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REPORTAGEM: Renascer 2012 abre comemorações dos 30 anos da Comunidade Shalom ENTRELINHAS: Ressuscitar dos mortos? O que isso significa? I SBN 9 7 8 - 4 - 1 3 - 1 5 0 9 0 0 - 7

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Ano 25 • nº 225 | Abril • 2012 • R$ 9,90

Páscoa, coração da nossa fé! “Ressuscitei e estou convosco para sempre. Aleluia!”


Põe aqui tua mão Torna-te um homem de fé Toca o meu coração e o medo se vai. Tomé - Davidson Silva

Jovens brasileiros recebem a cruz da Jornada Mundial da Juventude, logo após o papa Bento XVI anunciar o Rio de Janeiro como sede da próxima JMJ Foto por Hanna Grabowska Crédito: http://www.madrid11.com/pt

“A incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio


08 SUMÁRIO

A Palavra do Papa

“Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra”

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Especial

O Jardim da Agonia – Parte II

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Assunto do Mês Páscoa: coração da nossa fé!

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Só Família Famílias numerosas: dom de Deus

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Orando com a Palavra

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A esperança é para nós qual âncora da alma

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A Igreja Celebra

Santa Catarina de Sena: “Esposa de Cristo na fé”

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Especial

São José, lugar-tenente do Pai

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Divirta-se

• Palavras Cruzadas • Dica de filme

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Acontece no Mundo • Bento XVI apresenta mensagem para o 49o Dia Mundial de Oração pelas Vocações • Jordânia: novo centro de cultura católica • Jesuítas oferecem cursos a distância para refugiados • Consistório cria 22 novos cardeais

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Fé e Razão Viver bem

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Especial

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Reportagem Renascer 2012: “Eis que vou fazer obra nova”

O valor da vida humana e da sua inviolabilidade

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Entrelinhas

Ressuscitar dos mortos?!? O que isso significa?!?


Carta ao leitor EDITORIAL

“Cristo Ressuscitou, aleluia!”

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Boa leitura! Shalom!

Filipe Cabral Coordenador Geral das Edições Shalom

E X P E D I E N T E Coordenação Geral FILIPE CABRAL

Coordenação Editorial

CAROLINA FERNANDES

Equipe de Redação

José Ricardo F. Bezerra

Revisão

Monique Linhares Gomes

Diagramação e Capa

Daniel Garcia da silva

Gerente Comercial

ELIANA GOMES LIMA

Assinaturas

ÂNGELA GONÇALVES

Jornalista Responsável Egídio Serpa

SERVIÇO DE APOIO AO ASSINANTE Estrada de Aquiraz - Lagoa do Junco | Aquiraz /CE CEP: 61.700-000 Para assinar ou renovar: (85) 3308.7403 / 3308.7415 Para anunciar: (85) 3308.7403 Para sugestões, dúvidas, reclamações e testemunhos, ligue-nos ou escreva-nos: shalommana@comshalom.org assinaturas1edicoes@comshalom.org www.edicoesshalom.com.br www.comshalom.org

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aríssimo leitor, Nesta edição, temos a imensa alegria de celebrar e de refletir sobre o Mistério inesgotável da Ressurreição de Cristo. Em seu artigo “Páscoa: coração da nossa fé!”, Pe. Rômulo dos Anjos nos diz que celebrar a Páscoa é celebrar o triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus tipos de manifestação. É, verdadeiramente, a celebração do amor! “A morte e a Ressurreição de Cristo são acontecimentos do Amor triunfante que mudaram o curso da história, infundindo na vida humana um renovado e indelével sentido e valor”, diz o autor. Na seção “Entrelinhas”, Emmir Nogueira também nos convida a refletir sobre a Ressurreição de Cristo e sobre a dificuldade que muitos de nós temos em acolhê-la. “Peçamos, com humildade, que o Senhor aumente nossa fé e deixemos de ‘procurar entre os mortos aquele que vive’”, lembra-nos Emmir. Ainda neste mês, a Shalom Maná traz para você a cobertura do Renascer 2012, realizado de 19 a 21 de fevereiro, em Fortaleza (CE). Em sua 26ª edição, o evento bate recorde de público e marca o início da celebração dos 30 anos de ação evangelizadora da Comunidade Católica Shalom. A continuação da partilha de Ricardo Costa sobre a sua experiência em meio ao sofrimento causado pela depressão você também confere na Shalom Maná deste mês. Que estes e os demais artigos desta edição o ajudem a ter uma verdadeira experiência com Cristo Ressuscitado e o conduza a viver sempre de modo pascal, anunciando ao mundo esta realidade, “que não é uma ideia ou uma recordação do passado, mas uma Pessoa que vive conosco, por nós e em nós, e com Ele, por Ele e nele podemos fazer novas todas as coisas”.

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OPINIÃO

Fala leitor Na edição de março, a revista Shalom Maná trouxe no “Assunto do Mês” a primeira parte do artigo de Ricardo Costa Lima, que partilhou sobre a sua experiência no “Jardim da Agonia”, ou seja, o seu sofrimento e a sua fé no amor de Deus, vividos em meio a depressão. Apresentamos, ainda, a mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2012, que nos exorta: “Prestemos atenção uns aos outros!” Na seção “Entrelinhas”, Emmir Nogueira também refletiu sobre a atenção que devemos ter para com as pessoas que sofrem de depressão. Segundo ela, devemos ser “luz”, “janela para o céu” para os nossos irmãos. Na seção “Arte e Espiritualidade”, Cassiano Azevedo falou sobre “A educação através da Beleza”. Confira a seguir outros artigos que também fizeram parte da Shalom Maná de março e os comentários de nossos leitores. Assunto do Mês: “O Jardim da Agonia” Ao refletir sobre os momentos vividos por Jesus um pouco antes da sua Paixão, o autor partilha sobre a experiência de dor e sofrimento ocasionada por uma doença que atinge milhares de pessoas no mundo inteiro: a depressão. Imaginar a agonia de quem sofre por motivo nenhum ou por motivos tantos nos faz compreender o que Jesus nos ensinou, quando pede em sua Palavra para não julgarmos nossos irmãos. O texto “O Jardim da Agonia” nos toca de uma maneira intensa porque, como se fosse possível concretizar a dor, o autor desenha de maneira nítida as sensações de sua agonia. No entanto, em meio a tanta desolação, o desabafo do autor nos enche de alegria e gratidão por saber que, apesar desse tudo e desse nada que rodeiam as pessoas doentes de depressão, há um espaço para o Deus amoroso sempre disposto a cuidar de quem se abandona em seus braços.

