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Intel, o logótipo Intel, Centrino, o logótipo Centrino, Intel Core e Core Inside são marcas comerciais ou marcas registadas da Intel Corporation nos E.U e noutros países. Microsoft, Windows e Windows Vista são marcas registadas ou marcas da Microsoft Corporation nos E.U. e/ou noutros países. NVIDIA e o logótipo NVIDIA são marcas registadas ou marcas comerciais da NVIDIA Corporation no E.U. e/ou noutros países.

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4 cúmplices 5 Editorial 6 lucifer e lilith 8 ponto de fuga 12 adeternum 16 sobre a noite 20 o fim do verão 22 o verão acabou 24 espanto 26 mulheres instáveis 32 então, voltaste 36 encontro/desencontro - tudo bem uma vez mais 40 v de vaca 42 ainda que Mal Lhe pergunte, é verdade que caminhou sobre as águas? 45 Assinaturas 47 ó Arvores da Vida, Para Quando o Vosso Inverno? (Rilke) ou Como Me Apercebi de Um dos Piores Onzes de Sempre da Seleccao Portuguesa 48 e 49 puzzles de ódio 50 próximo tema


cúmplices  ng e la Be rli n d e nasce a 25 de Outubro de 1975. É licenciada em Direito. Publicou uma obra de fotografia e texto sobre a India portuguesa e sobre os retratos pintados dos índios Brasileiros, designada Painted Pictures.Recebeu o 1º prémio de Fotografia water and youth pelo Governo da Argentina e foi nomeada em 2005 como Fotógrafa do Ano para a categoria de Emoções da BBC News. www.angelaberlinde.com A u g u st o Ju s t o é Filósofo Pós-Modernista e Pensador de Futebol. Eli s ab e t e P a t rí cia AND RADE estudou letras na Universidade Clássica de Lisboa. Reside presentemente no Reino Unido. Gosta de arte, de filosofia, de coleccionar livros e memórias. Elege o humor negro.. Elma n o M a d ail nasceu em Águeda anos. É jornalista

há do

37 JN.

Fer n a n d o Ribeiro é vocalista, letrista e alma da banda Moonspell, tendo publicado vários livros de poesia, o último dos quais «Diálogo de Vultos», editado pelas Quasi em 2007. I nê s d ’ ore y fotógrafa do Porto, nasceu em 1977. Estudo Relações Internacionais Culturais e Políticas na Universidade do Minho e Fotografia na London College of Printing. Dedica os seus dias ao seu trabalho artístico e ao atelier de fotografia Alma Mate. J O HN A L M E I D A nasceu em Londres em 1973. É formado em argumentismo pela Vancouver Film School. É escritor, argumentista e músico na banda LittleFriend.

J orge Palma nasceu em Lisboa, em 1950. É músico e poeta. O seu último álbum chama-se «Voo Nocturno» e foi editado pela EMI em 2007. J osé G arc ez nasceu no Porto, nos 70’s. Músico de profissão, a treinar para escritor. Editou os discos Stereo-Jukebox (Sally Lune), o homónimo Zoshu e Beatsound Loverboy (Slimmy)./ Luísa Car dita em 22 anos e anda por aí a espreitar às janelas. É uma nulidade a dizer mentiras excepto quando escreve. Tem um gato preto, mas isso não quer dizer nada. Mário B runo Pastor nasceu no Porto em 1976. Padece de bissextismo e custa-lhe a aceitar que existam calendários para os anos vindouros. A par disso tem publicado poesia em edições literárias colectivas. MAR TIM VA LLE TE IXEIR A Martim Valle Teixeira, nascido em Lisboa, entrou no mundo da fotografia influenciado pelo seu Pai desde muito novo. Consultor de profissão, convertese anualmente no seu tempo de férias, num viajante insaciado do Mundo, de onde tenta sempre trazer a impressão das suas memórias únicas. Nelson cruz licenciado e estagiário em arquitectura. ”Desenhador” nos tempos livres e actualmente de retorno à universidade como frequentador de um mestrado. Ex. Desenhador de cinema de animação e ex. professor de E.V.T. Apreciador de bons livros numa qualquer esplanada à beira rio e de sessões semanais de cinema. Maior e vacinado, apreciador de sol, imperiais e caracóis.

capa Inês d’Orey inesdorey@inbox.com director Fernando Alvim alvim@revista365.com editor António Gregório a.gregorio@sapo.pt editor adjunto Carina Fonseca carinadafonseca@gmail.com editores honorários Vasco Barreto José Luís Peixoto

Nuno G e rvá sio nasceu em 1975, nos arredores de Leiria. É autor de Leituras de casa de banho (Palavra, 2005) e Give ‘em Five! (Palavra, 2007).

regularmente com a revista Umbigo. também gosta de escrever. acha que nunca vemos as coisas como elas são, mas sim como nós somos.

Nuno MAÇ Arico professor, à uma eternidade, dos 2º e 3º Ciclos (E.V.T., E.V., E.T. e Expressão Plástica), licenciado em Ensino de Educação Visual e Tecnológica. Expôe individual e intermitentemente desde 2004.

Ricard o Bo n acho nasceu no Alentejo em 1983. Seguiu o curso de Design de Comunicação, na vertente de Design Gráfico e Publicidade. Actualmente trabalha como designer em várias áreas, esporádicamente como ilustrador.

PEDR O MIGUEL Alv e s tenho carta de condução para conduzir máquinas fotográficas desde 1993, se bem que é falsa, pois tenho chumbado consecutivamente no exame de código. Talvez porque estudo por um manual desactualizado e por gostar de “noise”, ou seja, a viatura tem escape livre. Gostava de ter privado e até influenciado o Man Ray, o Marcel Duchamp, o Richard Hamilton, o Daniel Blaufuks ou atÈ mesmo o Douglas Coupland, mas como não consegui, (nascer antes deles)fui influenciado por eles, nunca tendo privado com nenhum. Mas valeu a pena. PEDR O PAIX ÃO Pedro Paixão nasceu em Lisboa, em 1956. É escritor. O seu livro mais recente chama-se Rosa Vermelha em Quarto Escuro e foi publicado este ano pela Bertrand. Pedro San to s é um gajo que acha que estas minibiografias são redutoras para com a sua incomensurabilidade. Como precisava de pelo menos mais uma linha, e em protesto, acaba por não adiantar nada sobre si, a não ser que nasceu em Leiria, em 1980. PEDR O S OENE n nasceu e vive em Lisboa. licenciou-se em direito mas prefere os caminhos tortos da arte. viciado em fotografia, o único desporto que pratica é olhar. trabalha apenas a preto e branco e em filme. colabora

grafismo Raio X raiox@raiox-pub.pt dept. internacional Pedro Lourenço plourenco@revista365.com endereço apartado 15154, 1074­‑004 Lisboa tel: 96 312 88 41 91 625 79 29 93 359 70 06 contactos feedback@revista365.com direccao@revista365.com

website www.revista365.com blog revista365.livejournal.com revista365.blogspot.com assinaturas assinaturas@revista365.com publicidade publicidade@revista365.com impressão Ginocar tiragem 10 000 exemplares

Ricard o PE RE IRA nasceu em Beja, em 1985. Vive e trabalha em Lisboa. Formação: Licenciado em Fotografia, pelo Instituto Politécnico de Tomar (IPT), Escola Superior de Fotografia. Exposições Colectivas: Colectivas, Exposição dos Finalistas 2006/2007, Casa dos Cubos, Tomar, Dezembro 2007; Exposição de finalistas 2006/2007 do Curso Superior de Fotografia, Mercado Municipal de Évora, Évora, Setembro 2007;, 2001/2007 Curso Superior de Fotografia, Arquivo Fotográfico de Lisboa, Julho 2007. Ru i L ag e é tradutor e poeta. Nasceu no Porto, em 1975. O poema que publicamos nesta edição, «Espanto», foi extraído do volume «Berçário», editado pelas Quasi em 2004. A sua mais recente colectânea de poemas chama-se «Revólver» e foi editado também pelas Quasi, em 2006. Z expôs por três vezes. Publicou um portfolio na “Águas Furtadas”. Fez as fotos para um disco. Fotografa há alguns anos, mas ainda não fez a sua melhor foto. Apaixonou-se pela química da fotografia e pelo preto-e-branco. Tem 43 anos e fotografa o que quer, quando quer e como quer. Tem um emprego que lhe paga o luxo de fotografar. Responde por “Z”

periodicidade bimestral depósito legal 131 280/08 propriedade cego, surdo e mudo — produções multimedia npc: 506 017 931 mecenas q.b.


A s fé r i a s de ve r ã o o cupa m na me mó r i a da m a i o r i a de nó s um luga r mui to e s pe ci a l, a puxar-nos para a infância, quando elas se cha ma va m ta mbé m «gr a nde s » e ti nha m d e facto o tamanho da eternidade: metidos b e m lá no me i o , po r ma i s que o lhá s s e mo s p a r a um la do e pa r a o o utr o , a mã o e m p a la s o br e a te s ta , nã o lhe s vi s lumbr á va m o s ne m o pr i ncí pi o ne m o fi m. C r e s ce mo s e e nco lhe u tudo à vo lta : a s r uas, os carros, as varandas, as tabletes d e cho co la te . Já ni ngué m te m pa cho r r a p a r a no s be s unta r o pe i to co m vi ck va po rub a qua ndo da s co ns ti pa çõ e s e o s r e buç ados peitorais do dr. Bayard deixaram d e fazer o que quer que seja à tosse. E o t e mpo – a i o te mpo –, s a i u-no s a fi na l pi o r q ue uma ca mi s o la de má qua li da de la va da e m á gua mui to s gr a us a ci ma da te mpe r atura correcta: hoje, dentro de um dia, d e ntr o de um mê s , de ntr o de um a no , nã o c a be qua s e na da . É , po i s , um te ma de s e nca nta do , a que le q ue pr o po mo s pa r a e s te núme r o da 3 65 , « o fi m da s fé r i a s de ve r ã o » ? P a r e ce que si m, a julga r pe lo que s o br e e le e s cr e ve r am quase todos os nossos colaboradores: a nostalgia do fim de uma data de coisas, d o amor, da inocência, da esperança. O que va le é que , co m a a zá fa ma de d e ze mbr o e a pr o x i mi da de do a no no vo , i sto passa-nos. Para o ano há mais.

