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Próximo ato: teatro de grupo

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Mesmo em meio a tantos percalços, a produção dos grupos na região vem alterando consideravelmente o panorama do Nordeste, tanto na relação com as plateias quanto na consistência dos resultados artísticos alcançados. A maioria deles investe fortemente na dimensão pedagógica das atividades, promovendo debates, conferências, oficinas e outros instrumentos para pensar sistematicamente a atividade teatral. É o caso do fórum de diálogo Chá da Tarde, da Cia. do Chapéu (AL); dos ciclos de leituras em dramaturgia contemporânea, realizados pelo Teatro NU (BA); da Coleção de Dramaturgia Latino-Americana; e da recémlançada Revista Boca de Cena, publicadas pelo Oco Teatro (BA). Outros coletivos apostam na realização de festivais e mostras, como a Semana Imperatrizense de Teatro, organizada pela Pequena Cia. (MA), e a Mostra de Teatro de Grupo, promovida pelo SerTão Teatro (PB). Grupos como o Alfenim (PB), por sua vez, vêm investindo no registro e difusão de seus processos criativos, com a publicação de Cadernos de Apontamentos para suas duas montagens, Quebra-Quilos e Milagre Brasileiro. Além disso, ensaios abertos e intercâmbios tornaram-se práticas frequentes, a exemplo das trocas em andamento entre Clowns de Shakespeare (RN)/Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), Teatro do Concreto (DF)/Magiluth (PE) e Bagaceira (CE)/Coletivo Angu (PE), oportunizadas pelo programa Rumos Teatro, do Itaú Cultural. Essas ações têm contribuído decisivamente para uma aproximação entre o público nordestino e o teatro da região. Se não é prudente afirmar, historicamente, que as plateias não prestigiavam a produção local, é possível dizer que as políticas de “pão e circo” e o apoio ao teatro de evento desvirtuaram, em alguma medida, essa relação, também profundamente marcada, há de se reconhecer, pelo desserviço de uma certa produção de qualidade duvidosa e por uma lamentável colonização promovida pela TV. Com a alteração dos níveis de renda e dos padrões de consumo na região, uma parcela considerável da população passa a desfrutar de bens culturais antes considerados artigos de luxo, como o teatro. Ainda mais importante, a presença de grupos de pesquisa, que dialogam abertamente com as plateias, expõem processos criativos, avaliam resultados junto ao público e apresentam trabalhos com continuidade e projetos estéticos consistentes, tem formado audiências cada vez mais cúmplices da cena nordestina.

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O teatro de grupo na região tem colocado em perspectiva, nos planos estético e político, as identidades desse Nordeste. Se o fortalecimento das redes e dos coletivos, como se tentou mostrar minimamente neste artigo, dá excelente testemunho de um protagonismo ascendente no campo das políticas culturais, no território estético as metáforas do fluxo e da mistura dão conta – ainda que parcialmente – do trabalho empreendido pelos grupos na direção de uma cena híbrida e mestiça que, em tudo, se opõe às imagens fossilizadas do Nordeste. Um teatro que não rejeita as matrizes populares da cultura local, mas com elas dialoga sem sacralizá-las ou capitalizá-las, como têm feito Tarará (RN), Estandarte (RN),


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