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Dahiana Araújo Jornalista e membro da Obra Shalom, Fortaleza/CE

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A Igreja Celebra: “O sim de José, esposo da Virgem Maria” No dia 19 de março, a Igreja, espalhada pelo mundo inteiro, recorda solenemente a santidade de vida do seu Patrono, São José. Ao ler sobre São José neste texto, meu coração se encheu de gratidão por sua vida, que me ensina de forma concreta duas dimensões: a escuta atenta ao Senhor de quem se arrisca amorosamente na fé, e o cumprimento da santa vontade de Deus. Revela-nos, ainda, o artigo do nosso irmão Márcio André, um José que teme a Deus, que perscruta o coração do Senhor e que sabe, exatamente, qual é a Sua vontade. Supliquemos a São José a sua ajuda, ele que é fiel, provedor, intercessor das famílias, abandonado em Deus, para que, imitando as suas virtudes, em tudo possamos fazer a vontade de Deus. São José, pai de Jesus, casto esposo de Maria Santíssima, rogai por nós! Karliny Moura Pedagoga, missionária da Comunidade Católica Shalom em Salvador (BA)


Papo Jovem: “Vale a pena corresponder ao Amor!” Testemunhos de fé, transformação e doação são apresentados por jovens que tiveram suas vidas transformadas durante o Acamp’s de janeiro de 2012. Assim como os jovens que escreveram sobre o Acamp’s 2012, eu também vivi uma experiência com o amor de Deus através de um Acampamento. Fui para o Acamp´s em 2005, a convite do meu amigo Paulo Victor. Para mim, foi uma semana um pouco difícil por causa da minha timidez; mas, mesmo não tendo feito várias amizades naquele Acampamento, fiquei com a sensação de querer voltar, não só para conhecer pessoas, mas sim para experimentar o amor de Deus na minha vida. Em outro Acamp’s, novamente eu estava lá. Dessa vez, foi muito mais fácil e, finalmente, tive uma experiência real com Deus. Hoje em dia sou muito grato ao meu amigo Paulo Victor e ao meu padrinho Célio Lourenço, pois sei que através deles o Senhor me chamou para todos esses Acamp´s e ainda me levará para vários outros. Tiago Sousa Assistente de produção e membro do Projeto Juventude para Jesus, Fortaleza/CE

Glorioso Rei

Fé em versos

Comunidade Católica Shalom

Como povo redimido, resgatado por Tua Cruz, Povo eleito, povo santo, celebramos Teu amor! Entraremos por Tuas portas entre hinos de louvor. Novas vestes, novo canto. Nossa herança és Tu, Senhor! Glorioso Rei! Vencedor na Cruz! Por Teu sangue, enfim, temos a Paz! Todas as nações virão Te adorar Neste dia que não terminará. Seja uma a nossa voz! Seja eterno o nosso “Sim”! Ao redor do Teu altar, para sempre! Ao Rei dos reis que vem: honra, glória e louvor, Nossa vida, nosso amor, para sempre! www.edicoesshalom.com.br

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A Palavra do Papa

“Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra” A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével Mensagem do Papa Bento XVI para a Páscoa de 2011

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mados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro! A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos. Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações super tecnológicas – a fé dos cristãos assenta naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria de Magdala, aos dois dis-


cípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14). A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem. Tal como os raios do sol na primavera fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projeto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e, sobretudo, o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade. Alegrem-se os céus e a terra “Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra”. A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os “céus” respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a

“O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e, sobretudo, o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade” terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E, todavia, foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Por isso, esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz. Possa alegrar-se aquela Terra que, primeiro, foi inundada pela luz do Ressuscitado. O fulgor de Cristo chegue também aos povos do Médio Oriente para que a luz da paz e da dignidade humana vença as trevas da divisão, do ódio e das violências. Na Líbia, que as armas cedam o lugar à diplomacia e ao diálogo e se favoreça, na situação atual de conflito, o acesso das ajudas humanitárias a quantos sofrem as consequências da luta. Nos países da África do Norte e do Médio Oriente, que todos os cidadãos – e de modo particular os jovens – se esforcem por promover o bem comum e construir uma sociedade, onde a pobreza seja vencida e cada decisão política seja inspirada pelo respeito da pessoa humana. A tantos prófugos e aos refugiados, que provêm

de diversos países africanos e se veem forçados a deixar os afetos dos seus entes mais queridos, chegue a solidariedade de todos; os homens de boa vontade sintamse inspirados a abrir o coração ao acolhimento de maneira solidária, e concorde acudir às necessidades prementes de tantos irmãos; a quantos se prodigalizam com generosos esforços e dão exemplares testemunhos nesta linha chegue o nosso conforto e apreço. [...] Alegrem-se os céus e a terra pelo testemunho de quantos sofrem contrariedades ou mesmo perseguições pela sua fé no Senhor Jesus. O anúncio da sua ressurreição vitoriosa neles infunda coragem e confiança. Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21,1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está conosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha conosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu. Boa Páscoa a todos! www.edicoesshalom.com.br

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ESPECIAL Shalom Maná | Abril 2012 10

O Jardim da Parte II Agonia A continuação da partilha sobre a agonia de quem sofre de depressão você confere nesta segunda parte do artigo de Ricardo Costa Lima, consagrado na Comunidade de Aliança Shalom. Uma experiência de dor e sofrimento, fortalecida pelo testemunho de fé e obediência de Jesus Cristo, durante seus últimos momentos no Jardim das Oliveiras Ricardo Costa Lima Missionário da Comunidade Católica Shalom em Teresina/Pi

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paciência no Jardim “Afastou-se outra vez e orou... Voltando, achou-os de novo dormindo” (Mc 14,39) Na narrativa bíblica, Jesus entra e sai do Jardim do Getsêmani por três vezes. Eu, como muitos, pensei que fosse entrar no meu Jardim da Agonia uma única vez, e que, após ter experimentado do fel dos espinheiros da depressão, já havia sofrido e aprendido tudo o que deveria. Era mais um dos meus enganos, sorrateiramente minado pela realidade. Descobri que não se fica curado de uma depressão em um mês de terapia ou


em uma semana de antidepressivos. As quedas e recorrências são naturais daqueles que padecem deste mal. Muitas vezes me vi assim: quando achei que tinha todas as respostas, a vida mudou suas perguntas. Foi estranho perceber que após algum tempo de tratamento e com as efetivas remissões dos sintomas, abruptamente, num dia qualquer, abre-se a janela do quarto e só se consegue enxergar o cinza sombrio da tristeza de morte. É aí que se encontra a questão. A reintegração biológica, psíquica e espiritual da depressão requer tempo e, especialmente, paciência. Na primeira crise que tive, deixei de tomar o medicamento e voltei à antiga rotina, por conta própria, após quatro meses de terapia. Os resultados foram que, eu não apenas não me reabilitei, como as crises subsequentes foram imbuídas de intensidade bem maior. Aqui se levanta, como já falei, o poder inexorável da paciência. Mais uma vez, a sabedoria de Teresa de Ávila ecoa incisivamente: “A paciência tudo alcança”. O mundo em que vivemos sutilmente foi solapando o conceito dessa virtude. A paciência é tida como característica de medíocres e acomodados pela humanidade, que bate freneticamente os pés no chão diante de uma janela do Google ou do Facebook que demora cinco segundos a mais para ser aberta. Fomos perdendo o sentido da eternidade, e, assim, sucumbimos a ser escravos do tempo. Esperar um pouco diante de uma decisão a ser tomada?! Não podemos. Esperar pela mudança do outro?! Perda de tempo. Ter paciência consigo mesmo

