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MATHEUS FRIZON

Verdade ou

Consequência? Verdade ou Consequência? Neste jogo não há vencedores. Conte com a verdade e faça a sua aposta, ou sofra as consequências.

Para Natany, por acreditar em mim mesmo quando não me sinto capaz.


- Primeiro Round Não era uma tentativa de beijo. Nada de beijos de primeiro encontro. Era o tipo de beijo que queria ir até o fim, ainda que alguém se machucasse, o tipo de beijo que dizia “quero devorar cada pedaço seu e ouvir você gritar meu nome”. — Richelle Mead, Filha da Tempestade


Capítulo Um Atropelada pelo destino Sou uma árvore seca. Olho-me no espelho e não gosto do que vejo. Primeiro, o meu rosto está marcado por ter dormido com a cara em cima da calça jeans de miçangas. Segundo, meu cabelo castanho-claro, liso e encaracolado nas pontas está tão bagunçado que parece que milhões de gatos brincaram com ele, como se de repente ele tivesse se transformado numa gigante bola de lã. Mordo meus lábios vermelhos e finos decidindo que, definitivamente, es- tou destruída por ter ido dormir tarde lendo alguma coisa sobre DNA que agora desapareceu da minha mente. Resolvo deitar na cama. Quero dormir. Mais do que isso: quero hibernar. Bem, não fecho os meus olhos e, em vez disso, varro o antro em que moro. Um pequeno recinto com pôsteres espalhados, roupas, copos, meias, livros e muitos papéis. Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Dou um grunhido. Sou uma fracas- sada. A prova disso é que a minha mãe me abandonou quando eu tinha sete anos. Levou a minha casa; a minha felicidade; a minha irmã gêmea Belle. Fico imaginando se ela se parece comigo e se tem esse cabelo cor de merda que chega ao pescoço. Só tem uma coisa que gosto no meu rosto: o nariz, pequeno e com uma pontinha angulada. Meu celular toca e com o susto acabo caindo da minha pequena cama. Dou um gemido e minhas mãos varrem o chão até encontrar a foto do Derek piscando na tela do meu celular que para de tocar e eu me rendo. Durmo. Cinco minutos depois – ou pelo menos tenho a vaga sensação de que foram cinco minutos –, Derek empurra minha cabeça no chão com a ponta do pé. Sei que é ele por que conheço esse Converse surrado em qualquer lugar. – Ah, Alice, não acredito que você está drogada! Ele se agacha e pega uma mecha do meu cabelo rebelde e cretino. Os olhos de Derek se encolhem como se quisessem ver a minha alma ou, quem sabe, esteja à procura de um segredo. Não. Talvez seja algo que eu tenha feito de muito errado na noite passada. Mas é obvio que eu não fiz nada, sou uma planta vegetativa (planta vegetativa é muito, muito legal mesmo!) – Drogada é a sua mãe! – Sussurro quando ele dá um muxoxo. – Oquei, desculpe, não quis ofender! E, ah, eu não sou uma drogada! – Pode até não ser, mas tenho certeza que é uma aspirante à atriz fracassada! – Ele quase berra. É ai que decido levantar o meu tronco e a minha pele por cima das clavículas estão brilhando fora da camisola preta de bolinhas brancas. – Cara, definitivamente, você não se enxerga. Somos dois fracas- sados. – Passo a língua nos lábios. – Pelo menos não sou eu quem está apaixonado por uma garota nem aí para você. E é isso mesmo. O Derek está apaixonado por uma garota que ele conheceu no cinema. Na verdade eu não sei o que ele viu nela, tecnicamente eles não trocaram nem cem palavras naquela noite. Aliás, eles não se viram desde aquela noite. Honestamente, o único contato que eles têm é pelo Facebook, onde ele tratou de procurar no mesmo dia em que voltou do cinema. O nome dela é Lena, de cabelos com luzes e de rosto pequeno e fino. Sim, ela é uma fadinha. – Tudo bem, acho que por hoje chega de ofensas. Ele roda a chave prateada nos dedos e se levanta. É aí que me arrependo de um dia ter confiado a


chave do meu moquifoao Derek. De repente ele acha que aqui é a casa da mãe Joana e que ele pode entrar e sair sempre que desejar. Eu fui bem clara no dia em que lhe dei a chave e quase escrevi na minha testa “APENAS EMERGÊNCIAS”. A porta da geladeira é aberta e enfim me levanto. Tiro a minha cal- cinha daquele lugar me perguntando como ela foi parar lá dentro e rezando para que o Derek não tenha visto o meu traseiro. Não que eu me importe. Somos irmãos de almas. Conhecemo-nos desde que me entendo por gente. As pessoas da minha rua até achavam que um dia a gente se casaria, mas é obvio que isso nunca irá acontecer (ainda existiam outros boatos). Que nojento! Quer dizer, não que ele seja feio, ele é até lindinho. Fofinho demais. Cabelo a escovinha, pele morena e olhos negros feitos breu e, ah, quando ele sorri, as covinhas nascem em seu rosto. Nunca nos separamos desde então. Não imagino a minha vida sem o Derek... É como se de repente eu não fosse eu se ele não existisse. – A Silvia me enviou o slide do nosso seminário e também pediu para que a gente estude todo o assunto, e não apenas leia a nossa parte, oquei? – Isso é uma indireta. – E nada de esquecer o jaleco, como sempre. Concordo com a cabeça e sopro o ar sentindo o gosto de cabo de guarda chuva em minha boca. Preciso escovar os dentes. Enquanto alegro a minha boca, penso que a Silvia é uma vaca! Eu estudo sempre para os seminários. A última vez foi um contratempo, quer dizer, foi uma tragédia. Li todos os slides e tirei nota baixa! Por que mesmo? Porque deixei de estudar para o seminário e decidi estudar as falas de Julieta. Estava tentando o papel numa peça ridícula, mas que alavancaria a minha carreira. Não que eu já tenha uma carreira. Sou uma fracassada. Bem, atualmente estou estudando Biomedicina. De início, foi só uma tentativa, uma maneira de não abandonar o Derek. Gosto dele de verdade! Ah, estou gostando muito do curso, mas nunca abandonarei a minha carreira de atriz – que ainda não começou. Até já sei o meu futuro: primeiro, uma peça vagabunda. Depois, a uma grande emissora brasileira e, enfim, Hollywood. Pode apostar! Enxáguo a boca. – Alice, sua meretriz! Essa geladeira está tão vazia! Que diabos! Você anda passando fome? É isso?! – É claro que não, seu idiota! Só não tive tempo de fazer compras. Estive ocupada, ensaiando as falas do meu novo teste. Dessa vez é sério. Pegarei esse papel! – E eu estarei lá na primeira fileira com um buquê de rosas e, depois que acabar a peça, vamos ao pub e beber muito para comemorar. Depois vamos ter uma noite louca de sexo. Não. Uma orgia louca até o amanhecer! – Derek, você é totalmente nojento! Sinto meu hálito de pasta de dente fluir. Pego uma maçã e me sento de frente ao Derek, colocando meu pé branqueloe pequeno em seu colo. Ele me faz massagens enquanto dou guinchos porque não tem nada melhor do que uma massagem. Deve até ser melhor do que sexo, fala sério! – Derek? – Ele olha pra mim e, sim, estou com aquele olhar de cachorro molhado. – Se daqui a três anos eu não me casar, você se casa comigo? Ele sabe que eu estou falando sério por que tenho passado os dias amargurada, sonhando com um príncipe encantado... Mas não existe um príncipe encantado de verdade, nem mesmo um Shrek! – Acho que sim... Se daqui pra lá você não estiver famosa e mais gostosa e... – Eu não sou gostosa?! – Eu abro a boca num escandaloso “O”. É tudo encenação. Estou apenas testando um novo drama. – Ah, isso só prova que você é, de fato, gay! – Faço um sinal esnobe com a mão e uma careta de patricinha mimada.


Derek empurra o meu pé. Sim, ele se ofendeu. – Eu não sou gay! – protesta. – É claro que sim. – Continuo encarnando a Patrícia, minha personagem mental – Você não tem uma namorada, se veste bem, não gosta de beber, ama filmes e diz que eu não sou gostosa. Fala sério! Sem falar... – Oquei, meretriz, pode sair do seu mundinho. Você não é a Angelina Jolie e eu não sou gay. Você que não quis provar da fruta aqui. – Nem faço questão... – Isso, continue BV e torça muito para que consiga esse papel, assim você vai fazer uma encenação romântica e beijar um estranho. Desejo-lhe sorte, querida. Não digo nada. A ideia me estremece. Sim, sinto vontade de beijar outro cara, mas a ideia é devastadora e começo a imaginar coisas como, por exemplo, que o meu beijo é ruim e, bem, como vou saber qual à hora de colocar a minha língua na boca de outro cara? A gente se beija e lentamente empurro a minha língua... Ou enfio a língua assim que os lábios dele toquem os meus? Sim, devo parar de pensar essas coisas porque está ficando muito nojento. – Onde está o meu vestido? Pergunto enquanto jogo o miolo da maçã no lixo. Quanto ao vestido, é o da Alice no País das Maravilhas que pedi ao Derek para ir buscar na loja. Achei que seria perfeito se eu encarnasse a personagem por completo no meu teste hoje! Oh, meu Deus! Mal dá para acreditar! Desta vez estou tão confiante de que o papel será meu! Interpretarei uma Alice do século 21, com gírias e tudo mais. Sem falar que eu já sou uma Alice, tirando as gírias! – Está perdurada atrás da porta! – Ele me olha com aqueles olhos reprovativos. – Ainda não sei porque diabos você tem de ir fantasiada. As pessoas vão falar! Ninguém faz um teste vestindo fantasias! – Cala a boca, Derek! Já conversamos sobre isso. Sem falar que eu não sei qual é a graça de querer sabotar todos os meus testes! Sinto-me bem, fantasiada... Sinto-me livre, entende? É como se existisse apenas a cena e eu! Derek concorda com a cabeça e eu me levanto dando pulinhos. Vou até a porta, pego o vestido azul e penso que, dessa vez, dei uma resposta merecida, mas ele começa a falar de novo. – Sim, claro! E quantas testes você fez? – Faço as contas mentalmente – Quinze, dezesseis... Ah, perdi as contas! E em quantas peças você ganhou um papel? Ah, sim, lembrei daquela no ensino médio em que você estava vestida de árvore e no fim dizia “viva a primavera!” Oquei. Aperto o vestido em meu corpo e faço cara de dor. Não sei exatamente se estou encarnando algum personagem, mas a vontade que tenho é de acabar com a vida do Derek! Eu o odeio, hoje e sempre. Talvez porque ele sempre fala a verdade e nem sempre gosto de ouvir a verdade. E mais uma vez sou uma fracassada. Sento-me no chão com as pernas abertas. – Então, é isso. Eu sou um fracasso total. – Meus olhos ardem. Deve ser por isso que a minha mãe me abandonou. A Belle sempre foi melhor do que eu... Ela conseguia tudo (não sei por quê). – Alice, eu não quis dizer o que disse... – O problema é esse, Derek. Você sempre diz uma coisa e eu acabo interpretando errado ou, quer dizer, interpretando o que você realmente quis dizer, mas não diz com todas as letras. Ele caminha na minha direção, se ajoelha e me abraça. É um abraço fraternal e ele nem se importa se estou cheirando a lençóis. – Você não é uma fracassada, tá legal? Eu nem sei por que digo essas coisas. A verdade é que eu


tenho medo dessas suas fantasias; tenho medo de que um dia quebre a cara. Então... É isso. Também estou confiante. Algo me diz que hoje a sua vida vai mudar para sempre. – Controverso, penso. Sorrio desanimada e lembro-me da aula de Anatomia, do meu músculo risonho se esticando por baixo da pele. – Derek? – chamo. Não quero parar de ouvir o som do seu coração batendo ritmado. Tum. Tum. Tum. – Hum? – Você vai comigo hoje? Isso me dá uma força, sabe? – Não dá. Preciso ir ao laboratório e, bem, eu já deveria estar a caminho. – E eu quero desaparecer. Ele nunca vai comigo aos testes, a não ser para aquele das Chiquititas. Isso porque eu prometi beijálo e eu o beijei, quer dizer, dei um selinho. Não podemos esquecer que não sei quando usar a língua. – Muito bem, eu sou sozinha mesmo neste mundo e só me resta ir sozinha, como sempre. Mas eu te prometo que darei o melhor de mim. – E eu dou um riso nervoso. – Sabe, seu desgraçado arrogante, espero sinceramente que você nunca consiga beijar a Lena. Ele apenas ri, pois até eu sei que estou falando disso da boca para fora. Espero realmente que ele consiga tudo com a Lena, porque não conheço nenhum outro cara melhor do que o Derek. Ele sim sabe como tratar uma mulher, embora algumas idiotas não percebam isso. Se bem que o Derek não é muito de se mostrar, sentimentalmente falando – pelo menos por enquanto. – Eu te amo, Alice. No silêncio do meu antro, eu sorrio imaginando que eu poderia me casar com o Derek, com exceção dessa coisa de sexo e blá, blá, blá. – Eu também te amo, você sabe disso. Então eu dou um selinho nele e sorrimos. Sempre trocamos selinhos, eu mesma quem teve essa ideia. Foi logo depois que a minha mãe foi embora e eu passei uma temporada na casa dele e, sim, sei que um dia isso vai terminar. Cedo ou tarde ele vai arranjar uma namorada e me abandonar. – Agora vá, seu calhota, e me deixe sozinha. Preciso de um tempo sozinha. – Quem sabe eu não apareça por lá quando terminar tudo no laboratório? Prometo que vou fazer o máximo para estar presente. – Ele se levanta e parece que se esqueceu de algo. Olha pra mim. – Vá lá e mostre para todos quem é que manda, minha adorável meretriz! Sim. Sinto-me poderosa! Vesti o meu vestido da sorte, um de marca que comprei numa liquidação, mas não deixa de ser caro e nem todo mundo precisa saber que eu comprei pela metade do preço. Enfim, estou com os monólogos na ponta da língua e com o pressentimento de que, se eu e a Anne Hathaway disputarmos esse papel, eu, literalmente, ganharia de lavada! Apanho a minha bolsa e o vestido azul e branco. Suspiro. Pego a minha pasta com os scripts (a gente nunca sabe quando será preciso revisar as falas). Suspiro de novo porque agora estou com medo. Prometi a mim mesma que, se eu não passar no teste, abandonarei tudo e, bom, se eu passar – E SEI QUE IREI PASSAR -, nunca mais colocarei um só grama de chocolate na boca! Fecho porta do meu cubículo, antro ou sei lá o quê, e saio. O meu sapato alto desliza um pouco, mas nada que eu não possa resolver. Meu cabelo castanho cor de merda voa contra o vento. Eu queria têlo pintado de loiro, mas sei que irei me arrepender, não quero parecer uma vadia – não que as loiras sejam uma vadia, eu é que iria parecer uma vadia. Aí o Derek teria um bom argumento para me chamar de meretriz. Falando em meretriz, vou explicar bem rápido de onde saiu esse apelido. Foi numa festa a fantasia do ensino médio em que eu insisti ir de dançarina de cabaré comportada. Aquestão é que eu não fiquei muito com- portada, tão pouco uma dançarina de cabaré, e sim a cara de uma meretriz. Pensando melhor, existe mesmo uma diferença entre dançarina de cabaré e meretriz?


De repente algo chama a minha atenção. Parece que tenho um vizinho de verdade! Faz algum tempo em que eu e o Derek estamos apostando que tenho um vizinho. Eu nunca o vejo, para falar a verdade. Às vezes vejo sombras quando chego tarde, refletidas na janela. Ah, nem mesmo sei se é homem, mulher ou, quem sabe, uma família. Hum... Não é uma família, senão o movimento seria grande. Mas eu não vou me apegar a esses pormenores; não me importa de verdade quem mora ali. Começo a andar me perguntando quando eu tinha parado. Uma das vantagens de morar no antro/cubículo é que ele fica perto de tudo, ou seja, não preciso gastar um dinheiro que não tenho para pegar um táxi e, na pior das hipóteses, um ônibus lotado de pessoas chatas que acham que as coisas devem ser do seu jeito – não que eu esteja generalizando mas, às vezes, é bom encontrar alguém no ônibus para bater um papo. E, ainda voltando ao antro/cubículo, vamos chamar só de antro, porque combina mais comigo. Ando devagar por que tenho medo de borrar a minha maquiagem. Não sou nem um pouco fútil, mas é preciso ter uma boa aparecia quando o lance é ser atriz. Estou muito feliz porque até o meu cabelo resolveu cooperar e, das duas, uma: ou eu estou começando a achá-lo lindo, ou acho que merda tem uma cor linda. Oquei, essa é a última vez em que faço essa analogia. É só nesse instante, quando finalmente acho que tudo está lindo, que sinto o baque. O pneu da bicicleta empurra as minhas pernas, algo atinge a minha cintura e o meu vestido escapa das minhas mãos. Apoio o meu braço com força no chão e a dor toma conta do meu corpo. Logo percebo que estou caída no asfalto negro com milhões de pessoas me observando. Estou totalmente à deriva. Não gosto que sintam pena de mim! E, por favor, eu acabei de ser atropelada por uma bicicleta, é isso?! – Deus! Desculpe, eu realmente não vi você! Eu devo ter batido a cabeça com muita força – não me lembro de ter batido a cabeça -, porque estou vendo o rosto de um cara lindo preso no corpo perfeito e escultural monumental. Quero gritar! O cara se agacha e olha pra mim, as sobrancelhas formando um arco. Ele ergue a mão e o sangue escorre do meu braço direito latejando de dor, manchando o meu vestido da sorte. Arruinando a minha vida. Não sei quando, mas tenho a impressão que quebrei muitos espelhos quando criança. – Você está bem? – Ele pergunta. Não. É obvio que não estou bem. Estou derrotada no chão, fui atropelada, meu corpo está urrando de dor e ele ainda pergunta se estou bem? Fala sério! E me esqueço totalmente da sua beleza... – É obvio que não estou bem. – Tiro o cabelo da boca. – Você não olha por onde anda?! – Grito, histérica. – Ei, foi você quem atravessou a rua e, além do mais, isso é uma via para ciclistas, e não para pedestres – ele faz um muxoxo. – Não importa, você me atropelou! – Eu não fiz isso! – É claro que fez, seu babaca! Ele encolhe os olhos em tom escuro e seu cabelo está totalmente desgrenhado. Tenho a impressão que ele vai me bater. Sorri e diz: – Tecnicamente, eu fiz isso. Eu parei pra ver se você estava precisan- do de ajuda – ele se levanta -, mas parece que está muito bem. E ele se vira, me deixando no chão. Eu quero gritar. Preciso muito gritar. E é isso que faço, não por que eu quero, mas por que sinto dores horríveis em meu braço, como se milhares de espinhos estejam me espetando. O cara se vira pra mim.


– Tudo bem, vai. – Ele estende a mão, mas sou ordinária demais para me levantar sozinha. Olho para o meu vestido de Aliceno chão, vou até ele e, quando levanto o tecido, não sei se choro, se rio ou se faço os dois, por que o meu lindo vestido está sujo de cocô de cachorro! – Não! – Sim! – Não! – Sim! – Claro que não! – grito. Sim, ele está com um sorrisinho nos lábios e se diverte com a minha desgraça. Se pelo menos ele soubesse como isso é, era, importante para mim, com certeza não estaria sorrindo. O sangue pinga do meu braço. – Parece que foi sério. Acho que vou te levar para dá uma olhada nisso. É a única coisa que posso fazer para me redimir. Tem um postinho de saúde aqui perto. Eu sei que tem um posto de saúde perto, mas isso não importa. A minha vida acabou para sempre. Estou morta, podem me enterrar viva! Adeus ao meu papel de Alice do século 21. – Você não tem ideia do quanto arruinou a minha vida! E começo a chorar porque é só isso que consigo fazer enquanto o homem me olha, as mãos na cintura e os olhos cerrados por conta do Sol. O suor escorre do seu rosto, molha a camisa colada no corpo e, quando me pego observando aquele corpo, digo a mim mesma que “ele não”. Desse eu só quero uma coisa: a sua morte. Imagino-me correndo atrás dele com uma peixeira e enfiando-a no seu coração enquanto dou macabros sorrisos e espero que ele morra. Mas não faço nada disso. – Ei, eu realmente sinto muito... Posso te pagar um novo? Ou quem sabe levar para a lavandeira, mesmo que eu não seja o culpado, enfim. – Acho que ele tem um sotaque meio estranho. Limpo a garganta. Mas as mãos dele tocam o meu braço ferido. Mãos quentes que provocam uma explosão em meu corpo. Lambo meus lábios e paro de chorar e tenho a impressão que quero me perder nesse galã de TV... – Acho que não foi fundo; você deve ter se arranhado no asfalto. Mesmo assim é melhor irmos ao postinho e depois resolvemos a nossa pendenga, combinado? Não concordo mas, mesmo assim, me deixo levar. O que está feito, está feito. Estamos esperando a enfermeira me dar alta. Estou sentada em um banco ao lado dele, lado a lado, olhando para algum ponto qualquer, pois ele está com vergonha de olhar para mim depois de tudo que eu disse. Eu estou com muita raiva para olhá-lo porque sou capaz de começar outra briga e, Jesus!, perdi as contas de quantas vezes eu o chamei de idiota! Oquei. Não me pergunte por que ele aturou tudo calado e também nem sei por que ele não foi embora, mas estranhamente ele está aqui, me aturando e, bom, talvez seja a culpa. A culpa deixa as pessoas solidárias, mas pessoas solidárias com culpa geralmente olham para o relógio e dá muxoxos a cada segundo e ele não fez nada disso a não ser cruzar os braços e me ouvir porque, de repente, parece que engoli dez mil pílulas falantes. Mas agora estou calma e conformada que a minha carreira de atriz foi para o beleléue tenho que aceitar o destino cretino. Por sorte ainda posso ser uma Biomédica renomeada, não posso, Deus?! – Então, vamos ficar nesse silêncio?


– Não ouse falar comigo, seu idiota. Sei que a idiota nessa história sou eu, mas gosto muito de chamá-lo de idiota, por que ele realmente se comporta como um e não revida. Irritame. Cinco minutos depois fico curiosa sobre o que ele vai falar. – Qual o seu nome, hein? – Ele pergunta como se estivesse ouvindo os meus pensamentos e, de súbito, olho para ele e deixo meu hálito quente escapar. Olho-o porque ele olha para mim. Respondo ou não respondo? Decido responder, já que não tenho muito a perder. Eu também quero saber o seu nome ao invés de ficar me referindo a ele de “ele” a toda hora. – Alice. – Digo e lembro da Alice do século 21. – Hum. Isso é sério ou você está me trolando? Vi a fantasia, é obvio que você está me trolando. – Seu português parece forçado. Faço cara de entediada e ao mesmo tempo a careta do Dexter, o assassino em série, aquele mesmo que o Derek ama. – Tudo bem, já entendi, Alice. – Ele passa as mãos pelo cabelo desgrenhando e eu engulo seco. Me pergunto se ele sabe o quanto aquilo é sexy. – Me chamo Alec, a propósito. Repito o nome milhares de vezes em minha mente. Com certeza esse é o nome em que jamais me esquecerei, em hipótese alguma. Não me esquecerei de o gravar na minha lista negra. Esse realmente merece morrer. Mesmo. – Gosto do seu nome. Alice. Ele me lembra... ingenuidade. Aham. Reviro os olhos e faço tudo o que posso para não me perder no sorriso dele. Não me perderei. Nunca. Ele é um cretino filho da mãe! – E eu gosto do seu nome... Não me lembra a nada. – Já tive essa impressão também. Mas ta legal, não me importo se quer saber. Na verdade, se quiser me chamar de “nada”, não tem problema, por que você... Meu celular toca. Alarme. Droga! – O que você ia dizer mesmo? – Pergunto curiosa. – Nada. – Ele limpa a garganta e só Deus sabe o quanto as minhas células correm desesperadas em meu corpo. – Acha que um dia vai me perdoar? – Sério mesmo? – Alec concorda com a cabeça. – Eu nunca vou te perdoar. E me prometa uma coisa? – O que você quiser. – Ótimo. Prometa-me que depois que sairmos desse lugar nunca mais, nunca mais mesmo vamos nos encontrar? Digo isso, quando na verdade quero pedi seu número de telefone. Estou meio a meio. Dividida entre a raiva e o sorriso dele, o Alec. – Se é assim que você quer, tudo bem, Alice. – Mas ele faz cara de quem está pensando. Olha para o teto e depois para mim. – E se nos encontrarmos por acaso, o que vamos fazer? Sério, não dá para lutar contra o destino. Engraçadinho. – Nesse caso você vai embora, muda de calçada ou, quem sabe, até melhor: desaparece. – Faço a minha cara de psicopata, mas Alec não se intimida. – Ou você pode mudar de calçada. Sabe como é. “Os incomodados que se mudem”, não é isso, Alice? – Tá certo, tem toda a razão. Vou preferir acreditar que nunca mais iremos nos ver como até horas


atrás. – Sei não, mas tenho a impressão de que isso não vai dar muito certo, Alice. Fuzilo-o com os meus olhos por que Alec está, de fato, querendo me irritar. Ora, onde já se viu? Como pode alguém ser tão lindo e tão antipático? – Vai à merda, cara! – Murmuro afetadamente. – E, por favor, será que poderia parar de dizer o meu nome a cada frase que você diz? – Como quiser, Alice. E o desgraçado sorri para mim. Eu me contenho a não sorrir para ele. E, nossa, agradeço pelos anos em que passei controlando a vontade de ri porque eu tenho medo de ri em uma cena que é engraçada, mas eu não posso ri. Me entende? Acho que não... E não mais, gosto quando ele pronúncia o meu nome, sabe Deus por quê! Há uma enfermeira jovem – não aquela que me atendeu -, parada na minha frente com uma prancheta nas mãos, mas ela não olha pra mim. Ela olha para o Alec e ele olha para ela trocando olhares ora amedrontado, da parte dela, ora sarcástico da parte dele. Argh! Simplesmente eu o odeio! – Oi? – Chamo a mulher e agora quero matá-la também. – Ah sim. Você é a Alice, não é? É claro que sim. Então ela me conduz até uma mesa onde eu assino papéis e depois desapareço pela saída. Estou bastante indignada porque o Alec está atrás de mim, caminhando silenciosamente e sei que posso sentir os olhos dele mirando a minha bunda! Paro abruptamente. – Dá pra você parar? Que diabos! Alec faz cara de quem não tem culpa alguma e a louca sou eu. Então trocamos olhares e os anos parecem passar depressa porque estou perdida naqueles olhos! Definitivamente ele é o filho da mãe mais lindo que já vi em toda essa minha vida medíocre. Mas, vamos, a companhia dele não é uma das melhores. São nos melhores frascos que estão os piores perfumes, já dizia alguém que não me lembro. Ele me entrega o vestido sujo de cocô de cachorro e tenho vontade de atirar essa porcaria no lixo! – Então, Alice, tem certeza que você está bem? Posso te acompanhar até em casa, pedir um táxi, sei lá. Já estamos fora do posto de saúde e ele pega a sua bicicleta. Encolho os olhos por conta do sol e o meu cabelo voa interrompendo a minha visão por um tempo. Não quero pedir um táxi, moro bem perto daqui... – Não preciso mais da sua ajuda. Agora você pode ir e não vale esquecer a promessa que me fez, tá legal? Mas o Alec está na minha frente com a sua bicicleta, seu rosto próximo do meu e, pela primeira vez, ele não está com aquele sorriso de deboche. Eu acho que ele vai me beijar. Quer dizer, se isso fosse uma cena de filme, com certeza ele me beijaria. É o que todo mundo certamente esperaria. É o que eu esperaria. Mas a ideia me deixa completamente amedrontada porque olhar esse rosto tão de perto me dá náuseas, sei lá. Afasto-me. Nunca que eu beijaria um desconhecido que arruinou a minha vida para todo o sempre. – O que você pensa que está fazendo? – As palavras fogem da minha boca. – Eu, nada. – E o meu cabelo rebelde voa e os dedos de Alec se aproximam tão rápido que todo o meu corpo treme como se mil navalhas estivessem prontas para perfurar o meu pobre corpo. – Bem, acho que ela gostou de você. Oquei. Suspiro quando vejo uma folha seca em sua mão. Não sei se estou triste ou feliz por que ele


não me beijou, como esperei. – Já que não quer minha ajuda, vou indo, hein? Aquele “hein” no final da frase é uma tentativa frustrante de me fazer voltar atrás. Não sei por que, mas acho que ele acha que eu acho que preciso dele e não é verdade. Virei-me todos esses anos sozinha, não será agora que vai ser diferente. Não é por que estou com um pequeno curativo no braço que me tornei uma inválida. – Neste caso, tchau e muito, muito obrigada por ter arruinado a minha carreira. Nunca mais me esquecerei desse dia. – Pode apostar que sim. E eu o assisto ir, lentamente. Tento imaginar os músculos se contraído por baixo daquela pele. Cristo, eu adoraria me afogar nesse corpo! – Alec? – Chamo-o. Por um tempo não sei por que fiz isso, mas parte de mim diz que não fui uma boa garota e ele não teve mesmo culpa do que aconteceu, quer dizer, ele teve sim, cinquenta por cento. A culpa é dele e minha. Pronto, está decidido. – Obrigada. Ele fica parado por um tempo, talvez esperando que eu diga mais alguma coisa, mas não falo nada. Alec bate continência como se eu fosse um sargento carrasco e depois ele sorri, monta na sua bicicleta e curva na mesma esquina em que irei curvar. Talvez a gente pudesse caminhar juntos até lá, se eu não tivesse sido tão insolente. Agora é tarde. Começo a caminhar sentindo meu corpo todo moído. Suspiro. A minha vida voltará à rotina normal. Nunca mais em minha vida verei o Alec de novo. Nunca mais.


Capítulo Dois Perseguida Quando aquele dia que você julga ser o dia que vai mudar a sua vida para sempre é ironicamente sabotado por um malfeitor com rosto de galã, qual a probabilidade do resto do seu dia descer para a fossa de vez? Não. Realmente, não sei. Resolvo que não vou mais me apegar à manhã fatídica porque acabei de desligar o celular com uma ótima notícia: fui lembrada da festa hoje à noite. Quer dizer, é uma fogueira fora de época na casa do Adrick onde irá rolar de tudo como, por exemplo, cerveja, vinho e vodca, ou seja, muita cachaça. Não, não me entenda mal. Nem gosto de beber. Porém, gosto de assistir os bebunsse afogarem no concreto e, bem, não sou uma pessoa tão ruim assim. Mas a noite cai e eu ainda não sei o que vestir. Talvez eu deva ir de calcinha e sutiã. Quiçá assim todos os holofotes que perdi essa manhã estarão voltados em minha direção. E, qual é? Quem nunca se imaginou sendo o centro das atenções ao menos uma vez? Se bem que em minhas imaginações sempre tem um fundo musical bem, bem... Deixa pra lá. Essas coisas me lembram a minha carreira de atriz e a minha carreira de atriz me deixa depressiva por mais que eu diga, implore a mim mesma que não ficarei deprimida. Apanho meu vestido azul com uma machinha preta, jogo na pequena banheira, depois jogo na água de tintol azul em que eu havia preparado. Logo, logo meu vestido lindo estará são e salvo e ninguém irá perceber que eu o pintei de corante! Vou até a despensa e apanho o frasco de Dipirona e enquanto engulo dois comprimidos, de repente, passo minha mão pelo meu cabelo que faz com que o meu brinco de ouro – que ganhei da minha mãe – caia no ralo da pia! Oh, não. Oh, não. Oh, não! Deixo o pote de Dipirona cair das minhas mãos e cápsulas brancas pulam no banheiro. Abaixo-me nervosa e olho para debaixo da pia, para os canos e, sem nem ao menos perceber, faço cara de nojo! Levo minhas mãos até o cano e começo a desatarraxar aquela joça. Uma água suja escorre lá de dentro, molha o chão, as minhas meias e o meu joelho. Quero vomitar! Quero muito vomitar! Sei que a minha mãe não merece o meu sacrifício de procurar o brinco nos canos onde a água suja da pia escorre, mas não consigo conter essa minha parte boa de preservar a memória dessa mulher que me abandonou! Mesmo assim varro com meus olhos a água enegrecida e não encontro o maldito brinco. Que diabos! Com certeza ele deve ter ficado preso no cano. Dou dois tapas naquela coisa que deixa meus dedos sujos de poeira e nada cai. Agacho-me mais um pouco a modo de olhar dentro do cano. Está escuro demais para enxergar alguma coisa lá dentro. Afasto meu rosto e acabo sentandome no chão, na água suja e, oquei, o brinco é mais importante para mim. Dou mais dois tabefes no cano e, do nada, mais água suja, bolo de cabelo e, ah, o brinco cai diretamente no meu rosto! Dou um grunhido porque a água fria e nojenta escorre por todo o meu corpo. Quero vomitar. Sinto o vômito preso em minha garganta. Tudo morrinha! Pego o brinco e me levanto o mais depressa


possível. Porém, a minha cabeça bate com força na pia e eu grito, cambaleando e cambaleando para trás até que... Caio dentro da banheira com água azul. Por sorte estou com o braço estirado segurando o brinco impossibilitando-o de cair dentro da banheira. O melhor: faço o máximo para que o meu curativo não molhe! Bem, agora estou dentro da banheira com água limpa e quente, e o Derek está de joelhos com uma bucha esfregando as minhas costas, pois milhões de patacas azuis mancharam a minha pele pálida. – Não acredito que tudo isso aconteceu em apenas um dia! – Ele ri, zombando da minha desgraça. Tudo bem, talvez tenha sido castigo de Deus por eu ter desejado rir das desgraças alheias que nem ao menos aconteceram ainda. – Ah, Alice, você com certeza nasceu para ser estabanada! – Eu não tenho culpa se o cara me atropelou! Não pedi para ser atropelada! – Mas pediu para cair na banheira e se transformar num Avatar– mais zombaria. – Onde já se viu olhar para dentro do cano da pia? É como pedir para beber água suja! – Tá legal. Chamei você aqui para me ajudar com essa coisa na minha pele e não para zombar de mim. Continue esfregando e de boca piu. E é isso que ele faz. Esfrega as minhas costas com tanta força que chego a achar que ela pode está em carne viva. Como pode uma tragédia acontecer comigo assim? O pior: duas vezes no mesmo dia. E olha que eu nem beijei ninguém para roubarem a minha sorte como naquele filme Sorte no Amor. Não beijei, mas trombei! Oh, se eu encontrar esse Alec de novo, eu juro por Deus que arrancarei todos os seus bofes e deixarei o rosto dele tão marcado quanto essas manchas azuis em minha pele. Mudo de assunto. – Então, convidou a Lena? – Sim – ele responde sem está mais rindo. – Ela vai então? – Vai, como nos outros trezentos e vinte convites que já fiz a ela. Sério, estou começando a querer abrir mão da Lena. Nós nos vimos apenas uma vez. Não é possível que eu esteja tão assim louco por essa garota. – Você ao menos ligou para ela, Derek? – Não, deixei recado do Facebook. Mandei dois recados: um na semana passada e um ontem, lembrando-a da festa. Ela disse que iria. Ela sempre diz que vai e nunca vai. Concordo com a cabeça, afinal não sou uma profissional em matéria de relacionamento, mas acho que o Derek está fazendo tudo errado. Ele devia ligar para a Lena, ainda mais por que ela faz a linha romântica. Ele precisava ligar... – Você precisa ligar para ela, e não ficar mandando recados em redes sociais. – Eu sei, mas a questão é que eu nunca estou sozinho e não quero ligar para ela enquanto as pessoas ficam ouvindo a minha conversa e a única hora que eu tenho é lá pela madrugada e, é obvio, ela já deve estar dormindo nessas horas. Faço uma careta. – Literalmente, você é muito gay. – Eu sei.


Eu é que sei que a coisa tá seria. Geralmente, quando eu o insulto e ele concorda comigo, é porque ele está bastante chateado. Então é a hora em que tenho de bancar a profissional. – Hum, talvez você deva esquecer essa idiota. Ela não te merece, Derek. Você está tentando oferecer uma coisa em que 90% das mulheres se matam para conseguir: amor. Amor de verdade. A Lena literalmente não te merece. – Ou eu não a mereça. Confesse, ela é muito linda para mim, não é verdade? Pensando bem... não. A Lena não é tããão linda assim. Tem a sua beleza, parece uma fadinha – como eu disse -, mas não acho que seja digna de ficar escolhendo muito porque, no fim, quando aquela beleza exterior não existir mais, o que vale é a beleza interior, o amor e, se não existe beleza interior, então não existe nada, não é verdade? – Não é verdade. Você é lindo, por dentro e por fora, e não é a sua melhor amiga quem diz isso, é uma mulher que, na prática, não entende muito dessas coisas mas, na teoria, compensa. Você é tão lindo que às vezes penso que, de verdade, nenhuma garota merece todo esse amor que você está disposto a oferecer. Ele para de esfregar as minhas costas e senta-se no chão em minha direção. Não me importo se estou nua dentro de uma banheira a mercê dos olhos dele, se bem que tem espuma suficiente para tampar as minhas partes que não devem ser mostradas assim. – Está falando isso só para aumentar a minha autoestima. Não tem problema, vamos esquecer a Lena. – Isso, vamos esquecer a Lena. Temos uma festa maravilhosa para ir e estou sentindo que você vai encontrar uma garota bem legal. Você precisa sair mais, Derek. Ficar enfurnado dentro de casa esperando essa garota acessar a internet para vocês conversarem – isso quando ela quer conversar com ele – não vai adiantar nada. Ele sorri para mim e eu franzo a testa porque a Lena é uma idiota e a coisa funciona exatamente assim: quando ele some da internet, ela diz que está com saudades e, quando ele está ativo nas redes sociais e manda recados para ela, ela dificilmente responde. Das duas, uma: ou a Lena está querendo curtir com a cara dele, ou ela não sabe o que quer da vida! – Acho melhor passar álcool no seu rosto. Se a gente continuar esfregando é capaz da sua pele começar a sair na bucha. E ele tem razão. Quer dizer, o Derek tem quase sempre razão porque, quando passei álcool em minha pele, esta ardeu tanto que não parei de gritar e pular. Mas, o que uma garota não faz para ficar totalmente glamorosa? Ou, no meu caso, pelo menos apresentável? Depois de ter a minha pele pinicada e limpa – pelo menos eu acho que estou limpa, livre das manchas azuis -, visto o meu vestido curto prateado de alça, frio ao toque, e calço um salto alto preto. Meu cabelo cor de merda (sei que prometi não chamá-lo mais assim, mas algumas promessas são destinadas a serem quebradas) está lindo e seco pendurando na minha cabeça em contrastes com meu rosto fino e angelical. – A gente vai a uma festa normal, e não a uma danceteria! – O que não deixa de ser uma festa privada. Você não entende as mulheres. Aposto que estão todas mais elegantes do que eu – dou um sorriso. - Pelo menos até ficarem chapadas, não é? O som da festa está alto e as pessoas que estão aqui parecem ter regredido aos 15 anos. Tem uma fogueira acesa e um lago como plano de fundo. Não entrei na casa, mas de certo modo me parece exuberante ser tudo no quintal dela e, antes que me perguntem, também não sei quem é o dono da festa. Só sei que fui convidada. Aliás, todos foram convidados pelo Adrick, então de suma esta deve ser a casa dele. Tanto faz. Avisto Elvira atracada com um cara que nunca vi na vida e também vejo o João tentando flertar com


a Lis, que nem está dando tanta importân- cia a ele, e isso me faz ri. Ela sempre me pareceu muito seletiva. Caminho ao lado do Derek e exibo o meu sorriso de atriz porque tudo o que quero é chorar por causa da minha pele que não para de arder. Tem um grupo de amigos bebendo cerveja ali perto e logo todos aqueles pares de olhos masculinos migram para mim tornando-me a maior gostosa de todos os tempos. Também me sinto exposta, pois uma coisa é olhar para admirar e outra, completamente diferente, é olharem para mim como se eu fosse um bife sendo vendido pelo açougueiro careiro. Seguro as mãos do Derek para os idiotas pensarem quem ele é o meu namorado, o que, na maioria das vezes, funciona e, na outra grande maioria, não. Afinal, a gente nunca se beija e que tipo de casal nunca se beija em público? Enfim avisto uma multidão de garotas bem vestidas como supus e agora exponho meu sorriso de miss porque é assim que me sinto quando visto este vestido. A esta altura eu já esqueci os garotos. Adrick vem em nossa direção com uma bandeja de cerveja e refrigerante. – Que bom que vocês vieram – ele sorri para a gente -, a casa está liberada, só não usem o quarto dos meus pais, por favor. – Adrick diz com a sua voz de troça que oscila com a voz de um cafajestegigolô. Sorrio e sorrio. Nossa, tem muita gente aqui, pessoas que eu também nunca vi na vida e nem na faculdade. O som não para de retumbar alto demais e a festa não me parece que tem hora para acabar, pelo menos não até que dê o horário e os vizinhos loucos comecem a surtar e a ameaçar chamar a polícia. Apanho um copo com refrigerante, e Derek um copo de cerveja. Nós dois sorrimos como forma de agradecimento. – A festa está ótima! – Grito investindo contra a música. Isso é uma meia verdade porque acabei de chegar e não tenho uma opinião verdadeiramente formada sobre o que acabei de dizer. – Pois é, está mesmo ótima. As meninas estão por ai e, se precisar que eu apresente alguém para você, é só falar comigo, beleza? E ele dá de ombros com a bandeja enquanto mais pessoas chegam para a festa. A fogueira crepita e eu beberico meu refrigerante. Derek procura pela Lena, eu sei, assim como sei que ela não veio. Olho mais uma vez ao meu redor e encontro o Diogo, um cara legal em que as meninas insistem dizer que ele está afim de mim, apesar de eu discordar. Não quero alimentar falsas esperanças. Às vezes, a gente está sendo legal com uma pessoa e ela já pensa outra coisa. Bem, talvez esse seja o problema do Derek – é obvio que não revelo meus pensamentos. Finjo não ver o Diego e resolvo procurar pela Laura e Ana. Elas moram juntas desde que começou o semestre e, se não são as minhas melhores amigas, então eu prefiro fingir, me enganar... Não que eu me sinta enganada. Encontro-as afastadas da fogueira conversando com dois rapazes lindos e vou em suas direções, ainda acompanhada pelo Derek. Somos apresentados aos rapazes Marcelo - o de cabelo cacheado e baixo - e Duan – o loiro e alto – que me fez suspirar rapidamente. Então Ana me puxa e assim deixo Derek com seus novos amigos. Bem, ele é ótimo para fazer novas amizades e eu não deveria me preocupar. – O que achou deles? – Laura vem logo atrás. Dou uma nova olhada para trás. Eles são lindos, óbvio. O que ela queria saber? – Legais. – Só? – Ela me faz olhar ao redor com seus longos dedos preso ao meu queixo. – Tá vendo só isso? Todas essas garotas estão loucas para fi- carem com eles e você pode ficar com qualquer um. É só


escolher! Trouxeos especialmente para você. Não pode me fazer uma desfeita. E Laura ri, pois é isso que ela faz na maioria das vezes quando me sinto totalmente assustada e exposta. Marcelo olha para mim e sorri ao mesmo tempo em que Duan levanta o copo de refrigerante na minha direção – uma forma de cumprimento – e enfim olho para Derek que revira os olhos, sacando tudo. – Não acho isso uma boa ideia. Você deveria ter trazido apenas um! Mentira, estou bastante grata por ela ter trazido dois. Assim tenho uma desculpa razoável porque a ideia de beijá-los ainda me deixa sem saber o que fazer –não que eu não queira beijá-los... Preciso experimentar com uma pessoa de confiança. Este sim vai me dizer se beijo mal ou ruim. – Bem, se você não quiser nenhum, ao pior deixe escolher um para mim – disse Laura com aquele riso de deboche quando fala a verdade. – Pode ficar com os dois, se quiser. – Alice, você não vai fazer isso comigo! – Protesta Ana, arrasada, como se eu tivesse me recusando a ficar com ela e não com aqueles caras. – Eu já fiz! – Dou de ombros. Não quero brigar com elas por conta dessa coisa fútil. Atiro meu copo de refrigerante vazio na lixeira e migro em direção ao píer para ficar afastada delas porque odeio levar sermões, ainda mais por uma coisa que não quero fazer. Paro de braços cruzados e observo a água sem me importar com a algazarra ao meu redor. Lis chama o meu nome e eu me viro, ainda sentada na cadeira. Ela acena para mim e, se não estou enganada, pede para que eu vá até ela porque, parece está bêbada. Ela não para de rir e tem em suas mãos uma garrafa de champanha. Animo-me com a ideia de ouvir suas baboseiras por conta do álcool. Respiro fundo e fecho os olhos ao mesmo tempo em que dou o primeiro passo, e quando volto a enxergar meu corpo vai de encontro a outro. Sinto o líquido gelado escorrer dos meus seios até a barriga. Reprimo o grito. Olho para a mancha de vinho no meu vestido prateado. Desvio meu olhar para o desgraçado que derramou vinho em mim e... Acho que vou surtar! – Só pode estar de brincadeira! Cristo, na outra vida, com certeza, eu ajudei chicotear o seu corpo! – Esbravejo. E Alec está com os olhos cerrados, coça a nuca e percebe que acabou de entrar numa encrenca sem tamanho. – Ih, foi mal. Sério. Ainda estou olhando-o com o meu olhar assassino quando ele deixa o copo vazio escapar de sua mão, tira sua camisa e, de repente, me perco pelas curvas de seu corpo. Ah, que corpo! E, no segundo depois, Alec aperta com delicadeza a camisa contra o meu vestido molhado, limpa o meu colo e, por fim, decido retomar o controle. – Tira essa mão de mim, seu merda! – Digo, arrependendo-me por sair alto demais. Ele lambe os lábios – nervoso? – e eu me encolho por dentro quando sinto o toque das suas mãos contra as minhas. Mãos finas e quentes como se ele nunca tivesse pegado no pesado antes. Oh, Deus, se não fosse essa mania dele de querer sabotar a minha vida, com toda a certeza o Alec seria perfeito! – Qual é a sua, hein? Anda me seguindo agora? Atiro sua camisa em seu rosto e dou um passo para trás. O estrago em meu vestido é quase surreal. – Eu não sabia que você estaria aqui... Alice. Oh, meu Jesus, cale a boca! Ele lembra o meu nome! Enrubesço por que ainda não me acostumei com meu nome na boca dele, na voz aveludada-máscula dele. Alec.


– Aham. – Reviro os olhos. – Acho que isso deveria ser um caso de policia! Talvez eu tenha que ir pedir na justiça que você não se aproxime de mim ou coisa do tipo. Todas as vezes que nos encontramos sempre acontece uma tragédia. – Todas as vezes? – Ele ri. – Só nos vimos duas vezes e, tecnicamente, não foi um encontro. Ele está me irritando, sei que sim! Odeio o sorriso sarcástico lindo dele. Odeio aquele rosto, aquele corpo, aquele nome. Tudo no Alec, agora, me é repulsivo. – Você entendeu o que eu quis dizer, seu idiota! Alec muda o peso do corpo de uma perna para outra e veste a sua camisa, agora com manchas de vinho. Ele cerra os olhos de novo e finge pensar em algo para me dizer. – Já passou pela sua cabeça de vento que talvez seja você quem está me seguindo, se jogando o tempo todo em mim? – Irritado. Agora ele foi longe demais. Sinto a raiva dominar o meu corpo com uma calúnia dessas. Respiro fundo... – Talvez você esteja apaixonada por mim, oras, e resolveu me seguir! – Alec sorri de novo. Ele nunca para de sorrir? – Eu nunca me apaixonaria por um ordinário e ridículo como você, Alec! Você é um idiota repulsivo e acha que o mundo gira ao seu redor! – Então estamos quites, sereia. Oquei. Chupo as minhas bochechas. Melhor: mordo a minha língua para não me rebaixar. Alec não merece nem um fio do meu cabelo. Cruzo os braços e sinto o meu corpo pegajoso. Ele aproxima a sua cabeça perto da minha. Quando a sua respiração toca o meu rosto, estremeço. Imagino novamente que talvez ele vá me beijar. Alec se afasta e faz uma careta. Enquanto isso, Adrick se aproxima de nós carregando uma bandeja... – Por acaso você andou transando com a Mística? Tem uma mancha azul no seu rosto, bem aqui. – Ele aponta para o meu rosto. Fico possessa da vida e, aproveitando a presença de Adrick, apanho um copo de refrigerante e atiro no rosto do Alec, o qual dá um passo para trás. Exibo um sorriso convincente e ele limpa o seu rosto molhado. Do nada, ele pega um copo de refrigerante e atira em mim. Ótimo. Reprimo o grito. – Seu babaca, cretino, ordinário, vagabundo e miserável! – Disparo. – Você vai me pagar por isso! Olha o que fez! Nunca vou conseguir limpar todo esse grude em meu vestido! Você estraga tudo, cara! – Berro. Ele sorri daquele jeito malicioso. – É pouco pedaço de pano para tamanho escândalo. - Abro a boca e arregalo os olhos. – Mas, já que está tão preocupada com isso, por que não o lava? Franzo o cenho. Então todo o meu sistema nervoso entra em ação. Meus neurônios sensoriais, motores e de associação devem emitir desesperados impulsos nervosos quando sinto o toque dele em mim. Como um alerta, agarro-me ao seu braço no mesmo instante em que perco o equilibro por causa do empurrão que o Alec me deu e, num piscar de mágica, nós dois mergulhamos na escuridão gelada. Sinto bolhas escaparem da minha boca e o meu vestido pesar assim como sinto braços se movendo ao meu redor como tentáculos. É tudo tão lento e frio! Fixo meu pé e consigo emergir enquanto ele já está colocando seu cabelo para trás. – Por que você fez isso? – Porque você precisava limpar a terrível mancha em seu vestido. Não era com isso que você estava tão preocupada? Pronto, limpe o grude, sua... - E então ele exibe aquele sorriso ordinário. – Aproveita e limpa essa mancha azul que ta no seu rosto, Mística.


Dou um grunhido e avanço em sua direção a fim de afogá-lo até a morte, porém ele segura os meus pulsos, me imobilizando. E o mundo para. Sinto seu hálito de vinho em meu rosto que está tão perto do meu. Os seus olhos estão mirando-me como quem deseja invadir descobrir todos os meus segredos. Eu quero muito me perder naquela beleza, quero muito que ele me beije. Não. Fecho os olhos e escapo de suas mãos, atirando água em seu rosto. – O que pensa que está fazendo? – Achei que você quisesse que eu te beijasse. Se isso fosse realmente acontecer, essa seria a hora, não é? Claro que sim não. – Prefiro beijar um sem teto a ter seus lábios nos meus... E eu não quero que você me beije. – Olho para o meu curativo. – Veja o que você fez! Posso pegar uma infecção ou... sei lá. – Desculpe – ele não está rindo, o que é um milagre divino. – Esqueci-me completamente disso. Você tem razão. Eu sou um idiota, Alice! Lambo meus lábios. Será que peguei pesado demais? Ele está me aparentando tão sem dono! – Ei! Está tudo bem aí, Alice? – Grita uma voz e eu me viro para ver quem é. Diogo. Ele tirou o sapato e está com a boca da calça jeans levantada. Volto meu olhar para Alec e ele está de novo com seu riso diabólico. – Não! – Grito. – Este idiota me jogou aqui! Que raiva! Em seguida decido me afastar do Alec. Começo a andar e o salto fica atolado na terra. Amaldiçoo a minha vida enquanto arranco meu sapato alto e enfio os pés na terra cheia de limo. Puxo o curativo e, quando me dou por mim, Alec já está na beira do rio apertando a sua calça jeans para tirar o excesso de água, além de estar sem camisas e descalço. Diogo me ajuda. – Qual foi, cara? Por que jogou ela na água? - Replica Diogo, indo na direção do Alec, o qual não move nem um músculo da face. Desgraçado! – Não se mete, cara. Esse é um problema meu e dela, não seu! – Claro que é meu! Você chega na nossa área, joga a garota na água, se acha o tal e ainda quer estar certo? Isso não vai prestar. Alec faz cara de mal e intima Diogo apenas com o olhar. Em seguida ele dá um empurrão em Diogo, o qual se encontrava na sua frente. Diogo cambaleia para trás e, após se recuperar, avança na direção do Alec, enviando-lhe um soco. Tarde demais. Diogo leva um soco no olho e logo cai no chão, sangrando. Ops! É tudo culpa minha. Agacho-me e olho para o Diogo, sem saber o que fazer. Enquanto isso a multidão vai se aglomerando para assistir o desenrolar da confusão. Diogo geme. – Você está bem? Ai, meu Deus! Está sangrando muito! Chega mais gente para socorrê-lo e, por causa disso, decido enfrentar o Alec. Levanto-me do chão e vou ao seu encontro. Dou-lhe um tapa no rosto. O estalo do tapa foi tão alto que murmúrios começaram a ecoar no ar. – Você é completamente maluco! – Grito, minha voz fina demais. Não me arrependo de ter gritado. Os músculos da face dele se enrijecem e posso sentir que Alec está com muita raiva e, se eu fosse homem, com certeza, já estaria no chão fazendo companhia ao Diogo. – Isso foi para você aprender a não ficar me chamando de idiota o tempo todo! Eu não tenho culpa em nada do que está acontecendo, tá legal? E o soco foi por ele ter se metido. Vocês, riquinhos, têm


de aprender a terem modos. – Agora ele está sendo sarcástico. – Se tem carne nova no pedaço, é obrigação de vocês serem hospitaleiros. Eu fui convidado, porra! – Vai se ferrar! Estou com tanta raiva que dou socos em seu peito molhado e nu. Alec me domina mais uma vez e abre caminho na multidão. Puxa o meu braço, corre, leva-me como uma folha sendo arrastada pelo vento e, ao mesmo tempo em que isso é interessante, também é completamente abominável. Onde está o Derek quando eu mais preciso dele? Quando estamos longe das pessoas, da confusão, da água e de tudo, nós paramos. Ele lambe os lábios, seu rosto com gotículas d’água sendo banhado pela luz prateada da Lua. Deus, ele é tão... – Só queria te dizer, antes de ir embora, que você deveria mesmo ver essa mancha azul em seu rosto. Está horrível! Quero muito gritar, mas sei que não posso ficar mais queimada do que já estou com ele, com todos e, principalmente, comigo. – Você é um desgraçado petulante! Quero que morra, Alec! Quero que você se foda e nunca mais apareça em minha vida. Desta vez estou falando sério! Ele sorri, coça a cabeça e, enfim, me beija. Quer dizer, toca os seus lábios nos meus por dois segundos, dá de ombro e vai para a saída como se nada estivesse acontecido. Um papel cai do bolso dele. Não tenho reação para gritar e dizer o quanto o odeio. Em vez disso, sozinha naquela parte da casa, eu simplesmente sorrio. Não sei por que, mas eu sorrio. Dá para acreditar?


Capítulo Tres O primeiro beijo Depois que o Alec foi embora e me deixou sozinha, com o vestido manchado, molhado e com a maquiagem borrada, senti que nunca mais o veria. Essa não é a pior parte de tudo. A parte mais humilhante vem agora: eu desejo queria muito vê-lo de novo. Por que será que o meu ser diz que desta vez ele se foi para sempre? Oquei. Talvez eu esteja enganada, não quero mais vê-lo. Isso. Tudo o que ele me ofereceu até agora foi azar e um vale extra de humilhação pública. Meus lábios tremem. Estou com frio. Começo a caminhar como um robô enferrujado e paro abruptamente. Viro-me. Meu cabelo cor de merda pinga água sem parar. Olho para o treco que caiu do bolso do Alec e decido apanhá-lo. É um cartão (molhado). E tem seu nome. O cartão está riscado, impossibilitando que eu leia o que está embaixo do nome Alec, em letras de forma. Migro meus olhos para o número. Não apenas um, mas três números. Desgraçado! Aposto que ele deixou o cartão cair só para que eu o ligue. Mas é obvio que eu não ligarei. Não mesmo! Mas, e se eu não vê-lo nunca mais? Suspiro e aperto o cartão em meus dedos porque, como dizia a minha mãe, a desnaturada que me abandonou: é melhor prevenir do que remediar. Aperto meus braços contras os meus seios porque o vestido molhado está fazendo uma exposição da minha figura, ou melhor, dos meus seios, como se dois faróis estivessem sido acendidos. Oh, Cristo! Eu nunca fui tão humilhada em toda a minha vida! – Ei! Ei, Alice! Aqui está você! Fuzilo Derek com o olhar. – Ora, seu cretino! Você sempre aparece depois do show? Onde você estava, hein? Era pra ter me defendido daquele brutamonte! Pensando bem, foi melhor ele nem ter aparecido, pois iria acabar com o nariz quebrado. É claro que Alec destruiria o frangote do meu melhor amigo num piscar de olhos. Argh! – Bem, eu estava conversando com um amigo dentro da casa, não aqui fora. Por isso não vi o que aconteceu. Mas ouvi uns comentários... Escancaro a boca. – Não acredito que você resolveu sair do armário! Derek revira os olhos. – Pois é. Já estava cansando, e então ele decidiu me dizer quanto mede o seu pênis. Oh, nossa! Eu quase me melei todinho – ele diz de um jeito afetado. – É claro que não – volta a voz ao normal -, ele é amigo da Lena e, quer saber? Ele disse que ela ainda vem para a festa. Começo a caminhar porque não paro de pingar água, sem falar que agora cheiro a ferrugem! – Sorte sua, pois, para mim, a festa acabou.


– Você já vai? Mas... – Sem mais, Derek. Não posso ficar aqui. Olha o meu estado, car- amba! E foi uma péssima ideia ter vindo a esta festa. Tem noção de quanto custou esse vestido? Não, ele não tem nenhuma noção e, só para salientar: ele não é gay de verdade. Acontece que eu gosto de tirar sarro do Derek e ele sempre sabe levar a brincadeira na esportiva e, falando em estragos de vestido, acho que o Alec de repente pode ser um desses maníacos por vestido porque, em um dia, ele conseguiu destruir dois dos meus. Sim, o Alec é um destruidor de vestidos e ele deve fazer isso com outras garotas. Ah, não posso ser a única perseguida! Voltando ao Derek... Não me importo de ir embora sozinha. – Tudo bem, pode ficar. Sei o quanto quer encontrar a Lena. – Não, eu vou com você e ela pode resolver não vir. E eu vou te confessar uma coisa: apesar de eu estar completamente louco pela Lena, mesmo que eu venha um dia me casar com ela ou qualquer outra mulher, acredite, Alice, você sempre estará em primeiro lugar. Eu não estou grávida e mesmo assim resolvo corar. Os meus olhos ardem porque, de um jeito ou de outro, acabei de receber uma declaração de amor e, por favor, não pensem coisas. É nojento a ideia de me apaixonar pelo meu melhor amigo e, além do mais, a gente recebe declarações dos nossos pais – quando temos -, irmãos e afins, e não única e exclusivamente de um namorado. Entendeu? Entendi. – Aham, você sempre estará em primeiro lugar para mim. Na verdade, você está até mesmo antes de Deus! – Ah, Alice, não diga blasfêmia. – Verdade. Perdão, Deus – rio -, e eu não estou sendo irônica apesar de estar rindo. O som ainda está alto e eu fico bastante grata de estar indo embora. Passamos pelo jardim, atravessamos o portão aberto e não penso em nenhum momento em me despedir das minhas amigas. Quem precisa de amigas quando se tem um que vale por um milhão? – Ouvi dizer em algum lugar que água de rio deixa o cabelo uma palha! – Sei não. Alguma coisa me diz que você acabou de inventar isso, sua meretriz! – Que seja. A verdade é que vou precisar ir ao salão de beleza, mas estou tão dura que, se me virar de cabeça para baixo, nem meus seios despencam! Ele faz uma careta. – Aham. Foi você quem disse isso mesmo? – Ele ri. – Nossa, a minha menininha está com o vocabulário ampliado. Andou assistindo a filmes eróticos? – Vai pro inferno, Derek. – Digo, com a minha voz natural. – Tudo bem. Mesmo você não merecendo, vou te pagar o salão. Não quero que seu cabelo fique uma palha porque, se ele se transformar numa palha, é bem provável que você nunca mais consiga um namorado. Dou um empurrão nele e ele me abraça. Assim, caminhamos juntos até o seu carro e Derek parece não se importar em se molhar. Roupas secas sempre chupam água das roupas molhadas. Ele liga o aquecedor do carro, mas eu ainda estou tremendo muito. Derek tira sua camisa e pede para eu vesti-la. É isso que faço, pois estou com muito, muito frio, e ele não. Ele quase nunca sente frio, mesmo quando está chovendo forte e quando granizo. – Obrigada. – Disponha. E sei que você gosta de me ver sem camisa. – Ele ri e dá a partida. Depois que Derek me deixou no meu antro, eu tomei um banho para tirar aquele cheiro de ferrugem da pele e coloquei o cartão do Alec e o dinheiro que o meu melhor amigo me deu dentro da minha


bolsa. Não sei exatamente por que estou guardando este cartão de visita, nem por que não o jogo fora e evito maiores problemas. Ops. Talvez seja isso: eu quero maiores problemas. Quando eu era criança e a minha mãe me levava para a igreja, ela sempre me dizia para ficar longe dos problemas, que Deus tem um propósi- to para minha vida, que Ele é a salvação e que eu não deveria adorar outra coisa a não ser Ele. Ela não me deixava ver desenhos animados, tampouco filmes. Minha mãe sempre disse para não falar palavrão porque ela que- braria a minha boca. Ela sempre disse que eu nunca deveria beijar qualquer um e é bem provável que o meu medo venha daí, e não da língua. Ela também enfatizou o sexo e disse que, se eu perdesse a minha virgindade antes de me casar, eu seria banida do céu e arderia no inferno. Ela só esqueceu-se de dizer que abandonar os filhos também é pecado. Pelo menos, eu acho. Então pouco me importam as coisas que ela pregou para mim, visto que ela fez exatamente tudo errado. A verdade é que estou cansada de ser a garota comportada. Estou cansada dessa vida e eu quero, eu desejo muito fazer tudo o que foi privado por mim mesma. Eu quero deixar esse medo pra lá, quero beijar um cara de língua sem me importar e, quem sabe, quebrar o cinturão de castidade. Tudo bem, a minha vaginavirgindade fica fora da discussão por enquanto. Sim, estou com muita raiva agora. Pelo Alec, por mim e, principalmente, por causa da minha mãe. – Que se fodam, tudo e todos! – Grito e gosto de sentir o palavrão em minha boca. Não é a primeira vez que digo isso, mas é a primeira vez em que parece fazer sentido. Não sei por quê. Estou com tanta raiva porque o Derek não atende ao meu telefonema e agora sou obrigada a ir para casa a pé, com o sol fustigando, derretendo o meu cabelo que no salão estava tão lindo quanto o de uma princesa. Tento ligar para ele mais uma vez e nada. Aperto o celular contra os dedos, fula da vida. Mas, tudo bem. Pelo menos ele pagou por essa beldade, então devo banir a raiva por ele. Mesmo assim não consigo e a minha vontade agora é de matar uma pessoa ou fazer o Sol desaparecer. O suor está pulando pelos meus poros. Enfio a droga do celular na minha bolsa pequena e suspiro. As coi - sas não podem piorar tanto assim. Não podem... – Passa a bolsa agora, moça! Eu me viro e dou de cara com um garoto. Não, ele deve ter uns dezoito anos, a barba não nega. Mas o corpo nega. Ah, que se dane. Vejo também que ele está sem arma e eu sem dinheiro, mas é obvio que prefiro morrer a dar o meu celular. Praticamente a minha vida toda está dentro dessa pequena maravilha! – O quê?! – Grito. – Eu disse para me dar a bolsa, patricinha! Ele puxa a alça da minha bolsa e eu a puxo de volta. Ele puxa e eu puxo. Fazemos isso mais umas cinco vezes porque, agora, não estou de brincadeira. SÉRIO. Encolho os olhos e dou um soco no ladrãozinho, o qual cambaleia para trás com a minha bolsa. Ele corre. Desgraçado. Corro atrás dele, evitando os olhares alheios. Ninguém sabe o sacrifício que tive que fazer para comprar este celular. Peneirar fezes em laboratório não é uma tarefa que todos apreciam e esse sacrifício não será levado por esse meliante filho da mãe! (Na época eu ainda não trabalhava na recepção). Passo pelos carros em movimento e eles não param. Será que não percebem que acabei de ser assaltada? Oquei. Uma moto freia e, pelo susto, ofereço meu dedo do meio para o motorista da


motocicleta. Continuo a correr e ouço os insultos ficarem cada vez mais longe. – Peguem esse desgraçado! Ele está com a minha bolsa! – Grito e sinto dores de facão. Não paro de correr. Sorte que estou de sapatilha. Uma moto surge na frente do ladrãozinho e ele cambaleia para trás, parando por uns três segundos antes de decidir para que lado correr. Tarde demais para ele. Eu pulo em cima dele e nós dois nos atracamos, rolando no chão. Ele tenta tirar o meu corpo de cima do dele, mas começo a lhe dar socos porque estou com muita raiva. Não, estou puta da vida! – Seu desgraçado, filho de uma mãe! – Minhas unhas arranham a pele dele e deixa marcas que não demoram a sangrar. E ele me dá um tapa no rosto e me joga para o outro lado. Eu puxo a alça da minha bolsa. Estou ofegante. Recebo um chute. – Sua maluca! Finalmente um policial aparece e o segura antes dele escapar. Levanto-me do chão. Acho que mostrei a calcinha, não importa. Meu rosto arde e aposto que o dele arde cem vezes mais, mas pelo menos ele não foi chutado. – Você vem para a delegacia, garoto. – Diz o policial que desvia o olhar para mim. – E você também, mocinha! Faço cara de vitima, já que sou uma boa atriz. Sei que sou. – Mas eu não fiz nada! Ele quem me roubou... Eu só quis recuperar o que é meu de fato! – Mesmo assim, precisa registrar queixa. Aham. E lá vou eu dentro de uma viatura! As coisas estão mesmo tomando uma proporção terrível... Com certeza estou precisando ser exorcizada. Quando, em minha vida, imaginei que entraria numa viatura? Nunca. Já faz uma hora que estou nessa maldita delegacia. Para piorar a minha situação, descobrimos que o ladrãozinho é menor de idade e eu não tinha o direito de usar a violência. Mas ninguém estava levando a consideração de que ele também não tinha o direito de roubar a minha bolsa. Agora o meliante quer registrar uma queixa contra agressão. Ora, veja só! Liguei para o Derek, mas ele não atende. Agora, nem toda a fortuna do mundo vai fazer com que eu o perdoe. Também liguei para Ana e Laura, porém elas não estão na cidade. Ah, a Lis e a Elvira estão trabalhando. O Adrick não atende, está de ressaca! Para terminar o dia, o Diogo, quando liguei, disse que não quer me ver pintada nem de Mulher-Maravilha e nem de ouro! Devo consumar que ficarei aqui presa. Tudo culpa de um ladrãoz- inho! Roo as unhas. Auma hora dessas, tudo o que fiz no salão foi de água abaixo porque soo que nem um cuscuz. Ligo mais uma vez para o Derek porque o pai do ladrãozinho está vindo para a delegacia e não sei se tenho forças para isso, tampouco para a argumentação, sendo que eu ter batido nele porque ele queria me roubar não estava contando muito. Abro a minha bolsa e advinha o que eu encontro? O cartão do Alec. Sequinho da silva. Será que se eu ligasse para o Alec, ele conseguiria me tirar da confusão? Tá, levando em consideração que ele me traz azar, e não sorte. Ele acharia isso ridículo? Nem nos conhecemos direito. Se eu não tivesse outra pessoa a recorrer, que mal tem nisso? Sem falar que quem tem boca vai a Roma e, se o Alec não aceitar a me ajudar, o que eu posso fazer? Nada. Disquei um dos números que estavam no cartão (foi difícil identificar as letras ali, nem sei do que se


trata esse cartão, afinal) e, após o segundo toque, ele atende. – Alô? – Ouço aquela voz e não respondo. Lambo os lábios porque agora estou nervosa de verdade. Aperto o celular. Ainda dá tempo de desligar? – Alô? – Mas se eu não falar nada vou ter de ficar sozinha nessa delegacia. – Ah, oi. Aqui é a Alice. – Digo porque não consigo pensar em uma coisa melhor para dizer. Silêncio. Ele está processando. – Alice? Argh! Ele não se lembra de mim. Canalha! Quantas Alices ele deve conhecer? Um milhão. Um cara como o Alec não passa despercebido. Nunca. – Nos conhecemos ontem. Você me atropelou e me levou ao postinho. Depois nos encontramos à noite e você me jogou no lago... Paro de falar. Eu ia dizer que ele tinha me beijado, mas ele não me beijou de verdade. Foi apenas um selinho. Dois lábios encostados um no outro por dois segundos. Até os selinhos que dou no Derek demora muito mais tempo. – Eu sei quem é, Alice. Aliás, me lembro muito bem de você! – O que é isso? Ele está rindo enquanto fala? – Como... Como conseguiu meu telefone? Hum, então quer dizer que ele não deixou o cartão cair do seu bolso de propósito? Alec começa a me subestimar, mas não tenho tempo para pensar nessas coisas. – Você deixou um cartão de visita cair e eu peguei. – Hum... Então isso quer dizer... – Não tenho tempo para piadas agora, Alec. Estou em uma delegacia e juro que, se tivesse outra pessoa a recorrer, não ligaria para você. – Ah, falando assim parece que sou a pior pessoa do mundo. Tchau, Alice. Não estou nem um pouco a fim de levar sermão uma hora dessas! Fala sério. Já se passam das dez e meia da manhã! Será que eu o acordei? Que vadio! Que tipo de pessoa adulta dorme até essa hora? – Tá, espera! Preciso que venha até a delegacia. – Por que eu faria isso? – Porque somos amigos? Ele não respondeu se viria, mas eu pude ouvir seu risinho irônico do outro lado da linha. Sei que foi errado da minha parte dizer que somos amigos, esse tipo de coisa acaba criando falsas expectativas e, falando em expectativas, ô, palavra miserável para acabar com uma pessoa! Respiro fundo porque tudo o que eu posso fazer era esperar e esperar. E, bom, é nessa parte do esperar que o pai do ladrãozinho e ele aparecem, em cinco minutos. Eu disse: ELE; Alec. Meu coração dispara. A culpa não é minha. A única reação que eu tive foi a de me levantar da cadeira, já que estava cansada de ficar sentada. E a dor em minha barriga provocada pelo chute me deixa nauseada. Seu olhar se encontra com o meu e trezentos anos se passaram. Vi ele caminhar em minha direção rápido demais, mas na minha mente Alec caminhava lentamente. Não. Flutuava enquanto eu o admirava. Meu herói, quer dizer, ele está mais para anti-herói. Meus neurônios não estão fazendo sinapses! – Você está bem? Sim, agora estou ótima e, quando eu sair dessa delegacia, ficarei radiante. Mesmo assim, não quero demonstrar o meu alivio ao vê-lo ali. – Não. O que você acha? Ele me olha como se estivesse dizendo “será que você pode parar de bancar a chata, por favor?” Limpo a garganta e cruzo os baços, exalando o ar.


– Então você é o responsável pelo menor... – diz o delegado para o homem alto e de terno. Parece rico. Expliquei tudo o que aconteceu: aquele frangote tentou me roubar; eu corri atrás dele; o soquei e o arranhei; ele me deu um tapa no rosto, sem falar no chute que não para de latejar. Talvez eu tenha quebrado uma costela. O pai do garoto me pediu desculpas e disse que não haveria queixa alguma. Achei que estávamos quites. Também não quis prestar ocorrência. (Meu curativo foi para... melhor eu nem falar!) Quando saio da delegacia, Alec coloca suas mãos em meu pescoço, provocando uma erupção dentro do meu corpo e fazendo minhas mãos suarem. Não sei o que isso significa. – Obrigada por ter vindo. Estava apavorada. Paramos. Ele concorda com a cabeça e enfia as mãos dentro da calças jeans. Isso é tão sexy... Acho que estou ficando louca ou enxergando coisas demais. Estou me transformando numa tarada? O Sol fustiga os seus olhos e ele franze o cenho, revelando seus dentes brancos demais para um garoto. Acho que estou exagerando. – Aham, e pelo visto você resolveu tudo sozinha, né? Precisava mesmo que eu viesse até aqui? Sua camisa sem manga revela os músculos e o peitoral sarado. Por que diabos ele tem de ser tão terrivelmente lindo e, perdoe-me: gostoso. Essa é a palavra. – O que você está tentando insinuar? – Pergunto pois, apesar de conhecê-lo há pouco tempo, sei reconhecer quando ele quer caçoar. – Nada. – Ele faz um bico - Quer dizer, talvez esse lance da delegacia tenha sido uma deixa para que ligasse para mim, uma coisa que talvez você até já tenha pensado em fazer, mas não teve coragem. Uma mecha do seu cabelo voa e sinto uma vontade louca de colocálo no lugar e, é claro, me controlo para não fazer isso. Esse cara é convincente demais para o meu gosto. – Você é uma graça mesmo, Alec. E, não, não pensei em ligar para você. E, oquei, não vamos brigar. – Que legal. Parece que aquele beijo que te dei fez com que você se transformasse numa nova mulher. – Aquilo não foi um beijo, se quer saber. – Posso te dá um melhor, se quer saber. – As três últimas palavras foi uma tentativa de me imitar. Suas mãos apertam as minhas costelas e ele me puxa para mais perto de si, fazendo com que meu corpo fique colado com o dele. Sua respiração bate contra o meu rosto. Ah, eu juro que quero esse beijo, mas então eu sinto uma dor em meu abdômen. – Ai! – Digo. – Que foi? Retraio-me para trás e as mãos em minhas costas se afrouxam. Refazendo um percurso da minha vida, creio que nunca fiquei tão próxima de um homem assim, com exceção do Derek. Ele não conta. Afasto-me totalmente da pegada do Alec, que por sinal é muita boa. Se bem que não tenho um histórico de pegadas para fazer uma comparação. Sei que tenho dezenove anos e vocês devem está se perguntando como é possível uma coisa dessas, digo, ninguém me pegar ou simplesmente me beijar. A verdade é que, quando sinto que a coisa toda está ganhando proporções maiores, eu simplesmente fujo como um bicho acuado. Quiçá eu seja uma aberração da natureza ou, quem sabe, eu seja assexuada. Não, não sou isso que acabei de dizer porque me sinto terrivelmente atraída pelo Alec e isso se dá pelo fato de que eu quero que ele me beije. É claro que ele não faz isso. Eu sabotei essa pequena ação com o meu gritinho. – Nada. Só estou com um pouco de dor aqui – aponto para o local, no reto do abdômen. Fiz uma careta e juro que não banco a atriz dessa vez. Como se as coisas passassem rápidas demais, Alec


levanta a minha blusa sem se importar com as consequências desse ato. Penso em abaixar rapidamente a blusa, dá um tapa em sua mão, não sei. Ele olha para a minha linda barriga e é quase como se eu estivesse nua – exagerei. – É, a coisa tá mesmo feia. – Abaixo meus olhos e vejo uma mancha arroxeada. – Está doendo muito? – Não. – Minto, está doendo. – Na verdade, está doendo um pouco, mas nada que um analgésico não resolva. – Hum... Acho melhor irmos ao hospital. Talvez tenha fraturado uma costela. – Ele tira o ar de sério e sorrir. – Seria uma ótima maneira de ganhar uma indenização, se quer saber. – E seria mesmo uma ótima porque ando dura pra chuchu. – Faço biquinho – Pensando bem, deixa pra lá. Chega de confusões! Não quero que esse ladrãozinho de meia tigela fique nas esquinas, à espreita, me es- perando para um novo acerto de contas, você sabe. Ele sorri e eu acho isso lindo. Anotem ai: estou completamente apaixonada pelo sorriso desse cara, sério. – Que foi? – Você é engraçada, só isso. Não, eu não sou engraçada. Reviro os olhos porque eu não disse nada de engraçado. Disse? Se bem que essa coisa de achar graça varia de pessoa para pessoa. Eu posso achar graça no sorriso dele e ele pode não achar graça alguma. É isso. E, ah! Acho que já adiei demais a partida. Para ser sincera comigo mesma, queria conversar mais com esse estranho, porém não é nem um pouco nocivo se apegar a caras como o Alec – é a minha intuição quem diz isso e, não, eu não tirei de nenhum livro bobo. Afinal, eu não leio boba- gens, apesar de falar e pensar bobagens. Enfim, vocês me entendem, claro que sim. Não sou a única anormal por aqui. – Bem, então tchau, Alec. – Digo, mas não saio do lugar. Espero que ele dê de ombros, mas ele parece estar fincado no chão. Segundos depois estamos nos encarando. – Hum... Você quer uma carona? – Alec coça a parte de trás da cabeça e, uau, adoro isso! Os músculos de seu braço se destacam! – Hum... Você sempre usa “hum” antes de falar? – Não, só quando não sei bem o que dizer. – Hum... – Respondo. Se pararmos para analisar, isso pode ser bom ou ruim. Vejamos: pode ser ruim porque ele deve me achar uma idiota e não sabe o que conversar com pessoas idiotas e, aposto, ele está só sendo simpático, fazendo sala, essas coisas. E ele pode não saber o que dizer porque eu posso causar um efeito nele, tipo, quando as pessoas se apaixonam e ficam sem saber o que dizer por estar com vergonha. Porém, na sua mente sempre está se passando um milhão de coisas que ele quer dizer e não consegue. Ah, essas coisas eu sei porque li num livro, meu caro coleguinha. Também não sou uma porta quando o assunto é relacionamento, modéstia à parte. Sei dar os meus pitacos. – Então...? – Então o quê? – Acho que sou uma idiota literalmente. – Vai querer uma carona ou não? Sim, sim, sim, mil vezes sim! Meu espírito está pulando que nem pipoca dentro do meu corpo. Sorrio por dentro, mas por fora faço uma cara bem convincente como se a minha expressão dissesse “tanto faz”. – Se não for incômodo, aceito.


Alec sorri e morde o lábio inferior, outra coisa sexy. Só para lembrar, preciso de uma agenda para anotar cada coisa sexy que encontro nele. Desgraçado! Ele estica sua mão na minha direção. Longos dedos e unhas bem cortadas. Franzo o cenho. – Vamos começar do zero, oquei? – Sua mão ainda está em minha direção. – Meu nome é Alec. Alec Salles. Aceito a sua mão que aperta a minha. – Alice. Alice Barrelin. Sabe aquela sensação de conforto? Aquela que acalma o coração e diz que tudo vai ficar bem apesar de tudo o que passamos? Pois bem, é essa que sinto agora. Não conheço o Alec pra valer, mas estou aberta a negociações. Do jeito mais tortuoso, apesar dele ter estragado meu teste e meus vestidos, eu gosto dele. Gosto da maneira como me trata. Gosto até mesmo quando ele me provoca porque há algo de ingênuo nisso. Com ele não me sinto desprotegida, tampouco frágil demais. É tudo tão perfeito que pode parecer surreal. Oquei. Sei que é cedo para dizer isso (nem anotem), mas vou dizer: acho que o Alec é o tipo de cara por quem eu me apaixonaria. Pelo menos esse que está na minha frente, esse irritante e sexy (se ele for um mercenário podemos conversar depois). O que estou tentando dizer é que, até agora, pelo pouco que o conheci, sim, eu me apaixonaria por ele – mas não estou, vamos deixar bem claro. Além do mais, não quero que ninguém me diga “conheceu o cara ontem e já tá apaixonada. Que tola!” Talvez isso seja o destino. Não acredito muito em destino, porém a gente sempre procura por explicações. É mais fácil colocar a culpa em coisas que não existem do que ficar procurando chifre na cabeça de cavalo. Quando ele para o carro em frete ao meu antro eu quase não acredito que passou rápido demais essa nossa pequena viagem. Alec se inclina no banco a modo de ficar me olhando e entorta a cabeça, passando a língua nos dentes. Afundo minhas unhas na palma da mão. – Chegamos – ele diz. É, notei isso também. Sessenta segundos se passam e nós estamos nos olhando. Que diabos ele procura em meu rosto? Solto o ar pela boca e disparo: – Você quer entrar? Se a minha vida fosse uma série de TV, aposto que todos estariam vibrando, dizendo que fiz a coisa certa, quem sabe até sorrindo. Sei que isso acontece porque eu também sorrio quando a mocinha para de bancar a difícil e se rende. Mas a minha vida não é uma série de TV e eu me arrependo de ter dito aquilo. Onde já se viu colocar um homem dentro de casa assim, do nada? Dá um tempo! Nós nem nos conhecemos direito. Se eu tivesse uma mãe, ela, sem dúvidas, me mataria. – Se não se importar, eu topo, sim. Ótimo. Abro a porta do seu Pajero e escorro pelo banco, fixando meus pés no chão. Quando olho para o lado ele já está caminhando e jogando a chave de um lado para o outro. Por que o Alec que tem que parecer tão despreocupado com tudo? Isso não é nem um pouco justo. – Vou logo avisando que está uma bagunça e que o lugar não é muito grande. Eu o chamo amavelmente de antro ou cubículo. Chamaremos apenas de antro, oquei? Ele concorda com a cabeça enquanto enfio a chave na fechadura e faço uma careta de dor por causa do meu abdômen. Será que algumas das minhas costelas sofreram lesão por conta do chute? Entramos. Eu primeiro, óbvio. Até que o antro não está tão bagunçado. Ponto pra mim! Pelo menos posso passar uma boa impressão.


– Pode sentar. – Aponto para meu único sofá de três lugares. – Quer beber alguma coisa? Refrigerante, água... – Cerveja? – Uma pergunta ou opção? Vai saber. – Não, desculpa... Eu não bebo. – Tudo bem, então. Deixa pra lá. – Ele sorri para mim e eu tenho vontade de me atirar em seus braços. Alec bate na ponta vazia do sofá para que eu me sente ao seu lado e eu vou. Sento-me o mais distante possível. Dou outro gritinho por conta da dor. Droga. Ele escorre pelo sofá e praticamente se cola em mim. Alice, Alice... Péssima ideia convidá-lo para entrar. Agora vai ter que aguentar. – Posso ver de novo? – Ele aponta para a minha barriga e eu concordo lentamente com a cabeça, repetindo mil vezes que não tem mal algum nisso. Ele levanta a minha blusa e dessa vez toca a minha barriga com a ponta dos dedos no arroxeado em minha pele. Encolho a barriga. Não sei se foi pela dor ou pelo toque que pareceu desencadear mil e uma reações dentro de mim. Sem nem ao menos dizer nada, ele vai até a geladeira, pega uma cuba de gelo, um pano em cima da mesa e volta até mim e, não sei por que, ainda fico tão abismada por ele ser “entrão”. Então Alec retira alguns gelos da cuba, põe no pano, faz uma pequena trouxa e encosta aquela coisa estupidamente gelada contra o arroxeado em minha pele. Enquanto ele banca o enfermeiro, nós nos olhamos e, pela primeira vez, percebo que seus olhos são de um castanho bem escuro. Estou muito nervosa com a possibilidade do que pode acontecer. Não que ele vai me beijar, e sim eu me atirar em sua boca vermelha. Afasto o pensamento da minha mente. Preciso me impor respeito. – Vai ficar bem melhor amanhã, quer dizer, se você por mais gelo, mais tarde. Sempre funciona comigo quando jogo futebol. Vou me confessar: sou um perna de pau, mas imagino que um dia irei me superar. Por isso estou sempre tentando. O gelo some rapidamente do pano e a água gelada escorre da minha barriga e pinga no sofá. Sorte minha por ela não migrar para outro lugar. – Pois é. Cada um sempre tentando se superar – murmuro pensando nas minhas tentativas frustradas de me tornar a nova Agelina Jolie. – Hum... – Ops! Ele não sabe o que dizer. – Fico me perguntando por que nunca te vi antes, sabe? – Sei – digo porque não raciocino outra coisa melhor para dizer. Ele tira toda a minha concentração. Não entendo nada. Quando o gelo acaba, ele tira mais um da cuba e põe na boca, molhando os lábios vermelhos e... Não, ele não fez isso! Alec tira o gelo da boca e coloca em meu abdômen. Ele está tentando me enfeitiçar, só pode! – Alec. – Sussurro ou repreensão? Nem mesmo sei. E essa é a parte em que só contava em minhas fantasias. Primeiro, seu rosto está bem próximo ao meu e eu sinto os nossos hálitos se misturarem como ingredientes das porções do Harry Potter e companhia. Depois, seus lábios tocam o meu e em seguida vem a explosão. Duas bocas se espremendo uma na outra e eu não sei quando a minha língua se engalfinhou com a dele. Só sei que aconteceu e pronto. Estamos nos beijando! Ouço respirações excessivas no silêncio do meu antro. Talvez seja a minha, a dele ou a respiração de ambos se misturando. Bebo daquele beijo como um alguém que passou dezenove anos no deserto sem beber um só gole de água. Inebrio-me completamente com o beijo, o qual faz a adrenalina correr o meu corpo desesperadamente e faz o meu coração bater depressa demais. Na verdade, eu quase poderia ouvir o meu coração se chocar


contra a minha caixa toráxica, se não fosse o som da(s) respiração(ões). Finalmente o empurro. Desgrudo aquela boca vermelha da minha porque estamos indo por um caminho muito rápido – pegamos um atalho, na verdade. E por isso minha mão choca-se contra o rosto dele. – Ai! Por que me bateu? Não sei, foi quase que automaticamente. – Porque você me beijou, oras! – Achei que quisesse que eu a beijasse! Por que ele acharia isso? Será que estava tão assim na cara que eu queria muito que ele me beijasse? Mas eu estava com medo porque nunca tinha feito antes. Ah, pelo menos parece que fiz tudo certo porque ele não reclamou – ou, quem sabe, esteja sendo educado. Quero muito saber se passei no teste, se beijo bem, ou se tudo em minha cabeça era só medo. Mas o que digo não é exatamente o que quero dizer. – Desculpe, sério. Argh! Sei lá, nos conhecemos ontem. Não acha que estamos indo rápido demais? – Se você está dizendo... Ele está com as mãos onde eu lhe dei o tapa. Tadinho, dessa vez ele realmente não mereceu. – Mas, tudo bem. Eu não tinha o direito de beijá-la... Só não deu para segurar, entende? Entendo. Quer dizer, não entendo. – Melhor você ir embora, Alec. – Está brava comigo? – Não. – Então posso aparecer aqui mais vezes? – Sim. Alec se levanta e eu o acompanho até a porta. Parte de mim quer que ele vá embora e a outra implora para que ele fique, quebre a regras e me beije de novo. Ele para na porta, olha pra mim e, por um momento, não sabemos se nos beijamos na bochecha, nos abraçamos ou o quê. O resultado é um beijo bem próximo aos lábios. – Então, até breve. – Até – sorrio. E o assisto ir até o seu carro, atirando a chave para o ar. Fecho a porta e grito. Tampo a boca rapidamente porque ele ainda pode estar lá fora. Escorro minhas costas na porta e me sento no chão sorrindo: isso é muito melhor do que ganhar na loteria! Ou quase isso.


