A VELA VERMELHA : Colapso de Dogmas (Parte 1)

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Sobre o Autor

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Ferrenho defensor de causas sociais e sempre aspirando a um mundo mais justo e perfeito, IANN FOX é o primeiro romancista maçom a se apresentar, abertamente, como tal. Como Mestre Maçom, alcançou o grau de Soberano Príncipe da Maçonaria (Sublime Cavaleiro do Real Segredo, 32° REAA). Eclético, na vida profana é PhD em Religião e especialista em diversos ramos do conhecimento. Amante das artes em geral, recebeu diversos prêmios por obras de artes visuais de sua autoria.

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IANN FOX ∴ A VELA VERMELHA Colapso de Dogmas

SOMENTE PARTE 1 Edição e Revisão: Elisa Fonseca

Copyright © IANN FOX, 2021 Todos os direitos reservados. Nenhum trecho deste livro pode ser reproduzido sem expressa autorização do autor. Este livro é uma obra de ficção.

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Conteúdo Sobre o Autor Dedicatória Agradecimentos Fatos & Considerações PARTE 1 PRÓLOGO CAPÍTULO 1 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 CAPÍTULO 6 CAPÍTULO 7 CAPÍTULO 8 CAPÍTULO 9 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 CAPÍTULO 16 CAPÍTULO 17 CAPÍTULO 18 CAPÍTULO 19 PARTE 2 & 3 (não incluídas)

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ATENÇÃO O livro A Vela Vermelha é composto de 3 partes: O Aprendiz, O Companheiro e O Mestre. Este e-book contém somente a Parte 1 (O Aprendiz) e pode ser distribuído livremente. Para adquirir o livro completo, visite:

https://www.iannfox.com

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Dedicatória Dedico esta obra a todos aqueles que lutam por um mundo mais iluminado, mais justo e mais perfeito — sejam crentes ou ateus, iniciados ou profanos.

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Agradecimentos Agradeço especialmente ao Irmão Jafet, ao Irmão Gardner (in memoriam), a L. June e a I.R.H., sem os quais esta obra não seria possível.

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Fatos & Considerações Esta obra, baseada em fatos históricos e eventos reais, revela, de forma inédita, informações ocultas que são desconhecidas mesmo pela maioria dos maçons. Todos os locais, grupos, rituais e símbolos apresentados são verdadeiros e representados acuradamente. A Ordem Negra (Black Order) é uma sociedade secreta real e este é o nome pelo qual é conhecida em círculos esotéricos. Neste livro, quando possível, o autor procura citá-la como Ordem das Trevas ou Ordem da Escuridão, visando não ofender leitores que possam ser sensíveis ao nome original, embora locuções de origem ocultista como essa (incluindo Magia Negra e Adepto Negro) não possuam nenhuma conotação racial, apenas caracterizam aversão à Luz.

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“A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar.” — Carl Sagan

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PARTE 1 O Aprendiz

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PRÓLOGO Enzo e Lana Pompano Beach, FL Condado de Broward Domingo, 15 de Março de 2020 - 13h41

E nzo e Lana Costa foram pagos para trazerem do Brasil o menino

Alessandrino Ortiz e, aqui nos Estados Unidos, criá-lo como se fosse seu filho. Passadas quase quatro décadas, naquele dia de fim de inverno o sol tórrido castigava o asfalto daquela tranquila vizinhança de Pompano Beach, onde o casal viveu todos esses anos. No interior da antiga casa cor de café-com-leite em típico estilo floridiano, o cheiro aveludado de molho de tomate com noz moscada teimava em aromatizar a brisa refrescante que saía do aparelho de ar condicionado. Seu mecanismo de ventilação emitia o único ruído que reverberava nas paredes brancas lisas e no teto, que tinha textura pipoca da mesma cor. O som oco de metal batendo e o barulho de água que esguichava pela torneira quebravam aleatoriamente o vácuo daquele início de tarde de domingo. Adormecido após o almoço em sua poltrona predileta na sala de estar, Enzo foi despertado de sobressalto por um zumbido contínuo e irritante, seguido pela doce voz de sua esposa Lana. — Querido, você pode atender a porta? Estou terminando a louça. — Tá bom! — respondeu ele, colocando os óculos que estavam com sua carteira na mesinha ao lado. Ela machucava seu nervo ciático, por isso sempre a tirava para se sentar ou deitar. Síndrome da carteira, dizia seu médico. Olhou de relance para a TV em que antes de cochilar estava assistindo desenhos animados no Tooncast, seu canal predileto. Ela estava desligada. “Cazzo, preciso trocar essa campainha barulhenta”, pensou, enquanto tirava os pés da banqueta à sua frente e dobrava seus joelhos doloridos. Calçou os chinelos e preparou-se para enfrentar a árdua missão de levantar seu corpo,

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que ficava mais pesado a cada dia. Trinta anos atrás seria uma tarefa fácil e automática ficar em pé, mas agora, aos 77 anos de idade — e com essa artrite dos infernos —, a tarefa requeria algum tempo a mais para ser completada. Embora ele se lembrasse de trocar a campainha a cada vez que ela tocava, logo esquecia disso. Ela já estava na casa desde 1983, quando a compraram. Enzo dirigiu-se lentamente para a porta, ainda embriagado pelo sono. Antes de abri-la, espiou pelo canto da persiana da janela, como sempre fazia. Na frente de sua casa estava uma caminhonete branca desconhecida. Não conseguia ver quem estava ali, então ficou imaginando quem seria àquela hora. Não possuíam muitos amigos e com certeza nenhum deles os visitaria em um domingo à tarde. Muito menos sem avisar que viria. “Deve ser o jardineiro. Mas por que esse finocchio veio hoje? Ele sempre vem nas segundas-feiras de manhã. Será que veio pedir dinheiro emprestado?” Girou a chave na fechadura, pensando: “Tenho que instalar um olho mágico”, mas já sabendo que também não o faria, assim como nunca trocara a campainha. Enzo abriu a porta, que girava para dentro, e o ar exterior, um bafo quente e grudento com cheiro de piche derretido, envolveu seu corpo. Diante de si, bloqueando sua visão, estava um grande tórax vestindo uma camisa xadrez vermelha e preta. O brilho da enorme fivela do cinto chamou a sua atenção um pouco para baixo, mas rapidamente seus olhos viajaram verticalmente para cima, até encontrarem a face de um jovem desconhecido, tão alto quanto a porta. Estava de chapéu e óculos escuros. “Um cowboy na Flórida? Seria fantasia de Halloween? Mas estamos no começo do ano ainda!”, pensou Enzo. O vaqueiro estava com as mãos para trás como um policial e lembrou-lhe o Django dos antigos faroestes italianos da década de 70. Na época, ele ficava se perguntando por que um ator com um nome italiano tão bonito como Mario Girotti teria mudado o nome para Terrence Hill. Aquilo não fazia sentido ao jovem Enzo, que adorava ir ao cinema no Brasil para assistir filmes do cowboy Trinity. Mais tarde, morando nos Estados Unidos, ele entendeu que pessoas mudam seus nomes estrangeiros para parecerem mais americanizados. E, também, para que seus nomes pudessem ser mais facilmente pronunciados no

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idioma inglês. E era por isso que seu filho, Alessandrino, sempre se apresentava como Alex — embora Enzo nunca o chamasse assim. Mas o homem que estava à sua frente aparentava ter pouco menos de 30 anos de idade e não parecia estar ali para entreter ninguém com assuntos do Velho Oeste — atrás daquela barba mal feita havia uma cara de poucos amigos. Seu pescoço já estava cansado de olhar para cima, esperando o estranho falar gostosuras ou travessuras ou alguma coisa do tipo, até que o silêncio foi interrompido pela voz anasalada do homem perguntando com um sotaque desconhecido: — Sr. Costa? — Sim? — “Como ele sabe meu sobrenome?” O cowboy trouxe os braços para a sua frente e Enzo pôde perceber que vestia luvas brancas de dentista. Com a direita retirou os óculos escuros e os colocou no bolso esquerdo da camisa. Trazia um rolo de fita adesiva larga na mão esquerda. Seria um encanador? — Enzo Finer Costa e Lana Bella Costa? — prosseguiu o desconhecido. A voz e os olhos fixos em tons de azul do estranho pareceram perfurar sua alma e causaram uma explosão em seu peito. Um choque preencheu seu corpo frágil, rasgando e rompendo caminho até as extremidades que começaram a trepidar. Forçou suas pernas a ficarem em pé enquanto tentava fechar a porta, mas o homem colocou o pé entre ela e o batente, a seguir empurrando-a com a força de um urso. Enzo se desequilibrou, perdendo um dos chinelos, e caiu após tentar se segurar no aparador de metal encostado na parede. Derrubou consigo os enfeites de cristal, antes metodicamente arrumados por Lana, e que agora eram só um punhado de cacos espalhados pelo piso cerâmico. Por sorte, seus óculos não caíram do rosto, então mesmo deitado pôde ver a porta se fechando e o cowboy adentrando seu sagrado lar. As solas das botas de couro mastigavam os pedaços de vidro no chão, fazendo barulho similar ao de passos em cascalho fino. O estrondo chamou a atenção da esposa que saiu da cozinha para ver o que estava acontecendo. Deparou-se com Enzo de joelhos, tentando se erguer com

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dificuldade, e com um enorme estranho apontando uma arma para ela enquanto arrastava uma cadeira da sala de jantar. — Sente-se aqui — ordenou o homem a Lana, sendo atendido após alguns segundos de hesitação. O cowboy então prendeu, com fita adesiva, a idosa àquela cadeira de frente para a porta e no meio da sala. Em seguida dirigiu-se a Enzo. Ajudou-o a levantar e mandou que se sentasse em uma outra cadeira, ao lado de Lana. Prendeu-o da mesma forma que a esposa, e perguntou a ele: — Onde está? Enzo viu os olhos de Lana. Eles estavam arregalados como se fossem saltar de suas órbitas. Nunca viu sua esposa tão apavorada. Ele sabia do que o estranho estava falando, mas preferiu responder como se não soubesse. Talvez não fosse o que ele estava pensando, afinal. — Onde está o quê? Mal terminara sua frase e o homem já estava batendo na cabeça de Lana com a mão que segurava a arma. A mão dele era tão grande que quase não sobrava muito metal para atingi-la. O golpe foi tão forte que ela e sua cadeira quase foram ao chão. Com uma só mão o homem a puxou pelo braço e ajeitou sua cadeira na posição em que estava antes. Enquanto o monstro colocava fita na boca de Lana — o que abafou seu choro — Enzo observou melhor a enorme fivela do cinto dele: um P riscado e logo abaixo a inscrição #25:6. Enzo estava ferido da queda e percebia que sua esposa também sangrava. Ela, com os olhos fechados, tentava controlar a respiração. Provavelmente estava rezando, pedindo forças para Madonna. Ele não podia ver o corte em sua companheira, mas via o líquido vermelho e viscoso escorrendo pelo ombro esquerdo até o seio dela. Tirando um canivete do bolso traseiro, o invasor se agachou e cravou com violência a lâmina na coxa esquerda de Lana, que imediatamente abriu, em uma explosão, os olhos antes cerrados, soltando um longo e profundo gemido sufocado, de uma nota só. Era um grito abafado que com certeza carregava consigo todo o pavor da dor que ela sentia. — PARE! PARE COM ISSO! — gritou Enzo, em desespero.

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— Se falar de novo sem eu mandar, ela morre — retrucou o estranho, enquanto revolvia o metal dentro do quadríceps de Lana. Os olhos dela reviraram-se e sua cabeça se movimentava rapidamente e sem direção — como se isso pudesse afastar seu sofrimento. Enzo sentiu-se impotente, como jamais se sentira em toda a sua vida. O agressor removeu a faca da perna, e Lana finalmente suspirou aliviada. A calça bege que ela vestia rapidamente se encharcou de sangue. O assento da cadeira ficou manchado de vermelho escuro. Por dezenas de anos fora tão importante para eles cuidarem do tecido das cadeiras, agora, de repente, isso não tinha mais relevância nenhuma. O desconhecido se levantou, caminhou para trás daquela desesperada senhora e colocou a lâmina suja de sangue na garganta dela. Enquanto segurava a cabeça de Lana pelos cabelos para que seu pescoço ficasse esticado, perguntou para Enzo com voz autoritária: — Pela última vez, onde está? Enzo desviou sua atenção para Lana, que fez um pequeno sinal brusco e limitado de aprovação com sua cabeça trêmula e olhos nervosos. Ele então respondeu: — Tá no cofre de um banco em Nova York. A chave tá na gaveta da escrivaninha no quarto. — Tentou apontar com a cabeça para o corredor atrás e à esquerda do invasor. — Em um saquinho de veludo preto, dentro da caixa da calculadora. Lana não se mexia, só tremia. O tempo que a lâmina demorou para desencostar do pescoço dela foi uma eternidade para o marido que observava a cena. Quando o cowboy foi ao quarto, Enzo fez questão de acalmar a esposa. — Vai ficar tudo bem, Bella. Vai ficar tudo bem — dizia, mesmo não acreditando em suas próprias palavras. Maledetta hora que ele disse sim para a Fraternidade, aceitando trazer o artefato! A coisa mais importante em que ele podia pensar naquele terrível momento de aflição, era no filho Alessandrino. Estava arrependido por não ter ido ao seu casamento, mas foi melhor assim. Queria voltar a vê-lo, ampará-lo. Não estava conseguindo socorrer Lana, mas de uma forma ou de outra protegeria o filho como já havia planejado há anos.

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O barulho seco da pancada da gaveta fechando abruptamente prenunciou a volta do indesejável, que retornou com um chaveiro em uma das mãos. Com a outra ele enfiou um tecido preto com cheiro de mofo e gosto de pó de café na boca de Enzo, antes de se dirigir novamente para trás da cadeira de Lana. — Eu falei que ela ia morrer se você abrisse o bico sem eu mandar — disse com naturalidade, olhando para Enzo, antes de segurar pelos cabelos a cabeça de Lana e puxá-la para trás. Então, de um só golpe com a mão direita, cortou transversalmente de orelha a orelha seu pescoço, do qual pulsou jorros de sangue, como um vômito escarlate. Enquanto seu corpo expulsava a essência da vida para fora de si, os olhos arregalados de pavor de Lana se fecharam calmamente. O monstro limpou a lâmina na roupa da sua vítima, soltou o cabelo dela e fechou o canivete. A cabeça de Lana subitamente se moveu para a frente e para baixo, em um último aceno de despedida. A morte não era negra como Enzo pensava antes de vê-la tão de perto — ela era encarnada, diabólica, e agora cobria sua esposa como um manto rubro pegajoso, brilhante e macabro. No momento em que ele viu a vida saindo de sua querida companheira de tantos anos, agitou-se freneticamente na cadeira, como se fosse jovem outra vez. Não sentia nenhuma dor, exceto a dor da perda. Seus gritos abafados aumentaram quando percebeu a mão do homem puxando sua cabeça para trás, e o instrumento gélido lentamente rasgou sua própria garganta. Podia ouvir e sentir a lâmina avançando internamente, rompendo seus vasos e tendões. O sofrimento ficou insuportável quando sua traqueia tentou resistir, sendo logo recortada, como uma reles mangueira de jardim. Já não conseguia emitir som nenhum. Ao tentar gritar, seus pulmões somente se esvaziavam soltando ar através do seu pescoço dilacerado. Quando aspirava, inundava os pulmões com seu próprio sangue quente, fazendo-o sufocar com o fluido que se infiltrava neles. Angustiado e em desespero, tudo o que ouvia era seu próprio coração, batendo cada vez mais forte. Ali sentado, sentiu dor, frio e o gosto amargo e ferroso do líquido em sua boca.

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Para Enzo a aflição daquele pesadelo era interminável. Já não lembrava mais da esposa, seu instinto agora era de sobrevivência. Mas em vão. A escuridão começou a invadir seu campo de visão, e seus olhos desobedientes se fecharam. Então não viu mais nada, não ouviu mais nada, e não sentiu mais nada.

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CAPÍTULO 1 Alex e Gabby A lex Ortiz fazia compras em um grande supermercado mal iluminado,

quando notou que todos estavam olhando para ele. Percebeu que, por algum motivo que ele desconhecia, estava nu. Completamente nu. Mães tapavam os olhos de seus filhos. “Meu Deus, como isso foi acontecer?” No mesmo instante uma funcionária apontou para ele e chamou o gerente, quase chorando: — Jack! Jack! É um bote, Jack! Alex olhou para baixo e agora estava em um barco, que foi se enchendo de sangue. Acordou assustado, mas a voz continuou: — Jack! Jack! Foram mais alguns segundos até que Alex reconhecesse as formas borradas do seu quarto no apartamento de Wilton Manors, e se localizou no espaço, mas ainda não no tempo. Gabby sempre disse que Alex devia corrigir sua visão míope com cirurgia, mas ele nunca achou isso importante. Pegou seus óculos na mesa de cabeceira e, através das lentes, podia ver perfeitamente o contorno da cômoda branca à frente da cama, e logo acima dela a reprodução em escala menor do quadro A Dança de Matisse, quebrando a cor de neve que imperava na decoração do apartamento. Gabby disse-lhe que, segundo o Feng Shui, a cor branca acelera demasiadamente o chi, e os itens coloridos como o Matisse servem para controlar o excesso de energia, para não causar ansiedade. Alex achava bobagem esse negócio de energia do ambiente, mas sabia que Gabby possuía muito bom gosto, então preferia não se meter nesses assuntos. Se dependesse dele, as paredes estariam pintadas de creme ou palha. Se bem que paredes brancas refletem mais a luz, permitindo o uso de lâmpadas mais econômicas. Ainda deitado na cama, percebeu que era domingo à tarde, e que Gabby estava assistindo Titanic na sala pela centésima vez. “Não deveria ter tomado aquela terceira taça de vinho depois do almoço”, pensou. Mas não foi o vinho que lhe causou letargia, fora a mudança de A VELA VERMELHA

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horário na semana anterior. Horário de verão. Seu corpo ainda não estava acostumado com a nova rotina. Havia um cheiro de queimado no ar. Pipoca? Levantou-se e foi até a porta do quarto, ao que Gabby falou da sala de estar quando percebeu que ele estava ali: — Te acordei, cariño? Desculpa, me empolguei e acabei aumentando o volume da TV. Adoro essa parte — apontou para o televisor. Sempre conversavam em inglês em casa. Gabby certamente preferiria espanhol, pois sentia orgulho de suas origens latinas. Ao contrário, Alex queria parecer mais americano, por isso se apresentava como Alex, ao invés de seu nome de batismo Alessandrino. “Em Roma, faça como os romanos”, era o que sempre dizia. Não queria ser vítima de preconceito, sentia que o país estava mudando e ficando cada dia mais intolerante com imigrantes. Evitava ser visto como um estrangeiro que tirava os empregos dos americanos, como diziam alguns. Esse tipo de preconceito nunca preocupou Gabby, que de qualquer forma sempre fora vítima de bullying desde que era criança em Cuba, então não ligava mais para isso. Nos Estados Unidos sempre viveu de forma isolada com sua mãe, diferentemente de todos os outros cubanos que se reúnem em grandes grupos familiares. Essa foi a maneira que ela encontrou de proteger a criança que era atacada só por ser mais gentil e carinhosa do que as outras crianças. Por onde passava, Gabby sempre era vítima de bullying. Já o problema cultural de Alex se resumia a seu sobrenome: Ortiz. Quando usava crachá em Miami, as pessoas já se aproximavam dele falando espanhol, mas ele tinha dificuldades com esse idioma. Gabby, mesmo proferindo um inglês fluente, sem qualquer sotaque, preferia falar espanhol sempre que podia. “É o sul da Flórida, Allie. Toda la gente habla español aquí. Você tem que aprender.” Sim, mas nunca foi sua prioridade. Na verdade, ele até tentou, quando começou a trabalhar em Coral Gables. Em uma lanchonete pediu um sanduíche dizendo “yo quiero de presunto”. O atendente ficou fitando seus olhos com uma expressão estranha, vaga, como se ele estivesse com vários pontos de interrogação na cabeça, até que Alex apontou para o que queria. “Ah, jamón!” disse-lhe o homem. Então, alguns dias

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depois, em outro local de Miami, Alex pediu sanduíche de presunto novamente, dizendo “Yo quiero de Ramón.” A mulher respondeu-lhe que não conhecia nenhum Ramón. Desse dia em diante, não quis mais arriscar falar espanhol. Já falava português e italiano, idiomas que no passado praticava com seus pais ítalo-brasileiros na casa deles. Sabendo que a maioria das pessoas que fala espanhol nos Estados Unidos fala também inglês, sempre preferiu aprender bem a língua de Shakespeare, antes de qualquer coisa. Mas quando chegou nos Estados Unidos, também cometeu gafes enquanto aprendia inglês, como no dia em que foi ao cinema com coleguinhas da escola, em 1984. Há 11 anos. Ao saírem, a mãe de um deles os levou a um restaurante que servia crepes. Alex leu o menu e pediu o que pensou estar dizendo crepe de galinha. Todos olharam assustados para ele na mesma hora. Seus amigos riram, mas a mãe do Mat e a garçonete apenas sorriram. Como Alex poderia saber que americanos pronunciam creipe ao invés de crepe, como ele dizia no Brasil? Acontece que ele pediu chicken crap, que quer dizer titica de galinha, e logicamente esse virou seu apelido na escola até o fim do período daquele ano — por sorte já estavam em maio. Crianças podem ser tão cruéis! Daquele dia em diante ele fez uma promessa para si mesmo que seu inglês teria que ser perfeito e falaria como um americano nativo. Então aprendeu a dominar bem o idioma, melhor ainda do que o português, língua na qual foi alfabetizado. Alex percebeu que Gabby estava segurando um pote com pipoca, e escorria lágrimas no rosto enquanto assistia Titanic. — Puxa, peguei no sono e já são mais de quatro horas. Já vou aí com você — disse Alex. Escovou os dentes ainda ouvindo alguém que soprava um apito na TV. Foi até a sala, beijou Gabby rapidamente, passou pela sua frente e sentou-se ao seu lado no sofá. Estava destinado a assistir o final de Titanic mais uma bendita vez. Por sorte estava no final, pois esse filme é longo como O Senhor dos Anéis! Ficou ali em silêncio para não atrapalhar, mas ao invés de olhar para a TV, olhava para aquele rosto jovem, corpo perfeito, cabelos curtos maravilhosos…

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Aqueles olhos castanhos brilhantes, lacrimejantes… Sim, eram lindos até chorando. Alex, ainda com preguiça, não quis pipoca. Só queria aguardar pacientemente o filme terminar para poder conversar. Após alguns longos minutos, Gabby saiu do transe em que estava, limpou as lágrimas com as costas da mão e falou: — Adoro esse filme. — Eu sei. — Se eu fosse ela, não teria jogado o diamante fora. — É, eu sei. Você sabe que parece que fizeram Titanic 2? — Sério? — perguntou Gabby. — Acho que é, vi um trailer. — Alex pegou o celular para pesquisar, enquanto dizia: — Nesse trailer Jack volta, não tinha morrido no naufrágio. — Tá brincando. Mas aí não tem graça, ele morreu! — Você prefere ele morto, Gab? — Não, né — colocou um punhado de pipocas na boca, dando uma pausa para pensar. — Ah, mas não tem como. Eu vi ele morrendo! — Não se preocupe, ele vai continuar mortinho e congelado. É fake, vi aqui agora que é uma montagem. Não se pode acreditar em nada hoje em dia, mesmo — disse Alex decepcionado, mostrando o celular. — Ah, bom. Mas também o DiCaprio e a Kate já devem tá muito velhos pra fazerem outro Titanic, mesmo… — O que você tem contra os velhos? — perguntou Alex, fingindo estar bravo. — Nada não, meu amor… Eu, por exemplo, tenho um velhinho lindinho aqui em casa. — Gabby riu e deu um beijo nele. Pegou mais pipocas e perguntou: — Como foi seu almoço? — Mesma coisa de todo domingo, mesmo frango assado com espaguete e polenta. Ah, comi fortaia desta vez. — Mas o que é fortaia? — perguntou Gabby. — Um tipo de uma omelete italiana, com muito queijo. — Deve ser bom, adoro queijo. Tudo com queijo fica bom. — Olhou para o pote, pegou mais pipoca, e disse: — Eu sei que você sente falta dos seus

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pais, a comida italiana conforta, né? Você lembra do restaurante que eles tinham, da comida. Por que você não vai lá na casa deles algum dia? — Ah não, não vou. Se eles não foram no nosso casamento, é porque não querem me ver. Se quiserem, eles entram em contato comigo. Meu número não mudou. — Você é muito orgulhoso, Al. Mas é de mim que eles não gostam. — Ah, já conversamos sobre isso, Gab. Eles são só dois velhos bobos e preconceituosos. Não dá bola pra isso. — Alex pegou um pouco de pipocas e resolveu mudar de assunto, perguntando: — E você, como foi na igreja? O tal almoço de caridade tava bom? Ambos relaxaram com a pergunta. Gabby se ajeitou no sofá, sorriu e respondeu: — A comida nem tanto, mas o culto antes do almoço tava ótimo! Foi bom demais, o pastor é um homem muito inteligente. Vocês iriam se dar bem. — Por quê? Acho que não. Você sabe como eu sou com religião… Lembra daquela vez que fomos lá na igreja daquele pastor Kennedy-alguma-coisa ali na Federal Highway? — Nossa, se lembro! — Respondeu Gabby, travando os dentes e esticando seu lábio inferior para trás, fazendo uma careta. — Ele morreu, né? — Pois é. Morreu… Se existisse Céu e Inferno, aquele lá iria direto pra um lugar quente e em chamas. — Credo, Allie. — A gente chegou na porta daquela igreja e todo mundo ficou nos olhando esquisito, como se a gente fosse um casal de alienígenas. Aí, quando ele disse que cristão não podia beber, eu não aguentei e levantei no meio do sermão — disse Alex, erguendo o braço direito com uma pipoca entre os dedos. — Fiquei morrendo de vergonha! — Pois é. Mas se bebida com álcool é ruim, por que o milagre de Jesus foi transformar água em vinho? Por que não transformou água em limonada, Minute Maid ou sei lá o quê? Alguma bebida sem álcool? Água com gás, que fosse? — Você é fogo! Eu lembro da cara dele, coitado. Disse que naquela época vinho era só suco de uva, que não tinha álcool — riu Gabby.

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— Sim, que bobagem. Aí eu perguntei: se vinho era sem álcool, como então Noé tinha se embebedado a ponto de ser encontrado nu pelo filho? E como as filhas de Ló fizeram pra embebedar o pai para transarem com ele? O cara ficou branco, sem resposta, e pediu para eu sentar que ele precisava terminar o sermão. Falou que no final ele me explicaria… tô esperando explicação até hoje! — disse Alex rindo, mas alguns segundos depois voltando à sua expressão séria. — Detesto essa manipulação, detesto que enganem as pessoas. — Ah, mas não é que as pessoas sejam enganadas, Al. É que elas gostam de sonhar. Você nunca acreditou em nada espiritual? Nem no Papai Noel, quando era criança? — Claro que eu acreditava no Papai Noel! Eu não via a hora de chegar o Natal. — E não era bom? — Era, Gab — disse Alex, dando de ombros, para logo levantar a mão direita com a palma voltada para cima, movimentando-a enquanto falava: — Mas aí me contaram que Papai Noel não existia, que era tudo mentira. Eu ainda teimei que meu pai tava errado, porque se o Papai Noel tomava o leite e comia os biscoitos que eu deixava, ele existia sim. Biscoito não some! Aí meu pai disse que era ele mesmo que fazia isso, tomava o leite e comia os biscoitos… Na hora fiquei confuso, arrasado, me senti muito traído. — Então, Al. Você queria continuar naquele sonho. Preferia ficar sonhando que existia Papai Noel. — Entendi seu ponto. Mas não seria melhor nem enganar, pra começar? Me tiraram o chão quando me contaram a verdade. Isso não se faz, muito menos com crianças! Dá um nó na cabecinha delas! — As pessoas gostam de sonhar, e é isso que você não entende. Todo mundo gosta de achar que existe um ser invisível que tá ali pra elas, pra proteger e ajudar nas horas difíceis. — Nesse caso você quer dizer que alguns adultos são como crianças, só que trocaram Papai Noel por Papai do Céu? — Lá vem você debochando… — Tá, desculpa. Então você acha que eu fiz errado na igreja, aquele dia?