Deus existe e manifesta sua glória nos dias de hoje. São afirmações que hoje posso dizer mais convictamente e que foram firmadas em mim pelos espinhos do Jardim, haja vista que na solidão getsêmica, ou se apoia em Deus ou se perde o sentido perante a involução de um longo processo depressivo? Jamais. Decerto que não é tão fácil cultivar a paciência no mundo hodierno. A mídia cria necessidades urgentes em nós, como por exemplo, comprar hoje o carro zero km com airbag duplo frontal e lateral e tração nas quatro rodas. Mas tem que se comprar a pechincha agora, pois a oferta é só hoje! No mundo dos negócios, os que mais se sobressaem são os incontroláveis, velozes e proativos. O resultado é que temos cada vez mais jovens ansiosos, hiperativos, com doenças crônicas degenerativas e, principalmente, deprimidos. Através de um trabalho intenso de autoconhecimento, fui percebendo o quanto esta cultura foi me permeando a ponto de eu não perceber mais o céu moreno do entardecer da minha cidade, os planos ingênuos e, às vezes, engraçados da minha irmã, ou a dor de um amigo que há muito eu não telefonava (por falta de tempo, claro!). A impaciência, não apenas me conduziu ao Jardim da Agonia, mas também queria me impedir de sair dele definitivamente. Com sua voz sedutora, queria me fazer acreditar que já era tempo de me desvencilhar do tratamento e que era momento de viver por mim mesmo. Porém, a impaciência é como uma amante

que te instiga a se separar da sua mulher e, logo após a tola decisão tomada, esvai-se como fumaça diante de uma ventania. É preciso não se culpar ou se autossabotar quando de uma recorrência de uma crise depressiva. É necessário sermos batizados na paciência. Faço minhas as palavras de Bento XVI, quando dizia que “o mundo é condenado pela impaciência dos homens e salvos pela paciência histórica de Deus”. A paciência é o meu consolo nos dias em que não estou muito bem, é minha couraça quando sou atacado pelo desânimo, enfim, foi e é a rocha onde descanso após a luta de uma longa noite no meu Getsêmani. A solidão no Jardim “Depois afastou-se deles à distância de um tiro de pedra” (Lc 22,41) A fobia social é patognomicamente sinal da depressão profunda. Queremos, de fato, estar à distância de um tiro de pedra de qualquer ser vivente, mesmo daqueles mais queridos. As minhas mãos ficavam geladas a cada toque de telefone. Tinha medo que fosse algum dos meus pacientes. Tinha vergonha que fosse alguém da Comunidade. O que mais dói no Jardim é ter que explicar para os outros o que não se consegue compreender. “O que você tem?” Era a pergunta mais fatal no meu itinewww.edicoesshalom.com.br

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rário. À vista disto, preferia não ver ninguém. No auge da crise, passava 24 horas dentro do meu apartamento, de tal maneira isolado, que já não tinha força nem mesmo para falar. Passei a compreender porque, de repente, algumas pessoas desaparecem como em um click e, somente muito tempo depois, soubemos que ela estava deprimida. Por volta da 6ª série do antigo Ginásio, um colega meu simplesmente deixou de frequentar as aulas. Lembro-me, então, de alguém da nossa turma ter pronunciado algo relativo à depressão. Nem eu, nem meus colegas sabíamos exatamente o que significava, só sentíamos a dor pelo amigo que se afastou. De fato, não se entra no Jardim da Agonia acompanhado. Ainda que fosse possível, o sentimento de uma indescritível solidão exterminaria a percepção de um outro alguém. Não se consegue adentrar no mistério de um deprimido tão facilmente. Os conselhos não têm significado algum. As palavras mais belas ou os estímulos mais inflamados não encontram ressonância em um enfermo da alma. E aí, diante desta dilacerante constatação, as pessoas se põem a indagar: “o que posso fazer por um deprimido?”

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A paciência é o meu consolo nos dias em que não estou muito bem, é minha couraça quando sou atacado pelo desânimo, enfim, foi e é a rocha onde descanso após a luta de uma longa noite no meu Getsêmani Vigiar e orar É a própria narrativa bíblica que orienta a postura dos mais próximos: é preciso vigiar e orar (cf. Mt 26,41). Porque os homens esqueceram que todas as coisas estão sobre o Senhorio de Deus, dele partindo e para Ele convergindo inexoravelmente? Porque reduzir a complexidade do mistério humano a uma medíocre reação de combustão ou entrelaçamento imutável de genes? É indispensável reconhecer que, de fato, “para Deus nada é impossível” e que nem mesmo a ditadura da herança genética ou os condicionamentos das circunstâncias da vida podem escapar à sua grandeza. O homem que matou a Deus já está enterrado há anos. Não teve tempo para perceber que caixões de mentiras e calúnias não são capazes de cercear o Ressuscitado. Deus existe e manifesta sua glória nos dias de hoje. São afirmações que hoje posso dizer mais convictamente e que foram firmadas em mim pelos espinhos do Jardim, haja vista que na solidão getsêmica, ou se apoia em Deus ou se perde o sentido. Entretanto, ao passo que o Jardim possa se tornar terreno fértil para se redescobrir a presença de Deus, muitas vezes ignorada, ele também se constitui em lugar de batalha espiritual, onde o prêmio é a própria vida. Por isso, é preciso orar pela multidão de deprimidos. É preciso orar por aqueles que

estão padecendo no Jardim para que tenham a força de tomar o cálice e perseverar. Neste momento, me dobro em silêncio de gratidão a tantas pessoas que, imbuídas de fé no Deus poderoso, prostraram-se em oração e súplica por minha recuperação. Como me esquecer dos amigos, que embora não entendendo por completo meu drama, fizeram como Maria, que guardava tudo no coração para em seguida ofertar a Deus. Não me esquecerei da Irmã Teresinha, da minha amiga Adriana e de tantos outros que eu até desconheço, mas que me fizeram experimentar do socorro de Deus com suas intercessões. Hoje, sou eu quem deseja me unir a este batalhão espiritual, que não se deixa iludir pela sedução do materialismo e suplica por todos os sofredores. Feliz é o homem que chora no Jardim e que sabe que existem outros que choram por ele por pura compaixão. Mas existe ainda uma outra atitude igualmente imprescindível: vigiar. Aqui se torna importante subdividir o estado depressivo em duas fases: a aguda e a crônica. Na fase aguda, se está diante de um homem completamente apático e que não responde a qualquer estímulo. São as fortes crises nas quais o medicamento só começa a ter efeito terapêutico sensível após 14 ou 21 dias. Particularmente nestes momentos, a palavra vigiar é traduzida ao pé da letra, especialmente naqueles com