Capítulo Quatro Aquele tal encontro Poucos minutos depois que Alec foi embora ouço duas batidas na porta. Ainda estou sentada no chão e sorrio que nem uma idiota. Levantome depressa e giro a maçaneta. É ele de novo. – Pensei que já estivesse ido. – Digo e tiro o sorriso do rosto. Ele não precisa saber que estou encantada por sua pessoa. Espero que o Alec diga alguma coisa convincente. – Na verdade, esqueci de perguntar uma coisa. Ótimo. Solto as mãos e esfrego uma na outra. Vamos lá, Alec, pergunte. Sou toda sua, sou toda ouvidos. Pode perguntar. Vá em frente, lindão! – Você tem programa para hoje à noite? Se eu não fosse uma boa atriz, com toda a certeza do mundo meu queixo iria cair e a minha boca se escancarar. Se conheço bem esse tipo de pergunta, é quase certo que ele vai me convidar. Nossa, necessito muito ir com calma! Não posso me entregar de vez ou essa coisa não vai funcionar. Lembre-se, garota: vocês só se conhecem há um dia e meio. Não crie expectativas – de novo essa maldita palavra. – Não. – Balanço a cabeça num sinal de negação. – Por quê? – Hum... Nada, só estava pensando em tirar a noite de folga e, bom, se você topasse, queria te convidar para jantar. Oh, meu Deus! Ninguém nunca me chamou para jantar – a não ser pizza. Ele está mesmo dizendo jantar? Com direito a restaurante e tudo? Não quero parecer desesperada e por isso digo algo piegas. – Tenho que checar a minha agenda. – Ele faz uma cara de decepção quando as coisas são para levar na esportiva. Alec sempre faz o contrário. – Estou brincando! Vamos. Tem certeza de que quer me levar para jantar? – Sim – ele sorri. – Oquei, vamos jantar. – Às oito? – Às oito. Concordo e o observo ir, pela segunda vez. Porém não encontro seu carro. Meus olhos brilham com o que acabei de imaginar. Será que ele deixou o carro na esquina e veio correndo me chamar para jantar? Isso é tão romântico que tenho vontade de gritar de novo. Contenho-me. Já sou bem crescidinha e, além do mais, sempre jurei que, quando achasse um cara legal, eu não seria uma idiota que chora e se torna romântica, grudenta e chata. Não mesmo! Fecho a porta. Vamos lá... O que ele disse quando se referiu a tirar a noite de folga? Oh, além de lindo, ele é trabalhador. Estou ainda mais encantada pelo Alec. E agora vamos dar um stoppor aqui. Já está começando a ficar chato, concordam? Apanho a cuba de gelo e o pano que ficaram no sofá. Apanho tam- bém uma roupa fresca, pois preciso de um banho para tirar as digitais do ladrãozinho de mim e o cheiro de delegacia. Prometo a mim mesma que nunca mais correrei atrás de um ladrão, sério. É tão constrangedor! Pelo menos não perdi meu celular. Bônus pra mim!


Ando com a Ana e com as sacolas de roupas que compramos no shopping. Ela não para de falar sobre o seu namorado, o Nêmias, e nem está me dando chances de falar que finalmente fui beijada. O titulo de “Nunca fui beijada” não me pertence mais, e agora me parece seriamente que estou ficando de quatro de todas as formas possíveis pelo Alec. (Tudo bem, também pensei em coisas eróticas, mas não precisa espalhar). – Você acha que o problema sou eu, Alice? Lambo os lábios porque estou completamente entediada. Será que ela não percebe que também preciso me desabafar? Que o mundo não gira apenas ao redor do seu relacionamento complicado com o Nêmias? – Não, não acho que a culpa seja sua. Talvez seja. Deixa-me explicar: Ana é do tipo grudento. Não gosta que o cara grude demais nela, mas gosta de grudar. Ela quer toda a atenção e não é por que ela é a minha amiga que vou deixar de fazer minhas conclusões... Mas nunca as direi. Não quero gerar polêmica. – Outro dia eu o encontrei se masturbando com uma garota que ele nunca viu, digo, pelo PC. Primeiro, eu nem soube o que dizer. Fui para casa e não parei de deixar de pensar na cara que ele fazia. Oquei. Nojento! Tudo bem, também não é o fim do mundo, é? Não sei. Se fosse comigo, eu chutaria o pau da barraca. – Por que os homens fazem essas coisas, hein? Ela faz uma careta de nojo. – Pelo menos foi com uma garota – minto porque, de verdade, isso é tão errado quanto fazer sexo corpo a corpo, você me entende. – É. Chega. Hora de dizer o que realmente penso. Estou cansada desta ladainha! Há quantas horas estou ouvindo sobre o Nêmias? – Ou, talvez, ele já não esteja mais na sua. Vamos encarar os fatos. – Tiro meu cabelo dos olhos. – Acho que está na hora de você partir para outra, sabe? Ana concorda com a cabeça e faz cara de santa. – Na verdade, é tudo culpa desse seu amigo! Eu o vi algumas vezes no barzinho e ele tem um papo bem... Estranho. – Sejamos realistas, Ana. Isso não é culpa de ninguém, e sim do seu relacionamento que está indo por água abaixo. – Obrigada, Alice. Estou muito melhor – murmura ela em tom de zombaria. – Disponha. Foi você quem disse que era para eu dizer a verdade, apenas a verdade – reviro os olhos. E finalmente o telefone dela toca. Que maravilha! Um sinal divino! Ela atende o celular e vai andando na frente para ter mais privacidade, como se eu já não soubesse de toda a sua vida. Credo! Só agora que eu percebo: Ana está bastante desesperada para ficar contando a sua vida para qualquer um – não que eu seja qualquer uma. Começo a achar que foi uma péssima ideia convidar a Ana para fazer compras, mas é tudo culpa do


Derek porque ele não atende a este diabo de telefone. Gosto mesmo é de fazer compras com ele porque, além de carregar as minhas coisas, ele não fica preso no mesmo assunto. Sim, ele também resmunga. Quase sempre como qualquer homem normal. – Ah, Alice, nosso programinha encerra por aqui. O Nêmias está por aqui e a caminho. Ele vem me buscar para termos uma boa conversa. Despedimo-nos e dou de ombros, aliviada por não ouvir o nome Nêmias pelo resto do meu dia. Vou andando. Estou perto de casa e louca para experimentar meu vestido novo pela milésima vez. E, bom, a Ana nem me deixou falar sobre o Alec! Ah, grande egoísta! Procuro as chaves do meu antro e migro para a calçada ansiosa para entrar quando olho para a casa vizinha, em silêncio. É a primeira vez que percebo que tem um carro na garagem. Aquilo estava lá antes ou eu só notei agora? E, ah, o meu espanto é que aquele carro é igualzinho ao do Alec. Sei que existem milhares de carros iguais, mas isso não pode ser coincidência. Pode? Em vez de ir para o meu antro, eu paro em frente à casa silênciosa e decido caminhar até o portão. Devo bater palmas? E se não for o carro do Alec? E o que eu tenho a ver com isso? Não importa. Encontro uma campainha e aperto-a. Silêncio. Ninguém sai da casa. Aperto-a de novo, animada e horrorizada. Não, ele não pode morar ai! Silêncio. Nada. Nada. Nada. É melhor eu ir embora. Volvo e decido ir para casa porque não quero ter de explicar nada caso seja outra pessoa quem mora ai, tipo, o Edward Mãos de Tesoura. Já pensou? Fico mega feliz quando vejo o carro do Derek parando em frente ao antro! Ando depressa. Meus passos ecoam no ar e o vento forte sopra o meu cabelo cor de merda! – Derek, seu desgraçado, por que não atendeu aos meus telefonemas? – Oi, Alice, como foi o seu dia? Sabia que boas maneiras ainda se usam neste mundo que Deus fez todo errado? Encolho os olhos. – Você está blasfemando! – Eu passei um dia inteiro ouvindo a Melaine falar sobre Jesus! Francamente! Se eu quiser ouvir sobre Deus vou à igreja! Sabe o que eu tive que dizer para ela parar de falar? “Tudo bem Melaine, eu amo o diabo”. – Continua blasfemando. – O que importa? Pelo menos funcionou e agora ela se repeliu de mim como se eu estivesse com um vírus altamente perigoso! Isso é fantástico! Oquei, eu vou me lembrar de dizer isso quando ela tiver me alugando com coisas de igreja. Não que eu seja ateia, mas às vezes ela exagera e, só para vocês entenderem quem é Melaine, ela é a nossa colega de classe e colega duas vezes do Derek, pois os dois fazem estágio no mesmo laboratório. Ele olha as suas ligações recebidas. – Nossa! Treze ligações não atendidas. O que você andou aprontando? – Você nem imagina! Então narrei sobre os últimos acontecimentos da minha vida. Que eu tinha sido quase assaltada, que me atraquei com o ladrão, que fomos para a delegacia e eu liguei para Deus e o mundo e a última pessoa que me sobrou foi o Alec e que, depois o meu herói me trouxe para casa, ajudou a amenizar meu hematoma e, de quebra, me deu um delicioso beijo de língua. Enfatizo a palavra “língua” para que o Derek jamais esqueça que fui beijada. E ele ri. – Fala sério! Preciso muito conhecer essa alma que te tirou do mundo obscuro. Estou gostando de


ver. Finalmente está assumindo a meretriz que existe dentro de você! – Pois é. Ele me convidou para jantarmos hoje à noite e eu aceitei! – Bati palmas feito uma foca batendo as nadadeiras. Porém o Derek não está mais com aquele sorriso por eu ter final- mente subido dois degraus na escala de relacionamentos. – Que foi? – Nada. Só acho que você está indo rápido demais, Alice. Vocês se conheceram ontem e você já está completamente apaixonada por esse cara que, pra sermos bem honestos, nem fazemos ideia de que buraco ele saiu. – Está sendo egoísta, Derek. Só porque não tem progresso com a Lena não quer dizer que pode sabotar o meu momento. – Não estou sabotando nada! Só estou te alertando. É isso que os amigos fazem. Se não percebeu, você também dá pitacos em minha história com a Lena, então estamos quites. – Tá, desculpa. – Coloco o meu cabelo atrás da orelha. – É que final- mente as coisas estão acontecendo e não quero ser despertada, pelo menos não durante as ultimas vinte e quatro horas. Ele concorda com a cabeça. Senta no sofá com as pernas aberta e estica os braços para que eu vá até ele. É isso que faço. Sento no colo do Derek e apoio a minha cabeça em seu peito. Ouço o som do seu coração, sinto o cheiro do perfume da sua roupa, aquele cheiro que diz que tudo vai ficar bem. Estamos juntos nessa. Derek alisa o meu cabelo e eu fecho os olhos, sorrindo. É verdade, as coisas estão acontecendo. Antes eu achava que os caras não se interessavam por mim. Nunca me achei um padrão excelentíssimo de beleza e essa coisa de beijo contribuiu e muito para as desventuras da minha vida amorosa. Mas, agora, não. Pela primeira vez me sinto a mulher mais bela da face da Terra. Sei que o Alec ter me beijado pode não ter significado nada para ele, porém para mim é algo que não tem explicação. Você deve me entender... Todo mundo já passou ou vai passar por isso que estou passando, então não faça alarde e nem pule as páginas. – Acha que posso, pelo menos, conhecer esse cara? – Sim, claro que sim, papai. Aproveite e me presenteei com uma caixa de camisinha. Faremos sexo ardente hoje. – Sério? Faço uma careta. É claro que não. Levanto e vou para um banho porque está perto das oito. Quando termino o banho, visto o meu vestido novo e vejo que ele deixa a minha cintura marcada. Penteio o meu cabelo e o deixo solto porque ele também está muito bonito, apesar de ter sido molhado pelo meu suor quando sair do salão. – Para aonde ele vai te levar? – Não sei. – Já pensou que você estar se arrumando toda deste jeito para apenas comer cachorro-quente na pracinha? Levando em consideração meu azar nos últimos dias, é bem provável irmos comer numa barraquinha de cachorro-quente. É obvio que não digo isso porque tenho meu orgulho. – Acredite: serei feliz em comer cachorro-quente. Derek lança um olhar estranho para mim e eu me encolho. Não tenho culpa se estou feliz. Não tenho. Olho-me mais uma vez no espelho e penso na minha irmã. Não sei por que mas, quando me vejo no espelho, sempre me lembro da Belle. Será que ela se parece comigo ainda? Ou, quem sabe, não se transformou numa linda mulher mil vezes melhor do que eu? Todo mundo sabe que, quando somos criados pelos nossos pais, sempre temos mais autoconfiança, ao contrário de ser criada pela amiga


da sua mãe. Mas, tudo bem, isso é passado. – O que acha? Estou apresentável? – Você está linda! Juro que, se eu não fosse seu melhor amigo, com toda a certeza me apaixonaria por você agorinha mesmo! – Pelo menos ainda podemos nos casar daqui um tempo. – Não sei... Agora que você aprendeu a beijar é bem provável que tenha me colocado para escanteio. Adeus, dias sombrios! Olá, vida repleta de bocas e sapinhos! Bem-vinda ao sexo oral! – Às vezes você me assusta, Derek. – Aham. Depois me diga se eu te assusto quando você experimentar. – Experimentar o quê? – Sexo oral, anal, essas coisas... Apanho uma almofada e aperto contra o rosto dele. Não acredito no quanto o Derek pode ser nojento. E, tudo bem, não sou uma santa do pau oco. Sei que deve ser uma maravilha fazer essas coisas. – Vamos conversar sério, Alice. Se ele te convidar para ir a casa dele, não vá. Também não o convide para entrar. Você nem imagina como essas simples atitudes podem ser cruciais. Ah, também fique prestando atenção se esse Alec não coloca algo na sua comida ou bebida, como “boa noite cinderela”. – Está exagerando, Derek. – Não estou, não. Os homens são terríveis, Alice. Até eu já pensei em fazer essas coisas – levanto uma sobrancelha. – Não me julgue, tá legal? Foram só pensamentos... A gente pensa em assassinar um monte de gente e nem por isso saímos matando todas elas por ai. São apenas fantasias. Porém, algumas pessoas não costumam ficar apenas na utopia. Preste muita atenção. – Está me assustando. – Ótimo! Isso prova que não estou falando à toa. Eu te amo, Alice. Por isso me preocupo com você, mesmo que me chame de gay. – Ele limpa a garganta. – O que acha de eu ir também? Posso ficar em uma mesa ob- servado tudo! Arregalo os meus olhos. Isso está longe de cogitação! Não quero ser vigiada! Já sou adulta! – Cala essa boca, por favor. – Oquei, depois não venha chorar as pitangas comigo. – Derek se levanta e olha para o seu celular que não para de piscar. Ele atende e se afasta de mim, o que é ótimo. Isso me dá tempo de retocar a minha maquiagem. Minutos depois. – Tem certeza de que não quer que eu vá com você? – Tenho. Estamos conversados. – Obrigado, Alice. Ficarei em casa trancado no banheiro me masturbando. Se precisar, é só ligar. Meu celular estará bem alto. – Obrigada. Só não mele o banheiro todo, querido. Ouço duas batidas na porta e tenho certeza de que é o Alec. Peço para o Derek abrir a porta enquanto apanho a minha bolsa. Estou tão animada que não consigo me conter dentro do meu próprio corpo, o que é um mau presságio. Como disse Shakespeare: alegrias violentas tem fins violentos. – Você é o... Alec? Ouço a voz de surpresa do Derek e saio do meu esconderijo. Vou apressada até a porta e dou de cara com o Diogo. – Diogo? O que você está fazendo aqui? Ergo as sobrancelhas e espero que ele me responda. Enquanto isso não acontece, observo seu rosto:


o olho está vermelho e inchado e a sobrancelha está costurada. Pelo menos não parece quebrado e não preciso me culpar. – Oi, Alice. Vim pedir desculpas. Concordo com a cabeça porque não sei do que o Diogo fala. Além do mais, eu é que tinha que me desculpar. – Como? – Franzo o cenho. – Pelos insultos hoje mais cedo, no telefone. Lembra? Claro que me lembro. Lembro-me também que ele disse que não queria me ver nem pintada de ouro. – Pensei que não quisesse mais me ver. – Foi impulso – ele responde e Derek apoia sua cabeça na base da porta. – Ainda estava com raiva porque, mesmo depois que aquele babaca socou o meu rosto, você foi com ele ao invés de me ajudar. Hum... Deixa-me ver se eu estou entendendo bem: o Diogo veio aqui para me cobrar pela atenção de ontem à noite? Ah, qual é! Para começar, nem ao menos pedi para que ele fosse me ajudar e, se me lembro bem, eu ainda o amparei. Oquei, foi bem rápido. Mesmo assim, eu me importei. Não quero aparentar a insensível porque o rosto meio desfigurado dele está ali para provar qualquer coisa. – Sinto muito, Diogo. Ele olha para mim e depois para Derek, o qual arregala os olhos e dá de ombros, visto que Diogo fez uma cara de “precisamos conversar a sós”. Porém, não temos nada para conversar – a não ser sobre bactérias gran-negativas e gran-positivas. Ele simplesmente manja nas invisíveis. – Atrapalhei alguma coisa? – Ele pergunta. – Não. –Lambo os lábios e espero o que ele vai dizer. – Então? – Estava pensando em te convidar para jantar fora, mas parece que o Derek chegou primeiro. Opa. Das duas, uma: ou todos estão vendo que em breve me tornarei uma famosa atriz ou acabei de descobrir que sou sobrinha de alguma sereia. Nunca choveu tanto assim na minha horta! Valei-me! Mas tudo isso é muito bom, muito bom, mesmo. Não sabia que ser cobiçada era tão magnífico! Quer dizer, já tenho um jantar hoje com o cara que tirou a teia de aranha cavernosa da minha boca e socou o rosto do cara que está parado diante de mim e me convidando para jantar. – Na verdade, eu não vou sair com o Derek, e sim com outro cara... – Hum... – Mesmo assim, fico muito lisonjeada com o convite... É que não dá para desmarcar mesmo com o outro carinha. Não mesmo! Só se eu estivesse fumando maconha misturada com ervas daninhas! Porém, a cara de bocó que o Diogo faz é tão cachorro sem dono que tenho vontade de carregá-lo no colo, colocar sua cabeça em meu peito e dizer coisas motivadoras com aquela voz de mongoloide que as pessoas sempre usam quando querem mimar seus cães. – Pelo visto cheguei realmente tarde – e sorri, sem graça. Oquei. O que ele tenta dizer com isso? Seria uma frase analógica? Duplo sentido sem ser aquele duplo sentido pornográfico? Suspiro. Sou nova nessas coisas e nunca soube interpretar direito o que


os caras realmente querem dizer. Oh, como sinto falta da Laura agora. – O que você quer dizer? – Interpreto uma protagonista tonta. – Quero dizer que sempre tive uma queda por você, Alice, embora nunca tenha me dado bola mas, tudo bem. É aquela coisa: não trate como Facebook alguém que te trata como Orkut. É impressão minha ou ele está me chamando de rede social? Sim, porque ouço o riso preso do Derek no interior do antro. – Hã? – Isso mesmo, Alice. Acho que sou apaixonado por você e penso que mereço uma chance, principalmente depois de ontem. E estamos de volta ao ontem. Ao momento em que ele levou um soco por mim? Ate quando o Diogo vai passar isso na minha cara? Acho que o Diogo ainda não percebeu que ele não é o Homem-Aranha e tampouco eu sou a Mary Jane. Só porque ele tentou me salvar – quer dizer, eu fui empurrada no lago e, o que quer que acontecesse depois, importava mesmo? Eu já estava molhada! – não quer dizer que tenho que me jogar aos seus pés e amá-lo por este ato um pouco heroico. – Acho que está colocando os bois na frente dos carros... Ou são os carros na frente dos bois? Sei lá. Eu já pedi desculpas. Isso não vale? – Não, não vale. – Oquei, acho que não tenho mais nada a fazer em relação a isso. Já me desculpei. Estamos quites! Fecho a porta, embora eu não quisesse ter feito isso. Mas o Diogo é mais rápido e empurra a porta. Eu suspiro, coço o cabelo e estou começado a ficar irritada. Francamente! – Está tudo bem ai, Alice? – Grita Derek. – Sim! Está tudo em perfeita ordem. – Suspiro e fuzilo o Diego com o meu olhar de Elvira, a Rainha das Trevas. – Vamos lá, Diogo. Vamos tentar de novo, tudo bem? Peço desculpas por ontem, porém o que posso te oferecer, por enquanto, é só a minha amizade. – Então quer dizer que, depois desse “por enquanto”, essa amizade pode evoluir para alguma coisa a mais? Inteligente. Mas você não é pálio para mim, bobão. – Não. Isso quer dizer que seremos apenas amigos até que o apocalipse aconteça. E.N.T.E.N.D.E.U.? – Não. É ai que ele me puxa para si e, de repente, o meu rosto está pertinho do seu. Meus olhos fitam aquela coisa roxa, que é o seu rosto. Só que é tarde demais para pensar em mais coisas. Sou beijada pela segunda vez no mesmo dia por outra boca deliciosa. Eu não me afasto, pelo contrário, acho que retribuo o beijo. Vamos lá, mereço um vale por ter passado todos esses anos vivendo sem beijos. Mereço todas as bocas, se querem saber. Não. Meu corpo, minha mente e minha boca só querem uma boca: a do Alec, e não a do Diogo. Finalmente o empurro e vejo seu rosto manchado de batom vermelho. Do meu batom. Oh, não. É bem provável que eu esteja toda lambuzada também! Pior que isso: quero morrer! O Alec está parado a alguns metros de mim, do Diogo, do antro. Cristo! Pela sua expressão, pela mão no queixo, é bem provável que ele tenha visto aquele beijo que aconteceu e que não deveria ter acontecido de jeito nenhum. Alec dá de ombros e trota pela calçada, entrando no seu carro, o qual está em frente ao de Derek. – Tá vendo o que você fez?! – Grito para o Diogo. – É com ele que você vai sair? Não acredito!


– Ah, vai pro inferno, Diogo! Apresso meus passos. Na verdade, corro com os meus saltos agulha que estão sendo enfiados no gramado, o que não facilita para mim. Começo a gritar, mas ele está dando macha-à-ré. – Espera, Alec. Eu posso explicar! Como resposta, tudo o que ouço são os seus pneus cantarem contra o asfalto e a fumaça invadir a minha face. Fico sozinha na calçada, vestida para matar e sem ninguém mais para sair. Adeus, encontro perfeito. Adeus, jantar magnífico seguido de beijos de língua inebriantes. Bem-vinda de volta à vida real e frustrada, Alice. Você nunca deveria ter saído de lá! Então me lembro que o Diogo ainda está na porta do antro. Vamos aproveitar que estou vestida para matar! Eu irei matar! – Muito bem, Diogo, obrigada! Muito obrigada! Está feliz? – Ah, Alice, eu posso explicar! – Explicar por que você me beijou? – Não, explicar que, talvez, eu tenha livrado você de uma baita encrenca... Esse Alec simplesmente... Grito histericamente e o Derek está de volta. Ele para na porta com seus olhos encolhidos, averiguando a confusão em que mais uma vez eu me meti. – Não quero ouvir porra nenhuma! – Grito revoltada. Acabei de perder um jantar com o Alec e isso é o mesmo que dizer que não quero me casar com um astro de Hollywood, ou seja, totalmente surreal, porque nenhuma garota que se preze nunca se recusaria a casar com um astro de Hollywood. – Acho melhor você ir embora, Diogo. Palavra de escoteiro – murmura Derek e sei que ele está sendo sarcástico. – É isso mesmo! Acho melhor você ir embora antes que eu termine de fazer em seu rosto o que o Alec não conseguiu fazer. Diogo dá de ombros e vai embora. Sei que, de agora em diante, terei que ser muito estudiosa porque acabei de dizer adeus às minhas notas altas, digo, só quando não estudo, por que o Diogo sempre me passa (passava) uma boa pesca quando o circo se fecha para mim. – Acabou, Derek, está tudo acabado. O Alec nunca mais vai querer me ver! Eu sou uma vadia! Ele concorda com a cabeça. – Pelo menos pense pelo lado positivo: agora você é, oficialmente, uma vadia. Beijou dois num mesmo dia e logo estará fazendo sexo grupal. – Derek, cale a boca, por favor! Entro no antro e decido que nunca mais vou querer beijar ninguém!


Capítulo Cinco O anti-herói Repito a mim mesma que é um novo dia e por isso vou esquecer tudo o que aconteceu ontem. Mas como esquecer tudo que aconteceu ontem, sendo que não quero apagar da minha memória o Alec, o beijo do Alec? Levanto da minha cama de casal. Cama esta que só dividi com o Derek e nunca dormimos de conchinha porque, mesmo nós sendo amigos, não confio na sua enguia. Ela pode roçar em meu traseiro e querer ganhar vida, se é que vocês me entendem. Vou direto para o chuveiro e molho meu cabelo. Não me importo se passei quase que metade da noite escovando-o para ficar linda para o Alec. Não me importo com o meu cabelo cor de merda, porque tudo está uma merda! Eu odeio o Diogo, odeio principalmente o beijo que ele me deu e eu acho que correspondi. Pelo menos não o parei de imediato e, se isso não é corresponder, o que é então? Quando termino de me vestir, avisto meu vestido de ontem há noite. Suspiro, suspiro, suspiro. Inspiro, inspiro, inspiro. Fecho os olhos. Faço tudo três vezes porque assim consigo encontrar o meu controle. Não me importa se Alec não quis me ouvir. Que ele se vá à merda bem gostoso! Agora é oficial: não pensarei no Alec. Nem em seu nome. Nem no modo como o cabelo dele voa ao vento deixando-o ainda mais bonito. Nem na sua boca vermelha. Nem na sua pele áspera onde a barba nasce, roçando contra a minha quando nos beijamos – quando ele me beijou. Nem em sua reação idiota ao me ver atracada com o Diego, sendo que eu estava atracada sem querer estar atracada. Ponto. Apanho meu jaleco com cheiro de lavanda e o enfio em minha bol - sa. Passarei todo o meu dia atendendo pessoas, ouvindo sobre suas vidas, mesmo sem cujo entusiasmo para ouvi-las. Depois, vou para a faculdade e à meia-noite irei assistir algum filme bobo. Isso. O plano perfeito! Saio de casa. Não vou ligar para o Derek e pedir para ele me levar ao meu trabalho. Não quero que ele relembre a noite de ontem, como fez na noite passada: riu por quase uma hora do fim trágico de meu encontro. Começo a caminhar pela calçada quando paro e encolho os olhos. Vejo movimentos na casa silênciosa. Como a curiosidade é inimiga da pressa, deambulo pela calçada e chego à casa silênciosa. Paro no portão e não vejo movimento algum. Mas tem dois carros estacionados da garagem. O do Alec e outro. Não o do Alec de verdade, um igual ao do Alec. Apuro meus ouvidos e os enfio entre as grades do portão. Escuto som, vozes, conversas desconexas que não consigo entender. Depois um latido. Um cachorro?! Droga! Droga! Droga! Eles estão vindo para a garagem. Uma mulher de mais ou menos vinte e cinco anos está com o cabelo molhado e usa roupas transadas. Talvez ela seja estilista. Depois, só depois, é que eu o vejo. Alec está atrás dela e de toalha. (Não estou entendendo nada aqui, pessoal.) Seu


corpo está molhado. Gotículas d’água escorregam em seu corpo e eu tenho uma vontade louca de passar a minha língua por aquele abdômen, mas eu não posso ser tão pervertida assim e, também, não tenho culpa se tenho esses pensamentos asquerosos! Será que as outras pensam a mesma coisa quando o veem sem camisa e, melhor, molhado? Será que a estilista pensa em fazer isso agora? Opa. Radar a vista. O que essa estilista faz na casa do Alec? Por que ela está com o cabelo molhado? Por que ele está de toalha e molhado? Aliás, ele mora nessa casa? Ela mora aqui? Não consigo entender. O que eles são de verdade? Deus, será que eles são namorados? Será que eu sou uma vadia de verdade e estou roubando o namorado da minha própria vizinha?! Não é o fim do mundo: é o apocalipse! Ao ouvir o tintilar das chaves, apresso meus passos e me enfio nos arbustos. Alec chega ao portão, olha na direção do antro e enfia a chave no cadeado. Assisto, agachada nos arbustos, ao Alec abrir o portão e à estilista entrar em seu carro, dar a partida... Olho para o lado e vejo que tem um cachorro pinscher puxando a barra da minha calça jeans. Sacudo o pé e ele grunhe, ameaçando-me. Pequeno cretino! Bato em sua cabeça para que ele pare de me ameaçar! O cão investe e, nessa altura do campeonato, já nem sei o que aconteceu com a estilista. Só vejo Alec parar diante de mim, de toalha e com um cigarro na boca... De onde saiu esse cigarro? Ele fuma? Fuma. Fuma porque está com um cigarro entre os dedos e, sem perceber, assopra uma baforada em minha direção. – Alice? O que você está fazendo escondida aí? Tentando saber quem diabos você é penso, mas não digo. Apenas me ergo porque ficar agachada não é uma posição muito favorável. Algu- mas pessoas conseguem ver malícia onde não tem. – Então? – Insiste ele. Então. Bom, então Alec leva o cigarro aceso até os lábios (aonde eu poderia passar o resto da minha vida beijando-o) e a ponta laranja do cigarro em sua boca fica ainda mais acesa quando ele traga e o afasta da boca. Minutos depois deixa a fumaça sair pelo nariz. Oh, eu sempre me perguntei como as pessoas conseguem deixar a fumaça sair pelo nariz, e não pela boca. Eu quero perguntar isso a ele, mas isso não vai me edificar em nada, vai? Não vai. – Ah, hum... Não consigo pensar em nada racional porque sinto algo quente escorrer pela minha perna fina. Olho pra baixo e percebo que o cão está mijando em minha perna. Em minha calça jeans! De mediato, faço uma coisa terrível: chuto o pequeno animal, mesmo sabendo que isso é errado, mesmo sabendo que isso é totalmente errado, mesmo sabendo que o pobre animal não tem culpa de querer marcar o território e, se quiserem me levar para a cadeia, me levem. Levem-me porque odeio ver animais sofrendo e, mesmo assim, chutei o pequeno cão para longe. Ele voou mais ou menos um metro antes de aterrissar e gritar, expelindo guinchos ordinários para me deixar ainda mais culpada. – O que você fez?! Alec vai ao encontro do cão e agacha, a toalha branca rasteja no chão. Pergunto-me se ele está de cueca ou nu debaixo da toalha branca, a qual não mostra muita coisa. Na verdade, não mostra nada porque foi perfeitamente presa ao seu corpo assim que ele saiu do chuveiro, ou seja lá onde é que ele estava se refrescando. Banque a atriz – Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus! – Espero que eu não esteja blasfemando. – O que eu


fiz? Você chutou um cão por que ele fez xixi na sua perna! – Desculpe, Alec. Oh, eu não sei o que me deu na cabeça! Coitadinho dele! – Coitadinha de mim! Acabei de ficar mal na fita! Certamente quando a estilista descobrir que eu chutei seu pequeno animal ela vai até o antro e sentará a mão na minha cara! – Você acha que ele sofreu alguma fratura? Alec olha pra mim com o cigarro preso nos lábios para poder, assim, pegar o pequeno cão nas suas grandes mãos. Para dizer a verdade, esse cachorro é meio feio: é orelhudo e bicudo. O legal é que esse cão não pode alegar sofrer de bullying. Mas se eu disser ao Alec o quanto seu cachorro é feio, é bem provável que ele tome as dores do animal. É verdade! Já conheci milhares de pessoas assim. – Não, acho que está tudo bem – ele responde para a atriz dentro de mim. Levo as mãos ao coração dramaticamente e suspiro. – Graças a Deus! Ele sorri para mim e eu me quebro toda por dentro. Sou um para-brisa que acaba de ser atingido por um meteoro: se estilhaça e quebra pouco a pouco para que eu possa sentir o efeito dessa grandiosa ação - o sorriso dele sobre mim. E, sim, sou uma vadia louca! Alec segura o cão com uma só mão. Em seguida ele pega o cigarro, assopra a fumaça em minha direção e dessa vez eu não contenho a tosse. Que lástima! Ele fuma e só agora percebo o impacto dessa descoberta! Sim, não posso negar o fato de que ele fica deliciosamente lindo fumando. Tecnicamente, eu adoraria ser esse cigarro. Ser apertada, comprimida e inalada por ele. – Você é uma graça mesmo. – E ele se levanta. Fantasio que de repente essa toalha vai ser arrastada por um vendaval ou simplesmente vai escapar do seu corpo como geralmente acontece comigo. – Aliás, não me respondeu por que estava escondida aí nesses arbustos. Oquei, não irei fugir dessa. Ele entra na sua casa e balança a cabeça na minha direção como se dissesse para mim “vamos lá, entre! Sei que está louca para isso, curiosa Alice”. Sei que deveria ficar ofendida com esse olhar, mas estou mesmo curiosa e, por isso, eu entro e sinto a minha calça molhada e fria. Até a minha meia está molhada de xixi de cachorro! Que nojo! – Nada, estava saindo de casa quando um vento forte foi soprado e levou o lenço que eu tanto amo. Ele parou nos arbustos e eu estava tentando pegá-lo, quando seu cachorro me atacou. – Ah, e conseguiu pegar o lenço? – Não. Dessa vez eu o perdi. Sorrio descaradamente certa de que ele não acreditou muito na minha conversa de lenço por causa da sua careta de desdenho. Não me importo. Não me importo com mais nada! Não me importo com aquela promessa de não pensar nele - nem me lembro se foi mesmo uma promessa ou força de expressão. O silêncio é atormentador. – Desculpe de novo pelo cão. – Tudo bem, ele não é meu... É de um amigo que me pediu para tomar conta, já que a fêmea dele está no cio. Concordo com a cabeça porque Alec é um bom rapaz e cuida até dos animais alheios... Bom, se bem que o fato dele fumar o eleva para a escala de rapaz mal. Lobo mal. Predador. Etc. Se bem que isso não é um padrão. Tudo bem, tudo bem. – Você mora aqui? – Sim.


– E por que você não me disse que mora aqui? – Porque isso não era importante? Porque você não perguntou onde eu morava? Enfim. Boa, garoto, resposta na ponta da língua. Da próxima eu não deixarei que me responda brevemente. Quero um relatório, de lacunas em minha vida que já bastam! – Há quanto tempo você mora aqui? – Bastante tempo. Eu o sigo. Entramos numa sala com sofá, televisão LCD, rádio, poltronas e tudo que uma sala precisa. A minha próxima pergunta seria: você mora aqui sozinho? Mas parte de mim diz que não me interessa porque, de verdade, não quero receber outra resposta vaga. É como se o Alec estivesse me evitando. Parece que esconde um terrível segredo. Eu sou o mundo, e ele a teoria da conspiração. O mundo, neste exato momento, está sendo atormentado por essas teorias. Porém faz de tudo para parecer bem porque é isso que o mundo faz: sempre se parecer bem. Sento-me no sofá porque me parece a única coisa plausível. Minhas mãos... De repente não sei onde colocá-las e por isso aperto-as no sofá. Nesse instante a minha mão esquerda pressiona uma cueca. Oh, uma cueca box que, com certeza, é do Alec. Se eu fosse uma louca enfiaria o tecido em minha bolsa e a olharia à noite, a cheiraria enquanto imaginaria coisas e até dormiria com essa cueca. Mas eu não sou louca. Quer dizer, quando se trata desse idiota que está sumindo pelo corredor só de toalha, ah, ai eu sou muito louca, mas não ao ponto de roubar uma cueca. Francamente, Alice! Então ele volta e eu não sei onde foi parar o maldito cãozinho. Sorrio e depois faço cara de nojo porque sinto o xixi em minha meia. Nem sei por que entrei na casa do Alec. A estilista pode voltar a qualquer momento. É ai que as palavras escapam da minha enorme boca. Sim, sou uma caçapa! – Essa moça que saiu daqui... Ela é sua namorada, noiva, esposa? Meus olhos percorrem os dedos de Alec à procura de uma aliança e, é claro, não existe aliança alguma porque, se houvesse, ela já teria notado. Ele parece estar pensando por causa da demora em me responder. Veste agora uma bermuda e fica sem camisa. Não está mais com o cigarro na boca, mas o cheiro da nicotina ainda é presente. Pergunto-me por que nunca tinha sentido o cheiro de cigarro nele antes... Talvez eu estivesse encantada demais com a beleza desse cara ou o Alec começou a fumar ontem, depois que me viu grudada nos lábios do Diogo involuntariamente. Só que o Alec não me parece uma pessoa que se mataria, tampouco colocaria um cigarro na boca por conta de uma decepção amorosa e, tecnicamente, não existe nada entre nós. Sou eu quem pensa bobagens aqui, colocando palavras onde não existe nenhum espaço em branco. – Quem? A Elaine? Não, não... Somos só amigos. Não sei, não sei. A última palavra me soa uma mentira e eu quero entrar nessa mentira, quero desvendar a verdade. Vamos aos jogos. Adoro joguinhos! – E o que explica você estar de toalha, ainda molhado? O que explica o fato dela ter saindo daqui com o cabelo molhado e com a cara de “bom dia, mundo, acabei de transar com um cara super gostoso”? – Obrigado. Eu não sabia que eu era gostoso! – Ele sorri aquele mesmo sorriso irônico de ontem, aquele que me dá nos nervos e ao mesmo tempo me leva a nocaute porque não sei exatamente o que fazer quando esse desgraçado sorri para mim! Levanto a mão para gesticular um protesto e percebo logo que a cueca dele está presa em meus dedos. Alec ergue uma das sobrancelhas e dessa vez o mundo cai para mim. Sou uma tarada que cheira cuecas, não que eu tenha cheirado, mas é obvio que ele vai achar que eu cheirei a sua cueca, como se eu quisesse saber o cheiro que o pênis dele tem. Pare de pensar besteiras!


– Não é o que você está pensando! – Deixo a cueca cair no sofá. Não tenho culpa se ele deixa suas peças intimas por aí. – Oquei. Não estou pensando em nada, Alice, em nada... –... E eu também não te acho gostoso. Aquele comentário foi só pra explicitar um pensamento, quer dizer... – mordo o lábio inferior e me perco nos gomos de seu abdômen. Chego à conclusão de que, mesmo se o Alec fosse um magricela, eu ainda me sentiria atraída por ele porque eu estou atraída por ele, embora eu ainda não saiba por que estou atraída por ele... É como um ímã. Eu sou um pedaço de metal e o Alec um ímã. O metal está sendo puxado pelo imã porque não consegue dizer stop! Até um tribal que ele tem no bíceps do braço direito é genial! Stop, sua vadia louca! Stop! Stop! Stop! Sai desse corpo que não te pertence. Minha libido está sendo provocada por este patife e eu não sei como parar. Eu não quero parar e quiçá esta pessoa nova que estou revelando ser e que sempre esteve dentro de mim. Porém só estava precisando de um empurrãozinho e agora estou descendo a ladeira desesperadamente rumo à perdição. Irei arder no mármore do inferno, como a minha mãe sempre disse. Não eu, mas as vadias como eu, o que dá quase no mesmo. Que se dane! – Tudo bem, vamos esquecer o que você disse. – Ele pega a cueca que escapa de meus dedos, passa pelo corredor, some e volta com uma toalha em suas maravilhosas mãos. – Tire a calça. Arregalo os olhos. Acabei de entrar na casa de um maníaco tarado. Meu Deus, não posso acreditar que me deixei enganar! O Alec, essa carinha de anjo está querendo, querendo... – O quê? – A minha voz ou é um grito ou saiu alta demais. – Eu disse: tire a calça. – Alec repete essa frase como se fosse à coisa mais normal do mundo... Como se eu ficar só de calcinha em sua frente não fosse nada quando, na verdade, irei me sentir completamente à deriva. Principalmente quando esses dois pares de olhos estiverem no meu traseiro, na minha cintura mirando aquele lugar até então proibido porque eu sei, apesar de fingirmos que não, que todo mundo olha para aquele lugar proibido quando alguém aparece ou só de calcinha ou só de cueca. – Não, claro que não. Por que eu ficaria pelada pra você? Ele revira os olhos e eu entendo que sou uma criança perto dele, que sou idiota e não entendo nada com nada. É o que sinto quando estou ao lado dele. – Porque eu não estou pedindo para ficar pelada pra mim? – Ele atira uma toalha em meu rosto. – Porque você está com a calça suja de xixi de cachorro? E fede feito xixi de cachorro? – Por que você está me respondendo como se estivesse fazendo perguntas? – Argh! Porque você parece uma criança cismada, Alice. Que droga! Eu não gosto do tom de voz dele. Faz-me lembrar da minha infância, de quando eu era repreendida por pessoas estranhas que não eram os meus pais. Não era a minha mãe, e sim desconhecidos que faziam da minha infância um sacrilégio. Pois é, posso parecer feliz mas, para uma criança, viver sem pai e sem mãe é como viver com uma máscara de carvão ativado o tempo todo porque até o ar quer lhe derrotar, quer lembrá-la de que o mundo não é justo. Levanto-me e lembro onde é a saída. Não me importo com o Alec, nem com a sua toalha, nem com o fato de que ele mora pertinho de mim. Vou para o antro por que odeio ser repreendida, ainda mais por um cara! Odeio a maneira como ele me olha ao perceber que gritou comigo, sendo que eu nem merecia isso. Meus pés batem com força no chão. Eu passo pelo portão e o puxo com força provocando um som estrondoso quando o fecho. Vou a trote para o antro. Procuro em minha bolsa as chaves de casa e enfio-a automati- camente na fechadura. Sinto-me segura agora. Este é o meu refúgio feliz, o lugar


onde ninguém pode gritar comigo porque este é o meu antro e de mais ninguém. Tiro os sapatos, as meias, a calça e a blusa. Enfio-me debaixo do chuveiro de novo, mas não demoro tanto assim quanto na primeira vez. Visto outra roupa, outra meia, outro par de sapatos, penteio o meu cabelo e coloco a alça da mochila em meu ombro e abro a porta. Dou de cara com o Alec, em pé na soleira da porta. Em frente ao antro com as mãos enfia- das no bolso da bermuda e, agora, ele usa uma camisa que realça os seus músculos, além de um par de chinelos de couro e, ah, noto que seus dedos dos pés são alinhados, nada de um dedo maior do que o dedão. Unhas bem cortadas, sim. Um pé que uma podóloga adoraria ter para si. Não sei por que esse idiota tinha de ser tão perfeito. Fecho a porta e finjo que não o vejo. Começo a caminhar e Alec caminha atrás de mim como uma sombra, em silêncio, exatamente igual como no dia em que nos vimos pela primeira vez. Aquele fatídico dia do atropelamento de bicicleta. Paro e o fuzilo com os meus olhos. Continuo a andar. Ouço o som do seu riso. Oquei, parar e olhá-lo foi um erro, um ato infantil. Eu não deveria ter parado, deveria mostrar indiferença, dizer que não me importo de verdade com ele quando, na verdade, me importo mais do que desejaria me importar. Sinto seus dedos longos em minha pele. Pergunto-me se é ilusão, culpa do desejo. Não. Alec me puxa com vontade e eu tombo contra o seu corpo forte, sólido e ao mesmo tempo macio. Minhas mãos pousam espalmadas em seu largo peitoral e... e... O QUE EU IA DIZER MESMO?! – Alice! – O que é, Alec? Hum? Já não bastou toda a confusão que você trouxe para minha vida e agora quer gritar comigo e depois fica me se- guindo? Isso é uma maneira de me persuadir? – As palavras saltam desordenadas de minha boca. – Hum... Não, de jeito algum. É uma maneira de pedir desculpas. Nem sei por que gritei com você, não sei. – Sinto sua respiração em minha face e procuro vestígios da nicotina e não encontro. Do contrário, sinto o aroma cálido do eucalipto, aquele que diz “fique e me beije até o mundo acabar”. – Na verdade, eu sei, sim. Você é uma criança mimada a qual acha que as coisas devem ser como você quer. Eu te odeio, Alice. Ao mesmo tempo sinto que não devo te odiar porque existe uma parte enorme em você que me acalma, me diverte e me diz que tudo vai ficar bem e que você não será essa criança mimada para sempre. Essa é a parte em que ele deve me beijar porque essa é a mais linda declaração de amor que alguém pode ter. Fecho os olhos e abro levemente meus lábios. Sinto seu corpo se afastando do meu. Abro os olhos e o vejo dar de ombros. Bufo feito um touro bandido e troto em sua direção, parando de frente para ele. – O que você pensa que está fazendo?! – Grito. Estou com raiva por ele ter me deixado, na vontade de sentir seus lábios em mim, quer dizer, em minha boca. – Indo para casa, Alice. Ele se desvencilha e caminha. Eu caminho ao seu lado. – Ei, o que quis dizer com isso? – Eu não quis dizer nada, apenas disse. Na verdade, não estou entendendo um monte de coisas – de novo aquela voz irritada. – Não sei por que você está me tratando assim hoje. Pelo menos não foi você quem se arrumou toda para sair com um cara e recebeu um bolo desse cretino desclassificado, patife de merda! Alec estanca no lugar com uma ruga em sua face. É ai que percebo que não deveria colocar o dedo nessa incisão horrenda! – Vamos lá. Se é para lavar roupa suja, então vamos, boneca! – Ele diz com seu tom sarcástico. – Foi você quem destruiu a noite de ontem. Eu te encontrei grudada com aquele idiota num maior


desentupidor de pias, e depois você fica me cobrando por um erro seu, e não meu? – Eu quis explicar e você não me deu atenção. Você foi embora, Alec, e ele... Ele me beijou bem quando você apareceu. – Resolvo que não vou ficar por baixo. – O que aconteceu entre mim e o Diogo foi um erro e por isso... Por isso, sem nem ao menos escutar o que eu tinha para dizer, você resolveu transar com a primeira mulher que viu na rua! O silêncio é duradouro e é verdade. Percebo pelo seu olhar acusador que o Alec realmente transou com a estilista a qual não me lembro o nome agora. – Você tem toda a razão. Eu transei com a primeira que apareceu para mim. A primeira que procurou por mim. Estou com raiva demais para pensar sobre suas últimas palavras. O que eu sei é que ele transou com a estilista e eu fiquei em casa chorando as pitangas com o Derek, o qual ria mais da minha cara do que realmente me consolava. Como posso ser tão idiota e burra? No tempo em que eu estava lastimando ele estava comendo uma mulher pelo menos quatro anos mais velha do que ele! Começo a imaginar gemidos, o som das molas de sua cama, o som da cama sendo investido contra parede toda vez que ele penetrava a estilista! Alec é realmente um descarado. – Você é um descarado, Alec! – Digo porque meus olhos ardem e eu não sei por que eles estão ardendo. Ele me olha com aqueles olhos escuros. Penetra o meu interior apenas com o seu olhar e é quase que uma súplica, algo que não consigo entender. Isso. Eu não entendo nada do que está acontecendo. Primeiro, porque ele só me beijou; segundo, porque não temos nada um com o outro e nesse mundo de hoje um beijo não significa mais nada além de duas bocas roçando na outra; a terceira e mais importante: estamos dando explicações um para ou outro e isso é estranho! O Alec pode transar com quem quiser e eu posso beijar quem eu quiser porque somos apenas dois conhecidos. Dois conhecidos que se sentem atraídos um pelo outro, apesar dele camuflar bem o que sente. Eu sinto, eu percebo que algo está fora do lugar. Ele me olha não como uma mulher de cabelo cor de merda, e sim como uma mulher desejada por todos os homens do Universo e, confesso, eu gosto disso. Esse pensamento é recíproco, digo, eu o vejo como o homem mais desejável do mundo. Aquele em que eu faria sexo e não me arrependeria depois. – Você tem toda a razão, Alice. Eu sou um descarado, vagabundo e sei lá o que mais está passando em sua mente. – Ele estreita os olhos e tenho a leve impressão de que o Alec vai chorar. É claro que isso não acontece porque ele jamais se daria ao luxo de chorar por uma mulher que conheceu há três dias. – É por isso Alice... É por isso que é melhor você se afastar de mim. Eu não sou um alguém para ter a sua atenção. Não sou digno de nada que venha de você e, quer saber mais? Foi uma ótima não termos saído para jantar ontem porque eu não sei o que poderia acontecer entre nós dois. Não é justo o gato brincar com o rato. Estou atordoada demais para raciocinar. De repente, tenho medo do Alec. Tenho medo dessas palavras que me atingem de tal modo como se ele estivesse me confessando que é um assassino responsável por todas as mortes do mundo. Eu o vejo com uma foice nas mãos, insistindo para que eu fique longe dele quando tudo o que quero é entregar meu coração a ele e que ele faça o que quiser. Bem, na vida real eu não entrego meu coração ao Alec. Em vez disso, me desvencilho do seu toque maravilhoso e dou três passos para trás. Estou tão assustada e com medo dele ser um serial killer que decido adiantar os meus passos. Meus olhos ardem feito brasa porque sinto a dor dele. Sinto que, por mais que o Alec queria que eu me afaste dele, por mais que ele grite, implore e chore, uma parte dele roga para que eu fique. Que eu fique porque não existe outra coisa que ele deseja no mundo, a não ser


eu. Sei que estou sendo ingênua e ele não me deseja como imagino, mas todo mundo percebe os sinais. Todo mundo sabe quando aquela pessoa entra na sua vida para sempre. Todos sabem quando encontram a sua tampa da panela. É justo essa pessoa revirar o seu mundo do avesso. É essa pessoa quem lhe ensina tudo de novo e prova que as coisas que você aprendeu no passado não importam mais. Sei disso porque ele é isso na minha vida. Tudo está de ponta-cabeça desde que cruzei com o Alec pela primeira vez. Ainda continuo a me afastar e ele faz o mesmo. Porém, ao invés de seguir rumo à sua casa, ele vai em direção à uma lata de lixo e começa a chutar com força. Com tanta força que consegue amassar o aço e ecoar barulhos estrondosos pela rua. Dou de ombros e apresso meus passos. É nesse momento que percebo que eu sou essa pessoa que revirou o mundo do Alec de cabeça pra baixo. Estanco no lugar e ainda ouço os golpes contra a lata. Volvo. Caminho na direção dele e paro. Paro porque não sei o que dizer. A essa altura, se a minha vida fosse um livro, as pessoas estariam dando muxoxo e dizendo “ah, fala sério! Eles já estão apaixonados?”. A verdade é que eu não estou apaixonada pelo Alec, tampouco ele por mim. Sinto que estamos sendo atraídos um pelo outro. Um coração desesperado chamando pelo outro. Nós somos duas ovelhas perdidas na floresta sem saber como voltar ao pasto, sem saber como voltar atrás porque tudo isso que estamos sentindo é completamente novo e assombroso. Somos duas ovelhas perdidas na mesma floresta na qual uma vez a Branca de Neve se perdeu. Existem monstros. Não sei quais, só sei que existem. Sempre podemos vencer os monstros, eu sempre dizia isso a mim quando me sentia sozinha após um pesadelo e não tinha o colo da minha mãe para dizer que tudo vai ficar bem. Mas ainda tento absorver as suas palavras. Ainda estou assustada. Literalmente assustada. Eu o olho e vejo a dor, a surpresa e o medo, tudo junto e misturado. Uma letra de música sem nexo. Uma peça macabra. Um filme sem roteiro. – Vamos lá, Alec – murmuro. - O que você está tentando dizer? O que significa essa coisa de que não é justo o lobo brincar com o cordeiro? A raiva ainda está estampada em seu rosto, dissipando-se pouco a pouco. Veias saltam de seu pescoço e é a primeira vez que noto uma cicatriz em seu rosto. Certamente fora provocada ao fazer a barba. Ele suspira. – Só estou dizendo que não é bom brincar com o fogo. Que eu sou um mau presságio. Que você é bela demais, ingênua demais para mim, para o mundo. Eu percebo. Todos percebem. Você tem luz própria, Alice, e eu não. Eu sou obscuro. Sou o brinquedo que você nunca deve comprar na loja... – diz ele com seu sotaque estranho. – Alec... – Não entendo nada. – Sinto que a qualquer momento posso arrancar a sua áurea, posso tirar o seu lugar no céu e te levar ao purgatório ou, quem sabe, ao inferno. Novamente fico assustada e não entendo porra nenhuma. Cara mais estranho. Aperto a alça da minha bolsa e caminho. Arrepio-me quando repenso nas palavras dele. É um código, sim, claro. É uma frase em Caps Lock e negrito. É a maior placa sinalizadora já feita, dizendo: PERIGO. Ouço passos atrás de mim e de repente Alec surge adiante, fazendo-me parar imediatamente. Sinto seu toque em minha pele. – Qual é a sua, cara? Primeiro diz um monte de coisas, me assusta e, praticamente, diz que não quer a minha companhia. Agora... Agora...


As palavras morrem em minha boca. São executadas uma a uma por esse assassino do Alec porque é isso que ele faz: assassina-me pouco a pouco. Então ele sorri. Arranca aquela carranca vermelha com raiva de seu rosto e me conforta de novo. Eu não entendo de novo – para variar. Talvez ele seja bipolar. Vou me lembrar de pesquisar isso no Google. – Eu não disse que não queria a sua companhia. Só disse que é legal não nos envolvermos dessa forma, tá bem? Concordo com a cabeça e, como só resta o silêncio e eu não aguento ficar olhando para o rosto perfeito dele sem me constranger, caminho. Sigo meu rumo e paro. Paro de novo, pois é. Tenho a leve impressão de que nunca chegarei ao meu querido trabalho. Volto para ele. – De que forma estamos nos envolvendo? – Ele não responde. Mas eu posso supor. – Somos amigos, Alec – minto. - Pelo menos éramos até você me assustar com essa conversa sem pé nem cabeça. Eu já entendi: vou embora agora e nunca mais nos veremos porque, se continuarmos a nos ver, bom, aí com certeza vamos nos envolver (seja lá de qual maneira você esteja dizendo que estamos nos envolvendo). Então tchau, Alec. E caminho. Faço uma tentativa frustrada de tentar andar pelo menos uns cinquenta metros, dobrar na esquina e descer, porém falho. Sei que esse vai e vem está ficando chato, mas ele está novamente diante de mim. – Tudo bem, Alice, podemos ser amigos. Alguma coisa me diz que você gosta de brincar com o fogo. É verdade. Parte de mim quer dizer que não me importo se ele é um assassino em série, traficante ou ladrão de bancos. Posso ser sua parceira. A verdade é que eu sempre quis me perder um pouco pra ver se me acho em algum lugar e, apesar de ainda não entender nada, eu sorrio. Sou uma idiota que sorri para o cara que transou com uma mulher só para se vingar de mim (pelo menos é isso que eu imagino). Sou uma vadia porque a maioria delas perdoa fácil. Eu mesma já presenciei isso e é melhor eu parar com os rótulos por aqui. – Talvez eu goste de brincar com o fogo – digo. – Talvez possamos tentar ser amigos, Alice, sem maiores envolvimentos. Não precisamos... – Oquei. Ele estende a mão em minha direção e eu aceito, fazendo de conta que é um segundo recomeço quando, na verdade, não acredito muito nisso. Nem ele. Dessa vez dou de ombro e consigo caminhar os cinquenta metros. Consigo curvar a esquina. Ele surge e me puxa. – E talvez seja muito difícil sermos amigos. E, finalmente, ele me beija. Sinto a sua boca na minha. Sinto o gosto de eucalipto me inebriar. Gosto mesmo de brincar com o fogo, de remexer nas brasas. Nesse momento – pelo menos agora – não me importo em me tornar sua parceira de crimes, não me importo com a minha alma – sei que mais tarde me importarei, a gente diz essas coisas da boca pra fora. - Não me importo com nada porque quero, de verdade, ser corrompida por ele. Hum, sejamos indulgentes em um determinado ponto: a minha vida virou totalmente do avesso quando cruzei com o Alec e sei o que isso significa. É uma zona de perigo como o próprio Alec quis me dizer. Não sei o seu segredo. Não sei de onde ele veio. Não sei por que me sinto bem e mal quando estou com o Alec. Apenas sei que está tudo certo e ao mesmo tempo tudo errado. As coisas não deveriam acontecer assim tão rápido e nessa intensidade. Sinto que não estamos sendo inteligentes, que eu não sou inteligente, que posso me ferir com a própria faca afiada que produzi.


Porém a gente não se importa muito. Vamos nos cortar enquanto estamos moldando a faca, não é mesmo? No meio desses pensamentos loucos sem pé nem cabeça nossos lábios se desconectam feito uma tomada arrancada da energia. Eu não sabia que beijar era maravilhosamente delicioso. Para ser honesta, nem sabia que pecar era tão bom porque é assim que me sinto: uma pecadora. E eu sou uma pecadora. Gosto de ser uma pecadora. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. No fim, todos os pecados são iguais, tem o mesmo peso. Tudo o que a minha mãe me ensinou escorreu pelo ralo a partir do momento em que ela me abandonou e eu não percebi. Percebo agora que o Alec tem razão: será muito difícil sermos amigos. Quero ir adiante. Quero me atirar de paraquedas sem me importar quando vou pisar no chão outra vez. Gosto do pecado agora, e quero ir adiante com o Alec, custe o que custar. Nós só temos uma vida, e essa vida não me parece boa. Estou enrolando para não me apartar dele, mas tenho de ir. Tenho que dizer adeus agora porque sei que mais tarde, quando eu não estiver ao lado dele, vou pensar em tudo o que pensei agora e vou chegar à outra conclusão. E é essa conclusão que me assusta. Mais tarde.


Capítulo Seis Ser um outro alguém Sei que nessa nova virada de página você deve está suspirando com o beijo que o Alec me deu. Sim, eu também estou. Ainda estou, mesmo depois de dias e dias. Depois que nos beijamos, depois que eu achei que tínhamos assinado o acordo de Tordesilhas e que finalmente tínhamos chegado ao Mundo Novo, Alec simplesmente desapareceu. Eu não vejo mais o seu sorriso com a mesma demasiada frequência de antes. Não ouço a sua voz e a sua casa silenciosa continua silenciosa. Às vezes, vejo o seu carro parado na garagem mas, como não quero parecer desesperada, evito enfiar a cara na grade. Evito ligar para ele porque ele é quem devia me procurar (pelo menos é assim nos filmes e nas peças que ensaiei). Acabei não vivendo nenhum personagem amante do amor verdadeiro. Oquei, não me importo se o Alec resolveu tomar um chá de sumiço. É sábado e a vontade que eu tenho é a de me esbaldar numa festa, beber até cair, fumar uma caixa de cigarros e, claro, não vou fazer isso. Estou apenas com raiva e pensando bobagens porque ele disse que sou ingênua. Só que eu não sou ingênua! Se quiserem mesmo saber, eu tenho uma vontade louca de fazer sexo oral. Isso prova que não sou ingênua e nem santa-dopau-oco! Hunf! Tiro meus saltos e me deito na cama deliciosa do Derek. Estamos sozinhos na casa dele, embora eu faça isso com ou sem gente em casa. Bem, sou de casa essa é a questão. Esparramo-me em sua enorme cama e pareço uma criança que nunca deitou em uma cama antes. Ele anda de um lado para o outro em uma box branca tentando conectar o videogame. Acreditem se quiser, eu sempre me desloco do antro para a casa dele por conta do vídeo-game. Depois que Derek finalmente consegue conectar os cabos, ele me entrega um controle, pega o outro e se deita na cama. Sugiro jogarmos Mario Brose Derek faz cara feia, mas cede como sempre e começo a me preocupar porque talvez eu seja dominadora. Queria que ele dissesse: Não, Alice. Vamos fazer pelo menos uma vez o que eu quero. Não sei por que tenho este sentimento, principalmente agora. – Acho que não quero mais jogar. Atiro o controle na cama e me deito nas suas costas, enfiando meus dedos no seu cabelo. Derek resolve continuar a jogar. Fico feliz, acho. – Ele não me ligou mais – digo, meio resmungona. – Hum. – Você acha que isso é normal? Derek suspira e dispara. – Não, não é normal. Se quer mesmo saber, Alice, acho que ele não está nem um pouco afim de você. Ele ter te beijado não significa que ele esteja apaixonado por você.


O mundo não é um conto de fadas. E ele tem razão. Minha mãe costumava usar essa última frase. O mundo não é um conto de fadas. E talvez eu não deveria ter perguntado porque não quero ouvir a verdade e Derek sempre diz a verdade, por mais dolorosa que seja (acho que já disse isso). Chateada, levanto-me e ligo seu notebook, na mesinha de cabeceira. O Alec só queria brincar comigo. Uma boca é só uma boca. Se eu não estou apaixonada por ele, com toda a certeza ele não está apaixonado por mim. É mais difícil para os homens. Abro a minha caixa de e-mails preparada para apagar aqueles emails idiotas. Uma distração piegas, mas infalível. Eis que vejo um e-mail que faz um sorriso brotar em meu rosto. Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! É um anúncio do Teatro e Cia para testes de protagonistas em uma peça chamada “Case-se Comigo!”. Estou em êxtase! Clico em imprimir e viro para o Derek o qual me olha, com medo. Lá vem chumbo grosso, ele sabe. – Vamos lá! Levante, levante, levante! Você tem que me levar nesse lugar aqui! – Puxo a folha na impressora e quase a esfrego em seu rosto. – E por que eu te levaria lá? – Porque você tem carro e é o meu melhor amigo? E porque as inscrições acabam em quarenta e cinco minutos? Anda logo, Derek, anda! Por fim ele se levanta e veste uma calça jeans. Procuro o tênis e calço nos pés do Derek enquanto ele veste a camisa. Ele ri. – É esplêndida a maneira como você se torna prestativa quando quer alguma coisa, hein? Não tenho tempo para as suas piadinhas. Em vez disso, puxo a sua mão e saímos em disparada. Descemos a escada, passamos pela segunda sala, pela primeira, atravessamos a porta, passamos pelo jardim, chegamos na garagem e logo me jogo dentro do carro. Escorrego-me no banco e puxo o cinto de segurança. E lá estamos nós indo rapidamente em direção ao Teatro Velho. Repenso todas as peças que estudei. Sei quase todas as peças de Shakespeare e algumas do Victor Hugo. Em suma, tenho um pouco de cultura, o que já é um ponto extra. Descemos do carro e eu praticamente corro e entro no teatro com um sorriso no rosto. Dessa vez nada de ruim vai acontecer. Esse papel é meu. Meu e de mais ninguém! Vou até a bancada onde tem uma enorme faixa com uma palavrinha escrita em letras avermelhadas: INSCRIÇÃO. Uma mulher rechonchuda está sentada na cadeira entregando listas de inscrições para pessoas como eu, ou seja, com um sonho de poder brilhar nos holofotes. Sorrio para ela. É um sorriso de atriz, aquele que diz: sou a única aqui capaz de viver a protagonista. – Boa tarde! – Digo, com um sorriso incólume, meu bem. – Eu queria me inscrever para o papel da protagonista. – Aham. Você e as outras trinta e sete garotas. Oquei, trinta e oito – ela me entrega uma lista. – Responda esse questionário e me devolva no fim de sua apresentação. Espero que tenha alguma peça em mente, pois os testes também começam hoje. Boa sorte. Tudo bem. Sou a trigésima oitava e a vontade que tenho é a de destruir a gorda sentada na cadeira de inscrição. Ela não é nada hospitaleira. Peço uma caneta ao Derek e nós dois nos sentamos nas


poltronas vermelhas. Preencho os espaços em branco. Ótimo. Quando termino o meu afazer, observo minhas concorrentes. Não são tão belas quanto eu. Brincadeira. Sou uma coisa feia perto de algumas garotas com seus rímeis e cabelo pranchado. Elas usam roupas de festa enquanto eu pareço um moleque de calça jeans, Converse e cabelo desgrenhado. Nada de chapinha. Isso é literalmente injusto! Muito injusto! – Porra – sussurro. – O que você disse, Alice? – Nada – pisco para o Derek. Eu nunca fico nervosa, mas agora estou terrivelmente nervosa. – Quer dizer, olhe para essas garotas... São todas, hum, lindas demais? Olhe para o meu cabelo, Derek. São fios de vermes! – Ah, meu Deus, vai começar a crise existencial. Essa é a vida que escolheu então aguente. Concordo com a cabeça. Espero que ele diga que eu sou linda e, é claro, o Derek não faz isso. Cruzo as minhas pernas e ainda me sinto feia. Penteio meu cabelo com os dedos e passo brilho labial. Sinto-me bem melhor. O burburinho para no ar quando uma voz no alto falante diz que os testes vão começar em um minuto. Primeiro, os testes para a Júlia, depois para o Lucas e depois para os antagonistas. Será uma encenação livre para escolher os dez primeiros. Depois entraremos no clima. As luzes são reduzidas. Um rapaz anda na fileira para se sentar em uma das cadeiras vazias ao meu lado e tropeça nos meus pés. Eu protesto. – Ei! Não olha para onde anda? – Desculpe, eu não sabia que ia estar escuro por aqui. Ele se afunda na cadeira ao meu lado e, apesar de estamos na penumbra porque todas as luzes estão centradas no palco agora, acho ele bonitinho. E então começa. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. A décima primeira concorrente sobe no palco. Ela parece a Barbie com cabelo loiro prateado, pele polida e lábios rosados. Seu nome é Anne e tem dezoito anos. É Gaúcha, mas se mudou para Bahia quando tinha sete anos. O que vinha adiante eu não sei mais porque o rapaz ao meu lado me cutuca com o cotovelo. – Você está aqui por conta do papel? Não, estou aqui por que gosto de me sentir inferior. – Sim. – Legal. – Ele fica em silêncio e concorda com a cabeça. – Você não me parece nem um pouco confiante. Viro meu rosto para ele e não acredito no que acabei de ouvir. Arreganho a minha boca porque me sinto totalmente confiante, quer dizer, não totalmente. – Você está aqui por conta do teste? – Pergunto e ele concorda com a cabeça. – Você também não me parece confiante. – Para ser sincero, não estou mesmo confiante. Minha mãe que disse que eu deveria tentar dessa vez, já que eu queria isso um tempo atrás. Lambo os lábios. Nunca conheci um cara que sempre quis ser ator, com exceções dos gays. Mas nessa pequena cidade tudo é estranho e pelo menos esse cara do meu lado não parece nada gay (rótulos, mais uma vez. Que coisa!). Perdão! – Então, qual o seu nome? – Ele me pergunta. – Alice – digo. – Jonathan .


Trinta e sente. Sorrio para Jonathan e depois me levanto, olho para o Derek que também se levanta. É a minha vez de brilhar. Atravesso a fileira de cadeiras vermelhas e me aproximo da mini escada que dá acesso ao palco. Eu e o meu melhor amigos paramos e nos abraçamos. Ele me deseja boa sorte. Trinta e oito. Sou eu. Subo os degraus e me posiciono bem no centro do placo. Meu coração pula e protesta em meu peito. Sorrio porque essa é a única coisa que sei fazer de verdade. Coloco uma mecha do cabelo atrás da orelha e espero ouvir a voz do homem baixo e de cabelo preto liso. Ele está com o microfone e sentado ao lado de uma mulher elegante e de óculos enorme. – Seu nome? – Alice. – Lambo os lábios, tenho que soar desinibida. – Alice Barrelin. – De onde? – Daqui mesmo, Feira de Santana. – Nos fale um pouco de você. Ótimo, chegamos onde eu queria. Na verdade, eu adoro essa parte. Sempre gostei de falar sobre mim. Talvez porque eu tenha uma história bem dramática para contar. Hum... – Tenho dezenove anos e faço faculdade de Biomedicina, embora meu maior sonho seja o de me tornar uma atriz. Moro em uma minúscula casa que eu a chamo de antro. Não conheci o meu pai e a minha mãe foi embora quando eu era criança. Levou com ela a minha irmã gêmea. Fiquei sozinha, quer dizer, com uma amiga da minha mãe que, na verdade, foi a minha madrinha. Porém ela faleceu tem uns três anos. Tenho um melhor amigo que faz tudo por mim. Falo muita besteira e sou péssima em matéria de relacionamento. Meu livro e peça preferida é Dom Casmurro. Odeio ser contrariada e acho que a única coisa que sei fazer de verdade é ser outra pessoa. – E por que você acha isso? – O homem pergunta. Meus olhos ardem e penso que vou chorar do mesmo modo como quando descobri que a minha mãe foi embora. Encaro a platéia. Encaro o silêncio. Encaro o olhar dos dois jurados. Encaro a mim mesma porque sei a resposta. É a única coisa que sei. – Porque é mais fácil ser outra pessoa. Às vezes, é esplendido fugir da realidade, mesmo que por alguns segundos. Paro de falar porque não quero parecer fragilizada para esse monte de pessoas curiosas e estúpidas. A verdade é que gosto de ser outra pessoa porque não quero ser eu mesma; ser eu mesma é como encarar um monte de problemas e questões; é se afundar num mar de lamentações. E eu quero ser outra pessoa. Outra Alice. Não essa Alice. Não aquela Alice abandonada pela mãe. Eu sempre me perguntei se o fato dela ter me abandonado significa que ela me odeia ou me ama mais do que a Belle. Por que a Belle? Por que não eu? – Então, Alice, você tem dois minutos para nos mostrar por que merece ser a nossa Júlia. Meneio a cabeça em um sinal de concordância enquanto vasculho a minha mente em busca de um monólogo interessante. Não consigo raciocinar nada. Resolvo começar com a fala de Julieta, da cena V, quando o Frei Lourenço recebe o jovem casal. – “Meu amor é muito grande e não posso controlá-lo...” Droga! Meu celular toca tão alto que sinto a música ecoar por cada canto do teatro. Risos também ecoam quando faço uma tentativa frustrada de desligar o celular e, quanto mais eu pressiono o botão vermelho, mais o bicho continua a tocar e tocar. Vejo o nome: Alec. Vejo o nome brilhar como uma imensidão de estrelas, um tapete em neon, diamantes que brilham por conta da luz.


– Desgraçado! – Falo, digo, grito porque não acredito que ele interrompeu meu momento pela segunda vez. E existe algo dentro de mim que implora por este telefonema. Meu eu grita e, sim, quero atendê-lo. Quero deixar tudo para lá porque é a minha vida amorosa que importa. Quero ser a Júlia, mas também quero o Alec. Estou numa via de mão dupla e preciso optar. Terei milhares de testes para fazer e apenas um Alec, mesmo que esse desgraçado, petulante e irritante não me mereça. No fim surge aquela velha esperança, aquela que me arrasta para a desilusão. Mais uma vez é a esperança que me move. A esperança que desta vez o Tratado de Tordesilhas será assinado. – Alô?! – Murmuro e a minha voz embriaga o teatro. – Alice? Hum... – Oh, então ele está sem saber o que dizer. – Você tem um minuto? Sim, pra você tenho todo o tempo do mundo. – O que você quer?! – Me desculpar... Por ter sumido. Ótimo. Começo a andar de um lado para o outro e o som dos meus passos dançam no salão. Concentro-me em sua voz e na minha por que não posso me passar como desesperada. Não para esse filho da mãe. – Oh, vê se eu entendi bem Alec, você... Você está me ligando para pedir desculpas por ter sumido? – Dou um riso irônico porque essa ocasião merece. – Acha mesmo que me importo? – É. Quero dizer, depois que nos beijamos, depois de tudo o que aconteceu... – Depois de tudo o que aconteceu? Alec, foi só um beijo! Quer dizer, dois. Por que você acha que de repente esse beijo significa algo esplên- dido?! – Murmuro com raiva. Ouço o som da sua respiração e queria entender o que ou o porquê dele ter me ligado. Por que preciso de uma explicação sobre o seu desaparecimento? Se bem que queria muito saber por onde ele andou. – Porque achei que significou algo esplêndido. Você é diferente, Al- ice. – Eu sou diferente? – Franzo a testa. – Ah, não me venha com essa coisa de ingenuidade de novo porque eu sou tudo, menos burra. – Não te acho burra. Gosto de você, Alice. Concordo com a cabeça porque essa revelação me quebra toda. Ele gosta de mim. Oquei. Ele gosta de mim como amiga ou de um jeito especial? Se bem que direta ou indiretamente eu disse que o nosso beijo não significou nada quando, na verdade, significou tudo pra mim. Vi-me saindo de dentro de um casulo que eu mesma criei. Eu e as coisas tolas que a minha mãe disse. – Você gosta de mim? – Digo, meio meiga, meio ogra. – Sim, eu gosto de você, Alice. Por isso quero me desculpar. Sei que deveria ter dado as caras antes, mas eu só estava tentando entender as coisas. De novo essa coisa de entender. – Vamos, Alec, o que você está tentando entender? Que diabos está escondendo de mim? – Não estou escondendo nada de você, Alice. – Faz de conta que eu finjo que acredito. Então, conseguiu entender? – Consegui. É por isso que quero me encontrar com você hoje à noite. Tudo bem para você? – Sei não, da última vez que você me convidou para jantar fiquei com cara de tacho, vestida para matar e me lamuriando. Ele ri e o seu riso é um Oásis. – Dessa vez será diferente. – Então tudo bem, Alec. Às oito. Se você aparecer, serei a mulher mais feliz do mundo. Porém, se


você furar comigo, vai partir meu coração. – Às oito. Agora tenho que ir. Até breve. – Até breve. Então o silêncio mortal. E eu sorrio, bato o celular na mão porque ele me convidou para sair, o que quer dizer que talvez eu signifique algo para o Alec, e não só mais uma boca. É ai que quebram o silêncio mais delicioso do mundo. – Muito bem, Alice, seu tempo acabou. Caio na real e me sinto desesperada. Franzo o cenho porque estou pronta para protestar. – Mas eu nem me apresentei! – Fiz a escolha certa? – Temos certeza que fez uma ótima apresentação, Alice. Agora, por favor, temos outros concorrentes para assistir. As palmas brotam como cupim em madeira podre. Não fiz uma óti- ma apresentação porque nem ao menos me apresentei, e isso é de matar. Estou tão desapontada que sou capaz de... de chorar em público porque, mais uma vez, querendo ou não, o Alec destruiu minha apresentação – mesmo que por uma causa boa. Desço as escadas e migro na direção do Derek. Admiro-me por encontrar o Jonathan ainda sentado ao lado da minha cadeira vazia. Escorro na cadeira pela segunda vez. – Não acredito que o seu monólogo foi sobre o Alec! – Murmura o Derek, indignado. Fuzilo-o com os olhos porque não entendo. – Não fiz monólogo algum. – Claro que fez! – Ele faz uma careta. – Não... – Outra careta. – Não! Não acredito que você estava falando com ele de verdade! – Sim, foi exatamente isso que aconteceu. – Alice, Alice, Alice... Então essa história de sair com o Alec é pura verdade? – Concordo com a cabeça. – Não pode sair com ele. – Me bata uma garapa, Derek. É óbvio que posso e é exatamente isso que irei fazer. Sairei com o Alec hoje, às oito. É a vez do Jonathan falar, essa alma que nem ao menos conheço. Sei disso porque ele me cutuca como uma criança do jardim de infância. – Escuta, você vai sair com um cara chamado Alec? Não foi uma encenação? Faço cara de entediada, pois não entendo porque as pessoas de repente parecem indignadas. Não tenho culpa se o Alec me ligou. Não tenho culpa se eles acham que essa droga de conversa foi o meu monólogo. – Não. Não foi uma encenação. – Hum. Sabia que o meu melhor amigo se chama Alec? Olho-o com interesse. Nos últimos dias todo mundo parece conhecer algum Alec, levando em conta que há uma semana eu não conhecia nenhum Alec lindo e tudo de bom. É verdade. – Oh, isso é uma coincidência e tanto. – É, com certeza. – Ele faz uma careta cética. – Mas só para esclarecer as coisas, você não vai sair com nenhum Alec Benson, vai? Não, vou sair com o Alec Salles e não me parece sensato dizer sobrenomes alheios. – Não. – Ótimo! Esse meu amigo Alec é uma furada. Bom, com certeza não estamos falando do mesmo Alec. Primeiro, ele não convida garotas para sair, ainda mais em plena noite quando ele pode faturar muita grana.


Sorrio e reviro os olhos. – E o que ele faz à noite, hein? – Ele faz sexo. Mordo os lábios ainda com um sorriso no rosto e já não sei o que pensar. Estamos tecnicamente falando de um cafetão? Gigolô por acidente? Oh, nossa, bela pessoa para se considerar melhor amigo. Aliás, como será ser melhor amigo de um cara que faz sexo? Se bem que todos os caras fazem sexo, a não ser que seja um doente ou assexuado. – Você está dizendo que o seu Alec é um garoto de programa? – Pergunto. Ele ri. – Estou dizendo que o meu melhor amigo, Alec, é garoto de programa e nunca convidaria uma garota para sair. Pode ficar despreocupada. Claro que estou. O Alec que eu conheço, o meu Alec, nunca venderia aquele corpo lindo e maravilhoso. Não com sua cara de menino-homem. Faço uma careta de nojo e imagino o Alec deitando todos os dias com uma mulher diferente... Quer dizer, é obvio que um garoto de programa não pega só mulheres. Para ser bem sincera, deve pegar mais homem do que mulher. Oh, que nojo! Imagino uma coisa que escapa da minha boca grande... – Sabe aquele ditado: “diga com quem tu andas que eu te direi quem tu és”? – Você está sendo preconceituosa. – Não estou. Só estou curiosa. Além do mais, você é tão... garboso. Oquei, não acredito que eu disse “garboso”. Isso é tão antigo, meu Deus! Então, já que estou soando a estranha, farei uma breve análise do Jonathan . Loiro, totalmente desgrenhado; estatura alta; usa algum perfume cítrico. Seu sorriso é tão lindo. Vamos lá! Vamos dar caras aos bois. Não preciso ser amiga de mais um homem terrivelmente lindo. Não. Realmente não quero ter a minha libido provocada, o que faz de mim uma vadia mentalmente. Minhas expressões geralmente dizem que eu não me importo com esses caras quando, na verdade, o meu interior os deseja ferozmente. Talvez seja assim com todo mundo. Talvez eu não seja uma meretriz de verdade. Ou talvez eu seja. E se o Jonathan fosse uma comida, certamente seria um estrogonofe de camarão. Lindo, cheiroso e deliciosamente saboroso. Tudo bem, deletem essas últimas palavras. – Valeu aí pelo “garboso”. Ficarei feliz pelo resto do dia – ele sorri para mim. – Respondendo a pergunta, eu não sou um garoto de programa e vamos parar de falar sobre isso, tudo bem? – Tudo bem. – E, se encontrar um garoto de programa um dia, nunca pergunte a ele se ele é um garoto de programa. – Por quê? – Por que, se eu fosse um, com certeza me sentiria ofendido. Então, quiçá eles se sintam também? – Ele ri com a coisa nada a ver que disse. - Na verdade, não é nada disso. Existem muitas pessoas preconceituosas por aí. Isso é um trabalho como qualquer outro, porém sou defensor da ideia de que algumas coisas nunca devem ser perguntadas. – Tudo bem, já entendi. – Ótimo. Viro o meu rosto para o Derek. Prendo o riso porque o Jonathan é de longe a pessoa mais estranha que já conheci depois do Derek, é claro. Segundos depois, ouço os alto-falantes dizendo que os testes para Júlia foram encerrados e que logo divulgarão os resultados. Por ora eles darão continuidade aos testes, só que agora aos Lucas. Olho a ficha no colo do Jonathan e vejo que ele é o


número oito. Pelo visto o Jonathan chegou bem cedo por aqui. Uma hora depois eu estou dentro do carro do Derek ouvindo uma música qualquer, vendo os carros passarem depressa, as pessoas passarem depressa, o mundo passar depressa. Sei que vocês devem se perguntar com que objetivo o Jonathan surgiu nessa história, assim como devem querer saber o que ele disse no palco quando pediram para que ele falasse sobre si mesmo. Ah, vocês também devem querer saber o resultado. Pois bem, como não quero prolongar essa conversa, pegarei um atalho para o momento em que, ironicamente, eu olhei o resultado. Estava todo mundo um em cima do outro querendo saber quem foi a selecionada e o selecionado. Quase pulei em cima dos pescoços alheios porque ninguém mais do que eu merecia ver o resultado e, apesar do meu monólogo não ter sido de verdade um monólogo, parte de mim disse que o meu rostinho angelical conseguiu persuadir o jurado de que eu mereço ter o meu nome no topo da lista. Mereço ser a Júlia. Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Procurei pelo meu nome na lista e não o encontrei. Li e reli porque talvez eu estivesse cega. É obvio que o meu nome estava lá. Tinha que estar lá! Não estava. Meu nome não estava. Não tinha nem ao menos uma Alice. A vontade que tive foi a de chorar, e não chorei. Continuo a encarar a lista. Ouço o grito das garotas, ouço a derrota zombar de mim e eis que sinto um cutuque como aquele feito mais cedo pelo rapaz com o sorriso exuberante. É ele, o Jonathan . – Ei, Alice, aqui está você. E então? Pronta para ser a Júlia? Confesso que tive vontade de mentir. Não queria passar recibo de perdedora, mas não consegui. Além do mais, ele poderia ver que o meu nome não estava na lista. – Não, eu não passei. – Faço cara de desdém. – Na verdade eu nem queria esse papel mesmo! Sei que o que digo pode ser considerado uma blasfêmia para os admiradores de cultura, até para mim, porém não consigo assumir que sou uma perdedora. Recalque. – Ah, que pena! Estava contando com você para ser a minha parceira. Você sabe, agora teremos que fazer uma encenação dupla. Estou literalmente chocada. Como o Jonathan conseguiu passar e eu não? Levo meu olhar para a lista de candidatos ao papel do Lucas e encontro o nome dele em primeiro lugar. O topo da lista. O meu lugar. Parte de mim está feliz. Pelo menos ele não roubou o papel de Júlia. – Oh, parabéns, estou muito feliz por você. – Obrigado! Uma garota me tomba e eu cambaleio e caio nos braços do Jonathan. Nossos olhares se encontram e eu me recomponho. Pessoas sem classe! – Acha que podemos trocar telefone? Assim, para o caso de acontecer novos testes. Conheço várias companhias de teatro. Sorrio. – Claro que sim! E foi assim. Trocamos telefone e agora estou no carro do Derek admitindo a mim mesma que eu adoraria sim ser a Júlia do Jonathan.


Ah, e agora voc锚s me respondam: com que objetivo ele surgiu nessa hist贸ria? Na minha hist贸ria?! Hum? Quem sabe, afinal?


Capítulo Sete Louco apaixonado Ando de um lado para o outro terrivelmente abalada. Primeiro, perdi no teste para o papel da Júlia. Segundo, acabei de ver no Facebook algo que estou corriqueiramente acostumada a ver, mas nunca preparada o bastante. Felicidade. Isso. Uma única palavra e com um significado enorme. Como, por exemplo, acabei de ver que o carinha que eu era afim no ensino médio simplesmente mudou seu status de “solteiro” para um “relacionamento sério” embora eu esteja me perguntando o que significa um relac- ionamento sério. Às vezes odeio o Facebook porque é lá que estão praticamente a vida de todos. É sério. Se você quer saber se fulano conseguiu ficar rico, aperte F5; Se ela comprou roupas novas, aperte F5; Fulano vai se casar, aperte F5. E assim por diante. E, bom, vamos esquecer essa parte e pular para o terceiro quesito: de novo não tenho uma roupa apropriada para ir a um jantar chique. Bem que o Alec pode não me levar a um jantar chique, mas estou confiante. Sempre estou confiante. Estou nervosa também porque não sei o que fazer e não sei o que vestir. Não tenho ninguém para conversar. O Derek dormiu – na minha cama – e disse que não quer ser alugado por minhas crises fúteis e que seria melhor eu escrever um blog onde poderei compartilhar com outras garotas da rede os meus problemas que, na verdade, são maiores do que qualquer coisa. Sento diante do meu computador branco e cruzo as pernas. Mordo a queratina dos meus dedos que são, na verdade, as cutículas pequenas e sopro o meu cabelo cor de merda. Hoje ele está tão feio que chego ter vontade de chorar. Opa. Alguém no Facebook acaba de me adicionar. Encolho os olhos e levo o mouse até o topo. Faço uma oração para que seja um homem lindo, gostoso, totalmente maravilhoso e quer me ter muito entre seus amigos. Clico. Não pode ser verdade. Não pode! Jonathan Fantin. Esse é o nome. Entro em seu perfil e dou de cara com a foto dele, digo, uma foto onde o lindo Jonathan está com os lábios franzidos, boné e uma Polaroid nas mãos fazendo uma careta sexy que, particularmente, pode levar muitas garotas ao orgasmo. Dois minutos se passam e eu ainda estou passando a seta do mouse pra lá e pra cá me perguntando se devo aceitar o seu convite, o que é mais justo porque, se eu não aceitar, ele vai começar a pensar que não gosto dele embora tenhamos nos conhecido hoje. Sim, gosto dele. Oquei. Vamos ser honestos comigo. Não me lembro de ter trocado perfis com Jonathan, o que o torna, hum, digamos, perseguidor. Por que di- abos um cara que conheci hoje me quer entre os seus amigos no Facebook? Talvez ele seja uma dessas pessoas que quer apenas ter um perfil lotado ou coisas do tipo. No fim acabo aceitando o seu convite. Cinquenta por cento por causa do seu sorriso e os outros cinquenta por conta da Polaroid. Eu amo a Polaroid. Instantaneamente aparece uma janela aberta e que não para de piscar com o nome Jonathan Fantin. Ele diz: Oi, Alice!!! Lembra de mim? Pois é, eu te achei!


