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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA

Lucas Aristelo Martins Carvalho

Dramatização do texto jornalístico no caso da gripe “A”: Um estudo a partir do jornal ZERO-HORA

Comunicação – Social: Habilitação-Jornalismo São Borja

2010


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LUCAS ARISTELO MARTINS CARVALHO

DRAMATIZAÇÃO DO TEXTO JORNALÍSTICO NO CASO DA GRIPE “A”: UM ESTUDO DE CASO A PARTIR DO JORNAL ZERO-HORA Monografia apresentada para graduação no Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, para obtenção do bacharelado em Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo. Orientador: Professor Dr. Marcelo Hartz Rocha

São Borja 2010


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LUCAS ARISTELO MARTINS CARVALHO

DRAMATIZAÇÃO DO TEXTO JORNALÍSTICO NO CASO DA GRIPE “A”: UM ESTUDO DE CASO A PARTIR DO JORNAL ZERO-HORA

Monografia apresentada para graduação no Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, para obtenção do bacharelado em Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo. Área de concentração: Comunicação: Jornalismo Impresso

Monografia apresentada em Julho de 2010.

Banca Examinadora:

Professor Dr. Marcelo Hartz Rocha

Banca

Banca


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Dedico este trabalho primeiramente a Deus, pela saúde que me proporcionou e a oportunidade de poder realizar mais um sonho, concluindo uma parte importante e decisiva em minha vida. Ofereço tambÊm aos meus pais, Lucas Joel Carvalho e Olinda Martins Carvalho pelo apoio incondicional tanto em palavras como em atitudes.


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AGRADECIMENTO

Ao Professor Doutor Marcelo Rocha, pela orientação espetacular e ímpar, pela disponibilidade em todo e qualquer momento, pelo apoio, tanto com palavras de incentivo como na condução para um trabalho tranquilo. Jamais esquecerei, és mais que um orientador, és meu amigo. A todos os professores que guiaram minha jornada acadêmica, me capacitando tanto para uma vida profissional de êxito, como também demonstrando amizade, e encurtando distâncias entre o mestre e o aprendiz, fazendo com que pudesse me sentir uma pessoa melhor. Nomes como: Prof. Doutora Cárlida Emerim, Prof. Mestre Mara Ribeiro, Prof. Mestre Alexandre Augusti, Prof. Doutoranda Michele Negrini, Prof. Doutoranda Joseline Pippi e Prof. Doutor Miro Bacin, Prof. Roberta Roos. Nunca sairão da minha lembrança o que vocês fizeram por mim. A todos os colegas, em que nesses quatro anos dividimos alegrias e tristezas, pessoas em que tive apoio para superar minhas derrotas e que compartilharam comigo das suas alegrias. Amigos para qualquer hora, todos, absolutamente todos, marcaram a minha vida. Mas gostaria de agradecer alguns colegas em especial: Michel Benitez, companheiro de todas as horas, amigo e uma pessoa incomparável. Luciele Seibel, me ajudou com palavras em um momento difícil. Everton Dalenogare, um colega sensacional. Elisângela Frois, uma pessoa que tem um coração cristão. Lilian Machado, uma pessoa autêntica. Tiago Radeski, meu maninho. Palavras não são o suficiente para expressar tudo o que representam para mim.


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RESUMO

Este trabalho tem por objetivo demonstrar uma provável relação entre a narrativa jornalística e a ficcional. Esta semelhança entre esses dois universos distintos, o jornalístico e literário, tentaremos evidenciar que ocorre uma espécie de narrativa híbrida fazendo a combinação dos dois gêneros, através da narrativa de dramatização. Para encontrar as marcas de subjetividade no texto jornalístico foram analisadas as capas do jornal Zero Hora, em que o tema abordado para a respectiva análise foi a Gripe A. A perspectiva desta análise é tentar explicar que o texto jornalístico não é tão objetivo e imparcial, e que, no entanto, carrega em seu discurso cargas de subjetividade, parcialidade e de envolvimento do repórter com o fato narrado isso se dá através da narrativa de dramatização. Neste sentido, depois de tentarmos demonstrar a interferência pessoal do repórter com o texto, tentaremos provar que a reportagem ou notícia são construções simbólicas e discursivas. E a partir desta construção vamos procurar demonstrar que a mídia através do discurso dramatizado constrói o acontecimento, o valorizando e evidenciando através de detalhes que o ajudam a atingir o imaginário do público.

Palavras-Chave: Narrativa – Jornalismo – ficção – construção do acontecimento.


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ABSTRACT

This work aims to demonstrate a likely relationship between the narrative journalistic and fictional. This similarity between these two distinct universes, literary, journalistic and will try to show that there is a kind of narrative hybrid making the combination of the two genres through narrative of dramatization. To find the tags of subjectivity in the journalistic text were analysed the skins of the newspaper Zero Hora, in which the subject addressed to its analysis was the swine flu. This analysis is to try to explain that the journalistic text isn't as objective and impartial, and that, however, carries in his speech loads of subjectivity, partiality and the reporter's involvement with the fact this is narrated through narrative of dramatization. In this sense, after trying to demonstrate interference staff reporter with the text, we will try to prove that the story or news are symbolic constructions and discursive. The construction we will seek to demonstrate that the media through the dramatized discourse constructs the event, valuing and highlighting through details that help you achieve the public imagination. Keywords: Narrative – Journalism – fiction – construction of the event.


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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .........................................................................................................08 2. NARRATIVA DRAMATIZADA: O HIBRIDISMO ENTRE JORNALISMO E LITERATURA ............................................................................................................12 GRIPE A: ACONTECIMENTO MIDIÁTICO DRAMATIZADO.............................25 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................82 4. REFERÊNCIAS...........................................................................................................87


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1 - INTRODUÇÃO O que motivou a presente pesquisa foram as inquietações que moveram este pesquisador ao analisar a ação da mídia e ao confrontar o trabalho jornalístico, discutido teoricamente, com o que se afigura na prática, ou seja, entendemos que há uma incongruência entre os preceitos jornalísticos e suas aplicações. Essa é uma das discussões que pretendemos apresentar neste trabalho. Essas perturbações acadêmicas surgem ao não entender o porquê das teorias jornalísticas não serem seguidas à risca na prática. Dessa forma, existe a dificuldade de associar os conceitos estabelecidos como padrão no universo jornalístico com o jornalismo praticado no mercado na atualidade, especialmente nos itens: imparcialidade, impessoalidade, objetividade, neutralidade e distanciamento dos acontecimentos. A prática e a experiência jornalística nos mostram que a comunicação implica intersubjetividade e envolvimento. Dessa maneira, um afastamento absoluto entre o jornalista e o fato narrado pode ser tão complexo e difícil de ser conquistado quanto o afastamento do cientista de seu objeto de pesquisa. Entendemos, igualmente, que o modo como esse indivíduo (o repórter) enxerga a vida e suas experiências e vivências de mundo serão repassadas para a reportagem. Essa prática de jornalismo da atualidade está muito além do que os teóricos chamam de “sensacionalismo”. No entanto, é o jornalismo na essência mostrando a figura do repórter como alguém implicado pelo acontecimento. E foi pensando na ação do sujeito jornalista, no seu trabalho empírico, que este pesquisador vai analisar a narrativa jornalística. A palavra, o texto, estas são para o jornalismo o que é o pão para o padeiro, são o cerne na vida do repórter. Nesta perspectiva, o trabalho pretende analisar o texto jornalístico no aspecto da narrativa dramatizada. Apesar do universo jornalístico negar a existência de uma dramatização, a pesquisa tentará apresentar no trabalho características e aspectos nos quais existem uma provável dramatização da mídia. E para que ocorra a narrativa dramatizada, o jornalismo impresso vai utilizar de recursos estruturais, estilísticos e discursivos da literatura ficcional. Assim, o texto jornalístico vai empregar soluções advindas de outras mídias para chamar a atenção dos leitores e conseguir conquistar mais público. A linguagem será muita parecida com a estrutura do texto


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de cinema, em uma construção de narrativa na forma linear dos acontecimentos em que o tempo do acontecimento será introduzido com: começo, meio e fim. Entrará em questão o suspense onde o jornal não irá informar tudo de uma só vez, mas deixará alguns desfechos para a próxima edição, assim como acontece nas telenovelas onde novas situações ficam para o capítulo seguinte. Apesar de lido o relato das falas das fontes, assim como o rádio, os acontecimentos irão carregar enorme dramaticidade, pois pessoas querem saber de pessoas. Dessa maneira, veremos uma construção simbólica em que cenários, personagens, enredo e trama são criados tal como em uma peça de teatro. Adaptando-se ao tempo, o jornalismo impresso tem construído um novo formato de fazer um texto mais interessante, atrativo, competitivo e rentável financeiramente. O jornal impresso que tem resistido ao surgimento de todas as mídias (primeiro o rádio, depois a televisão e por último a internet) tem sido alvo de inúmeras teorias que proclamam o seu fim. A despeito disso, o jornal continua atingindo um grande público. Isso significa que a mudança de suporte não necessariamente implica o fim dos leitores. O trabalho tentará realizar a comparação da narrativa ficcional com o texto jornalístico. Levantando as possíveis semelhanças que existem entre o universo literário e jornalístico, unindo conteúdo e a forma, pois a estrutura do trabalho será feita em forma de narrativa ensaística, em um tom coloquial típico das novas estruturas de fazer jornalismo, baseados no Novo Jornalismo, porém sem deixar de fazer ciência, procurando embasar a narrativa com suas respectivas teorias. O primeiro capítulo descreverá a narrativa com a perspectiva de dramatização, mostrando que as narrativas fazem parte do cotidiano do homem desde crianças e que a dramatização é algo comum e inerente à comunicação humana. Usamos aqui de maneira homóloga a ideia de dramatização e narrativa ficcional, entendendo-as como imitações do real que ao mesmo tempo transfiguram dado acontecimento, construindo certas realidades. Indicando os movimentos e teóricos que falam sobre a narrativa jornalística como narrativa dramatizada e de ficção. Entre os teóricos que a pesquisa vai trabalhar na perspectiva de narrativa, articulada ao texto jornalístico, podemos citar alguns: Tom Wolfe, Nilson Lage, Felipe Pena, Marcelo Bulhões, entre outros. O segundo capítulo do trabalho é a análise do jornal Zero- Hora que será o corpus da pesquisa. Ali serão analisadas as reportagens de capa, que falam sobre o assunto pesquisado. Este é o maior capítulo da pesquisa e o cerne do trabalho o qual se encontra a análise. Nesta


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parte, serão unidas e entrelaçadas as teorias e a prática, os teóricos com as reportagens, em que este pesquisador fará a ligação entre esses dois universos e também com as minhas considerações e aproximações. A escolha do jornal deu-se por alguns motivos particulares. Primeiro, porque o assunto que será tratado como narrativa de dramatização é amplamente divulgado pelo jornal. Segundo, pelo acesso ao material (jornal), uma vez que está ao dispor e faz parte da realidade deste pesquisador. E, por último e não menos importante, por gostar da mídia impressa e pelo gosto da leitura. O assunto tratado na presente análise será a Gripe A, por ter sido um tema de grande relevância midiática e de interesse da sociedade brasileira e gaúcha. Em especial pelo tratamento que a mídia deu ao acontecimento, e, ainda, pelo assunto ter a possibilidade de carregar as características discursivas de dramaticidade e ficção. Nesse sentido tentaremos provar que a mídia pode, de certa maneira, também criar, construir e explorar dramaticamente o “acontecimento”. Nesta perspectiva de construção e dramatização do acontecimento a pesquisa vai utilizar o pesquisador francês Patrick Charaudeau (2006). Para que esta análise fosse realizada foi delimitado o período de dois de agosto a dois de setembro. Esse intervalo de tempo foi o período em que a Gripe A teve maior proliferação e repercussão na vida dos gaúchos. Por meio desta análise, a pesquisa pretende encontrar as características discursivas do texto de ficção, a dramaticidade literária em meio ao texto e as reportagens do jornal. Onde existe a intenção de demonstrar que jornalismo não é apenas factualidade e objetividade, mas sim carrega consigo também subjetividade e traços do discurso ficcional. A pesquisa tentará entender porque existe dramatização por parte da mídia. Do mesmo modo, o papel da narrativa dramatizada em torno da ação da mídia que busca o espetáculo. Para isso, será feita uma análise do porquê o assunto se repetir muitas vezes em um espaço nobre do jornal, a capa, e que propriedades o assunto carrega para ser notícia relevante em muitas ocasiões. Para isso, recorrerei ao teórico português Nelson Traquina, que fala sobre critérios de noticiabilidade. E a mídia irá usar como critério de seleção de notícias para o assunto Gripe A o lado inusitado, pitoresco, de relevância social entre outros. Por fim e a despeito da pesquisa principal, algumas questões podem surgir em torno de temas, tais como: ficção e história, objetividade e subjetividade, parcialidade e


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imparcialidade. Essas discussões são inerentes ao jornalismo em geral e ao público, uma vez que o status de veracidade a determinados acontecimentos já são debatidos e relativizados inclusive em teorias mais recentes da história. Nesse sentido, esse trabalho nada mais faz do que reverberar esse debate tentando atribuir mais um enfoque ou pontos para fundamentar estas discussões sem, no entanto, buscar encerrá-las.


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2 - NARRATIVA DRAMATIZADA: O HIBRIDISMO ENTRE JORNALISMO E LITERATURA O jornalismo é a atividade responsável por retratar a realidade, em que o jornalista acredita reproduzir os fatos de uma maneira fidedigna como eles acontecem no mundo natural, para explicar este comportamento e a postura deste indivíduo comunicador recorremos ao pesquisador e teórico Nelson Traquina (2005): O ethos dominante, os valores e as normas identificadas com um papel de árbitro, os procedimentos identificados com o profissionalismo, faz com que dificilmente os membros da comunidade jornalística aceitem qualquer ataque à teoria do espelho porque a legitimidade e a credibilidade dos jornalistas estão assentes na crença social de que as notícias refletem a realidade, que os jornalistas são imparciais devido ao respeito ás normas profissionais e asseguram o trabalho de recolher a informação e de relatar os fatos, sendo simples mediadores que “reproduzem” o acontecimento na notícia (TRAQUINA, 2005, p.149).

A atividade jornalística acredita e se propõe a apresentar ao público os fatos assim como eles acontecem nas esferas sociais e reais, almejando suprimir toda a subjetividade existente na comunicação humana e ser o mais fidedigno possível aos acontecimentos. Para isso, na mídia impressa, foi criada uma forma estrutural de escrever textos na qual as informações iriam ser entendidas pelo leitor, de modo rápido e claro que não deixaria dúvida sobre os acontecimentos e se manteria informado. Essa forma de redação chamou-se lead uma estrutura de texto que busca ser objetiva, ao mesmo tempo em que tenta eliminar toda a subjetividade, respondendo as perguntas básicas: O quê, quem, quando, onde, como e porquê. Isso trouxe ao jornalismo uma mecanização do processo prático e técnico, no qual o jornalista se intitula como o observador e transmissor da realidade. Nilson Lage (2005) fala que o lead é o relato do observador: A origem do lead não está relacionada à tradição literária – ao épico, ao lírico, ao trágico, ao dialético – mas ao uso oral, isto é, à maneira como, numa conversação, alguém relata algo a que assistiu (LAGE, 2005, p.73). A tentativa de ser preciso no relato, ostentou a ideia de fazer do jornalismo uma ciência praticamente exata, procurando desta maneira, omitir toda as instâncias humanas que poderiam prejudicar o processo de uma comunicação eficaz. Nesta nova estrutura textual não haveria possibilidade da fuga do tema, a técnica textual não abria probabilidades para digressões do seu narrador. Bulhões afirma que o “lead é o golpe de misericórdia no velho nariz de cera” (BULHÕES, 2007, pág. 137).


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É o que expõe Vicchiatti (2005) através do relato das informações trazidas por Clóvis de Barros Filho, que contribuem para se ter um ideia de como funciona as redações nas décadas anteriores: No século passado, a objetividade era tratada de forma mais rígida. Aos informadores cabia refletir “objetivamente” sobre os fatos, de forma linear, sem interpretações, adjetivações e valorações. Não se podia realizar juízo de valor, não se podia opinar; esse âmbito ficava reservado aos editorialistas. Clóvis de Barros Filho, em seu livro Ética na comunicação, cita o jornalista americano Lincoln Steffens, que em sua autobiografia escreveu sobre sua juventude no New York Evening Post, no ano de 1980: “Os repórteres tinham de informar sobre a notícia que ocorria, fazendo-o como máquinas sem preconceito, cor ou estilo; todas iguais. O humor ou qualquer traço de personalidade em nossos artigos era detectado, refutado e suprimido”. A partir desse depoimento, surgem as perguntas: seria essa a forma ideal de se fazer jornalismo? Estariam certos os nossos antecessores sobre a objetividade jornalística? É difícil entrar no mérito da questão, mas pode-se avaliar que apesar dessa convicção sobre a existência da objetividade, é possível considerá-la mais como uma utopia do que como uma ação real, pois o ser humano, por mais que tente, nunca conseguirá reproduzir uma notícia como uma “máquina sem preconceito”, como afirma Steffens (VICCHIATTI, 2005, p.68).

Mas esse tipo de jornalismo que os teóricos da objetividade proferem como correto e padrão é o que interessa ao público? Assim tem sido a postura dos jornalistas em relação à notícia nos dias atuais? Pode-se dizer que jornalismo é precisão, coesão, imparcialidade, sem possuir modulações de subjetividade? Será que o jornalismo não perdeu um pouco da cientificidade desejada no passado e se tornou algo diferente? O que se presencia é que as fronteiras da realidade têm sido rompidas e se misturado com o espetáculo, encenação, manipulação, dramatização e ficção. Como na carta de Pero Vaz de Caminha na qual Rildo Cosson (2001) afirma: Documento, crônica, notícia, relato entre o que viu e o que queria ver, a Carta de Caminha é o primeiro texto de uma longa série narrativa que vai misturar imaginação e realidade, e vai apagar a nitidez das fronteiras dos gêneros e dos discursos que separam jornalismo e literatura no Brasil (COSSON, 2001, p. 11). Pero Vaz de Caminha ao descrever a nova terra, salientou em suas cartas aquilo que chamou sua atenção, o que entendia como importante deixando passar e não expondo outros fatos e detalhes os quais considerava insignificantes, construindo assim um relato subjetivo do lugar. Essa tentativa que o universo jornalístico faz em relatar os fatos objetivamente não elimina a subjetividade, no caso do texto jornalístico ela é apenas suprimida conforme Nilson Lage (2005) explica: “No discurso noticioso, os elementos de subjetividade não desaparecem, nem poderiam, mas são reduzidos ao mínimo: para isso, combina-se método de apuração e técnica de redação concentra-se o foco do discurso no referente factual” (LAGE, 2005, p.82).


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É a limitação e a impossibilidade do comunicador em conseguir retratar os fatos como eles acontecem na realidade e na natureza. É a versão e percepção do observador que marca o acontecimento com as suas próprias impressões e escolhas, isso é não poder se isentar do fato e assim perdendo a neutralidade do jornalismo, o qual Arbex Júnior (2005) diz não existir: Não existe o “observador neutro”. Testemunhar um evento é também construí-lo segundo o “aparelho psíquico” e a formação social e cultural da testemunha. Seria equivocado, por isso, opor radicalmente, de forma maniqueísta, uma suposta “neutralidade objetiva” daquele que presencia diretamente um acontecimento à “intecionalidade manipuladora” da câmara de televisão (ARBEX, 2005, p.35).

A construção do texto jornalístico se dá a partir da visão de mundo do jornalista, em que existe uma série de decisões cabíveis ao comunicador. Por isso, a notícia não deixa de ser também uma construção individual do comunicador. Carlos Alberto Vicchiatti (2005) vai além e afirma que o texto jornalístico relaciona elementos de manipulação e persuasão: A manipulação nada mais é do que a capacidade de usar a persuasão como uma aliada. O texto jornalístico é sempre construído pelo ponto de vista de quem escreve, nunca se apresentando de forma totalmente parcial e objetiva. (...)Não há neutralidade quando se escreve, mas o ponto de vista de quem escreve, pois o enunciador tem uma visão de mundo e manifesta-a em seu texto. (...) mostra-se na seleção dos dados relatados e na organização textual. (...) Tudo isso mostra que, mesmo quando o enunciador não toma partido explicito, o enunciado manifesta um ponto de vista, uma visão de mundo (VICCHIATTI, 200, p.28).

Neste sentido, pode se perceber que o jornalismo atual carrega uma perspectiva de dramatização. O que é dramatização? A dramatização é originária da palavra “Drama”, que em grego quer dizer “ação”. A Dramatização oriunda da tragédia grega, onde os atores colocavam sentimentos e o objetivo era sensibilizar e emocionar a plateia, é o gênero literário que não perdeu a sua função, mas, que desde a antiguidade tem despertado os mais variados sentimentos dos povos. E encontrado espaço e utilização por muitas mídias primeiramente o teatro e depois os livros, o cinema, o rádio e a televisão. A ficção tem sido o ingrediente principal, a matéria prima, que tem dado tempero e sabor para narrativa, mas quem disse: “que não seria possível dramatizar a realidade”? Em muitos momentos o jornalismo atual passou a ser a realidade dramatizada pelas mídias. Na perspectiva de que as pessoas não apenas desejam se emocionar e se identificar com o mundo da ficção, mas ambicionam sentir a sensação de adrenalina, euforia e mistério de um mundo tingindo pela realidade, no qual vai encontrar através das notícias dramatizadas. Neste sentido, “o interesse do leitor migrou para a realidade vivida” (BULHÕES, 2007, p. 168). Porém tudo isso sem correr riscos, tal como explica José Arbex Júnior (2005): “O processo de identificação permite viver certas emoções sem correr riscos, no isolamento de


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sua casa e cercado de todas as garantias (nada mais conhecido do que o enredo de uma telenovela” (ARBEX JUNIOR, 2005, p.50). Usando o processo de identificação, o cinema resolveu contar a realidade, quando propõe contar a vida de pessoas reais no plano físico, essas com uma vida normal, mas que quando relatadas por essa mídia tornam-se personagens fantásticos e encantadores. É daí que surgem os mitos, heróis e vilões, guerreiros e monstros ou lugares paradisíacos no imaginário popular através dos meios discursivos no qual a dramatização tem grande poder para construílos. É afinidade e semelhança das diversas mídias entre o factual e o ficcional no qual Bulhões (2007) fala: “Factualidade e ficcionalidade apresentam afinidades com outras mídias (cinema, televisão, fotografia, videogame). Ao padrão da cultura do espetáculo midiático que obsessivamente no instiga” (BULHÕES, 2007, p.178). Pois ao tentar recontar e transmitir uma história, a subjetividade transforma os acontecimentos. Assim o que era algo normal, passa a ser fruto do imaginário popular, uma construção simbólica e discursiva. E aquele fato se desdobrará em versões muito maiores que a versão original. É o conceito de verossimilhança que Patrick Charaudeau (2006) nos ajuda a esclarecer: A verossimilhança caracteriza-se pela possibilidade de se reconstituir analogicamente, quando o mundo não está presente e os acontecimentos já ocorreram , a existência possível do que foi ou será. Essa validação constrói um real de suposição, de ordem alética, sendo a verdade alguma coisa da ordem do possível. Os meios discursivos utilizados para entrar nesse imaginário remetem ao procedimento de reconstituição, que diz: “eis como isso deve ter acontecido” (CHARAUDEAU, 2006, p.55).

Através da dramatização ocorre uma valorização do acontecimento, quer ele seja ficção ou realidade. Ela não se detém apenas no que vai ser relatado, mas sim principalmente no como vai ser relatado. A dramatização não é resultado apenas das artes e das mídias, ela está presente no cotidiano do homem, de um modo bem simples, que tornou-se em algo muito natural e corriqueiro. Quer ver? No “babado” da festa do final de semana passado em que as amigas comentam. Na pescaria espetacular e mentirosa do seu sogro. Na fofoca da vizinha do lado. No gol espetacular que seu amigo fez no jogo do fim de semana. Tudo “cria” proporção exagerada na linguagem cotidiana, e apesar das pessoas não concordarem, mas elas adoram os fatos cheios de sentimentos e exageros. É por isso que as mídias entendem que só alcançarão o público se utilizarem da dramatização, conforme explica Charaudeau (2006): “Isso explica por que ela está marcada por um paradoxo; por um lado, pretende transmitir informação da maneira mais objetiva possível, e isso, em nome dos valores cidadãos, por outro, só pode


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atingir a massa se dramatizar a cena da vida política e social” (CHARAUDEAU, 2006, p. 243). Talvez esteja aí a fuga do ser humano. Ele que vive de rotina; casa, trabalho e escola... A menor ação que foge da normalidade vai ser contada e proclamada por esse indivíduo com proporções gigantescas e com grande carga de egocentrismo e dramaticidade. É o desejo de ser reconhecido, de ser visto como heroi, de ser invejado por amigos que tem suas vidas normais, que final semana ficam assistindo televisão. É a vontade de ser admirado. O homem apesar de lutar pela sua estabilidade e segurança, em algum momento da vida, deseja atirar tudo para o ar e pelo menos uma vez na vida viver uma aventura e fazer uma viagem de moto sem itinerário como a Che Guevara em Diários de Motocicleta. Só que para muitos falta coragem para ser protagonista. Então a maioria das pessoas encontram as aventuras em uma outra esfera chamada ficção. É a necessidade da mente humana em desejar a ficção. E a literatura é um instrumento para isso (BULHÕES, 2007, p.167). Desde crianças aprendemos a conviver com as narrativas. A palavra narrativa parece ser coisa de adulto, em que com seriedade as pessoas narram (ou contam) os acontecimentos. No entanto, crescemos ouvindo narrativas, claro que não tem esse nome, como diria as crianças ”esse nome é chato, isto é coisa de colégio”. Nilson Lage (2005) traz a origem da narrativa: “O texto narrativo origina-se do épico grego (por exemplo, o relato do périplo de Ulisses pelas ilhas do Mediterrâneo). É organizado em sequências, que correspondem a sucessão de fatos” (LAGE, 2005, p.50). Mas qual pequenino não gosta das historinhas contadas pela mãe ou pelo pai? Hora para fazer dormir, hora para ficarmos quietos. Todas essas narrativas (ops... Historinhas) vão gerando na mente humana o apreço pelo fantástico, pelo desconhecido, pelo mundo de mentirinha o qual é para o homem o real encontrado na terra dos sonhos e das imaginações. Cresce-se ligado ao imaginário e discurso ficcional, é a história do papai-noel, a fada dos dentes, as horripilantes histórias de assombração contadas por nossos avôs. E quando se descobre a leitura! Quando aprendemos a ler vamos entrar em outras realidades inimagináveis, quem nunca esteve no mar, irá mergulhar fundo nas histórias emocionantes de piratas, vai construir um arco-flecha para brincar de Robim Hood e provavelmente irá tomar uma surra do pai por acertar a cabeça da irmãzinha. Possivelmente irá dormir de luz acesa com medo do monstro do lago. E quando a professora da escola levar ao cinema, aquela tela


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enorme, vai se deparar com ficção pura, sofrerá de um encantamento e fascinação por mundos até então desconhecidos. O gosto pelo fantástico, pelo mundo da imaginação vai sendo internalizado na mente do ser humano e as fantasias irão acompanhar o homem até a desconhecida e amedrontadora “morte”. Está aí um dos fatores por que a mídia tenta inserir uma reportagem sempre como narrativa, é o valor de consonância no qual Nelson Traquina (2005) se refere: “A consonância é outro valor-notícia de construção. A lógica é a seguinte: quanto mais a notícia insere o acontecimento numa “narrativa” já estabelecida, mais possibilidades a notícia tem de ser notada” (TRAQUINA, 2005, p.93). A pesquisa pretende analisar a perspectiva de dramatização na narrativa no texto de jornalismo impresso. O que se presencia nos últimos anos é uma quebra do paradigma tradicional do jornalismo, onde se tem repensado e questionado o fazer jornalismo. Entra alguns fatores os quais vão influenciar a prática do jornalismo. Pode-se citar as novas mídias (celular, câmera digital, câmeras de segurança, internet) que vão ajudar a pensar a figura do jornalista como detentor absoluto das notícias, hoje na realidade qualquer “Zé-das-Couve” com uma câmera fotográfica pode ser jornalista, a pessoa tira a foto e pode mandar para qualquer jornal. Não interessa se ela está desfocada, sem flash, o que é importa é a informação, a qual a foto carrega. Daí o “Zé” ganha um “dinheirinho” e banca uma de repórter-fotográfico. É a desvalorização do profissional jornalista o qual se detém em apenas noticiar, conforme Vicchiatti (2005) cita Geoge Krmsky: A linha que divide entretenimento e jornalismo está se tornando cada vez mais frágil. Essa situação se fortalece na televisão, o que é preocupante. A desvalorização dos ideais jornalísticos torna o profissional da área um simples transmissor de notícias. “Hoje em dia, qualquer um que possui um computador pensa que é jornalista”, afirmou, em palestra, o jornalista George Krimsky, no Seminário sobre Ética na Imprensa, realizado em Itu, São Paulo, entre 17 e 19 de maio de 1996 (VICCHIATTI, 2005, p.66).