A ntó ni o Gr e gó r i o


iosas, silenc o, oferda s a a h h n c i An o chã ao as ro ulto d tro patas, n e vibrante pelo v a o i u m u q o g es em us c Lilith o seu dorso ava dos cé o id d c i n u e s c e se pina. , que rapaz entos de ra m i mov

Viram-se pela primeira vez de dia, na manhã da praia. Por entre as famílias felizes, redondas das merendas. À vista das crianças que pingavam sal na água da pele. À sombra das rochas de argila entranhada, despenhandose, cinzenta, nas areias sedentas. Olharam-se encandeados do zénite do Sol. As famílias dormiam, ruminantes. As crianças desapareciam no mar entre gritos e surdinas. As rochas mutilavam-se de ervas secas, cardos e insectos chocando na confusão das vidas intensas. À tarde não foram vistos por ninguém. De noite, o mar chegou-se à areia para acasalarem. Aninhada pelo vulto das rochas silenciosas, Lilith em quatro patas, no chão, oferecendo o seu dorso esguio e vibrante ao rapaz, que se suicidava dos céus com movimentos de rapina. A sua lança de carne penetrava o sorriso húmido, ao fundo das costas tatuadas de cicatrizes da rapariga. Vezes e vezes sem fim, com crueldade e com eternidade.

Subiram à tenda, de mão dada, destruídos do amor. Caminharam pelo trilho de segredos da terra, pisando o céu duro das outras vidas e dramas que se desenrolavam nos magmas profundos e quentes. Chegaram à tenda, pelo portão dos infernos, sempre aberto para a sua passagem. Embalados no espaço apertado, adormeceram ouvindo o rugido do mar seduzindo a terra, arrastando-a para dentro do seu corpo de profundidades. Fechando-a no prazer uterino das suas grossas correntes de verde.Dormiram como anjos caídos. Não deram pelo Sol que queimou, nessa manhã, toda a Terra. Pela chuva ácida que se lhe seguiu, desmascarando o horror de veias, ossos e pústulas. Pelo vento que tombou edifícios, brincando com eles no seu buxo. Pelo fogo que ardeu na escuridão dos céus, guiando os últimos dos seres até ao abismo que ria, bocarra aberta, garganta seca, grito de dor.


Levantaram-se para comer algo. Deram as mãos e seguiram alheios aos corpos paralisados em pó negro. Pessoas que saíam das tendas. Pessoas sentadas à mesa para o pequeno-almoço. Crianças a brincarem, silenciosas, nas mantas estendidas. Árvores calcinadas, a desfazerem-se em papelinhos pretos. Na esplanada com vista para o esqueleto do mar recuado no horizonte, mais pessoas em pele derretida como cera, pegando nos copos de sumo natural de laranja, nas chávenas de cafés cheios, mastigando vazios, olhos brancos nas órbitas olhando os dedos agarrados às bordas dos livros. Mão na mão. Boca na boca. Esgares e espantos de que como afinal tudo foi tão rápido. Desceram à praia em jejum. No meio das famílias caladas no cedo da manhã. Das carnes derramadas pelas areias pretas de sangue. Contornando as crianças brancas de ossos à mostra por entre as peles descosidas.

Beijaram-se uma primeira vez, com as línguas tocando uma na outra. Untaram-se das argilas derretidas e Lilith deitou-se de costas na areia, afastando os sangues para descobrir o ouro das cores primevas do solo. Lúcifer desceu sobre ela, com carinhos únicos. Durante dias fizeram amor. Não pararam para descansar. Não pararam para pensar. Para observar as ruínas da Terra, o esqueleto seco do mar, a vegetação moribunda que descia as rochas, fugindo. Saciavam a sua sede na saliva do outro. A sua fome na carne do outro. Todos eles só um. E ao sétimo mês nasceu Caim num corpo de lobo e sua irmã gémea Maria no corpo de uma serpente, fundando para todo o sempre a maldição de um mundo novo.

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Emília voltou a colocar os óculos, fitou de novo o relógio, apertou as mãos e levantou-se lentamente. O chefe de estação sorriu-lhe, mas ela, como sempre, desprezou-lhe a cumplicidade. No caminho de volta, agarrada à grande bolsa de renda, notou que as fraldas do vestido e as mangas do casaco de peles estavam rompidas e um pouco sujas. Por um lado tinha sido melhor ele não ter regressado hoje, teria que estar com outro aspecto para o receber, precisava de um vestido limpo e mais resplandecente. Levou as mãos à cabeça e firmou melhor o alfinete do chapéu. Ao fundo da rua, tenuamente iluminado pelo candeeiro eléctrico, um homem de sobretudo, acompanhado por

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uma rapariga, caminhava falador. Seria Gustav? Emília estremeceu, rebuscou a bolsa e retirou os óculos, aproximou-os dos olhos. Não, era apenas um homem e Gustav voltaria no verão. A véspera de Ano Novo era sempre mais sossegada, chegaram apenas três comboios desde o início da tarde e este era o último do dia e do ano. Os poucos passageiros acabados de desembarcar reencontravam os seus entes, abraçavam-nos, sorriam, alguns trocavam presentes e as crianças mais inquietas pediam aos papás que regressavam os presentes do Natal. Uma família elegante, rodeada de enormes malas de viagem, trocava de mão em mão um pe-


queno iate de madeira, um menino, fatito à marujo, saltitava de entusiasmo e a mãe magnífica fingia ralhar. Emília, enrolada num dos bancos de Saint-Lazare, observava aquelas manchas desfocadas que se juntavam umas às outras; sob as galerias de vidro, o luar impunha-se contra os restos de vapor da locomotiva parada e, passo a passo, os viajantes mais aqueles que os tinham vindo receber, dispersavam-se pelas caleches e automóveis que os levariam ao grande reveillon. Por fim, o último passageiro saltou para a gare abandonada, era um homem novo com uma pequena maleta e bigode lustroso que desapareceu também, mas não era Gustav. O chefe de estação abriu uma garrafa de champanhe,

distribuiu-o pelos moços de frete e pelos guardas de serviço que ainda ali estavam, brindou com eles a entrada do novo ano e depois foi silenciosamente pousar um copo cheio junto à prancha onde Emília adormecera. Agora era mais fácil deslocar-se da cidade para a gare, o tempo estava melhor e como amanhecia mais cedo, podia caminhar nas imediações da linha, passar pelo bordel da Mlle. Ariette, tentar os dois francos que às vezes recebia e usar um pouco do pó-de-arroz das raparigas para chegar apresentável à estação. Ariette compunha-a, beijava-lhe a face e pedia-lhe para voltar para casa, para usar sempre os óculos. Emília

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não mentia, era em Saint-Lazare que tinha que estar, mas concedia usar os óculos, pelo menos até se afastar do bordel, depois voltava a guardá-los e conseguia manter a expectativa de se reencontar com ele sempre que avistava um vulto distante. Manipulava a miopia como uma ferramenta do sonho, empolgavase, construía um cenário e imaginava a primeira coisa que lhe iria dizer quando se cruzassem, porém a ilusão tinha uma duração exacta. Quando se aproximava dos transeuntes e lhes conseguia alcançar os rostos, caía outra vez no abandono. Acumulava diariamente essas pequenas frustrações, engolia quase sempre as lágrimas discretas que lhe brotavam nesses instantes tão continuados, mas o pior de tudo era que de rosto para rosto, como se abanasse um crivo onde eles fossem sendo filtrados, a esperança de encontrar Gustav crescia dentro dela. A dada altura do percurso, todos os rostos eram os dele, do seu elegante Gustav em casaca de linho, sorrindo genuinamente através dos tempos, pronto a reabraçá-la ou a reconhecê-la. Estávamos em meados da estação estival, mas este ano os veraneantes regressavam cedo. O mundo tinha invertido a sua ordem e a multidão, que dias antes havia partido para os banhos, voltava a apinhar-se nos cais de embarque, perturbados com o fim abrupto das férias grandes. Emília, bem mais cansada que o cos-

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tume, deambulava pela confusão. Entre os chapéus de palha e os vestidinhos brancos que chegavam de Ostende ou Biarritz, misturavam-se os magalas, aguardando confiantes os vagões que os levariam até à vitória rápida. Era uma profusão de bandeiras e de rostos, Emília já não sabia como os encarar, ele não poderia voltar agora, era filho de um alemão e estaria do lado da ofensiva do kaiser. Talvez não, se ainda estivesse em Paris iria juntar-se à turba de képi e calças vermelhas, tinha que o reconhecer numa das frentes, agora ou nunca. Gustav! Gustav! clamava interiormente, entre os encontrões daquela gente toda. Quase sem saber como, quebrou o tacão rompido de um dos botins, os óculos saltaram-lhe da mão, sentiu-se desmaiar e apoiou-se ao ombro de um sargento que a ignorou. Emília não voltou na manhã seguinte. Um dos comboios que vinha transportar os soldados demorou um pouco mais a chegar à gare, mas nada que atrasasse demasiado a mobilização, ao que parece, uma mulher tinha caído à linha pouco antes de chegar a Saint-Lazare.