Sim, você me achou. Faço uma careta e fecho todas as janelas abertas, quer dizer, desligo o computador por que três pontos de exclamação significa que ele está muito feliz de falar comigo e ninguém, exceto o Derek, fica feliz em me ver. É legal toda essa atenção, mas também é assustadora. – Não sei, não sei, mas estou com o leve pressentimento de que o seu querido Alec vai furar com você hoje de novo. Viro-me e vejo que o Derek está parado atrás de mim bebendo água numa xícara, o que é politicamente incorreto quando se trata de etiqueta e, de verdade: homens não sabem muita coisa sobre etiqueta. Derek faz isso desde que eu o conheço e, para ser sincera, sempre me pareceu muito sexy. Ah, já que estamos entrando na matéria “passado” eu vou contar a todos porque parei de admirar o Derek publicamente. No passado, tudo o que ele fazia eu achava esplêndido – não sei mesmo porque estou usando esta palavra constantemente. Se ele derrubasse um garoto, eu achava lindo. Se ele dissesse um palavrão, eu achava lindo. Se ele acordasse de manhã cedo e me lançasse o seu bafo matinal, eu simplesmente iria achar lindo e dizer isso verbalmente. Andávamos de mãos dadas pelo parquinho e isso passou a acontecer mais depois que minha mãe foi embora e eu nunca vou me esquecer do que ele disse. Quando eu estava sentada dentro do guarda-roupas, encolhida e amedrontada, ele disse assim: “Não importa o que aconteça, Alice, o mundo pode acabar e eu nunca te darei as costas. Milhões de mães podem te deixar aqui sozinha mas eu nunca te deixarei. Seremos amigos para sempre porque eu te amo muito”. Fiquei um tempo apaixonada pelo Derek porque ele tinha dito que me amava e que nunca iria me abandonar e, geralmente, os garotos não dizem essas coisas aos sete anos de idade. Então comecei a cogitar que um dia me casaria com Derek e prometemos um ao outro que nos casaríamos quando crescermos. (Acho que foi assim...) E então fomos crescendo e eu soube separar as coisas. É aí que eu quero entrar: na aversão no quesito admirar o Derek publicamente. Todos diziam que nós nos casaríamos quando tivéssemos idade; que éramos carne e unha e que eu olhava para o Derek como se ele fosse a última Coca-Cola do deserto! Então parei de dizer que o amava, parei de andar de mãos dadas, parei de ficar com a boca aberta quando ele fazia coisas mara- vilhosas. Eu não queria ser constrangida. Odeio ser constrangida principalmente quando as pessoas não conseguem aceitar que pode, sim, existir uma amizade verdadeira entre um homem e uma mulher. E eu já tive as minhas vontades de querer beijar o Derek, honestamente falando. O seu celular toca e me tira do transe. Para ser sincera, acho que nem me lembro do que ele disse porque mudei a conversa do contexto em minha mente cheia de abobrinhas. Ele está falando com a Lena. Sério? Ele está falando com a Lena?! Derek desliga. – Espera aí! Está acontecendo alguma coisa que eu não sei? – Franzo o nariz para fazer aquela típica cara de nojo. Ele se senta em meu colo e penso que as minhas pernas vão se quebrar porque eu não aguento todo esse peso (sendo que ele nem está colocando todo o seu peso). – Pois é, eu vou sair com a Lena hoje. – E por que você só está me contando isso agora? – Digo chateada. Derek se levanta e começa a andar. Coloca suas mãos no bolso e se vira para mim. Não sei por que


eu sinto essa coisa estranha, como se o mundo estivesse se autoflagelando e logo percebo que eu não deveria ter feito essa pergunta. – Porque você não me deu oportunidade? Porque agora tudo é você? Porque tudo é o Alec ou a roupa que você vai usar quando sair com Alec? Porque a sua vida se resume ao Alec, apenas ao Alec? Não entendo todos aqueles pontos de interrogações e nem a ironia na voz do Derek. Ele está exagerando. – Do que você está falando? – Banco a desentendida. – Só estou dizendo que você não tem me deixado falar, entende? – Não, eu não entendo. Não entendo porque me parece que está com ciúmes, Derek. Sim, é isso. Ele ri. Mais uma vez irônico. – Eu posso estar com tudo, Alice, menos com ciúmes. Você sabe que não tenho ciúmes de você. Quero que seja feliz... Mas desde que você beijou uma boca, desde que beijou o Alec, as coisas ficaram estranhas. Você só quer falar dele, sobre ele. – Isso não é verdade. – É claro que é verdade... Ei, você destruiu as suas chances de ser a Júlia para atender ao telefonema dele. Tem noção disso? Sabe por que você perdeu essa, Alice? Sabe? Porque eu sei. Eu sei. Ele sabe. Nós sabemos. Mas ele não precisa jogar na cara. Não precisa me dar uma lição de moral agora porque ele não tem esse direito. Derek não pode sair me dizendo tudo o que lhe vem à cabeça... Se bem que ele sempre fez isso, ele sempre jogou com a verdade. E por que agora não quero ouvir? Por que pareço ofendida? – O fato dele te beijar, o fato dele te convidar para sair, o fato dele parecer ser o príncipe encantado só porque sorri e exibe aqueles lindos músculos não quer dizer que ele esteja apaixonado por você, Alice. Talvez o Alec só queira brincar com você e com os seus sentimentos... – Porque é exatamente isso que está acontecendo com você – rebato porque agora já não aguento mais ouvir a verdade. É mais do que isso: eu também quero dizer a verdade, também quero ofender. – O fato de a Lena aceitar o seu convite para sair não significa que ela esteja afim de você. – Deixo um riso irônico escapar dos meus lábios. – Derek, entre você e eu aqui, o que mais parece estar perdido no bosque é você, tá legal? Cara, você se apaixonou por uma garota que viu apenas uma vez... – digo com desdenho. – Não estamos falando de mim aqui, porra! – Mas eu estou falando de você. Que droga! E para de falar palavrão, tá legal? Você é um fracassado, Derek, e não tem direito de dizer que estou perdida em um mundo que não existe porque não fui eu quem se perdeu primeiro. A Lena nem te dá condição, em primeiro lugar. Ela te evita no bate-papo e nunca comenta os posts que você a marca e, quando você comenta algo que ela posta, bem, milhares de caras comentam e ela responde a todos. Menos a você. Ela nunca te responde. E, e... Ah, ela só quer falar com você quando ela quer falar, tipo, “Estou com saudades de conversar com Derek!”. Está com saudades o caramba! – Chega, Alice! – Não! – Para, Alice! – Estamos falando a verdade um para o outro. Lavação de roupa suja! Ele começa a andar de um lado para o outro e isto significa que a qualquer momento ele pode desmoronar. Joguei pesado, eu sei... ... E me arrependo de tudo o que disse. – Desculpa. – Digo. – Você tem toda a razão, Alice – ele diz em uma voz fria e com as mãos na cintura. – Tem toda a


razão, porém eu não aceito as suas desculpas porque você realmente quis dizer isso, esse é o seu problema. Você gosta de manipular as situações, gosta de dizer todos esses disparates e quando percebe que foi longe demais, que está prestes a perder algo e que finalmente conseguiu dizer tudo o que sempre quis, você pede desculpas. Sempre foi assim e agora não vai ser diferente. –... Eu realmente sinto muito... – Tudo bem, tudo bem. Acato suas críticas, ou seja lá que diabos tudo isso signifique... Mas eu só quero que saiba uma coisa, Alice: quero que saiba que o fracassado dessa história aqui não sou eu. É você. Eu sempre fui atrás do que é meu. Calmo e lentamente, pode se dizer. Mas eu sempre fui atrás, ao contrário de você que sempre andou para trás... Você não consegue dar um passo a frente sem que pense no que as pessoas vão dizer. Isso não é vida, tá legal? Precisa abandonar essa criança boba que existe dentro de você porque nesse mundo ou se é ou não é. Ou se é uma garota mal ou se é uma garota boa. Não dá para ser os dois. E o que me diz? O que me diz agora? Hum? Eu sou o fracassado aqui? Meus olhos ardem. Mais uma vez o Derek tem razão de tudo mesmo que as coisas não entrem em foco agora. Só que eu não consigo olhá-lo, não consigo me lembrar de quando essa discussão começou. Há dez minutos éramos o Derek e Alice de sempre e agora já não o conheço. Eu já não me conheço. E é a primeira vez que usarei as palavras que estou prestes a pronunciar para ele. – Quero que você vá embora. Agora! – Pestanejo porque parte de mim não quer dizer isso, não quer que ele vá embora. Quero que ele fique e diga que tudo foi um blefe. Eu o assisto calçar o seu par de tênis. Observo-o pegar as chaves do carro em cima da cômoda. Quero sair correndo atrás dele. Quero me render e pedir desculpas mais uma vez. Porém estou muito ofendida porque eu não sou uma manipuladora! Vejo-o sair pela porta sem nem ao menos olhar para trás, sem nem ao menos parar no meio do caminho. Caminho para fechar a porta e o vejo dando socos no volante dentro do carro. Mais uma vez: não sou uma manipuladora. O motor do carro ronca e o Derek se vai sem previsão para voltar. Nem ao menos sei se ele voltará. Só porque eu briguei com ele – ele brigou comigo – por um homem que conheci há pouco tempo. Por um cara que pode estar apenas a fim de me usar como um prato descartável porque é isso que a maioria dos homens fazem. Menos o Derek. Ele nunca faria isso com uma garota. Quão irônica é a vida? Logo o homem mais certo do mundo é desprezado por uma garota idiota. E ela nem é tão linda assim! Então percebo que, por enquanto, será somente eu e eu. Não existe mais o Derek. Ele não vai dar o braço a torcer e eu também não o darei, principalmente depois de ser chamada de manipuladora. É a primeira vez que me vejo sem o Derek, sem o meu melhor amigo. Sem aquela parte de mim que diz que tudo vai ficar bem quando nada vai ficar. Então eu grito até que me falte o ar... E eu já estava pronta. Vestido vermelho, sapatilhas, cabelo escovado e uma franja extra. Vocês devem estar se perguntando onde está o salto alto. Pois bem, resolvi não usar. Acho que, se o Alec gostar de mim, quero que ele ame as minhas sapatilhas! Minutos depois vejo a mensagem no meu celular a qual diz assim: “Oi, aqui é o Alec. Peço desculpas. Estou enrolado aqui e vou chegar atrasado. Será que você não pode me esperar no restaurante? Fiz reserva!” E logo em cima dessa mensagem tem outra com o endereço do restaurante.


Ótimo. Ando de um lado para o outro porque me parece que o Derek tem razão. Talvez eu esteja sendo só usada! Esse não é o comportamento de um cara quando ele está interessado em uma garota, é? E quem foi que disse mesmo que ele está interessado em mim? E se o Alec só está afim desse jantar para se desculpar comigo e dizer que não está tão afim de mim? Mesmo assim, seja lá o que ele tenha a dizer, eu irei a esse tal restaurante. Melhor pecar pelo excesso. O pior é que agora não tenho a carona do Alec, tampouco a do Derek. Isso me deixa dividida em gastar uma fortuna com o táxi ou pagar uma mixaria no ônibus em que passarei mais tempo do que quero dentro dessa coisa ambulante cheia de estereótipos. Táxi, você venceu! E enquanto o táxi chega, faço uma ligação para o Derek. Chama, chama e ele não atende. É óbvio que ele está vendo o meu nome piscar na tela do seu gallaxy. O Derek está apenas me castigando como se eu tivesse ajudado a construir a cruz e a coroa de Jesus Cristo! – Oh, Derek, eu sei que você não quer me ver nem pintada de ouro, mas eu não sou uma manipuladora e por isso estou te ligando para pedir desculpas mais uma vez. Eu te amo, seu gay, e essa é a mais sincera desculpa que eu já dei a alguém em toda a minha vida. Desligo o celular e fico um tempo olhando para o aparelho à espera de uma ligação do Derek, a qual não chega e amargura o início da minha vida. Ouço a buzina do táxi. Abro a porta, pego a minha bolsa e dou uma última olhadela para dentro do antro com aquela velha sensação de que esqueci algo. Foi apenas o meu coração. – Oi, tenho uma reserva – digo com a minha bolsa nas mãos – em nome de Alec Salles. A maître me olha com curiosidade e eu me encolho por dentro. Sou um brinquedinho novo? O Alec costuma trazer outras garotas aqui? – É por aqui, senhorita. E eu a sigo, observando sua saia bem presa ao corpo dizendo publicamente que ela não tem estrias. Ela pode não estar usando calcinha. Seu terninho de cor escura está bem passado e a sua polpa deve ter uma tonelada de laquê. Acho que, se acontecer um terremoto ou um ciclone, tudo pode ser destruído, exceto o cabelo dessa mulher que sorrir para mim enquanto me sento na cadeira de madeira. – Deseja pedir alguma coisa? – Não, acho que vou esperar mais um pouco. E de repente eu estou sozinha. Olho para os casais jantando em suas mesas exibindo sorrisos a cada garfada, olhando um para o outro como se dissesse ao seu acompanhante: você é tudo para mim. Também tem as famílias, as crianças que falam alto e sobem em cima da cadeira com suas roupas (e que custam o dobro das minhas). Para ser sincera, não gosto muito de assistir à famílias felizes. Não gosto de saber que nunca vivenciei essas coisas e que nunca soube e nem nunca vou saber o que é o afeto de um pai, uma mãe ou uma irmã. Olho para uma senhora sentada à mesa, bebendo vinho, e chego a conclusão de que ela se parece com a minha mãe. Não que eu me lembre muito do rosto daquela quem me abandonou, mas eu ainda consigo ver pequenos flashes daquele meu passado aparentemente feliz. E talvez aquela mulher possa ser a minha mãe, não pode? Talvez. Não. Pare! Vou contar um segredo a vocês, caros amigos. Hum... Durante toda a minha vida, desde que fui abandonada, eu ando pelas ruas olhando para o rosto de todas as mulheres que passam por mim porque, eu não sei como, alguma poderia ser minha mãe. Apesar de tudo isso, eu não me sinto frágil.


Falo isso porque você deve me achar frágil, e não sou. Você percebe essas coisas quando descobre que terá de ser forte para sempre. Olho para o relógio e o Alec está dezessete minutos atrasados. Belisco o pão em cima da mesa e suspiro enquanto meu estômago protesta de fome. Como o pão cada vez mais depressa, sinal de que estou agitada e, principalmente, com medo do Alec furar o jantar. O meu jantar! Cruzo as minhas pernas e desta vez estou completamente entediada. Balanço a cabeça de um lado para o outro e observo uma família feliz ir embora. Ótimo. O restaurante foi reduzido e ninguém mais entra. Sei disso porque os meus olhos agora não saem da porta. Sinto-me tão humilhada e esquecida. Verifico se o meu celular tem alguma ligação perdida, mensa- gem ou qualquer coisa que me tire dessa monotonia. Nada. Eu disse: nada! Estou muito desapontada e sem dinheiro por causa do táxi. Agora me sinto faminta e estava – ainda estou – contando com o jantar que o Alec me proporcionaria e, mesmo assim, nem sei se ele iria querer rachar a conta, o que seria será uma lástima. Duas horas depois. – Então, senhorita, irá pedi alguma coisa agora? – É um garçom alto e branqueloque me pergunta. Olho para ele e agora sou uma gata vira-lata em ânsia por uma espinha de peixe. – Água – digo. – Olha, senhorita, se não vai pedir nada, peço que desocupe a mesa. Precisa desocupar a mesa. Sinto-me derrotada e penso que vou chorar. Meus olhos ardem mas não é por conta da humilhação: é raiva. Faz mais de duas horas que estou sentada nesta cadeira comendo um pão integral, despedaçando as flores e com a bunda quadrada. – Posso esperar só mais um pouco? – Pergunto. – Olha... – Por favor, só mais quinze minutos, estou esperando meu... – meu o que? Namorado? Ficante? Meu “sei lá o quê”? – Amigo. – Tudo bem, quinze minutos. – E não se esqueça da água. Sorrio. Ele me lança um olhar de “você está pedindo demais garota”. Minutos depois, podem apostar, tem lágrimas descendo em meu rosto. Não sei por que, mas acabo de ser abandonada pela segunda vez. Como o Alec pôde fazer isso comigo? Como ele marca um jantar comigo, me faz vir a um restaurante e não aparece? Será que isso é engraçado? É engraçado brincar com os sentimentos dos outro? Pior ainda: será que faço parte de uma aposta? Sim. É claro que um homem como ele nunca se interessaria por uma xucra com roupas da moda como eu. Apoio a cabeça na mesa e bato contra o tampo três vezes, fazendo os pratos, taças e talheres sacudirem como se um terremoto acabasse de passar por aqui... – Bem, você precisa ir agora, garota. Preparo-me para levantar quando... Quando... Quando vejo um rapaz entrar apressado no restaurante, como se lhe faltasse o ar. E então ele para defronte a mesa em que estou sentada, com as mãos na cintura. Eu sorrio. Não é o Alec quem aparece, se quer mesmo saber. É o meu salvador, aquele quem me tira de todas as furadas. A vontade que tenho agora é a de me atirar em seus braços e beijar todo o seu rosto porque não fui abandonada de verdade. “Não importa o que aconteça, Alice, pode o mundo acabar e eu nunca te darei as costas...”


Derek. Lambo os lábios. – O que você está fazendo aqui? – É a única coisa que consigo dizer. O garçom olha confuso pra mim, depois para o Derek e depois para mim de novo. Eu sou a atração da noite, embora ele já tenha visto essa cena milhões de vezes nessa sua vida enquanto trabalha em um restaurante. – Eu vim jantar com você, Alice. E essa é a resposta que, supostamente, milhares de garotas adorariam ouvir. Enquanto você lê isso, você deve estar suspirando e dizendo: “oh, eu quero um Derek para mim também”. Sim, mas a verdade é que só existe um Derek. Só existe um cara que faz isso e ele sorri para mim. Derek puxa uma cadeira e se senta. – Olha, Alice, quero pedir desculpas pelo o que aconteceu mais cedo... –... Eu também... –... Deixa-me falar, tá legal? – Concordo com a cabeça. – Desculpa, não tenho direito de atacar seus sentimentos. Não posso te julgar por que se apaixonou pelo primeiro cara que beijou... Vai ver você gosta dele mesmo, ou não. Daqui a um tempo vai descobrir que foi só capricho. Entende o que digo? Porque foi assim que aconteceu comigo quando beijei a Pâmela no ensino fundamental e você ficou ouvindo a minha apaixonite aguda por um mês. Assim como está acontecendo com Lena agora. Talvez eu não goste realmente da Lena. Quem sabe amanhã eu não descubro que, na verdade, só gosto dela porque ela tem uma alma boa? E, bom, existem milhares de almas boas por ai e nem por isso estou apaixonado... A vontade que tenho é de dizer que a Lena não tem uma alma boa. Pessoas de almas boas não fazem outras pessoas sofrem, fazem? Eu posso ver o sofrimento em seus olhos todas as vezes em que ela não lhe responde ou quando não retorna seus SMS’s, embora eu acredite que ele deva ligar. Tudo bem, ele sempre foi melhor com os textos do que falando deliberadamente. – O que eu quero que você entenda, Alice, é que não importa por quem você esteja apaixonada, seja um mendigo ou um mercenário, eu irei te apoiar. E também vou abrir os teus olhos quando necessário porque é isso que um amigo de verdade faz. Um amigo de verdade diz o que a gente não quer ouvir para o nosso bem, bem como você fez hoje mais cedo, como eu fiz, enfim. E, bom, acho que no fundo, no fundo estou com ciúmes porque achava que podia não ser mais Alice e Derek, Derek e Alice. Para ser sincero, tenho muito medo de te perder, Alice. Você sempre foi e sempre será a coisa mais importante no mundo para mim. É isso. Você acha que me perdoa? E a resposta está pendurada em mim, tatuada na menina dos meus olhos. Choro de felicidade porque essas são as palavras mais lindas que alguém um dia disse para mim. Levanto-me, vou até ele e lhe dou um abraço de urso a mercê dos olhos humanos. A coisa toda se torna uma tragédia quando desfaço o abraço. Piso no pé do Derek, tropeço, e bato com as costas em um garçom que carregava uma bandeja, o qual cambaleia para trás e derruba tudo no chão. Arregalo os olhos e levo a mão até a boca. – Valei-me! –Ouço alguém gritar. – Senhorita! – A maître marcha em minha direção como uma sargen- tonarobótica! Sei quando é a hora de sair à francesa... Ou quase isso. Seguro as mãos do Derek e adianto os passos porque é o mais sensato a se fazer. – Mil perdoes a todos! Desculpem! Desculpem! – Grito e nem olho para trás para não ver o estrago. – Foi mal, pessoal!


– Voltem aqui! – A sargentonagrita... A essa altura o Derek e eu estamos indo em direção ao carro. Jogamo-nos no banco. Minutos depois estamos em uma barraquinha de cachorro-quente nos deliciando após eu reclamar que estava faminta. Estou no segundo cachorro-quente e com a ponta do nariz suja de mostarda. Em seguida eu caio em si. – Ei, Derek, como você sabia que era aquele restaurante? Ele olha para mim com a boca cheia e responde assim mesmo (não me importo se ele fala de boca cheia). – Eu te segui. – Seguiu? – Franzo o cenho e finalmente limpo a ponta do meu nariz. – É, segui. Depois que você me disse todas aquelas coisas eu não fui embora: fiquei à espreita. Parte de mim dizia que o Alec iria aprontar. Então, quando o táxi parou na porta do antro, decidi te seguir. Esperei, mas ele não apareceu. Cheguei à porta e vi você sozinha na mesa e pensei “ah, ele deve estar chegando”. Então voltei para o carro e fiquei esperando e aí decidi entrar de uma vez. Fiz bem? – Sim, claro que sim. Quer dizer, você foi excepcional. Obrigada. – Tudo bem. Não é de hoje que eu te tiro de roubadas. Concordo com a cabeça. Não estou mais com aquele sorriso galanteador. Estou sendo mutilada por dentro porque a minha esperança com relação a ter um relacionamento com um cara foi, literalmente, para o brejo. – O que será que aconteceu com o Alec? – Derek pergunta. Dou de ombros. – A gente pode não falar sobre o Alec? Pelo menos por hoje? Ele concorda com a cabeça e atira a bolinha feita de guardanapo em cima da mesa. Enquanto observo seu semblante cair, percebo que tem algo errado. Sim, claro, existe uma peça faltante no quebra cabeça dessa noite. – Espera Derek... – grito estatelada. – O que foi? – O que foi o quê? – Agora faço uma careta que significa o quanto estou indignada – Derek! – Digo de novo. – O que aconteceu com o seu encontro, hein? O que aconteceu com a Lena? Hum? Derek chupa as bochechas e eu consigo ver cada pelo tentando ganhar vida nos poros de sua bochecha. – Eu não fui. – Não? Ela cancelou ou o quê? – Eu não fui. Eu cancelei... – sinto que ele queria dizer mais alguma coisa, porém, de alguma maneira, as palavras sofrem apoptose em sua boca. – Por que você cancelou? – Insisto. Nada. Essa é uma daquelas cenas em que se fosse um filme você es- taria pensando, delirando por que o Derek se declararia para mim, não é? E, não, somos amigos demais pra isso acontecer (acredito eu). – Sei lá. No fim tudo o que você me disse tinha um fundo verdadeiro. ALena não gosta de mim de verdade e acho que não é legal ficar pression- ando a garota. Ela não tem culpa se eu gosto dela e ela não gosta de mim. Acho que a gente não pode cobrar uma coisa que nunca nos pertenceu de verdade.


– Mas ela topou sair com você. – Sim, por educação, talvez. Bom, a verdade é que isso não importa muito. Você precisava de mim e pronto. Sem mais discussão, Alice. Somos dois pobres apaixonados que conseguiram fazer de uma noite que tinha tudo pra dar certo um verdadeiro fiasco. Aperto as mãos do Derek porque não tenho mais nada a dizer e vejo que a chuva começou a cair. Mais tarde, quando o Derek me deixa em casa, tiro as sapatilhas usando os próprios pés; tiro o vestido vermelho e vou caminhando de calcinha e sutiã até o banheiro. Tomo o banho quente mais demorado de toda a minha vida! Esfrego a minha pele imaginando que assim eu possa apagar a parte terrível da minha noite. Quando termino, visto a minha camisola de algodão e deito em minha cama. Não durmo porque o meu cabelo molhado fez uma mancha d’água enorme em meu travesseiro. Por fim decido que não devo me apegar demais nas minhas des - venturas amorosas. Afinal, tem gente bem pior sofrendo nos hospitais en- quanto eu estou perfeitamente bem, com exceção do meu coração, metaforicamente falando. Ouço batidas na porta e olho para o relógio: já passa de uma da manhã. Será que o Derek esqueceu alguma coisa? Ou pior: será que é um ladrão que descobriu que moro sozinha? Se bem que aqui não tem nada de valor para ser roubado. Caminho lentamente. Meus passos quase que não emitem ruído algum. Paro na porta e tento ver através das frestas. Nada. Silêncio. As batidas continuam lentas e calmas, o que me leva à conclusão que se fosse um ladrão, ele não bateria na porta e diria: “Oi, só estou avisando que vou roubar o seu antro. Com licença, lindinha”. – Quem é? – Pergunto com a voz mais aveludada do mundo. Ouço um ruído do outro lado da porta, o que me parece mais com passos. Isso são passos. Encosto o ouvido na porta e ouço uma respiração pesada. Ainda chove, o que não me parece nem de longe uma ideia legal. – Sou eu. Eu congelo no lugar onde estou e sinto a minha pulsação se acelerar e a boca ficar seca. O que se faz em um momento como este, hum? Vamos lá, me diga! Sei que você aí tem mais experiência do que eu. – Alice? Ele canta o meu nome como sempre faz quando o pronuncia... Quando diz com aquela voz de dor, e ao mesmo tempo de determinação, consegue romper todas as minhas terminações nervosas... Eu sou uma completa bobona! Sinto a endorfina correr desesperada pelo meu corpo porque sei que ele é o meu chocolate amargo e eu quero me deleitar, apesar de estar de dieta.


– O que você quer? – Pergunto determinada. – Conversar. – Ora, Alec, faça-me o favor. Isso não é hora de conversar, tá legal? Tchau! – Digo e decido dizer mais uma vez para poder me certificar. – Tchau, Alec. Silêncio. Ótimo, ele foi embora. Suspiro. Ouço um fungar lá fora que não foi meu. Ótimo de novo, o Alec não iria desistir. Colo minhas costas na porta. – Vamos lá, Alice, eu posso me explicar. Eu juro! – Quem jura, men- te e quem promete, não cumpre, penso. Não digo porque é a coisa mais infantil do mundo. – Só me deixe falar um minuto com você. – Falar o que, Alec? Falar que sim, você me fez de palhaça? Que me fez ir até o restaurante e ficar feito uma estátua de Buda esperando por você? Hum? Isso não se faz, cara. Nem com uma mulher, tá legal?! Deveria ter ao menos a decência e ter desmarcado tudo! – Eu fui até lá... Mas você não estava mais! – Hum! Acha que eu estaria te esperando até agora, Alec? Acha que sou uma idiota, é isso?! – Murmuro irritada, muito irritada. A chuva se choca contra o telhado. – Posso explicar tudo, porra! – Ele grita. – Não quero ouvir suas explicações, seu idiota! – Grito de volta porque, a esta altura, o sangue já me sobe à cabeça... E sobe à cabeça dele também porque, acredite se quiser, o Alec dá socos (?), chuta a porta (?) e grita feito um louco. – Vamos lá, Alice, abra este caralho de porta! Abra agora e deixe-me explicar porque não estou mais aguentando estes joguinhos! Abra, Alice! Abre! Por que tem sempre que bancar a durona, hein? Por que tem sempre que ser a certinha? Cometa erros, mas cometa certo, sua patricinha de merda! Abra a porta e me deixe explicar! Agora! Não! Não! Não! Estou tão assustada que não consigo raciocinar. Meus olhos estão arregalados como os daquele peixe em que os olhos não ficam dentro da caixa. Estou assustada porque posso estar lidando com um psicopata e não sei. Que tipo de pessoa vai fazer barraco a uma hora desta? – Para, Alec, eu vou chamar a polícia! – Chame, Alice! Chame o Papa, a rainha Elizabeth... Chame quem quiser, mas me deixe falar! – Mais socos na porta. – Me deixe falar, caramba! – Você está me assustando! – Retruco. E não existem respostas. Não existem batidas na porta nem ruído de passos e nem o fungar do seu nariz. Lentamente apanho uma cadeira e a coloco contra a maçaneta da porta, caso ele não tenha ido embora. Espero de braços cruzados e mordo a ponta dos dedos. – Alice? Droga! Por que ele não desiste de uma vez? Agora que não abro essa porta mesmo! E se o Alec está armado? E se ele estiver sofrendo de algum distúrbio? Desculpe, querido, você pode ser o deus grego, mas eu não costumo dar a minha cara para bater por aí. Faço qualquer coisa, menos abrir a porta. Torço para que ele esteja bêbado e que tudo isso, toda essa confusão que está verdadeiramente me assustando seja apenas um blefe dele. Sei lá.


– Hum? – Respondo. – Não vai mesmo abrir a porta? – Não, Alec, vai pra casa. – Tudo bem então. – Suspiro aliviada. – Isso significa alguma coisa? Significa que você nunca mais quer me ver? Sim, é isso. Você é um cara esperto Alec, eu nunca mais quero te ver. – Talvez. – Oquei, então vou passar a noite aqui sentado até que resolva abrir a porta e falar comigo. Eu não fiz isso de propósito. – Melhor você ir para casa. – Já está decidido. Coloco as mãos na maçaneta. Não vou abrir a porta. Não vou abrir. Não vou! – Faça como achar melhor – digo. Vou até a minha cama com a certeza de que ele não irá cumprir a sua promessa, não enquanto chove lá fora e faz um frio terrível. Porém, lá está aquela coisa em minha mente, aquela que diz que eu estou sendo má e que talvez ele ainda esteja lá, no frio. Tudo porque não quero abrir a porta. A verdade é que esta noite será bem longa, e é certo que mal fecharei os olhos.


Capítulo Oito Secret Five (Quinto segredo) Abro meus olhos quando ouço o meu celular tocar. Viro para o lado, apanho o celular e o levo até ao ouvido. Ainda estou grogue. Não. Estou destruída como se um carro tanque tivesse passado por cima de mim durante a madrugada. – Alô? – Alice? Você não vai acreditar! É a Ana. Conheço essa voz em qualquer lugar. Ergo meu corpo magro e coço a cabeça com os olhos fechados. – Em...? – Bem, sabe aquela festa? Aquela fechada, que parece pertencer a alguma irmandade e que nunca fomos convidadas? Sim, sei. Ela fala da famosa irmandade Secret Five. Na verdade não é tão famosa assim, mas todos que ouvem falar dela simplesmente ficam loucos para ir. Alguns até, julga-se de passagem, venderiam sua alma para entrar lá. Nunca fui lá, como já devem saber, mas tenho bastante curiosidade. Dizem que é lá onde os caras mais lindos e ricos da cidade se encontram, assim como as garotas lindas, ricas e gostosas. Enfim, para entrar lá você tem que ser convidado por alguém pertencente à irmandade, ou nada feito. Não há venda de pulseiras, ingressos ou coisa do tipo. Só doação. – Secret Five? – Digo em forma de pergunta, certa de que não estou errada. Nunca esqueço nomes. – Isso, Secret Five! – Volto a deitar. – Então, consegui alguns passaportes. – Como você conseguiu?! – Com o Nêmias! – Ela diz como se o seu namorado fosse um astro da TV. – Bem, quer dizer, ele conseguiu com um amigo que é mirchê, aquele que eu disse ser uma má influência. Mas na verdade não importa quem ele é. O importante é que vamos conhecer a famosa Secret Five! Processo em minha mente a palavra mirchê. Quero perguntar para a Ana o que significa mirchê, embora algo em mim grite e diga que, sim, eu já ouvi esse nome em algum lugar, sei o significado e só não estou ligando o nome ao sinônimo. – Não é demais?! – Sim, com toda a certeza. Averdade é que agora morro de medo. Afinal, todo mundo sabe que esses tipos de fraternidades não são lá lugares a serem frequentados, por mais tentador que seja... É como se de repente você estivesse vendendo a sua casa por um pouco de prazer e, depois, quando o delírio chegar ao fim, você percebe que trocou o certo pelo duvidoso e agora você não tem nem prazer nem casa. Mas quero me arriscar!


– Que horas? – Às vinte e três horas. – Não dá, tenho trabalho amanhã. – Ah, Alice, não seja puritana! Você já mentiu antes. Não será a primeira vez que você ligará para o seu trabalho para dizer que não está se sentindo muito bem. Foi a nossa professora quem disse que é melhor ficar em casa do que ir trabalhar e fazer merda. – Tudo bem, você venceu. – Ótimo! Tomei a liberdade e liguei para o Derek. Ele também topou, ou seja, todos querem desvendar o mistério da Secret Five, não é verdade? – Sim. Quantas pulseiras conseguiu? – Dez! Não é fantástico?! Sim, é tão fantástico que já não aguento mais tanto ponto de exclamação nas frases da Ana. – Fico me perguntando como esse amigo do Nêmias conseguiu tantas pulseiras assim... – Digamos que ele já dormiu com várias garotas do Secret Five. – Claro, claro... – Então, vou indo. O Derek passará no antro um pouco antes das onze, oquei? – Oquei, obrigada. Tchau, Ana! Desligo e celular e fecho minhas pálpebras louca para tirar um cochilo, o que não acontece. Logo me levanto, calço minhas pantufas e corro para a porta. Alec. Ele prometeu que passaria a noite lá fora se eu não abrisse a porta, e eu não abri. Com a chuva que deu, é obvio que ele não seguiu a promessa. Se bem que nem sei se foi uma promessa... Abro porta e ajusto os meus olhos à claridade. Olho para o chão, para o meu carpete surrado que diz “bem-vindo” e... Ele está lá. O Alec está deitado no meu carpete! Fico horrorizada e não sei se acho isso lindo ou ridículo mas, pelas palavras que estão prestes a sair da minha boca, é muito provável que eu ache ridículo. – Você é mesmo um idiota. – Sussurro. Ele abre os olhos e os focaliza em mim... Alec sorri rapidamente e se levanta. O cheiro que exala dele é de roupa suja. Dou de ombros e caminho para o interior do antro enquanto ele me segue feito um cachorrinho bem adestrado. Gosto disso. – Pensei que nunca mais abriria essa porta, Alice... – Engraçado, pensei a mesma coisa – murmuro sem entusiasmo. – Olha, sei que está chateada comigo e tudo mais... – Você me deixou com cara de tacho. – Sei disso, você foi bem explicita ontem à noite. Só quero que me desculpe. Não tive a intenção de deixar você esperando. Para ser sincero, eu queria esse jantar, eu quero esse jantar mais do que tudo na vida. Reviro os olhos porque toda esta conversa me dá uma canseira danada. Ops. Espera aí! Ele disse que quer esse jantar mais do que nunca? Isso é um segundo pedido? Aceito. É claro que não terá outro jantar! – A verdade é que eu posso explicar o que aconteceu. – Tudo bem, Alec, águas passadas. Não quero saber de nada, não quero ouvir conversas esparramadas, não quero que me conte que acabou salvando uma velhinha de ser atropelada e que passou a noite contando historinhas para que ela não se sentisse sozinha, tá legal? – Alice... – Não quero conversar com você sobre o que deixou ou não de acontecer ontem... – Serro os punhos


e mordo os lábios com força, com raiva. – Ah, Alec, você é tão imaturo! Ele sorri daquele jeito, aquele que vocês se lembram bem, aquele sorriso que me desmonta e me rende. Porém dessa vez eu não me rendo, ou pelo menos acho que não porque não faço nada a não ser ficar muda. – Ótimo, estamos quites porque você também não me parece madura, principalmente usando essas pantufas do Bob Esponja. Olho para as minhas pantufas e me pergunto se ele me acha uma cafona. Fico envergonhada. Sei que não deveria, mas estou completamente envergonhada e não quero prolongar essa discussão boba sem destino algum. – Acho melhor você ir para casa, Alec. – Não, eu não acho. Alec vai até a porta e a fecha. Volta-se pra mim, coloca suas mãos na cintura e eu me derreto como manteiga numa frigideira fumegante. – Quero te contar uma coisa, algo que acho que deve saber... – Já disse que não quero ouvir, caramba! – Grito. Sou uma menina do colegial. – Aliás, que ideia ridícula foi aquela de ficar gritando o meu nome e batendo na porta? Você me assustou, sabia?! – Essa era a intenção, sua patricinha mimada! – Seu idiota cretino! – Sua... Ah, deixa pra lá! “Deixa pra lá, deixa pra lá...” O Alec avança em minha direção e me toma em seus braços fortes e hábeis. Deixo um grunhido sair dos meus lábios, um arfar de desejo. Meu coração bate em descompasso... Será que é assim? É assim que nos sentimos todas as vezes que estamos prestes a beijar alguém? E então eu me lembro de uma coisa. – Sem chance! Não vou beijar uma boca que deve estar com gosto de cabo de guarda-chuva! Ele sorri. Sou desconectada dos seus braços e levada ao chão com um tombo surdo. – Você tem toda a razão, Alice, como sempre! Grito! Grito porque queria que ele me beijasse com ou sem gosto de cabo de guarda-chuva. Eu estava esperando por isso, vocês estavam esperando por isso. Se isso fosse um filme, se eu fosse a atriz principal e ele o meu príncipe, ele me beijaria e eu também não comentaria nada. Apenas o beijaria em troca. Tudo bem, não tenho culpa se a minha língua é mais forte do que os meus pensamentos. Levanto-me como uma fera indomável. Apanho a primeira coisa que vejo, um gato horroroso rosa de porcelana que ganhei num certo amigosecreto, e o atiro na direção do Alec, o qual se esquiva e deixa o gato se espatifar contra a porta. Ele arregala seu belo par de olhos e por fim diz alguma coisa. – Sua louca! – É, isso, sou uma louca! Agora sai daqui, Alec! – Qual é? Agora vai sempre me expulsar daqui? É assim que vai ser? Quando eu quero, você não quer! Droga, agora quem cansou fui eu! Que porra! Você sempre me tira do sério, garota! Sempre! E, quer saber? Eu cansei! Cansei de você, Alice! Como não digo nada, apenas fico emburrada, ele se vai e eu... Bom, não sei. Estou confusa com as coisas, com essa loucura que o Alec causa em mim; confusa com os meus próprios pensamentos porque ao mesmo tempo em que o quero perto de mim, o quero bem longe, muito longe... Ou muito perto.


Depois de quase uma hora estudando sobre o aparelho digestivo resolvo dar uma pausa. Penso que a única anatomia que eu estaria disposta a estudar sem cansar seria o corpo do Alec e, tudo bem, podem me criticar. Melhor eu tomar banho. Resolvo usar o meu vestido nude de tecido leve e top preto de veludo tomara que caia. Procuro debaixo da cama o meu peep toe preto e deixo o meu cabelo cor de merda solto em uma leve ondulação. Passo o delineador preto. Resolvo causar com os meus lábios, pois procuro o batom mais vermelho e provocante. Sim, agora sou uma meretriz. Apanho o batom e o resto do meu salário e os coloco em minha carteira grande, combinando o visual. Juro que se eu não tivesse o sonho de ser atriz, com certeza me tornaria uma consultora de moda. Muito bem, aqui estamos nós! Desço do carro e entrelaço o meu braço com o do Derek que por sinal parece nem ter penteado o cabelo hoje. – Por que você não penteou o cabelo? Ele ri. – Porque os caras daqui não penteiam o cabelo? – Eu reviro os olhos. – Brincadeira. Achei que seria legal sair um pouco da linha... Nada de gel no cabelo. – Tudo bem. Caminhamos até a entrada da casa, do clube ou sei lá o quê onde está repleto de carros e se vocês querem mesmo saber, o recinto parece mais uma casa de campo. Esforço-me para me manter em pé, pois o salto do meu sapato entra na terra a cada passada apesar de esse não ser o problema todo. A verdade é que não escuto nenhuma música. – Tem certeza que a festa é aqui? – Pergunto e faço careta. Varro os meus olhos por todo lugar. – Tenho. Olha lá a Ana! Hiup! Migramos em direção a Ana e o Nêmias, o qual parece um tanto entediado. – Vocês dois são os últimos! – Ela diz. – Achei que não viriam mais! Os outros já entraram. Ela nos entrega duas pulseiras verde reluzente no escuro. Elas são símbolo da Secret Five... Seria uma carta com um cinco e pontas de facas? Vai saber. Pergunto quem são os outros. Os mesmos de sempre: Laura, Adrick, Katariny, Silvia, Lis, Diogo, Elvira e nós. Sorrio para o Nêmias enquanto Derek o cumprimenta. Adianto os meus passos porque não quero conversar com o casal. Atravesso a entrada e tenho que parar para mostrar a pulseira ao segurança, a qual que tenho o maior orgulho de exibir! – Não tem música? – Pergunto. – Sim. O porão é revestido por isolantes acústicos. Desse modo não dá bandeira e nem temos que lidar com os vizinhos. – Diz Nêmias, todo orgulhoso. Concordo com a cabeça e me pergunto se esse “nós” significa al- guma coisa. Ele conseguiu entrar para a irmandade? Não foi o seu amigo “má influência” quem deu as pulseiras? Tanto faz... Decido que não me importo de verdade. Por fim entramos no porão e sou invadida por uma música eletrônica que nunca tinha ouvido antes. Tem sofás espalhados, poltronas e cadeiras. Também tem um bar onde as garotas estão conversando com o cara atrás do balcão com um sorriso galanteador. No pequeno espaço há pessoas dançando, inclusive a Katariny e o Adrick. Para ser bem honesta, há mais pessoas sentadas, conversando, jogando seus jogos malucos e bebendo do que pessoas dançando. Chegamos à conclusão de que essa festa mais parece com um cassino, porém sem máquinas: são eles que fazem o jogo. Para ilustrar


ainda mais a paisagem, devo dizer que há pessoas fumando seus cigarros e baseados enquanto algumas estão literalmente bêbadas. Bem-vindos ao mundo da perdição! – Vou pegar uma bebida para a gente! – Grita Derek enquanto desaparece no meio da multidão. Volvo à procura de uma alma conhecida e descubro que estou sozinha. Ando devagar pelos corpos em movimentos e sinto os olhos: homens, e também algumas mulheres, olham para a minha perna nua e rapidamente sinto que sou desejada. Isso inclui desejos sórdidos também; desejos que não quero nem de longe pensar. – Três verdades! – Grita um cara. – Você já transou em algum lugar exótico? – Ele pergunta para uma garota loira a qual segura uma garrafa de Ice. Ela sorri para ele de um jeito dissimulado e não titubeia nas palavras. – Sim, em um elevador. O elevador ficou parado quase uma hora. – Ela ri. – Quão dotado você é? Não vale mentir – ela balança o dedo mindinho para ele. Murmúrios e murmúrios no ar. Uma gama de “Uuuhhh!”. – Tá gostando da festa gata? Olho para o cara suado gostoso e logo sinto que o seu hálito é puro álcool. – Que tal a gente ir ali para o canto e eu fazer você pegar fogo? Deixo um riso escapar dos meus lábios. Faço uma careta e digo: – Se eu fosse você, ficaria bem longe do fogo – aponto a sua boca. - No fim quem vai acabar se queimando é você. Dou de ombros e ando sem destino. A música pulsa em meus ouvidos. Procuro pelo Derek e não o encontro. Avisto as garotas conversando com uns caras e decido que não vou lá. Não quero que elas insistam para que eu faça uma coisa que não quero. Paro no balcão e seguro um cardápio repleto de bebidas (algumas eu nunca iria saber que existia). – Então, vai beber alguma coisa? – Pergunta o barman que, supostamente, é desejado por metade das pessoas que estão aqui. – Um energético. – Sorrio. Não gosto do álcool. Não gosto daquele ardor que sinto na garganta como se eu tivesse ingerido um vidro de perfume. – Digamos que ela é santa demais para beber coisas de adulto. Ouço aquela voz. AQUELA VOZ. Congelo. Todos os meus órgãos vitais param. Na verdade não estou mais dentro do meu corpo por um segundo. Depois tudo voltou a ser vivo de novo, principalmente o meu coração, batendo com força dentro do meu peito frágil. Já nem tenho saliva na boca porque os meus lábios de repente parecem tão secos quanto o sertão. Viro-me para a voz. Viro-me para ele totalmente chocada! – Que diabos você tá fazendo aqui?! – Pergunto indignada. Ele olha para mim e não sorri como de costume. Em vez disso, leva o cigarro até os lábios, puxa a fumaça e a deixa sair pelas narinas. Seu rosto está suado e o cabelo molhado de suor. Sexy. – Eu ia fazer a mesma pergunta a você. Sentando no banco, Alec apanha sua bebida e engole tudo de uma vez sem fazer careta, o que me deixa intrigada. Talvez ele esteja acostumado a beber essa coisa. – Por acaso anda me seguindo? – E por que eu te seguiria? – Ele ergue uma sobrancelha fazendo com que eu me sinta a mulher mais ridícula do mundo. – Esqueceram de te avisar que o mundo não gira ao seu redor, Alice. – Outra tragada. Irritante. Irritante. Irritante. – E, bom, estou curioso. O que uma garota como você faz aqui no


Secret Five? Fuzilo-o com os meus olhos e tento fingir que suas palavras não me atingem. Sou perfeitamente capaz de não me irritar. – O que todo mundo faz aqui, oras. – Hum. – Alec concorda com a cabeça e joga a bituca do cigarro dentro do copo. – Beber? Se drogar? Fugir da realidade? Tentar destruir a sua linha certinha? Santa do pau oco? Tecnicamente, essas palavras me atingem, sim. Conto até dez antes de dizer qualquer coisa. Não quero que isso aqui ganhe proporções maiores. – Eu não sou isso que você está dizendo. – Claro que é. Você não consegue dar um passo sem se perguntar se isso é certo ou errado, se as pessoas vão ou não falar de você. Conheço pessoas como você, Alice, bem mais do que imagina. Você quer fazer uma coisa na sua mente, mas na prática é diferente. Pessoas como você costumam procurar estes lugares para viver o que não podem lá fora. É como se aqui fosse o seu refúgio feliz. – Legal, mas eu não sou essa pessoa. – Aham. Então vamos lá, Alice, seja você mesma, espontânea. Vamos! Cristo, não faço ideia do que ele fala! Reviro os olhos. Como eu posso estar louca para que ele me beije uma hora e louca para esbofetear o seu rosto em outra? Mas, tudo bem, ele está certo. Às vezes sinto vontade de fazer coisas que não posso, que não me parecem certas e que estranhamente todos parecem estar jogando em minha cara. É como se eu estivesse em uma roda de alcoólicos e fosse a única sóbria. A única errada. A única alienígena. Isso. Álcool. – Aqui está seu energético. – Diz o barman. – E esse aqui é para você. Foi aquela moça quem mandou – ele diz para o Alec ao mesmo tempo em que aponta para uma moça morena e linda. Sinto-me ferver por dentro. Quando ficamos nós dois a sós, pego a dose de tequila a qual o Alec foi presenteado e entorno todo de uma vez. Tusso. Faço uma careta. Tusso de novo. Ele sorri daquele jeito enigmático. – Uh, pelo visto estava certo com relação a você. Sempre estou. – Não, isso é só pra provar que eu posso sim fazer o que me dá na telha. – Não pedi que me provasse nada, Alice, sério. – Ele se levanta. – Mas é bom saber que você pode ser manipulada facilmente. Sabe, isso me dá uma esperança, uma certeza de que se eu continuar te envolvendo em minha teia, cedo ou tarde você estará na palma da minha mão, completamente apaixonada. Oquei. Devo informar a todos que talvez ele tenha razão. Talvez eu tenha realmente caído em sua teia. – Vai sonhando, Alec. Ele dá de ombros. – Aonde você vai? – Pergunto. Alec não me responde e por isso eu o assisto ir até a garota morena que lhe presenteou com a bebida e então... Então a vejo grudar nele e beijá-lo! O pior: ele gosta e corresponde ao beijo da garota de um jeito tão provocante! É um beijo de puro êxtase, daqueles que só se dá entre quatro paredes onde a língua aparece uma vez ou outra. Desgraçado! Será que ele está fazendo isso para me provocar? Se for para me provocar, ele não deveria dar olhadelas em minha direção para ver se eu estava assistindo? Isso ele não faz. – Filho de uma mãe! – Murmuro. – Quem? – Pergunta o barman.


– Ele. – Digo e aponto com a cabeça para o Alec que ainda continua beijando a mulher. – Ah, entendi. Na verdade isso sempre acontece com a maioria. Todos o querem, até mesmo eu – diz o barman. Olho para ele, horrorizada. – Brincadeira! Ele vem sempre aqui. É o colírio das garotas e, por que não dizer dos garotos? A garota o puxa para a multidão ao mesmo tempo em que ouço uma algazarra. Em seguida ouço alguém gritar: – Quem vai querer jogar?! Sorrio para o barman e vou em direção à algazarra me perguntando se um cara pode realmente irritar uma mulher tão facilmente. Varro com meus olhos a multidão e o avisto se sentar numa poltrona onde tem outra poltrona vazia bem na sua frente. A moça morena se empoleira nele, roça as suas mãos no peito do Alec. Isso é demais para mim. Ninguém deve tocá-lo. Somente eu. – Muito bem, quem vai desafiá-lo?! Espera. O Alec vai participar da brincadeira. Mas que brincadeira? Não me importo. Adianto meus passos, empurro uma garota e me posiciono no centro das atenções. – Eu o desafio. – Digo determinada. Nem sei de onde encontro toda essa coragem... Acho que é culpa da tequila que bebi. Droga! Será que sou eu de verdade ou o meu outro “eu”, o “eu” ousado que o Alec e outras pessoas tanto dizem e que acabou sendo provocado pela bela dose de álcool que eu ingeri? Não sei. – Você? – Alec pergunta, espantado. Sento-me na poltrona enquanto Bruno explica as novas regras do jogo Verdade ou Consequência? – O jogo é dividido em duas rodadas. A primeira é simples: vocês terão um minuto e meio para fazer três perguntas e obter a resposta. A segunda rodada é mais complicada: vocês terão um minuto e meio para lançar três desafios. O resto fica a critério de vocês, digo, você decidem como vão pagar esses desafios. Concordo com a cabeça e vejo os rostos conhecidos dos meus amigos de turma, todos aglomerados para assistir ao jogo. Só não vejo a Ana e o Nêmias. Enquanto sou observada por aqueles olhos vou pensando no que me meti. – O que você está fazendo, Alice? – Pergunta Derek ao meu lado. – Eu sei o que estou fazendo – murmuro fria e seca. Ouço vozes ressoarem no ar. – E se eu não pagar? – Pergunto. É a vez do Alec falar. – A gente volta aqui e você terá que andar pelada por toda a Secret Five – isso é uma intimação e eu tremo por dentro. – Acho melhor desistir, Alice. Esse jogo não é para garotas como você. Quero gritar! Quero desistir, para ser bem honesta. Porém estou farta dessa coisa dele dizer “o que não é para mim” como se eu não tivesse coragem de encarar os fatos. – Fechado. E se você não pagar... – Eu sempre pago. – Podemos começar? – Pergunta Bruno. Estou perdida. Nunca participei de um jogo da verdade, ainda mais um jogo ousado como este, com as regras alteradas. Tremo por dentro. Estou desesperada... Mesmo assim sorrio. O cronômetro é acionado. – O que é necessário para um cara te levar para a cama? – Pergunta Alec. Só é necessário você. Hum, o que eu poderia responder? Charme? Beleza? Inteligência? Bom caráter? Droga, isso me faz parecer puritana e idiota. Preciso responder qualquer coisa.


– Um bom papo. Idiotas nem pensar! Certo, minha vez. – Lambo os lábios. – Qual o seu maior fetiche? – Ah, esse é fácil. Transar enquanto sou observado. – Ele responde sem titubear, sem pensar! Imagino rapidamente a cena e penso que em hipótese alguma transaria com alguém enquanto outra pessoa assiste a tudo como um filme pornô ao vivo. Credo. Que nojento! – Sexo selvagem ou papai e mamãe? – Alec pergunta. Penso, não posso dizer simplesmente a todos esses desconhecidos que nunca transei e por isso não posso escolher qual tipo de sexo prefiro. – Não existe isso comigo. O que acontecer na hora é lucro – ouço a minha plateia ensandecida vibrar. Sou uma meretriz. – Já participou de um swing? – Sim, há um tempo atrás e não é muito bom, se quer saber. Prefiro sexo a dois. – A plateia ri. – Transaria comigo agora? – Certamente. Quero dizer, se todos os homens da face da Terra desaparecessem e só restasse você, sim. Em outro caso, não. – Olho para a garota empoleirada em Alec. – Já transou por dinheiro? – pergunto. Risos. – Tempo! – Grita Bruno. O tempo acaba e fico sem resposta. Fico com a certeza de que o Alec não é esse príncipe encantado que criei em minha mente e que ainda assim me sinto atraída por este pervertido. – Segunda rodada. Cronômetro acionado. – Te desafio a participar de um racha de motos comigo. – Ele me desafia. Meu coração vai à boca e volta. Imagino os acidentes nessa coisa ilícita que é o racha de motos. Quero desistir... E não desisto. – Fechado. Desafio você a fazer o melhor cupcake do mundo – não sei, mas algo em minha mente diz que o Alec não é bom em cozinha. – Hum... – Ele faz uma careta. – Fechado. Desafio fazer uma tatu- agem. Aperto os olhos porque todos sabem que este jogo toma proporções absurdas e, até o momento, não consegui pensar em uma coisa que realmente seja ousado e que certamente fará o Alec perder. – Fechado! – Alice! – Protesta o Derek. Ele mais do que ninguém sabe que eu nunca faria uma tatuagem. Mas agora é questão de honra. – Uma semana sem fumar. – Fechado. Desafio a roubar uma calcinha no sex shop. Idiota! Não tinha nada melhor para me desafiar? Averdade é que eu sei como fazer o Alec perder. Sim, sei, e é por isso que lanço a minha carta na manga. O meu coringa. – Fechado. – Encolho os meus olhos. – E o meu desafio é: fazer com que eu me apaixone por você em duas semanas. Caso contrário andará pelado pela rua mais movimentada da cidade. Alec morde os lábios e não sorri. Sei que ele assimila o desafio. Sei que ele sabe que perderá porque, por mais que eu me apaixone por ele em duas semanas, jamais me renderei. – Fechado. – Então ele me encara. Eu sorrio. – Tempo!


- Segundo Round Você é linda, sua velha rabugenta, e se eu pudesse te dar um só presente para o resto da sua vida serie este. Confiança. Seria o presente da confiança. Ou isso ou uma vela perfumada. - David Nicholls, Um Dia


Capítulo Nove Balançada por outro cara Estou bêbada. Não sei, mas sinto a tensão dentro do meu corpo. Se vocês querem mesmo saber a verdade, acho que fui meio infantil em topar fazer essas apostas. Não era eu quem estava dentro do meu corpo quando aceitei ir em um racha de motos, fazer uma tatuagem e roubar uma calcinha. Eu quero muito acreditar que o Alec não irá me procurar para fazermos essas loucuras, porém parte de mim diz que ele levou essa brincadeira mais a sério do que deveria. Realmente não entendo o dom que o Alec exerce sobre mim. Não entendo como ele consegue me tirar do sério e ao mesmo tempo me fazer querer estar perto, querer beijá-lo até que o mundo acabe. Para ser sincera comigo e com todos, às vezes, quando o vejo, sinto a minha libido provocada e tenho vontade de ir para a cama com ele. Tenho vontade de descobrir seu corpo nu e me perder em seu epitélio. – Você realmente enlouqueceu, Alice! – Protesta Derek. Finjo que não me importo com a sua preocupação apesar de estar tão preocupada com tudo isso quanto ele. – Bem, eu nunca disse que eu era normal. – Literalmente. – Grita Adrick. – Garota, você é mesmo louca! O pessoal da Secret Five leva muito a sério essa coisa de Verdade ou Consequência... É como um ritual que eles costumam cultivar, sabe? Se você não cumprir os desafios, eles vão querer que pague a prenda! Sim, e a prenda será meu lindo corpo nu desfilando por toda Secret Five. – Talvez o Alec não leve tão a sério. – Como pode saber? Você não o conhece de verdade, Alice. Ele é, na verdade, um... – Murmura Adrick. Esqueço um pouco a ladainha do Adrick e atento todos os meus sentidos no Alec. Nele e naquela garota que ficou empoleirada em seu ombro e que beijou aqueles lábios que os meus tanto amam! E os vejo entrar no carro dele: ela com a sua cara de “quero dar” e ele com o seu sorriso sexy. Não. Aquele sorriso que ele dá para mim. Esse aí é ensaiado! Vejo o carro desaparecer na esquina. – Por que diabos teve de entrar nesse jogo, Alice? E se você for obrigada a fazer mesmo uma tatuagem? – Continua Derek. – Tudo bem, lindos, eu sei me cuidar. Sou maior e sou vacinada, tá legal? – Digo e ergo os braços. Acho que o álcool ainda está entranhado em mim. Aliás, acho que estou bêbada porque me sinto meio tonta. Já se passam das três da manhã e a esta altura meus pés urram de dor por terem passado tanto tempo nesse salto alto. – Estou começando a achar que você não está gostando desse Alec. Você está arriada os quatro pneus, obcecada por este idiota! – Você acha mesmo? – Faço uma careta e começamos a caminhar em direção ao carro do Derek. – Sim, acho. Desde que ele apareceu a sua vida simplesmente está de cabeça para baixo. Ele dita a regra e você se joga de cabeça. Começo a ri, digo, começo a dar guinchos irônicos. Estou bêbada. Apoio-me no Adrick para poder rir da piada que só eu entendo. Cambaleio. Sinto alguém me segurar. Derek. – Eu também acho. – Santo Deus! Bem que eu disse para não beber todo aquele Absolut! Ela não está acostumada a


beber. – Diz Adrick. – Pelo menos ela tem senso irônico. Concordo com a cabeça enquanto, não sei como, sou jogada no banco traseiro. Meu cabelo cor de merda se espalha pelo meu rosto e eu sou uma maria-mole exposta ao calor. Penso em Alec e chego à conclusão de que a melhor coisa que já fiz na vida foi fazer essa delirante aposta. Tudo bem. Amanhã, quando eu tiver sóbria, talvez chegue à outra conclusão. Rastejo-me pelo banco a tempo de colocar a cabeça para fora e deixar um bolo de vômito explodir da minha boca e cair sobre os pés de alguém. – Ora, Alice, agora você passou dos limites! – Grita Adrick. Eu sorrio. Tudo se apaga ou, pelo menos, fica escuro. Minha cabeça lateja quando abro meus olhos. Levo as mãos até o topo da cabeça e me sinto grogue. Não me lembro como voltei ao antro, nem como me deitei na cama... Nem como troquei de roupa! Oh, meu Deus, quem me colocou nessa camisola? Hum, pelo menos estou de calcinha e sutiã por baixo. Avisto um bilhete em cima do criado mudo. Oi, meretriz, espero que não se importe por ter te visto quase nua. Não se esqueça de ligar para o trabalho. Mais tarde passo no antro para conversamos sobre ontem à noite e já antecipo: estou decepcionado. Faço uma varredura em minha mente e me lembro. Secret Five. Alec. Jogo. Verdade. Consequência. Aposta. Eu. Álcool. Alec de novo. Argh! Vamos lá, uma coisa de cada vez. Primeiro, tenho que ligar para o trabalho. Depois resolvo a minha vida com o Alec. Disco o número. Dois toques. – Ah, alô? – Ouço a voz responder com o nome do hospital. – É a Fernanda? Aqui é a Alice – faço uma voz de derrotada. – Alice? Ah, sim, Alice! – Uma pausa. – Então você já está sabendo! – Sabendo de quê? – Do incêndio que teve na noite passada, na Clínica. Enfim, está tudo um caos aqui. O prédio será fechado para perícia e depois disso passará por uma reforma. Isso pode demorar muito, um mês ou mais, o que quer dizer que todos os funcionários, tecnicamente, estão de férias. Acredite se quiser, eu nunca em toda a minha vida achei que ficaria tão feliz com um incêndio. Ops. – Alguém se feriu? – Não, graças a Deus. Mas é isso, Alice, tenho que fazer outras ligações. Foi bom você ter ligado. Aproveite os dias porque quando isso aqui voltar a funcionar nem teremos tempo de respirar. – Tem razão, digo o mesmo pra você. Tchau, Fernanda. Desligo o telefone porque sei que ela ainda procuraria algo para dizer. Essa é a Fernanda: adora uma boa fofoca! É uma boa pessoa. Levanto-me da cama e faço um café bem forte. O silêncio no antro me apavora e os ruídos dos meus passos me enganam. É como se não seja eu mesma aqui. Aos poucos sinto o nascer de uma nova Alice. Desde que o Alec me atropelou estou em metamorfose e já não sei mais o que fazer porque todos os meus pensamentos se remetem a ele. Eu respiro o Alec, bebo o Alec e não sei, não entendo o que é esse sentimento dentro de mim. Será isto o que os amantes chamam de paixão? Será isso que os filósofos chamam de amor platônico? Não, com certeza não. É impossível. Eu o odeio, odeio o jeito como ele sorri eu amo, odeio a sua boca amo a sua boca. Odeio tudo nele! Amo tudo nele.


Ligo o computador enquanto beberico meu café super forte. Assim que abro a minha conta do Facebook o inbox abre junto. Jonathan: Oi, Alice! Hum. Penso um pouco. Será que ele é sempre assim: um chiclete? Bem, talvez ele seja um pouco solitário, sei lá. Sem falar que não chega a ser um desperdício. O Derek sempre disse que o melhor nessa vida é cultivar amizades. Eu: Oi, Jonathan! Jonathan: Será que você pode me encontrar agora? Tenho algo muito importante para te dizer! Começo a me perguntar se ele sempre usa exclamações ou se está super animado ou se gosta de usar exclamações só comigo ou se ele não faz outra coisa além de ficar no Facebook esperando a minha ilustre pessoa. Bato os dedos na mesa do computador. Não tenho nada para fazer. O Derek está no trabalho; o Alec em algum lugar e o povo da faculdade não me parece convidativo. Eu: Onde? Jonathan: Onde você achar melhor. Eu: Praça de alimentação do shopping. Quando estou prestes a desligar o computador resolvo fazer algo: uma pesquisa. Digito “Alec Salles” na barra de pesquisa do Facebook e aparecem vários filtros. O perfil dele, do meu Alec, é o primeiro a aparecer e concluo que ele deve ser popular. Clico. Duzentos e dezesseis amigos. Retiro o que disse, ele não é popular. Varro meus olhos por toda a página. Cento e cinquenta e sete mil assinaturas. Ele é popular. Droga! Clico nas fotos. Estão bloqueadas. Passo meus dedos no adicionar amigos e decido que ele não merece que eu o adicione. Ele não precisa saber que fico lhe procurando na internet. Fecho a página. Também não quero ler o seu mural. É melhor assim. Se já estou ficando louca conhecendo-o pouco, imag- ine se eu conhecer mais coisas deles? Tomo banho e visto uma roupa colorida. As pessoas precisam saber que ainda possuo uma alma genuína, que não preciso estar sempre vestida para matar, quer dizer, vestida para ir a uma festa como uma verdadeira meretriz que sou. Ao sair de casa passo rapidamente o olho na casa do Alec e percebo que o seu carro está estacionado... Se eu passar lá, se eu disser um “oi”, vou parecer desesperada? E se aquela garota de ontem à noite estiver ai? Se ele estiver transando com ela? Sexo ardente? Jogando-a na parede enquanto ele a chama de lagartixa? Vadia! Muito bem, Alice. Foco, Alice! O Alec não é uma boa pessoa porque pessoas que frequentam a Secret Five não me pareceram dignas de serem rotuladas como boas. Ele, pelo visto, é membro de lá. O barman gay deu a entender isso, assim como a sua revelação em tom de brincadeira. Afinal, em toda grande brincadeira existe um fundo de verdade. Ele está sentado numa mesa no centro da praça de alimentação nem um pouco lotada. Para ser mais precisa, Jonathan faz montinhos com os cristais de sal espalhados na mesa. Desacelero meus passos e seguro a alça da minha bolsa. Ele parece um príncipe e a pequena ruga em sua testa o deixa bem sério (mais sério do que me lembro tê-lo visto). – Oi! – Digo. Jonathan se levanta da mesa e de repente parece não saber o que fazer até se aproximar de mim e me


cumprimentar com beijos na bochecha. Ele sorri para mim, um sorriso bem verdadeiro, se querem saber. Seu cabelo loiro está desgrenhado e a pele do seu rosto parece de bebê. – Então... Estava preocupado, pensei que não viria. – E por que eu não viria? – Porque tenho a impressão de que você não gosta muito de mim. Tá legal, acho que estou forçando a barra. – Eu gosto de você... Pelo menos acho que gosto. – Sorrio e ele sorri pra mim. E é verdade, gosto do Jonathan. Sabe aquelas pessoas que você encontra por acaso numa esquina e algo no seu íntimo diz que será para sempre? Que um sempre poderá contar com o outro? Sinto isso agora enquanto olho no fundo dos olhos azuis pálido. Ficamos um olhando para o outro. – Hum... – Murmuro. – Ah, sim. Como você sabe, consegui passar para a segunda fase para o teste da peça, não é? – Sim, sei, claro que sei. – A verdade é que a minha parceira furou. Ela disse que esse não é o lance dela e que ela fez esse teste só por tédio. Concordo com a cabeça e penso que se tudo aquilo foi só por tédio, imagine se ela realmente quisesse ser atriz? – E? – E que agora estou sem parceira. A Pati desistiu e pensei, bom, pensei em te convidar para fazermos o teste juntos. Conversei com a companhia de teatro e eles disseram que você era a próxima da fila mesmo e... Se você topar ser a minha Júlia, eu ficaria, de verdade, muito grato. O mundo congela e no meu peito o coração pula em êxtase. Exibo um enorme, grandioso, gigantesco sorriso e nem acredito que posso estar a um passo de subir num palco e ter a minha primeira plateia. Pati! Santa Pati! Vou ficar te devendo essa, garota! E é óbvio que vou ficar devendo uma a esse cara que me olha agorinha mesmo. Imagino que a vida é uma caixinha de surpresas e ainda tem aqueles que não acreditam em destino. O que me dizem do Jonathan ter sentado na poltrona vazia ao meu lado naquele dia? Digam! – Alice? – Jonathan! É claro que aceito! Levanto da mesa muito agitada. Sou um átomo louco pronto para a colisão. Jonathan também se levanta quando pulo em seu pescoço e o inevitável acontece: o átomo colide. Meus lábios tocam os lábios dele e nós nos beijamos. Não sei quem teve a iniciativa. Se fui eu, se foi ele ou se foi nós dois, a verdade é que nos beijamos e, quando nos desconectamos, somos jogados no vácuo. Levo as minhas mãos até os lábios que já não tem mais o sorriso. Nós não sabemos o que fazer. – Desculpa... – Peço. – Tudo bem. Sorrio nervosa; ele também. – Vamos conversar sobre a peça, tá legal? Quando começamos o ensaio? Mal posso esperar... Acha


que temos chances? – Pergunto. – Acho que você tem mais chance do que eu! Alice, você foi incrível! É obvio que esse papel já é seu. – Ele diz. – Por isso trouxe uma cópia da nossa cena. Estava pensando, se você topar, claro, em ensaiarmos na minha casa. Mas vou logo avisando que lá não é nem pouco sossegado. Apanho nosso monólogo das fortes mãos dele e corro os olhos rapidamente na papelada. Ele está sendo um fofo comigo, se querem saber. As folhas estão até encadernadas e sei que isso não é arte do grupo de teatro. Eles disponibilizam as peças por e-mail. – Obrigada. Se quiser, podemos ensaiar no antro. – Onde? – Ah, na minha casa. Quer dizer, ela é tão pequena que a chamo de cubículo ou antro. Já estou acostumada em chamá-la assim. O que acha? – É um belo nome... – Não, estou falando de ensaiarmos lá. – Acho legal se você não se importar ou se ninguém se importar. Você sabe, seu namorado, aquele lá do teatro. Vasculho em minha mente “aquele lá do teatro” e lembro. – O Derek? Ele não é meu namorado – encolho os olhos. – Acha mesmo que se eu tivesse um namorado eu sairia beijando outros caras por ai? – Penso no que acabei de dizer. – Quer dizer, não tenho certeza se fui eu que te beijei... Enfim, vamos ensaiar no antro! Além do mais, moro sozinha e não tem ninguém para se importar. – Combinado então. – Ele encolhe os olhos. – E o Alec? – Não existe Alec. Horas mais tarde estamos caminhando pelo shopping. Acreditem se quiser, mas o Jonathan me parece tímido e, pelo fato de ele ter falado demais no dia em que nos conhecemos, considerei que, para ser honesta, foi puro nervosismo. Também não podemos descartar o beijo. Outra coisa: não estou entendendo nada essa coisa dos caras. De uma hora para outra ficam todos me beijando. Antes eles tentavam, mas não conseguia assim tão fácil. Hum, nuca conseguiram, como todos sabem. A coisa toda é que acho que ando facilitando as coisas... Não sei se é o medo de acharem que sou medrosa ou que não tenho potencial. – Eu pensei em te ligar ontem à noite, só que me faltou coragem. Meneio a cabeça em um sinal de concordância e sugo meu milkshake até sentir a minha cabeça dar um breve latejo. – É? Achou que eu não te atenderia? – Não, nem é isso, é outra coisa... Outra coisa que me incomoda bastante. Finjo não parecer me importar quando estou bastante curiosa e incomodada porque lá no meu íntimo sei o que lhe incomoda. – Tudo bem, de qualquer maneira eu fui a uma festa ontem à noite e tinha colocando o celular no silêncioso. É quase certeza que eu não atenderia. Foi melhor assim, hein? Vai que você achasse que eu é que não queria te atender? Como se eu tivesse motivo para não atender – forço um riso. Ficamos em silêncio quando passamos pela porta e entramos no estacionamento com o Sol a queimar a pele.


De súbito, sou jogada contra a parede e sinto o arfar dele, o aperto das suas mãos contra a minha pele. O copo do sorvete escorrega das minhas mãos e derrama no chão. Só consigo encarar o par de olhos que me miram. Só consigo ver os lábios vermelhos entreabertos. – A verdade é que não consigo te tirar da cabeça desde que te vi naquele teatro. Eu penso em você quando quero e quando não quero, Alice, e só imagino te ver de novo e de novo, imagino beijar a sua boca e... Ele me beija. De novo. Eu correspondo ao seu beijo. Abro a minha boca, empurro a minha língua e o beijo... porque é isso que quero agora. É disso que preciso. Nossas respirações ficam pesadas e o empurro, forço os nossos lábios se desgrudarem porque, apesar de beijá-lo, não quero confundir as coisas. – O que você está fazendo? – Eu gosto de você, Alice, pelo menos é isso o que penso agora, nesse exato momento. Ele não pode gostar de mim, não quando pareço gostar de outro, de outro que também não conheço de verdade – para variar. – Você nem ao menos me conhece. – Eu quero te conhecer, juro por Deus. Adianto os meus passos porque não consigo criar uma argumentação. Não consigo porque admito a mim mesma que estou balançada. Não quero sair por ai e ser beijada por um monte de caras lindos e ficar sem saber o que fazer. Isso não é nem um pouco justo! – Ei, espera, Alice! Desculpa, tá legal? Sou um idiota! Por favor! Ele me alcança, se coloca na minha frente e sou lambida pelo seu perfume quando o vento passa e faz o meu cabelo voar em redemoinhos. – Sabe? Acho que essa coisa de ensaiarmos juntos não vai dá certo porque tudo o que sinto por você não chega a ser o que deve estar esperando. Não tenho culpa disso que está acontecendo, do que aconteceu. – Paro de falar porque sou uma mulher jogada num limbo. Não sei o que fazer. – Por que você tinha que dificultar as coisas entre nós? – Já me desculpei. Não tenho culpa se penso em você, não tenho culpa disso tudo... Só que quando nos beijamos lá dentro achei que poderia dar certo. Senti a esperança de que pelo menos eu deveria tentar. Ah, a esperança, como sempre. Esse sentimento idiota e mesquinho! Deveria jogar a esperança na sarjeta e desaparecer com a chave! – Tudo bem, Jonathan, sério. – Retiro as folhas com a nossa cena. – Só que isso não vai dar certo. – Não pode jogar tudo para o alto por causa de um beijo! É o seu sonho, você disse isso. – Eu sei, só não quero que você sofra. Sei como essas coisas terminam. Mentira. Não sei como essas coisas terminam, mas tenho uma vaga noção de que ou eu ou ele sairá machucado. E, no fim das contas, não sinto esse desespero de ter a boca dele perto da minha. O que sinto pelo Jonathan é superficial. É como o desejo de uma garota querer beijar qualquer cara bonito numa balada. – Não irei sofrer – ele choraminga. Ando de costas e balanço a cabeça em negação ao mesmo tempo em que mordo meu lábio inferior. – Deixa ao menos eu te levar para casa. Por que tem que bancar a durona, hein? Foi só um beijo, droga. – Um beijo nunca é um beijo... Um beijo significa algo novo. Significa que alguma coisa vai acon- tecer nos próximos dias. Um beijo é algo que te leva para outro mundo, que move montanhas, que provoca o bater das asas. É o


desejo de querer o outro e por isso acredito que um beijo não deve ser trocado quando duas pessoas não se querem. Então por que correspondi? Não sei. E o lance de uma boca ser só uma boca? Quando o vejo me seguir, entro no shopping novamente, acelero os meus passos, entro no banheiro feminino e me tranco na cabine. Sento no vaso sanitário com a tampa fechada e espero o tempo passar. Meu celular toca: é o Jonathan. Rejeito a ligação porque não sei como lidar com isso. A culpa deve ser toda minha porque não o deveria ter beijado. Ou foi ele quem me beijou primeiro? Passo o resto do meu dia estudando. Vou à faculdade, entro na sala de aula ainda sentindo não ser eu mesma. O assunto da noite sou eu. Eu e o meu jogo maluco. Ninguém nunca achou que um dia eu poderia me embebedar. Sou a garota incubada, quando tudo o que quero é mostrar o meu verdadeiro eu. O Alec não me ligou, se é isso que todos estão se perguntando. Acho que ele se esqueceu da nossa aposta e, para se sincera com todos, quero que ele me ligue. Estou pronta para o que der e vier! Pronta para me jogar nessa novidade que sou. Quero mergulhar no desconhecido. – O que há entre você e o Alec? – Pergunta Nêmias quando ele consegue uma brecha para falar comigo a sós. Pestanejo. – Nada. – E é verdade. Ele só é o homem irritante que virou a minha vida do avesso; o primeiro homem a me beijar de verdade; o primeiro cara que consegue me tirar do sério sempre; o cara que faz o meu coração bombear depressa. A questão é: estou ou não estou apaixonada pelo Alec? Será que ele já ganhou essa parte do desafio? – Por quê? – Pergunto. – Sei lá, só queria saber mesmo... É que ontem vocês me pareciam tão amigos... Hum, nem sabia que vocês eram amigos. – Não somos amigos. Ele é o meu vizinho. – Entendo. Mesmo assim... Só para saber, há quanto tempo vocês se conhecem? – Não estou entendendo todo este interrogatório, Nêmias. – Não é questão de entender, Alice. O Alec não é para você, está me ouvindo? Se estiver envolvida com ele, segue o meu conselho: afaste-se. Nesse jogo quem vai sair perdendo é você, a não ser que siga o que acabei de dizer. – Vocês dois, parem de conversar – protesta Ana, quando ela está doida para fazer parte da conversa. Desvio o meu olhar do Nêmias e foco no Derek, o qual presta atenção na aula, como sempre. Nêmias me cutuca. – A propósito, você alguma vez já foi pra cama com ele? Reviro os olhos. – Não. Não fui. Ainda não, mas é isso que quero. – Melhor assim – e ele sorri pra mim.


Capítulo Dez Uma via de mão dupla Estou de camisola, comendo brigadeiro e assistindo a 500 Dias Com Ela sem entender por que, de repente, todos estão parecendo se importar com o que faço ou deixo de fazer com o meu vizinho gostosão. Batidas na porta. Levanto-me, tiro a calcinha daquele lugar e calço as minhas pantufas do Bob Esponja. Eu sei: eu deveria olhar pelo olho mágico quem é a alma infeliz que está destruindo a minha paz de espírito a essa hora da noite que, para ser mais precisa, já passa das 23h. Quando abro porta não sei o que fazer. Vejo o Alec com uma jaqueta de couro e um sorriso safado. Estremeço por dentro porque me sinto muito feia com essa camisola e com o cabelo puxado para trás como o de uma criança que insiste em amarrar o seu próprio cabelo. – Não achou que se livraria de mim, né? Engulo em seco e, apesar de estar feliz por ele ter finalmente me procurado, o horror de saber o que pode acontecer daqui a pouco me amedronta. Penso que no fundo, no fundo não queria vê-lo. – O que você está fazendo aqui? Sabe que horas são? – Banco a desentendida. – Não me parece que você se importa muito com horas. Caso contrário teria perguntado quem é antes de abrir a porta... Lembre-me da próxima vez de vir com uma arma. Deve ter alguma coisa de valor aí dentro, não é? Sim, tem eu e o meu coração, só que você não precisa de uma arma para roubar o meu coração porque acho que isso você já conseguiu, seu pilantra! – Ah, que engraçado você – forço um riso sem graça, daquele que damos quando estamos entediados. – Não vai me convidar para entrar? – Ele diz e coloca suas grandes mãos na porta, fazendo com que a sua respiração acalente o meu rosto. Acho que quero que ele me beije no silêncio que se sucede... Não digo nada, apenas miro seus lábios e seu rosto onde posso notar os poros expelindo as pontinhas da barba que está por nascer. – Sou uma moça solteira, não cai bem entrar aqui a essa hora. Os vizinhos podem falar – retruco em um tom zombeteiro. – Verdade. Eles têm muito o que falar, não é? Onde já se viu? Você andando comigo? – Ele sorri e eu me pergunto se isso é para fazer com que eu ceda. Será que ele tem noção do quanto o seu sorriso é avassalador em mim? O quanto é dominador? O sorriso dele é uma argumentação que não consigo rebater. – Mas vamos arriscar, tá legal? Ele não espera que eu responda. Em vez disso, passa pela pequena fenda feito um cúmplice de um crime perfeito. Sorrio antes de fechar a porta e me virar. Alec senta no meu pequeno e único sofá. – 500 Dias Com Ela? Garota, você realmente gosta de sofrer. Sento-me na ponta vazia do sofá, tiro as pantufas e cruzo as pernas quando sinto os olhos dele procurarem por algo em minhas coxas. É ai que percebo que ele me deseja, assim como parte de mim o deseja.


Então Alec repousa a sua mão quente em uma das minhas pernas e eu levo uma eternidade para perceber que gosto do seu toque, que me entregaria toda para ele. Acho que estou ficando louca. Empurro a sua mão. – Vamos lá, Alec, o que você está fazendo aqui? – Tudo bem, Alice. Eu vim aqui porque precisava te ver, porque preciso te beijar, porque preciso te levar para cama porque só consigo pensar em como deve ser você debaixo dessa camisola – seus dedos puxam a alça da minha camisola a fim de poder expor os meus seios. – Não seja tão pervertido! – Estapeio a sua mão. Eu devo ser literalmente uma vadia porque a vontade que tenho é a de arrancar a camisola, a roupa dele... A vontade que tenho é a de que ele me domine, que exploda cada célula do meu corpo de tanto prazer e delírio. – Mas, como sei que isso ainda não será possível, vim para a nossa primeira aposta. Não achou que estava blefando, achou? Não porque sei que tudo o que ele diz é verdade. Ele não entra em um jogo apenas por entrar e, olhando-o sem esse sorriso, penso que o Alec é a pessoa mais transparente que eu já encontrei na vida e ao mesmo tempo a pessoa mais assustadora, capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quer. Ele é um jogador nato, e eu uma aspirante. E agora estou com medo. – Não podemos esquecer o que aconteceu ontem? – Claro que não. Você me desafiou, Alice, e eu te desafiei. Não acredi- to que está dando para trás! Onde está aquela garota de ontem? Aquela determinada? Ou aquilo foi tudo ciúmes? – Ciúmes? – Abro a boca indignada. – Você é um cretino, Alec! Você joga sujo cara! Por que diabos eu estaria com ciúmes? – Calma aí, pantera, falei brincando... Quer dizer, foi parcialmente brincadeira. A aposta ainda está de pé, e agora é questão de honra fazer com que você se apaixone por mim... Sabe como me sinto agora, Alice? Como um treinador de cavalo que acaba de receber em seu aras uma égua indomável e que ele não consegue pensar em outra coisa a não ser mostrar para esta égua que ela pode sim ser domada, pois todo animal que se preze é domado por alguma coisa ou um alguém. – Não acredito que está me comparando a uma égua. – Deveria se sentir lisonjeada. Em minha mente se passaram várias outras coisas ofensivas e a égua foi a coisa mais amável que consegui dizer. Penso duas vezes antes de dizer qualquer coisa porque não sei como o Alec tem o dom de estragar tudo... Só que ai ele pega em seus longos dedos uma mecha do meu cabelo que está solta e a enrola. É ai que me esqueço de toda a sua petulância... Somos duas pobres crianças que não têm nada neste mundo a não ser um ao outro. – O que foi? – Ele pergunta. – Nada. – Respondo. – Quer dizer, só estou me perguntando como você consegue ser irritante e amável ao mesmo tempo. – Acredite se quiser, você é a única que consegue despertar essas duas coisas em mim simultaneamente. Não sei o que responder porque quero muito pegar este nosso momento e guardar no bolso. Tenho a sensação de estar arfando por dentro. Quero chorar, quero rir, quero outros momentos como este. Depois disso vem o farfalhar da jaqueta dele provocada pela nossa aproximação. Alec toma o meu rosto em suas mãos e ele vai me beijar dessa vez. Eu o empurro.


Sei que todos esperam por este beijo, eu principalmente, mas se alguém parar para analisar, o nosso envolvimento pode sim dizer que estamos indo rápido demais. O Alec não é o tipo de pessoa que eu deveria me apaixonar. Sei disso porque tem algo dentro de mim que grita vorazmente quando penso nessa questão. Eu o quero para mim, só que não quero sofrer. Não quero acabar como nos filmes: arrasada, destruída e mutilada. Desejo alguém que me ame de verdade e não tente me seduzir para ganhar uma aposta sem pé nem cabeça. – Acho melhor você ir para casa – digo notoriamente balançada. – Não posso, tenho uma aposta para cumprir. Quer dizer, nós temos. – Não pode estar falando sério. – Olha, Alice, você sabe que não estou brincando e também não vou para casa porque nós temos que ir agora. – Nós? – É, você e eu. Hoje está acontecendo um racha e é para lá que vamos agora. Desço da CBR 600F do Alec e mal posso sentir as minhas pernas. As pessoas estão espalhadas. Enfio as mãos nos bolsos traseiros da minha calça jeans e o vento assopra o meu cabelo. Falta fluxo de sangue em mim. Minha boca está seca e esse lugar me assombra. Mulheres sensuais de short jeans curtos e botas pretas andam de um lado para o outro. Elas são determinadas e ousadas. Posso sentir isso enquanto as observo e tenho a impressão de que nunca, em toda minha vida, vi mulheres como essas. Também tem os homens em cima de suas motos turbinadas, jaquetas de couro e cabelos desgrenhados. A vontade que tenho é de sair desse lugar o mais depressa possível, mas não tenho coordenação motora suficiente. – Alec? – Consigo dizer. – Sim? – Quero ir para casa... Isso é... Não consigo dizer nada e tudo o que ouço é o roncar das motos e o som dos pneus cantando no asfalto. Sinto-me desesperada! – Não vai amarelar agora, não é, Alice? – Rachas de motos são ilegais! Ele me lança um olhar condenatório e sou golpeada constantemente pelo medo. – Você acha que não sei disso? Hum? – Mas... As pessoas morrem com essa prática idiota! Alec, será que não percebe que isso é surreal? É idiota? É a mesma coisa que colocar a arma na cabeça e apertar o gatilho! – Pensei que soubesse disso quando aceitou participar do pega! Algo em meu subconsciente dá um clique. – Quando você diz “participar do pega”, o que você quer dizer necessariamente? Ele ri meio zombeteiro. – Que vai sentar na minha garupa e participar, oras! – Não! – Ah... – Não! – Eu é que não acredito que uma pessoa vem no submundo dos rachas de ruas e não tem coragem de


subir em uma moto. – Sério, Alec, não pode me obrigar a fazer isso. Nem mesmo sei por que vocês fazem uma loucura dessas! – Adrenalina! Pura adrenalina! Ele dá um tapinha na moto. – Então, você vem? Penso bastante a respeito e é claro que não vou. Não posso ariscar a minha vida por conta de uma aposta boba e barata! Isso é ridículo! Quero ir para casa ou ir até a polícia e denunciar toda esta zona! Enquanto milhares de pessoas dormem, esses caras simplesmente arriscam não só a vida deles, mas também de outras pessoas. – Claro que não! – Ótimo. Prepare-se para cumprir a sua prenda! Rio. – Você não explicitou o que eu tinha de fazer! Todos estão de prova que você só me desafiou a vir aqui, e não a montar, oquei? E agora me leva pra casa, por favor. – É a sua palavra conta minha. Acha mesmo que aqueles caras do Secret Five vão perder a oportunidade de te ver nua? É então que percebo que o Alec, literalmente, não presta! Ele não sente nada por mim de verdade. Os beijos que trocamos, os beijos que iríamos trocar, a maneira como ele enrola o meu cabelo em seus dedos é tudo um truque para me conquistar. Sou uma idiota, sou uma presa fácil que não sabe jogar! – Eu te odeio, Alec! – Murmuro. – Me leva para casa! – Alice, não banque a fracassada agora. Puta merda! Sinto a raiva dominar o meu ser e, quando percebo, dou um tapa no rosto do Alec com o intuito de acordá-lo. Quero fazê-lo enxergar que essa aposta não importa e que ele também não precisa arriscar a sua vida e, o mais importante: – Eu não sou uma fracassada! Você que é um babaca inconsequente! Você e todos esses caras! Estou completamente farta desse seu joguinho, dessa ideia de ficar constantemente achando que sou fraca! O que pretende com isso, Alec? O quê? Ele me olha com seu belo par de olhos e me soa misterioso. – Leva-me para casa – suplico como uma boa menina. Alec morde o lábio inferior e liga sua moto turbinada. – Acho que deve saber o caminho de casa! E ele acelera. Os pneus cantam no asfalto e eu fico sozinha (ou quase isso). Já se passa de uma da manhã. Apanho meu celular no bolso da calça e nada. Sem sinal. Sinto que vou chorar. O Alec não tinha o direito de me deixar sozinha aqui nesse lugar... Ouço uma moto vir a toda velocidade em minha direção e rapidamente cambaleio para trás, caio no chão. Minhas mãos doem por conta do impacto e a esta altura minha respiração ultrapassa o seu limiar. Levanto do chão e limpo as mãos na calça jeans. Passo por alguns caras que fumam cigarro e forçam as suas máquinas movidas a óxido nitroso roncar sem sair do lugar. A impressão que tenho é a de estar perdida no inferno. Há motos e pessoas em todos os lugares e posso supor que a maioria dessas garotas aqui são garotas de programas. Risos. – Não errou o caminho não, ô patricinha?! – Pergunta uma mulher com um delineador super forte e com cara de raposa, digo, de rosto anguloso.


Passo rapidamente meu foco nela e no seu pequeno grupo enquanto ando. Não existe ninguém aqui neste lugar que pareça confiável e que possa de alguma maneira me tirar desse mundo sombrio e obscuro. – Ei, vem cá, gostosa! – Grita um cara. Adianto meus passos e faço uma oração mentalmente porque não sei como caí nessa cilada, assim como não sei quando virei essa mulher inconsequente e idiota que só consegue pensar num idiota maior ainda e que ainda faz rachas de motos arriscando a sua vida por adrenalina. Controlo a onda de desespero que me invade. Dou um passo de cada vez. O Alec não tinha o direito de me trazer aqui e me abandonar. Todas essas pessoas me dão um torpor e tudo o que desejo no momento é estar em minha cama. Ouço o roncar das motos e uma gritaria. A multidão migra rapidamente para onde uma voz brota do alto falante. – Vai começar a corrida! Vamos lá, pessoal! As motos roncam. Passo pela multidão e empurro alguns corpos que se espremem para assistir à esperada corrida. Procuro pelo Alec e não o vejo, tampouco a sua moto. Como não sei bem o que fazer, paro onde estou e cruzo os braços. – Primeira vez aqui? – Pergunta um cara de cabelo a escovinha e barba por fazer. Penso se devo responder e, no meio de todo o meu desespero interior, esse cara me parece ser a única pessoa em quem posso contar. – Sim – e sinto a minha voz oscilar. – Isso explica as roupas – ele sorri para mim. – Está com medo? Não respondo. Finalmente avisto o Alec posicionando a sua moto. Ele parece sereno. Nem parece que minutos atrás abandonou uma garota que não queria estar aqui e que veio só para cumprir uma aposta barata. Ele coloca sua luva preta e leva um medalhão até a boca. – Com quem você veio, gata? – O cara me pergunta, quebrando meu mundo. – Com aquele cara ali – digo e aponto na direção do Alec. As garotas estão todas alvoroçadas à procura de uma garupa para poder não só sentar como também empinar seus traseiros. – O Alec? – É. – Concordo com a cabeça. – Você o conhece? O cara ri com uma cara de “e ainda você pergunta?”. – Todo mundo aqui conhece o Alec... É engraçado porque é a primeira vez que ele traz uma garota como você aqui. – E o que significa uma garota como eu? – Ah, você sabe... Todas as outras sempre me pareceram ousadas e loucas por encrenca e você... Bem, você parece um ratinho assustado após ser jogada numa jaula com cem gatos. Não digo nada porque é exatamente assim que me sinto. Sou um bicho acuado. Foi legal conversar com esse cara, pois pelo menos descobri que Alec traz outras garotas aqui. – O que acontece se a polícia aparecer? O cara ri e chupa os dentes enquanto me olha com curiosidade. – Se a polícia aparecer você corre. Se eles te pegarem, você está ferrada porque eles não costumam aliviar. Não sei se te explicaram, mas racha de rua dá cadeia, mina. Na hora é cada um por si. Já vi pessoas atropelarem outras só para fugir. Ninguém quer ser preso. Isso é bem constante. Aposto que eles já estão a caminho.