Também pode-se citar a questão da interatividade antes pouco utilizada nas mídias tradicionais, hoje explorada graças as possibilidades advindas da internet, o leitor não é mais o sujeito passivo que fica à espera da notícia, ele também pode gerar notícias. Aliás, na internet, qualquer pessoa pode trazer informações, seja para sites de notícias, blogs pessoais ou coletivos, sites de relacionamentos. O jornalismo ficou muito mais abrangente, em termos de participação, o poder do jornalista que era o de possuir as informações e ter a capacidade de publicá-las, está à disposição da comunidade. As coisas mudaram, a velocidade e o espaço


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virtual colocaram o cidadão comum não apenas como personagem das notícias (ou possível fontes), mas também como um construtor das mesmas. Para o jornalista não basta mais a velocidade para noticiar o famoso “furo de reportagem”, ou o espaço (mídia) que tenha para praticar seu trabalho, quer seja rádio, televisão, internet ou velho e bom jornal impresso. A disputa pelo público aumentou. Ele, o jornalista, precisa de algo a mais. O repórter tem que continuar noticiando os acontecimentos, mas agora de uma maneira diferente. Contar uma história, muitas pessoas sabem, mas contar uma boa história, aí o número caí lá embaixo. E essa técnica diferenciada vai ser vista na essência básica da reportagem, a “gloriosa narrativa”. É a capacidade do jornalista em construir uma narrativa que não está preocupada em atender a uma fórmula específica e fixa para produzir um texto. É o trabalho artístico que faz o jornalista ir além e retirar a essência e a beleza da literatura que contribuíram para as suas tarefas, conforme Vicchiatti (2005) explica: Histórias de paixão, de crimes, de violência, de heroísmo, de aventuras, de guerras ou de simples fatos cotidianos. Histórias transmitidas com a arte da palavra. Literatura ou jornalismo? Certamente não os temas das histórias contadas que definem a características de uma narrativa. Se, num passado recente, a linguagem empregada pôde ser determinante para a classificação do tipo de discurso, hoje, em um momento em que se discute a fragilidade do jornal impresso (para exemplificarmos com uma área do jornalismo) frente as modernidades tecnológicas, quando há uma perda sensível no número de leitores desse veículo, os limites que separam o jornalismo da literatura estão sendo transpostos em busca de uma narrativa esteticamente mais competente. Essa transposição surge do fato de alguns jornalistas ao não se contentarem em seguir os esquematismos de fórmulas rígidas de construção da narrativa jornalística, procurarem lançar um olhar inquieto às determinações de regras fechadas e buscarem enunciações atrativas com competência técnico-artística (VICCHIATTI, 2005, p.83).

O escritor e jornalista norte-americano Tom Wolfe (2005) iniciou a fazer alguns experimentos textuais no jornalismo pelos anos de 1960. Ele e uma série de outros jornalistas que sonhavam em tornar-se escritores tais como: Jimmy Breslim, Gay Talese, Truman Capote e Normam Mailer. Estes começaram a transfigurar a realidade, a participar das reportagens e, assim, esse processo culminou com o New Journalism. De certo modo, eles atiraram o lead na lixeira e mergulharam fundo na subjetividade, era também uma questão de estilo, de apreço por um texto mais solto, leve. Tom Wolfe (2005) diz que o estilo e estética no texto jornalístico eram desconhecidos na prática jornalística: “A reportagem realmente estilosa era algo com que ninguém sabia lidar, uma vez que ninguém costumava pensar que a reportagem tinha uma dimensão estética” (WOLFE, 2005, p. 22). E isso lhes garantiu um grande sucesso de leitores, mas também muitos críticos, por que na realidade toda novidade incomoda, era o caso do New Journalism. “O trabalho de


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Breslin levantou certo ressentimento vago tanto entre jornalistas e literatos ... vago porque não sabiam o que ele estava fazendo... só que, de algum jeito perverso e barateador, a produção do sujeito era literária” (WOLFE, 2005, p. 26). A turma de Wolfe quebrou um paradigma e trouxe para o jornalismo tudo aquilo que era encontrado na literatura e realmente acarretou humor, curiosidade e mistério para as páginas dos jornais. Imagina o cidadão antes de ir para o trabalho, morrendo de curiosidade para ler mais uma capítulo do O teste do ácido do refresco elétrico do mesmo Tom Wolfe, ou então chegando atrasado porque perdeu a hora por não conseguir parar de ler Á Sangue Frio de Truman Capote. Esses autores trouxeram a fruição ao texto jornalístico, talvez daí a discussão de se misturar jornalismo com entretenimento. Enfim as barreiras da objetividade eram devidamente derrubadas. E o prazer e a beleza literária invadiam o cotidiano dos cidadãos americanos, isso todas as manhãs a cada capítulo, ou melhor, a cada novo exemplar de jornal. Era o encanto visto no cinema, na literatura de ficção que encantava os leitores, vestidos da credibilidade e seriedade do jornalismo e enfeitados com o mito do “real”. Os adeptos do New Journalism não apenas escreviam estilisticamente mais agradável, mas eles faziam parte da história, eram observadores, no entanto sua presença estava marcada no texto. Eles faziam sugestões aos personagens, levantavam prováveis questionamentos e decisões que permeavam o pensamento das pessoas que estavam na sua narrativa. Algo ligado às técnicas de apuração que exigiam um esforço maior do repórter, conforme Wolfe (2005) explica: As coisas mais importantes que se tentava em termos de técnica dependiam de uma profundidade de informação que nunca havia sido exigida do trabalho jornalístico. Só através das formas mais investigativas de reportagem era possível, na não-ficção, usar cenas inteiras, diálogos extensos, ponto de vista e monólogo exterior. Por fim, eu e outros seriamos acusados de entrar na “cabeça das pessoas”. (WOLFE, 2005, Pág.38)

O Jornalismo Gonzo surge como uma vertente do New Journalism. Inventado por Hunter S. Thompson1, um jornalista diferente de tudo o que já existiu anteriormente. Este

1 O jornalismo Gonzo é uma versão mais radical do New Journalism. Ele foi criado e popularizado por Hunter S. Thompson, um excêntrico e brilhante repórter da revista Rolling Stone, que se suicidou em fevereiro de 2005. Pode-se dizer que ele levou até as últimas gotas de sangue o seu estilo de reportagem, caracterizado por um envolvimento pessoal com a ação que estava descrevendo, sem medir conseqüências, por mais perigosas que fossem. (PENA, 2008, P.56)


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escritor respirava e transpirava a reportagem, participava de muitas confusões, caso houvesse uma briga, lá estava ele tomando murros e dando pontas-pé, precisando se fantasiar lá estava ele com um disfarce para conseguir outra reportagem curiosa. Isso tudo para trazer informações diferentes e detalhes interessantes. Thompson ficou um ano e meio com uma gangue de motociclistas, e não se deteve apenas em observar a ações da quadrilha, foi participante dos delitos, bebedeiras e drogas. Desta convivência escreveu o livro Hell's Angels: The Strange and Terrible Saga of the California Motorcycle Gang editado pela editora Random House em 1967. Hunter S. Thompson fez tudo o que não se poderia fazer no jornalismo tradicional, ele se envolvia nas suas matérias “até os ossos”. Não era apenas o repórter, era sim um personagem inserido na sua própria narrativa, sugeria, se posicionava e brincava com o acontecimento. Felipe Pena (2008) explica essa postura do autor do Jornalismo Gonzo: Jornalismo Gonzo consiste no envolvimento profundo e pessoal do autor no processo da elaboração da matéria. Não se procura um personagem para a história; o autor é o próprio personagem. Tudo que for narrado é a partir da visão do jornalista. Irreverência, sarcasmo, exageros e opinião também são característicos do Jornalismo Gonzo. Na verdade, a principal característica dessa vertente é escancarar a questão da impossível isenção jornalística tanto cobrada, elogiada e sonhada pelos manuais de redação (PENA, 2008, p.57).

Há quem diga que o papel da imprensa é exclusivamente relatar os acontecimentos. Sempre sendo um observador dos acontecimentos que mantêm uma determinada distância, buscando adquirir imparcialidade sem jamais condenar, fazer juízo. Reivindicações e envolvimento não são permitidos para o jornalismo, mas ninguém avisou nada a esse pessoal do Novo Jornalismo Novo. É o envolvimento do novo jornalista novo no qual Felipe Pena (2008) cita: O novo jornalista novo se envolve até o talo com sua matéria e seus entrevistados. É o que os teóricos chamam de close-to-the-skin reporting, cuja tradução mais literal seria reportagem perto da pele. É preciso sentir os poros abertos, a trilha epidérmica, o cheiro de suor. Nas palavras de Boyton, deve-se fazer uma imersão completa e irrestrita, na tentativa de construir uma ponte entre a subjetividade perspectiva e a realidade observada. Para isso, no entanto, o repórter encara a fronteira entre as esferas públicas e privadas de forma mais arrojada, quase propondo o seu desaparecimento, o que não é uma tarefa fácil (PENA, 2008, p.60).

O jornalista do Novo jornalismo Novo se posiciona diante do acontecimento, é o sujeito engajado nas causas que dizem respeito a sua comunidade, o tom do seu discurso é cobrança e reivindicação. O perfil desse sujeito é de ir para o gueto, favela, fazer conhecer a


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causa dos excluídos, situar o leitor com a realidade vivida por esses sujeitos que se escondem na escuridão das grandes periferias. É trazer a pobreza, o vocabulário sujo, a miséria para as páginas dos jornais é fazer com que o leitor tire suas conclusões. O Novo Jornalismo Novo explora as situações do cotidiano, o mundo ordinário, as subculturas. Mas não envereda pela abordagem do exotismo ou do extraordinário, encarando os problemas como sintomas da vida americana. O objetivo é assumir um perfil ativista, questionar valores, propor soluções (PENA, 2008, p.60).

Daí ficam as perguntas, o que é melhor, o texto tecnicamente objetivo, imparcial, impessoal, onde as pessoas lêem e logo esquecem? Ou escrever uma narrativa com detalhes de objetos e pessoas, onde o jornalista toma partido se engaja em uma causa, mas ao mesmo tempo provoca, instiga e sensibiliza o leitor? Não seria esse sujeito, o jornalista do futuro? Para Vicchiatti (2005) há, portanto, uma mudança no perfil do jornalista atual, tal como afirma abaixo: A sociedade atualmente necessita do jornalista pluralista, aquele que tenha condições de enxergar algo mais, além daquilo que a realidade apresenta em seu cotidiano. O jornalista do futuro deve ser engajado e consciente de seu importante papel social, já que é um formador de opinião (VICCHIATTI, 2005, p. 50).

Para essa postura do jornalista pluralista e ativista entram outros questionamentos, sobre esta conduta. Seria isso ético? (Aqui seria outra discussão). Como sobreviveria um jornalismo “objetivista” diante de um mercado tão apelativo e espetacular? Existiria lugar para o jornalismo impresso, em meio a força apelativa das outras mídias as quais tem um grande poder tecnológico (internet) e popular (rádio e televisão)? Pode-se fazer um jornalismo estético, interessante, engajado nas causas sociais e mesmo assim não ferir a ética? A força e a imposição das imagens, o tom melancólico da voz que chora pela fatalidade, tudo isso gera números e aumento de audiência. A mídia sabe usar a dor alheia para sensibilizar o seu público. Existe um debate ético aí: não mostrar para preservar as fontes e tudo fica no desconhecimento da comunidade ou expor as fontes e trazer os fatos ao conhecimento público. A mídia impressa ao dramatizar sua narrativa vai ao encontro do que as outras mídias fazem. O povo está interessado nas histórias da vida real, e o jornalismo se apropria disso e vai narrar o “real” com grande carga de dramaticidade, pois a dramaticidade está na forma como as mídias descrevem a realidade, explica Charaudeau (2006): Isso porque o dramático não está na realidade, mas na descrição que fazemos dela. Uma guerra é uma guerra, e pode ser indiferente àqueles que não se sentissem diretamente implicados por ela. Podemos escolher mostrá-la, cortá-la, comentá-la acentuando-se mais ou menos o estado das vítimas, os desastres, os culpados, os socorridos etc (CHARAUDEAU, 2006, p.264).


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O jornalismo impresso carrega o valor da credibilidade, pois esta é a identidade do jornalismo. No entanto, tem que trabalhar também com o inusitado, com tudo aquilo que chama atenção dos seus prováveis leitores, para isso muitas vezes o jornalista não vai ser tão fiel ao acontecimento, mas vai valorizá-lo. É a “sinuca de bico” a qual divide o jornalista, é a dúvida sobre a decisão em que deve tomar, na qual Patrick Charaudeau (2006) explica: A responsabilidade se prolonga nos modos de tratamento do acontecimento relatado. Entre o risco de uma redundância que tiraria a dramaticidade da informação (como reportagens ao vivo) e o da montagem que levaria à enganação (como nos reality shows), o relato midiático deve resolver a contradição que está inscrita em seu próprio contrato: em nome da credibilidade, deve mostrar a realidade numa relação de transparência em nome da capatção, carrega os tentos no drama humano (CHARADEAU, 2006, p.272).

Neste sentido, não sabemos mais o que é ficção? E o que é realidade? Será que o jornalismo trabalha apenas com aquilo que é verdade? Ou a partir do momento que o repórter começa a narrar o fato repassa de sua própria intervenção e o acontecimento não é tão veraz, como os teóricos pregam, mas adquiri um viés de verossimilhança. É a fusão dos mundos reais e a ficção que Patrick Charaudeau chama de verossímil: “É o que pode ser chamado de verossímil, ou de verdadeiro verossímil, o que faz com que se fundam os dados da ficção com a ilusão do autêntico, que dá um suporte de realidade tangível ás figuras de identificação da ficção” (CHARAUDEAU, 2006, p. 273). Nos séculos passados pode-se analisar que muitos poetas passaram pelo jornalismo e deixaram as suas marcas e sua importância para a narrativa. Ora escrevendo ficção, ora trabalhando com o cotidiano através das crônicas e artigos, a literatura esteve sempre presente no jornalismo. A magia e o encanto literário se refugiavam nos jornais antigos, para poetas que não conseguiam viver da sua arte e encontraram sustento financeiro na prática do jornalismo. Felizmente com todos esses movimentos os quais o jornalismo vem passando, Novo Jornalismo, Novo jornalismo novo e Jornalismo Gonzo, o fazer jornalismo ficou mais agradável e o saborear desse material muito mais interessante. A dramatização vai fazer parte da narrativa jornalística, dando movimento, suspense, provocando o interesse do leitor. Como diz Bulhões (2007) : “A reportagem assimilará traços da ficção e fantasia. Porém afigura-se como uma reprodução da verdade. A vida verdadeira será, pois, um espetáculo narrativo empolgante” (BULHÕES, 2007.p.112, 113).


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O leitor irá se empolgar em ler notícias de ação, como de um salvamento do bebê feito pelo menino vestido de Homem Aranha2. Vai desconfiar e suspeitar de quem são os verdadeiros assassinos do secretário Eliseu3, como se estivesse folhando os livros de Sherlock Holmes. Vai ficar tenso e angustiado com o sequestro da garota Elóa4, sem saber o que irá acontecer como se estivesse assistindo um filme de suspense. Vai chorar com as lágrimas da mãe, pela morte da menina Isabella5, como se estivesse lendo uma história triste de uma mãe que teve sua vida destruída. Irá odiar e repugnar o casal Nardoni desejando a condenação no julgamento. No júri vai implorar para que justiça seja feita e o casal seja condenado. Irá se sensibilizar com as mortes provocadas pela terrível gripe A6, que impedia que as pessoas realizassem seus projetos e sonhos. São os fatos que Arbex Junior (2005) diz serem construídos através da comunicação: Fatos, existem, mas não como eventos “naturais”; eles se revelam ao observador – e são, eventualmente, por ele construídos -, segundo o acervo de conhecimentos e o instrumental psicológico e analítico que por ele podem ser mobilizados. Fatos existem, mas só podemos nos referir a eles como construções da linguagem. Descrever um fato é, ao mesmo tempo, interpretá-lo, estabelecer sua gênese, seu desenvolvimento e possíveis desdobramentos, isolálo, enfim, como um ato, uma unidade dramática (ARBEX JUNIOR, 2005, p.107).

2 Um menino de cinco anos resgatou um bebê de ano e dez meses de dentro de uma casa em chamas no município de Palmeira, no Planalto Serrano de Santa Catarina, em novembro de 2007. Fonte: http://forum.cifraclub.com.br/forum/11/174496/ 3 Secretário da Saúde da cidade de Porto Alegre, morto em tiroteio em suposto assalto no final de fevereiro de 2010. 4 Estudante sequestrada e mais a amiga Naiara pelo ex-namorado de Elóa, Lindemberg Alves, 22 anos. Em seqüestro que durou cerca de 100 horas com o final trágico da morte de Elóa. 5 Isabella Nardoni, menina morta depois de ser atirada do 6º andar de um prédio em São Paulo, em março de 2008. 6 A gripe A, ou gripe suína como era reconhecida até 30 de abril de 2009, é causada pelo vírus Influenza tipo A/H1N1 modificado, denominado A/CALIFORNIA/04/2009. Esse, resultante da união de material genético de cepas da gripe humana, aviária e suina; extrapolou a barreira de espécies e passou a atingir seres humanos. Fonte: http://www.brasilescola.com/doencas/gripe-a.htm


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O jornalismo utilizando a narrativa dramatizada vai envolver a todos. As pessoas reais passam a ser personagens e a vida real passa ser o acontecimento produzido, maquiado e filtrado pela ação da mídia, fazendo parte de uma grande tela de cinema, em que todos estão observando e ao mesmo tempo envolvidos pela história da vida. As fronteiras da ficção serão transpostas pela realidade e pela ficção. Foi um momento de cumplicidade catártica absoluta com os telespectadores: a representação da vida deixou de ser apenas representação para ser a própria vida. Todas as distâncias entre ficção e “vida real” – aqui entendida como mundo empírico, fora da tela- foram apagadas. A telenovela virou “reportagem”, assim como os telejornais, naqueles dias, viraram os capítulos mais “quentes” da telenovela (ARBEX JUNIOR, 2005, p. 45,46).

Esse é o poder da narrativa dramatizada, a capacidade de atrair leitores e envolve-los. Fazer dos acontecimentos maiores do que realmente são. Quebrar a barreira da ficção e transformá-la em uma “realidade” é o poder dos meios de comunicação. É a capacidade de dizer no que se deve pensar e também condicionar o raciocínio sobre como pensar.


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3 - GRIPE A: ACONTECIMENTO MIDIÁTICO DRAMATIZADO A presente pesquisa pretende investigar, num tom ensaístico, mas sem perder a cientificidade de um trabalho acadêmico, a narrativa de dramatização no caso da Gripe A, através de uma análise do jornal Zero-Hora, no período de 2 de agosto a 2 de setembro. O trabalho de análise será construído através de uma narrativa em que será feito o cotejo da narrativa jornalística com a narrativa ficcional e dramatizada, com o encadeamento das reportagens, mais as teorias dos autores utilizados na pesquisa e as considerações deste pesquisador. O que motivou este trabalho a considerar a dramatização na narrativa do texto impresso foi certas reflexões nesses quase quatro anos de academia sobre a ação da mídia. E essa observação ocasionou estranheza devido aos atos da mídia estarem em controvérsia da maioria das teorias do jornalismo tradicional. No início do curso de jornalismo é postulado ao acadêmico, como: um jornalismo imparcial, objetivo, sem adjetivações, narrado em terceira pessoa no singular para existir um distanciamento do repórter com o fato em si, enfim um jornalismo sem exageros e sem espetacularizações. Porém ao confrontar as teorias do fazer jornalismo com o trabalho dos ditos profissionais da mídia os quais permeiam a atualidade, é deparado outras ações, nas quais existe um jornalismo que não é tão imparcial assim como os teóricos pregam, mas sim muitas vezes tendencioso e fazedor de juízo e acusações fora do espaço da opinião pessoal (crônicas e artigos). Um jornalismo que gosta de espetáculos, excessos e exorbitâncias, de emoção e adrenalina. Para exemplificar esta conduta jornalística, pode-se citar as coberturas de guerra na qual Arbex Júnior (2005) explica: O salto tecnológico, da qual a CNN é símbolo e instrumento, permitiu apresentar a guerra do golfo como uma espécie de telenovela sinistra que prometia renovadas emoções no próximo capítulo. A cobertura “ao vivo” do conflito consagrou, definitivamente, a “espetacularização” da notícia. E, exatamente por ser um espetáculo, a transmissão das imagens submete-se às mesmas regras que se aplicam a um show (ARBEX, 2005, p.31).

E esse jornalismo apresentado no dia-a-dia que tem por ser objetivo e se deter em apenas informar. Neste sentido as notícias proporcionam o espetáculo e ao mesmo tempo, opinam, só que disfarçadamente através do jornalismo informativo (reportagens e notícias). Observa-se também que muitos assuntos vão ser repetidos, mostrados até a exaustão e terão vários desdobramentos, virando assim polêmica, boato, discussão e mito. Onde está a objetividade dos fatos? Pode se pensar: será que isso é verdade, ou mentira (ficção)? O porquê


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da notícia adquirir proporção maior, o acontecimento não parecia uma coisa simples? Por que tanta repetição do mesmo assunto? Por que a mídia faz isso? Como ela tem essa capacidade? Essas perguntas que deixam qualquer acadêmico de jornalismo perdido e confuso. Foram essas indagações que motivaram o presente trabalho. O aluno chega em casa da faculdade de jornalismo. Liga a televisão. Está sendo noticiado o sequestro de quatro adolescentes (2 meninos e 2 meninas) por um jovem que não era “bandido” segundo a visão dos meios de comunicação, mas um moço trabalhador que apenas está revoltado com um fim de namoro, enfim um apaixonado que desejava ter de volta o amor de sua amada1. O futuro jornalista estudou na aula anterior, que o texto jornalístico tem que ser rápido, claro, fiel aos fatos, sem rodeios e digressões, mas ele se depara com uma notícia mostrada na televisão, aonde não se enfatiza apenas o que está acontecendo, onde, quem são, quando e por que, algo que não detêm a responder as perguntas do lead. Mas, que vão muito mais além, mostra-se um contexto, um histórico e “cria-se personagens”, que ganham características, que possuem emoção (que se apaixonam, que tem medo, que são abandonados, que estão tristes) e que a mídia faz total questão de salientar. Onde o telespectador observa, sente comoção, torce por um final feliz. É a vida real se transformando em novela, na qual Arbex Juníor (2005) afirma: Foi um momento de cumplicidade catártica absoluta com os telespectadores: a representação da vida deixou de ser apenas representação para ser a própria vida. Todas as distâncias entre ficção e “vida real” – aqui entendida como mundo empírico, fora da tela- foram apagadas. A telenovela virou “reportagem”, assim como os telejornais, naqueles dias, viraram os capítulos mais “quentes” da telenovela (ARBEX, 2005, p. 45,46).

Deste modo ocorre também um processo de identificação daquela noticia com o público. Da mistura de ficção e realidade, das instâncias humanas da subjetividade que fazem parte da comunicação humana. O que é isso no jornalismo? A pesquisa tentará responder como se dá essa narrativa de dramatização. Foi escolhido o jornal impresso Zero-Hora como corpus da pesquisa, primeiramente pelo gosto e apreciação deste pesquisador pela leitura e pela aspiração de no futuro trabalhar com a mídia impressa. E o porquê do Jornal Zero-Hora? Por se tratar de um veículo de suma importância para a comunidade do estado do Rio Grande do Sul e por esse ser uma mídia que tem grande inserção junto ao público gaúcho e ser um forte formador de opinião junto a esta

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Caso Lindembergue


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comunidade. E também por se tratar de um dos jornais mais importantes do estado e com mais de 40 anos de circulação sendo expoente de credibilidade jornalística. Por que a gripe A? O ano passado a gripe gerou muitos óbitos em todo o mundo. A Gripe A surgiu no México primeiramente como gripe suína2, devido ao vírus do tipo influenza H1N1 (antiga gripe espanhola) humano ter infectado porcos e estes contaminarem os seus tratadores. A “Influenza A” surgiu em 1918 com a nomeação de “gripe espanhola”3 que matou mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo, por o vírus ter essa origem irão chamar de Gripe A. Mas como existem vários tipos de vírus Influenza A, habitando entre humanos, aves e suínos já há muito tempo. E também pelo vírus se tratar de uma combinação de material genético humano, suíno e de aves, a ciência vai chamar o vírus de H1N1, que mais tarde dará o nome conhecido hoje por Gripe H1N1. A pesquisa vai trabalhar com o termo “Gripe A”, por ser a expressão mais utilizada no jornal Zero-Hora. A de se pensar porque o jornal usa o termo Gripe A várias vezes e o nome cientificamente correto usa em menor proporção Gripe H1N1? Talvez porque a Gripe A é o mesmo termo dado a Gripe espanhola. Qual é a intenção do Jornal? Será causar medo? Tanto se falou nesta dita gripe que várias polêmicas surgiram no senso comum; alguns diziam ser um vírus criado para utilização em futuras guerras, outras pessoas com uma visão apocalíptica associavam a mais uma doença para marcar o final do mundo e consumir a raça humana. A Gripe A gerou medo nas pessoas de que fosse uma grande epidemia como muitas que ocorreram em toda história tais como; gripe espanhola, gripe asiática, gripe aviária, peste negra, doença da vaca-loca, AIDS e que iria assolar a população mundial. Uma doença que até então sem cura e sem vacina, e várias pessoas morrendo todos os dias. O medo assolou e assombrou a população mundial. Era o vírus que em determinadas situações climáticas favoráveis poderia resistir muitos dias e contaminar qualquer pessoa que tivesse algum tipo de contato. Era o medo de dar um aperto de mão, de tocar na maçaneta da porta. “O vírus indestrutível”, o “grande vilão” da história.

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De acordo com o site: http://www.combateagripesuina.com.br/category/o-que-e-gripe-suina/ acessado em 10/04/2010.