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— Não sei, você é você sendo você… — riu Gabby. — Só sei que não fiquei com mais vergonha porque as pessoas já estavam olhando estranho antes disso. Será que nunca tinham visto um casal como nós, de mãos dadas? — Pois é. Vai ver não gostam de latinos, quem sabe? A melhor parte daquele domingo foi atravessar a rua depois do culto e comer aquele espaguete com queijos no Olive Garden. Com muito vinho, claro — sorriu Alex, jogando duas pipocas para dentro da boca. — Verdade. Mas você sabe que desde aquele dia nunca mais convidei você pra ir na igreja comigo, né? Nem na Batista que vou agora. — Gabby parou por um segundo. — E eu ainda acho que você fez aquilo só pra não ter que ir mais comigo. Seu plano deu certo. — Abaixou a cabeça, simulando tristeza. — Será? — riu Alex, sabendo que era só fingimento de sua cara-metade. — Mas você sabe que eu não gosto de igrejas. Se por acaso eu resolvesse ir em uma, eu iria na Católica. Gosto desse papa Francisco. Alex admirava Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Era um papa que muitos consideram modernista, só que as pessoas não entendem é que ele estava na verdade tentando voltar a Igreja Católica às suas verdadeiras origens. Enquanto católicos tradicionalistas querem levar a Igreja Católica de volta para a Idade Média, Bergoglio deseja o retorno da Igreja Cristã primitiva, aquela que absorveu outras crenças, aquela que aceitou os gentios e inseriu os pagãos em seu meio. Não era isso que ele estava tentando fazer com o Sínodo da Amazônia no final de 2019? — Eu ia sempre na Igreja Católica, mas nunca mais fui desde que mamacita morreu — disse Gabby, agora realmente triste ao lembrar da mãe. — Sim, eu sei — a voz de Alex saiu em volume mais baixo. A mãe de Gabby morrera uns dois ou três anos antes deles se conhecerem. Ficou doente, câncer. Só convivia com a mãe, pois o pai já havia morrido em sua infância quando fugiram de Cuba para a Flórida. Fizeram promessas e novenas para uma santa, quando descobriram a doença, mas logicamente não adiantou — Alex sabe que orações não são remédio nem cura para nada. Desde então, Gabby não quis mais saber de santos nem de imagens católicas. E não gosta muito de tocar nesse assunto. Houve silêncio, e logo após um sorriso dissipou a tristeza. Apesar de tudo o que já havia passado na vida, Gabby conseguia ser uma pessoa que irradiava

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muita alegria. Colocou a mão no rosto de Alex, e disse: — Meu coroa lindo! Só que você é rebelde como um adolescente. — Então mudou o tom delicado para um sotaque estrangeiro indefinido. — Honre seus cabelos brancos, homem! — E riu da sua própria imitação. — É, sou um coroa lindo e acima do peso, que te ama muito. — Vice-versa! Quer dizer… vice-versa a parte do eu te amo, não a parte do coroa acima do peso. Ambos riram. Alguns segundos depois Gabby mais uma vez fez o sotaque estranho, com um R forte e destacado: — Um homem tem que ter carrne nos ossos! — Sei… — disse ele, reconhecendo agora que aquela era uma tentativa de imitar o sotaque de uma personagem russa de um seriado de TV. Então continuou. — Essa série era boa no começo, depois ficou chata, né? — Orphan Black? Pois é, também achei. — E eu não esqueci que você me chamou de gordo. Magoei — brincou Alex. — Nah… Você não é gordinho, os outros é que são muito magros. — Tá bom, vou acreditar — cruzou os braços e sentou-se para trás. — Que deu em você pra ver Titanic de novo? — Ah, é que o sermão hoje foi sobre amor incondicional, que o amor é mais importante que o dinheiro. Aí lembrei da história do Titanic, por isso cheguei e fui assistir. Você estava dormindo. — Tomei vinho no almoço e fiquei com muito sono. — Alex deu uma pausa. — Engraçado, eles acham… — achou melhor não completar a frase. Já tinha falado demais sobre esse tema naquele dia. — Que foi, Allie? O que eles acham? Eles quem? Seus pais? Ele sabia que não ia conseguir escapar, então resolveu falar. — Não é nada não, é que as pessoas acreditam que Jesus era pobre, mas não é verdade. — Como assim não era pobre, Allie? Nunca antes na vida ele conseguira se desvencilhar de uma pergunta de Gabby, e não seria dessa vez que ele conseguiria. Estava cercado. Então respondeu: — Ora, se José, o pai dele, não tivesse bens, não precisaria ter ido participar do censo. Além do mais, a Bíblia diz que não puderam ficar na pousada só

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porque não tinha lugar. Mas se procuraram uma pousada, era porque podiam pagar uma pousada, não é? Você não procura uma pousada para se hospedar, se não pode pagar uma. Questão de lógica. — Alex pausou por um instante e continuou: — E Jesus não ganhou ouro de presente no nascimento? Desde quando pobre ganha ouro? E pobre com ouro, não é mais pobre. E não é só isso, espera… — ele pegou o celular e foi pesquisar algo. Enquanto isso, Gabby ponderou: — Olhando por esse lado… Ele encontrou o que estava procurando na Internet, e em tom categórico disse: — Agora olha isto. Em 2 Coríntios 8:9 Paulo confirma que Jesus era rico, mas que ele, Jesus, preferiu ficar pobre — mostrou o celular, e continuou. — E isso é muito interessante porque eu acho que descobri quem são os pobres que ele fala, e não são os pobres como os de hoje em dia que os cristãos atuais pensam que são. — Mas Jesus não era carpinteiro? — Não, eles acham que Jesus era carpinteiro, porque o pai dele seria um. Mas na verdade nem seu pai era carpinteiro. — Não? — perguntou sem esconder de seu marido a curiosidade. — Não, é só um erro de tradução ou uma adaptação errada de uma tradução. A Bíblia original em grego diz que José era um tekton, um mestre construtor. Tekton de onde vêm as palavras tectônica, de placas tectônicas, e arquiteto, sabe? — Sei. Mas então Jesus era carpinteiro mesmo, carpinteiro e construtor não são a mesma coisa? — Bem, não… Além do mais não tem muita madeira naquela região. Acho que o tradutor devia ser de outro lugar e achou que a palavra carpinteiro servia melhor para que o texto fosse entendido. Mas não acho que essa era a intenção de quem escreveu o evangelho original. Alex largou o celular ao seu lado e continuou: — E você sabe que Jesus não nasceu em nenhum estábulo, e que Maria não era virgem, né? — Quê?? Ah, para Allie! — Gabby aparentava surpresa com a avalanche de informações despejadas por Alex.

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Religião era o único assunto que eles dificilmente conversavam em todos esses anos que estavam juntos. Gabby dizia que ele era radical, herege e até debochado nesse sentido, porque não conseguia compreender muito bem a importância da fé e religião para a maioria das pessoas. Por isso, normalmente não demonstraria paciência de ficar ouvindo essas coisas de seu marido. Mas hoje foi diferente. Provavelmente porque ele estava muito empolgado, como não havia estado há meses. — A Bíblia simplesmente não fala que Jesus nasceu em nenhum estábulo, isso é invenção. Pode procurar. — Alex apontou para a Bíblia sobre o bombay, e continuou: — Sobre Maria, O Evangelho de Mateus cita Isaías como sendo uma profecia sobre Maria, usando a palavra grega parthenos para o original hebraico almah, que quer dizer jovem mulher. Jerônimo, na tradução em latim da Bíblia, diz que ela era uma virgo, que significava uma mulher jovem. Se fosse virgem mesmo, sem nunca ter transado, ele teria usado virgo intacta. Tá no meu livro, mas você nunca quis ler… — Alex preferia não ter dito isso, pois em seguida se arrependeu. Ele sabia porque Gabby não queria ler o livro mais recente que ele havia escrito: tinha medo da capa, medo do título, medo de quebrar a ilusão, a magia que a religião lhe permitia. Esse livro era diferente dos outros livros acadêmicos que ele tinha escrito no passado — não pelo seu conteúdo em si, mas principalmente pelo título. Gabby disse-lhe na época que o título do livro era ofensivo, mas Alex falou que isso era preconceito. Teimou e publicou mesmo assim. Alex devia ter-lhe ouvido. — Você está com saudades de dar aula, né Al? — Em um instante Gabby encerrou a sisudez do assunto e abriu um grande sorriso que pareceu iluminar a sala com seus dentes brancos e perfeitos. — Tô. Deu pra notar, né? — sorriu Alex ao perguntar, lembrando que há apenas quatro meses era professor de História do Cristianismo na Universidade de Miami. — Percebi — colocou a mão carinhosamente na coxa do marido. — Na verdade tô praticando com você porque amanhã tenho entrevista em Miami. — Ah, é? Vão te contratar de volta, amor?

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— Não, não. Vou ser entrevistado para a rádio WLRN. — Ah, tá. Que hora? Quero ouvir. — Vai ser gravado, deve ir ao ar na terça, que é dia de São Patrício. — Entendi. Sempre chamam você pra falar de santos, né? — Pois é, você sabe que é uma das minhas especialidades. Além de sexo selvagem, claro… — riu Alex. — Seu bobo! Pensei que ia dizer alguma coisa séria… — Não, mas falando sério agora, já faz um bom tempo que eu não não dou entrevista sobre… Gabby o interrompeu, largando o pote de pipoca na mesa de centro, e dizendo: — Agora chega disso. Você sabe que não gosto de santos, mas também não gosto de duvidar das coisas de Deus. Vamos tomar café? Alex ia falar sobre um outro compromisso na segunda-feira, mas já que havia sido interrompido, resolveu ficar quieto para não criar expectativas. Assim ele contaria a Gabby apenas se obtivesse sucesso. Então respondeu: — Você pergunta para um macaco se ele quer bananas? Vamos, claro! — Tá bom, meu macaquinho. Deixa eu ligar o rádio. Gabby desligou a TV no controle remoto que estava ao lado da pipoca, e ligou o aparelho de som no outro controle que estava na mesa lateral, ao lado do seu celular. Uma música lenta com ritmo marcado começou a tocar na Y100 de Miami. Alex olhou para o aparelho de onde saía o som, como se tivesse que vê-lo para ouví-lo, e disse: — Música bonita, parece Coldplay. — É mesmo. Agora que você falou… Parece Paradise, mas não é. Deixa eu ver no Shazam — pegou o celular, clicou, e após alguns segundos ambos viram o aplicativo mostrar o título da música. — Birds, de Imagine Dragons? Nome estranho para uma banda. — Alex desviou do celular e olhou para Gabby. Levantou-se, pegou na sua mão para que se levantasse também, e perguntou sorrindo: — Quer dançar antes do café? Eles não dançaram, mas se abraçaram em silêncio, ouvindo a canção até seu final. De olhos fechados, em frente ao sofá. Antes do café.

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As estações vão mudar A vida vai fazer você crescer Sonhos vão fazer você chorar… Tudo é temporário Tudo vai mudar O amor nunca vai morrer…

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CAPÍTULO 2 Motel A menos de dez minutos do prédio de Alex e Gabby, uma picape F-150

branca encostou no estacionamento de um motel na Federal Highway e seu ocupante aguardou alguns minutos ouvindo My Lord is Coming Soon, de Carroll Roberson, até certificar-se de que ninguém estava olhando. Estava com manchas de sangue nas botas e na calça. Tirou os óculos de sol, colocou-os no painel e fingiu mexer no celular. Não precisou esperar muito, pois havia pouca gente na rua. Deixou o chapéu na picape, desceu, entrou no quarto, colocou a chave do carro na cama e esvaziou os bolsos: carteira, chave do cofre do banco, celular, canivete, pistola SIG P365 e o tubo de clonazepam que ele havia pego na casa dos Costa no dia anterior — na certa iria ajudá-lo com a sua insônia. Foi um bônus, não um roubo. Aquela Lana não iria precisar mais de remédios no lugar para onde foi. Pegou e colocou tudo em cima da mesa de cabeceira. “Não devia ter trazido esse tubo com o nome dela, pode me incriminar. Agora já foi, foda-se!” Sentou-se na cama, e logo em seguida tirou as botas Rios. Eram velhas, mas eram Rios de Mercedes feitas a mão! Enquanto sentia o carpete barato pinicando seus pés, tirou a calça jeans e tentou limpá-la, sem sucesso. Não teria como lavar uma calça agora, mas, por sorte, havia trazido outra Wrangler igual na mochila, pois lembrou que seria terrível se tivesse que comprar uma Levi’s no sul da Flórida. “Levi’s são para bichonas”, costumava dizer para seus poucos amigos. E as botas? Tinha muito sangue nas botas. “Só tem um jeito, porque comprar outras… nem pensar. Eles não devem ter nem Ariats aqui. E botas demoram pra pegar a forma do pé do sujeito!” Não usava chinelos, pois andar descalço fortalecia as solas dos pés. Vestiu o jeans extra e foi dirigindo na Federal Highway em direção ao norte por alguns minutos, até encontrar um supermercado Publix no Pompano Plaza, no lado esquerdo da rua enfeitada com palmeiras. Lá comprou OxiClean.

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Sabia que esse produto iria funcionar, seu pai sempre usava depois das caçadas. Lembrou como gostava de sair para caçar com o pai; ficava tão alegre e empolgado, o coitado. Depois que seu irmão e sua mãe morreram, a família era só ele e seu pai, por isso gostava de fazer-lhe companhia, deixá-lo feliz. Acompanhava-o em caçadas, mesmo sabendo que ele próprio nunca atiraria em um animal indefeso. Desde muito novo treinava atirar facas nas árvores, poderia acertar um besouro a metros de distância se quisesse, mas não feriria nem um inseto. “Animais são melhores que pessoas”, costumava dizer aos colegas da faculdade de Veterinária na qual se formou, embora nunca tivesse trabalhado no ramo. Foi descuido não ter comprado OxiClean antes, pois as pessoas da Flórida estranharam ao ver alguém andando descalço no mercado. “Aqui não é igual ao Alabama. Será que nunca viram uma pessoa de chapéu e sem botas? Os ianques têm cowboy pelado na rua tocando violão, e isso é muito pior. Pelo menos fiz bem em colocar a camisa xadrez vermelha”, pensou. A camisa, se houvesse respingos de sangue, ninguém notaria. De volta ao quarto, ligou o ar condicionado que ficava logo abaixo da janela e começou a limpar as botas. O líquido espumava nos respingos, enquanto fazia o serviço que era suposto fazer: limpar o sangue. Levou algum tempo, mas deu certo. Estavam encharcadas, mas limpas. Fez o mesmo com a calça suja e a pendurou no cano da cortina no banheiro. Deitou um pouco na cama, em diagonal. Ela era pequena para ele, como todas as outras camas. Estava acostumado com isso. “Preciso de uma cerveja antes de fazer a ligação. Não são 6 horas ainda.” Levantou-se, pegou uma cerveja no frigobar e tomou o conteúdo de um só gole, em pé, enquanto racionalizava: “Aquelas pessoas-de-lama não mereciam viver, mesmo.” Tomou a segunda cerveja sentado na cama, satisfeito. “Big Ray vai ficar orgulhoso de mim. Missão dada, missão cumprida!” Tomou a terceira cerveja e olhou na tela trincada do celular. 18:05h. “Merda!” Discou nervoso com seus dedos enormes, alguém atendeu: — Você tá atrasado. — Desculpa, Big Ray. Mas deu tudo certo.

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— Pegou? — Uma chave de cofre, não tinha mais nada na casa, revirei tudo. — Como assim, uma chave de cofre? — Ele disse que tá no banco, no cofre do banco. — Que banco? — Aqui no chaveiro diz JPMorgan Chase WTC NYC. — Cacete, Bubba! Ele tá vivo ainda? — Não, acabei os dois. Eram só pessoas-de-lama, mexicanos cabeças-de-taco. — QUE PORRA, BUBBA! Só o dono pode abrir seu cofre de banco! Pegou a carteira de identidade dele, pelo menos? — Não… eu não sabia. — VOCÊ É RETARDADO? Volta lá AGORA e pega essa bosta dessa identidade. — Mas… — AGORA, SEU FILHO DE UMA… SEU BOSTA! QUERO ESSA MERDA DESSA CARTEIRA AGORA! Depois do grito, o silêncio. Big Ray desligou. Bubba jogou o celular na cama. Como voltar? E se a polícia já estivesse lá? Bubba permaneceu com as mãos na cabeça por alguns minutos, mas resolveu ir logo — a cerveja lhe dava coragem. Pensou em levar o tubo de clonazepan de volta, mas agora ele tinha suas digitais e DNA. Tirou os comprimidos, colocou no bolso e queimou o tubo dentro do cinzeiro. Abriu a janela e a porta para a fumaça sair, não queria que o detector de incêndios disparasse. Vestiu as botas, ainda molhadas, e se dirigiu novamente para Pompano Beach. Chegando na rua de Enzo e Lana, esquina com a Cypress Road, ele não sabia se continuava de carro ou se ia caminhando. Se fosse a pé poderia chamar muita atenção, como chamara mais cedo no supermercado. Melhor ir dirigindo mesmo, talvez fosse mais fácil fugir de carro, se a polícia o perseguisse.

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Entrou na rua devagar, não havia nenhum movimento. Passou pela frente do local e estava normal, como se nada tivesse acontecido. Fez o retorno no final da rua e parou na entrada da garagem da casa que esteve naquela mesma tarde. Pegou a caixa no porta-luvas e vestiu as luvas cirúrgicas. Desceu da picape e tentou abrir a porta da frente, mas ele mesmo a tinha fechado quando saiu. A porta só abria por dentro. “Melhor ir até os fundos”. Na porta de trás, foi fácil entrar. Colocou o chapéu encostado no vidro e deu um soco dentro dele. O vidro quebrou, dando acesso à parte interna da fechadura. Limpou os cacos de vidro do chapéu e o colocou na cabeça novamente. Entrou na cozinha e fechou a porta. Assim que adentrou viu os corpos na sala em frente, ainda sentados, e o símbolo escrito com o sangue deles na parede. Tinha muito sangue no chão. “Como vou chegar lá? Não quero ter que limpar minhas botas de novo.” Olhou em volta, abriu os armários até achar sacos de lixo. Ensacou seus pés e foi em direção às cadeiras. O sangue já estava seco e escuro em algumas partes, mas ainda viscoso em outras, o que tornava o chão um tanto escorregadio. Parou atrás do corpo de Enzo, pegou o canivete do bolso e cortou a fita que amarrava as mãos do velho atrás da cadeira. Para que o corpo não caísse para a frente, segurou-o pelo colarinho com a outra mão. Guardou o instrumento e procurou a carteira nos bolsos dele. Nada. Foi soltando lentamente o corpo de Enzo para que caísse sem causar respingos. Difícil se equilibrar nessa posição, pois ali o chão estava muito escorregadio. Foi até o quarto do casal, procurou no guarda-roupas que já havia revirado antes, e nada encontrou. Se aproximou da escrivaninha, observando uma bateria de carro em cima de um banquinho ao lado dela e pensou “quem guarda uma bateria de carro no mesmo quarto em que dorme?”. Abriu a gaveta, depois de olhar por cima. Ali estavam alguns papéis, a caixa vazia da calculadora e uma ferramenta mecânica que causava asco em Bubba. Duas coisas naquele quarto davam nojo em Bubba e faziam ele querer sair rápido daquele ambiente. A ferramenta na gaveta e aquela bateria automotiva lembravam algo que lhe causava pesadelos desde criança: oficinas mecânicas.

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O outro quarto estava completamente vazio, não tinha nada. Voltou para a sala. “E agora?” Colocou as mãos na cintura enquanto olhava para os lados, pensando no que fazer. Foi quando viu que havia esquecido a fita em cima da mesa na frente dos velhos, e foi pegá-la. Então notou uma carteira de couro em uma mesinha ao lado de uma poltrona. Sorriu. “Bingo!” Como ele não tinha visto isso quando estava procurando a vela? Foi até lá com cuidado, pegou a carteira, a abriu e lá estava o que ele precisava. Deu um suspiro de alívio. Como estava de luvas, tirou todo o dinheiro de dentro dela, deixando as notas em cima da mesa. Normalmente não tocaria em dinheiro, muito menos após ter saído daquele quarto-oficina! Mas estava de luvas. Colocou a carteira no bolso de sua camisa e voltou até a cozinha. Tirou dos pés os sacos de lixo sujos de sangue e os inseriu dentro de um outro saco limpo. Lavou na pia as mãos, ainda com as luvas cirúrgicas, e a parte do saco de lixo que ele havia pego com as mãos sujas. Secou-as com papel toalha, e saiu rapidamente da casa. “Ninguém me viu”, pensou ao parar para jogar os itens sujos dentro de um contêiner de lixo no caminho. De volta ao motel, Bubba abriu outra cerveja e imediatamente ligou para Big Ray, que respondeu: — Fala. — Consegui. — Alguém te viu? — Não. — Agora, presta muita atenção, Bubba. Sabe pra quem é esta operação? — Pro Mike, o chefe, claro. Como sempre. — Não. É pra Dominus. — Do… Dominus? O Dominus? — Para Bubba, Dominus era inacessível, uma lenda nos grupos por onde ele circulava. Então perguntou: — Como assim? — Dominus tá no comando, eu tô falando direto com ele. Tenho o número do celular dele e tudo. — O senhor… — Bubba tossiu, quase se afogando com a cerveja — tá falando direto com Dominus? Mike sabe?

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— Claro, estúpido. Foi Mike que pediu pra gente cuidar disso pra ele, direto com Dominus. — Caraca! A gente tá importante, então. — É. A gente não pode dar mole, não pode errar. Presta atenção, quero que faça o seguinte. — Diga. — Tira uma foto da carteira de identidade do Costa e envia pra mim. Dominus vai dar um jeito. Acho que vai mandar alguém parecido, sei lá. — Sim, senhor. — Bom trabalho, garoto. Agora troque a placa da picape, vá pra Daytona Beach e fique por lá na Unidade. Lembra onde é? — Claro, fica escondida naquele matagal na Fremont Avenue. Ajudei o Lynch a construir o galpão, lembra? — Ah, é… Você soube que o Lynch morreu? — perguntou Big Ray. — Kevin Lynch morreu? Não, eu não sabia! — disse Bubba, surpreso. — Morreu em dezembro do ano passado. Pobre cara. Depois que engaiolaram o sujeito, não se ajeitou mais. Mike prometeu que ia ajudar ele com advogado e tal, e não ajudou com nada. Achei chato aquilo, mas sabe como é o Mike… — Sei. Vai ver Kevin morreu de desgosto, era um cara legal. Doidão, mas legal. Fiquei na casa dele na James Street daquela vez. Ele até me deu a senhamestra que sempre colocava nos alarmes que ele instalava em todas as obras que fazia. É tipo uma porta dos fundos pro sistema. Dizia que era por segurança, pediu pra não contar pro Mike — disse Bubba. — Você ainda lembra dessa senha? — Lembro, era a data de nascimento dele. Fiquei com aquilo na cabeça e decorei. Sei lá se eu ia precisar daquela porra, também! Nunca se sabe… — Agora entendi porque sumia munição de lá da Unidade e ninguém sabia que merda que tava acontecendo… Que figura era o Lynch! Riram como se estivessem prestando uma homenagem ao amigo, mas logo Big Ray tornou ao assunto principal. — Amanhã a gente vai levar de avião a chave pra Nova York. — Vai querer que eu vá até a terra dos ianques? Você sabe que eu não gosto de voar… E nem de ianques!

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— Não, não. Entregue a chave e a carteira de identidade do Costa pro sargento Turner lá na Unidade. Já avisei que você tá indo pra Daytona. Espere por lá, posso precisar de você aí pela Flórida ainda. Ele que vai levar a chave amanhã de manhã, quero um dos nossos por perto. Não esquece de me mandar a foto agora, pra poder mandar pro Dominus. Ele disse que tem que ser rápido porque Nova York pode entrar em lockdown e os bancos podem fechar por causa dessa maldita doença chinesa. — Positivo, senhor. — Fique com Deus. — Você também, papai. *** Longe dali, um homem olhava uma cópia de um relatório antigo datilografado em italiano, com algumas frases marcadas em verde limão. Esses trechos ele tinha traduziu em outra folha. … concluímos que a única movimentação do suspeito Giuseppe Ortiz Reale no período foi levar Enzo Finer Costa e Lana Bella Costa a Porto Alegre (RS) em seu automóvel Opala Caravan, pela manhã do dia 07/12/1982 (terçafeira), voltando desacompanhado no dia posterior … … Enzo e Lana Costa viajaram para Miami no mesmo dia … … no interrogatório o suspeito nada informou, e o artefato não foi encontrado em sua casa, embora tenhamos testemunhas que confirmaram que a viram na casa do suspeito, conforme anexos F e G. … “Eu estava certo. Agora falta pouco”, pensou, enquanto relia os documentos. O silêncio foi quebrado pelo som de notificação no celular, monopolizando sua atenção. Chegou a mensagem que aguardava. Dominus, segue a foto da identidade. B.Ray

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CAPÍTULO 3 Frutabomba O sol nascente bateu na janela do apartamento em Wilton Manors,

iluminando o interior do ambiente naquela manhã de segunda-feira. “Que claridade é essa?”, pensou Alex Ortiz, logo antes de abrir os olhos e perceber que mais uma vez haviam esquecido de fechar as persianas na noite anterior. Quando compraram esse apartamento, fizeram questão de ter o sol matinal no quarto, pois seria terrível ter os raios solares escaldantes da Flórida os importunando à tarde, mesmo no inverno. Enquanto fechava as persianas e se dirigia para o banheiro, Alex achou que talvez devesse ter escolhido um apartamento com o quarto virado para o outro lado. Ou talvez um que não fosse no térreo. Mas logo percebeu que não seria uma boa ideia. “Bobagem! Foi descuido… fazer o quê? Só lembrar de fechar as persianas à noite!” Além do mais, já eram quase 8 da manhã. “Wilton Manors é uma ilha”, veio em sua mente enquanto escovava os dentes em uma das duas pias do balcão. “Bem… tem gente que não sabe disso, porque não dá pra ver a água em volta”, respondeu a si próprio. Seria estranho falar consigo mesmo? “Não estou falando, estou pensando…” e riu de si próprio, para logo ficar sério, se olhando no espelho. “Talvez eu seja louco, loucura pode ser hereditária… ou talvez seja essa mudança de horário. Detesto essa mudança de horário. Preciso de um café!” Alex terminou seu banho e colocou o café para fazer. Olhou a hora no celular, e voltou para o quarto. Tirou os óculos e se curvou em direção a Gabby, que ainda dormia profundamente. — Bom dia, amor da minha vida — sussurrou ele, só recebendo um resmungo de volta. Não sabia como uma pessoa podia fazê-lo sentir-se tão bem. Não era só por seu corpo e sua beleza quase juvenil, era mais pela alegria que sentia quando estavam juntos, compartilhando todos os momentos de suas vidas. “Menos igreja e religião”, lembrou ele. Embora Gabby fosse bem mais jovem, ambos quase nunca lembravam da diferença de idade. Talvez só se dessem

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conta disso quando ele comentava sobre alguma música antiga que Gabby não conhecia. Ele gostava de Pink Floyd e Red Hot Chili Peppers e sua cara-metade gostava de Katy Perry e Black Eyed Peas. Mas Gabby também gostava de ouvir RHCP por causa de Alex, e Alex também começou a gostar dos Peas por causa de Gabby. Exceto quando Fergie cantava ao vivo… — Gab, já são oito horas. Vai se atrasar! — Ahhh já?? — foi a resposta murmurada, ainda de olhos fechados. — Tô fazendo café, vou fazer umas torradas enquanto você levanta. — Tá bom, Allie. Gracias. — Tenho que me arrumar também, tenho um dia cheio: aula, entrevista de emprego… — Alex interrompeu sua frase, não era para ter falado isso. Olhou rápido para a Bela Adormecida, que disse: — De emprego? Não era na rádio? — É que tenho entrevista de emprego hoje também. — Sério? Onde? Por que não me falou antes? — Na FAU. Seria surpresa, escapou. — Boca Raton? Mas você não disse que tem que ir pra Miami? — A entrevista na rádio em Miami é agora de manhã, a entrevista de emprego em Boca é à tarde. Dá tempo de ir e voltar. — Tendi. Legal, então você vai conseguir um emprego! Woohoo! Deus é fiel! — Gabby levantou uma das mãos com o punho cerrado. — Não sei… Espero que sim — sorriu Alex, sentindo o aroma do café preencher o ambiente. — Melhor eu fazer as torradas. Quer ovos? — Pode ser. Tem frutabomba ainda? — Tem — respondeu Alex, já acostumado com o fato de Gabby chamar mamão papaya de frutabomba. Certa vez contou a ele que, quando veio para os Estados Unidos, no começo da adaptação ao novo país, levava sustos quando alguém chamava aquela fruta de mamão papaya. Depois foi se acostumando e achando engraçado, porque essa palavra significava outra coisa de onde veio: em Cuba, papaya é vagina. Terminado o banho, Gabby se aproximou da cozinha onde Alex preparava o café da manhã. Aparentava impaciência.