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Militar medíocre inflamado por sonhos imperiais nunca cumpridos, num fracasso atribuído a difusa conspiração judaico-maçónica ordenada pelo Kremlin, simpatizante professo da disciplina teutónica e tão obsessivo como Kant pela pontualidade, o pai de Arlequim tornara-se, com a viuvez súbita e a gota inclemente, obstinado no controlo do tempo. Austero, permitia-se um único prazer: coleccionar máquinas para aferir o tempo gasto. Com muito método e maior investimento, o cronófilo castrense acumulou centenas, senão milhares, de relógios. De toda a sorte e feitio, com origem e sofisticação diversas, no intuito do rigor absoluto na medição dos instantes. Adquiriu, até, como corolário da sua excentricidade, uma réplica do Astrário de Giovanni Dondi, mais perfeita ainda do que a exposta no relicário suíço de La Chaux-deFonds, empenhando no desvairado negócio todas as jóias legadas pela esposa suicida. A vetusta residência, partilhada com o filho único, Arlequim – suportado com menos complacência do que as dores nas articulações –, foi enchendo, até à saturação do espaço disponível, de cronómetros sem conta. Neles se dedicava o velho coronel, atirado para a reforma compulsiva na sequência do saneamento político que o tomara por fascista, a regular o compasso dos engenhos visando a sincronia total. Com o monóculo de ourives rente ao globo ocular e um funil cravado no ouvido, vigiava-lhes a rotação dos ponteiros, auscultava-lhes o evoluir das engrenagens, saltitando de um para outro relógio e percorrendo todos numa urgência de estafeta, até os declarar afinados.

Depois, sentado na penumbra da sala, aguardava, imerso num tiquetaque colossal e tomado de expectativa febril, pela hora certa, que faria soar um escarcéu de badalos e campainhas, anunciando aos gritos o dobrar do derradeiro segundo. Nunca conseguiu, porém, dominar a rebeldia dos mecanismos. E, no meio da cacofonia que assolava a casa vinte e quatro vezes por dia, o duro coronel,, entregava-se ao choro convulso da suprema frustração, antes de volver à zelosa tarefa do acerto radical. Debalde. Tamanha obstinação acabou por lhe consumir as energias e roubar as atenções ao herdeiro que, de qualquer modo, já pouco as recebia. E sempre por via da reprimenda colérica ou do tabefe impositivo. De modo que, internado aos 12 anos num seminário recôndito, a cargo de cenobitas dados à contemplação, Arlequim preferia a cruel praxe dos noviços à indiferença do pai e à sinfonia atonal da sucessão dos minutos. E, quanto mais obsessivo se tornava o velho oficial pela miragem da pontualidade extrema, desgastando-se em fúrias vãs com a insolência arrítmica dos relógios, menos ensejo tinha Arlequim de tornar a casa. No seminário, as tarefas sucediam-se no suave silêncio de uma vivência serena, consoante a rotação do sol e não das rodas dentadas. Se as houvesse, jaziam no único relógio do maciço prédio conventual, cuja construção orçaria quatro centúrias, talvez mais. Fora congelado, porém, numa hora indiferente por uma tempestade de raios e trovões, que lhe desarranjou o mecanismo de escape de cilindro e roda. Demasiado antigo para ter conserto. Mudo e quedo, pregado no torreão da biblio-

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teca monástica, na paralisia de tal relógio reconhecia Arlequim o símbolo da sua liberdade. Provisória, todavia. Até que, no dia segundo de Agosto, deixou de haver relógios e pai, varridos todos por uma deflagração poderosíssima. Embora chegado na véspera, para gozo das primeiras férias estivais, Arlequim não estava em casa. Saíra pouco antes, para um passeio solitário nas ruas vaporosas dissolvidas pela canícula, escapando ao horror das chamas, à fragmentação do corpo explodido. eludindo o destino do pai. O coronel obtuso fora vítima de uma fuga de gás, conforme garantia o relatório dos bombeiros locais, algo surpreendidos pelos estragos de uma só bilha de propano.

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Extinta a última faúlha, Arlequim deitou fora os fósforos e adormeceu. Com um sorriso estranho, atribuído, pelo bando que o adoptou, ao desnorte da orfandade recentíssima e à privação das primeiras férias em família. Puro engano, pois semelhante sorrir só acomete os virtuosos, esses poucos que logram descobrir a felicidade plena nas coisas mais simples e fundamentais. Como o silêncio. E a doce alforria de um amor filial improvável.meiras férias em família. Puro engano, pois semelhante sorrir só acomete os virtuosos, esses poucos que logram descobrir a felicidade plena nas coisas mais simples e fundamentais. Como o silêncio. E a doce alforria de um amor filial improvável.


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Uma noite abafada de verão desce sobre a cidade. Acontece: o reflexo alvacento da lua entra pela janela e branqueia os objectos do meu quarto. A brisa temperada pelo mar levanta suavemente algumas folhas soltas de papel. Fora da casa bordejada de objectos desnecessários reina a desordem. Um menino cai da bicicleta, ao dar-se conta do sangue a deslizar pelo joelho abaixo reage instantaneamente à dor da queda. Vozes secas entram pelas janelas abertas de par em par. As ruas enchem-se rapidamente de corpos ávidos, as mesas e cadeiras das esplanadas explodem de brancura no centro da noite. A minha mãe está sentada na varanda. Nesta lonjura de espaços absorve a vida exterior à sua, segura um

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gelado entre os dedos pegajosos. Uma vaga de tristeza barra-lhe o olhar, sofre num mutismo absoluto. Os altifalantes rugem sons distorcidos rua afora e no limiar do vazio interior a minha mãe refreia a tristeza e finge ser feliz. Sente um grande desgosto líquido a encher-se dentro dela. O meu pai implantou-lhe a tristeza e ela, obliterada pela traição, reconhece o sofrimento das noites de verão no cheiro das amantes que ele traz agarrado a pele. No meu quarto: a nudez e inutilidade das folhas de papel mergulhadas na sombra dos objectos. Fixo nelas o olhar de onde sofro aos 16 anos e penso que nunca mais voltarei a amar e escrever. De repente, lembro-me. O rosto que chega à memória é o meu rosto, decrescido de


tempo, desfeito na recordação que me vem do teu rosto. As ruas labirínticas da nossa cidade, as nossas mãos dadas, o teu olhar velado de tristeza, a música ascendente, o baile. O teu olhar. Agora, apenas, Agosto perpetuado: esta brisa a rasgar com violência e o sofrimento a entrar pelo olhar abismado que viu demais. Aproxima-se o fim de mais uma noite de verão. Amanhã terminam as férias e serás novamente quem não és: regressarás ao trabalho de máscara embutida no rosto e viverás apenas na certeza de mais um fim de semana regado a álcool e sexo. Tu sabes a leitura no olhar do condenado à forca e por isso evitas o conhecimento do espelho. Sabes que não existe outra saída senão na fuga clandestina longe de ti e dos outros e por isso, digo-te, foge para bem longe daquilo que os outros possam desvendar a teu respeito. Esta noite interior decorre numa nota atroz e sombria. A nossa casa é imune à luz do verão, os quartos desertados acumulam fantasmas e respondem à nossa mágoa silenciada. Entretanto, ondas de excitação coroam as ruas da cidade, as fêmeas excessivamente maquilhadas, os machos trajam um par de cornos, o fumo das febras na brasa intoxica, a gritaria, os indianos de rosas nas mãos a aproximarem-

se e afastarem-se dos casais sentados causam fastio. A minha mãe verga-se pobremente ao cansaço de (sobre)viver. Ganha coragem num ápice, trancase na casa de banho e põe-se a estudar minuciosamente o corte das lâminas de barbear do meu pai e eis que avulta mais coragem. A casa vazia repuxa a memória da traição. Os seus passos leves estalam na madeira encerada e depois diminuem gradualmente de intensidade. Sento-me na cama e ouço as pancadas rápidas do meu coração. Os meus lábios prendem soluços, deixo que as lágrimas me crispem o rosto. Os meus olhos exprimem medo na elucidação das malhas do pensamento. Sei que tu, mãe, acreditas que eu desconheço o sintoma intravável da morte, esta que se iniciou em mim na repulsa à comida, álcool e sexo. Iço-me com a intrepidez que sobeja e num apelamento meigo sussurro “mãe, abraçame”. Gostava de poder beijar-te as faces, escapar à morte, mãe boníssima. Há o momento inútil em que tudo sobrevive em silêncio nesta casa, por cima da lembrança fixa do revólver apontado à minha cabeça, instantes antes. Sei o lento impulso da mão tremente que empunha o revólver porque experimento a cada momento do dia a lentidão excruciante do meu rosto triste: reacende-se na memória e arde e não cessa

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jamais de arder. Por baixo do olhar inquiridor que tu, mãe agonizante, lanças às lâminas antevejo as tuas mãos soltarem sonhos arruinados - furtados à tua meninice - em oposição ao teu corpo de agora, enorme de ondas, destinado à terra funda. Os arquejos, as tempestades interiores, a carência, o dever, o sal na garganta, a traição, a vontade de arrancar-te ao abraço da morte pertence-me. As mulheres jovens enchem-se de farturas, fumam, o álcool aflui-lhes ao sangue muito rapidamente tornando-se assim presas fáceis. Rendem-se aos

pado no teu rosto que provocou em mim esta morte ante a qual estou indefesa. Não voltarei a amar, não voltarei a escrever. Começa a chover. Percebo que o meu rosto é um rosto desprotegido, por dentro da tristeza, somado à nossa infelicidade e a minha cobardia. Nunca serei feliz, e o revólver, e o revólver, e o revólver apontado à cabeça, e o fremir frouxo das pálpebras, e o orgulho, e a voz que falta aos lábios cerzidos, e o punho fechado sobre o peito toma a forma de um coração pulsante. A chuva bate no papel branco, despejado de vida.

jogos mecânicos da sedução, o sexo lateja porque os jovens do sexo oposto tecem-lhes elogios artificiais. A noite aumenta de ritmo e euforia. Sábado, noite quente, as vozes são agora oleosas e dotadas de insolência. Inesperadamente assisto a uma discussão acesa entre dois bêbedos, um deles assenta uma pancada na cara do outro e este outro desfalece no chão. O meu corpo sustém-se apoiado no rebordo da janela. Ninguém prevê que empunho um revólver e que o silêncio atravessa as paredes da nossa casa em ondas sísmicas. Viro o olhar para dentro de mim e lembro-me do esgar de sofrimento estam-