3 Gripe espanhola por fazer mais vitimas na Espanha.


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Isso foi gerando verdadeiro pânico nas pessoas. Algumas perguntavam; Mas isso não é aqui? É bem longe do Brasil! É verdade que na Argentina essa gripe matou várias pessoas? O medo foi fechando o cerco. Até que houve as primeiras contaminações em brasileiros e consequentemente os primeiros falecimentos, foram mais de duas mil mortes no Brasil no ano passado. Foi um pavor só! O cenário nas ruas era de pessoas usando máscaras como se estivessem em um grande hospital tendo que tomar o maior cuidado possível para não serem contaminadas, as pessoas tinham medo de conversar umas com as outras, ficaram mais em casa, restringiram suas saídas (passeios) apenas para aquilo que era mais necessário. No contexto gaúcho a gripe fez muitas vítimas sendo um dos estados com maior número de mortos. Por se tratar de um estado com condições climáticas de muito frio propicias à propagação do vírus, o gaúcho se viu acuado, com medo da tal de “gripe do porco” como diria o bom gaudério dos pampas. A pesquisa vai cotejar a narrativa dramatizada em relação às reportagens de capa da ZH no período. Por que o período de 2 de agosto a 2 de setembro? A primeira morte confirmada no país vai acontecer no Rio Grande do Sul no final de junho, mas o período que foi escolhido para pesquisar é devido primeiramente por se tratar de uma época de muito frio, do meio para o final do inverno gaúcho. Também por causa da gripe foi o período em que foram prolongadas as férias de inverno em todas as escolas e universidades do estado. Onde as instituições públicas tiveram que restringir e adaptar seus atendimentos com o público, igrejas tiveram suas reuniões delimitadas e reduzidas em dias e em número de fiéis participantes. Depois pela repetição e divulgação que o assunto teve na mídia nesse intervalo de tempo. A pesquisa vai comprovar que nas capas da ZH a gripe vai aparecer 22 vezes, sendo o assunto de grande relevância para a comunidade gaúcha nesse intervalo de tempo. O trabalho começa a pesquisar no dia 2 de agosto de domingo com a reportagem de capa nº 16050 com o título “Sonhos interrompidos pelo vírus”. O jornal traz uma grande foto em sua capa, onde estão os retratos das pessoas vitimadas pela gripe A. E com título de muita força e apelo emocional “Sonhos interrompidos pelo vírus”. Reproduzimos parte da reportagem e a foto abaixo:


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(SONHOS interrompidos pelo vírus. Zero Hora, Porto Alegre, 02 de agosto de 2009. Capa) VÍTIMAS DA EPIDEMIA As 25 vidas que a gripe interrompeu Para 25 famílias gaúchas, o vírus que assusta o Rio Grande do Sul, abarrotando os corredores de hospitais e postos de saúde e fechando as portas de escolas e universidades, mostrou a sua face mais cruel. Sorrateiro, o H1N1 tirou a vida de homens e mulheres. Não poupou sequer crianças. Somente em Uruguaiana e em Passo Fundo, enterrou os sonhos de 10 pessoas. Entre elas, três mulheres grávidas. A auxiliar de frigorífico Gerusa Buzini, 31 anos, morreu com o bebê, aos seis meses de gestação. Como ela, a comerciante Rose Cristina Cáceres Furquim, 36 anos, e a técnica de enfermagem Juliana de Fátima da Rosa Moraes, 25 anos, também não resistiram à gripe A, mas conseguiram, no leito de morte, dar à luz a dois símbolos de resistência à doença: Julia e Brenda, que crescem saudáveis para alívio dos demais familiares. Nas próximas páginas, Zero Hora traz os perfis dessas três mulheres e de outras 22 vítimas da gripe A, confirmadas até sexta-feira no Rio Grande do Sul. (AS 25 vidas que a gripe interrompeu. Zero Hora, Porto Alegre, 02 de agosto de 2009. geral, p.35.)

No primeiro parágrafo da reportagem, cria-se um personagem o qual não pode ser tocado, não pode ser detido e que atua em oculto. O grande vilão desta longa história, “o Vírus”, alguém imbatível que é a própria representação do mal. O agente que não tem piedade e impõe a terrível morte a todos aqueles que cruzam o seu caminho. Fica muito claro nesta narrativa que o repórter cria e faz do vírus um personagem, quando ele usa a expressão “vírus que assusta” pode-se deduzir que trata de alguém que impõe medo, que causa pavor, de uma pessoa, porém não é uma pessoa, mas sim um ser que apareceu para interferir e amedrontar as pessoas. A expressão “mostrou a sua face mais cruel” da ideia do monstro, que é implacável


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contra suas vítimas e que não tem piedade de levá-las e devorá-las até a morte. “Sorrateiro”4, traz a habilidade de alguém astuto e que não pode ser percebido, fazendo uma associação a ação rápida com que o vírus da Gripe A contamina as pessoas. O repórter claramente cria um personagem, quando ele traz especificidades e habilidades de uma pessoa para o vírus. Ao primeiro momento pode-se até se pensar que isto está sendo transcrito de um livro de ficção - cientifica em que foi criado um vírus indestrutível para matar pessoas. Na realidade isto é jornalismo, porém contado com o estilo da literatura, onde a construção do “real” tem suporte no “imaginário ficcional”. É a mistura de ficção com a realidade o qual Patrick Charaudeau (2006) diz e chama de verossímil: “É o que pode ser chamado de verossímil, ou de verdadeiro verossímil, o que faz com que se fundam os dados da ficção com a ilusão do autêntico, que dá um suporte de realidade tangível ás figuras de identificação da ficção” (CHARAUDEAU, 2006, p. 273). Esta pesquisa tem por um dos objetivos complementares, que é relacionar a subjetividade do texto jornalístico ao texto de ficção. Onde é o lugar dos monstros? Na literatura ficcional, no cinema, na televisão, no teatro, mas o trecho da reportagem acima não se trata de nenhum livro ficcional, mas sim é o recorte do jornal. O porquê do monstro? Por ser uma criatura destruidora e do conhecimento do imaginário popular, o qual por todos conhecerem poderão fazer uma comparação da representação do mal, conhecida na ficção. Mas o jornalismo não trabalha com ficção, então o que a ficção faz ali no jornal? É a construção do acontecimento juntando a ficção e dados da realidade a qual Felipe Pena (2008) cita: Os acontecimentos na contemporaneidade juntam as forças da informação e da “ficcionalização”. São construídos pelos meios de comunicação, mas também os constroem, Um duplo movimento, que só faz aumentar a crise epistemológica da operação jornalística, baseada na crença de poder reproduzir a verdade (PENA, 2008, p.118).

Poderia se dizer que é uma marca ficcional um estilo e recurso do repórter em que a reportagem apela para a figura do mal, o qual o monstro devorador de vidas é estampada na representação perfeita do vírus. Vicchiatti (2005) diz que o jornalismo vai além da técnica, e

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De acordo com o dicionário online Priberam: “Sorrateiro”: Que faz as coisas pela calada, que anda em pés de lã, matreiro, manhoso, velhaco. http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx acessado no dia 24 de março de 2010.


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que o jornalista necessita de imaginação e criatividade e esta bagagem cultural será repassada para a narrativa jornalística aperfeiçoada: A literatura não precisa representar apenas um modelo estético para a narrativa jornalística. Pode, também, ser uma fonte de abastecimento para o jornalista, na medida em que lhe possibilita um maior contato com o mundo, com suas realidades e seu imaginário. São livros que leu e as vivências enriquecedoras da fantasia e imaginação que provavelmente dão sabor aos textos que escreve. A formação acadêmica lhe desvenda os mistérios da técnica, que implica a maneira mais adequada de dar forma para melhor apresentar o conteúdo. Mas jornalismo vai muito além da técnica, necessita de uma grande parcela de imaginação por parte do jornalista para que a construção de seu texto não se restrinja à retratação fria e distanciada dos fatos (VICCHIATTI, 2005, p.89).

No segundo parágrafo a reportagem irá trazer o quadro dos mortos pela terrível gripe. Mas chama-se a atenção quando o repórter utiliza a expressão “enterrou o sonho de 10 pessoas”, a carga emotiva e dramatizada do discurso leva o leitor a uma sensibilização e comoção diante do cenário que está sendo mostrado e construído pelo jornal. Neste instante ocorre um processo de identificação dos personagens apresentados com o leitor do jornal, esse que por sua vez também tem sonhos, objetivos e que presencia seu semelhante perder a vida sendo impedindo de realizar seus desejos. É o processo de emoção que Patrick Charaudeau (2006) diz que encanta e provoca diversas reações em todos aqueles que a experimentam. “A verdade da emoção encanta ou provoca uma reação irrefletida. Deixa sem voz ou faz gritar, paralisa ou desencadeia uma ação pulsional. Isso porque ela se baseia numa história pessoal consciente, não consciente e/ou inconsciente daquele que a experiencia” (CHARAUDEAU, 2006 Pág.268). Pode-se analisar que ao narrar os fatos ocorre uma dramatização da realidade, com apelo emocional e sentimental, com a criação do personagem na figura do vírus o qual representa o monstro, também no processo de identificação dos personagens com o leitor. Essa descrição discursiva dramatizada da “realidade” é que Patrick Charaudeau (2006) explica: Isso porque o dramático não está na realidade, mas na descrição que fazemos dela. Uma guerra é uma guerra, e pode ser indiferente àqueles que não se sentissem diretamente implicados por ela. Podemos escolher mostrá-la, cortá-la, comentá-la acentuando-se mais ou menos o estado das vítimas, os desastres, os culpados, os socorridos etc (CHARAUDEAU, 2006, p.264).

Esses indícios e características encontradas nesta reportagem acima servem para remeter o objetivo principal do trabalho, que é relacionar a narrativa de dramatização ao texto impresso jornalístico. Abaixo algumas das vítimas da gripe A apresentadas pelo na reportagem principal.


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02 de agosto de 2009 | N° 16050 VÍTIMAS DA EPIDEMIA Os mortos Ao volante de um caminhão 28 DE JUNHO, Caminhoneiro VANDERLEI VIAL, 29 anos, de Erechim Forte, com 1m97cm de altura e 140 quilos, o caminhoneiro Vanderlei Vial jamais conseguiu se desvincular do apelido carinhoso dado pelas irmãs, Maninho. Nascido em Itatiba do Sul, no norte do Estado, o segundo de seis filhos e único homem, Vanderlei trabalhou até os 15 anos na roça e outros quatro anos num frigorífico de Erechim, onde perdeu dois dedos num acidente de trabalho. Mas, se pudesse classificar o início da sua vida profissional, diria que ela só começou quando dirigiu o primeiro caminhão, seu sonho desde criança. Com o auxílio da família, fez cursos e passou a fazer viagens curtas. Bom motorista, logo passou às viagens internacionais, levando cargas para o Chile, o Uruguai e a Argentina. Casado com Joice e pai de Idiele, oito anos, e Lucas, de três anos, ele se considerava realizado e tinha aspirações humildes para o futuro. Queria ver os filhos crescerem, cuidar dos pais e passar todos os anos que pudesse na estrada, dirigindo seu caminhão. (OS mortos. Zero Hora, Porto Alegre, 02 de agosto de 2009. Vítimas da Epidemia, p. 35.) 02 de agosto de 2009 | N° 16050 Os mortos A menina que desfilava pela casa como se fosse modelo 15 DE JULHO ANDRIELI ALVES DE VARGAS, 5 anos, de Uruguaiana Andrieli morava com os pais na zona rural de Uruguaiana, a 45 quilômetros do centro da cidade. A menina tinha bronquite e apresentava febre persistente, que não baixava dos 37°C. Oito dias depois de se sentir mal, morreu, vítima da gripe A. A mãe da menina, Maira Alves, lembra da filha a cada movimento dentro da casa simples, localizada na sede de uma granja onde o marido trabalha. Desde os dois anos de Andrieli, a família morava no local e costumava ir à cidade apenas uma vez no mês para fazer compras no mercado e ir a bancos. – Só pode ter sido na nossa última ida à cidade que ela contraiu a doença, porque foi em casa que ela ficou doente primeiro – relembra Maira. Fã do desenho Três Espiãs Demais, a menina passava boa parte das manhãs assistindo a seus programas favoritos na TV. Ainda não tinha idade para frequentar a escola, mas a mãe já havia lhe ensinado a escrever o nome e várias outras palavras. Adorava usar os lápis de cor para pintar. Vaidosa, Andrieli adorava desfilar como uma modelo pela casa. A mãe conta que, como a filha estava acima do peso (chegou a pesar 35 quilos ano passado e recentemente estava com 32), dizia que queria emagrecer para poder desfilar melhor. Também tinha apego aos gatos e cachorros criados pela família, seus principais companheiros de brincadeira. Além dos pais, Andrieli deixa um irmão, de 12 anos. (OS mortos. Zero Hora, Porto Alegre, 02 de agosto de 2009. Vítimas da Epidemia, p. 37.)

Como se observa o jornal traz um pouco da história de cada vítima da Gripe A, com seus sonhos e suas realizações que foram impedidos. Trazendo detalhes, que ora para o jornalismo informativo era algo subjetivo e até mesmo desnecessário, mas que na perspectiva de uma dramatização serão de fundamental valia.


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A pesquisa apanhou duas personagens das 25 que são apresentadas pelo jornal. O caminhoneiro, VANDERLEI VIAL, 29 anos, de Erechim falecido em 28 de junho, este foi a primeira morte confirmada por Gripe A no Brasil. E da menina, ANDRIELI ALVES DE VARGAS, 5 anos, de Uruguaiana falecida em 15 de julho e nelas vai procurar encontrar as marcas discursivas de dramaticidade, subjetividade e narratividade de ficção no texto jornalístico. A história de Vanderlei Vial começa a ser narrada por ZH com o seguinte enunciado; “Ao volante de um caminhão”, naturalmente chamando a atenção do leitor para a profissão de Vanderlei, um “caminhoneiro”. Em subsequência abre a narrativa com a frase: “Forte, com 1m97cm de altura e 140 quilos”. Mas por que motivos o repórter faz questão de mostrar a altura e o peso do personagem? Primeiramente a intenção do repórter é fazer o retrato do personagem levando o leitor a deduzir que Vanderlei era um homem jovem, forte e cheio de saúde. O escritor e jornalista Tom Wolfe (2005) diz que ao tentar trazer características pessoais do personagem o repórter estimula o pensamento do leitor. “A imprensa ao contrário do cinema ou do teatro é um meio indireto que não “cria” exatamente imagens ou emoções, mas estimula as lembranças do leitor” (WOLFE, 2005, p. 78). O repórter ao demonstrar que o vírus H1N1 é mais poderoso e faz o confronto de uma batalha onde os homens mais fortes e jovens não o resistem e são derrotados pelo vírus. Se pensar no jornalismo tradicional poderia se perguntar que relevância tem o estado físico do homem? Mas para a narrativa de dramatização esse detalhe ajuda a reforçar a ideia de luta, perseguição e destruição da Gripe A, o qual derrota pessoas jovens e fortes. Depois de descrever o físico do homem a reportagem faz questão de mostrar o apelido de Vanderlei, “maninho”. O diminutivo trazido pelo repórter aponta para uma apreciação carinhosa. Algum editor conservador iria perguntar: - Quem quer saber do apelido do cara? Isso não é relevante!!!!!! No entanto quantas famílias em todo o estado do Rio Grande do sul têm seus “maninhos”, que são os filhos, irmãos e amigos. Também fala que ele é o único filho homem numa família de seis irmãos. Fala que ele é pai de duas crianças pequenas e que tem um sonho de poder continuar trabalhando e criar seus filhos e cuidar dos seus pais quando estes envelhecerem. A dramatização é a capacidade do narrador em trazer os detalhes que provocam o interesse do leitor, conforme Vicchiatti (2005) explica: “A dramatização dos fatos (o que), com minúcias, valorizando mais seus efeitos (como) sobre a vida dos personagens (quem) do que suas causas (por que) é o caminho, na visão deste autor. Como se os leitores


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quisessem saber como vivem, o que pensam, como reagem aqueles que sofrem a ação dos fatos” (VICCHIATTI, 2005, p.88). Novamente observa-se o processo de identificação do leitor com o personagem da reportagem utilizando com abuso a perspectiva da narrativa de dramatização. Essa identificação é algo percebido e empregado pelas mídias, esse se colocar no lugar e naquela situação. São as representações escolhidas pela mídia que Patrick Charaudeau fala: “Essas escolhas dependem da maneira pela qual as mídias constroem representações sobre o que pode interessar ou emocionar o público” (CHARAUDEAU, 2006, p.138). A narrativa que descreve a vida de Andrieli Alves de Vargas, assim como a de Vanderlei Vial começa com a seguinte citação: “A menina que desfilava pela casa como se fosse modelo”. Mais uma vez o repórter parte para o lado emotivo da narrativa, descrevendo a ação marcante de Andrieli, desfilar pela casa imitando modelos. Ao construir essa narrativa o repórter apela para a imaginação do leitor que naturalmente constrói a cena no seu pensamento ao imaginar a menina cheia de alegria, com o andar inocente e o olhar meigo que encanta os pais e pessoas que frequentavam a casa. Ao colocar a frase no pretérito o repórter automaticamente vai deixar entendido que aquela ação não irá mais acontecer e que aquela família não terá a alegria proporcionada pela criança. E o repórter segue trazendo os atos da menina, gostava de assistir desenhos animados, escrevia o nome e outras palavras, gostava de pintar e brincava com animais. O repórter traz todas as atitudes daquela menina de cinco anos e vai deixar claro que essas ações não acontecerão mais e que o vazio deixado pela menina jamais será preenchido. É a humanização do discurso que traz veracidade ao relato, conforme Vicchiatti (2005) explica: Enquanto o jornalismo lida com o dito real, as coisas que sucederam, a literatura lida com as que poderiam ter sucedido. O que parece suscitar dúvidas na maioria dos teóricos que vêem barreiras, e não limites, entre a literatura e jornalismo, é a chamada humanização dos textos e o uso de outros recursos que buscam conferir veracidade aos fatos que estão sendo narrados (VICCHIATTI, 2005, p.91).

O que o repórter fez foi construir cada cena através de ações e marcas discursivas, para isso utilizou do recurso chamado de verossimilhança que estimulam o pensamento do leitor, e este mentalmente reconstituem o fato que está sendo narrado, conforme Charaudeau (2006) explica: A verossimilhança caracteriza-se pela possibilidade de se reconstituir analogicamente, quando o mundo não está presente e os acontecimentos já ocorreram , a existência possível do que foi ou será. Essa validação constrói um real de suposição, de ordem alética, sendo a verdade alguma coisa da ordem do possível. Os meios discursivos utilizados para entrar nesse


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imaginário remetem ao procedimento de reconstituição, que diz: “eis como isso deve ter acontecido”. (CHARADEAU, 2006, p.55)

Nessa narrativa podemos encontrar traços de subjetividade e observar que o jornalismo apresentado na reportagem não é tão imparcial, mas sim tem a sensibilidade e envolvimento do repórter, o relato não está apenas ligado ao fato principal, o qual poderia enumerar como relevante a “morte da menina”. Mas, essa construção da narrativa vai muito além, ela parte para o lado sentimental e consequentemente subjetivo, para a falta que a menina vai fazer, pela saudade que vai deixar e por aquilo que ela fazia e não vai se repetir. São os recursos advindos da literatura utilizados para o texto jornalístico, em que a função de informar não é descartada, porém, recebe elementos literários que contribuirão com um jornalismo mais aprimorado e afeiçoado, conforme Vicchiatti (2005) ressalta: O jornalismo, mesmo com a obrigatoriedade de manter-se fiel aos fatos, vai-se permitindo avanços lentos, mas preciosos, em direção à utilização de elementos da literatura. Dos textos frios, apenas tecnicamente corretos, os profissionais de imprensa partem em busca de maior identificação com o leitor, recheando informações com histórias de vida, trazendo emoção e sentimentos para revelar o colorido dos fatos cotidianos (VICCHIATTI, 2005, p. 84) .

Ao analisar esses dois personagens a pesquisa encontrou algumas prováveis respostas para os objetivos os quais a pesquisa pretende atender. As narrativas têm uma forte carga de dramaticidade os quais não é comum para os teóricos do jornalismo. O teórico Nilson Lage (2005) diz que a maior parte dos textos utilizados para escrever jornais não são narrativas. “Uma das fantasias correntes sobre notícias de jornal é que elas contam sempre uma história. Isso não é verdade. Notícias são, na sua estrutura global, textos expositivos, não narrativos” (LAGE, 2005, p.78). Porém essa reportagem tem características de narrativa, por usar o fator tempo, geralmente os verbos no passado e fazer um histórico da vida das pessoas contando seus feitos. E também por situar o leitor com cenários e transmitir as características do personagem. No entanto, Nilson Lage (2005) ressalta que o objetivo do texto jornalístico é; aumentar a velocidade de produção e reduzir a possibilidade de erros. “Lê-se (ouve-se) o texto. Marcam-se as proposições (afirmações, sentenças) mais relevantes. Numeram-se proposições em ordem decrescente de importância: 3, 2, 1...” (LAGE, 2005, p.78). Porém nesta narrativa os fatos são apresentados em ordem linear dos acontecimentos e não na ordem decrescente de importância. E também pode-se notar que o texto traz características físicas, psicológicas e sociais das fontes, sem dar muita importância com o


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tempo que será gasto na leitura pelo leitor e também com fatores que são irrelevantes para o padrão jornalístico, tais como; altura, peso, apelidos, religião e histórico pessoal. A pesquisa analisa que são as marcas subjetivas as quais toda a comunicação humana está sujeita, não sendo diferente com a reportagem analisada. E que segundo o próprio Nilson Lage (2005) não se pode eliminar a subjetividade do texto, nem com toda a técnica profissional possível do jornalismo, apenas suprimi-la. “No discurso noticioso, os elementos de subjetividade não desaparecem, nem poderiam, mas são reduzidos ao mínimo: para isso, combina-se método de apuração e técnica de redação concentra-se o foco do discurso no referente factual” (LAGE, 2005, p.82). E o repórter não faz questão nenhuma de eliminar os traços subjetivos da reportagem. Mas ao contrário, ele se utiliza desses recursos, que proporcionaram uma leitura mais interessante e com uma riqueza de emoções, ora vistos na literatura, presentes no texto jornalístico. A reportagem do dia 03 de agosto de 2009, exemplar n°16051, vem com o assunto como reportagem especial e com a seguinte linha de apoio “Saúde tenta evitar histeria com a Gripe A” e com o título “Verdades e mitos sobre a Gripe A”. Conforme pode-se observar em parte da reportagem abaixo: Verdades e mitos sobre a gripe A Nas últimas semanas, a multiplicação de casos suspeitos da gripe A e o aumento no número de mortes decorrentes do vírus – que já soma 25 no Estado – trouxeram apreensão aos gaúchos e uma avalanche de informações desencontradas. Para tentar conter a onda de especulações, a Secretaria Estadual da Saúde esclarece pontos controversos da epidemia e combate reações exageradas. Enquanto algumas pessoas evitam sair às ruas, outras enfrentam dúvidas sobre se devem ir a um hospital, entrar em um ônibus lotado ou se dedicar a atividades de lazer como ir a um cinema. O dano causado pela doença no imaginário popular também provoca o surgimento de surtos de boatos como suspeitas de que autoridades de saúde estejam omitindo registros de óbitos provocados pela nova gripe. O Rio Grande do Sul enfrenta, de fato, a epidemia provocada por um vírus até poucos meses atrás desconhecido, mas não há motivo para histeria, segundo atestam médicos e autoridades. – As pessoas precisam saber que é um vírus novo, que pode levar à morte, mas que, em mais de 99% dos casos, a recuperação é tranquila. Pessoas sempre morreram de gripe, mas antes não se falava – argumenta o médico Breno Riegel Santos, chefe do serviço de Infectologia do Hospital Conceição. As autoridades lutam para frear a boataria. – Desde o começo, estamos orientando a população sobre o que é mito e o que é verdade. Mas, infelizmente, os mitos se multiplicam – lamenta o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Francisco Paz. O número de infectados é maior do que os 20 mil estimados pela Secretaria Estadual da Saúde?


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Não há indícios de que o número seja maior no Estado. Seguindo orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país deixou de fazer os exames de todo caso suspeito de gripe. O crescimento da epidemia superou a capacidade dos laboratórios em várias partes do mundo, e a OMS recomendou aos governos para testar apenas os casos graves a fim de poupar os recursos. Por isso, os governos apenas estimam o número de contaminações, seguindo padrões internacionais. O número de mortos com comprovação de gripe A é maior do que as 25 vítimas anunciadas no RS? Não. O Centro Estadual de Vigilância em Saúde contabiliza, assim como outros órgãos de saúde ao redor do mundo, o número de mortos e traça o perfil de cada um para monitorar a epidemia e identificar eventuais surtos localizados ou vítimas preferenciais. Esconder casos de óbito, embora pudesse tranquilizar a opinião pública, impediria ações de prevenção e seria uma medida contrariada por especialistas da área médica e gestores de saúde pública. (...) Os hospitais estão evitando o uso de máscaras para não criar pânico na população? Sim. A recomendação da Secretaria Estadual da Saúde é que os hospitais evitem o uso abusivo de máscaras para não despertar medo excessivo entre os frequentadores. O diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Francisco Paz, esclarece que a orientação repassada aos estabelecimentos é que as máscaras sejam utilizadas apenas por profissionais que entram em contato direto com pacientes suspeitos da gripe A ou pelos próprios doentes com sintomas da doença. Os demais são orientados a não usar a máscara. (...) A divulgação dos casos pela imprensa cria pânico? Especialistas na área da saúde, como o infectologista da USP Marcos Boulos, afirmam que a repercussão social dessa epidemia é muito maior em relação a outras porque é acompanhada caso a caso e, praticamente, em tempo real pelos meios de comunicação. Embora a cobertura de peso da imprensa possa contribuir indiretamente para um maior temor popular, é considerada fundamental para a prevenção e o controle da epidemia quando vem acompanhada de orientações de como agir diante da doença. (GONZATTO e GRAEFF. Verdades e mitos sobre a gripe A. Zero Hora, Porto Alegre, 03 de agosto de 2009. Temor da Epidemia, p.4.)

A reportagem acima vem com o objetivo de esclarecer o que seria verdade e o que seria mito. O próprio jornal percebeu no que se tornou o acontecimento e que proporção tomou, tornando-se um acontecimento midiático. Talvez seja a construção que a mídia faz na qual Patrick Charaudeau (2006) fala: “As mídias não transmitem o que ocorre na realidade social, elas impõem o que constroem do espaço público”. (CHARAUDEAU, 2006, p.19) Se pensar que as mídias constroem um acontecimento, isso vai ao contrário do que explica a antiga teoria do espelho, uma das primeiras teorias do jornalismo. “É a teoria (do espelho) mais antiga e responde que as noticias são como são porque a realidade assim as determina”. (TRAQUINA, 2005, p. 146) A teoria do espelho explica que as notícias são o espelho da realidade. E tem a inocência de dizer que o jornalista é um profissional sem outros interesses a não ser com a verdade. “Central à teoria é a noção-chave de que o jornalista é um comunicador desinteressado, isto é, um agente que não tem interesses específicos a defender e que o


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desviam da sua missão de informar, procurar a verdade, contar o que aconteceu, doa a quem doer” (TRAQUINA, 2005, p.147). Seriam os meios de comunicação o espelho da realidade? Ou não passariam de um espelho deformante como de um parque de diversões, no qual o objeto é transformado e refletido em diferentes modos, nos quais Charaudeau (2006) afirma: A ideologia de “mostrar a qualquer preço”, do “tornar visível o invisível” e do “selecionar o que é mais surpreendente” (notícias ruins) faz com que se construa uma imagem fragmentada do espaço público, uma visão adequada aos objetivos das mídias, mas bem afastadas de reflexo fiel. Se são um espelho, as mídias não são mais do que um espelho deformantes ao mesmo tempo, daqueles que se encontram nos parques de diversões e que, mesmo deformantes, mostram, cada um à sua maneira, um fragmento amplificado, simplificado, estereotipado do mundo (CHARAUDEAU, 2006, p.20).

Em uma tentativa de deixar a comunidade mais tranquila o jornal entrevistou a Secretaria Estadual da Saúde. Ao mesmo tempo em que o jornal quer tranquilizar a população, este não deixa o assunto da Gripe A esfriar, mas sempre o mantém atual e na discussão do público. É a visão do espaço público que a mídia ajuda a construir, conforme Patrick Charaudeau (2006) explica: Que visão do espaço público é proposta assim ao cidadão? Sem contar que é através dessa ficcionalização (e não para chegar mais perto da realidade cotidiana ou ajudar a recompor o vinculo social, como se ouve dizer aqui ou ali) que o espaço privado começa a invadir o espaço público. O relato midiático constrói seu próprio real negociando com nossos imaginários (CHARAUDEAU, 2006, p. 273).

