, ele ergueu a vista, à nossa chegada, e seus olhos arregalaram-se de medo. Seu mosquete não se encontrava muito distante, mas estava longe demais para que ele o alcançasse. Instantaneamente, eu soube — exatamente quando Connor perguntou com arrogância “Você é homem de Benjamin Church?”— que ele ia fugir e, de fato, fugiu. Apavorado, se levantou e partiu para o meio das árvores, seguindo com dificuldade pela neve, com uma marcante corrida penosa, tão desajeitada quanto a de um elefante ferido. — Muito bem — sorri, e Connor lançou-me um olhar irritado, saltou da sela e mergulhou pelo limite das árvores atrás do condutor da carroça. Deixei-o ir, em seguida suspirei e desci do meu cavalo, chequei minha lâmina e ouvi a agitação no meio do mato, enquanto Connor capturava o homem. Então entrei na floresta para me juntar a eles. — Não foi inteligente sair correndo — dizia Connor. Ele tinha o condutor preso contra uma árvore. — O q-que você quer? — conseguiu indagar o infeliz. — Onde está Benjamin Church? — Não sei. Estávamos seguindo para um acampamento ao norte daqui. É onde normalmente descarregamos. Talvez o encontre por... Seus olhos dispararam para mim, como se procurasse ajuda, então saquei a pistola e atirei nele. — Já chega — falei. — É melhor seguirmos caminho. — Não precisava tê-lo matado — alegou Connor, limpando do rosto o sangue do homem.


— Nós sabemos onde fica o acampamento — rebati. — Ele teve sua serventia. Ao retornarmos aos nossos cavalos, fiquei imaginando como pareceria para ele. O que estava tentando lhe ensinar? Queria que ele fosse tão frágil e cansado quanto eu? Estaria tentando lhe mostrar aonde o caminho levava? Perdido em pensamentos, cavalgamos na direção do local do acampamento e, assim que avistamos a denunciadora fumaça pairando sobre as árvores, desmontamos, amarramos os cavalos e continuamos a pé, passando sorrateira e silenciosamente por entre as árvores. Ficamos nas árvores, rastejando e usando minha luneta para olhar entre troncos e galhos desfolhados para homens distantes que andavam pelo acampamento e se reuniam em torno de fogueiras, tentando se manter aquecidos. Connor partiu, para seguir caminho até o acampamento, enquanto eu me punha à vontade, fora de vista. Ou pelo menos achava isso — achava que estava fora de vista — até sentir a cócega de um mosquete no meu pescoço e as palavras: — Ora, ora, ora, o que temos aqui? Praguejando, fui colocado de pé. Havia três deles, todos parecendo muito felizes consigo mesmos por terem me capturado — e com razão, porque não era fácil alguém se aproximar sorrateiramente de mim. Dez anos antes, os teria ouvido e me esgueirado silenciosamente para longe. Dez anos antes disso, os teria ouvido se aproximar, teria me escondido e apanhado todos de surpresa. Dois mantiveram os mosquetes apontados para mim, enquanto um deles avançava, lambendo os lábios nervosamente. Fazendo um ruído, como se estivesse impressionado, ele soltou minha lâmina oculta, depois tomou a espada, a adaga e a pistola. E somente quando eu estava desarmado, ele ousou relaxar, sorrindo para revelar um pequeno horizonte de dentes enegrecidos e podres. Eu tinha uma arma escondida, é claro: Connor. Mas em que merda de lugar ele tinha se metido? Dente Podre deu um passo à frente. Graças a Deus, ele era tão ruim em esconder suas intenções que consegui torcer o corpo e desviar o joelho que ele impelia contra a minha virilha, apenas o suficiente para evitar uma dor forte, mas para fazê-lo pensar o contrário, e urrei, fingindo que doía e caí sobre o chão congelado, onde permaneci temporariamente, parecendo mais aturdido do que me sentia e ganhando tempo. — Deve ser um espião ianque — arriscou um dos outros homens. Inclinou o mosquete para se curvar e olhar para mim. — Não. É algo mais — disse o primeiro, e ele também se curvou para mim, enquanto me levantava e ficava de quatro. — É algo especial. Não é mesmo... Haytham? Church me contou tudo sobre você — informou o capataz. — Então não deveriam ter feito isso — alertei. — Você não está em posição de fazer ameaças — rugiu Dente Podre. — Ainda não — falei calmamente. — É mesmo? — rebateu Dente Podre. — E se provarmos o contrário? Já levou uma coronhada de mosquete nos dentes?


— Não, mas parece que você pode me dizer como é. — O quê? Está querendo bancar o engraçadinho? Meus olhos viajaram acima — para os galhos de uma árvore atrás deles, onde avistei Connor agachado, sua lâmina oculta estendida e o dedo sobre os lábios. Claro que era um especialista com árvores, o que, sem dúvida, aprendeu com a mãe. Ela também havia me mostrado os melhores pontos de subida. Ninguém era capaz de se movimentar pelas árvores como ela. Ergui a vista para Dente Podre, sabendo que ele tinha meros segundos de vida para viver. Isso amenizou a ferroada de sua bota, ao se chocar com meu queixo, e fui erguido e enviado voando para trás, caindo sobre um amontoado em uma moita. Talvez agora seja um bom momento, Connor, pensei. Através do olhar vitrificado pela dor, fui recompensado vendo Connor saltar de sua posição, a mão com a lâmina disparar adiante e em seguida seu aço prateado surgir do interior da boca do primeiro guarda desafortunado. Os outros dois estavam mortos no instante em que me levantei. — Nova York — disse Connor. — Como assim? — É onde Benjamin está. — Então é onde precisamos estar.


26 de janeiro de 1778 i Nova York havia mudado desde minha última visita, para dizer o mínimo: tinha pegado fogo. O grande incêndio de setembro de 1776 começou na taberna Fighting Cocks, destruíra mais de quinhentas casas e deixara um quarto da cidade queimado e inabitável. Como resultado, os ingleses haviam colocado a cidade sob lei marcial. As casas das pessoas tinham sido tomadas e entregues a oficiais do Exército britânico; as igrejas haviam sido transformadas em prisões, casernas ou enfermarias; e era como se o próprio espírito da cidade tivesse de alguma forma obscurecido. Agora era a bandeira da União que pendia flácida dos mastros nos cumes dos prédios de tijolos cor de laranja. E onde, antes, a cidade tinha uma energia e se agitava em torno disso — vida embaixo de suas abóbadas e seus pórticos e atrás de suas janelas —, agora aquelas mesmas abóbadas estavam sujas e despedaçadas, e as janelas, enegrecidas pela fuligem. A vida prosseguia, mas os habitantes mal erguiam a vista da rua. Seus ombros estavam caídos, seus movimentos desanimados. Em um clima desses, encontrar o paradeiro de Benjamin não fora difícil. Revelou-se que estava em uma cervejaria abandonada na zona portuária. — Ao amanhecer, já deveremos ter terminado isso — previ, um tanto quanto temerariamente. — Ótimo — reagiu Connor. — Gostaria de ter a devolução daqueles suprimentos o quanto antes. — Claro. Não gostaria de mantê-lo muito tempo longe de sua causa perdida. Venha então, sigame. Fomos pelos telhados e, momentos depois, olhávamos a silhueta de Nova York, momentaneamente pasmados com aquela vista, em toda a sua despedaçada glória ferida pela guerra. — Diga-me uma coisa — pediu Connor, após alguns momentos. — Você poderia ter me matado, na primeira vez em que nos encontramos... O que deteve sua mão? Eu poderia tê-lo deixado morrer na forca, pensei. Poderia ter mandado Thomas matá-lo na Prisão de Bridwell. O que também conteve minha mão nessas duas ocasiões? Qual era a resposta? Estava ficando velho? Sentimental? Talvez tivesse nostalgia de uma vida que nunca tive realmente. Eu não me importava especialmente em compartilhar nada disso com Connor, contudo e, finalmente, após uma pausa, descartei a pergunta com: — Curiosidade. Alguma outra pergunta? — O que os Templários buscam? — Ordem — respondi. — Propósito. Direção. Nada mais do que isso. É o seu pessoal que pretende nos confundir com toda essa conversa sem sentido sobre liberdade. Era uma vez, os Assassinos professavam um objetivo mais sensato... o da paz. — Liberdade é paz — insistiu ele.


— Não. É um convite ao caos. Olhe apenas essa pequena revolução que seus amigos iniciaram. Estive diante do Congresso Continental. Eu os ouvi bater os pés e berrar. Tudo em nome da liberdade. Mas é apenas um ruído. — É por isso que é a favor de Charles Lee? — Ele entende as necessidades desta pretensa nação muito melhor do que os idiotas que afirmam representá-la. — A mim parece que sua língua provou uvas azedas — observou ele. — As pessoas fizeram sua escolha... e ela foi Washington. Lá estava novamente. Eu quase o invejava, o modo como ele via o mundo de uma maneira tão inequívoca. O mundo dele, ao que parecia, era livre de dúvida. Quando, finalmente, soubesse a verdade sobre Washington, o que, se meu plano funcionasse, seria em breve, seu mundo — e não apenas seu mundo, mas sua inteira visão de mundo — se despedaçaria. Se eu agora lhe invejava a certeza, não invejava aquilo. — As pessoas não escolheram nada — suspirei. — Isso foi feito por um grupo de covardes privilegiados buscando apenas se enriquecer. Eles se reuniram secretamente e tomaram uma decisão que os beneficiaria. Podem ter embrulhado tudo com belas palavras, mas isso não faz com que seja verdade. A única diferença, Connor... a única diferença entre mim e aqueles que você ajuda... é que não finjo simpatia. Ele me olhou. Não muito tempo atrás, disse a mim mesmo que minhas palavras nunca teriam efeito sobre ele, mas, mesmo assim, eu estava tentando. E talvez estivesse enganado — talvez o que disse estivesse sendo absorvido.

ii Na cervejaria, ficou evidente que precisávamos de um disfarce para Connor, pois seu manto de Assassino estava um pouco, é, chamativo. Ter um disfarce deu a ele uma chance de exibir seus talentos novamente e, mais uma vez, fui comedido com meu elogio. Quando estávamos com roupas adequadas, saímos em direção ao complexo, as paredes de tijolos vermelhos assomando sobre nós, as janelas escuras olhando-nos implacavelmente. Pelo portão, pude ver os barris e as carroças do empreendimento cervejeiro, como também homens caminhando de um lado para o outro. Benjamin havia substituído a maioria dos Templários por mercenários sob seu controle; era a história se repetindo, pensei, minha mente recuando para Edward Braddock. De algum modo, duvidava disso. Eu tinha pouca fé no caráter do meu inimigo naqueles dias. Tinha pouca fé em qualquer coisa naqueles dias. — Parem, estranhos! — Um guarda saiu das sombras, agitando a neblina que girava em volta de nossos calcanhares. — Estão pisando em propriedade privada. O que os traz aqui? Bati na aba do chapéu, para mostrar meu rosto.