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— Poxa, Allie, você esqueceu de lavar minha calça. Eu pedi tanto pra você lavar no final de semana, queria vestir pra ir pro trabalho. — Desculpa, Gabby. Esqueci mesmo. Eu lavo hoje, não é um grande problema. — Ah, mas pra mim é. Cadê sua memória aidética quando eu preciso dela? — Eidética, Gab. — Que seja. Você só tem memória boa pr’o que te interessa, né? Eu queria vestir aquela calça hoje, Alessandrino! — Ih, me chamou de Alessandrino. — Não é seu nome? — É… Tá de TPM, tá? — perguntou ele, começando a ficar irritado com o chilique. Não era normal esse tipo de comportamento na casa deles, onde a relação era sempre muito harmoniosa, mas provavelmente Alex estava presenciando nervosismo causado por temor da pandemia que se aproximava. Gabby era muito sensível, como qualquer artista. — Bem que eu queria ter útero, TPM e poder menstruar, assim ia poder engravidar e ter filhos. Se eu pudesse engravidar, eu ia mentir pra você que tinha tomado a pílula, e a gente ia ter um babyzinho lindo. — Você não ia ter coragem de fazer isso. — É, a parte de mentir não ia mesmo. Deus castiga. Mas engravidar… isso eu ia! — Ah, Gab… filhos só incomodam. — Como você sabe, Al? Você não tem nenhum. Você incomodava seus pais? — Não. Não sei. Acho que não. — Você não tem sentimentos, Alessandrino? — Como assim? Você sabe que tenho, só que sei controlar bem. — Então, vamos ter um baby! Adotar, como você foi adotado. Ou contratar uma barriga de aluguel. Ou duas, melhor ainda.. — A empolgação de Gabby era visível, mas não contagiava Alex. — Ah, não sei. Você sabe que tenho medo de pôr uma criança nesse mundo doido pra ela sofrer. Além disso, eu tô desempregado.

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— Você sempre com suas desculpas, Al. Fé em Deus, você tem entrevista hoje, esqueceu? Já tá praticamente empregado! Você é o melhor, é muito respeitado… Só vou parar de falar porque tenho outro problema agora… — disse Gabby, olhando fixamente para seu celular. — Que problema? — perguntou Alex, franzindo a testa e parando o que estava fazendo. Seria alguma mensagem urgente? — Meu celular travou, agora só fica na maçãzinha. O que eu faço? — Desliga o celular e liga de novo — aconselhou Alex. — Já tentei, continua igual. Essa droga dessa maçã mordida não sai da porcaria da tela. — Deixa aí em cima do bombay que eu levo pra consertar — Alex apontou para o móvel sem olhar. — Que droga! Você sabe a minha senha, né? — Sei. Você também sabe a minha — riu Alex. — É verdade… Não, não sei, mas tenho anotada aqui… ou tinha. Não consigo ver mais nada que tá no celular. Será que perdi tudo? — Acho que não perdeu, não. Deve ser coisa simples, não se preocupe. — Quanto você acha que vai custar pra consertar, Allie? — Não faço ideia. Deixa que eu pago lá, depois você me compensa à noite — disse ele, com uma piscadinha acompanhada de um sorriso lascivo. Gabby deixou o celular no aparador e foi em direção ao balcão onde iria tomar café da manhã. Então, sensualmente aproximou sua boca da orelha de Alex e sussurrou com hálito quente: — Como você quer que eu te recompense, meu amor? — Você sabe… — disse ele em voz baixa, sentindo arrepios na nuca. Gabby endireitou seu corpo e se afastou dele. Puxou um banco para se sentar e, também com um sorriso no rosto, disse em tom normal: — OK, então pode deixar que hoje eu faço a janta. — Não era bem isso… — Quando você quiser um filhinho, posso pensar em alguma coisa mais excitante… — Chantagista! Os dois ficaram em silêncio enquanto terminavam o café da manhã, até que Gabby pegou com o garfo o último pedaço retangular de frutabomba em seu

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prato e o trouxe até a altura dos olhos, girando-o como se o estivesse observando. Então perguntou com ar apreensivo, antes de colocá-lo na boca: — Você acha que o comércio vai fechar? — Acho que não, eles estão exagerando. E sua boutique é em Las Olas, lá é bem tranquilo. Não vai chegar nenhuma doença lá. — E se a Gabby Torres não fosse em Las Olas? Seria mais perigoso? — Relaxa, amor. Tá tudo bem, não tem motivo para preocupação — disse Alex enquanto pensava “pelo menos ainda não”. Ele não queria causar mais ataques nervosos como o que havia presenciado há pouco tempo naquela manhã. E talvez a pandemia nem mesmo chegasse forte aos Estados Unidos, então não havia razão para tanta apreensão. — OK, vou levar um livro pra ler, o movimento tá fraco — disse Gabby, largando o garfo no prato, para logo colocá-los na máquina de lavar louças, juntamente com sua caneca. Levantou e foi até o quarto, voltando com um livro na mão. — Que livro é esse? — Você é tão curioso… Peguei emprestado com uma amiga da igreja — disse Gabby, mostrando a capa para o marido. — Poemas Selecionados de Robert Herrick? Meu pai diria que isso é livro de gay. — Seu bobo. Vai começar a falar de gays como seu pai, agora? — MEU PAI É GAY? — disse ele, colocando as mãos na cabeça e fingindo espanto, antes de ambos caírem na gargalhada. — Seu palhaço, deixa eu ir. Boa sorte com suas entrevistas. Vai dar tudo certo, se Deus quiser! — Gabby se inclinou para beijá-lo, tendo que esperar alguns instantes até que ele engolisse o pedaço de torrada com mel e limpasse a boca com o guardanapo. — Obrigado, Gab. Te amo. — Também te amo, apesar de não lavar minhas calças — falou indo em direção à porta. — Sua barba tá espetando, não esquece de se barbear antes de sair. — A sua também me arranhou — disse Alex sério. — Sério, Al? — Brincadeira amor — riu ele —, tá tudo lindo e lisinho por aí. “Jeans de grife e camisa de seda. Um charme. Pra que a outra calça, se essa já tá

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perfeita?”, pensou Alex, mas só lhe mostrou a língua e sorriu. Gabby parou, segurando a maçaneta da porta e voltou seu rosto para dizer: — Seu bobo. Se precisar, me liga no telefone da loja. E não esquece de pôr uma gravata. — Parou por um segundo esperando a confirmação do marido, que só fez sim com a cabeça e se despediu: — ¡Chao pescao! A frase em espanhol seguia uma resposta padrão que Gabby ensinara a Alex, mas ele não lembrava qual era. Então só acenou dizendo tchau, e se levantou para se barbear e trocar de roupa. O dia seria longo, mas não exatamente como ele previa.

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CAPÍTULO 4 Dominus e Q N aquele momento, em uma luxuosa suíte de hotel a mais de mil milhas de

distância de Wilton Manors, o homem — cujo codinome era Dominus — dizia ao telefone: — Graças à ajuda de todos vocês e principalmente da sua, Frater Q, estou perto de conseguir para nós o que meu pai deixou incompleto. Aliás, no próximo domingo as Guidestones completam exatamente 40 anos. — Nada é por acaso… O 40o equinócio das Guidestones da Geórgia! Certamente será um feito digno de comemoração. O Frater Christian merece ser lembrado por esse que foi o marco da união dos homens de bem — disse Q. — Sim, ele fez um excelente trabalho. Agora nem mesmo precisamos mais nos preocupar em mantê-las; os maçons de Elberton assumiram e eles próprios cuidam da manutenção do monumento — disse Dominus, e continuou: — Está indo tudo conforme planejado. Hoje, graças a toda a ajuda que temos de Deus, dos irmãos e dos amigos, logo atingiremos nossos objetivos. — Que Deus nos permita. Sem esquecer que desta vez temos ajuda até dos inimigos! — riu Q. Dominus também riu, e disse: — Seu trabalho tem sido impecável, meu irmão. — Nada de mais, é só uma questão de unir psicologia com tecnologia. — Você é muito modesto, Frater Q. Sem você, não teríamos chegado até onde chegamos. — Haveria outro irmão a fazer o que faço, talvez mais competente que eu — Q pausou, houve alguns segundos de silêncio. — Meu irmão, 40 anos tem muito simbolismo. Assim como Moisés, Frater Christian nos liderou por 40 anos no deserto. Agora estamos prestes a encontrar a Terra Prometida, e nela construir a nossa Nova Ordem. E eu falo que foi Frater Christian, porque

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mesmo ele tendo deixado o mundo terreno, o sangue dele ainda corre nas suas veias. Sem desmerecer o seu magnífico trabalho, Frater Dominus. — Mas é verdade. Devemos tudo isso a ele. Sem as conquistas dele na época, os sonhos da nossa Fraternidade teriam desvanecido. Hoje conseguimos nos recuperar daquele terrível baque nos anos 80. Acho que meu pai morreu alguns anos depois e foi de desgosto por causa do que aconteceu, porque ele sempre havia esbanjado saúde antes disso. Acabou morrendo poucos anos depois, com apenas 75 anos de idade. — Sinto ter-lhe lembrado de momentos tão difíceis, mas a conquista de hoje será também a conquista dele. Seu pai será honrado para sempre, não só como Robert, o Frater Christian, mas também será eternamente R.C. Christian, o homem que erigiu as Guidestones. — Você está certo, Frater Q. E isso me dá ânimo para prosseguir — Dominus respirou fundo. — E é impressionante como hoje temos tantos aliados ao redor do mundo, todos lutando pelos mesmos objetivos que nós. Meu pai estaria orgulhoso. — A insatisfação certamente é uma grande motivadora, mas as pessoas precisam de líderes como você e nosso escolhido Mogul para lhes conduzir pelo caminho que precisamos que elas sigam. — Mogul está sendo muito útil para nós. Como diz na sua parede, Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará — disse Dominus. — Exatamente. E Deus nos permite criar a verdade que precisamos, para podermos cumprir os desígnios d’Ele. — Q pausou, para em seguida perguntar: — E eu posso ajudá-lo em algo para sua missão hoje, Frater Dominus? — Bem… Sim. Eu precisaria de um favor da Companhia hoje, na cidade de Nova York. Mais especificamente, a ajuda de Czacki, se possível. — Perfeitamente. Você sabe que estamos sempre à sua disposição. Vou pedir que ele entre em contato com você agora mesmo, Frater Dominus.

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CAPÍTULO 5 Entrevista — C omo estão? Luis Hernandez para o Sundial, conosco hoje aqui na

WLRN, o professor Alex Ortiz, uma das maiores autoridades do país, e quiçá do mundo, em História da Religião. Autor de diversas obras acadêmicas publicadas e altamente respeitado mundialmente por seus pares. Professor Ortiz é conhecido principalmente pelos livros: A Origem dos Santos e Cristianismo Católico. Foi por muitos anos professor de História do Cristianismo da Universidade de Miami. Sentado à mesa de um dos estúdios da rádio WLRN de Miami, em frente a um microfone parecido com as máquinas alienígenas do filme A Guerra dos Mundos, Alex ouvia a introdução com sua apresentação lida por um dos mais reverenciados apresentadores do país, cuja voz preenchia o vácuo do silêncio nos fones de ouvido que cobriam suas orelhas. Por um momento pensou que Hernandez falaria sobre seu livro escrito no ano passado, mas felizmente ele não mencionou nada. Talvez não soubesse, já que o livro havia sido rapidamente recolhido pela editora, ou talvez quisesse evitar comentar sobre o pequeno escândalo que ocorrera no final do ano passado. O apresentador Luis Hernandez fez a primeira pergunta após verificar suas anotações: — Professor Ortiz, o senhor lecionou por tanto tempo na Universidade de Miami, por mais de 15 anos, inclusive já tendo sido chamado por Yale e Harvard, mas nunca quis deixar Miami. Por que se desligar da universidade agora? Alex já havia sido convidado para trabalhar não só em Yale e Harvard, mas também por outras universidades da Ivy League, como Princeton, onde ele recebeu aceno diretamente da famosa autora e professora de religião Elaine Pagels, com quem gostava de trocar ideias. Concordavam ou discordavam entre si de vez em quando, mas as conversações entre os dois sempre foram bastante frutíferas. Apesar de todos os convites, Alex adorava a Flórida e não

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tinha intenção de se mudar — nunca iria morar no nordeste. Só ia mesmo para lá quando necessário, para ministrar palestras e encontrar outros scholars. E, na verdade, ele só havia se desligado da Universidade de Miami porque a reitoria foi pressionada por religiosos fanáticos que pediram a sua saída, então o reitor solicitou a ele que tirasse férias até os ânimos se acalmarem. Alex ficou desapontado em não ter recebido o apoio que acreditava merecer por ter sido fiel à Universidade por tantos anos, então pediu demissão. Como não iria falar nada disso em público, apenas respondeu sem mais explicações: — Bem, Luis, eu estou atualmente em um ano sabático. Às vezes precisamos tirar um tempo para nós mesmos… Mas não pretendo sair da Flórida. — Já fazia algum tempo, anos, que Alex não era entrevistado, então ele não lembrava quão estranho era ouvir a própria voz ecoando nos fones de ouvido. “Tinha esquecido como minha voz soa esquisita no microfone”, pensou. — Entendo perfeitamente. O apresentador, que já havia avisado que falariam como se estivessem no dia posterior fez a segunda pergunta, como se já vivenciassem o dia seguinte: — Professor, hoje é dia 17 de março, Dia de São Patrício. Sabemos que esse santo se destaca aqui nos Estados Unidos por causa da grande comunidade irlandesa, mas existe algum outro motivo dele ser tão popular? Por que os irlandeses gostam tanto de São Patrício? — Luis, a Irlanda tem três santos padroeiros: Santa Brígida de Kildare, São Columba de Iona e São Patrício, sendo São Patrício o principal e mais conhecido padroeiro. Seu nome verdadeiro era Maewyn Succat, ele adotou Patricius como nome simbólico. Você deve saber que isso é um costume da Igreja Católica, a utilização de nomes simbólicos, o papa atual escolheu Franciscus. — Sim, sim — disse o apresentador. — A vida de Patricius sempre foi cercada de mistérios, ninguém sabe ao certo quando ele nasceu, apenas que foi no final do quarto século depois de Cristo. Uns dizem que foi na Escócia, outros que foi no País de Gales… mas sabe-se que foi na área da Bretanha, que fazia parte do Império Romano na época. Seu pai era oficial do exército romano-britânico e um diácono. Resumindo, São Patrício não era irlandês.

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— O santo padroeiro da Irlanda não era irlandês? — Não é. Conta-se que ele teria sido sequestrado por piratas irlandeses aos 16 anos e vendido como escravo na Irlanda, onde aprendeu a cultura e língua local. Ele teria fugido anos depois, de volta para a Bretanha, onde teria entrado para a Igreja e sido enviado para a Irlanda novamente. Acho curioso que houve outro santo com uma história similar: São Vicente de Paulo, que no século 17 disse ter sido sequestrado por turcos e vendido como escravo. Seu dono teria ensinado os segredos da alquimia para ele, antes de Vicente de Paulo também fugir do cativeiro. Sem querer faltar com o respeito, mas aparentemente os santos precisavam justificar onde aprenderam algum conhecimento proibido pela Igreja, então a história de terem sido sequestrados era uma boa desculpa. Foram forçados a aprender. — Riu Alex. — Parece que sim — disse o apresentador, também com uma leve e contida risadinha. — Pois bem… Voltando a Patricius… O santo São Patrício nunca foi canonizado formalmente. — Como assim, professor? Como ele é santo, sem ter sido canonizado? — São Patrício é venerado como santo, mesmo sem ser formalmente um. Alguns dizem que é porque ele viveu antes das leis católicas sobre santos serem criadas, mas isso não é verdade. Foi só uma justificativa falsa para o fato dele não ser santo oficialmente. Obviamente a Igreja pode canonizar pessoas que viveram anteriormente à formulação dessas leis. Por exemplo, em 1295 o papa Bonifácio VIII canonizou São Jerônimo, que viveu mais de 100 anos antes de São Patrício. — Isso é muito interessante, professor. Então São Patrício é um santo que não é santo? E o senhor poderia nos explicar por que ele nunca foi canonizado pela Igreja? Qual o motivo? O que aconteceu? — Bem — disse Alex, medindo as palavras —, São Patrício foi considerado um herege por papas. — Herege? — interrompeu o apresentador. — Eu e nossos ouvintes estamos curiosos para saber mais; continuaremos logo após os comerciais. Este programa foi trazido em parte pelo Miami Cancer Institute. Voltamos já. ***

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Naquele mesmo instante, após dirigir por uma hora e meia de Daytona Beach para Jacksonville, Bubba já estava no portão de embarque aguardando seu voo, que partiria para Nova York em uma hora. Contrariado e ainda por cima de ressaca, pensava: “Big Ray é meu pai, mas é um grande filho da puta. Disse que ia mandar o Turner fazer esse serviço lá na terra dos ianques, aí depois esse porra muda de ideia. Primeiro me diz pra ficar em Daytona, agora me manda pra Nova York. Se eu soubesse que ia ser pra isso, eu não teria atendido a merda da ligação dele hoje de manhã”. Embora indo a contragosto, Bubba contemplava um sentimento de valorização, uma espécie de honra em saber que era o único em quem seu pai confiava. Por outro lado, ele também só acreditava em Big Ray. Era o braço direito do pai desde pequeno e, na Liga, só aceitava ordens vindas dele. Todos sabiam disso, inclusive o chefe, Mike. Estar na Liga do Sul era mais uma questão financeira do que ideológica, embora muito do que Mike e o pastor Jason falavam fazia sentido para ele. Bubba entendia porque os brancos são os verdadeiros escolhidos de Deus, e por que é importante proteger o mundo contra os negros, os judeus e todas as outras bestas da Terra. Essas pessoas-lama deveriam ser exterminadas para que não tentassem mais dominar o mundo. Alguns deles deveriam ser escravizados para servir à Raça Branca no novo Reino Celestial na Terra, governado por Nosso Senhor Jesus Cristo. “Está tudo escrito na Bíblia”, diziam eles, e Bubba não tinha a menor intenção de discordar de pessoas tão inteligentes e estudiosas. Só queria fazer seu trabalho, e ganhar seu dinheiro. Na verdade, a filiação deles ao grupo foi uma oportunidade de trabalho que seu pai recebeu ao sair da prisão. Foi recomendado por outro detento, era para ele ser uma espécie de guarda-costas e faz-tudo do Mike, o fundador da Liga. Quando este precisava de algum serviço sujo, mandava Big Ray. E Big Ray, por sua vez, mandava Bubba. Foi a melhor coisa que aconteceu a eles em muitos anos; eles finalmente puderam ficar juntos e serem uma família novamente. Uma família de dois, é verdade, mas quantas pessoas são necessárias para formar uma família? Foi assim que receberam a incumbência de encontrar na Flórida uma vela vermelha que, por algum motivo, estaria escondida na casa dos Costa. Por que

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essa tal vela era tão importante para Dominus, Bubba não fazia a menor ideia. Mas se um figurão como Dominus a queria, ela deveria ser muito valiosa. De qualquer forma não fazia parte do seu trabalho questionar ordens superiores. Sua missão agora se resumia a entregar a chave do cofre do banco e a identidade de Enzo Costa para alguém que o estaria esperando em Nova York, a mando de Dominus. Seria muito interessante estar próximo a alguém ligado diretamente a Dominus, Bubba estava ansioso por isso. E mais ansioso ainda em acabar logo com isso e voltar para o doce lar, Alabama. *** Em Miami, o apresentador Luis Hernandez continuava a gravação do programa Sundial: — Estou hoje, aqui, conversando com o professor Alex Ortiz sobre santos católicos, mais especificamente sobre o santo que é comemorado hoje, São Patrício. Professor, o senhor dizia que São Patrício foi considerado herege? Como é isso? — Sim. Você obviamente já viu uma imagem de São Patrício com um trevo verde de três folhas, certo? — Sim, claro. — Pois bem, o trevo de três folhas é um símbolo celta, considerado mágico. Não por ser um trevo, mas por representar o número três que é sagrado para várias culturas. Oficialmente a Igreja diz que ele converteu os pagãos celtas para o cristianismo utilizando o trevo para explicar o conceito de Trindade, mas acontece que já havia na Irlanda, bem antes da Igreja Católica Romana chegar lá, um tipo de cristianismo. — Um tipo de cristianismo? Como pode haver mais de um cristianismo, professor? Cristianismo não é um só? — Certamente não, Luis. - Sorriu Alex, feliz pela oportunidade de poder compartilhar seu conhecimento e prosseguiu: — O cristianismo adotado pela Igreja Católica é um cristianismo paulino, que segue os ensinamentos de Paulo e Pedro, ou São Paulo e São Pedro, como são conhecidos no Catolicismo. — E esse era o cristianismo de Jesus, então?

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— Há controvérsias, Luis. Como muitos cristãos mais estudiosos já se deram conta, Jesus nunca foi cristão, nunca fundou, nem teve intenção de criar nenhuma religião. A forma como os livros do Novo Testamento foram estabelecidos na Bíblia, a sua escolha e a sua ordem, dão uma falsa impressão que Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo foram escritas após os Evangelhos, como sua sequência, mas não é a realidade. Foram escritos antes. Bem, mas o que nos interessa neste momento é que Jesus era judeu, um judeu provavelmente essênio. E, seguindo por este caminho, nós vamos encontrar a “heresia” de São Patrício. — Vou ter que fazer um aparte apenas para dizer aos ouvintes que o professor fez aspas com os dedos quando disse a palavra heresia. O que o senhor nos traz é extremamente intrigante, professor. Por favor continue. — Obrigado, Luis. Como eu dizia, Jesus e seu irmão mais velho, Tiago, eram de uma certa seita de judeus, cujos ensinamentos chegaram até a Irlanda e foram adotados pelo povo celta. Alcançaram também as outras nações celtas, claro, mas como estamos falando de São Patrício… — Sim, entendo — disse o apresentador. — Essa é a origem das lendas do Santo Graal, onde em algumas versões José de Arimatéia teria levado o sangue de Jesus em um recipiente de ouro para a Grã-Bretanha. Bretanha vem do gaulês celta antigo B'rith-ain, que significa Terra da Aliança. Interessante é que a mesma história se repete com Maria Madalena levando o Santo Graal para a Gália, onde hoje é a França — Alex pausou por uns segundos e continuou: — Para não perder o foco, só chamo a atenção para as lendas irlandesas com seus caldeirões de ouro, alguns no final do arco-íris. Alex sempre foi intrigado com esse enigma do ouro. Por que esse metal era e ainda é importante para a humanidade, se é só adorno? Usa-se também para contatos eletrônicos, por suas características inoxidáveis, mas as quantidades são ínfimas, não justificaria o preço tão alto. O ouro não é uma substância tão rara assim, é um metal muito pesado, mais pesado que o chumbo. Macio demais, difícil de ser transportado e armazenado. Não faz sentido a humanidade dar tanta importância a ele, a não ser que represente algo ou tenha algum outro valor que se perdeu na história. Para Alex, esse significado poderia ser o brilho amarelo, que lembra os raios solares. Desde a antiguidade

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o homem entende o sol como uma representação da divindade. Se o sol representa Deus e o ouro representa o sol, logo o ouro representa Deus. Então, os antigos adorariam esse metal da mesma forma que cultuavam o sol/divindade, por isso talvez o fato de usar ouro decorativamente seria uma forma dos antigos se sentirem mais perto do seu deus? Teria então esse conceito se perdido no tempo, ficando apenas o hábito de adornar-se com ouro, sem razão aparente? A fala de Luis Hernandez interrompeu o pensamento de Alex: — Isso é tudo muito fascinante, professor. Realmente é uma pena que o nosso tempo seja curto. — Sim, vou tentar me ater ao assunto de hoje. — Alex deu uma risadinha e continuou: — Portanto essa seita judia, que chegou à Irlanda no primeiro século depois de Cristo, trazia o que eu acredito serem os verdadeiros ensinamentos de Jesus e de seu irmão Tiago, o bispo de Jerusalém. Sendo redundante, mas a redundância sendo necessária para o entendimento, os ensinamentos não eram deles próprios, eram do grupo a que os irmãos Jesus e Tiago, além do pai José, pertenciam, acredito serem os Nazarenos. — Para lhe dizer a verdade, professor, eu não sabia que Jesus tinha irmãos… — Muitas pessoas ainda hoje em dia acreditam que Jesus era filho único, embora seus irmãos e irmãs tenham sido citados nos próprios evangelhos canônicos. Tiago era o irmão mais velho de Jesus, ele foi morto por apedrejamento. Era conhecido como Tiago, o Justo. — Wow. Mas o que teria isso a ver com São Patrício, professor? — Chegando à Irlanda, São Patrício reconheceu a similaridade da Igreja Celta com o cristianismo romano que ele conhecia, mas percebeu que o cristianismo celta, com sua liturgia Alexandrina, fazia mais sentido. Então, na verdade, ele não converteu os celtas ao cristianismo paulino católico, mas sim acabou aceitando o cristianismo celta. Por isso ele é representado com o símbolo celta: o trevo mágico verde de três folhas. E por esse motivo foi considerado um herege, um blasfemo, por muito tempo. — Mas professor, se São Patrício foi considerado herege por aceitar o que o senhor disse acreditar serem os verdadeiros ensinamentos de Jesus, então o

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próprio Jesus seria herege perante a Igreja? Isso não é, no mínimo, um paradoxo? — Bem colocado, Luis. O que acontece é que, com o passar do tempo, as interpretações de um determinado fato variam. Cada interpretação com seu interesse próprio vai alterando a percepção do evento inicial, principalmente se grande parte dos vestígios desse fato foram apagados por ser contrária a esses interesses. Então, uma determinada interpretação, a do mais poderoso, tornase uma pseudoverdade, bem diferente do fato originário. — Como assim, professor? Fiquei confuso. — É como uma cópia xerox da cópia xerox, da cópia xerox da cópia xerox. Depois de muitas cópias, vamos ter que fazer suposições sobre o que estava escrito no original, pois não será mais legível. Vamos dizer que uma pessoa muito respeitada, a pessoa A, logo antes de morrer, vê uma macieira ao pôr do sol e conta a sua experiência para a pessoa B como “fui abençoado ao ver uma árvore alaranjada em tal lugar”, e a pessoa B fala para a pessoa C que a pessoa A “viu uma laranjeira que abençoa” em certo lugar. Note que a macieira já virou uma laranjeira por interpretação. Agora vamos dizer que a pessoa C vende laranjas e esta pessoa tem uma ideia: se as pessoas acreditarem que suas laranjas são frutos da laranjeira abençoada, ela vai poder vender suas laranjas por um preço mais alto. Então ela tem interesse que as outras pessoas continuem acreditando que foi mesmo uma laranjeira que a pessoa A viu, só que… ela conhece bem o local e sabe que lá só tem uma árvore, uma macieira. O que ela faz? Vai até lá, corta a macieira e coloca fogo em suas raízes, assim ninguém poderá provar que aquela árvore não era uma laranjeira. Portanto, a partir daquele momento uma nova realidade foi criada, uma realidade que não é baseada em fatos. Assim é o cristianismo que a maioria conhece hoje em dia. — Muito intrigante… Tenho uma pergunta: O fato do senhor falar em macieira teria algo a ver com Adão e Eva terem comido a maçã? — Luis, não sou especialista no Antigo Testamento, mas acredito que a Bíblia fala que eles comeram um fruto, mas não diz que fruto é. Interpretações posteriores disseram que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal seria uma maçã. Mas a Bíblia não fala que o fruto seria uma maçã. — Sério? Eu tinha certeza que era uma maçã! Sei que isso vai nos desviar mais um pouco do assunto do dia, professor, mas fiquei curioso. Por que então

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dizem que é uma maçã o fruto que Eva comeu e deu para Adão comer? — Para lhe dizer a verdade, Luis, eu realmente não sei. Minha área é mais o Novo Testamento. — Entendo, peço desculpas pela insistência. Voltando à sua analogia das árvores, vou fazer a pergunta de um leigo… Se a macieira foi cortada e suas raízes foram queimadas, como alguém pode dizer que existiu uma macieira naquele local? — Não precisa se desculpar, Luis. Sabe-se que existiu uma macieira através de relatos de pessoas que viram a tal “macieira” — Alex faz aspas com os dedos novamente — e das pessoas que colheram seus frutos. Os frutos seriam os desposyni, no caso, que também foram perseguidos para serem destruídos. — Desposyni? O que são desposyni, professor? — As pessoas da família de Jesus, os parentes de sangue. Por mais que alguém queira apagar uma realidade, nunca conseguirá totalmente. Temos relatos de historiadores da época, temos documentos que foram escondidos e que estão vindo à tona, como a biblioteca de Nag Hammadi. Como eu costumo dizer aos meus alunos, a verdade sempre emerge como um pedaço de isopor na água: por mais que alguém tente escondê-la profundamente, mais cedo ou mais tarde o que está latente sempre voltará à superfície.