É a construção do pensamento e a formação da opinião pública proposta pelas mídias. Isso é o que a teoria do agendamento propõe quando diz que a mídia não apenas vai noticiar o fato que deseja publicar, mas também irá pautar as discussões na esfera pública. É o enquadramento do fato e o direcionar olhar do leitor para a direção que a mídia deseja, conforme Traquina (2005) explica: A teoria do agendamento sublinha uma forte mudança no paradigma dominante da teoria dos efeitos dos media e significa uma redescoberta do poder do jornalismo não só para selecionar os acontecimentos ou temas que são noticiáveis, mas também para enquadrar esses acontecimentos e/ ou temas (TRAQUINA, 2005, p. 16). Repare na seguinte frase utilizada no texto: “O dano causado pela doença no imaginário popular também provoca o surgimento de surtos de boatos como suspeitas de que autoridades de saúde estejam omitindo registros de óbitos provocados pela nova gripe”. Atente que de uma forma “inocente” a reportagem fala da “paranóia” das pessoas em relação a doença, mas também irá colocar outro argumento no pensamento do público. As pessoas pensarão “será que não morreu mais gente?” “Esses números de mortes e infectados são


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reais?” E construíra uma imagem não positiva do estado em relação a sua atuação em torno da Gripe A. Talvez aqui seja a visão que a mídia quer passar, conforme Traquina (2005) cita Gitlin: “Para Gitlin (1980:07), enquadramentos dos media são “padrões persistentes” de cognição, interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e exclusão, pelos quais os symbolbandlers organizam rotineiramente o discurso, quer verbal quer visual” (TRAQUINA, 2005, p.16,17). A mídia através das ações discursivas regula e induz comportamentos conforme Charadeau (2006) explica: As crenças dão conta do mundo quanto á maneira de proceder à regulação das práticas sociais, ao se criarem normas efetivas de comportamento, e também quanto os discursos de representações produzidas no âmbito do grupo social, para guiar esses comportamentos, criando-se, assim, normas ideais. Estes apontam não apenas para os imaginários de referência dos comportamentos (o que deveria fazer ou não fazer), mas também para os imaginários de justificativa desses comportamentos (se é do bem ou do mal) (CHARAUDEAU, 2006, p. 46).

A visão construída e repassada pela mídia poderia ser o desaparecimento das fronteiras da ficção com a realidade e a criação de um universo híbrido arquitetado pelos meios de comunicação, assim como é estabelecida a “opinião pública”, conforme Arbex Júnior (2005) explica: Jean Baudrillard dirá que o desaparecimento das fronteiras entre ficção e realidade atribuiu à mídia não apenas a capacidade de criar fatos, como também a de criar a “opinião pública” sobre os fatos que ela mesmo gerou. Para ele, a capacidade de “colonização do imaginário” pela mídia transformou a própria opinião em mero simulacro. Baudrillard compara a “massa”considerada um todo orgânico (idéia cara a todos os projetos totalitários) – aos animais submetidos a “exames de laboratório”. Essa imagem, mesmo se exagerada, ajuda a entender a importância das “pesquisas de opinião” instrumentalizadas pelas “elites”: (ARBEX, 2005, p.54)

E quando a reportagem cita a ação da imprensa em relação ao assunto. O repórter faz questão de usar a fala do entrevistado como justificativa de que os atos da imprensa ajudam as pessoas a se precaverem e tomarem a providências necessárias caso haja contaminação. Legitimando assim suas futuras publicações, como se estivesse zelando pelo bem estar da comunidade. No dia quatro do mês de agosto a capa da ZH n° 16052 vem com a seguinte chamada: “A Gripe A terá seu auge em duas semanas” e a reportagem de capa vem com o título: “Auge do contágio será esse mês”. Abaixo parte da reportagem principal: Auge do contágio será este mês


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Mais quatro gaúchos morrem em consequência da nova doença, elevando o total de vítimas para 29 no Rio Grande do Sul A gripe A continuará se alastrando pelo Rio Grande do Sul, devendo chegar ao auge do poder de contágio na terceira semana deste mês. Ontem, a Secretaria Estadual da Saúde anunciou mais quatro mortes pelo vírus H1N1, elevando para 29 o total de vítimas no Estado. O secretário estadual da Saúde, Osmar Terra, alerta que a epidemia está seguindo a sua trajetória como surto sazonal, só devendo arrefecer quando o inverno terminar. Em países do Hemisfério Norte, onde é verão, como nos Estados Unidos e no México, a doença atingiu seu pico e agora tende a se estabilizar. Terra calcula que haja em torno de 32 mil pessoas infectadas com o vírus H1N1 no Rio Grande do Sul. A estimativa é feita a partir dos atendimentos médicos e da distribuição do medicamento Tamiflu. Na segunda semana deste mês, observada a tendência, o número deverá saltar para 50 mil contaminados. No apogeu da gripe A, que deve ocorrer na terceira semana, haverá mais de 100 mil gaúchos enfermos. O aviso para que a população se mantenha precavida também é baseado no obituário. Ontem, a SES confirmou mais quatro mortes. Duas das vítimas eram de Passo Fundo, no Norte. Uma dona de casa, de 43 anos, morta no dia 23, sofria de dislipidemia (aumento anormal da taxa de lipídios no sangue). Um torneiro mecânico, de 44 anos, morto no sábado, não apresentava fatores de risco. A terceira vítima anunciada ontem é um motorista de caminhão, de 45 anos, morto no dia 25, em Novo Hamburgo. Ele tinha hipertensão arterial e era obeso. A quarta morte ocorreu em Santa Maria: um pastor e pintor, de 39 anos, aparentemente saudável, não resistiu ao vírus. (MARIANO, Nilson. Auge do contágio será este mês. Zero hora, Porto Alegre, 04 de agosto de 2009. Alerta para gripe, p.34.)

A característica principal dessa reportagem são os dados, em que mostram números concretos e também prováveis estatísticas de futuros contágios. É a objetividade jornalística que constrói um mundo real, que não é a realidade de ninguém conforme Vicchiatti (2005) salienta: “A mídia constrói um mundo objetivo que, por se impor como o “real de todos”, não é subjetivamente o “real de ninguém”, impondo-se a todos através da força da violência simbólica que caracteriza a objetividade aparente” (VICCHIATTI, 2005, p.70). A reportagem vem com o fato e critério de noticiabilidade5 principal que são as quatro “mortes”, somadas aos outros 25 óbitos totalizando 29 mortes. Com essa informação o repórter continua mostrando a saga da doença, que continua a matar. É o espetáculo da morte que tanto fascina as pessoas conforme Patrick Charaudeau (2006) explica: Daí o paradoxo: o que acreditamos ser o visível do mundo é apenas um invisível, intocável, construído em visível pelo efeito conjunto da espetacularização e da projeção de nossa memória sobre o espetáculo. O espetáculo de uma catástrofe é um exemplo. Há vítimas, cadáveres nos são mostrados, falam-nos de mortes, mas ninguém nunca viu a morte. Não temos, sendo seres humanos, nenhum indício da morte. O que não impede que construamos seu espetáculo como um fantasma necessário, busca insaciável da verdade, talvez porque esse espetáculo nos remeta sempre à nossa própria morte (CHARADEAU, 2006 P. 269).

5 São os critérios de seleção de notícias que possuem potencial para uma possível publicação (Nelson Traquina – Teorias do Jornalismo II).


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No terceiro parágrafo o repórter traz uma expectativa nada animadora para os leitores. Essa frase reforça o título da reportagem, com os seguintes números hoje (na época em que o texto foi escrito) segundo o Secretário da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, temos 32 mil pessoas infectadas, mas daqui duas semanas teremos 50 mil e já na terceira semana teremos 100 mil gaúchos contaminados com a Gripe A. Esses números causam espanto em qualquer pessoa, porque o número de doentes praticamente triplica de uma maneira muito rápida, gerando pânico e histeria em toda a população. É a desordem é o caos que rompem a normalidade o qual a mídia filtra e extrai para a construção discursiva do acontecimento midiático, conforme Charaudeau (2006) explica: O acidente, enfim, mas entendido como sintoma dos dramas humanos e, dentre eles, os que se caracterizam pelo “insólito” que desafia as normas lógicas, o “enorme”, que ultrapassam as normas da quantidade, o “repetitivo”, que transforma o aleatório em fatalidade; o “acaso, que faz coincidir duas lógicas estranhas um à outra, o “trágico”, que descreve o conflito entre paixão e razão, o “horror”, que conjuga exacerbação do espetáculo da morte e frieza do processo de exterminação. Assim, as mídias selecionam o que participa da “desordem do mundo” (CHARAUDEAU, 2006. p. 253, 254).

Mas, pode se pensar: “esses números não foram inventados pelo repórter, foi o secretário da Saúde que disse, portanto uma fonte oficial, que tem propriedade para dizer”. Uma das práticas do jornalismo é sempre colocar números e falas na boca das fontes, de preferência jamais o repórter deve afirmar ou dizer uma coisa. Por isso, se usa os verbos “dicendi”, sendo uma das dicas que Nilson Lage (2005) “propõe para o bom texto jornalístico. Altera-se discurso direto e indireto – Usa verbos dicendi, (dizer, declarar, afirmar, conclamar, etc)” (LAGE, 2005, p.79). Em contraponto, pode-se pensar quem escreveu o texto? De quem é o vocabulário? Quem entrevistou? Quem pesquisou? Quem escolheu a pauta? Tudo isso foi trabalho do repórter e de seus colabores (pauteiro, produtor, editor) para a construção da reportagem, ou seja, as instâncias humanas. Quem escolheu colocar a fala do secretário foi o repórter, quem colocou os números foi o repórter, tudo para reforçar a ideia de dramatizar o acontecimento. Comunicação é escolhas humanas que possuem intenção e interesse conforme Patrick Charaudeau (2006) afirma: “Comunicar, informar, tudo é escolha. Não somente escolha de conteúdos a transmitir, não somente escolha das formas adequadas de efeito de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolhas de estratégias discursivas” (CHARADEAU, 2006, p.39).


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Outra questão é interessar os leitores, mostrando números assustadores a reportagem vai produzir efeitos inimagináveis para emocionar e sensibilizar o público no qual a mídia não vai ter como controlar, conforme Charaudeau (2006) explica: Os acontecimentos que surgem no espaço público não pode ser reportados de maneira exclusivamente factual: é necessário que a informação seja posta em cena de maneira a interessar o maior número possível de cidadãos o que não garante que se possam controlar seus efeitos. Sendo assim, as mídias recorrem a vários tipos de discursos para atingir seus objetivos. (CHARAUDEAU, 2006.p. 60.)

A reportagem do dia cinco de agosto também está na capa da ZH e vem com o seguinte título: “Muda a regra do Tamiflu” e com a seguinte linha de apoio; “Ministério admite que o remédio seja prescrito em casos graves que não estão listados no protocolo”. Em que basicamente fala sobre o repasse do remédio Tamiflu, utilizado no tratamento para a Gripe A para a população. Proporcionando o medicamente a mais pessoas. No dia seis de agosto o assunto não ocupa a capa do jornal, ficando na contracapa. No dia sete o assunto volta à capa de ZH o jornal de n° 16055 com a seguinte chamada: “A Gripe A atinge funcionários nos hospitais”. Abaixo uma parte da reportagem: Baixas no front da gripe A Apenas nos hospitais de Clínicas e Conceição, já são 214 os funcionários que tiveram de se afastar A gripe que matou 32 gaúchos e nocauteou cerca de 30 mil pessoas em todo Rio Grande do Sul faz baixas entre profissionais da saúde. Nos dois principais hospitais do Estado, 214 funcionários afastaram-se de suas atividades com suspeita de ter contraído a gripe A. No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, 71 estão com atestado médico e 19 enfermeiras grávidas foram aconselhadas a permanecer em casa. Ontem, a direção da instituição decidiu que todas as gestantes, independentemente do setor, mantenham-se distante das funções até que a surto arrefeça. – Não sabemos quantas gestantes serão, porque o setor de recursos humanos enviou e-mail para o pessoal hoje (ontem). É uma decisão difícil, mas as grávidas fazem parte do maior grupo de risco para a nova gripe – diz Sergio Pinto Ribeiro, vice-presidente médico do Hospital de Clínicas. No Grupo Hospitalar Conceição, o maior do sul do Brasil, 143 funcionários gripados recuperam-se em suas residências. – Vamos remanejar as 30 gestantes para áreas do Grupo em que não tenham contato com pacientes de risco. Nós estudamos outras medidas – diz o assessor Médico da Superintendência, Neio Lúcio Fraga Pereira. De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde, das cerca de 80 mil gestantes do Estado, 55 têm suspeita de gripe A – 11 delas permanecem internadas em UTIs. Quatro grávidas já morreram em decorrência de complicações da nova gripe. Ontem, o secretário Osmar Terra anunciou que 340 leitos da Casa da Gestante – espaço criado em hospitais para receber pacientes de risco – receberão grávidas com gripe. (BAIXAS no front da gripe A. Zero hora, Porto Alegre, 07 de agosto de 2009. Geral, p.52.)

O mais interessante desta reportagem que ela trabalha com a antítese o qual também é critério de noticiabilidade no jornalismo. O inesperado, o insólito o qual Nelson Traquina (2005) fala: “Segundo Stephens, as “qualidades duradouras” das notícias são o extraordinário,


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o insólito (“o homem que morde o cão”), o atual, a figura proeminente, o ilegal, as guerras, a calamidade e a morte (TRAQUINA, 2005 P.63)”. Ou seja, as pessoas que são encarregadas (médicos e enfermeiros) de cuidar os doentes, também estão adoecendo. É o desespero causado por uma doença que não perdoa ninguém, é o fechamento do cerco, em que as pessoas não tem para onde correr e ninguém para pedir auxílio. Como se estivesse agora em um filme de terror e o leitor se transformasse na vítima que foge desesperadamente do monstro em um labirinto sem saída. No dia oito de agosto, exemplar n° 16056, a capa de ZH vem a seguinte chamada; “A capital tem a primeira morte por Gripe A”. Abaixo o primeiro e o segundo parágrafo da reportagem. Capital tem primeira morte Serviço gratuito Disque-Gestante recebe 125 ligações nos dois primeiros dias de funcionamento O Centro Estadual de Vigilância em Saúde confirmou ontem a primeira morte causada pela gripe A em Porto Alegre: uma estudante de Enfermagem de 33 anos. A paciente, que não apresentava outros problemas de saúde, não chegou a ser internada e morreu em casa, no dia 22 de julho. Com isso, o número de óbitos sobe para 33 no Estado. O Rio Grande do Sul conta agora com uma nova arma contra a doença. Em 30 horas de funcionamento, entre quinta-feira e ontem, o Disque-Gestante criado pela Secretaria Estadual da Saúde registrou 125 ligações – a metade delas oriundas da Região Metropolitana, pelo menos 13 de fora do Rio Grande do Sul e cinco trotes. Criado para orientar quem está à espera de um bebê, o serviço conta com biólogos e enfermeiros e poderá monitorar grávidas até o parto. (CAPITAL tem primeira morte. Zero hora, Porto Alegre, 08 de agosto de 2009. Geral, p.44.)

O interessante desta reportagem é que o título e a chamada principal na capa se referem a primeira morte causada pela Gripe A, em Porto Alegre, e na linha de apoio outro assunto é; sobre a criação do Disque-Gestante. No primeiro parágrafo, o repórter descreve sobre a morte da mulher. No entanto, talvez por não possuir tantos dados da vítima, em que nem o nome da pessoa é citado, o repórter discorre nos parágrafos seguintes sobre o novo serviço criado para atender gestantes, através de um número (125) que dará informações como se proceder diante da Gripe A. Porém fica a pergunta: Porque a utilização do título que anuncia a primeira morte em Porto Alegre, mas o assunto com maior descrição e detalhamentos é o novo serviço de telefonia criado? Seria a moça porto-alegrense, uma gestante? Ou então, por que não criar outro título em outro espaço sobre o novo serviço? O jornal fez questão de salientar a ocorrência da primeira morte em Porto Alegre, com o objetivo de trazer o assunto e o problema para o local, aonde o jornal é confeccionado, ou seja, sua origem. Nesta perspectiva o que interessa é demonstrar, que o problema não é apenas


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das cidades do interior, ou do país, ou de outros países, mas que também é um problema local. Pois, o que mais comove não é apenas um problema presenciado em outro lugar distante com outras pessoas desconhecidas, mas sim o qual se faz parte e se experimenta. É a vivência de um mal que estava distante e agora faz parte da realidade local, é a concepção dos dois imaginários construídos na mente humana nos quais Patrick Charaudeau (2006) explica: Essa questão revela, de maneira geral, o antagonismo que existe no ser humano, pois este se debate entre dois imaginários para modelar sua identidade: o da aldeia e o do planeta. A aldeia, símbolo de força de campanário conservadora, que lança raízes de identidade bem fundo na terra... O imaginário do planeta, ... o planeta que abre o horizonte de vida, o campo de ação do homem àquilo que é diferente, exótico, distante, que ele pode perseguir numa busca sem fim, vivendo permanentemente por procuração os mundos e heróis que inventa para si (CHARADEAU, 2006, p. 136,137).

No dia nove de agosto o assunto não irá fazer parte da capa da ZH. No dia 10 de agosto o assunto volta à capa de ZH nº 16058, com a seguinte chamada: “44 mortes põem em questão estratégia contra a Gripe A”. Abaixo os três primeiros parágrafos da reportagem. Mortes geram dúvida sobre estratégia Taxa de mortalidade por 100 mil habitantes por gripe A no Estado é superior a de muitos países O sinal de alerta contra a gripe A está mais forte. Com a confirmação de 11 novas mortes, na tarde de sábado, o Rio Grande do Sul chega a 44 óbitos, o que alça o Estado a uma taxa de mortalidade superior a do México, onde a epidemia eclodiu no fim de abril, e dos Estados Unidos. Os novos casos divulgados pela Secretaria Estadual da Saúde ocorreram entre 22 de julho e 3 de agosto, em oito municípios. Com 44 óbitos, o Estado atinge a taxa de mortalidade de 0,4 por 100 mil habitantes. Devido às diferenças populacionais, o índice é utilizado para avaliar a disseminação do vírus em países e territórios. No México, o índice é de 0,13 por 100 mil habitantes, quase o mesmo dos Estados Unidos – 0,14. Argentina e Chile, com índices de 0,84 e 0,6, respectivamente, estão em situação pior do que a gaúcha. Entre os especialistas que criticam a forma de enfrentamento ao vírus adotada no Estado e no país, o principal ponto de insatisfação é a distribuição do Tamiflu, o medicamento capaz de deter o avanço do vírus no organismo se administrado até 48 horas após o início dos sintomas. (CAPITAL tem primeira morte. Zero hora, Porto Alegre, 10 de agosto de 2009. Geral, p.26.)

Como na análise do dia oito, mais uma vez com todas as estatísticas mostradas pela reportagem ajudam a reforçar a ideia de aldeia, do problema ser um problema do povo gaúcho. Porém com o diferencial dos números assustarem bastante, pois no intervalo de 13 dias (22 de julho a 3 de agosto) morreram 11 pessoas, somando 44 mortes no estado. O repórter faz questão de salientar que no Rio Grande do Sul o vírus mata mais do que em outros lugares, apenas perdendo em estatísticas de mortes para Argentina e Chile, os quais têm taxa de mortalidade pela Gripe A maiores que o estado gaúcho. Porém esses dois países tem ligação comercial, cultural e social com o estado. Como se o repórter falasse, “cuide-se o perigo está por perto”. A taxa de mortalidade é algo abstrato e está no campo das


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possibilidades, ou seja, pessoas podem morrer e outras podem serem salvas. Essa abstração produz medo e horror, conforme Charaudeau (2006) explica: “As vítimas foram tratadas como as imagens habituais sãs, reportagens: exibição dos feridos e contabilidade abstrata do número de vítimas, o que produz, ao mesmo tempo, um efeito anonimato e de horror” (CHARAUDEAU, 2006, p. 245). No dia 11 de agosto de 2009 o jornal nº N° 16059 com a chamada de capa: “Cresce polêmica em torno da Gripe A”. Aonde o jornal abre espaço para os leitores opinarem sobre o assunto. Abaixo um trecho da reportagem. TEMA PARA DEBATE Síntese de algumas manifestações de leitores sobre a questão proposta pelo professor do Programa de PósGraduação em Cardiologia da UFRGS Luís Beck da Silva Neto, em artigo publicado domingo: Você concorda que a população não está devidamente informada sobre a gripe A pelas autoridades de saúde? Sou médico, há três semanas atendo quase que exclusivamente pacientes com queixas respiratórias, e acredito que não apenas a população, mas principalmente as autoridades sanitárias estaduais, municipais e do Ministério da Saúde estão visivelmente desinformadas sobre a gravidade e características clínicas da nova gripe H1N1! Maurício Carvalhal – Porto Alegre Quero parabenizar o colega Luís Beck da Silva Neto por sua reportagem oportuna e esclarecedora sobre a gripe A. É evidente que a capacidade desse vírus em causar complicações respiratórias é maior que a do vírus da gripe comum. Tiago Manaut – Porto Alegre Concordo. E a culpa não é dos meios de comunicação, mas das autoridades sanitárias, que minimizam os efeitos da gripe A (H1N1) e tornam o acesso ao medicamento (Tamiflu) uma difícil loteria. Enquanto isso, rezamos para que o vírus não nos encontre; ou que nos seja permitido comprar na farmácia o tratamento recomendado pelo médico, como aconteceria normalmente em outros casos de menor gravidade . Lilia Lopes Felipeto – Alegrete (RS) Sim, concordo! Eu creio que nem os profissionais de saúde sabem ao certo o que é exatamente o vírus e as suas manifestações. O governo brasileiro poderia ter tomado algumas providências desde os primeiros sinais da doença na América do Norte. Uma vergonha! E um total descaso com a população. Claudio Leindecker – San Francisco (Estados Unidos) Não sei se falar vai mudar alguma coisa, mas acho que o descaso é tão grande, que as pessoas estão em um nível de desespero tão grande, que não conseguem mais raciocinar. As autoridades sempre ocultam o real de todos, nunca somos realmente avisados das reais situações, e pior ainda, as informações são vagas. Carla Gomes – Porto Alegre As autoridades da Saúde, como o governo, devem dar maior importância, pois o caso é sério. Que utilizem a mídia e todos os meios de comunicação! Pois do contrário lamentaremos muitas mortes! Carlos Joelci B. Machado – São José (SC) (TEMA para debate. Zero hora, Porto Alegre, 11 de agosto de 2009. Artigos, p.16.)


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A tentativa da reportagem é trazer a público as falas do povo sobre o assunto. Onde o objetivo é demonstrar que jornal tem interesse sobre o que o público pensa. É a simulação de uma provável democracia, o qual as mídias dizem oferecer ao cidadão comum na qual Patrick Charaudeau (2006) explica: Elas desempenham um papel importante de informação no funcionamento de nossas democracias. Que pensem com quiserem, as mídias relatam fatos e acontecimentos que se produzem no mundo, fazem circular explicações sobre o que se deve pensar desses acontecimentos, e propiciam o debate. Nesse aspecto, as mídias mantêm um espaço de cidadania, sem o qual não há democracia razoável, e não podem ser taxadas, como se fazia em determinada época (principalmente a respeito da televisão), como o “ópio do povo” (CHARADEAU, 2006, p. 252).

Nessa reportagem o jornal coloca as opiniões mais variadas, utilizando da interatividade do meio de comunicação com o leitor. É também a tentativa de levar o leitor geral, aquele que pressupõem que tudo é verdade, a uma opinião de insegurança e medo da Gripe A. Na realidade não deixa de ser uma fabricação de opinião pública, conforme José Arbex Júnior (2005) fala: “Esse mecanismo de “fabricação de opinião” simula a democracia: aparentemente, a “opinião” divulgada pela mídia interfere no curso dos acontecimentos, dando a ilusão do que o público foi levado em consideração” (ARBEX JR, 2005, p.56). A maioria das opiniões selecionadas pelo jornal reforça a gravidade do problema ocasionado pela Gripe A, o que legaliza os atos de divulgação do jornal. Em menor proporção outras opiniões dizem que a Gripe não deixa de ser um problema sério, mas que não existe motivos para tanto desespero, que com os cuidados e preventivos necessários não causará morte. O jornal escolheu em maior número as opiniões que o ajudam a dramatizar o acontecimento, no caso a “Gripe A”. É o interesse da mídia pelas falas dramatizadas conforme Patrick Charaudeau (2006) explica: “É preciso que os cidadãos possam expressarse, dar sua opinião, é preciso ainda que essa palavra se torne pública por intermédio das mídias, mas as mídias só se interessam pelo anonimato se puderem entregar a palavra anônima numa encenação dramatizante” (CHARADEAU, 2006, p.86). No dia 12 de agosto o exemplar nº 16060, o assunto vem com quatro chamadas na capa: “Brasil começa a testar vacina em outubro”, “Os dilemas impostos pelas férias forçadas”, “Cresce liberação de servidoras grávidas”, “77% dos casos de gripe no país são “A”. Abaixo as reportagens; Brasil fabricará vacina da gripe O Brasil começará a produzir a vacina contra a gripe A em outubro.O anúncio foi feito ontem por Isaias Raw, presidente da Fundação Butantan, responsável pela produção. Ele participou de uma audiência pública na


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Câmara dos Deputados. A matéria-prima para a fabricação, enviada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), chegou ontem ao país (veja entrevista). O processo é o mesmo usado para fazer a vacina da gripe comum. Será apenas preciso adaptálo ao novo vírus. Com a chegada do material, o laboratório do Butantan pode começar a fabricação. A meta do instituto é produzir 30 milhões de doses e disponibilizar o produto ao governo no início de 2010. Raw avalia que o Brasil será pressionado para atender também a países vizinhos, pois não há outra fábrica de vacinas na América Latina. (BRASIL fabricará vacina da gripe. Zero hora, Porto Alegre, 12 de agosto de 2009. Geral, p.31.)

Nessa primeira reportagem o jornal traz a notícia de que existe uma vacina para o vírus até então indestrutível. É o grito de esperança e de socorro, que as pessoas precisavam. É o aparecimento do herói criado pela mídia na figura representativa da vacina que irá vencer a gripe e salvará muitas pessoas da morte. É o restabelecimento da ordem e da paz conforme Patrick Charaudeu (2006) afirma; “É este que faz com que apareçam heróis que, através de combates e façanhas, conseguem triunfar dos malefícios e restabelecer em benefício, uma justiça, uma espécie de nova ordem na qual os homens podem reencontrar-se e comungar” (CHARAUDEAU, 2006. Pág.141). Abaixo uma parte da reportagem sobre as férias prolongadas, naquele período: Histórias de proteção A disseminação da gripe A transformou a rotina dos pais, que foram obrigados a se preparar para administrar o período de férias ampliadas. Nesta reportagem, Zero Hora mostra o que quatro famílias fizeram para atravessar o período de proteção. Com o retorno das aulas previsto para a próxima segunda-feira, mães e pais gaúchos enfrentam um dilema: mandar ou não os filhos à escola nos primeiros dias. O receio é de que as crianças e adolescentes contraiam a gripe A nas salas de aula, uma vez que a Secretaria Estadual da Saúde prevê para a próxima semana o pico da transmissão do vírus no território gaúcho. Ontem, de Caxias do Sul, a secretária estadual da Educação, Mariza Abreu, reafirmou a posição: – Se um estudante tiver sintomas, será orientado a ficar em casa. Há um entendimento de que não podemos parar completamente as atividades. Na rede particular, hoje é o dia decisivo. O Sindicato do Ensino Privado no Estado do Rio Grande do Sul (Sinepe) se reúne com diretores de escolas e autoridades da área da saúde para decidir sobre uma possível segunda prorrogação das férias. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também decide hoje. O presidente do Sinepe, Osvino Toillier, afirma que a preocupação é com a saúde dos 600 mil alunos que estudam nas 500 escolas associadas: – Nossa decisão não deve ser por entendimentos individuais de uma escola, mas será embasada na orientação médica. O temor da volta às aulas Na casa da auxiliar administrativa Elisiane Pencarinha, no bairro Medianeira, na Capital, o momento é de apreensão com o retorno das aulas das duas filhas, Vitória, 12 anos, e Isadora, oito. Em julho, a Escola Maria Imaculada, onde as meninas estudam no mesmo bairro, decidiu antecipar as férias em uma semana quando um aluno do Ensino Médio apresentou sintomas da nova gripe. O caso acabou não se confirmando como uma contaminação do vírus H1N1.