Meu Deus, no que me meti?! O sangue do meu corpo parece se tornar água e sei que se me olhasse no espelho agora, estaria tão pálida quanto uma lombriga. – Então, não vai subir numa garupa? – Não... – Mas você é novata! Todos os novatos têm que passar por um ritual para provar que merece, de verdade, estar entre nós. Quero dizer a ele que não mereço, muito menos quero estar entre eles. – Acho que não. O cara leva as mãos até a boca e improvisa um alto-falante e começa a gritar algo. Algo este que me parece insuportável de ouvir. – Ei, pessoal! Temos uma novata aqui! Ela tem ou não tem de montar numa garupa? Ouço a vibração das pessoas e meus joelhos tremem. Não sei se é o frio ou puro medo. Serro minhas mãos em punhos pronta para socar essa besta que me dedurou. Porém me controlo porque não quero ser lixada por essas pessoas psicóticas e algumas até drogadas. Queria que o Derek estivesse aqui. Queria muito que ele me ajudasse a sair dessa cilada... Com certeza ele teria uma carta na manga. Agora tem uma multidão ensandecida olhando para mim e dando guinchos de felicidade doida para me jogar na fogueira. Sou vencida. Eles me puxam para as motos enfileiradas e, sincera- mente, não sei exatamente quantas motos turbinadas existem ali porque tem uma película d’água impossibilitando-me de enxergar direito, assim como os gritos que não me deixa raciocinar uma argumentação. Vejo uma garota beijar o Alec e, como sempre, ele corresponde. Ela diz alguma coisa no ouvido dele enquanto eu finalmente paro. – Vamos lá, garotas, sentem em suas garupas porque é hora de radicalizar! As garotas rapidamente se movimentam e encontram seus parceiros. Vejo a garota que beijou Alec se sentar na garupa dele. Vaca! Lanço uma olhadela para o Alec e ele não sorri para mim. Em vez disso, me encara com curiosidade só por uma fração de segundos. Não quero ser a garota certinha porque não sou; não quero ser essa garota frágil e que aparenta ser inocente. – Três! – Grita a voz no alto-falante. Se eu correr o bicho pega, se eu ficar o bicho come. Engulo em seco e subo na garupa de um desconhecido e agora sou oficialmente uma desconhecida dentro do meu próprio corpo. – Dois! Duas mulheres seguram as bandeiras em suas mãos como em Velo-zes e Furiosos. Aperto meus braços ao redor da cintura do cara e noto que ninguém usa capacete. Estou me atirando na boca da morte, posso sentir. Minha respiração é excessiva e por mais que eu não queira colar o meu rosto contra o desconhecido, é isso que faço, além de, é claro, apertá-lo ainda mais. Ancoro-me ao seu corpo porque não quero cair. – Um! As bandeiras dançam, as mulheres se agacham e os motores roncam simultaneamente. O mundo passa depressa quando a moto sai do lugar. Aperto os meus olhos com tanta força que penso que as minhas pálpebras nunca mais se abrirão de tão coladas que estão. Em meu peito o coração bate depressa e nunca, em toda a minha vida, pude sentir esse órgão pulsante completamente desesperado e louco para pular da minha cavidade torácica. Abro os olhos e vejo motos em nossa frente. Estamos a quantos Km/H? 100? 200? 300? Não sei. Aperto-o ainda mais quando ele faz a curva e nos vira de lado momentaneamente, o que me leva a


crer que iremos cair. Mas ele logo volta à posição linear e aproveito para respirar com um pouco dificuldade. Meu cabelo se perde no vento e meus lábios ficam completamente secos. As lágrimas voam dos meus olhos por causa do vento, e não porque quero chorar. Tudo o que quero é que isso acabe logo... Rapidamente uma moto ronca e passa em alta velocidade por nós. O som dos motores me assusta e esse desafio às leis de transito é apavorante. Como se não fosse o bastante, ele empina a moto e o grito escondido em mim ganha vida própria rompendo a minha garganta. E grito. Grito feito uma louca enquanto faço de tudo para me manter bem presa. A minha bunda escorrega no couro do assento; minhas pernas, bom, tento ao máximo pressionar os meus pés contra os pedais, mas elas não param de tremer e acho que não tenho mais força para continuar. Se querem mesmo saber a sensação de estar aqui, é simples: sentem em um ranger. Sim, aquele brinquedo que vira de cabeça para baixo. Vocês saberão o que sinto quando ele virar de cabeça para baixo levando o nosso corpo contra a gravidade ao mesmo tempo em que fazemos de tudo para nos mantermos presos mesmo que nossos traseiros desgrudem do assento só por cinco segundos. São esses cinco segundos que parecem uma eternidade. Muita coisa pode acontecer. A verdade é que não estou em um ranger com cabines protegidas, e sim empoleirada em uma moto lutando contra a gravidade (e sem proteção). Continuo a gritar! – Para! – Grito, mas ele não me escuta. Sou uma Bella Swan da vida! O ronco dos motores continua. Não consigo respirar, não consigo mais me manter presa e a qualquer momento posso despencar. Há quanto tempo ele está a empinar essa moto? E por que diabos isso não acaba de uma vez? Outra moto passa por nós. Grito. Meu cabelo entra em minha boca e o cuspo, porém ele se mantém lá até que o cara para de empinar a moto e concentra os dois pneus no asfalto. Avisto a nossa plateia e sinto que tudo chega ao fim. Sinto a velo- cidade ser diminuída, ouço alguém chamar o meu nome ou será fruto da minha consciência perturbada? Vai saber... Viro meu rosto a tempo de ver uma moto passar por nós e segundo depois estamos derrapando. O mundo para de respirar. Não existe som. Apenas o passar das coisas mais depressa do que possível. A moto se choca contra o chão. O meu corpo é lançado para o lado e rolo pelo asfalto. Sinto a dor me dominar por completo. De repente paro de rolar e finalmente suspiro. Acabou. Estou morta. Vejo a multidão se aproximar. Ouço o barulho das motos diminuírem e a correria dá início. Pisco os olhos e percebo que não estou morta. Não sinto nada quebrado, apesar de alguma parte em minha coxa arder assim como algo em minha testa. Vejo que há um líquido escorrendo em minha testa: quente, pegajoso e vermelho. Levanto da cintura para cima e as pessoas se agacham perguntando se estou bem e se consigo me levantar... Alec se ajoelha diante de mim e pela primeira vez vejo o terror em seu rosto. Por mais que ele não aparente se importar comigo, a impressão que tenho é a de que ele vai chorar. Ele me abraça e beija o topo da minha cabeça. Olha para mim, passa suas grandes mãos pelo meu rosto e pelo meu corpo enquanto pergunta se estou bem. Alec toca rapidamente os seus lábios nos meus e de súbito se levanta. Ele procura na multidão por alguém, e finalmente o encontra. Depois empurra um cara e profere socos. – Qual foi, seu idiota?! – Ele grita e expõe toda a sua raiva. Alec segura o homem pela barra da camisa.


– Foi só uma brincadeira! – Grita o cara com o nariz sagrando. – Eu só quereria dar um susto. – Foi só brincadeira uma porra! Você poderia tê-la matado, tá legal? Nós jogamos limpo, seu babaca fodido! A vontade que tenho é de te matar agora! – Ei, Alec, não sabia que ela era a sua mina! – Não importa quem ela seja! – Ele dá outro soco no homem que cambaleia e cai no chão cuspindo sangue. – Eu juro por Deus que se acontecesse alguma coisa com ela, eu te matava, cara. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse nessa vida. Não sei como, mas começo a chorar. Volúveis lágrimas despencam dos meus olhos e ainda estou a assimilar o que aconteceu. Alec se agacha diante de mim novamente. – Desculpa, Alice – ele diz. Se eu tivesse voz, diria a ele que desculpas não adiantariam nada e o que está feito, está feito. Agora eu estou aqui sentada nesse chão e sangrando. Ouço o som das sirenes e imagino que seja de alguma ambulância, embora nunca soube identificar quando se trata das sirenes da polícia ou da ambulância. Olho para o lado a procura do cara que caiu comigo e não consigo ver nada a não ser uma correria louca... Pessoas correm como se estivessem fugindo de um touro loucamente ensandecido. – Droga! – Berra Alec. – Consegue se levantar, Alice? Ele não espera que eu responda e logo me ergue do chão como se eu pesasse cinco quilos. Colocame na garupa, pula na moto, aciona o motor e de repente ultrapassamos as pessoas a pé. Estamos mais uma vez a infringir a lei e ele não se importa quando os policias pedem para ele parar. Em vez disso, Alec continua a acelerar a moto. Instantes depois estamos longe de todo aquele caos. Aperto meus braços dolorido ao redor do abdômen dele e deito a minha cabeça em suas costas. Choro. Quando chegamos ao antro ele me carrega em seus braços mais uma vez, mesmo eu sendo perfeitamente capaz de andar. Ele abre a porta com uma mão enquanto me apoia em uma perna e a outra mão. Sinto o cheiro dele: um cheiro delicioso que não consigo decifrar. Desde que saímos daquele inferno não trocamos nem sequer uma palavra. Como se fosse de casa, Alec rapidamente encontra a caixinha de primeiros socorros, corta um pedaço da minha calça e faz o curativo. Sentada e mordendo os lábios, não digo nada, apenas o assisto cuidar de mim silênciosamente. Ele umedece o algodão com soro e o passa no pequeno ferimento em minha testa, um pouco acima do couro cabeludo, ao mesmo tempo em que sopra para parar de arder. Faço uma careta de dor. – Acha que consegue se banhar sozinha? – Ele pergunta depois que termina o curativo em minha testa. Faço que sim com a cabeça porque sou uma boa menina. Levantome do sofá sem colocar muita força na perna ferida que, para ser sincera, nem está tão ruim assim. Poderia ter sido pior, mas não foi dessa vez. Entro no banheiro, tiro a minha calça com um pedaço faltando, depois o resto das roupas e tomo banho. Quando termino, olho-me no espelho e procuro por traços daquela garota aparentemente centrada que eu era alguns dias atrás. Não os encontro.


Na minha pequena sala, Alec limpou toda a bagunça que fez e está parado, passando a língua nos lábios sem saber, pela primeira vez, o que fazer. – Acha... Acha que posso usar seu banheiro? Digo, usar o chuveiro? Balanço os ombros e ele entra no banheiro. Pergunto-me por que ele não vai para casa, por que não vai tomar banho em sua casa que não é nem um pouco longe daqui. Outra coisa: também não sei como agir. De repente não tenho forças para gritar com ele porque, de uma forma geral, foi decisão minha subir na moto. Quer dizer, parcialmente. Minutos depois ele sai do banheiro apenas de cueca box. Coloca suas roupas em uma cadeira vazia e, por mais que eu finja não me interessar, meus olhos varrem seu corpo em curiosidade e desejo. Penso como deve ser beijar todo esse corpo, como deve ser fundir-se a ele. E finalmente digo alguma coisa: – Não me lembro dessa tatuagem ai. Ele olha para a tatuagem em seu peitoral largo e então olha para mim. Caminha em minha direção. – Fiz esses dias – sorri sem graça. Não é nem de longe aquele sorriso que faz com que eu desmonte. O contorno da fênix ainda está vermelho. Alec me guia até a cama e o seu toque é reconfortante. Deito-me na cama e ele me cobre porque sou uma boa menina. – Essa noite irei dormir aqui, se não se importar. Tenho medo de que precise de algo e eu não esteja aqui. Ele vai para o sofá e se deita. Viro-me de lado na cama, respiro fundo no ambiente iluminado apenas pela luz da escrivaninha e penso que essa cama me é grande demais. Olho para o teto e algo dentro de mim se agita com essa possibilidade. – Alec? – Chamo. Ele vem até mim depressa. Coloca as mãos na cintura e logo dou dois tapinhas no espaço vazio ao meu lado. – Tem certeza? – Ele faz uma careta. Faço que sim com a cabeça e ele se senta na cama. Ele passa suas fortes pernas para debaixo do cobertor e minutos depois estamos deitados em minha cama, os dois, um olhando um para o outro. Vejo uma coisa que nunca pensei ver naquele rosto: uma lágrima escorre do seu rosto e pinga no travesseiro e, de uma maneira ilógica, isso me corta por dentro. Tenho vontade de carregá-lo no colo, mas a ideia é absurda, eu sei. – Desculpa – ele sussurra para mim. Aproximo-me dele e limpo a água de seu rosto. Observo cada detalhe dele e chego à conclusão de que nunca vi um rosto tão lindo e perfeito em toda a minha vida e, ironicamente olhando-o desse jeito, tenho medo de tocá-lo, tenho medo de destruir essa linda fotografia. – Tudo bem, não foi tão ruim assim – forço um riso. – Foi totalmente ruim, Alice. Eu sou um idiota! Só faço burrada! Eu deveria ter aceitado o que me propôs, eu deveria ter esquecido essa aposta. Eu nunca deveria ter te levado lá. Aquilo não é pra você, aquilo não é pra ninguém, para ser sincero. Não falo nada porque ele tem razão. Aquilo não é para ninguém e não foi nem um pouco legal. Ver o mundo despencar diante dos seus olhos não é legal. Quantas pessoas no mundo inteiro morrem por conta dos rachas de ruas? – A verdade é que, quando vi a moto em que você estava derrapando, quando te vi lá caída no chão, achei que o meu mundo iria desmoronar. Mil e uma coisas se passaram em minha mente. Se você morresse, eu morreria também, Alice. Juro por tudo o que é mais sagrado que nunca, em toda a minha


vida, me senti tão desesperado. Nem quando... As palavras morrem em sua boca porque a sua voz falha. Dentro de mim uma coisa estranha se movimenta depressa e um caroço se forma em minha garganta. Uma história triste. Ele deve ter uma história triste. – Não quis que você montasse naquela moto de verdade... Porém, quando me lembrei do tapa que me deu, quando me lembrei do seu jeito mandão e mimado, pensei: “por que não?” Sorrio para ele e procuro por aquele Alec sorridente, chantagista e arrogante. Não o encontro. Ao invés disso encontro um cara fragilizado bem diante de mim. O pior: sou eu a causa dessa fragilidade. – Ah, Alice... Você, de uma certa maneira que não consigo explicar, desperta o que há de melhor em mim, assim como também desperta o que há de pior. É como numa via de mão dupla, uma encruzilhada, entende? Concordo com a cabeça porque é assim que eu me sinto quando estou ao seu lado. Sou uma boa menina, mas também consigo ser terrível. É involuntário todo este sentimento, não tem como controlar. – Se quiser, podemos esquecer essa aposta boba – ele murmura. Penso a respeito e a pior parte já se foi. Não terei que ir a nenhum outro racha e, além do mais, não posso deixá-lo ir agora. De alguma maneira irracional essa aposta é o que nos mantém juntos nos dias que estão a suceder. – Claro que não. Amanhã é a sua vez de cumprir a primeira aposta. Ele sorri para mim e me abraça. Sinto a sua pele quente feito brasa. Sinto que poderia morrer em seus braços ou passar o resto da eternidade ali. – Diz que me perdoa. – Eu te perdoo. Alec beija o topo da minha cabeça como fez lá no racha de motos. Aninho-me ao seu corpo, deito cabeça em seu peito nu e adormeço. Ele se importa comigo de verdade.


Capítulo Onze A garota virgem Espreguiço-me feito uma gata preguiçosa quando finalmente lem - bro-me da noite passada. Abro os olhos e vejo o Alec dormindo perdido em sua inconsciência na minha cama, ao meu lado! Roço minhas pernas devagar pelo lençol, o contemplo por um tempo e me sinto uma tola. Relembro-me da noite passada. Ele foi um ogro ao me abandonar à mercê daqueles caras, porém o seu carinho por mim, a maneira como ele cuidou de mim faz com que eu me esqueça de tudo. Ele abre os olhos e eu sorrio um sorriso sem graça. – Bom dia. – Ele diz com a sua voz rouca e me puxa para si. É ai que me derreto toda. Colo o meu rosto contra o peito dele e faço um esforço para olhar o seu rosto ao mesmo tempo em que ele me dá um beijo e toca lentamente no ferimento em minha testa. – Está se sentindo melhor? Não quero abrir a boca com medo de espantá-lo com o meu bafo matinal mas, para ser honesta, quem se importa? – Sim, muito melhor. – Ótimo. Nos desconectamos. Ele se levanta e os meus olhos rapidamente focam algo, quer dizer, focam a cueca do Alec, onde seu pênis faz um esforço para perfurar o algodão de tão duro que está. Alec encontra o meu olhar. Fico constrangida. Era ele quem deveria estar. – Oh, não é nada do que você está pensando! – Protesta. – Não estou pensando em nada. – E por que está me olhando assim? – Não respondo. – Oquei, só estou com vontade de ir ao banheiro. Por fim ele dá de ombros e entra no banheiro. Lembro-me daquela coisa de “tesão do mijo”, e desanimo. Acreditem se quiser, parte de mim ficou completamente feliz por ele estar com tesão por minha causa. Ele volta e se deita na cama de novo com uma cara estranha, como se algo terrível esteja perturbando seus pensamentos. – Sabe, Alice, me passou uma coisa pela cabeça. – Faço um esforço tremendo para não perguntar o que e, ironicamente, ele continua. – Por acaso você já viu um cara pelado? Digo, você já viu um pau? Porque me parece que você estava muito assustada quando viu o meu, quer dizer, quando percebeu eu estava excitado. Tremo por dentro porque nenhum outro cara nunca me fez essa pergunta, nem mesmo o Derek. Pelo menos não dizendo “meu pau” e isso me parece muito, hum, sei lá, parece que estou lidando com um garoto do colegial ao falar essas obscenidades. Para dizer a verdade, eu nem deveria estar assustada. Sou uma retardada. – Hum, por que quer saber? – Porque é uma perspectiva interessante. Porque, se você nunca viu um pau, então nunca transou, certo?


Coro completamente, da cabeça aos pés. Palmas para o Alec porque, mais uma vez, ele conseguiu estragar a pintura que fiz dele: lindo, fofo, carinhoso e etc. No meio desse constrangimento todo chego ao ápice da questão: por mais que o Alec queira ser alguém melhor, dentro dele sempre existirá um ogro. – É claro que já vi! – Pestanejo e me levanto da cama. – E é claro que já fiz amor, quer dizer, transei. Entro no banheiro, olho-me no espelho e estou completamente arrasada de feia. Meu cabelo está pior do que de costume, minha testa esta arroxeada e com leves arranhões perto do couro cabeludo e me pergunto onde foi parar o curativo que o Alec havia feito na madrugada passada. Outra coisa: minha perna não está dolorida, mas a coisa ainda está feia (com arranhões terríveis). Fico desesperada quando penso que talvez essa cicatriz jamais me abandone e terei de dar adeus à minha carreira de atriz. Toda atriz que se preze sempre acaba de calcinha e sutiã em uma cena. Devo menos estragos graças a minha calça jeans. Escovo os dentes, lavo o rosto e penteio o cabelo e, ao abrir a porta, o Alec está parado lá, ainda de cueca. – Por que diabos ainda não vestiu as suas roupas, Alec? – Porque sei que gosta de olhar para as minhas pernas! – E gosto mesmo. O fuzilo com os olhos e vou para a cozinha. – Ei, Alice, é sério. Responde para mim com sinceridade – ele me segue. – Você não é virgem, é? Apoio-me na pia. – Não entendo por que, de repente, isso parece importante. – É interessante. Sei que é estranho e tudo mais... Você não é do tipo de garota que é virgem, mas ao mesmo tempo me parece, principalmente a maneira como você me olha de vez em quando. Rio, só que é de nervosismo, para quebrar o clima. – Como eu te olho? – Como um gato olhando o peixe nadar no aquário. Confesse, confesse que você sente algo por mim. – Rá-rá. Não entendo como ele sempre tem razão. Eu o quero de todas as formas possíveis e impossíveis e sei que não posso me render. Todo esse charme, todas essas andadas de cueca e tudo mais pode – e como não pode – ser parte do plano “conquiste a besta da Alice e ganhe a aposta”. – Sabe, Alec, você é muito convencido. Não é só porque tem esse rosto de bom menino, corpo de homem gostosão, pernas saradas e dentre outros, que significa que estou atraída por você... Acredite se quiser, seu corpo pode ser a primeira coisa a chamar atenção em uma mulher, mas uma mulher quer muito mais do que um corpo: ela quer um amigo, um alguém inteligente para se apaixonar porque, no fim da história, esse seu peitoral largo um dia vai cair, meu bem; esse rosto será só mais um rosto com cabelo grisalho e você será mais um idiota sozinho arrependido por estar sozinho. – Uau, essa doeu... E quem foi que disse que eu não posso ser amigo, inteligente e gostosão? Tudo é questão de ponto de vista. – Então espero sinceramente que tenha entendido o meu ponto de vista. E ele entendeu. Sei disso porque o Alec faz uma cara pensativa e fico bastante curiosa, para ser sincera. – O quê? – Nada. Mas você é a primeira mulher que me diz isso. As outras, você sabe, só querem me usar e dizer o quanto sou bonito. Elas exibem seus sorrisos e eu caio feito um patinho... Deve ser aí que eu me tornei convencido.


– Que bom que sabe reconhecer – ele sorri pra mim. – E mais uma vez: eu não sou virgem. Fim de papo. Agora, por favor, vá vestir a roupa! Não, não vista, continue assim, ou melhor, tire tudo! – Ainda bem que você não é virgem, porque seria bem estranho nunca ter transado. Conheço alguns caras que se matariam para te ter e outros não – ele ri. - Acredite se quiser, mas às vezes você pode não ser muito atraente, principalmente quando banca a durona. Depois que o Alec vai embora e me deixa com uma sensação de vazio, eu lavo os pratos e percebo que o antro nunca foi tão grande. Mas, desde a nossa conversa estranha, ideias rodeiam o centro dos meus pensamentos. Por que nenhum cara nunca insistiu em ir para a cama comigo? Será que eu sou mesmo durona ou um pouco atraente? Se o Alec acha que sou pouco atraente, então certamente os outros também pensam a mesma coisa. Bem, tem o Jonathan... Será que ele também pensa a mesma coisa? Ouço o som de chaves e passos se aproximarem. – Olha, a meretriz resolveu arrumar o antro! Ele caminha em minha direção. Posso sentir mesmo estando de costas e, por fim, ele toca os seus lábios rapidamente nos meus. Ele pega um pano de prato limpo na gaveta e começa a secar os pratos. – Não foi trabalhar hoje? – Pergunto. – Precisei tirar o dia de folga. As coisas lá em casa não estão legais. Meus pais estão brigando constantemente e acho que vai acabar em separação. Faço um muxoxo realmente chateada porque não imagino os pais do Derek separados. Eles estão juntos desde sempre e sempre me pareceram bem felizes. – Ah, que chato. – Viro-me para ele. – É só uma crise. Derek franze o cenho, interrompe a sua atividade por um minuto e dá dois passos em minha direção. Ele puxa o meu braço para que eu fique totalmente defronte a ele e me analisa feito uma máquina copiadora com a escâner ativa. – Que diabos você andou fazendo, Alice? Está totalmente... Destruída! Oh, não creio que escalou o Everest! – Não seja irônico. Sofri um acidente ontem. Agora sim ele se mostra preocupado, o que não é nem de longe legal... Não é bom ouvir sermão de melhor amigo, se querem saber. Eu não suporto quando o Derek banca o pai que descobriu que a sua filhinha fez uma tatuagem, ou melhor, perdeu a virgindade com um ladrão de quitanda. – Sofreu um acidente? Como assim?! Por que não me ligou? Hein? Diz, Alice, você sofreu um acidente de quê? Não sei o que dizer e quando não sei o que dizer é porque tenho que dizer a verdade. Direi a verdade. – Fui em um racha de motos – cuspo as palavras. – Você foi... Você foi a um racha?! Santo Deus! Como? Com quem você foi a um racha? Não respondo. Derek caminha de um lado para o outro, passa a mão no queixo e sei que ele vasculha


algo em sua memória fértil a qual nunca falha devido ao tempo que ele passou jogando Sudoku no ensino médio. – Espera, não precisa dizer. Você foi com ele, né? Com o idiota do Alec para cumprir aquela idiota aposta! Continuo sem responder. Sinto-me a tal garota que decepciona o papai. Passo a língua nos dentes e penso que cairia de moto quantas vezes fosse possível, se isso me desse uma noite a cada dia ao lado do Alec. Sei que é uma coisa idiota de se pensar, não quero ser retardada, mas às vezes a gente não controla certos pensamentos. Quem nunca pensou uma bobagem que atire a primeira pedra. – Você foi com ele, Alice? – Fui! – Berro. – Fui com ele. Pronto, acabou! – Acabou? – Ele enfia o rosto nas mãos e depois olha pra mim. – Você está descontrolada. Pensei que essa aposta era um blefe, que você nunca iria a este pega de motos porque, além de ser altamente perigoso, é crime! Não te passou isso pela cabeça? – Sim. Mas você queria que eu fizesse o quê? Queria que eu andasse pela Secret Five nua? – Não! Quero que você acorde e veja que essa aposta é a coisa mais boçal do mundo! Ele não pode te obrigar a fazer uma coisa que não quer. Você não é mais uma adolescente, Alice! Cresce! – Para de falar comigo assim! – Grito. – Pare de agir assim! Dou de ombros e vou para a sala. Jogo-me no sofá e coloco o cabelo atrás da orelha. Sei que esse jogo é idiota, mas gosto do desafio. Gosto de provar ao Alec que sou corajosa. – Como foi esse acidente? – Pergunta Derek, agora mais calmo. Chupo as bochechas e o fuzilo com os olhos. Faço um breve resumo do que aconteceu na madrugada passada, o que choca o Derek. Ele não consegue imaginar como o Alec pode ser um patife. – Isso está passando dos limites! Você está louca. É como se esse cara tivesse feito uma lavagem cerebral em você! Ouço batidas na porta. Mordo meu lábio inferior e entro em um certo tipo de confronto comigo mesma. Sei quem está na porta. Sei que é o Alec porque ele disse que passaria aqui mais tarde para saber se eu preciso de alguma coisa. Eu preciso do Alec, só isso. – Não vai atender a porta? Não posso abrir a porta porque isso será uma catástrofe. Não preciso que o Derek veja o meu lindo Alec agora. Tarde demais. O Derek vai até a porta e a abre enquanto eu fecho os olhos. – Ora, se não é o seu vizinho gostosão! – Diz Derek em ironia. Abro os olhos, vou até a porta e penso que o Alec é a coisa mais linda que os meus olhos já viram, ainda mais com esse cabelo molhado e a camisa apertada no peito com os músculos a saltarem da manga. – Ora, se não é o melhor amigo da Alice! – Murmura Alec. – Qual foi, cara? – Começa Derek. – Por que levou ela lá naquele lugar, hein? Ela poderia ter morrido, tá legal? – Vejo que já está a par das coisas – provoca Alec. – Bem, pelo menos ela não morreu. Seria bem chato o peso na consciência. – Seu português forçado é incrível! – Rá-rá. Juro por tudo que é mais sagrado que se acontecesse algo ainda mais grave com a Alice, eu iria acabar com você, Alec! Você não consegue perceber que desde que apareceu na vida dela, só acontecem coisas ruins? Que a Alice de repente não é mais a Alice? Que você está manipulando-a, brincando com os sentimentos dela?


– Não, eu não sei. É verdade, Alice? Não respondo. Quero rir, pois o Alec parece relaxado, enquanto o Derek é uma pilha de nervos. – Isso é só o início. Pergunto-me se quando essa aposta acabar ela ainda estará viva. Pergunto-me como, depois que essa aposta acabar, ela estará. Racha de motos? Uma tatuagem? Roubo de calcinha? Fazer com que ela se apaixone por você como se isso não fosse óbvio? É demais pra mim, francamente! Lambo os lábios e me sinto exposta. Se o Alec for esperto o bastante para ler nas entrelinhas, então agora ele já sabe que estou muito atraída por ele e que isso logo será algo maior, já que o Derek acaba de me dedurar. Apesar de não ser isso o que me preocupa, e sim uma nova questão: quando isso acabar, como vai ser? – Se é demais pra você, então dá o fora, babaca! – Diz Alec sem sorrir. – Se você gosta de dar pitacos na vida dela, então que dê, mas não venha dar na minha, caralho. – Tá legal, contando que ponha um fim nessa aposta idiota e vá em- bora da vida da Alice. – Não, claro que não. – Por que não? – Porque gosto da Alice... – Então, se gosta dela, acaba com essa aposta e vai embora. Isso não é nocivo, cara. Faz-se silêncio e entro em desespero. Afinal, o Alec não pode acabar com tudo. Não quando ele me faz bem e ao mesmo tempo mal. Ele é o meu divisor de águas e gosto disso. Gosto dessa sensação de estar sendo jogada de um penhasco o tempo inteiro; gosto e desgosto da adrenalina que só o Alec me proporciona. – Eu não vou embora! – Ah, você vai, seu filho de uma puta! Pronto. Alec parte para cima do Derek e lhe profere um soco no rosto. O vejo cambalear para trás, além do sangue manchar o rosto do Derek e pingar no chão. Finalmente olho para o Alec e escancaro a boca, totalmente indignada com o que ele acabou de fazer. – Alec, seu idiota brutamontes, o que você fez? – Grito e parto para cima do Alec e lhe dou um soco no rosto não forte o bastante para quebrar o nariz dele ou fazer sangue jorrar. Alec me segura quando vou para cima dele e profiro tapas em seu peitoral. Sou rendida e minha ira se evapora por um segundo quando ele me olha nos olhos numa tentativa de desculpas, acho. – Vai embora, Alec! – Berro enraivada. – É isso que você quer? – Sim, é isso o que quero! Ele me solta, toca com a ponta dos dedos no local onde eu o soquei e por um segundo penso ter visto lágrimas se formando nos olhos do Alec. Porém ele se vira e vai embora. Vai para a sua casa. Vai embora e já não sei se ele voltará, se o quero por perto. Volvo e não fecho a porta, caso o Alec queira voltar. Derek está com a sua camisa ensopada de sangue, o que faz com que eu me sinta a pior pessoa do mundo, a pior amiga de todos os tempos. Jogo-me no chão diante dele. – O que eu fiz? – É a única coisa que consigo dizer quando vejo Derek com a mão no nariz e com cara de dor. Muita dor. Ele está sem camisa em minha cama e o sangue não jorra mais feito uma cachoeira. Enfiei a maior quantidade de algodão que o seu nariz con- seguiu obter. A coisa não é muito ruim assim. Está um pouco inchado, mas não roxo. – Ele te acertou em cheio.


– É, acho que mereci. Nunca chame uma pessoa de filho da puta! – Ele ri e faz uma careta. – Lembra de quando briguei na escola por causa disso? Concordo com a cabeça enquanto ficamos em silêncio por um in- stante. Estou distraída demais cuidando do ferimento do Derek quando ele resolve quebrar o silêncio. – O que está acontecendo entre vocês dois? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Gosto do Alec, gosto da maneira como ele sorri para mim, gosto quando ele se irrita comigo e fica muito bravo... Acho que sou masoquista. Se bem que, certa vez, vi na internet que isso pode ser considerado um fetiche, essa coisa de ser submissa ao homem. Algumas mulheres gostam, outras não. Acho que gosto. A Ana é masoquista. – Não sei. Acho que não contei que ele dormiu aqui, né? Ele parece surpreso. – Não, acho que essa parte foi intencionalmente censurada. – Dou um empurrão em seu ombro nu. – Se quer saber, ele foi um cavalheiro comigo. – Foi? Não consigo vê-lo como um cavalheiro, e sim como um cara que não sabe o que fazer da vida, frequenta todas as festas da cidade e bate em todos quando bem quer. Acha que ele é um desses maníacos loucos por brigas? – Não. Acho que não. Silêncio porque nesse exato momento me vejo pensando em algo. Vejo o Alec e essa sua mania obsessiva de bater em outros: o Diogo, o cara do racha e agora o Derek. – Você acha que o Alec agride as pessoas na tentativa de esquecer os seus problemas por um instante? – Não, acho que bate por diversão. Ele é encrenca. – É sério, Derek. Lembra-se de quando o professor de Psicologia da Saúde disse que a maioria dos homens depressivos agridem outras pessoas ao invés de ficarem presos dentro de casa? – Lembro. – Ele franze o cenho. – De onde é o Alec mesmo? – Sei lá, ele nunca me contou nada de sua vida para mim, assim como nunca disse nada da minha para ele. Mas ele tem um sotaque estranho. – Pelo menos sabemos que ele é encrenca, que não presta. Nenhum cara que preste vai à racha de motos, agride outros e faz apostas tolas. A impressão que tenho é a de que você se apaixonou pelo cara errado, Alice. Com tantos homens disponíveis por aí você foi logo se envolver com um estranho e que não sabe de que raio veio. – Está sendo hipócrita. – Não, estou sendo realista. – Você também não sabe de onde a Lena veio e mesmo assim se apaixonou por ela. Aliás, isso é bem pior, levando em consideração que vocês só se viram uma vez. Ela nem te dá atenção. Ele me lança um olhar desolado e percebo que não devo atirar essa história na cara dele todas as vezes que o Derek resolver falar do Alec, até por que a Lena não o levou e nem fez algo ilícito até então. Pelo contrário, ela é bem esperta. Deve estar evitando problemas e enrolando o pobre coitado. – Sabe, conheci uma garota. Fico animada. – Nossa! – Estou realmente feliz. – Conta mais! – Não tem mais, ainda estamos nos conhecendo. Ela é uma ótima pessoa: gosta de ler e de jogos de zumbi. – Estranho. – Você acha? Pelo menos ela não me levou a um racha de motos. – Reviro os olhos. – Tudo bem, o


importante é que você vai gostar dela. – E a Lena? Ele pensa um pouco e foca em um ponto qualquer. É ai que percebo que ele sente algo forte demais por essa desconhecida, quase surreal. Mas quando se trata de amor, quem entende? – Quer mesmo saber a verdade? Posso estar com qualquer garota e mesmo assim, quando a Lena quiser, estarei com ela. Não sei como, mas gosto dela de verdade, Alice. E isso está me destruído por dentro. Aceito a Lena de qualquer forma, entende? Não entendo porque às vezes a gente luta pelo que não se pode ter. Pergunto-me quando ele vai se cansar. Já passa de meses e nada. Ela sempre o enrola e ele sempre cria expectativas para que depois descubra que tudo não passou de um blefe. – Espero que não seja assim pra sempre e que essa nova garota consiga te conquistar. Você é a melhor pessoa do mundo e merece a melhor pessoa do mundo. – Acha que um dia vamos conseguir ser feliz com alguém? – Ele pergunta como uma criança que pergunta à professora como se lê, embora ele nem saiba formar as sílabas. – Veja pelo lado positivo: pelo menos temos um ao outro e se a gente não se casar com ninguém, nós nos casamos, como me prometeu quando éramos criança. – Digo enquanto aproveito para levantar e procurar por uma camisa dele no meio das minhas roupas. – Não acredito que lembra disso! – Lembro-me de coisas sórdidas. – Sabe, Alice, eu nunca te contei isso mas... Naquela época eu gostava de você. Imaginava, de verdade, que um dia nos casaríamos. Eu ficava imaginado quando te diria isso e ficava fazendo planos para nós dois. Eu era, e sempre, fui um tolo. Mas isso foi só depois que a sua mãe e a Belle se foram. Acho que ficamos mais próximos, foi inevitável. – Não, você sempre teve coração, coisa difícil de encontrar hoje em dia, sabe? E se isso te faz feliz, gostei de você quando era criança também. Rimos e revelamos um para o outro os nossos segredos infantis. Seu nariz parou de sangrar e logo troquei o algodão e dei um analgésico. Derek disse que não queria ir para o hospital, que não estava mais doendo. Minutos depois... – Ei, Alice, você não me disse o que aconteceu depois entre você e o Alec debaixo do edredom. – Nada. Como disse, ele foi cavalheiro e não forçou a barra para que eu fizesse sexo com ele. – Levando em consideração os ferimentos, é bem provável ele não ter forçado. Não sei, mas às vezes ele tem cara de pervertido – ele ri. – Pelo menos você está a um passo de perder a virgindade! – Você acha mesmo? – Sim. Ele te quer, o Alec te deseja. A maneira como ele te olha, nossa! Parece que vai arrancar as suas roupas num piscar de olhos! Só você não percebe. Eu sei que o Alec me quer desde a primeira vez que ele me beijou, só não imagino que seja dessa maneira como o Derek descreve e, se for assim, das duas, uma: ou sou uma cega, ou ele sabe disfarçar muito bem. Prefiro ficar com o quesito “cega”. – Bem, ele me perguntou se sou virgem e eu disse que não era. Fiquei com medo dele achar que sou uma tola e que não entendo nada com nada. Sei que alguns caras, quando descobrem que uma garota é virgem, simplesmente desaparecem. – Deveria ter dito a verdade para ele. Assim descobriria se ele gosta de você de verdade ou não. – Agora é meio tarde para voltar atrás. Não tenho coragem de dizer a verdade para ele e se eu for realmente para a cama com o Alec, o que pretendo assim que essa aposta acabar, vai ser horrível


porque ele vai sacar na hora que não entendo nada de nada quando o assunto é sexo. Tenho medo de fazer tudo errado. – Não sei por que vocês mulheres ficam fazendo planos. As coisas simplesmente acontecem na hora e ninguém se lembra do roteiro programado. – Sei não, ele é experiente no assunto. Sinto isso. Em todas as festas que nos encontramos sempre tem uma garota atracada a ele. Outro dia vi uma moça saindo da casa dele bem cedo e o Alec estava só de toalha. Não quero, em hipótese alguma, ser ridicularizada em plena primeira vez. – Mais um motivo para não fazer com ele. Penso nas coisas que a minha mãe dizia sobre o ato do sexo, o pecado. Penso nas coisas que li nos livros e no que a minha madrinha sempre dizia: “só devemos nos entregar a alguém que realmente amamos, e não por conta de um sexo casual.” – O que acha de nós dois, hum... – faço uma careta e me esforço para terminar – Transarmos? Ele ri. Alto. Muito alto. – Não está falando sério, está? – Claro que sim. Você pode me ensinar umas coisas e tal, e não irei me sentir constrangida se fizer algo errado. Assim não terei que contar a verdade para o Alec, entende? – Entendo que você está ficando louca e obsessiva. – Por favor, por favor, por favor! – Sinceramente, nunca pensei que viveria para ouvir você me pedindo para transar com você, Alice. O que é tudo isso? Desespero? E outra: tenho certeza que, se transarmos, amanhã mesmo nós seremos dois estranhos e tudo isso que sentimos um pelo outro, essa amizade, vai acabar. Entende? Derek tem razão. É quase certo que eu não falaria com ele como agora. O constrangimento sempre iria bater. Porém não consigo pensar em outra pessoa que fizesse isso por mim, alguém que me ensine como ser boa o bastante na cama. Não quero ficar me humilhando pra fazer sexo com mais ninguém. Faço bico. – Não fica assim, tá? E como iríamos transar se você está arreben- tada e o meu nariz também? – É, não iria dá certo – rio. – Mas não seria uma má ideia, seria? – Não, Alice, não seria. – Ele inspira e puxa a barra da camisa para tentar tirá-la. – Você quer tentar agora? – Acho que não. – Foi o que pensei.


Capítulo Doze Eu gosto de você O “zumzumzum” na faculdade foi o fim do namoro do Nêmias com a Ana. Eu sei, eu sei. Todo mundo sabe que eles vivem brigando e reatando, só que dessa vez a coisa parece ter sido bem séria: ela descobriu que está sendo traída e, embora achássemos que a maluca fosse ficar depressiva, ela simplesmente resolveu soltar a franga e paquerar todos os caras que passavam pelo corredor. Enquanto Elvira come a sua salada de fruta e diz que o leite em pó está com gosto de farinha, murmúrios ecoam em mistura com os risos frenéticos, afinal o último cara que Ana paquerou era estrábico. – Não tem problema – gritaAna, eufórica -, eu já fiquei com um cego mesmo! – E então ela da sua gargalhada maléfica e todos seguem o coro, digo, o riso. Bem, no fundo eu sei que toda essa ironia da Ana é para chamar a atenção do Nêmias, o qual não está nem aí. Derek não veio para faculdade, o que me deixou preocupada e culpada. Ele disse que está tudo bem e que apenas não quer ter que responder perguntas. Alec não me ligou, o que é um problema. Mesmo assim, não sei se quero falar com ele; não sei se ele merece ser perdoado. Não é nem um pouco certo o Alec agredir todos só por que tem o pavio curto. Olho para o relógio mil vezes: não aguento mais toda essa aflição. Estamos em sala presos por causa de um estudo dirigido. O professor de bioquímica teve que se ausentar, o que deixou Laura um pouco triste. Ela decidiu que tem que pegar esse professor de qualquer jeito! Adrick e Celina: puro fogo. Um corre atrás do outro feito dois cabritos em acasalamento e tenho certeza que um dia eles vão parar na cama. Está na cara que um quer ser aliciado pelo outro! – Acabamos! – Grita Silvia enquanto enfia suas coisas dentro da bolsa de cachorro. – Meu namoridojá está me esperando. Vamos para o macarrão hoje! – Ah, todo dia você vai comer nesse macarrão. Essa porra não engorda de ruim! – Murmura Lis. Silvia dá a sua risada de Pikachu. – Está vendo? Vocês não quiseram ir comigo... – Não somos ricos que nem você! – Protesta Lis segurando a sua bolsa que mais parece uma mala de viagem. Enfio minhas coisas dentro da bolsa e me pergunto como vou voltar para casa se o Derek não está aqui para me levar. – Ei, Katariny! – Digo, mas ela não olha para mim porque está pintando os olhos da Laís com um delineador a fim ficar igual ao da Amy Winehouse. – Você vai para casa agora? Olho mais uma vez para o relógio. Não está tão tarde assim para uma caminhada até o antro. – Vou! Deixa-me só terminar aqui, beleza? Concordo com a cabeça e olho para o meu celular. Nunca em minha vida desejei que alguém ligasse para mim. Na caminhada até o antro eu converso com a Katariny sobre o Alec, mas não conto que fomos a um racha de motos, embora parte de mim está louca para contar a todos porque, no fim, todos estavam querendo saber onde consegui um arranhão na testa. A minha sorte é que eu estava de calça jeans e não tive que explicar muita coisa. Apenas caí e arranhei a testa.


Enfim eu e Katariny tomamos caminhos diferentes e confesso que fiquei um pouco feliz. Não aguentava mais ouvir ela falar sobre um cara que balança as suas estruturas e o quanto ele não sabe o que quer, como se eu não tivesse os meus próprios problemas desse tipo. Se ninguém percebeu, fui beijada há pouco tempo e estou amedrontada com a possibilidade de ser levada para cama por um cara que acha que eu não sou virgem quando, na verdade, nunca nem vi um cara pelado. Hum. Minto. Eu nunca vi um cara com o seu guarda-chuva armado. Fato. Quando estou a me aproximar ainda mais do antro, paro no meio do caminho ao ver um cara suspeito vindo em minha direção. Meu coração pula no peito porque esse não é o tipo de meliante que se corre atrás. Alguém segura a minha cintura e tremo por dentro. – Tudo bem, continue andando e logo chegaremos à sua casa – diz uma voz. Viro o rosto e vejo que é o Diogo. O meliante passa por nós. O caminho inteiro até o antro foi feito em silêncio. Fiquei muito grata por ele ter me acompanhado até o antro. Quando paramos na porta decido dizer alguma coisa. – Obrigada. – Que isso, não foi nada. – Sério, obrigada. Se não fosse por você, com certeza teria sido roubada. E, hum... Ainda não me desculpei pelo acontecido naquela noite. Aquela em que você me beijou. – Vai, eu mereci. Fui um verdadeiro canalha. – Ele sorri pra mim e é a primeira vez que noto suas covinhas. – Quando um não quer, dois não brigam, certo? – Acho que sim. – Rio. Durante o segundo que se passa cogito se não seria tão ruim assim ir para a cama com o Diogo. Seria? E se eu o convidasse, é claro que ele aceitaria. Mas também é quase que possível que eu acabe sendo o assunto da vez, coisa que não quero. Muito menos desejo ser a desesperada! Se o Alec me quer de verdade, ele não vai se importar se sou virgem ou não. – Então vou indo – ele diz. – Obrigada, de novo. Abro a porta e meus dedos procuram pelo interruptor. Por fim vejo uma coisa no chão. Um bilhete dobrado em quatro partes onde, em caligrafia não muito perfeita, diz assim: Desculpe por agredir o seu amigo, não foi intencional. Não gosto que falem da minha mãe. Também gostaria de dizer que se você quiser acabar com essa aposta, tudo bem, acabamos. Porém, se quiser continuar, o portão da minha casa está aberto e tem uma chave debaixo do carpete. Olhei no Google uma receita de cupcakes e comprei os ingredientes. Não sei que horas chegarei em casa. Se você for, não só a aposta está de pé, mas saberei que me perdoa. PS: a casa é sua. Alec. Releio o bilhete e fico na dúvida sem saber se desisto da aposta ou se vou até a casa dele e o espero. Essa última parte toma uma grande porcentagem de mim porque o Alec procurou uma receita de cupcakes, o que é um ponto positivo. Além do mais, se essa aposta chegar ao fim, é bem provável que nós não nos falemos com tanta intensidade.


Atiro a bolsa em cima da cama, tomo banho, visto um short curto florido, blusa de manga curta e calço uma sapatilha qualquer. Amarro meu cabelo em um rabo de cavalo alto e frouxo e revelo a minha nuca pálida. Passo perfume, ando de um lado para o outro e por fim decido sair de casa. Já passa um pouco das dez e adianto meus passos na rua deserta. A luz da garagem da casa do Alec está acesa. Abro o portão, vou para a porta, levanto o carpete e encontro uma chave solitária. Sorrio. Ele deve confiar em mim de verdade. Quem dá a chave da sua casa para qualquer pessoa? Animada com a possibilidade de passar um tempo com ele, enfio a chave na fechadura e entro na casa. Procuro pelo interruptor com a ajuda do meu celular e acendo a luz da sala. Varro meus olhos pelo recinto e está tudo perfeitamente arrumado. – Alec? – Pergunto, caso ele esteja em casa. Não obtenho resposta. Vou até a cozinha. Está arrumada também e em cima da mesa há um embrulho com ovos e farinha de trigo. Como não sou eu quem tem que fazer nada, resolvo ir até o quarto dele. Entro no quarto do Alec e tem uma cama box alta com uma colcha preta e dois travesseiros. Livros empilhados no chão, um guarda-roupas grande, um sapato jogado no chão, uma luminária acesa em cima de uma escrivaninha com um monte de papelada espalhada e um notebook entre as papeladas. Um violão encostado na parede ao lado de uma guitarra, o que faz com que eu me sinta dentro do quarto de alguém que ame muito a música. Uma pilha de discos está perfeitamente arrumada no criado mudo. Passo o dedo pela cama dele. Vou em direção à pilha de disco e puxo um qualquer que, na verdade, não é um LP qualquer, e sim um álbum dos The Beatles Viro-me para sentar na cama e poder ver melhor. Encontro uma sombra atrás de mim. – Oh, desculpe. – Digo e coloco o disco onde estava. Procuro um lugar para por as mãos, pois não sei o que fazer com elas. Ele me encara com um olhar sério e o silêncio nos apavora. Ele ainda me encara e fico constrangida. Lanço olhares para ele e para qualquer outra parte do quarto. Alec continua com seus olhos presos em mim, o que me preocupa seriamente. Por fim ele vem em minha direção e me abraça. Encolho o cenho sem entender e nem corresponder ao seu abraço. Não entendo nada, de verdade. Esse abraço é de uma pessoa desesperada por afeto, louca por um carinho que não seja dissimulado. – Está tudo bem? – Pergunto quando finalmente ele me solta. Alec lambe os lábios e leva as mãos até a cintura. – Sim. – Ah, aquele sorriso petulante está lá! – Pensei que nunca mais te veria de novo depois do que aconteceu. – É, eu deveria não ter vindo mas, como dizia a minha madrinha: não tenho vergonha na cara. – É? – É – Concordo com a cabeça e rio. – Estou feliz que esteja aqui. – É? Ele revira os olhos e me empurra para a cama. Sinto as molas com o impacto do meu corpo e no segundo depois Alec está em cima de mim com as suas mãos a fazer cócegas em minha barriga. Peço para que ele pare, mas ele não me obedece. Rio feito uma louca. Minha saia sobe um pouco e não


tenho tempo para me preocupar com ela porque agora ele roça o seu rosto áspero em meu pescoço e sinto arrepios que me percorrem toda. – Para! – Grito e o empurro. Rolo na cama e caio no chão. Levanto-me e rio. Meu cabelo está desgrenhado. – Você é estranho. – Murmuro. – Primeiro, entra com uma cara de pena, e depois me faz cócegas como um louco. Parece uma criança. Uma criança muito gostosa linda por sinal. – E quem foi que disse que eu não sou uma criança? – Rá-rá! Olha, estou toda vermelha! Juro que se você magoasse o meu machucado, eu te mataria, Alec. – Foi mal, não lembrei disso. Vem cá, não vou mais fazer isso. – Ah, não, acho melhor a gente ir logo fazer esses cupcakes, quer dizer, você vai fazer. Eu só vou comer. Ele se rende. – Vou só tomar um banho. Alec tira a sua camisa, começa a desabotoar a calça, tira o tênis e, quando acho que não quero ver demais quero ver demais, saio do quarto porque não é a hora. Vinte minutos depois o Alec está a fazer a maior bagunça na cozinha. As cascas de ovos estão jogadas em cima da mesa, assim como tem um ovo quebrado no chão. Seu rosto está sujo de farinha de trigo e eu nunca me divertir tanto em minha vida ao observar uma pessoa cozinhar. – Aqui está dizendo que é pra por 400 gramas de açúcar, mas como vou saber que tem o tanto certo? – Ele pergunta. – Sei lá, quem é o chefe aqui é você. Ele despeja o açúcar enquanto meu olhar o foca. Lambo os lábios. Observo-o e penso que, no fundo, desejo que o Alec seja meu. Quero gritar para o mundo inteiro porque nunca em minha vida me senti literalmente atraída por um cara. Enfim Alec coloca os bolinhos no forno e limpamos a cozinha. Quando terminamos, ele retira os bolinhos e nós colocamos a cobertura de brigadeiro de acordo com a receita que ele pegou no Google. Sou eu a primeira a provar o cupcake. Faço uma careta. Ele me olha com medo. – Não é o melhor – digo -, mas também não é o pior. – Ganhei essa aposta? – Claro que sim, Alec. Ele me assiste a devorar o resto do cupcake. As suas mãos estão apoiadas na pia e os músculos saltam da manga, o que me deixa, claro, em uma enrascada porque não sei como dizer adeus a esse desejo insano de tê-lo. De súbito, sinto o dedo do Alec lambuzar os meus lábios com o chocolate até que ele sorri sem graça e, por fim, puxa o meu quadril, indo de encontro ao seu. Uma de suas mãos percorre as minhas costas e sinto um calafrio desesperador em meu corpo. O mundo explode quando sinto seus cálidos lábios nos meus, além do gosto pungente do chocolate. Sua língua faz um esforço para romper os meus lábios. Cedo. Afinal, nada im- porta. Sinto que poderia morrer aqui mesmo. Empurro-o. Essa é a hora em que tenho de lutar contra os hormônios, contra o desejo insano de querer ser beijada até que o mundo acabe. Não sei se esse beijo é algo real. Tudo pode ser um plano para que eu me


apaixone por ele. Alec quer ganhar e eu, bom, estou caindo feito um patinho. – O que foi? – Ele indaga, todo desentendido. Lambo os lábios à procura dos resquícios dos seus e ainda posso sentir minha boca dormente. Pestanejo. – Você está tentando transar comigo? – Pergunto com uma ruga na testa. – Sim – ele revira os olhos. – Quer dizer, não. – Encaro-o. – O fato dos meus dedos irem para outros lugares não quer dizer muita coisa. – Assim como o macaco não sobe até a bananeira para deixar um cacho intacto. – Eu gosto de você, Alice. Estremeço com as suas palavras. Não pode ser verdade. – Eu também gosto de você, Alec. Ele revira os olhos, meio entediado. – Não. Estou falando que gosto de você como um homem gosta de uma mulher, com desejos carnais e tudo mais. Rio. – Sei bem. Você é encrenca, Alec, e eu sou uma tonta. Estou caindo na sua cilada e você sabe disso. Alec me toca. A eletricidade voa do meu corpo ao seu e do seu ao meu. Somos duas criaturas sedentas por um querer, embora cada um tenha as suas razões. – Não é brincadeira. Isso não tem nada a ver com aquela jogo idiota. Se você quiser, podemos por um fim nisso. Faço qualquer coisa para você acreditar em mim, acreditar que não estou mentindo. Meu coração pula dentro do peito em agitação. Sinto um frio na barriga com medo de algo que não faz sentido algum. E se ele estiver dizendo a verdade? E se ele estiver mentindo? Onde eu fico nessa história? Como a tonta da Alice vai terminar? Sinceramente, não quero ter de me arrastar no chão quando isso acabar. Porém, eu não sei como voltar atrás, assim como não tenho coragem de quebrar essa aposta porque talvez esse seja o nosso fim. E é desse fim que tenho medo. Pisco. Pisco. Pisco. Algo arde em meus olhos. – Acho melhor eu ir embora. Cerro os punhos, dou dois passos de costas e volvo na esperança de sair desse ambiente “super Alec” o mais depressa possível. Tropeço em minhas sapatilhas e ele me puxa. – Não vai, Alice. – Eu preciso... – Você não precisa de nada. Só preciso de você Alec, de você! – Por que você tem que ir? Porque as coisas estão a tomar proporções enormes. No momento em que ele me atropelou com a sua bicicleta eu não sabia que estaríamos aqui. Pensei que seria só mais um idiota. Mas ele é “o idiota”! O idiota que me beijou, o idiota lindo e gostoso, o idiota que desmorona as minhas estruturas. Mas o Alec não passa de um idiota e eu não posso me apegar a ele... Mas quando ele me olha, sei que já me apeguei o bastante para poder repensar em mais alguma coisa. – Agente pode assistir a um filme. – Coloco o cabelo atrás da orelha – Sério, Alice, não vou trepar com você nem que me implore! Sorrio porque, apesar do vocabulário, percebo que gosto dessa palavra “trepar” sendo pronunciada por ele. É bem diferente de quando as minhas amigas dizem na faculdade. – Você é um depravado, Alec! – Protesto em meio a um sorriso. – Qual foi? Você não está pensando que sou um santo do pau oco e que não falo palavrão e nem digo


essas coisas, está? Não tenho culpa se ganhei esse rostinho. Não sou anjo. – Além do mais, é convencido. Ele bate nas costas. – Vem, pode montar no macaco bandido. Sou o King Kong e você... Ah, aquela mesmo. Hein? Pulo em suas costas e dou um gritinho assim que o Alec ganha velocidade até cairmos na sua deliciosa e confortável cama. A minha blusa sobe exibindo a minha barriga pálida e um umbigo pequeno. – Você vai dormir aqui? – Não, né! Tenho o antro, se não percebeu. – Dorme aqui, vai! Vou ao delírio ao relembrar da noite em que passei com ele. – O que você não me pede chorando que eu não faço sorrindo? – Quer mesmo saber? – Na verdade, não. E o filme começa. Meia hora depois e eu estou horrorizada. Tem uma mulher ensanguentada correndo na floresta tentando escapar de um grupo de selvagens que comeram o seu marido. Fecho os olhos. Nunca fui boa o bastante para assistir a coisas desse tipo. – Não quero mais assistir, Alec. Por favor, desliga essa coisa. Ele ri e desliga. No silêncio que se sucede, apenas a TV zune rapidamente. Alec tira toda a sua roupa e fica só de cueca. Ele anda pelo quarto, apanha uma camisa e a atira em minha direção. Depois se deita na cama de novo e fico desorientada, sem saber onde pousar os meus olhos: na camisa ou nas suas grossas e firmes pernas. Opto pela camisa. – Você não vai sair para que eu possa me trocar? – Tenho certeza que você não tenha nada que eu não tenha visto. Ou tem? – Ele provoca. Solto um suspiro entediado. – Oquei. Só não olhe. Digo isso, só para atiçá-lo. Sei que, geralmente, quando usamos essa pequena frase, é porque queremos o contrário. Queremos que aquela pessoa nos veja e pronto. Alec se vira e eu me levanto da cama. Primeiro tiro as sapatilhas usando a ponta dos dedões dos pés. Em seguida tiro a blusa e, por último, a saia. Levo uns dez segundos de costas para o Alec apenas de calcinha e sutiã até vestir a sua camisa azul-bebê com cheiro de lavanda. – Meus Deus! Eu pareço uma criança vestida com a camisa do pai! – Murmuro. Puxo as presilhas que prendem o meu sutiã e fico feliz por meus seios serem firmes, pequenos e, modéstia à parte, bonitos. – Você é linda, Alice – ele me diz quando deito na cama. – E você disse que não iria olhar. No relógio já passa das duas da manhã. Alec me puxa para mais perto de si e as nossas respirações se colidem. – Você não trabalha? – Digamos que é uma longa história, Alice. Não quero falar disso agora. – Tudo bem. Só não me diga que você é um traficante, ladrão, ladrão e traficante ou que faz tráfico de humanos... O Alec fica tenso de repente e sei que disse alguma bobagem. Bo- bagem essa que me amedronta porque ele não pode ser nada disso que eu acabei de citar. É simplesmente muito azar para uma vida só. – Alec? Está tudo bem?


– Sim, tudo bem, Alice. – Ele sorri – E se isso te deixa melhor, não, eu não sou nada disso. Apenas não quero falar nada agora porque se eu começar, terei de lembrar algumas coisas, algumas... – Oquei, isso não é um ultimato... Você me conta o que tem de contar quando achar melhor, tá? – Mas você confia em mim? Acredita que não é nada errado o que faço ou que deixo de fazer? Acredita que não sou um ladrão e tampouco estou envolvido com essas coisas? – Acredito. – Obrigado – ele beija a minha testa e me abraça. Seu polegar roça nas maças do meu rosto e a sua pele ferve contra minha. Ele me abraça tão forte que tenho medo que as minhas células fiquem sufocadas. – “Quanto tempo dura o que é eterno?” – Ei! – Levanto o rosto para ele. – Essa fala é minha, oh, coelho maluco! Ele sorri para mim todo enigmático quando concluo que só nos resta o silêncio. Eu abaixo a cabeça e os fortes braços do Alec me apertam, sufocam a minha pele. Eu gosto. Ouço a sua respiração ritmada a bater contra o meu cabelo cor de merda e cheiro cítrico. – Mas aquele lance, hum... Sério, gosto de verdade de você e olha que eu não costumo gostar das pessoas. – Cala a boca e dorme, Alec. – Protesto com a minha voz quase em sussurro. Pela milésima vez, não sei o que fazer. Estou amedrontada e não sei mais nada. Acordo com o despertador do Alec num estrondo e a vontade que tenho é de atirá-lo para o mais longe possível. Ele se meche e eu rolo na cama ao sentir as minhas pernas nuas se enroscando nas pernas dele. Alec pisca seus olhos castanhos e me olha. Estranhamente me sinto em casa. A luz do sol atravessa a janela do quarto e ouço os pássaros cantarem. Faz um bom tempo que não ouço o som dos pássaros. – Droga! – Ele murmura. – Você é linda até quando acorda. Preciso me acostumar com isso. Enrubesço, porém sei que não mereço o elogio. Sorrio para ele. Levanto da cama, tiro a camisa dele e revelo a verdadeira meretriz que sou. Visto as minhas roupas coloridas, penteio o cabelo com os dedos e o amarro em uma polpa. Passo a mão no rosto e me viro. – Preciso ir. – Já? Poxa, pensei em tomarmos café juntos – ele me diz enquanto se levanta da cama. Faço um terrível esforço para não me perder nas linhas do seu corpo, no seu peitoral tatuado, em suas coxas musculosas, em seu bumbum firme, em seu abdômen sarado e, principalmente, em seu rosto. Essa sua boca que me deixa loucamente à espera de um beijo, embora não estejamos assépticos. – Não vai dar. Estou esperando visitas. – Alec coloca as mãos na cintura e para diante de mim. Tento procurar outro lugar para repousar os meus olhos a não ser ele. – Vamos terminar um projeto da faculdade e as garotas logo chegarão ao antro. – Só tem garotas? – Ele me pergunta sério demais para o meu gosto. – Sim, por quê? Como desculpa para não continuar encarando-o, abaixo-me e calço a minha sapatilha grata por me manter ocupada. – Por nada. Acha que posso ir com você? Tusso ao sentir algo em minha garganta. Tento parecer não muito surpresa por ele querer passar tanto


tempo comigo. – Acho que não, Alec. – Prometo que fico calado. Prometo! Faço um sinal de não com a cabeça. A ideia é completamente tentadora, confesso. Só que eu não conseguiria me manter concentrada sabendo que ele estará lá. – Não. – Digo firme – Depois a gente se vê. – Toma café comigo, então. Toma, toma, toma! Argh. Saio do quarto. Um segundo depois o Alec me segue vestindo todo desajeitado a sua calça jeans. Ótimo. Arranjei um seguidor lindo, gostoso e maravilhoso! Vejo que não tenho alternativas ao sair da casa do Alec com ele bem atrás de mim, cuspindo água e limpando a boca na camisa antes de vesti-la. Fico surpresa ao notar a rua abandonada a essa hora da manhã, quase nove. – Você é insistente, hein. – Digo em tom de brincadeira. – É, já me disseram isso. Várias vezes. – Ele revira os olhos. – Então, você quer que eu faça o que para o café? – Para dizer a verdade, lá não tem nada pra comer. Então devo dizer que... Ele não espera que eu termine. – Oquei, já entendi. Mas você não vai se livrar de mim. Encontro-te lá no antro em cinco minutos. Dez, no máximo – ele diz já andando. – Aonde você vai? – Grito. – Já volto. Mordo a parte interna da minha bochecha e migro para o antro. Entro e deixo a porta encostada. Procuro por uma roupa leve e encontro um vestido cor de creme e de alças finas. Entro no banheiro e tomo banho. Quando saio do ar abafado do banheiro, o Alec já está lá. Alec fica atrás de mim e coloca seus longos dedos em meus olhos, vendando-me. Vai me conduzindo até a cozinha e rio com essa novidade. Ele finalmente me deixa ver. Na mesa tem leite, cereais, maçã – verde e vermelha -, tangerina, ovos, queijo, suco de soja sabor uva, mel, geleia, pão e torradas. Ah, sem falar numa flor dentro de um copo. Viro-me para ele porque, se me lembro bem, ninguém nunca fez isso para mim. Sou obrigada a engolir o caroço preso em minha garganta. – Oh... Como você fez isso? – Reviro os olhos. – Quero dizer, eu sei como você fez isso. Quero saber por quê. – Porque você disse que aqui não tinha nada? Porque é o meu primeiro café com você? Porque eu quero te agradar? Chupo os dentes e sou convidada a sentar-se à mesa. Comemos e conversamos bobagens. Assumo a mim mesma que gosto do Alec. Porém, não quero, em hipótese alguma, que ele saiba disso. Seu celular toca. – Diz ai! – Ele atende, todo animado. –Não, acho que não vai rolar. – Mordo a maçã enquanto o observo. – Porque se não vocês vão querer comer o meu cu! – Alec ri e, por mais que eu sabia que ele deve estar conversando com um amigo qualquer, não consigo digerir essas obscenidades. – Aham... Fala sério! Bem, é uma longa história. – Pausa – Tem a ver com uma garota, sim. – Pausa – Tudo bem – ele tira o sorriso do rosto. – Depois nos falamos, cara. Termino de comer a minha maçã e levo o meu prato sujo para pia. Olho para o Alec de costas para mim a comer o pão. Penso. Penso se é ele mesmo aquele quem vai me fazer feliz ou se é aquele quem


só quer ganhar uma aposta fajuta. Para ser sincera, eu não me importo se ele diz coisas escrotas. As minhas amigas dizem coisas piores. Porém, lá no fundo enquanto o observo comer em silêncio, noto algo nele. Bem, quer dizer, não noto. Ele guarda um segredo e só me resta esperar. Uma hora sei que irei descobrir. Minutos depois saio da cozinha e abro a porta. Silvia, Laura, Katariny e Elvira estão rindo de alguma piada. – Pensei que vocês nem viriam mais – digo e dou de ombros. Elas entram e jogam as coisas em cima do sofá. De repente fico desorientada ao saber que o Alec está ali na minha pequenina cozinha. – Pois é. Acho que nem tenho sorte. – Diz Laura. – Credo. Acho que os caras lindos foram usurpados do mundo, ou a minha sorte foi roubada! – Do que vocês estão falando? – Pergunto e me sento no braço do sofá. Meu cabelo molhado está quase seco. – Do cara da faculdade que está afim da Laura – diz Silvia em meio ao riso. – Ele parece mais o... Deixa-me ver... Não sei. É feio e pronto! – Nada elegante – diz Laura. – Mas tem dinheiro – rebate Katariny. – Ele é o dono da academia. – Dono da academia, e nada tragável – murmura Laura fazendo uma careta esnobe. – Aquilo eu não pego mesmo! É bem ai, no ápice da conversa, que ouço passos se aproximarem. Estremeço. Alec surge na sacada da entrada e anda devagar na nossa direção, apertando a barra molhada de sua camisa. Todos os olhos femininos estão na direção dele, até os meus. Porém as garotas o fitam curiosamente, se perguntando, talvez, por que diabos tem um cara aqui ou, certamente, onde arranjei esse cara... Mas elas devem se lembrar dele do Secret Five – não parece. – Bem, acho que agora você vai me enxotar, certo? – Alec repousa suas grandes mãos em meu ombro e me sacode de um lado para o outro exibindo seu mais belo sorriso. – Oi para todo mundo! Olho para elas, ainda abismada. – Esse é o Alec – digo em suspiro. Ele meneia a cabeça na direção delas e elas fazem o mesmo. – Bem, vou indo. – Alec beija o canto da minha boca (isso por que não tive forças nem para me mover). – Vocês deviam dizer para Alice ser bem mais legal comigo. Ela está sendo muito má. – Claro, claro – murmura Elvira. – O que vamos fazer hoje depois que as suas amigas se forem? – Nada – digo. – Posso dormir aqui hoje? – Não. – Você quer dormir lá? Fico irritada por ele me dedurar. Agora vou ter que contar a elas tudo nos mínimos detalhes. Sabia que não seria nada legal ele tomar café aqui. – Não, Alec. Tchau. – Tudo bem. Eu te ligo... Ou você me liga. – Reviro os olhos. – Você promete me ligar? – Empurroo, mas ele não sai do lugar. – Promete? – Prometo, Alec. – Se você não me ligar terei que vir aqui.


– Já disse que vou ligar. Assim, ele sorri e me abraça. Faz com que eu plane no ar e me sinta a mulher mais idiota da face da Terra. Antes de sair, ele beija a minha testa e por fim arranca a camisa molhada. Ele com certeza vai ter que me explicar mais tarde como conseguiu se molhar todo. – Tchau, garotas. – Ele diz enquanto anda de costas sem tirar os olhos de mim. – Ei, Alice, acho bom repensar no que vamos fazer hoje porque já estou começando a ficar entediado, sabe? E, ah, você deveria amarrar o cabelo mais vezes. Gosto da sua nuca e desse seu mau humor matinal. E não esqueça que aquilo o que eu disse é de verdade. – Oquei – sorrio. Ele é um idiota. Quando fecho a porta, ouço a voz de Laura dizer: – Jesus, cala a minha boca! – Não, definitivamente, eu sei quem roubou a sua sorte! – Silvia grita e ri. Odeio essa Pikachu.


Capítulo Treze Agressivo – Então diz aí, Alice: desde quando o Ashton Kutcher passou a frequentar seu pequeno e humilde lar? – Quer saber Katariny. Estamos sentadas no chão coberto por apostilas, bolsas e fios dos dois notebooks ligados. Faz mais ou menos cinco minutos que o Alec se foi e a Ana chegou toda sorridente. – Ashton o quê? De quem estamos falando? – Pergunta Ana. Brinco com uma mecha do meu cabelo e fixo meus olhos em uma das apostilas. Não quero falar do Alec ao mesmo tempo em que sinto que devo falar. Elas são as minhas amigas e sei tudo sobre elas: se estão com alguém, se conheceu um novo carinha, se fizeram sua estreia em um motel ou coisa do gênero. – Elas estão falando do Alec – murmuro. – Como vocês bem devem se lembrar daquela noite no Secret Five, nós dois fizemos uma aposta. Lembram? – Ah, sim, claro! – Diz Silvia toda animada. – Mas, se me lembro bem, naquela noite ele não parecia assim tão, hum, divinamente delicioso. – Isso porque você deve estar com um parafuso a menos. Qualquer uma de nós daria o dedo mínimo para transar com ele – rebate Laura. – Eu daria só o meu apêndice mesmo – retruca Ana e todas nós rimos. Mergulho em meus pensamentos e, para ser bem sincera comigo mesma, preferia passar o resto da minha vida ao lado do Alec ao invés de estar aqui a conversar sobre quem daria o que para transar com ele. E no meio dessa corrente de pensamento fútil sou nocauteada. – O que está acontecendo com vocês dois? – Pergunta Elvira. – Vocês estão transando? Sexo ardente ou papai e mamãe ainda? Reviro os olhos porque essa é a maneira de esconder o quanto essa conversa me deixa toda vermelha. – Nem um, nem outro. – Como assim? O cara está praticamente de quatro por você e, Jesus, você diz que não está acontecendo nada? – Não são assim que as coisas acontecem. Eu mal o conheço – essa é a verdade que encoberta a maior verdade: a que estou apaixonada pele Alec, o desconhecido. – Sei lá... E também tem a aposta. Eu quero ganhar. Oquei, admito. Falei como uma idiota agora. Tudo bem. As minhas amigas parecem não se importar com essa minha atitude e, em vez disso, ouço o comentário: – Para ficar com esse cara, eu esqueceria todas as apostas do mundo! – Pois é! Sorte para umas, azar para outras – começa Laura. – Acredita que, hoje, o feioso dono da academia me seguiu até em casa e de quebra ficou perguntando quando eu iria convidá-lo para comer um macarrão ou tomar um café? – Ela revira os olhos - E ainda perguntou se não tinha casas para alugar perto da nossa! Todas nós rimos, inclusive eu, a garota apaixonada pelo melhor cara do mundo e que não quer se render... por que mesmo? – Ah, mas bem que tem um gatinho atrás da Laura. Até deu uma cantada nela – disse Ana. – Uma cantada bem cretina! – Murmura Katariny.


– “Gata, você precisa tomar água porque estou te secando todinha” – Completa Silvia. Risos. Mais tarde, na faculdade, estou lerda demais para prestar atenção em qualquer coisa que a professora diga sobre fungos e afins. Bato a caneta di- versas vezes contra o meu caderno aberto em uma folha. Mordo os lábios e sorrio com a lembrança do Alec dizendo que gosta da minha nuca. Eu sei, eu sei. Isso me é um tanto ousado, excitante até. Quando imagino seus deliciosos lábios em minha nuca descendo até as minhas costas e beijando todo o meu corpo... Stop. Estou feito uma vadia desesperada por sexo e eu não sou assim (aprendi a não ser assim). Mesmo assim amarro o meu cabelo em um rabo de cavalo alto e me sinto bonita sem nem me olhar no espelho. Sei de quem é a culpa: o meu vestido branco de bolinhas amarelas com babados azuis que me deixa, digamos assim, um tanto sexy. Aperto meus pés na sapatilha, arrumo meus materiais e me levanto. Saio da sala porque já passou do horário de sermos liberados. Ana vem atrás de mim. – Cara, que aula chata do caralho! Sorrio para ela. Já estou acostumada com esses xingamentos, embora não consiga verbalizados. Droga! Sou uma idiota quando não quero ser uma idiota! Descemos as escadas e passamos pela praça de alimentação vazia devido ao horário. Algumas pessoas andam de um lado para o outro enquanto uma minoria se espalha nos bancos do pátio. Atravessamos o pátio e ao passar pela catraca sinto o vento forte soprar em meus braços nus. Quando chego no portão, uma concentração enorme de pessoas, carros e motos se mantém alto. Porém, enquanto passo o peso do meu corpo para a outra perna e espero pelo Derek, eis que avisto um cara em pé, encostado numa CBR 600F. Sinto meu mundo cair. Viro de costas. – Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Que diabos ele veio fazer aqui? E como ele sabe que eu estudo aqui? – Hã? – Estou falando do Alec – viro-me um pouco para apontá-lo com meus olhos. – O que ele está fazendo aqui? – Certamente veio te buscar. Droga. Esqueci de ligar para ele. Simplesmente o odeio por cumprir suas promessas tolas! Avisto um grupo de garotas olhando para ele loucas por um flerte enquanto as outras que passam por ele não resistem em dar uma espiadela no meu Alec! Piranhas! Oh! O Nêmias se aproxima do Alec e o cumprimenta. Parecem bem amigos... Ana me cutuca: – Ele é simplesmente aquele amigo do Nêmias, lembra? Aquele que eu encontrei uma vez no barzinho, o que tem um papo bem estranho. Procuro em meus arquivos mentais e lembro-me de algo parecido com o que ela acabara de dizer. Mas, ela está a falar do meu Alec? Ele não tem um papo estranho. – Ele não tem um papo estranho – digo. – Não, ele não tem. Só é meio liberal – ela me encara. – Olha, Alice, se eu fosse você, ficaria bem longe desse cara. Ele não me parece apro- priado para você, e eu sei que todo mundo sabe que ele é um pedaço de mau caminho. Mas... Laura, Derek e companhia limitada param bem atrás de Ana e eu cerro os dentes em meio aos risos


frenéticos que a turminha dá. – Mas o quê? – Sinto a raiva crescer dentro de mim. – Nada. Ele só não é para você. – O que você está escondendo de mim? – Pergunto. Os risos cessam e eu sinto todos aqueles pares de olhos me encararem completamente loucos para entender o que está acontecendo e saber sobre o que estamos falando. – Eu, nada. Mas talvez ele esteja. Alice, Alice... Você está andando em campo minado, garota. Não vou te dizer nada. É melhor perguntar a ele, sabe? Não, eu não sei, assim como não me resta muito tempo para raciocinar. Ouço a voz grossa e ao mesmo tempo reconfortante do Alec bem atrás de mim. Ele abraça por trás e beija minha nuca fazendo-me sentir a sua respiração quente contra a minha pele. Ele não me larga. Estremeço. Desvencilho e viro-me. Seu sorriso é tão incólume que me faz sentir melhor independente do veneno que a Ana está tentando me injetar. Estou na linha cruzada do trem, eu sei. – Oi, pessoal! – Diz Alec como se já conhecesse toda a minha roda de amigos desde os tempos da brilhantina. – O que você está fazendo aqui? – Vim te buscar, ora bolas! – Ele diz e puxa a barra de sua jaqueta de couro preto. – Desde quando você virou o meu motorista particular? – Sei lá. Desde quando se tornou uma parte de mim... ? Cristo, eu me tornei uma parte dele! Coro por dentro e minhas pernas se tornam duas gelatinas. Quero desabar. Ouço Laura murmurar alguma coisa e olho para Derek de cara fechada. Ótimo. Estou com um problema aqui, é isso? – Não diga uma blasfêmia dessa, Alec! – Murmuro em tom de piada, mas ninguém ri. – Oquei, sério, eu já tenho carona para casa – aponto para o Derek. Alec e Derek se olham. O primeiro é todo sorridente e despreocupado, o segundo todo fechado. – E aí, cara! – Diz Alec. – Foi mal naquele outro dia. Será que eu posso levar a Alice para casa hoje? Meu melhor amigo dá de ombros. – Não sou eu quem manda na Alice. Se ela quiser ir, então tanto faz – não é bem assim verdade. O Derek não está nem um pouco feliz com essa história. – Então? – Alec se vira para mim. – Ah, Alice, vai! – Insiste Laura. – Se você não for, eu irei, tá? Ela não está brincando. Se todos querem saber, entro em conflito com os meus botões. Estou louca para saber se o Alec sabe que causa todo esse efeito nas mulheres, assim como estou feliz por não ser a única a ficar embaraçada com seu sorriso despreocupado. – Se você não for, eu juro por tudo o que é mais sagrado que te carrego até aquela moto. – Nem se atreva, Alec! – Digo quase gritando. Olho para o Alec e depois para os meus amigos. O Derek está andando em direção ao seu carro e com o telefone celular no ouvido. Bem, não me resta outra alternativa, resta? – O Derek já foi e preciso alcançá-lo. Está frio para andar de moto! – Qual é, Alice, é sexta-feira. Praticamente tirei a minha noite livre só para estar com você. E o que recebo em troca? Eu bem pensei em vir de carro, mas acho que esteja precisando de um pouco de adrenalina. Hum... – Ele não está sabendo o que dizer. Bingo! – Se você está com frio...


Ele tira a sua jaqueta de couro e fica de camiseta preta revelando seus lindos e grandes bíceps. Quero me enterrar em seu corpo, mas sei que o efeito que o Alec causa em mim vai além de dos seus bíceps e barriga de tanquinho. Eu o quero. Alec levanta sua jaqueta de couro para que eu possa enfiar meus finos braços na mangas e Laura me dá um empurrão de leve. Olho para Ana. Ela sorri para mim e me deixa, literalmente confusa. Enfio os braços na manga quando o couro me engole. O perfume doce e delicioso dele me invade. Cristo salvador, eu quero esse cheiro para mim! Peço à minha fada madrinha que tudo isso não seja uma ilusão. Alec pega os meus materiais com uma mão, enquanto a outra se prende à minha mão esquerda. Está quente, um vulcão. Uma corrente elétrica mútua loucamente passa do meu corpo para o corpo dele. – Ei, então até, meninas! – Diz Alec. – Prometo cuidar muito bem da Alice, oquei? – Ele apanha meus livros e entrega a Ana. – Sim, claro! – Murmura Laura. – Alice, amanhã ligarei para você, hein. E ai de você se não atender à droga do celular! Alec ri porque, tecnicamente, todos nós sabemos o motivo da ligação de Laura amanhã: saber o que aconteceu e o que não aconteceu. – Ah, com certeza ela vai atender ao telefone. Dou o meu dedo mindinho por isso! Ops! Será que o Alec escutou a nossa conversa hoje pela manhã? Não, ele não seria tão ousado para chegar a esse ponto e, além do mais, se ele tivesse, com certeza Ana o teria visto. Passamos pela multidão para chegar até a moto do Alec e, sinceramente, sinto-me bem ao ser vista de mãos dadas com o cara mais perfeito do mundo. Tenho a plena certeza de que metade das garotas que me olham agora trocaria qualquer coisa para estar dentro desta jaqueta, presa às mãos dele e sendo levada para casa pelo Alec! Alguém tem noção disso? Alec coloca o seu capacete, senta-se na moto e depois apanha o outro capacete, colocando-o em minha cabeça como se eu não fosse capaz de prender a fivela de um capacete! Oquei, oquei. Gosto de tudo isso, con- fesso! Subo na moto e, embora eu saiba onde por as mãos, não quero envolver meus finos braços no abdômen sarado do Alec. Também não quero que ele pense que estou me aproveitando da situação e, como se estivesse lendo meus pensamentos, ele puxa as minhas mãos e aperta contra o seu corpo quente deliciosamente quente. – Devo dizer que não vamos para casa – ele murmura. – Não? – Franzo o cenho, embora só eu saiba que estou fazendo isso. – Para aonde vamos, então? – Se não percebeu, eu estou te sequestrando, Alice Barrelin. Agora, sem mais perguntas. Dou um tapa com as duas mãos na cabeça do Alec e ele ri. A moto ronca e eu sorrio. Sou uma idiota caindo no conto do Vigário, mas eu nunca estive tão a fim de me perder. Oquei. Assim como vocês, pergunto-me por que diabos o Alec me trouxe a um jogo de futebol. Primeiro, porque eu odeio essa coisa de aglomeração e suor. Segundo, eu nunca gostei muito de futebol. Terceiro, mas não menos importante, a única aglomeração que quero enfrentar são as dos meus fãs. Ele enfia o capacete no braço e eu seguro o outro em minha pequena mão após sua insistência para levá-lo. Clandestinos vendem seus espetinhos de carne, refrigerante, água, doces etc. Alec segura a minha


mão vazia e me sinto confiante. Sério, eu não sabia que um cara segurando a sua mão seria um ato maravilhoso. Por mais que nós andássemos, nunca saímos da aglomeração de corpos. Porém eu me encontro espremida, bombardeada por corpos compostos por noventa por cento de homens. – Por que viemos a um jogo de futebol? – Berro em meio ao zumzum. Alec me puxa e finalmente alcançamos a entrada. Ele conversa com o cara da entrada - os dois parecem muito amigos - e depois o tal cara entrega uma molho de chaves para o meu Alec. Entramos. Ufa! Agora sim me sinto bem, muito bem. O corredor está vazio, porém posso ouvir o burburinho do estádio. – O que você disse mesmo? – Ele me pergunta com aquele sorriso só seu. O seu rosto está vermelho e com o suor a brotar pelos poros. – Perguntei o que estamos fazendo aqui. Ele me olha com a cara de “sério que você está perguntando isso, amor?” Hum, eu tiraria o “amor”, mas acho que o “amor” me deixa mais feliz. – Vamos assistir ao jogo do Fluminense – ele sorri de novo. – Bem, acho que nunca te convidaram para assistir a um jogo, certo? – Certo. – Tento um sorriso forçando. A verdade é que não estou, nem de longe, amando isso. Se bem que qualquer lugar com ele me é válido. Ponto para o lindo e gostoso Alec! – Oh, o jogo começou! Sentindo-me meio que ridícula com aquela jaqueta do Alec, atravessamos a multidão, passamos pela arquibancada onde os caras gritam obscenidades e jogam rolos de papel higiênico e cascas de laranja. Fico vidrada no cara que vende cana-de-açúcar e acho que o Alec percebe isso porque me compra umas canas cortadas no palito, o que é uma distração e tanta. Sentamo-nos num espaço onde nós dois cabemos e encaro alguns caras de olho em minhas pernas. Penso que um vestido não é cabível para se assistir a um jogo de futebol. Ponto para mim. Depois preciso conversar com o Alec sobre isso. Fico feliz por encontrar algumas mulheres e crianças. Mordo um dos pedaços da minha cana e olho para o Alec. – Vai, vai, vai, vai, vai...! – Ele não para de dizer isso até o jogador fazer alguma burrada e levar a torcida a ecoar murmúrios, xingamentos e mãos até o topo da cabeça. É engraçado, admito. Cuspo o bagaço, o que chega a ser uma coisa bem feia para se fazer ao lado do cara com quem se está flertando. Resolvo não comer mais cana. Em vez da cana, eu mesmo chamo o cara do algodãodoce assim que o avisto e compro um de cor azul porque é a minha cor predileta. Alec mal percebe porque está concentrado demais no time de segunda divisão – eu acho. Daí me ocorre que ele não tirou a noite livre para mim, e sim para assistir à droga de um jogo. Abro o saco do algodão-doce e o levo até a boca a cada beliscada. Olho para o Alec, de perfil. Penso no que a Ana me disse. O que ela queria dizer de verdade? O que ela sabe do Alec que eu não sei? Bandido e traficante, tenho certeza que ele não é. Se bem que já tínhamos chegado ao consenso de que bandido e traficante é quase a mesma coisa. Mas também tem aquele seu papo de que seria melhor não mantermos contato e coisa e tal. Sei que era um blefe... ou não. Depois de uma aposta, tudo muda. E de novo eu sou uma idiota por sempre esquecer que é jogada dele fazer com que eu me apaixone por sua digníssima pessoa. O Alec sabe como fazer isso bem: levando-me para um jogo de futebol – que particularmente eu odeio – ou não. – Puta que pariu! – Grita o Alec. – Joga a bola no gol, seu idiota! Até a gostosa da sua mãe sabe fazer melhor do que isso.


Franzo o cenho totalmente indignada com o que acabei de ouvir. Intervalo. Ótimo! Bebo refrigerante e caminho de mãos dadas com o Alec pela multidão de corpos. Os capacetes ficaram com um amigo do Alec. – Então, qual o lance de me trazer a um jogo de futebol? – Ah, Alice, você é mesmo insistente, hein! Será que não dá para esperar só mais um pouquinho? Concordo com a cabeça e ele puxa o meu pescoço contra o seu corpo. Sinto a pele áspera de sua garganta arranhar o meu rosto e também sinto o cheiro da sua pele sem vestígios de nicotina. Lembrome da minha aposta. – Você não está fumando, está? – Não, claro que não. Faz cinco dias que estou sem tragar um cigarro, e confesso que é meio estressante. – Acho que essa minha aposta foi um tanto boçal. Como vou saber que você não fuma escondido? Afinal, não estou com você vinte e quatro horas por dia. – Porra, Alice, você tem que acreditar em mim... – Ou colar um adesivo anti-nicotina em você – rio. Ele para em uma barraquinha para comprar alguma coisa e eu fico para trás comendo o frio pelas pernas. Droga! Quero ir para casa, mas também não quero ficar longe do Alec. – Ei, gatinha, está sozinha aí? – Pergunta um homem de mais ou menos vinte e cinco anos, suado e bonito (caso não me aparentasse tão chave de cadeia). Seus dedos me tocam e faço cara de nojo. Que legal, estou sendo assediada por um torcedor bêbado. – Solta ela, babaca – diz Alec. O cara não me solta. – Eu disse pra soltá-la, porra! Tento me desvencilhar daquelas mãos que me espremem feito laranja. O torcedor bêbado está, se não me engano, se divertindo com a situação porque tem um sorriso dissimulado preso em seus lábios. Deus do céu, onde eu fui me meter? – E se eu não soltar, o que vai acontecer, boneca? – Provoca o torcedor. Mordo a parte interna da minha bochecha quando Alec coloca a latinha de cerveja em cima da carrocinha e avança em nossa direção. Ele soca o rosto do cara que logo cambaleia para trás. Porém ele não me solta e eu acabo caindo no chão também. Toda aquela concentração de olhos está em nossa direção, principalmente na garota caída no chão, a qual está de vestido e com uma jaqueta que não tem tamanhos proporcionais ao seu corpo. O cara leva a mão até o rosto e investe contra o Alec, mas logo bate as costas nas grades que dá acesso ao campo porque o Alec lhe profere outro soco na cara e uma cabeçada no nariz. A polícia não chega e é tudo culpa minha, do Alec ou desse idiota, sei lá. – Você ainda vai querer mexer com ela, seu filho da puta? Droga. Alec soca o cara mais uma vez e enfim me levanto do chão e faço-o parar. Não quero que ele seja preso. – Para, Alec! – Para ser bem honesta, estou bem revoltada. Eu seguro as suas mãos e suplico mais uma vez para que ele pare. O cara se levanta, cambaleia e cai. Pego a cerveja no carrinho e empurro seu grande corpo contra a plateia que se formou. Entrego a cerveja para ele enquanto caminhamos em silêncio de volta à nossa arquibancada. Não conversamos até o fim do jogo porque as coisas não tinham que ser desse jeito. O Alec não pode sair batendo nos caras por aí só porque gosta. Avisto a Lena toda sorridente em meio a toda aquela gente que é cuspida para fora do estádio. Pergunto-me se o Derek estaria por aqui. É obvio que não. Ainda estamos sentados esperando as pessoas irem. Logo o estádio fica vazio. Completamente vazio e sem luz.