— O Pai da Compreensão nos guia — falei, e o homem pareceu descontrair, embora olhasse cautelosamente para Connor. — Você eu identifico — disse ele —, mas não o selvagem. — Ele é meu filho — expliquei, e foi... estranho ouvir isso nos meus próprios lábios. O guarda, enquanto isso, estudava Connor cuidadosamente, e, com um olhar de lado, me disse: — Andou provando os frutos da floresta, hein? Deixei-o viver. Por enquanto. Em vez disso, apenas sorri. — Vão então — disse ele, e passamos por baixo do portão arqueado e adentramos no complexo da Smith & Company. Ali, entramos rapidamente em um setor coberto, com uma série de portas que levavam a depósitos e área de escritórios. Logo comecei a tentar arrombar a fechadura da primeira porta a que chegamos, enquanto Connor vigiava e falava ao mesmo tempo. — Deve ser estranho para você descobrir que eu existia da maneira como descobriu — comentou. — Na verdade, estou curioso para saber o que sua mãe disse de mim — retruquei, trabalhando para abrir a fechadura. — Com frequência imaginei como a vida teria sido se ela e eu tivéssemos ficado juntos. — Agindo por instinto, perguntei-lhe: — Como está ela, afinal? — Morta — disse ele. — Assassinada. Por Washington, pensei, mas nada disse, exceto: — Sinto muito em ouvir isso. — É mesmo? Foi feito pelos seus homens. Agora já tinha aberto a porta, mas, em vez de entrar, fechei-a e virei o rosto para Connor. — O quê? — Eu era apenas uma criança, quando eles foram à procura dos anciãos. Mesmo naquela época, sabia que eram perigosos, por isso, fiquei calado. Charles Lee me agrediu por causa disso, até que eu ficasse inconsciente. Então eu estava certo. Charles tinha de fato deixado a marca física como também metafórica do seu anel Templário em Connor. Não foi difícil deixar o horror transparecer em meu rosto, embora eu fingisse estar chocado, quando ele continuou: — Quando acordei, encontrei minha aldeia em chamas. Seus homens já tinham sumido, como também qualquer esperança de que minha mãe tivesse sobrevivido. Agora — agora era o momento de tentar convencê-lo da verdade. — Impossível — exclamei. — Eu não dei tal ordem. Aliás, falei o contrário... disse a eles que desistissem de procurar o sítio precursor. Deveríamos nos concentrar em atividades mais práticas... Connor pareceu duvidoso, mas deu de ombros. — Não importa. Já faz muito tempo. Ah, mas importava, importava sim.


— Mas você cresceu e passou toda a vida acreditando que eu... seu próprio pai... fui responsável por essa atrocidade. Eu não tive nada a ver com isso. — Talvez você fale a verdade. Talvez não. Como vou saber?

iii Silenciosamente, entramos nos depósitos, onde barris empilhados pareciam expulsar qualquer luz e, não muito distante, havia uma figura de costas para nós. O único som era o suave arranhar que ele fazia ao escrever em um livro-caixa que segurava. Eu o reconheci imediatamente, é claro, e inspirei bem fundo, antes de chamá-lo. — Benjamin Church — anunciei —, você é acusado de trair a Ordem dos Templários e abandonar nossos princípios na procura de ganho pessoal. Por causa de seus crimes, eu o sentencio à morte. Benjamin se virou. Só que não era Benjamin. Era uma isca — que subitamente gritou “Agora, agora!”, e o local se encheu de homens que surgiram correndo de esconderijos em nossa direção, portando pistolas e espadas. — Chegaram tarde demais — disse a isca. — Church e a carga já estão longe. E receio que vocês não ficarão em condições de segui-los. Ficamos parados, os homens reunidos à nossa frente, e agradeci a Deus por Achilles e seu treinamento, porque nós dois estávamos pensando a mesma coisa. Que era: quando enfrentar uma força superior, arranque dela o elemento surpresa. E ainda: transforme a defesa em ataque. E foi o que fizemos. Atacamos. Com um rápido olhar de relance de um para o outro, liberamos nossas lâminas, ambas saltaram à frente, ambas se enfiaram no guarda mais próximo, cujos gritos ecoaram em volta das paredes de tijolos do depósito. Dei um chute e mandei um dos pistoleiros escorregando de volta e batendo a cabeça contra um caixote. Em seguida estava em cima dele, meus joelhos sobre seu peito, enfiando a lâmina através do rosto e para dentro do cérebro. Virei a tempo de ver Connor girar, mantendo-se abaixado e, ao mesmo tempo, circundar a mão com a lâmina e abrir as barrigas de dois guardas desafortunados, que caíram, segurando as barrigas abertas, ambos já mortos embora ainda não soubessem. Um mosquete foi disparado, ouvi o canto no ar, e percebi que a bala acabara de me errar, mas fiz o atirador pagar com a vida. Dois homens vieram na minha direção, balançando-se loucamente e, ao derrubá-los, agradeci às nossas estrelas da sorte por Benjamin usar mercenários em vez de Templários, os quais não teriam sido tão rapidamente derrotados. E assim foi, uma luta breve e brutal até sobrar apenas a isca, e Connor assomar sobre ele, que tremia como uma criança medrosa sobre o chão de tijolos agora escorregadio com o sangue. Liquidei uns moribundos e depois fui na direção de Connor, que exigia: — Onde está Church?


— Eu digo — choramingou a isca —, digo o que quiser. Apenas prometa me deixar vivo. Connor olhou para mim, para ver se concordávamos ou não, e ajudou-o a ficar de pé. Com um olhar nervoso de um para outro de nós, a isca continuou: — Ele partiu ontem para a Martinica. Comprou passagem em uma chalupa mercante chamada Welcome. Metade de seu porão está carregado com suprimentos que ele roubou dos patriotas. É tudo que eu sei. Juro. Indo para trás dele, enfiei minha lâmina em sua medula espinhal e ele olhou com pálido espanto a ponta suja de sangue emergir de seu peito. — Você prometeu... — disse ele. — E ele cumpriu com sua palavra — falei friamente, e olhei para Connor, quase desafiando-o a me contradizer. — Vamos — acrescentei, no momento em que um trio de atiradores correram no balcão acima de nós com um ressoar de botas sobre a madeira, apoiaram a coronha do mosquete no ombro e abriram fogo. Não contra nós, mas para barris próximos, os quais, tarde demais, percebi que estavam cheios de pólvora. Tive tempo apenas de empurrar Connor para trás de alguns tonéis de cerveja, quando o primeiro dos barris voou, seguido pelos que estavam à sua volta, cada qual explodindo com um trovejar ensurdecedor que parecia dobrar o ar e parar o tempo — uma detonação tão violenta que, quando abri os olhos e tirei as mãos dos ouvidos, descobri, para minha surpresa, que o depósito continuava de pé em volta de nós. Cada homem no local havia se lançado no chão ou fora jogado ali pela força da explosão. Mas os guardas estavam se erguendo, alcançando seus mosquetes e, ainda surdos, gritando uns para os outros, enquanto espremiam os olhos à nossa procura através da poeira. Chamas lambiam os barris; caixotes pegavam fogo. Não muito distante, um guarda corria pelo térreo do depósito, com as roupas e o cabelo incendiados, berrando, o rosto se desfazendo, então caiu de joelhos e morreu com a cara no chão de pedra. O fogo voraz encontrou ali perto algum enchimento de caixote, que se incendiou em um instante. Por toda a nossa volta, um inferno. Balas de mosquetes começaram a zunir em volta de nós. Derrubamos dois espadachins em nosso caminho para a escada que levava ao pórtico, em seguida golpeamos nosso caminho por entre um pelotão de quatro mosqueteiros. O fogo erguia-se rapidamente — agora até mesmo os guardas começavam a fugir —, então corremos para o nível seguinte, subindo, subindo, até, finalmente, chegarmos ao sótão do depósito da cervejaria. Nossos agressores estavam atrás de nós, mas não as chamas. Encontrando uma janela, pudemos ver água abaixo de nós, e olhei em volta por uma saída. Connor me agarrou e me impulsionou na direção da janela. Estraçalhamos o vidro e caímos na água lá embaixo antes mesmo que eu tivesse uma chance de protestar.


7 de março de 1778 i Não havia hipótese de que eu deixasse Benjamin escapar. Mesmo tendo de tolerar a vida no Aquila por quase um mês, preso com Robert Faulkner, capitão do navio e amigo de Connor, entre outros, caçando a chalupa de Benjamin, que permanecera fora de nosso alcance, desviando-se de ataques com canhão, captando vislumbres dele no convés do navio, seu rosto escarnecedor... De modo algum ia deixá-lo escapar. Principalmente ao chegarmos tão perto, nas águas próximas ao Golfo do México, o Aquila finalmente correndo lado a lado da escuna. E foi por isso que tomei o leme de Connor, desloquei-o violentamente para estibordo e joguei o navio velozmente na direção da chalupa. Ninguém esperava que isso acontecesse. Nem mesmo a tripulação do navio dele. Nem os homens do Aquila, nem Connor ou Robert — apenas eu; e não tinha certeza se faria aquilo até fazer, e qualquer membro da tripulação que não estava se segurando em alguma coisa foi jogado violentamente para o lado, e a proa do Aquila enfiou-se em um ângulo do lado bombordo da chalupa, arrombando e lascando o casco. Talvez tivesse sido irrefletido da minha parte. Talvez eu devesse a Connor — e certamente a Faulkner — uma desculpa pelo dano causado ao navio deles. Mas não podia deixá-lo escapar.

ii Por um momento, houve um silêncio atordoado, apenas o som dos destroços do navio batendo contra o mar em volta, e o gemido e o rangido de madeira quebrada e destruída. As velas balançavam acima de nós em uma brisa suave, mas nenhum dos dois navios se mexia, como se ambos estivessem imobilizados pelo choque do impacto. Então, do mesmo modo repentino, um grito surgiu quando a tripulação de ambos os navios recuperou os sentidos. Eu estava diante de Connor e já disparava para a proa do Aquila, tomando impulso para o convés da escuna de Benjamin, onde caí sobre o chão de madeira do convés, com a lâmina estendida, e matei o primeiro tripulante que levantou uma arma na minha direção, perfurandoo e sacudindo seu corpo contorcido borda fora. Avistando a escotilha, corri para lá, arrastei para fora um marinheiro que tentava escapar e enfiei a lâmina em seu peito antes de descer os degraus e, com um último olhar para a devastação que eu causara, enquanto os dois grandes navios se prendiam e começavam lentamente a girar no mar, fechei com força a escotilha atrás de mim.