A minha mãe desimpede a casa de banho e volta a entrar na varanda de camisa de dormir, leva uma sandes à boca, nascem-lhe novas lágrimas nos olhos, parece abandonar-se a uma inflexão séria. A chuva cola-se-lhe ao corpo e deixa transparecer os seios descaídos. O traçado espesso do seu corpo sobressai da varanda. Um dos jovens sentado na esplanada grita “Ó baleia! Ó puta!”, rebenta um riso em uníssono dessa direcção; a minha mãe finge não perceber. Música de discoteca explode nas ruas apesar de alguns residentes terem assinado uma petição contra o barulho no verão anterior. Chove sempre no

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verão. É Portugal a decair em pleno mês de Agosto. Homens e mulheres, indiferentes à chuva, mandam vir mais imperiais e sandes. Dentro da casa, eu e a minha mãe existimos numa solidão fluvial. Não falamos, não nos tocamos, é tarde demais para as afeições inexistentes. A minha mãe desconhece isto. Eu o que sabia desaprendi a partir do momento em que começou a chover. Agora sei apenas que o meu rosto é um espaço deserto onde a chuva vem cair. Sei apenas isto: o meu rosto demora-se dentro da carne do meu rosto e faz esta dor funda que desponta

inundadas. Há casas à chuva, vazias, esquecidas num amontoamento de merda, podres. E quando ocorre um minuto de paz e as ruas amortecem durante a madrugada firma-se, nesse ponto de silêncio, uma ponte entre a cor distinta da morte e do teu nome pronunciado em voz baixa. Tu partiste nesse verão e ver-te partir em lembrança faz pulsar uma vertigem no sangue. Se mudar de máscara tu cessarás de existir de um momento para o outro porque eu serei aquela que não te lembrará em parte alguma desta cidade mortífera e serei aquela que não prova

palidamente com o sossegar da noite. “Como se tu me atravessasses de agora em diante à velocidade dos rios” digo esta noite como se me ouvisse num eco por dentro a responder-te. E quando abro a porta devagar é para roubar um sorriso desmaiado à tua essência que plantei no fundo da memória. Ouço o ribombar do teu nome a bater dentro mim. Sou funda de solidão em todas as cicatrizes riscadas sobre a pele medo comprimido nesta dor mesclada da fúria a crescer violentamente no grito. Existem sobras de homens e mulheres destruídos pela chuva. Para sempre. Existem cidades de verão

o sabor repetido na dor de uma recordação parada. E serei mil outras estátuas de asas cortadas, retiradas no silêncio das ferias de verão - aureoladas de esperança - que são, por experiência, intermináveis. Amanhece para além das paredes da nossa casa, a luz do dia confunde o nome de cada fantasma com o nome da sua cidade. A nossa cidade regenerará com a chegada do inverno.

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Deu um pontapé numa folha e saiu-lhe uma pedra, daquelas saídas do chão. Teso, demasiado novo, à mercê dos ídolos. A miúda deu-lhe com um sorriso, o chavalo mais velho ganhou-lhe fortunas ao póker, imaginárias pois, que o pai mandou-o p’ra outro país, imaginário ainda. Era o tempo dos gatos selvagens, o cavalo chegou-se à égua, ela a escoicear, ele a empinar e o puto a cair e a desmaiar. Depois chegou a escola, outro liceu, e quando chegou o fim do Verão sobre a praia a gente tem de se deixar, talvez p’ra sempre. Esquecer essa praia é difícil, deram cabo dela, não era uma praia, era uma fronteira linda entre areia e mar, sem barreiras. Homem a cantar

na praia, no colégio interno, porque muita gente se estava a portar mal, putos a aprender física, matemática, música, e a esquecer essa praia, e os primeiros beijos sempre às escondidas nalguma folha de geografia. E ao lado dos soldados a caminho da guerra ao som de B-Gees (Massachussets), sempre no fim do Verão, o miúdo a tentar ser desvirginado, até que conseguiu nalguma esquina malvada, um pouco tarde, entre o Sul e o Norte, na verdade não se sabe bem, mas foi mais pró centro. Quando lhe disseram que tinha uma obrigação, foi passear até à praia, esse puto não acredita no fim do Verão.

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Passei o Verão numa espécie de luto. Agradavelmente afogado nas minhas mágoas, num prazer privado de sofrer. Na minha imaginação, liderava um cortejo fúnebre infinito, desfilando pelas avenidas e praias repletas de gente que sorria e que vivia uma vida melhor do que a minha. Com esta disposição miserável, arrastei-me pelo Verão como se nada nele fosse verdadeiro: nem o sol, nem o calor, nem a cidade. Consegui que o meu pequeno mundo se tornasse num universo, expan-

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sível e denso. Todos os dias me sentava no mesmo bar, na praia; uma monstruosidade de vidro e metal, que cheirava a protector solar e a café queimado. Todos os que me rodeavam pareciam estar noutro plano de existência, envoltos numa névoa, como se fossem ilusões de óptica. Gente morena, seminua, conversadora, e profundamente irritante. Eu queria chorar, morrer. Porque não me deixavam? Eu queria olhar para o mar, ouvir as ondas, pensar em tudo o que já não tinha, sonhar com outra vida.


Os dias eram uma tortura voluntária, comigo a suar e a beber. Sentia-me como um antropólogo nas Galápagos, a observar uma espécie rara cujos costumes me fascinavam ao mesmo tempo que me horrorizavam. Horas de silêncio, sem ter contacto mais do que passageiro com outro ser humano, deslizavam sem parar. O Verão era como eu o desejara: desolado e amargo. Mas, lentamente, uma mudança. Comecei a sorrir, apesar de não o querer fazer, enquanto caminhava junto da praia. Comecei a observar as pessoas em vez de olhar para o chão. E comecei a ansiar pela hora de ir para o bar, pensando nas pessoas que lá via todos os dias, e que já faziam parte da minha rotina tanto como o café, e o jornal que sempre ficava por ler em cima da mesa. Todos os dias iam para o bar, e ficavam sentadas a gozar o sol, a deixar os dias passarem, vagarosos e quentes. Iam para a praia, e ao fim da tarde sentavam-se nas mesas, salgadas e cansadas, falando sobre o dia que passara e traçando planos para o que viria. Eu não conversava, não corria, não mergulhava no mar. Passava os dias a criar ficções para aqueles que faziam já parte da ficção que eu criava para mim. Todos tinham um papel, mesmo que não o soubessem. Famílias, amantes, amigos, perdidos na felicidade que a mim me iludia. O mar atraía-me mais do que qualquer outra coisa. Confundia-me o porquê da minha mudança de disposição. Eu que vinha ali para sofrer, agora sorria, olhava, acenava, e sonhava com o mar. Ansiava pela sensação de liberdade ao sair do oceano molhado e ofegante. Porém, eu estava preso à cadeira, à mesa, ao desgosto que, anónimo, me pesava na alma e me curvava o espírito. Imóvel, monolítico, ali estava. Por

muito que o Verão me tentasse arrastar para o seu calor, o gélido toque da angústia que ali me trouxera continuava a arrepiar-me a pele. Eu mudara um pouco, sim, mas não esquecia quem era. No dia em que me senti pela primeira vez dividido entre escuridão e luz, chorei algumas lágrimas no meu cantinho da esplanada. Tremia de raiva, porque eu tinha tentado fugir à contagiante energia que pairava naquele ar. Tantas vezes dissera a mim mesmo que não ia participar, que não queria saber de nada do que via a minha volta. E mesmo assim, tinha sido apanhado. Observava as mulheres bonitas, olhava o céu azul, perdia-me nas ondas do mar, e respirava fundo, com suspiros de deleite ao sentir o vento quente na minha cara. E logo depois me lembrava que nada disto era para mim. O meu destino era outro. Um dia, o bar estava vazio. O vento soprava frio, o céu cinzento. O calor continuava, mas as pessoas haviam desaparecido. Sentei-me sozinho na esplanada, que parecia um cemitério. Tinha acabado, o meu estranho idílio. Os meus personagens tinham voltado para as suas realidades distantes. Só restava eu. A claridade dos meus pensamentos anteriores regressava, violenta e retumbante, para desferir o último golpe sobre a minha vida. Não podia fugir mais. Tudo voltou ao princípio, e a tristeza tranbordou-em pelos olhos, repetindo dentro de mim o grito que já era tão conhecido. Chegara o fim do Verão, e de mim. Levantei-me, e por fim, fui de encontro ao mar.

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Espanto por Rui Lage Os pardais dispararam das heras a coberto da noite que tacteava na lenha. Primeiro o rufar das pequenas asas, um estertor, uma arritmia, depois as salvas secas enquanto rodei sobre mim o tempo de pressentir a sombra que partiu com eles em busca de longe (de bosque em bosque de fonte em fonte e de prado em prado).