– O que foi, Alice? O que eu fiz de errado agora? Não respondo. – Está chateada por conta do lance do cara? É isso? Fuzilo-o com os olhos. – Talvez. – Murmuro – Se não percebeu, Alec, odeio quando você resolve dar uma de valentão. – Eu sei, desculpa, mas aquele cara me irritou. – Ele estava bêbado. É o que os bêbados fazem. Além do mais... – Além do mais não consigo pensar em outro cara te tocando, Alice, é isso. Pronto e acabou. Reviro os olhos. Sem querer acabo deixando um sorriso escapar dos meus lábios. – Você é um boçal, Alec. – Levanto-me. – Afinal, que diabos estamos fazendo aqui nesse escuro se todo mundo já foi? Estou começando a ficar com medo e entediada. – Ah, pensei que não iria perguntar, ora bolas. Oquei, essa é a minha surpresa. Siga-me. – Ele apanha os capacetes. Descemos as arquibancadas e driblamos a sujeira alheia. Ele segura a minha mão ao passo que nos enfiamos cada vez mais na escuridão. Alec procura em seu bolso o celular para poder iluminar a escuridão. Andamos, passamos por uma porta e, embora estejamos na penumbra, tenho certeza de que não foi por aqui que viemos. – Para aonde estamos indo? – Shh! Já vai descobrir. Ele procura as chaves e enfia uma em uma fechadura. Entramos – pelo menos acho que entramos. Alec corre os dedos na parede e luzes dançam no lugar onde uma enorme piscina brilha. Escancaro a boca num sorriso débil e me torno a garota que nunca viu água na vida. – E aí, gostou? Alec coloca os capacetes no chão e puxa as minhas mãos. Guia-me para a beira da piscina. – Não quero nem saber como conseguiu ter acesso a isso aqui – digo. – Quer dizer, eu nem sabia que aqui tinha uma piscina. Isso não se chama invasão de propriedade pública? Uma ruga brota no rosto dele. – Não quando se entra com as chaves. De qualquer forma, pare de procurar chifres em cabeça de cavalo... Você pode, simplesmente, dizer que essa é a melhor surpresa que alguém já fez por sua digníssima pessoa? – Sinceramente? – É pra fingir, Alice – ele me diz com uma cara bem brava. Oquei, mas eu iria dizer a verdade. Quero dizer que, embora isso seja um tanto clichê, estou totalmente extasiada porque ninguém nunca me levou a um lugar reservado que, na verdade, é de domínio particular e isso é uma coisa inédita para mim. Logo não é clichê (para mim). Sinto que já não estou pensando coisa com coisa. Tiro o meu par de sapatilhas e sento na beira da piscina. Enfio os pés na água gelada. – Cristo, não acredito que te trouxe para uma piscina a noite, coisas que alguns até consideram um fetiche e você simplesmente só vai enfiar os pés na água? – Pare de drama e, se quer mesmo saber, não é me levando para nadar à noite que vai conseguir me levar para cama. – Nossa, acho que já posso começar a chorar porque não sei mais o que fazer em relação a você. – Ele tira o tênis, as meias, sobe a barra da calça e senta ao meu lado. – É verdade que eu quero te levar para cama. Todo mundo sabe pela maneira como olho para você... Assim como eles devem


perceber que não é só isso que eu quero. Tem algo nessa Alice aí – ele diz enquanto vai passando o dedo na barra do meu vestido, acima dos seios – que me deixa totalmente à vontade e que me leva para casa. Uma casa feliz e distante de tudo. Não digo nada, apenas mecho os meus pés para lá e para cá. Fito um ponto qualquer porque só Deus sabe como me sinto enquanto o par de olhos do Alec me fita por bastante tempo. Ele é aquele tipo de pessoa que não se constrange ao ficar encarando outra pessoa, nunca. – Por tudo o que é mais sagrado, Alec, pare de me olhar assim. – Eu faço qualquer coisa por você, Alice... Só me deixe provar que o que sinto é verdade, que não é um blefe e não tem nada a ver com aquela coisa de fazer com que você se apaixone por mim. Eu já estou apaixonado por você. Digamos que eu quero acreditar e que eu acredito. Porém a ideia de tudo isso ser parte do plano “Conquiste a Alice” me deixa em dúvida. Quem sabe eu não acredite em toda essa ladainha amorosa daqui a uma semana quando a aposta chegar ao fim? Lá no fundo do meu ser sinto que esperar por mais uma semana pode ser tarde demais. Por que sinto que devo atirar-me em seus braços e pedir para morar ali para sempre? Porém, sou forte. Muito forte. Olho para ele e sorrio. – A gente pode não conversar sobre isso hoje? – Ele concorda com a cabeça. Pego a sua mão. – Só preciso entender tudo isso, Alec, só isso. – Oquei, Alice, oquei. Não vou mais falar sobre esse assunto – ele dá um sorriso sacana. - Pelo menos não quando for inevitável. – Sim. Aposta é aposta – digo com indiferença. – E você é um bobalhão. Alec se levanta e tira sua camisa, deixando seu abdômen sarado à amostra. Em seguida tira a calça e, quando penso que parou por ali, ele tira a cueca. Desvio meus olhos, totalmente chocada (não antes de dar uma olhada em seu membro viril e descobrir que ele me parece... Ah deixe para lá, sou uma vadia ao cubo). Ele pula na água. – Você não vem? – Se acha que vou pular nessa água fria pelada, então é melhor me internar porque eu surtei! – Vai achando. Alice, se você não pular nessa água, eu mesmo irei te buscar! A ideia do Alec pelado me carregando e se jogando na água é um delírio e ao mesmo tempo um horror. Levanto-me. – Vem ou não vem? – Está me dizendo que tenho de pular nessa piscina completamente nua? – Essa parte você decide. A verdade é que eu não quero molhar o meu vestido e também não quero voltar para casa com a calcinha e o sutiã pingando água. Além do mais, o cloro não é nem um pouco legal para o tecido das minhas peças íntimas. Hum, estou louca para entrar nessa água. Droga! Preciso me decidir de uma vez. – Você venceu, Alec, agora vire-se para que eu possa tirar a roupa... – Alice, o que você tem eu já vi várias vezes. Não é bem assim. O que eu tenho ninguém mais tem. – Ou isso, ou nada feito! – Grito. Ele se vira e finalmente tiro a jaqueta preta. Depois desabotoo o ves- tido amarelo e ele cai aos meus


pés. Olho para o lado e desprendo o gancho do meu sutiã. Desço a calcinha. Que legal, estou nua e pronta para nadar com um cara pelado. Que sedutor e perigoso. Seguro os seios e pulo na água fria. Afundo. Bolhas sobem desesperadas ao redor do meu corpo nu. – Essa é graça de nadar sem roupa? – Acho que sim – ele responde. Vejo os olhos do Alec tentando ver alguma parte do meu corpo protegido pela água. Até eu olho e tudo o que vejo é uma imagem deturpada e sem foco. Sinto-me bem. – Não será dessa vez que me verá nua, querido – digo e me afasto. – Também estou achando que isso não irá acontecer hoje, mas eu sou paciente e mal posso esperar por esse dia. Dou um sorriso malicioso e nado pensando no quanto o Alec parece romântico uma hora e cafajeste em outra. É por essas e outras que não quero me render. Não serei apenas mais uma nas mãos do Alec Salles.


Capítulo Quatorze Partindo corações Eu nem preciso dizer onde a minha noite com o Alec acabou. Não, claro que não fui para a cama dele. Quer dizer, eu fui, mas nada aconteceu. Apenas dormi abraçada por ele, embora tenha que confessar que suas investidas em tentar me beijar foram constantes. Faltou bem pouco para que eu me rendesse aos seus encantos malignos. Observo o cara deitado ao meu lado e preciso conter o meu riso. Bem, eu não queria dizer nada, mas tenho que dizer que adoro essa nova ideia de dormir na casa do meu vizinho gostosão-que-está-afim-de-mim. Encaro-o. Chego mais perto do seu rosto e faço um esforço desgraçado para não beijá-lo. Enfim, quem quer perder uma aposta? Oquei, pararei de enfatizar isso. Todos vocês já sabem da minha aposta. – Achou? Surpreendo-me com aqueles olhos castanhos abertos e, embora o Alec tenha acabado de acordar, seu sorriso incólume está lá! – O quê? – Acho que gritei, não sei. – O que você estava procurando, ora bolas. Afasto meu rosto do seu e tiro uma mecha enorme do meu cabelo desgrenhado do rosto. Reviro os olhos. Como não digo nada, ele resolve falar. – Pelo menos você tem que admitir que sou um colírio – dá uma gargalhada. A camisa do Alec que eu vesti na madrugada passada está enrolada em minhas pernas e eu a desemboco dali. Ele me puxa e eu me desvencilho, o que é uma tarefa ridícula. Suas mãos hábeis me espremem feito uma laranja. – Então, está preparada para o desafio do dia? – Me arrepio com a sua boca perto da minha nuca. – Roubar. Calcinha. Sex shop. - Ele sussurra cada palavra. Ainda estou presa em suas mãos e tremo porque só agora percebo a magnitude da minha aposta. Eu não estava preparada para roubar nada, tampouco uma calcinha. Consigo me virar para ele. Faço cara de santa. – Pensando bem, a gente precisa mesmo fazer isso? – Eu parei de fumar, não foi? Fiz aquele tal de bolinho também. Acho que é tarde demais para voltar atrás, e no fundo quero descobrir suas habilidades de roubo,


muito embora você já seja uma ladra nata. Afinal, conseguiu roubar algo meu... Levo as minhas mãos até a sua boca porque não quero ouvir o fim da frase. Não quero ouvir a sua hipérbole barata. Eu não roubei o seu coração. Ele só quer fazer com que eu acredite nisso – ou não. – Muito bem, Alec, eu vou fazer o que está me pedindo. Eu também não quero dar para trás. – Limpo a garganta. – Mas acho que vou passar em casa antes. Preciso de um belo banho. – Você pode tomar banho comigo, se quiser. Reviro os olhos. – Alice. – Sua voz é uma suplica. – Deixa eu te beijar, por favor. Cristo Salvador, isso é o que eu mais quero no mundo! Quero que ele me beije da cabeça aos pés e do avesso. Quero que ele beije os meus lábios e o meu corpo completamente nu até que o mundo exploda. – Somos amigos, Alec, apenas isso. – Você é uma mentirosa. Eu já saquei a maneira como me olha e como me deseja. E é exatamente igual a mim. A diferença é que eu nunca desejei uma mulher tanto quanto te desejo e se vamos ser só amigos, então é melhor a gente acabar por aqui. É melhor cada um ir para o seu lado, pois não quero sofrer mais do que sofro. É um sofrimento te ver todos os dias e não te beijar; dói saber que você não é minha. Sinto todos os meus pensamentos encobertos por uma película turva e estou muito embaraçada. Se isso não foi um “eu te amo”, então já nem sei o que pode ser. Ele me ama? Ele me quer? Ele me deseja de verdade? É isso? – Vamos lá. E se eu acreditar nisso tudo? O que me diz? – Sou o homem mais feliz do mundo. - Ele sussurra – E se eu não acreditar? – Sou o homem mais azarado do mundo porque deixei a mulher mais linda, inteligente e gostosa do escapar dos meus dedos. É como eu disse: é melhor cada um ir para o seu lado. – Então prefiro não acreditar. Alec se levanta da cama. Suas partes estão dentro de uma cueca preta e de barra vermelha. Ele caminha de um lado para o ouro antes de se virar para mim. – É melhor você ir embora, Alice. Eu... Eu cansei dessa porra! Não dá mais! – Berra. – Acho... Hum, eu não quero te ver mais, Alice. Sou apunhalada por uma faca afiada e transparente. Eu não esperava ser mandada embora. Estava sempre à espera de mais e mais pedidos do Alec. A verdade é que gosto de ser adulada e me pergunto quando ou como me transformei na Lena e quando o Alec se transformou no meu melhor amigo Derek. Levanto-me derrotada da cama e tiro a sua camisa. Alec não diz nada. Visto a minha roupa de ontem e procuro em minha memória quando essa conversa começou e por que terminou assim, com o Alec chateado. Não encontro nada. Antes de sair do quarto, paro por um instante. Ele não me olha. Saio, cruzo a sala, rodo a chave na maçaneta e abro porta. Entro na luz do dia, no Sol que me chicoteia e não faço ideia que horas seja. Eu deveria ter perguntado a ele se isso é para valer, ou pelo menos ter acreditado que ele realmente sente algo por mim e que tudo isso não faz parte do jogo. Das duas, uma: ou eu sou uma idiota, ou a


mulher mais inteligente do mundo. Acabo aceitando o fato de que sou uma anta. Contenho-me a não retroceder, a não correr para a casa do Alec e dizer que estou pronta para ser amada por ele. Sou uma fraca e posso sentir isso pelas lágrimas que começam a rolar por meu rosto. Paro no meio do caminho ao sentir um aperto no coração. Talvez ele tenha falo sério. Talvez eu tenha sido banida da sua vida para sempre. Será que é assim que a Lena se sentiria caso o Derek abrisse mão do amor que ele sente por ela? Destruída, duplamente mutilada. Um arquejo escapa dos meus lábios e começo a andar de volta ao antro. Olho para trás. Tento entender o que significa este vazio em meu peito. Nada. Deus sabe que eu quero muito acreditar que o Alec realmente sente tudo isso por mim. Entro no antro e deixo as minhas costas escorrer pela porta. Choro sozinha e faço o máximo para não ecoar nenhum ruído. Eu queria que a minha vida fosse um filme agora, nesse exato momento. Se fosse, com certeza tudo o que o Alec disse seria verdade e não tardaria para que ele me procurasse assim que saí da sua casa ou quando parei no meio do caminho. Até aposto que iria chover quando ele me abraçasse e sorriríamos um para o outro depois de um turbilhão de beijos. Quando finalmente consigo fixar meus olhos num ponto qualquer, vejo o Derek parado segurando um copo d’água. Franzo o cenho. Sei que deveria perguntar o que ele está fazendo aqui, mas não consigo. Gosto de têlo aqui. – Ele partiu o seu coração? – Derek pergunta. Essa é a pergunta de um bilhão de dólares. Quem partiu o coração de quem? Isso é cabível? Éramos dois amigos que trocavam alguns beijos, dormiam abraçados, tomavam banho de piscina pelados e trocavam experiências bizarras. – Não. Eu parti o coração dele. – Limpo o nariz e faço um careta. – Eu acho. Derek se senta ao meu lado e me entrega o copo d’água. – Uau! Alice, a destruidora de corações. – Bebo um gole da água. – Nunca pensei que viveria para isso. É estranho, sei lá. – Engraçado, não estou para brincadeira hoje, Derek. – Desculpe. Só pensei que você estivesse totalmente na dele. Até pensei que você sairia ferida nessa história toda. – Pois é, digamos que eu sei me cuidar. – Não, você só faz burrada. Uma atrás da outra. E o Derek tem razão mais uma vez, para variar. Coloco o copo no chão e me aconchego ao meu melhor amigo. As coisas não deveriam ter acabado assim. Já não sei o que pensar, tampouco sei quem sou. Eu poderia ir até lá e aceitar o fato de amar e ser amada e pronto. A verdade é que lá no fundo do meu ser algo me diz que um cara lindo e maravilhoso como o Alec não pode se interessar por mim. É quase que um erro. É como dizer que um gato se apaixonou por um vira-lata sem eira e nem beira, com o perdão do trocadilho. – Vai me contar o que aconteceu, afinal? Conto tudo para o Derek, a começar pela noite passada quando o Alec resolveu revelar um pouco dos seus sentimentos e quando nadamos pelados, assim como as noites que temos passados juntos desde o racha de motos. Exponho meus sentimentos malucos. Acredito que estou apaixonada pelo meu vizinho, mas tenho medo de me entregar. Isso se chama insegurança. Se você nunca se apaixonou, se nunca sentiu isso, bem, então é melhor não me julgar e dizer que sou uma tola e que estou deixando a história completamente enfadonha. Isso faz parte do clímax, do que eu sou, do que


eu realmente quero para mim. – Sabe, Alice, eu não conheço muito bem o Alec e você sabe que no fundo não vou com as fuças dele desde que ele te abandonou naquele jantar... Só que eu acho que você deveria dar uma chance a esse cara. Rio. – Você só está falando isso porque está familiarizado com esse tipo de história. O que precisamos deixar claro aqui, Derek, é que você não é o Alec. Você não fez uma aposta para fazer com que eu me apaixone por sua pessoa... Já pensou que isso pode ser um belo de um drama e, quando a semana chegar ao fim, o Alec pode rir de mim? – Não sei. O que eu sei é que você está levando essa coisa de aposta muito a sério. Aquilo foi uma brincadeira, Alice, não tem nada a ver com essa coisa entre vocês dois, pelo menos em parte. Ele não está te obrigando a nada, muito menos você assinou algum contrato e, pelo que eu entendi, o Alec já quis jogar essa aposta para o alto. – É. – Murmuro. É verdade. Até agora ele quis atirar a aposta no lixo, mas eu tive medo de que se a aposta chegasse ao fim logo, eu o perderia (como acabei de perder). – Eu sou uma idiota que faz tudo errado. – O mundo se ajeita, o mundo se ajeita. Depois de quase meia hora chorando as pitangas resolvo me levantar e tomar um belo de um banho. Arrependo-me por não ter aceitado tomar banho com o “Alec-não-mais-meu”. Ao desligar o chuveiro e me enxugar, visto um short jeans curto e uma bata branca. Sentada no sofá com o Derek a assistir TV, desembaraço meu cabelo. Ao terminar, deito-me na cama com os olhos vidrados no nada. Vejo em meu celular. Três chamadas perdidas da Laura. Expilo bufas porque não quero falar sobre o meu quase namorado com mais ninguém. Eis que ouço batidas na porta. Pulo da cama e passo pelo Derek, agora dormindo. Bato meu pé esquerdo no sofá e dou três pulinhos antes de abrir a porta desengonçadamente. Quando abro a porta, qual não é a minha surpresa? – O que você está fazendo aqui? – Quero saber. – Oi – diz o Alec dentro de sua camiseta regata, bermuda e tênis. Seu cabelo está molhado e seu perfume é uma droga para mim. – Hum... Ele não sabe o que dizer e ficamos ali parados um olhando para o outro, desta vez ambos sendo levados ao constrangimento. – Queria te pedir desculpas por hoje de manhã. Eu não deveria ter gritado com você só porque não me escolheu ou porque você não consegue acreditar que eu... Alec para no meio da frase e matuto com a minha cachola se era agora que ele iria dizer de uma vez que me ama. Eu te amo. Três palavras que muda o mundo de uma pessoa – ou destrói – para sempre. – Você me perdoa? Nesse meio tempo em que passei sem ouvir a sua voz cheguei à conclusão de que fui um puto de um grosso com você e não podia de jeito nenhum te perder. E se não me quer como homem, posso ao menos ter o prazer de ser o seu amigo. Gosto de você e agradeço a Deus pelo dia em que eu te atropelei e destruí o seu vestido. Sou feliz por te conhecer e isso me parece o bastante. Não digo nada. Não tem nada a ser dito. Eu simplesmente o abraço e sinto seus braços corresponderem o meu abraço, assim como os seus lábios tocam o meu pescoço. – Por um tempo achei que tinha feito a maior besteira da minha vida.


– Por um tempo achei que tinha te perdido para sempre, Alice, e é obvio que não quero isso. Aceito qualquer condição que você me impor. Não que eu seja masoquista, mas por você eu faço tudo. Algo dentro de mim se movimenta de um jeito errôneo. Apesar de ele estar aqui e de ter dito o que disse, não quero, de jeito nenhum, que o Alec aceite tudo o que eu impor. Depois que finalmente fizemos as pazes, Alec resolveu que iríamos até o shopping para a minha ação de roubo. Claro que eu não disse nada ao Derek. De certo modo ele não ficou de cara feia quando o Alec apareceu no antro para me pedir desculpas. Ou seria eu quem deveria pedir desculpas? Não sei. Ele anda no meio-fio do estacionamento tentando se equilibrar como se estivesse numa corda bamba. Olho para o Alec e é um tanto estranho um rapagão lindo se comportando como uma criança. Em meio ao silêncio resolvo perguntar um pouco sobre a sua vida. – Estou aqui me perguntando por que você tem uma guitarra e um violão – murmuro. A minha curiosidade é tipo tão patética que resolvo acrescentar: - Quer dizer, qual é a sua? Alec continua andando no meio-fio, agora mantendo o seu olhar em mim. – Sei lá, gosto de música. – Então você é um aspirante a músico? – Talvez – ele ri e pula quando o meio-fio chega ao fim. Como se não fosse o bastante estar ao seu lado, ele segura a minha mão. – Sei tocar uma coisa ou outra, mas eu só toco para mim. Não acho que estou preparado para as críticas do mundo. Prefiro manter assim. Mordo o canto da boca. Digamos que agora estou em êxtase por imaginar o meu Alec tocando violão exatamente como nas cenas de filmes. – Você também canta? – No banheiro – ele sorri para mim. Quando vejo seu rosto se aproximar para planar um beijo em meus lábios, viro-o. – Tudo bem, tudo bem. – Volto o meu olhar para ele. – Não sou o melhor cantor do mundo, mas dá para enganar um pouco, se é isso que quer saber. Entramos no shopping e o ar-condicionado choca-se contra o meu rosto quente. É quase tão bom quanto a sensação de nadar pelada. Tento libertar a minha mão das garras do Alec e não consigo: ele me prende mais como se estivesse lendo meus pensamentos. – De onde você é? – Pergunto. O sorriso estonteante do Alec se desfaz e tenho a intuição de que acabei de cortar o clima. Se me lembro bem, ele não gosta de falar do seu passado... Até que ouço a palavra ser cuspida de sua boca: – Bolívia. Não sei o que fazer com essa informação extra. Era o que eu queria saber, não era? A questão é que o nome “Bolívia” não para de oscilar no interior do meu cérebro instigando, procurando, querendo entregar mais informações aos meus neurônios que estão a mil. Afinal, estou segurando a mão de um boliviano. Não que isso seja coisa de outro mundo, é apenas... Curioso. Dou um sorriso nervoso. – Está falando sério? – Sim, como nunca fui tão sério em toda a minha vida. Paramos. Ele segura o meu rosto em suas mãos grandes, hábeis e quentes e me transformo em um chocolate derretido. O seu olhar é um tanto sombrio. Consigo enxergar algo que só vi uma vez,


quando sofri o acidente no racha de motos: dor. É isso que vejo no Alec. Dor. – Eu não quero falar sobre isso, Alice. Juro por tudo o que é mais sagrado que o meu desejo é poder despejar a minha história toda em você, mas não consigo. Não ainda... Mas, acredite ou não, você a é a única pessoa que, pela primeira vez, quero contar de onde eu vim e sobre quem eu realmente sou... – As palavras em sua boca são atropeladas por um caminhão tanque. – Ainda não consigo. Tudo bem pra você? Concordo com a cabeça. Que outra opção tenho eu? Nenhuma. Assim como não quero me afastar do Alec, seja lá o que ele for. Não sei como, é estranho, mas ele é a única pessoa que faz com que eu seja eu o tempo todo; que faz com que eu me sinta bem, triste, amada, desiludida etc. Acredite ou não, gosto dessa insegurança. Seus lábios cálidos tocam a minha testa e somos dois retardados abraçados no meio da praça de alimentação. De uma maneira ou de outra o Alec consegue chamar a atenção de uns e outros por que a sua carranca parece querer chorar. Entretanto, ele é forte demais para chorar na frente dos outros e isso me preocupa. Sinto um aperto desnecessário em meu peito. Decido abandonar essa história de passado e esquecer a Bolívia por um tempo. – Oquei. Não vamos falar sobre isso agora ou nunca, se é isso que quer. – Sorrio para ele na tentativa de destruir o clima pesado. Sei que é mentira. Uma hora irei querer saber. – Para ser sincera, quero saber quando vai cantar para mim. – O quê? – Isso mesmo. Aposto meu dedo mindinho que você já cantou para várias outras garotas e agora estou me sentindo literalmente deslocada. – Se eu fosse você, pararia com esse lance de apostar, pelo menos parar de apostar coisas desnecessárias. Não sei o que a minha ilustre pessoa poderia fazer com o seu dedo mindinho. Que tal apostar um beijo? – Acho que não. – Vamos lá, Alice. Onde está aquela garota determinada do Secret Five e louca por uma aposta? – Sucumbiu no exato momento em que ela descobriu que roubar calcinha não está, de verdade, em seus planos de vida. Francamente, a que ponto estou chegando? – Quanto drama! Você não vai ser crucificada por isso e eu até peg- uei leve com você. Geralmente as apostas lá no Secret Five são um tanto estranhas. Já pensou se eu desafiasse você a fazer sexo oral em mim na frente de todos? Eu iria adorar. A ideia de fazer sexo oral no Alec é abominável, em parte. Quanto à outra, a minha parte safada e meretriz está maluca. – Credo. Está me dizendo que já apostou isso? – Pergunto sem desviar os meus olhos do Alec, não me parecendo nem um pouco intimidado. – Não, mas vários outros caras já apostaram na maioria das vezes. A verdade é que eu não posso crucificar as garotas. Quem sou para julgá-las? Se estou em meu juízo perfeito, sou tão vadia quanto elas a partir do momento em que coloquei os meus pés naquele bordel disfarçado de irmandade. Confesso que a ideia de ter uma mulher lambendo todo o corpo do Alec me deixa bastante chateada e com uma pitada de inveja. É claro que ele faz isso periodicamente, como naquela noite em que a estilista estava saindo de sua casa. Com certeza rolou sexo e ela o lambeu todo com a sua língua periguete. Afasto meus pensamentos malucos e dou uma estancada na mulher erótica dentro de mim, louca para se libertar. Prefiro acreditar que desde que passamos a dormir juntos que ele não deixa nenhuma


garota envolver o seu corpo, exceto eu. Sejamos indulgentes. Não sei como, mas no fundo do meu ser, sei que a desiludida aqui sou eu. – Afinal, vai ou não vai apostar um beijo? – Ele me desemboca de meus pensamentos. – Claro que não. Ou vai o meu dedo mindinho, ou nada feito. – Acho que vou me sujeitar a criar um boneco vodu seu. Só assim para você ser minha. – Engraçadinho. Resolvemos sair do nosso ponto morto. Procuramos pela loja de sex shop e revelo a todos o quanto me sinto uma mersalina. Paramos defronte a loja em tons vermelho e branco, totalmente picante. Seis manequins estão na vitrine usando sua peça sexy. Arrependo-me por não ter vindo de bolsa. Poderia enfiar a calcinha dentro dela. – Eu quero aquela – o Alec aponta para a calcinha vermelha e transparente vestida na manequim. – Não. Claro que não vou roubar a calcinha da manequim. – Vai sim. Seria muito fácil enfiar a calcinha no bolso e pronto... Se bem que posso facilitar para você. – Estou louca para saber – reviro os olhos. – Deixo você roubar qualquer calcinha se me der um beijo. O que acha? Vamos lá, seja inteligente. – Agora, mais do que nunca, é questão de honra roubar a calcinha da manequim, seu bobão. – Droga! Eu te odeio, garota! – Ele diz como uma criança birrenta - Vou te ajudar. Não quero que seja presa no fim das contas. Ótimo. Tenho quase a certeza de que ele disse isso para me deixar ainda mais nervosa. Começo a imaginar o meu rosto estampado no telejornal local como “a ladra de calcinhas”. Entramos na loja e faço o máximo para esconder o meu nervosismo. Além do mais, essa é a hora de invocar toda a minha alma de atriz. Uma moça de sorriso largo e olhos penetrantes, cabelo em rabodecavalo e nuca à amostra – do jeito que o Alec gosta – nos atende com o seu gracioso bom dia. – Hum, a minha namorada gostaria de dá uma olhada nos lingeries. Algo sexy e provocante capaz de subir a minha libido assim que eu avistála. – A moça sorri para ele. Das duas, uma: ou ela está envergonhada ou está encantada com o meu “namorado”. – Sabe como é, tenho um fetiche louco por esse tipo de coisa. A senhorita me entende? Claro que entende. A mulher olha para mim de um jeito torto como se eu não fosse digna de ser namorada do Alec. Sorrio para ela. Agora todos vão saber que sou uma incubada. Mordo meu lábio inferior. – O senhor está procurando algo sexy e que não seja uma fantasia, certo? – Indaga ela. – Isso mesmo. Como eu disse, o garoto aqui – ele aponta para o seu pênis coberto certamente pela cueca e a bermuda – adora esse tipo de coisa. Nunca, mas nunquinha brocha. Cruzes. Se eu fosse um avestruz certamente enfiaria a minha cabeça dentro da terra e nunca mais a tiraria de lá, embora a garota pareça gostar da conversa. Posso apostar que ela está imaginando como ele deve ser pelado - o que eu também faria se não estivesse na posição em que me encontro. Ela sorri para ele. – Muito bem, vocês vieram ao lugar certo. Podem me acompanhar? Vou mostrar algumas peças que acabaram de chegar. Se quiserem, podem dar uma olhada na loja. É isso que eu faço. Dou uma olhada em toda a loja. Não há muitos funcionários aqui, o que é bom. A garota que nos atendeu some atrás de uma cortina. Uma outra garota atende a uma mulher horrorosa e cheia de maquiagem enquanto duas outras atendentes estão conversando sobre a novela das nove. Ótimo! Decido colocar meu roubo em prática. O Alec migra em direção as atendentes e, se escuto bem, ele


está dizendo alguma piadinha picante pois todas não param de olhá-lo de cima a baixo com um sorriso malicioso. A barra parece limpa. Vou até a manequim e matuto uma estratégia de roubar a idiota da calcinha. Sei que me arrependerei deste ato. Fecho os olhos. Não acredito no que terei de fazer. Não me resta muita escolha. Abro os olhos e me concentro. Pelo menos a manequim é a ultima da fileira. Suspiro. Puxo a minha calcinha azul de rendas. Ela escorre das minhas pernas e pousa no chão. Olho para os lados. A barra ainda está limpa. Começo a parte mais difícil: despir a manequim. Enfio meus dedos no elástico fino da calcinha ver- melha e o desço até os pés da manequim, o que é uma tarefa um pouco chata: ela está em uma posição desconfortável para a atividade que faço no momento. Apanho a calcinha vermelha e faço uma careta por ela ser tão pequena. Penso que isso não é bem uma calcinha, e sim uma tira de roupa. Não dá tempo para pensar no assunto. Enfio as minhas pernas dentro da coisa mais depravada e a subo fazendo com que o meu vestido embole um pouco. Aproveito e me pergunto se paguei calcinha. Santo Deus! Meu coração palpita loucamente. A diaba da calcinha é tão pequena e esdrúxula que tenho a sensação de estar vestindo nada por baixo, além de ser muito desconfortável. Ela entrou naquele lugar, caramba! Inicio a segunda etapa do meu crime: vestir a manequim. Pego a minha calcinha azul e passo pelas pernas duras da infame boneca. Solto um arquejo ao me abaixar e sentir a calcinha recém-roubada crucificar as minhas partes baixas. Que desconfortável! Tudo acabado. Limpo a fina camada de suor que brotou do alto da minha cabeça. Viro-me ao ouvir uma voz atrás de mim. – O que acha dessas, amor? Posso ver a ironia estampada no rosto do Alec enquanto ele olha para a manequim roubada e depois para mim. É notável que a calcinha azul e o sutiã vermelho não combinam em nada. Entro de gaiata no navio. – Não sei, amor. Você acha que o “Júnior” vai gostar? – Com toda a certeza! Já posso senti-lo pressionando a minha cueca! – Ele sussurra alto o bastante para que a atendente fique constrangida e finja olhar para os lados, pensando talvez que este seja o casal mais tarado que ela já atendeu. Apanho cinco calcinhas e sorrio. Queria fazer uma careta. Não me imagino dentro delas, apesar de me encontrar dentro de uma nesse exato momento. – Vamos ficar com elas – diz Alec ao puxar a carteira. Queria dizer a ele que não era para gastar dinheiro com essas coisas asquerosas, mas não consigo. Estou assustada demais com o que acabei de fazer para poder dizer que odiei todas elas. Sou uma namorada safada. Ele paga pelas calcinhas e, antes de sair, dá tchau e sorri para as suas novas amiguinhas que, sem dúvidas, suspiram por dentro. Quando estamos a mais ou menos dez passos da loja, Alec entra em uma crise de risos. Passam-se uma eternidade e ele continua rindo. Fico irritada. As pessoas passam e nos olham a fim de desvendar o motivo da sua risada. Alec finalmente pausa. – Sério, não acredito que você trocou de calcinha com a manequim! Isso é... – Vergonhoso! – Digo. – Não, é surreal! Agora, todas as vezes que eu passar por essa loja eu vou me lembrar disso! Ele volta a rir histericamente. – Isso não tem graça Alec, para de rir. Agora que já conseguiu a sua calcinha, podemos ir para casa.


Ela não é nada confortável. – Com certeza, posso apostar. – E então Alec assume uma expressão seria. – Não passou por sua cabeça aquela linda frase “sorria, você está sendo filmado” presa na parede? Franzo o cenho. – Não! – Sim! Claro que sim! Vi sorrateiramente duas câmeras. Pensei que você fosse mais esperta e iria para o provador usurpar. Pelo menos era o que eu faria. Não poderia ser melhor. Fui filmada e logo serei presa por furtar algo deplorável! Francamente, o que me tornei? Em quem estou me tornando desde que o Alec cruzou as fronteiras da minha vida pacata? – Ei, vocês dois! Meus neurônios entram em sinal de alerta ao reconhecer a voz. É da atendente. Entro em pânico. Eles viram as gravações, sacaram a manequim e viram a minha calcinha azul! – Corre! – Diz Alec. É isso que faço. Corremos até os pulmões não aguentarem mais. Driblamos as pessoas em suas marchas de tartarugas e logo nos transformamos nos loucos do shopping, na atração principal. Posso ver pelo sorriso no rosto do Alec que ele está claramente se divertindo com tudo isso. E é ai que resolvo rir também. Isso é, de longe, engraçado. As portas automáticas de vidro se abrem e nós nos lançamos para fora como uma bala de canhão cuspida do cano. Sinto dores de facão no meu abdômen. Paramos no estacionamento. Alec continua a rir, e a calcinha continua a me castigar. Como estamos perto do seu carro, desço a calcinha entre as pernas e faço uma pequena bola. Em seguida a enfio na boca do Alec sem pensar duas vezes! – Muito bem, seu desgraçado, ai está a sua calcinha! Pare de rir! Agora é questão de honra, Alec: você não ganhará essa aposta! – Estou irritada, principalmente com medo de ser presa. Ele me segue até o carro se controlando para não rir. – E, a propósito – murmura ele quando já estamos dentro do carro -, eu nunca cantei para uma garota antes. Você será a primeira.


Capítulo Quinze A nova chance Enquanto estamos dentro do carro, o Alec dá uma pausa em seus risos frenéticos e atende ao telefone. O sorriso se desfaz e, seja lá quem esteja do outro lado da linha, as únicas respostas que ele dá são: sim, aham e oquei. Não sei, mas a impressão que tenho é a de que ele não queria que eu escutasse sua conversa. Depois que o Alec desliga o celular, não olho mais para ele e ele não olha para mim. O silêncio prevalece. Pensei que ele iria me levar para sua casa ou coisa do tipo, porém ele estaciona em frente ao antro e, como uma bala de revólver, eu salto do carro. Seus dedos esguios me interceptam. – Está chateada porque eu ri de você? Passo a língua pelos dentes. Uma coisa não tem nada a ver com outra. Ele só está tentando quebrar o clima que o seu telefonema causou, ambos fingindo não ter percebido nada. – É. – A única palavra que brota de minha garganta. Eu queria poder bater em alguma coisa - no Alec, talvez. Quero esbravejar a raiva que sinto e sabe Deus por quê! Será que é porque só agora, depois do telefonema, é que finalmente percebi que o Alec não passa de um excelente jogador? Ou será o segredo que ele esconde de mim? Como se estivesse lendo meus pensamentos hediondos, Alec envolve os seus braços musculosos em meu corpo frágil. Eu gosto desse abraço. Inibo as lágrimas que ardem em meus olhos com a certeza de que isso está acabando. A brincadeira está chegando ao fim e o Alec será apenas o meu vizinho desconhecido. Oquei. Não digo nada. Ainda tenho uma semana inteira com o Alec. Agora vejo que ganhei uma nova consequência. Uma quarta aposta. Do meu “eu” para o meu “eu”. Tenho exatamente uma semana para fazer com que o Alec se apaixone por mim. Tenho que descobrir de uma vez por todas se tudo o que ele me diz é real ou uma mentira deslavada. O que eu sei? Bem, ele ganhou todas as apostas. Eu estou apaixonada por ele. Pronto, falei. No entanto, é um amor estranho. É como se eu estivesse me apaixonando pelo desconhecido. Estou em uma aventura constante e bem perto de chegar ao fim. – Agora tenho que ir. Volto logo. Aposto que nem vai sentir a minha falta. Quando piscar o olho, estarei aqui de volta. Ele beija a minha testa e sinto seu hálito em meu rosto. Quero beijálo. Meu corpo todo pega fogo com o desejo estúpido que me toma. Estou implorando para que ele me beije, implorando para que o Alec peça para me beijar. Nada. Alec dá de ombros. Assisto-o entrar em seu carro e desaparecer na esquina sem nem ao menos passar em sua casa. Apresso meus passos. Entro no antro e reprimo o grito em minha garganta. Desde quando o Alec se


tornou uma droga para mim? Desde quando sou tão dependente dele? – Sua burra e idiota! – Grito para mim mesma. Vou até o meu guarda-roupa, procuro uma roupa de academia e o meu tênis. Preciso correr. Preciso muito correr! O suor escorre do topo da minha cabeça. A Av. Getúlio Vargas está cheia de corredores ao passo que o por do Sol se aproxima. Meus tênis pressionam o gramado várias vezes por minuto e o meu rabo-de-cavalo balança de um lado para o outro. Dou um gole na minha água. Faz quase uma hora que estou correndo. Já pensei no Alec umas mil vezes. Pensei em como o seu sorriso é lindo; em como ele me faz bem; em como não existe outro cara melhor do que ele... Mas logo sou pega numa mentira. Quando me aproximo de casa vejo um carro parado em frente ao antro. Reduzo a velocidade dos meus passos e caminho cautelosamente para encontrar um cara sentado nos degraus da porta. Penso rápido. Se fosse um ladrão, com certeza não estaria me esperando. Ele me vê e se levanta. Apesar da distância, não consigo ver o seu rosto por causa do escuro, mas logo a luz da lua o ilumina e eu vejo o Jonathan. Sinto a saliva se perder em minha boca e mais uma vez estou em apuros. Eu não sei lidar com caras apaixonados, principalmente esses que nem se importam de levar alguns não. – Alice! – Imagino várias exclamações no fim dessa pequena excla - mação. Animação demais. Jonathan para cinco passos na minha frente e enfia as mãos no bolso da calça como se não soubesse o que fazer com as mãos... Ou comigo. Em seu rosto um belo e ingênuo sorriso está pendurado - se o Alec não tivesse aparecido antes em minha vida, com certeza eu estaria encantada pelo cara loiro que sorri para mim. – Oi... Jonathan. – Finjo um sorriso. Afinal, que culpa tem o pobre coitado? Ficamos ali, parados por uns dez segundos numa dança de acasalamento sem objetivo algum. – Como... Como você descobriu onde eu moro? – Franzo o cenho e cruzo os braços. – Com os diretores da peça. Quer dizer, não quero que pense que eu estou te perseguindo. Só achei que não seria má ideia vir até aqui pra tentar te persuadir. – Olha, Jonathan, já conversamos sobre isso. Eu gosto de você, mas não daquele jeito, entende? – Entendo, mas eu não vim aqui para te persuadir a ficar comigo, e sim para aceitar ser o meu par na peça. Não consegui encontrar nenhuma outra atriz tão boa quanto você. – Ah... Um a zero para ele. Ponto para o Jonathan, e bem feito para mim! Acorda, Alice, o mundo não gira ao seu redor. – Também já conversamos sobre isso – digo em vingança. – Sim, claro. A questão é que eu não aceitarei fazer o teste se você não fizer. Além do mais, teatro nunca foi a minha praia de verdade. Bem, a melhor parte vem agora: eu não sei se você sabe, mas a peça será apresentada em todas as capitais do Brasil. Então... Então essa é a minha chance. A chance de sair dessa cidade, de mudar de vida, de ser reconhecida pelo que eu mais amo e sei fazer de verdade: atuar. Mesmo agora eu estou atuando. Quando acordo, estou atuando. É obvio que o papel ainda não é certo, mas que outra chance eu tenho? O Jonathan está


me oferecendo algo grandioso e o que estou fazendo? Recusando por uma coisa banal! – Verdade? – Pergunto. – Sim. Andei lendo alguns scripts, e são realmente fantásticos. “Case-se Comigo!” será um sucesso de bilheteria. E eu não vejo outra pessoa, a não ser você, para interpretar a Júlia. Ela é você, Alice. Sinto-me corar por dentro, apesar de saber que ele pode estar mentindo para mim, manipulando-me com as palavras que eu sempre quis ouvir. É isso, não é? Só que eu não me importo. Não me importo! – Só pode estar brincando. – Nunca falei tão sério em minha vida. Não é só porque me sinto atraído por você que serei privado de dizer a verdade. Pestanejo. Até os meus pensamentos se foram. – Digamos que eu aceite. O que me diz? – Bem, na verdade eu já sabia que você iria aceitar. Trouxe a peça impressa, outra vez. Vamos encenar o ato dezesseis. Você pode dar uma olhada e me ligar depois para me dizer o veredicto. Ele vai até o carro, pega a peça encadernada e me entrega. Dessa vez eu agarro a apostila e a aperto contra o peito com o sorriso mais débil que consegui dar no momento. – Obrigada, Jonathan, obrigada mesmo. Mas tem de me prometer uma coisa. – O que você quiser. – Ótimo. Quero que me prometa que não misturará as coisas. Que seremos um casal apenas no palco, oquei? Jonathan dá um sorriso zombeteiro. – Qual é, Alice, eu sei ser profissional, tá legal? E ele vai embora sem implorar por nada da minha parte. Confesso que estava à espera de várias declarações. A verdade é que estou ficando mal acostumada com o Alec e com os homens. Termino o banho e me jogo em minha cama com o texto da peça nas mãos. Leio todo o texto. É sobre uma garota que se apaixona por um bad boy. Enquanto seu maior sonho é se casar, o dele é pegar o maior número de garotas. Então eles decidem ser apenas amigos até ela comprar uma passagem para a sua cidade natal e Lucas descobrir que Júlia é o amor de sua vida. Claro que aparecem outros personagens. Parece-me um pouco clichê, mas é algo que um grande público deseja ver: amor. O amor verdadeiro acima de qualquer coisa. Leio o ato dezesseis e ligo para o Jonathan para dizer que aceito de uma vez por todas ser a sua Júlia. Passo o resto da noite sozinha. O Alec não me liga, muito menos aparece. Tenho a leve sensação de que pisquei os olhos várias vezes desde que ele se foi dizendo que estaria aqui num piscar dos olhos. Já passa das sete da noite. Sinto falta do seu cheiro, do aperto de seus braços, da sua voz em meu ouvido. Pergunto-me onde ele está agora, se sente a minha falta tanto quanto aparento sentir. Caio no sono agarrada ao celular na esperança de que ele me ligue para dizer boa noite... Nada acontece. Meu celular toca: Lis. – Oi, gata. Então, o que você tá fazendo aí? Tiro os fios da minha franja crescida que pinicam o meu rosto amassado. – Dormindo. Quer dizer, eu estava dormindo antes de você me acor


dar. – Credo, Alice, são nove e meia da noite de sábado e você já está dormindo? Putz! Estamos indo para um barzinho. Passarei no antro daqui a pouco, então vista uma roupa bem sexy, tá legal? Oquei. Assim que desligo o celular, tomo banho e seco o meu cabelo. Coloco minha meia calça preta e visto o meu vestido preto com cintinho e sem mangas. Calço meu sapato alto preto e estou pronta para ir ao velório. Brincadeira! Olho-me no espelho e penteio meu cabelo fazendo com que as pontas adquiram grossos cachos. Estou sexy! Pelo menos me sinto sexy para variar. Olho em meu celular em busca de alguma chamada do Alec. Entro numa discussão mental com meus botões sobre eu ligar ou não para ele. Opto por não ligar. O Alec disse que voltaria logo e faz quase dez horas desde que ele se foi. Quando Lis buzina, visto meu sobretudo e puxo o cabelo preso na gola. Antes de entrar no carro dou uma olhadela na casa do meu vizinho o qual eu estou apaixonada. Tudo escuro. Ele ainda não chegou. No bar está a Silvia, a Laura, a Ana, Elvira e agora eu e a Lis. As garotas logo começam a contar sobre os últimos acontecimentos e logo relato a minha madrugada na piscina e o roubo da calcinha seguido dos meus sentimentos com relação ao Alec, embora esteja com medo de estar sendo iludida. – Ah, cara, o que você têm que eu não tenho? – Pergunta Laura. Faço uma careta e rio. – Certamente um hímen intacto. – Digo e todas caem na risada. Todas bebem alguma coisa com álcool e eu abomino a ideia. A minha última experiência me deixou, digamos assim, traumática. É assim que a minha virgindade entra em foco. – Talvez esse seja o seu problema, Alice – diz Lis. – O fato de você ser virgem pode estar inibindo o seu progresso com o Alec. Se bem que, pelos comentários alheios, é impossível resistir ao delicioso Alec. Risos e mais risos. Todas acham graça, exceto eu, que dou um sorriso amarelo. – Na real, Alice, do que você tem medo? Essa é a pergunta de um bilhão de dólares. Tenho medo de me decepcionar, de saber que o Alec está mentindo para mim. Pensei que todo mundo já soubesse disso! Mas o que eu mais tenho medo é dele não ser “o cara” e o seu rosto e corpo bonito ser apenas uma alusão. – Na verdade, nenhuma garota perde a sua virgindade com um príncipe encantado – murmura Elvira , se é isso que está pensando. Eles são uns canalhas, Alice. E quando tudo acabar, nem vai se sentir tão culpada. Você segue em frente como se nada estivesse acontecido... O problema é se você se apegar ao cara e ele não se apegar a você. É, eu sei que o problema todo é este. Se bem que, pelo andar da carruagem, tanto eu quanto o Alec nos encontramos no mesmo barco. Aparentamos um apegado ao outro. – Vê se eu estou entendendo... Vocês querem que eu transe com o Alec para descobrir o que eu realmente sinto por ele? Para saber as reais intenções dele para comigo, é isso?


– Pelo menos você sabe ler nas entrelinhas, garota – diz Silvia. Olho para a silênciosa Ana. Desde que começamos a falar sobre o Alec tenho a impressão de que ela não quer se intrometer quando o assunto é a minha defloração em si. Porém, ela resolve se pronunciar. – Se querem mesmo saber, não acho que o Alec seja para a Alice. Tem algo de... Estranho nele. Ele é um lobo em pele de cordeiro pronto para comer a Chapeuzinho Vermelho. O Alec não é o tipo de pessoa a quem uma garota deve se entregar, pelo menos não em sua primeira vez. Tremo por dentro e assumo que já pensei isso antes. O Alec, a maneira como ele age, nos faz ter um leve presságio de que ele arrasa corações. – Ah, Ana, para de ser careta. Não entendo por que está tentando boicotar o lance da Alice. – Cala a boca, Lis, você não sabe o que está dizendo. O Alec não é confiável. Ele não seria nem mesmo para você, sempre oferecida. Sério, ele usa as pessoas. O Alec simplesmente nasceu para isso: para a dissimulação. Fico irritada. – Você fala como se o conhecesse – protesto. – Sim, eu o conheço. Ele é amigo do Nêmias, caramba! E se você fosse esperta o bastante, sairia dessa areia movediça antes que seja tarde demais. – Do que você está falando? – Por que não pergunta isso ao próprio? – Ela dá um sorriso de escárnio. – Se bem que a única coisa que posso afirmar é que se uma coisa que o Alec sabe mesmo é fazer é sexo. E Ana se levanta como se dissesse para mim que não revelaria mais nada. Fico encafifada por um tempo. Qual o segredo do Alec? O que ele não quer me dizer? Droga! – Não liga para a Ana. Ela está assim desde que o Nêmias terminou o namoro. De repente ela acha que todos os homens são uns canalhas, o que é relativo, claro. – Acho que a Alice está precisando transar hoje – diz Lis. – Sexo casual. Vamos lá, Alice! Quando começar a praticar vai perceber que tudo não passa de uma grande baboseira. – Desculpa, mas não estou com cabeça para dormir com qualquer cara. Não é assim que as coisas funcionam. Pode ser que você goste de fazer essas coisas, mas eu não. Vou indo para casa. É isso que eu faço. Empurro a cadeira para trás num ruído estridente e deixo o copo de refrigerante cair em meu vestido. Murmuro um xingamento qualquer e dou de ombros. A impressão que tenho é a de que não gosto mais de contar as minhas experiências para as minhas amigas como fazia antes. Não suporto mais as suas críticas e por isso digo a mim mesma que guardarei tudo para mim - ou para o Derek. Pego o primeiro táxi que aparece. Dentro dele choro em silêncio. Não quero, mas sinto falta da minha mãe. Queria a minha irmã Belle aqui e agora. Com toda a certeza ela seria a minha melhor amiga. Só que eu não tenho nada. Pago a corrida e desço do carro ainda com os olhos inchados e molhados. Vejo o Alec caminhar de sua casa para a minha e o meu coração dá palpites frenéticos. Tem algo em suas mãos. Eu deveria sentir raiva dele, mas a única coisa que consigo sentir é alívio, ou outra coisa. Enfio a chave na fechadura e a giro. Acendo a luz e deixo a porta encostada. Tiro o meu sobretudo e arranco o vestido grudento sujo de refrigerante. O Alec entra no antro e fecha a porta atrás de si, colocando o violão no chão. Sou pega de calcinha, sutiã, meias pretas e sapato alto. Ele me olha com curiosidade. Morde o lábio inferior e inibe seu desejo momentâneo ao ver meus olhos vermelhos e o meu rosto inchado por ter chorado pela mãe que preferiu a outra ao invés de mim. Ele me abraça. Estou em casa outra vez.


– Não tive a intenção de demorar. Pelo menos agora sei que você sente a minha falta. Está até chorando – diz ele num tom brincalhão. – Sério, por que está chorando? Quem foi o idiota que fez você chorar? Acho que esse idiota é ele próprio, no entanto ele não tem culpa de verdade por tudo isso que sinto em relação à sua pessoa. O Alec não tem culpa de nada. Então, por que estou chorando mesmo? Ah, sim! – Você quer dizer, a idiota. Seus dedos deslizam pelas minhas costas nuas até parar na minha cintura. Estou totalmente exposta. É nesse momento que sinto sua virilidade pressionar o meu corpo num desesperado desejo de ser posto para fora. Alec percebe. Sinto o seu pênis duro coberto por sua calça de elástico frouxo. – Juro por tudo o que é mais sagrado: não foi intencional. Eu bem que estava tentando controlá-lo, se é que me entende. – Culpada. Melhor eu vestir uma roupa. Dou de ombros e visto uma camisola. Arranco os sapatos e as meias sem entender por que ele não ficou nem um pouco constrangido. Se bem que eu sei que ele me quer e fico grata por eu ser mulher, pois seria traída pelos meus desejos há muito tempo. Afinal, tenho a plena certeza de que neste momento as minhas gônadas estão literalmente atacadas. Afasto da minha mente esse desejo insano de ter o Alec porque não quero ficar mol- hada. Sento-me no sofá e o Alec volta com um bule de água, sachês de chá e bolachas. Faço uma careta. – Cara, você me surpreende! Não sabia que gostava de beber chá. – Faço esse pequeno sacrifício quando o assunto é a minha namorada. O.Q.U.E.I. Meus pensamentos dão uma estancada brusca com o que acabei de ouvir. Cala a boca! Ele disse isso mesmo? Nem pensar. As últimas palavras foram criadas pelo meu subconsciente maluco. Mentira, ele disse o que disse. Tenho plenitude disso. – Para quantas namoradas você já fez esse chá? – Nenhuma, pois nunca tive uma namorada antes de você. Rio e atiro uma almofada em sua cabeça. – Desculpa te decepcionar, mas tenho que te dizer que continua no zero a zero. Não sou sua namorada, Alec. – Porque não quer. Ops. Ponto para o Alec por me deixar mais uma vez sem o que dizer. É isso mesmo que acabei de ouvir? Poderia eu considerar isso um pedido de namoro? Vai saber. – Que estranho – digo de modo a apaziguar a situação. – Quantos anos você tem mesmo? – Vinte e um. – E por que nunca teve uma namorada? – Porque eu nunca quis. Nenhuma se encaixava no que eu queria até conhecer você, e você é hoje tudo o que eu mais quero, Alice. Eu queria dizer o mesmo, porém não tenho essa mesma audácia de dizer simplesmente o que sinto ou o que quero dele. Levanto do lugar onde me encontro e encho uma xícara com água quente. Enfio o sachê de camo- mila dentro da água e esta logo adere ao papel tingindo-se pouco a pouco de um amarelo fraco. Enquanto beberico o meu chá, sou assistida por um belo par de olhos sedentos por mim. Isso é quase triunfante. – Tudo bem, Alec, como posso saber que tudo o que me diz é verdade e que não está brincando com os meus sentimentos por conta da nossa aposta?


– Nada. Só precisa confiar. Além do mais, não tenho culpa se você apostou essa coisa de fazer com que você se apaixone por mim. Não tenho mesmo culpa. Vejo o gato do Shrek nos olhos do Alec e ele se ajoelha diante de mim. Tira a xícara das minhas mãos e a coloca em cima da mesa de centro. Sou atingida pelas insinuações da Ana. – Isso não vai dar certo, Alec, nem ao menos te conheço. Sinto que me esconde algo e todo mundo sabe o que é. – Eu sei, eu sei, já conversamos sobre isso. Eu vou te contar quando chegar a hora e quando eu souber que não vai me recriminar ou me julgar. Eu gosto de você, mas preciso que confie em mim. Você confia em mim, Alice? Apesar de estar confusa com os meus pensamentos – uma mistura das indiretas da Ana com as súplicas do Alec - eu simplesmente concordo com a cabeça. – Sim, confio. – E é verdade. Noventa por cento do que sou confia nele e segue piamente a certeza de que o Alec não irá me machucar, pelo menos é o que discorda o dez por cento que sobra de mim. Esse dez por cento me induz a dizer: - Eu confio em você, mas você não confia em mim. – Eu confio em você, só preciso de tempo para arrumar meus pensa- mentos. Quero que acredite pelo que eu sou, Alice. Pelos homens e mulheres e por todas as estrelas que existem no céu, o que sinto por você é de verdade. Não serei um louco se disser que te amo hoje, que te amarei amanhã e depois. Você é minha e eu sou seu. Aqui me encontro ouvindo o que sempre sonhei escutar de um homem e já não me importo com nada. Nada de apostas e segredos. Eu quero o Alec mais do que qualquer coisa do mundo! Sorrio e ele logo me beija. Primeiro é algo lento, duas bocas que se encontram, e sei que ele está pedindo permissão. Ele quer saber se é isso o que eu quero. Confirmo ao abrir os meus lábios junto aos dele enquanto suas mãos pousam em minha nuca. As pontas de nossas línguas se encontram numa dança maluca de fogo e desejo. Ele me beija, eu o beijo. E isso nunca vai acabar. Não quero que acabe porque não sei como passei tanto tempo da minha vida sem experimentar essa coisa louca. Estou sem respiração. Sinto como se Alec estivesse sugando a minha alma. Ele para, olha para mim e sorri. Retribuo o riso e ele me beija de novo. Deita o meu corpo no sofá e logo se posiciona por cima de mim, deixando-me com a leve sensação de que serei esmagada. Ele se levanta e me carrega até a cama onde nos beijamos mais e mais. Não permito irmos até o fim, pois não é a hora, mas o Alec parece não se importar. Sinto-me culpada porque mais uma vez sinto seu pênis pressionar o meu corpo sem poder sair de seu casulo. Mais tarde, quando estamos envoltos na cama, ele me abraça por debaixo do cobertor com a sua respiração quente em meu ouvido. Perguntame: – Ainda não me respondeu por que estava chorando. – Não é nada de importante. Fico assim várias vezes. É comum, você acaba que se acostumando. Ouço um grunhido e a minha garganta se aperta ao imaginar que estou mentindo, que não estou dizendo a verdade. Ao contrário do Alec, quero contar tudo para ele. Exatamente tudo. Minutos depois do silêncio resolvo me pronunciar. – Minha mãe foi embora quando eu tinha sete anos. Por favor, não me pergunte por que, pois não sei de verdade. E eu tenho uma irmã gêmea chamada Belle. O edredom farfalha quando o Alec se movimenta para ficar cara a cara comigo. Deus, ainda não me


acostumei com a demasiada beleza dele vista de tão perto. – E onde está a sua irmã? – Foi com a minha mãe. É isso. Fui abandonada aos sete anos pela minha própria mãe e ela levou a minha irmã gêmea. Depois disso eu nunca mais ouvi falar delas e às vezes choro porque não consigo entender por que não fui eu a escolhida. Limpo a garganta por conta da minha voz embargada e sinto a película d’água se formar em meus olhos. – A minha madrinha, a mulher quem me criou, disse que a minha mãe escolheu a Belle porque era a mais frágil. Ela precisava escolher uma das duas para ser a sua companheira, mas... Mas não passou pela cabeça dela como eu ficaria? Que eu também tenho sentimentos? Que eu era só uma criança? Deus! Estou chorando. Voluptuosas lágrimas despencam dos meus olhos e necessito bater em alguma coisa. – Ela não me amava, é isso? - Sussurro. O polegar do Alec dança em minha bochecha que pega fogo. Ele me abraça, aperta meus braços contra o seu peito nu. – Não fica assim, Alice, por favor. Simplesmente não sei o que fazer quando uma mulher chora, principalmente você. – Você acha que algum dia a minha mãe cogitou voltar? Que a Belle sente a minha falta tanto quanto sinto a sua ausência todo este tempo? Elas ainda se lembram de mim? Amam-me? O que eu queria de verdade era arrancar essa dor do peito, essa lembrança de que um dia eu tive uma família. Não uma família totalmente feliz, mas as lembranças que possuo são... Fortes demais, verdadeiras demais. Reais. – Eu, hum... – Ele não sabe o que dizer. – Hum... Eu te amo por todas as pessoas do mundo. Apesar de não sentir autoconfiança no que ele acaba de dizer, eu permito-me sorrir e beijá-lo. É um beijo salgado e cheio de sons por conta do silêncio ensurdecedor. – Olha que acredito. Ele sorri, mas logo desfaz seu belo sorriso. – Você nunca procurou por elas? – Não. A minha madrinha disse que não seria legal e que eu não as acharia e, antes que me pergunte, a minha madrinha morreu tem um tempo. Desde então, tem sido apenas eu. Quer dizer, o Derek é o meu irmão postiço. Ele é muito mais do que isso. Ele é o meu anjo da guarda que nunca me deixa fraquejar, entende? Se estou onde estou hoje, é tudo por ele e pela madrinha. – Queria ter cuidado de você antes, quando tudo aconteceu. Se bem que agora a vaca foi para o brejo de uma vez por todas porque me sinto ainda mais ligado a você. De uma forma ou de outra, a nossa história se interliga. – Hum. – Como assim? – Você foi abandonado por sua mãe ou coisa do tipo? – Mais ou menos. Tem um pouco a ver, sim. Não quero falar sobre isso agora. Não me sinto psicologicamente preparado para reviver o meu passado de uma vez, por isso estou protelando. – Às vezes você me deixa meio que amedrontada e cheia das caraminholas. – Suspiro entediada. – Diga que não vai me deixar pensando besteira por muito tempo. Melhor, prometa para mim! – Eu prometo, Alice, por tudo o que é mais sagrado. Eu prometo. – Ele tira alguns fios de cabelo dos olhos. – Por acaso você não tem uma foto da sua mãe e da sua irmã por aí, tem? – Sim, por quê? – Curiosidade. Posso ver? Levanto da cama e caminho descalça no chão frio até o guarda-roupa onde retiro uma caixa com fotos


dentro. Pego uma foto minha, da Belle e da minha mãe antes da partida das duas. Volto para a cama e entrego a foto ao Alec. – Sua mãe é muito bonita. Quanto à sua irmã e você, bem, não dá para diferenciar quem é quem. Distraio-me explicando quem é quem e os detalhes que nos diferenciávamos. Conto histórias malucas da época em que eu era feliz – não que eu não seja hoje. – E o seu pai, onde ele está? – Meu pai morreu antes que eu me entendesse por gente, o que é um bônus e um ônus. Talvez, se ele estivesse vivo, a nossa família não seria dividida assim... Ou ele podia ter ido com a minha mãe e a Belle, enfim. – Você acredita em Deus, Alice? – Sim, claro que acredito. – Acredita que as coisas vão se ajeitar um dia e que este vazio que você sente aí dentro logo será preenchido por alguma coisa boa? Acredita que as coisas não acontecem aleatoriamente? Levo uns segundos para pensar ou para raciocinar a ideia de ter um Alec assim, um tanto religioso. – Acho que sim. – Então, Alice, as coisas vão se ajeitar, acredite. Tudo o que passou, tudo o que você viveu, não foi em vão. É tudo questão de tempo para perceber isso. Ele pula da cama e vai até a sala. Volta com o seu violão. – Se eu cantar pra você, promete que vai arrancar essa carinha triste daí e nem vai criticar se eu desafinar? Fico animada com a ideia. – Prometo. As cordas do violão vibram e logo a voz do Alec ganha vida dentro do quarto monótono. Não preciso descrever o quanto ele é lindo cantando ou no quanto a sua voz é magnífica. – “Agimos certo sem querer. Foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você. Porque você está comigo o tempo todo e quando eu vejo o mar, existe algo que diz, que a vida continua e se entregar é uma bobagem...” Perco-me na melodia... Perco-me no Alec... Como sempre.


Capítulo Dezesseis Um pedido inesperado Sabe aquela sensação de que as coisas finalmente estão tomando seu caminho e que de uma maneira ilógica nada mais pode destruir esse sentimento dentro do seu coração moldado com o mais puro cimento? Inquebrável. Pois é. É isso que sinto todos os dias quando acordo e encontro o Alec deitado em minha cama. Todos os dias eu o espero em minha cama. Às vezes ele tende a chegar um tanto tarde e mesmo assim eu o espero como uma boa esposa. Não me entreguei a ele ainda, apesar de suas insistências como se o meu corpo fosse algo que ele desejasse mais do que qualquer coisa no mundo. Sei o quanto é torturador querer e não poder, mas não quero tomar uma atitude que eu vá me arrepender. Sempre disse a mim mesma que seria deflorada pelo homem da minha. É um tanto banal. No entanto, qual garota nunca pesou nisso? A linha tênue que me separa delas é o fato de eu ser forte. O sexo é uma coisa que quero experimentar, claro, porém não é algo que está em primeiro lugar em minha vida ou em minha relação estranha com o Alec. Sim, deveras estranha. Não sei o que de verdade está acontecendo entre nós dois. Dormimos juntos, passamos mais tempo juntos do que um casal de verdade, conversamos sobre tudo - até a quebra da bolsa de valores entre nós vira um assunto excitante para mim. O Alec também não entrou no assunto “passado”, tampouco entro no assunto, e confesso que ando perturbada com a sua história. Duas ou três vezes nesses sete dias que se passaram ele acordou suando, gritando e pedindo para que eu o abraçasse. Cheguei a pensar que ele tremia. Eu não sei o que o Alec esconde de mim, só sei que ele deseja muito esquecer. A foto da minha mãe e de Belle também sumiu depois daquela noite. Já revirei todo o antro, assim como perguntei ao Alec se ele não a colocou em algum lugar. A resposta foi negativa. Fiquei chateada e com um peso no coração porque aquela fotografia é a única que me fazia acreditar de verdade que a minha mãe me amava. Quando não estou na faculdade ou com o Alec, sempre estou com o Jonathan para ensaiar a nossa cena, seja na praça ou na casa dele. Desses dias para cá, o Alec meio que anda chateado pelo fato de alguns caras me ligarem, embora eu diga que sejam apenas amigos da faculdade - esse assunto nos traz de volta ao que nós somos de verdade. Apesar do Alec declarar seu amor por mim em tempo integral, não consigo pronunciar as três palavrinhas mágicas. É como se isso fosse uma altoblindagem porque, apesar de conhecê-lo cada dia mais, o meu interior diz que o Alec não é o cara ideal por quem eu deva me apaixonar, mesmo que eu já tenha feito isso. Enfim, declarar de verdade é uma coisa, sentir é outra. Todos devem me achar uma idiota por ter o cara mais lindo do mundo em suas mãos e não querê-lo – literalmente. Pois bem, então vou contar por quê. Nesses últimos dias comecei a conhecer uma parte do Alec que, se não conhecia, fechava os olhos para não ver. Quer dizer, lá no fundo eu sempre soube que ele era um mulherengo e coisa tal. Posso


tomar como exemplo aquele dia no Secret Five. A questão é que, ultimamente, seja no shopping ou na praça, não só as garotas, como mulheres (vulgo as coroas) têm dado uma olhadela a ele. É estranha a maneira como elas o olham, e também é estranha a maneira como ele age, sempre desconfortável, sempre me deixando por um segundo para conversar com elas em particular. Outro dia um jovem casal o abordou e mais uma vez eu não pude ouvir a conversa, o que obviamente me encheu de caraminholas como se eu sempre soubesse que o que estamos vivendo fosse só coisas da aposta e que ele não sente tudo o que diz sentir por mim de verdade. Se sentisse, não me colocaria para escanteio e não esconderia as coisas de mim como anda fazendo. Então eu fico chateada por um tempo e logo em seguida esqueço tudo. Não porque quero. Eu simplesmente esqueço. Afinal, não pode ser tudo mentira. A nossa aposta já chegou ao fim. Sim! Esqueci de contar: fiz uma tatuagem. A experiência foi um tanto desconfortável, mas está lá. Quer dizer, agora tenho uma borboleta tatuada em minha nuca. No início o Alec disse para deixar para lá essa coisa de aposta e que não queria que eu fizesse a tatuagem, até por que não deixaria ninguém me ver nua, exceto ele. Verdade seja dita, adorei tanto o resultado que acabei fazendo mais duas tatuagens: duas cruzinhas em meu antebraço. Confesso que, no início, quando senti a picada da agulha em minha pele, pensei em minha mãe e em suas crenças. Ouvi a sua nítida voz gritando em minha cabeça como no dia em que colei uma tatuagem de chiclete em minha pele: “Tatuagem é o passaporte para o inferno, Alice!”. – As glândulas vestibulares, glândulas de Bartolini, produzem líquido viscoso que tem a função de lubrificar a genitália feminina para facilitar e favorecer o ato sexual... – diz o professor. Bato o lápis sem parar contra o meu caderno. O ar-condicionado zune e risos ecoam na sala de aula. Estou longe e não consigo me concentrar na aula. – Mas, os lábios tem alguma função, professor? – Pergunta Luiza se referindo aos grandes e pequenos lábios da vagina. – Claro que têm! Arranque os seus e jogue fora então! – Protesta Pedro. Risos frenéticos, como sempre. Até eu rio. – Os grandes e pequenos lábios são pregas longitudinais que tem a função de proteger o clitóris, o óstio externo da uretra e o óstio da vagina. Finalmente a aula acaba. Escorro de minha cadeira, arrumo meus pertences o mais rápido que consigo e encontro o Derek ao celular descendo as escadas. Apresso-me e consigo caminhar ao seu lado como uma sombra. Quando ele me vê, dá um sorriso amarelo e desliga o celular minutos depois. Bem, a verdade é que eu e o Derek não estamos mais tão próximos quanto nos últimos anos, a começar pelo momento que me entendo como gente. Eu sinto a sua falta várias vezes ao dia, e até os selinhos que trocamos se tornou uma lembrança distante. Não quero perder a sua amizade, embora saiba que estejamos migrando para isso. É sempre assim que acontece. Foi assim que aconteceu com o nosso amigo de infância/ pré-adolescência, o Gabriel. Com o tempo, nossos contatos foram ficando cada vez menores. Nossos interesses já não eram os mesmos, nossos novos amigos pertenciam a outro grupo e assim vai. Todo mundo sabe como é. – Você não me ligou hoje – começo – e nem apareceu no antro. Descemos as escadas a trote e mergulhamos na praça de alimentação abarrotada de pessoas. – Aham. – Sinto um nó na garganta.


– Por que você está distante? Derek para e me lança uma olhar condenatório. Descama a minha pele e revela a verdadeira víbora que sou. – Por que você se importa? Estreito os olhos na esperança de que não estejamos migrando para mais uma discussão boba. – Somos amigos, Derek. É óbvio que sinto a sua falta. Queria que desse sinal de vida de vez em quando. – A gente se vê todo dia na faculdade, Alice. – Nos víamos na faculdade antes, mas também nos víamos fora dela constantemente, se quer saber. – Que engraçado... Você sabe o número do meu celular, sabe onde moro e onde trabalho. Mas a questão é que você sempre espera que as pessoas sintam a sua falta, que liguem, que faça você ser o centro das atenções. Ah, Deus, você não consegue tentar sair dos holofotes uma única vez? Apesar dele não gritar ou coisa do tipo, sinto toda a aspereza em sua voz. Sinto-me a pessoa mais esdrúxula do mundo. Tudo o que ele disse é verdade. Eu sempre espero que as pessoas venham a meu encontro, nunca ao contrário – eu acho. Ele leva o polegar até o espaço entre as sobrancelhas e coça o local parecendo chateado ou arrependido. – Desculpa, eu não quis dizer isso. – Tudo bem – engulo o bolo que se formou em minha garganta. – Prometo te procurar mais vezes. Foi isso que aconteceu há cinco minutos. – Eu sei, eu sei. Também sinto a sua falta. Só estou chateado com problemas e mais problemas. – O que aconteceu? – O que estava prestes a acontecer. Meus pais pediram a separação. Faz um tempo que eles dormem separados, só não quis dizer antes... Não que eu não quisesse, mas é complicado por mais que você seja a minha melhor amiga, a melhor pessoa em minha vida. A impressão que tenho é a de que não nasci para este tipo de notícia cara-a-cara. Nada me vem à mente a não ser aquelas velhas frases clichês das quais estamos acostumados a ouvir quando, na verdade, buscamos por confortos inéditos. – Hum... Não sei o que dizer... Nunca tive uma família de verdade... Para entender isso... Você sabe... Ele concorda com a cabeça e segura a alça da mochila quando eu o abraço. Essa é a única coisa que aprendi a fazer de verdade. Então ele me faz um breve resumo de sua vida. De como seu pai nunca deixou de arranjar mulheres na rua por mais que a sua mãe descobrisse os seus casos; de como a sua mãe aguentou a barra da família feliz por todos esses anos; do quanto a sua pequena irmã está sofrendo com este fim e do quanto ele tem que aparentar a pessoa mais madura da casa quando, na verdade, está a ponto de enlouquecer. – Não vamos mais falar sobre isso, oquei? – Do que vamos falar então? – Do seu namoro com aquele Alec. Se me lembro bem, ele está bem apaixonado por você. Essas tatuagens, ele te forçou a fazer ou o quê? – Eu quis fazer as tatuagens. Quanto ao Alec, estava me perguntando o que está rolando entre nós agora a pouco. – Vocês não estão namorando? – Não, quer dizer, ele já mencionou algo do tipo. Mas eu achei melhor deixar como está, pelo menos


por enquanto. Você sabe, como meu coração é de vidro e, se espatifar, não tem conserto. – É, eu sei o quanto é sensível – ele ironiza. Neste momento Adrick passa por nós apressado e entra na chuva, quando volto meu olhar para o Derek. – Sabe da última que anda rolando por aqui? – Não, o quê? – Pergunto. – De que o Adrick virou garoto de programa. Todas as noites, quando sai da faculdade, ele é visto em um carro diferente. Ah, o Adrick sempre foi um fogueteiro, principalmente quando se junta com a Celina e cria pérolas pornográficas num passe de mágica. Mas dizer que o cara anda fazendo programa já é um tanto demais, até por que ele nem me parece uma pessoa que faria essas coisas. No entanto, quem vê cara não vê coração, tampouco lê mentes. – Com certeza é mais um boato. – Alice, não seja ingênua. A gente sabe que ele sempre foi um tanto ambicioso. Tudo o que o Adrick sempre quer é dinheiro, por mais que a sua família tenha condição... Essas roupas, esses sapatos, esse dinheiro que ele esbanja com certeza vem de algum lugar. Eu mesmo já vi o Adrick numa esquina. Cala a boca! Será? O pior é que consigo formar uma imagem perfeita de um carro parando enquanto o Adrick enfia a sua cara na janela com um sorriso ordinário em que tantas vezes eu vi. – As pessoas hoje em dia fazem qualquer coisa pelo dinheiro. – Deus, acho que nem se eu passasse fome conseguiria vender o meu corpo. Sentiria a mim mesma uma completa suja. – Você que está dizendo. Quando seu corpo já não aguentasse mais de fome, tem certeza de que não faria qualquer coisa só por um prato de comida? Por dinheiro? Penso a respeito. Talvez. Tiro a camada de preconceito que reveste os meus pensamentos e chego à conclusão de que não sou ninguém para julgar o outro, só por um momento. – Ele não está passando fome. – É, mas ele não está conseguindo algo que está muito difícil de comprar ou está fazendo por esporte. Você sabe, juntar o útil ao agradável. – Muito obrigado por me ajudar a pintar uma caricatura do Adrick um tanto ousada. – Rio. – Acha que ele já fez sexo grupal? – Alice, Alice... – É sério. Por mais que a ideia seja maluca, lá no fundo nasce uma curiosidade na gente, certo? Por que ele faz isso? Qual o objetivo? Com quantas ele dormiu? Já fez sexo com homem? Com casais? Nossa... – Podemos perguntar a ele. – Melhor não arriscar. Alguém me disse que algumas coisas nunca devem ser perguntadas, principalmente a garotos de programas. Quer queira quer não, somos um pouco preconceituosos. Ainda estamos um pouco chocados. – Eu não estou chocado. Derek suspira. Encolho os olhos quando avisto uma figura se aproxi- mar de nós. Alec. Estamos na praça de alimentação e grande parte dos olhares femininos está no Alec o qual se aproxima de mim. Aproxima-se, aproxima-se, aproxima-se e tasca um beijo na minha boca. Ele balança a cabeça para o Derek e se volta para mim. – Como você conseguiu entrar aqui?


– O Nêmias me emprestou sua digital e o número de matrícula. Simples. Gostou da surpresa? É claro que gostei, grita a minha mente. Contenho-me. O Derek ainda está ao meu lado. – Não dava para esperar na sua casa ou no antro? – Negativo e, de qualquer forma, a aula acabou, certo? Posso te sequestrar agora ou tem algo a dizer antes? Lambo os lábios e olho para o meu melhor amigo que assiste a cena com curiosidade, e não com aquele olhar condenatório. – Eu estava pensando em ir para casa hoje com o Derek, se não se importar. Vejo a decepção estampada no rosto do “sei lá o que” meu. Alec consegue demonstrar tudo o que sente tão claro quanto a mais fina película consegue mostrar o que está atrás dela. – Para dizer a verdade, não precisa se preocupar comigo, Alice – murmura Derek. – Pode ir com o seu... Namorado. Depois conversamos. – Tem certeza? Alec estende a sua mão em minha direção feito uma criança ansiosa para lamber a panela de brigadeiro. Entrego a minha mão a ele e mal contenho meus hormônios que fervem por baixo da minha fina pele. Dou um abraço no Derek com um braço só e pisco para ele no mesmo instante em que o Alec apanha os meus livros. Fico surpresa e extasiada com a sensação que é andar de mãos dadas. Sei que já fiz isso várias e várias vezes. Talvez eu seja ingênua demais. Passamos pela catraca e entramos no carro. Estamos correndo e ele me conduz por toda a escada. Está escuro e o Alec segura uma lanterna para que não caiamos nos degraus. O medo nasce em mim, porém é a adrenalina que me fascina. Tudo o que faço com o Alec, de repente, me parece ilícito. Continuamos a subir e me encontro sem fôlego quando a última porta é empurrada revelando o térreo escuro de um prédio. – E se formos pegos aqui? – Sussurro. – Pode ficar despreocupada. O prédio é abandonado e não precisa falar necessariamente surrando. Se bem que sussurrar em meu ouvido é outro caso. Dou um soco em seu braço sem provocar dor. – O que estamos fazendo aqui? – Se eu te contar, deixa de ser surpresa. Ele se senta no chão e dá um tapa no espaço ao seu lado. Não quero sujar o meu vestido e também não quero bancar a mimada, por isso me sento ao seu lado e investigo o lugar com a ajuda da lanterna. Sem muita coisa pra olhar, as únicas coisas que encontro são dois bancos de madeira, um canteiro com flores mortas e uma caixa de madeira velha esquecida. Alec se deita no chão e olha para o céu. Reviro os olhos e faço o mesmo, só que deitando a cabeça em seu peito. – Esse é o meu lugar predileto, sabia? É sempre para cá que eu venho quando fico chateado com algumas coisas. Porém não é o único lugar. É bastante alto aqui de cima. Fico imaginando pular daqui... Queda livre, essas coisas. Ergo meus olhos para ele e me ocorre que com certeza seu lindo corpo não combina em nada se estiver espatifado no chão com os miolos saindo pela cabeça. Essa revelação dele me chateia.


– Por favor, Alec, não diz isso nem de brincadeira. – É verdade, Alice. Deve ser legal pular dessa altura. Já pensei várias vezes em fazer isso... Simplesmente pular. Hum... Não venho aqui só pra pensar nessas coisas. Gosto desse lugar porque ninguém mais o conhece. Ele é, não literalmente falando, meu. – Fico lisonjeada de conhecer o seu lugar – digo. – É, acho que sim. Ele fica em silêncio por um tempo que mais parece uma eternidade. Mergulho em meus pensamentos. Pergunto-me que tipo de problemas o Alec deve ter para pensar em suicídio. Ele não disse isso com todas as palavras, no entanto está nas entrelinhas, certo? Eu sei que dentro dele, dentro desse cara aparentemente feliz, existe um menino chorão. O céu está enfeitado com suas pérolas brilhantes chamadas estrelas e com o vento soprando forte onde estamos. Faz frio e logo sou aquecida pelo corpo ao meu lado. Fico esperando uma estrela cadente cair. Ela nunca cai. Bem-vinda à realidade! – Se a sua mãe e irmã... De repente voltassem, o que você faria? A pergunta me pega de surpresa e sou socada por um punho invisível na boca do estômago. O que eu faria, de verdade? Quem sabe? Essa pergunta é a mesma coisa que terminar um livro sem dizer qual o fim levou o seu personagem predileto. – Essa é a pergunta que me faço desde que fui abandonada. Sinceramente, não sei. É muita coisa para se pensar, sabe? Muito tempo para processar e entender. – Sei... – Por um lado, quero muito que elas voltem. Por outro... Penso que estou melhor sem elas. É um paradoxo, eu sei. – Mordo meu lábio inferior. – O que você faria em meu lugar? – Eu também não sei. Não queria estar em seu lugar. – Quem, afinal, quer estar em meu lugar? – Já passou pela sua cabeça que a sua mãe pode ter tido um bom motivo para deixar você aqui com a sua madrinha? – Não existe motivo bom ou ruim para isso. Não sei de verdade. Só vou entender tudo isso que sinto em relação a esse abandono quando eu as revir, se é que este dia está escrito. Por enquanto, é tudo abstrato. Quando o silêncio volta a nos amolar, ele me beija. Doces, cálidos, eternos lábios. Aimpressão que tenho é que o fim do mundo poderia acon- tecer exatamente agora e eu não me arrependeria de estar em seus braços. É exatamente aqui que eu quero estar e permanecer para o resto da minha miserável vida. De uma forma bem maluca, é ao lado do Alec que quero passar o resto dos meus dias, e queira Deus que eu não esteja enganada. – Eu queria transferir meus pensamentos para você, acredita? – Ele diz. Franzo o cenho. – Por quê? – Por que queria que você soubesse das coisas que não consigo te dizer deliberadamente. Se você lesse os meus pensamentos, com certeza saberia que ocupa cada pedacinho do meu cérebro. Você pode não acreditar, Alice, mas eu te amo. Sou uma árvore florescendo desde a sua chegada. Ridiculamente, eu te amo. Quero dizer o mesmo. Dizer que eu o amo. Que cada glóbulo vermelho do meu corpo clama por ele e que o meu sangue pulsa e corre em minhas veias pulmonares conduzindo o meu amor por ele. Quero muito que tudo isso seja verdade. Quero que ele esteja dentro das minhas valvas, dos meus


ventrículos... Quero dizer que o amor que sinto por ele já desembocou em meu coração e tomou todo o meu pericárdio... Mas sou falha. – Eu acredito. – Não, você não acredita o bastante. – Alec... – Protesto. – Tudo bem, longe de mim te cobrar alguma coisa. Eu sei que estamos juntos há uma semana, que é arriscado sair dizendo essas coisas e tal. Conheço-te há três semanas. No dia em que nos esbarramos eu sabia que seria assim. A gente sente, eu acho. Limpo os dentes com a língua porque, como sempre, ele me deixa sem saber o que dizer, nem o que pensar. – Tenho um presente para você. Ergo o meu tronco, agitada até, enquanto o Alec procura em seu bolso alguma coisa que tem o som de uma... – Uma chave? – É. Da minha casa. Quero que fique com ela. Mandei fazer uma cópia. Volto a dizer que as coisas estão apressadas, mas eu não posso simplesmente inibir tudo isso que ando sentindo, o que é um tanto gay, sejamos honestos. Seguro o chaveiro com três chaves e processo a ideia. De uma forma ou de outra, essa chave nos leva a um novo patamar. Se bem que o Alec já tinha acesso livre à chave do antro que fica na parte superior da porta... – Deve saber, antes de mais nada, que isso não é um pedido de casamento. Portanto, nada de ficar paranoica. Foi só a maneira que encontrei de dizer que confio em você, Alice. – E você vai se importar se, por acaso, em algum dia desses, eu resolver entrar lá e sair procurando por alguma coisa ou pegue alguma coisa que você não queria que, em hipótese alguma, eu veja? – De forma alguma. – Promete? – Prometo. – Então eu vou aceitar. Antes que eu me esqueça: por favor, não me enxote de lá quando enjoar da minha pessoa. – Eu nunca vou enjoar de você. Agora vamos parar. Essa coisa toda está um tanto melosa, hein? – Acha que já podemos comprar um cachorro amanhã? – Brinco. – Impossível. Você já tem um cachorro, se é que me entende, e, acredite em mim, ainda não desisti de te levar para a cama. Imagino, todo santo dia, como deve ser você debaixo de toda essa roupa. Enrubesço e não contenho de imediato a mão que passeia dos meus seios, em meu tórax, migra para a minha barriga e pousa em cima do que me torna mulher. Dou um beliscão em sua mão e o Alec ri. – Até quando vamos protelar o inevitável? – Até quando eu achar que o inevitável está na hora de acontecer. – Eu te entendo, mulher, te entendo de verdade. Você tem medo de que, depois que se render a mim, eu vá desaparecer. Tem medo de que tudo isso seja uma brincadeira. Uma vez alguém me disse que um homem como eu nunca seria fiel porque as mulheres se oferecem para mim, e esse é o grande dilema. E isso é a mais pura verdade. É impossível não imaginar uma garota que se mantenha à margem dos encantos do Alec. Às vezes, enquanto o observo a primeira luz do amanhecer, penso que deve haver alguma força sobrenatural nele porque, Deus, em toda a minha vida jamais vi tal beleza em outro


homem. É como se cada parte do seu corpo, com seu largo peitoral ou seus excêntricos olhos escuros fossem criado único e exclusivamente para ele. Sem falar no sorriso que é de quebrar uma garota e levá-la ao pó. Ele também é inteligente e, quando quer, carinhoso. Até a sua ira, se formos olhar por outro ângulo, é um jogo de sedução. Nós, ao lado dele, nos transformamos em macacas numa dança maluca para o acasalamento. Eu sei, já presenciei isso. Cada uma quer mostrar o seu melhor para ele. A questão aqui é: o Alec tem realmente culpa por ter tamanha beleza? Tem culpa se as mulheres querem tirar uma casquinha sua? Sinceramente, não. – Eu confio em você, confio cada vez mais. Já disse... Paro no meio da frase porque quase iria dizer a verdade, aquela a qual revela que ainda sou virgem. Esse é um dos maiores dilemas para que eu não me entregue de corpo e alma de uma vez por todas. – Bem, no fim das contas, é melhor ser assim. Às vezes tenho medo de te machucar – lanço um olhar assustado para ele. – Não é desse machucar que estou falando, sua pervertida! – Brinca. – É sério. Tenho uma tendência absurda de estragar as coisas, principalmente com você. – Você fala como se soubesse que a qualquer momento vai me decepcionar. É isso ou é fruto da minha cabeça? – Acho que é isso. Acho que não sou bom o bastante para te merecer. Engraçado porque é nisso que penso todos os dias. Penso que não sou boa o bastante para ele e que outra mulher merece este homem. Qualquer uma, exceto eu. – Para de ser bobo, seu bobão. – Tento amenizar esse clima negro que se formou em nossas cabeças e que só agora desejo mesmo ler os pensamentos dele. Ele me beija. Depois passeia os seus lábios na minha nuca e fura a minha pele com a ponta da barba que está por nascer, até que olha para o relógio e se levanta. – É agora! – O quê? Sem resposta, o Alec me puxa e eu vou feito um imã sendo atraído para os seus braços. Paramos na extremidade do prédio e consigo ver os carros lá em baixo, pequenos como formigas elétricas que se movem de um lado para o outro. – Quero que olhe exatamente para ali – ele aponta para o breu. – Aham... Mas lá não tem nada. – Apenas olha! E fico olhando para o breu por um tempo e, de repente, quando fico cansada e entediada, lá está, escrito em neon azulado, fixa em um viaduto escuro, agora bastante iluminado. NAMORA COMIGO, ALICE Aperto meus dedos na barra gélida à minha frente e emolduro um sorriso idiota em meu rosto. A impressão que tenho é a de que nunca, jamais, em hipótese alguma, irei arrancar esse sorriso do meu rosto. Estou paralisada no lugar e ninguém me acorda desse sonho. Por fim escuto uma voz que me traz de volta a mim. Meus olhos ardem e sou uma imbecil por estar prestes a cair em suas amarras. – Você não pode fazer isso comigo! – Berro. É um berro de felicidade. Bato dissimuladamente em seu peito. Sou rendida por suas hábeis mãos.


– Então, você aceita ou não namorar comigo? – Eu seria uma louca se dissesse qualquer coisa senão um sim. – Não escutei. Precisa dizer isso para todo mundo ouvir. Precisa gritar a plenos pulmões! Subo em um bloco velho e o Alec segura na minha cintura para que eu não me espatife depois de cair dessa altura... E é ai que grito. – Sim, eu aceito namorar você! – Grito. – Ainda não ouvi! – Ele grita de volta. – EU DISSE QUE ACEITO NAMORAR VOCÊ, SEU DESGRAÇADO! ACEITO QUALQUER COISA ESTANDO AO SEU LADO! Ele aperta a minha cintura e sou jogada para trás. Embalo-me em seus braços e no segundo depois o Alec me beija. Depois dessa, acredito piamente que ele é o homem da minha vida. Não me importa se amanhã ou depois não vamos mais estar juntos. Realmente não me importo se daqui a cinquenta anos não estaremos deitados na mesma cama aquecendo um ao outro e nos irritando com qualquer coisa. É ele. É ele. É ele. Aceito essa montanha-russa que é a minha vida ao lado do Alec. Com certeza é isso que nos diferencia dos outros casais. Casais! Jesus, cala a boca! Só agora me dou conta de que somos oficialmente um casal! Eu não ficarei para titia como sempre imaginei. No fim das contas, um beijo não é o fim do mundo, e sim o encontro de duas bocas atraídas uma pela outra unidas por um novo começo. – Sem querer quebrar todo esse romantismo em si, acho que está faltando um ponto de interrogação no final da frase. Só para dar mais clima à coisa, sabe. – Ha-ha, para de complicar as coisas. Você nem sabe a trabalheira que foi fazer isso... Pelo menos valeu a pena. Você precisava ver a sua cara. – É, todo mundo sabe que me surpreendo fácil. – Hum... – Oquei, minha vez de te surpreender. – O que você vai fazer? – Ele ergue uma sobrancelha com o rosto a centímetros do meu. Estou decidida. – Vai saber quando chegarmos em casa. Posso adiantar que é algo que se faz a quatro paredes... – Não... – Sim! – Não! – Cala a boca, Alec, e vamos de uma vez antes que eu mude de ideia.


Capítulo Dezessete Se entregando ao amor Meus pensamentos voam a mil com o que estou prestes a fazer. É verdade que não consigo tirar o sorriso dos lábios. Alec e eu saímos do carro e corremos de mãos dadas feito loucos até a porta do antro. Procuro a chave em minha bolsa e inibo a tremedeira em minhas mãos. Entramos no antro e, de quebra, o Alec me beija. Aperta suas grandes mãos no arco das minhas costas e eu arquejo, excitada. Estamos abraçados e nos beijando quando tombamos em algo. Ele me imprensa na parede, beija o meu pescoço e chupa a minha pele. É quente. Quente e delirante. Empurro-o. – Espera um minuto – digo. Quebro o clima. Sinto o Alec desconectar de mim como um dedo é arrancado da tomada ainda provocando ondas no local onde foi propagado o choque. Vejo em sua expressão o descontentamento, porém ele dá dois passos para trás antes de se virar e sentar no sofá. Oquei. Corro para o banheiro e lá me tranco feito uma garota dessas que estamos acostumadas a ver nas telonas. Ando de um lado para o outro e conto até três. Suspiro e me olho no espelho. Não estou fedendo, meu desodorante não venceu, não estou com mau hálito... Então que diabos vim fazer no banheiro? Ah, a minha depilação também está em dia, graças aos céus! Penteio o meu cabelo e o amarro em um rabo-de-cavalo alto de jeito que ele gosta. Para ser sincera, estou muito nervosa com o que vai acontecer assim que eu sair desse cubículo. Meus joelhos tremem. Se alguém souber como fazê-los para de tremer, por favor, me ensinem. Passo água na nuca e me olho mais uma vez no espelho dando batucadas na pia molhada. Só para não culpar a minha mente, apanho o enxaguante bucal e gargarejo rapidinho. Dúvida: eu tenho que tirar a roupa? Devo ir só de calcinha e sutiã... Ou ele é que deve tirar a minha roupa e eu a dele? Se bem que já estou de vestido. Deve ajudar um pouco no processo. Ah, Cristo, eu sabia que seria difícil. Só não sabia que era um dilema perder o hímen. Pego o frasco de perfume e a cada borrifada movimento a minha pelve para a nuvem cheirosa. Afinal, nunca se sabe se ele vai ou não beijar, cheirar e etc. esse lugar. Melhor pecar por excesso. Giro a maçaneta e saio do banheiro – finalmente – e meus olhos varrem o antro a toda velocidade. Encontro o Alec deitado na cama, dormindo. Suspiro irritada por ele ter dormido! Porém estou decidida levar isso até o fim. Uma parte ousada de mim grita para que eu vá lá, suba em seu corpo agora mesmo! Dou um passo de cada vez até que chego ao Alec e dou um psiu, quando de repente os olhos dele se abrem devagar como de uma criança descobrindo o mundo. – Uau, você dormiu! – Digo indignada. Ele ergue o seu corpo antes deitado de uma forma desengonçada. – É, você passou quase uma hora lá. Deduzi que tinha desistido. – E lá está o Alec alerta de novo. – Desistiu? Penso um pouco embora a resposta esteja na ponta de minha língua. É claro que eu não desisti. Nem por decreto! Sorrio para ele e meneio a cabeça em um sinal de negação. Um sorriso safado e novo brota no rosto dele. Ele se levanta e beija os meus lábios numa força – desejo? – inigualável. Sua língua baila junto com a minha numa valsa nunca vista antes. Eu o quero! Tipo: muito.


