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Observatório 21 - Política, Transformações Econômicas e Identidades Culturais

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Silvio Luiz de Almeida

POLÍTICA, TRANSFORMAÇÕES E IDENTIDADES

ESTADO E CULTURA:

POLÍTICAS DE IDENTIDADE E RELAÇÕES ECONÔMICAS Silvio Luiz de Almeida

Este artigo trata do vínculo estrutural entre as transformações socioculturais, as estruturas econômicas e as instituições políticas. Os argumentos que aqui serão expostos são três: 1) as transformações econômicas e políticas – em especial as impulsionadas pelos períodos de crise e pelas políticas de desenvolvimento – implicam profundas mudanças nas práticas culturais; 2) a cultura tem sua dinâmica afetada por arranjos institucionais, em especial por aqueles que envolvem o Estado; 3) a cultura, como complexo de relações sociais afetado pela política e pela economia, é um campo de disputas políticas interinstitucionais, intrainstitucionais e não institucionais.

N

o primeiro volume de O Processo Civilizador, o historiador alemão Norbert Elias 1 estabelece uma notável relação entre as transformações sociais e a alteração nos costumes ou, em outras palavras, na cultura. Para sustentar sua tese, Elias expõe a “sociogênese” da distinção entre civilização – que se vincula originalmente à experiência histórica da França e da Inglaterra – e kultur – relacionada à história da Alemanha. Enquanto o conceito alemão de kultur “dá ênfase especial a diferenças nacionais e identidade particular de grupos” que “reflete a consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar e constituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político como no espiritual”, a noção de civilização, de origens francesa e inglesa, “inclui a função de dar expressão a uma tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores”.

Com essa distinção, Elias quer demonstrar como a identidade – compreendida como o plexo de valores presentes no imaginário social, bem como sua incorporação às subjetividades – se relaciona com a formação histórica das estruturas políticas e econômicas. Não significa dizer que todas as práticas culturais resultam de projetos políticos determinados, mas que há uma relação estrutural e conflituosa entre cultura e política. A produção de discursos de representação identitária, a determinação dos espaços e a fixação do tempo são questões centrais da política, já que dizem respeito à legitimidade do exercício efetivo do poder. Esses três aspectos, no plano ideológico, introduzem nas ações cotidianas o imaginário socialmente construído que sustenta as práticas institucionais e não institucionais de poder e suas correspondentes oposições, fornecendo-lhes um sentido ético e estético.

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