De cima, vinha o ribombar de pés sobre o convés, os gritos emudecidos e as detonações da batalha e baque surdo de corpos atingindo a madeira. Abaixo do convés, havia um estranho, depressivo e quase sinistro silêncio. Entretanto, de mais adiante, percebi, vinha o chapinhar e o gotejar que me disseram que estava entrando água na escuna. Agarrei um suporte de madeira, quando ela se inclinou rapidamente e, em algum lugar, o gotejar tornou-se um fluxo constante. Por quanto tempo o barco permaneceria flutuando? Fiquei imaginando. Nesse meio-tempo, vi o que Connor logo descobriria: os suprimentos pelos quais perdemos tanto tempo perseguindo não existiam — ou pelo menos não naquele barco. Enquanto absorvia isso, ouvi um ruído e virei-me para ver Benjamin Church segurando com as duas mãos uma pistola na minha direção, o olho meio fechado ao longo da mira. — Alô, Haytham — rosnou, e apertou o gatilho. Ele era bom. Eu sabia. Foi por isso que pressionou imediatamente o gatilho, para me abater enquanto tinha o elemento surpresa; e por que ele não mirou diretamente em cima de mim, mas para um ponto ligeiramente à minha direita? Porque sou um guerreiro destro e naturalmente mergulharia para o meu lado mais forte. Mas é claro que eu sabia disso, porque o treinara. E seu tiro atingiu inofensivamente o casco, quando mergulhei, não para a direita, mas para a esquerda, rolei e me levantei e lancei-me sobre ele antes que conseguisse desembainhar a espada. Com um punhado de sua camisa em minha mão, agarrei a pistola e joguei-a para longe. — Nós tínhamos um sonho, Benjamin — gritei em seu rosto —, um sonho que você procurou destruir. E, por causa disso, meu amigo caído, você pagará. Dei-lhe uma joelhada na virilha. Quando ele dobrou o corpo, arfando de dor, investi o punho em seu abdômen, então dei em seguida um soco em seu queixo, forte o bastante para mandar dois dentes ensanguentados deslizando ao longo do convés. Larguei-o, e ele caiu onde a madeira já estava úmida, seu rosto salpicado por um jorro de água salgada que chegava. Novamente, o navio balançou, mas, no momento, não me importei. Quando Benjamin tentou ficar de quatro para se levantar, acionei minha bota, chutando para fora qualquer fôlego que ainda lhe restava. Em seguida, peguei um pedaço de corda e o puxei para colocá-lo de pé, empurrei-o contra um barril e então o amarrei em volta dele, apertando bem. Sua cabeça caiu para a frente, fileiras de sangue, saliva e muco nasal caindo lentamente no chão abaixo. Recuei, agarrei seu cabelo e olhei-o nos olhos, desferi um soco em seu rosto e ouvi o triturar de seu nariz quebrando, depois recuei novamente, sacudindo o sangue dos nós dos dedos. — Chega! — berrou Connor atrás de mim, e virei-me para vê-lo me olhando, depois para Benjamin, uma expressão de repugnância no rosto. — Nós viemos aqui por um motivo... — disse ele. Balancei a cabeça. — Diferentes motivos, me parece. Mas Connor me empurrou e caminhou pela água, agora na altura do tornozelo, até Benjamin, que


fitou-o desafiadoramente com os olhos machucados e vermelhos. — Onde estão os suprimentos que você roubou? — exigiu Connor. Benjamin cuspiu. — Vá para o inferno. — Então, incrivelmente, começou a cantar uma música patriótica inglesa, “Rule Britannia”. Fui à frente. — Cale sua boca, Church. Isso não o deteve. Continuou cantando. — Connor — falei —, tire dele o que precisa, e vamos acabar com isso. Finalmente, Connor se aproximou, a lâmina encaixada, e colocou-a na garganta de Benjamin. — Vou perguntar outra vez — disse Connor: — Onde está sua carga? Benjamin olhou para ele e pestanejou. Por um momento, pensei que seu ato seguinte seria cuspir em Connor ou xingá-lo, mas, em vez disso, começou a falar. — Em uma ilha distante, esperando o recolhimento. Mas não tem direito a ela. Não é sua. — Não, não é minha — concordou Connor. — Aqueles suprimentos são para homens e mulheres que acreditam em algo maior do que eles mesmos, que lutam e morrem para que um dia possam viver livres de tiranias como a sua. Benjamin sorriu tristemente. — Esses são os mesmos homens e mulheres que lutam com mosquetes forjados com aço inglês? Que envolvem seus ferimentos com bandagens semeadas por mãos inglesas? Que conveniente para eles que façamos todo o trabalho. Eles colhem as recompensas. — Você inventa uma história para desculpar seus crimes. Como se você fosse o inocente e eles os ladrões — argumentou Connor. — É tudo uma questão de perspectiva. Não há um único caminho pela vida que seja certo e justo e não cause dano. Você acredita realmente que a Coroa não tem um motivo? Nenhum direito de se sentir traída? Você deveria saber disso, dedicado como é em combater os Templários... que também veem seu trabalho como justo. Pense nisso, na próxima vez que insistir que somente o seu trabalho beneficia o bem maior. Seu inimigo vai pedir para discordar... e não sem motivo. — Suas palavras podem ser sinceras — sussurrou Connor —, mas isso não as torna verdadeiras. E liquidou-o. — Fez muito bem — observei, enquanto o queixo de Benjamin caía sobre o peito e seu sangue se esparramava na água que continuava a subir. — A morte dele é uma bênção para nós dois. Vamos. Suponho que queira minha ajuda para recuperar tudo da ilha...


16 de junho de 1778 i Passaram-se meses desde que eu o vira pela última vez, mas não posso negar que penso nele com frequência. Quando o faço, penso: que esperança existe para nós? Eu, Templário — um Templário forjado no cadinho da traição, mas, ainda sim, Templário —, e ele, um Assassino, criado pela carnificina dos Templários. Uma vez, muitos anos atrás, sonhei um dia unir Assassinos e Templários, porém, na ocasião, eu era um homem mais jovem e mais idealista. O mundo já havia me mostrado sua verdadeira face. E ela era implacável, cruel e impiedosa, bárbara e brutal. Não havia lugar para sonhos. Contudo, ele veio a mim novamente e, embora nada dissesse — pelo menos não até aqui —, fiquei imaginando se ainda havia o idealismo que antes eu espreitara atrás daqueles olhos, e foi o que o trouxe mais uma vez à minha porta em Nova York, talvez à procura de respostas, ou querendo pôr um fim em alguma dúvida que o perturbava. Talvez eu estivesse errado. Talvez houvesse uma incerteza que, afinal de contas, habitava o interior daquela jovem alma. Nova York continuava controlada pelos casacos vermelhos, pelotões deles nas ruas. Anos tinham se passado, e ninguém ainda havia sido preso como responsável pelo incêndio que fizera a cidade mergulhar em uma depressão encardida, suja de fuligem. Partes dela continuavam inabitáveis. A lei marcial seguia vigorando, o controle dos casacos vermelhos era severo, e as pessoas estavam mais ressentidas do que nunca. Como estrangeiro, estudei os dois grupos de pessoas, os habitantes tiranizados lançando olhares raivosos para os soldados embrutecidos, indisciplinados. Eu os observava com olhos preconceituosos. E, zelosamente, continuei. Agia para tentar ajudar a vencer aquela guerra, acabar com a ocupação, encontrar paz. Estava interrogando um de meus informantes, um infeliz chamado Twitch, o Abelhudo — por causa de algo que havia fuçado —, quando avistei Connor com o canto do olho. Ergui a mão para detê-lo, enquanto continuava ouvindo Twitch, e imaginava o que Connor poderia querer comigo. Que assunto poderia ter com o homem que ele acreditava ter dado a ordem para matar sua mãe? — Se quisermos pôr um fim nisso, precisamos saber o que os legalistas estão planejando — disse ao meu contato. Connor continuava por ali, ouvindo, não que isso importasse. — Eu tenho tentado — respondeu Twitch, enquanto suas narinas flamejavam e os olhos estavam direcionados para Connor —, mas agora os próprios soldados não estão falando nada: esperam apenas ordens de cima. — Então continue indagando. Venha me ver quando tiver algo que valha a pena compartilhar. Twitch concordou com a cabeça, retirou-se furtivamente e eu inspirei fundo para enfrentar