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CAPÍTULO 6 Saturnálias T erminada a entrevista na rádio em Miami, Alex pegou a I-95 rumo ao

norte para almoçar em Boca Raton. Queria ficar perto da Florida Atlantic University, assim não atrasaria para sua entrevista de emprego naquela instituição. A conversa na emissora causou-lhe euforia, a mesma que sentia quando compartilhava seus conhecimentos com seus alunos. Essa história de ano sabático era só para justificar seu desemprego, pois ele adorava lecionar. E precisava do salário. No caminho lembrava-se de quando estava trabalhando, de suas aulas, de seus alunos. Além do mais, se não fosse por seu emprego, nunca teria conhecido Gabby. Por mais que tenha achado a entrevista ótima, ainda acreditava que deveria ter falado mais na emissora sobre esses assuntos que tanto gosta. Mas o tempo foi curto. Se tivesse tido mais tempo, teria dito que os santos católicos são como um upgrade dos deuses pagãos, sendo que estes foram absorvidos, transformados e incorporados pela Igreja Católica. A deusa Vênus virou Santa Venera, Marte virou São Martinho, Afrodite virou Santa Afrodite. As imagens de Nossa Senhora são, na verdade, versões da deusa egípcia Isis com Horus no colo, adaptadas para serem Maria com o menino Jesus. O próprio nascimento de Jesus foi estabelecido pelo Imperador Constantino para ser comemorado no mesmo dia do nascimento do Sol Invictus; dia 25 de dezembro, que era o festival do Dies Natalis Solis Invicti, o dia do nascimento do deus de Aureliano. Esse dia também marcava o fim das festividades romanas ao deus Saturno, as Saturnálias em que as pessoas trocavam presentes, os escravos trocavam de lugar com seus donos, e viceversa, rememorando uma suposta Era Dourada em que todos eram felizes. Com o tempo, o Dies Natalis e as Saturnálias viraram Natais cristãos, e em algumas culturas ainda são 12 dias de comemoração. Também, até hoje em dia A VELA VERMELHA

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na língua inglesa, temos os sábados em homenagem àquele deus pagão: Saturday, o dia de Saturno, Saturn-day. Logicamente, essas homenagens vêm de antes do tempo em que Saturno, o Sol Negro, aquele que era considerado o mais antigo dos deuses, ter sido associado ao Satã bíblico. Assim como os santos, a Igreja Católica procedeu com os locais de adoração de outras religiões, colocando um templo católico em cima de cada um dos templos pagãos, para forçosamente sobrepuja-los. Todas essas, entre outras, foram maneiras inteligentes de absorver para si as demais crenças e foi por isso que a Igreja Romana se autodenominou católica, que quer dizer universal. O Catolicismo sempre buscou ser a crença universal, a crença das crenças, a religião que engloba e domina todas as outras religiões. Alex se lembrou da máxima de Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma e sorriu, involuntariamente, antes de voltar a pensar em seu alunos. Eles sempre acharam essa aula sobre santos católicos bem empolgante e intrigante, principalmente quando Alex dizia que havia apenas um deus pagão que a igreja não conseguiu dominar ou absorver para si. Naquela hora a sala ficava em silêncio total — todos queriam saber qual era o tal deus pagão indomável que não podia virar um santo católico. Alex propositalmente parava para beber água, dava uma longa pausa, criava expectativa e fazia suspense. Perguntava: “Alguém sabe qual é?” Ninguém sabia a resposta que, quando dita, sempre criava um misto de epifania e incredulidade em seus pupilos. Ele adorava isso… fazer as pessoas pensarem, libertá-las da ignorância. Realmente sentia muita falta das aulas que ministrava!

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CAPÍTULO 7 Bubba em NYC N aquela segunda-feira, o voo Jetblue B6678, vindo de Jacksonville,

Flórida, aterrissou no aeroporto JFK de Nova York às 14h38min. Um passageiro sem bagagens saiu mancando da área restrita do terminal 5, pensando: “Big Ray me paga! Ele sabe que essas bostas dessas poltroninhas de avião são muito pequenas pra mim! Ainda me disse pra vir com esta roupa de viado e sem chapéu; me sinto pelado sem meu chapéu!” Bubba vestia roupa e calçado que lhe foram emprestados na Unidade de Daytona por Bigfoot, o único Indomitable lá que tinha a sua estatura. Todos os outros Indomitables em Daytona eram pequeninos como a maioria dos homens que ele conhecia. Ele não se importava com o chapéu ou a camisa, mas avisou a Bigfoot que o mataria se ele usasse suas Rios de Mercedes. Meio atordoado pela quantidade de gente pra lá e pra cá, como um enxame de abelhas em flores silvestres na primavera, logo viu um homem de terno escuro segurando uma placa com seu nome. Fez um sinal com a mão e o seguiu por algumas dezenas de metros até uma limousine preta, iguais às que ele havia visto em filmes. O homem abriu a porta do carro e Bubba começou a se preparar para entrar, colocando uma mão na porta e outra no teto do veículo, sentindo-se como um doberman tentando entrar na casinha de um chihuahua. “Não bastava o aperto no avião, agora tenho que entrar nessa porra de carro baixo que arrasta a bunda da gente no chão”, pensou. Quando sua cabeça estava no nível do interior do veículo, viu quem estava ali e levou um susto. Gelou como se tivesse visto uma assombração. Literalmente, viu um fantasma. Ali dentro, olhando para ele, estava ninguém menos que… Enzo Costa! — Que porra é essa? — Bubba afastou a cabeça instintivamente, confuso, tentando entender a situação. Impossível o Costa estar vivo, pois tinha presenciado ele sangrar até a morte! — Está tudo bem. Entre e sente — disse com naturalidade o homem jovem e bem vestido que estava no banco atrás do motorista, de frente para o A VELA VERMELHA

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Costa. Visto que a tal limousine era como uma carruagem, com um banco voltado para o outro, se sentasse junto do homem mais novo, Bubba iria para trás, como se estivesse andando de ré. Ia ser mais estranho ainda. Preferiu sentar ao lado do fantasma, o que conseguiu com alguma dificuldade. Sua cabeça tocava o teto, suas costas estavam curvadas e suas pernas encolhidas entre os bancos. O cara de terno preto, que ainda esperava ele se sentar, fechou a porta e deu a volta ao redor do veículo, entrando e sentando em frente ao volante. Mais de perto, Bubba pôde perceber que não era Enzo Costa, era só um cara muito parecido com ele quando olhava de frente. Não, não era ele mesmo. Seria irmão? E se fosse irmão de Enzo? Aquilo tudo podia ser uma armadilha para assassiná-lo, já que ele havia matado Enzo Costa. Mas Big Ray não faria isso com ele, faria? Não, não faria. Mas e se Big Ray não soubesse da armadilha? Bubba já estava de punhos cerrados se preparando para um enfrentamento, quando o homem de trinta e poucos anos falou calmamente: — Eu sou o Sr. Smith, e ele é o Sr. Costa. Você trouxe a carteira de identidade dele? Bubba olhou para um, olhou para o outro. Ambos olhavam para ele. “Identidade dele? Que porra é essa?”, pensou. Não disse nada. — Deixe eu ver a carteira de identidade e a chave que você trouxe — ordenou o homem. O irmão de Enzo Costa não dizia nada. Não demonstrava nenhum sentimento, nenhuma emoção. Bubba viu que algo estava estranho, mas ele parecia não correr perigo. Com dificuldade, pegou do bolso da sua calça as chaves. Pegou o chaveiro mais antigo, que continha uma única chave, e entregou ao Sr. Smith. A chave tinha o número 637, e o chaveiro dizia JPMorgan Chase WTC NYC. Em seguida, Bubba pegou a carteira de Enzo Costa do bolso de sua camisa, tirou só o cartão de identidade dele e também passou às mãos do Sr. Smith, que entregou tudo ao Sr. Costa. Este olhou minuciosamente antes de acomodar o documento em sua própria carteira, guardando-a, e o chaveiro, em seus bolsos. Nem o idoso nem Smith teriam como saber que a carteira de couro no bolso de sua camisa era de Enzo Costa. Não pediram para vê-la, só queriam a identidade.

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O homem mais velho fez sinal para que o Sr. Smith se aproximasse e sussurrou algo em seu ouvido. Este, então, perguntou: — Onde você encontrou a chave? — Tava na casa do Costa — respondeu Bubba e olhou para o idoso. — Onde na casa? — No quarto, dentro da gaveta da escrivaninha — falou Bubba. Depois que olhou novamente para o outro homem, Sr. Smith abriu o vidro que os separava do motorista e disse ao sujeito: — World Trade Center, pare em frente ao Oculus pela Greenwich Street — fechou o vidro, perguntou ao Sr. Costa se estava tudo certo, ao que ele fez novo sinal com a cabeça que sim. Não houve nem mais uma palavra até chegarem ao World Trade Center, 43 minutos depois. Durante o trajeto, Bubba ficava imaginando como podiam viver assim, naquela agitação toda, empoleirados como galinhas. Não fazia a menor ideia de onde estava ou pra onde estava indo — só o que via eram muitos prédios tocando as nuvens, muitas pessoas, muitos carros amarelos, além de ouvir muitas buzinas. Todos com pressa. “Isso não é vida”, pensava ele. Assim que chegaram ao destino, desceram da limousine e caminharam em direção a uma estrutura enorme, que a princípio lembrava um enorme pássaro branco, depois Bubba viu que era feita de vários canos brancos gigantes e paralelos. Para o cowboy, aquilo parecia um enorme órgão de igreja, no formato de pomba branca. — Aonde você vai? — perguntou o Sr. Smith a ele. — Tenho ordens para acompanhar — respondeu Bubba. — Você não acha que três homens vão chamar muita atenção? O que vamos dizer ao gerente? Que somos os dois filhos de Costa e que você comeu fermento demais? Venha conosco, mas fique do lado de fora da agência, olhando pelo vidro. Bubba concordou, não teve opção. Chegando mais perto do prédio, tentou olhar para o topo dos canos, seu pescoço limitou o movimento e ele teve que voltar sua visão para o nível do horizonte. Virou para trás e viu ali várias árvores em um vasto espaço vazio, com dois buracos quadrados no chão do

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tamanho de um terreno de 1 acre cada, dos quais vinha um barulho de cachoeira. Mas não viu cachoeira nenhuma. Certamente estava em outro mundo, os ianques possuíam muito dinheiro: tudo parecia grande e caro. Entraram no prédio. No enorme vão do seu interior, os canos altos ficavam aparentes nas laterais do espaço chique, cujo piso ficava abaixo do nível da rua, como se a pomba estivesse fazendo um buraco no chão. Pombas gostam de fazer isso. Bubba lembrou da história de Jonas, só que não era na barriga de um peixe que ele tinha entrado, era na barriga de um pássaro gigante. Olhando de cima, lá embaixo era um salão de um Shopping Center de luxo. Desceram as escadas e se encaminharam para as lojas laterais, chegando à agência do banco. Como combinado, Sr. Smith mandou Bubba esperar do lado de fora. Não era difícil observar o interior da instituição financeira pelas enormes vitrines abaixo do logotipo CHASE, em metal, mas aquilo ali não parecia um banco, parecia mais com uma loja de eletrônicos do futuro: tablets expostos em cima de balcões azuis, iluminados por milhares de luzes e bolas brilhantes penduradas no teto, com TV's para todo lado. Bubba observava discretamente, fingindo estar falando ao celular. “Ainda bem que vim sem chapéu e vestido como eles, pra não chamar a atenção. Mesmo assim, não sei por que olham tanto para mim!”, pensou. Dentro do banco, os dois foram atendidos por um funcionário que os levou a uma sala envidraçada, onde cumprimentaram um homem em uma mesa — provavelmente um gerente — antes de se sentarem nas cadeiras em frente a ele. Bubba ainda conseguia observá-los. O Sr. Smith era o que falava mais, provavelmente estava dizendo que era filho de Costa. Então o Sr. Costa tirou do bolso a chave e a identidade de sua carteira, entregando-os ao gerente. Este, por sua vez, olhou a chave por alguns segundos e demonstrou surpresa. Balançou a cabeça negativamente. Parecia perplexo. Bubba ficou aliviado por não ter entrado, provavelmente os dois iam ser presos. O gerente chamou outro funcionário para mostrar-lhe a chave. Este também franziu a testa, falou algo e devolveu a chave ao gerente, saindo para

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outra sala onde fez uma ligação telefônica. “Tá chamando a polícia”, pensou Bubba. Então o Sr. Smith começou a falar e gesticular bastante. O gerente sorriu e olhou para o idoso, entregando a chave e a identidade a ele, vocalizando algo que pareceu um “sinto muito”. Ainda sentado em frente ao gerente, o Sr. Smith abraçou em sinal de afeição o homem mais velho que lhe acompanhava, como se fosse mesmo seu pai. Levantaram, despediram-se e saíram. “O que teria acontecido?”, se perguntava o cowboy ao seguí-los, mantendo uma distância segura. Não queria ir preso junto, caso a polícia aparecesse. Sr. Smith fez uma ligação rápida no celular e caminharam até a rua, onde os dois pararam. Bubba também se deteve, porém a alguns metros atrás. A limousine chegou e ambos entraram; ele apressou o passo para entrar logo. Assim que a porta do carro fechou e ele entrou em movimento, o Sr. Smith colocou uma pistola Glock 19 na cabeça de Bubba, e esbravejou: — O que pensa que está fazendo, seu imbecil? Bubba se encolheu involuntariamente, mas não respondeu. Não estava armado, não teria como entrar com uma pistola no avião. Nem mesmo um canivete, e Sr. Smith sabia disso. Só o que Bubba podia fazer era sentir o cano gelado da arma em sua cabeça. — Você acha que eu sou bobo, cacete? QUER NOS FAZER DE BOBO? — gritou Sr. Smith, pulverizando em Bubba gotículas de saliva que acompanhavam o ritmo da sua voz. Enquanto isso o Sr. Costa só observava, com a sua maleta no colo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Não havia falado nem uma palavra nesse tempo todo. — Você nos deu uma chave de um cofre que foi destruído no 11 de setembro! Que palhaçada é essa? — perguntou o Sr. Smith. — Eu… Eu não sabia — respondeu Bubba, sem se mexer. Mexia só os olhos e a boca, mas tinha vontade de esmagar a cara do outro. Mas e se o Costa estivesse armado também? “Melhor não fazer nada”, pensou. Sr. Smith olhou para o lado, ainda muito bravo, tirou a arma da cabeça de Bubba e voltou a xingar:

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— Merda! Merda! — Batendo com a arma na lateral do carro. — A gente podia ter ido preso, cacete! Eu tive que dizer que ele tinha alzheimer's e que devia ter esquecido que o cofre não existia mais! O motorista olhou para trás, Sr. Smith fez sinal para ele parar. Virou-se para Bubba e mandou: — DESÇA! DESÇA AGORA! Bubba abriu a porta imediatamente quando a limousine parou e se desdobrou para fora. Ficou aliviado em sair do carro, sentindo-se como um dedo do pé inchado saindo de uma bota apertada. — Só não te mato porque este trabalho é pr’o Dominus. Mas alguém vai pagar por isto. Sr. Smith fechou a porta e o carro partiu, deixando Bubba ali no meio do Baixo Manhattan. Sem entender ainda o que havia acontecido, Bubba olhou o relógio do celular: eram 16h13. Bubba queria sair logo daquela terra doida dos ianques e voltar para casa, ou pelo menos para o sul. Ligou para Big Ray e relatou o ocorrido. Contou que entregou a carteira de identidade de Enzo Costa para um cara parecido com Costa, que não existia cofre, que eles foram enganados e que alguém seria cobrado por isso. Então Big Ray foi a segunda pessoa a xingar Bubba naquele dia. Mesmo ele não tendo culpa de nada. *** Dentro da limousine, o falso Enzo Costa tirou os óculos e falou para o homem que tinha se apresentado como Sr. Smith: — Você foi muito bem. — Obrigado, senhor — disse Smith. — Vamos para o hotel, eu resolvo isso. — Sim, senhor — respondeu ele antes de instruir o motorista. — Avise Czacki que estou indo para lá, para ele tirar logo esta maquiagem. Talvez eu mesmo tenha que ir para a Flórida hoje — disse, passando a mão no queixo. — Czacki fez um bom trabalho, como sempre. — Sim, senhor — disse o homem mais jovem.

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— Compre a passagem para que ele volte a Langley ainda hoje à noite. Vou agradecer a Frater Q. — Sim, Dominus.

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CAPÍTULO 8 Carteira B ig Ray ligou para Bubba. Estava mais calmo.

— Sua passagem de volta tá comprada, vá até o aeroporto Newark Liberty. Seu voo de volta a Jacksonville sai às 18h30. Voo UA5016 da United. Te mando a reserva por mensagem. Deixou a picape do Mike em Jacksonville? — Foi, deixei — respondeu Bubba. — Então vá até lá e volte para a Unidade. Você chega pelas 21h15 no aeroporto, pelas 23h você tá em Daytona. — OK. Obrigado, papai. — Bubba deu uma pausa e perguntou: — Por que você acha que Enzo deu uma pista falsa? — Talvez achou que ia dar tempo pra fugir, vai saber? — Que merda de pessoa-de-lama! Mereceu a morte. E agora o que a gente faz? Mike deve tá puto. — Você vai ter que ir na casa e procurar de novo. A polícia deve tá por lá, você vai ter que dar um jeito — disse Big Ray. Bubba não podia acreditar naquilo. A última coisa que ele queria na vida era voltar mais uma vez naquela casa de Pompano Beach. Devia ter tiras até por dentro do vaso sanitário naquele lugar! Então falou: — De novo? Mas eu revirei a casa toda, por dentro e por fora, e não achei nada. Abri e olhei, até nos dutos do ar condicionado! — Vai ter que voltar e achar pelo menos alguma pista. Precisamos encontrar esse maldito negócio. — Big Ray parou por um minuto, pensou e perguntou: — Tinha fotos de família na casa? — Não, nada… Nenhuma foto. Nem deles. Achei estranho. Só dois quadros na parede — Bubba falou, entrando num táxi. Tampou o microfone e disse ao motorista para onde queria ir enquanto Big Ray perguntava: — Deles ou de outra pessoa? — Não, um quadro daquela Mona Lisa e um outro de uma santa. — Estranho mesmo que não tinha nenhuma foto — Big Ray deu outra pausa. — Dominus falou que eles moram naquela casa faz uns 40 anos e que o A VELA VERMELHA

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treco devia tá com eles esse tempo todo. — 40 anos? Então por que ele só tá procurando agora? Por que aqueles dois velhotes teriam esse treco tão importante pro Dominus? E porque não compra um novo na loja? — Não faço nenhuma porra de uma ideia! Bem, não adianta ficar pensando nisso, temos que cumprir a missão. Vamos ter que achar essa merda. Mike tá contando com a gente e nos cobrando resultado. — Eu sei. Você já me falou que Dominus prometeu pro Mike que ia ajudar a gente, se a gente achasse essa porcaria e blá-blá-blá… — disse Bubba, olhando para baixo. Em seguida lembrou de algo e falou em tom otimista: — Peraí! Tenho a carteira dele aqui. Big Ray não sabia que a carteira estava com Bubba, nem que ele havia usado o cartão de crédito de Enzo no clube de cavalheiros Lollipops no dia anterior. Bubba sabia que não deveria ter feito aquilo, mas era uma boate de striptease, e ele estava embriagado. Foi quase sem querer. Largou o celular no meio das pernas e pegou a carteira de couro de Enzo no bolso de sua camisa. Tirou tudo de dentro dela e achou uma identidade de filiação de Enzo a uma Loja Maçônica. Pegou novamente o celular e falou: — Achei, acho que isto vai servir. Tem um cartão de uma Loja Maçônica aqui. Ouvi falar que maçons são como família, então… Mas o que é uma Loja? — É como eles chamam as igrejas deles — explicou Big Ray antes de perguntar: — Qual o nome da Loja? — Uma de Oakland Park, aqui mesmo na Flórida. — Me manda por Whatsapp uma foto dessa carteira. Não, por Whatsapp não… quero dizer por esse outro aplicativo que mandaram a gente usar. Bubba ficou feliz que a carteira resolveu o problema, isso distraiu a atenção de Big Ray. Por um momento ficou preocupado que Big Ray lembrasse dos celulares dos velhos que estavam na casa e pedisse para ele ir buscá-los. *** Naquele mesmo momento, na rodovia I-95, a dois mil quilômetros ao sul de Nova York, Alex Ortiz voltava da entrevista de emprego na Florida Atlantic

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University, em Boca Raton. Ele precisava se esforçar para se concentrar na estrada, pois seus pensamentos de decepção insistiam em distraí-lo. Quando percebeu, já estava na Oakland Park Boulevard, perto de casa. Normalmente, ao sair da I-95 ele abriria a capota do seu companheiro de muitos anos — seu Mazda Miata, conversível comprado usado há mais de dez anos — mas hoje ele nem se lembrou disso. Não estava nem um pouco animado. Na entrevista falaram-lhe que não iriam contratá-lo naquele momento por causa da pandemia, mas ele tinha certeza que havia sido por causa do livro que ele havia publicado no ano passado. Agora algumas pessoas queriam acabar com sua vida, sua carreira e sua reputação. Fizeram-no perder seu emprego anterior na Universidade de Miami, então, provavelmente essas pessoas entraram em contato com a FAU também. Enquanto estacionava em frente ao seu prédio, pensava: “Maldita hora em que fui escrever aquele livro! Agora vou desapontar Gabby. Meses desempregado, tudo por causa de um livro! Se ao menos tivesse feito sucesso… Ainda bem que não tenho prestação de carro para pagar. Mas e a prestação do apartamento? E a prestação do carro de Gabby? Até quando vamos conseguir pagar as contas? E com essa pandemia que está chegando, o que vai ser de nós? Tenho que dar um jeito nisso!” Era um dia ensolarado, mas para Alex o dia parecia escuro, sombrio e pesado. Então o celular tocou, interrompendo seus pensamentos. Era um número desconhecido. Não era do código de área 561, de Boca Raton, era 954, de Broward, mesmo assim Alex sentiu-se otimista. “Quem sabe é o pessoal da FAU, mudaram de ideia e vão me contratar?” — Alô? — Alessandrino Ortiz? — Sim? — Boa tarde, Sr. Ortiz. Meu nome é Frank Muratore, eu preciso falar com o senhor com urgência. — Pode falar. — Eu preferiria que fosse pessoalmente, se não se importa.

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A alegria voltou a dar lugar à tristeza. “Deve ser um daqueles fanáticos. Não se cansam de me perseguir? Mas este é educado, talvez não seja um deles.” A voz grave e áspera provavelmente por excesso de alcatrão e nicotina, prosseguiu: — É a respeito de seus pais. Sou da mesma Loja Maçônica que seu pai, preciso falar com o senhor. — O que houve? — perguntou, enquanto pensava “mesma Loja Maçônica? O que quer comigo? O que aconteceu? Não sou maçom.” — O senhor não soube? — Muratore fez uma pausa de alguns segundos, mas Alex não respondeu. Então ele continuou: — É claro que não soube. Poderia vir agora até o escritório onde estou? É importante. Alex pegou a caneta e o bloquinho de anotações que mantinha entre os bancos, e disse: — OK, pode me passar o endereço. Alex não sabia se ficava preocupado, se ligava para seus pais ou o quê. Não, não iria ligar. Já não se falavam há anos, ia ver do que se tratava primeiro. Provavelmente seu pai pediu a essa pessoa que entregasse algo para não ter que vê-lo pessoalmente. Típico dele. Mas ainda assim Alex ficou preocupado. — 2455 East Sunrise Boulevard, 12ᴼ andar. Fica em frente ao Galleria Mall. — Ok. Anotado. Qual o seu nome mesmo? — Muratore. Frank Muratore. — Ok, estarei aí em no máximo 10 minutos. — Aguardo o senhor. Alex desligou e respirou fundo algumas vezes, tentando relaxar. “Que droga é essa? Será que mando mensagem pra Gabby? Não, não quero que pergunte sobre a entrevista.” Então lembrou: ”Nem que eu quisesse mandar mensagem, seu celular tá comigo. Melhor eu ir até lá ver logo o que esse tal Frank quer comigo. A área é boa, não deve ser perigoso.” *** Em Nova York, Dominus ainda estava na limousine quando recebeu uma ligação de Big Ray, que disse:

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— Surgiu uma pista nova. Enzo Costa era membro de uma Loja Maçônica, tenho o nome dela aqui. Já achei o site na internet. — Isso talvez ajude. Não encontraram nada na casa? — Não, não tá na casa. — Pode falar o que você tem aí, vou anotar — disse Dominus. — O nome tem um W∴M∴ antes. — Sim, isso é abreviatura de Worshipful Master, quer dizer Venerável Mestre, mas é só o título do presidente da Loja. Tem aí o nome dele e o número? — perguntou Dominus. — Robert González, o celular dele é (954)555-0510. — Qual o nome da Loja? — Aqui diz Grande Loja da Flórida, Loja J. Dewey Hawkins de Oakland Park, Flórida, número 331 F&AM. O site é jdeweyhawkins.org. — Certo. Deixe comigo. Fique a postos e aguarde instruções. Dominus largou o telefone em cima do banco, pôs a caneta folheada a ouro dentro da agenda onde havia acabado de anotar o telefone de Robert González e colocou-a em cima do celular ao seu lado. Abriu a maleta que servia como escrivaninha e guardou os itens que estavam antes no banco. Ao abri-la, olhou para seu interior. Pensou por um momento e dali tirou uma pasta, onde estava o antigo relatório em italiano que lhe foi dado pelo Bispo Lejaune. Leu exaustivamente aquele texto mais uma vez, agora em trechos que não estavam riscados com marcador fluorescente. Acompanhou palavra por palavra com o dedo, até achar algo que lhe chamou a atenção: a palavra figlio. Lembrou-se da Missa Tridentina que havia participado não fazia muito tempo. Recordou o que era dito pelo padre durante o Sinal da Cruz nesses cultos celebrados em latim — In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Fez o sinal, sussurrando: — Em nome do — levou a mão à fronte para começar o sinal da cruz — Pai, do Filho, do Espírito Santo… Filho! A palavra filho saiu em voz alta, surpreendendo o homem à sua frente, que antes olhava pelo vidro da porta. Este não disse nada, esperou alguns segundos para saber se sua ajuda era requerida e voltou seu olhar para o exterior.

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Dominus copiou o texto letra por letra no tradutor do Google do seu celular. figlio di dieci anni non è stato trovato Apertou a tecla enter e… “Eureka!”, falou como Arquimedes quando descobriu o volume de ouro da coroa do rei Hierão. Lá estava a resposta! filho de dez anos não foi encontrado O filho de Giuseppe Ortiz Reale não foi encontrado! Claro, com certeza Enzo e Lana trouxeram o filho de Giuseppe para os Estados Unidos! Procurou mais um pouco no relatório, mas lá não constava o nome do tal filho. Provavelmente o sobrenome era Ortiz Reale como o do pai, mas poderiam ter mudado… Talvez agora fosse Costa ou outro sobrenome qualquer, não poderia saber. Mas havia um jeito de descobrir.