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Era a minha última noite na cidade. Combinei encontrar-me às sete e meia com um quase amigo no Nobu, um restaurante na moda. Cheguei à hora exacta. O meu quase amigo estava à porta. Disse: espero que não te importes mas vêm mais algumas pessoas, hás-de gostar de alguma delas. E sorriu. Eu não me importava nada. Sentaram-me num lugar. Havia barulho a mais. Vozes a falar umas sobre as outras de mistura com ruídos metálicos. Estava derreado. Uma semana de excessivo calor e oitenta e cinco por cento de humidade. Um trabalho de que nunca mais via o fim. A mesa era rectangular, comprida. Não conhecia ninguém a não ser o meu quase amigo que ficara à cabeceira. À minha frente uma mulher nitidamente mais velha do que a média dos restantes. Como eu. À minha esquerda uma outra mulher, que não podia olhar na cara, com um vestido lilás, talvez de seda, sem mangas. Para falar tem de se começar a falar. Em geral é pelo mesmo. Há uma urgência em saber o nome e a ocupação porque se tem pavor do indefinido. Como se se ficasse a saber alguma coisa. A senhora sentada à minha frente per-

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guntou: o que faz com as horas e os dias? Disse: sou fotógrafo. Que tipo de fotografias? Disse: pornografia. E ela disse: que interessante, é um trabalho bem pago? Na última noite, numa infinita cidade, uma pessoa pode dizer o que lhe vem à cabeça, e eu não chegava a mentir porque a verdade já tinha atravessado o oceano. Entretanto já tinha notado a maneira exímia com que a minha companheira da esquerda transformava um acto animal numa arte. Levava com uma delicadeza surpreendente a frágil comida à boca, de onde depois desciam lentamente os dedos. Os braços pareciam colados ao tronco. A senhora à minha frente disse que tinha uma casa nos Hampton, em cima do mar, que lhe telefonasse quando quisesse. A minha nova profissão devia ser deveras interessante. Passou-me o cartão de visita mais distinto que alguma vez vi. Difícil de descrever. Qualquer imagem é difícil de descrever. É por isso que é difícil contar um sonho, que é só quase um encadeado de imagens, expliquei sem vir a propósito, só com o intuito de captar a atenção da minha artista do lado esquerdo, de quem me faltava ainda ver a cara face a


face. Resultou. Freud vem sempre a propósito. Virouse para mim e disse: o meu nome é Kimberly, chamam-me Kimby, mas pode chamar-me como quiser. E eu disse: obrigado Kimby. Ela voltou a comer impecavelmente. Kimby tinha uns olhos muito ternos de que não consegui adivinhar a cor, mas o que me agarrou foram os lábios perfeitamente desenhados num vermelho intenso. Para seduzir uma mulher é preciso falar mil horas. É pelo menos o meu caso. Há todo um jogo que é preciso jogar, cada um com um papel, o meu sendo o de um ladrão. O homem tem sempre a obrigação de raptar a mulher. Elas exigem ser raptadas. E não havia tempo, nem força, para seduzir ninguém apesar de aquela mulher me ter desencadeado no cérebro uma curta série de expressões eróticas, num calão que me surpreendeu, o que atribuí ao meu desvario. Creio que foi do vestido leve sobre a pele quente e húmida. Somos, antes de mais, criaturas de desejo e morte. Reparei que ninguém estava a beber muito, a não ser eu, que enchia sucessivamente o meu dedal de saké. O álcool serve para muitas coisas, desde curar feridas a acender lampa-

rinas, mas na nossa civilização, em queda livre, o seu contributo essencial é servir para tornar mais fluida a comunicação social. Na Ilíada os gregos passam a vida a comer, a beber e a chorar, quando não estão a matar gente. Como já disse eu já não estava bem ali, mas noutra paisagem, com sorte entre os carinhos de uma mulher de cabelos curtos e pretos que sabia falar primorosamente a minha língua. De repente acontece algo surpreendente. A Kimby vira-se para mim e diz devagar ao meu ouvido: sabes, o meu último namorado, que conheci numa estação de metro, levou-me para casa dele e fez um banho de imersão onde me pôs atada de mãos e pés. Acontece uma frase poder ter sentidos diversos e eu não consegui decidir se o que ela me acabava de confidenciar era uma violência, caso em que deveria dizer: que horror, ou se um estranho jogo de prazer, caso em que deveria dizer: que curioso. Fiquei calado e pareceu-me que no restaurante todo se fez, por breves momentos, uma suspensão de movimentos sucedida por uma surda explosão. Sentia a cabeça um pouco mais do que é normal sentir-se quando não se

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sente. O cansaço, o álcool, a viagem em que já ia, e agora aquela enigmática frase a fazer vibrar a minha alma. Os segredos ligam as pessoas. Aquilo pareceu-me ser um segredo que ela quis, sem eu poder adivinhar porquê, partilhar comigo. Talvez porque estávamos os dois sentados por acaso numa comprida mesa de um restaurante caríssimo, numa cidade onde ninguém tem nada a ver com ninguém e cada um procura mais do que tudo ter a sua própria vida. Uma jangada de náufragos à espera de se devorarem uns aos outros. A minha companheira continuou a comer meticulosamente com os dois pauzinhos. O desconhecido tanto atrai como amedronta, e eu queria que alguma coisa, que não podia saber o que era, acontecesse. Disse num tom de voz um pouco mais alto para poder ser ouvido pelos meus vizinhos: já alguém reparou na diferença entre os pauzinhos de comer japoneses e os pauzinhos de comer chineses? Ninguém tinha reparado em nada, nem parecia interessado em conhecer esse pequeno segredo: os pauzinhos chineses são redondos na extremidade, os japoneses quadrados. Senti-me um estrangeiro de visita a uma cidade que nunca poderia ser a minha e calei-me com mais um golo de saké. Não sei quem fez a conta, sei que paguei uma pequena fortuna porque insisti em pagar a despesa da minha delicadíssima vizinha do lado esquerdo e da única pessoa que se mostrou interessada pela minha vida. Num instante estávamos na rua. O meu quase amigo deu-me um abraço e disse: é maravilhosa não é? Não percebi bem. O facto é que dei comigo abandonado no passeio da terceira avenida com a Kimby ao meu lado. Depois de acontecer, uma pessoa sabe que tinha de acontecer. Perguntei-lhe onde morava, que podíamos partilhar um táxi. Disse: não quero voltar para casa, tenho medo do meu

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namorado. Eu disse: preferes vir comigo? E ela disse: o que quer que seja. Acordei de repente. Não precisaria eu das tais mil horas de conversa preliminar ao prazer? Não acreditava bem em mim, nem no que estava a acontecer. Senti-me estupidamente lisonjeado. Eu era um grande fotógrafo com dois álbuns publicados e excelentes recensões na impressa de um país que ninguém sabe onde fica. O vestido da Kimby era mesmo violeta e de seda e os seus braços brancos eram luz no escuro da noite. Um táxi parou aos nossos pés. Por favor, esquina da décima quarta com a oitava, obrigado. A Kimby foi sempre a olhar pela janela e por isso eu pude ir sempre a olhar para ela. Voltaram as frases escabrosas. O vestido era tão leve que dava vontade de soprar com força e vê-lo a subir no ar. Eu já desejava aquela mulher mais do que qualquer uma que habitasse em todo o universo. Subimos ao terceiro andar. Depois dela entrar fechei à chave a porta atrás de nós. Era o apartamento que tinha herdado da minha irmã que se tinha suicidado em Nova Iorque. Não era preciso falar disso. Ela, mal viu o piano, deitou-se debaixo dele. Eu pus música. Naquela cidade há uma liberdade que não existe em mais parte alguma. Um humano nunca é um animal. Quando se diz que é um animal referimo-nos a comportamentos que ultrapassam infinitamente tudo o que um animal pode praticar. Comecei a sentir-me um animal. Eu queria que aquele estranho e esplendoroso bicho fosse meu, nem que fosse um só momento. Chet Baker cantava admiravelmente com uma voz de absoluto desespero. No que respeita ao amor andamos todos às escuras. Perguntei à Kimby o que queria beber e ela respondeu que queria fumar. Disse: tenho Lucky Strike. Ela disse: prefiro flores de marijuana. Respondi: as drogas não gostam de mim. E ela disse: vais mudar isso comigo. Através das


janelas aviões cruzavam a noite como pirilampos. Vamos a minha casa buscar alteradores de consciência? Vamos. A meio da noite ir e vir da oitava avenida à avenida C é um instante. À ida fomos de mãos dadas, os dedos de um a brincar com os do outro, à procura de qualquer coisa nas mãos fechadas, mais segredos. O motorista levava um turbante cor de laranja mas eu achei não ser necessário dar à minha amiga uma pequena palestra sobre as religiões da Índia. Ela saiu do táxi e voltou passado cinco minutos. Ainda pensei no namorado. O senhor do turbante reconduziu-nos ao nosso apartamento e eu paguei

vinte e três dólares com o nome de deus escrito em cima. Acendi todas as velas. Ela sentou-se ao meu lado ou eu sentei-me ao lado dela. Chet Baker continuava a falar do esplendor do amor enquanto eu só pensava em coisas feias. O contacto físico é sempre estranhíssimo, mas claro está que a sua boca já não era o lugar onde se põe os frutos silvestres, mas os próprios frutos silvestres. Ela fez um puro. Eu tossi duas vezes. O fumo branco ondulava a subir pelo ar. Eu pus-me de joelhos à sua frente e abracei o seu corpo sentado. A sua boca era doce e quente. Lembrou-me alguma coisa que não tive tempo de desco-

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brir o que seria. Senti o meu sexo a crescer. Por mento, notei mais uma vez. Olhei para o relógio. Três debaixo da seda violeta havia qualquer coisa que da manhã. A deliciosa rapariga de uma hora atrás fazia esquecer tudo o resto. Eu era um animal. Pen- começou a dizer que estava a morrer, que a levasse sei na minha mãe. Levantei-me e perguntei: gostas de imediato ao hospital, que era imperioso. Quando de poesia, Kimby? E ela disse: eu só gosto de poesia. ela se punha a rir eu ainda julgava que ela estava a Fui buscar um livro à estante. Ela fez outro puro que brincar comigo, embora fosse um estranho jogo. fumou sozinha e inspirou algumas linhas brancas Senti-me aflito. Todas as imagens de sexo tinham que executou com perícia sobre a tampa do piano. Eu sido erradicadas para sempre. Ela insistia que a tinha, para aquela ocasião, uma tradução do nosso levasse a um hospital. Não havia muito a fazer. Conpoeta nacional. Abri na primeira página da Tabacaria, segui tirá-la do apartamento, metê-la no elevador, que me pareceu vir a propósito e comecei a ler os sair para a rua. Parou logo um táxi ao qual pedi que primeiros versos, devagar, compassadamente. Ouvi nos conduzisse ao hospital mais próximo que era qualquer coisa que demorei a reconhecer. Eram mesmo ao virar da esquina e eu nunca tinha repasoluços. Grossas lágrimas caíam para o chão dos rado. Tinha nome de santo protector. Eu agarrava o olhos da minha quase amante. Agarrei-a nos braços seu corpo por detrás, como se pudesse cair a quale ela continuou a chorar. De um momento para o quer instante, desfazer-se. Sentei-a outro parou de chorar e começou a rir, primeiro bai- numa cadeira de plástico xinho depois às gargalhadas. Tudo isto faz parte das vermelho e grandes encenações das mulheres, onde elas surgem resplandecentes e únicas no teatro da vida, pensei. Ria muito alto. Sentou-se no chão e ria descontroladamente. Pensei que não era Eu queria que aquele estranho e esplend nada. De repente, numa transição súbita e incompreensível, começou de novo a chorar, Chet Baker cantava admiravelmente com uma desta vez mais alto. Pedi-lhe para acabar com aquilo que não sabia o que era. Ela não fez caso. Rebolava-se no chão e passava do riso ao choro convulsivamente. Pensei ela continuava em chamar alguém, telefonar para alguém, rir e a chorar ao mesmo tempo. para a minha amada de olhos negros que estava à a minha espera do outro lado do mar enquanto eu a Tinha de a pôr direita para ela não cair. Também eu traía tanto quanto podia. Talvez já não me esperasse. não via as coisas com completa nitidez. Era-me O amor não é certamente uma fonte de conheci- sobretudo difícil falar aquela língua que sentia a