tendência suicidas. É importante não deixar fugir o deprimido do olhar atento. É necessário mudar rotinas e hábitos de todos que o rodeiam, de tal maneira, que a presença amorosa seja a única linguagem que penetre o coração do doente. Jamais me esquecerei do dia em que numa forte crise, percebi meu irmão deitado na cama ao meu lado. Ele estava silencioso, mas presente. Isto bastava. Na verdade, era a única coisa que eu conseguia entender. Portanto, na fase aguda, vigiar é presença. Na fase crônica, vigiar é amar com o amor de Deus: aquele que tudo suporta, tudo perdoa, tudo tolera. Mas vigiar também neste caso é amar com atos concretos, motivando o doente para o acompanhamento psicológico, arrastando-o para atividades físicas, apontando o caminho de oração como via de intimidade com Deus e levando-o a se descentralizar de si mesmo. No Jardim, quem se curva sobre a própria dor, morre. Quantos não foram aqueles que vigiaram sobre a minha vida? Como esquecer da minha família que aprendeu a me amar constantemente, seja através do silêncio, seja através de atos concretos. Às vezes, fico pensando como deve ser difícil estar enfermo e não ser compreendido, ou pelo menos respeitado por aqueles que o rodeiam. Sem dúvida, a companhia de um melancólico não é exatamente agradável. Por isso, várias vezes, muitos optam em fazer como os discípulos, que tendo os olhos vencidos pelo cansaço, adormeceram e abandonaram o Cristo agonizante. Como foi importante também o olhar externo e vigilante do

“No mundo onde não se sabe nem quem mora no apartamento ao lado, a vida fraterna na Comunidade Shalom foi a prova concreta de amor que tive como porto seguro no meu tempo agonizante” meu terapeuta. Como a terapia foi decisiva para que eu pudesse distinguir a depressão de outras desordens. Foi importante ainda para me fazer reconhecer o que era ponto gatilho em mim. A ajuda psicológica me auxiliou a apropriar-me mais de mim mesmo. Além do meu terapeuta, a linha psicológica da logoterapia, pela qual fiquei absolutamente apaixonado, me deu bases importantes para saber lidar com meu caos, que às vezes beirava à completa falta de sentido. Fiz três meses de intensa terapia e, após alta temporária, agora me sinto pronto para voltar ao meu caminho de autoconhecimento, que prefiro chamar de o “rio que passa pelo meu Jardim”. Além disso, no mundo onde não se sabe nem quem mora no apartamento ao lado, a vida fraterna na Comunidade Shalom foi a prova concreta de amor que tive como porto seguro no meu tempo agonizante. Embora alguns instintivamente tenham se afastado da minha presença, cada vez menos atraente, outros davam gestos que me surpreendiam. Não posso me esquecer das visitas, dos e-mails e do respeito.

Entretanto, vale uma dica para aqueles que querem ajudar os deprimidos: o Jardim da Agonia é um território sagrado, onde não se deve entrar em absoluto, ainda que seja com a generosa intenção de resgatar o agonizante. É muito comum a família ou pessoas próximas do deprimido adentrarem no mesmo processo de depressão, adornando assim a agonia com um caráter contagioso. Ora-se e vigia-se com o deprimido, mas não se deve deprimir-se junto com ele. Em alguns momentos, percebia que a minha tristeza de morte conseguia abalar a estrutura dos que me rodeavam, pois os cheiros das flores do Jardim são extremamente ativos e conseguem influenciar qualquer indivíduo menos preparado. Portanto, para aqueles que convivem com o deprimido, sugiro escapar de vez em quando daquela convivência, especialmente quando se sente tentado a também entrar no Jardim, contanto que se deixe um outro, ou outros, a vigiar o enfermo. Por fim, Jesus não pede aos seus discípulos nenhum tipo de pseudo-compadecimento e nem se expõe a nenhum vitimalismo infecundo. Para aqueles que oram e vigiam com o depressivo, deve-se evitar todo e qualquer olhar ou palavra de pena ou de vitimalização sobre o “homem das Oliveiras”. É preciso orar e amar. Palavras quase não contam, gestos podem salvar. o texto continua no próximo mês.

Para os leitores que desejarem entrar em contato com o autor do artigo, Ricardo Costa, podem enviar e-mail para ricardocostalima@hotmail.com. www.edicoesshalom.com.br

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ASSUNTO DO MÊS

Páscoa: coração da nossa fé! Ele nos deu a sua Vida, a verdadeira Vida, aquela cheia de sentido. Permitiunos compreender o segredo da felicidade, que consiste não em reter a vida e fazer dela uma busca incansável de sucesso, mas num ato constante de sacrifício por amor. Pe. Rômulo dos Anjos Missionário da Comunidade Católica Shalom em Pacajus/CE

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risto Ressuscitou, aleluia! Sim, verdadeiramente ressuscitou. Aleluia!” É assim que os cristãos de origem ortodoxa se saúdam, desejando uma feliz Páscoa. Neste mês, temos a imensa alegria de refletir sobre o Mistério inesgotável da Ressurreição de Cristo. Celebrar a Páscoa é celebrar o triunfo da vida sobre a morte e todos os seus tipos de manifestação. O homem, criado por Deus e para Deus, só nele encontra a Paz e, por isso mesmo, tem desejo de uma vida que não é simplesmente esta e de uma felicidade que vai além de tudo o que ele

possa experimentar. Ele deseja uma vida e uma felicidade de ordem sobrenatural, ou seja, a vida e a beatitude divinas. Para participar de tudo isso, o homem necessita viver com Deus. Este é, portanto, o desejo mais profundo do coração do homem: a comunhão com Deus, disto depende a sua realização plena. A comunhão com Deus encerra a mais alta dignidade do homem. O Mistério da Ressurreição revela-nos o fim último do homem, criado para a glória de Deus. Santo Agostinho, com profundidade, afirma que é isto que precisamos experimentar na nossa vida para saborearmos a verdadeira felicidade.