Connor. Por um momento, nos observamos, e olhei-o de cima a baixo, seu manto de Assassino de algum modo em desacordo com o jovem índio debaixo dele, o comprido cabelo negro, aqueles olhos penetrantes — os olhos de Ziio. Fiquei imaginando o que haveria por trás deles. Acima de nós, um bando de pássaros se acomodava na beirada de um prédio, crocitando ruidosamente. Nas proximidades, uma patrulha de casacos vermelhos vadiava junto a uma carroça para admirar lavadeiras que passavam, fazendo sugestões lascivas e reagindo com gestos ameaçadores a qualquer olhar e som desaprovador. — Estamos tão perto da vitória — falei para Connor, segurando seu braço e conduzindo-o para mais adiante na rua, longe dos casacos vermelhos. — Mais alguns ataques bem localizados, e poderemos encerrar a guerra civil e nos livrar da Coroa. Um quase sorriso nos cantos de sua boca denunciaram certa satisfação. — O que você pretende? — No momento, nada... já que estamos completamente no escuro. — Pensei que os Templários tinham olhos e ouvidos por toda a parte — comentou ele, com apenas uma pitada de humor mordaz. Exatamente como sua mãe. — Nós tínhamos. Até vocês começarem a liquidá-los. Ele sorriu. — Seu contato disse que eram ordens de cima. Elas nos dizem exatamente o que precisamos saber: ir no encalço dos outros comandantes legalistas. — Os soldados respondem aos artilheiros — falei. — Os artilheiros aos comandantes, o que significa... que avançamos cadeia acima. Ergui a vista. Não muito longe, os casacos vermelhos continuavam luxuriosos, decepcionando seu uniforme, sua bandeira e o rei Jorge. Os artilheiros eram o elo entre o pessoal de destaque do exército e a infantaria, e deveriam manter os casacos vermelhos em xeque, evitar que importunassem uma população já hostil, mas raramente mostravam a cara, apenas quando havia problema de verdade nas ruas. Como, digamos, se alguém matasse um casaco vermelho. Ou dois. De dentro do manto, saquei minha pistola e a apontei para o outro lado da rua. Com o canto do olho, vi Connor ficar boquiaberto quando mirei o grupo insubordinado de casacos vermelhos junto à carroça. Escolhi aquele que, no mesmo instante, fazia uma sugestão imprópria a uma mulher que passava com a saia zunindo e a cabeça abaixada, enrubescendo debaixo da touca. E apertei o gatilho. O estampido da minha arma rompeu o dia, e o casaco vermelho cambaleou para trás, com um buraco do tamanho de uma moeda entre os olhos já começando a vazar sangue vermelho-escuro, enquanto seu mosquete caía e ele desabava pesadamente de costas dentro da carroça e lá permanecia imóvel. Por um momento, os outros casacos vermelhos ficaram chocados demais para esboçar qualquer reação, as cabeças girando na minha direção, ao tentarem localizar a origem do disparo, enquanto puxavam seus rifles do ombro. Comecei a atravessar a rua.


— O que está fazendo? — gritou Connor atrás de mim. — Mate bastante, e os atiradores vão aparecer — falei. — Eles vão nos levar até aqueles que são os encarregados... E um dos casacos vermelhos se virou para mim e veio me golpear com sua baioneta, varri a lâmina pela sua frente, cortando através de seus cinturões brancos cruzados sua túnica e sua barriga. Golpeei imediatamente o segundo, enquanto outro, que tentou recuar e encontrar espaço para erguer sua arma e atirar, recuou direto para Connor e, no instante seguinte, estava escorregando para fora de sua lâmina. A batalha tinha acabado, e a rua, antes movimentada, estava vazia de uma hora para outra. No mesmo instante, ouvi sinos e pisquei. — Os atiradores saíram, exatamente como eu disse que fariam. Era uma questão de pegar um deles, uma tarefa que fiquei feliz em deixar para Connor, e ele não me decepcionou. Em menos de uma hora, tínhamos uma carta, e, enquanto grupos de atiradores e casacos vermelhos corriam de um lado a outro das ruas, furiosamente procurando os dois Assassinos — Assassinos, estou lhes dizendo. Eles usaram a lâmina dos Hashashin — que haviam, tão impiedosamente, eliminado uma das patrulhas deles, subimos para os telhados, onde nos sentamos e a lemos. — A carta está codificada — observou Connor. — Não se preocupe — avisei. — Conheço o código. Afinal, é uma invenção dos Templários. Eu a li e depois expliquei. — O comando britânico está em desordem. Os irmãos Howe se demitiram e Cornwallis e Clinton deixaram a cidade. A liderança que resta convocou uma reunião nas ruínas da Igreja da Trindade. É para lá que devemos ir.

ii A Igreja da Trindade ficava no cruzamento da Wall Street com a Broadway. Ou, deveria dizer, o que restou da igreja no cruzamento da Wall Street com a Broadway. Ela havia queimado bastante durante o grande incêndio de setembro de 1776; queimara tanto, aliás, que os ingleses não se preocuparam em tentar reformá-la para usá-la como caserna, ou para aprisionar patriotas. Em vez disso, construíram uma cerca e a usaram para ocasiões como aquelas — a reunião de comandantes na qual Connor e eu pretendíamos entrar como penetras. A Wall Street e a Broadway estavam às escuras. Os acendedores de lampiões não iam ali porque não havia lampiões para acender, pelo menos nenhum funcionando direito. Como tudo em um raio de um quilômetro e meio a partir da igreja, eles estavam enegrecidos e cobertos de fuligem, os vidros quebrados. E o que iluminariam, afinal? As janelas incineradas e quebradas dos prédios das redondezas? Ruínas vazias de pedra e madeira adequadas apenas para habitação de cães vadios e


animais daninhos. Acima de tudo assomava o pináculo da Trindade, e foi para lá que seguimos, escalando uma das paredes remanescentes da igreja para ocupar uma posição. Ao escalarmos, percebi que aquele prédio me lembrava uma versão ampliada de minha casa em Queen Anne’s Square, como ela ficara depois do incêndio. E, enquanto nos mantínhamos agachados nas sacadas, esperando a chegada dos casacos vermelhos, lembrei-me do dia em que retornei à casa com Reginald e como ela aparentava. Assim como a igreja, seu telhado fora consumido pelo fogo. Assim como a igreja, era uma casca, uma sombra de seu eu anterior. Acima de nós, as estrelas cintilavam no céu, e olhei-as por um momento através do teto aberto, até um cotovelo do meu lado me tirar do devaneio e Connor apontar abaixo para onde três oficiais e casacos vermelhos seguiam ao longo do entulho deserto da Wall Street em direção à igreja. Ao se aproximarem, dois homens adiante do pelotão puxavam uma carroça e penduravam lanternas nos galhos pretos e quebradiços das árvores, iluminando o caminho. Chegaram à igreja e ficamos olhando para baixo, enquanto penduravam mais lanternas. Eles se movimentavam rapidamente entre as colunas truncadas da igreja, onde ervas daninhas, musgo e capim tinham começado a crescer, a natureza reivindicando para si as ruínas, e colocaram lanternas na pia batismal e no púlpito, depois se afastaram para o lado quando os delegados entraram a passos largos: três comandantes e um pelotão de soldados. A seguir, forçamos os ouvidos para ouvir a conversa e não tivemos sorte. Em vez disso, contei os guardas, havia doze, mas não achei que eram muitos. — Eles não estão chegando a lugar algum — sussurrei para Connor. — Não vamos descobrir nada, observando daqui. — O que sugere? — retrucou ele. — Que desçamos para exigir respostas? Olhei para ele. Sorri. — Isso mesmo — falei. E, no instante seguinte, estava descendo até chegar bem perto e saltei para o chão, surpreendendo os dois guardas da retaguarda, que morreram com a boca aberta na forma de um O. — Emboscada! — surgiu o grito, quando cravei mais dois casacos vermelhos. De cima, ouvi Connor praguejar, ao mesmo tempo que saltava de onde estava para se juntar a mim. Eu tinha razão. Não eram muitos. Os casacos vermelhos, como sempre, confiavam demais em mosquetes e baionetas. Eficientes no campo de batalhas, talvez, mas inúteis no combate em contato direto, que era onde Connor e eu nos distinguíamos. Àquela altura, lutávamos muito bem juntos, quase formando uma parceria. Não demorou muito para as estatuetas cobertas de musgo da igreja incendiada cintilarem com o sangue fresco dos casacos vermelhos, os doze guardas mortos, e restando apenas os três oficiais aterrorizados, encolhidos, com os lábios se movendo em uma prece, enquanto se preparavam para morrer. Eu tinha algo mais em mente — uma viagem ao Forte George, para ser exato.


iii O Forte George ficava no lado mais meridional de Manhattan. Com mais de 150 anos, ele oferecia, vendo-se do mar, uma vasta silhueta de pináculos, torres de vigia e compridos prédios de casernas que pareciam percorrer todo o comprimento do promontório. Por dentro, as altas muralhas eram extensões de praças de treinamento cercando os altos dormitórios e prédios administrativos, tudo pesadamente defendido e fortificado. Um lugar perfeito para os Templários montarem sua base. Um lugar perfeito para levarmos os três comandantes. — O que os ingleses estão planejando? — perguntei ao primeiro, após amarrá-lo a uma cadeira na sala de interrogatórios nas profundezas das entranhas do prédio do North End, onde o cheiro de umidade era penetrante e onde, se você ouvisse atentamente, poderia escutar o arranhar e o roer dos ratos. — Por que eu deveria dizer? — desdenhou ele. — Porque vou matar você se não disser. Seus braços estavam amarrados, mas indicou a sala de interrogatórios com o queixo. — Você me matará, se eu disser. Sorri. — Muitos anos atrás, conheci um homem chamado Cutter, o Talhador, um especialista em tortura e em aplicação de dor, que era capaz de manter sua vítima viva por dias sem fim, mas sofrendo muita dor, com apenas... — Acionei o mecanismo da lâmina, e ela apareceu, brilhando cruelmente sob a luz bruxuleante da tocha. Ele olhou para a lâmina. — Você me promete uma morte rápida se eu disser? — Tem minha palavra. E ele disse, e mantive minha palavra. Quando tudo acabou, saí para a passagem do lado de fora, onde ignorei o olhar inquisitivo de Connor e peguei o segundo prisioneiro. De volta à cela, amarrei-o à cadeira e observei seus olhos irem para o corpo do primeiro homem. — Seu amigo recusou-se a me dizer o que eu queria saber — expliquei —, e foi por isso que cortei sua garganta. Você está preparado para me dizer o que eu quero saber? Com os olhos arregalados, ele engoliu em seco. — Olhe, seja o que for, não posso dizer... nem eu mesmo sei. Talvez o comandante... — Ah, você não é o homem encarregado? — falei alegremente, e acionei minha lâmina. — Espere um minuto... — pediu, enquanto eu ia para trás dele. — Tem algo que eu sei... Parei. — Prossiga... Ele me disse e, quando acabou, agradeci-lhe e enfiei a lâmina em sua garganta. Quando ele morreu, percebi que minha sensação não foi a de um fogo justo de alguém que executa atos repulsivos em nome de um bem maior, e sim de uma exausta inevitabilidade. Muitos anos atrás, meu pai me