Sem se importar mais com os limites de nossa estranha relação, Alec escorre os seus lábios para o meu queixo e eu inclino a cabeça para que ele beije o meu pescoço. É isso que ele faz. Investe a sua boca contra a minha pele. Permito que ele solte os botões que prendem o vestido ao meu corpo. Em um minuto seus dedos hábeis fazem o serviço e o meu vestido cai no chão feito um peso morto. Estou de calcinha e sutiã e o Alec olha para o meu corpo procurando, desejando, querendo algo ali. Seus lábios mais uma vez estão em minha pele, dessa vez em minha clavícula. Eu posso sentir a sua língua quente ali onde sou tocada por sua boca. Sinto-me perdida no País das Maravilhas – o meu país – quando ele beija a minha barriga várias e várias vezes. Fecho os olhos arrepiada, louca e tentada para avançar o sinal. – Você tem certeza de que quer fazer isso agora? – Ele pergunta com a boca colada em minha barriga. – Sim. – É a única coisa que consigo dizer com medo de que a minha voz falhe, o que na verdade não pode acontecer, já que os meus joelhos não colaboram. Trocamos beijos novamente e posso jurar que, apesar dos outros beijos terem sido muito bons, esse chega a não ter nota de tão delicioso. Minha vez, eu acho. Enfio a mão por dentro de sua camisa e pouco a pouco vou subindo-a até que ele a arranca pela cabeça e puxa o meu corpo contra o seu. Dou um gemido por conta da pegada enquanto ele segura o meu cabelo, morde o lóbulo da minha orelha e me fita rapidamente antes de lançar um sorriso para mim. Não sei exatamente quando, mas Alec pega a minha mão e a leva até o seu membro viril onde, ali, por baixo da calça jeans, posso apalpar pela primeira vez – literalmente – um pênis, duro. Minha mão ousada deseja por isso. Desabotoo a sua calça e tiro o seu tênis. Logo ele está só de cueca. Ele desabotoa o meu sutiã e a esta altura nem estou mais temerosa. Deixo a peça cair no chão e revelar os meus seios pequenos e firmes. Alec me joga só de calcinha na cama e mais uma vez beija todo o meu corpo. Lambe a minha pele e chega aos meus seios. Segura um em suas mãos, leva o outro até boca e se concentra em meu mamilo rosado. Estou excitada demais para raciocinar. Descubro que ele é bastante habilidoso com a boca. Sinto todo o seu peso imprensar o meu corpo, roçar, investir, querer. Libero o primeiro gemido. Empurro-o para o lado e monto sobre o seu corpo. Alec continua a chupar um de meus seios. Meu cabelo desliza para a gravidade. Isso é muito bom! Aperto meus dedos em seu cabelo e o meu ato faz com que ele olhe para mim e me beije. Mas não larga do meu seio, seu novo brinquedinho. Beijo seu rosto, seu pescoço, mordo a sua pele e sinto o gosto salgado de sua pele por conta de uma fina camada de suor que se forma em seu peito. O que estou fazendo?! Não há tempo para pensar. Eu só quero mais. A mão do Alec agora deseja conhecer uma nova parte do meu corpo, o lugar onde nenhum outro homem já tocou! Seus dedos vão um de cada vez ganhando vida até se enterrarem dentro da minha calcinha. Aí é tarde demais. Sinto-os deslizando para frente e para trás dentro de mim. – Isso é bom? – Pergunta ele. – Sim. – Digo estridentes. Ele se desconecta de mim. Puxa a barra da minha calcinha e faz com que eu tenha que erguer um pouco o quadril para a calcinha ser arrancada de uma vez. Estou nua, deitada na cama à deriva, fazendo acontecer a minha primeira vez. Agora é tarde demais para voltar atrás – não que eu queira. Deixo um sorriso triunfante escapar de mim e me pergunto quando foi que finalmente cresci. Sem tempo para respostas, sinto um dos dedos do Alec sendo introduzindo dentro de mim, devagar, indo e vindo lentamente. Gemo e me contorço na cama. Lembro-me que ele acha que sou experiente, que conheço plenamente a arte do pecado quando, na verdade, ele é o meu deflorador! O primeiro cara com que estou copulando.


– Você é linda! – Diz ele. Eu acredito piamente. Alec leva o dedo até a boca e me olha de um jeito intenso antes me roubar outro beijo... Sua boca vai até o limite antes intocado do meu corpo. Dentro de mim sua língua faz uma dança maluca que, acredite, é impossível de controlar o gemido. Contorço-me ainda mais e fecho as pálpebras sentindome no paraíso com aquela coisa quente indo para lá e para cá. Quando se dá por satisfeito, ele tira a cueca. Posso ver seu pênis duro como um mastro gostoso e com a glande brilhante. Ele se deita em mim, e mais uma vez entramos numa nova sessão de beijos. Porém, posso sentir sempre o seu membro em minha coxa ou em outro lugar conforme nos movimentamos. Loucas, minhas mãos avançam e seguram o pênis do Alec o qual sorri para mim. Aperto em meus dedos aquela coisa quente e – se não estou louca – pulsante. Acredito que tenha algo vivo ali dentro! Não sei, não sei, não sei! Levo-o até a boca e faço movimentos de vai e vem enquanto ouço o Alec ecoar grunhidos baixos. Ao terminar a minha sessão de sexo oral, mais uma vez o Alec insere um de seus dedos dentro de mim, e dessa vez sem vergonha, com mais vontade. Sinto-me um pouco molhada. Ele se levanta, vai até a sua calça no chão e retira da carteira um envelope de camisinha e a entrega para mim. – Quer colocar? Sem oferecer uma resposta, apanho o envelope e imagino que não seja uma coisa de outro mundo. Já vi simulações, também já li sobre – quem nunca leu? Abro o pacotinho, tiro de lá borracha lubrificada e levo até o pênis do Alec. Aperto a ponta e desenrolo lentamente sobre a coisa quente e dura. Deito na cama e logo sinto a ponta do seu membro investir para dentro de mim. Uma, duas, três vezes lentamente e... Dói. Dói pra burro! Aperto os olhos e libero um gemido. É assim que perco o meu hímen! Lentamente o Alec vai proferindo estocadas de dor que logo se mistura com o prazer. Já não sei mais o que é a dor. Diferente dos filmes, ele não me pergunta se está doendo. Em vez disso, continua indo e voltando dentro de mim, quando contraio meus lábios de baixo em seu membro por tempo indeterminado. É nesse intervalo maluco que minhas gônadas ficam atacadas. Contorço-me e sinto o líquido me molhar toda. Sei que cheguei ao orgasmo na minha primeira vez... Ele se deita sobre mim e continua no vai e vem. O Alec continua a investir, e de repente interrompe seu processo e o vejo retirar a camisinha para gozar na minha barriga. Sei que a intenção não era essa, mas também não deu para segurar. Repetimos a dose mais uma vez. Quando termina, ele se deita ao meu lado, me abraça ainda nu e sussurra: – Você era virgem – ele diz. Olho-o intrigada, mas só consigo confirmar com a cabeça. – No fundo eu já sabia. Parte de mim está feliz por ter sido eu o primeiro, a outra parte... A outra parte morre em sua boca e não ouso insistir para que ele continue, pois não quero que o Alec se sinta culpado por nada. Tomamos banho juntos. Quando terminamos, ele veste a cueca, e eu uma calcinha e uma camisola de seda. Alec vai até a cozinha e eu resolvo trocar os lençóis que, por surpresa minha, está manchada com uma linha de sangue – culpa da minha virgindade, acho. Ele volta com uma garrafa de vinho que já estava aberta em minha geladeira. Dividimos o vinho barato. – Obrigado. – Diz ele. Como assim? Por que ele está pedindo obrigado? Vai saber! Seus lábios tocam o meu, mas a sua língua não investe. O aperto no coração me invade dizendo que essa coisa toda foi um grande passo...


Para a ruína. A voz da minha mãe grita em minha mente dizendo que essa é a hora dele me abandonar, hora de abandonar a garota deflorada! Afasto esse pensamento da mente e libero as seguintes palavras: – Eu amo você. – Pronto, eu disse. Gostaram? Oquei. Disse porque é verdade, porque eu o amo mesmo se ele me deixar amanhã; eu o amo agora e depois e sei que podem se passar mil anos e ainda sim eu o amarei, sem reciprocidade, com aposta ou sem aposta. Alec puxa o meu rosto para que eu possa vê-lo e sorri para mim. Eu sorrio para ele, embora eu veja espanto em seus olhos. – Mesmo? – Mesmo. – Se eu soubesse que ouviria isso depois de transarmos, com certeza teria investido mais nisso antes. Também te amo, Alice, e isso não é novidade. – Então o que nós somos? – Quero saber. – Namorados? Se eu me lembro bem, você aceitou o meu pedido maluco, certo? Se alguém me contasse que se apaixonou por um idiota e se entregou para ele com menos de um mês de conhecidos, com certeza eu não acreditaria. Mas sou eu quem está vivenciando isso, e é intenso demais. Foi intenso o nosso primeiro encontro, o segundo, o terceiro... As taças são colocadas no chão junto com a garrafa vazia e acho que estamos começando tudo de novo. Ele se senta na cama com as pernas abertas e me puxa para si. Coloca as minhas pernas abertas para rodear a sua cintura e os nossos sexos estão pertos o bastante como a água chama um peixe para ali nadar. Ele segura o meu cabelo com força e beija o meu pescoço. Morde o meu queixo e arranca a minha camisola pela cabeça. Já não tenho mais vergonha. Eu o conheço e ele me conhece. Fico surpresa com a nova ardência no meu baixo ventre, uma ardência que chama por mais e mais uma vez. Antes que ele ouse me penetrar, algo explode dentro de mim e molha o meu ser, revela a nova mulher que sou... Quem eu me tornei? Sou só a Alice com um “Q” a mais. Mulher de verdade. Por fim estamos pelados novamente, e ele me penetra... Acordo envolta no lençol e minhas pernas estão entrelaçadas com as fortes pernas dele. Minhas mãos apertam o peitoral sólido. Rio. Beijo o seu corpo como ele fez na noite passada, sem deixar escapar nada. – Alice, Alice! – Sussurra. – Assim você vai me matar! Continuo, porém resolvo parar. Surpresa com a minha falta de pudor. Sou uma meretriz! Visto a camisola e vou para o banheiro onde o Alec me encontra no chuveiro e tomamos outro banho juntos. Dessa vez fazemos o máximo para não transarmos de novo, muito embora a ereção dele esteja ali. Muito tempo depois, ele vai embora e eu corro até o meu telefone celular. – Alô, Derek, será que tem como você me encontrar em meia hora? Seguro o copo de milk-shake enquanto espero o Derek pagar a conta. Meu cabelo chicoteia devido ao vento, e mesmo depois de horas ainda sinto uma ardência – bastante fraca – em meu baixo ventre. – Eu não sou mais virgem! – Digo. Ele une as sobrancelhas e morde a casquinha de seu sorvete.


– O que você disse? – Ah, Derek, você ouviu muito bem. Asua querida amiga foi deflorada na madrugada. Diz que não é o máximo! – É... Acho que é... Mas, só por curiosidade, quem foi o cara? Es pera... Foi o Alec? Claro que foi. – Ele dá um tapa na própria testa. – Como aconteceu? Faço um breve resumo de como tudo aconteceu. O “NAMORA COMIGO, ALICE” em neon; a certeza que eu tive de que estava preparada e de como o Alec foi super carinhoso comigo, diferentemente do modo como eu imaginava. Ele não me chamou de cadela, o que de fato me faria brochar. – E vocês estão namorando? – É. – Qual é, Alice, você nem ao menos conhece o cara direito. Nem sabe de onde ele veio, para aonde ele vai, no que trabalha, onde está sua família, se tem irmãos, entre outras coisas. Você simplesmente não sabe. – Se você não fosse o meu melhor amigo, poderia jurar que está com ciúmes e, além do mais, já conversamos sobre isso. Essas coisas a gente não controla. Você bem deveria saber disso, Derek. Vejo-o concordar com a cabeça e atirar o guardanapo no lixo. É impossível deixar de lado o que ele me disse – para variar. Realmente não conheço a história de vida do Alec. Eu deveria ao menos saber como ele ganha dinheiro, certo? Sim, certo. – Podemos sair hoje à noite? – Hum... Já combinei de sair com o Alec. Ele lambe os lábios e concorda com a cabeça, frustrado por minha causa. Sinto-me culpada. – Sinto falta de estar com você, Alice – Derek desabafa, já que não teve coragem de fazer isso noite passada. – Desde que ele apareceu, sinto que não somos mais os mesmos. Ele está te tirando de mim e você está aceitando. Prometemos um ao outro que nunca iríamos fazer isso. Prefiro ficar calada porque as palavras desaparecem de mim. Lembro-me dessa promessa. Lembro que prometemos um ao outro que ninguém nos separaria. Eu sempre estaria em primeiro lugar na vida do Derek, e o Derek sempre estaria em primeiro lugar na vida da Alice. O pedido de desculpas está pendurando em minha língua. – Se bem que eu entendo. Você cresceu e eu também. Entendo de verdade, só acho inevitável não notar isso. Poderia ser eu, enfim. É, poderia ser ele com essa Lena ou com a garota que ele anda saindo. Poderia ser eu estar sendo colocada para escanteio. Não gosto disso. – Oquei, vou cancelar com o Alec. Vamos aonde hoje à noite? Ele sorri para mim e meneia a cabeça em sinal de negação. O seu olhar grita para mim: boba! – Ha-ha, melhor sair com seu namorado. Podemos sair outro dia...


Além do mais, tenho coisas para resolver mesmo. – Posso te ajudar, como antes. Como antes. Derek me abraça. – Alice, Alice, a quem estamos tentando enganar? A verdade é que a frase do Derek fica bailando em minha mente por bastante tempo. A quem estamos tentando enganar? O que ele quis dizer com isso? Será que agora é a nossa vez de dizer adeus? Resolvo deixar de lado minhas incógnitas e procuro em minha bolsa as chaves da casa do Alec. Entro. Lá dentro está tudo em perfeita ordem. Respiro o cheiro abafado da casa misturado com o perfume dele. Sem saber exatamente que diabos vim fazer aqui, vou até o quarto dele e me deito em sua cama, rindo. Pergunto-me onde ele está agora e por que faz tanto mistério de sua vida. Quero que o Alec me conte sobre ele quando assim desejar, no entanto sei que a cada dia que passa eu chego a pensar que não irei mais suportar todo esse mistério. Giro na cama e esbarro num CD com a seguinte etiqueta: Minhas Músicas. Passo o dedo na caligrafia caída do Alec e me levanto. Procuro no quarto um aparelho em que eu possa escutar essas benditas músicas. Vou até a sala e ligo o aparelho de DVD, junto com a TV. O que escuto é algo totalmente inédito. Reconheço a voz de imediato. Não é uma playlist com as músicas prediletas dele. São músicas dele gravadas por ele. Meu Deus! Fico entorpecida com a voz do Alec. Quando termino de ouvir o CD, vou até o notebook no quarto do Alec, procuro uma mídia virgem e tiro uma cópia do CD. Será que o Alec ficaria chateado se descobrisse que não só ouvi suas músicas, mas como também fiz questão de tirar uma cópia do seu CD? Vai saber. Decido que irei para o antro. Encontro um pedaço de papel e caneta e deixo um bilhete: Obrigada por ter sido maravilhoso comigo. Espero-te à noite. Sua Alice. Bato a porta. Estou suada por ter resolvido correr. Se bem que nem sei quando essa vontade de ser esportiva nasceu em mim. Como estou perto de casa, passo no mercado e compro um pote de sorvete e cauda de caramelo sem me importar se vou engordar. Afinal, perdi muitas calorias. Em meus ouvi- dos, I Kissed a Girl, da Katy Perry, explode. Saio do mercado. Dobro a esquina e avisto o Alec andando e espreguiçando o braço. Adianto os passos e pulo em suas costas fazendo-o se assustar. Ele logo ri ao notar que sou eu. Suas mãos apertam as minhas coxas para que se fixem mais ao seu corpo. Arranco os fones de ouvido e a Katy Perry continua cantando – para o além. – Por onde você esteve? – Pergunto. – Por aí, você sabe.


Não, eu não sei, Alec. Noto que a sua pele esta corada e pegajosa. Se não estou enganada, ele andou correndo também, só que as suas roupas dizem outra coisa. Quem corre de calças jeans? Ele vira o pescoço para me ver ainda montada em suas costas com a sacola de sorvete presa no pulso esquerdo. – A propósito, fui à sua casa hoje – digo, mais ele não parece se importar. – Digamos que andei com saudades de você. – Oh, quem diria! Alice Barrelin com saudades de mim? Quanta evolução! – Reviro os olhos. – O que tem na sacola? – Sorvete de bombom, gosta? – Se compartilhamos do mesmo pote, é obvio que gosto. Hum... Melhor corremos ou ele vai derreter. Ele corre comigo ainda pendurada em suas costas feito uma macaca que não aprendeu a andar. Quando chegamos ao antro, corro para o banheiro e arranco a roupa suada. Alec opta por pegar as colheres. Termino e enrolo o cabelo numa toalha. Vou de short e top para o sofá. Jogo as minhas pernas no colo do Alec que está sem camisa. – Para onde vamos hoje à noite? – Vai ter um racha de motos hoje, pensei em ir lá... Sei que a última vez não foi nada legal e deve abominar o local, só que dessa vez não permitirei que você monte. Franzo o cenho sem gostar da ideia. É obvio que nunca mais voltarei naquele lugar horrível. A lembrança daquela maldita queda ainda está presa em minha parte occipital da cabeça e lá ficará por um bom tempo. – Eu não vou. – Ah, Alice, vai ser divertido. Eu vou correr hoje. Será muito importante para mim que você esteja lá. – Sério, Alec, eu não vou. Além do mais, não consigo entender por que faz essas coisas e por que gosta desse maldito perigo! – Se fosse só a questão do gostar do perigo... Sinto-me bem lá, Alice. Toda essa adrenalina me ajuda a pensar, principalmente quando tenho um problema bem grande para resolver. Ele enfia uma colherada de sorvete na boca. – Hum, por acaso você tem um problema muito grande para resolver e que eu não saiba? Alec chupa um lado da bochecha e sei que ele está pensando a respeito. Lança uma piscadela e beija os meus lábios rapidamente. Sei que tenta mudar de assunto. O sorvete derrete da sua colher e pinga em minha barriga. Ele dilata as pupilas e rapidamente lambe a coisa gelada em minha pele, e é impossível negar a explosão de desejo que isso faz brotar em meu corpo. – Por favor, Alec, para – sussurro. Obediente, ele para. Não estou com cabeça para pensar em sexo agora quando meu namorado diz ter um grande problema para resolver. – Sinceramente, odeio quando esconde as coisas de mim. Você está com problemas, é isso? E não quer me contar... – Alice... – Roga. – Se vamos ser um casal, acho bom começar a compartilhar as coisas comigo, Alec. Eu gosto de você, de verdade. Mas às vezes a impressão que tenho é a de que estou convivendo com um desconhecido. Você não se abre, fica sempre nesse seu mundinho particular. Preciso te entender, preciso que fale comigo, que seja honesto.


Sem alternativas, ele se levanta do sofá e anda de um lado para o outro. E agora mais do que nunca sei que é uma coisa bem cabeluda e que definitivamente não posso saber. – Já te pedi, Alice, por favor. Quando chegar a hora, irei contar. Reviro os olhos. – E quando é a hora, Alec? Quando vai abrir essa maldita boca e me dizer de uma vez o que te aflige? De repente eu posso te ajudar. – A questão não é essa. Não preciso de sua ajuda. É outra coisa. – Santo Cristo! Preciso saber de uma vez. Do que você tem medo? Hum? Seja lá o que for prometo não te julgar, prometo entender... – Cala a boca, Alice! – Berra ele. – Será que não percebeu que tenho medo de te perder? Não tenho medo de ser julgado por você nem por ninguém, só tenho medo de te perder, tá legal? A esta altura do campeonato estou perdida no deserto sem saber que direção tomar. Devo aceitar o fato de que ele esconde algo de muito podre e conviver como se nada estivesse acontecendo? Ou devo confrontálo e torturá-lo até que o Alec revele de uma vez toda a sua história? Levanto do sofá e encontro um Alec transtornado. Decido ceder. Decido que isso é o melhor a fazer. Afinal, eu já não tinha aceitado o fato dele me contar quando estivesse pronto? Caminho até ele e o abraço. Seus braços não me envolvem como espero. Seu queixo aperta o alto da minha cabeça e sei lá o que sou. Só sei de uma coisa: – Estou com medo. – Murmuro. – Garanto que a única pessoa a temer nessa história toda sou eu, Alice. Eu e mais ninguém. Era uma vez uma garota idiota que se apaixonou por um lindo cara, porém muito misterioso e, por mais que ela diga a si mesmo que isso não é nem de longe nocivo, mais ela se enterra e se entrega a essa paixão. Essa garota sou eu. Decidimos que não iríamos ao racha de motos. Em vez disso, convenço o Alec a irmos ao cinema. Sei que é um programa um tanto chato, no entanto é bem melhor do que praticar algo ilícito. Estou na casa dele esperando-o terminar o banho. Varro meus olhos pela casa e pela primeira vez noto que não há porta fotos espalhados e nada que revele sobre a família dele. Começo a ficar mais intrigada com a história do cara que está separado a um cômodo de mim. – Você acha que ainda vamos achar ingresso? Esse filme pratica - mente foi o assunto mais comentado da mídia. – A gente sempre acha ingressos, Alice. Alguém sempre desiste na hora H. – Diz ele do quarto. Fico um tempo em silêncio quando o telefone cai direto para a caixa eletrônica. Bip. Oi, Alec, sei que deve estar com a agenda lotada esse fim de semana, mas será que não tem como me encaixar? Beijos, Amanda. E é claro que você se lembra de mim. Bip. Sinto-me enjoada momentaneamente. Giro a cabeça e ele está parado na soleira da porta de seu quarto. Tento processar o que acabei de ouvir. A minha cabeça dá um nó. – “Agenda lotada”? “Beijos Amanda”? “É claro que você lembra de mim”? – Digo o mais calma que consigo ser. Levanto do sofá. Não acredito que ele ainda anda saindo com as garotas. E quem diabos é Amanda? – Sou uma idiota – falo para mim. – Sou uma burra por cair no conto do vigário! – Ei, você entendeu tudo errado. É por isso que tenho medo de te dizer... – Dizer o que, Alec? – Berro. – Que você continua saindo com outras garotas? Que continua sendo o gostosão da mulherada? Que não passa de um patife que usa os sentimentos das pessoas e depois os


joga fora? De verdade, eu não sou um objeto. – Pare de tentar entender o que não sabe! – Ele grita – Deixe que eu fale, que me explique... Essa... Isso que acabou de ouvir não é nada! – Claro que não é nada. Ela é só mais uma. Ninguém é páreo para você. Oquei, conseguiu o que queria. Levou-me para cama. Agora, tchau Alec. Fico feliz por ter conseguido ganhar um bônus na aposta. Seus dedos apertam o meu braço, dominando-me. – Eu amo você, sua imbecil! – Não! – Grito – Me solta! Estou cheia disso tudo. Estou cheia dessas mulheres dando em cima de você o tempo todo, dessas trocas de olhares e dessas conversas escondidas. Chega! Cansei! Tremo e me seguro para não explodir e estapear o Alec. Faço o que posso para que o meu pavio continue longo. – Está entendo tudo errado! Resolvo dar uma chance para ele. – Oquei. Então diz para mim. Diz que não está saindo que com mais ninguém e que você é só meu como me disse. Olha nos meus olhos e diz isso, Alec. Ele até que tenta me olhar, mas logo seu olhar se desvencilha do meu e sei de suma que estou sendo enganada. Ele não me ama como diz. Essa devoção que o Alec demonstra na verdade é só uma mera encenação. Estou diante de um verdadeiro ator enquanto eu sou apenas uma aspirante que não sabe nada de nada. – Não precisa me dizer mais nada. Dou de ombros e abro a porta. Ele vem atrás de mim. – Alice... – Sussurra. Fujo. Abro o portão e ouço um grito que escapa da casa. Olho para trás só para ter certeza de que está tudo bem. Não está. Alec está batendo a cabeça com força na porta. Acho que vou desmoronar. Tenho vontade de voltar atrás. Tenho vontade de dizer que não me importo. O aperto em meu coração implora enquanto observo-o transtornado, louco. Parte de mim confirma: ele é doente. O Alec é um alguém depressivo, dessas que não aceita uma perda, que nunca teve amor de verdade e que precisa de alguém. Precisa de um amor, e está disposto a fazer qualquer coisa por isso. Choro. Choro porque essa pessoa sou eu, e eu mesma estou arrancando isso dele. Quero ser maldosa. Ele não me ama, repito para mim mesma. Escondo-me no antro e rezo para que ele não faça escândalos dessa vez.


Capítulo Dezoito Começando do zero Na manhã seguinte, quando vou à padaria, encontro o Alec com a mesma roupa de ontem sentado na porta do antro. Meu coração dispara. Não acredito que ele dormiu aqui de novo. Pergunto-me se todas as vezes em que brigarmos - se é que vai ter uma outra vez - ele dormirá na porta como um vira-lata sarnento enxotado após roubar o bife do açougueiro. Fecho a porta atrás de mim e tento fazer a linha “tô nem aí para você”. Aperto a sacola dobrada em minhas mãos e coloco os óculos de sol, o que me ajuda a causar indiferença. – Espera, Alice - ele diz e vem atrás de mim. Não paro. Em vez disso, adianto os meus passos embora eu saiba que isso é sem dúvida a coisa mais infantil que eu poderia fazer. – Por favor, me deixe explicar – continua ele. Suspiro fundo e paro. Volvo. – Sinceramente? Não quero ouvir as suas explicações. No fundo do meu âmago eu já sabia que seria difícil, que não daria certo. Vamos acabar por aqui antes que alguém saia machucado. Seremos amigos, está bom para você? – Quero ser muito mais que um amigo seu. Qual foi? Você me ama, esqueceu? Reviro os olhos. Claro que não esqueci. – Você, como um bom galinha, deveria saber que, na cama, as mulheres costumam mentir quando querem alguma coisa de verdade. Ele fica calado como quem está pensando a respeito. Oquei, acho que dessa vez peguei pesado. Vejo-o encolher, e nem mesmo sei quem sou para dizer uma coisa como essas! – Que eu me lembre, você nunca quis nada de mim. Então não tem por que mentir. – Aí que você se engana, Alec. Eu menti. Tudo o que eu queria era um cara como você para perder a virgindade. Um cara bonito, apenas. – Por que está dizendo esse monte de asneiras, Alice? Estava tudo bem entre nós, caramba! Deus! Não tenho culpa se pegou aquela chamada, se ouviu o que ouviu. As pessoas dão em cima de mim como dão em cima de você. É a coisa mais normal! É ai que me lembro do Jonathan e que tenho um ensaio agendado para hoje. Droga! Pior que ele tem razão! As pessoas dão em cima. É a lei da espécie humana. Talvez eu esteja sendo dura o bastante... Mas então o nome Amanda me vem à mente, me entorpece e me enoja pensar que ele esteja com outra quando eu posso estar fazendo sabe o que lá. É a Amada, você sabe quem é. ARGH! – Eu sei lá, Alec, estou confusa. Aquele telefonema me pareceu íntimo demais. E a voz dela, putz! Sério, eu não sei. Nunca estive em um relacionamento antes, então você aparece e eu faço tudo acontecer em minha vida com um cara cobiçado. É muita coisa para digerir. Agora, por favor, me deixe ir. Ele coça a cabeça daquele jeito sexy e irresistível e me pondero para não acabar pulando nos braços dele e dizendo que o perdoo, seja lá qual o seu crime. Aproveitando que estou de óculos, lanço um último olhar para ele. Analiso-o. Droga! Não posso sentir tanta pena dele quando a única


prejudicada sou eu. Bato em retirada e sigo para a padaria. Então essa é a pergunta que vale um bilhão de dólares: o que eu vou fazer da minha vida sem o Alec? Sei que isso pode parecer muito desesperado, mas a verdade é que eu nunca, em toda a minha vida, me senti tão apegada a uma pessoa quanto me sinto em relação ao Alec. Nunca achei que um dia poderia sentir tanta coisa por um cara quanto sinto por ele. E tenho a plena sensação de que se um dia eu fosse escolher entre tê-lo e ter a minha mãe e irmã de volta, eu ainda o escolheria. Então por que diabos eu não fico com ele de uma vez? Por que eu não esqueço esse telefonema banal? Por que você sabe que irá sofrer um dia, cedo ou tarde. Coloco a mecha de cabelo revolto atrás da orelha. Como ando com a cabeça no mundo da lua, acabei esquecendo-se de dizer que hoje, final- mente, é o meu teste! Parte de mim está feliz por ocupar a minha cabeça com alguma coisa que não seja o fim do meu relacionamento o qual teve fim no início da aventura. Como o Titanic que afundou no Oceano Atlân- tico... Calço o meu Sneaker e apanho uma maçã em cima da fruteira antes de sair de casa. Como não quero mais ocupar o Derek com os meus devaneios, chamo um motoboy, muito embora o Jonathan tenha dito um milhão de vezes que iria me buscar, se assim eu quisesse. É claro que isso é uma atitude muito educada de sua parte, mas algo dentro de mim se revira com a ideia de que, caso ele banque o meu motorista particular, mais tarde terei que lidar com problemas sérios e, modéstia à parte, todo mundo sabe a facilidade que eu tenho de carregar problemas para casa. Fala sério, não preciso de mais um! Pago pela corrida e migro para o interior do teatro. Não está lotado como no meu primeiro e desastrado teste, no entanto já posso ouvir vozes, murmúrios e risos assim que atravesso uma porta estreita, já que as entradas principais estão fechadas. Meu coração dá pulos de Mortal Kombat ao imaginar que o meu sonho está prestes a se concretizar. A qualquer momento posso me tornar uma atriz de verdade! É por isso que resolvo dar o melhor de mim. Desligo o celular para evitar pequenos infortúnios. Não quero receber uma ligação desnecessária. Sento-me em uma das poltronas perto do palco e os meus olhos varrem o local à procura do Jonathan. Parece ainda não ter chegado. Observo os casais conversando amigavelmente, mas é impossível não notar seus ares de competitividade presos em seus lábios forçando sorrisos. Percebo que não estou nervosa, embora desejasse muito estar. Uma voz ao microfone diz que faltam dez minutos para os testes começarem. Resolvo ir até o banheiro retocar a minha maquiagem. Já dentro do toalete, penteio o meu cabelo com os dedos e chego à conclusão de que eu deveria ter me arrumado mais, sei lá, para causar uma boa impressão coisa e tal. Uma garota loira sai das cabines e faz biquinhos em frente ao espelho e é claro que acho isso ridículo. – Você é a vadia que foi abandonada pela mãe, certo? Limito-me em não escancarar a boca. Olho para a garota. Lembrome dela. Natália. Sua história de vida não é muito comovente, muito menos algo que um dia possa estar nos tabloides. – Olha quem fala. – Literalmente, macaco não olha para o rabo. – Se for comparar, não sou eu quem está vestida como uma vadia. Mas se isso responde a sua pergunta, sim, sou eu. Ela leva o dedo indicador até a boca e faz cara de nojo. – Fique sabendo que não engoli a sua história. Acho, de verdade, que você resolveu dar um drama só para poder ser escolhida. Reviro os olhos e resolvo ignorar a garota. Afinal, quem é ela no jogo do bicho? Retoco o meu batom


meretriz. – Boa sorte para você, vadia. Irá precisar – digo. Saio do banheiro e migro pelo corredor em direção ao auditório. Meus pensamentos se perdem. Onde estará o Alec agora? Inspiro. Espiro. Inspiro. Espiro. Avisto o Jonathan consternado em uma apostila presa entre suas mãos. Paro por um momento e o admiro. Ele é lindo. Sexy também. Pergunto a mim mesma por que não me apaixonei por ele. Por que o Jonathan não apareceu na minha vida antes do Alec? Por que fui me apaixonar por um cara tão complicado? Seria esse o momento de oferecer uma chance ao Jonathan? Seus olhos voam das páginas e pairam em mim por um segundo. Depois volta para as páginas, e no mesmo instante para mim. Ali um sorriso nasce tão magicamente grandioso! Sento-me na poltrona vazia ao lado dele quando recebo um beijo próximo aos lábios. – Nervoso? – Pergunto. – Pra caralho. – Ele meneia a cabeça em um sinal de concordância. – Acho que não vou conseguir, enfim. – Fala sério. Como não? Você está apenas sendo modesto. Afinal, quem foi o primeiro colocado no primeiro teste? – Mesmo assim, não estou preparado. Hum, se quer mesmo saber, só ensaiei aqueles scripts com você. Fora isso, nada. A verdade é que eu não ensaiei muita coisa, no entanto resolvo omitir essa parte da história. – E por que não? – Por que passei esses dias ouvindo as lamúrias do meu amigo garoto de programa que incrivelmente se apaixonou por uma garota. Acho que já te falei dele, certo? Acho que sim, por isso confirmo... Não estou com cabeça para recor- dar dessas coisas agora. Preciso muito focar na minha apresentação hoje. É tudo o que me importa agora – acho. – Bem, pegando um atalho, como eu disse, ele se apaixonou por uma garota qualquer aí e, pelos relatos, ela parecia estar apaixonada por ele também, muito embora tenha terminado com ele... Ele sabe que não é para ela, na verdade ele é que não para nenhuma garota. Mas o que fazer quando se apaixona por alguém? – Ela sabe que ele é um garoto de programa? – Não. Pelo menos não até onde eu sei. – Estranho – faço uma careta. – Para ser sincera, não me imagino namorando um garoto de programa, muito menos sem saber que ele é um garoto de programa. Complicado demais para o meu gosto. – Sério mesmo? – Aham. – Eu não sou um garoto de programa, se quer saber... Então, o que acha? Por favor, Alice, nem sei mais o que dizer. O que você quer que eu faça para aceitar o fato de que gosto de você de verdade? Droga! Lá estamos nós navegando naquele mesmo barco. Achei que não tocaríamos mais neste assunto tão cedo. E aqui está o Jonathan, insistindo... Insistindo para que tenhamos algo... Algo... – Sou eu quem te peço. Por favor – solto o ar –, por favor, pare. Está me sufocando com isso. Eu gosto de você, só não gosto de você do jeito que você quer. É complicado demais assim de entender? – Saiba que eu nunca me humilhei tanto para ter uma garota quanto estou parecendo me humilhar para ter você. E acredite, Alice, se estou fazendo isso, é por que sinto que podemos ter algo de verdade, que podemos ser feliz juntos. – Pare, Jonathan! – Berro. – Não me faça desistir do meu sonho por isso. – Abaixo a voz quando percebo os olhares fixos em nós.


Jogo-me na poltrona totalmente. – Bravo! – Grita o diretor. – Como sempre dando um show, hein, garota? Qual o seu nome mesmo? Levo um tempo para processar a ideia de que ele está falando comigo. Oh, minha rainha dos baixinhos cale a boca! – Ah, Alice. – Como a do País das Maravilhas? – Tão boa quanto! – Murmuro e esboço um sorriso convincente. Não faço ideia se a Mary Jane teve um momento de distração com o diretor, mas tenho certeza que ela não queria estar no meu lugar, muito menos ter dito o que eu disse. Posso sentir os olhares em cima de mim... – Já que se sente assim confiante, que tal começar por você? Vamos lá, onde está o seu Lucas? Levanto-me e ergo uma das minhas mãos em direção ao Jonathan que se ergue com um sorriso sem graça enquanto eu me sinto a bruxa do João e Maria pelas coisas que eu disse para ele. Por que tudo tem que ser complicado para mim? – Oh, é um lindo casal! – Exclama o diretor. Deambulamos pelas poltronas, passamos pelos nossos concorrentes e subimos no palco. Diferente do que eu imaginava, o mundo não fica em silêncio quando me posiciono no palco. Ouço o farfalhar de alguma coisa, os passos de alguém chegando na minha pequena plateia, murmúrios e... – Quando quiserem. Quando quiserem! Procuro em mim uma Julieta adormecida. Grito para ser a Mama Mia e invoco a minha Alice. Onde estão vocês? Onde, lindas meninas? Afasto-me do Jonathan e respiro fundo. Esse é o meu momento. Onde está a música? Onde estão as palavras? E a minha voz? Fico desesperada e as lágrimas me ardem os olhos... Mas tudo isso faz parte do grande show! – Eu preciso ir, Lucas. Cheguei à conclusão de que não podemos ficar juntos. Eu não pertenço ao seu mundo, assim como você não pertence ao meu! Fui uma boba em acreditar em tudo o que me disse! – Por favor, Júlia, você tem que acreditar em mim! Tudo isso...– As palavras desaparecem da boca dele enquanto o Jonathan se aproxima de mim, toca o meu ombro e mostra toda a sua dor. – Tudo isso não foi men- tira! Construímos um amor lindo, não foi? – Não! Não! Claro que não! Foi tudo uma mentira! Eu acreditei... Acreditei até descobrir que sempre mentiu para mim e quando eu te vi com aquela garota! Deus, eu quis morrer! Tem noção do quanto isso dói? As lágrimas se rompem em meu rosto e o Jonathan também está chorando. Não sei como ele fez para conseguir chorar simplesmente... Eu, bem, eu só consigo pensar no cara que dormiu na porta da minha casa. É por ele que choro, não pela dor da Júlia, muito menos pelo Lucas. – Eu te amo, Júlia! As mãos do Jonathan apertam as minhas costas, arqueia o meu corpo e sinto a sua respiração retumbar em meu rosto. Quero me embebedar do seu hálito por um segundo que não me é certo. – Não insista em algo que não dá para ser. Você me feriu da pior maneira! – Pare de fazer com que só você pareça estar sofrendo mais do que eu! – Ele berra e sacode o meu corpo. – Eu estou sofrendo por que a ideia de te ver partir é o mesmo que viver mil anos em um deserto sem esperan- ça, sem nada... Sem você. Só te peço mais uma chance, Júlia. Uma chance de te provar o quanto te amo, Alice !


Franzo o cenho na tentativa de lhe dizer que ele errou o nome. Não é Alice, é Júlia, poxa! – Eu já te dei todas as chances do mundo! Como... Como no dia em que você quebrou o meu coração pela primeira vez. Ele me abraça, mas meus braços continuam imóveis. Duas coisas imóveis. Estou atordoada por que, hum, não sei se esse é o Jonathan ou o Lucas, nem se eu sou a Alice ou a Júlia! – Por favor! – Ele suplica. Seu rosto molhado desliza pelo meu e sinto rapidamente a pele áspera do rosto dele fustigar o meu antes dos nossos lábios se tocarem. E beijo o Jonathan... Não, a Júlia beija o Lucas. Aqui não tem nada de beijo técnico, pois sinto a minha língua brigar com a do Jonathan como duas cobras najas. Desconecto-me do beijo por que isso não é nenhum pouco teatral. Ele me olha nos olhos e ficamos assim por um bom tempo até ele dizer as palavras que nos tira do transe. – Por favor, não vá – ele repete a ladainha. – Acredite quando digo que estou fazendo isso mais por você do que por mim. Eu te amo, Lucas, mas algumas pessoas, embora todo o amor do mundo inteiro, não foram destinadas a viver esse amor. E assim, como num filme romântico, lentamente me desvencilho de suas mãos e caminho de costas enquanto navego em lágrimas num choro falso que faz o meu abdômen tremer... Até que sorrio e a nossa cena acaba. Limpo as lágrimas. Ouço assovios. Palmas. Eu consegui! De verdade, não preciso dizer quem levou os papeis de protagonista na peça. É claro que foi o Jonathan e eu. Se bem que eu ainda não engoli aquela história dele ter trocado os nomes. Preferi não mencionar o erro quando saímos do teatro, agora com o objetivo de ensaiar a peça na íntegra. Em um mês eu estarei no palco sendo uma atriz de verdade como sempre sonhei. Não deixei que o Jonathan me trouxesse em casa. Em vez disso, peguei um ônibus e, de quebra, briguei com o motorista que não quis levar um passageiro cadeirante só por que estava com preguiça de abaixar o elevador do ônibus, como se não fosse sua obrigação e como se também o cadeirante não tivesse os mesmos direitos que o restante. Quando estou na esquina de casa, sob a noite escura, olho instintivamente para a casa do Alec. Está escura. Eu ainda estou com a chave da casa dele, mas esqueço a ideia de invadir seu recinto e ficar lá por um segundo com medo de ser pega. Ao passo de que vou me aproximando, vejo um corpo caído e gemendo no portão da casa do Alec. Diminuo os meus passos assustada e com medo de que seja um daqueles assaltos em que o meliante finge passar mal e, quando o idiota resolve ajudar, ele mete uma arma em sua cabeça... Só que, a maneira como ele geme e meche o corpo faz com que meu coração fique pequeno do tamanho de uma uva-passa. Aminha mente grita. Eu o conheço. É ele. É o Alec. Corro até o corpo caído e me jogo no chão sem me importar com as dores que tomam o meu joelho. Meu cabelo desliza pelo rosto e eu o ponho atrás da orelha com agressividade. Viro o corpo do Alec e faço com que seu rosto se repouse em meu colo, o que acaba por manchar as minhas pernas com sangue. – Deus, o que fizeram com você, Alec? Seus olhos se abrem, quer dizer, a não ser pelo olho direito que está pequeno de tão inchado. A criatura bela que eu sempre tive dele agora é o desenho monstruoso do tamanho do monstro que fez isso com ele. Começo a chorar. Ele sorri para mim com seus dentes manchados de sangue, o lábio inferior partido. Estou zonza.


– Alec, fala comigo! – Eu... Eu estou bem. Tive que me conter para não começar a rir. Afinal, ele não está nada bem! Que mania estranha é essa das pessoas dizerem que está bem quando na verdade é puro caco e dor? Tento erguer o seu corpo, mas é uma tentativa inútil. Não sou a incrível Hulk nem aqui nem na china. – Você consegue se levantar? Ele não responde. Coloco sua cabeça com cuidado novamente no chão e ando de um lado para o outro, desesperada. Ninguém passa na rua. Não tem ninguém para ajudar. Talvez fosse melhor Jonathan o ter vindo comigo, só que agora é tarde demais para voltar atrás. Reprimo a vontade que tenho de começar a gritar por ajuda. Procuro em minha bolsa a chave de sua casa e abro o cadeado, depois as portas da frente. Onde está o carro dele? Oh, meu Deus! Será que preciso ligar para uma ambulância? Ele está totalmente mutilado. Volto para o Alec. – Alec, você consegue se levantar? Ele geme. Pergunta idiota, tolerância zero! Quem foi que disse isso mesmo? Vai saber. Agacho-me no chão outra vez e coloco um musculoso braço entre o meu ombro e sinto o peso de uma tonelada em minhas costas. As minhas pernas parecem querer fraquejar ao mesmo tempo em que me ergo aos poucos. Ele faz um esforço para que eu não fique sobrecarregada. Posso sentir o alívio quando damos um passo de cada vez. Os passos mais lentos de toda a minha vida! Desabo no sofá junto ao Alec e respiro um pouco antes de atirar a minha bolsa no chão e voltar a se erguer. – Onde ficam os remédios? – Pergunto. – Acaixa de primeiros socor- ros, qualquer coisa... Reviro os olhos que, graças a Deus, pararam de vazar água, embora eu ainda sinta um caroço crescer em minha garganta toda vez que avisto a criatura destruída. Procuro na cozinha, na sala e nada. Vou até o quarto dele e encontro a caixa na primeira prateleira do banheiro de seu quarto. Encontro dentro da caixa o Tylenol em comprimido e tiro dois da cartela. Apanho um copo d’água e faço com que ele ingira aquela coisa amarga que lhe fará muito bem. Depois, vou até o banheiro e ligo a banheira. Sinceramente, não dá para fazer curativo no Alec todo melecado de suor e sangue, dá? Volto para a sala. Ele me olha e eu o olho. Como o amo! Tiro o seu tênis devagar, e depois a meia. Puxo a barra de sua camisa ensanguentada e a tiro pela cabeça fazendo-o arfar. Desabotoo a sua calça jeans e escorro pelas suas pernas bem devagar. Se bem que parece a atividade mais difícil de todos os tempos, pois o jeans de repente dava a leve alusão de ter aderido às pernas saradas dele. Oquei! É claro que tiro a sua cueca box e, para ser honesta, nem me importei se ele estava ou não nu em minha frente. – Tudo bem Alice, eu... Eu sou durão. Deixo para lá aquele pequeno comentário e o ajudo a ir até o banheiro guiando-o, cambaleando, arfando. Coloco-o na banheira e o Alec faz uma careta ao sentir a dor que a água proporciona aos seus ferimentos. Lavo o seu rosto, molho o seu cabelo e faço com que ele gargareje a água quente. Esfrego devagar o seu corpo. Quando terminamos, apanho o roupão pendurado em uma alça e ajudo-o vestir deixando molhar metade com a água da banheira. Vamos para o quarto e cuido dos curativos. A coisa está mesmo feia. Tem uma marca rocha em seu abdômen e um corte em seu braço parecendo ter sido provocado por uma faca. Seu olho esquerdo está roxo e inchado. Também há um corte em sua testa e outro no peito. Ajudo-o a vestir a cueca.


Alec cobre o rosto com o antebraço e começa a chorar. Paraliso. Só consigo observar o ruído que escapa dele. Estou sem saber o que fazer. Totalmente desarmada. – O que foi, Alec? Essa é a pergunta mais óbvia. – Eu não estou sendo honesto com você, Alice. – Também não estou sendo honesta com você, se quer saber – digo referindo-me ao fato de não querê-lo como homem, como meu. – Por que está fazendo isso por mim? – Por que tenho certeza de que você faria isso por mim, não é? Como no dia em que sofri aquele terrível acidente de moto, lembra? Você cuidou de mim. Agora é a minha vez de cuidar de você. – Ninguém nunca cuidou de mim. – Não sei se acredito – sorrio. – Agora você precisa descansar. Junto os algodões, gases e afins melados de sangue e enfio dentro de um saco plástico. Estou destruída de dentro para fora. Antes de sair do quarto, cubro o Alec. – Você vai embora? – Ele pergunta. Sei que ele quer que eu fique. Sei que quero ficar independente das nossas brigas mesquinhas. – Vou só tomar um banho. Se não se importar, pegarei uma de suas camisas e uma cueca – sorrio. Ele não responde, porém exibe um daqueles sorrisos que me derrota. Migro para o banheiro e me observo no espelho. Imagino que, seja lá qual for o segredo do Alec, não é algo fácil para ele, assim como ele não demonstra ter tido uma vida maravilhosa no passado. Quando termino o banho, vou para o quarto e me aconchego em sua cama. Enfio as minhas pernas no cobertor fazendo o máximo para não to- car no Alec, pois não quero acabar machucando algum lugar dolorido ou já machucado. Alec ainda está acordado. – Vai me contar o que aconteceu? – Eu briguei com quatro caras. – E você diz assim? Na maior naturalidade como se fosse comum um cara brigar contra quatro? – Por Deus, Alice, não quero falar sobre isso. Que tal amanhã? – Para variar. Algum dia acha que vai querer responder às minhas perguntas? Estou começando a achar que não. Sem respostas, acabo que aceito as condições. Tamborilo os dedos no edredom e lembro-me do CD com as músicas do Alec. Será que algum momento passou pela sua cabeça que eu as escutei? – Aquelas coisas que você disse não são totalmente verdades, são? – Ele me olha com uma criança chorona. Rendo-me. – Foram parcialmente verdades. Está bom para você? – Parece legal, por enquanto. É bom saber que não me odeia. Tive uma noite de insônia ao cogitar não dormir mais ao seu lado. Como cheguei a pensar a mesma coisa, forço-me a ficar calada. Acho que é legal manter a indiferença. Não é por que ele está todo arrebentado que vou bancar a garota boazinha. – Acha que podemos recomeçar do zero? – Acho que você está indo rápido demais, Alec. O fato de eu dormir aqui é, digamos assim, um paliativo em nossa estranha relação. Ele meneia a cabeça e desliza pelo colchão. Aproxima-se de mim. Ou é alucinação, ou não sei o que é aquele calor que sinto irradiar do seu corpo para o meu, e vice-versa. Uma troca.


Então Alec deita a sua cabeça em minha barriga e nem sei o que fazer. Por um momento só me sinto perdida em um mundo onde só existe ele e eu. Depois, automaticamente, levo a minha mão até o seu cabelo e lhe faço cafuné. – Eu gosto de você, Alice. Lambo os lábios, assustada. O amor me assunta. – Que bom, porque acho que isso é um recomeço. – Digo por fim.


- Terceiro Round A vida é curta, não importa quantos dias você tenha. E as pessoas são preciosas, cada uma delas, não importa quantas você tenha a sorte de ter na sua vida. E o amor… Vale a pena morrer por ele. E viver também. — J. R. Ward, Amante Renascido


Capítulo Dezenove Surpresa inesperada Acabo de sair da Clínica onde trabalho. Ainda não tenho previsão para voltar a exercer minha função administrativa. Passo pelo estacionamento abarrotado de carros e coloco os meus óculos de Sol. Arrependo-me por estar usando um vestido longo, porém leve. Estou derretendo de calor. Recebo uma mensagem do Derek, a qual diz: Precisamos conversar, me encontre no La Pasta. Penso um pouco e procuro em minha mente algum compromisso a ser cancelado. Afinal, preciso muito dar um pouco de atenção ao meu melhor amigo. Assim que chego ao La Pasta apanho um guardanapo de papel e limpo a fina camada de suor em meu rosto, completamente grata pela ven- tilação oferecida pelo pequeno restaurante que nos presenteia com melhor macarrão do mundo – incluindo a Itália. Talvez eu mude de ideia algum dia. Encontro o Derek sentado em nossa mesa de sempre. Uma garrafa de água com gás está em cima do tampo, assim como um copo com gelo. Sorrio quando ele me encontra em meio às mesas. Cumprimento-o com um beijo castro nos lábios e me sento em uma cadeira defronte a ele. – Meretriz, você está aqui! – Ele murmura, mas não é nem de longe alegre como nas outras vezes. – Tecnicamente, não tive outra escolha. – Desfaço o sorriso. – Você está bem? Oquei, eu sei que essa é uma pergunta bem tola e que, quando se pergunta “você está bem”, não queremos receber uma resposta de verdade. Bem, agora eu quero receber uma resposta de verdade. – Sim, quer dizer, acho que sim. – Só não me diga que o mundo vai acabar amanhã, por favor! – Derek nem de longe ri com a minha piada medíocre. Ele vai direto ao ponto. – A Lena está namorando. Seguro as suas mãos em cima da mesa e é impossível segurar as palavras. Acabado dizendo um pouco alto demais: – Aquela vaca! Derek franze o cenho para mim. – Desculpa, sério, não vai querer defendê-la agora, vai? Por que se for... – Oquei, Alice. No fim das contas a gente já sabia que esse dramal- hão idiota iria acabar assim. Bem, talvez eu já soubesse. Aquelas respostas evasivas, aqueles pedidos de saideiras nunca cedidos, aquela conversa cara a cara nunca trocada, aquelas declarações via Facebook que, por mais que ela dissesse em comentários ficar emocionada, nunca, literalmente, a emocionara. Nunca a tocara de verdade! Diabos! Como eu a odeio para sempre! – Sabe, Derek, tenho certeza de que a Lena nunca te mereceu. Você acha que ela era muita areia para o seu caminhãozinho, mas foi você, sempre foi você, maior do que ela. Ela não te merece, cara. – Está dizendo isso só para me consolar. No entanto, nessa história toda o único idiota fui eu. Eu gosto dela de verdade, Alice. Não sei como isso é possível. Não sei como uma pessoa pode gostar de outra assim, do nada. Mas eu nunca menti, entende? Nunca. – Acredito em você, Derek, e é verdade. O único idiota foi você. – Eu escrevia um bilhete para ela todos os dias, eu pensava nela mais do que desejava, eu... Puft! Eu


comprava roupa pensando num lugar para poder levá-la. Planejei uma surpresa de aniversário e agora... Agora nada disso adianta, e você pode me chamar de gay ou do que quiser. A verdade é que eu não tinha vergonha de fazer, de pensar, de cogitar todas essas coisas. Meus olhos ardem. Ardem tanto que acho que vou chorar. Não quero sentir pena do Derek, porém minha garganta se fecha e meu coração diminui. Ele não tem culpa. A Lena tem culpa. Culpa por não ter tido coragem de dizer que não o amava, que nunca ia rolar nada entre eles. Pelo contrário, ela – em meu ponto de vista – sempre alimentou a esperança dele. E agora, o que ela fez? Estou surtando. Sinto raiva de mim mesma por ter desistido de lutar pelo Derek, por ter desistido de dizer constantemente que a Lena não era para ele. Em vez disso, me enfiei em uma concha com medo dele me ferir, de dizer as verdades que eu também persisto em não querer ouvir e sei, tão certo como o Sol que irá surgir amanhã, que também quebrarei a cara. – Isso não é gay, Derek... Pode até parecer para os leigos, para quem não sabe que é um alguém sem preço, que nada paga o amor que você tem aí dentro. Acho isso lindo. Digo isso do fundo do meu coração. Queria que um dia algum cara fizesse isso por mim. Queria que o Alec fizesse isso por mim. Mas o foco da conversa aqui não é Alec, e sim o Derek e a sua desilusão amorosa. – Quer que eu tenha uma conversa com ela? Que a soque? Que diga que ela é uma perdedora e uma tremenda de uma vaca? – Sem grandes dramas, Alice. – Por você eu faria isso. – Eu sei disso, porém sem espancamentos, por favor. Hum, se bem que eu te invejo. Queria sentir esse ódio todo por ela. Queria muito, mas não consigo. Não consigo odiá-la, entende? Quero que ela seja feliz com esse cara. – Então, quer saber o nome disso? Ele concorda com um sorriso sem graça. – Isso se chama amor, Derek, amor verdadeiro. Só agora eu entendo que você sempre a amou. Eu queria que a Lena soubesse disso, só um pouquinho. Que nada foi um blefe. Uma lágrima escorre do meu rosto e sorrio para ele com a lembrança de algo que ouvi outro dia. Decido dizer-lhe. – Sabe, um dia desses eu ouvi que, quando algo é seu de verdade, esse algo acaba que voltando. Pode passar uma semana, dois meses, três anos, um século, mas volta. O que quero dizer é que, se a Lena for sua de verdade, se vocês estiverem predestinados a ficarem juntos, então ela volta, Derek. Quem sabe esse relacionamento dela com esse cara não seja apenas um teste? Um teste para os dois? – Alice, tem noção do que está dizendo? – Sim, tenho. Estou, de uma forma estranha, tentando te dizer pra não desistir. Você a ama, Derek, e se esperou todo este tempo, qual o problema de esperar um pouco mais? Jesus, o que eu estou dizendo? Sei que não estou mentindo... Mas será que estou lhe oferecendo falsas esperanças? Acrescento: – É claro que quero que conheça outras garotas... Como naquele filme Ironias do Amor, lembra? O cara conheceu várias mulheres, mas no fim nós já sabíamos com quem ele ia acabar: com a mocinha. Mas, quem sabe, você não acaba conhecendo uma garota legal? Hum? Agarre-se a isso. Eu sei que nem de longe sou uma boa conselheira, mas é o que tenho para te oferecer hoje... Onde está aquela garota que você anda saindo? – Não deu certo. – Ele sorri para mim. - Você é uma péssima psicóloga. Agora vamos comer logo.


Estou morrendo de fome. Quando terminamos de comer nosso macarrão ao molho branco, compramos um pote de sorvete e o partilhamos ali mesmo, como nos velhos tempos. Até o Derek pensar alto. – Será que um dia eu vou encontrar alguém que não parta o meu coração? Que seja minha? – Claro que vai! Assim como vai se casar com ela, comprar uma casa, um cachorro, ter filhos e plantar uma árvore. Finalmente consigo arrancar um sorriso do rosto dele. Um sorriso lindo. – Só sei que se eu não arranjar uma garota, eu perdi a minha noiva de infância. Afinal, ela já encontrou seu cara. Aprendi a ler nas entrelinhas rápido demais e sei que o Derek está falando do meu pedido de casamento de anos atrás. Ele está retrocedendo a nossa promessa de um dia nos casarmos caso não acharmos ninguém. E ele também quer falar sobre o Alec e o nosso estranho relacionamento. – Bem, quem sabe? Acho que a promessa ainda está de pé. – Por quê? Seu namoro com o Alec escorreu pelo ralo também? Quem lástima essa nossa vida! – Ele está sendo irônico. E é a minha vez de ficar emotiva pela minha medíocre vida. – Você estava certo, o Alec não presta. Quer dizer, ele não fez nada de errado até então. A questão sou eu. Não gosto de toda a atenção que ele recebe mesmo involuntariamente. Ele é bonito, embora não seja narcisista. Mas as pessoas dão em cima dele descaradamente, e digo os homens também. Outro dia ouvi uma mensagem na sua secretaria eletrônica de uma tal de Amanda. – Daí você tocou o barraco? – Sim. Então terminamos. Quer dizer, eu terminei porque, sinceramente não sei se quero isso para mim. É um desastre se apaixonar por um cara bonito. Honestamente, prefiro que sejamos amigos. – Por enquanto...? – É, por enquanto. Sinceridade? O que quero de verdade é poder estar com o Alec, sempre. – Foi legal conversar com você, Alice, já estava sentindo falta. Mas agora tenho que ir. O meu horário de almoço acabou. – Pode passar lá no antro hoje à noite? – Acho que sim, veremos. Quando eu sai de casa, copiei as músicas do Alec e as coloquei em meu celular para poder escutar depois. E é o que estou fazendo agora. Sei que não deveria andar por ai com fones de ouvido, ainda mais se levar em conta a minha experiência devastadora na última vez em que fui assaltada. Mesmo assim o fato de ouvir a voz do meu amado Alec é maior do que qualquer coisa. Aproveito e compro alguns filmes de romance. Preciso, desesperada - mente, de um pouco de alívio para a minha mente perturbada, ainda mais que as provas finais estão se aproximando. Chego ao antro o mais depressa que consigo. Assim que fecho a porta, jogo a bolsa e as sacolas no chão e arranco o vestido pela cabeça. Ando de calcinha e sutiã até o quarto e procuro por uma roupa fresca. Acabo encontrando uma camisa do Alec que, ironicamente, ainda tem o seu cheiro. Digo, seu cheiro de verdade, e não a fragrância barata do mais caro perfume. Suspiro e visto a camisa. Vou até a cozinha e despejo a leite condensado na panela, assim como o


chocolate em pó e um pouco de manteiga. Preciso de brigadeiro, ainda mais por que irei assistir a Um Amor Pra Re- cordar, muito embora já tenha assistido na TV a cabo da casa do Derek. Antes que o filme comece e eu me aconchegue no sofá, ouço batidas na porta. Decido ignorar. Aperto o play e adianto a propaganda de pirataria e os trailers. Mais batidas. Quem, em nome de Deus, resolveu perturbar a minha paz? Agora eu só queria ver duas pessoas: o Derek ou o Alec. Os dois tem a chave dessa bosta! Mais batidas. Coloco a panela de brigadeiro no chão e levanto-me do sofá sem me lembrar de pausar o filme. Ajeito a calcinha e a blusa e arrependo-me de não ter vestido nem que seja um short velho. Agora as minhas pernas estão de fora. – Quem é? O olho mágico está embaçado. Ótimo. Decido abrir a porta. Levo a mão até a maçaneta e giro. Puxoa e dou um passo para o lado quando... JESUS, CALE A BOCA! Estou parada do outro lado da porta segurando uma bolsa. Visto um vestido colorido e chique. Tenho grossas batatas. Meu cabelo está maior pelo menos um palmo. Estou usando um batom rosa choque e as minhas bochechas são levemente rechonchudas. A minha cara de espanto é notável e os meus olhos olham para mim mesma da cabeça aos pés. Na verdade, não sou eu. É uma cópia de mim mesma parada diante de mim com uns vinte quilos a mais do que eu. Eu posso estar enganada. Estou louca. No entanto o meu ser grita o nome dela. Belle. Minha irmã Belle. Desabo no chão como uma jaca podre cai do pé. O meu sonho dura o bastante para que eu ouça uma voz conhecida chamar meu nome. Esta voz está longe e sinto espasmos atingirem o meu rosto conforme a voz ganha consistência, assim como os tapas em meu rosto. Atordoada, abro os olhos, dilato as pupilas e encontro o rosto do Alec tão perto do meu que, no choque, acabo atingindo o seu rosto com um bem dado tapa que estrala e faz a minha mão arder. Ele grunhi e leva as mão automaticamente ao lugar onde deve arder. – Qual foi?! – Ele berra – Precisava me agredir? Os ferimentos daquela noite em que ele dissera ter sido agredido por uns caras são agora pequenas manchas. Afinal, já se passaram dias e mesmo assim ele evitou me contar na íntegra o que de fato aconteceu. – Desculpa! Acho que estou ficando louca, Alec. – Confesso. – Você não está louca, Alice – ele diz. Levanto-me apressada do sofá onde fui colocada supostamente pelo Alec e volvo loucamente para a criatura que sorri para mim em seu vestido G. É impossível acreditar no que vejo. É surreal! Completamente impossível! Franzo o cenho e digo a mim mesma para não desmaiar outra vez. Devagar, um passo de cada vez, caminho até a garota. Caminho até o meu eu acolchoada. Mais uma


vez a minha mente grita o seu nome e tremo tanto que tenho medo das minhas pernas cederem e eu acabar caindo no chão. – Que diabos tá acontecendo aqui? – Sussurro. De repente aquele corpo sorridente, cujo rosto é quase idêntico ao meu, se torna uma bomba. Meus dedos se movem lentamente em minhas mãos e meus olhos tremulam. Ardem. – Alice... Ela pronuncia o meu nome. Cinco letras. Voz doce. Ela também está emocionada. Minha mente grita de novo o nome dela, e dessa vez digo em voz alta. – Belle? Belle. Ela concorda com a cabeça. Estou perto o bastante para sentir o seu perfume adocicado que emana do vestido colorido. Tento raciocinar alguma coisa. Quem sabe até uma piada barata para aliviar a tensão? Mas nada acontece. Sou três pontos presos entre dois parênteses anunciando o fim do parágrafo sem explicação. Nada de íntegra. Respiro fundo. Será que isso é verdade? É tudo fruto de um sonho? – Vocês podem, por favor, se abraçarem de uma vez? – Diz o Alec. Isso. Pelo menos penso ter ouvido ele dizer isso. Por fim, sem som- bras de dúvidas, eu a abraço e ela me abraça. Nós nos abraçamos, e logo sons agudos, roucos e ferozes escapam de dentro do meu peito. Do peito dela. É tudo muito abstrato e surreal, se querem saber. Aperto minhas mãos no corpo que me abraça. Afasto-me, aperto seu rosto até que eu fique estrábica. É tudo real. A Belle está aqui, comigo. Outra vez. Suspiro aliviada, perdida. Alguém me diga o que fazer? – Belle, é você de verdade? – Ela concorda com a cabeça, chora. – Por tudo que é mais sagrado, diz que isso é verdade! – Nem sabe o quanto senti a sua falta, Alice. Uma hora depois que senti estar calma, Belle me contou. Tudo. Tudo o que eu quis saber. Todas as respostas como num passe de mágica estavam disponíveis para mim. Quando fui abandonada, Belle contou que naquele dia ela e a minha mãe pegaram um táxi na madrugada fria e foram para a rodoviária, onde lá se encontram com um cara que a nossa mãe beijou nos lábios. De lá eles foram juntos em um ônibus até o aeroporto onde pegaram um avião para o Rio de Janeiro. Meses depois a minha querida mãe se casou com esse cara, um milionário chamado Cristiano. Belle contou que Cristiano era um bom homem, porém um tanto velho para a nossa mãe, Cloe, que no início não gostava dela. A coisa toda é bem simples e um tanto clichê. Agora entendo. A minha mãe só queria uma vida melhor. Uma vida de luxo. Toda aquela sua capa de boa samaritana era só uma capa mesmo. Perguntei, enfim, por que eu fui abandonada. A resposta foi: – Cristiano disse que Cloe só poderia levar uma de suas filhas. De repente ela se viu divida e optou por mim. – Não sinto o tom glorioso em sua voz por ser a queridinha. Em vez disso, ouço e vejo o medo na voz de Belle. – Desculpe, Alice. Balanço a cabeça devagar para lhe dizer que de nada ela tem culpa. No fundo, no fundo eu já sabia que a história era assim. – Ela me disse que você era mais forte do que eu. Foi o que sempre me disse. – Me disseram algo semelhante.


Limpo a garganta porque dispenso a pena das pessoas, principalmente de Belle. Olho para o Alec fingindo ler uma revista e volto minha atenção para a minha irmã. – Nunca me senti forte o bastante, acredite – murmuro. Mais para mim do que para ela. – E por que nunca me procurou? Tem noção de como eu fiquei? – Para ser sincera, não tenho uma noção de como você ficou. Se deve bem lembrar, nunca fui inteligente o bastante. Não como você. Também não nego ser grata por ter sido a escolhida conforme fui crescendo. Suas mãos apertam a minha com tanta força que chego a pensar que meus dedos vão rachar um a um. – Cristiano, apesar de ser uma boa pessoa, odiava casa cheia, barulhos e etc. Certo dia eu perguntei por você. Perguntei por que você não vinha morar conosco, e a minha mãe, quero dizer, a nossa mãe, disse que se você fosse morar com a gente, então seríamos colocadas para fora de casa. Seríamos obrigadas a morar na rua. “A partir daí comecei a ouvir essa ladainha pelo menos umas três vezes por semana. Fico envergonhada de dizer isso, mas fui me acostumando aos presentes caros, dentre outras coisas e que, pouco a pouco, você se tornou só uma lembrança em minha mente, em meu coração.” A vontade que tenho é de socar a Belle, pode apostar. Enquanto ela me esquecia por conta de presentes e uma vida de luxo, eu fui obrigada a conviver com os meus medos, sem uma família e com a certeza de um futuro incerto sem nunca, um dia se quer, deixar de pensar nela, nem na minha mãechocadeira. No entanto, sei que não devo condená-la. Eu também poderia ficar cega diante da riqueza. – Pensei em várias vezes te procurar, Alice, juro por Deus. Fui uma fraca em não fazer isso antes. Tive medo de perder a minha vida confortável. Eu disse a mim mesma que, assim que o Cristiano morresse, viria te buscar, por mim e por você... Só que os anos passaram e passaram e ele durou mais tempo do que previ. É algo sem sentido, desumano com relação a você, mas o ser humano é algo imprevisível capaz das piores coisas. “Sei que deveria ter te procurado, que deveria esquecer o dinheiro e que crescer com a minha irmã seria a melhor coisa do mundo... Mas fui falha quando refletia sobre isso, sobre o que eu estava dando as costas.” Eu queria ser um alguém pior do que sou. Queria poder não querer mais ouvir aquilo porque, quanto mais ela dizia, mais eu tinha vontade de morrer ou sei lá o quê. A dor dentro de mim é terrivelmente terrível. Fui trocada por lençóis de ceda, carro importado, festas e dinheiro. – Então o Cristiano morreu e você finalmente veio? – Pergunto, e não consigo evitar a decepção dentro de mim. – Sim, ele morreu. Ele morreu tem um tempo. Ataque fulminante. – Ela olha para mim, seus olhos escuros e tristes. – Olha, Alice, eu te procurei. Comecei a te procurar tem mais ou menos um ano. Tentei ligar para o número que eu tinha em mente da nossa velha casa. Nada. Até para a casa do Derek tentei ligar e não funcionou. Deixei de lado por um tempo. Aí decidi encontrar um detetive e ele encontrou uma foto sua e uma nossa de quando criança em um desses sites onde se cadastram fotos de pessoas desaparecidas. Passo a língua nos dentes confusa demais sem saber como as minhas fotos foram parar em um site de desaparecidos. – Fotos? Que fotos? Não me cadastrei em site algum. Ela remexe em sua bolsa e tira de lá duas fotografias. Em uma delas estou sorrindo para a câmera e lembro que foi o Derek que tirou em uma dessas tardes enfadonhas em que resolvemos beber. A outra, bem, a outra é aquela foto em que mostrei ao Alec e no outro dia desapareceu.


Rapidamente ligo os fatos. Olho-o. – Foi você! – Condeno-o. – Culpado. – Alec se levanta. – Olha, Alice, posso explicar... – Tudo bem, iremos conversar sobre isso depois. – Volto à atenção para a Belle. – E onde está a... Cloe? Anos depois, neste exato momento, pronunciar “minha mãe” me é algo tão ilícito e pecaminoso que me limito até a pensar nessas duas palavras. – É por ela que estou aqui também. – Ela não veio com você? – Não. – Ela limpa a garganta e fita um ponto qualquer. – ACloe... A nossa mãe, Alice, ela está hospitalizada e os médicos não a deixaram vir. Disseram que a viagem era muito arriscada. Belle começa a chorar e me pergunto se devo me preocupar ou fazer o mesmo. Ela deveria ser uma estranha para mim coisa e tal, mas a verdade é que estamos mais ligadas do que todos esses anos puderam cortar essa ligação. – O que quer dizer? – Ela está morrendo. Tecnicamente, ela pode morrer a qualquer momento. Eu não queria vir com medo dela ir embora e eu não estar lá no momento. Só que Cloe me pediu quando descobriu que te achei. Pediu tanto para que eu viesse aqui, que eu viesse te buscar nem que seja para um adeus. Ela precisa muito te ver, Alice, só assim poderá ir em paz. Apesar de tudo, Cloe precisa do seu perdão. Perdão. Sei que deveria fingir indiferença. Melhor: sei que tenho todo direito de não oferecer perdão algum, de simplesmente, jamais, em hipótese alguma, cogitar perdoar a minha mãe por ela achar que eu era forte o suficiente para viver sem o seu amor. Fui abandonada, deixada de lado por conta de um homem rico. Lembro-me que Cloe sempre disse que o dinheiro não trazia felicidade. Tudo era mentira. Se o dinheiro era um capricho, por que então abdicou de uma de suas filhas por ele? O dinheiro... Estou notoriamente confusa e perdida. Deambulo à procura de um caminho impossível de encontrar. – Somos duas estranhas. Sei disso, Alice, mas tenho certeza que não demorará para nos tornarmos amigas outra vez. Só que agora precisamos pensar na nossa mãe. Já comprei as passagens. Preciso apenas saber se você irá vê-la... O resto da frase desaparece em minha mente. O bom senso diz que devo ir, implora para que eu veja a minha mãe. Afinal, era eu quem sempre ficava à procura dela no meio da rua à espera de um reencontro, e agora eu tenho isso e de repente não quero mais ter. Quero abandonar esse desejo insano de vê-la. Acredito que no fim tudo o que ela pregou, alguma coisa no meio daquelas conversas desconexas, tinha algo real. Cloe conseguiu, mesmo longe, me ensinar o melhor, e tenho certeza que se não fosse os seus ensinamentos, eu estaria perdida. Quem sabe até estaria morta. Enterro o rosto em minhas mãos em concha e choro. Quero que a Cloe morra, assim como quero que ela fique boa. Corro para o banheiro, o único lugar que me parece sensato chorar. Choro por tanto tempo que perco a noção de tempo e espaço. A porta do banheiro se abre ecoando um leve ranger. Limito-me a erguer o olhar. Dedos deslizam pelo meu braço e o cheiro familiar me toma em meio ao nariz que escorre. De alguma maneira


estúpida e mesquinha, ter o Alec aqui comigo faz tudo se tornar menos doloroso, menos dramático. Ergo os olhos e aperto os dedos quente, longos e reconfortantes. Ele me abraça de lado e apoia o queixo no topo da minha cabeça. Posso presumir que seus pensamentos em relação a mim se resume apenas a uma coisa: pena. Ficamos em silêncio por um tempo até que ele decide dizer algo. – Ficar presa aqui não vai resolver seus problemas. Sei que é difícil, mas ao mesmo tempo era isso que você queria, né? Rever sua mãe e sua irmã... – É, mas agora é diferente. Não é como se você fosse abandonada por sua mãe por causa de um cara rico. – Sejamos indulgentes, vai me dizer que nunca passou pela sua cabeça que era isso? Dinheiro, uma vida melhor, sei lá. – Já, só que a verdade dói mais do que uma mera fantasia, Alec. Nunca suportei ser trocada – rio de ironia. – Se bem que o meu trauma tem um bom argumento. Faço bico enquanto decido o que fazer. Estou numa sinuca de bico, como todos podem ver. Levanto-me do chão, abstenho-me do calor do corpo do Alec e quase imediatamente quero voltar para lá. Lavo o rosto, molho a nuca e respiro fundo. Irei ver a minha mãe. O Alec tem razão. Foi isso o que sempre desejei. No fim eu já tinha decidido antes mesmo de saber que iria. Saio do casulo e encontro Belle andando de um lado para o outro com seus quilos extras. É estranho olhar para si mesma assim. – Eu vou com você. Ela abre um imenso e longo sorriso. Apressa os passos e me abraça. É apertado, porém reconfortante. Vejo o Alec sair do banheiro e dar uma piscadela para mim. – No fundo eu já sabia que iria vir comigo. Você sempre foi boa como quando ganhamos aquelas bonecas e eu queria a sua, e não a que foi me dada... E, poxa, você abdicou da boneca rosa para ficar com a boneca azul e feia. Isso pode parecer nada, mas eu nunca esqueci isso depois de todos esses anos, depois de tudo. Você ainda é a minha favorita. Comprimo os lábios e franzo o cenho para eliminar a ruga que se forma no centro de minha testa. – Quando vamos? – Hoje mesmo. Precisamos estar no aeroporto amanhã bem cedo. Está bom para você? Concordo com um meneio de cabeça, muito embora ache as coisas muito precoces. Principalmente isso entre nós duas, como se não houvesse uma enorme cratera e uma placa gigante dizendo que as duas garotinhas separadas não existem mais. Elas cresceram e, independentes de qualquer coisa, carregam histórias diferentes. A princesa e a plebeia. A dama e a vagabunda. Enfim. Puxo a mala em cima do guarda-roupa e jogo algumas peças de roupas dentro dela, ciente de que ficarei pouco tempo no Rio. Verei a minha mãe e voltarei à minha casa. Algo dentro de mim está dizendo que ela não merece tratamento especial só por que estar doente. Não depois de tudo o que fez. Alec se senta na beira da cama. – Se quiser, posso ir com você – ele me diz. Paro de enfiar roupa dentro da mala e o observo por um tempo. Tem- po suficiente para concretizar de uma vez por todas que ele é o amor da minha vida. – Nos levar até o aeroporto já está bom. – Caminho até ele e coloco minhas mãos em volta do seu pescoço. – Prometo que num piscar de olhos estarei aqui e nem sentirá falta dessa mulher aqui. E, Alec, quero que me prometa uma coisa.


– Qualquer coisa. – Promete que não vai se meter em confusão? Nem dormir na calçada ou ir até aquele maldito racha de motos? Promete? – Prometo. – Ele beija os dedos em forma de cruz. – Agora, promete pra mim que vai pensar em nós? Em meio a essa tensão é impossível ficar séria. Sorrio para ele um sorriso sincero. Esse deve ser o sorriso que a Bella deu ao Edward quando ele finalmente aceitou o fato de que ela nasceu para ser vampira. Ser dele. Assim como é evidente, aqui e agora, que nasci para ser do Alec, e ele meu. – A gente conversa quando voltar. Termino de arrumar a mala e Alec a coloca no porta-malas. Ninguém conversou muito no início. Mas logo Belle começa a narrar a incrível vida no Rio de Janeiro. Claro, omitindo partes importantes para que não me sinta mais abandonada do que já me sinto. Pedi ao Alec que ligasse para o Derek e contasse tudo. Sei que deveria eu a fazer isso, porém não estou com cabeça. Quanto ao Jonathan, irei passar um e-mail assim que der. Agora estou indo onde sempre quis estar. Para o lado da minha mãe... Mesmo que ela não mereça.


Capítulo Vinte Ela nunca procurou por você Eu sabia que tinha que começar pelo fim, e isso significa que neces - sito retroceder ao passado exatamente ao ponto onde fui abandonada como um filhote de uma cadela sarnenta. Desço do carro de puxo a alça da minha mala de viagem que ganha vida e se move logo atrás de mim. Olho para a enorme casa com piscina, jardim e sapos de gesso, folhas rasteiras encobrindo o muro, muito verde... Bem, prefiro não me apegar aos detalhes. Volvo e sorrio para minha irmã. É um sorriso sem graça nada típico. A verdade é que não me sinto bem neste lugar. Ele não faz parte de mim, parte do que sou. Essa casa de tijolos negros de repente é o meu oponente. Cloe optou por ela, a casa, o dinheiro, o Cristiano - seja lá quem for esse desgraçado. A porta se abre, grande demais, fria demais. Acho que deliro. Uma mulher alta, esbelta e cinquentona está atrás da porta. Ela tem olhos frios e escuros. Ela olha para mim, estica seu pescoço quase enrugado e então olha para Belle. Franze o cenho. Olha-me dos pés a cabeça e parece que gosta do que vê, pois exibe um sorriso desses de propaganda de creme dental, mas nem de longe me parece sincero. Então eu me transformo no Alec só para não perder o costume. – Hum... – Murmuro constrangida. Meu olhar salta da mulher para Belle. Sou um boneco inflado, flácido demais. – Oh, perdoe-me a curiosidade, mas é impossível deixar de com parar. – Sem problemas. – Respondo e coloco o cabelo atrás da orelha. – Sou Alice. – Tenho certeza. A Belle fala muito de você, quer dizer... Acho que isso é o máximo que conseguimos chegar, pois Belle resolve adiantar os passos. Ela entra na casa e me faz segui-la. Meus olhos procuram apenas por uma coisa: fotografias. Dela. Preciso saber como ela é. Se ainda é como me lembro. Suspiro e o meu coração arrebenta-se em contrações nervosas dentro do peito. Por incrível que pareça, não encontro nada. Em vez disso, sou dispersa dos meus dilemas com uma voz da qual o meu cérebro diz ser cada vez mais familiar. – Pode deixar a mala aqui mesmo. Pedirei para mandá-las para o seu quarto – diz Belle. Meneio a cabeça feito um androide. Afinal, eu tenho um quarto – de hospedes? Subo as escadas e passo por varias portas até ser destinada a abrir uma. Entro no quarto bege com uma aparente e deliciosa colcha. Observo a cortina que voa com vento artificial do ar-condicionado. Um jarro de


flores está sobre um dos criados mudo. Uma das portas do closet está aberta e demonstra estar vazio. Respiro fundo e me desapego rapidamente do que acabo de ver. Migro para o que me parece ser o banheiro, certa de que tão logo minha mala estará em meu quarto. Tiro a roupa e ando nua pelo carpete do banheiro que é incrivelmente macio. Amarro meu pequeno cabelo em uma polpa, deslizo o box de vidro, ligo a ducha que despenca do alto e tomba em minha pele numa pressão deliciosa. Fico um tempo parada debaixo do jato d’água me dando conta de onde estou e o que está prestes a acontecer. Não sei você, mas me sinto totalmente extasiada, e sinceramente acho que não estou pronta. Eu nunca estive pronta para este encontro, embora sempre desejasse. Quando termino meu longo banho enrolo-me na toalha branca de algodão e saio do banheiro. Como previsto, minhas malas estão no quarto. Procuro por uma roupa e opto por um vestido longo. Termino de me vesti e decido que vou dormir um pouco, mas sou interrompida dos meus desejos por conta das batidas na porta. – Alice? – É a Belle. – Sim, pode entrar. A porta se abre como um rompante. – Ah, ainda bem que não está dormindo. Sei que você deve estar cansada, mas precisamos ir até o hospital. Faço uma careta mentalmente. Não quero ser insensível, só que eu estava pensando em descansar um pouco. – Tudo bem, só vou calçar uma sandália. Desço do carro e o estacionamento do Hospital é quente demais. Nossos passos ecoam pelo ar e a turbulência zune acima de nossas cabeças. Belle segura a minha mão e é como se repentinamente ela nunca havia estado ausente antes. Somos as duas garotinhas de antes enfrentando nosso primeiro dia de aula. As portas de vidro se abrem automaticamente e o vento gelado do interior do Hospital invade a minha pele. Sinto o choque térmico por um segundo. Na recepção apanhamos dois crachás e subimos as escadas de mármore. Meu estômago dá giros acrobáticos e estou despencando da primeira queda da montanha-russa sem parar. Paramos. – Você quer que eu entre primeiro ou entramos as duas? – Pergunta Belle. Levo um tempo crucial para processar a pergunta. Minhas mãos soam sem parar. Estou muito nervosa. Tão nervosa que sou capaz de cair aqui por meus joelhos não aguentarem o meu peso. – Acho melhor você ir na frente. E é isso que ela faz. Não antes de planar um beijo em meu rosto. Os minutos que se passam é uma eternidade e já nem sei mais onde estou. Sou uma planta vegetativa que perdeu a capacidade de reter oxigênio. Uma árvore oca.


– Ela pediu para você entrar. – A voz me tira do transe. Aperto as mãos uma nas outras. Um passo de cada vez. Você caminha em placas de ovos. O mundo é estranho e a vida é abstrata... E eu vejo primeiro um volume na cama com tecido em branco e listas azuis. Até que esse volume ganha pequenos movimentos e uma cabeça se vira para mim. É ela. Cloe. Minha mãe. Sinto-me tão assustada que estanco no lugar. Meus olhos ardem tanto que já perdi parte da visão. Está tudo embaçado. Fecho os olhos. As lágrimas quentes descem e logo ganho minha visão perfeita novamente. Aqueles olhos que tanto esperei rever de novo olham para mim, fix- am-se na criatura que sou hoje. Ela chora. A Belle chora. Eu choro. Sinto uma dor no peito completamente insuportável. Então me dou conta da caricatura que a Cloe se tornou, ali, deitada nessa cama de hospital. Não é a mulher que eu imaginava que era; não é a mulher de minhas lembranças. É sim uma desconhecida. O rosto que tanto procurei está diante de mim, mudado, distorcido, mesmo assim ainda é ela – uma ruga ali, um detalhe aqui. É ela. – Alice... Deus, eu nem lembrava mais da voz da minha própria mãe. Finalmente ganho vida própria e caminho até ela. Seguro as mãos estendidas para mim que pendem de dois braços finos. Eu não sei o que ela fez para merecer essa doença e, se eu pudesse, mesmo que ela não mereça, trocaria de lugar com ela porque no fundo do meu peito sinto uma dor desconhecida nunca habitada antes em meu peito. – Mãe... Queria poder dizer o quanto é estranho chamar essa estranha de mãe, muito embora também seja reconfortante. – É você mesmo? – Sim. – Meneio a cabeça. E passamos um tempo, bastante tempo, em silêncio, olhando uma para outra. Para ser honesta, eu também sinto raiva dela, da Cloe. Espero que me entendam. As coisas começam a perder todo esse conto de fadas quando ela me faz a seguinte pergunta: – Você me perdoa? Foi assim que notei que eu não queria agradá-la, eu queria agradar a mim. Ser honesta com ela seria ser honesta comigo mesma. Eu a perdoava? – Não. – Digo. – Não te perdoo. Seu rosto ganha uma expressão confusa demais para descrever. Sou uma bruxa, uma vaca, uma cretina. Chamem-me do que quiser, porém não é porque ela está deitada na cama a beira da morte que merece ser redimida de todos os seus pecados. – Espero que entenda... Só que não dá, o que você fez comigo acredito que não existe perdão. – Mesmo assim você está aqui. – Estou aqui porque precisava olhar para você. Precisava te perguntar por que me abandonou quando eu era só uma criança. A pergunta parece perdurar no ar pelo resto da vida de todos os seres humanos da Terra e a impressão que tenho é que nem ela sabe a resposta de sua monstruosidade, pois é assim que classifico isso.


– Porque eu precisava tentar. – Tentar o quê? – Tentar uma vida melhor e... Deixar você... Deixar você foi a única alternativa que encontrei. Ela ainda não me respondeu. – Por quê? – Não me deixaram escolhas. Eu não tive. Eu conheci o Cristiano e me apareceu a oportunidade que eu sempre desejei. Eu queria ter uma vida melhor, mas ele não gostava de criança. Nunca gostou. Então eu consegui fazer com que ele me deixasse levar pelo menos uma de vocês... E, ah, Alice, naquela época você aparentava ser a criança mais forte... – Mais forte para ser abandonada, deixada de lado como uma coisa qualquer? Abandona como uma boneca que você enjoou? – Não diz assim, Alice... – Mas foi assim que me senti todos esses anos: uma boneca sem graça. Eu andava nas ruas procurando por rostos semelhantes aos seus; eu queria acreditar que tudo era mentira... – A esta altura a minha voz está embargada demais e o choro inibe os meus pensamentos. – Nunca passou pela sua cabeça que enquanto estava aqui vivendo uma vida de luxo eu estava lá, chorando, convivendo com uma estranha, perguntando por você todos os dias, chorando e sentido a sua falta todos os dias? – Eu sei que o que fiz não tem perdão, Alice. – Sim, não tem perdão. Passei todo este tempo tentando encontrar a minha identidade, quem realmente sou. Perguntei-me várias vezes por que tinha me deixado e nenhuma resposta nunca me foi convicta. Quando eu precisei conversar sobre um garoto que eu gostava, você não estava lá; quando a minha primeira menstruação desceu, você não estava lá, mãe! Nos dias do meu aniversário, você não estava lá. Mesmo assim, por alguma ironia boba, eu imaginava que a qualquer momento a minha mãe atravessaria a porta e diria que tudo não passou de um sonho. Você precisou ficar doente para poder aparecer e eu pergunto por quê? Com que intuito? – Alice, você está sendo muito dura com mamãe. Fuzilo a Belle com o olhar feliz por finalmente dizer o que sempre esteve engasgado, preso; feliz por tirar esse peso que me sufocava. Limpo o nariz com as costas das mãos. – Você bancava a boa samaritana. Dizia isso e aquilo e que tudo era pecado. Tudo. Às vezes eu me perguntava em que Deus você acreditava ou se tudo era mentira. Alguém que falava de Dele daquela forma jamais abandonaria um filho por dinheiro. – Eu me apaixonei pelo Cristiano, Alice. – É isso que não entendo. Você amava um cara mais do que amava a sua própria filha? Quem era você, afinal? – Ela fecha os olhos e vejo uma lágrima cambalear pelo seu rosto. – Acho que eu era a mentira. Pisco com a resposta. Acho que já deu. Já consegui atingir o que desejava e agora posso voltar para casa e viver a minha vida como antes. Só que eu não queria voltar para casa assim. A maneira como a mulher à minha frente me olha é digno de piedade. – Você se arrependeu alguma vez na vida do que fez? – Pergunto minutos depois. – De verdade? – Sim. – Às vezes, quase sempre. Mas gosto de acreditar que tudo nessa vida tem um propósito. Eu te abandonei por algum motivo maior do que parece, acredite. Talvez só você não tenha percebido. E talvez seja verdade, ainda não percebi.