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– Eu tenho medo, mas fazer o quê? Tenho que mandar elas para a escola, senão vão perder o conteúdo e se prejudicar – queixa-se a mãe. Como as aulas do primeiro semestre terminaram antes do previsto, não houve tempo para que os professores das filhas de Elisiane aplicassem atividades extraclasse para o período de recesso. As meninas, que cursam a 7ª e a 2ª série, respectivamente, não estudaram nas férias. (BOCK, Maicon.Histórias de proteção. Zero hora, Porto Alegre, 12 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.04.)

Logo abaixo, uma parte da reportagem do dia 12 de agosto, que fala sobre o afastamento das gestantes dos postos de trabalho. Licença pré-maternidade Avanço da gripe A leva prefeitura da Capital e outros órgãos a determinar que grávidas não trabalhem O avanço da gripe A provocou uma onda de afastamentos de grávidas dos postos de trabalho. Ontem, a prefeitura de Porto Alegre determinou que todas as servidoras municipais em gestação sigam para casa com a “maior brevidade possível”. Medidas semelhantes já foram adotadas em hospitais, no Ministério Público, no Judiciário e na Câmara da Capital. A situação das gestantes também mobilizou a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio Grande do Sul (Sogirgs), que durante o final de semana debateu o tema. Os relatos foram determinantes para a entidade sugerir, no início da semana, a permanência de todas as grávidas em suas residências, independentemente do local onde trabalhem. – A partir do que ouvimos, por consenso, recomendamos a permanência domiciliar das grávidas. Quanto mais avançado o período gestacional, maiores são os riscos de complicação em caso de gripe – diz Clarice Diehl Stein, integrante da direção da Sogirgs. Na hipótese de manter atividades regulares, gestantes deveriam usar máscara protetora. – É uma forma de amenizar os riscos – pondera Clarice. (Licença pré-maternidade. Zero hora, Porto Alegre, 12 de agosto de 2009. Geral, p.16.)

O interessante da reportagem “Histórias de proteção” é a percepção do repórter em relação a situação de todas as crianças que teriam que ficar em casa e a situação de seus pais os quais fariam um verdadeiro malabarismo na tarefa de cuidar dos filhos e cumprir com as obrigações do trabalho. O repórter está nomeando o fato, é a criação e imaginação do agente que fez de uma situação fora de normalidade um acontecimento midiático e discursivo, conforme Patrick Charaudeau (2006) esclarece: “Ou seja, para que o acontecimento exista é necessário nomeá-lo. O acontecimento não significa em si. O acontecimento só significa enquanto discurso. E daí que nasce o que se convencionou chamar de “a notícia”” (CHARAUDEAU, 2006, p. 131, 132).


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A princípio trata-se de uma “pauta fria”6, pois não se tratam de pessoas que estão doentes, ou com possíveis sintomas da gripe, nem tampouco de familiares que perderam um ente querido por causa da doença. E sim de famílias que tem suas rotinas modificadas devido ao período de férias escolares terem se prorrogado, por um medo de contágio com a Gripe A. É a questão da desordem social que Traquina afirma ser critério noticioso no jornalismo: “Os que não têm poder são mais dificilmente abordados pelos jornalistas e não são geralmente procurados até as suas atividades produzirem notícias de desordem social ou moral” (TRAQUINA, 2005, p.120,121). O interessante é que o jornal desta edição (12/08) vem com fatos novos os quais são perfeitamente justificados serem publicados, a “Fabricação da vacina”; “seis novas mortes”; são fatos perfeitamente noticiáveis, mas esta pauta que mostra a dificuldade enfrentada por algumas famílias pela prorrogação das férias, ou seja, de pessoas comuns sem notoriedade alguma. A publicação se dá, e é relevante por motivos os quais esta pesquisa já mencionou anteriormente; mais uma vez o processo de identificação dos personagens com os milhares de leitores, que também estão fazendo malabarismo para cuidar das suas famílias e seus empregos, dá mesma forma que acontece com a outra reportagem (Licença pré-maternidade) que fala das milhares de gestantes que estão pedindo o afastamento dos seus empregos em vista ao problema. É o medo enfrentado por milhares de gaúchos de mandarem seus filhos para a escola e que suas mulheres que estão para dar a luz venham a contrair a Gripe A. Abaixo a última reportagem anunciada na capa do dia 12 de agosto: H1N1 responde por 77% dos casos O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, informou ontem, em audiência na Câmara dos Deputados, em Brasília, que o vírus H1N1 já responde por 77% de todos os casos de gripe que ocorrem no Brasil. O dado significa que o vírus da gripe A já é predominante no território nacional. Segundo o Ministério da Saúde, isso já era esperado. Quando um vírus novo de gripe chega, dizem as autoridades de saúde, a tendência dele é substituir os que estavam circulando, porque a população, com o passar do tempo, vai adquirindo resistência às variedades antigas. Temporão também informou ontem, em sua ida à Câmara, que o número oficial de mortes provocadas pela gripe

6 Não é um acontecimento novo, é um acontecimento que se desenrola já há algum tempo e ocasionalmente pode virar notícia.


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A no país chegou a 192. Até terça-feira da semana passada, as mortes pela nova gripe eram 129. Isso significa que houve a confirmação de mais de 60 mortes em apenas uma semana. Rio Grande do Sul anunciou ontem mais seis mortos Os dados sobre mortes divulgados ontem por Temporão não levaram em conta os novos óbitos confirmados ontem pela Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES). A SES anunciou na terça-feira o óbito de mais seis pessoas. Entre os casos está o de um menino de um ano, de Porto Alegre, a mais jovem vítima da doença no Rio Grande do Sul. Outro óbito é o de uma jovem de 21 anos, que não resistiu após dar à luz a um bebê, em Torres. As demais mortes foram em Porto Alegre, Sapiranga (duas) e Passo Fundo. Como duas das seis mortes ocorreram na Capital, triplicou o número de ocorrências em Porto Alegre e subiu para 55 o total de casos fatais no Estado. O primeiro óbito na Capital havia sido confirmado na última sextafeira. (H1N1 responde por 77% dos casos. Zero hora, Porto Alegre, 12 de agosto de 2009. Geral, p.31.)

Quando a reportagem vem com o número estatístico de 77% dos casos de gripe serem ocasionados pelo vírus H1N1, o repórter mostra a diferença e o poder de contágio do novo vírus. E logo após traz o número total de mortes confirmadas no Brasil, os quais aumentaram significativamente de 129 para 192 em uma semana, mostrando que o terrível vírus ainda age e não pode ser ignorado. Esses números assustam qualquer leitor, a seguir ele traz o dado de que mais seis pessoas morreram no Rio Grande do Sul, deixando claro ao leitor, que o vírus não para de matar e continua perto. É preciso cuidado. No dia 13 de agosto, jornal n°16061, as chamadas na capa de ZH sobre a Gripe A são: “Ministro da Saúde fala hoje ao Painel RBS”; “Particulares confirmam volta às aulas na segunda”; “Como é o comitê que discute as estratégias”. Abaixo reportagens: Ministro debate a gripe A no Painel RBS Um dos assuntos que mais dúvidas e preocupações geram atualmente na população brasileira, a gripe A, será o tema do Painel RBS realizado hoje. Duas autoridades na linha de frente do combate à epidemia, que já matou 55 pessoas no Rio Grande do Sul, participarão do evento: o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra. O debate poderá ser acompanhado ao vivo, a partir das 10h, pela Rádio Gaúcha, pela TVCOM ou pelo clicRBS. Será uma oportunidade para a população saber qual é a situação do vírus influenza A em território nacional, o que o país e o Estado estão fazendo para conter seu avanço, qual o grau de risco oferecido pela nova gripe e que medidas cada um pode tomar. Devem entrar na pauta também questões polêmicas, como a política oficial para a distribuição do Tamiflu, o medicamente indicado para pacientes com sintomas. O Painel RBS sobre a gripe será realizado em Porto Alegre, no estúdio A da RBS TV. A mesa será composta pelos jornalistas Daniel Scola e André Machado. A mediação será de Túlio Milman. Participam da plateia autoridades e profissionais da saúde. O ministro Temporão participará do debate a partir dos estúdios do Grupo RBS em Brasília.


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(MINISTRO debate a gripe A no painel RBS. Zero hora, Porto Alegre, 13 de agosto de 2009. Geral, p.63.)

Nesta reportagem o repórter faz questão de pautar o público para o debate em torno da Gripe A que irá ocorrer naquele dia, organizado pelo grupo RBS, dono do jornal Zero Hora. E com a presença de personagens importantíssimos nesse enredo chamado “Gripe A”, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o secretário estadual, Osmar Terra. Esses sendo a figura do estado, o qual são os responsáveis para manter a ordem e a paz. O qual o papel do estado é muitas vezes mostrado pelo jornal, como ineficiente, sem transparência em relação a informações sobre números de mortos e contaminados. E a tentativa do grupo RBS é cobrar e confrontar o estado, isso através do debate, para que haja uma solução. O jornal traz a troca comunicacional entre repórter e receptor, a qual não é neutra e fiel ao fato bruto, mas sim transformada em algo diferente dependo da instância da recepção em codificar o que realmente foi desejado pelo emissor. Então esta reportagem pode levar o receptor a uma posição de contrariedade ao estado. Neste sentido, esta reportagem não é neutra, conforme Patrick Charaudeau (2006), explica: É, pois, inútil colocar o problema da informação em termos de fidelidade aos fatos ou a uma fonte de informação. Nenhuma informação pode pretender, por definição, à transparência, à neutralidade ou à factualidade. Sendo um ato de transação, depende do tipo de alvo que o informador escolha e da coincidência ou não coincidência deste com o tipo de receptor que interpelará a informação dada (CHARAUDEAU, 2006, p.42).

Assim o grupo RBS passa uma imagem para o público, de se colocar como voz do cidadão, requerendo do estado soluções para o problema. No entanto, nas entrelinhas o grupo esta interessado mesmo na polêmica na discussão, em divulgar o acontecimento (Gripe A). Apontando culpados, mostrando vítimas, construindo vilões e heróis, descobrindo sobreviventes, encontrando situações pitorescas. São as brechas no texto que o jornalismo encontra para emitir sua opinião, conforme Carlos Alberto Vicchiatti (2005) explica: Sobre a questão de manipulação, não é preciso ir muito longe para conceituar alguns de seus aspectos. Muitos, por exemplo, discutem a questão da objetividade no jornalismo. O lead, ou pirâmide invertida, é o modelo jornalístico americano que se tornou um padrão na construção de notícias, ou seja, uma receita a ser seguida. O objetivo maior é informar as pessoas sem se envolver no fato, ou seja, cabe o jornalista informar sem emitir opinião, nem implicitamente. Mas para alguns autores, talvez, não seja isto que ocorra, pois o jornalista pode deixar sua opinião implícita no texto, sem que ninguém o perceba, utilizando-se de brechas no próprio texto. Ou seja, sua opinião pode estar nas entrelinhas (VICCHIATTI, 2005, p.63).

Abaixo parte da matéria “Particulares confirmam fim das férias”: Particulares confirmam fim de férias


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Redes públicas do Estado e dos municípios também devem retomar atividades na segunda As férias prolongadas por causa da gripe A devem acabar. Está encaminhado o retorno às aulas de toda a rede de ensino na próxima segunda-feira. O encontro dos diretores das escolas particulares, ontem, foi representativo e reforçou a decisão tomada também pela rede e estadual, e que também prepondera entre as escolas municipais. O encontro de ontem das particulares, promovido pelo Sindicato dos Estabelecimentos do Ensino Privado (Sinepe/RS), ocorreu no Colégio Rosário. Conforme havia adiantado domingo o presidente do sindicato, Osvino Toillier, dificilmente seria sugerido um novo adiamento, o que acabou se confirmando. A estratégica adotada será reforçar os cuidados de prevenção entre os professores e alunos. Mais de 200 representantes de instituições de ensino compareceram. Ao ser questionada, a plateia foi unânime em confirmar o fim das férias no dia 17. Trata-se de uma recomendação, o que significa que as escolas não são obrigadas a segui-la. Instituições de referência na Capital como os colégios Anchieta, Dom Bosco e Israelita acataram a decisão, dando ideia de que dificilmente outras manterão as portas fechadas. O Sinepe/RS fez questão de enfatizar que cada escola precisa avaliar a sua realidade. (PARTICULARES confirmam fim das férias. Zero hora, Porto Alegre, 13 de agosto de 2009. Geral, p.63.)

Aqui o jornal notícia o fim das férias prolongadas por causa da Gripe A nas escolas particulares. No entanto, a polêmica continua pendente; “será que é hora de retornar?” “Ainda corre-se perigo de contaminação.” Toda notícia é uma construção, pois fatos e acontecimentos estão sempre ocorrendo no espaço social, cabe ao jornalista capturá-los e construí-los através das ações discursivas, conforme explica Nelson Traquina (2005), citando em seu livro o teórico Stuart Hall (1984:4) “notícia não é um relato mas uma construção” (TRAQUINA, 2005, p.17). E essas ações discursivas chamam-se de narrativa/construção, apesar dos jornalistas não aceitarem o termo construir e contar histórias. E Traquina (2005) diz: “Os profissionais das notícias resistem ao paradigma da notícia narrativa/construção apesar do fato de os jornalistas se referirem constantemente à notícia, no seu vernáculo profissional, como ‘estória’” (TRAQUINA, 2005, p.17). E o assunto sempre atual para o jornal Zero Hora e sempre rendendo matérias de interesse relevante, de peculiaridades ímpares, com personificação e identificação do público. Abaixo parte da última reportagem do dia treze de agosto, “Comitê contra gripe reúne mais de 30 instituições”: Comitê contra gripe reúne mais de 30 instituições Criado para conter a disseminação do vírus H1N1, o Comitê Estadual de Enfrentamento da Pandemia de Gripe A acompanha o avanço da doença no território gaúcho e decide questões preventivas e de assistência. Como o grupo se reúne uma vez por mês, o monitoramento diário da situação cabe ao gabinete de crise, implementado em 30 de abril, antes do aparecimento do primeiro caso no Rio Grande do Sul.


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O comitê, que se reúne às segundas-feiras, é composto por cerca de 30 instituições de diversas áreas, principalmente a da saúde. O objetivo é desenvolver ações que minimizem os efeitos da pandemia, estabelecendo regras para o atendimento a pacientes com a enfermidade. (COMITÊ contra gripe reúne mais de 30 instituições. Zero hora, Porto Alegre, 13 de agosto de 2009. Geral, p.65.)

Esta reportagem fala da criação de um comitê para conter a disseminação do vírus H1N1. Mostrando o envolvimento da comunidade com entidades civis apoiando e juntando-se com entidades governamentais, para juntos combaterem a Gripe A. É como se o jornal fizesse um apelo emotivo, através da criação do comitê, apelando para união, a fim de conter a disseminação do vírus e mais mortes. É o processo de manipulação no qual toda notícia está propensa a ser tratada, aqui um chamado ao envolvimento do leitor com a causa (Gripe A), como Vicchiatti (2005) explica: Nos veículos de comunicação, equipes de “jornalistas” escolhem a forma e o conteúdo das mensagens. Dessa maneira, pode-se dizer que toda notícia supõe uma manipulação. Em outras palavras, quando se fala em manipulação não se quer dizer que o jornalista queira enganar, fazer crer naquilo que não é. Se isso ocorre, não é regra. O processo pelo qual passa a notícia pressupõe a “manipulação”, já que o profissional está selecionando um produto, aquilo que vai ou não ser utilizado. O universo que nos oferecem os meios de comunicação não deixa de ser um produto manipulado, por mais objetivo que se pretenda ser e por mais honradamente que se procure fabricá-lo. A notícia é, inevitavelmente, uma imagem e um produto (VICCHIATTI, 2005, p.64).

No dia 14 de agosto, exemplar nº 16062, o assunto vem com as seguintes chamadas na capa; “Gripe A perde a força em algumas cidades do interior”; “Ministro defende a volta às aulas; contágio de palestrante adia evento sobre a gripe”; “Clínica atende gestantes em casa”. Logo abaixo as reportagens. Interior começa a registrar queda nas internações Apesar do número de internações nas Unidades de Tratamento Intensivos (UTIs) do Estado não parar de aumentar devido à progressão da gripe A, o ritmo do crescimento começa a desacelerar. Nas cidades onde surgiram os primeiros focos da doença, os hospitais começam a registrar queda nas internações nas UTIs, segundo o secretário da Saúde, Osmar Terra. A informação serve de esperança para as autoridades sanitárias. – Uruguaiana, Passo Fundo, Santa Maria e Caxias do Sul apresentam números cada vez menores. Isso dá a entender que o ciclo se cumpriu nestes municípios e a tendência é diminuir cada vez mais – aponta Terra. Em Passo Fundo, no Hospital São Vicente de Paulo, que chegou a criar 10 novos leitos – totalizando 30 espaços – para poder atender os casos mais graves da enfermidade, o número de internados na quarta-feira era de 17, sete a menos que na semana passada. Ao todo, 50 pacientes estão internados no São Vicente de Paulo por causa da gripe, mas a instituição já está comemorando uma inversão de números. As altas de pacientes já somam 61, incluindo um bebê que nasceu em com a gripe no dia 22 de junho e foi liberado no dia 7 de agosto. Em Uruguaiana, onde o surto chegou 20 dias antes da Capital, o pico da doença já passou. Ontem, havia apenas pacientes internados na UTI em função da gripe. Quando o vírus estava no auge, a unidade chegou a comportar 12 pessoas.


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De acordo com Terra, as cidades que diminuíram o ritmo de internações ficam na rota de caminhoneiros. – Estou especulando, mas acredito que a expansão da doença tem ligação com a época de maior movimento dos caminhões, que agora é menor. Por outro lado, em Rio Grande vem crescendo o número de casos juntamente com a maior movimentação do porto – acredita Terra. (Interior começa a registrar queda nas internações. Zero hora, Porto Alegre, 14 de agosto de 2009. Geral, p.53.)

Aqui jornal traz a queda no número de doentes de Gripe A principalmente nas cidades do interior, onde o repórter registra a melhora das pessoas internadas nos principais hospitais do interior e inúmeros fatores que ajudam a condicionar as respectivas altas dos pacientes de Gripe A, tais como; aumento da temperatura, o trafego de caminhões diminuir em países vizinhos como Argentina. O jornal apresenta a voz do ministro de que tudo vai se estabelecer e ficar bem, porém, de modo algum, abre-mão dos fatos de que a cidades como Porto Alegre ainda está passando por dificuldades e registrando números expressivos em relação à doença. E também pela questão de proximidade ser sempre um fator indispensável e interessante para o trabalho jornalístico, conforme Traquina afirma: “Shoemaker e Reese (1991:91) identificam a proximidade como um valor-notícia chave. Os autores afirmam que os acontecimentos que se passam próximo são considerados mais noticiáveis e importantes que os distantes” (TRAQUNA, 2005, p.118). E também a cidade de Rio Grande por ser cidade portuária e receber inúmeras pessoas vindas do exterior, tem um aumento no número de pessoas infectadas pela Gripe A. Assim o jornal dá fôlego ao assunto, sem deixá-lo morrer. Abaixo mais uma reportagem do dia 14 de agosto, “Hora de voltar às aulas, com cuidado”: Hora de voltar às aulas, com cuidado Ministro Temporão e secretário Terra dizem que escolas devem retomar atividades, mas com reforço na prevenção As autoridades máximas de saúde do Brasil e do Estado recomendaram ontem que os estudantes retornem às escolas com tranquilidade na próxima segunda-feira, mas que adotem cuidados especiais para evitar o contágio pela gripe A. Reunidos na manhã de ontem pelo Painel RBS para discutir a epidemia, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o secretário estadual de Saúde, Osmar Terra, ressaltaram a importância de voltar à normalidade. Segundo Terra, a Secretaria Estadual da Educação e as escolas estão se preparando para adotar medidas de prevenção. Ele justificou a decisão de reiniciar as aulas no momento de pico da epidemia, depois de um período de prorrogação das férias: – Nunca tivemos pretensão de diminuir o número de casos. Não fizemos o adiamento para evitar a contaminação, mas para dar tempo de organizar melhor o sistema. Temos de voltar às aulas e de retomar a vida do Estado. Tenho filho pequeno, e ele não deixou de ir para a creche. Temporão disse que, se morasse no Rio Grande do Sul, mandaria o filho de volta à escola na segunda-feira: – Eu mandaria, se soubesse que as escolas se prepararam. Nesse retorno às aulas, é importante dizer que quem tiver sintomas deve ficar em casa. As medidas de prevenção devem estar presentes na escola, como lavar bem as


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mãos e ventilar os ambientes. Terra e Temporão aproveitaram para defender medidas tomadas pelos governos para combater a epidemia e procuraram desfazer mitos. Ambos garantiram que não vai faltar Tamiflu, o medicamento indicado contra a gripe A. Uma das preocupações do ministro e do secretário foi reforçar que, apesar de diferente, a gripe A não é mais agressiva. Temporão afirmou, que no ano passado, foram cerca de 4,5 mil mortes no país por gripe ou suas complicações – Tenho visto manifestações de médicos que me deixam muito preocupado. A situação não é apocalíptica. Cientificamente, não existe informação de que seja mais grave, mas apenas diferente – disse Temporão, médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em doenças tropicais, mestre em saúde pública e doutor em medicina social. Dados apresentados por Terra vão no mesmo caminho. Segundo ele, 965 mortes no Estado estavam relacionadas à gripe em julho passado. A gripe A matou 55 no Rio Grande Sul até agora. – Cada morte é trágica, mas essa gripe tomou um curso muito semelhante ao das outras. Quando dizemos que tem o perfil da outra, não é minimizando – afirmou o secretário, clínico geral formado pela UFRJ e mestre em neurociências. (Hora de voltar às aulas com cuidado. Zero hora, Porto Alegre, 14 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.04.)

Nesta reportagem é apresentada as repercussões das falas dos participantes o ministro da Saúde, José Gomes Temporão e do secretário estadual da Saúde, Osmar terra. O debate realizado no dia anterior organizado pelo grupo RBS, onde se marca a fala desses personagens como se tudo o que ocorre está sob controle e não necessita criar pânico e histeria em relação a Gripe A. “Trata-se de uma Gripe diferente” – disse o ministro. No Rio Grande do Sul em julho do ano passado, morreram 965 pessoas por gripe comum, a Gripe A matou 55 até hoje. Esses dados e as falas das fontes oficiais o Ministro e o Secretário da Saúde, ajudam a entender o que representou a Gripe A, no estado do Rio Grande do Sul e proporcionam perceber a ação da imprensa em torno do tema. Primeiramente se tratava de uma novidade e novidade é notícia, ou seja, uma nova gripe. A de se pensar que a gripe comum mata muitas pessoas todos os anos, porém se tornou algo normal e comum, portanto sem força noticiável. Mas, uma doença nova, com características diferentes, de uma origem de várias combinações genéticas (aves, porcos, humanos), surgida de um lugar distante, algo que era a realidade de outros lugares e que apenas se ouvia rumores de uma nova pandemia. É em um mundo globalizado com que as informações chegam muito rápido de qualquer lugar a Gripe A matava gente em todos os lugares do mundo, o “imaginário do planeta” que Charaudeau (2006) afirmou, agora se transformava no “imaginário da aldeia” e a partir deste momento seria a realidade vivenciada pelo povo gaúcho.


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Com todas essas características e peculiaridades a Gripe A se tornou em um acontecimento midiático, onde a imprensa se serviu de material para repassar histórias humanas e através das ações discursivas, contribuíram com as polêmicas e um enredo que parecia não ter fim. Deste modo muitas vezes o interesse da mídia é manipular a verdade, para alcançar seus objetivos conforme Vicchiatti (2005) traz o relato do cardeal Paulo Evaristo Arns: O cardeal e ex-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, no artigo “Imprensa e Ética”, publicado no Correio Brasiliense de 21 de abril de 1996 (p.44), comenta: Hoje, infelizmente, nem sempre sinto a dimensão ética nos profissionais da comunicação. Sinto a imprensa cooptada, manipulada, corrompida pelo poder econômico e político. (...) Por fim, a grande questão ética que a imprensa sempre colocou – é seu compromisso com a verdade. Faz tempo que a verdade deixou de ser matéria - prima da notícia e da reportagem. A verdade é manipulada de acordo com os interesses do veículo. O interesse é distorcer a informação e inventar o fato, para criar polêmica, conflito, confronto, sensacionalismo. Essa falta de verdade acaba com a justiça e a paz, destruindo a vida fraterna e solitária. Estou impressionado, hoje, com a pressa da imprensa em prejudicar e definir os culpados, com maior irresponsabilidade, sem oportunidade de defesa (VICCHIATTI, 2005, p.67).

Abaixo reportagem do dia quatorze de agosto, “Virologista é infectado pelo vírus que combate”: Virologista é infectado pelo vírus que combate Um dos principais especialistas brasileiros no vírus H1N1, o virologista paulistano Edison Luiz Durigon, 53 anos, cancelou ontem palestra que faria durante uma reunião-almoço na sede da Federação dos Hospitais do Rio Grande do Sul (Fehosul) em Porto Alegre. O motivo: foi diagnosticado com gripe A. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Microbiologia e vice-chefe do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), ele falaria a profissionais da saúde gaúchos justamente sobre a disseminação da doença no mundo. Apesar de estar isolado em casa e com dificuldade para falar devido à broncopneumonia que adquiriu por meio do vírus, Durigon brincou ontem com a situação inusitada. – Não podia dar a palestra com gripe. Não podia pegar o avião distribuindo o vírus. No laboratório do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o clima descontraído se mantém. – A gente brincou, quando fizemos o teste dele, que o vírus é tão sem-vergonha que não respeita nem virologista – contou a mulher de Durigon, Danielle Bruna Leal de Oliveira, que trabalha no mesmo local. (VIROLOGISTA é infectado pelo vírus que combate. Zero hora, Porto Alegre, 14 de agosto de 2009. Geral, p.53.)

Nesta reportagem mais uma vez o inusitado aparece como pauta e serve para reforçar o acontecimento noticioso, o especialista em virologia é contaminado por vírus. Assim como na reportagem do dia 7 de agosto que fala sobre os profissionais da saúde que estavam sendo infectados pelo vírus H1N1. É o que ninguém espera conforme Nelson Traquina diz: “Outro


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valor-notícia importante na cultura jornalística é o inesperado, isto é, aquilo que irrompe e que surpreende a expectativa da comunidade jornalística” (TRAQUINA, 2005, p.84). Abaixo uma parte da reportagem sobre gestantes: Grávidas têm atendimento em casa Para proteger gestantes da gripe A, serviço do Hospital de Clínicas visita pacientes em pré-natal Com prontuários de pacientes e ecografias nas mãos e aparelhos de medir pressão e batimentos cardíacos em uma maleta, a médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) Letícia Rodrigues Porciúncula deixou ontem pela manhã seu consultório para um novo serviço na Capital. Letícia tinha a missão de visitar gestantes, suas pacientes do pré-natal, que desapareceram do posto de saúde do HCPA por causa do perigo de contrair a gripe A. A iniciativa visa a conter a contaminação e reduzir o risco de morte das futuras mães, mobilizando um grupo de 18 médicos do Serviço de Atenção Primária à Saúde do HCPA, que já atendem a domicílio cerca de 80 pacientes acamados, a maioria idosos, que moram nas proximidades do posto (GRÁVIDAS têm atendimento em casa. Zero hora, Porto Alegre, 14 de agosto de 2009. Geral, p.52.).