ensinara sobre piedade, sobre clemência. Agora eu abatia prisioneiros como gado. Assim foi quão corrupto eu me tornara. — O que está havendo lá? — perguntou Connor, desconfiado, quando voltei à passagem onde ele vigiava o terceiro prisioneiro. — Esse aí é o comandante. Traga-o. Momentos depois, a porta da sala de interrogatório fechou-se com um baque surdo atrás de nós, e, por um momento, o único som no local era o de sangue pingando. Ao ver os corpos jogados em um canto da cela, o comandante se debateu, mas, com a mão em seu ombro, empurrei-o para a cadeira, agora grudenta de sangue, amarrei-o a ela, depois fui para sua frente e movimentei o dedo para liberar a lâmina oculta. Ela ressoou com um leve estalido na cela. Os olhos do oficial foram para ela e depois para mim. Ele tentava mostrar uma expressão corajosa, mas não dava para disfarçar o tremor do lábio inferior. — O que os ingleses estão planejando? — perguntei. Os olhos de Connor estavam em mim. Os olhos do prisioneiro estavam em mim. Como ele permaneceu em silêncio, ergui ligeiramente a lâmina para que refletisse o bruxulear da luz da tocha. Novamente, seus olhos se fixaram nela e, então, cedeu... — Sair... sair da Filadélfia. Aquela cidade está acabada. Nova York é a chave. Eles vão dobrar nosso número... expulsar os rebeldes. — Quando começam? — indaguei. — Daqui a dois dias. — Dezoito de junho — disse Connor a meu lado. — Preciso alertar Washington. — Viu? — falei para o comandante. — Não foi tão difícil assim, foi? — Eu lhe disse tudo. Agora, deixe-me ir — pediu, mas eu não estava disposto a ser clemente. Fui para trás dele e, enquanto Connor observava, abri sua garganta. Diante do olhar horrorizado do rapaz, falei: — E os outros dois disseram a mesma coisa. Deve ser verdade. Quando Connor olhou para mim foi com repugnância. — Você o matou... Matou todos os três. Por quê? — Eles teriam alertado os legalistas — respondi simplesmente. — Você poderia tê-los mantido presos até a luta terminar. — Não muito longe daqui, fica a Baía de Wallabout — expliquei —, onde o navio-prisão HMS Jersey está ancorado, um navio apodrecido no qual prisioneiros de guerra patriotas estão morrendo aos milhares, enterrados em covas rasas nas margens ou simplesmente jogados ao mar. É assim que os ingleses tratam os prisioneiros deles, Connor. Ele reconheceu a questão, mas contrapôs: — E é por isso que precisamos nos livrar da tirania deles. — Ah, tirania. Não esqueça que seu líder George Washington poderia salvar esses homens nos navios-prisão, se estivesse disposto a isso. Mas não quer trocar soldados ingleses capturados por


presos americanos, e, por causa disso, os prisioneiros de guerra americanos são sentenciados a apodrecer em navios-prisão da Baía de Wallabout. É assim que age seu herói George Washington. Do modo como quer que termine a revolução, Connor, pode ter certeza de que são os homens com riquezas e terras que serão beneficiados. Os escravos, os pobres, os soldados do exército... esses continuarão sendo largados para apodrecer. — George é diferente — alegou, mas, sim, agora havia um tom de dúvida em sua voz. — Em breve, verá sua verdadeira face, Connor. Ela vai se revelar e, quando isso acontecer, poderá tomar sua decisão. Você poderá julgá-lo.


17 de junho de 1778 i Embora tivesse ouvido falar muito dele, nunca tinha visto o Vale Forge com meus próprios olhos, e foi ali, esta manhã, onde me encontrei. As coisas haviam melhorado visivelmente, isso era certo. A neve se fora; o sol saiu. Enquanto caminhávamos, avistei um pelotão com a marcha sendo comandada por um homem com sotaque prussiano, o qual, se não estava muito enganado, era o famoso barão Friedrich von Steuben, chefe do Estado-Maior de Washington, que desempenhou seu papel em forçar seu exército a entrar em forma. E, de fato, conseguira. Onde antes os homens tinham carecido de moral e disciplina, tinham sofrido de doenças e de má nutrição, agora o acampamento estava repleto de soldados saudáveis e bemalimentados, que marchavam com um vigoroso tinir de armas e polvorinhos, uma pressa e uma motivação em seu passo. Em meio a eles estavam os seguidores civis que carregavam cestos com suprimentos e roupa lavada, ou bules e chaleiras fumegantes para as fogueiras. Até mesmo os cachorros que iam atrás e brincavam às margens do acampamento pareciam fazer isso com energia e vigor renovados. Ali, me dei conta, era onde a independência poderia nascer: com espírito, cooperação e firmeza. Contudo, enquanto Connor e eu caminhávamos pelo acampamento, ocorreu-me que fora em grande parte devido aos esforços de Assassinos e Templários que o espírito do acampamento havia melhorado. Tínhamos garantido os suprimentos e evitado mais roubos, e fui informado de que Connor dera uma mão em garantir a segurança de Friedrich von Steuben. O que fizera seu glorioso chefe George Washington, exceto conduzi-los, de primeira, àquela confusão? Mesmo assim, porém, continuavam a acreditar nele. Mais motivo para que fosse exposta sua falsidade. Mais motivo para que Connor visse sua verdadeira face. — Deveríamos compartilhar o que sabemos com Lee, e não com Washington... — sugeri de maneira irritada, enquanto caminhávamos. — Você parece pensar que eu o favoreço — retrucou Connor. Sua guarda estava baixa e o cabelo negro reluzia ao sol. Ali, longe da cidade, era como se seu lado nativo tivesse aflorado. — Mas meu inimigo é uma noção, e não uma nação. É errado forçar obediência... seja à Coroa britânica ou à Cruz Templária. E espero que, com o tempo, os legalistas também vejam isso, pois são igualmente vítimas. Balancei a cabeça. — Você se opõe à tirania. À injustiça. Mas esses são sintomas, filho. A verdadeira causa é a fraqueza humana. Por que você pensa que insisto em tentar lhe mostrar o erro dos seus modos?


— Sim, você tem falado muito. Mas não tem me mostrado nada. Não, pensei, porque você não escuta a verdade quando ela sai da minha boca, escuta? Você precisa ouvi-la do próprio homem que idolatra. Precisa ouvi-la de Washington.

ii Em uma cabana de madeira, encontramos o líder, que estava cuidando da correspondência, e, passando pela guarda da entrada, fechamos a porta contra o alarido do acampamento, abafando as ordens do sargento instrutor, o constante retinir de utensílios da cozinha, o rodar das carroças. Ele ergueu a vista, sorrindo e assentindo para Connor, sentindo-se tão completamente seguro em sua presença que parecia feliz pelos guardas permanecerem do lado de fora, e me lançando um olhar mais frio, avaliador, antes de erguer a mão e voltar à sua papelada. Molhou a pena no tinteiro e, enquanto esperávamos pacientemente pela nossa audiência, assinou algo com um floreio. Devolveu a pena ao tinteiro, enxugou o documento com o mata-borrão, então se levantou, deu a volta na escrivaninha e veio nos cumprimentar, com mais cordialidade para Connor do que para mim. — O que o traz aqui — perguntou. E, enquanto os dois amigos se abraçavam, descobri-me junto à escrivaninha de Washington. Mantendo os olhos nos dois, recuei um pouco e lancei o olhar sobre o tampo da mesa, procurando alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse usar como prova em meu testemunho contra ele. — Os ingleses chamaram seus homens de volta da Filadélfia — dizia Connor. — Vão marchar para Nova York. Washington assentiu gravemente. Embora os ingleses dominassem Nova York, os rebeldes ainda controlavam partes da cidade, que permanecia essencial à guerra. E, se conseguissem obter seu controle de uma vez por todas, os ingleses ganhariam uma vantagem significativa. — Muito bem — disse Washington, cuja incursão através do rio Delaware para retomar terras em Nova Jersey já havia sido um dos grandes pontos decisivos da guerra —, vou transferir forças para Monmouth. Se conseguirmos aniquilá-los, teremos finalmente virado a maré. Enquanto eles conversavam, eu tentava ler o documento que Washington acabara de assinar. Alcancei-o para movimentá-lo de leve com a ponta dos dedos, de modo a enxergar o papel com mais clareza. Então, com uma vibração silenciosa, triunfante, apanhei-o e o ergui para que ambos vissem. — E o que é isto? Interrompido, Washington virou-se e viu o que eu tinha na mão. — Correspondência particular — indignou-se e avançou para pegá-la de volta, antes que eu a colocasse de lado e saísse de trás da escrivaninha. — Tenho certeza que é. Gostaria de saber o que diz, Connor? Confusão e lealdades dilaceradas nublaram suas feições. A boca se movimentou, mas não disse nada, e os olhos dispararam de mim para Washington, enquanto eu prosseguia:


— Parece que seu querido amigo acaba de ordenar um ataque à sua aldeia. Embora “ataque” deva ser um termo amenizado. Diga a Connor, comandante. Indignado, Washington respondeu: — Tivemos relatos da existência de nativos aliados agindo com os ingleses. Pedi aos meus homens para colocarem um fim nisso. — Queimando suas aldeias e salgando as terras. Causando seu extermínio, de acordo com esta ordem. Agora era a minha chance de contar a verdade a Connor. — E essa também não é a primeira vez. — Olhei para Washington. — Diga o que você fez 14 anos atrás. Por um momento, nada aconteceu além de um silêncio tenso na cabana. De fora, o plim-plom das cozinhas, o suave matraquear das carroças entrando e saindo do acampamento, o bramido retumbante do sargento instrutor, o triturar ritmado de botas marchando. Enquanto, dentro, as maçãs do rosto de Washington ruborizaram quando olhou para Connor, e talvez fizesse algumas relações em sua cabeça, e se desse conta exatamente do que fizera durante todos aqueles 14 anos. Sua boca se abriu e fechou, como se estivesse tendo dificuldade de encontrar palavras. — Era outra época — exprimiu-se finalmente. Charles sempre gostava de se referir a Washington como um idiota indeciso, gaguejante, e, ali, pela primeira vez, percebi exatamente o que ele queria dizer. — A Guerra dos Sete Anos — citou Washington, como se apenas aquele fato explicasse tudo. Olhei para Connor, que havia congelado, parecendo exatamente como se estivesse apenas distraído, pensando em outra coisa em vez de prestar atenção ao que acontecia na sala, então me dirigi a ele. — Agora veja, meu filho... no que se transforma esse “grande homem” sob coerção. Encontra desculpas. Transfere a culpa. Ele de fato faz muitas coisas grandes... exceto assumir responsabilidade. O sangue havia desaparecido do rosto de Washington. Seus olhos baixaram, e ele os direcionou para o chão, com a culpa evidente para todos verem. Olhei suplicante para Connor, que começou a respirar com dificuldade e então explodiu de raiva. — Chega! Quem fez o quê e por que motivo deve esperar. Meu povo deve vir em primeiro lugar. Aproximei-me dele. — Não! — Recuou. — Você e eu acabamos. — Filho... — comecei. Mas ele me rodeou. — Você acha que sou tão maleável que me chamando de filho faria com que eu pudesse mudar de ideia? Há quanto tempo guarda essa informação? Ou devo acreditar que só a descobriu agora? O sangue da minha mãe pode ter manchado outras mãos, mas Charles Lee não é menos do que um monstro, e tudo o que ele faz, faz por ordem sua. — E se virou para Washington, que de repente recuou com medo da ira de Connor.


