Ideia de Monumento: projetos para o porvir

Page 82

163

162

central reproduzido nesta publicação (p. 141 a 149). Essa instalação

artista montou uma estrutura com 16 escoras de metal erguidas a

foi produzida a partir de uma réplica, construída em madeira, do

quatro metros e meio do chão; elas chegam muito perto de encostar

Obelisco da Memória, o mais antigo monumento da cidade de São

no teto, impedidas por uma pilha de materiais diversos (compensados,

Paulo; o entorno do monumento (o espaço público que o circunda)

telhas, pedaços de caixa d’água e de lona) que é, ao mesmo tempo,

foi fundido em escala real com materiais de construção e entulho. O

sustentada pelas escoras e espremida por elas contra o teto. Os

Obelisco situa-se no Largo da Memória, localizado no início da rua 7

alto-falantes instalados nas escoras de metal conduzem sentidos

de Abril no centro da cidade, espaço que, no século XIX, funcionava

duplos de significação (de cima-abaixo, e vice-versa) e amplificam as

como ponto de encontro dos moradores da cidade e de viajantes

vozes registradas em entrevistas com moradores do bairro da Vila

que chegavam do interior. O Largo foi constituído em meados dos

Mariana e com profissionais ligados a estudos da dinâmica da cidade.

anos 1810, quando o governo da cidade encarregou um engenheiro

Esses depoimentos revelam memórias e pontos de vista acerca

de melhorar a comunicação entre São Paulo e o interior. Além da

da constituição da cidade de São Paulo, cuja urbanização desenfreada

construção de uma estrada, esse engenheiro propôs a formação do

acabou por suprimir a nomeação de locais, acontecimentos e pessoas,

Largo com um chafariz e um obelisco, erguido “à memória do zelo do

“engolidos” pelo desenvolvimento da metrópole. Esse é o caso da

bem público” (citação do site da Secretaria de Cultura da cidade de São

comunidade que se formou na Rua Mário Cardim na Vila Mariana,

Paulo). Ao fundir o entorno do Obelisco com materiais de construção

representada em alguma das imagens que compõem a presente

e desconstrução, Erica Ferrari materializa as contradições internas de

reprodução de O nome da margem (p. 150 e 151). Sem nomeação

um monumento erguido à memória dele mesmo – afinal, o Obelisco

oficial, essa comunidade é umas das muitas que são destituídas

não faz referência a figuras ou acontecimentos algum – e evidencia

do direito público à memória; afinal, o nome permite a comunhão

que o espaço público urbano está em constante reformulação,

memorial de algo, reconhecível por todos através, justamente, de

construindo-se e destruindo-se em disputa com a memória.

seu nome. Ainda, os elementos que constituem materialmente a

Diferentemente da estrutura estática e petrificada do Obelisco,

instalação estão ligados às construções sobre leitos de água (píers,

que reduz a noção do “bem público” a uma forma memorial vazia.

palafitas, casas escoradas), que, em São Paulo, foram canalizados e

O entorno do Obelisco, modelado em escala real, aparece aqui

soterrados no processo de urbanização (de maneira análoga à não

como a forma negativa do estatuto memorial – a inversão da

nomeação). As escoras de metal, que ascendem verticalmente a

monumentalidade.

pilha, espremendo-a contra o teto, também canalizam as vozes que

Na instalação O nome da margem (2016) (p. 150 a 160), a

buscam ser ouvidas, para enfim serem lembradas.


Millions discover their favorite reads on issuu every month.

Give your content the digital home it deserves. Get it to any device in seconds.