Na reportagem se fala sobre a alternativa que os médicos encontraram para atender as gestantes, que não vão ao hospital com medo da Gripe A, atendimento residencial. As gestantes foram o grupo que mais ocorreram vítimas da doença. É a figura da mãe que não poderá dar a vida ao ser que está dentro dela o qual é muito esperado e amado. O vírus H1N1 é o monstro cruel que interfere na natureza impedindo o ciclo da vida. No primeiro momento, pode até pensar ser uma reportagem objetiva, na qual a intenção é apenas trazer informações, mas a objetividade jornalística também carrega grande força de persuasão conforme Vicchiatti (2005) afirma: O grande objetivo do jornalismo informativo é a decodificação do fato, despido de valorações, adjetivações ou da opinião pessoal do jornalista. Entretanto, essa busca, mesmo inserida num conjunto de técnicas de codificação, é inócua. Todavia, o resultado obtido – a informação com aparência de objetividade – tem grande importância e persuasão (VICCHIATTI, 2005, p.69).

No dia 15 de agosto o assunto vem com as seguintes chamadas de capa: “Levantamento sobre as 70 mortes no RS revela grupos de risco de gripe A”; “Um guia de prevenção para a volta às aulas”; “Proibida propaganda de remédios antigripe”. Abaixo as reportagens do dia 15 de agosto, exemplar n°16063, e suas respectivas análises. Estado registra 70 mortes pela gripe A Levantamento de ZH mostra que 62% das vítimas integram grupos de risco Ao anunciar mais 15 mortes pela gripe A no Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual de Saúde confirmou ontem que o vírus se torna mais letal conforme o perfil da vítima. Levantamento de Zero Hora apontou que quase dois terços dos 70 óbitos no Estado – 62% – se enquadram dentro dos grupos de risco.


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Os obesos e gestantes, que se tornaram prioridade no tratamento em hospitais e postos de saúde, ainda ocupam o topo da lista de registros fatais: juntos, representam 21% dos casos. A progressão da doença no Estado indica, no entanto, uma diversidade entre os fatores de riscos que levaram ou contribuíram para a morte dos pacientes. Diabéticos, hipertensos e cardiopatas não devem se descuidar. Essas comorbidades contabilizam juntas 10 casos até agora. Outro grupo que chama a atenção são as pessoas com alguma deficiência mental, com cinco registros. Ontem, duas pessoas com Síndrome de Down estavam na lista divulgada pelo governo gaúcho. A lista é vasta e atinge até epiléticos e esquizôfrenicos. As estatísticas apontam para outra curiosidade: as crianças e os idosos, que as autoridades sanitárias apontaram como prioritários dentro dos grupos de risco não estão entre as principais vítimas. Das 70 vítimas, 51 tinham entre 20 e 49 anos. Somente quatro estavam acima dos 60 anos e duas abaixo dos quatro anos. – Todos têm de se precaver, mas essas pessoas devem manter o cuidado redobrado, mesmo com a diminuição do frio. O contágio diminui, mas o vírus permanece por aí – alerta o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Francisco Paz. (AZEVEDO, Gustavo. Estado registra 70 mortes pela gripe A . Zero hora, Porto Alegre, 15 de agosto de 2009. Geral, p.42.)

A reportagem traz o número total de vítimas que chega a 70 mortes no estado do Rio Grande do Sul. A questão do número 70 estar no título é a força que carrega e a ideia de reforçar e de completude7, acaso fosse um número quebrado como 69 ou até mesmo 71 não teria tanto impacto discursivo como o número que fecha sete dezenas. Pode-se pensar que até atingir a marca o vírus matou muitas pessoas, mas só virou título do jornal quando atingiu o número 70. Depois descreve os grupos de pessoas que são mais atingidas pela Gripe A, o qual faz vítimas das mais diversas possíveis, a reportagem colabora para dizer que o vírus mata muitas pessoas, mas como um monstro que tem paladar próprio e preferências, deseja seu alimento favorito que são; obesos, gestantes, até mesmo pessoas com problemas mentais. E a reportagem coloca o leitor na expectativa negativa e na apreensão de que irão se confirmar mais mortes, ou seja, o vírus matou mais pessoas, só falta a oficialização dos órgãos competentes. O jornal usa como critério noticioso as estatísticas que fazem o levantamento do número de mortes. “Morte” para o jornalismo é notícia sempre, conforme Nelson Traquina (2005) afirma: A morte é um valor-notícia fundamental para esta comunidade interpretativa e uma razão que explica o negativismo do mundo jornalístico que é apresentado diariamente nas páginas do jornal ou nos écrans da televisão (TRAQUINA, 2005, p.79). Abaixo mais uma reportagem do dia 15 de agosto: Férias serviram para se preparar

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De acordo com o dicionário online Michaelis, “completude”: sf (completo+ude) Qualidade ou estado do que é completo. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portuguesportugues&palavra=completude


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Depois de ser adiada por duas semanas para evitar o avanço da nova gripe entre as crianças gaúchas, a volta às aulas está marcada para esta segunda-feira, 17 de agosto. O período de férias prolongadas foi essencial para que diretores, professores, pais e alunos entendessem melhor os riscos e os cuidados necessários para combater a doença. Conhecendo mais o assunto, o pânico fica de lado e dá espaço para cuidados básicos e eficientes que precisam ser colocados em prática por todos. O principal deles é lavar as mãos com frequência. É pelas mãos que ocorre boa parte da transmissão do vírus. Se alguém encostar em um objeto com o micro-organismo, por exemplo, e depois levar as mãos para a boca, o nariz ou os olhos, o vírus encontrará uma via de acesso fácil para desencadear a doença. – Por isso, o cuidado redobrado das crianças deve ser com a higiene. É preciso lavar as mãos seguidamente. Os pais também devem ter essa consciência e incentivar os filhos a tomarem o cuidado – recomenda o professor de Infectologia da Universidade Luterana do Brasil Claudio Stadnik. Segundo o professor, outra recomendação essencial é que os pais nunca mandem filhos com qualquer sintoma de gripe para a escola, mesmo que ainda não tenham consultado um médico. Essa decisão evita que outras crianças sejam infectadas e permite com que o doente não desgaste ainda mais a saúde ao ir para a aula. (FÉRIAS serviram para se preparar. Zero hora, Porto Alegre, 15 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.05.)

Esta reportagem dá a ideia do que foi a questão do retorno das férias escolares de inverno impedido pela Gripe A. O acontecimento esteve nas capas de ZH por oito vezes no período analisado. Foi um assunto muito debatido e polêmico, parecido com o final de uma telenovela, o qual se criou uma grande expectativa e suspense, em que as autoridades e professores não sabiam qual a melhor e mais segura decisão. Aqui o repórter se serviu de material noticioso, da polêmica e do dilema vivido por todos os envolvidos no assunto. As autoridades tentavam tranquilizar a população, porém o noticiário de cada manhã trazia mais mortes, os quais deixavam os pais e estudantes apreensivos em relação a um possível retorno escolar. Os professores vivenciam o dilema do atraso do regresso às aulas como um prejuízo no aprendizado dos alunos, a questão de não conseguir vencer o conteúdo e o possível atraso nas futuras férias de verão, que faria os alunos estarem em atividade em pleno janeiro e fevereiro, os meses mais quentes do verão gaúcho. Os alunos sendo prejudicados com a velocidade com que o conteúdo iria ser repassado e as dificuldades e possíveis defasagens no aprendizado o qual teriam em condições normais. O medo dos pais em que os filhos pudessem contrair a doença e também a preocupação de que os filhos estavam sendo prejudicados em seus estudos. A situação normal estava abalada, opiniões eram toda hora confrontadas. E os repórteres do jornal souberam decifrar e entender o fato, e dali extrair notícias que rechearam as páginas da Zero Hora neste período. A indefinição da situação, opiniões contrárias, fez do assunto e da realidade um acontecimento midiático enquanto discurso. Pois, em cada dia rendia novidades geradas de uma nova opinião, de um novo dilema, ou seja, a notícia que sempre estava sendo desdobrada em outras e sempre tendo o seu lugar e espaço na ZH. Seria


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o excesso de representação das mídias que Felipe Pena (2008) diz romper as barreiras da realidade: A abundância de representações (não só do cinema, mas também da televisão e de outras mídias) promove quase uma dissolução de fronteiras entre o real e o ficcional. O sujeito sai do cinema depois de assistir ao filme Gladiador e acha que sabe tudo sobre Roma. A menina só pensa em ter o corpo da Britney Spears e se apaixonar por alguém parecido com o Tom Cruise. A madame acredita que o sapato da moda é aquele usado pela protagonista da novela das oito (PENA, 2008, p.117).

Abaixo mais uma reportagem do dia quinze de agosto, “Anvisa proíbe anúncios de drogas contra gripe comum”: Anvisa proíbe anúncios de drogas contra gripe comum A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a veiculação de publicidade de remédios antigripais em todos os meios de comunicação, para diminuir seu uso indiscriminado, já que podem mascarar os sintomas da gripe A. A resolução da Anvisa publicada ontem no Diário Oficial da União atinge todo o território nacional e inclui os remédios à base de ácido acetilsalicílico, assim como medicamentos que aliviam os sintomas da gripe, entre eles o paracetamol, a dipirona e o ibuprofeno. – Não estamos condenando medicamentos que já têm segurança e efeitos conhecidos. Mas vivemos uma situação nova e, com ela, é preciso a adoção de uma série de cuidados – afirmou o diretor da Anvisa, Dirceu Barbano. A medida será aplicada a todos os meios de comunicação, incluindo os digitais. Segundo a resolução da Anvisa, o objetivo da medida é estimular o uso “absolutamente sensato” dos remédios, já que, apesar de ter certa eficácia e serem produtos cuja segurança é garantida, também podem mascarar sintomas importantes para o diagnóstico da gripe A. – Neste momento, é preciso que pacientes tenham a exata noção sobre os sintomas que apresentam e em que intensidade – disse. (ANVISA proíbe anúncios de drogas contra gripe comum. Zero hora, Porto Alegre, 15 de agosto de 2009. Geral, p.43.)

A questão central desta reportagem é a proibição da publicidade em torno de medicamentos para gripe comum, os quais poderiam em sua composição mascarar indicações para combater a Gripe A. O medo do governo seria as possíveis automedicações, que mais tarde poderiam agravar e gerar efeitos colaterais na população. Neste sentido as pessoas numa tentativa de prevenção ou até mesmo com prováveis sintomas usarem esses medicamentos os quais não eram recomendados para Gripe A e gerar complicações sérias em suas saúdes. Aqui se pode deduzir um pouco mais do acontecimento, Gripe A, o medo e desespero das pessoas, e a percepção da mídia de que o fato, não era mais uma gripe qualquer e sim uma gripe assustadora no qual as pessoas estavam assombradas e apavoradas a ponto de fazer qualquer coisa para preservarem suas vidas. E através desta ação discursiva e repercussão


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midiática afloraram ainda mais os sentimentos do público, ocasionando mais terror e apreensão nas pessoas. Dia 16 de agosto, exemplar n°16064, o assunto vem com as seguintes manchetes; “Famílias que superaram a gripe A”; “O dilema da volta às aulas”. Abaixo as reportagens e as considerações encontradas pela pesquisa. A GRIPE DERROTADA Eles estão curados Desde o final de abril que os gaúchos assistem ao alastramento da gripe A pelo mundo. Até a sexta-feira, o Rio Grande do Sul contabilizava 70 mortes. O cenário é de perplexidade, quando não de aturdimento: obituário subindo, hospitais superlotados, autoridades em alerta, profissionais da saúde extenuados no front contra a pandemia. Nesta reportagem, ZH mostra a face menos conhecida do novo mal. São as centenas de pacientes que superaram a doença, padeceram suas dores, resignaram-se à longa convalescença, mas estão curados e retomaram suas vidas. Conheça quatro histórias dos que foram apresentados ao vírus H1N1, e o derrotaram. Refúgio em fazenda e isolamento na Capital Família Bortolotto, de Uruguaiana Ao planejar uma viagem para celebrar seu 22° aniversário, no início de julho, o escritor Benhur Bortolotto logo pensou na Buenos Aires do Obelisco, de Puerto Madero e da Casa Rosada. Na última hora, desistiu. Achou que seria um risco estar na capital argentina justamente em meio à pandemia de gripe A. Por ironia, acabou contraindo o novo vírus no destino alternativo: Uruguaiana, sua cidade natal. Já completamente recuperado da doença que o manteve em isolamento domiciliar por uma semana, Bortolotto leva com bom humor a situação vivida. Os sintomas começaram a surgir em 18 de julho, em Porto Alegre, um dia depois de retornar da viagem a Uruguaiana. Tosse seca, febre repentina, dor no peito, dor no corpo e dificuldades respiratórias vieram acompanhados de diarreia e vômitos. Além de se enquadrar no quadro clássico da nova gripe, o jovem teve contato durante dias com pessoas que depois tiveram a confirmação da doença no município da Fronteira Oeste. Na cidade, ouviu conversas sobre a propagação do vírus e viu pessoas com máscaras nas ruas como forma de proteção. – Achava que era mais uma gripe com dose de anabolizante cultural – afirma o escritor, numa referência ao que avaliava como histeria da população com relação ao vírus influenza H1N1. Em 19 de julho, o prefeito Sanchotene Felice decretou situação de emergência devido ao aparecimento de diversos casos suspeitos e das primeiras três mortes na cidade da fronteira. No mesmo período, familiares do escritor se refugiaram em uma fazenda de Uruguaiana para evitar contato com conterrâneos infectados. (...) (....) – Nunca tive uma gripe como essa. Doía tudo – relembra Bortolotto. (...) O único contratempo deixado pela doença foi o atraso na finalização do primeiro livro, que tem previsão de ser lançado na Feira do Livro da Capital (30 de outubro a 15 de novembro), mas pode não ficar pronto a tempo. Ao justificar a situação ao editor da obra de ficção A Nave das Borboletas, que narra as últimas duas semanas de um idoso suicida, Bortolotto foi espirituoso: – Passei uns dias sob má influenza. Os anjos mascarados que venceram o vírus H1N1


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Família Vignochi, de Canoas Agora a representante comercial Janes Helena Vignochi pode sentar-se na varanda da casa, em Canoas, numa manhã de sol, para ouvir o filho Alysson dedilhar rock and roll ao violão. Quem vê a cena familiar, ao passar pela calçada, não imagina que os dois estiveram segregados por máscaras de prevenção contra a gripe A durante nove dias. Os sintomas do vírus H1N1 começaram a flechar Janes, 44 anos, em 29 de julho. Daquelas pessoas que se parecem a um vulcão transbordando energia, a representante comercial sentiu-se mal ao visitar uma cliente lojista, em Alvorada. Pediu duas bergamotas para aliviar um incômodo estomacal, depois comentou que estava com dores, suando, mas, estranhamente, de pés gelados. – Alemoa, acho que tu não tá legal – avisou a cliente. Janes voltou a Canoas e telefonou para a filha, a atriz Elisa Veeck, 21 anos, que vive em São Paulo. – A mãe tá mal... Sabendo que Janes não é de se queixar, Elisa preocupou-se: – Mãe, pode estar com o vírus! No dia 30, Janes foi a nocaute. Com náuseas, diarreia, tosse seca, pulmões entupidos, febre de 39°C, suor e pressão arterial elevada (10 x 14), caiu na cama. Foi a vez do irmão, Marcos Vignochi, 32 anos, intervir. – Mana, pra ti estar de cama, é porque a situação é muito grave. Levada à Unidade Básica de Saúde do bairro Niterói, a representante comercial ouviu que deveria tomar o Tamiflu, usar máscara e ficar isolada dentro de casa. Ao saber que os pulmões estavam acatarrados, Janes finalmente se alarmou: – Se o Tamiflu não funcionar, estou perdida. Como é que vou respirar? A paciente trancou-se no quarto, apartando-se dos filhos (Jander, 22 anos, não estava), exigindo que Alysson e Elisa utilizassem máscara e não partilhassem louças, talheres e copos. Assim que ingeriu o terceiro comprimido de Tamiflu, na 36ª hora de tratamento, Janes sentiu os pulmões se descomprimirem, as dores aliviarem, a respiração fluir. (...) Anjos mascarados, Elisa e Alysson se desvelaram pela mãe. Cozinharam, preparam chás, levantaram às 5h – o horário de tomar o Tamiflu –, mantiveram a casa limpa e arejada. A filha trocou a roupa de Janes sempre que estava encharcada de suor. A doente só deixava o quarto para ir ao banheiro. – Castigão total – lembra. Alysson provou como a gripe A pode ser atemorizante. Ao ir à padaria, de máscara, notou que os fregueses à espera do cacetinho recém-saído do forno o cravejaram de olhares oblíquos, que oscilavam da reprovação ao pânico. Até que a proprietária, sabendo da situação dos Vignochi, tentou desanuviar a tensão: – Tu estás usando a máscara por causa do vírus? – Não, é só por precaução – respondeu Alysson. Janes não sabe como contraiu o vírus. Não viajou para locais de risco, mas circula por lojas da Região Metropolitana e costuma enfrentar filas nos bancos. No dia 7, ao voltar ao posto de saúde, recebeu o atestado de curada e ganhou elogios do médico por cumprir o tratamento à risca. Uma noite inteira abraçada à neta Família Lopes, de Santa Maria A estudante Luiza dos Anjos Lopes, 13 anos, e sua avó, Sonia Terezinha dos Anjos Lopes, 64 anos, passaram abraçadas a noite de 18 para 19 de julho. Com o corpo vibrante de febre, a menina se aninhou na cama da


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professora universitária, com quem mora em Santa Maria, em busca de carinho e calor. Na manhã seguinte, como os sintomas seguiam se agravando e a suspeita de gripe A virava certeza, Luiza fez uma pergunta seca: – Vó, será que eu vou morrer? Como quase todas as vítimas do novo vírus, a adolescente não morreu. Após quatro dias de internação e um tratamento com Tamiflu, a família venceu a doença e o medo. Nos dias anteriores à internação, a aluna da 8ª série apresentou sintomas leves de gripe. Sábado, dia 18, sua saúde começou a esmorecer. Foi levada a uma unidade de saúde, de onde foi liberada com uma receita de um antitérmico e analgésico. Continuou piorando. À noite, na cama da avó, tremia com febre de quase 39°C. Somaram-se aos calafrios dificuldade para respirar, dor intensa nas articulações e diarreia. – Eu fiquei preocupada porque via as notícias de que bastante gente tinha morrido – conta a menina. Pela manhã, Sonia telefonou para a mãe da adolescente, que mora e trabalha em Gramado. – Não sabia se chamava um médico particular, um pneumologista, se ia de novo ao hospital. Tive receio de que ela não recebesse o tratamento adequado – afirma a professora. A preocupação era redobrada pelo histórico de doenças respiratórias de Luiza. Decidiram retornar à unidade de saúde, onde a estudante foi encaminhada para uma ala de isolamento da nova gripe e ficou internada sob tratamento com Tamiflu. A mãe passava as noites com a filha, e a avó se somava a elas durante o dia. Os familiares foram fundamentais para tranquilizar a paciente no ápice da doença: – Minha família me deu muita coragem, disseram que eu ia melhorar, e eu me acalmei. Todos usavam máscara para reduzir a possibilidade de contágio. Também por precaução, o avô de Luiza, Délcio da Silveira Lopes, 62 anos, mudou-se de Santa Maria para a casa de uma filha em Santa Cruz do Sul durante a convalescença da neta. (...) – Tu vês, nem eu, que dormi uma noite inteira ao lado dela, peguei a gripe – surpreende-se Sonia. Na segunda-feira, segundo dia de internação e uso da medicação, a menina começou a apresentar sinais de melhora. Na quarta-feira, quando voltou para casa, continuou usando máscara. A avó mantinha as janelas abertas, para ventilar o apartamento, e lavava diariamente roupas, lençóis e utensílios usados pela neta para evitar o vírus no ambiente. (BOCK, GONZATTO e MARIANO. Eles estão curados. Zero hora, Porto Alegre, 16 de agosto de 2009. Geral, p.22,23.)

O tema central e relevante da reportagem “Eles estão curados” é a sobrevivência. Mostra a antítese em comparação a primeira reportagem analisada neste trabalho que fala das “25 vidas que a gripe interrompeu” e da força que a morte tem para ser noticiada. No entanto, esta reportagem mostra a importância da vida e do triunfo dos seus sobreviventes. A reportagem do dia dois de agosto traz as fontes como personagens, da mesma forma os repórteres utilizam o mesmo processo descritivo dos corajosos sobreviventes, esses pessoas comuns que atingiram os noticiários por escaparem das garras da morte e vencerem o vírus e ação discursiva feita pelos jornalistas vai gerar grande dramaticidade de sentimentos. A reportagem é o relato das falas daqueles que não aceitaram a morte, mas que por uma porção de sorte insistiram em viver. Afinal até então o vírus foi mostrado como indestrutível, como o monstro que destruiu a vida de muitos gaúchos e agora aparecem personagens que conseguiram vencê-lo, aí está toda a fascinação e encanto desta reportagem


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de domingo. É o fascínio que o testemunho de um sobrevivente provoca no público, o qual Charaudeau (2006) afirma acontecer com todos os sobreviventes do atentado de onze de setembro e que serve para ilustrar a Gripe A. A par disso, foram-nos apresentadas as entrevistas de numerosas testemunhas, que contaram todas as mesmas coisas com as mesmas palavras sobre o que viram e ouviram. Mas tratava-se, na maior parte de testemunhos que estavam nas torres ou próximas a ela e que, então, escaparam da morte: o testemunho de um sobrevivente sempre produz efeito de fascinação, pois nos remete ao acaso do nosso próprio destino: por que, na mesma situação de perigo, alguns morreram e outros permanecem vivos? (CHARAUDEAU, 2006, p.245)

Um ponto interessante desta matéria é que sua construção se dá basicamente de entrevistas, em que o interesse do repórter é utilizar das falas dos sobreviventes. A entrevista é a técnica que o jornalista usa para captar as informações através do relato das fontes. A escolha do entrevistado se dá pelo interesse do repórter em ouvir aquilo que ele deseja ouvir. No ato de entrevistar não se trata de um diálogo inocente e despretensioso, mas sim da extração dos elementos que o jornalista deseja remover da fonte. No momento de transcrever o que a fonte falou, o repórter escreve aquilo que interessa e colabora para seu trabalho. Vicchiatti (2005) chama a entrevista de uma construção: Sabe-se, no meio jornalístico, que às vezes a entrevista – essa forma primordial de captação de informações – é organizada de tal modo a forçar o entrevistado a dizer o que previamente se deseja, não o que poderia nascer de um diálogo verdadeiramente interativo entre fonte e repórter. Sabe-se o quanto a entrevista pode ser construída como um relato espetaculoso, calcado em estratégias que beiram o pitoresco, camuflando a compreensão mais ampla do significado dos fatos e de seu entorno, quando não são distorcidas as respostas dos entrevistados (VICCHIATTI, 2005, p.24).

Analisando os títulos da reportagem poderia estar se pensando novamente em se tratar de algum livro, um lançamento de filme, enfim existe uma ligação e combinação de estilo do título da reportagem com a literatura. “Refúgio em fazenda e isolamento na capital”, logo que se lê este enunciado se remete a outros acontecimentos. As palavras “refúgio” e “isolamento” dão a ideia de exílio, de alguém que está sendo afastado e excluído da sua vida normal, e tendo que encontrar outro local para viver. Exatamente o que aconteceu com as pessoas com Gripe A, esses tiverem que evitar o contato próximo dos seus familiares e amigos, pelo medo das pessoas de serem contaminadas. As palavras expressam também a busca de um lugar secreto aonde se pode encontrar paz. Ou seja, as pessoas com Gripe A iriam encontrar refúgio e abrigo em algum lugar isolado e distante no qual não seriam perturbados e evitados. Lugar em que não representasse o medo, lugar em que fossem aceitos, no qual não prejudicariam ninguém, lugar de passagem aonde quando tudo acabasse teriam suas vidas retomadas e normalizadas. O repórter faz com que o leitor de posicione em relação a situação e tome o lugar das pessoas que sofreram com o vírus H1N1, é a personalização na qual faz da notícia


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se tornar algo interessante ocorrendo identificação ou rejeição do público, conforme Traquina (2005) explica: Um valor-notícia de construção que é fundamental devido à natureza do discurso jornalístico á a personalização. A lógica é a seguinte: quanto mais personalizado é o acontecimento mais possibilidades tem a notícia de ser notada, pois facilita a identificação do acontecimento em termos “negativo” ou “positivo”(TRAQUINA, 2005, p.92). E o título “Os anjos mascarados que venceram o vírus H1N1”. Onde se podem encontrar anjos? Na bíblia, na literatura, no imaginário popular. Anjos são as representações de criaturas que encantam e trazem mistério e fascinação para as pessoas. O repórter faz uma alegoria perfeita em intitular a matéria “Os anjos mascarados que venceram o vírus H1N1”, fazendo a comparação com as criaturas do bem que salvaram aquela mulher. “Mascarados” usar máscara foi a alternativa que caracterizou todas as pessoas que sofreram com a Gripe A. Os filhos de Janes foram os anjos mascarados que não deixaram a mãe morrer e “bateram a porta na cara” do vírus, se recusando aceitarem a morte. Com isso o repórter faz ocorrer a valorização dos filhos de Jane diante do público, salientando a coragem com que tiveram para enfrentar a doença. É o que Traquina diz: “Por personalizar, entendemos valorizar as pessoas envolvidas no acontecimento: acentuar o fator pessoa”. (TRAQUNA, 2005, P.92) “Uma noite inteira abraçada à neta” – esse título mostra a questão do sentimentalismo entre pessoas do mesmo sangue, no caso da reportagem a avó e sua neta. A matéria tem grande carga de drama e de sentimentalismo, onde mostra que a senhora não se importou se poderia ficar doente, e com um sentimento de querer proteger e cuidar da menina desafiou o vírus. É o alvo afetivo que fala mais ao público, conforme Patrick Charaudeau (2006) afirma: Um alvo afetivo é, diferente do precedente, aquele que se acredita não avaliar nada de maneira racional, mas sim de modo inconsciente através de reações de ordem emocional. Assim sendo, a instância midiática constrói hipóteses sobre o que é mais apropriado para tocar a afetividade do sujeito alvo. (CHARAUDEUA, 2006, p.81)

A avó pode ser retratada como a figura do herói altruísta que abdica da sua própria segurança para proteger os indefesos. E como na batalha entre Davi e Golias, a senhora lutou contra o vírus que destruiu muitas vidas e venceu a Gripe A que aterrorizou milhares de pessoas, podendo dizer: - A Gripe está derrotada. Abaixo mais uma reportagem do dia dezesseis de agosto, “A volta às aulas da dúvida”: A volta às aulas da dúvida Fim das férias prolongadas em razão da gripe A põe pais diante do dilema de mandar filhos à escola A volta às aulas, postergada para a segunda-feira na maior parte das escolas públicas e privadas gaúchas, vem sendo precedida por intensos debates familiares em todo o Estado.