A comunhão com Deus encerra a mais alta dignidade do homem. O Mistério da Ressurreição revelanos o fim último do homem, criado para a glória de Deus

Considerando esta premissa, podemos compreender que a vitória de Jesus Cristo sobre o mal, sobre o pecado, diz respeito a cada um de nós. A morte e a Ressurreição de Cristo são acontecimentos do Amor triunfante que mudaram o curso da história, infundindo na vida humana um renovado e indelével sentido e valor. Por isso, interessa-nos entender o significado da Ressurreição de Cristo e, em seguida, o que isso implica na nossa vida concretamente. A Ressurreição de Cristo Nesta experiência e profissão de fé, o Cristianismo encontra seu fundamento, a tal ponto que desta realidade depende toda a Cristandade. O triunfo da Ressurreição de Cristo nos faz passar da vida velha para a vida nova, concedendo-nos o dom de uma vida inaudita porque, de fato, nos faz viver um êxodo radical. Santo Ambrósio de Milão afirmava que a Páscoa significa passar da “culpa para o perdão”. Nesta perspectiva, o homem é inteiramente reconciliado com Deus, consigo mesmo e com os outros.

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Um dos símbolos de que Deus se serviu para falar da sua relação com a humanidade foi o do Pastor. Cristo, no Evangelho segundo João, define-se como aquele que “oferece a vida pelas ovelhas” (cf. Jo 11,11). Este Evangelho nos é proposto no período pascal, e esta imagem tem muito a nos dizer. Jesus Cristo é o Bom Pastor porque dá a sua vida, não

a retém, mas oferece-a pelas suas ovelhas. Este fato o torna distinto de qualquer outro pastor, pois Ele não simplesmente protege, dá segurança, mas oferta a si mesmo para que o seu rebanho tenha a vida. Ele nos deu a sua Vida, a verdadeira Vida, aquela cheia de sentido. Permitiu-nos compreender o segredo da felicidade, que consiste não em reter a vida e fazer dela uma busca incansável de sucesso, mas

num ato constante de sacrifício por amor. A realização não consiste em ter, mas em ofertar-se. Com a radicalidade da sua oferta, Cristo fez com que se tocassem e unissem o Coração de Deus e o coração do homem. Essa imagem sempre conquistou o coração daqueles que creem no Cristo, e isso explica porque desde os primeiros séculos as catacumbas e sarcófagos trazem a imagem do Bom Pastor com a ovelha nos ombros. Quantas vezes o homem faz a experiência daquela ovelha que estava perdida, ferida, sofrida, sentindo-se fraco, pecador, coberto de senso de culpa, de feridas e sofrimentos. Nada mais libertador que sentirse gratuitamente encontrado pelo Bom Pastor e por Ele ser salvo, libertado, curado, enfim, passar da morte para uma vida nova. A nossa ressurreição Falar da Ressurreição de Cristo significa também não somente despertar para fé, mas para a necessidade de fazer uma experiência e vivê-la comunitária e pessoalmente. Isso se torna possível porque com Cristo somos

Nada mais libertador que sentir-se gratuitamente encontrado pelo Bom Pastor e por Ele ser salvo, libertado, curado, enfim, passar da morte para uma vida nova

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Somos, por graça, chamados a viver sempre de modo pascal e anunciar ao mundo esta realidade, que não é uma ideia ou uma recordação do passado, mas uma Pessoa que vive conosco, por nós e em nós, e com Ele, por Ele e nele podemos fazer novas todas as coisas

ressuscitados, não ainda no corpo, mas já no coração. Portanto, há uma ressurreição que se dá hoje na minha vida. Podemos deduzir que se pode estar morto, mesmo antes de morrer, enquanto ainda não se acolheu o dom desta nova vida. Quantas vezes o coração do homem se encontra em um estado de total ausência de esperança, de sentido de vida, de confiança em Deus; todo este contexto pode ser chamado “morte do coração”. A graça própria da Páscoa nos faz elevar o olhar e nosso coração para Deus. Na Missa, há uma expressão dirigida à comunidade cristã onde somos convidados a ter: “Sursum corda - corações ao alto”, ou seja, somos exortados a elevar o nosso coração para o alto, para além de toda preocupação, desejos, angústias, medos, incertezas, pois Cristo está no meio de

nós. Ele é a nossa esperança, e a nossa vida não está mais submetida à caducidade das realidades presentes, mas agora está imersa na eternidade de Deus, agora se iniciou uma nova condição do ser homem, que muda o nosso caminho de cada dia e abre um horizonte novo na nossa existência pessoal e na história da humanidade. Verdadeiramente ressuscitou! Diante deste consolador Mistério, com os olhos e, sobretudo com o coração voltados para o alto, podemos responder – a partir de uma experiência pessoal – “verdadeiramente ressuscitou!” Esta é a nossa alegria e a alegria que queremos doar ao mundo de hoje, ao homem hodierno que se encontra em meio a tantas mortes, cujo coração geme e sofre necessitando receber o “cho-

A morte e a Ressurreição de Cristo são acontecimentos do Amor triunfante que mudaram o curso da história, infundindo na vida humana um renovado e indelével sentido e valor

que” da ressurreição de Cristo. Somos, por graça, chamados a viver sempre de modo pascal e anunciar ao mundo esta realidade, que não é uma ideia ou uma recordação do passado, mas uma Pessoa que vive conosco, por nós e em nós, e com Ele, por Ele e nele podemos fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). Ouçamos no mais íntimo do nosso coração estas palavras dos lábios do Ressuscitado, tiradas de uma antiga versão do Salmo 138 (v. 18b) que ressoam em uma Missa do tempo pascal: Resurrexi, et adhus tecum sum. Alleluia! – Ressuscitei e estou convosco para sempre”. Podemos concluir com uma bela afirmação de um santo da tradição ortodoxa, São Serafim de Sarov: “Minha alegria, Cristo, ressuscitou”! BIBLIOGRAFIA PAPA BENTO XVI, Reflexões para o Ano Litúrgico, Anos A, B e C. Juiz de Fora: Editora Zás, 2010; CANTALAMESSA, Raniero. Gettate le Reti, Riflessione sui vangelli, Anno B. Casale Monferrato (AL): Edizioni Piemme, 2001; PACOMIO, Luciano; MANCUSO, Vito (org). Lexicon, Dizonario Teológico Encicclopédico. Casale Monferrato (AL): Edizione Piemme, 1993. www.edicoesshalom.com.br

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SÓ FAMÍLIA

Famílias numerosas: dom de Deus A família cristã, com serenidade, precisa gritar que a vida humana é um bem valiosíssimo e que nenhum motor humano pode ter o direito de cerceá-la Adília Ramos Missionária da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE

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coam ainda em meus ouvidos os mais diversificados sons advindos de meus familiares, quando nos reuníamos na residência de meus avós maternos. Perseguem-me as lembranças infantis, adolescentes, as de minha juventude e, já adulta, casada e mãe. Esses momentos, quando toda a numerosa família se encontrava, eram indescritíveis, de uma alegria imensurável! Meu avô, um senhor muito reto, católico, de Comunhão cotidiana, e minha avó, uma senhora alegre, espirituosa, também uma mulher de fé e Eucaristia diária, haviam se unido, através do Sacramento do Matrimônio, e gerado dezoito filhos. Pode-se imaginar uma escadinha, e era isso mesmo.