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CAPÍTULO 9 Frank Muratore “2 455. É aqui”. Alex passou pela frente do Galleria Mall em direção à

praia, fez o retorno no semáforo antes da ponte sobre o canal, e entrou na área de desembarque do luxuoso prédio. Entregou a chave ao manobrista, pegou o ticket e se dirigiu ao saguão de entrada. Entrou em um dos elevadores e apertou o botão 12. Tinha na mão a nota com o endereço de Frank Muratore, dizendo que o escritório era no 12º andar. Durante a ascensão, lembrou de uma coisa curiosa: a superstição de americanos sobre o número 13. Prédios nos Estados Unidos não têm o 13º andar, ninguém quer morar no 13º porque supostamente daria azar. Ele sempre achou isso uma tremenda besteira, mas sabia que era uma lenda que vinha desde a época dos Cavaleiros Templários, que foram dizimados em uma sexta-feira 13 por ordem do Papa e do rei da França, no começo do século 14. Como os Cavaleiros Templários vieram para a América do Norte antes de Colombo, aqui foi mantida a tradição da superstição sobre a sexta-feira 13. Já na Ásia, o número do azar é bem diferente — é o 4. Tudo porque lá o som da palavra quatro é parecido com o som da palavra morte, causando a tetrafobia — medo do número 4. Em alguns lugares os asiáticos chegam ao ponto de remover os botões dos andares 4, 13 e 14 dos prédios. Além do 4, o 13 por causa da crendice ocidental, e o 14 porque também leva o número quatro. Mas não há limites para superstições: seu pai receava a sexta-feira 17, como a maioria dos italianos. Isso se devia ao fato de que, em numerais romanos, 17 é XVII, o que os italianos acreditam ser um anagrama da palavra VIXI, que significa vivi. Ou seja, se a pessoa viveu, ela não está mais viva — está morta. Para Alex eram só bobagens sem lógica, e ele tinha dificuldades para entender porque pessoas acreditavam nessas besteiras fantasiosas. Ao sair do elevador, havia somente um único balcão de recepção. Aparentemente, o andar inteiro era de uma só empresa de advocacia, como A VELA VERMELHA

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dizia o painel que listava alguns sobrenomes. Na placa não constava Muratore, o que fez Alex deduzir que Frank não era um dos advogados mais importantes. Ao passar pelo enorme aquário iluminado e com peixes coloridos, indo em direção ao balcão preto com detalhes em aço escovado coberto com um topo de quartzo de um alvíssimo branco, Alex pensou: “Tudo muito bonito e cheiroso, deve ter custado uma fortuna. Só esse balcão deve ter custado mais que meu apartamento”. — Boa tarde, senhor. Posso ajudá-lo? — perguntou a jovem e simpática mulher hispânica por detrás do balcão. Estava muito bem vestida e maquiada. Tinha bom gosto, suas vestes lembravam o design das roupas de Gabby. — Boa tarde. O sr. Frank Muratore está me aguardando. — Sr. Alessandrino Ortiz? — Sim, sou eu. — Pode me seguir, por favor — falou a elegante mulher, virando as costas para Alex e começando a andar por uma espaçosa galeria com salas dos dois lados. Alex se posicionou mais ao lado esquerdo da jovem, mas ainda um pouco atrás. Naquela posição podia sentir o delicioso perfume dela, uma mistura de aroma de flores com algo doce que ele não identificou. Seria baunilha? Enquanto caminhavam, discretamente observou a saia da jovem: era preta, justa, ia até a altura dos joelhos e favorecia muito o seu grande e redondo bumbum, que formava uma saliência logo abaixo da cintura fina da moça. Alex não se sentia atraído por nádegas femininas, mas aquele traseiro lhe chamou a atenção não só pelo caimento do tecido da saia, mas pela silhueta que parecia puxar seus olhos, mesmo ele não querendo ver. Foi então que notou que ela havia percebido seus olhares indiscretos. Ele disfarçou: — Linda sua… sua saia. — Fui eu mesma que fiz — disse a jovem sorrindo. — Sério? Meus parabéns! Muito bonita mesmo! A mulher agradeceu e sorriu novamente. Alex pensou “preciso contar pra Gabby”, enquanto imediatamente desviava sua atenção para o caminho à frente, ouvindo o som dos saltos altos do scarpin

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ecoando no piso de porcelanato, misturando-se à música ambiente que tocava um jazz quase inaudível. No fim do corredor havia uma grande janela de vidro. Era praticamente uma parede de vidro, de tão extensa. Quando chegaram a ela, seguiram à esquerda, em uma outra passagem com salas do lado esquerdo. Alex ficou extasiado ao ver, à sua direita, a vista dos iates no canal intracostal, e do mar em matizes de verde esmeralda. Aquela paisagem maravilhosa o distraiu tanto, que ele nem percebeu que a sua acompanhante havia parado em frente a uma porta. — Sr. Ortiz? — chamou ela sorrindo. — Desculpe — disse ele meio sem jeito, tendo que voltar alguns passos. — É aqui — falou ela, para em seguida bater três vezes na porta antes de abri-la. Dirigindo-se à pessoa que estava dentro do recinto, continuou: — O Sr. Ortiz está aqui. — Virou-se para Alex e, prostrando-se ao lado da entrada, deu um outro sorriso e fez um gesto apontando parcialmente à direção que Alex deveria seguir, traduzindo seu gesto com palavras. — Pode entrar, senhor Ortiz. Alex prontamente atendeu a bela jovem, caminhando para o interior da aconchegante sala que tinha cheiro de madeira com chocolate. Lembrava cheiro de charutos ou cachimbo e por um minuto esse aroma misturou-se à fragrância delicada do perfume da mulher que o acompanhava. Ela fechou a porta enquanto ele parava em frente à grande mesa de madeira entalhada, onde estava um senhor grisalho de olhos negros, com uns sessenta e poucos anos e aparência confiante. Um Sean Connery italiano. Ele já estava em pé para recebê-lo, e assim que Alex se aproximou, estendeu a mão para cumprimentá-lo, com a palma voltada para cima. O sorriso tímido deu lugar a uma voz profunda, como a de Vin Diesel ou de um fumante inveterado. — Prazer, eu sou Frank Muratore. A voz grave de Muratore causou um pouco de inveja a Alex, que achava sua própria voz muito suave. Mas ele sempre dizia que Bill Clinton havia chegado à presidência com uma voz macia, então isso poderia até ser uma vantagem. Embora ser presidente não fosse uma opção, pois ele não tinha nascido no país.

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— Sou Alex Ortiz, o prazer é meu — respondeu, tentando impostar sua voz o máximo que pôde. — Sente-se, por favor — disse o Sr. Muratore, apontando para a poltrona de couro ao lado de Alex, e ambos sentaram-se simultaneamente. Após uma pequena pausa, o distinto cavalheiro atrás da escrivaninha continuou: — Eu sinto muito, sr. Ortiz, tenho uma notícia terrível para lhe dar. É uma situação difícil, mas não tenho outro jeito de lhe contar. Alex sentiu uma mistura de confusão com curiosidade, mas ficou em silêncio, aguardando a suposta terrível notícia. Seria uma cobrança de dívida? Suas contas ainda estavam em dia, não seria possível ser cobrança. Devia ser algum engano. — Bom… É melhor eu ir direto ao assunto: Infelizmente seus pais… o Irmão Enzo Costa e a esposa Lana faleceram ontem. Eu sinto muito. Alex levou um choque de adrenalina que arrepiou todos os pelos do seu corpo, até a nuca. Deu um pequeno salto involuntário e ficou sem reação, paralisado, segurando com força o braço da cadeira. Seus dedos ficaram brancos de tanta pressão que fizeram durante aquele transe momentâneo. — Eu sinto muito — repetiu Muratore, acrescentando: — Meus pêsames. Só então Alex conseguiu abrir a boca e falar, quase sussurrando: — Co-como assim? — Aparentemente alguém invadiu a casa deles ontem. A polícia me ligou hoje, os corpos foram descobertos pelo jardineiro. Alex ouvia Muratore, mas como se estivesse longe, dentro de um subterrâneo oco, em outra dimensão. Não era ele que participava da conversa, era como se assistisse um filme escuro. A voz ricocheteando e reverberando nas paredes, ele parecia não estar ali, enquanto a voz grave continuava: — A polícia entrou em contato comigo, meu nome está registrado como contato de emergência deles. Sou secretário da Loja Maçônica que seu pai é membro, J. Dewey Hawkins de Oakland Park. Por isso… — ele parou de falar quando Alex abaixou a cabeça e a apoiou com suas mãos. Ele tremia. Muratore pediu que alguém trouxesse um copo de água, e se voltou novamente para Alex para perguntar: — Você está bem?

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“Como poderia estar bem? Meus pais morreram!”, pensou Alex, mas apenas balançou a cabeça afirmativamente. Não conseguia falar. Ficou tonto. Seu coração começou a palpitar forte e ele sentia cada batimento do seu coração explodir em sua testa. Na testa! Por que na testa? Logo sua visão ficou turva, o ambiente foi escurecendo quase que totalmente, como se estivesse dentro de um túnel. Ficou enjoado. Não controlava seu corpo. Pensou que ia morrer quando um calor formigante subiu à sua cabeça e o fez suar frio. Tirou os óculos e coçou os olhos, tentando combater a obnubilação. — Abaixe a cabeça, coloque por entre as pernas e respire pausadamente — aconselhou Muratore, ao que foi prontamente atendido. O mal-estar foi passando, mas ele ainda se sentia em um sonho. Sonho, não — pesadelo!

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CAPÍTULO 10 Sois Maçom? F altando pouco tempo para sair do trabalho, Robert González estava

organizando seus papéis em sua escrivaninha quando seu celular tocou. Ele atendeu, e a voz perguntou: — Venerável González? — Sim? — González não reconheceu a voz ao telefone. — Meu nome é Stephen Balmer, sou amigo da família Costa. — Ah, sim. Foi terrível o que aconteceu. Sois maçom? — Não, não. Infelizmente não — disse Balmer. — Ah, sim. Me chamou de venerável, achei que fosse…. — Eu tenho amigos maçons, sei que vocês são chamados assim. — Certo — González aguardou que Balmer explicasse a razão de sua ligação. Então Balmer continuou. — Um desses amigos era Enzo Costa, uma vez ele me falou que era da sua Loja, por isso estou entrando em contato com o senhor. — Enzo era um bom homem… — pausou por um segundo. — Mas em que posso ajudá-lo, sr. Balmer? — Bem, eu e minha esposa gostaríamos de entrar em contato com o filho deles, mas esquecemos seu nome. Gostaríamos de expressar pesar e ver se ele precisa de ajuda. O senhor teria o endereço ou o telefone dele? González estranhou um pouco a pergunta, mas ponderou que, se o homem sabia que Enzo era membro da Loja é porque Enzo teria comentado com ele. Então deveriam ser mesmo amigos. De qualquer forma, como não sabia muito a respeito do filho, não achou que seria um problema falar algo. Então respondeu: — Olha… Me parece que eles tinham um filho, mas acho que não tinham muito contato com ele, Enzo mencionou o filho poucas vezes. Parece que tinha um sobrenome diferente do deles, um sobrenome hispânico como o meu. Mas não lembro qual era. A VELA VERMELHA

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— O senhor saberia como encontrá-lo? — Não, não faço a menor ideia. Acho que morava em Miami, mas não tenho certeza. Desculpe não poder lhe ajudar mais, sr. Balmer. — Tudo bem. De qualquer forma lhe agradeço. *** Stephen Balmer desligou o telefone com o venerável Robert González. Nessas ligações telefônicas em que ele não podia usar seu nome simbólico Dominus, ele sempre inventava um nome. Às vezes usava seu primeiro nome verdadeiro, mas por segurança mudava seu sobrenome. Gostava de usar Balmer, pois achava que soava bem e, por vezes, utilizava nomes totalmente aleatórios — era uma guerra e ele precisava vencer. Por isso poucos sabiam seu nome verdadeiro ou onde ele morava. Tinha endereços na Califórnia, Flórida, Nova York, mas nos Estados Unidos nunca seria encontrado no endereço que constava em seu Cartão de Registro de Eleitor. Estava um pouco decepcionado, pois precisava descobrir onde estava o filho de Enzo e Lana, mas não tinha ideia de como fazê-lo. Pelo menos agora tinha certeza de que existia mesmo um filho. Um filho adotivo que era o verdadeiro filho de Giuseppe Ortiz Reale, o antigo portador da vela, até 40 anos atrás. O que ele procurava devia estar com esse filho. Precisava encontrá-lo antes da chegada da pandemia, pois o país fechava pouco a pouco, e rapidamente. Precisava encontrar logo o item que o casal trouxe do Brasil. Quando ele passou para Mike o endereço de Enzo e Lana, Dominus acreditou que Mike resolveria tudo facilmente, mas Mike passou a missão para Big Ray e isso virou uma bagunça. Agora ele próprio estava tendo que resolver e não haviam combinado assim. Mas se fosse para encontrar o que ele precisava, valeria a pena. Para isso, teria que usar os seus contatos novamente. Pensou um pouco, olhou sua agenda e nela encontrou a solução. Não gostava muito de dever favores, principalmente depois do que aconteceu em Nova York… mas era necessário, em razão de um bem maior.

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Mesmo sabendo que não seria totalmente leal à pessoa para a qual iria ligar, não pensou duas vezes. Valeria a pena. Discou para o número de alguém que ele conheceu pessoalmente há alguns meses na Flórida em um encontro de Cavaleiros de Colombo e a pessoa atendeu. Então ele disse, após as introduções: — Grande Cavaleiro, preciso de sua ajuda. Temos alguém no Departamento de Polícia de Pompano Beach aí na Flórida? Grande Cavaleiro era um título um pouco estranho para denominar o presidente de uma fraternidade, mas Dominus estava acostumado com essas pompas. Na verdade, todas as associações desse tipo têm esses títulos nobilescos — não só essa, Cavaleiros de Colombo, mas Ordem de Malta e outras, das quais ele também fazia parte. O Grande Cavaleiro então respondeu: — Claro que sim! Aqui no Condado de Broward é o Departamento do Xerife que cuida da polícia. O que o digno irmão precisa? — Precisamos saber o endereço do filho de um casal que foi brutalmente assassinado ontem, para fazermos caridade a ele, coitado. Temos muita urgência porque queremos ajudá-lo antes dessa pandemia chegar na Flórida. O pobre homem precisa muito. — Jesus! Claro que vou ajudar imediatamente. Sabemos como caridade é importante para nós! Posso lhe passar o contato do irmão policial, diga-lhe que falou comigo. — Não acho que ele iria passar essas informações por telefone sem me conhecer — disse Dominus. — É verdade. O irmão gostaria que eu enviasse alguém lá? Posso enviar ainda hoje, não são 17h. — Seria ótimo, lhe seremos muito gratos. Peço que me desculpe a inconveniência. Peço também ao Grande Cavaleiro que mantenha segredo fraternal quanto a este assunto, visto que a pessoa pode ser orgulhosa, e sabemos estar passando por uma situação terrível. Enfim, você sabe, fazemos o bem sem alardearmos e sem esperarmos recompensa. — Claro meu irmão. Assim será feito.

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CAPÍTULO 11 Living Trust N o escritório de advocacia na Sunrise Boulevard, três batidas na porta

fizeram Alex levantar a cabeça e colocar os óculos novamente. Ali estava uma senhora segurando uma bandeja com dois copos e uma garrafa de Perrier. Muratore fez um sinal com a mão para que a pessoa servisse o visitante. Alex pegou o copo com insegurança, quase derramando a água ao levá-lo à boca. Teve que forçar um pouco sua mandíbula para que os lábios desgrudassem um do outro, de tão ressecados que ficaram. Tomou o conteúdo em goles espaçados, com um olhar vazio. Olhava mas não via. Estava distante em pensamento, como se não estivesse ali, e como se mais ninguém estivesse com ele naquela sala sem janelas. De repente as obras de arte na parede chamaram a sua atenção. Eram duas pinturas que copiavam o estilo renascentista, mas não tinham assinatura. “Devem ser giclées”, pensou, lembrando que seus pais tinham uma reprodução do quadro Mona Lisa de Leonardo Da Vinci na parede da casa deles. Muito brega, mas eles adoravam tanto que ficava em um lugar de destaque, ao lado da imagem da Madonna. Madonna a santa, não a cantora. Na verdade, o quadro era de Alex, fora um presente de seu pai biológico; mas como ele nunca gostou muito daquela imitação, deixou-a na casa de Enzo e Lana desde que ele se mudou de lá. Enzo costumava dizer que ele e o grande maestro Leonardo eram de Florença, mas ele se referia ao fato de seu bisavô ter vindo de lá. Enzo nascera no Brasil, mas falava que em suas veias corria sangue italiano. Alex observou a bandeirinha verde, branca e vermelha sobre a mesa de Muratore, ao lado da bandeira americana, e continuou lembrando de seus pais, de como eles amavam a terra de seus antepassados, a Bella Italia, como Enzo costumava chamar. Podia até ouvir a voz dele falando isso. Alex gostava da Itália, mas não era fanático como eles. De lá, ele gostava mais era da comida italiana, principalmente a que costumava comer no restaurante dos pais. Infelizmente eles tiveram que vendê-lo há algum tempo, porque não tinham A VELA VERMELHA

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mais como cuidar do negócio. Problemas de saúde devido à idade que avançava. Até o carro Enzo teve que vender, pois não conseguia mais dirigi-lo. Sua artrite não lhe permitia. Alex conseguiu rir por dentro quando lembrou que seu pai tirou a bateria para vender o carro sem ela, pois dizia que era uma obra de arte inventada por um outro grande italiano, Alessandro Volta, e que merecia lugar de destaque na casa dele: colocou a bateria do carro em cima de um banquinho ao lado da sua escrivaninha, para poder admirá-la todos os dias. De nada adiantavam os insistentes pedidos de Lana para que ele guardasse a bateria em outro lugar; Enzo não cedeu. Com o tempo ela acabou desistindo e aceitou aquela extravagância do marido. Naquela hora lembrou também de sua infância, de certa vez que colocou um sticker da bandeira italiana em seu caderno escolar e algumas crianças fizeram bullying com ele, chamando-o de chicano. As bandeiras da Itália e do México são quase idênticas e seu sobrenome certamente não o ajudava a ser identificado sendo italiano, como desejava na época. Ele não tinha nada contra mexicanos, só não gostava de ser assediado, e não gostava que dissessem que ele era algo que ele não era realmente. Da mesma forma, acreditava que um mexicano também não gostaria de ser confundido com um italiano, pois todos têm orgulho de suas origens. Ou não? Desde aquele incidente na escola, Alex nunca mais tentou ser o italiano da turma ou das turmas. Achou melhor ser só um americano comum como os outros garotos. Por sua vez, seu pai adotivo amava, além da bandeira com listras e estrelas da terra abençoada que o acolheu com carinho, a bandeira da Bella Italia. Tinha sempre as duas lado a lado, assim como as que agora via na mesa à sua frente. Só então percebeu que Muratore aguardava que ele se recompusesse, enquanto discretamente mexia em seu laptop. Pensou estar naquele estado de torpor por muito tempo, mas o relógio marcava que se passaram apenas cinco minutos. Então falou para Muratore, com a voz saindo mais fraca que o normal: — Desculpe, foi um choque. Eu não fazia ideia. — É compreensível. Sente-se melhor?

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— Sim, estou. Normalmente Alex não deixava transparecer emoções tão facilmente, mas foi surpreendido com a notícia da morte dos pais. Normalmente utilizava uma técnica de autocontrole com a qual conseguia isolar seus sentimentos de tristeza. Gabby dizia que esconder as emoções não era bom, mas ele achava que funcionava bem daquela forma: pensava nos fatos como se não estivessem acontecendo com ele. — Bem, eu lhe chamei aqui porque o Irmão Costa… seu pai me deu uma missão — disse Muratore. — Missão? Que missão? — Ele fez um Living Trust — falou, tirando uma pasta de papel pardo da gaveta direita. Colocou em cima de sua mesa. — O que é um Living Trust? — perguntou Alex. — É um documento similar a um testamento, mas não necessita registro público. Ele, ou melhor, seus pais, queriam que você herdasse tudo, mas queriam manter a privacidade. Eles não queriam que sua herança se tornasse pública. Para isso pediram que eu fosse o trustee deste Living Trust, do qual você é o beneficiário. Ou melhor… será beneficiário. Basicamente é como se fosse uma empresa, e eu o gerente. — Meu pai sempre foi um pouco paranóico. — A vontade de Alex era ir logo para casa, para recuperar o controle das suas emoções. Sentia-se muito triste, mas questionou: — E eu posso vê-los? — Quando liberarem os corpos, acredito que você deverá fazer a identificação. A frieza de Muratore ao dizer a palavra corpos, pareceu rasgar o peito de Alex, que perguntou: — E o velório, e o funeral? — Não precisa se preocupar, vou cuidar de tudo. Eles queriam ser cremados, as despesas serão pagas pelo Trust. Um dos pedidos do irmão Costa é que não houvesse velório. Por segurança, disse ele. — Como assim? — Alex franziu a testa. Seu corpo estava curvado, como se tivesse um peso nas costas. — Sinto muito. É uma cláusula, está no documento. Se houver velório, ou qualquer outra cerimônia, tudo será doado para a caridade. Inclusive não

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haverá cerimônia maçônica, eu já avisei ao Venerável sobre o falecimento, mas ainda terei que explicar aos Irmãos da Loja que não faremos cerimônia. — Que estranho! E pode ser feito assim, cremar sem velório? — Sim, pode. Alex imaginou que seu pai não queria um velório porque ainda estava muito bravo com ele por causa de seu casamento com Gabby, mas concordou: — Se era a vontade deles, que seja feita. — Tudo bem, então. Eles têm umas solicitações específicas quanto às cinzas, mas depois conversamos sobre isso em outra oportunidade. — Muratore fez uma pausa e mudou de assunto, agora medindo as palavras. — Ele temia algo como o que, infelizmente, aconteceu. Ele foi bem taxativo quando fez o Trust, disse que quando eu fosse avisado da mo… do falecimento deles, caso fosse como foi, ele tinha um plano para ganhar tempo até eu lhe avisar que você também corria perigo, e que o plano lhe permitiria ganhar tempo para você fugir… — Fugir, eu? — interrompeu Alex. — Bem, o termo que ele usou foi fugir. Ele disse que você não ia gostar dessa palavra, pediu-me que eu usasse outra. Mas, devido à seriedade da situação… — Muratore pausou novamente. — Para sua segurança, ele tentava encobrir os laços que ligariam eles a você, e esse é um dos motivos de fazer um Living Trust ao invés de um testamento normal. — Mas eu não vou fugir! — Bem, aí não cabe a mim. Sou só o mensageiro. Mas existe uma cláusula no documento… — Outra cláusula? — interrompeu Alex novamente, já sentindo intimidade, como se Muratore fosse da família. Um parente distante que ele conhecera há pouco. — Sim, outra cláusula que diz que se você não sair da cidade em 72 horas após o falecimento dele… — Já sei, vai doar tudo para a caridade. — Exato. Mais especificamente para os Shriners. Essa condição só é válida caso a morte não fosse natural, como foi o caso. Também se sua mãe sobrevivesse as instruções seriam outras, mas não vem ao caso agora. — Shriners?

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— Sim, um grupo filantrópico de maçons que administram hospitais de caridade infantis. — Mas e os pertences pessoais deles? — perguntou Alex, já com a voz em tom normal. — Seriam todos doados também, exceto alguns poucos itens para os quais tenho outras instruções. Alex amava muito seus pais, queria pelo menos ter para si alguns objetos, coisas para lembrar de tempos felizes. Coisas que antes eram importantes para os pais, teriam que ser preservadas agora por ele. Isso era mais importante que bens ou dinheiro! Mas o dinheiro também era importante — ele e Gabby precisavam muito naquele momento. Ficou envergonhado em pensar nisso, mas racionalizou lembrando que nada traria seus pais de volta. — Você concorda com os termos? — perguntou Frank Muratore. — Receio que eu seja forçado a concordar. Mas como funcionaria isso? — Bem… ontem foi domingo, você teria que sair da cidade até quarta-feira de manhã. Então, no prazo de 30 a 60 dias, teria que me enviar um comprovante original ou cópia autenticada de que saiu da cidade dentro do prazo estipulado: 72 horas a partir da… do evento. Fazendo isso, imediatamente você se tornará o beneficiário do Trust. Logicamente o Irmão Enzo não previu que haveria uma pandemia, então esse pode ser um problema que nós não vamos ter como contornar. — Mas que tipo de comprovante seria esse? — Pode ser uma passagem aérea em seu nome, ou melhor, os cartões de embarque. — E quanto tempo eu teria que ficar fora? — O documento não estipula prazo, o irmão Enzo disse que você saberia, confiava em você para se autoproteger. Só queria que saísse rapidamente da cidade, e para isso pediu que eu transferisse 3 mil dólares da conta do Trust para a sua conta bancária, o que vou fazer assim que me passar os seus dados. Preciso do seu e-mail também, por favor. Alex começou a achar que esse era um plano do pai para afastá-lo de Gabby, mas então viu que era absurdo pensar assim, pois seus pais haviam sido assassinados. Além do mais, se ele fosse viajar, levaria Gabby consigo.

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“Isso é loucura”, pensou, mas mesmo assim anotou os seus dados bancários e seu email em um papel que Muratore forneceu, e o entregou de volta a ele. Muratore continuou: — A casa deles já será colocada à venda assim que for liberada pela polícia, e o dinheiro da venda irá para a conta do Trust. Os móveis e demais pertences serão estocados em um depósito com ar condicionado pago pelo Trust. Quando você for o beneficiário, eu lhe darei mais instruções, e entregarei a chave do depósito. — Parece muito radical… vender a casa em que moraram por tanto tempo? Eu não sei… — Bem, não temos muito tempo. Pegou um documento na pasta de papel, virou para Alex, dizendo: — Preciso que assine aqui onde diz que você recebeu uma cópia do documento que vou lhe dar agora. É sua a decisão de cumprir ou não a condição. Não precisa resolver neste momento. Se não quiser ir em frente, fique com os 3 mil dólares, os Shriners agradecerão a doação, e a vida seguirá normalmente. Quer dizer… exceto se seu pai estiver certo quanto a você correr perigo. E acho que ele pode ter razão. Olharam-se em silêncio por um momento. Alex então leu, achou justo, e assinou. — Ótimo. Agora tenho mais uma coisa — Muratore tirou do chão ao seu lado uma pequena maleta executiva preta e colocou em cima da mesa. Pegou outro documento e falou: — Também tenho que lhe entregar esta valise que ele deixou para você. Assine aqui e aqui. Quando terminarmos, eu vou lhe entregar cópias dos documentos que assinou. Alex leu, assinou e pegou a maleta. Parecia vazia. Olhou, tentou abrir… sem sucesso. Então perguntou: — Mas qual a senha? — referindo-se à senha numérica necessária para abrir a fechadura no centro, abaixo da alça. Eram necessários três dígitos. — Ele não me informou, só disse que você saberia. Doppia celebrazione é o termo que ele usou. É uma data que você saberia qual é. Ele me pediu para lhe dizer estas palavras, doppia celebrazione. — Doppia celebrazione quer dizer dupla celebração — Alex ficou pensativo.

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Nada lhe veio à cabeça enquanto observava uma fita crepe colada do lado esquerdo dos cilindros numéricos e que tinha um círculo desenhado com marcador permanente. Parecia uma gambiarra típica de Enzo. Dupla celebração? Teria algo a ver com algum aniversário,? Mas eram só três dígitos… Se preocuparia com isso depois, no momento estava triste, porém surpreso com esse lado James Bond do pai, ângulo que ele desconhecia. Talvez nem conhecesse bem o pai adotivo, afinal de contas. Muratore pegou uma nova pasta de papel na gaveta esquerda, e em seu interior colocou os documentos previamente separados. Colocou a mão sobre os papéis, e disse: — Bem, aqui nesta pasta estão suas cópias e uma atualização contábil dos bens e finanças do Trust. Se você decidir seguir o pedido do Irmão Enzo, quando voltar, por favor me procure para agilizarmos a documentação e eu lhe passar mais informações que ele solicitou. Pode me ligar quando quiser, este é meu número de celular. É o mesmo do qual liguei para você hoje — disse Muratore enquanto escrevia seu número de telefone em um post-it. Mostrou o papelzinho amarelo e o colou na parte interna da pasta antes de fechá-la. Entregou a Alex, e falou: — Antes que eu me esqueça: um detetive que está investigando o caso esteve aqui hoje. Aqui está o cartão dele. Detetive Bonmann. Quando puder ligue para ele com urgência. Eu mencionei seu nome, mas não passei seu número. Eu queria falar com você antes da polícia, acredito que seria mais traumatizante se você soubesse através deles. O detetive compreendeu a situação, e vai aguardar sua ligação. — Obrigado. Vou ligar — disse Alex olhando para o cartão antes de colocá-lo dentro da mesma pasta de papel que segurava. Tinha muitas informações para absorver, seu cérebro parecia estar sobrecarregado e não estava ajudando muito. Então o sr. Muratore se levantou e estendeu a mão para ele, falando: — Bem, foi um prazer conhecê-lo, sr. Ortiz. Uma pena que em circunstâncias tão adversas. Seu pai falava muito em você. — Ele falava? — Sim, eu conhecia o Enzo há muitos anos, desde que você era criança. Ele falava de você, contou do seu casamento com Gabby… Então parece que

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eu já lhe conhecia. — Eu não sabia sobre a amizade de vocês — disse Alex, imaginando que seu pai mencionara coisas não muito boas a seu respeito. Preferia não perguntar nada sobre aquilo, seria melhor encerrar o assunto para que o momento não se tornasse constrangedor. — Enzo era um bom homem, um excelente Irmão. Sua mãe, Lana, é uma maravilhosa cunhada. Vamos sentir muito a falta deles. “Cunhada?”, Alex pensou, para a seguir responder sua própria pergunta mentalmente, “sim, claro. Se ele chama meu pai de irmão, a esposa do irmão é cunhada. Eles levam esse negócio de irmãos a sério… Eu devo ser sobrinho dele, então”. Já em pé com a pasta e a maleta na mão esquerda, Alex disse: — Sim, eles são boas pessoas. Vou sentir falta deles também — nesse momento olhou para baixo, mas logo tornou seu olhar para o nível dos olhos. — Por favor me chame de Alex. Cumprimentaram-se, o sr. Muratore o levou até a porta, mostrando sua intenção de ir junto com ele até a saída, mas Alex queria ficar sozinho o quanto antes. — Não precisa me acompanhar. Eu posso achar o caminho, obrigado. — Por favor, me ligue a qualquer hora que precisar, OK? Até logo — disse Muratore. — Obrigado. Até logo. Alex saiu sem nem lembrar de se despedir da bela e sexy jovem de saia preta que o havia acompanhado em sua chegada. Desceu do elevador e foi solicitar ao manobrista o seu carro, mas havia se esquecido de carimbar o ticket para poder pegar o veículo. O manobrista se ofereceu para subir e carimbar no escritório de advocacia, ao que ele concordou e agradeceu a gentileza do rapaz. Enquanto isso Alex olhou a hora no seu celular, era 16h59. Resolveu ligar para o detetive, para tentar ficar livre o mais rápido possível daquele pesadelo. Como não estava muito a fim de dirigir naquele momento, e não queria levar esse problema para casa, então marcou de se encontrarem no Starbucks da Macy’s, no Galleria Mall, em 10 minutos. Assim que lhe foi entregue a chave do carro, Alex colocou a maleta no porta-malas onde estava seu laptop — depois se preocuparia com aquilo.

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Sentou-se e colocou a pasta de papel com os documentos em cima do banco dianteiro ao seu lado. Pensou melhor e a colocou dentro do porta-luvas. Ela só coube dobrada, porque o compartimento era pequeno, como tudo mais em seu carro. Sorriu por lembrar que seu pai sempre dizia que seu carro era tão pequeno que parecia o carrinho do Stuart Little, o ratinho do filme infantil. Saiu do estacionamento, entrou na Sunrise Boulevard em direção ao oeste, fez o retorno e estacionou no shopping center Galleria, que ficava do outro lado da rua.