— Um aviso para vocês dois — vociferou Connor. — Se resolverem vir atrás de mim ou se opor a mim, eu os matarei. E foi embora.


16 de setembro de 1781 (três anos depois) i Na Batalha de Monmouth, em 1778, apesar de ter sido ordenado por Washington que atacasse os ingleses em retirada, Charles recuou. O que se passou em sua cabeça para fazer isso, não sei dizer. Talvez estivesse em desvantagem numérica, que foi a razão que ele deu, ou talvez esperasse que, ao recuar, isso refletiria muito em Washington e no Congresso, e ele, finalmente, seria substituído no comando. Por um ou outro motivo, no mínimo porque isso não importava mais, eu nunca lhe perguntei. O que sei é que Washington havia ordenado que ele atacasse; em vez disso, fizera o oposto, e a situação rapidamente se tornou uma debandada. Soube que Connor deu uma mão na batalha que se seguiu, ajudou os rebeldes a evitarem a derrota, enquanto Charles, em retirada, havia corrido direto para Washington, com quem trocou algumas palavras, e Charles em particular tinha usado uma linguagem apurada. Eu podia bem imaginar. Lembrei-me do jovem que encontrei pela primeira vez, muitos anos atrás, no porto de Boston, o modo como me olhou de baixo para cima, com respeito, embora olhasse de cima para baixo, com desdém, para todo mundo. Desde que fora desconsiderado como comandantechefe do Exército Continental, seu ressentimento em relação a Washington, como uma ferida aberta, havia ulcerado, piorado, não havia sarado. Ele não apenas falava mal de Washington em qualquer ocasião possível, denegrindo cada aspecto de sua personalidade e de sua liderança, mas também havia embarcado em uma campanha de redação de cartas, na tentativa de conquistar membros do Congresso para seu lado. É verdade que seu fervor era em parte inspirado pela sua lealdade à Ordem, mas era também abastecida pela raiva pessoal por ter sido negligenciado. Charles poderia muito bem ter renunciado ao seu posto no Exército britânico e, para os devidos efeitos, se tornado cidadão americano. Mas havia nele um sentimento de elitismo muito inglês e achava firmemente que o cargo de comandante-chefe era seu por direito. Eu não podia censurá-lo por envolver nisso seus sentimentos pessoais. Quem, dentre aqueles cavaleiros que primeiro haviam se reunido na Green Dragon, era inocente com relação a isso? Eu com certeza não. Eu odiei Washington pelo que havia feito na aldeia de Ziio, mas sua liderança na revolução, embora às vezes cruelmente realista, não fora manchada pela brutalidade, pelo que eu sabia até então. Washington assinalara sua parte satisfatória de sucesso, e agora que certamente estávamos nos estágios finais da guerra, com a Independência a apenas uma declaração de distância, de que modo ele poderia ser visto como outra coisa a não ser um herói militar? A última vez que vi Connor foi três anos atrás, quando ele deixou Washington e a mim sozinhos.


Sozinhos. Completamente sozinhos. E, embora mais velho e mais lento e quase com uma dor constante por causa do ferimento na lateral do corpo, tive a oportunidade de, finalmente, poder me vingar do que ele havia feito a Ziio; de “destituí-lo do comando” para sempre, mas eu o poupara, pois, na ocasião, já começava a me perguntar se estava enganado a respeito dele. Talvez seja a ocasião de admitir que estava. É uma falha humana ver mudanças em si mesmo e supor que todos os outros continuam os mesmos. Talvez eu fosse culpado disso com Washington. Talvez ele tivesse mudado. Fiquei imaginando, estaria Connor certo a respeito dele? Charles, enquanto isso, foi preso por insubordinação em decorrência do incidente durante o qual xingou Washington, depois enfrentou uma corte marcial e, finalmente, foi exonerado do serviço. Então buscou refúgio no Forte George, onde tem permanecido desde então.

ii — O garoto está a caminho daqui — informou Charles. Eu estava sentado à escrivaninha em meu quarto na Torre Oeste do Forte George, diante da janela que dava vista para o mar. Com minha luneta, avistei navios no horizonte. Estariam vindo para cá? Connor estaria em um deles? Seus companheiros? Virando-me no assento, gesticulei para que Charles se sentasse. Ele parecia largado na roupa; o rosto estava enrugado e o cabelo ficando grisalho pendia sobre o rosto. Estava aflito e, então, se Connor estivesse vindo, teria todo o direito de estar. — Ele é meu filho, Charles — falei. Ele assentiu, desviou a vista e franziu os lábios. — Já imaginava — disse ele. — Há uma semelhança familiar. A mãe dele é a mohawk com quem você se escondeu, não é mesmo? — Ah, eu me escondi com ela, foi? Ele deu de ombros. — Não me fale sobre negligenciar a Ordem, Charles. Você fez sua parte. Houve um longo silêncio e, quando ele olhou de volta para mim, seus olhos tinham despertado. — Uma vez você me acusou de ter criado o Assassino — lembrou com amargura. — Isso não lhe ocorre como irônico... não, hipócrita... tendo em vista que ele é seu rebento? — Talvez — respondi. — Não tenho mais certeza. Ele soltou uma gargalhada seca. — Você parou de se importar anos atrás, Haytham. Não me lembro da última vez que vi outra coisa em seus olhos que não fosse fraqueza. — Fraqueza não, Charles. Dúvida. — Dúvida, então — concedeu. — A dúvida não beneficia muito um Grão-Mestre Templário, não acha?


— Talvez — concordei. — Ou talvez eu tenha aprendido que somente idiotas e crianças carecem de dúvida. Virei-me para olhar pela janela. Anteriormente, a olho nu, os navios tinham parecido marcas de alfinetes, agora, porém, estavam mais próximos. — Conversa-fiada — comentou Charles. — Conversa de Assassino. Convicção é falta de dúvida. Pelo menos, isso é tudo que pedimos de nossos líderes: convicção. — Lembro-me da época em que precisava do meu apadrinhamento para se juntar a nós. Agora, você teria a minha posição. Você teria sido um bom Grão-Mestre, não acha? — Você foi? Houve uma longa pausa. — Isso machuca, Charles. Ele se levantou. — Vou embora. Não desejo estar aqui quando o Assassino... seu filho... começar o ataque. — Olhou para mim. — E você deveria me acompanhar. Pelo menos, estaríamos à frente. Balancei a cabeça. — Acredito que não, Charles. Acredito que devo ficar e fazer minha resistência final. Talvez você tenha razão... Talvez não tenha sido o mais eficiente Grão-Mestre. Talvez agora seja o momento de ajeitar isso. — Você pretende enfrentá-lo? Combatê-lo? Fiz que sim. — O quê? Você pensa que pode convencê-lo? Trazê-lo para o nosso lado? — Não — falei tristemente. — Receio que não há volta para Connor. Mesmo revelando a verdade sobre Washington, não consegui mudar seu apoio. Você gostaria de Connor, Charles, ele tem “convicção”. — Sim, e depois? — Não vou permitir que ele mate você, Charles — assegurei, e levei a mão ao meu pescoço para tirar o amuleto. — Tome isto, por favor. Não quero que fique com ele, se me derrotar na batalha. Trabalhamos arduamente para tirá-lo dos Assassinos. Não quero devolvê-lo. Ele, porém, afastou a mão. — Não ficarei com isso. — Precisa mantê-lo em segurança. — Você é capaz de fazer isso sozinho. — Sou quase um velho, Charles. Vamos errar por excesso de precaução, sim? Passei o amuleto para suas mãos. — Vou dar ordens para que uns guardas protejam você — avisou. — Como queira. — Olhei novamente pela janela. — Mas é melhor se apressar. Tenho uma sensação de que o momento do ajuste de contas esteja próximo. Ele assentiu e seguiu para a porta, de onde se virou.


— Você foi um bom Grão-Mestre, Haytham — disse ele —, e lamento se você alguma vez pensou que achei o contrário. Sorri. — E lamento se lhe dei um motivo. Ele abriu a boca para falar, mas preferiu não fazê-lo, então se virou e saiu.

iii Ocorreu-me, quando se iniciou o bombardeio e comecei a rezar para que Charles tivesse fugido, que este poderia ser o registro final em meu diário; estas palavras, minhas últimas. Espero que Connor, meu próprio filho, leia este diário e, talvez, quando souber um pouco sobre minha jornada pela vida, me compreenda, talvez até me perdoe. Meu próprio caminho foi pavimentado com mentiras, minha desconfiança forjada por traição. Mas meu pai nunca mentiu para mim e, com este diário, preservo esse hábito. Eu lhe apresento a verdade, Connor, para que possa fazer o que quiser com ela.