Dessa grande prole, alguns morreram bebês, outros pequenos, das doenças da época, e dois, um jovem e outro adulto, de forma bem trágica: um afogado e outro carbonizado em um acidente de carro. O mais interessante de tudo é que nunca vi meus avós murmurarem por causa disso. Restaram, então, dez filhos, de ambos os sexos. A esses foram acrescentados mais seis, filhos do casamento de minha tia mais velha, que o marido havia partido com outra mulher, deixando a família sem nada. Vovô achou por bem acolhê-los e criá-los todos. Loucura? Não. Com certeza, amor e grande senso de responsabilidade. Por que cito esse pequeno retrato da harmonia dessa família, em meio a tantos desafios? Porque pretendo afirmar que é


possível, em todos os tempos, ter uma família numerosa e feliz! Desejo desmentir aos que afiançam esta impossibilidade, asseverando que não é o número de filhos que faz uma família conforme o Coração de Deus, mas a generosidade e a compreensão do projeto de vida que este mesmo Deus tem para ela. Ao escrever este texto, vem a mim algumas frases de meu avô: “onde comem cinco, comem sete”. Ou de minha avó, gritando: “Lourdes, coloca mais água no feijão que chegou mais gente para almoçar!” E com que felicidade vovó dizia tais palavras! À hora da refeição, eu também estava lá e percebia que a mesa

não cabia todos. Daí, íamos todos, as crianças para uma mesinha menor, ou até mesmo comer no chão. Era uma delícia! Mais tarde, nesse mesmo dia, vovó constatando que havia muitos netos na casa, resolvia fazer bolos, e com a nossa ajuda! Tomava uma bacia de ágate verde com branco, pois uma fôrma seria inviável devido ao número de comensais, e dava-se início a empreitada. Uns traziam farinha, outros, ovos, alguém chegava com o açúcar, a manteiga e, por fim, o chocolate. Ao final, nos reuníamos para lamber a bendita bacia e terminávamos todos muito sujos e bons de banho.

Pareço saudosista? Talvez, mas o que anseio por trazer de volta aqui, o que almejo colocar em cena é a família que faz tudo junto, que partilha, que chora, que ri. Que se ama e tem consciência do valor de cada um enquanto pessoa e enquanto membro dessa família e da sociedade da qual participa. Casamento: meio de santificação O casamento é o Sacramento da unidade. É Deus quem une o homem à mulher, pois é Ele a unidade mesma do homem e da mulher. “Deus é o próprio amor que o homem e a mulher repartem e no qual eles se comunicam um ao outro”1. Portanto,

Uma família numerosa, dom de Deus! José Ricardo F. Bezerra e Beatriz Helena Mattos D. Bezerra, consagrados na Comunidade de Aliança Shalom, seus setes filhos e genro (da esquerda para a direita): Lia Beatriz, Felipe, Maria Clara, Giovanna, Francisco Júnior (genro), Renata, José Ricardo, Beatriz, Ricardo e Myrian.

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“O casal que sabe em quem acreditou, procura seu lugar aos pés de Jesus, na Eucaristia, no terço diário, na leitura da Palavra de Deus. Desse modo, conseguem centrar sua vida na Rocha e fugir dos ídolos ao se redor” o matrimônio não é uma aliança humana, mas sobrenatural, e, sob o caráter da sobrenaturalidade, gera a unidade indissolúvel entre os cônjuges. Ademais, os casais contam então com a Graça em tudo o que fazem em sua caminhada, inclusive na geração dos filhos, em seu papel co-criador com Deus. Sendo o casamento um meio de santificação, não é possível vivenciá-lo sem Deus. São inúmeras as tentações que sofrem os casais, independente do tempo em que vivem. Não somos capazes sequer de viver nosso dia-adia sem a oração. Surgem a inveja, o adultério, a competição no trabalho, o desânimo nas provas, a impaciência, entre outros desafios graves. O casal que sabe em quem acreditou, procura seu lugar aos pés de Jesus, na Eucaristia, no terço diário, na leitura da Palavra de Deus. Desse modo, conseguem centrar sua vida na Rocha e fugir dos ídolos ao se redor. Na pós-modernidade, o homem volta ao politeísmo e busca governar sua própria vida através dos astros, ou outros símbolos quaisquer. A família tem tomado um lugar interessante. O casal casa, nem sempre na religião Católica e, não tendo a noção da bênção que é um filho, põe-se a adiar esse projeto até juntar dinheiro suficiente para dar ao filho o que eles não puderam ter. Nesse caso, o número máximo de filhos seria dois e, de preferência, um menino e uma menina. Cada qual 20

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no seu quarto, possuindo tudo o que a nova tecnologia promove, e muito pouco diálogo e partilhas de vida. A família numerosa não tem espaço nesse contexto? Há sempre espaço para o amor. Sei de uma família que, na chegada antecipada de seu sexto filho, não havia nada em casa, sequer uma fralda. No entanto, a alegria de todos era tão intensa que logo surgiram fraldas de diversas crianças diferentes. Roupinhas lindas que talvez os pais nem pudessem comprar. Uma pessoa levou um berço e montou imediatamente e, em pouco tempo, menos que o espaço de um dia, a criança estava deitada em seu bercinho, tão linda e feliz, junto com sua numerosa família. Cada membro que se aproximava oferecia algo de si, porque o espaço da casa também estava pequeno. A Providência de Deus agira poderosamente na vida daquela família que cria. No entanto, convém colocar aqui que estas famílias que vivem em Deus, por Deus e para Deus sabem fazer sacrifícios. Desde bem pequenos são exercitados para tal. Pequenas asceses, renúncias, penitências. Sabem que cada um tem a sua vez na lista das necessidades familiares e, o mais importante, tem paciência de esperar sua vez. Compreendem a situação em questão. Nem sempre tem o melhor que o dinheiro pode dar, mas sabem que são cidadãos do Céu. Seu Pai nunca engana, nem decepciona.

“O homem é continuamente tentado a desviar o seu olhar do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos, trocando “a verdade de Deus pela mentira” (Rm 1,25); então a sua capacidade de conhecer a verdade fica ofuscada, e enfraquecida a sua vontade para se submeter a ela. E, assim, abandonando-se ao relativismo e ao ceticismo, ele vai à procura de uma ilusória liberdade fora da própria verdade.”2 “A família cristã é, portanto, chamada a fazer a experiência de uma comunhão nova e original, que confirma e aperfeiçoa a comunhão natural e humana.”3 A família cristã, pois, com serenidade, precisa gritar que a vida humana é um bem valiosíssimo e que nenhum motor humano pode ter o direito de cerceá-la. As famílias numerosas são um dom de Deus imensurável, e eu dou testemunho disso, pois nossos seis filhos são acostumados a dividir, a dialogar, a pensar no outro. A saúde espiritual e moral da família é um assunto fundamental para a sociedade civil e religiosa. Merece todo sacrifício em sua defesa e promoção. Não nos faltarão a graça de Deus e o amparo da Sagrada Família. “Tudo é graça!” (Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face) Notas: 1. LAROCHE, Michel. Uma Só Carne: a aventura mística do Casal. Ed. Santuário, 1987. 2. Carta Encíclica: O Esplendor da Verdade. Ed. Paulinas, 1993. 3. Exortação Apostólica: A Missão da Família Cristã no Mundo de Hoje. Ed. Paulinas, 1990.