Comecei a sentir-me u nem que fosse

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empastelar-se dentro da minha boca pecaminosa quando, continuando a agarrar o seu corpo por detrás, chegou uma enfermeira. Perguntou o nome dela e eu disse: Kimby. A enfermeira continuou a olhar-me com os olhos que pediam o apelido. Eu não sabia o apelido e não ia perguntar à Kimby qual era o seu apelido. Era tarde demais. A enfermeira perguntou-me o que tinha acontecido e eu não sabia o que podia dizer sem ser preso. A minha doente estava nitidamente mais calma mas não dizia palavra e quando olhei os seus olhos pareceram-me assustadores como os de uma medusa. A enfermeira, embora estritamente educada, mostrava alguma impaciência e informou-me que para ser internada eu tinha de deixar não só o meu nome e morada como um sinal

um animal.

doroso bicho fosse meu,

um só momento. voz de absoluto desespero.

e m dinheiro. Que eu seria o responsável. Disse-lhe que só tinha cartões de crédito e ela disse-me que aceitavam qualquer um, desde que fosse americano. Reparei com a instantânea claridade de um relâmpago que não sabia quem era a Kimberly, nunca antes tinha visto a Kimberly, não sabia o que fazia, onde nascera, que língua falava,

onde tinha comprado o vestido de seda responsável por tudo. Podia mesmo ser o caso que ninguém a conhecesse no jantar, que se tivesse juntado ao grupo sem conhecer ninguém, do mesmo modo como se atirou para debaixo do piano da minha irmã que agora também já deve ser meu. De repente pareceu-me evidente que a única coisa que tinha a fazer era fugir. Não era com certeza a ela que o meu quase amigo se referira como uma pessoa maravilhosa que se tem de conhecer. Eu não queria ser responsável. Nunca na minha vida tinha sido responsável, toda a minha vida tinha vivido a gastar as sucessivas heranças que herdava sabe-se lá de onde. Por exemplo da minha irmã que me adorava. A senhora enfermeira afastou-se, certamente para buscar o formulário da minha responsabilização. Da guilhotina. Eu sentei a minha querida Kimby na mesma cadeira vermelha que permanecia no mesmo lugar. Saí a andar rapidamente do edifício com nome de santo sem me virar para trás e, mal saí da porta automática, comecei a correr. Entrei no apartamento a tremer. Fechei todas as portas atrás de mim, deixei as velas acesas e por acender. Chet Baker tinha-se calado. Fui ao quarto de banho engolir três Dormicuns. Deitei-me na cama forrada a seda vermelha, pus tampões de cera nos ouvidos e tapei os olhos com uma venda. Ainda pensei, a diferença entre o criminoso e o inocente é que o primeiro faz o que o segundo só sonha fazer. Não vinha a propósito de nada e bem antes do que temia adormeci.

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É. E então como foi, quero ouvir tudo primeiro. Como foi... Foi... Sabes como é. Está calor cá, frio e chuvas lá. Sempre. E vice-versa. Cheguei e cresci: Couch surfing. All alone pela primeira vez. A cidade apareceu cinzenta entre as nuvens. Mas isso já sabia. Prevenida. Tudo passou muito rápido. Num instante estava eu, com a mochilona, numa fila para apanhar um autocarro que me levasse até ao centro. Dois americanos, um casal, queriam saber onde se comprava os bilhetes, se era ao condutor ou onde era. Aqueles seguiam o protótipo, não falavam mais nenhuma língua. Lá expliquei que era por ali, naquelas máquinas. Como funcionam? Pronto, eu mostro-vos lá como funciona. Olhei para trás: lá vinha o autocarro, lá ia o autocarro. Mais 50 minutos à espera do próximo. E estava frio. Em Julho.

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No centro a cidade ganhou peso. Eu estava realmente lá. Agora descobrir como se ia para onde eu tinha de ir. Metro. Nada mais fácil que o Metro, quem disse tal barbaridade? Ver as linhas, não esquecer a letra, e o número, e a cor. Tentar não dar nas vistas, sempre é um país estrangeiro. Como são diferentes as pessoas no metro lá! Tão diferente tudo. Não esperava que fosse tão. As carruagens são antigas, e as janelas abrem-se. O barulho não convida à conversa. Lê-se muito e ouve-se música. E dorme-se. Não se ouve falar. As pessoas não são as do costume, embora não houvesse razão para não serem. Até a maneira como nos olham é diferente. Sinto que as vistas são para apreciar. E aprecio. A casa onde fico é mais típica do que se poderia pensar naquele bairro. Dois quartos. Um deles faz de sala. Outro uma espécie de corredor. É assim o couch surfing. Paredes tão finas que se ouve tudo, de um lado e do outro. O vocabulário. As coisas


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que aprendi logo na primeira tarde. Nunca cheguei a ver a família do lado. Tudo o que faziam era gritar uns com os outros. O homem e a mulher. E a criança adolescente, rapaz ou rapariga, também, mas menos vezes. O homem falava-insultava-gritava como se não tivesse lábios nem língua, apenas uma boca cheia de dentes escancarada a fazer sons guturais. Mas dizia coisas, naquela voz rouca e esquisita, mnhák-mnhák-mnhák, com palavras que muito enriqueceram o meu vocabulário estrangeiro, embora não tenha percebido um terço. A dona da casa, mais companheiro, deu-me liberdade e uma enorme confiança. Toma a chave e amanha-te na cidade. No primeiro dia acordei cedo ao contrário do costume por cá. No estrangeiro sê estrangeiro. E fui explorar. Acompanhada do mapa de ruas, para dizer a verdade, o que tira dramatismo ao explorar. Mas estava sozinha num país estranho, não conhecia ninguém e chovia. Melhor. Lugares que já conhecia de postais e filmes e sítios da internet lá estavam, a cores e ao vivo e em tamanho real. Poder-se-ia pensar que eu estaria ali apenas cumprindo a obrigação de ver os locais famosos, já que lá estava, mas não. As coisas são diferentes diante do próprio nariz. Se se der ao trabalho de ver. Tentei não tirar fotografias, não ouvir música, apenas ver. Sem passar a correr. Indo nas calmas, ao meu ritmo, olhando apenas para o que eu queria. E resultou. A epifania bateu-me na testa. Ao fim do dia, que lá tem mais luz por isso acaba por ser maior, jantando-se às 22h, veio. Veio a sede que não se vai bebendo água. Pronta a dormir, pronta para no outro dia continuar e aproveitar, não conseguia fechar os olhos e adormecer. De um lado vinha o som da televisão dos vizinhos que gritam – só se calam quando ligam a televisão, e nessas alturas

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mantêm todas as janelas abertas para o pátio interior do prédio, para partilharem com os inquilinos o som. Os meus anfitriões, esses, não têm televisão. Foi férias a sério nesse aspecto. E do outro lado ouço-os a eles a falar. E aí tive a saudade. Tive saudades dele. Sentei-me muito preocupada em cima do sofá. Que é isto? Estás maluca? Agora é que vais ter saudades?! Pus a música nos ouvidos e adormeci assim que consegui. Proeza alcançada pelo facto de estar estoirada, uma das cinco vezes na vida em que, em tal estado de espírito, consegui tal coisa. No dia seguinte fui explorar mais a cidade. Aventurei-me para longe do centro. Mas o explorar já não era o mesmo. Desejava que ele estivesse ali. Que vergonha... Olhava para o lado e, naquele belo jardim onde parara para almoçar, a fonte de um deus aquático deitava água enquanto ao longe o relógio soava. Os corvos não voavam, porque há já muito tempo que ali lhes cortam as penas. Dizem que no dia em que voarem a monarquia vai-se. Só ali ou também no resto do mundo? À tarde, nos jardins do parque central, os pombos faziam as suas porcarias, os miúdos dos telhados lançavam barcos toscos nas fontes e fazia bom tempo. E ele também estava ali. E parecíamos uns tontinhos a reparar em todas essas coisas. Corríamos pelo campo de papoilas vermelhas e a mulher com a sombrinha e o rapaz com o chapéu de palha continuavam a colher flores. O rapaz colhe-as uma a uma e põe-nas no bibe, como num cesto. Dá uma corrida e volta para junto da mãe. Quer oferecer-lhe as flores. Abre o avental improvisado e não são rosas, estão escuras e mortas. Deita fora e vai apanhar mais papoilas. A torre inclinava-se mais e, lá ao fundo, as cúpulas brancas lembravam uma história de amor tão antiga


que talvez até tivesse acontecido, e aí demos as mãos, sem sabermos que o palácio era afinal um túmulo. Num museu, onde um sorriso olhava um bode a tocar violino e a cera derretia tão devagar que o olho não dava por isso, comprei-lhe um presente. Um cavalo azul. A semana passou a correr, e não sei distinguir muito bem os dias uns dos outros. Se calhar o que digo que se passou no primeiro dia passou-se na verdade no terceiro. E o segundo dia é na verdade o sexto. Não me lembro – tudo se movia demasiado depressa. Por cima das nuvens estava com medo de voltar ao mundo real, mas aterrámos e o tempo andou. A nossa cidade tão conhecida parecia mais fresca, conseguia reconhecer os cheiros que já me tinha habituado a sentir. Assim que pude combinei um café casual, num lugar normal, sem memórias, símbolos ou sugestões. Era só para dar o presente. Ele apareceu-me à frente e eu tremia como aos dezassete, na véspera de um concerto de Verão. O café tomou-se e o presente deu-se. Nada de especial. Mas ainda não tinha a certeza. No fim o pano caiu. Pedi a conta com um gesto ao empregado que estava ao balcão. Ele veio e perguntou: - Junto ou separado? E ele respondeu logo: - Separado. E contou os trocos. Era só café. E era só a conta. E era indiferente como se pagava. Foi a prontidão. Foi a não troca de olhares, foi o estar na mesma. Foi o: simplesmente não apanhou. Não percebeu como eu estava, como tinham sido estas férias.