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A continuidade da epidemia de gripe A lança dúvidas sobre pais ainda temerosos de que o colégio facilite o avanço da doença. O receio faz com que parte deles contrarie a orientação oficial e adie mais uma vez, agora por conta própria, o retorno dos filhos aos estudos. A bibliotecária da Capital Roselaine Prestes, 39 anos, colocou a volta dos filhos à escola em discussão dentro de casa. Após debater os prós e contras de adiar a retomada, a família decidiu ampliar em mais alguns dias o recesso. Giovana, de nove anos e estudante da 3ª série do Ensino Fundamental no Colégio Maria Imaculada, e Fernanda, quatro anos, na pré-escola, vão ficar em casa pelo menos na segunda e na terça-feira. – A epidemia ainda está aí, e tenho medo de que muitas crianças gripadas sejam mandadas para a aula – argumenta Roselaine. Na casa do professor Tomaz Wonghon, 60 anos, a tribuna familiar determinou veredicto oposto: Krishna, 18 anos e aluno do 3º ano no colégio estadual Paula Soares, e Adler, 10 anos e frequentando a 4ª série, vão rever os amigos nesta segunda. – A contaminação pode ocorrer dentro ou fora da escola. Concluímos que não faz diferença. Se houver algum caso localizado, aí se deve tomar alguma providência – avalia Tomaz. O infectologista pediátrico Luis Carlos Ribeiro acredita que os pais podem mandar os filhos para o colégio, seguindo precauções básicas. O mais importante, diz, é orientar crianças e adolescentes a lavar as mãos seguidamente e evitar contato com olhos, boca e nariz, por exemplo. – O aluno também pode levar um frasco de álcool gel para fazer a higiene das mãos – sugere. (A VOLTA às aulas da dúvida. Zero hora, Porto Alegre, 16 de agosto de 2009. Geral, p.24.)

Nesta reportagem de domingo dia 16 de agosto um dia antes da volta às aulas, o jornal traz a polêmica que envolveu milhares de lares gaúchos – “Devemos mandar as crianças de volta para as escolas”. E essa grande incógnita que imperava no pensamento da sociedade naquela época, foi alimentada e nutrida pelo jornal. Nesse ponto, pode-se notar que os meios de comunicação têm interferência significativa na vida do homem moderno. As mídias não ficam apenas como formadoras de opinião, mas sim como condutoras de conduta. Mas através da ação discursiva constroem representações em uma “suposta realidade” ou baseada no real. É o que Charaudeau (2006) afirma: “As representações, ao construir uma organização do real através de imagens mentais transpostas em discurso ou em outras manifestações comportamentais dos indivíduos que vivem em sociedade, estão incluídos no real, ou mesmo dados como se referem ao próprio real” (CHARAUDEAU, 2006. P.47). Então baseados no medo e na insegurança existentes na sociedade da época, as mídias ao noticiar ajudavam a construir, nada mais nada menos, do que insegurança, aflição e incertezas em relação ao futuro dos alunos, que voltariam para a escola e poderiam contrair a Gripe A. Pode se pensar que está não era a intenção do jornal, a final os argumentos e probabilidades dos estudantes de contraírem a gripe eram significativas. Esse é o olhar do jornalista transposto e modificado pelo discurso, no qual procura reconstruir uma suposta realidade ou representação desta, conforme Vicchiatti (2005) explica:


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O ser humano não expõe, puramente, as coisas – dobra-as, mascara-as, conforme o modo como as vê. Ao trabalhar com o acontecido presente em um passado imediato, aquilo que o jornalismo apresenta não é a realidade, mas sua representação, com toda a subjetividade que um olhar pode carregar. O jornalismo está sempre em um presente, narrando o que é passado, porém em um passado muito próximo, atual. Faz uma reconstrução desse passado, mas sem jamais conseguir recuperar o real em sua totalidade (VICCHIATTI, 2005. p.92).

Dia 17 de agosto, exemplar n°16065, de segunda-feira que marca o retorno das férias dos estudantes, o assunto não poderia ser outro e vem com a seguinte chamada; “Saúde mostra recuo da gripe A e pede calma no retorno às aulas”. Abaixo parte da reportagem: Gripe A foi o tema das férias Milhões de gaúchos retornam às escolas no momento em que autoridades registram uma redução na circulação do vírus no Rio Grande do Sul A maior parte das redes pública e particular de ensino no Estado retoma as atividades, hoje, com o duplo desafio de recuperar os dias letivos perdidos devido à ameaça da gripe A e manter o vírus distante das escolas. A tarefa deverá ser facilitada pela redução na circulação do vírus em solo gaúcho no mês de agosto, conforme informações da Secretaria Estadual da Saúde. Na maioria dos estabelecimentos gaúchos, o fim das férias foi adiado do dia 3 de agosto para hoje – o que resulta em 10 dias letivos, excluindo-se os finais de semana. O objetivo principal da medida foi evitar a concentração de alunos em sala de aula durante o auge das contaminações. Conforme o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra, a volta às aulas coincide com um declínio na circulação do H1N1 em todas as regiões. Apesar disso, 23 prefeituras da Associação dos Municípios da Zona Sul, que inclui Pelotas, decidiram adiar o recomeço para 1º de setembro. Os dados compilados pela Secretaria Estadual da Saúde indicam que foram notificados 882 casos de maior gravidade no Rio Grande do Sul na última semana de julho – quando a nova gripe teria atingido o pico de contaminações. A primeira semana de agosto marcou uma queda de 26,7% nos informes de possíveis doentes, com um total de 646 pessoas. Os números da semana passada ainda estão sendo reunidos. Terra adianta, porém, que eles devem manter a tendência de encolhimento da epidemia. – Acredito que deva ficar em cerca de 500 pacientes – projeta. (GONZATTO, Marcelo. Gripe A foi o tema das férias. Zero hora, Porto Alegre, 17 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.04,05.)

No meio de tanta desconfiança e instabilidade os alunos voltaram às aulas naquela segunda-feira, a fim de retomar suas atividades e o tempo perdido devido ao medo de contágio com a Gripe A. O assunto da volta ou de manter o recesso foi polêmica no jornal parecia estar sendo encerrado com a definição das autoridades de que os estudantes deveriam voltar a rotina normal e também de que o vírus estava perdendo força e as pessoas estavam se curando da Gripe A. Mas a mídia tem o poder de apresentar sempre novas interpretações e leituras na construção do acontecimento, parecia ser o que estaria acontecendo através da divulgação da Gripe A, assim como ocorreu no onze de setembro, conforme Patrick Charaudeau (2006) afirma: O que acrescentar de novo sobre o 11 de setembro, depois de tantas análises e explicações? O acontecimento, no que tange à sua significação, é sempre o sentido de uma leitura, e essa leitura que o constrói. O acontecimento midiático, no caso, é objeto de uma dupla construção: a


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de uma encenação levada a efeito pela transmissão, a qual revela o olhar e a leitura feita pela instância midiática, e o leitor ouvinte telespectador que a recebe e interprete (CHARAUDEAU, 2006, p. 243).

Porém o assunto para ZH parecia não ter fim e sempre ter características de novidade que poderiam gerar futuras notícias. E pode-se notar que o jornal faz questão de antecipar algum fato que possa ocorrer. Quando o jornal traz a questão de uma segunda onda do vírus H1N1, de uma maneira implícita leva o leitor a fazer uma comparação da epidemia de 1918, a Gripe espanhola, em que a segunda onda da pandemia foi mais letal que a primeira. Para o jornal o assunto não acabou, por mais que os fatos sejam de que as pessoas estão deixando os hospitais, e estão ficando curadas, pode sim haver uma segunda onda do vírus da Gripe A, neste modo, o medo, o clima de instabilidade de anormalidade continua sendo mantido na sociedade. Outra questão é as escolas dos municípios do sul do estado, que se recusam a voltar de férias, com o medo de que haja contaminações problemas com a Gripe A. Ou seja, ZH mantém o assunto, Gripe A, sempre atual e sempre com caráter noticioso, um acontecimento que interferiu sim na vida de muitas pessoas, mas também um acontecimento como criação e supervalorização da mídia. No dia 18 de agosto, exemplar n°16066, de terça-feira a questão da volta às aulas parece não ter fim e vem com uma foto na capa de um menino com guarda-chuva tendo que enfrentar toda uma situação climática desfavorável para arcar com o compromisso de frequentar a escola. Como se o jornal dissesse nas entrelinhas – com todo esse frio e essa chuva, esse menino pode se gripar, ainda mais com essa nova gripe que está matando muita gente, que perigo! Abaixo a foto e a reportagem:

(FRANCIOSI, Adriana. Zero Hora, Porto Alegre, 18 de agosto de 2009. Capa) Novos hábitos


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Contente por reencontrar o colega Wesley Godóis, 14 anos, o estudante Angelo Machado, 11 anos, foi logo estendendo a mão para um cumprimento, às 7h30min de ontem, na Escola Estadual William Richard Schisler, na Capital. Mas a mão ficou no ar. – Olha a gripe aí – disse Wesley, enquanto recolhia o braço para evitar o contato físico. A cena comprova uma volta às aulas inédita no Rio Grande do Sul, depois de duas semanas com recesso prolongado para conter a epidemia que já matou pelo menos 70 pessoas no Estado. Para deter a disseminação do vírus, escolas adotaram estratégias. Bebedouros foram interditados para forçar os alunos a levarem de casa sua própria garrafa de água, estudantes foram recepcionados com álcool em gel para limpar as mãos e professores adaptaram suas lições para dar dicas de prevenção. Os estudantes voltaram às aulas com as mochilas reforçadas com um arsenal de prevenção. Na turma 63 do Colégio Anchieta, por exemplo, 19 dos 36 alunos tinham suas próprias garrafinhas de álcool gel. Nas escolas particulares, o temor de que a abstenção fosse elevada não se confirmou. O índice de faltas foi considerado insignificante pelo presidente do Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), Osvino Toillier. Por outro lado, no Instituto Estadual de Educação General Flores da Cunha, na Capital, a direção calculou que cerca de 30% dos estudantes não compareceram ontem. Sem bebedouros, volta para casa Com bebedouros fechados para evitar a propagação do vírus da gripe A, a Escola Estadual Paulo da Gama, na Capital, foi obrigada a terminar mais cedo o primeiro turno de aula depois de férias prolongadas. Ontem, a maioria dos estudantes não havia levado garrafas de água para o próprio consumo, uma solicitação da escola. (...) Prevenção extra na mochila No retorno às aulas, o álcool gel virou um novo item do material escolar. Na turma 63 do Colégio Anchieta, na Capital, 19 dos 36 alunos levaram suas próprias garrafinhas de álcool gel para a sala de aula. Para incrementar os cuidados, o aluno César Umberto Vieceli Júnior, 12 anos, fez questão de levar um kit completo. Sobre sua classe, ostentava na manhã de ontem duas embalagens de álcool gel, uma máscara, uma garrafinha de água e até um lenço umedecido. Antes da aula, classes limpas Na luta contra a gripe A, as turmas foram convocadas a fazer a sua parte para manter as salas de aulas imunes ao vírus. Na volta do recreio do Colégio Anchieta, os professores adiaram por alguns minutos as lições do dia para circular entre as classes distribuindo álcool e lenços de papel. Antes do reinício da aula, cada estudante teve de desinfectar a própria classe. – Não adianta ter todo um arsenal se eles não fizerem a sua parte – diz a professora Ana Claudia Klein. Exemplo de quem superou a gripe No Colégio Marista Rosário, na Capital, um aluno tinha uma contribuição especial para dar. Depois de ser vítima da gripe A, explicou aos colegas como se recuperou. – Eu tive febre mais alta do que 38°C, dor na garganta e no corpo. Agora lavo as mãos sempre, pego sempre uma garrafinha de água para tomar. Minha mãe cortou os shoppings, o cinema e até um pouco do supermercado – contou o aluno, de 10 anos. Na turma, dos 34 alunos, seis faltaram à aula ontem. Pelo menos um deles por causa da gripe A. Ajuda que vem da ventilação Com mais de 2 mil alunos, o Instituto de Educação Flores da Cunha, na Capital, implementou medidas para evitar doentes dentro da instituição. Para reduzir a circulação interna, está suspensa a realização de aulas em salas de acordo com a disciplina. Quem está circulando são os professores; os alunos terão aula sempre na


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mesma sala pelo menos por duas semanas. A dica é manter as janelas e portas abertas para facilitar a circulação do ar. – Em muitas salas estão faltando vidros, o que ajuda na ventilação – revelou o diretor da instituição, Paulo Sartori. (...) (BOCK e DUARTE. Novos hábitos. Zero hora, Porto Alegre, 18 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.04.)

A reportagem deste dia vem com uma cena muito comum no ambiente escolar, descrita com perfeição pelos repórteres. A questão dos dois meninos reagirem de modos diferentes em meio a epidemia, ajuda a alimentar a polêmica em relação o retorno às aulas e também mostra a questão de que algo mudou entre as pessoas, ou seja, a sociedade não é mais a mesma, depois da Gripe A. Quando o menino Angelo Machado de onze anos estende a mão para o colega, carrega toda a inocência de que a vida continua a mesma, e está com saudade do amigo o qual fazia tempo que não encontrava, querendo saudar o “amiguinho” com toda a camaradagem e ingenuidade de que tudo estava normal. Nesta ação os repórteres reforçam e trazem a interrogação para os pais que leram a matéria, “nossos filhos, crianças, na sua simplicidade e ingenuidade podem estar se contaminando. Eles não saberão se cuidar, nenhum professor pode impedir de que as crianças brinquem umas com as outras, a situação é perigosa”. A atitude do menino Wesley de 14 anos, de não estender a mão para o colega é a representação de que as coisas estavam diferentes e tinham mudado. Os repórteres trazem o drama vivido pela sociedade gaúcha na época, na qual a Gripe A, que mudou o relacionamento das pessoas. Colocando frieza e distância entre adolescentes que no passado gozavam de uma bela amizade e que no momento estão desconfiados ao ponto de negar um simples aperto de mão. A atitude de Wesley é de alguém que tem medo, que não quer morrer como muitas pessoas morreram, nem que para isso perca amizades, é a questão da sobrevivência própria. A Gripe A não foi um acontecimento comum e sem interferência na vida das pessoas, essa pandemia mudou os hábitos e aguçou o sentimento de auto-defesa e sobrevivência na vida de todos os gaúchos. Esta cena descrita pelos personagens, que abre a reportagem traz a emoção dos repórteres e a capacidade de analisar uma situação que foi modificada, essa percepção emotiva no qual a cena é apresentada será transposta ao texto, conforme Vicchiatti (2005) refere-se:


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Esse texto híbrido, com uma estética evidenciada, busca despertar a emoção do leitor. Mas uma emoção tão real como os fatos que a determinam. Existe, no entanto, um outro tipo de emoção tão importante como essa oferecida ao leitor através de histórias de vida: a emoção de repórter (narrador) que transpassa a narrativa. E isso é possível, mesmo que todas as regras de jornalismo exijam distanciamento e isenção. A emoção aqui se refere ao olhar, a um olhar que não é frio, não está distanciado das dores alheias. E esse olhar, que tantos teóricos gostariam de ver escondido sob a sombra da objetividade, é que denunciará a presença de um jornalista como contador de histórias, que diz como vê, ouve e sente (VICCHIATTI, 2005, p.92).

Dia 19 de agosto, exemplar nº 16067, o assunto vem com as seguintes manchetes: Decifrando o H1N1; Diminuem os casos de Gripe A. Abaixo a foto da maquete que ilustra o vírus H1N1 que foi capa de ZH daquele dia.

(VIEIRA, Mauro. Zero Hora, Porto Alegre, 19 de agosto de 2009. Capa) Museu expõe versão gigante do vírus da gripe Com 50 centímetros de diâmetro, uma versão gigante em resina do vírus da gripe A é a nova atração do Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Por 30 dias, a exposição esclarecerá as dúvidas dos visitantes sobre a nova doença. Seis painéis traz explicações sobre contágio, prevenção e tratamento. Os visitantes recebem ainda folhetos com orientações. Kits de higienização produzidos na Farmácia Universitária serão sorteados. – As pessoas sairão sabendo a história de evolução das gripes – diz a professora Virgínia Minghelli Schmitt, que organizou a exposição. De férias na Capital, os irmãos cariocas João Marcelo Francisco Damasceno, 11 anos, e Ana Terra, 14 anos, foram ontem ao museu. – Não tinha ideia de que era assim. É legal a gente saber mais. Aqui a gente pode ver o vírus, além de saber tratamento e sintomas – disse Damasceno. (MUSEU expõe versão gigante do vírus da gripe. Zero hora, Porto Alegre, 19 de agosto de 2009. Geral, p.27.)

Nesta reportagem o assunto vem representado através da foto que simula o vírus, o tema Gripe A, rende uma matéria educativa, na qual sugere aos leitores a visitação ao museu da PUC para aprender sobre o tema. Deste modo a Gripe A, sempre está rendendo material


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noticioso, mas, porém parece que o assunto está sendo esgotado para o jornal, onde não acontecem mais histórias de fascinação e encanto, como em períodos anteriores. Ministério vê indícios de recuo da epidemia no país A queda no número de casos graves da gripe A observada no boletim do Ministério da Saúde de ontem pode ser o indicativo de que a doença está recuando. De acordo com o relatório, entre os dias 9 e 15 de agosto ocorreram 111 registros, enquanto que nas três semanas anteriores o ritmo era de 800 a 900 pessoas em estado grave. O ministério, porém, pondera que muitas secretarias de Saúde têm casos que não foram adicionados ao sistema de base de dados. Em vista disso, aponta que ainda é preliminar o possível recuo da gripe no Brasil. No Estado, a Secretaria Estadual da Saúde sinaliza que o número de notificações e casos graves diminui significativamente a cada dia. As informações da Central de Regulação do Estado confirmam a tendência de queda. De sexta-feira até ontem, o número de pacientes internados em UTIs caiu de 279 para 254. Já a média de solicitações para a Central, que era de 11 por dia na última semana de julho e na primeira de agosto, caiu agora para 6,5. A Central foi responsável por 50% dos casos de internação em UTIs no Estado. Apesar da boa notícia, o número de mortes não para de crescer. O Centro Estadual de Vigilância em Saúde confirmou ontem mais oito mortes por gripe A no Rio Grande do Sul. Os resultados foram remetidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. Agora já são 78 as vítimas gaúchas. No país, 368 perderam a vida por causa da doença. (MINISTÉRIO vê indícios de recuo da epidemia no país. Zero hora, Porto Alegre, 19 de agosto de 2009. Geral, p.27.)

Esta reportagem segue a tendência da primeira, onde mostra que a situação da pandemia parece estar sendo controlada e de que o vírus já não contamina tantas pessoas. E a partir deste momento, o fato noticioso será o recuo do vírus e a estabilização da volta a normalidade. Porém, a notícia de que foram confirmadas mais oito mortes no Rio Grande do Sul, totalizando um número de 78 no estado cerca de 20% do total de mortes das ocorridas no Brasil, que foram 368. Apesar das reportagens serem objetivas e sem uma aparente dramatização, como já foi relatado neste trabalho, é que a objetividade jornalística tem grande poder persuasivo. As reportagens mencionarem o assunto Gripe A não tratando-os com a mesma intensidade e dramaticidade, no entanto o tema para o jornal ainda relevante e pode adquirir público, pois toda notícia tem por manipular conforme Vicchiatti (2005) explica: Neste caso, a manipulação não é apenas um ato para obter benefício imediato, mas algo intrínseco ao próprio ato de informar. A manipulação passa a ser entendida como uma violência simbólica, tão eficaz quanto mais despercebida for entre quem a exerce e quem a sofre. A manipulação começa na escolha do que é notícia (VICCHIATTI, 2005, p.64).

No entanto, parece que o assunto não tem muita força como em tempos anteriores. Tanto é que nos dias 20 e 21 o tema não está nas capas do jornal ZH, sendo pela primeira vez no período desta análise que não é noticiado em dois dias consecutivos.


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No dia 22 de agosto exemplar nº16070, o assunto volta a ser publicado na ZH com as seguintes manchetes na capa; “Levantamento aponta recuo da gripe A em todo o Estado”; “Professores param rede municipal da Capital”. RS confirma queda nos casos de gripe Dados da Secretaria da Saúde mostram desaceleração em todas as regiões Depois de dias amedrontando os gaúchos, a gripe A finalmente freou o seu avanço. A doença, que chegou a atingir mil casos notificados numa só semana no Rio Grande do Sul, desacelerou o ritmo, aliviando as emergências dos hospitais e postos de saúde em todas as regiões do Estado.

A prova de que o vírus H1N1 perdeu força está nos números. De domingo passado até ontem, menos de cem registros de pacientes graves com suspeita de contágio chegaram para a Secretaria Estadual de Saúde, apenas 10% do pico constatado na última semana de julho.

De acordo com o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Francisco Paz, a nova gripe teria chegado ao seu ápice, esgotando o ciclo de contágio entre as pessoas suscetíveis.

– Quanto mais ela avança, mais gente vai adoecendo. Chega a um ponto que ela não consegue mais crescer, e a epidemia termina – explica. O diretor aponta ainda o clima mais ameno e a melhor prevenção da população como motivos para a freada brusca que a gripe deu na semana.

– Esperávamos que o pico ocorresse na segunda semana de agosto. Porém, o topo chegou no fim de julho. Isso também é perceptível em outros países como Argentina e Uruguai – ressalta Paz.

Com base nos registros de casos notificados e confirmados, a doença vem reduzindo seu ataque em todas as regiões do Estado. Até o começo da semana, as autoridades sanitárias apostavam que os municípios onde a doença chegou primeiro haveria queda nas notificações e na metade sul do Estado ainda poderia apresentar um crescimento. Isso, entretanto, não aconteceu. (...) Com a desaceleração no contágio, a tendência é de que o número de mortes também reduza. Ontem, a Secretaria Estadual de Saúde confirmou mais nove óbitos, aumentando para 93 os casos fatais em território gaúcho. (AZEVEDO, Gustavo. RS confirma queda nos casos da gripe A. Zero hora, Porto Alegre, 22 de agosto de 2009. Geral, p.40.)

Essa reportagem traz o seguimento de que a situação está sendo controlada e de que o pior do terror já passou. Porém, no seu final traz mais confirmações de mais nove mortes, totalizando 93 pessoas mortas pela Gripe A no Rio Grande do sul.


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Porto Alegre volta a ficar sem aulas Apesar de a gripe A ter perdido força nos últimos dias, os professores e trabalhadores da rede municipal de Porto Alegre resolveram suspender as aulas até o fim de agosto. A medida foi acatada pela Secretaria Municipal de Educação, que deverá elaborar um novo calendário para cumprir o ano letivo. Em assembleia na tarde de ontem, a maioria dos servidores entendeu que não há condições de manter as atividades devido ao número reduzido de profissionais preparados para identificar a doença, além da falta de materiais de prevenção como álcool gel e lenços de papel. A diretora-geral da Associação dos Trabalhadores em Educação de Porto Alegre. Isabel Medeiros, espera que durante o período de suspensão a prefeitura adote novas medidas. – Essa é a atitude que o nosso papel social como educadores exigia: a de preservar a vida – disse. (PORTO Alegre volta a ficar sem aulas. Zero Hora, Porto Alegre, 22 de agosto de 2009. Geral, p.41.)

A reportagem traz a questão dos alunos da rede escolar de Porto Alegre ficarem novamente sem aula. As férias prolongadas por causa da Gripe A em medida de segurança, volta a ser pauta e ser notícia, como uma história que parecia não ter fim. No dia 23 de agosto, exemplar nº 16071, o tema Gripe A vem com a seguinte manchete e foto:

(COMO uma gripe mudou nossas vidas. Zero Hora, Porto Alegre, 23 de agosto de 2009. Capa) ROTINAS ABALADAS A vida na pandemia A presença do vírus da gripe A mexeu com a vida dos gaúchos. Cancelou eventos, adiou programações, afastou familiares, mexeu em comportamentos e introduziu hábitos no dia a dia de homens e mulheres. Confira nesta reportagem algumas histórias remexidas pela doença que surgiu em abril no México e que transtornou os primeiros meses de inverno no Rio Grande do Sul. Às 19h do dia 31 de julho, uma sexta-feira, Fabiana Ajnhorn decidiu que largaria o expediente pela metade. Deveria trabalhar até as 7h do dia seguinte, mas não suportou o estresse e o medo. Pensou então o que poderia ter dito, se quisesse, em voz alta para os colegas:


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– Preciso sair deste lugar. Saiu e não retornou na segunda-feira. Apresentou um atestado médico e quatro dias depois, com uma máscara cirúrgica no rosto e levando no colo o filho Guilherme, de um ano e dois meses, embarcou em um avião para o Rio. Se ficasse em Porto Alegre, temia ser chamada ao trabalho em alguma emergência. Retornou à Capital há uma semana e passa os dias em casa com o filho. O lugar de onde Fabiana fugiu é o Hospital de Clínicas. Fabiana, 34 anos, é médica anestesiologista. Está na 12ª semana de gravidez. Fugiu da ameaça da pandemia no Estado. A disseminação da doença a surpreendeu no auge de uma carreira profissional que ela não sabe quando poderá retomar. A gripe A tirou Fabiana do trabalho num ano de ascensão profissional: – Eu estava num bom momento. Mas decidi tudo por mim e pela minha família. Fez o que deveria ter feito. A gripe A ameaça carreiras, soterra projetos pessoais, cancela formaturas, tira estudantes das escolas. E faz mais: mexe com a percepção de risco, muda hábitos e comportamentos e dispersa as convivências por força das orientações da política de saúde pública, pelas deliberações coletivas de grupos de pessoas ou por uma penosa decisão individual. A médica tomou uma decisão pessoal, com apoio do marido, o ortopedista Carlos Francisco Jungblut, e antecipou-se a uma iniciativa coletiva. Em 6 de agosto, apenas três dias depois de Fabiana ter se refugiado em casa, a direção do Clínicas decidiu que outras 38 gestantes, entre as quais seis médicas e 23 enfermeiras, deveriam fazer o mesmo. As estatísticas alertavam: até aquela data, das 25 pessoas mortas por complicações provocadas pela gripe, cinco eram mulheres grávidas. A médica conta: – Eu circulava entre pessoas infectadas, convivia com pessoas que tinham parentes com a gripe. Eu via tudo aquilo acontecendo ali e pensava: daqui a pouco sou eu. Foi um tufão, uma das situações mais estressantes da minha vida. Fabiana reflete, desde o dia em que se protegeu na casa da irmã Fabíola, no Rio, sobre os próximos passos como funcionária do Clínicas e também como médica de pacientes de planos de saúde. Indaga-se sobre a possibilidade da volta à normalidade, convive com a incerteza, torce para que o vírus perca força. Mas, na dúvida, não abre mão do que já está decidido. Vai continuar se protegendo e dando proteção ao bebê em gestação e ao filho Guilherme. – Vou decidir o que fazer bem mais adiante. Por enquanto, o mais provável é que, mesmo que o Clínicas a chame de volta, só retorne ao trabalho depois do nascimento da criança. Fica brincando com Guilherme, vê filmes na TV e não circula nem mesmo na pracinha do condomínio. Na semana passada, só conversou por telefone com outra irmã, Fernanda, que veio de Santo Ângelo para visitá-la e anunciou que os três filhos dela estavam gripados. Fabiana se negou a ver a irmã e os sobrinhos. Nesta segunda-feira, a médica só sairá de casa porque tem uma consulta, quando ficará sabendo qual é o sexo do bebê. A gripe A dispersa pessoas por decisões de consenso também fora da área médica, como aconteceu com a direção e os músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. No dia 3 deste mês, a Ospa anunciou que pelo menos quatro concertos seriam cancelados e que os ensaios estavam suspensos. A orquestra seguia a orientação do Ministério da Saúde para que se evitassem aglomerações. Mas havia mais um componente da conspiração da gripe também contra a arte. Um dos músicos fora infectado. Emerson Kretschmer, 34 anos, spalla da Ospa, teve a gripe e curou-se sem tratamento. O spalla (ombro, em italiano) é o primeiro violino de uma orquestra, o solista, o segundo no grupo depois do regente. Na última quinta-feira, ele reencontrou os colegas pela primeira vez depois da suspensão dos concertos, em ensaio no Salão Negrinho do Pastoreio, no Palácio Piratini. Paulo Leonardo Ricardo Leonardi Paranhos, também violinista, relembra que outros integrantes da orquestra apresentavam sintomas de gripe na época: – Imagine 80 pessoas fechadas numa sala fazendo música. Imagine se fosse possível fazer um exame sonoro e visual do ambiente. Seria uma loucura. Paranhos imagina. Ouve e vê a aspersão de bactérias em aerossol, saídas não só dos instrumentos de sopro,


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mas também das entranhas escuras dos violinos. Mas ninguém mais teve a gripe A. Kretschmer chegou a participar de um concerto da Ospa sem saber que já estava contaminado, depois de consultar um plantão médico no dia 19 de julho. Sentia um cansaço demolidor, que nunca sentira antes, tinha 39 graus de febre e a sensação de que os pulmões haviam sido congelados. Tomou apenas um antitérmico. O cansaço persistiu por uma semana, e a febre não reapareceu desde aquele dia 19. No dia 31, sua mulher, Micheline, ficou sabendo, por um telefonema da Secretaria da Saúde, que um laudo atestava: o marido estava doente. Não estava mais. Kretschmer superou a gripe sem tomar remédio algum. O músico não sabe onde pegou a doença. E comemora: a mulher, a filha, Isadora, de seis anos, amigos, parentes e colegas da Ospa não foram infectados. Na próxima terça-feira, a orquestra retoma os concertos, com apresentação à noite no Salão de Atos da UFRGS, em comemoração aos cem anos da imigração russa. O caso do spalla da Ospa contribui para que sejam atenuados os temores exacerbados a partir de julho, quando se temia que a gripe apresentasse no Estado sua face mais aterrorizante desde que surgiu no México, em abril. Kretschmer curou-se sem complicações e não contaminou quem estava por perto – ou pelo menos os conhecidos com os quais convive. O que não quer dizer que os cuidados devam ser afrouxados. (MENDES, Moisés.Rotinas abaladas. Zero hora, Porto Alegre, 23 de agosto de 2009. Reportagem especial, p.04.)