A âncora da esperança está fixada lá no céu! É Jesus, com sua Ressurreição, quem sustenta a nossa esperança na eternidade

ORANDO COM A PALAVRA

A esperança é para nós qual âncora da alma

José Ricardo Ferreira Bezerra Missionário da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE

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Tomemos hoje uma passagem da Carta aos Hebreus, capítulo 6, versículos de 13 a 20 (Hb 6,13-20) que nos fala sobre a esperança, e façamos a Lectio deste dia. Tome sua Bíblia e leia devagar, à meia voz, três vezes, os versículos indicados. O autor sagrado explica como Deus é fiel às suas palavras ditas ao patriarca Abraão, o nosso pai na fé. “Deus mostrou com insistência aos herdeiros da promessa o caráter irrevogável da sua decisão e interveio com um juramento, afim de que por dois atos irrevogáveis, nos quais não pode haver mentira por parte de Deus nos comuniquem consolação segura, a nós que tudo deixamos para conseguir a esperança proposta.” (v. 17-18). O livro do Gênesis narra essa promessa que Deus fez a Abraão e a sua confirmação solene por um juramento (cf. Gn 22,16-18). São, portanto, dois os atos irrevogáveis de Deus: a promessa e o juramento. E Deus não mente (Tt 1,2).

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ntes de iniciar a leitura, peçamos o auxílio do Espírito Santo, aquele que inspirou os autores sagrados a escreverem o que Deus quis, para entendermos a sua vontade hoje. Oremos: “Ó vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis, acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado e renovareis a face da terra”. Oremos: “Ó Deus que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre de sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém”. Como você sabe, o objetivo desta seção é levá-lo a ler, meditar e orar com a Palavra de Deus através do antigo e comprovado método da Lectio Divina, que consiste em quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação.

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O diabo sim é que é mentiroso e pai da mentira (Jo 8,44). Mas, quantas vezes duvidamos do Senhor e damos ouvido aos enganos malignos, não é mesmo? E você, em quem tem acreditado? Você tem usufruído desta consolação segura da parte de Deus? O que você tem deixado para obter a esperança proposta? O que você espera mesmo? São Paulo diz que se temos esperança apenas nesta vida somos os mais infelizes dos homens (cf. 1Cor 15,19). Esperança Na continuação deste trecho chegamos a uma frase digna de anotação: “A esperança, com efeito, é para nós qual âncora da alma, segura e firme...” (v. 19). Os marinheiros sabem que a função da âncora é prender o navio, impedindo-o de ser arrastado pelas correntezas. Por isso, ela deve ser pesada e com garras para ser fixada no fundo do mar. E claro, ela precisa estar amarrada com correntes ou grossos cabos que não se rompam quando solicitados. Ao comparar a esperança com uma âncora, o autor sagrado mostra como esta virtude é importante na nossa vida espiritual para nos sustentar firmes nas investidas que sofrermos. Como está a sua virtude da esperança? Medite sobre ela. O Catecismo da Igreja ensina que há dois pecados contra a esperança: o desespero e a presunção (cf. 2091). “Pelo desespero, o homem deixa de esperar de Deus sua salvação pessoal, os auxílios para alcançá-la ou o perdão de seus pecados. O desespero opõese à bondade de Deus, à sua justiça porque o Senhor é fiel às suas promessas e à sua misericórdia. Há duas espécies de presunção. Ou o homem presume de suas capacidades (esperando poder 22

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“Não se desespere, pois o Senhor é misericordioso e bom! Mas também não seja presunçoso, nem em relação às suas capacidades (quem é você para se julgar tão poderoso), nem adiando sua conversão, pois o dia do julgamento virá como um ladrão” salvar-se sem a ajuda do alto), ou então presume da onipotência ou da misericórdia de Deus (esperando obter seu perdão sem conversão e a glória sem mérito).” Portanto, não se desespere, pois o Senhor é misericordioso e bom! Mas também não seja presunçoso, nem em relação às suas capacidades (quem é você para se julgar tão poderoso), nem adiando sua conversão, pois o dia do julgamento virá como um ladrão. E onde esta âncora da esperança foi lançada? Você entendeu a continuação da frase? Diz assim: “... penetrando além do véu, onde Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote para a eternidade, segundo a ordem de Melquisedec.” O “além do véu” aqui é uma referência ao “Santo dos santos”, o lugar mais sagrado do Templo que tinha um véu separando-o e onde o Sumo sacerdote só entrava uma vez no ano, no dia da Expiação (cf. Ex 26,33; Hb 9,7). Quando Jesus morre na cruz, o evangelista Mateus diz que o véu do Templo rasgou-se (cf. Mt 27,57), indicando que agora, por Jesus, todos nós temos acesso a Deus. Então concluímos que a âncora da esperança está fixada lá no céu! É Jesus, com sua Ressurreição, quem sustenta a nossa esperança na eternidade. Não é belo saber isso? Releia os versículos 19 e 20 para fixá-los melhor.

Oração Não dá vontade de louvar e bendizer a Deus? Você pode começar louvando-o por nos ter feito, em Jesus e por Ele, herdeiros da vida eterna. Bendiga-o pela sua bondade, fidelidade e misericórdia, agradeça-o pelas promessas e pelo cumprimento delas. Manifeste a sua gratidão pelo céu, por tantos que cremos já estarem gozando desta felicidade. Peça a graça da perseverança final para receber a coroa da glória reservada para os eleitos. Suplique a graça da renovação da virtude da esperança... Deixe-se levar pelo Espírito Santo em oração e contemplação dos mistérios celestes. Para terminar, anote em seu caderno de oração as graças que o Senhor o(a) fez experimentar nesta Lectio. Se quiser, escrevanos dando o seu testemunho. É uma alegria tê-lo como leitor(a). Veja os endereços na contracapa da revista ou ainda este meu email josericardo@comshalom.org. Ó Deus, que pela ressurreição do Cristo nos renovais para a vida eterna, dai ao vosso povo constância na fé e na esperança, para que jamais duvide das vossas promessas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém. Ó Maria, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, rogai por nós que recorremos a vós! Até o próximo mês! Shalom!