E aí passou-me mesmo. Passou tudo. Senti-me bem outra vez, como estava antes. Aliviada. A questão não era a conta. Tu percebeste. A questão era outra. Lá, no outro sítio, a saudade não foi só dele, foi do quadro em geral. De como era antes, não de como já era no fim. Das outras viagens que fizemos. Sozinhos, sem mais ninguém. Foi ver outros parecidos, e ser tão fácil imaginar estar lá, com ele, fazer a vida assim. Mas não é o real. Assim nunca é. Ainda bem que tomámos o café. O café trouxe-me de volta à realidade. Foi só nostalgia, nada mais. Não achas? .... O que foi? O que é? É que isso é mesmo conversa de amantes. Como assim? “Só se fosse só eu, tu, e o resto do Mundo, baby.”

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Reflectiu-a por detrás de uma coluna de cimento, de arestas vincadas. Deu outra passa no cigarro. Olharam-se fundidos por momentos. Encaminhouse para ela impulsionado pelo mistério que se soltou dos seus olhos. - Estás sozinha? - Não. – Respondeu surpreendida. - Vais sair a algum lado quando fores daqui? - Vem sair comigo? - Nem te conheço. - Tiago – levou os lábios à face dela – Já deixei de ser um mero desconhecido. Vens? Abriu-se a porta da casa-de-banho. Do interior escapuliu-se um vulto loiro, cara pálida, a insinuar outra nacionalidade, descrita com um imaginado snifar de cocaína. Uma miúda, quinze anos quando muito, enrolava nos dedos as pontas do cabelo, numa mestria da arte da sedução. Também ela acabou por sair da casa-de-banho. - Vamos embora daqui. - Não posso. Estou com uns amigos e eles querem ficar por cá. - Vens tu! – Insistente – Combinas um encontro posterior com eles. Prometo deixar-te lá á hora combinada. – Tentou agarrar-lhe a mão; afastou-a surpreendida. - Não dá a sério. Deixa-me ficar com o teu contacto. Encontramo-nos outro dia.

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- Não pode mesmo ser hoje? - Hoje não dá mesmo. Do bolso traseiro dos jeans, Tiago tirou um bloco de apontamentos e rasgou uma folha. Ditou-lhe o número. Despediram-se envolvidos num clima conjunto de surpresa e timidez e atrapalhação. Quase desaparecida no amontoado de pessoas que os rodeavam, Tiago chamou-a. - Espera. Como te chamas? - Joana. – Disse-o quase em grito para se fazer ouvir. - Não te esqueças de telefonar. – Exemplificou com a mão um auscultador para melhor ser entendido. - Podes crer que não. Juntou-se ao grupo de amigos. Foi recebida pelos braços de um deles, desmanchado em sorrisos, e beijaram-se. Deitou um último olhar a Tiago, sorrindo, antes de se envolver por completo na confusa diversão de massas. II - Posso fazer-te companhia? – Estremeceu de susto. Tiago debruçou-se sobre a mesa e beijou-a na cara. – Estás sozinha desta vez? Incomodo? - Claro que não. – Respondeu Joana, tímida, a perfeita imagem púrpura de mulher. No interior do balcão, de óculos enormes e cabelo freack, um rapaz fartava de som o ambiente sónico do bar. Uma rapariga groove esperava impaciente


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a chegada de clientes. Joana vestia uma camisola preta, o último botão desabotoado e umas calças de ganga azul-turquesa, uma sedução simples a condizer com as repas suspensas acima dos olhos. - Apareces sempre de repente? - “Apareces sempre de jeito estranho / sem o mais pequeno dos avisos / apareces do nada / do fumo invisível de ti.” – Sem despregar os olhos dos dela. O silêncio instaurado foi quebrado pelo aproximar denunciado da empregada do bar. Rabiscou os cartões de consumo com os preços das devidas bebidas. - Tens ido ao Lux? - Não. Daquela vez foi pura coincidência. E tu? - Estive lá na passada quinta-feira no aniversário de um amigo. - Tens muitos amigos! – Falou-lhe de modo provocatório. - Amigos não será a palavra correcta, diria antes conhecidos, colegas de faculdade que moram aqui em Lisboa. - Estudas o quê? - História da Arte na Universidade de Coimbra e sou da Covilhã. - Soube desde o início que não eras uma nativa desta cidade. – Joana não desprendia os olhos castanhos do rosto dele. Mantinham-se as repas do primeiro encontro, o sorriso largo de orelha a orelha, as faces vermelhas. - Não olhes assim para mim, deixas-me nervoso. - Porquê? Olho assim para toda a gente. - É muito intenso. Sinto-me desnudado. Também pestanejas? – Riu-se – És muito bonita. A mais bonita de todas. - Deves dizer isso muitas vezes e a imensas mulheres.

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- Não há assim tantas mulheres a quem se possa dizer uma coisa dessas. Mas tu como mulher não deves ter facilidade para acreditar nisto. Sentes que não estou a ser verdadeiro? - Vamos sair daqui. Queres dar um passeio pelo Bairro? A noite arrefecia preparando-se para morrer com o nascer do sol. Vestiram-se os casacos de agasalho, finos, e o diálogo estendia-se aos mais variados assuntos. Falavam sobre os polémicos ícones dos conceitos morais que prevaleciam em Portugal, de literatura e fotografia, de música, uma paixão comum, sobre a legalidade ou não do aborto, a legalização das drogas, sobre filmes e séries, além dos desenhos animados que preencheram as horas televisivas de quando eram adolescentes. Entrelaçaram as mãos, beijaram-se, abraçaram-se, voltaram a beijar-se num número de vezes de perder a conta. A palidez da manhã impunha-se lentamente. - Como vais embora? - Trouxe o carro. Quis sair sozinha e não depender dos transportes públicos. - Não há nada pior nesta cidade do que depender dos autocarros e comboios. Queres que te acompanhe ao carro? - Sim, se não te importares. - Quando nos vamos voltar a ver? - Acabaram-se as férias. Amanhã volto à Covilhã. - Obrigado por estares por ai. Pelo menos a felicidade de saber que existes. Silêncio cómodo. Caminhada até ao carro e despedida com um largo beijo nos lábios. Tiago fixou o veículo enquanto este se tornava mais pequeno enquanto se afastava.


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NÃO É JÁ, É AGORA!

v de vaca por Pedro Santos

As férias de Verão. Aquelas por que mais anseiam todos. Serão as férias de Verão assim tão incensuráveis? Não são, as vacas. Porque tudo, mas mesmo a totalidade das coisas, o que parece perfeito, nunca o é. Assim com’assim, porquê, de entre tantos vocábulos à disposição, a escolha de um de órbita e natureza conceptual bovina? Simples. Mas ao mesmo tempo complicado. Aliás, concomitantemente bicudo, que, assim, com a escolha desta expressão idiota, parece ainda mais complicado. Ou então fica assim: concomitantemente bicudo de índole inclusive mormente et cetera, portanto, verídico. Usar “de índole inclusive mormente et cetera, portanto, verídico”, seja em que contexto for, mas assim nesta mesma ordem, de preferência sem ponta de sentido e, factor decisivo, num tom que mistura a presunção extrema com um espanto doseado, é coisinha para ganhar todas as discussões que existem. Entretanto, esqueci-me do que estava a falar, de modo que vou ali acima ler isto do princípio para recuperar o fio à meada. Pronto. As férias de Verão são, tal como a vaca do escritório ou lá do bairro, para usufruto geral. Nunca trabalhei num escritório, mas a vaca do meu bairro trabalha e presumo que continue uma vaca. Aliás, julgo até que a vaca de todos os bairros se metamorfoseia, com a passagem para a vida activa – em termos de contribuição PIBica –, na vaca lá do escritório. Curioso

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que baste lançar-se mão duma flexão verbal de “metamorfosear” para qualquer indivíduo achar que é o Kafka. Logo, a partir deste preciso momento, V. passa a identificar o Verão. As vacas não têm critério e, nesse âmbito, as férias de V. são umas vacas. Não são como as férias de Natal ou da Páscoa que, regra geral e genérica, dão só uns dias. E não a toda a gente. Id est, não são umas vacas. As vacas fazem tudo e a quase toda a gente. As férias de V. são assim também, não têm critério. Se as férias de V. tivessem algum, eu não teria o singular privilégio de encontrar pessoas descalças em WC’s públicos. Tudo bem que eram WC’s muito próximos de areais, mas isso não desculpa nada; levando toda e qualquer pessoa de bem, isso sim, a colocar o quesito “Mas que gente é esta e como é que eu consigo usar o mesmo mar que elas?”. É um mistério. As férias de V. também não dão prendas, ao contrário das férias da Páscoa e de Natal. As férias de V. acham que, por serem grandes, estão à vontade para não mimosearem as pessoas. Acham mal, que isto de ser grande não é tudo na vida. As pessoas precisam de carinho e atenção e, nesse campo, e apesar de mais pequenas, as férias de Natal, sobretudo estas, e da Páscoa dão uma abada nas de V. Mas, apontam alguns teóricos, neste aspecto em particular, a culpa nem será totalmente das férias de V., podendo-se, idealmente, apontar também o dedo