Cloe olha para o meu braço e sorri. – Fez uma tatuagem... – É, fiz. Uma hora cheguei à conclusão que não adiantava levar tudo a sério o que você me pregava. – Fico feliz. Você se tornou uma pessoa muito bonita. Pode não parecer, mas eu te amo, Alice. Sempre amei, sempre... Eu só fui fraca demais, idiota demais. E naquele exato momento eu soube que eu já tinha perdoado – ou acho que sim, por causa do momento – a minha mãe desde que ela tinha partido em busca da sua oportunidade. No fim acredito não ser pecado correr atrás do que realmente você quer para sua vida, mesmo que isso coloque algumas coisas fora do lugar e você precise deixar alguma coisa para trás. Tudo é uma questão de escolha. Passei o resto da tarde conversando com a minha mãe sobre a minha vida, sobre a faculdade, os amigos e, claro, o Alec. O enigma. Ela me disse para eu ser feliz e me sussurrou algo em meu ouvido, no entanto não me sinto à vontade de compartilhar com quem quer que seja no momento. Cloe morreu quando o crepúsculo caiu. Primeiro, ela estava sorrindo e segurando a minha mão, e depois as máquinas começaram a apitar. Os médicos entraram da sala e me afastaram, embora a mão dela estivesse fixa na minha como uma rocha. Acredito que ela queria viver pelo menos mais um minuto. Enfim, assisti aos seus choques e ao seu corpo pular na cama sem vida. Não havia mais chances para ela neste mundo. Cloe morreu de câncer de mama. Quando seus nódulos foram descobertos já era tarde demais para os tratamentos médicos, até mesmo os avançados. Pergunto-me agora: do que adiantou todo o seu dinheiro? Pela primeira vez compreendo a expressão “dinheiro não traz felicidade”. Chorei por um bom tempo, se querem saber. Ela era a minha mãe, caramba, e de uma forma ou de outra me sinto um pouco culpada por ter dito todos os disparates que disse. Sentada no quarto escuro, após passar um tempo abraçada à Belle, o Alec me liga. – Oi, garota carioca. Ouvir essa voz me traz um conforto imediato. Fico em silêncio apenas escutando sua respiração do outro lado da linha e finalmente libero o que está preso em minha garganta. Um ruído rouco e desconexo. Meu choro. Minha incrível dor. – Aconteceu alguma coisa, Alice? – Posso perceber a sua preocupação. Ajeito-me na cama e me deito feito uma concha. – Ela morreu. – A sua mãe morreu? – É. Ficamos assim por um tempo. Saber que ele está ali, do outro lado da linha, já me é o bastante. Queria poder estar com o Alec agora. Colocar a cabeça em seu peito e ouvir as batidas do seu coração, saber que ele está vivo. Sinto a lágrima escorrer dos meus olhos e pairar na ponta do meu nariz. – Eu queria estar aí com você. – Ele diz. – Eu queria que você estivesse aqui. – O que eu posso dizer para que você fique bem? – Só... Só fique ai. Só me deixe ouvir a sua respiração e tudo vai ficar bem. Pode parecer pouco, mas ajuda. – Sim, qualquer coisa.


Não me lembro exatamente de quando desligamos o telefone porque eu estava bastante sonolenta, mas lembro-me que antes de apagar o ouvi dizer que me amava – ou acho que imaginei. Ao acordar, depois do banho, desço as escadas da casa enorme, não antes de me perder um pouco, para variar. Quando chego à sala de estar, sou conduzida até a sala de jantar onde uma deliciosa mesa de café da manhã está posta. No entanto é outra coisa que chama a minha atenção. É a figura dele de costas. Estanco no lugar. Pisco os olhos duas vezes e a Belle suspende seu pescoço para que ele se vire para mim. É um giro ágil que faz o meu coração pular em frenesi. Antes que eu veja seu rosto, tenho certeza que é ele apenas pelo perfume. Alec. Sou abraçada e estou literalmente assustada, confusa. Não sei que diabos ele faz aqui, mas isso me faz bem, me conforta. É impossível resistir. Abraço-o. Aperto seu corpo com força e tenho vontade de chorar porque meu nariz arde com tanta clemência que acabo cedendo ao meu sentimentalismo barato. Empurro seu corpo para olhá-lo melhor. Viro-me para Belle. – Se importa... – Ela balança a cabeça em um sinal de negação e é notório que andou chorando. Seguro a mão do Alec e o puxo escadas acima em direção ao meu quarto tentando ao máximo não tropeçar em meus próprios pés. – O que você está fazendo aqui? – É a primeira coisa que me vem à cabeça. – Você disse que queria que eu estivesse aqui, então eu vim. Lembra? Franzo o cenho porque, por mais que fosse verdade, disse apenas por dizer. E eu sei, é tudo muito romântico e coisa e tal, em um filme. Mas, na vida real? Ora, quem sou eu para ser digna de grandiosa deslocação? – São 1.678 quilômetros... – murmuro. – Que me separavam de você – ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Vamos lá, Alice, até parece que não está feliz que eu esteja aqui. – Por Deus, eu estou feliz, só que é estranho. – Eu senti a sua falta. Tipo: muito. Quando fiquei sozinho em casa era como se uma parte de mim tivesse ido embora para sempre. O que foi bom, porque cheguei à conclusão de que não sou eu mesmo sem você e que já nem sei como viver sem essa pessoa aqui – ele me empurra com a ponta do dedo indicador, o que me faz exibir um frouxo sorriso. Aí me quebro toda porque sou eu quem o beija, e não o contrário. Essa me parece uma ótima hora para isso, pois já estava cansada de prolongar o que estava predestinado a acontecer. Rapidamente suas mãos de longos dedos deslizam pelas minhas costas de baixo para cima. Quero me perder nele. – A que horas você saiu de casa, ou o melhor, como chegou aqui? – Esqueceu que fui eu quem descobriu onde a Belle está? Enfim, era mais ou menos oito da noite quando juntei uma muda de roupa e comprei as passagens na internet. Foi tudo muito rápido. Nossa, me pareceu muito tarde ontem. Se bem que eu estava bastante exausta e nem tinha reparado nas horas. – Muito bem, agora vamos falar de outra coisa. Como você está? Se eu fosse uma filha normal, presente, poderia apenas fuzilá-lo com os olhos. No entanto, essa pergunta é convincente. – Bem, se é que me entende. Não é como se eu fosse me desesperar por uma desconhecida porque,


sejamos realista, era isso que a Cloe se tornou para mim. É claro que dói, mas é uma dor suportável. – Que horas é o enterro? – Sei lá. – Pelo menos você a viu antes dela morrer. – Foi o que pensei. Será que ela estava apenas me esperando? – É bem provável. O velório aconteceu em uma linda capela repleto de pessoas com roupas negras, óculos e saltos altos exibindo lágrimas que pelo menos da grande maioria nem eram verdadeiras. Ops, quase esqueci de dizer que acabei por me tornar a grande novidade do velório. Afinal, não eram todos que sabiam o segredo da Cloe. Eu. Sua filha abandonada. Gêmea. Foi no velório que conheci Eric, namorado da Belle. Eles se conheceram na faculdade quando ela deixou cair de propósito seu estojo, e disso surgiu um papo e depois as coisas evoluíram – foi assim que ela me contou. Ele me aparenta ser um cara legal e cuidará muito bem da Belle. Como nos filmes, não choveu. Em vez disso, o Sol brilha. Aperto a mão do Alec quando o pastor começa a pregar sua palavra. Meus olhos ardem e choro. Encosto a cabeça no peito do Alec e mal escuto nada. Pergunto-me se devo tomar a palavra e dizer que espero, de coração, que seja lá onde a Cloe esteja, que Deus a abençoe e a perdoe por seus pecados. Ninguém é tão perfeito que não possa pecar. É claro que sofri todos esses anos por seu abandono, mas também posso dizer que sou feliz hoje, que tenho tudo o que quero e desejo bem aqui comigo, ao meu lado. Alec. E se eu fosse a escolhida da Cloe, com certeza eu não o teria conhecido, e conhecê-lo de repente ameniza qualquer dor, raiva ou sofrimento causados pela minha mãe. De verdade, acho que devo até mesmo agradecêla por ter sido abandonada. Decido não dizer nada. Olho para seu rosto lívido e está muito melhor do que quando a vi. Longe de mim dizer que ela ficou melhor morta. Só quero dizer que minha mãe mostra estar em paz consigo mesma e isso me tira um peso de toneladas das costas. Deslocamo-nos para a rasa cova feita em um lindo gramado. É o cemitério mais belo que já vi. O caixão é fechado e colocado na vala. O vento sopra e ouço um ruído que vem da Belle. Ela caminha como uma alma penada até a cova e se ajoelha com uma dúzia de rosas brancas e amarelas. E ela chora muito. Confesso que a dor dela dói mais do que ver a minha própria mãe morta. Deixo o abraço do Alec e me movo até a minha irmã, certa de que neste momento existem vários pares de olhos me observando. Ajoelho-me e atiro um punhado de terra na madeira envernizada e depois incentivo a Belle a atirar as rosas. Ela me entrega metade delas. Levo-as aos lábios e depois as jogo. Minutos mais tarde, quando quase todos já se foram e estou apenas esperando a Belle se despedir – e isso já faz mais de uma hora -, meu celular toca. – Alice, onde você está? Já tentei te ligar várias vezes e cai na caixa postal. – Ah... Eu estou no Rio, não te disseram? – Lanço um olhar de chateada para o Alec que arregala os


olhos. – Que diabos você está fazendo no Rio? – Ele ri. – Todo mundo sabe que o Rio Jacuipe não anda em condições de receber visitantes... Reviro os olhos. – Larga de ser idiota, Derek, estou no Rio de Janeiro... A Belle, Derek, a Belle apareceu. É uma longa história. A verdade é que ela me fez vir ao Rio... Você não vai acreditar, a minha mãe, ela... Hum, ela morreu. Ouço-o limpar a garganta e imagino-o sentando em um dos degraus da escada de sua casa, fazendo careta com a testa franzida. – Como? – É simples. Acabei de enterrar a Cloe. – Cara, não consigo acreditar no que estou ouvindo. Como e quando você foi? Você não me disse nada... Alice,você chegou a conversar com a sua mãe? – Sim, cheguei. – Conseguiu a resposta que sempre quis? – Consegui. Mas nós já sabíamos a resposta. Ela fez o que nos foram dito: veio tentar uma nova vida, tudo pelo dinheiro. Ela me abandonou pelo dinheiro, por um cara. É claro que isso não é nem de longe uma explicação plausível, porém eu entendi. Às vezes a gente precisa deixar de lado alguma coisa, mesmo que a ame muito, para conseguir o que quer. – Confuso. E como se sente? – Me sinto eu mesma com um pouco mais de informação sobre quem eu sou, quem deveria ser. Lambo os lábios e tiro um fiapo de linha do meu vestido preto bási- co. E querem saber a verdade? Não me sinto a mesma. Sinto-me estranha, principalmente por achar que me tornei uma insensível. – Alice? – Espero que ele continue. – A Belle. Ela está bem? Como ela é? Eis um boato que nunca contei. Antigamente, quando era Derek, Belle e eu, surgiu uma conversa no colégio de que ele era terrivelmente apaixonado pela Belle. Isso porque o Derek segurava a mão dela debaixo da mesa. Eu mesma vi. No início fiquei com muita raiva, claro. Eu tinha medo dele gostar mais da Belle do que de mim. Sério, sempre fui muito ciumenta. Deu pra perceber, né? – Ela está, digamos assim, muito bem. É uma pessoa adorável. – E como é ela? Muito parecida com você? – Bem, te mandarei uma foto assim que der. Não estou em Londres de férias, Derek... – Foi mal. Sério... E sinto muito pela sua mãe. Graças aos céus a Belle se levanta da terra batida e seu rosto está mais inchado do que o normal. Seu namorado, Eric, caminha atrás dela com as mãos enfiadas no bolso da calça. – Então, Derek, tenho que ir. Ligo para você mais tarde. Te amo, cabeçudo. Desligo o telefone e tomo a mão do Alec. Decido que irei voltar para casa. Não tem sentido eu ficar aqui fingindo uma vida que nunca tive. Por mais que eu pense, não consigo de jeito nenhum me acostumar com isso, com este lugar. É como se eu estivesse sendo comprada por todos esses anos apenas por estar naquela casa, dormindo naquela casa. Tenho vontade de vomitar agora. – Acabei de decidir que vou voltar. – Mas já? Por quê? – Belle não se conforma Tenho vontade de revirar os olhos. – Está na hora. Não quero ficar nem mais um segundo aqui. Não quero nada que venha do Cristiano.


E eu aqui... Bem... Faço uma careta para que ela saque a coisa mais óbvia. Ficar na casa do Cristiano é a mesma coisa de aceitar os fatos. – Por favor, Alice, eu preciso de você. – Aceitar ficar é a mesma coisa que estar traindo a mim mesma. Para você pode parecer fácil porque não foi você a abandona em questão. Isso tudo pra mim é meio podre, nojento. – Acho que está exagerando. Limito-me a responder porque começo a achar que foi uma burrada ter vindo para cá. Foi intrometido demais da parte do Alec colocar uma foto da minha família na internet como se eu estivesse procurando por elas de verdade quando nenhuma procurou por mim. Se o problema todo era o Cristiano, por que então Cloe não me procurou? Ela sabia em que cidade eu estava, sabia onde o Derek mora, essas coisas. Estou começando a achar que a minha mãe não queria que eu fosse encontrada, e eu estou começando a achar que, do fundo da minha alma, eu não a perdoei. Jamais a perdoarei de verdade, apenas da boca para fora. Agora, lívida, com os pensamentos em ordem, tudo me é claro. Talvez fosse a Belle a procurar por mim, e nunca a Cloe. Alguém que abandona parte de si, que abandona a sua filha por dinheiro nunca volta atrás ou se arrepende literalmente. Arrepende-se? Não, ela mesma tentou me dizer isso. Eu só não soube ler nas entrelinhas porque estava cega. Cloe não merece perdão. A minha mãe era uma pessoa vil e ambiciosa. Uma pecadora. – Ela nunca procurou por mim, certo? Minha garganta é amarrada por um nó repentino. – Diz, Belle, não irá amenizar as coisas. De repente tudo faz sentido e o que ela disse não é verdade. É algo mais sério. Eu não poderia ser encontrada. Ela não queria que eu fosse encontrada porque as coisas são mais complicadas do que aparentam. – Eu sei tanto quanto você. – Só preciso saber de quem foi a iniciativa de procurar por mim. Ela olha para mim e estou perto de romper em lágrimas. Eu sou, ofi- cialmente, o patinho feio da história. Ela não me queria. Ela não me queria. Ela não me queria. – Fui eu. Eu quis procurar por você. Ela estava morrendo e não me pareceu certo com ela, nem com você. Eu já sabia o fim dessa história. Os médicos me disseram. Meneio a cabeça e aperto a ponta do nariz que arde. Minha voz trava. Quero bater em alguma coisa. Em alguém. Na Cloe, por favor. – Então você só procurou por mim... – Deus do céu! – Ela grita. – Não diga o que estou pensando! Quero você do meu lado de novo, Alice, quero a minha irmã de volta. Sempre quis. – Só procurou por mim porque sabia que ela iria morrer. – Mentira! Sempre perguntei por você, sempre quis você de volta... Só que a nossa mãe nunca permitiu que eu procurasse por um detetive até... E as coisas enfim ficam mais claras do que água. Eu fui abandonada. Eu nunca deveria ser encontrada. Por quê?


Capítulo Vinte e Um Segredos escondidos Só voltei naquela casa para apanhar a minha mala e a única mochila do Alec. Não é nada sobre a Belle, é sobre mim. Para ser sincera, quero a minha irmã presente em minha vida de novo também, mas é difícil saber como será isso daqui para frente. Mais uma vez eu fiquei sem a minha irmã, mas dessa vez sei onde encontrá-la. Chegamos ao aeroporto de Salvador quase sete da noite. O carro do Alec estava lá, o que facilitou a nossa fuga de volta a Feira de Santana bem mais rápido do que o previsto. Durante o nosso trajeto de volta ao antro vejo de relance o Adrick, o que me faz pedir para o Alec encostar o carro. – O que foi? Nem respondo a sua pergunta. Em vez disso, abaixo o vidro do carro e observo. O Adrick está parado e com um sorriso enorme no rosto. Ele estrala os dedos e um carro lança jogo de luz em sua direção. Passa direto. Então outro carro para e ele enfia a cabeça na janela para conversar seja lá com que for. Ele volta a se erguer, rodeia o carro e senta no banco do carona. Mal posso acreditar que tudo é verdade. O Adrick é um garoto de programa. – Nossa. – Digo. – Que nojo! Quer dizer, sei lá. Você viu? Aquele cara que entrou no carro é o Adrick, lembra? Já tinham me dito o que ele estava fazendo para ganhar dinheiro, só que... Ele parecia tão certinho. – Claro que lembro, sou amigo dele também... Qual é, Alice, vai me dizer que também é uma dessas pessoas mentes fechadas, ignorantes e etc? – Claro que não. É porque estamos acostumados a ver isso de longe. Eu nunca conheci alguém que fazia isso antes. E, outra coisa, sei que não tenho nada a ver com isso e que as pessoas devem fazer o que quiser com as suas vidas, no entanto é impossível deixar de pensar como isso também chega a ser podre, nojento. Já parou para pensar? Você se deitar cada dia com uma pessoa diferente só por conta de dinheiro? Alec liga o carro e o motor ronca. Ele evita me responder. Sei disso porque tem uma veia de irritação presa em seu rosto e uma de suas sobrancelhas está arqueada. Nossa, ele ficou realmente chateado. – Oquei. O que eu disse de errado agora, Alec? – Nada – ele murmura e tamborila dos dedos no volante. – Só não gosto quando você fala assim das pessoas. – Jesus Cristo, vai me condenar agora? – Olha, o assunto está encerrado, tá? Suspiro de irritação e apoio a cabeça no vidro da janela, agora fechada. A jornada de volta ao antro dura mais tempo do que desejei. Quando chegamos ao antro. Alec apanha a minha mala e a leva até a sala. A casa, por estar apenas dois dias fechada, tem um cheiro inapropriado, abafado demais. Pergunto-me se o Derek deu uma passada aqui, e de quebra fritou batatas-fritas para comer. Paro com as mãos na cintura e assisto-o migrar para a rua. Sigo-o porque, sinceramente, nem sei o que disse de tão grave. Se bem que eu tenho uma língua do tamanho do mundo e tudo quero optar. – Vai voltar? – Pergunto. Ele para e vira-se para mim.


– Você quer que eu volte? Tenho vontade de responder que não, que é indispensável a sua companhia só por conta de sua pergunta, porém eu estaria sendo a grande vaca idiota comigo mesma. Meneio com a cabeça feito uma garotinha de rua faminta no meio da rua que acaba de ser abordada por um cara muito rico e que lhe promete uma imensa casa de doces como de João e Maria. – Pensei que quisesse ficar sozinha por um tempo. Alec apanha a sua mochila no carro e ativa o alarme. Ele vem até a mim com aquele sorriso que tantas vezes já falei. Seus fortes e hábeis braços me tiram do chão e me carrega para longe. – Vamos lá, sua garota chata. Podemos fazer brigadeiro, assistir qualquer filme que queira e dormir de conchinha. Hoje eu serei o fantoche. Sorrio para ele com uma ideia que me perturba. Uma vontade alucinante que tenho de beijá-lo. Contenho-me. Contenho-me mil vezes até ser colocada na cama. – É melhor eu tomar um banho antes. – Alec murmura e arranca a camisa pela cabeça. – Você poderia ir escolhendo o filme. Agora ele abre o botão de sua calça jeans, tira o tênis e desce o jeans pelas pernas (nem queira imaginar a cara de sexo que fiz por apenas um segundo atrás). Deito-me na cama de costas ao meu sedutor porque, sinceramente, seria o fim da picada vê-lo pelado. Certamente ele está sem cueca agora e indo em direção ao banheiro. Dito e feito. A porta se fecha com um pequeno ruído e ouço a água bater contra o chão. Tudo bem, eu já pequei mesmo. Levanto-me da cama e tiro a sapatilha, o vestido preto e fico só de calcinha e sutiã. Ando de um lado para o outro, tento resolver mentalmente o que nós temos. Seria um relacionamento aberto? Algo casual? Estávamos tentando uma reaproximação? Reconciliação? Bateu saudade? Ah, droga, o melhor que faço é não pensar nisso. Separo os feixes do meu sutiã e liberto os meus seios. Aperto os olhos ao mesmo tempo em que arranco a minha calcinha rezando para que mais tarde eu evite os arrependimentos. Abro a porta do banheiro e ando em pés de bailarina. Espremo meus seios com os braços. Assim, acredito eu, a vergonha me é menos evidente. A névoa quente envolve o banheiro. Encontro o box do banheiro, abro e o Alec está de costas debaixo da água com a cabeça encostada no azulejo. Ele não me viu chegar. Respiro fundo e entro na água. Abraço seu corpo por trás enquanto meu coração bate na velocidade da luz. Com a surpresa, Alec se vira para mim e de repente acho que ele está se perguntando se é isso mesmo que está acontecendo. Quando decide deslizar seus lábios pelo meu pescoço, a sua língua desce pelo meu colo e para na clavícula até que nos beijamos. Aperto meus dedos em sua pele e ele é a minha rocha. Logo seu membro viril se enrijece entre as minhas coxas. Um gemido estridente escapa de mim quando o Alec me espreme contra parede. Nesse momento esquecemos que a água do planeta está acabando. Esquecemos a sustentabilidade. Esquecemos tudo. É ali, debaixo do chuveiro, que fazemos sexo... Sabe aquela sensação de que o mundo pode se acabar e você não se importa porque está com o cara da sua vida? Que, de uma forma ou de outra, você está com o seu mundo, segurando o seu mundo e a única coisa que lhe chega à mente é que você é um gigante? É isso. Essa sou eu. Isso é o que sinto enquanto o Alec beija todo o meu corpo. Mais tarde, quando estávamos deitados na cama envoltos em um lençol, no escuro, chorei por todas as coisas que me aconteceram. Penso que de nada adianta as lágrimas e que a Cloe irá pagar pelo seu pecado, assim como todas as mães e pais que abandonam seus filhos sem nunca pensar como essa criança crescerá. Então amanhece e é reconfortante saber que tenho alguém ao meu lado abraçado ao meu corpo, o que


também é um tanto chato, pois os braços que me envolvem apertam-se tanto a mim que é quase sufocante. Talvez ele tenha medo que eu desapareça da minha própria cama. A ideia me faz rir e com isso beijo seu abdômen, subo até o seu peitoral e beijo seu pescoço. Chupo seu ombro deixando uma leve marca avermelhada. Alec abre um largo sorriso antes de abrir os olhos. – Meu Deus, eu estou sonhando. Deito-me longe do seu corpo. Rio. – O que é esse lance todo entre nós? – É melhor deixar as perguntas para outra hora. Tenho prova de Histologia hoje e definitivamente serei clivada! – Esquece essa faculdade, esquece a Histologia, esquece o mundo lá fora e vive aqui comigo, para sempre. Seremos dois amantes do amor presos para sempre. – É uma ideia legal, considerando que estamos dentro de um antro. – Expilo bufas. – É sério, Barney, preciso estudar. O tempo da pedra acabou. – Faço careta. – O que temos de café da manhã hoje? – Vai saber? Irei tomar banho e depois comprarei o café da manhã. Quer vir tomar banho comigo ou prefere ficar deitada? – Vou ficar. É bom não correr o risco desse banho tomar maiores proporcionalidades. – Oquei, sem insistências da minha parte. Depois que terminamos o nosso café, apanho as súmulas de histologia e deito no sofá quando o Alec senta-se na ponta e faz massagem em meus pés. – Às vezes, eu fico pensando: se eu não tivesse te atropelado, será que estaríamos aqui, agora, nesse exato momento? – O que é para ser, é para ser, Alec. Então, é provável que sim. – Sabe que assim que te vi achei a mulher mais linda desse mundo? Digamos que meu priapismo logo tratou de mostrar as caras. Sorte minha que você nem prestou muita atenção por que estava preocupada demais com o vestido – ele ri. – Cara, você é muito ordinário. – Aham. Ele ri e me faz cócegas enquanto imploro em meio aos risos para que ele pare. Preciso muito estudar, porém sou salva pelo meu telefone celular. Jonathan. Ele vai direto ao ponto. – Onde estava nesses últimos dias? – Precisei viajar, foi mal. Nem tive como avisar. Aconteceram várias coisas. – É, poderia ter tentado me avisar. Sabia que teve uma reunião e, de quebra, prova de figurino? Tive que inventar uma história qualquer para que os diretores não te tirassem o papel. – Ah, fico te devendo essa. Marcamos de nos encontrar hoje à tarde assim que eu terminar de estudar para a prova, o que é uma tarefa difícil considerando que tenho ao meu lado um cara que não para de morder partes do meu corpo. Decido colocá-lo para fora do antro tendo a desculpa de que poderemos dormir juntos hoje, tirando a parte do sexo e conchinha. Tá bom demais. O que acham? A Belle me ligou duas vezes antes da tarde chegar. É claro que me sinto um tanto estranha tendo de deixar a minha irmã chorar as pitangas da morte de sua mãe sozinha, mas a verdade é que ela viveu todos esses anos sem mim, então seria bem provável ela se acostumar ao tipo de solidão que está prestes a assolar a sua alma. E, hum, ela deveria dar graças aos céus porque está bem crescidinha, pois a minha solidão eu tive que encarar desde os sete anos.


A Silvia também me ligou para contar as últimas da faculdade, ou seja, Lis já nem está mais com o idiota da sala o qual ela era apaixonada, e sim voltou para o seu ex-namorado rico que lhe dá o devido valor, muito embora seja um tremendo ciumento. Mais tarde foi a vez da Laura. Contou-me as lamúrias de estar apaixonada por um tremendo gostosão. Claro que eu fui verificar no Facebook e descobri que me era um cara tão normal quanto qualquer cara de academia. Se fosse um magrelo da vida, seria seriamente um tremendo cão chupando manga. Enfim, a cada cinco minutos ela me perguntava se ele era bonito demais para ela porque, pelo o que eu entendi, ele já nem dava mais tanta bola a ela quanto no início. Histórias à parte, Ana não me contou nenhuma novidade porque essas eu já sei. Milhões de caras apaixonados por ela. E o que ela faz? Esnoba porque diz que quem ela quer, não a quer. Acredito que esteja na hora dela rever seus conceitos e começar a dar valor a quem lhe oferece valor. A gente nunca sabe em que estepe estaremos amanhã, certo? Isso vale a mim também. Quando termino de estudar as benditas malditas súmulas, visto uma roupa confortável de academia e vou correr. Isso me ajuda a espairecer a mente. Corro por quase uma hora e faço bastante esforço para evitar levar a Cloe ao centro dos meus pensamentos, pois ela não merece. É hora de virar a página, garota. No entanto o que ela sussurrou em meu ouvido dá giros acrobáticos em minha mente. É muito difícil escolher um caminho a seguir. Quem era a minha mãe? Estou tão perdida quanto a Alice do Lewis Carroll. Compro uma água de côco e volto para o antro quando encontro, na porta de casa, o Jonathan sentado em um dos degraus. Ele se ergue assim que põem os olhos em mim. Antes que eu possa protestar sobre estar suada e fedendo – o que não é verdade –, ganho um abraço com direito a beijo no canto da boca. Ótimo, ele nunca vai desistir. – Está linda como sempre – ele diz. – Sem piadinhas, Jonathan. Vamos lá, diga para mim, já temos uma data marcada para estreia? – Sim, daqui a algumas semanas. Os ingressos logo serão vendidos. Meus olhos se arregalam. Estou em puro êxtase. Mal posso acreditar que subirei em um palco de verdade, abarrotado de uma plateia de verdade daqui a algumas semanas. Quantas coisas podem acontecer até então? Por favor, Deus, não deixe que nada de ruim aconteça comigo! Que o meu vestido fique impecável, que não me falte voz e que eu tenha frios na barriga constantes porque preciso disso para me sentir uma atriz completa. Más noticias... – Ainda nem gravei todas as falas. – Eu já gravei todas as minhas falas. Vamos lá, conta para mim por onde andou esses dias. – Prefiro não falar sobre isso, sério, já passou. – Como quiser. – Agora vamos entrar. Temos muito que ensaiar. E é isso que fazemos até as seis e meia da noite quando é a hora de ir para faculdade e, de quebra, ganho uma carona. A faculdade é a mesma coisa de sempre. Pessoas em seu vai e vem, catraca indo e voltando, ninguém olha para você, a não ser que te ache interessante e queira te pegar. Ninguém pergunta sobre o que você passou esses últimos dias, se está bem ou deprimida demais. Ninguém quer saber de ninguém. Bem-vindo à faculdade. Bem-vindo ao mundo real. Sem querer ser hipócrita, irei dizer que o que


esses estranhos passaram esses dias realmente também não me interessa. A prova de Histologia é uma tremenda bagaceira e sinceramente quero mandar todos os tecidos conjuntivos para o quinto dos infernos. Oquei, eu sei que isso é vergonhoso de se dizer, mas a pesca neste momento está rolando solta. Todos estão querendo saber as respostas da primeira questão, da quinta e da décima. Dá o que der para passar, contando que esteja certa. Termino a prova e estou prestes a entrega-la quando me pedem para aguardar um colega chegar porque, depois que a primeira pessoa sai, ninguém mais entra. Como estou afim de discórdia e não me importo com quem vai deixar de fazer a prova por minha conta, entrego a prova ao professor e dou um sorriso malicioso para turma, certa de que algumas pessoas querem arrancar a minha cabeça. Que se danem todos! Espero que o meu ato ruim não implique em minha nota... Aquela coisa de que o mundo devolve em dobro tudo que você faz é a coisa mais idiota e chata que às vezes eu temo. A esta altura estou enrolando para evitar chegar ao clímax que todos estão ansiosamente aguardando. Assim que saio, Silvia sai também e logo engato um papo do qual estou louca para conversar. – Ontem eu vi o Adrick entrando em um carro, quer dizer, acho que ele nem conhecia a pessoa que estava dirigindo. Era como uma dessas cenas que vemos na TV, de pessoas que se oferecem no trânsito para fazer programa. Silvia arregala os olhos. – Menina, era isso que eu estava tentando lembrar para te contar! Todo mundo aqui na sala já está sabendo. Parece que os pais colocaram o pobre coitado para fora de casa depois que descobriram o que ele estava fazendo. Agora é que ele vai fazer isso, afinal é a maneira mais fácil de adquirir dinheiro rapidamente. Coitado dele. – Coitado nada. Foi o Adrick quem caçou isso, agora ele tem. Por que diabos ele fazia isso mesmo? Ele tinha tudo o que queria. Não entendo. – Ele deve ser um tipo de cleptomaníaco sexual – Silvia dá sua risada típica. – Talvez eu deva virar uma prostituta também. – Não diz isso nem de brincadeira. Fazer sexo com desconhecidos, frustrados, bêbados, fedorentos e com bafos de leão deve ser terrivelmente horrível e nojento... Ou você acha que vai encontrar um gostosão diferente todo dia para trepar? – Tem razão, melhor passar fome. Rimos. Sabe expressão “fala no diabo que ele aparece”? Ele apareceu. Adrick sai da sala de aula com um largo sorriso no rosto doido para descobrir o motivo da nossa gritaria de hiena. Porém a única coisa que conseguimos fazer é olhar uma para outra com cara de assustada. – Do que vocês estão falando? – Nada. – Respondo. Eu nunca soube disfarçar muito quando sou pega no flagra porque mordo o lábio inferior sem parar e se Adrick fosse inteligente o suficiente, descobriria que estávamos falando dele. – É melhor eu ir andando. Vai que encontro algum trombadinha por aí, né? Lanço um sorriso sem graça. Sou interceptada. – Hum, sei que estavam falando de mim, posso ver e sentir o clima tenso. – Ele murmura. – Não estávamos falando de você. Afinal, o que teríamos para falar da sua pessoa? – Tento brincar. – Muita coisa. Principalmente sobre o que estou fazendo para ganhar dinheiro: programa. Uma coisa normal hoje em dia, pelo menos eu acho. Só digo que se quiserem falar sobre mim ou sobre qualquer assunto desse tipo, pode falar na minha frente. Não estou fazendo nada escondido de ninguém porque a vida é minha e eu faço o que quiser com ela.


– Ei, ei, abaixa a bola ai, cara – protesto irritada. – Isso mesmo. Já estou cansado. Está todo mundo me tratando como se eu tivesse uma doença contagiosa. Isso é um trabalho como qualquer outro. Tem os seus prós e contras. Por favor, não me julguem. Eu não quero ser o primeiro a julgar as escolhas de vocês, principalmente a sua. Franzo o cenho por que o que ele disse não faz sentido algum para mim. Espero fugir dessa confusão o mais rápido possível. – Ninguém estava julgando ninguém aqui – fala Silvia. – Você é outra. Percebo suas piadinhas cada segundo, e espero, Silvia, que você se foda porque você nunca olha direito para sua vida. Está sempre julgando, sempre falando dos outros, etc e tal. – Ele dá um sorriso irônico. – Também, macaco nunca olha para o próprio rabo, né? Isso vale para você também, Alice. Ele dá de ombros e fico com cara de bocó tentando assimilar o que ele disse. Faz algum sentindo? Vai saber! Mas aposto todo o dinheiro do mundo que o Adrick sabe de algo que eu, estranhamente, não deva saber. Vou atrás do Adrick e lhe intercepto no corredor. – Desembucha o que você sabe. – Só estou tentando dizer que você deveria ser a primeira a aceitar a minha nova condição. – Como? Por que eu? O que está tentando dizer? – Ah, interessante. Então ainda não sabe o que eu sempre soube? – Ele ri e parece pensar a respeito. – Quer saber? É melhor guardar o que sei só para mim. Sei que no meio do caminho vai acabar quebrando a cara. – Adrick... – Insisto. – Vai à luta Alice, descubra sozinha. Eu não quero ser a pessoa responsável pelo seu novo grande drama. E, hum, eu gosto de você. Por isso quero que vá com calma com as pessoas. Não confie em todo mundo, ga- rota. As pessoas podem ser terríveis e esconderem grandes segredos. Sou largada no meio do corredor com os pensamentos do tamanho de uma ervilha enrugada e com a certeza de que, além da Cloe, tem alguém que me esconde algo. Esse alguém deve ser alguém que eu goste muito e que o Adrick conhece muito bem. Será o Alec? O Derek? Silvia? Laura? Ana? Diabos... Eu deveria ir atrás do Adrick e colocá-lo contra a parede, socar a sua boca até que ele libere tudo o que sabe (isso se eu fosse uma lutadora nata ou uma heroína dos quadrinhos que tem de desvendar um terrível segredo que pode salvar ou destruir um mundo). O meu mundo. No fim das contas só fiquei chateada e mais desconfiada do que eu já era. – Pensei que ia para casa sem falar comigo. – Murmura Derek. – Estava tentando evitar falar sobre a minha mãe. Eu sabia que se eu encontrasse você, meio que querendo ou não, ia pensar nela. – Podemos não falar sobre ela, se quiser. – É, mas eu quero falar sobre ela. – Começo. Resolvemos andar. – Acredito que ela não me abandonou só por um cara cheio de grana. Acho que existe algo amais nessa história toda. – É? Por que você acha isso? Ela disse para você o motivo, Alice, então... – Sim, só que a história toda não bate, Derek. Ela não queria que a Belle contratasse um detetive para me encontrar. Nunca a permitiu. E depois que esse tal de Cristiano morreu, ela não me procurou. Sim, por que a Cloe sabia onde eu estava, sabia onde você morava, onde a madrinha morava. Isso não faz sentido.


– Tem razão. Bem, é melhor parar de pensar nisso, só vai ficar colo- cando caraminholas na cabeça. É melhor acreditar no que ela te disse. É a coisa mais fácil a se fazer, acredite. – Já pensei nisso. A questão é que eu não sei brincar de felicidade. Odeio fingir que a vida é fácil porque ela nunca foi. Quanto mais cavo esse abandono, mais chegou à conclusão de que o buraco é mais embaixo. Há algo de podre. Por que eu não podia ser encontrada, Derek? Hein? – Por um monte de motivos. Principalmente porque a Cloe deveria ter medo da sua reação ou coisa parecida. – Ah, já nem sei mais no que acreditar. – Vamos parar de falar sobre isso. Diz aí para mim: a Belle, como ela é? É parecida com você? Descemos a escadas e passo os últimos quinze minutos falando da Belle, sobre ela parecer ser uma ótima pessoa, sobre seu namorado Eric e, principalmente, sobre não se parecer nada comigo por ter alguns quilos extras. O Alec me liga e evito atender porque quero que ele sinta toda a saudade do mundo. – E como anda a sua vida amorosa? – Pergunto. – Literalmente movimentada. Amanhã tenho um encontro. Era isso que eu queria falar contigo por que preciso saber um ótimo lugar para levá-la. – É a Lena? – Não, ela está namorando, esqueceu? Resolvi que estava mais do que na hora de elevar a minha vida para um novo patamar. É quase que suicídio ficar esperando por alguém que nunca terá. – Olha só, meu garotinho resolveu crescer. – Bagunço o seu cabelo. – Diz aí para mim: quem é a garota? É outra? A garota é Isabella. Cursa o segundo semestre de Arquitetura na UFBA. Dezenove anos, usa óculos e toma açaí todas as tardes. Eles se conheceram numa livraria. Derek estava segurando o último exemplar de As Vantagens de Ser Invisível que tinha na loja. Ele ouviu quando ela perguntou à atendente se ali vendia o tal livro. A atendente respondeu que tinha vendido o último exemplar ao Derek – é obvio que a atendente apontou para o Derek. – Ele fez uma cara de desentendido e corou quando a garota de cabelo castanho e roupas descoladas olhou para ele com cara de chateada. Então ela foi embora e o Derek entrou em uma luta contra si mesmo por cinco minutos quando, finalmente, decidiu ir atrás da garota e encontrá-la na praça de alimentação na fila do Mc Donald. Por fim ele tomou coragem e perguntou: “Hum. Acho que você ficou chateada porque não conseguiu comprar o livro, certo?”, a garota olhou para ele sem entender nada. “Se quiser pode ficar com o meu. Eu já o li mesmo. Estava comprando para uma amiga, mas tenho certeza que posso comprar outro tão melhor quanto este.” Ela ficou sem saber o que dizer, e por isso franziu o cenho, per- guntando: “Tem certeza disso?” e ele respondeu: “Toda a certeza do mundo.” Aí foi a deixa. A garota o convidou para se sentar com ela na mesa e assim ele descobriu que ela se chama Isabella. O papo fluiu muito rápido porque, assim como as roupas, Isabella aparenta ser muito descolada. “Você costuma sair dando livros para garotas desconhecidas por aí?”, ela indagou. Derek sorriu, e mais ou menos disse: “Só para aquelas que me interessam, e você me interessou muito. Claro que senti estar fazendo a grande ação do ano, né?” Isabella disse que ele era hilário. Ela perguntou se poderia trocar telefone ou, quem sabe, sair mais vezes. Derek disse que sim e anotou seu telefone na última pagina do livro, o que teve vontade escrever embaixo “que isso seja infinito”. Ele gostou da garota porque, se não, nunca teria dado o livro. Gostou mais ainda quando ela anotou em seu antebraço o número de seu telefone com batom de


cor vermelha seguido de um: “Espero que guarde bem guardado. É você quem tem que me ligar. Se não me ligar vou entender que, ou perdeu o número ou não quer mesmo falar comigo. Perder o número já é o mesmo que não querer falar comigo, se é que está me entendendo.” É obvio que ela o quer. Por que outro motivo teria a Isabella de escrever seu número de telefone com batom no braço do Derek? Batom. Isso é tão erótico... Ainda mais vermelho. – Cara, ela quer o seu corpo nu! – Digo, rindo. – E você está me saindo um grande garanhão. Uau, onde estava Isabella que não apareceu nessa vida solitária antes, meu Deus? – Sem exageros, Alice. – Só faltou beijar a garota. Por que você não beijou a garota? Seu idiota, você tinha pegado ela no canto e tinha tascado um beijo nela. Aposto mil pratas que ela ficaria pensando nisso a noite toda. – Ah-ah, olha só quem está falando, a rainha dos relacionamentos. Alice, você começou a namorar praticamente ontem e já acha que pode ser uma profissional romancista. Se bem que romancista deve nem se encaixar nessa categoria. – E quem te disse que estou namorado? Estou apenas... Ficando. Amizade colorida. Sexo casual, essas coisas. Saímos da faculdade. Tem uma turma de amigos conversando em frente ao prédio, assim como milhares de motos estão estacionadas uma ao lado da outra. O vento sopra em meu rosto e eu me arrepio. – Falando em seu sexo casual, lá vem ele. Diabos. Ele tinha que aparecer aqui de novo? Lindo desse jeito, nessa bermuda que se molda perfeitamente ao seu corpo, na camisa de linho que parece social, mas não é. Mordo meu lábio inferior, louca de tensão. E mais uma vez as mulheres não resistem em cobiçá-lo com suas olhadelas. A vontade que tenho é de pegar o Alec e colocar dentro de uma caixa com trancas para que ninguém mais possa vê-lo, apenas eu. Porém sei que isso é impossível. Se o quero, terei de lidar com este tipo de atenção meio que exagerada de certas partes. No fim das contas, se fosse outra garota em meu lugar, é claro que tiraria uma casquinha. Afinal, olhar nunca tirou pedaço... Então por que me sinto tão incomodada? – O que você está fazendo aqui, Alec? – Sempre a mesma pergunta, que coisa. Até parece que não gosta de ser vista comigo. Dá para parar com a implicância? Às vezes eu gosto quando ele parece chateado. Fica sexy... Acho. – Oi, cara. – Ele meneia a cabeça na direção do Derek que faz o mesmo. – Ainda continua me odiando? – Continua, dessa vez em tom irônico. – Eu nunca te odiei. Só achei algumas coisas idiotas de sua parte como, por exemplo, deixar a Alice sozinha no restaurante. – É, confesso que isso foi chato. Voltando a você – e agora eu sou o foco, a menina dos seus olhos -, vim te buscar. Comprei Atividade Para- normal 3 para assistirmos hoje, o que acha? – Uma terrível escolha. Que tal Antes Que Termine o Dia? Ontem você disse que assistiria qualquer um. – Tudo bem, como quiser. – Vou indo, Derek. Ligarei amanhã antes... Antes do... Você sabe o quê. Qualquer coisa, estarei com celular ao seu dispor. – Oquei. Ah, quase ia me esquecendo: minha mãe disse que anda sentindo sua falta, então é melhor aparecer por lá antes que ela comece a apertar o meu juízo. Assim, dou de ombros. Adianto meus passos quando Alec me alcança e puxa a minha mão que, a esta


altura, está molhada demais. – Às vezes eu te odeio, Alice. – Acredite, a coisa toda é recíproca. Mais tarde, quando estamos na cama assistindo ao filme, choro. Talvez seja por conta do filme. Eu sempre choro quando o assisto. No en- tanto sei que não é isso, muito menos os últimos acontecimentos da minha vida. Choro mesmo por conta do Alec. É isso. Eu nunca me dei conta que, desde que ele apareceu em minha vida, tenho tido segurança de todas as formas possíveis. E imaginar que um dia isso pode acabar, que essa coisa toda entre nós pode sofrer apoptose é desesperador demais. Eu, de verdade, não aguentaria perdê-lo. Seria o mesmo que a morte.


Capítulo Vinte e Dois O garoto de programa A semana evaporou como água presa em roupas penduradas no varal sob o Sol escaldante. As provas foram super legais e acredito que estou longe de passar pelas provas finais, levando em conta tudo o que está acon- tecendo comigo ao mesmo tempo. Culminando com isso, estamos a três semanas do Natal. Eu acho que é a primeira vez que sinto que as coisas finalmente estão se ajeitando. Primeiro, porque sei onde a minha irmã está e sei como ela é. Segundo, por que tenho o Alec e, embora esteja toda amedrontada de estragar tudo graças as minhas grandes besteira, penso estar parcialmente completa. Noventa e nove por cento completa. Outro dia comecei a fazer novas perguntas ao Alec e mais uma vez ele não quis dar o que tanto quero: respostas. É estranho estar com um cara há mais de dois meses e não saber em que ele trabalha, de onde vem, se tem família e essas coisas básicas que todo ser precisa. Para ser sincera, estou muito cansada disso tudo e nem sei mais se aguentarei. “Preciso de respostas”, foi o que disse a ele antes que o Alec desse de ombros e entrasse no banheiro, ficando lá por mais de uma hora, fazendo que diabos eu não sei responder. Depois disso resolvemos que faríamos as compras de Natal juntos e ele me prometeu que contaria tudo o que quero saber sobre ele. Achei justo, mas também achei sinistro. Ele enfim iria me dizer que é um gangster? Um mercenário como naquele filme que assistir e odiei por achar nojento? Voltando ao assunto Natal, como hoje é sábado, decidimos ir ao shopping fazer as nossas compras porque, sinceramente, odeio aquela aglomeração na última semana. É a primeira vez que terei um Natal meu, na minha casa. Desde que fui abandonada, minhas ceias foram todas feitas na casa do Derek porque a minha madrinha, apesar de ser uma adorável pessoa, era judia. Andamos de mãos dadas pela loja percorrendo os olhos nas prateleiras repletas de comidas com rótulos expondo Papai-Noel. Nunca entendi de verdade qual o significado do Natal, a não ser a comida, claro. No fim das contas era só mais um dia de vida nesse planeta. Para mim, Natal significa capitalismo e ponto final. Mas hoje ganhei um novo sentindo para isso. – Nunca fiz um peru na vida – protesto. – Até hoje tenho nojo de pegar em galinha, veja lá em uma galinha GG. – Peru não é uma galinha GG – diz Alec, supostamente rindo de mim mentalmente. Posso quase ler seus pensamentos. – Que seja. – Murmuro – O que acha se eu usar calça jeans este ano? – Sei lá, nunca vi vocês nos anos anteriores. Que tal um vestido? É melhor valorizar essas lindas pernas, amor. Franzo o cenho e olho para ele com uma careta cômica demais para ser real, e real demais para ser cômica. Decidam-se por mim. – Do que me chamou?


– De amor, Alice. Não gostou? Você é o meu amor. – Gostei. É só uma novidade. Agora vamos continuar com as compras. Foco, Alec, foco. Ele ri e me aperta por trás. Lança desesperados beijos em meu pescoço e andamos feito dois pinguins perdidos. – Vou amar você para sempre. Acredita em mim? – Ele sussurra em meu ouvido. Pode ser e pode não ser. No entanto, acredito piamente que é verdade. Meneio a cabeça positivamente como resposta. Compramos o tal peru, frutas, queijo, vinho, panetone, chocolate, champanhe e decidimos que se faltasse mais alguma coisa, compraríamos depois. Ficamos um bom tempo na fila. De onde eu estava, avistei o Jona- than caminhando ao lado da mãe. Virei de costas morrendo de medo que ele me visse com o Alec porque, sério, não saberia como agir. Para o Jonathan, deveria ser ele ao meu lado fazendo compras de Natal. Por sorte ele entrou em outra loja, de certo já deveria estar de saída. Passamos as nossas compras quando me lembrei das nozes e optei por comprá-las outro dia junto com os ingredientes da rabanada. Saímos da loja com as compras dentro do carrinho. Um casal de verdade. Nossa. Eu sou parte de alguém. Só agora isso se tornou óbvio para mim. Não chore, sua meretriz idiota de uma figa. Vocês ainda não estão nem casados. – Está afim de fazer uma loucura? – Vamos pular de um penhasco ou coisa assim? – Não uma loucura tão grande assim, mas podemos pensar nisso depois. O que tenho em mente é bem simples. – Ele sorri maliciosamente e para de andar. – É só você entrar no carrinho e eu vou empurrando... Rápido. Prendo o riso que escapa rapidamente. – Isso não é uma loucura... É ridículo. O mico do ano. – Vai ser legal, amor – ótimo, lá vem ele de novo. – Eu sempre quis fazer isso, só nunca encontrei uma pessoa louca o suficiente. E você já me provou que é muito, muito, mas muito louca. – Cala a boca, Alec. Prefiro subir em mil garupas de moto a ter que fazer isso. Acho que já estamos grandinhos o suficiente. Ele começa a colocar as compras no canto e repito mil vezes a mim mesma que nunca, jamais farei isso. – Bem, já que negou o meu pedido, irei eu mesmo entrar no carrinho. – Isso é ridículo. Vai ficar entalado aí dentro! Só que a grande criança nem me dá ouvidos. Que legal, agora temos diversos curiosos se perguntando o que o lindo rapagão está fazendo colocando sua longa perna sexy dentro de um carrinho de compras. Começo a fantasiar o Alec entalado ou os ferros que compõem o carrinho se expandindo, só que nada disso acontece. E ele está lá dentro, meio abaixado, meio em pé. Seu ombro não deu para entrar. Esse cara é completamente louco. – Agora empurra, Alice!


– Eu não vou empurrar, não. – Empurra! – Empurro não, caramba... Que vergonha! – Oquei, se não começar a empurrar, em cinco segundos vou começar a gritar. Idiota! O segurança da loja sai do seu posto a passos largos dizendo algo parecido com “não pode entrar no carrinho, rapaz, está destruindo...” Penso rápido. Muito rápido. Aperto a barra do carrinho porque não me restam escolhas, e a gente já está na merda mesmo. – Empurra a porra! Aceito o seu comando e empurro o carro. No início é um trabalho pesado e até penso que nunca iríamos sair do lugar, mas, conforme eu coloco mais força, as rodas ganham vida no chão de linóleo. Quem está se sentindo entalada sou eu! Empurro. Empurro. Empurro e o treco ganha velocidade. Driblo as pessoas no caminho e algumas até saem por conta própria enquanto outras fazem cara feia e acham a maior irresponsabilidade. – Ele vai nos pegar! – Ele grita. – Saiam da frente! Saiam da frente, a garota é barbeira pessoal! Empurro com mais velocidade e desvio de um desses balcões que ficam espalhados pelo shopping vendendo celular, sorvete etc. Entro na brincadeira e até confesso que é divertido! Grito! Estamos fazendo a maior confusão no shopping! – Tente nos pegar! – Murmuro aos quatro ventos. – Vocês dois vão acabar ferindo alguém! Coloco mais velocidade no carrinho e me penduro nele. Assim, as rodas vão deslizando com o Alec dentro e eu pendurada! Que legal! As pessoas já nem estão na frente. Tenho que descer para fazer a curva! Empurro o carro para direita enquanto o Alec grita para que todos saiam do caminho. E eu grito por uma alegria idiota e deliberada. Somos dois idiotas. Deveria ser caso de policia. Dois loucos juntos. – Como vamos escapar desse bobão? – Grito para o Alec. – Foge para o estacionamento. – Ele berra. – Saiam da frente, pessoal! E eu continuo a empurrar antes de me pendurar outra vez. Somos dois idiotas apaixonados e ninguém deveria se intrometer. O amor é uma loucura! Ele e eu. Alec e Alice. Dois imprudentes. Perfeitos e imperfeitos juntos. Amantes de um crime perfeito... Nós somos o próprio crime. Migro para saída quando me dou conta de que as portas de vidros que se abrem automaticamente não abrirão tão rapidamente assim. Quem se importa? Teremos de pagar uma nova vidraçaria e ainda apareceríamos no jornal local. Seríamos presos e tiraríamos fotografias segurando uma plaquinha enquanto ficamos de perfil e de frente. Desço, coloco meus pés no chão e empurro o carrinho com toda a força enquanto a adrenalina me domina por completa. – Saiam todos! – Berro. Avisto as portas que se abrem sozinhas gratas por não estarem no térreo, porém fora da rota onde o carro do Alec está. E, bem, já estamos ferrados mesmo... – Segura a porta, moral! – Grita Alec. E nós escapamos em rompante pela porta. Alec desce do carrinho apressadamente, ferindo o calcanhar, e eu apanho as compras. Logo ele me ajuda. Corremos pelo estacionamento rindo feitas hienas perdidas na selva. Já no carro, em meio a uma crise histérica, profiro socos no braço do Alec e digo que ele é a pessoa


mais boba que conheci em toda a minha vida. Quando enfim damos por encerrados, decido que irei ao banco usar pela primeira vez a herança da minha madrinha que, honestamente, não chega a ser uma fortuna grandiosa, porém dá para pelo menos pagar uns quatro ou cinco semestres do meu curso, uma vez que ainda estou sem receber o salário do mês e o prazo para rematrícula está se esgotando. O Alec bem que fez uma tentativa barata de tentar pagar todos os semestres faltantes. Claro, neguei e achei um absurdo, sem falar que essa atitude só fez aguçar ainda mais a curiosidade de saber onde ele arranja esse dinheiro todo já que tem passado mais tempo comigo do que com qualquer pessoa deste mundo. O mais incrível da nossa estranha e simbiótica relação é que ainda não enjoei dele, pois eu sempre pensei que iria enjoar de todos os meus namorados – como se eu tivesse tido mil e um namorados. Ele estaciona o carro na garagem do banco e saltamos de mãos dadas até passarmos pelas portas giratórias. Procuro rapidamente pelo gerente e somos mandados aguardar ser chamados. – Ainda acho uma burrice isso que você tá fazendo, Alice. – Eu não. Se eu não gastar esse dinheiro pagando a minha faculdade, com que mais eu vou gastar? – Exibo um sorriso. – E, além do mais, tenho tudo o que preciso bem aqui. Alec sorri para mim, mas não chega a ser aquele imenso sorriso que tanto estou acostumada. É sem graça e mentiroso. Suspiro. – Vamos lá, Alec, uma última vez. O que diabos você ainda não me disse? Sobre quem você é? – Para com isso! Porra. Eu já disse que vou falar logo, em breve. Preciso de espaço, Alice. Não pode ficar me cobrando isso o tempo inteiro. Vou falar tudo o que precisar saber depois das festas. Quantas vezes terei de repetir? E, quer saber? Depois... Depois é bem capaz de você me dar um belo de um pé na bunda. – Por que eu te daria um pé na bunda? – Fico assustada. – Porque eu não tenho valor. Ele levanta da cadeira e leva as mãos ao bolso de um jeito que é absolutamente só dele. Tento fazer o máximo para afastar da mente suas tentativas de dizer que, por trás desse bom moço, tem um alguém desequilibrado e que não merece nem mesmo um pingo de atenção. Veja lá, amor. Comprimo os lábios e afasto o nó da garganta enquanto o assisto parado de costas ao lado da pilastra. – Sra. Alice... – Alguém chama o meu nome. Vou sozinha porque o Alec resolveu se emburrar logo hoje. A sala que entro é fria. Um homem de cabelo castanho, jovem e de queixo proeminente nem bonito e nem feio está sentado em uma mesa defronte ao computador. A impressora não para de engolir e cuspir papel. Explico rapidamente o que fui fazer ali e entrego meus documentos para ele que, agora, por ler seu crachá, sei que se chama Leandro. Ele sorri para mim e diz que eu teria de aguardar cinco minutos para checar todos os dados. Concordei com a cabeça porque estou muito longe com uma frase que envenena meus pensamentos. Por que eu não tenho valor Minutos depois, Leandro, o gerente, volta com duas folhas de papeis impressas e se senta em sua cadeira de presidente. – A senhora vai querer retirar tudo do cofre? – Sim, por favor. – O dinheiro será depositado na conta corrente da senhora. Quanto aos outros pertences, iremos fazer a retirada agora. Franzo o cenho porque nem sei que diabo de pertences sejam estes.


Ele me entrega uma caneta e vira as páginas para mim, pedindo que eu assine nas linhas trajadas. Dou uma lida na papelada, assino e entrego. Leandro carimba o papel e assina. Envia-os via fax e pede para que eu o siga. Sigo-o pelo corredor e entramos em uma sala onde estão dois guardas municipais conversando. Apanho a chave que me é entregue e sigo rumo ao cofre que, segundo a chave, diz ser o 669A. Abro-o e o gerente se afasta. Retiro três envelopes que lá estão e tenho privacidade para colocá-los em cima de uma mesa. Abro o primeiro envelope. Nele estão fotos. Pergunto-me por que a minha madrinha guardaria fotos. Minha e da Belle. Passo rapidamente as fotografias e depois abro o outro pacote que é um tanto pesado. Acaixinha preta desliza e cai em minhas mãos. Dentro do mesmo estão duas lindas e grossas alianças. Tem cor de ouro. Deve ser ouro porque não faz sentido uma pessoa guardar bijuteria no banco, certo? O terceiro e último envelope é, na verdade, uma carta. Abro-a e encontro garranchos, letras caídas como de uma pessoa que já nem tem forças para escrever. Penso um pouco e decido que lerei essa coisa em casa apesar de toda a curiosidade. Enfio as coisas dentro de um só envelope e saio. Entrego a chave ao gerente e sorrio para ele antes de agradecer e escapar do corredor para os murmúrios gerais de um banco. Como não encontro o Alec em nenhum lugar, suponho que ele já deve estar no carro. Saio da falação e do ar-condicionado para o Sol quente que fustiga o meu rosto. Encontro o carro do Alec no estacionamento, mas não encontro a pessoa em questão. Ótimo! Encosto no carro e coloco o envelope na cabeça como se ele fosse um boné improvisado. E lá vem ele com óculos de Sol e dois côcos gelados em suas grandes mãos. Como se nada tivesse acontecido, ele sorri para mim ao mesmo tempo em que fios do seu cabelo são soprados pelo pequeno e apropriado vento que por aqui passou. – Você demorou – diz. Ele me entrega o côco. Penso em me fazer de chateada, mas estou com sede demais para bancar a atriz agora. – É, tinha umas coisas lá no cofre. O dinheiro vai ser depositado em minha conta, se é que já não está lá. – Hum. Que coisas tinham lá? – Umas fotos, duas alianças e uma carta. Um drama familiar completo, verdade? – Sorrio. Voltamos ao antro e eu acho tudo muito incrível. Essa maneira com a qual nós estamos nos engalfinhando uma hora e se amando minutos de- pois. Com a ajuda do Alec, guardamos nossas compras de Natal e me deito no chão porque é o lugar mais frio que encontro na casa. Alec se deita ao meu lado e ficamos os dois a olhar para o teto do antro que está milagrosamente silêncioso. – Você é mesmo a garota mais estranha que já conheci. Estou aqui tentando entender qual a graça de ficar assim – ele diz, e tenho certeza que é mais para quebrar o silêncio do que qualquer opinião sua em relação a mim. Viro-me em sua direção e tenho a plena certeza do mundo que eu jamais, em toda a minha vida, encontrarei tal beleza em qualquer ser da face da Terra. Alec se senta e move rapidamente a sua mão direita dentro do bolso. Seja lá o que ele estava procurando, achou. Logo vejo a caixa azul aveludada sendo equilibrada em seus dedos. – Comprei para você. Eu iria dar daqui a três semanas, daí pensei que três semanas é muito tempo. Como tempo é uma coisa que não costuma correr a meu favor... – As palavras desaparecem em sua boca e seus olhos migram para a caixinha estendida em minha direção. Fico temerosa enquanto observo aquela pequena coisa em sua mão. Meu coração bate forte, chicoteia em meu peito. Se for o que penso ser, não posso aceitar. Não tão cedo assim.


– Pega logo, Alice. Apanho a caixinha e abro. Alívio. O que encontro lá é só uma dessas correntes que parecem brasão. Seguro o cordão dourado em meus dedos e tenho certeza que é ouro. Eu deveria protestar, dizer que nunca poderia aceitar aquilo, no entanto sei que nada adiantaria. Abro o pingente e nele encontro duas fotos. Uma minha, e uma dele. Cada uma disposta em um lado. – Para você ter sempre um pedaço de mim ao seu lado. – Oh, Alec, isso é tão... – Ridículo? Terrivelmente melodramático? – Não seu bobão. Isso é terrivelmente lindo. – Faço uma careta. – O chato é que ainda nem comprei o seu presente. – Tudo bem, ainda não está na semana de trocar os presentes. Eu é que sou apressado mesmo e, além do mais, você já é um presente, pode apostar. Agora vem cá que vou ajudar colocar isso aí. Entrego o cordão para ele e sento-me de costas. Ergo meu pequeno cabelo cor de merda. Alec coloca a cordão em mim e sinto o gélido toque da joia contra a minha pele que, modéstia à parte, fica bem lindo em meu colo. Faz um contraste que antes não estava lá. – Obrigada – digo. – Imagina. Agora, por favor, vamos deixar essa coisa melosa para lá. Isso meio que... Sei lá. Por que não lemos aquela carta? Enfim me lembro da carta. Aquele pedaço de papel que até o mo- mento é só uma coisa sem sentido para mim, mas que – grita parte de mim – pode ser algo que responda alguma de minhas perguntas. Levanto-me do chão e tento me lembrar onde foi que coloquei os objetos que trouxe lá do banco. Encontro-os em cima da mesa e despejo todo o conteúdo no tampo de vidro. Miro as fotos quando na verdade tenho que pegar a carta. A carta. Seguro o papel dobrado em seis partes, que nem ao menos está dentro de um envelope de cartas. Volto a me sentar, desta vez entre as pernas abertas do Alec que, particularmente, é aconchegante. Atrapalhada, abro a carta de caligrafia torta e respiro fundo. Querida e amada Alice, Espero que não seja tarde demais assim como espero que um dia es- teja lendo esta carta. Prefiro acreditar que, se não estiver lendo isto, é por que era para ser assim. Sinceramente estou peRdida sem saber por onde começar. Assim, decido que não irei me prolongar. Estou cansada demais e temo que consiga chegar ao fim do meu propósito. Então, minha pequena, aquela noite em que a sua mãe foi embora deixou muitas lacunas na sua vida e, mais do que isso, deixou dor. Sim, eu sentia a sua dor só de olhar para você. Eu me perguntava por quê. Por quê? Não sei como dizer isso de uma forma menos dolorosa, por isso irei direto ao ponto. Averdade dessa história toda é que você foi vendida, Alice. Havia semanas que a Cloe vinha tramando isso quando um casal rico disse que dava quanto ela quisesse por você depois que eles te viram cantar no coral da igreja. No início ela achou a ideia horrível. Eu até a aconselhei a não fazer essa monstruosidade. Mas então apareceu o Cristiano. Ele prometeu uma vida de luxo à Cloe se assim ela abrisse mão de suas filhas, uma vez que ele não suportava crianças. Assim, sua mãe ficou tão tentada às ambas propostas como acredito que Eva se sentiu quando lhe foi oferecido à maçã. E ela decidiu que te venderia, Alice, se assim Cristiano aceitasse levar ao


menos a Belle. E foi o que o homem fez. Aceitou a sua proposta assim como Cloe aceitou a proposta de te vender. Na época eu disse que a denunciaria se assim ela fizesse, mas ela jurou, chorou como uma louca que se eu a denunciasse, mataria a si própria. Mas antes mataria você e a Belle. Eu sei que não deveria ter cedido às suas chantagens, que deveria denunciá-la, no entanto fiquei completamente amedrontada, principalmente porque na última semana em que ela enfim fechou o acordo com o casal, ela estava completamente transtornada. Ela vendeu você por uma quantia bastante considerável e decidiu ir embora uma semana antes do casal te levar - por conta de passaporte, es- sas coisas -, porque, para ela, parecia ser mais fácil para você assim. Cloe se foi naquela noite com a Belle não porque você era a mais forte ou coisa do tipo, e sim porque você foi vendida para que ela pudesse ter uma vida que sempre sonhou antes de conhecer o seu pai, antes de vocês nascerem. Neste momento você deve estar se perguntando onde está este tal casal, certo? Ironias à parte, dois dias antes de consumar o acordo, este tal casal sofreu um acidente terrível de carro e morreram no local. Sabe, Alice, não sei você, mas acredito que isso tenha sido um sinal. Um livramento. Só Deus sabe o que teria de passar com este casal, dois estranhos que de repente se encantou por uma garotinha. Como sua mãe desapareceu no mundo, decidi que eu mesma te cri- aria. Assim, pelo menos, eu tiraria um peso das costas por ter, em parte, aceitado o que ela fez com você. Por fim, não quero que me perdoe ou coisa parecida, só quero que tenha encontrado a resposta que sempre dese- jou e que você seja muito feliz. Afinal, ninguém mais do que você merece essa tal proeza. Antes de por um ponto final, quero que saiba, minha pequena, que te amo muito. Sempre te amei e te criei como se tivesse saído de mim mesma. É uma lástima que a Cloe não tenha conhecido a pessoa maravilhosa que você se tornou. Outra coisa: não quero que fique se lamentando pela sua mãe porque, de certa forma, eu sou a sua mãe e, seja lá onde eu estiver, estarei sempre olhando para você. Com amor, Margarida. Releio as palavras com um pesar no coração enquanto grossas e inúteis lágrimas cambaleiam pelo meu rosto e um ruído que mais tarde percebo estar saindo de mim. Olho para o Alec, que está assustado e... Chorando. Aperto um de seus braços até que seus ossos virem farinha em minhas mãos, mas o Alec não se mexe. Apenas olha para mim, ainda assustado. Passamos um tempo bastante longo em silêncio e todas as palavras da carta reviram em minha mente sendo jogadas para lá e para cá como um peixe morto sem saber para onde ir já em estado de putrefação. Mas, as únicas palavras que escapam de mim são: – Cachorra! Ela... Ela fez muito pior do que me abandonar para ir atrás de um homem rico. A Cloe me vendeu, Alec! Vendeu-me como se eu fosse um bicho, um pedaço de carne! Ele não diz nada. Está mudo. – Como aquela mulher pôde ter feito isso?! – Choro. – Eu era apenas uma criança! Eu era sua filha. Saí de dentro dela. Será que isso não conta? Deus, como alguém pode ter um coração tão... Perverso e podre?


A imagem da minha mãe Cloe deitada numa cama, rindo, dizendo coisas legais de repente me é terrivelmente promíscuo. Saio correndo de onde estou e corro para o banheiro ao me sentir nauseada. Vomito. Vomito uma coisa ácida que vem da minha garganta, escorre da boca e espatifa no vaso sanitário. Tusso e limpo a boca com as costas das mãos. Choro. Por muito tempo. Odeio a Cloe. Odeio o fato de ter saído das entranhas desse ser ruim. Odeio os dias em que fiquei fantasiando a sua volta, quando ela nunca iria voltar, por que eu tinha sido vendida para dois estranhos e ela estava curtindo uma vida de puro luxo. Odeio o dia em que disse a mim mesma que a tinha perdoado, quando as suas lágrimas, deitada naquela cama, eram só lágrimas de crocodilos e palavras jogadas ao vento. Agora entendo por que ela nunca me procurou; entendo por que eu nunca poderia ter sido encontrada, por que Cloe acreditava que eu estava vivendo com o casal em que fui vendida como uma mercadoria barata. Pergunto-me: quanto vale um ser humano? Quanto? Será que ninguém pensa mais nos outros? Somos tão egoístas assim para não imaginar o sofrimento alheio? De onde estou ouço o meu telefone celular tocar e de repente o Alec aparece na soleira da porta, estica o braço em minha direção para entregar a coisa que toca, toca, toca e nunca desiste. Limpo a garganta. – Alô? – Digo, sem olhar quem é. – Alice, é Lis, lerda. – Ela murmura daquele seu jeito habitual de ser, ou seja, de um jeito meio mandão e meio meigo que tanto já me acostumei. – O que foi? – Você andou chorando? Está com uma voz estranha... – Pisco os olhos várias vezes e aperto a ponta do meu nariz. – Então já tá sabendo do Adrick, né? Atônita e nem um pouco com cabeça para fofoca, apenas pergunto automaticamente o que tem ele. – Ontem à noite ele sofreu uma agressão. Você sabe que ele virou garoto de programa, né? Só que, não sei direito, mas estão dizendo que foi uma briga motivada pelo ponto de prostituição. Disseram que ele não era da área. Enfim, só sei que ele está todo arrebentado aqui no hospital. Levou duas facadas e está com uma costela quebrada, sem falar do nariz. Levanto-me do chão grata por ter outras coisas no que pensar ao invés de ficar remoendo o passado, principalmente sobre o que aquela mal amada fez. – Ele disse que quer ver você, Alice... Que precisa muito falar com você. Faço uma careta medonha para o espelho e me acho a coisa mais feia do mundo com o esse rosto vermelho, lambuzado e o nariz escorrendo. – Em que hospital ele está? O mais estranho de tudo é que, devido à nossa pequena e ridícula briga, achei que o Adrick não queria falar comigo tão cedo. Pensar que agora ele está querendo fazer isso é um tanto assustador. Principalmente depois dessas fofocas todas. Às vezes, enquanto estou conversando com alguém sobre determinada pessoa, tenho mania de fazer pequenos comentários que mais tarde se distorcem e caem na boca de outros como fofoca. Será que alguém andou falando coisas e agora vai sobrar para mim? Como não tenho nada a temer mesmo, beijo o Alec e desço do carro. Ele terá que resolver algumas coisas agora, por isso voltarei com a Lis ou de táxi. Assim que entro no hospital avisto um caixa eletrônico e retiro uma quantia de dinheiro. Migro para recepção e, antes que eu possa perguntar


onde encontrar o quarto do Adrick, vejo a Lis andar de braços cruzados em minha direção com aquele seu batom vermelho nos lábios. – Como ele está? – Pergunto. – Mal, mas vaso ruim não quebra. Achando irônica essa minha vida de fazer visitas a hospitais. Sigo a Lis, que logo para defronte a um quarto e abre a porta. Vejo o Adrick na cama todo arrebentado. Um braço na tipoia, uma perna imóvel presa em um gancho, um rosto inchado e roxo e um abdômen enrolado numa atadura manchada de sangue seco. Resumindo: um caos em pessoa. Sem palavras para descrevê-lo. Ele dá um sorriso doloroso para mim sob os olhos que mal se abrem. – Garoto, garoto, garoto, que diabos andou aprontando? – Digo. Passamos um bom tempo falando bobagens, que dizer, eu e Lis, porque o Adrick só fazia escutar. Quando ficávamos em silêncio, o arcondicionado zunia e eu ficava mirando as flores no vaso com água. De- pois que Lis disse que iria em casa e voltava, foi que ele começou a dizer. Dois caras o espancou, pois o Adrick estava fazendo programa no ponto que era só deles. Bateram nele até que ficasse inconsciente. O Ad- rick não se lembra como foi parar no hospital. Seus pais não apareceram até o momento. Só pagaram pelo estadia e disseram que o filho teve o que mereceu, o que me fez pensar que os pais de hoje em dia não amam mais os filhos como antigamente. Depois... Depois o Adrick começou a dizer coisas estranhas. Coisas sobre o Alec. – Lembra quando eu disse aquelas coisas na última vez em que nos vimos? Então, eu estava me referindo ao Alec. Talvez você saiba, mas acredito que não e, isso é mais um alerta do que uma fofoca. – Você está me assustando – falo. Ele pisca os olhos. – O Alec é um garoto de programa, Alice.


Capítulo Vinte e Três Efeito dominó Desço as escadas do hospital completamente absorta. Sinceramente, hoje não pode ser o meu dia. “O Alec é um garoto de programa, Alice.” Como eu nunca notei isso? As coisas fazem sentido agora. Ele sempre estava desaparecido à noite – não ultimamente. Os assédios das mulheres e os olhares de homens também não negavam. O fato dele ter sempre dinheiro é mais um ponto. A maneira como o Alec me pega são pegadas de um amante do sexo. Estou dizendo que o meu melhor amigo, Alec, é garoto de programa, disse o Jonathan. Esse mundo não pode ser tão pequeno assim. Ele conhece o Nêmias e frequenta a Secret Five. Deve ser daí que as pulseiras saíram. A Ana sabia de tudo. Ela queria abrir o meu olho porque, com certeza, o seu ex-namorado tinha lhe contado. Tenho vontade de gritar. Porém meu grito está sendo reprimido por alguma coisa presa em minhas cordas vocais. As lágrimas rolam pelo meu rosto porque fui traída mais uma vez por uma pessoa que tanto amo. Vejo a Lis vir em minha direção e corro pelo hospital. Corro para a saída e logo encontro um táxi, grata pelo meu traidor ter tido coisas para resolver, pois seria uma confusão daquelas na porta do hospital. Enterrome no banco traseiro e explico rapidamente o caminho que o motorista deve seguir. A sensação que tenho é de estar afundando em areia movediça e a qualquer momento serei enterrada viva, o que teoricamente seria uma boa. O telefonema da Amanda revira os meus pensamentos, e as tentativas do Alec em me dizer que ele não era pra mim mistura-se com todos os outros. – Está tudo bem, moça? – Pergunta uma voz. Limito-me a responder. Nada está bem. Tudo está se desmoronando ao mesmo tempo em que me sinto presa numa teia enquanto suas extremidades me levam ao Alec, o que me leva às mentiras. Essas mentiras são como demônios que atormentam a minha alma. Como alguém poder ser tão idiota? O táxi para em frente ao antro. Pago a corrida e desço. Em vez de ir para casa, pego o caminho contrário até a casa do Alec. Bato com força no cadeado e ninguém aparece, sinal de que ele não está em casa. Se estivesse, seu carro estaria na garagem. Decido entrar. Abro o cadeado e pego a chave de sua casa em minha bolsa. Mentiras em cima de mentiras. Promessas baratas. Entro na casa e tenho um novo excesso de choro. O perfume impregnado na casa, os móveis, e até a pequena mancha no piso é lembrança viva do Alec. Jogo a minha bolsa em cima do sofá e vou para o seu quarto. Olho-me no espelho e choro. Despenco no chão. A ferida dentro de mim só sangra através do buraco que nunca irá cicatrizar. Perco a noção de tempo e espaço ali, sentada no chão com o rosto enterrado em meus joelhos. Ouço o som das chaves e os passos que se aproximam cada vez mais revelando um homem alto e lindo, sem camisa, parado na soleira da porta com uma cara de quem não entende nada. – Alice? Meu nome em sua boca é um escárnio. Eu tremo. A vontade que tenho é de esquecer que o mundo nunca prestou. Tenho vontade de fazer desse pesadelo só um pesadelo. Irreal, sabe? No entanto, é impossível. A realidade é cruel e eu sou só um alvo fácil de ser enganado. – O que aconteceu, meu amor? – Suas palavras são sujas.


Ele caminha em minha direção, agacha-se diante de mim e tenho a plena certeza de que suas mãos querem tocar o meu rosto; que seus dedos longos e hábeis querem limpar as minhas lágrimas. Apesar de tudo, vejo algo estranho em seu olhar. Dor. – Não. Toca. Em. Mim! – Digo antes que ele faça isso. Aperto os olhos e as lágrimas me escapam em demasia. Quando abro os olhos, suas mãos estão paradas no ar. Ele está confuso. Muito confuso. Enfim o Alec desiste e se levanta. Afasta-se de mim e anda de ma- cha-ré com as mãos no quadril que, particularmente, ainda acho o mais lindo quadril da face da Terra. – Será que você pode me explicar o que está acontecendo? Que diabos eu fiz dessa vez? Duas horas atrás estava tudo bem. Fungo. A dor que sinto no peito é sufocante. Eu nunca pensei que sentiria esta dor, nem mesmo quando fui abandonada e nem quando a Cloe morreu ou quando eu soube a verdade do meu abandono. É uma dor nova e diferente. Isso deve ser a pior dor. Apesar de tudo, a gente nunca consegue lembrar da dor que um dia sentimos. É isso. A dor é uma coisa presente e nova a cada segundo. E essa dor é a pior de todas, agora. – Você me traiu. – A palavras voam de minha boca, duras e secas. – Do que está falando, Alice? Por que eu te trairia? Encaro-o. – Ah, Alec, você é o maior mentiroso do mundo! – Berro. – Eu odeio o dia em que te conheci! Odeio você! Odeio! Ele tenta uma nova aproximação, mas eu sou mais rápida e levantome. Espremo-me na parede com medo do seu toque. – Quem é você, Alec? Quem é o cara que eu coloquei dentro da minha casa? Quem é o cara a quem eu me entreguei e acreditava amar? A esta altura ele já sacou. Ele sabe que eu sei. As lágrimas dessa vez saem dos olhos dele, rolam pelo mais belo rosto de homem, pelas feições que me enganam. Alec vem em minha direção. Dessa vez as suas mãos me apertam e seus braços tentam abraçar o meu corpo. Luto com as suas mãos. Luto contra os seus braços. Sou tão fraca! Com as minhas mãos espalmadas em seu peito nu, e os seus braços que me abraçam forte e desastrado, choro. Ele chora. O que tenho no momento é raiva, e por isso arranho o seu peito com as minhas unhas. Deixo longos caminhos brancos que rapidamente ficam vermelhos e brotam pequenos pontos de sangue. Afasto-me. – Alice... – Ele roga o meu nome. – Eu te odeio, Alec! – Berro. Pego a primeira coisa que vejo. Um porta-retratos. Atiro-o em sua direção e, felizmente ou infelizmente, ele consegue se desviar. O portaretratos explode na parede e despenca no chão, em cacos. Alec vem em minha direção mais uma vez com o peito manchado de sangue e o rosto desfigurado de dor. – Para com isso, porra! – Ele segura as minhas mãos para que dessa vez não deixe marcas em seu perfeito corpo. – Você não está destruído as coisas, está me destruindo por dentro. – Foi você quem me destruiu, foi você. – Choramingo e cedo. – Diz pra mim, Alec, diz que é tudo mentira. Diz que você é só um cara normal por quem me apaixonei.


– Eu não sei o que sabe, Alice, mas tenho uma noção. – Ele concorda com a cabeça, o rosto molhado. – E é isso. Eu disse que não era para você. Quantas vezes eu tentei te dizer isso? Quantas vezes fiz de tudo para me afastar? E o que você fazia? Aproximava-se mais e mais, e dizia que não se importava. – Suas mãos me soltam – Eu sou um garoto de programa, sim. – Finalmente ouço aquelas palavras vindo dele. Tudo se consuma. Afasto-me. Um som doloroso escapa de mim. Um som inconsequente e irreal. Não quero ficar nem mais um segundo nesse quarto, nessa casa. Troto em direção à sala para enfim escapar deste calabouço. – Espera, Alice. – Ele corre. Eu corro e apanho a minha bolsa, mas o Alec é rápido demais e se posiciona na porta como uma criança mal criada e chorona que não quer que a sua linda babá vá embora. Paro diante dele. – Por que você nunca me disse, Alec? Por que escondeu isso de mim o tempo todo? Por que deixou que isso só se arrastasse? – Continuo a berrar. – Achou que eu nunca iria descobrir a verdade? Sou tão tola assim? – No início, achei que não era preciso porque, sinceramente, você não era o tipo de garota que contrataria os meus serviços. Ninguém gosta de contar essas coisas, Alice, não para alguém como você. – Ele limpa o nariz. – Depois começamos a nos envolver e eu fiquei com medo de con- tar porque me apaixonei por você. Todos os dias eu pensava em te contar. Desde que me apaixonei por você, me senti atormentado como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Eu queria te contar, principalmente quando ficava me fazendo perguntas. – Por que não me contou, Alec? Por que deixou que eu soubesse por terceiros? – Tive medo disso que está acontecendo agora. Eu te amo, cacete. Tive medo de perder você. Porque amo você, Alice, e faria qualquer coisa para não te ver assim. Se eu soubesse que um dia iria te encontrar, jamais entraria nessa vida. – Lanço um olhar duro. – Acredite em mim, acredite! Imagino-o com outras mulheres, quem sabe até mesmo homens. Imagino outras bocas beijando a sua boca, mexendo em seu cabelo, acariciando a sua pele, tocando todo o seu corpo. Uma ideia louca me passa pela cabeça. – Quando... Quando dormiu comigo, naquela noite... Era o cara que eu amava ou o garoto de programa ali? Ele faz uma careta que, por um segundo, sua dor é a minha dor, e essa dor é uma faca de gume que perfura, dilacera e destrói o coração. – Nunca mais diga isso! De repente quero feri-lo assim como me sinto: ferida. – Pois é assim que as coisas estão em minha cabeça. Vamos lá, Alec, diga para mim: diga quanto custou aquela foda... Aquela outra trepada! Não é assim que vocês dizem? Remexo em minha bolsa à procura do dinheiro. Acho as notas novinhas que tirei no hospital e as seguro. Ele me olha assustado. – Seria mais fácil se tivesse me dito. Acho que nem me sentiria tão amadora assim. – Dou um sorriso irônico. – Foi divertido para você, né? A garota inexperiente e o garoto de programa fodão. Diz aí: quanto você cobra para deflorar mocinhas idiotas como eu? – Está me ofendendo deste jeito, Alice. – Ora, veja só! Está se sentindo ofendido, Alec? Está? – Começo a chorar tudo de novo. – Imagina como me sinto agora. Tenta imaginar. Apenas tente, pois nunca irá saber o que é ser enganada. Eu confiava em você. Eu amava você. Ele desgruda da porta e me segura pelo ombro e me beija. Desconecto a minha boca da sua e


estapeio o seu rosto ao mesmo tempo em que gritamos simultaneamente. – Você me ama! – Ele grita. – Eu tenho nojo de você! – Eu grito. Desvencilho-me e atiro as notas de dinheiro em seu rosto. As lindas notas rodopiam pelo ar e se espalham. Adianto meus passos e mais uma vez a minha tentativa de escapar é boicotada. Alec me segura. Eu soco o seu peito arranhado fazendo meus dedos mancharem com o sangue que começa a se tornar uma linha tênue de crosta escura. – Não vai embora daqui. Assim não, meu amor. Tem que ter um jeito de resolver isso. Tem que ter! Eu te amo tanto, Alice. Se eu agi assim, foi por medo. Precisa acreditar em mim. A voz mansa e ao mesmo tempo máscula em meu ouvido me faz ceder. Abraço o seu corpo. Agarrome ao seu corpo e aperto tanto os olhos que penso que a qualquer momento o mundo vai implodir. Somos dois chorões. – Eu, por mais que queira, não consigo aceitar a sua traição, Alec. Ao mesmo tempo em que estava ali comigo, beijando-me e dizendo que me amava, no outro estava se deitando com outros por dinheiro. – Você não conhece nada sobre mim. Se entrei nessa vida, é porque foi a única alternativa que me sobrou. – Se não conheço nada sobre a sua vida, foi porque me negou saber dessas coisas. Quantas vezes pedi para que me dissesse e que me contasse sobre você? E quantas vezes me negou isso dizendo que precisava de um tempo? Estava sempre adiando! – Nunca quis me prostituir. Não sabe como é se deitar com uma pessoa diferente todos os dias, beijar uma pessoa que nunca viu na vida enquanto seus pensamentos viajam para outro lugar e você se pergunta que diabos está fazendo de sua vida. E continua ali, beijando, trepando, fingindo uma coisa que nunca existiu! – Ele berra. - Parece fácil para quem tá de fora, mas é totalmente ao contrário. É difícil, principalmente estimular um prazer que não está lá por mais que você tente. Quando estou com esses estranhos, são com certeza as horas mais longas da minha vida! Pare de me condenar, por favor, pare! Isso está me matando! Estou morrendo por dentro! Não me julgue, porra, não me julgue! A vontade que tenho é de esquecer tudo. Quero matar o Alec. Afastome dele o mais depressa possível porque este contato é tão dissimulado! – Então quero que continue morrendo, Alec. – Murmuro, pois sou tão malcriada, tão malévola! Caminho de macha-ré. Observo o rosto do homem que amo e que farei o máximo para esquecê-lo. Alec não é uma pessoa para ser amada, digo, amada da maneira como eu amo. A partir do momento que estou com uma pessoa que tem como profissão dormir com outros, o amor deixa de ser a coisa mais importante aqui. E, por favor, não quero que ninguém me condene. Quem, afinal, iria aceitar essa situação na qual fui colocada? Olho para o relógio pendurado na parede e já está tarde. Quase meianoite. – Acabou, Alec. Acabou. – Alice! – Se tentar me impedir de sair, juro por Deus que vou começar a berrar e a quebrar as coisas até que alguém apareça. Pego a minha bolsa que nem sei como foi parar no chão. Escapo. Fecho a porta atrás de mim e fico parada ali por um tempo, destruída. Fi- nalmente a ficha cai: nunca mais existirá Alec e Alice, Alice e Alec. Corro da casa do Alec até o antro toda chorosa sentindo-me sozinha e vazia. Eu não me sentia assim há tanto tempo. Agora só me resta aprender a conviver sem ele.


