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Estudo Comércio, Finanças e Desenvolvimento

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COLEÇÃO

lobby financeiro e contentou-se com pouco mais do que a alteração da linguagem na Diretiva em causa.

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Estamos pois perante uma era em que os Governos se tornaram parte do problema e não da solução, porquanto lutam pelos interesses de uns poucos em detrimento do interesse da maioria. Todas estas opções têm criado profundas desigualdades (a riqueza concentra-se nas mãos de muito poucos), originando problemas profundos como os cada vez maiores fluxos de migrações e de refugiados, a insegurança, o ódio e a xenofobia. Vivemos atualmente numa altura mais ou menos propícia ao contributo do comércio para o desenvolvimento, em comparação com o início do século? Atualmente muita gente autorizada começa a evidenciar a falibilidade e os efeitos perversos do neoliberalismo apelando à mudança de paradigma face a proposta de novas soluções. Atualmente temos referenciais de erradicação da pobreza à escala global (como são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS) que atribuem um papel (e grande responsabilidade) ao setor privado. Hoje temos uma Sociedade Civil organizada muito empenhada na avaliação dos sistemas, na denúncia dos abusos e desvios e na proposição de novos modelos e paradigmas. Temos, contudo, também uma sociedade de (des)informação que gera e alimenta apatias, ódios e indiferenças. É minha profunda convicção que somos a primeira geração com os meios, recursos e conhecimento para reverter as políticas e leis que não tenham as pessoas, a sua dignidade e seus direitos no centro. Não podemos pois falhar. Não podemos pois esperar que outros façam por nós o que deve ser feito. Temos que assumir o nosso papel de cidadãos, de consumidores e lutar à nossa escala, mudando hábitos de consumo e de convivência com o nosso semelhante com a urgente intenção de preservar a nossa espécie e o nosso condomínio global. Que incoerências gostaria de destacar no financiamento do desenvolvimento em termos globais? As incoerências (e apenas tendo em conta o financiamento para o desenvolvimento) são incontáveis e muito complexas. É importante identificá-las e procurar saná-las. É, contudo, mais importante encontrar a(s) sua causa(s) remota(s) e eliminá-la(s). Doutro modo estaremos a lidar com os sintomas e não com a causa desta doença e, como tal, não conseguiremos ir mais longe do que vai um paliativo na redução das dores provocados por uma qualquer patologia. A principal das causas remotas, a meu ver, é a (ainda!) hegemonia do poder económico sobre o poder político. É o poder político que tem o mandato para o cumprimento do contrato social, pugnado pelo bem-estar comum, pelo acesso em plano de igualdade aos bens e serviços essenciais à dignidade humana. Não é o poder económico. Se o poder político, põe de parte esse pacto social para dar lugar a outros interesses, está aberta a brecha para as incoerências que nascem perante o discurso que (de um modo geral) se mantém conforme aos bons princípios do humanismo e fiéis aos ditames do pacto social e a praxis política. Um exemplo que costumo referir a este respeito, diz respeito aos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), os antecessores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Quando foram aprovados, à semelhança do que aconteceu recentemente com os ODS, foram feitas contas sobre quanto custaria implementá-los. Chegou-se a montantes elevadíssimos e com eles a ceticismos da mesma dimensão. Diziam muitos que nunca se conseguira angariar em 15 anos tamanhos montantes para erradicar a pobreza. Porém, entre março e maio de 2009 (altura em que eclodiram os efeitos da crise financeira) angariou-se em apenas dois meses 30 vezes mais dinheiro do que supostamente seria impossível angariar em 15 anos para erradicar a pobreza, e com a finalidade de o injetar no mercado financeiro para os bancos não falirem e/ou continuarem a emprestar dinheiro. Não faltam


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