E PÍLOGO


16 de setembro de 1781 — Pai! — chamei. O bombardeio era ensurdecedor, mas eu abri caminho através dele até a Torre Oeste, onde ficavam seus aposentos, e, ali, em um passadiço que levava ao quarto do Grão-Mestre, o encontrei. — Connor — respondeu ele. Seus olhos eram insensíveis, ilegíveis. Ele estendeu o braço e engatou a lâmina oculta. Fiz o mesmo. De fora, vinham o estrondo e o estampido de disparos de canhão, o despedaçar de pedra e os gritos de homens moribundos. Lentamente, caminhamos um em direção ao outro. Havíamos lutado lado a lado, mas nunca um contra o outro. Fiquei imaginando se ele, assim como eu, estava curioso. Com uma das mãos nas costas, ele mostrou sua lâmina. Fiz o mesmo. — No próximo disparo de canhão — disse ele. Quando aconteceu, isso pareceu sacudir as paredes, mas nenhum de nós se importou. A batalha havia começado e o som do repique do nosso aço era penetrante na passagem, nossos grunhidos de esforço, claros e presentes. Tudo o mais — a destruição do forte à nossa volta — era ruído de fundo. — Vamos lá — zombou —, não pode esperar que vá me superar, Connor. Apesar de suas habilidades, você ainda é um menino... com muito a aprender. Ele não mostrava piedade. Nenhuma compaixão. Independente do que houvesse em seu coração e sua cabeça, a lâmina dele lampejava com a habitual precisão e ferocidade. Se agora era um guerreiro em seus anos outonais, carregado de poderes deficientes, então eu teria odiado ter de enfrentá-lo durante seu apogeu. Se era um teste que queria fazer comigo, então era o que eu estava recebendo. — Dê-me Lee — exigi. Mas Lee já tinha ido havia muito tempo. Agora só havia o pai, e ele atacava, tão veloz quanto uma cobra, com a lâmina chegando à distância de um fio de cabelo de abrir meu rosto. Transforme a defesa em ataque, pensei, e respondi com semelhante variação de velocidade, girando e atingindo seu antebraço, perfurando-o com minha lâmina e destruindo a fixação da sua. Com um rugido de dor, ele saltou para trás e pude ver a preocupação nublar seus olhos, mas deixei que se recuperasse e observei-o cortar uma tira do manto com a qual enfaixou o ferimento. — Mas temos uma chance aqui — argumentei. — Juntos, podemos romper o ciclo e acabar com essa antiga guerra. Eu sei disso. Vi algo em seus olhos. Seria alguma centelha de um desejo havia muito tempo abandonado, algum sonho insatisfeito sendo lembrado? — Eu sei disso — repeti. Com a bandagem ensanguentada entre os dentes, ele balançou a cabeça. Estaria realmente tão desiludido assim? Teria seu coração endurecido tanto? Terminou o curativo.


— Não. Você quer saber disso. Você quer que seja verdade. — Suas palavras tinham um tom de tristeza. — Parte de mim, certa vez, também quis. Mas é um sonho impossível. — Temos o mesmo sangue, você e eu — insisti. — Por favor... Por um momento, pensei que o tinha alcançado. — Não, filho. Somos inimigos. E um de nós deve morrer. De fora, veio outra salva de canhão. As tochas tremularam em seus suportes, a luz dançou na pedra e partículas de pó choveram das paredes. Que assim seja. Lutamos. Uma longa e dura batalha. Não uma batalha que sempre fosse especialmente habilidosa. Ele vinha para mim, com a lâmina da espada, com punhos e às vezes até mesmo com a cabeça. Seu estilo de luta era diferente do meu, algo de formação mais tosca. Carecia da sutileza do meu estilo, mas, ainda assim, eficaz e, logo descobri, igualmente doloroso. Nós nos separamos, ambos resfolegando. Ele passou as costas da mão na boca, depois se agachou, flexionando os dedos do antebraço ferido. — Você age como se tivesse algum direito de julgar — observou ele. — Declarar, para o mundo, a mim e ao que fiz como errados. Entretanto, tudo que lhe mostrei... tudo que lhe disse e fiz... deveria claramente demonstrar o contrário. Mas não fizemos mal a seu povo. Não apoiamos a Coroa. Trabalhamos para ver esta terra unida e em paz. Sob nosso poder, tudo seria igual. Os patriotas prometem o mesmo? — Eles oferecem liberdade — retruquei, observando-o cautelosamente, lembrando-me de algo que Achilles me ensinara certa vez: que cada palavra, cada gesto, é combate. — Liberdade? — escarneceu. — Eu lhe disse... repetidas vezes... isso é perigoso. Nunca haverá um consenso, filho, entre aqueles que você ajudou a ascender. Eles vão diferir em seus pontos de vista sobre o que significa ser livre. A paz que você procura tão desesperadamente não existe. Balancei a cabeça. — Não. Juntos, eles formarão uma coisa nova... melhor do que aquilo que veio antes. — Esses homens estão unidos agora por uma causa comum — continuou ele, abanando em volta o braço ferido para indicar... nós, suponho. A revolução. — Mas, quando essa batalha terminar, eles vão brigar entre si para saber qual é o melhor modo de assegurar o controle. Em pouco tempo, isso levará à guerra. Você verá. Então ele deu um salto à frente, atacando com a espada, visando não meu corpo, mas o braço com a lâmina. Desviei o golpe, mas ele foi rápido, virou e me atacou com as costas da mão, atingindo-me com o cabo da espada acima do olho. Minha visão nublou e cambaleei para trás, defendendo-me loucamente, enquanto ele tentava pressionar adiante para aproveitar sua vantagem. Por pura sorte, atingi seu braço ferido, conseguindo um uivo de agonia e uma pausa temporária, enquanto nos recuperávamos. Outro estrondo de canhão. Mais pó expelido das paredes, e senti o chão sacudir. Escorria sangue do ferimento acima do meu olho, e o limpei com as costas da mão.


— Os líderes patriotas não procuram o controle — garanti a ele. — Aqui não haverá monarca. O povo terá o poder... como deveria. Ele balançou a cabeça lenta e tristemente, um gesto condescendente que, se tinha a intenção de me apaziguar, teve exatamente o efeito contrário. — O povo nunca tem o poder — frisou, fatigado —, apenas a ilusão dele. E eis o verdadeiro segredo: o povo não o quer. A responsabilidade é grande demais para aguentar. É por isso que ele rapidamente adere, assim que alguém se encarrega. O povo quer que lhe diga o que fazer. Ele anseia por isso. Não é de se admirar, tendo em vista que toda a humanidade foi formada para servir. Novamente, trocamos golpes. Nós dois já tínhamos tirado sangue. Olhando-o, será que vi uma imagem espelhada mais velha de mim mesmo? Tendo lido seu diário, posso agora olhar para trás e saber exatamente como ele me via: como o homem que ele deveria ter sido. De que modo as coisas teriam sido diferentes se eu soubesse o que sei agora? Não sei é a resposta a essa pergunta. E continuo sem saber. — E por causa da nossa tendência natural de sermos controlados, quem melhor para isso do que os Templários? — Balancei a cabeça. — É uma oferta insignificante. — É verdade — exclamou Haytham. — Princípio e prática são dois animais diferentes. Eu vejo o mundo como ele é... e não como desejo que fosse. Ataquei e ele defendeu, e, por alguns momentos, o passadiço ressoou o aço se chocando. Agora nós dois estávamos cansados; a batalha não tinha mais a urgência que tivera. Por um momento, pensei se ela simplesmente poderia acabar; se havia qualquer meio de que nós dois simplesmente virássemos, nos afastássemos e fôssemos em direções diferentes. Mas não. Aquilo tinha de ter um fim agora. Eu sabia. Podia ver em seus olhos que ele também sabia. Aquilo tinha de ter um fim aqui. — Não, pai... você desistiria... e levaria todos nós a fazer o mesmo. Então, houve um baque surdo e o estremecer de uma bala de canhão atingindo perto, e pedras caíram em cascata das paredes. De repente, um enorme buraco foi aberto na passagem.

ii Fui jogado para trás pela explosão e caí em uma dolorosa posição, como um bêbado deslizando lentamente abaixo pela parede de uma taverna, e minha cabeça e ombros ficaram em um ângulo estranho em relação ao resto do meu corpo. O corredor estava cheio de pó e escombros se assentando, enquanto o estrondo da explosão diminuía lentamente e se transformava no chocalhar e no estrépito do pedregulho se movendo. Coloquei-me dolorosamente de pé e forcei a vista por entre o pó e o vi caído, assim como eu estivera, mas do outro lado do buraco na parede causado pela bala de canhão, e fui coxeando até ele. Parei e olhei pelo buraco, e fui recebido pela desorientadora visão dos aposentos do Grão-Mestre com sua parede de fundo explodida, as pedras irregulares emoldurando uma vista do mar. Havia quatro navios na água, todos com rastros de fumaça saindo de


seus canhões no convés e, enquanto eu observava, houve um estrondo quando outro foi disparado. Avancei e me curvei diante do meu pai, que olhou para mim e mexeu-se um pouco. Sua mão arrastou-se na direção da espada, que estava fora de alcance, chutei-a, e ela saiu deslizando na pedra para longe. Fazendo uma careta de dor, inclinei-me na direção dele. — Renda-se, e eu o pouparei — falei. Senti o vento na minha pele, a passagem subitamente inundada por luz natural. Ele parecia tão velho, o rosto abatido e ferido. Ainda assim, ele sorriu. — Bravas palavras de um homem prestes a morrer. — Você não se saiu melhor — retruquei. — Ah — ele sorriu, mostrando os dentes ensanguentados —, mas não estou sozinho... — E se virou para ver dois dos guardas do forte que vinham apressados pelo corredor, erguendo os mosquetes e parando a pouca distância de nós. Meus olhos foram deles para meu pai, que se levantava, erguendo a mão para deter seus homens, a única coisa que evitou que me matassem. Apoiando-se na parede, ele tossiu e cuspiu e então olhou para mim. — Mesmo quando sua raça parece triunfar... ainda assim, nós nos levantamos. Sabe por quê? Balancei a cabeça. — Porque a Ordem nasce de uma compreensão. Não precisamos de um Credo. Nem de doutrinação feita por velhos desesperados. Tudo de que precisamos é que o mundo seja como é. É por isso que os Templários nunca serão destruídos. E agora, é claro, fiquei imaginando: o que ele teria feito? Teria deixado que eles me matassem? Mas nunca terei essa resposta. Pois de repente houve um estalido de tiros e os homens giraram e caíram, mortos por disparos de um franco-atirador do outro lado da parede. E, no momento seguinte, eu havia corrido adiante e, antes que ele pudesse reagir, derrubei Haytham de volta para o chão e fiquei novamente sobre ele, a mão da minha lâmina recuada. Então, com grande fluxo de algo que poderia ter sido dispensado, e um som que percebi ser meu próprio soluço, apunhalei-o em seu coração. Seu corpo sacudiu como se aceitasse a minha lâmina, em seguida relaxou, e, quando a puxei, ele estava sorrindo. — Não pense que tive a intenção de acariciar seu rosto e dizer que eu estava errado — disse ele suavemente, enquanto eu observava sua vida se esvair. — Não vou lastimar nem imaginar o que poderia ter sido. Tenho certeza de que você entende. Eu estava ajoelhado, e me estiquei para agarrá-lo. O que senti foi... nada. Uma dormência. Uma grande exaustão por tudo ter chegado àquilo. — Ainda assim — disse ele, quando as pálpebras se agitaram e o sangue pareceu ser drenado de seu rosto. — Sinto orgulho de você por uma coisa. Você mostrou convicção. Força. Coragem. Essas são características nobres. Com um sorriso sarcástico, acrescentou: — Eu deveria ter matado você muito tempo atrás.