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CAPÍTULO 12 Detetive Bonmann N o Galleria Mall, Alex tomava um mocha grande, lembrando-se de como

era bom quando ele vinha com Gabby de vez em quando, para passear ou fazer compras. “Melhor que o Aventura Mall”, eles costumavam dizer. Alex ficava sentado ali no segundo andar da Macy’s, no Starbucks, sorvendo lentamente seu café, enquanto Gabby fazia as compras…. Naquele dia em que aguardava o detetive, não havia mais ninguém no Starbucks. Provavelmente as pessoas estavam com medo antecipado do coronavírus. Levantou os olhos e viu um homem vindo em sua direção. Embora parecesse ser muito jovem, certamente ele era o tal detetive, pois parecia um. Vestia calça preta, camisa azul clara e um blazer antigo, de cor verde bem escura, fora de moda. Parecia preto, mas era verde escuro. Mais do que aquele terno antiquado, o que incomodava Alex eram os seus sapatos de cor marrom clara, meio alaranjados. Chegando mais perto, aquele homem falou: — Sr. Ortiz? — Sim, sou eu. — Detetive Bonmann. Logan Bonmann. Desculpe o atraso. Posso sentar? — Por favor — respondeu Alex, apontando para a cadeira à sua frente. Ele não estava atrasado, estava? Eram 17h12. — Primeiro, gostaria de lhe dar os pêsames pela sua perda. — Obrigado. Alex olhou para o copo de café, girou, observando a imagem de Mélusine no mesmo, sempre intrigado pelo fato do logotipo da Starbucks apresentar a medieval sereia de duas caudas, de quem Gui de Lusignan, o rei cruzado de Jerusalém, alegava ser descendente. Em seguida, olhou o detetive nos olhos. — Como falei ao telefone, preciso lhe fazer umas perguntas — falou o detetive enquanto tirava um caderninho e uma caneta do bolso. — Sim, tudo bem — concordou Alex. A VELA VERMELHA

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Estava meio fora da realidade ainda, mas o fato de não ter tido contato com os pais há muito tempo, tornava um pouco mais fácil para ele aceitar a situação. Embora se sentisse culpado por não vê-los há tanto tempo. — Posso ver sua identidade, por favor? Alex pegou sua carteira de motorista e entregou ao detetive, que anotou os dados no caderno, e perguntou: — Seu endereço está atualizado no documento? — Sim, está — tomou um gole de café, que já estava esfriando. — O Sr. Enzo Finer Costa e a sra. Lana Bella Costa eram seus pais? O sr. Muratore disse que o senhor é filho deles, mas não consegui vincular um parentesco entre vocês, o seu sobrenome é diferente. Então, qual seria a relação entre o senhor e o casal? — Eu vim com eles, há quase 40 anos, para os Estados Unidos. Eram meus pais adotivos, mas nunca fui adotado formalmente. — Entendi. O senhor sabe o que aconteceu com eles? — O Sr. Muratore disse que eles foram assassinados ontem, mas eu não entendo porque alguém faria isso… — falar aquilo deixou Alex triste novamente. Não era um sonho, mas ele não queria acordar para a realidade. — Onde o senhor estava ontem à tarde, lá pelas 14h? — Dormindo em casa. — Tem alguma testemunha? — Bem, eu estava dormindo enquanto Gabby estava na sala vendo TV. — Quem é Gabby? — Minha cara-metade. Sou casado há cinco anos. — Onde Gabby trabalha? — perguntou o detetive. — Tem uma boutique em Las Olas, a Gabby Torres. — Qual o endereço? — 621, Las Olas Boulevard — respondeu Alex. Bonmann anotou tudo e fez mais uma pergunta: — Fica próximo ao Hotel Riverside? — Em frente. Virando a página, o detetive colocou o caderninho e a caneta na frente de Alex, e pediu:

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— O senhor pode escrever o nome completo dela, número de celular e do seguro social, por favor? — Quer o número de telefone da loja, também? — Não é necessário. Alex afastou o copo de papel para a esquerda, escreveu o que foi solicitado e gentilmente empurrou o pequeno caderno sobre a mesa de volta para o detetive, dizendo: — Eu estou com o celular de Gabby, levei para que fosse consertado. Se for ligar hoje, ligue depois das seis e meia que eu já terei entregue o aparelho. O detetive olhou no caderno o que Alex havia escrito e levou mais tempo do que seria necessário para ler e entender. Franziu o músculo entre as sobrancelhas e se ajeitou na cadeira parecendo um pouco confuso. Talvez a letra de Alex não fosse tão boa quanto ele acreditava que ela fosse, afinal. Após alguns segundos, Bonmann continuou. — Não se preocupe, não ligarei hoje — afirmou, virando a página para a seguir perguntar: — Havia algum problema entre o senhor e seus pais? — Problema? Não, nada sério. Meu pai não aprovou meu casamento com Gabby, por isso a gente não se falava desde então. Mas ficou nisso. — Entendo. E entre seu cônjuge e eles? — Nunca houve nada, minha mãe adora Gabby. Adorava. — Alex olhou para o copo na mesa novamente, segurando-o com três dedos. Ao invés de deixá-lo nervoso, o interrogatório o distraía e relaxava, enquanto o detetive Bonmann continuava com seu trabalho, interrogando pacientemente: — Qual o número dos seus sapatos? Alex estranhou a pergunta, mas respondeu: — 8. — E de Gabby? — 8 também. — Conhece alguém de Daytona Beach, Flórida? — Daytona Beach? — Alex colocou a mão no queixo, prendendo-o entre os dedos. — Não. Não que eu me lembre. Tudo o que ele falava, o detetive anotava. Então Bonmann pegou o celular, passou o dedo na tela algumas vezes, virou para Alex e mostrou uma imagem,

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perguntando: — Você já viu este símbolo antes?

— Não, nunca vi. O que é isso? Parece um mastro de navio. — Um mastro de navio? — o detetive virou a tela para si, mostrando-se surpreso por um momento. Então continuou: — O assassino… ou assassinos deixaram um símbolo como esse no local, na casa de seus pais. Isto é um símbolo religioso, significa Sacerdote Phineas, ou Phineas Priest. É a união de um P com uma cruz. Você saberia por que um fanático religioso faria o que fez com seus pais? Alex levou um choque, seus olhos foram da imagem na tela aos olhos do detetive em uma fração de segundo. O detetive percebeu e perguntou: — Lembrou de algo? — Bem, uns fanáticos religiosos me perseguiram no ano passado. Perdi meu emprego em novembro por causa deles. Mas nunca imaginei que chegassem a esse ponto de matarem meus pais! — Qual era seu emprego? — perguntou o detetive. — Professor de história na Universidade de Miami. História do Cristianismo, para ser exato. — E o que aconteceu? — Eu escrevi um livro que eles não gostaram. Acabaram descobrindo minha identidade verdadeira. Eu tinha usado um pseudônimo para me proteger, pois sabia que o livro ia causar polêmica. Não tanta polêmica, mas… — Livro sobre o quê? — Bonmann aproveitou a pausa para interromper. — Religião, basicamente. — Qual o nome do livro? ***

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No prédio do Departamento do Xerife de Broward, uma reunião sobre o combate à COVID-19 estendeu-se além do fim do expediente. O capitão, um dos participantes, foi informado que um visitante estava aguardando-o desde antes das 17h. Mandou que entrasse, mesmo tendo vontade de ir logo para casa para tentar proteger sua família da pandemia que se aproximava. Sua esposa estava nervosa, preocupada. Já havia ligado várias vezes hoje. O visitante, que tinha um pin na lapela igual ao seu, em forma de losango colorido com as letras K of C no topo, estendeu-lhe a mão direita. No aperto de mão ele fez duas pressões distintas na mão do capitão, que imediatamente reconheceu o sinal. O capitão, então, deu o toque de confirmação de que ele também era um deles, uma única pressão curta e firme, e logo perguntou: — A que Conselho pertences? — St. Bonaventure, número 12240 de Davie — respondeu ele ao capitão. Se abraçaram como velhos amigos ao se reconhecerem. O irmão visitante falou que estava ali a mando do Grande Cavaleiro de seu Conselho e pediu uma informação necessária para poder fazer uma obra de caridade. O capitão pesquisou no computador e falou: — Infelizmente não tenho essa informação no sistema. Mas me dê um minuto. Vou ligar para o sargento da Homicídios. Depois de uma curta ligação informal para o sargento, o capitão disse: — O sargento vai falar com um dos detetives encarregados do caso e já me retorna. Só vai levar alguns minutos. Perfeitamente! — exclamou o irmão visitante. — Quer tomar algo? Um chá? — Não, obrigado meu irmão. O telefone tocou e o capitão atendeu, pensando que já era o sargento lhe dando retorno, mas era sua esposa, preocupada com a demora. *** No Galleria Mall, Alex hesitava em dizer o título do livro que havia causado tantos transtornos em sua vida, inclusive por ficar sabendo que o livro havia

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matado seus pais. Quisera não tivesse escrito aquilo. Não desejava nem mencionar seu título, por isso falou ao detetive: — Um minuto, vou lhe mostrar. Alex abriu seu celular, procurou o que queria, encontrou e mostrou ao detetive a capa do seu livro no celular. Bonmann levou alguns segundos para digerir aquilo. Olhou para o celular, depois para Alex. O detetive estava aparentemente desconfortável, pela segunda vez durante aquele interrogatório, mas continuou profissionalmente: — Entendo. Esse aí é o pseudônimo que você usou? — Sim. Nesse momento, enquanto fazia anotações, o telefone do detetive tocou e ele atendeu: — Sim, sargento. Estou com ele aqui. Sim, senhor, vou colocar no sistema hoje à noite. *** No Departamento do Xerife, passados mais alguns minutos o capitão finalmente recebeu a ligação do sargento. Despediu-se, desligou, voltou-se ao homem que estava à sua frente e deu a notícia: — Meu irmão, um dos nossos detetives está interrogando o rapaz neste exato momento. Ele vai colocar o relatório no sistema hoje a noite. — Que ótimo. — Eu posso acessar o sistema de casa e lhe passar as informações que necessita para fazer a caridade. É só o nome completo e endereço que o irmão Grande Cavaleiro precisa? — Sim, por favor. Acho que seria bom o número do celular também, caso seja necessário. Se não for incômodo, claro. — De forma alguma, meu irmão. É um prazer servir a nossa Fraternidade e a Santa Igreja. ***

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No Galleria Mall, o detetive Logan Bonmann finalizou a ligação, pediu desculpas a Alex, revisou suas notas e prosseguiu: — Você registrou ocorrência do ataque que sofreu naquela época? Dos fanáticos religiosos? — Na verdade, não. Eu perguntei a um professor de Direito da Universidade, mas ele disse que não havia ilegalidade naquilo. As manifestações diárias contra mim em frente à Universidade ou as ameaças de boicote à instituição, caso eu continuasse trabalhando lá, eram direito de expressão daquelas pessoas. Como aquilo durou vários dias, causando transtorno a todos, a reitoria me chamou para conversar. Queriam que eu me afastasse e eu me demiti. — Entendi. — O mais triste é que, provavelmente, nenhum deles leu meu livro, apenas julgaram seu título — desabafou Alex, antes de perguntar: — E esse sacerdote, como se chama? Phineas… vocês já encontraram ele? — Bem, Phineas Priest não é um nome de uma pessoa, é um título com que alguns extremistas religiosos chamam a si próprios. Estou tentando provar que não foi terrorismo, para que o FBI não tenha que ser chamado. Na verdade, não creio que tenha sido terrorismo. — Terrorismo? — Sim, Phineas Priests são extremistas cristãos. Houve casos em que eles explodiram clínicas de aborto, entre outras coisas. Alguns acreditam que McVeigh era um deles. Eles normalmente agem sozinhos. Alex sabia que o detetive se referia a Timothy McVeigh, o norte-americano que cometeu o pior ato de terrorismo doméstico da história dos Estados Unidos antes do 11 de setembro, juntamente com Terry Nichols — o atentado de Oklahoma City na década de 90. Eles mataram mais de 160 pessoas e feriram quase 700. Mas Alex não sabia que McVeigh ou Nichols fizeram aquilo por motivações religiosas, embora tivesse ouvido falar que McVeigh queria vingar o Cerco de Waco no Texas. Mas não tinha certeza disso, nunca pesquisou a fundo. Alex tentou fazer perguntas, mas foi sutilmente lembrado por Bonmann de que quem questionava era ele, o detetive.

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— Tivemos razões para crer que o senhor não corria perigo, mas com essas novas informações que o senhor nos passou, peço que tome cuidado. Qualquer coisa suspeita, ligue 911. Aqui está meu cartão, chame se achar que está em perigo. — OK. — Bem, sr. Ortiz, acho que está bom por hoje. Posso ligar para o senhor se eu precisar de mais alguma informação? — Pode sim. Então o detetive Logan Bonmann se despediu de Alex e saiu caminhando com seus sapatos cor quase de abóbora, que faziam um barulho irritante quando ele andava.

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CAPÍTULO 13 O Grande Cavaleiro N o Trump International Hotel, no Central Park em Nova York, Czacki

retirava a maquiagem do disfarce de Dominus, que não se deixava abalar pelo revés do dia. Apesar dos acontecimentos desfavoráveis, ele confiava que estava cada vez mais próximo de terminar o trabalho que seu pai havia começado há muitos anos. Antes de seu genitor tomar as rédeas do movimento, a Irmandade foi transformada em um grupo de sonhadores esparsos. Agora, com tudo o que ele esteve realizando nos últimos anos e com a possibilidade de obter o artefato, cada vez mais acreditava que conseguiria esse feito durante a sua própria existência. Assim poderia cumprir sua obrigação para com Deus, para com a Humanidade e também a promessa feita a seu pai de que incansavelmente continuaria o trabalho dele até o fim. Não foi coincidência o objeto que guarda esse segredo ter surgido em seu caminho tanto tempo depois. Foi a mão do Criador agindo. “Se meu pai tivesse encontrado isso na época, a história teria sido diferente, teríamos tido mais força e não sofrido aquela terrível derrota”, pensou Dominus, e foi além: “O mundo certamente já teria sido reconstruído. Mas, como ele mesmo dizia, antes tarde do que nunca. Agora, de um jeito ou de outro, nós vamos vencer. Com a ajuda de Deus. Deus vult!”. Robert, o pai de Dominus, no final dos anos 1980, acreditou estar bem próximo de localizar o artefato. Conseguiu convencer um universitário a fazer um estágio na Companhia, no verão daquele ano. Esse universitário era descendente de um Vanderbilt, que supostamente teve contato com o item no século 19. Como ele tinha deixado uma mensagem cifrada com familiares, Robert achou que ela indicaria a localização do tão desejado objeto. Porém, por algum motivo que Dominus nunca soube, não obtiveram sucesso. Ou ninguém conseguiu decifrar a nota deixada por Vanderbilt ou decifraram e não acharam o artefato. A VELA VERMELHA

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Na época, encontrar o segredo perdido era a última chance para que seu pai conseguisse se recuperar das derrotas que estava sofrendo, para poder retomar os planos da Fraternidade. Mas não deu certo, ele entrou em depressão e acabou falecendo. A situação de Dominus como Frater Dominus, o líder da Irmandade em 2020, era muito mais confortável que a do seu pai Robert como Frater Christian, nas décadas de 1970 e 1980. Dominus contava com amplo apoio de várias organizações nos EUA e em diversos países, possuía um forte braço tecnológico e valia-se da união de grupos que antigamente buscavam objetivos diferentes, e eram até inimigos. Encontrar o artefato aceleraria o processo, mas não era questão de vida ou morte, como em 1988. O telefone tocou e Dominus pediu a Czacki que se retirasse da suíte por um momento. Ele esperou o homem que removia a maquiagem de seu rosto sair e atendeu a ligação. — Grande Cavaleiro? — Meu irmão, fui comunicado que a pessoa que você procura está falando neste momento com um detetive aqui em Broward, então as informações que você precisa estarão disponíveis mais tarde. É de praxe que a polícia interrogue os familiares e as pessoas próximas, principalmente em casos como esse. Assim que me passarem as informações, eu lhe comunico. Foi-me prometido ainda para hoje à noite. Dominus agradeceu, desligou, e imediatamente ligou para Big Ray. — Big Ray, quando Bubba chegar na Flórida, envie ele com dois homens de volta para o Condado de Broward o mais rápido possível e aguarde instruções. Mande irem desarmados, para evitar acidentes desnecessários. — Então já vou enviar agora mesmo dois Indomitables da unidade de Daytona Beach. Eles vão chegar lá antes de 2200 e vão ficar aguardando as instruções. Bubba vai logo depois, ele chega por lá de madrugada. Embora Dominus tenha servido na marinha americana no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, ele não estava mais acostumado com horários militares. Teve que calcular em sua mente que 2200 era 10 da noite, para então concordar: — Perfeito.

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CAPÍTULO 14 A Vela P ouco antes das 18h, sentado na beirada de sua cama enquanto aguardava

a banheira encher com a água quente que lhe permitiria relaxar ao menos um pouco, Alex ainda não conseguia acreditar em tudo que havia acontecido naquela segunda-feira. Que dia terrível! Seus pais morreram, ele continuava desempregado e, ainda por cima, podia estar correndo perigo. Não sabia se ia sair da cidade — precisava conversar com Gabby, mas também precisava tomar cuidado para não causar-lhe preocupações excessivas. Mas isso não importava muito, o que importava agora era a tristeza de ter perdido seus pais sem poder se despedir. Colocou as mãos na cabeça, como se fosse amenizar a dor da culpa de não ter passado mais tempo com eles. A dor era enorme. Agora, lembrava deles como em um filme de recordações: sua mãe lhe buscando na escola, seu pai gargalhando ao assistir Pernalonga… Seu pai esquecendo de buscá-lo na escola e ele tendo que pular a janela do quarto dos pais, para poder entrar na casa… Ah, como ele gostaria de voltar no tempo, mesmo que fosse para levar uma bronca do pai e depois o carinho da mãe para consolá-lo. Ou a reprimenda da mãe, dizendo que ele não era todo mundo, quando teimava em querer tomar vinho com o pai antes de chegar na idade adulta. Sua mente fazia associações melancólicas, era como se a tristeza se alimentasse de mais tristeza. Uma memória dolorosa puxava outra mais antiga. Assim, ele chegou à lembrança de ter sido abandonado pelo pai biológico aos seus dez anos de idade. Dez não — nove. Faltavam alguns dias para seu aniversário quando ele veio para os Estados Unidos. Passou a data festiva com um casal estranho, em um país em que ele não conhecia ninguém e não entendia nada do que as pessoas falavam. Lembrou que naquele tempo, quando chegou na América, chorava todos os dias. Chorava porque queria voltar para casa. Queria o pai, queria a mãe, que A VELA VERMELHA

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havia desaparecido quando ele era ainda mais novo e queria a avó Mila, a mãe de seu pai biológico, sua companheira de todas as tardes. Queria tomar matedoce que a vó Mila fazia para ele e dizia que era chimarrão. Sentia falta de seus coleguinhas da escola no Brasil e do futebol com eles. No país estranho a água tinha gosto de remédio. Emoções e memórias escondidas no fundo do porão de sua mente, de repente estavam ali para confrontá-lo. Recordou-se de tudo isso e de mais uma coisa que ele havia, propositalmente, esquecido. Levantou-se, foi até o closet, pegou uma caixa de papelão na prateleira superior e a colocou no chão. Abriu, tirou cadernos, pastas, bugigangas, até deixar ali dentro só o que ele buscava: uma pequena caixa antiga, do comprimento de uma régua escolar. Talvez um pouco maior que 30 centímetros. Apesar de estar amarelada, ela era originalmente branca, e era ilustrada por um desenho que dizia CAMBRIDGE Duranitte RECORDER. Encontrar o objeto reconfortou seu coração, como se estivesse na presença de pessoas amadas novamente. Abriu a caixa da flauta cuidadosamente pela extremidade, olhou para dentro e ali estava ela: a vela de Garibaldi. Tirou a vela vermelha da caixa, abraçou-a ao peito, e instintivamente começou a repetir sussurrando, como um mantra: — Jesus de Galilée nest point icy 1221. — Jesus de Galilée nest point icy 1221. — Jesus de Galilée nest point icy 1221. Quanto mais repetia, mais se acalmava. Quanto mais repetia, mais se confortava. Era um sentimento de contentamento e bem estar que ia tomando o lugar da tristeza. — Jesus de Galilée nest point icy 1221. — Jesus de Galilée nest point icy 1221. Enquanto repetia, lembrava de momentos felizes com o pai biológico, pai que ele nem recordava o nome, mas que nesse momento se lembrou. O nome era Gio. Giuseppe. Ele reviveu em sua mente todo o amor que recebeu na infância, sentiu que foi amado pelo pai… Então por que ele teria lhe abandonado? Talvez o pai tivesse problemas mentais? Ele certamente ficou bem esquisito depois que a

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mãe biológica de Alex desapareceu. “Desapareceu?”, pensou. Seu discernimento de adulto fez-lhe perceber que a mãe na verdade havia morrido e não simplesmente desaparecido, como sua inexperiência infantil havia gravado em sua mente. Enquanto se preocupava em desvendar o passado, não lembrava da tristeza, pensando “Claro, ela morreu. Por isso ele ficou daquele jeito. Isso explica muitas coisas, como fazer eu ficar repetindo essa frase ou mandando eu escrever isso com cifra que eu descobri ser atbash… ou me dar uma vela dizendo que foi feita pelo próprio Giuseppe Garibaldi, o herói italiano. Ele certamente tinha problemas mentais, por isso me abandonou!” — Jesus de Galilée nest point icy 1221. Alex então percebeu que estava fazendo papel de tolo, repetindo uma frase que ele nem sabia o que significava. Mas não importava que fosse tolice, se era reconfortante para ele. Pela primeira vez em muitos anos, Alex deixou a lógica e a razão de lado. Largou a vela em cima da cômoda e ficou olhando pela janela enquanto pensava no passado. Por mais estranho que possa parecer, descobrir que houve algum tipo de razão para ele ser abandonado pelo pai biológico trouxe-lhe um sentimento de satisfação. Mesmo que essa razão fosse uma doença. Se o pai era doente mental, não foi por não amá-lo que ele o abandonou, talvez tenha sido por necessidade ou por loucura mesmo. *** A poucas milhas dali, o detetive Logan Bonmann entrou na sala do Departamento de Homicídios de Broward e encontrou seu parceiro de investigação Robert Palmer, olhando atentamente para as fotos em cima de sua mesa. Bonman era o responsável pelos interrogatórios e Bob Palmer pela equipe de análise da cena. Ao perceber Bonmann chegando, Palmer olhou para ele com ar cansado, sem dizer nada. — Achou alguma coisa, Bob? — perguntou Bonmann. — Tudo indica que foi uma só pessoa. Provavelmente um homem grande, alto e que usava botas masculinas tamanho 12. — 12?

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— Sim. E como foi com o Ortiz? Ele é alto? — Não é.. O tamanho do calçado do assassino descarta o casal Ortiz, eles calçam 8 — disse Bonmann. — Mas não descarta terem sido os mandantes. — É uma possibilidade. Ortiz foi adotado pelos Costa, mas estavam afastados — Mas por que mandariam um Phineas Priest? — perguntou Palmer. — O símbolo na parede pode ser só para despistar… Se bem que Ortiz tem ligações religiosas. — Ligações religiosas? Tipo? — Foi perseguido por fanáticos religiosos porque ele escreveu um livro que eles não gostaram — disse Bonmann — Pode ter sido vingança dos fanáticos, então. — Pode. — Sabe o que é estranho? — perguntou Palmer, para logo continuar: — O suspeito entrou pela porta dos fundos. Tem pegadas da mesma pessoa no sangue molhado e também no sangue coagulado. Tem pegadas das botas nuas, e das botas ensacadas com algum plástico. Ou o assassino ficou a tarde toda na casa ou saiu e voltou. Mas por que voltaria? Enviei as amostras para o laboratório. — Ele levou algo? — questionou Bonmann. — Difícil saber, só que é estranho… Estava tudo revirado, mas as jóias ainda estavam lá. Ele não levou nem jóias, nem dinheiro. Tinha centenas de dólares em cima de uma mesinha da sala. — Mas o cartão de crédito dele foi usado em Daytona, Bob. — É, deve ter levado a carteira do homem. Não achamos nenhuma carteira, documentos ou cartões da vítima do sexo masculino. Da mulher, estava tudo lá. — Amanhã cedo vou pra Daytona Beach ver isso. Mais alguma coisa, Bob? — Não, agora só faltam os resultados de digitais e DNA. Bonmann parou por um minuto, olhou para alguns arquivos e disse: — Ortiz não é adotado formalmente, não seria favorecido por destruir um testamento. Então, não seria o caso de estar procurando o testamento , se ele fosse o mandante.

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— Parece latrocínio, mas não está encaixando o fato de procurarem algo, mas deixarem valores. Terroristas normalmente matam e vão embora, não procuram nada — disse Bob Palmer. — Muito estranho mesmo, procurar e não levar coisas de valor. Ladrão leva até as moedinhas na cozinha. — Pois é. Descobriu algo com os vizinhos além de terem visto a picape branca? — Não muito, ninguém anotou a placa. Um disse ter percebido um adesivo branco com um X preto, como em placas de cruzamentos de trilhos, só que branco ao invés de amarelo — respondeu Bonmann. — Interessante. Adesivo grande? — Do tamanho de um maço de cigarros. — Nunca vi nenhum desses — disse Palmer. — Nem eu… Além dessa testemunha, só teve uma mãe que falou que os filhos disseram ter visto o “Woody da vida real” lá. São duas crianças de 6 e 7 anos. — Woody? — perguntou Palmer franzindo a testa. — É. Woody, o cowboy de Toy Story. — disse Bonmann rindo, como se isso tivesse colocado um pouco de mel na amargura da tragédia que eles estavam investigando. — Crianças! — riu também o outro detetive. — Se não acharmos mais nada, o FBI vai querer assumir o caso como terrorismo. Vou fazer o relatório do dia — disse Bonmann. — Não esquece de avisar o Sargento quando colocar os dados de Ortiz no sistema — lembrou Palmer. — OK.

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CAPÍTULO 15 Capisci? E m seu quarto, Alex lembrou do banho que estava preparando, e correu

para o banheiro. “A banheira deve estar transbordando”, pensou. Não estava. Fechou a torneira, tirou a roupa e entrou no banho. O banho morno deixava Alex meio sonolento, mas ele precisava pensar. Queria aproveitar que lembrava de muitas coisas, todas essas memórias do passado estavam, agora, borbulhando na sua consciência. Lembrou até de quando era ainda muito pequeno e morava no Brasil, especialmente de um domingo de páscoa em que foram levar sua mãe na rodoviária. Foi no dia 26 de março de 1978, mas a data exata ele não tinha como lembrar. O passado agora era como um filme em sua cabeça, que contava a história dele mesmo.