O fator determinante nessa reportagem é a questão do medo e das mudanças de hábitos na vida das pessoas. Os traços de ficção estão presentes na figura da Gripe A, essa como a responsável por todo o pânico e terror que assolou a vida das pessoas. O discurso ficcional vai aparecer nos personagens descritos pela narrativa, como em um filme cheio de flashbacks, a reportagem mostra vidas de pessoas em diferentes lugares que sofreram a opressão e o medo de contrair a Gripe A. A reportagem dirá que a Gripe A assim como em uma maldição dos filmes de terror impediu as pessoas de realizarem seus planos, darem segmento nas suas carreiras e que impôs o tormento e a loucura na vida das pessoas. Essa semelhança da reportagem com um filme de terror, geram no leitor alguns impulsos e reflexões sobre a problemática. Ele vai ler e perceber que muitas pessoas foram prejudicadas e mortas pela Gripe A e a dimensão e o medo da Gripe na mente deste indivíduo serão enormes. É o efeito dramatizante utilizado pelas mídias os quais provocam medo e pavor no público, como Charaudeau (2006) explica ser a notícia de um suicídio: Por exemplo, a notícia de um suicídio coletivo dos membros de uma seita resulta de uma escolha temática ao mesmo tempo objetiva; incluindo esse acontecimento na rubria dos fatos da sociedade, e simbólica (o horror de uma morte coletiva) Ela será relatada seguindo um modo discursivo que descreve os fatos com minúcia, produzindo um efeito de objetividade, mas também como uma descrição dramatizante, produzindo um efeito emocional suscetível de despertar, naquele que se informa instintos de Voyerismo ou de medo (CHARAUDEAU, 2006, p.129).


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Sendo que a gripe comum mata mais gente que a Gripe A, e que muitas doenças que são do conhecimento popular fazem mais vítimas que o vírus H1N1. Pode se analisar que a divulgação da mídia em torno da Gripe A fez dela um acontecimento de uma enorme repercussão. A morte está por todos os lugares, porém o relato dramatizado dela é que gera sentimentos diversos no ser humano, o vírus da Gripe A como vilão, os sobreviventes, os heróis, a figura das vítimas mortas pela Gripe A. Tudo como se estivesse em um roteiro e assim fosse encenado ao público, conforme Charaudeau (2006) explica acontecer com o onze de setembro: Uma vez selecionados os acontecimentos, as mídias os relatam de acordo com um roteiro dramatizante, que consiste, como vimos a respeito do 11 de setembro, em: (1) mostrar a desordem social com suas vítimas e seus perseguidores; (2) apelar para a reparação do mal, interpelando os responsáveis por este mundo; (3) anunciar a intervenção de um salvador, heróis singular ou coletivo com o qual cada um pode indentificar-se. Dependendo do momento em que o acontecimento é apreendido, a insistência recairá mais sobre as vítimas, ou mais sobre os perseguidores ou sobre o salvador (CHARAUDEAU, 2006, p. 254).

E daí que se pode entender o papel da mídia em relatar os acontecimentos, pois é através da dramatização é que vai conseguir atingir o público, de acordo com Patrick Charaudeau (2006): “Isso explica por que ela está marcada por um paradoxo; por um lado, pretende transmitir informação da maneira mais objetiva possível, e isso, em nome dos valores cidadãos, por outro, só pode atingir a massa se dramatizar a cena da vida política e social” (CHARAUDEAU, 2006, p. 243). No dia 24 de agosto, exemplar n°16072 o assunto vem na capa de ZH com a seguinte manchete: O que é mais eficaz contra a Gripe A. Abaixo a reportagem: ÁLCOOL OU SABÃO Lave as mãos do jeito certo Especialistas explicam as diferenças entre produtos de higiene usados para matar o vírus da gripe A Em tempos de gripe A, a preocupação com a desinfecção das mãos ganha destaque, mas uma questão permanece: qual é a forma mais eficaz de prevenir o contágio pelo vírus? Embora tanto o uso de água e sabão quanto o de álcool em gel sejam considerados eficazes, especialistas analisam que o segundo leva vantagem. Um dos motivos é a praticidade de aplicação, pois o álcool em gel pode ser facilmente transportado e aplicado. Outro ponto é que o produto dispensa o contato com superfícies como torneiras e toalhas para secar as mãos, que podem ser focos de contaminação. – Os dois (álcool em gel e água e sabão) limpam e desinfetam, mas o álcool é mais prático, porque se pode levar em qualquer lugar, o tempo gasto para higienizar é menor e não é preciso secar as mãos – analisa o infectologista André Luiz Machado da Silva, da Santa Casa de Porto Alegre. Mas a eficácia depende de alguns cuidados. Pouco adianta passar o álcool em gel sobre as mãos visivelmente sujas, por exemplo, pois o produto vai atuar sobre essa barreira e terá seu poder de penetração comprometido. Também é preciso prestar atenção à frequência de reaplicação. Depois de utilizá-lo 10 vezes consecutivas, o recomendado é voltar para a pia e esfregar as mãos com água e sabão. – A eficácia vai se perdendo porque o álcool vai formando uma superfície na mão – adverte o infectologista.


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Não há diferença se o produto tem ou não fragrância, o importante é observar a gradação de 70%. (ÁLCOOL ou sabão. Zero Hora, Porto Alegre, 24 de agosto de 2009. Geral, p.30.)

Imagine só, uma reportagem de capa falar sobre lavar as mãos. Pode se achar estranheza ou até mesmo engraçado, mas esta reportagem é anunciada na capa de ZH do dia 24 de agosto. O texto explica a maneira mais apropriada de evitar a contaminação com o vírus H1N1 é lavar as mãos. E entra como fato noticioso o que mais eficaz. Álcool ou sabão? A neurose era tanta na época que até isso as pessoas queriam saber. -Como estariam mais protegidas. Daí se dá sua publicação, o interesse do povo em se proteger. Dia 25 o assunto não é noticiado. Dia 26, exemplar n° 16074, o assunto volta com a seguinte manchete “Placar da gripe A: Brasil prestes a ser o país com mais mortes”. Abaixo parte da reportagem: EVOLUÇÃO DA GRIPE A Brasil pode superar EUA em mortes País tinha ontem 10 óbitos a menos do que o local com mais vítimas em números absolutos O Brasil está prestes a ultrapassar os Estados Unidos e assumir o primeiro lugar no ranking mundial de mortes por gripe A. Conforme os mais recentes boletins oficiais, os norte-americanos somam, até agora, 522 óbitos em função da doença – apenas 10 a mais do que o número registrado entre os brasileiros. Mesmo com o ritmo de contágio em aparente queda na América Latina, especialistas acreditam que o número pode ser batido ainda esta semana. Uma das explicações para isso, segundo o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra, está na época do ano em que o vírus H1N1 se alastrou em cada país. – A gripe A se espalhou pelos Estados Unidos entre o fim da primavera e o início do verão. No Brasil, foi entre o fim do outono e o início do inverno, uma época mais propícia às síndromes gripais – avalia Terra. Apesar de ser iminente a escalada do Brasil ao topo da lista de mortes, em termos proporcionais a situação é diferente. A cada 100 mil habitantes, hoje, são registrados em média 0,26 óbito entre os brasileiros. Para superar a Argentina, que ocupa o primeiro lugar no quesito, com 1,08 morte por 100 mil, o Brasil teria de somar pelo menos mais 1,5 mil vítimas fatais. Por outro lado, as estatísticas revelam que, proporcionalmente, já estamos na frente de países como Estados Unidos, México e Canadá. Se tomados apenas os números do Rio Grande do Sul, com 96 mortes e uma população de 11 milhões de habitantes, a média chega a 0,87 óbito por 100 mil – superior, por exemplo, aos dados do Chile e do Uruguai, dois dos países mais atingidos na América Latina, depois da Argentina. (BRASIL pode superar EUA em mortes. Zero hora, Porto Alegre, 26 de agosto de 2009. Geral, p.38.)


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Como se fosse um placar em que mostrasse o número de mortes o jornal vem com a informação de que o Brasil poderá ser o país com mais óbitos originados pela Gripe A. Quando o assunto parecia estar sem força, a informação trazida pelo jornal faz o diagnóstico de que o vírus H1N1 foi terrível para os Brasileiros. E faz o paralelo em relação ao Rio Grande do Sul como o lugar do país mais prejudicado do que outros estados e com uma média superior de mais mortes que até mesmo outros países. Onde mostra que o local é um lugar de devastação e perigo. Dia 27 de agosto, exemplar nº16075, a manchete é esta: “Perfil da nova doença: Europa constata que gripe A é mais letal do que a comum”; “Brasil agora lidera o número de casos fatais”. Mais letal do que gripe comum Estudo feito por centro europeu mostra que, de cada mil pessoas contaminadas, entre quatro e seis não resistem ao H1N1 A taxa de mortalidade da gripe A é pelo menos duas a três vezes superior à da sazonal. Outro dado é que quase a metade das vítimas já sofria de outras doenças antes de serem contaminadas pelo vírus. A avaliação foi conduzida por cientistas franceses e divulgada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, que acaba de concluir o primeiro perfil completo da nova doença, quatro meses depois da eclosão dos casos nos Estados Unidos e no México. O centro é uma agência da União Européia criada com o objetivo de reforçar as defesas da continente contra as doenças infecciosas. Apesar de ser mais virulenta do que a sazonal, a gripe A ainda é mais branda do que o vírus que gerou a gripe espanhola em 1918 e que matou 40 milhões de pessoas no mundo, conforme estimativas. Segundo o estudo, de cada mil pessoas contaminadas, entre quatro e seis não resistem ao vírus H1N1. Isso representaria uma letalidade de 0,4% a 0,6%. Já na gripe espanhola, a taxa de letalidade era 10 vezes maior à da gripe A. O perfil ainda mostra que mais da metade dos casos de mortes – 51% – ocorreram com pessoas entre 20 e 49 anos e que os grupos afetados não são os mesmos vulneráveis à gripe sazonal. Quarenta e nove por cento dos mortos já sofriam de outros problemas de saúde antes de ser contaminados. (MAIS letal que a gripe comum. Zero hora, Porto Alegre, 27 de agosto de 2009. Geral, p.40.)

O estudo realizado pelo Centro Europeu de prevenção e controle de doenças, enfatiza a Gripe A como mais letal que a gripe comum e serve para corroborar com as narrativas construídas no período pelo jornal. E valorizar o acontecimento, como algo extraordinário e perigoso. Fazendo com que o assunto continue repercutindo para o povo, porém, com menos força e dramaticidade do que em dias anteriores, apesar das constatações do laboratório europeu reforçar tudo o que ZH noticiou no período. Parece que o tema Gripe A estava perdendo a capacidade de ser notícia notada e extraordinária de tempos anteriores. Abaixo outra reportagem do dia 27, “Brasil é agora o país com mais mortes”: Brasil é agora o país com mais mortes


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Com 557 casos confirmados pelo Ministério da Saúde, o Brasil se tornou oficialmente ontem a nação com o maior número mortes em consequência da gripe A no mundo. O país superou os Estados Unidos que acumulava 522 registros fatais. Na comparação com o último boletim liberado pelo governo federal na semana passada, quando haviam 368 casos, o número de óbitos cresceu 51% nos últimos oito dias. No Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual de Saúde anunciou mais duas novas vítimas ontem, elevando para 98 o total de mortos. A doença que vem assustando o mundo é mais letal proporcionalmente, porém, na Argentina. Quando se leva em conta o tamanho da população, o país vizinho aparece na frente, com uma taxa de mortalidade por 100 mil habitantes de 1,08. O Chile vem logo em seguida com um índice de 0,75. Neste comparativo, o Brasil está na 7ª colocação, com 0,29. Os Estados Unidos, com a maior população das Américas, ficou em 13º. (BRASIL é agora país com mais mortes. Zero hora, Porto Alegre, 27 de agosto de 2009. Geral, p.40.)

É mais uma reportagem informativa com dados e estatísticas, em que o fato noticioso é de que o Brasil é o país em que mais ocorrem mortes por Gripe A. Apesar de não ser uma notícia nada animadora parece que o jornal não usa mais da carga de dramaticidade e se detêm em fazer uma interpretação construindo paralelos entre os países latino-americanos mostrando números totais de mortes, e a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes. Enfim se detêm na informação e nos fatos em si, o diferencial conforme a informação é que a Gripe A mata mais no Brasil do que em outros lugares. Do dia 28 de agosto até o dia 01 de setembro o tema não vai aparecer nas capas de ZH. No dia 02 de setembro, o exemplar de n°16082, último dia desta análise o assunto vem com a seguinte manchete: Gripe A no Estado: Placar de mortes supera marca de 100. Nova gripe ultrapassa barreira das cem mortes Secretaria da Saúde espera que o Rio Grande do Sul feche este ano com até 300 casos fatais O Rio Grande do Sul ultrapassou a barreira das cem mortes confirmadas provocadas pela gripe A, chegando ontem a 105 com a confirmação de seis casos – cinco mulheres e um homem. De acordo com o secretário da Saúde, Osmar Terra, “apesar da tragédia que representa cada caso isolado”, o número é baixo se for levado em conta o risco considerado desde o início da pandemia. A estimativa da Secretaria Estadual da Saúde é de que o total de casos fatais atinja entre 250 e 300 até o final do ano. Mas não há motivos para pânico, segundo Terra: praticamente todos os novos casos devem ser confirmações de óbitos já ocorridos. O anúncio de ontem reforça o discurso do secretário. As seis vítimas, de Cruz Alta, Porto Alegre (três), Pelotas e Santa Maria, não apresentaram os sintomas nas últimas semanas, mas ainda em julho. Além das 105 mortes pela doença confirmadas até agora, há cerca de 20 mortes provocadas pela gripe sazonal. – Na verdade, o número de 105 mortes é igual ao índice observado todos os anos no Rio Grande do Sul por gripe – afirma Terra. A estimativa é que, em março de 2010, 40% da população gaúcha seja vacinada contra a gripe A. Até o final do ano, haverá uma nova onda de gripe, mas o secretário garante: será bem mais amena. (NOVA gripe ultrapassa barreiras das cem mortes. Zero hora, Porto Alegre, 02 de setembro de 2009. Geral, p.37.)


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A reportagem vem com a linha de apoio “Nova gripe ultrapassa barreira das cem mortes”, realizando nesta reportagem o mesmo procedimento realizado na do dia 15 de agosto em que a Gripe A perpetrou 70 mortes no Rio Grande do Sul, formando e elaborando a ideia de completude. A força e a carga dramatizada do enunciado que carrega o número cem, apresentam a ideia da saga da morte interminável, que atingiu uma marca impressionante. No entanto, o total de mortes confirmadas pela Gripe H1N1 é 105, numeral superior ao do enunciado. Todavia os números com o final zero chamam mais a atenção e fazem do enunciado um discurso dramatizado. Analisando a construção discursiva em que se utiliza de números completos em um pequeno intervalo de tempo e de certo modo, a estrutura das notícias se repetirem e serem semelhantes, deste modo pode-se entender que a mídia mostra um acontecimento antigo sempre como novidade, é o Arbex Júnior (2005) explica: Se a crise da memória “só pode ser compreendida à luz do contexto pós-moderno de crise de identidades e ideologias, para retornar os famosos diagnósticos levantados por Max Weber (desencanto do mundo) e, mais tarde, por Lyotard (crise das grandes metáforas explicativas), a convivência da amnésia com a memória é o mecanismo fundamental do jogo praticado pela mídia – a qual, basicamente, constitui um imenso banco de dados que, aparente paradoxo, aposta permanentemente no esquecimento como condição básica para apresentar o “velho”, o “já visto” como o “sempre novo” (ARBEX, 2005, p.37,38).

E a reportagem também faz um prognóstico para o futuro em que mais mortes serão confirmadas e com isso o ciclo de horror ainda vai continuar e vai gerar muitas histórias para Zero- Hora, terminando aqui este trabalho analítico.


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4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa vem contribuir no sentido de destacar que a atividade jornalística não é apenas técnica, mas também é, imaginação, criatividade, sensibilidade e envolvimento do comunicador com o fato. O trabalho realizado vem demonstrar que o jornalismo não é uma atividade robótica, em que suas ações não são feitas pela frieza, distância e simplicidade no tratamento do acontecimento. No entanto, jornalismo é comunicação humana, propensa a erros, suscetíveis a emoções e construída através do acervo intelectual íntimo do comunicador e receptor. O jornalismo não é feito por máquinas e para máquinas, mas é feito por pessoas que o fazem para pessoas. Apesar de todas as técnicas construídas e aspirações no desenvolvimento do jornalismo; objetividade, imparcialidade, distância do repórter para o acontecimento. O jornalismo vai encontrar na narrativa, ora renegada no universo jornalístico, a capacidade de atrair leitores. Mas, para isso é necessário humanizar a narrativa, fatos e dados não são o suficiente no jornalismo atual, a questão estética e de conteúdo são indispensáveis para uma boa história. Essa humanização da narrativa jornalística é universo oriundo da literatura, daí se dá o nome Jornalismo Literário. Deste modo, é na literatura com personagens tirados do real, ou baseados na realidade e até mesmo extraído da imaginação do narrador, que ganham vida e personalidade enquanto discurso. A capacidade que a narrativa literária possui em materializar o discurso na mente do leitor, e o envolvimento da história com detalhes, lugares, pessoas e suas personalidades faz do leitor um observador de um acontecimento vivo o qual não passa de uma ação discursiva. Alguns teóricos dizem que jornalismo e literatura não se misturam, mostrando uma antítese entre realidade e ficção, objetividade e subjetividade, factual e fictício. O poeta é considerado o artista, o jornalista é o ser que domina as técnicas de apuração e circulação de informações. O texto literário é intocável, não tem como resumi-lo ou modificá-lo, o texto jornalístico é volátil, é reduzido, suprimido enfim modificável. Porém, esse encontro dos dois universos divergentes ou semelhantes, se dá em muitos segmentos textuais ou gêneros híbridos, tais com; romance-reportagem, ficção jornalística, romance-realista, crônica, no romance de não ficção etc.


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A pesquisa analisou a reportagem, este gênero que nasceu para ser exclusivamente propriedade do universo jornalístico e na reportagem encontrou características literárias. O jornalismo realizado pelos repórteres da Zero Hora no período não deixou de informar, mas trouxe o sentimentalismo da vida para a narrativa jornalística, o que era proibido dentro deste universo e permitido apenas no mundo literário. Um jornalismo diferente, com beleza estética, apesar do assunto (Gripe A e mortes) ter sido triste e lamentável, foi com certeza histórias interessantes e fascinantes de se acompanhar. A representação do vírus H1N1 que transformou no monstro enquanto discurso. O repórter retirou do seu arcabouço cultural a retrato perfeito para o vírus H1N1, atribui atitudes perniciosas ao vírus, construindo uma imagem de um ser destruidor e maldito que destruía a vida de muitos gaúchos naquele período. As vítimas na maioria das vezes não eram tratadas pelo jornal como números e fatos, mas eram personificadas enquanto ação discursiva. Os leitores, na perspectiva que entendo do jornal, não apeteciam apenas saber quantas pessoas morreram pela gripe A ou quem eram elas, desejam mais. Descobriram através do jornal o que faziam, suas realizações seus sonhos, seus medos, suas aspirações enfim suas vidas. Os cenários modificados pela interferência da pandemia que foram construídos na mente do leitor através do discurso. A igreja que ficou vazia por que seus fiéis estavam com medo de contraírem a gripe. Os católicos que não puderam celebrar o sacramento da hóstia da maneira correta (hóstia na mão nunca na boca). O desfile de sete de setembro lugar de grande aglomeração de pessoas sendo cancelado, frustrando o menino que ensaiava na banda instrumental do colégio a fim de participar do evento. Formandos impedidos de realizarem suas formaturas, bares e baladas sem muito movimento, escolas e universidades vazias. A busca de encontrar um culpado, papel ocupado pelo estado, que muitas vezes foi mostrado como ineficiente e incompetente pelo jornal. O surgimento dos heróis que como em toda a epopeia triunfaram contra o mal e venceram a Gripe A, salvando seus familiares. As vítimas que renunciaram a morte e escaparam do monstro depois de lutarem e exercitarem seus instintos de sobrevivência. Os sentimentos despertados pela cobertura realizada pelo jornal; O medo, o temor de conversar, de tocar em outra pessoa, de pegar qualquer objeto, medo do vizinho e do amigo. O desconhecimento e a desconfiança, fez das pessoas mais individualistas, egoístas. As incertezas, de não saber o futuro, de não poder projetar e sim contentar-se em apenas sobreviver. O preconceito, afastamento das pessoas e o olhar de condenação ao indivíduo que


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estava com a gripe A. A insegurança, de enxergar o perigo por todos os lados. O pavor da morte saltando pelos poros das pessoas. Os enredos que foram criados em meio à problemática, o maior de todos era o impasse da volta às aulas. O assunto rendeu oito matérias de capa no jornal, uma situação delicada na qual as autoridades governamentais teriam que ter todo o cuidado para tomar a decisão apropriada para a época. Enfim um enredo no qual o jornal soube explorar e repercutir no período. A questão das gestantes, integrantes do grupo de risco de contrair a Gripe A, foi uma questão de relevância para Zero Hora, um serviço criado para atendê-las, a dispensa do trabalho, estiveram presentes nas páginas do jornal. O repasse do Tamiflu medicamento utilizado para tratamento contra a gripe A, também rendeu matérias. Personagens (Vilões, heróis, vítimas, culpados e sobreviventes) foram criados, cenários e lugares também foram construídos, sentimentos foram despertados e enredos entreteram os leitores de Zero Hora. Tudo isso mostra a mistura do factual com a ficção, no qual se cria um acontecimento. Este fato quando transmitido e trabalhado pela mídia, não é um fato puro, mas tem a interferência humana na produção e captação do acontecimento, estampados na figura do repórter. Este com intenção ou mesmo sem intenção irá marcar o fato, com suas próprias percepções, que passam pelo seu entendimento e compreensão e ao publicar o fato trará do que lhe é particular para a narrativa. Na outra ponta da comunicação, na instância da recepção, ao decodificar o fato, o receptor irá entender e decifrar a mensagem de acordo com seus recursos intelectuais e culturais, construindo para si uma versão do acontecimento. É neste momento que se dá o conceito de verossimilhança, na qual a pesquisa salientou. Neste sentido, na realidade tanto o jornalista como leitor terão suas concepções enquanto a ação. E este processo no qual os meios de comunicação atuam na procura de refletir o acontecimento e a interferências sofridas na publicação e recepção, a pesquisa chamou de acontecimento midiático. A Gripe H1N1 interferiu na vida e matou muitas pessoas, isto é um fato e não pode ser ignorado. No entanto, o que esta pesquisa tentou comprovar é que através da divulgação e repercussão do jornal, o assunto passou a ser um grande acontecimento midiático, no qual se não tivesse a ação e interferência da mídia seria apenas mais uma doença.


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Talvez pode-se pensar pela questão das mortes, afinal matou mais de duas mil pessoas no Brasil. E um dos critérios de publicação de notícias mais antigo no jornalismo é a “morte”. Infelizmente a morte está em todos os lugares, enfim o trânsito mata milhares de pessoas todos os anos, a falta de saneamento básico faz muitas mortes, todos os dias pessoas morrem de fome, até a gripe comum mata mais pessoas todos os anos do que a gripe A matou em 2009. Então podemos dizer que a morte não é o caráter fundamental para a divulgação da Gripe A realizada por ZH. A questão da novidade, pois o jornalismo trabalha com que é novo, ou faz parecer o velho sempre como novo, por que a Gripe A era de fato uma novidade. No entanto, quantas invenções são criadas todos os dias, doenças novas estão sempre surgindo e logo desaparecem, exemplo; a leishmaniose canina, o ano passado foi um grande problema para fronteira oeste, mas logo caiu no esquecimento. A tese de que a Gripe A era novidade não é suficiente para explicar a divulgação que teve. Todos esses fatores contribuíram e agregaram para a exposição do tema Gripe A, mas o que fez da Gripe H1N1, um acontecimento midiático, foi o tratamento e a construção que mídia inferiu ao assunto. Aqui está o grande filão do trabalho, as informações trazidas pelo jornal foram de muita serventia para os leitores, isto é fato. Lavar as mãos, manter locais ventilados e limpar os objetos, contribuiu satisfatoriamente para os leitores. As Mortes e os números nenhum foram inventados pelo jornal e realmente ocorreram, são inquestionáveis. Porém, o assunto enquanto discurso foi uma grande construção do jornal, que explorou os fatos e os conduziu a esfera da criação. Neste ponto a pesquisa começou a questionar e levantar hipóteses: “Essa construção midiática ganhou um viés de ficção”, “até que ponto a Gripe A foi real?”. A descrição de tudo, personagens, cenários, enredos, polêmicas e sentimentos, essa dramatização discursiva fez da Gripe A um acontecimento que misturou ficção e factualidade, e não em um acontecimento puro e neutro. O tom das reportagens fez da Gripe A um acontecimento digno de estar nos livros de ficção, construíram cenas como de um filme de terror, trouxeram e formaram diálogos dos personagens dignos das tragédias gregas encontradas nos teatros. Essa descrição dramatizada como construção é que derrubam a ideia de que exista isenção jornalística ou então o processo de fazer jornalismo está sendo mudado. Por que ao trazer as narrativas pode-se perceber que os repórteres eram atingidos pelos acontecimentos, e deixavam os sentimentos transparecerem nos seus textos.


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Entendo que ressaltar determinados traços ficcionais no discurso jornalístico não desvaloriza ou desqualifica o trabalho jornalístico realizado por ZH, ao contrário colaborou para ocorresse o processo de identificação dos leitores com os personagens descritos no texto e também mostrou que o repórter é gente que escreve para gente. Derrubando toda a responsabilidade e a ilusão de que o jornalista não pode se envolver com os fatos e que a subjetividade é o processo inerente a comunicação, por isso a impossibilidade de construir um jornalismo totalmente objetivo.


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TCC Lucas Aristelo Martins Carvalho