Ent達o morreu. Procurei o amuleto de que minha m達e me falara, mas havia sumido. Fechei os olhos do meu pai, me levantei e fui embora.


2 de outubro de 1782 Finalmente, em uma noite gelada na fronteira, encontrei-o em uma hospedaria, a Conestoga, onde entrei e o achei sentado nas sombras, os ombros curvados para a frente e uma garrafa perto da mão. Mais velho e desleixado, com os cabelos crespos e rebeldes e nenhum vestígio do oficial do exército que fora antes, mas era definitivamente ele: Charles Lee. Ao me aproximar da mesa, ele ergueu a vista para mim, e logo fui surpreendido pelos seus olhos injetados. Qualquer loucura, porém, estava suprimida ou escondida, e ele não revelou nenhuma emoção em me ver, a não ser um olhar que supus ser de alívio. Por mais de um mês eu o tinha caçado. Sem falar, ofereceu-me um gole da garrafa, aceitei, tomei um gole e lhe devolvi a bebida. E ficamos sentados juntos por um longo tempo, observando os outros fregueses da taverna, ouvindo suas conversas, brincadeiras e gargalhadas que aconteciam à nossa volta. No final, olhou para mim e, embora não dissesse nada, seus olhos o fizeram por ele, e, assim, silenciosamente, ejetei minha lâmina e, quando os fechou, enfiei-a em seu corpo, por baixo das costelas, direto no coração. Ele morreu sem um som e o deitei sobre o tampo da mesa, como se apenas tivesse desmaiado por ter bebido demais. Então estendi a mão, tirei o amuleto de seu pescoço e o pendurei no meu. Olhando-o abaixo, ele brilhou suavemente por um instante. Coloquei-o para dentro da camisa, me levantei e saí.


15 de novembro de 1783 i Segurando as rédeas do meu cavalo, caminhei pela minha aldeia com uma sensação crescente de incredulidade. Ao chegar, vi plantações bem-cuidadas, mas a aldeia em si estava deserta, a casa comunal abandonada, as fogueiras de cozinhar frias, e a única alma à vista era um caçador grisalho — um caçador branco, não um mohawk — que estava sentado sobre um balde virado de cabeça para baixo diante de uma fogueira, assando algo em um espeto que cheirava bem. Olhou-me cuidadosamente, à medida que me aproximava, e seus olhos foram para o mosquete, que estava perto, mas acenei indicando que não faria mal. Ele assentiu. — Se você estiver com fome, eu tenho mais — avisou cordialmente. Aquilo cheirava bem, mas eu tinha outras coisas em mente. — Você sabe o que aconteceu aqui? Onde está todo mundo? — Foram para o oeste. Já se passaram algumas semanas desde que partiram. Parece que a terra foi doada pelo Congresso para algum sujeito de Nova York. Acho que decidiram que não precisavam da aprovação de quem vivia aqui para se instalar. — O quê? — surpreendi-me. — É. Cada vez mais estou vendo isso acontecer. Nativos expulsos por negociantes e rancheiros que procuram se expandir. O governo diz que não toma terra que já tem dono, mas, ah... Aqui você pode ver que é o contrário. — Como isso pôde acontecer? — perguntei, olhando em volta lentamente e vendo apenas vazio onde um dia eu vira os rostos familiares do meu povo, o povo com o qual eu crescera. — Estamos agora por conta própria — continuou. — Acabou-se a garantia de peças e de serviço dos velhos e alegres ingleses. O que significa que temos nós mesmos de fazer isso. Temos também que pagar por isso. Vender terra é rápido e fácil. E não é tão odioso quanto impostos. E como alguns dizem que foram impostos que deram início à guerra, não há pressa para trazê-los de volta. — Ele deu uma gargalhada forte, gutural. — Muito espertos esses seus novos líderes. Eles sabem que ainda não devem forçar. É muito cedo. É muito... britânico. — Olhou para a fogueira. — Mas eles virão. Sempre vêm. Agradeci e o deixei, para ir então à casa comunal, pensando, enquanto caminhava: eu fracassei. Meu povo se foi — expulso por aqueles que pensei que o protegeriam. Enquanto caminhava, o amuleto no meu pescoço brilhou, tirei-o, coloquei-o sobre a palma e o analisei. Talvez houvesse uma última coisa que eu pudesse fazer, que era salvar aquele lugar de todos eles, patriotas e Templários, igualmente.


ii Em uma clareira na floresta, agachei-me e olhei o que tinha nas mãos: o colar da minha mãe em uma, o amuleto do meu pai na outra. Disse a mim mesmo: — Mãe. Pai. Sinto muito. Falhei com vocês dois. Fiz uma promessa de proteger nosso povo, mãe. Pensei que poderia deter os Templários, se conseguisse manter a revolução livre de sua influência, então os que eu apoiava fariam o que era certo. Suponho que fizeram o que era certo... o que era certo para eles. Quanto a você, pai, achei que conseguiria nos unir, que pudéssemos esquecer o passado e formar um futuro melhor. Acreditava que, no devido tempo, eu poderia fazer você ver o mundo como eu vejo... entendê-lo. Mas era apenas um sonho. Este também. Eu deveria ter adivinhado. Então não estávamos destinados a viver em paz? É isso? Nascemos para discutir? Para brigar? São tantas vozes... cada qual exigindo algo mais. “Foram tempos difíceis, mas não tão difíceis quanto hoje. Ver tudo pelo que trabalhei ser desvirtuado, rejeitado, esquecido. Você diria que descrevi a história toda, pai. Está sorrindo então? Esperando que eu possa dizer as palavras que ansiou ouvir? Validá-lo? Dizer que o tempo todo você estava certo? Não o farei. Mesmo agora, encarando como estou a verdade de suas palavras frias, eu me recuso. Porque acredito que as coisas ainda possam mudar. “Posso nunca ter sucesso. Os Assassinos podem pelejar outros mil anos em vão. Mas não vou parar.” Comecei a cavar. — Compromisso. Era nisso que todos insistiam. E, portanto, eu aprendi. Mas de um modo diferente dos outros, creio. Percebo agora que levará tempo, que a estrada adiante é longa e envolta pela escuridão. E que nem sempre me levará aonde desejo ir... e duvido que viverei para vê-la terminar. Mas, mesmo assim, viajarei por ela. Cavei e cavei até o buraco ficar bem fundo, mais fundo do que seria necessário para enterrar um corpo, o suficiente para eu entrar nele. — Pois do meu lado caminha a esperança. Diante de toda a insistência para eu voltar, continuo: esse, esse é meu compromisso. Larguei o amuleto no buraco e, quando o sol começou a se pôr, joguei terra em cima dele até ficar escondido, então virei e fui embora. Cheio de esperança para o futuro, retornei para o meu povo, para os Assassinos. Era hora de sangue novo.


Lista de Personagens As’ad Pasha al-Azm: governador otomano de Damasco, desconhecido-1758 Jeffrey Amherst: comandante britânico, 1717-1797 Tom Barrett: garoto que vive na casa vizinha a Haytham na Queen Anne’s Square Reginald Birch: administrador das propriedades de Edward Kenway e Templário Edward Braddock, o Bulldog: general britânico e comandante-chefe das colônias, 1695-1755 Benjamin Church: médico; Templário Connor: Assassino Cutter, o Talhador: torturador Betty: uma das criadas na casa da família Kenway Srta. Davy: criada pessoal da Sra. Kenway Sr. Geoffrey Digweed: mordomo do Sr. Kenway Edith: ama de Haytham Emily: camareira na casa da família Kenway James Fairweather: conhecido de Haytham Velho Sr. Fayling: tutor de Haytham John Harrison: Templário Thomas Hickey: Templário Jim Holden: soldado no Exército britânico William Johnson: Templário Kaniehti:io: índia mohawk, também conhecida como Ziio; mãe de Connor Edward Kenway: pai de Haytham Haytham E. Kenway Jenny Kenway: meia-irmã de Haytham Tessa Kenway, nascida Tessa Stephenson-Oakley: mãe de Haytham Catherine Kerr e Cornelius Douglass: proprietários da Green Dragon Charles Lee: Templário Grão-vizir Raghib Pasha: ministro do Sultão John Pitcairn: Templário Sra. Searle: governanta na casa da família Kenway Sr. Simpkin: funcionário da equipe de Edward Kenway Slater: carrasco e tenente de Braddock Silas Thatcher: traficante de escravos e comandante da Tropa de Elite do Rei, responsável pelo Forte Southgate Twitch, o Abelhudo: informante


Juan Vedomir: traidor dos Templários George Washington: oficial do general Braddock; comandante-chefe do recém-formado Exército Continental; Pai Fundador e futuro Presidente dos Estados Unidos, 1732-1799


Agradecimentos Agradecimentos especiais a: Yves Guillemot Stéphane Blais Jean Guesdon Corey May Darby McDevitt E também a: Alain Corre Laurent Detoc Sébastien Puel Geoffroy Sardin Xavier Guilbert Tommy François Cecile Russeil Joshua Meyer Departamento Jurídico da Ubisoft Chris Marcus Etienne Allonier Anouk Bachman Alex Clarke Hana Osman Andrew Holmes Virginie Sergent Clémence Deleuze


Este e-book foi desenvolvido em formato ePub pela Distribuidora Record de Serviรงos de Imprensa S. A.

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