Era fim de tarde de domingo quando dois adultos e uma criança entraram silenciosamente no carro estacionado em frente à Estação Rodoviária de Laguna, Santa Catarina. Ali estavam três gerações da mesma família: Vó Mila, seu filho Giuseppe e o neto Alessandrino. Ieda, a esposa de Giuseppe, acabara de embarcar no ônibus para Criciúma, uma cidade vizinha onde Giuseppe, Ieda e Alessandrino residiam. Vó Mila morava numa cidadezinha distante, no Rio Grande do Sul, mas ia visitá-los todos os verões desde que ficou viúva. Os quatro sempre iam à Laguna, passar uns dias na praia. O pequeno Alessandrino, triste no banco de trás, perguntou a seu pai que ligava o veículo: — Papai, por que mamãe foi embola da plaia? — Mamãe tem que trabalhar, filho, você sabe. Você já tem 5 anos, já é um homenzinho. Você tem que entender. Adultos trabalham. — Tabalo chato. Ela disse que volta… demola muito, papai? — Um pouco, ela volta na sexta-feira. — Sexta-feila é amanhã? A VELA VERMELHA

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— Não… — disse seu pai rindo, olhando para vó Mila no banco do passageiro ao seu lado, que também riu. — Você ainda tem que dormir cinco noites pra chegar na sexta. — Ahhhh… Demola muuuuito! — Verdade, filho. Por que você não come mais chocolate? É Páscoa ainda. Papai deixa você pode comer no carro hoje. — Virou-se para vó Mila e disse: — Mamma, tem chocolate na sacola aí no chão. A senhora pode pegar pra ele? — Claro, filho. — Pegou um ovo de chocolate, desenrolou a fita, abriu o papel e colocou no colo de Alessandrino, que estava sentado atrás do pai. — Sabe o que é ali, mamma? — Perguntou seu pai apontando para uma casa antiga. Sem esperar por ela, ele mesmo respondeu: — A casa de Anita! — Anita Garibaldi? — perguntou vó Mila. — Sim, hoje a casa é um museu. Pena que tá fechado… Ali ela morou antes de Garibaldi levá-la com ele. — Quem é Galibaldi, papai? — Perguntou Alessandrino, já lambuzado de chocolate. — Foi um grande homem, um herói. — Helói que nem supelomem? Os adultos riram. — Sim, filho. Melhor ainda que o Super-Homem. — Pausou por uns instantes, e pediu a vó Mila: — Conta pra ele a história da nossa família, mamma. Ele já tem idade. — Va bene. Você quer ouvir uma história, Nino? — Quelo! — Va bene. — Vó Mila respirou fundo, e começou: — Era uma vez um príncipe de uma terra encantada chamada Toscana. O príncipe vivia feliz naquela terra linda e maravilhosa, mas se sentia sozinho. De vez em quando ele ia visitar seu primo, que era príncipe também e trocavam ideias. — Como tloca ideias? Que nem figulinhas? Eu não tenho plimo. — Trocar ideias quer dizer conversar, Nino. É, você não tem primos. Tem gente que não tem. Mas seu tataravô tinha. — Meu tatalavô é o plíncipe? O que é tatalavô? — É. Tataravô é como se chama o vô da vó, meu avô é seu tataravô. Então, seu tataravô, o príncipe da história, ia sempre visitar o primo. Eles eram

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grandes amigos e gostavam de ajudar as pessoas. Um dia o príncipe se apaixonou… — O plíncipe tatalavô ou o plíncipe plimo? — Interrompeu Alessandrino, antes de dar uma mordida no chocolate. — O plín… O príncipe tataravô. O príncipe tataravô se apaixonou por uma linda mulher, se casou com ela e ficaram muito felizes. — Acabou a histólia? — Não, ela está só começando… Lembra que falei que eles gostavam de ajudar as pessoas? Eles achavam que as pessoas precisavam ser livres e felizes como eles. Mas tinha gente malvada que não queria ver ninguém feliz. Vó Mila olhou para Alessandrino, seus olhos estavam arregalados, ouvindo paralisado com o chocolate derretendo na mão. Então continuou: — Um dia, pessoas boas pediram que o primo guardasse uma caixinha que tinha um segredo que as pessoas malvadas queriam… — Que segledo ela? — Segredo é segredo, Nino! Então… as pessoas malvadas mataram o primo, mas não acharam a caixa. Antes dele morrer, ele deixou a caixa do segredo para entregar para o seu tataravô. Alessandrino não piscava mais e o chocolate continuava derretendo com o calor de sua mão. Vó Mila prosseguiu: — Só que as pessoas malvadas descobriram que estava com ele, então ele teve que fugir pra cá com sua esposa grávida e a caixa do segredo. Aqui ele mudou de nome pra Juan Ortiz, pra ninguém saber que ele era o príncipe. — E como ela o nome dele de verdade? — perguntou o pequeno Alessandrino. — Também é segredo, Nino. Mas um dia você vai saber. — Só tem segledo nessa histólia? Seu pai e sua avó sorriram, e ela concluiu: — Segredos fazem as histórias mais interessantes, você não acha? — Não. — Tá bom… Foi assim que seu tataravô veio da Itália pra cá e a gente tá aqui até hoje. Capisci? — Uhum — disse Alessandrino, balançando a cabeça afirmativamente. — Agora termine de comer seu chocolate, estamos quase chegando.

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— Tô com medo das pessoas malvadas. — Ah, não se preocupe, Nino. Isso já faz muuuuito tempo. Elas já foram embora. — Tá. O menino comeu e se lambuzou muito. Lambeu suas mãos o máximo que pôde e disse: — Cabô. — Já? — perguntou o pai, olhando pelo retrovisor. — Peraí que eu vou parar para limpar suas mãos. Estacionou o carro, ajudou o filho a descer com as mãozinhas para cima, e foram para trás do carro. — Quer ajuda, Gio? — Não mamma, não precisa. Aliás, quero sim. Aí no porta-luvas tem papel higiênico, a senhora pode trazer pra nós? Vó Mila veio com o rolo de papel higiênico enquanto Giuseppe levantou a tampa do porta-malas e pegou uma garrafa térmica. Abriu a garrafa e jogou água nas mãos de Alessandrino, logo após lavou sua boca. Enquanto seu pai o secava com o papel que teimava em grudar pedacinhos na sua pele, Alessandrino olhou para dentro do porta-malas. Ali viu o baú que sempre os acompanhava e perguntou: — Papai, o que tem nessa caixa? Giuseppe imediatamente olhou para vó Mila e tornou para o filho Alessandrino, dizendo: — São livros, objetos e documentos da família, filho. Um dia vão ser seus. Na sexta-feira, sua mãe não chegou na rodoviária como havia combinado. Eles voltaram para Criciúma para encontrá-la, mas descobriram que tinha ocorrido um terrível acidente: O prédio em que moravam tinha explodido na madrugada do dia 29, e virado escombros. Alex nunca mais viu sua mãe, e ele e seu pai foram morar no Rio Grande do Sul com vó Mila. Giuseppe nunca mais foi o mesmo. Alex estava bem relaxado, imerso não somente na água, mas também em seus pensamentos, quando ouviu uma pancada do lado de fora do banheiro. O barulho parecia ter vindo da sala. A adrenalina espalhou-se pelo seu corpo.

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Naquele momento acreditou que corria perigo. Não sabia se chamava Gabby. E se chamasse Gabby e fosse mesmo um bandido? O bandido saberia que ele estava ali. Mas e se o bandido já tivesse pegado Gabby? Achou que seria melhor ir ver em silêncio o que foi aquele barulho. Quando se apoiou para levantar, ouviu a voz chamando: — Allie? Amorzinho? O tom normal da voz indicava estar tudo bem. Pouco tempo depois, a porta do banheiro abriu. Era Gabby. — Oi, Allie. Passei no mercado, vou fazer uma comidinha especial pra nós como prometi — já ia fechando a porta, mas voltou para dizer: — Obrigado por arrumar meu celular. — Tá bom, Gab. Disponha. Alex ficou ali sabendo que teria que contar tudo aquilo que tinha acontecido naquele dia. Mas por onde começaria? “Pobre Gabby, provavelmente o jantar é para comemorar o meu emprego novo… Devo começar pela entrevista que não deu certo, ou pela morte dos meus pais?”, pensou antes de colocar mais água quente na banheira.

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CAPÍTULO 16 In Vino Veritas A lex acordou com a voz de Gabby chamando para jantar. Cochilou no

banho. Saiu da banheira assustado, secou-se e colocou o roupão. Ao sair do quarto, percebeu na penumbra a mesa da sala de jantar posta, com uma chama bruxuleante ao centro. — Jantar à luz de velas! — disse Gabby da cozinha, enquanto carregava uma travessa em direção à mesa. Um pensamento passou pela sua cabeça, mas não podia ser o que ele pensou. Voltou ao quarto, olhou em cima da cômoda… Gelou. Não estava lá. Alex foi novamente para a sala e ficou paralisado, chocado com o que via — a vela de Garibaldi estava queimando! A única coisa que seu pai biológico tinha lhe dado, estava sendo destruída por uma chama alaranjada que produzia uma fumaça negra, e cheiro de óleo queimado. — NÃO! — gritou ele surpreendendo Gabby, enquanto corria desesperado em direção à mesa. Tirou a vela do castiçal e a apagou com seu sopro. Pingos de cera vermelha caíram no tapete, como se fossem gotas de sangue. A vela sangrava, como o coração de Alex naquele momento. Gabby estava ali sem entender o que estava acontecendo e imediatamente perguntou: — Que foi isso, Allie? Você está me assustando! — É a vela de Garibaldi! — disse ele um pouco alterado, segurando a vela queimada com carinho, enquanto lágrimas corriam em seus olhos. Gabby não sabia o que fazer, se saía de perto ou se abraçava o marido. Preferiu abraçá-lo por trás, colocando seu queixo no ombro dele. — Calma, Allie. Tá tudo bem. Ele não falou nada, ficou ali abraçando a vela como se fosse um bebê. Gabby continuou: — Desculpa, eu não sabia que essa vela era assim tão importante pra você. Na hora que vi em cima da cômoda, pensei que você queria um jantar A VELA VERMELHA

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romântico, à luz de velas. Desculpe, não pensei direito. Eu acho. Alex não falava, só sentia o calor do corpo de Gabby em suas costas. E assim ficaram os dois por alguns minutos, em pé, na penumbra, no meio da sala, até que ele finalmente falou, mais calmo: — Tudo bem, Gab. Tenho que falar com você — pegou Gabby pela mão e foram até o sofá, onde sentaram lado a lado. Sua cabeça doía, mas não queria demonstrar. Largou a vela na mesa de centro e continuou. — Eu tenho tanta coisa para lhe contar… Não sei por onde começar. — Quer que eu pegue um vinho para você relaxar, Allie? Você está nervoso. Nunca vi você desse jeito antes. — Tá. — Quer que eu aumente a luz? — Não. Gabby foi na cozinha, voltou com duas taças e uma garrafa de Cabernet Sauvignon. Viu a vela na mesa de centro e provavelmente ficou com receio de colocar a garrafa perto dela. Preferiu a mesa lateral. Serviu as duas taças, entregou uma delas ao marido, e se sentou ao seu lado. Ele então falou: — Me desculpe, Gab. Tô bem nervoso mesmo, mas não é culpa sua. Aconteceu muita coisa ruim hoje, aí, quando eu vi a vela queimando… Gabby só ouvia em silêncio, com ar de estranheza e compaixão. — É que esta vela foi a única coisa que meu pai me deu. — Como assim, única coisa? — Meu pai biológico. Você sabe que fui adotado quando criança. Nunca lhe contei muito sobre ele porque eu queria que ele ficasse no passado. Ele me deu essa vela… Nunca lhe falei sobre ela porque achei que se eu falasse você ia achar que eu sou doido, como tá achando agora. — Não acho que você seja doido, amor. Uma vez você me disse que ele havia lhe dado aquele quadro, mas dessa vela nunca falou mesmo. — É, tem o quadro brega da Mona Lisa. Uma reprodução de Da Vinci e uma vela, foi o que ele me deixou. Alex parou de falar para tomar mais vinho e pensar. Tinha que organizar os pensamentos. Era muita coisa que teria de contar. Gabby não disse mais nada, só olhava, esperando as explicações para aquele surto. Ele prosseguiu:

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— Hoje aconteceram muitas coisas… Uma delas foi que não fui contratado pela FAU. — Ah, sinto muito, Allie! — disse Gabby, abraçando Alex por um momento. Talvez achando que aquele era o motivo de tanto nervosismo. — Tá tudo bem, você vai ter um emprego melhor, se Deus quiser. Alex estava se controlando para que Gabby não sofresse mais do que o necessário, aquele ataque que ele teve ao ver a vela queimando já tinha sido demais. Então achou que era melhor ir direto ao assunto, como fez Muratore. — Agora o pior: meus pais morreram. — Seus pais biológicos? — Não, o pai e a mãe. Enzo e Lana. Gabby levou um susto. — Como assim Lana morreu? Enzo e Lana? Como assim? Foi um acidente? Alex preferiu não contar detalhes para não assustar Gabby, mas ainda teria que ver como falaria a parte de ter que sair da cidade… Por isso tomava mais vinho, para criar coragem. A penumbra ajudava. E a dor na cabeça ia passando com o vinho. — Aconteceu ontem. Os dois morreram. Havia um pouco de surpresa no rosto de Gabby pela naturalidade com que Alex estava falando aquilo. Talvez por isso não tenha dito nada, só abraçou o marido para confortá-lo. — Tá tranquilo, Gab. Foi um dia longo, já tô aceitando a situação. Ainda te devo uma explicação sobre a vela — Alex tentava acalmar e se recompor. — Tá tudo bem, cariño. Não precisa. — Não, precisa sim. Eu preciso te contar. Lembrei de muitas coisas hoje que eu não lembrava há muito tempo. Na verdade, antes eu nem queria lembrar dessas coisas. Gabby não falou nada, nem se mexeu, além de colocar a mão na perna de Alex. Olhava para ele com enternecimento, confusão e curiosidade. — Cheguei a uma conclusão. Meu pai biológico ficou louco, por isso me abandonou. — Como assim? — perguntou Gabby.

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— Ele me deu essa vela, dizia que foi feita pelo próprio Giuseppe Garibaldi. — Garibaldi, o herói italiano? — É. Imagina só… O grande Giuseppe Garibaldi, o Herói de Dois Mundos, fabricando velas. Acho que ele devia ter coisa melhor para fazer, tipo… lutar guerras! Dã! Alex olhou com expressão séria, percebeu o absurdo que seria um herói fazendo velas, e sorriu da insensatez, logo sendo seguido por Gabby. Com toda a desgraça que aconteceu, sorrir era uma coisa estranha naquela hora, mas Gabby fazia tão bem a ele, que lhe permitia sorrir na tragédia. Alex continuou: — Olhe a situação e veja se não é loucura: Meu pai me mandou embora com estranhos e tudo que me deu foi uma cópia da Mona Lisa e uma vela velha — deu um gole de vinho. — E tem mais. — Mais? — Acho que minha vó, mãe dele, também não era muito certa da cabeça. Ela contava a tal história da vela. Mas como eu era criança, eu acreditava que toda aquela fantasia era normal. Hoje eu enxergo tudo com clareza. Eu acho que eles ficaram assim porque minha mãe morreu quando eu ainda morava no Brasil. Minha mãe biológica. Eu achei que ela tinha só ido viajar, mas agora acho que ela morreu em um acidente. Quer dizer, eu acho que foi um acidente. Eu acreditei no que eles me disseram, que minha mãe foi viajar pra longe. Só que ela nunca voltou dessa viagem! Hoje eu sei que foi aquele dia que a gente voltou da praia depois da Páscoa: eu, meu pai e a vó Mila chegamos em frente ao nosso prédio, e não tinha mais prédio. — Como assim, não tinha mais prédio? — Eu era pequeno. Só lembro de um monte de entulho onde era a nossa casa. Não tinha mais prédio. Acho que desmoronou, mas na época não entendi aquilo… Perdi todos os meus brinquedos… Criciúma! — Que? — Criciúma era o nome da cidade onde a gente morava. Quando isso aconteceu, mudamos para um lugar mais frio, aí o nome da cidade era Santiago. Dessa eu lembro mais. — Santiago no Chile?

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— Não, Santiago era uma cidade no sul do Brasil com o mesmo nome. Acho que ainda existe. Alex continuava espantado de poder lembrar dessas coisas em que não pensava há anos. Então continuou: — Lembro da história que vó Mila me contava, agora posso julgar com um olhar adulto. Quer que te conte? — Quero sim! Espera só um minutinho que vou buscar outro vinho — respondeu Gabby, sem lembrar que a comida estava esfriando na mesa. Não tinham fome naquele momento. — Tá. Gabby voltou após alguns minutos. — Não tinha outro Cabernet, pode ser Merlot? — Claro, amor. Gabby troca as taças, serve, e senta para ouvir o marido: — Então… Vó Mila, mãe do meu pai biológico… — Como era o nome dele? — Giuseppe. — Igual ao herói? — É, igual. Mas lembro que vó Mila chamava ele de Gio. — Tá, continua. — Então. Minha vó Mila contava que o avô dela teve que fugir para a América do Sul com a esposa que estava grávida. Chegando lá, para não ser encontrado, mudou o nome para Juan Ortiz, e por isso somos italianos com sobrenome espanhol. — Que interessante. Esse era seu… bisavô? Não, bisavô do seu pai, seu tataravô. Mas como era o nome dele antes? — Não sei, ela nunca me falou. Dizia que era segredo. E ela me disse que essa vela — apontando para a mesa de centro, que agora tinha também uma garrafa de Merlot sobre ela — estava na família desde Juan Ortiz. Ela me contava uma história que eu acreditava que era verdade, mas eu também acreditava em Papai Noel na época… Talvez ela tenha inventado essa história para apaziguar a loucura de meu pai, com pena do filho dela? Você sabe que ele tinha uma caixa que ele carregava prá lá e prá cá no carro, do carro prá casa, da casa, pro carro? Aonde a gente ia, ele levava aquela caixa pra ler o que

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tinha dentro. Ficava horas lendo aqueles papéis. Era doidinho, tadinho. Hoje eu sei. Alex pensou em contar sobre a frase que o pai biológico mandava ele ficar repetindo ad nauseam em voz alta, e às vezes até mandava ele escrever a sentença repetidamente no caderno como se fosse um castigo. Em algumas ocasiões, Alex tinha que codificar ou decodificar coisas que o pai escrevia, o que era divertido, mas talvez fosse melhor também não contar. Pelo menos não naquele momento. Seu pai dizia que um dia ele iria precisar dessas coisas, então de vez em quando o pai olhava para ele e falava Jesus, Alex tinha que responder de Galilée, ao que o pai dizia nest, e Alex tinha que responder point icy. Seria loucura demais contar isso, nem mesmo Gabby entenderia essa insanidade. Enquanto Alex pensava, Gabby pediu com curiosidade: — Conta a história da vela! Os dois já estavam relaxados pelo vinho, havia uma sensação boa. Alex estava se sentindo melhor, e falou: — A Bíblia tá certa quando manda beber pra esquecer a amargura. — Quê? Não tem isso na Bíblia! Alex pega o celular e procura algo. Quando acha, lê em voz alta: — Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito. Que beba, e esqueça da sua pobreza, e da sua miséria não se lembre mais. Tá aqui em Provérbios 31, olha. — Não é que tá mesmo? Tá, agora conta a história da vela. — Era assim: o avô dela… — Seu tataravô. — É. Deixa eu terminar. — Tá. — O avô dela… Meu tataravô… deixa eu dizer avô dela que fica mais fácil prá mim, é do jeito que ela contava. — O nome dele não era Juan Ortiz? Fala o nome dele — disse Gabby. — Tá. Quando um primo do Juan Ortiz, morreu na Europa, ele entregou pra ele uma coisa… — Alex foi novamente interrompido. — Mas se o primo tava morto, como ele entregou a coisa? Que coisa era? Era a vela?

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— Pois é, né. Não, não era a vela. Era uma caixinha de ouro com segredos dentro. Acho que o primo pediu pra alguém entregar se ele morresse. Sim, era assim que ela contava. Alguém entregou a Juan Ortiz depois que o primo morreu. Então… O avô dela foi perseguido, fugiu da Itália e foi para o Uruguai, porque faltava uma pecinha dentro da caixa e ele achava que essa pecinha tava lá. — No Uruguai? — É. Não me pergunte por quê. Chegando lá, ele não achou a tal pecinha que faltava, mas encontrou um baú com documentos antigos e nesse baú tinha uma vela… — A vela de Garibaldi! — Sim, Gab. A vela de Garibaldi. Garibaldi levou algo de dentro do baú, e deixou uma vela no lugar. — Garibaldi levou a pecinha que faltava na caixa? Será que era um quebracabeças? — Não sei, Gab, É tudo maluquice. — Que história legal. Legal mas estranha. E que houve com a caixa de ouro, a caixa do segredo? — Não faço ideia, Gab. Só sei que eu gostava quando a vó Mila me contava essa história. Aí ela pedia pro papai mostrar a vela e ele sempre mostrava, feliz. Quando eu via a vela vermelha nas mãos de meu pai, eu achava que aquilo tudo era verdade. Ele tinha orgulho da vela, mostrava pra todo mundo. Mas não deixava ninguém tocar nela, muito menos eu que era pequeno. Dizia que o pessoal do museu queria a vela, mas devia ser coisa da cabeça dele. — Então ele deu pra você uma coisa que era muito importante pra ele, Al. A vela faz você lembrar deles, né? E agora eu queimei ela… — É, mas tudo bem. Que saber de uma coisa? Vamos jantar! Alex levantou sem nem lembrar que sua cabeça estava dolorida há pouco tempo atrás. Agora não doía mais. Pegou a vela de Garibaldi da mesa de centro e foi em direção à mesa de jantar. Colocou-a no castiçal, e a acendeu. — Amor, o que você tá fazendo? — Perguntou Gabby, ainda no sofá, com os olhos arregalados. — Isso tudo é passado, é só bobagem. Eu sou um homem adulto. Esta vela vai queimar e vai ser só mais uma parte do meu passado. Vamos aproveitar o

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jantar que você planejou, meu amor. Vamos viver o presente, que é eu e você. Como dizia meu pai… meu pai Enzo, o ontem é história, o amanhã é um mistério, mas o hoje é uma dádiva e por isso se chama presente. — Que lindo isso, amor! — É do desenho do Kung Fu Panda. Fui descobrir depois, mas a frase é boa mesmo assim. — Sério? — É, ele adora desenho animado. Adorava. — Tem certeza que quer queimar a vela? Não é por causa do vinho, e amanhã você vai se arrepender? — In vino veritas! No vinho, a verdade! — Então, tá! Vou esquentar a comida. — Tá.

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CAPÍTULO 17 A Descoberta S entados à mesa, sob a luz da vela vermelha de Garibaldi, Alex e Gabby

não conversaram muito enquanto comeram o gnocchi al quattro formaggi e beberam o merlot, cuja garrafa estava levando mais tempo para ser consumida do que a primeira — aquela de cabernet, que ainda estava na mesinha lateral. A vela queimou por mais alguns minutos e apagou sozinha. Como não era a fonte principal de iluminação do ambiente, preferiram terminar a refeição assim mesmo, sem ela. Eles logo descobririam que a vela, como o passado, não queria ser queimada. Terminaram a refeição e o vinho em suas taças. Ainda restava metade do líquido na garrafa. Enquanto Gabby se levantou, pegou os pratos e se dirigiu à cozinha, Alex se ofereceu: — Eu ajudo, amor. Deixa que eu lavo a louça -- disse, ao aumentar o brilho da iluminação ambiente. — Vou colocar a louça na máquina — disse Gabby. Alex tirou a mesa, deixando só a vela ao centro. Quando foi tirar o castiçal para colocá-lo ao lado da Bíblia de Gabby, no bombay que às vezes usavam como aparador, notou uma coisa estranha no topo da vela. Levantou seus óculos para enxergar melhor. Ele via melhor de perto, sem óculos, coisa de míope. Olhando bem no topo da vela, onde deveria estar o pavio, tinha um pedaço de metal. “Que estranho”, pensou. Descascou um pouco com a unha, mas pedaços de cera ou de parafina ou de seja lá o que aquele material vermelho era, caíram no chão. Ele colheu os farelos vermelhos do chão, foi para a cozinha, e descascou a vela com uma faca em cima do balde de lixo, ao que Gabby estranhou e perguntou: — O que tá fazendo, Allie? — Tem um negócio dentro da vela, quero ver o que é.

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Foi retirando o material vermelho e algo como um tubo de metal foi surgindo, até sair totalmente. Era um cano de metal prateado, de uns 10 centímetros de comprimento. Olhou para Gabby que colocava os restos de comida em um saco plástico e chamou: — Olha, Gab. — Que é isso? — Não sei, tava dentro da vela. — Que esquisito. Vai ver era assim que faziam velas antigamente. Esse canudo deve ser pra ela ficar em pé. — Acho que não. Já vi um canudo assim antes. — Em outra vela? — Não. Alex olhou as extremidades, elas tinham algo que pareciam rolhas, mas eram de madeira, como cunhas cilíndricas, alguns milímetros para fora do tubo. Talvez cinco milímetros. Continuou falando, enquanto observava o pequeno cano: — Isto é de prata, parece um pedaço de uma bomba de chimarrão. — Chimarrao? — perguntou Gabby sem conseguir reproduzir o fonema ã. — Que é isso? — É uma bebida do sul do Brasil, lembro que todo mundo tomava isso lá. É tipo um chá quente que serve em um caneco arredondado e chupa com um canudo de metal, que eles chamavam de bomba. É bem amargo, por isso a vó Mila colocava açúcar quando fazia pra mim. — Nunca vi — disse Gabby. — O caneco tinha um nome… puia, luia… algo assim. É coisa deles, do Rio Grande. Tipo tradição de gaúchos. — Eu já ouvi falar de gaúchos, aqueles cowboys da Argentina que vestem cobertor e calças estranhas. — Cobertor, Gab? Ah, é o que eles chamam de pala ou poncho. Sim, tem gaúchos na Argentina, mas tem deles no sul do Brasil também — disse Alex, ainda espantado com sua capacidade de lembrar dessas coisas. — Pra mim é um cobertor com buraco no meio. Mas é bem prático… — Lembrei! Cuia! Cuia era o nome do tal caneco de chimarrão lá no Rio Grande! — Alex interrompeu Gabby, que perguntou:

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— Mas Rio Grande não é na fronteira do México? — Esse não, esse é um estado do Brasil, assim como aqui tem Flórida, Geórgia, Califórnia. Na verdade, o nome do estado completo é Rio Grande do Sul. — Entendi. — Então — mostrou o tubo para Gabby —, isto é um pedaço de bomba, aquele canudo de metal do chimarrão. — Mas então porque tava dentro de uma vela? — Eu não sei, mas acho que dá para abrir… Vou tirar esses trequinhos. Alex deu o canudo para Gabby segurar, enquanto foi buscar um alicate no closet. Viu a bagunça que tinha deixado lá antes, mas achou melhor arrumar depois para não perder tempo. Estava intrigado com o caninho, e estava decidido a abri-lo. Voltou, arrastou um dos bancos para o lado e se apoiou no balcão em que tomavam café da manhã, entre a cozinha e a sala. Olhou para Gabby, que prontamente lhe entregou o tubo sem dizer nada. Era como se ele fosse fazer uma cirurgia no tubinho. Apertou a ponta de madeira com o alicate, e tentou girar enquanto puxava para fora. A rolha de madeira nem se mexeu. Tentou do outro lado, mas foi a mesma coisa. Estavam presas. — E agora? — questionou Alex, ao que Gabby respondeu: — Devem estar há muito tempo aí… Então grudou. Você acha que tem mesmo alguma coisa dentro? — Não sei, não custa ver. — Tá custando. — Verdade. Alguma ideia? — perguntou Alex. — Se prender uma das pontas em uma gaveta? Aí dava pra puxar na outra ponta com as duas mãos. — Uma gaveta? Gaveta acho que não, ia estragar o móvel… Já sei! Pega um pano, por favor. E o isqueiro… Pega ali na gaveta pra mim. Você já abriu vinho sem saca-rolhas? — Não. Só champagne — disse Gabby enquanto pegava as coisas que Alex pediu.

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— Eu já abri, na faculdade. — Alex pegou o pano, enrolou na parte de baixo do tubo e apertou com o alicate a rolha de madeira do outro lado. Então disse a Gabby: — Acenda o isqueiro e coloque a chama perto da rolha. — Tem certeza, Al? — Sim… Não. Não sei. Faz assim, então: acende o isqueiro e fica segurando, que eu faço o resto. Alex segurava uma ponta do canudo de metal com um pano, para não se queimar e colocava o tubo acima da chama do isqueiro. Forçou para fora a rolha com o alicate, até que fez um ploc quase inaudível e… voilà. Abriu. Alex largou o alicate, tirou os óculos e olhou dentro, ainda segurando com o pano, pois a peça de metal devia estar quente. Ajeitou a ponta aberta do tubo para a luz, tentando ver melhor, desviou os olhos arregalados para Gabby e falou: — Tem algo dentro. — Tem? — Gabby perguntou com surpresa, se aproximando mais. Alex virou para baixo a ponta aberta, fazendo três movimentos como se estivesse martelando o ar, mas não saiu nada de dentro. Então pediu: — Amor, pega uma pinça lá no banheiro, por favor? Gabby trouxe a ferramenta, Alex a pegou e inseriu com cuidado tentando puxar algo, mas tremia muito. — Faz você — disse ele. — Não tô conseguindo. Gabby tinha as mãos firmes. Puxou até sair um pedacinho de algo preto e amarelado. — Parece papel — sussurrou Alex, como que para não assustar o objeto. — Parece. — Gabby puxou um pouco mais, até que pudesse segurar a pontinha com os dedos. Então seguiu tracionando, cautelosamente trazendo para fora aquele pedaço de papel antigo com as bordas escuras e fragilizadas. Aparentava ser espesso, mesmo assim parecia ter medo de que se rasgasse, ao puxá-lo para fora. O papel foi saindo como um lenço de papel sai da caixa, mas vagarosamente. Alex se sentiu como Indiana Jones, ou melhor, como um arqueologista vendo um dos manuscritos ser removido de dentro de um jarro histórico. Em um breve futuro, ele viria a descobrir que aquele pequeno pedaço de papel velho poderia ser tão importante quanto os manuscritos do Mar Morto

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ou de Nag Hammadi. Gabby tirou o papel e o entregou a Alex que o desenrolou com os olhos curiosos. Ambos ficaram mais surpresos ainda ao verem aqueles caracteres estranhos escritos, quase como hieróglifos ou hebraico, quem sabe? Não, não eram hieróglifos, nem era hebraico.

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CAPÍTULO 18 A Mensagem A lex e Gabby continuavam debruçados no balcão, observando o velho

pedaço de papel, como se fosse um bebê recém nascido. O olhar era de admiração e espanto em direção àquele pequeno documento que teimava em se enrolar sozinho.