Pronto. As férias de Verão são, tal como a vaca do escritório ou lá do bairro, para usufruto geral. que continue uma vaca. mo su pre e lha ba tra irro ba tório, mas a vaca do meu Nunca trabalhei num escri

a Jesus. As férias de Natal têm prendas porque Jesus faz anos, tal como as da Páscoa têm porque Jesus ressuscitou, que isto de estar morto é um bocado parado e uma pessoa entretanto farta-se. Impõe-se então a confrontação: foi Jesus que não fez nada – por oposição a coisas importantes na esteira de um “nascer” ou “ressuscitar” – no V., ou são estas férias que acham que lhes basta o facto de serem grandes e terem sol para serem eleitas as predilectas de todos, ignorando os feitos de Jesus? Eu acho que as férias de V. têm a mania, as vacas, que Jesus alguma coisa deve ter feito em tanto V. Por incrível que pareça, até as composições sobre as férias são mais complicadas quando a temática é o V. Lembro-me bem do primeiro dia de aulas do ano lectivo oitenta sete barra oitenta e oito, data em que a professora Laurinda nos pediu uma composição sobre as nossas férias de V. Tinha eu passado uns dias na Praia da Samouqueira e, apercebendo-me que, aos sete anos, Samouqueira é uma palavra bem copulada de escrever, decidi mudar o local de férias para Peniche, na altura, claro, com um belo X a substituir o, ainda algo estranho, CH. Ocorre que a professora era preci-

samente de Peniche e andou um ano inteiro a fazer-me perguntas sobre as praias e tudo o mais, sítios que, em teoria, eu teria visitado durante quinze dias. Nefandas férias de V. A sorte delas é que toda a gente gosta de vacas. Afinal de contas, vocês, férias de Natal e Páscoa, é que bem que podiam ser um bocadinho com’as de V. Mais vacas.

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ARTIGOS SANITÁRIOS

ainda que Mal Lhe pergunte,e verdade que caminhou sobre as aguas ? por Nuno Gervásio

No final do Verão, fico sempre com um travo amargo na boca. É das uvas pouco maduras. Também acontece ficar com um certo gosto a melancolia. Não passa nem com pasta dentífrica. E percebe-se, são imensas as coisas boas que existem no período estival que só voltaremos a desfrutar no ano seguinte. Entre todas elas, destaco os incontornáveis inquéritos de Verão. Nada tem a simbologia dos inquéritos de Verão. Deixar de os ler, representa o fim da descontracção e o regresso às questões sérias da vida. Apesar de haver quem considere que os inquéritos de Verão são a principal razão para se chamar silly season a esta época do ano, eu adoro-os. Admiro sobretudo a competência dos jornais e revistas cor-de-rosa em conseguir com que figuras públicas respondam a perguntas disparatadas. Quero aqui lembrar duas em particular que se atravessam constantemente na minha memória e que, lamentavelmente, estão a cair em desuso. Que livros levaria para uma ilha deserta? Chamem-me fútil se quiserem, no entanto, se por uma série de acasos infelizes tivesse o azar de ir parar a uma ilha deserta, estaria sobretudo interessado em não morrer. Peço que não me levem a mal

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mas perante uma situação de catástrofe pessoal, a literatura não estaria entre as minhas prioridades imediatas. Não sei como é com os outros mas, a luta pela sobrevivência, a mim, retira-me um pouco a concentração na leitura. Custa-me, até, entrar na linha de pensamento, “Bom, não há água potável, alimentos, estou exposto a toda a espécie de doenças, ainda bem que trouxe comigo o Guerra e Paz, o Cem Anos de Solidão e a Madame Bovary”. Quanto muito, gostaria de ter comigo um livro que o meu pai comprou aqui há uns anos nas Selecções do Reader’s Digest, “Como Fazer Quase Tudo”. É uma espécie de Manual do MacGyver para iniciados, com mais de 1000 soluções para problemas práticos. Foi com ele que aprendi gamão, como fazer panquecas e dar nós de gravata. Com certeza haverá lá dicas que me afastariam dos pensamentos suicidas. Com que figura histórica gostaria de jantar? Ninguém se furta a responder a esta. Mesmo sabendo-se que apontar uma figura histórica que já tenha falecido será apenas estúpido. Quanto muito, eu seria capaz de escolher uma celebridade que tenha morrido há meia dúzia de minutos. Todavia, não creio que a refeição me caísse lá muito bem.


Os mais alarves, escolhem a Madre Teresa da Calcutá. Na expectativa de que ela esteja a jejuar e sobre mais comida. Uma percentagem ligeiramente maior, responde o Bill Gates. A esperança é que ele pague o jantar. Agora, seguramente, mais de três quartos dos inquiridos respondem Jesus Cristo – pode não ser bem assim mas dá-me jeito. Mesmo recorrendo a um rebuscado e complexo exercício de suspensão da realidade, não sei que tipo de jantar é que estão à espera de ter com Jesus. Não me sentiria lá muito confortável a estimular diálogos com frase do género, “Jesus, passe-me o galheteiro, sefáxavôr”, “Senhor, vai umas azeitonas?”. Então, qual é que será a grande motivação? Ver o Filho de Deus a usar faca e garfo? Saber se Ele fala com a boca cheia? Não creio que a fé de alguém possa voltar a ser a mesma depois de ouvir o Messias dizer ao empregado de mesa, “Olhe, traga-me um bom cozido à portuguesa que a minha última refeição foi há mais de 2000 anos e estou esganado com fome!”. Só posso compreender a escolha de Jesus Cristo para jantar com o desejo de se tirar a limpo algumas das histórias contadas na Bíblia. Desenganem-se, o mais certo seria Jesus assumir uma postura idêntica à dos políticos e dirigentes desportivos.

- Ainda que mal Lhe pergunte, é verdade que caminhou sobre as águas? - Não confirmo nem desminto. - E aquela cena de ressuscitar e subir aos céus? - Sobre isso, remeto-o para a leitura dos evangelhos. Nada mais tenho a acrescentar. - Andam por aí a dizer que era casado com a Maria Madalena, é verdade? - Não falo sobre a minha vida pessoal. - Quem comer deste pão e beber deste vinho viverá para sempre? - Nesta fase do processo de inquirição não vou fazer mais comentários sobre o assunto. - Senhor, esta farinheira é ou não é divinal?

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TACKLES E APORIAS

Embato violentamente no ban co dos suplentes portugueses, abro a cabeça ao meio e sou amparado por Júlio Cernadas Pereira “Juca”, enquanto me desfaço em sangue e papa cerebral.

Oh Arvores da Vida, Para Quando o Vosso Inverno? (Rilke) ou Como Me Apercebi de Um dos Piores Onzes de Sempre da Seleccao Portuguesa O ambiente infernal do estádio de Giuseppe Meazza contrastava com a penumbra invernal que cobria todo o parque de San Siro e a Via Primaticcio, que a ele conduzia. Por lá caminhava, cabisbaixo como sempre – ò triste sina ser português – em direcção ao estádio, para assistir ao Itália – Portugal. Os meus colegas transalpinos – na altura, era leitor de Português na Universidade de Milão – tiveram a delicadeza de me oferecer um bilhete. A Itália encontrava-se já apurada para o Euro 88, a realizar na RFA. Portugal, comme d’habitude, tinha aquelas contas todas para fazer: ganhar por mais de dois, menos de cinco, esperar que Malta cilindrasse a Suécia em Estcocolmo por uma diferença igual ou superior a seis golos, e que a Suíça também perdesse contra si própria por mais de três. Enfim, o fado lusitano no seu esplendor. Mas voltemos ao ambiente infernal naquela invernal noite de cinco de Dezembro de 1987. Entro no Giuseppe Meazza e sou saudado por duas centenas de pessoas, como acontece sempre que lá vou. Sento-me e contemplo aquele templo sem tempo. Penso na Portugalidade de que falava Eduardo Lourenço e que cantava a então debutante Teresa (Sport Comércio e) Salgueiro(s), e eis senão quando começo a ouvir o onze inicial que vai defrontar a selecção de transalpes. Num ápice, os meus olhos ferem-se. Como que são perpassados por punhais quentes. Levo as mãos à cabeça e lanço-me do segundo anel directamente para o relvado. Embato violentamente no banco dos suplentes portugueses, abro a cabeça ao meio

por Augusto Justo

e sou amparado por Júlio Cernadas Pereira “Juca”, enquanto me desfaço em sangue e papa cerebral. Ainda vocifero alguns impropérios, em vernacular linguagem, “Ò Juca, o que é que nos estás a fazer? Porquê, perchè?” foi o mais brando, mas sou de pronto internado. O resultado falou por mim: três secas. Mas histórico, histórico, foi mesmo o onze que Portugal apresentou naquela noite. Seguramente, não o pior, mas o mais Pós Moderno, Pós Saltillo e, há até quem diga, Pós Vitória de Guimarães. Italia Zenga, Bergomi, Francini, F. Baresi, R. Ferri, Bagni (61’ De Agostini), Donadoni, De Napoli, Altobelli (68’ Mancini), Giannini, Vialli. Treinador: Azeglio Vicini. Portugal António Jesus (Vitória de Guimarães) (68’ Eduardo Lucio (Varzim S.C.)), João “Costeado” (Vitória de Guimarães), Miguel (Vitória de Guimarães), Frederico Rosa (Boavista), Eduardo Mendez “Dito” (Benfica), António Carvalho (Vitória de Guimarães), Hernâni Madruga Neves (Benfica), Rui Nascimento (Vitória de Guimarães) (55’ Parente (Boavista)), Coelho (Boavista), Adão (Vitória de Guimarães), Gilberto (Belenenses). Treinador: Júlio Cernadas Pereira “Juca”. Golos: 8’ Vialli, 87’ Giannini, 89’ De Agostini Árbitro: Herr Keizer (Holanda).

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Amores de Sofa 50

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