Não abro a porta de casa. Em vez disso, me sento ali nos degraus. A rua está tão quieta que o medo de ser roubada é só medo mesmo, pois nada vai acontecer. É como se eu estivesse presa em uma vila dessas de filmes que nada acontece e tudo é só perfeição. Mas então a quietude e o silêncio ganham ruídos. Eu sei de onde vem esses ruídos: da casa dele, do Alec. Logo, ele sai com a sua moto turbinada e pilota em direção ao antro. O ronco da moto ressoa por toda a rua até ele parar a mais ou menos um metro de mim, descer da moto e vir em minha direção. – Acredite se quiser, mas com você foi tudo real. Cada palavra que disse. – Diz, todo machão. – E eu não preciso disso. Preciso de... Ah! Então ele atira o envelope aos meus pés e sobe em sua moto trajando calça jeans e uma camiseta, nada de capacetes. E ali, naquele mesmo instante, as coisas fazem sentindo para mim. Sei o que ele vai fazer para eliminar a raiva que está sentindo de si próprio. A moto ronca alto. Em um passe mágica a noite ganha vida no asfalto negro diante de mim. Grito: – Alec, o que vai fazer? Ele não me escuta, óbvio. Vira na esquina e ainda sim posso ouvir o ronco da sua moto envenenada. Pego o envelope e vejo que é o dinheiro que atirei em sua cara, desprezando-o. Porra, o que eu fiz? Desesperada, procuro o meu celular. A minha mente e o meu ser gritam que hoje o Alec vai fazer uma besteira. Temo, pois parte disso tudo é minha culpa. Ligo para o Derek, a minha salvação. – Derek, precisa vir aqui ao antro, agora. Onde será que as corridas acontecem hoje? Volto à casa do Alec que, por sinal, ele a deixou aberta. Encontro tudo bagunçado e quebrado. Procuro por uma agenda e amaldiçoo-me por não conhecer nenhum amigo do Alec... Tenho uma ideia. – Jonathan? – Digo assim que ele atende ao telefone. – Aqui é a Alice. – Sim, eu sei que é você. – Desculpa ligar a essa hora, mas preciso saber de uma coisa. – Como ele não diz nada, continuo. – Você sabe se vai acontecer algum racha de moto hoje? Por favor, diz que sabe de alguma coisa. – Sei, sim... Mas para que quer saber? – Precisa me dizer, Jonathan, vamos! Não dá para explicar. – O que está acontecendo...? – Diz logo! – Berro e ando de um lado para o outro atrás de uma caneta. Anoto o endereço rapidamente no papel para o caso de esquecê-lo. Sei onde fica este lugar. Fecho a porta e saio depressa. Fico ali mesmo na porta de casa esperando o Derek. Ligo para ele de novo e peço para que se apresse. Quinze longos minutos depois ele aparece. Entro apressadamente no carro e repasso as coisas que aconteceram desde a carta até a descoberta de que meu namorado é um garoto de programa. Talvez isso seja para que eu pague a minha língua por ter criticado o Adrick. E isso também não importa mais. O Derek não me censura, pelo contrário, me ouve com atenção. Até diz que fiz tudo de cabeça quente e que deve haver outra explicação. Pela primeira vez ele defende o Alec dizendo que ele realmente parecia me amar. Tenho a impressão de que já passamos pelo mesmo lugar umas três vezes. Peço para o Derek parar o carro e perguntar a uma garota de programa – que irônico – onde fica essa tal rua porque ele nunca foi neste lugar no escuro. Não consigo me lembrar e o GPS não está aqui. Fica a três quadras do local de onde estamos e começo a ficar muitís- sima nervosa enquanto o Derek


vira uma esquina e outra. Enfim ouço uma correria de motos a toda velocidade sem se importar com os pedestres loucos que correm e correm para salvar a própria pele. – É aqui. – Digo – Encosta o carro, Derek. Ele faz o que mando. Antes que o carro fique totalmente inerte, desço em meio àquela confusão que mal faço ideia do que seja... Ou faço. Ouço a porta do Derek ser batida. – Alice, volta aqui. Ficou maluca, foi? Não o escuto. Continuo a me afogar no mar de pessoas desesperadas. Sou tombada por mil e uma pessoas. Ouço o som de uma sirene vindo de longe e me desespero. – Aconteceu alguma coisa, Derek. Essas pessoas não estariam correndo assim se estivesse tudo bem. Corro no sentido contrário que a multidão corre, e o Derek corre atrás de mim berrando o meu nome aos quatro ventos. Eu só consigo pensar em uma coisa: aconteceu alguma coisa com o Alec. Se aconteceu, é tudo culpa minha. Por mais que eu esteja com raiva e que nunca mais queira vê-lo, ainda sim não desejei o seu mal. Por isso, enquanto corro, digo mentalmente que nada aconteceu com ele, embora sinta. Sou tombada por alguém e atirada no chão. Droga. Outra pessoa tomba em mim e uma moto se aproxima. Acho que desta vez é o meu fim. Entretanto, a pessoa quem pilota a moto freia e desliza para o lado, cai e derruba outras pessoas. A moto fica no chão girando e girando por conta própria. É tudo um caos. Levanto-me do chão e ouço os xingamentos. Derek puxa o meu braço, mas insisto em correr seja lá para onde for. Choro. As coisas começam a se concretizar. Tem polícia e ambulância ali. Vários policiais algemando e prendendo pessoas enquanto continuo correndo. – Alec! – Chamo o seu nome. – Alec! – Grito de novo. Corro para aquela aglomeração maior quando sinto alguém puxar o meu braço com força. – Onde pensa que vai mocinha? – Pergunta o policial. Ele gira o meu braço e empurra meu corpo para outro policial. – Prende essa aí também. – Mas eu não fiz nada! – Grito. – Eu não fiz nada! – Ei, o que vocês estão fazendo? – Ouço a voz do Derek que vem para me acudir, porém é recebido com um soco na boca do estômago por outro policial. Berro de raiva, dor, medo... Tudo junto e misturado. – Opa, opa, opa... Pode soltar esse aí. O que está fazendo aqui, Derek? – Diz o policial que me abordou. O policial que segura o Derek imediatamente o solta e o meu amigo fica tossindo por um tempo antes de começar a falar. Eu continuo a me movimentar para tentar escapar. – A gente não estava aqui antes. Viemos procurar um amigo. – Ele diz. – Mas sabe que aqui é um ponto onde acontecem pegas de motos. Sabe que não deveria estar aqui, Derek. Seus pais sabem que está aqui? – Eu sei. – Ele olha para mim. – Pode soltar ela agora? – Derek aponta para mim. – Ela está comigo. Só viemos procurar um amigo. Sou largada pelas mãos que antes me espremiam. Esfrego o lugar vermelho e varro o local com os olhos. – O que aconteceu aqui? – Um acidente. – Responde o policial. – Duas motos tombaram uma na outra. Sinceramente, eu não sei o que vocês, jovens, têm na cabeça. Esqueço que estou entre policiais e dou de ombros. Mergulho nas pessoas que ali estão e as empurro para tentar chegar às extremidades que tanto almejo. Ouço resmungos, mas ainda sim continuo até


chegar à fita amarela. Primeiro vejo a moto. A moto que conheço está toda arranhada e jogada no chão feito um item de um ferro velho. Atormentada, procuro pelos corpos que estão a uns metros mim e só consigo ver um corpo. O corpo do Alec está estendido no chão e todo o sangue se espalha pelo asfalto formando a maior poça vermelha que já vi na vida. Grito deliberadamente e levo as mãos até o rosto. Tremo e choro desesperada. Grito de novo e meus joelhos tremem como nunca antes. Tento passar por baixo das fitas, mas é impossível. Mais uma vez alguém me segura, e dessa vez é uma ilusão ser largada. Os paramédicos levam um pranchão até o Alec e carregam, com todo o cuidado, o seu corpo imóvel e sangrento até a coisa branca. Ali eles fazem seus procedimentos padrão e só consigo pensar: ele está morto. – Alec! – Sussurro. Abraço ao corpo que me segura e mais tarde descubro, através do perfume, que é o Derek. Assisto colocarem o Alec dentro de uma ambulância e perguntarem a mim se eu queria ir dentro da ambulância ou se ele tinha algum familiar que eles pudessem ligar. O Derek responde por mim. Eu não fui dentro da ambulância porque, segundo meu amigo, eu estava muito nervosa e só iria complicar as coisas. E o Alec também não tinha ninguém. Se tinha, quem saberia? Eu acho que tudo é minha culpa, sabe? Se eu não tivesse brigado com ele, se não tivesse dito todos os disparates que disse... Se tivesse aceitado a mentira que ele me contou, talvez nada tivesse acontecido. Mas esses “se” são muito complexos agora. O que adianta voltar atrás? Nada. Ainda sim sou a culpada. Sem me lembrar como, fui parar dentro do carro. Ouço o som das sirenes e de repente a ambulância abre caminho. Vejo o Derek segui-la, certa de que é o Alec quem está lá dentro. Enquanto isso eu estou aqui sem saber se ele está vivo ou morto por minha causa. Sou um grão de feijão. Sou uma pérola pequenina e assustada louca para se esconder e adormecer em sua concha. Sou uma árvore sem vida. Porém, desapareceram com o meu refúgio. Não ouço mais nada. Os carros que passam são velhos fantasmas. Queria poder ter feito tudo diferente. Eu disse para ele para parar com isso, para deixar de frequentar esses malditos rachas. Ele disse que nunca mais faria isso... Ou será que me enganei com a sua resposta que agora me falha na memória? Do que adianta dizer se ele foi/é tão cabeça dura? Chegamos ao hospital. Pulo do carro o mais depressa que consigo e corro até a área de emergência onde eles ainda estão tirando a maca de dentro da ambulância. Fico parada ali, na ponta dos pés, tentando ver alguma coisa. Nada. Apenas duas pessoas se moveram no cubículo até sair. Finalmente, estão completamente fora da ambulância. Paro ao lado da maca e vejo o rosto do Alec arranhado e todo manchado de sangue. Sua roupa é só um farrapo. Através de um buraco na camisa consigo ver o lugar onde deixei as minhas garras de leoa maluca. Procuro por movimentos em seu corpo, mas os meus olhos estão embaçados. É difícil saber se ele está vivo. A maca começa a se movimentar. Grudo na barra lateral da maca e meus passos são rápidos para poder acompanhar com agilidade a coisa que carrega o seu corpo e desliza pelo chão de linóleo. – Fala comigo, Alec, fala comigo! – Choramingo. Nada acontece. Absolutamente nada. – Com licença, senhorita, está dificultando o nosso atendimento – ouço alguém dizer.


Continuo a correr junto à maca com um medo preso em mim e um coração que bate freneticamente. – A partir daqui a senhorita não pode mais passar. Do outro lado as portas se abrem e os paramédicos, juntos com o corpo do Alec que desliza sobre a maca, desaparecem. Fico olhando por um tempo, através do vidro redondo, o corredor vazio na esperança de que alguém saia dali e me diga que está tudo bem... Os minutos passam e passam. Só passam. Sento-me no chão do corredor onde as pessoas andam de um lado para o outro com as suas próprias dores, seus próprios problemas. No entanto, elas não resistem em olhar a garota derrotada. Estou sufocada. Preciso saber o que aconteceu. – Ei, Alice, estava te procurando. – Diz Derek se ajoelhando. Olho para ele, toda chorosa. – Eu nunca quis que isso acontecesse com ele, Derek. Você acredita em mim? Acredita que, apesar de tudo, sempre desejei o bem do Alec? Ele me abraça. Eu nunca tinha percebido antes o quanto um abraço às vezes cai bem. Principalmente de alguém que realmente se importa com você. – Acredito. – Por que as coisas tem que ser desse jeito? Queria poder trocar de lugar com ele, queria... – Cale a boca, Alice, nunca mais repita isso. Sei que está sofrendo, mas... – Mas a culpa é toda a minha. – A culpa não é sua por ter dito o que estava sentindo e por ter acabado com a farsa do Alec. A culpa é toda dele por ter ido até este maldito lugar. Ele sabia, ele sempre soube lidar com as consequências de seus atos e tenho certeza que ele não ia gostar nada de ver você se culpando. Pode até ser, mas tudo que sinto é isso: culpa. Se eu pudesse voltar atrás, com certeza teria feito as coisas diferente, menos dramáticas. Diria coisas menos duras. Só que naquele momento – até mesmo agora – eu só senti raiva do Alec por ter me enganado todo este tempo quando eu tinha confiado tudo de mim a ele. Todas as vezes em que penso que ele estava comigo e dormindo com estranhos é horrível. Pode não parecer, mas dói, e talvez seja mais fácil para eu estar no lugar dele. Assim não ficaria remo- endo essa história. O chato é que uma hora a gente sempre acorda – ou não -, e esse acordar é doloroso. É muito ruim ser humano. – Eu queria ficar com ele. – Choramingo. – Vocês ainda vão ficar juntos. Vai ficar tudo bem. É. Vai ficar tudo bem uma hora. No entanto, tudo o que desejo ex- atamente agora é apagar. Estou sendo torturada pelos meus próprios demônios. Queria que a Cloe nunca tivesse existido; que o Alec nunca tivesse existido; que suas palavras e seus beijos fossem apenas pedaços de um sonho; que aquele sorriso cálido eu pudesse encontrar em qualquer pessoa que não fosse especial; que aquele sorriso que me arrebenta não fosse tão dele, tão único. Queria uma vida normal, sem dramas. Uma vida onde a garota tem uma família feliz, uma irmã chata, mas que ela ama, e um namorado normal que não abre a porta do carro e nem diz que te ama vinte quatro horas por dia. Um namorado que arrota na mesa e vocês brigam por futilidades e logo fazem as pazes... Fico intrigada com os meus botões. Se eu tivesse dado uma chance ao Jonathan, ou ao Diogo, com certeza as coisas teriam acabado de outro jeito. Sem tragédias. E, Jonathan, como fui tão burra? Se você ao menos tivesse visto o Alec comigo teria me dito... Ou não. Ah, droga, agora é não adianta mais. Que amor era esse que ele julgava sentir por mim e que não conseguiu impedi-lo de ganhar dinheiro


dessa forma e que o impediu de dizer a verdade? – Senhorita. – Ouço alguém me chamar. – Você é parente do Alec Salles? É o policial. Descobri que é o tio do Derek, por isso ficamos livres de enrascadas. – Sim, quer dizer, não. Para ser sincera, nem sei o que dizer. Levanto-me às pressas do chão, limpo o rosto com as costas das mãos feito uma criança que finalmente conseguiu comprar sua boneca de porcelana depois de tanto espernear. – Ela é a namorada dele, quer dizer... – Disse Derek. – Que seja. – Ele estende a carteira de identidade para mim. – Temo que tenha acontecido alguma coisa com os documentos dele. Nenhum número bate com o registro. Não faço a mínima ideia do que ele esteja falando. – A senhorita não tem nenhum contanto da família do rapaz? – Não. Alec nunca gostou de falar sobre essas coisas. – Entendo... E a senhorita poderia me responder se sabe se ele é daqui, digo, do Brasil? Meneio a cabeça em um sinal de negação. – Não... Por quê? – Minto. – Temo que o rapaz esteja ilegal aqui. É a única explicação. Preciso abrir uma investigação. – Como não digo nada, ele balança a cabeça para mim. – Com licença. Franzo o cenho porque mais nada faz sentido para mim. O Alec ilegal? Não pode ser. Não pode ser! Olho assustada para o Derek me perguntando o que fazer. E mais uma vez o mundo desmorona. Ele não é daqui. Ele me disse. Bolívia.


Capítulo Vinte e Quatro O começo de tudo Oquei. Já sei que todo mundo sabe que a minha vida virou um furdunço só! Decidi esquecer a minha mãe Cloe, ela e a suas mentiras, porque não posso ficar dentro desse passado para o resto da vida. Não a perdoei, como tinha chegado a pensar que havia quando ela estava em seu leito de morte, o que é uma justificativa para mim, uma vez que ficamos bem solidários e esquecemos um pouco o que sofremos quando vemos o nosso algoz definhando. Sei que alguém vai dizer “mas ela era a sua mãe, tem que perdoá-la...” e coisa tal, porém é isso e ponto. Se as pessoas estivessem em meu lugar, entenderiam. A Cloe foi só a mulher que me colocou no mundo e nada mais. Duas semanas se passaram desde que eu e o Alec brigamos e, de quebra, ele sofreu aquele trágico acidente. Sei que deve estar se perguntando: o que aconteceu com ele, afinal? Pois então, respondendo as perguntas: ele está bem. O Alec sobreviveu! Foi só um corte na cabeça que foi preciso alguns pontos. Ele deu sorte, pois na hora não estava usando capacete. Ah, ele também quebrou o braço e sofreu alguns cortes pelo corpo, mas nada grave assim. Nem vão ficar cicatrizes, me prometeu o médico. Durante toda a sua estadia no hospital, eu estava lá esperando ansiosamente que ele acordasse, o que levou dois dias, já que foi induzido a um coma. Eu entrava em seu quarto e saia sorrateiramente com medo que ele acordasse. Ninguém foi visitá-lo. Sei disso porque, enquanto eu estava lá, ninguém apareceu e, quando eu não estava, as enfermeiras me diziam. Depois que o Alec acordou, não entrei mais em seu quarto porque não queria que ele soubesse que eu me importava ainda apesar de todas as transgressões de nosso relacionamento. Às vezes me batia uma vontade louca de entrar no quarto, mas eu era forte. Eu sempre fui forte. Uma hora sei que irei me acostumar a viver sem ele. Eu ficava me perguntando se ele ficava se perguntando se, algum momento, eu iria entrar lá para lhe fazer uma visita. É claro que o Alec se perguntava. Não mandei flores nem bilhetes, muito menos recados pelas enfermeiras, mas sempre queria saber se estava tudo bem. Por Deus, nunca quis atormentá-lo. Aposto que o Alec estava sofrendo muito. O mais estranho nessa história toda é que sempre tinha um policial parado na porta do quarto do Alec, e foi isso que sempre me preocupou. Por isso eu estava lá sempre. O policial tio do Derek, o capitão Nicholas, me disse que, assim que o Alec ficasse bom, teria de ir para a cadeia. Isso mesmo. Primeiro, porque ele estava fazendo racha de motos, e segundo porque o Alec é ilegal no país. É claro que isso me chocou tanto quanto saber que ele era um garoto de programa. Porém, apesar de tudo, fiquei com medo. Medo de que o Alec fosse preso, apesar de isso ser inevitável. O capitão já me havia dito e também havia um policial fazendo a segurança na porta de seu quarto. Essa nova informação mexeu comigo e com os meus botões. Quantos segredos ele ainda guarda apenas para si sem nunca compartilhar com ninguém?


Conversei com Jonathan. Ele e o Alec são mesmo amigos. Fui eu a idiota dessa história por não saber ligar os pontos por ser tão burra. Ele disse que conhece o Alec desde os dezessete anos, um adolescente que sempre estava na rua e que o instigava. Jonathan contou que ele sempre foi autêntico e por isso se tornaram amigos. Com o tempo, Alec foi se abrindo com o Jonathan, que me pediu para não tirar conclusões precipitadas porque, com certeza, o Alec não tinha a intenção de mentir para mim apesar dele não saber por quem seu amigo estava apaixonado. Jonathan contou também que sempre soube que o Alec era ilegal, mas não quis me contar mais coisas, pois disse que quem deveria contar para mim o que eu precisava saber era o próprio Alec. Ele só ligou os fatos quando descobriu onde eu morava, no entanto preferiu ficar calado. Faz três dias que o Alec foi para a prisão. Ainda não fui visitá-lo e nem sei se o farei. Ainda guardo a mágoa e a mentira dele enraizadas em meu peito. É estranho saber que o cara que você ama conviveu nos últimos meses não está mais aqui, e sim atrás de grades sujas e enferrujadas vivendo com estranhos criminosos. Dói muito. Já chorei várias vezes, principalmente na hora de dormir. Estava tão acostumada a ter aqueles braços ao redor de mim, sufocando-me, apertando-me. Seus braços eram o meu rochedo! E gostava quando ele sorria. Era o sorriso mais verdadeiro que já vi em toda a minha vida. Era um sorriso apenas meu, embora ele estivesse a todo tempo beijando, acariciando e gemendo para outros. Não queria que as coisas acabassem desse jeito: eu, triste e amargurada após sofrer a maior traição, e ele atrás das grades. Outra noite perguntei a Deus por que tudo tinha que ser assim. Sem respostas. A Belle ligou e disse que vinha passar o Natal comigo. A palavra “Natal” automaticamente me remeteu mais uma vez ao Alec. Tudo se remete a ele agora. As paredes, os livros, a cama, as músicas – principalmente as músicas. Sou quase um Heathcliff na versão feminina atormenta pelas lembranças de Catherine, o Alec. Voltando ao Natal, ele não existia mais. A impressão que tenho é a de que, mesmo que a Belle esteja aqui, aquelas compras que fiz com o Alec continuarão lá, guardadas no armário, presas na geladeira como se sempre estivesse faltando alguma coisa. E está faltando alguma coisa. Eu deveria engolir o meu orgulho e ir visitá-lo para acabar com todo este drama, mas todas as vezes que penso nisso, desisto, pois sou fraca demais ou forte demais. Já nem sei mais o que sou. Estou literalmente perdida e amargurada, presa num antro escuro e repleto de lembranças. Na noite passada encontrei o CD do Alec, aquele do qual tirei uma cópia. Fiquei por um tempo ouvindo as músicas enquanto bebia uma taça de vinho no escuro e chorava me perguntando por que tinha que ser assim. Eu nunca acho as respostas e a minha cabeça enche-se de perguntas e mais perguntas. Uma das músicas que ele compôs dizia mais ou menos assim: No fim do dia, no fim das contas Eu não sabia onde iria parar Mas lá estava eu, perdido no seu olhar Eu queria, mas não podia parar O medo me afastava Apaixão me segurava O que ele queria dizer com isso? Sei que a resposta está bem diante de mim, no entanto não quero


parecer especial demais para imaginar que ele tinha gravado essa música para mim e que isso explica, resumidamente, seus sentimentos em relação ao seu segredo. Odeio ficar pensando nele, nas suas brincadeiras idiotas e naqueles lábios beijando todo o meu corpo porque essa é a forma verídica de dizer que tudo foi real. Pensar nele é inevitável e não sei mais o que fazer. Estou perdida e preciso de orientação, porém estou evitando conselhos. Pelo menos agora tenho algo que me preocupa. Daqui a quatro dias será a minha estréia nos palcos. Passei o dia ensaiando as minhas falas e mais tarde irei me encontrar com o Jonathan no teatro para fazermos o nosso penúltimo ensaio antes do grande dia da minha vida. O mais insuportável disso é que o Alec não estará lá. Começo a temer que eu faça alguma idiotice. Depois que terminamos o ensaio, o diretor aplaudiu e disse várias coisas do tipo “vocês tem química no palco” e que “você é a Júlia que eu sempre sonhei.” Acho que ele estava tentando levantar minha alta estima. Era disso de que eu estava precisando. Este era o momento de focar no que sempre sonhei: ser atriz. Nada nem ninguém vai roubar esse brilho. Quando ficamos a sós, caminhamos pelas poltronas vermelhas onde, entre uma das fileiras, tem um senhor fazendo manutenção. Jonathan me empurra com o ombro e eu faço o mesmo, o que provoca um rápido sorriso em meus lábios. – E aí, como você está? – Ele pergunta. Solto o meu cabelo e coloco uma mecha atrás da orelha. – Bem. – Reviro os olhos. – Não é como se eu fosse abandonada pela minha mãe mais uma vez. Vai ficar tudo bem. – Acho que a minha voz falha no “tudo bem”. E tenho razão. É muito pior do que ser abandonada pela minha mãe. Naquela época eu era criança, ingênua, não entendia o que é sentimento e lembranças de verdade, pois era tudo muito irreal, como um sonho. Agora, não. Duas semanas sem o Alec é pior do que ser abandonada por todas as mães do mundo. Está tudo vivo dentro de mim e, por favor, não me critiquem por eu ser louca por um homem, mas foi ele, caramba, quem me deu tudo o que usurparam de mim. Não foi o Derek. Nem a minha madrinha. Não foram os amigos da escola ou da faculdade. Muito menos a Belle e a minha mãe. Não foi o Jonathan, embora iria ser fácil se o fosse. Mas foi ele. O Alec. Apenas ele. Pisco os olhos para evitar uma crise de choro. – É estranho, para mim, essa situação. Eu estou apaixonado pela garota de um amigo meu. Nunca me passou pela cabeça que era você. Afinal, o Alec nunca disse o seu nome e nem nunca falei a ele sobre estar apaixonado por você. Se bem que vocês moram na mesma rua. Isso devia fazer sentido né? – É. Deve fazer. – Ainda está com raiva dele? Hum. Olha, Alice, eu deveria ser a última pessoa a te dar esse conselho mas, antes de qualquer coisa, ele é meu amigo. Aprendi muita coisa com aquele cara e por isso peço que vá até lá e converse com ele. Vai saber que as coisas são bem mais complicadas do que o fato de um cara resolver vender seu corpo para ganhar dinheiro. Isso é... Uma profissão como qualquer outra.


– Não é, não. Queria que se colocasse no meu lugar também, Jonathan. Ao mesmo tempo em que o Alec estava comigo, também estava se deitando com outras, ou outros, sei lá. – Pense que ele era um ator. Isso. Ele dormia com essas pessoas, mas não tinha real prazer. É como você. Beijamo-nos na peça, mas para você isso não significa nada. Só duas bocas e pronto. Certo? Prefiro não responder porque isso faz sentido. Mesmo assim, lá no fundo de mim tem algo gritando estupidamente para não ceder. – Vamos lá, Alice, deixa de ser tão cabeça dura. Vai lá! Eu levo você. Balanço a cabeça em um sinal de negação. – Não dá, estou entalada com essa história até o pescoço. – Quando o levaram para prisão, eu fui lá. Eu o visitei, Alice, e quero saber até onde vai ficar na dúvida se algum dia terá chance de ouvir o que ele tem para te dizer, pra te contar. Franzo o cenho, intrigada. – Por quê? – Porque ele está indo embora, Alice. – Revela o Jonathan. – O Alec será deportado de volta para a Bolívia. Ele será julgado pelas autoridades de lá. Não pode ser. Vejo a minha vida em um mundo paralelo e as coisas despencam tentando me atingir. Todas as coisas estão abstratas e estou aqui, parada, petrificada sem saber o que fazer. Na verdade eu sei bem o que fazer. O que estou tentando evitar é dar a cara para bater. – Preciso ir agora. Tenho que buscar a minha mãe no trabalho. Você vai querer carona ou não? – Não. Tenho umas coisas para resolver aqui ainda. Despedimo-nos e espero o Jonathan desaparecer porta afora. Aguardo dar o tempo dele pegar o carro e estar a, pelo menos, duas quadras daqui. Saio do teatro desorientada com a informação que acabei de descobrir. Essa possibilidade tinha se passado pela minha mente mas, quando as coisas estão perto de nós, a gente costuma fingir que no fim vai dar tudo certo e que somos diferentes. Mentira. Somos todos iguais. Temos os mesmos problemas. Ele será deportado como qualquer outro que esteja nessa mesma situação que ele. Pego o primeiro táxi que encontro e sei para onde devo ir. Eu esqueci, por um tempo, a traição da Cloe, deixando tudo aqui e indo até lá no seu leito de morte, certo? Então por que não posso esquecer um pouco as minhas batalhas com o Alec também? É hora de levantar a bandeira branca por um momento ou irei acabar enlouquecendo, se é que já não estou louca. Pago pela corrida e paro diante da fachada onde me informa que ali é o presídio. Eu nunca tinha estado ali antes (nunca tive um motivo plausível para estar aqui. Agora tenho). Procuro rapidamente pela entrada e me pergunto mentalmente se estou fazendo a coisa certa. Se deveria estar, depois de tudo. Preciso de respostas. Irei entrar aí, terei o que quero e nunca mais olharei para a cara linda do Alec Salles de novo. Eu não quero vê-lo outra vez. Ele está de partida e estou com medo. Respiro fundo e dou os meus primeiros passos. É um lugar isolado e feio com cerca elétrica e um enorme muro amarelo com tinta descascando, o que me faz lembrar de Prison Break, porém numa versão mais assustadora e medonha. Vamos lá, garota, você é forte, você consegue. No enorme portão assustador e enferrujado tem dois policiais parados com suas gigantes armas. Assustada, mordo o lábio e digo que vim para uma visita. Os dois se encararam e um deles resolve olhar para mim e responder: – Hoje não é dia de visitas e nem lugar para mocinhas frequentarem. Resolvo deixar de responder sua piada. – Então que dia são as visitas?


– Aos domingos. – Responde um deles. – Daqui a quatro dias. Calculo mentalmente os dias. Daqui a quatro dias é a minha apresentação. E também não tenho quatro dias ao meu dispor, levando em conta que se a informação que o Jonathan me deu for verídica, então o Alec pode ser deportado a qualquer momento. Estou correndo contra o tempo. Parte de mim não quer ver o Alec e outra parte de mim não me perdoará caso eu nem chegue a conversar com ele. Por isso preciso tentar de tudo. – Quero falar com o responsável pelo presídio. Capitão, delegado, sei lá. – Pode começar a dar meia volta, mocinha. Já falamos que as visitas são só aos domingos, oquei? Circulando, circulando. Meus olhos começam a arder. Eu queria invocar meu lado atriz. Afi- nal, as lágrimas que descem dos meus olhos são verdadeiras. – Eu juro por Deus que se me negarem isso, acamparei na porta desse presídio até que me deixem entrar. – Murmuro, mas os dois continuam a fazer pouco caso de mim. – Por favor, eu... Eu não tenho quatro dias... Ele vai ser deportado, tá legal? Preciso falar com um cara que está preso aí. Eu imploro. Enfim eles parecem ceder, pois um deles bate no portão que se abre revelando outro policial, alto, forte e com cara de mal. – Ela quer falar com o diretor. O portão se abre ainda mais e ecoa um ruído estridente. O policial meneia a cabeça e eu o sigo presídio adentro. O pátio é feio e sem graça, também com tinta descascando. Está cheio de policiais circulando a área, assim como o local está abarrotado de delinquentes, uns conversando, outros andando sozinhos ou em grupos e outros jogando bola. Todos olham para mim e ouço assovios. Sinto-me uma meretriz e amaldiçoo-me por estar com as pernas de fora. – Eita, gostosa! Trouxeram lanchinho!... Ignoro os comentários repugnantes e aperto os olhos quando sinto o toque de um deles em meu braço, mas o policial que me escolta logo trata de enquadrá-lo. No segundo depois sinto o toque do policial em meu ombro guiando-me pelo corredor malcheiroso até entrar numa salinha onde o arcondicionado está ligado forte e, não sei como, me sinto segura. O policial dá de ombros e me deixa sozinha junto com o diretor e um outro policial que está de frente a um computador. Explico rapidamente o que fui fazer ali. O diretor presta atenção em tudo o que falo. Em cima da mesa leio a plaquinha com o seu nome. Claudio. Ele fica concordando com a cabeça enquanto falo e explico as coisas. – Então você quer falar com o seu namorado porque está temendo que ele seja deportado antes do domingo. A questão é que as visitas são apenas aos domingos e agora não tem nenhuma agente que possa fazer a revista em você. – Não tem problema – digo automaticamente. – O senhor pode fazer a revista, ou qualquer outro policial. Por favor, não me negue isso. Aceito qualquer condição. Ele tamborila seus dedos na mesa e me encara. – Eu não costumo fazer essas coisas... – ele pausa para que eu diga meu nome. – Alice. – Murmuro. – Sim. Isso. Como eu ia dizendo, Alice, eu não costumo fazer essas coisas, mas abrirei uma exceção. Deixarei conversar com o seu namorado. Vou confiar em você. De quanto tempo precisa? Um sorriso nasce em minha boca e o alívio é imediato. O diretor faz um telefonema rápido e logo outro policial se materializa na sala. Este novo policial é ainda mais invocado do que todos que já vi aqui, o que é ótimo, pois ninguém irá mexer comigo. Ele me leva até a sala de visita enquanto ouço a


balbúrdia por trás das paredes. Gritos, risos, múrmuros e alumínios sendo raspados nas grades. Sou instalada em uma sala pequena. Paredes brancas. Uma mesa e três cadeiras. Só. O chão é de cimento e, se aqui a coisa é feia, imagina nas celas com todos aqueles homens fedidos e asquerosos? Fico sozinha na sala. Sento-me em uma cadeira e espero. É um logo tempo, levando em conta a ansiedade que se instalou em mim. Mas então, como num passe de mágica, lá, escoltado por um policial, está o meu Alec. Ele para no portão. Homem e mulher, ele e eu, nos encaramos. Vejo a surpresa presa em seu rosto oscilar com alívio. Quanto ao meu rosto, prefiro nem ver. Posso imaginar a careta que fiz ao vê-lo com o rosto e um braço arranhado, assim como o braço direito numa tipóia. Seu rosto está oleoso e cabelo sujo (nem preciso tocar para saber). Na camisa cinza que ele usa tem uma macha de suor na gola e debaixo das axilas. E me parece que a camisa está pequena demais para o seu biótipo. Por fim, quando finalmente desvio olhar, ele caminha até a mesa em que estou sentada e puxa uma cadeira para si. Ficamos uns cinco minutos em silêncio nos encarando. Resolvo quebrar o silêncio, já que o tempo está passando. – Como você está? – Pergunto. Ele sorri. É um sorriso de deboche como se a pergunta que acabei de fazer fosse mais uma sentença de morte do que qualquer outra coisa. – Como estou? Mal, Alice, muito mal. Me fodi todo, sofri uma porra de um acidente, fui preso e perdi a mulher que amo. – Ele faz aquele som de quem vai chorar. Um som seco que me deixa do tamanho de uma ervilha. – Estou vivendo meu próprio inferno astral. Fodi com tudo! Com tudo! Tenho vontade de tocar o seu rosto, de pegá-lo no colo e de dizer que tudo vai ficar bem... Sou forte. – O que você estava querendo também? Hum? Está colhendo o que plantou... – Eu ia contar. Eu prometi que iria falar qualquer coisa que quisesse depois do Ano Novo. Eu disse, Alice. Estava disposto a começar uma vida nova por sua causa. Tudo por que eu queria te fazer feliz. – Você já me fazia feliz. – Queria te fazer mais feliz. Muito mais. – Mas aí resolveu ir acumulando suas mentiras, colocando uma disposta sobre outra como dominós enfileirados. E foi só uma peça cair que tudo caiu junto. Ele não diz nada, apenas concorda com a cabeça. O tempo inteiro. Sei que ele está inquieto. Sei que quer tocar em mim. Ele é uma criança de frente a uma enorme piscina, atormentado pelo Sol e por não poder nadar. Suspiro. – É verdade... É verdade que vai ser deportado de volta para Bolívia? – Essa coisa toda me atormenta. Alec me olha fixo e concorda com a cabeça. – Quando é? Digo, quando eles estão pensando em te levar? – Dia vinte e dois. No sábado... – Mas sábado... – É, eu sei. Sábado é a sua apresentação. Desculpe por estragar tudo. Desculpe por não poder estar lá e por não te ver depois de ter passado todo este tempo falando disso. Eu sinceramente não sei o que fazer. Estou sem palavras e sem saber o que dizer. Queria poder fazer o tempo voltar; queria que o Alec não fosse embora e que as coisas fossem as mesmas de antes: dois loucos apaixonados aprontando em um shopping. – Por que ficou escondendo essa história, Alec? – Ele não responde e faz uma careta de dor. – Quem


era você, afinal? Ele coloca suas grandes mãos em cima das minhas sobre a mesa. Gosto do seu toque. Sinto saudades do seu toque. E rapidamente puxo as minhas mãos, me desconectando dele. – O que quer saber, Alice? – Quero saber tudo. Desde o inicio. Alec respira fundo Começa. – Nasci em uma casa pobre, situada em uma vila miserável. Eram seis irmãos no total. Lembro-me que dormíamos no chão coberto apenas por papelão. Meus irmãos choravam quando não tínhamos o que comer e até mesmo a água era rara não só em nossa casa, mas nas casas vizinhas. Quando achávamos alguma coisa para beber, era aquela coisa escura e barrenta. Eu era o mais velho de todos e odiava tudo e todos. Era absolutamente horrível viver naquele lugar onde as moscas eram constantes. “Então meu pai morreu quando eu ainda tinha doze anos. Foi uma coisa horrível. Se antes, com ele ali, as coisas já eram complicadas, imagina dali para frente? Nessa época eu frequentava a escola que não era bem uma escola, e sim papelões espalhados numa área suja onde uma mulher nos ensinava o que ela conseguiu aprender. Mas então as coisas começaram a complicar de verdade. Acomida, que já era faltosa, ficou ainda mais difícil de conseguir. Saí da escola e decidi que as coisas não poderiam ficar mais daquele jeito. Era horrível chegar à noite e dormir ouvindo seus irmãos chorarem querendo uma coisa que não podia ter. “Foi quando não me restou outra alternativa e comecei a roubar. Primeiro, foi um pouco de farinha do vizinho, uma concha de feijão, um pedaço de pão e por aí vai. Minha mãe era analfabeta e tinha começado a se envolver com uns homens estranhos. Ela não tinha emprego como a maioria dos bolivianos ali. Chegou um tempo em que esses pequenos furtos não davam para mais nada. Fui para a cidade. Foi lá onde comecei com os maiores roubos. Roubava dinheiro de uma quitanda ali e outra aqui. Conheci pessoas, outras crianças que roubavam e que me ensinaram a roubar os turistas que ali apareciam. Assim, eu voltava para casa à noite com alguma coisa para oferecer aos meus irmão e com um dinheiro que pedia para a minha mãe guardar em um forro que ela conseguiu costurar em um dos seus poucos vestidos. “Mas aí, todos os dias quando chegava em casa, notava um ar estranho em minha mãe como se ela estivesse atordoada ou coisa assim. E com mais dias, pequenas manchas roxas surgiam em seu braço. Com o passar do tempo, eu vi homens saírem e entrarem da nossa casa levando coisas e deixando lá para buscar uma outra hora. E as manchas pelo corpo da minha mãe começaram aumentar. Essas coisas eram drogas. “Certo dia, enquanto estava em um dos meus habituais roubos, um garoto me explicou o que era aquilo, as manchas rochas. Ele disse o que era. Picos. Isso mesmo. A minha mãe tinha começado a se drogar e os meus irmãos já não choravam tanto assim. Um dia, fingi que iria sair e fiquei escondido em casa quando um homem estranho chegou e pediu que ela guardasse umas drogas em troca de algum dinheiro. Ela aceitou. Eu saí do meu esconderijo e gritei com o homem. Empurrei as suas porcarias e disse que ela não ficaria com elas. Mas não adiantou. Ele me segurou pelo pescoço e encostou a arma na minha cabeça ao mesmo tempo em que fazia milhares de ameaças. Naquele mesmo dia eu vi a minha mãe se picar. Foi coisa mais horrível que tinha visto até o momento. “E foi assim. As coisas eram escondidas e levadas e sendo substituídas por mais. O pagamento da minha mãe era mais uma quantia miserável e um pouco da porcaria. Comecei a cuidar dos meus irmãos e dizia a mim mesmo que iria tirá-los dali e que teríamos uma vida decente um dia. Mas a


vida naquele país não ajudava muito. Eu tinha parado os estudos, que nem eram estudos assim. Eu não sabia fazer nada, apenas roubar e roubar. “Aos treze anos me tornei um ladrão apto. Eu roubava tudo e todos. Escalava casas e enganava pessoas. Conversava com ladrões e prostitutas. O Marco, o traficante que fazia a minha casa de depósito, continuou a frequentar a minha casa mais vezes, mas não para guardar coisas, e sim para cobrar a minha mãe, a qual só fazia implorar por mais. Ela estava definhando aos poucos e, apesar de tudo, ainda era uma boa mãe, eu acho. Não faço ideia do quanto a minha mãe devia, mas, segundo o Marco, era muito dinheiro. O dinheiro que ela escondia no forro do vestido, mais tarde descobri que foi parar nas mãos dele. Não tínhamos nada mais a oferecer, porém todos os dias ele aparecia com mais novas ameaças. Eu prometi que iria pagar tudo o que ela devia se ele me desse um prazo. E ele me deu. Quinze dias. Com esse tempo, eu passei a roubar ainda mais. Virava noites a fio roubando. Foi nessa época também que fodi pela primeira vez. Foi com uma prostituta que me ensinou o ato da masturbação. Os dias foram passando e eu não tinha todo o dinheiro ainda. Eu dizia, pedia, implorava para minha mãe ficar limpa. Prometi a mim mesmo que ela iria ficar limpa. “Mas o dia chegou e eu não consegui juntar todo o dinheiro. Vi o Marco arrombar a nossa pequena casa e cobrar sua dívida. Ofereci o que consegui juntar para ele, o qual disse estar faltando ainda muito dinheiro. Pedi mais um pouco de tempo. Ele, claro, me negou. Foi quando as coisas ficaram bem piores do que eram antes. “Vi o Marco atirar na cabeça da minha mãe. Vi o seu corpo esquelético tombar no chão derramando tanto sangue que nunca pensei ser possível sair uma pessoa. Meus irmãos gritavam. Eu gritei. Todos nós estávamos presos por mãos que também seguravam armas e que iriam nos matar também. “O Marco gritou para que eu fizesse meus irmãos calarem a boca, ou os matariam também. E eu fiz. Fiz tudo o que ele pediu. E depois fomos arrastados da casa e colocados em dois carros. Aquela foi a última vez em que vi meus irmãos. Marco ficou repetindo o tempo todo que iríamos pagar pela dívida da nossa mãe. Mais tarde eu soube que ele os vendeu para pessoas tão ruins quanto ele. “O mais estranho de tudo é que eu fiquei. O Marco disse que eu era útil, que já tinha me visto roubar antes. Lembro que ele disse que eu tinha de obedecê-lo ou atiraria em minha boca, mas antes iria me fazer assistir à morte dos meus irmãos que ainda não tinham sido vendidos. Mas já nem nos víamos mais. “Eu o obedeci quando ele me pediu para entrar em um enorme navio. Marco me levou até um lugar escuro, o porão do navio, e disse que eu deveria ficar lá até segunda ordem. Nesse porão também tinham outras pes- soas tão pobres quanto eu e que se recusavam a falar. Fiquei sobre a mira de um homem que não era o Marco, mas eu já tinha o visto com ele. Ali me colocaram uma pesada corrente para assegurar que eu não conseguiria fugir. Não sei exatamente quanto tempo passei ali. Sei que foi muito tempo. Era ali que eu comia e que fazia as minhas necessidades. Dia e noite. Teve até um dia inteiro que passei vomitando, assim como os outros estranhos ali. Com o tempo, alguns começaram a feder tanto quanto um gambá. “Finalmente, quando já nem tinha mais esperança de ver a luz do dia, eles me tiraram de lá. Acho que fiquei um pouco louco. Aceitei qual- quer condição que eles me impuseram. Sai daquele porão sem dizer uma só palavra. Lembro que meus olhos arderam tanto que levou um tempo considerável até que eu me acostumasse com a luz. “Eles me levaram para uma dessas casas nos morros do Rio de Janeiro, descobri mais tarde. Deixaram com que eu comesse e tomasse banho. Tinham outros homens com armas. Eles diziam coisas que naquela época eu não conseguia entender. Eu fiquei naquela casa por dois dias convivendo com homens de fala estranha, mas que não colocavam a arma em minha cabeça. Ficavam rindo e


me dando comida. “Mas aí o Marco apareceu e me levou de lá. Levou-me para uma casa maior. Ele disse que eu participaria de um esquema. Ele me deu comida e pediu que eu tomasse banho, e depois me acorrentou a uma cama. A casa ficou silenciosa por um tempo. Depois o Marco voltou. Ele colocou a arma em cima de uma mesa e se aproximou. Marco segurou o meu rosto com força me fazendo encará-lo, e por fim tirou a camisa, depois abriu o zíper da calça e tirou rapidamente de lá o seu pau. Ele segurou meu rosto mais uma vez e eu já sabia o que ele iria fazer. Eu o soquei na barriga e cambaleei para trás por conta da corrente. Só que ai ele socou o meu rosto duas vezes e disse que eu tinha que obedecê-lo. Eu disse que preferia morrer a fazer aquilo, mas ele disse que poderia até me matar, porém antes iria me fazer sofrer. Primeiro, porque ele estava com vontade. Segundo, porque, para ele, eu merecia. “Ele apertou o meu queixo com tanta força que conseguiu enfiar o seu pau em minha boca indo e vindo com aquela coisa imunda enquanto eu chorava de raiva. Todas as vezes que eu tentava me libertar, ele socava na lateral da minha cabeça. Eu era só um garoto de treze anos lutando com um cara grande e violento. Teve um momento que acho que me rendi. Ele ficava indo e vindo seu pau em minha boca enquanto mentalmente eu fa- zia vários planos para acabar com a sua vida. Só que a coisa toda foi pior ainda. Ele tirou a minha roupa e depois ficou brincando com o meu pau. Jogou-me no chão apertando meu corpo com força onde eu achava que todos os meus ossos iriam se romper e enfiou aquilo dentro de mim. Sei que doeu e que não gosto de lembrar. Chorei. Principalmente com o sangue que escorreu pela minha perna. Também foi naquele momento que consegui, talvez por sorte, apanhar as chaves na roupa que ele estava usando e esconder debaixo da cama. “Quando tudo acabou, ele foi tomar banho. Eu vesti rapidamente a roupa e consegui tirar as algemas. Vi a arma. Aquela era a minha chance, mas o medo de encontrar alguém foi maior do que tentar matar aquele desgraçado. Sai correndo da casa com a arma na mão. Era tudo desconhecido para mim. “Perdi a noção de quanto tempo corri e só parei quando as minhas pernas já não aguentavam nem mais um passo. Como fiquei bom nessa coisa de escalar, subi em uma árvore e lá fiquei até que as ruas ficassem movimentas e um pouco mais seguras. Desci da árvore e comecei a andar, sempre me esgueirando com a arma enfiada entre a calça e andando meio trôpego pela dor que sentia. “Ninguém me ajudou porque ninguém entendia a minha língua. Até que não me restou outra alternativa a não ser roubar. E roubei. Não era tão diferente quanto na Bolívia, sem falar que eu nem sabia onde estava, como disse descobrir depois. Cresci nas ruas, roubando. Aos poucos fui observando como as pessoas falavam e aprendia uma palavra nova enquanto continuava me afastar do lugar de onde estava. “Juntei um bom dinheiro dos meus roubos. Toda noite eu dormia em um lugar alto, com medo de que o Marco aparecesse. E todos os dias eu prometia que iria matá-lo. Aprendi mais palavras. Formei frases e descobrir como usar o dinheiro daqui. Foi um homem de uma quitanda quem me ensinou. “Foi quando fiz quatorze anos. Eu já tinha uma voz de homem e um corpo de um homem de dezoito anos, mais ou menos, apesar da idade. Ganhei bastante massa muscular nessa coisa de escalar árvores e prédios. Também já não tinha aquela arma, me roubaram, mas eu ainda mantinha a sede de vingança. Iria matar o Marco a todo custo. “Um dia, cansado de tanto roubar e sabendo que eu tinha um rosto bonito, roubei uma roupa numa loja e tomei banho num hotel barato. Dei início à minha vida de sexo e fiquei surpreso com a grande quantia que recebi na primeira noite. Eu chegava a fazer até cinco programas por noite. Quando amanhecia, dormia até tarde em um hotel, e a noite começava tudo de novo. Apesar do trauma, foi a única alternativa que me restou. Em uma dessas noites conheci Lucia, uma senhora que me ensinava


novas palavras depois que terminávamos de transar. Ela me procurava várias vezes. Eu gostava de Lúcia até ela me dar um basta, no entanto me deixou com uma gama de palavras. Um vocabulário novo. “Depois diminui os programas e me dediquei à busca do Marco. Ainda tinha que matá-lo. Descobri que ele estava na Bahia, vendendo drogas e ganhando muito dinheiro. Fui atrás dele. Como eu não tinha documentos, peguei carona com vários caminhoneiros que me contavam histórias e eu lhe dava uma boa quantia do dinheiro que ganhei dos programas. “Quando cheguei a Salvador, descobri que o Marco já tinha sido morto. Foi uma morte horrível, mas bem a cara dele. Tinham-no matado, cortado seu pau e colocado seu membro dentro da própria boca. Senti-me vingado. E o melhor: nem precisei sujar as minhas mãos. “Aí eu vim para Feira de Santana, onde consegui um hotel para ficar e, claro, mais programas. No início era um dinheiro fácil, e eu gostava. Passei todos esses anos fazendo isso. Perdi as contas de quantas mulheres ou casais eu já dormi. Não me pergunte isso. Algumas até me procuravam, não para fazer sexo, mas para conversar. Virei o psicólogo de algumas, se quer saber. Valerie foi uma delas. Eu nunca fodi com a Valerie, a dona da casa onde moro. Ela era sozinha e não tinha família. Um dia ela me viu na rua e me levou para casa. Disse que não queria sexo, que só iríamos assistir a um filme. Achei estranho. E assim assistíamos filmes toda semana e ela me contava sobre a sua vida, e eu contava algumas coisas sobre mim. Foi quando ela disse que deixaria todos os seus bens para mim, já que não tinha ninguém. “Ela ficou muito doente. Disse que eu era como um filho para ela. Pediu que eu parasse com essa vida e que fizesse exames a cada seis me- ses. Ela tinha medo que eu ficasse doente. Graças a Deus estou limpo. Eu também tinha medo. Prometi que iria parar quando achasse alguém que me fizesse parar. Valerie morreu e deixou tudo para mim, conforme tinha dito. Pensei em vender a casa, mas depois achei que seria uma traição com a alma daquela pobre mulher. “Nessa época eu já conhecia o Jonathan e falava muito bem o português. Paguei para um homem, que trabalhava num cartório, para me conseguir uns documentos. Eu sabia que não iria adiantar nada voltar para a Bolívia, que não encontraria mais meus irmãos seja lá onde eles estivessem. E também sabia que se eu me entregasse às autoridades, eles me deportariam como estão fazendo agora. Não quero voltar para aquele lugar onde passei os piores momentos da minha vida. “A casa de Valerie ficou fechada até o início desse semestre quando tomei coragem de ir morar lá. Eu já estava cansando dessa vida. Eu não conseguia mais dormir com esses estranhos, fingir algo que não estava lá. Foi quando te conheci, Alice. Foi quando aprendi a ser feliz de novo. Você me deu algo que eu nunca tive de verdade: amor. Foi você, Alice, quem me fez parar aos poucos. Foi você quem me fez parar. Fazia três semanas que eu tinha parado. Eu estava planejando montar alguma coisa com o dinheiro que consegui juntar. Aí eu estraguei tudo.” A esta altura ele já chorou uma mar inteiro. E eu também. Estou petrificada. Não sei o que dizer, não sei o que pensar. É estranho saber que por trás daquele cara lindo e sorridente existe alguém que tanto sofreu na vida. Eu estava sendo uma egoísta em criticá-lo, em enchê-lo com os meus problemas como se eu fosse a pessoa mais sofredora de toda a face da Terra. O que eu passei não chega nem perto das atrocidades que o Alec passou. Sinto-me suja. Sou a pior pessoa o mundo! – Alec, me desculpe... – Tudo bem, Alice – ele diz e limpa o nariz. – Você não tinha uma bola de cristal. Fui eu quem escondeu tudo de você. Eu que preciso pedir desculpas. – Precisamos contar às autoridades, precisamos...


– Para, Alice, já faz tanto tempo que para lei isso nem conta mais e, além do mais, nem sou daqui. Faz de conta que as coisas prescreveram. – Não é assim “faz de conta” e pronto. – Para mim, é. Passei todos esses anos tentando esquecer o que te contei agora. Por favor, não me faça repetir isso para mais ninguém. Isso, de qualquer forma, mesmo depois de tanto tempo, ainda dói. Só agora percebi. Fico olhando um tempo para ele. Para o rosto vermelho e manchado pelas lágrimas que ali rolaram. Estou desesperada e desequilibrada mentalmente. O que ele acabou de me contar rodopia em minha mente sem parar, enquanto fico imaginando as cenas. Finalmente concluo que é hora de engolir meu orgulho barato. Levanto-me da cadeira e o abraço porque nem sei o que dizer e, como dizem, um abraço vale mais do que mil palavras, certo? – Não quero voltar para lá, Alice. Não quero voltar para aquele lugar que me traz essas lembranças – ele chora em meu peito. Seguro o meu próprio choro que arde as minhas narinas e fica enta- lado em minha garganta numa forma de grito. Tento respirar e não consigo. Tento formar palavras, mas é impossível, pelo menos durante os minutos que se sucedem. – Eu nunca irei deixar que eles te levem, Alec. – Digo e não sei se essa afirmação é verdade ou mentira. – Isso significa que você me perdoa? Ouço batidas no portão e o policial entra dizendo que o tempo acabou. Afasto-me do Alec e ando de macha-ré. – Quer dizer que tenho que fazer alguma coisa certa pelo menos uma vez na vida.


Capítulo Vinte e Cinco Escolhas da vida Naquele dia em que saí do presídio, após a minha breve e esclarecedora visita, fiquei atordoada. A história que o Alec me contou ficou bailando no centro dos meus pensamentos horas e horas. Chegou um momento em que nem mesmo eu sabia onde estava quando entrei no táxi. Liguei para o Derek para me encontrar em um escritório de advocacia de um amigo dele. No táxi, fiquei pensando e cheguei à conclusão de que eu e o Alec temos uma história parecida. Eu fui vendida para um casal e só me safei por que eles morreram, mas de quebra fiquei sem a minha mãe, que pouco importa. Ele perdeu a sua mãe muito cedo e veio parar no Brasil ilegalmente. Ou seja: estamos, ambos, ligados direta ou indiretamente ao tráfico de corpos humanos. Isso é assustador. A diferença é que um teve mais sorte do que o outro. Paguei pela corrida e encontrei o Derek já no escritório sentado em uma das cadeiras de espera. Contei, resumidamente, a história que o Alec me contou. Eu disse para ele que não poderia deixar o Alec voltar para a Bolívia e que deveria haver um jeito. Conversamos com o Eduardo, o advogado amigo do Derek e que topou assumir o caso. Ele disse que o jeito mais simples do Alec receber o visto era casando com uma brasileira, o que também seria um problema, já que nem mesmo ele tem os documentos de um cidadão boliviano em mãos. Afinal, ele foi trazido para o Brasil de mãos vazias. Eduardo disse que esses casos eram mais comuns do que aparentavam ser. O problema geral mesmo era o fato do Alec estar envolvido com os rachas e que este crime pode acabar oferecendo indícios de periculosidade ou indesejabilidade. Trocando em miúdos, é quase certo que o caso do Alec não se encaixe a Lei nº 11.961. As coisas estão só piorando para ele. No fim das contas, o Alec não é considerado um cidadão. Talvez ele tenha mesmo que voltar para a Bolívia, para o lugar onde tanto ele sofreu. O casamento era uma possibilidade ótima se ele tivesse algum documento. Droga. Eduardo iria entrar em contato com a embaixada da Bolívia para tentar agilizar as coisas antes do sábado e, se conseguisse os documentos de que tanto precisa, então o casamento poderia ser consumado. A questão toda agora era: quem iria querer casar com o Alec? É obvio que essa responsabilidade caiu toda sobre mim. No fim das contas, a gente ainda nem sabia se o Alec iria aceitar a proposta. A sua anistia estava, em parte, nas minhas mãos. Mas eu não queria casar. Ainda não me sinto pronta para o ato matrimonial. Pensei que aproveitaria muito da vida antes que isso acontecesse, antes que me acomodasse com um cara que só sabe reclamar da vida, embora eu saiba que com o Alec não seria assim, pois ele é a pessoa mais autentica que conheço. Eduardo ficou com uma cópia dos meus documentos. No entanto eu não o perdoei completamente. E parem de pensar que sou uma burra hipócrita. Se ele tivesse me contado essa história desde o início, talvez eu tivesse ficado com ele e as coisas não acabariam do jeito que estão.


O advogado me cobrou uma pequena fortuna e decidi que daria mais dinheiro se ele conseguisse acelerar a situação. Com o dinheiro que recebeu, ele esqueceu por ora todos os seus processos e focou no caso do Alec. Voltei para casa sem dinheiro. A pequena herança que a minha madrinha deixou para mim ficou toda nas mãos do advogado. Agora, mais do que nunca, eu terei que ralar as mangas para conseguir pagar a minha faculdade, pelo menos o semestre que se aproxima. Desde então não vi mais o Alec. Voltei ao presídio no dia seguinte, porém o diretor recusou ceder uma segunda visita e regressei ao antro com o rabo entre as pernas por querer evitar qualquer abuso. Liguei para o advogado duas vezes por dia durante esses três dias e ele disse que as coisas estavam indo bem, era quase certo de que tudo desse certo. Fiquei um tempo observado as alianças deixadas pela madrinha. Depois as enfiei na bolsa e as esqueci ali. Esse “quase” me atormenta. Então o sábado chegou. Um dia terrivelmente decisivo para a minha vida. Estudei as minhas falas pela manhã e quando terminei fui buscar a Belle no aeroporto com o Derek. Ambos trataram de se entrosar e até o Eric veio. Mas o Derek não era mais aquele garoto tímido, tampouco apaixonado pela Belle, se é que essa paixão infantil existia. Estavam todos lá: Belle e Eric, Derek e Isabella (irônico, não?) e os meus amigos da faculdade junto com outros estranhos que em uma hora fizeram esgotar os ingressos, o que tivemos de colocar um novo e segundo horário para a estreia. Apesar de toda essa felicidade, uma enorme e grande parte de mim estava fixa num cara: Alec. Ele não me assistiria. Liguei para o Eduardo e ele disse que estava tudo sob controle. Duas horas depois eu liguei de novo, mas ele não me atendeu. A partir daí pedi a noção de quantas vezes eu liguei para esse advogado e só dava na caixa postal. Às dezesseis horas eu já estava no teatro me preparando porque a peça iria estrear às dezessete horas por conta da sessão dupla que começaria às vinte horas. Chegaram quatro boqueis para mim. Eu não parei para ler os cartões porque preferi ligar para o advogado, o qual não me atendeu. Comecei a entrar em pânico. Até pensei em ir ao presídio ou ao escritório deste desgraçado. No entanto, fiquei repetindo a mim mesma que iria ficar tudo bem e que hoje era o meu grande dia. O dia que estrearia como atriz em uma sala lotada. Vesti a roupa da personagem e permiti que a moça cuidasse da minha maquiagem e do meu penteado. Só vi o Jonathan quando estávamos na escadaria para subir ao palco. Atrás das cortinas ouvi o diretor pedir silêncio e as luzes serem desligadas na plateia. Ainda assim tentei uma nova ligação quando o Jonathan subiu ao palco. Enfiei o celular no bolso do short jeans curto que estava trajando quando subi ao palco. Encarei a plateia rapidamente e busquei, no meio dos estranhos, rostos conhecidos. Desisti de encontrar estes tais conhecidos quando ouvi-me dizer as frases de um monólogo que sei de cor enquanto meu coração fustiga a minha caixa torácica de tanta tensão. – E você ainda acha que, depois de tudo que aprontou comigo, ainda o quero? Depois daquelas promessas tolas, Lucas, depois de descobrir que na verdade você é a mentira em pessoa? – digo. – Não diga assim. Eu amo você e faria qualquer coisa. É só me de- ixar entrar...


Ouço risos na plateia por conta da frase de duplo sentido e que, particularmente, achei que geraria este tipo de reação. Foi proposital. Passou-se uma hora e quinze minutos desde que a apresentação começou. Entrei para o camarim apressada e tirei o telefone do bolso. Nada. Eu já deveria ter recebido algum parecer. Às pressas, duas camareiras me ajudaram a tirar a roupa e a vestir um pesado vestido de noiva, lindo, que me apertou toda. Seria a última peça de roupas que eu usaria. O ato final. Essa seria a cena em que ela iria embora depois que ele dissesse que não queria casar-se mais com ela. Então Júlia decide ir embora mas, com o vazio que se instala em Lucas, ele descobre que, apesar de tudo, é com Júlia que ele tem que ficar e por isso o Lucas sai à sua procura... Antes de subir ao palco, olho-me no espelho. A mulher que vejo no espelho é linda e uma desconhecida. E no peito dessa mulher, algo ali brilha: um cordão dourado com um lindo e oval pingente. Seguro a coisa de ouro até que ele esquente em minhas mãos e abro-o, encontrando a foto dele num sorriso que cava um buraco sem fim dentro de mim. Um mártir insuportável. Choro. Ouço alguém me chamar. Está na hora de voltar ao palco. Recebo a ligação que tanto aguardei. – Alô? Alice... Aqui é o Eduardo, o advogado... – Eu sei que é você... – Vi as suas ligações. Desculpe não entrar em contato, mas tive que viajar para buscar um registro do Alec que conseguimos com a embaixada. Estou em Brasília e embarco para Salvador em cinco minutos. Soube que o Alec foi transferido para capital hoje cedo. – O quê? Como? – É. O voo dele para São Paulo está marcado para as vinte e uma hora. Não sei como, mas a justiça também conseguiu cópias dos documentos. Depois que chegar a São Paulo, ele irá pegar um avião direto para a Bolívia. – Mas ele não pode. Eles não podem fazer isso... Como eles conseguiram estes documentos? Por que estão querendo se livrar do Alec de uma vez? – Eu não sei, Alice. A Lei é assim mesmo. Bem, já pensei em tudo. Só preciso que vá agora até o aeroporto de Salvador. Procure pelo Alec, encontre-o e impeça que ele viaje caso eu não chegue. – Como irei impedir? – Ouço o diretor me chamar. – Ei, eu estou no meio de uma apresentação. – Faça como quiser, Alice. A permanência do Alec aqui está em suas mãos. Agora tenho que correr. Precisa pedir a ele que se case com você porque ele não tinha aceitado quando propus isso. Alec disse que não estragaria a sua vida. Ou a ligação cai ou o Eduardo desliga. Não sei. O diretor me chama pela segunda vez e sou empurrada por alguém até que ressurjo no palco. E de repente a plateia nunca me pareceu tão assustadora. Sei que deveria me mover, que deveria sorrir e me preparar para entrar na igreja improvisada. Mas tudo o que faço é ficar parada no mesmo lugar, assustada. Os segun- dos correm. Jonathan aparece e percebe que estou petrificada no lugar. Ele se aproxima e sei que deixou de encarnar o personagem. As lágrimas cambaleiam pelo meu rosto. Grossas linhas salgadas que borra a minha maquiagem. Minhas mãos tremem e ainda estou agarrada ao meu telefone celular. – O que está acontecendo, Alice? – Pergunta Jonathan. – São a últimas cenas. É a estréia, lembra? Vamos. Diga alguma coisa. – Ele sussurra. Ainda estou parada em meu lugar. Sempre foi o meu sonho estar aqui. Fazer isso que estou fazendo. Seria injustiça abandonar tudo, a carreira que ainda nem consegui fazer, para ir atrás de um homem? Do Alec? Mas se eu não for atrás dele, sei que me arrependerei para o resto da vida.


O que fazer? (Ouço um tic-tac mental me impedindo de raciocinar. Esse som me atormenta.) Murmúrios vêm da platéia. – Eu não posso mais fazer isso. – Sibilo e viro para a platéia. – Sinceramente não posso mais fazer isso. – Choro. – Estou aqui pensando numa maneira plausível de me explicar e pedir que me entendam, pois não quero que a minha carreira afunde sem ao menos ter começado. Lutei muito para estar aqui neste palco, mas existem coisas que precisam ser feitas. Antes de morrer, a minha mãe me disse que sempre, enquanto vivermos, teremos que optar por uma coisa e abdicar outras. Não importa o que escolhermos, as consequências sempre estarão lá. “O que estou tentando dizer é que estou escolhendo abandonar isso aqui, deixar vocês na mão como uma aspirante qualquer. Não quero me arrepender depois igual ao Lucas que só descobriu que amava a Júlia depois que ela decidiu ir embora. Quer saber? No fim vai dar tudo certo porque é só uma história, uma fantasia. “Hum. A realidade é outra coisa. Cada passo é incerto e sei que, enquanto estou aqui tentando me explicar, o relógio está correndo contra mim porque o cara que eu amo está agora pronto para embarcar num avião para nunca mais voltar. E eu preciso muito dizer a ele que o amo. Eu não seria eu se deixasse que ele fosse embora sem saber disso. Vocês podem me odiar, mas isso é só uma peça e, no fim das contas, não me faltarão novas oportunidades de fazer isso de novo para vocês e para outras pessoas. Mas se o Alec for embora... – Deixo as palavras morrerem porque nem sei mais o que dizer. – Me desculpem, mas eu tenho um embarque para impedir.” Levanto o vestido pesado que me deixa levemente desengonçada e desço as escadas apressadamente. Migro para a platéia enquanto varias cabeças estão girando para onde quer que eu vá. – Derek, preciso da minha bolsa! – Berro para os quatro cantos. – Vou te esperar no carro! Antes de desaparecer do teatro, ouço, ao invés de vaias, aplausos. Calorosos aplausos. Corro pelo estacionamento e rapidamente o Derek aparece com a minha bolsa, a linda Isabella, a Belle e o Eric. Peço que a minha irmã fique, assim como os outros dois que me encorajam. Entro no carro. É difícil com todo o volume branco que me rodeia, mas consigo. O carro ganha vida e o Derek fica perguntando aonde, ex- atamente, vamos. Digo que temos que ir para Salvador o mais depressa possível. Ele diz que não sabe andar lá e eu berro com ele que, se ele não souber, eu mesmo irei dirigindo. Procuro no porta-luvas o GPS e digito o destino, torcendo para que ele esteja configurado. Rapidamente a andróide começa a dizer a rota e eu fico mais nervosa do que já estou. Fico o tempo inteiro pedindo para que ele adiante. Derek fica o tem- po todo dizendo que é impossível passar com o carro em cima dos outros e que era para eu calar a porra da boca ou eu iria ter de ir dirigindo, o que me pareceu, de longe, uma boa ideia. O tempo só passa. Apanho meu celular e ligo para o Eduardo, o qual não atende porque certamente está no avião. Oro a Deus e peço que Ele consiga fazer com que esse advogado chegue primeiro do que eu porque, do jeito que a tartaruga aqui anda, chegarei lá só amanhã. Derek começa a ri sozinho. – Qual foi, seu babaca? – Digo irritada. – Você correndo pelo teatro... – Ele ri. – Isso vai ficar para história! Quando penso que você já fez de tudo, que já passou por todas as ciladas, ai me surpreende de novo... A imprensa estava lá, você viu? – É, eu vi. – Reviro os olhos. – Era a sua chance de fazer sua carreira decolar! Agora será só uma atriz à margem dos palcos! – Ah, vai se ferrar! Eu sei bem pelo que abdiquei. Agora, por favor, para de atormentar a minha vida e mete o pé no acelerador!


É o que ele faz. Ao chegarmos a Salvador, qual a nossa surpresa? O trânsito está um caos por conta do feriado de Natal! Aperto a buzina para o carro que impede a nossa passagem e o Derek pede para que eu pare de bancar a infantil porque não é culpa desse desavisado. Daí, o carro desliza devagarzinho, quase que nem saindo do lugar. Expilo bufas. – Oh, Jesus Cristo! Alivia aí, vai! – Viro para o Derek após berrar para o nada. – Vamos tentar um atalho. Já está escuro e nem permito-me olhar as horas. Tenho medo de que ela tenha me traído. Enfio a cara pela janela. Parece que houve um acidente nessa área. Começo a dizer para o Derek que não nos resta outra opção senão pegar um atalho. Ele me obedece, mas o GPS fica dizendo: “Faça o retorno quando puder. Faça o retorno quando puder. Faça o retorno quando puder.” Deixo que ela fale por si só, pois uma hora outra ela vai nos indicar uma nova rota. E rapidamente ela faz isso. Descasco todo o meu esmalte. O carro sobe e desce essas terríveis ladeiras típicas de Salvador. Entramos e saímos de caminhos apertados até que avisto algumas baianas vendendo acarajé. “A duzentos metros, dobre à direita.” Derek dobra à direita conforme o GPS manda. Paramos numa ladeira. Nós olhamos um para a cara do outro porque, calem a boca! Eu nunca tinha visto uma ladeira em pé desse jeito! Parece até de mentira! – E agora? – Se o GPS tá dizendo que é pra virar ai, então a gente vai virar. Aos poucos, com medo, Derek desce a ladeira, sempre brecando. Mas, em um determinado lugar, ele não consegue mais segurar o carro e desliza até bater em um carro parado na porta de uma pequena casa. – Puxa o freio de mão, Derek! – Berro. Ele tenta dar a ré. O carro anda para trás e bate no carro estacionado. – Estou puxando, porra! Estou puxando! Minhas pernas tremem que nem varas verdes, pois o carro estacionando inclina um pouco e sei que a qualquer momento ele vai virar. Meu coração bate descompensado, principalmente porque a rua é sem saída e com um enorme penhasco onde, se aquele carro não estivesse ali parado, com certeza já teríamos descido para o além. Derek tenta dar a ré outra vez e os pneus cantam no asfalto negro. Voltamos a bater no carro que, na minha mente, ainda vai capotar para o penhasco. Será o fim! A rua ganha movimentos com o som dos pneus junto com as batidas. Saio do carro e analiso a cena. Levo as mãos até a cabeça. Nunca vamos conseguir sair daqui. Precisamos da ajuda de um guincho. Um homem começa a dizer que várias vezes isso já aconteceu e que o GPS sempre manda virar nessa rua sem saída. Depois de várias tentativas do Derek, o homem pede para tentar tirar o carro dali. Ele até consegue, porém o carro desce e bate no outro de novo. Derek coloca a mão na cabeça nervoso. Seus pais vão lhe matar e é tudo a minha culpa! É difícil andar nessa ladeira de salto. Por isso os tiro e ando de um lado para o outro enquanto assisto as falhas tentativas de tirar o carro do Derek dali antes que despenque ladeira abaixo. Vejo o Derek conversar com uma mulher e depois ele se aproxima. – Ei, Alice, ela me disse que estamos bem pertinho do aeroporto. Se você correr, dá para chegar lá. – Mas e você? Vai ficar aqui sozinho depois dessa confusão em que te meti? – Tudo bem, vamos conseguir tirar isso aqui uma hora. Não foi culpa de ninguém. Agora, vai Alice,


corre! Plano um beijo em seu rosto, depois sorrio. Jogo os sapatos no chão e apanho minha bolsa pela janela do carro. A subida da ladeira é uma eternidade. Estou cansada. Ando e ando e nunca chego ao topo. Um garoto segura a minha mão e me ajuda subir. Sei que ele está curioso imaginando o que devo estar fazendo vestida de noiva ali e o que eu daria para estar nua agora. Finalmente chego ao topo da ladeira e olho para a confusão instalada lá embaixo que parece miniatura. Que se dane! Levanto a barra do vestido e corro pelo meio da rua feito uma louca desvairada. Esqueço de me importar com o que as pessoas estão pensando sobre essa hilária situação. Corro e tombo nas pessoas que me dizem desaforos ou riem. Passo por bicicletas e até um cachorro corre atrás de mim ecoando seus latidos para os quatro cantos. Esbarro em uma menininha e solto a barra do vestido que se lambuza numa poça de lama. Pergunto a um casal para que lado seguir e corto pelos carros em seus movimentos sinuosos devido ao congestionamento. Tenho uma breve noção de quão estranho isso deve ser: uma garota vestida de noiva correndo entre os carros. A esta altura estou suando em bicas e o meu penteado é mais um ninho de galinha do que qualquer coisa mais bonitinha que eu possa imaginar. Avisto a grande fachada do aeroporto. Sinto dores de facão, mas mesmo assim continuo a correr. Cada segundo é preciso. Subo uma pequena ladeira e passo pelas pessoas sorridentes carregando suas malas em diferentes cores e tamanhos. Passo pelas grandes pilastras e consigo entrar. É tudo muito imenso quando se está desesperada. Furo filas e meus olhos varrem cada centímetro do lugar, cada homem alto ou policial. Chega um momento em que paro no centro do aeroporto e fico só gi- rando para lá e para cá em busca o Alec no mar de corpos. Tem um monte de olhos em mim procurando entender. Vejo o mural que informa o próximo vôo: São Paulo. Corro em busca de informação e, aflita, furo a fila, mas ninguém se importa quando chego ao balcão. – O vôo para São Paulo... A moça atrás do balcão me olha com curiosidade e acho que devo estar a cara da Noiva Cadáver – Ele já está se preparando para decolar. Os portões... Deixo para lá suas informações e saio correndo, pois sei que caminho tenho que seguir. Corro como nunca corri na minha vida e caio ao tropeçar em uma mala, chamando mais atenção ainda. Sem precisar de ajuda, levanto-me automaticamente e continuo a correr porque é só isso que sei fazer. Passo por um corredor relativamente vazio, por debaixo de fitas de segurança e chego ao portão de embarque. Tento recuperar o fôlego. Dentro do vestido sujo todo o meu corpo pega fogo e libera um suor frio. – O vôo para o São Paulo – digo. – A senhorita não pode mais entrar. Os portões já foram fechados. Reviro os olhos e rio como se tentasse dizer “qual é!” para o segurança. Corro. Passo por ele e por mais dois seguranças. Aprendi a correr com o vestido, mas cansa mais do que o normal. Continuo correndo. Sei que irei conseguir chegar até o avião e depois baterei com força em sua lataria até que me deixem entrar... Sinto braços envolverem meu corpo e me puxarem para trás. Sou erguida do chão e luto contra os braços. Luto para escapar, para livrar o Alec de uma vida cheia de terríveis lembranças. Luto pelo amor da minha vida! Grito de raiva e choro porque outras mãos me seguram. – Vocês têm que me deixar ir! – Berro. – Vocês não entendem! Soltem-me! Por favor! – Fico repetindo isso.


Uma mão bate no vidro. – Tá vendo aquele avião ali, moça? É aquele que está indo para São Paulo. Não adianta mais, a senhora pode pegar o próximo – diz alguém. E vejo o enorme monumento deslizar pelo asfalto e ganhar vida, asas e virar apenas luzes que ficam piscando no enorme tapete negro. No chão, entro em uma espécie de choro convulsivo. Choro e choro porque sou tão falha! Não consegui! Arruinei tudo! Deixei o Alec ir sem saber que o amo. Eu nunca mais ouvirei falar sobre ele. É tudo muito injusto! Um segurança me conduz de volta para a multidão de pessoas que me olham com pena. Ando por eles sem destino. Driblo seus corpos sem levantar os olhos porque dessa vez o perdi para sempre. Apanho a minha bolsa e procuro pelo celular e descubro que o deixei no carro. Ouço o ruído agudo do microfone e uma voz conhecida. – Ei, Alice, vi você correndo pelas câmeras de seguranças parecendo um bolo de casamento solado. – Ele ri e ergo a cabeça para voz, para as caixas de som. – É, perdão, a piada foi de muito mau gosto. O que quero dizer é que você me provou mais uma vez que é maluca de pedra. Como pôde abandonar seu grande momento por minha causa? Hum? Sei que deveria estar lá, no palco! Por que tem de ser tão cabeça dura, amor? Eu queria que estivesse lá, brilhando... Mas confesso que gosto mais da ideia de você estar aqui. Isso já diz tudo, né? Absolutamente tudo! E eu também te amo, muito, cada dia mais e não imagino – ouço sua voz falhar no microfone – um só dia sem ter você comigo. Sem você sou só mais um homem sem amor. Fico estatelada no lugar com um enorme e idiota sorriso no rosto quando vejo o Alec sair do meio daquela multidão que parou para nos assistir. Aperto o lábio inferior e limpo as mãos que soam no vestido de noiva sujo e suado. Ele está a uns dois metros de mim. Gosto de ver seu rosto elusivo. Choro por uma felicidade e alívio que transbordam em meu peito. – Eu te amo, Alice Barellin. – E todo mundo ouve isso. Ainda encontro forças para correr até ele e pular em seu corpo. Tomo cuidado para não machucar o seu braço quebrado. Beijo-o. Ele me segura com a mão boa e corresponde ao meu beijo, claro! Enquanto isso... (Aplausos e murmúrios.) – Você é louca, Alice. – Eu quase pensei que tinha te perdido. Desculpa por todas aquelas coisas que eu disse... Só estava chateada e com raiva por ter mentido para mim. Sou uma bobona, você não merece uma pessoa chata e fútil como eu. – Está brincando? Você é exatamente tudo o que sonhei. Foi você quem me fez parar. Será que dá para entender isso? De tantas mulheres com quem dormi, você foi a única, Alice, a única. Sorrio e o beijo de novo. – O advogado me contou o que fez. Ninguém jamais fez tanto por mim. Ninguém. E eu fui um puto com você! Deixo para lá o que iria dizer e só acaricio o seu rosto. Encosto a minha boca em seu ouvido, e digo: – Casa comigo, Alec? Ele estreita os olhos. – Você tem certeza? Não sou bom o suficiente para você. – Deixa de ser idiota. É claro que tenho certeza. Eu te amo, ainda não deu para perceber isso? Ele dá aquele sorriso tão famoso que vocês já conhecem. – Então eu caso.


Casamo-nos ali mesmo, no aeroporto, com uma enorme platéia. Nossas testemunhas foram estranhos, quer dizer, o Derek chegou bem a tempo para ser o meu padrinho. Ele contou que foram preciso cinco homens empurrando o carro até o topo da ladeira – isso por que ainda tinha outro dentro do carro acelerando, o que fez os pneus queimarem um pouco. Quanto ao conserto do outro carro, visto que o do Derek não sofreu nenhum aranhão, ficará por conta do seguro, fim de papo. Procurei em minha bolsa as alianças deixadas pela madrinha e as encontrei rapidamente. Essas alianças estão na medida certa, como se a madrinha soubesse cada coisa que aconteceria no meu futuro. O advogado Eduardo levou um juiz de paz que realizou o nosso casamento e ele já tinha tratado de toda a papelada. O negócio mesmo era só assinar. – Eu, Alec, prometo amar-te até o ultimo dia da minha existência. Serei o amigo quando você precisar conversar; serei o colo que precisa quando você quiser chorar; estarei pronto para enfrentar as suas crises e sempre estarei disposto a oferecer uma trégua em nossas discussões bobas; serei o seu amante e deixarei que durma, todas as noites, com a cabeça em meu peito, para que possa ouvir o meu coração chamando pelo teu até mesmo quando estou teoricamente inconsciente. Prometo te amar de todas as formas possíveis como nenhum outro homem ousou amar uma mulher. Para sempre. Não importam os obstáculos que encontraremos pelo caminho. Acredito seriamente que serão bem poucos, pois nós sempre iremos tentar contorná-los juntos. É assim que deve ser. É isso que você está fazendo hoje. Isso é amor. Ele coloca a aliança em meu dedo e perco as palavras. Justo eu, a pessoa mais falante de todo o mundo, perco as palavras. – Eu, Alice, prometo ser mais tolerante. Sério. Prometo te aceitar da maneira que és porque foi por esse cara, cheio de defeitos, por quem eu me apaixonei. Serei mais passível quando as outras te olharem com desejo. Ninguém mais do que eu saberá que és apenas meu. Dormirei de bom grado ouvindo seu coração chamando pelo meu que, com certeza, estará conectado ao seu através de vênulas, artérias e veias invisíveis. – Faço uma careta. – E, ah, deixarei que durma abraçado a mim mesmo que às vezes me aperte tanto que me deixa sufocada – ele ri. – Comprometo-me a te amar nos momentos tristes e felizes, nas horas de trabalho ou nos meus momentos livres. Prometo que não existirá outro casal mais feliz do que nós porque eu te amo. Farei de tudo para que a felicidade reine sobre o nosso casamento que se consuma agora. Coloco a aliança em seu dedo quando ouço algo, como um coral: – Amém! E foi assim que nos casamos. Acho que a ficha ainda não caiu, sabe? Mas sei que irei me acostumar rápido com a ideia de ser a esposa do Alec. Enfim, nos beijamos seguido de aplausos, e devo dizer que a história ainda não se deu por encerrada.


Epílogo Recomeço, amores e blá, blá, blá Seis meses se passaram. Não sei exatamente por onde começar. Aposto que vocês querem saber exatamente tudo que aconteceu desde que me casei com Alec, certo? Ainda continuo fazendo faculdade, o que significa que ainda tenho os mesmos amigos. Já decidimos quem será a oradora da turma e, claro, não será eu, e sim a Ana. Preciso dar oportunidades para as outras pessoas também brilharem (brincadeirinha!). A Silvia continua na mesma. Laura encontrou o amor de sua vida no Facebook. Ana resolveu que quer ser solteira – subentenda, Nêmias que se exploda. Lis foi embora para Salvador com o namorado que mais tarde descobrimos ser podre rico. O Adrick sobreviveu e deixou os programas, pois tudo o que ele queria era atingir seus pais. E conseguiu. Ele até engatou um namoro com a Celina, mais conhecida como Boca de Veludo. Depois de tanto frete, o relacionamento de ambos era inevitável. E a Elvira anda num vai e vem em seu relacionamento amoroso. A Belle se mudou para Feira. Vendeu a casa do Rio de Janeiro e comprou um apartamento em um bairro nobre, onde mora com Eric, que conseguiu um emprego com um gordo salário. Eles também transferiram seu curso para cá. Quanto à herança deixada pela Cloe, eu não queria, mas a Belle insistiu tanto que acabei aceitando. Disse a mim mesma que esse dinheiro era pela minha venda. Doei o dinheiro para uma intuição que apóia crianças com autismo. Se você não sabe o que é isso, procure no Google e se informe. Ajude também essa causa! O Derek namorou a Isabelle por três meses mas, como se era de imaginar, ele meio que ainda é apaixonado pela Lena. Por achar que estava sendo desonesto com a Isabella, acabou dando um tempo no relacionamento. Eu deveria te contar mais sobre isso, no entanto não tenho esse direito. Essa é a história do Derek. Quem sabe um dia ele não conte a vocês a aventura de um triangulo amoroso? Tenho certeza que vocês iriam adorar acompanhar essa história. É uma possibilidade. Não pensei mais na Cloe e em seu abandono, muito menos na sua venda desde a história da herança. Penso que já dei muita atenção a esta história e, sinceramente, preciso seguir em frente, como diz o CFA: o ven- to sopra para frente, é reto, sem curvas. Voltando ao meu casamento, ele acabou saindo na imprensa e num Jornal de TV, que contou a nossa história para milhares de pessoas. Demos entrevistas a várias revistas depois disso e estampamos capas. O Alec não topou de primeira e tive que apelar para o drama. Deu certo. Alec não quis procurar pelos irmãos. Disse que seria perda de tempo e que também era melhor evitar saber se as coisas terminaram ruins para ele. Resumindo: o Alec está sempre seguindo em frente, e eu admiro muito isso nele. No segundo dia de casada, tive que me apresentar em quatro sessões extras. Repeti o espetáculo para as pessoas que deixei na mão. A peça foi um estouro e rodamos todas as capitais do Brasil. Agora, seis meses depois, estou ensaiando uma nova peça, mas ainda não posso contar nada sobre ela. É surpresa! Há quatro meses Alec fechou contrato com uma agência de modelos que vinha ligando periodicamente, dia e noite, dizendo que ele era o rosto que a agência precisava. Fiz com que ele aceitasse, óbvio. Então o Alec passou de garoto de programa para modelo de capa de revistas. Agora ele está preso em pôsteres e fotos recortadas enfeitando o quarto de garotas loucas e apaixonadas por


ele. Sei disso por que fizeram uma entrevista com as suas fãs, o que é estranho. Porém, nem me importo. Sei que ele é apenas meu. Devo informar que o Alec também recebeu uma proposta de fazer um ensaio nu para uma tal revista aí e, claro, ele recusou sem titubear e nem insistir. Afinal, não quero estranhos desejando-o ainda mais. Agente tem que impor um limite para tudo! Tenho outra novidade sobre o Alec... Agora sobre mim. Já falei que tenho uma nova peça, né? E também já disse que estampei revistas ao lado do Alec. Darei uma entrevista semana que vem para uma revista famosa, e fui convidada, por um olheiro, para fazer a protagonista de uma microssérie da maior emissora brasileira. As gravações começam no próximo bimestre. Enquanto isso, resolvo o que fazer com meu curso. Não fui convidada a um ensaio nu, mas para um sensual. Tive que recusar porque descobri estar grávida de duas semanas. No início fiquei com medo por causa do meu papel na tal microssérie, mas os produtores disseram que daqui para lá a minha barriga ainda daria para disfarçar. Então me tranquilizei. Se for menina, se chamará Catharina, e se for menino, Alec Segundo – nada mais justo. Tenho quase certeza de que será gêmeos. Mãe sente essas coisas, né?! Ah, quase ia me esquecendo! Vendi o antro e não me senti nem um pouco triste com isso. Eu nunca disse que amava aquele lugar. O Alec também vendeu a casa da tal Valerie. Juntamos dinheiro e adicionamos mais uma quantia do dinheiro que o Alec ganhou fazendo programas e compramos uma linda casa com jardim e piscina como sempre sonhei. Ainda sobrou um bom dinheiro, principalmente daquele que ganhamos com as entrevistas, fotos, etc. Semana que vem vamos comprar um cachorro e os primeiros móveis do quarto do bebê. Ontem o Derek me deu o primeiro sapatinho. Chorei. Ele é um fofo e será um padrinho maravilho e “corujo”. Agora estamos em uma casa de show lotada, com todos os meus amigos e desconhecidos. O Jonathan também está aqui. Ele seguiu em frente e preferimos não falar para o Alec sobre nosso rápido envolvimento. As garotas estão extasiadas em seus vestidos, saltos e maquiagem. Quando entreguei o CD do Alec para um amigo produtor da Belle, imaginei que iria ser um sucesso, só não pensei que uma casa de show lotaria de uma hora para outra para assistir a sua primeira apresentação. Aperto a mão do Derek em cima da mesa e sorrio para a Belle e o Eric. Enfim, todas as coisas se encaixaram depois do turbilhão que foi a minha vida nesses meses que se passaram. Tenho certeza que Deus sempre esteve no comando. Ele sabe que tive que passar por todas essas provações para encontrar a minha felicidade. Olhando para trás, vejo que cada lágrima que rolou em meu rosto foi indispensável para torna-me a mulher que sou hoje. O Alec surge no palco, lindo, incólume com o seu baixo vermelho e um blazer preto que eu escolhi. Ele sorri e coça a cabeça. Acho que por um segundo não sabe o que o dizer até segurar o microfone. Entre seus dedos está uma paleta azul. – Hum. Antes de mais nada, queria agradecer a vocês por estarem aqui esta noite e por me darem este voto de confiança. – Ele olha para mim, fixa seus belos olhos escuros na criatura que sou. – Mas é obvio que eu não estaria aqui hoje se não fosse por ela, Alice, a minha linda esposa. A mulher por quem todos os dias eu me apaixono e aprendo a amá-la cada vez mais. Foi ela quem me ensinou, que quando realmente amamos uma pessoa, esquecemos todos os preconceitos que nos rodeiam e fazemos de tudo por aquele amor. Amar uma pessoa é, na verdade, estar sempre na frente de uma bala perdida para que o nosso amor não seja atingindo. Sinto que isso vem de você, Alice, e quero que saiba que é recíproco. Eu te amo, te venero e te desejo todos os dias, pois encontrei tudo que procurava em só uma pessoa: você. Obrigado, de verdade. Essa música vai para você, amor, porque fomos destinados um ao outro e ninguém mais do que você sabe disso. Ouço o som das cordas propagarem seu som. E ali descobri algo que só consegui notar agora. Eu não comecei a gostar do Alec depois do jogo, nem quando ele cuidou de mim quando cai no racha de


motos, nem mesmo quando dormimos juntos ou seja lá do que você se lembre agora. Eu o amei assim que pus os olhos nele, assim que no seu olhar encontrei um lugar para ficar. Um lugar para chamar de meu. E é nesse lugar que eu quero ficar, pois o amo, para sempre. Sorrio para ele e sopro um beijo. Ele também sorri pra mim de um jeito ainda mais encantador e eu não preciso de mais nada, pois tenho tudo o que preciso. Eu queria que você soubesse e, agora que sabe, eu não vou mais te deixar partir. Não há mais medo, nem confusão, amor... Somos destinados”, ele canta, lindamente. Sim, fomos destinados um ao outro. Concordo enquanto as palmas e o som embalam a minha música. O nosso amor. O amor.


Agradecimentos Antes de mais nada, queria agradecer a Deus por ter me dado a chance de terminar mais um livro. Agradeço aos meus pais por toda a confiança e por me tolerarem, óbvio. Sou grato também às minhas irmãs por serem pacientes quando escrevo (todo mundo sabe que tomo posse de qualquer computador quando resolvo escrever). E, Rafaela: sem você para ouvir as minhas ideias quando ninguém mais o fazia. Um OBRIGADO imenso para a Natany por me entender mesmo quando eu não consigo; por compartilhar de sonhos tão parecidos com os meus que chega a ser inacreditável. É obvio que sem você a Alice não seria a Alice, e sim uma garota sem noção. Cheguei à conclusão de que a alma feminina é mais difícil do que imaginei, e você me proporcionou esta descoberta. Sou eternamente grato por não me mandar para o raio que me parta, principalmente quando entro em crise pós-escrita. Estimo-te muito. Jéssica, obrigado pelo incentivo. Espero sinceramente um dia estar lendo um livro seu. Serei de fato seu tiete. Agradeço muito por ler e opinar meus textos sempre quando estou inseguro. Parte desse livro cabe a você por não me permitir parar nunca. Camila Lima, obrigado por sempre acreditar em mim, por me ajudar a entender que tudo é possível. A gente só precisa de um empurrão. Carol T., obrigado pelo incentivo e por acreditar nessa história. Sinceramente, sem você, minha grande guerreira, as coisas não teriam chegado aqui, neste ponto. Um livro é a prova de que um livro pode aproximar duas pessoas de forma inigualável. Lizzie, a gente quase nem se vê, mas obrigado por estar comigo desde o meu primeiro livro de vampiros sem noção, pela a ajuda e pelas sinopses aperfeiçoadas! Obrigado aos meus amigos da faculdade que ironicamente fazem desse convívio a minha segunda casa: Thay, Stephanie, Silvia, Jhones, Acácia, Thâmara, Danilo, Jamila e Isabel. Não dá para escrever o nome de todos, no entanto sintam-se inseridos nessa gigantesca lista. A maioria não sabe, mas parte do que está dentro deste livro – histórias inusitadas – pertencem a estes estranhos. Sou grato a todos os meus amigos, os do passado, do presente e, claro, do futuro. É das melhores amizades que surgem os melhores momentos prontos para serem postos no papel... Um dia. Jeferson, sinceramente? Você fez algo incrível com o meu texto. Obrigado por arrumar a bagunça! Pontos e vírgulas em seus devidos lugares fazem uma diferença, hein? Enfim, você é o ninja aqui. Obrigado também às pessoas que esclareceram as minhas questões sobre programas, rachas e afins. E a você, querido leitor: um OBRIGADO por ler a história desse escritor de meia tigela. Espero que vocês amem, ria, chorem e às vezes queira matar a Alice e companhia, assim, acredito ter chegado ao meu objetivo, afinal escrever não é simplesmente encher um bloco de folhas repletas de letras bonitinhas, e sim fazer com que o leitor sinta na pele cada sentimento ali escrito. Obrigado e um ótimo jogo!

Verdade ou Consequência? - Matheus Frizon  

Deixada aos cuidados da madrinha desde os sete anos, Alice Barrelin é uma estudante de Biomedicina cujo sonho é tornar-se uma atriz. Apesar...

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