Mantiveram-se por alguns segundos naquele estado quase letárgico, até Gabby falar primeiro: — Meu Deus! Está assinada por Garibaldi! Então a vela foi mesmo feita por Garibaldi? Mas que língua estranha é essa? Será que é alienígena? Parece umas letras do OVNI que caiu na área 51, vi no Discovery Channel. Será que Garibaldi tinha contato com ETs? Alex ficou mais uns instantes em silêncio, para depois responder: — Isso não é língua. É algum tipo de código. E tem uma coisa que eu acho que sei o que é. Já vi antes. — O que, Al? — Estes três pontinhos na assinatura e aqui no meio também.

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— E o que é isso? — Tem a ver com Maçonaria, meu pai assinava com esses três pontinhos. — Seu pai, Enzo? — Os dois. — Eles eram maçons? — Sim. — Como você sabe? Não é segredo? — Meu pai não escondia que era maçom, tinha aqueles símbolos em casa e saía para as reuniões deles, acho que uma vez por mês. Meu pai Enzo. O outro também tinha daqueles G no esquadro e compasso. Eu perguntei uma vez se era G de Giuseppe, aí ele riu. Engraçado como tô lembrando dessas coisas… Agora lembrei que fui uma vez lá na Loja onde eles fazem as reuniões e participei de uma cerimônia para crianças, tipo um batismo… Enzo era meu padrinho. — Padrinho? — É. Não me pergunte como lembro, nem o que era aquilo. Eu não sei. Eu só lembro que no meio da cerimônia tinha um tal de Livro da Lei. Era um livro preto grosso em cima de um altar, no meio da sala. Eu achei que aquele era algum livro secreto dos maçons, que tinha muitos segredos escritos nele… Aí perguntei pro meu pai Gio que livro era aquele e ele me respondeu que era uma Bíblia comum. Fiquei decepcionado. — Tem Bíblia na Maçonaria, Al? — Tem, bem no meio da sala que eles se reúnem. Igualzinha a essa que você tem no no bombay. — Eu nunca imaginaria isso… — Nem eu. Eu lembro que pensei na época que era um livro mágico tipo o da Feiticeira. — Feiticeira? — É, uma série de TV antiga. Não é do seu tempo. Mas pensa no livro do filme Abracadabra, então… Mas não era nada emocionante como isso, o livro era só uma Bíblia. Decepcionante para a imaginação fértil de uma criança. — Abracadabra eu conheço. Adoro esse filme. É com a Sarah Jessica Parker e aquela outra bruxa dentuça. — Bette Midler. Ela é cantora.

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— Sério, Al? — É, e das boas. — Deve ser do seu tempo então, porque eu nunca vi ela cantando. — Ela canta nesse filme. — Ah, é mesmo. Ambos conversavam, mas sempre olhando para o papel antigo que saiu do tubo metálico. Gabby perguntou: — O que você vai fazer com esse rolinho? Levar pra um museu? — Acho que não, né. Quero descobrir o que diz e eu pensei numa coisa. — O quê? — Eu conheci um advogado hoje que é maçom; era amigo do meu pai. Do meu pai Enzo. — Advogado? — É. Ele me chamou pra me contar o que tinha acontecido e… Gab, tenho que te contar uma coisa. — Que foi, Allie? — Gabby mostrou preocupação em sua voz. — Ele disse que o Enzo quer que eu saia da cidade. — Como assim, Al? — Eles deixaram um tipo de um testamento com esse advogado, mas só vou receber se sair da cidade até quarta-feira. — Quarta agora? — É. Enzo tinha medo que eu corresse perigo… — Como assim, corresse perigo? O que tá acontecendo, Allie? — Eu acho que foram aqueles malucos… — Alex não completou sua frase, achou melhor não dizer que seus pais foram pelos fanáticos que lhe perseguiram no ano anterior. Não queria preocupar-lhe demais. Então, para remendar, falou: — Acho que meus pais eram meio malucos. Não esquenta, é coisa de Enzo, sabe como ele era… Bem… Tem uma herança e eu tenho que sair da cidade para poder receber. Então, o que você acha de tirarmos umas férias em Key West? Vamos amanhã? — Amanhã, já? Que estranho isso… Mas e a boutique? — Você vai lá amanhã e dispensa as meninas. Diz que é por causa da pandemia. Aí a gente viaja à tarde. — Tá bom. Tem certeza que você tá bem pra viajar, Allie?

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— Tô sim. Alex notou que mesmo com a recente morte dos pais, ele estava agindo com uma naturalidade que até ele achava esquisito. — E o papelzinho? O que tem esse advogado a ver com o papelzinho? — perguntou Gabby. — Ah, é. Vou ligar pra ele. — Você vai ligar a esta hora? Tá tarde, amorzinho — disse Gabby. — Não é tarde, é só nove e meia. E ele disse que eu posso ligar a hora que eu quiser… Vou pegar o telefone dele no carro. Alex se vestiu, pegou a chave, colocou no bolso, mas logo lembrou do que tinha acontecido quando voltava da entrevista em Boca Raton e falou: — Eu tenho o número dele no meu celular. Ele me ligou hoje. Não fosse pelo vinho que tinha tomado, Alex nunca importunaria uma pessoa àquela hora. Não demorou muito para alguém atender. — Senhor Muratore, desculpe o horário. — Tudo bem, Sr. Ortiz. Ainda estou no escritório, trabalhando. Com essa pandemia vindo, preciso terminar um trabalho por aqui. Mas pode falar. — O senhor pode me chamar de Alex… Eu queria lhe perguntar uma coisa. O senhor me disse que é maçom… — Correto. — Eu encontrei uma nota antiga aqui… ou um bilhete… assinado por Giuseppe Garibaldi. — Sim? Na internet? — Não, não foi na internet. Tenho o papel, mesmo. Original, eu acho. Tem uns desenhos estranhos, tipo uns hieróglifos, mas como se fossem uns quadradinhos. — Que interessante. São como quadradinhos e triângulos incompletos, alguns com pontos no centro? — Isso mesmo! — respondeu Alex, surpreso. — E está assinado por Giuseppe Garibaldi? — Bem, aqui diz G. Garibaldi com três pontinhos. — Muito interessante mesmo, gostaria muito de ver esse papel. Pena que a pandemia está chegando, e provavelmente teremos que fazer lockdown em breve. Acho que só vou poder ver depois que passar esta crise.

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— Eu posso levar aí agora. Também gostaria de saber o que está escrito. — Agora? — perguntou Muratore. — Sim, pra mim não tem problema. Se não for lhe atrapalhar. Estou a cerca de 10 minutos do seu escritório. — Não vai atrapalhar. Estou terminando aqui, se você não se importar de esperar uns cinco minutos, caso eu atrase um pouco… — Não me importo. Estou a caminho. Alex desligou, e Gabby perguntou: — Você vai agora, Allie? — Sim, preciso saber o que é isto aqui. Posso pegar seu livro emprestado pra eu colocar o papel dentro pra desenrolar? Alex falou, referindo-se ao livro que Gabby deixou no balcão com a chave de seu carro ao chegar do trabalho, no que foi respondido: — Pode, não tô com cabeça pra poesia mesmo. Mas traz de volta direitinho, que tenho que devolver no final de semana. Será que até lá a gente já voltou de Key West? — Acho que sim. Qualquer coisa você envia pelo correio. — Tá. Allie… Chama um Uber, você bebeu. — Verdade. Vou chamar. *** No posto de gasolina Sunoco na saída 298 da rodovia I-95 entre Saint Augustine e Palm Coast, a atendente da loja de conveniência Food Mart olhou para o cartão de crédito por alguns segundos, talvez tentando entender como um homem tão grande como aquele poderia ter um nome feminino como Leslie. Leslie H. Woods dizia o cartão. Pediu a carteira de identidade, o homem prontamente a apresentou. Ele já estava acostumado com esse tipo de coisa. Cada vez que isso acontecia, ele lembrava de pedir ao banco um cartão desses novos, com PIN ao invés de assinatura. Dinheiro vivo não era uma opção, pois ele não carregava cash desde o dia em que levou para casa os malditos 5 dólares. Tinha 6 anos, e não poder carregar dinheiro foi um problema na época, porque sem cash não podia comprar lanche na cantina da escola. Tinha que levar merenda de casa.

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A mulher olhou a foto, confirmou que Leslie era mesmo aquele homem, e devolveu sua identificação. Seguiu em frente com a transação, que incluía gasolina, três cheeseburguers e um six-pack de cerveja Corona. O homem, então, quebrou o silêncio daquela noite monótona de segunda-feira, falando com a voz mais grave que ele conseguiu entonar: — Pode me chamar de Bubba. — Ele não gostava do seu nome, mas gostava desse apelido que ganhou de seu irmão Jake quando criança. A atendente de caixa, mantendo a expressão apática, não falou nada enquanto ele assinava o recibo. Devolveu o cartão de crédito e ficou olhando o homem sair com a cerveja em direção à bomba 3, onde sua F-150 branca estava estacionada e aguardando para ser abastecida. Bubba colocou a mangueira no tanque de combustível, entrou na picape para comer os cheeseburguers e tomar uma cerveja enquanto esperava. Seu telefone tocou; era Big Ray perguntando: — Você tá onde? — Já tô perto de Daytona, o avião chegou mais cedo. Lá pelas dez e meia chego lá pela Unidade — falou Bubba, mastigando. — OK, mudança de planos… — De novo? — Bubba interrompeu Big Ray, quase engasgando com o segundo cheeseburguer. — É. Dominus quer que você volte pra Broward, já vai ter dois Indomitables esperando você por lá, foram de moto. Deixa a picape branca na Unidade, e vai em um dos carros deles. — Pra que tenho que ir de novo? — Ele descobriu que os beaners tem um filho, me passou o endereço dele e quer que você vá até lá, ver se a tal vela tá lá. O nome do cara é Alessandrino Ortiz. Sejam discretos, a polícia pode estar lá por perto. — Eu posso fazer isso sozinho, não preciso desses boiolas pra me ajudarem — disse Bubba, mordendo o terceiro burguer como um leão morde uma gazela, seguido por goles de cerveja gelada. — Não perguntei. Você vai com eles e isso é uma ordem. — Tá bom. Positivo, senhor — disse de boca cheia. Mastigou e engoliu o último pedaço do terceiro cheeseburguer. — Pode mandar o endereço e manda o

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nome do cabeça-de-taco também, porque eu não entendi direito… Andrino, Marino… Or-quiz, Or-biz? — Não se preocupe, vou te passar por mensagem, junto com o número do celular do Zero-Cinco e do Zero-Nove que já tão chegando lá. Você vai ser o chefe deles nessa missão. — Não gosto desse Zero-Nove, esse cara não é gente boa — disse Bubba. — E EU TE PERGUNTEI? VOCÊ NÃO VAI CASAR COM ELE, É SÓ UMA PORRA DE UMA MISSÃO, CACETE! — Positiv… — Bubba não terminou a palavra, e Big Ray já tinha desligado. Abriu outra Corona com o canivete deixado na picape e a bebeu de um só golpe, antes de tirar a mangueira da bomba de combustível. Olhou a garrafa com calma antes de jogar na lixeira, e pensou “Corona… será que é essa porra que tá deixando gente doente?” Em poucos segundos estava na rodovia I-95, em direção ao sul novamente.

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CAPÍTULO 19 Python L á estava Alex novamente no requintado escritório de advocacia, na

mesma sala sem janelas, em frente à imponente mesa de madeira de lei entalhada, atrás da qual Muratore mexia em dois laptops e aparentemente também em um computador de mesa. “Advogados realmente são pessoas muito ocupadas”, pensou. Segurando o livro de poesias de Gabby, olhou novamente para a bandeira da Itália ao lado da bandeira americana e lembrou que todo 4 de julho Enzo comemorava o Dia da Independência e o aniversário de Giuseppe Garibaldi. Era uma coincidência interessante Garibaldi ter nascido no mesmo dia da Independência americana. Desviou seu olhar para mais uma vez admirar os giclées. Não, as pinturas não eram giclées — tendo prestado mais atenção, Alex percebeu que se tratavam de obras de arte originais. Ou, pelo menos, pareciam originais para ele, pois apresentavam riscos de pincel. Mas lembrou que a cópia da Mona Lisa na casa dos pais dele também apresentava alto relevo, então já não tinha cem por cento de certeza de que aquelas não seriam também reproduções. “Hoje em dia é difícil saber o que é verdadeiro e o que é falso. Gabby saberia se são pinturas originais”, pensou. Muratore parou o que estava fazendo e se virou para Alex, falando: — Então, sr. Ortiz… — Me chame de Alex, Sr. Muratore. — Sim, claro. Alex. Então também me chame de Frank — disse com um leve sorriso. — O que você disse que tinha encontrado, mesmo? Alex tirou o pedaço de papel antigo de dentro do livro, e o entregou a Muratore antes de se levantar para observar melhor o que o homem faria. O papelzinho já não se enrolava sozinho tão facilmente. Muratore observou a nota por vários segundos, olhou contra a luz, e tornou a colocar em cima do risque-rabisque que tinha sobre a mesa. Então falou, após aquele silêncio angustiante:

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— Isto é muito impressionante, parece mesmo ser uma mensagem cifrada do próprio general Garibaldi! — E o que é essa cifra? — Uma antiga cifra maçônica do Rito Escocês a que Garibaldi pertencia. Como sabia que Garibaldi era italiano, Alex não entendeu muito bem a parte que ele falou que o general pertencia a algo escocês, porém ficou mais surpreso em descobrir a resposta para o que ele perguntou a seguir buscando confirmação: — Garibaldi era maçom? — Sim, foi um grande Irmão maçom, Grão Mestre. Ganhou o título de Primeiro Maçom da Itália, reuniu os Ritos de Memphis e Misraïm e se tornou o Grande Hierofante de ambos. E sabe o que mais ele fez? Alex não entendeu noventa por cento do que Muratore falara, mas compreendeu que Garibaldi havia sido um maçom importante. Sentou-se novamente e se resumiu a perguntar: — O que ele fez? — Unificou a Itália através da Maçonaria! Ele uniu os maçons italianos e as Lojas Maçônicas. Todos trabalharam juntos e assim ele conseguiu consolidar a nossa bella Itália como ela é hoje. Amanhã, 17 de março, comemoramos os 159 anos da unificação. — Wow! — disse Alex enquanto aguardava Frank continuar. — Pois bem, de volta à sua mensagem… — Isso é uma mensagem? Você consegue ler? — Ler fluentemente não, embora eu lembre de algumas letras. Já faz muito tempo que não vejo uma dessas, mas um maçom sempre tem boa memória. É questão de alguns minutos para eu recordar as letras, aí vai ser fácil como Python. Alex, um tanto confuso, pensou ”que python? Monty Python? Não, provavelmente ele está se referindo à Píton, a serpente que Apolo matou. Ou seria uma referência a ouroboros? Sim, claro! Ouroboros, o símbolo do infinito, da recriação, a serpente mordendo a cauda. Foi isso que ele quis dizer, que vai ser fácil de interpretar como o símbolo do ouroboros. Deve ser algum código de maçom.”

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Muratore pegou uma folha de papel em branco, fez uns riscos como se estivesse jogando o jogo da velha, e falou: — Ok, vou traduzir. Alex fez menção a se levantar para ver a decodificação em andamento, mas Muratore levantou a mão com a caneta e o advertiu: — Não! Por favor, permaneça sentado. Nós temos um problema. — Um problema? — perguntou Alex, confuso. — Sim, eu vou ter que decodificar letra por letra, e isso desvendaria o nosso código Maçom. — E? — Você é profano, ou seja, não é Maçom; não pode ter acesso à nossa cifra. Aliás, um grande desejo do Irmão Enzo é que você quisesse ser um de nós. — Ele nunca me falou nada sobre isso. — Alex ficou decepcionado, como se tivesse sido enganado por Muratore. Não podendo mostrar o que estava escrito, por que concordou que Alex viesse? — A vontade de ser Maçom tem que partir de nós mesmos… — Muratore, provavelmente percebendo a frustração estampada no rosto de Alex, continuou: — Vamos fazer o seguinte, eu decifro a mensagem e lhe digo com outras palavras o que está escrito. Desde que não contenha algo que um profano não possa saber, claro. Alex concordou, não tinha opção. Mas aceitou a contragosto, pois não gostava de depender de ninguém. Sempre preferiu aprender e fazer as coisas sozinho. Ficou pensando se deveria mostrar interesse em ser maçom. Se fosse um, aprenderia coisas que ele não teria como saber de outra forma? Aquela cifra seria uma delas. Então, perguntou: — Como me torno um de vocês? — Mostrando seu interesse a um Maçom, como você está fazendo agora — respondeu, sorrindo. — Leva algum tempo e preparo, e você tem que ser aceito por uma Loja. Quando você voltar da viagem, podemos conversar e eu lhe explico mais sobre isso. — Viagem? — perguntou Alex. — Sim, a viagem, o requisito do Trust, 72 horas… que conversamos hoje à tarde.

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— Ah, sim. Claro. Eu vou sair da cidade amanhã à tarde. — Ótimo. Muratore voltou ao trabalho, segurando o papel antigo com a mão esquerda, mantendo-o aberto com o indicador e o polegar, enquanto revezava entre olhar para a nota codificada, verificar o jogo da velha e escrever algo em outra folha. Fez isso diversas vezes, até que disse pronto e soltou o papelzinho amarelado, que se enrolou novamente, como se quisesse voltar a esconder seus segredos. Alex ficou aguardando enquanto Muratore lia em silêncio o que havia escrito, sem dizer ainda o que a tradução continha. Lia e pensava, com expressões que deixavam Alex ainda mais curioso. — Está em francês — balbuciou ele. — Francês? Garibaldi falava francês? — perguntou Alex. — Sim, também falava francês. Você sabia que Garibaldi nasceu no lugar que hoje é chamado de Nice, na França? Na época chamava-se Nizza. Nizza foi entregue aos franceses por terem ajudado na unificação da Itália. Garibaldi foi contra, mas essa é uma outra história… respondendo a sua pergunta, ele falava francês, italiano, espanhol e português. — Você conhece bem a história de Garibaldi! — Eu nasci na Argentina, sou de família italiana. Meu pai sempre admirou o general, então eu, como filho dele… Sabe como é. Alex sabia, pois foi sido influenciado por ambos os pais. O biológico, que o abandonou, lia muito e questionava Deus. O adotivo o influenciou de uma forma diferente, talvez porque quando Alex veio para os Estados Unidos, ele já tinha sua personalidade praticamente formada. Enzo era muquirana e um tanto preconceituoso, então inspirava Alex a não ser como ele. Mas, sem perceber, Alex era teimoso como Enzo e entrava em atritos desnecessários com ele. — Meu francês não é bom o bastante para entender… Vou traduzir no Google, um momento. — Virou-se para um dos laptops e após alguns instantes de digitação, falou: — Não é possível! Aqui diz que Garibaldi levou algo para uma Loja em Staten Island. — Staten Island, New York? — disse Alex sentando na ponta da cadeira. Muratore devia estar brincando!

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— Sim, tem o nome de uma Loja lá, acho que é de uma Loja Maçônica — Essa Loja existe, ainda? — Não sei, isso foi em 1852, talvez não exista mais… — Como você sabe que foi em 1852? Diz no texto? — Tem uma marca d’água no papel com o ano 1852, aqui — Muratore mostrou o papel contra a luz. — Mas pode ter sido depois de 1852, se ele usou um papel que já era antigo para ele — disse Alex. — Isso é verdade. Então só sabemos que essa nota foi escrita a partir de 1852. — Sim. E o que ele levou para lá? — perguntou Alex. — Bem… O que ele levou eu não posso lhe contar, mas eu tenho certeza que não está lá. — Como você pode ter certeza? — pausou Alex. Não obtendo resposta, respondeu a si próprio: — Já sei, não pode me contar porque não sou maçom. — Infelizmente, não posso ainda. Mas acho que posso lhe dizer as iniciais do objeto: A.A. — AA? Não sei o que é — disse Alex, pensando “ele certamente não está falando dos Alcoólicos Anônimos”. — Mas se não está lá, precisamos perder tempo com isso? — A caixa do A.A. eu sei que não está lá, mas dentro dela tinha outros objetos. E um deles está perdido há algum tempo, uma pedra. — Pedra? Seria a Pedra Filosofal? — perguntou Alex, de brincadeira. — Esses é um dos nomes dela — respondeu Muratore, sério —, mas as pessoas tomam a parte pelo todo. Não posso falar mais que isso — disse Muratore. — Mas Garibaldi foi para a Europa, então esse A.A. não pode mesmo estar em Staten Island! — Mas e se a pedra perdida estiver lá? — Perguntou Frank. — Se Garibaldi trouxe o A.A. para cá, para que ficasse protegido e a pedra acabou ficando por aqui? Não, não faz sentido, porque a nota é de 1852 e ele morreu em 1882. E em 1888 o A.A. estava… — Muratore parou de falar no meio da frase, e começou outra: — A sua nota diz que ele trouxe o A.A. para os Estados Unidos onde ficaria seguro. Não tem data, só sabemos que foi de 1852 para a

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frente. Ele deve ter mandado o A.A. para a Loja de Staten Island depois disso, mas não faz sentido. — Mas você disse que sabe que esse A.A. não está em Staten Island — disse Alex. — É, não está. Mas a pedra que falta poderia estar, só que isso não faz nenhum sentido, porque Garibaldi morreu em 1882. E eu sei que em 1888 o A.A. estava completo, com as duas pedras dentro. — Confuso isso. Então o A.A. é uma caixa com duas pedras dentro, sendo que uma delas está perdida? E a que está perdida pode ser mesmo a Pedra Filosofal? — Sim, mas como eu falei, a parte não é o todo — respondeu Muratore. — Não entendi isso de parte e todo. — Vou tentar explicar melhor. Quando você come um pedaço de peixe em uma refeição e depois alguém lhe pergunta o que você comeu, você responde que comeu peixe, mesmo que não tenha comido um peixe inteiro. Você comeu uma parte do peixe. A parte levou o nome do todo, assim como a Pedra Filosofal, em que tanto a parte como o todo foram confundidas entre si com o passar do tempo. Além de outros nomes que ela ou elas têm. Além disso, as partes e o todo se confundem com o produto da utilização das mesmas! Mas aí eu já falei demais… Era tudo muito enigmático. Alex ficou entre confuso e empolgado, mas sabia que Muratore estava falando do antigo segredo dos alquimistas, pessoas como Nicolas Flamel e Paracelso… Seria esse o segredo da Maçonaria? Procurou disfarçar sua curiosidade, perguntando: — Então você acha que essa pedra pode mesmo estar lá em Staten Island? — Pode ser que sim, mas as datas não batem. Na verdade, a pedra pode estar em qualquer lugar… Mas seria interessante seguir essa pista da sua nota para ver no que dá. Ouvi falar que um Vanderbilt possuía pistas no final da década de 1980, mas até onde sei não deu em nada. — Da família Vanderbilt, os bilionários? — Alex esperou Muratore concordar com um movimento da cabeça e disse: — Se não me engano, a família Vanderbilt é de Staten Island. E será que essa Loja Maçônica de lá ainda existe? — Vou pesquisar na internet. Tompkins… lodge… staten… island…

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Muratore era muito ágil no computador, Alex podia perceber que ele tinha uma incrível vitalidade. Satisfeito com o resultado da pesquisa, Muratore virou o laptop de maneira que ambos pudessem ver. Apontou para a tela e falou, excitado: — Aqui está. Tompkins Lodge #471, Staten Island, NY. Ainda existe! Muratore clicou no website tompkins471.com no topo da lista de resultados. Quando a página abriu, ali estava um prédio antigo, de esquina. Os dois estavam eufóricos ao ver a Loja sobre a qual Garibaldi escreveu há mais de 160 anos. Ali estava ela. Seria o prédio que guardava a Pedra Filosofal? — Tem um número de telefone, disse Muratore. Está tarde, podemos ligar amanhã, e perguntar do Guardião. — Guardião? — perguntou Alex, achando aquilo tudo cada vez mais esquisito. Estaria sonhando? Disfarçadamente beliscou sua mão e ela doeu, então não era um sonho. Mas às vezes sentimos dor em sonhos, como saber realmente? — Sim, o Irmão que Garibaldi nomeou como Guardião do A.A.… Deve haver registro dele na Loja, se ele foi membro dela. — Entendi. — Aqui está a página de contato, vou enviar uma mensagem, embora eu ache que não vai adiantar muito — disse Muratore olhando para a tela do laptop, para em seguida preencher seus dados, e ler em voz alta a mensagem que estava escrevendo. — Prezados Irmãos, venho por meio deste solicitar uma informação sobre um Irmão nosso que possivelmente foi membro de vossa mui digna Loja. Obrigado, F. Muratore. Apertou para enviar, e falou: — Pronto. Se alguém não responder amanhã, ligamos para esse número aqui. — Certo. E o que mais diz na nota de Garibaldi? — Ele diz que trouxe o A.A. para os EUA onde ia ficar mais seguro, até ser levado para a Europa. Só isso — disse Muratore antes de olhar para o celular que avisou a chegada de uma nova mensagem. Então falou, surpreso: — Ele já respondeu! — Quem? — O secretário da Loja, veja!

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Prezado Sr. Muratore, Infelizmente, como o senhor deve saber, não podemos dar informações sobre nossos membros, a não ser que o senhor se apresente aqui pessoalmente, se identifique como maçom, e explique as razões da sua requisição. Outrossim, informo que devido à pandemia, a nossa Loja entrará em recesso a partir de quarta-feira dia 18, conforme instruções do Grão Mestre de New York. Atenciosamente, Clark Schreiber.’. Secretário — Ele não tem certeza de que sou realmente Maçom — disse Muratore. — Como você sabe? — Pela forma de escrever. Teríamos que ir lá, e eu me identificar pessoalmente como Maçom. Mas só tem amanhã, depois só vai abrir quando acabar essa pandemia. — Eu não posso ir sozinho? — perguntou Alex. — Você não é Maçom ainda, Alex. — Mas quem sabe se você me desse uma autorização por escrito, ou algum documento… — Não funciona assim. É pessoalmente que nós nos reconhecemos uns aos outros. Podemos nos identificar também por telefone… mas nesse caso, informações sobre membros… seria algo bem sigiloso, teria que ser pessoalmente mesmo. Mas eu tive uma ideia. *** Naquele exato momento, Bubba, dirigindo agora uma picape preta, ligou para Zero-Cinco. — Vocês já tão vigiando o apartamento do tal Alessandrino? — Já. Dez minutos vigiando, a persiana tá aberta. Ele tá sozinho, não tem mais ninguém ali. Quer que a gente entre?

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— Não, não faz nada. Vigia mais uns 20 minutos e vão pr’aquele motel que te passei o nome. Eu chego aí de madrugada. — OK, Bubba. — A gente volta cedo pela manhã e espera até ele sair. Ele sai, a gente entra. *** Ainda no escritório de advocacia, Alex, alheio a tudo o que poderia estar acontecendo em frente ao seu apartamento, perguntou a Muratore: — Qual seria a sua ideia? — Você disse que vai sair da cidade amanhã à tarde, poderíamos ir amanhã cedo, passarmos uma hora ou duas em Nova York, e voltarmos no começo da tarde. Se marcarmos agora com o secretário da Loja, não devemos demorar muito por lá. Vamos gastar mais tempo no trajeto do aeroporto até Staten Island, e na volta. Assim você já vai ter os comprovantes que saiu da cidade para poder assumir o Trust e eu já vou providenciando a documentação enquanto você estiver fora. — Parece uma boa ideia. Por mim, tudo bem. Mas preciso fazer uma ligação antes. Você me dá um minuto? Frank fez que sim com a cabeça, Alex ligou e explicou a Gabby, que falou: — Pode ir tranquilo, Al. Eu já avisei as meninas por telefone que vou fechar a boutique amanhã, até passar essa pandemia. Então eu fico em casa te esperando e a gente viaja amanhã à tarde, ou na quarta, não tem problema. Não vai acontecer nada, não se preocupe. Deus me protege. Alex desligou e disse para Frank: — Tudo certo, vamos para Nova York pela manhã, então. — Ok, vou enviar uma mensagem para o secretário dizendo que planejamos ir amanhã, e enquanto isso procuramos os vôos. Mais alguns minutos teclando, e Muratore mostrou a tela para Alex novamente, dizendo: — Aqui, Jetblue às 6h53 da manhã. Pode ser? — Sim, quanto é? — Não se preocupe, depois acertamos. A VELA VERMELHA

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— Faço questão de pagar. Quer usar meu cartão? — Não, Alex. Tudo bem, vou lhe enviar o número da minha conta com a reserva do voo por email, depois você transfere o valor para mim. — OK, obrigado. — Só um minuto… Ortiz, Alessandrino… Muratore, Francesco… Meu cartão Mastercard… 5-4-1-9… Muratore concluiu as reservas online, e perguntou: — Quer que eu passe na sua casa pela manhã? — Não é necessário, podemos nos encontrar no aeroporto — disse Alex. Ele não gostava de depender de caronas. — Um minuto… aqui está sua reserva… Terminal 3, portão F3. Nos encontramos no checkin pelas 7h15. — OK, combinado. Obrigado, Sr. Muratore. — Frank. Me chame de Frank.

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PARTE 2 & 3 (não incluídas) As partes 2 e 3 podem ser encontradas no livro A Vela Vermelha, disponível para venda no website do autor Para comprar o livro A Vela Vermelha completo, composto de 3 partes, visite:

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