REPORTAGEM

Renascer 2012: “Eis que vou fazer obra nova”

Shalom Maná | Abril 2012

O Renascer foi o primeiro grande evento de evangelização de multidões realizado pela Comunidade Católica Shalom. Sua primeira edição reuniu mil pessoas e aconteceu em 1986. Nesta edição, o evento bate recorde de público e marca o início da celebração dos 30 anos de ação evangelizadora da Comunidade

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Por Vanderlúcio Souza, Tereza Fernandes, Dahiana Araújo, Bruna Pedroso, Ana Beatriz Vancini.

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ara experimentar um carnaval diferente, de louvor e adoração, e com uma alegria que não passa na quarta-feira de cinzas, 37 mil participantes se reuniram no ginásio Paulo Sarasate, em Fortaleza (CE), durante os três dias do Renascer 2012, de 19 a 21 de fevereiro. Foram 13 mil pessoas no primeiro dia, domingo, 10 mil na segunda-feira e 14 mil no encerramento. Com o tema “Eis que vou fazer obra nova” (Is 43,19), o evento foi o destino escolhido por centenas de famílias que decidiram aproveitar o feriado prolongado louvando e adorando a Deus. Ao todo, oito pessoas da família de Anívia Atália trocaram o “carnaval do mundo”, segundo ela, para prestigiar o Renascer. “Nós não vamos ter ressaca, nem dívidas e ainda vamos chegar na quarta-feira de cinzas abençoados”, disse Anívia, que chegou ao local com mãe, primos, sobrinho, cunhado e irmã.

Segundo um dos coordenadores do evento, Tobias Cortez, o público dos três dias do Renascer foi recorde. “É uma vitória da graça de Deus que as pessoas não querem mais uma alegria passageira”, destacou Cortez. Depois do evento, segundo ele, é importante que as pessoas continuem a experimentar da graça de Deus em um grupo de oração. “O essencial é que, a partir do Seminário, as pessoas vivam no caminho da graça”, completou. Os espaços de aconselhamento e confissão foram muito procurados por quem desejou se reconciliar com Deus ou receber orações e conselhos de modo individual. Foram 1.042 pessoas atendidas no aconselhamento em todo o Renascer. Segundo a coordenadora geral de oração e aconselhamento de Fortaleza, Lia Maria Lopes Marcelino, as pessoas têm necessidade de serem ouvidas. “O individualismo, o egoísmo, o mundo que não para mais para ouvir”, explicou. Lia Maria disse ainda que há uma maior procura pelo aconselhamento logo depois da adoração ao Santíssimo Sacramento ou da Efusão do Espírito Santo.

Foto: Fernando Maia


Foto: Fernando M

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Foto: Fernando M

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Na confissão, totalizaram 828 fiéis. Na abertura do evento, 291 pessoas foram atendidas, seguidas por 384 no segundo dia e 153 no último. De acordo com a coordenadora do Projeto com Maria pelos Sacerdotes, Karine Cysne, há pessoas que já não buscavam a reconciliação há muito tempo. Segundo ela, normalmente elas vão após os momentos de adoração ou for26

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mação. “São tocados e sentem a necessidade de se reconciliar com Deus”, explicou. Pregações Embasado na Palavra de Isaías 43,19, Carmadélio Silva, membro da Comunidade Shalom, pregou sobre o tema geral do Renascer: “Eis que vou fazer obra nova”. Silva levou o público a refletir sobre a obra que Jesus quer realizar em cada pessoa e exortou

sobre o maior desejo do coração de Deus, que é a conversão do seu povo. “O Senhor tem um desígnio de amor e felicidade para a nossa vida. Ele nos ama como somos, mas nos ama demais para querer que fiquemos como estamos. O fato de saber que somos amados não significa que nós não precisamos de mudanças. Será que nada na nossa vida precisa ser transformado?”, questionou.


“A experiência com Deus mudou a nossa juventude, mudou a nossa família. Abriu nosso coração para a graça do seu Espírito Santo que revolucionou a nossa vida e nos deu ardor e ânimo para seguir Jesus na radicalidade do Evangelho”(Moysés Azevedo) Entre aplausos e interações com o público, o Fundador e Moderador Geral da Comunidade Católica Shalom, Moysés Azevedo, abriu a programação de pregações do último dia do Renascer 2012. O tema “Obra nova: iniciativa do Espírito Santo” foi uma preparação para a efusão do Espírito Santo. “A felicidade é do tamanho de Deus e só Deus pode preencher os vazios mais profundos dos nossos corações. Só o Espírito Santo de Deus”, explicou Moysés Azevedo. Ele destacou, ainda, que o Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade e é o dom maior que o Senhor deseja nos dar. “Se pedirmos o Espírito Santo, Ele nos dará. O Pai celeste quer te dar o maior de todos os dons. Ele quer te dar ‘a graça’, ‘o dom’. Quer derramar graças em você”, disse. Durante sua fala, Moysés Azevedo relembrou sua experiência com Deus. Em 1976, aos 16 anos, ele descobriu o amor de Deus de forma pessoal e, aos 18 anos, recebeu a efusão do Espírito Santo. O Fundador da Comunidade relembrou também que, em 1980, doou sua vida e sua juventude à Igreja durante a visita do beato João Paulo II, então papa. A passagem bíblica tema do Renascer 2012 foi uma das palavras que Deus deu aos primeiros integrantes da Comunidade Sha-

lom quando estavam no início da caminhada: “Eis que vou fazer obra nova”. “A experiência com Deus mudou a nossa juventude, mudou a nossa família. Abriu nosso coração para a graça do seu Espírito Santo que revolucionou a nossa vida e nos deu ardor e ânimo para seguir Jesus na radicalidade do Evangelho”. A Obra Shalom, segundo ele, é uma Obra Nova diante do deserto. “Para que essa Obra existe? Para você. Para que você experimente a verdadeira felicidade e o amor do Espírito Santo que podem mudar você”, disse. Doação A solidariedade também foi um ponto alto do Renascer 2012, por meio da parceria entre a Comunidade e o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (HEMOCE). O número de doadores de sangue ultrapassou o total do ano passado já no segundo dia do evento, segundo a coordenadora da captação de doadores do HEMOCE , Nágela Lima. Foram 90 bolsas de sangue no primeiro dia, 95 no segundo e 108 no último dia, totalizando 293 doações. Na campanha do ano passado, foram 171 doações. “A cada ano esse número vem melhorando”, destacou Nágela. Ela fez questão de agradecer a todos os doadores e ressaltou que

a meta inicial era de 250 bolsas de sangue nos três dias. Além disso, 15 pessoas se cadastraram como doadores de medula. Nágela ressaltou o êxito da parceria, que acontece há nove anos, entre a Comunidade Shalom e o HEMOCE em eventos como Halleluya e Renascer. “Nesses momentos, o que nós queremos também é fidelizar os jovens doadores”, explicou. Renascerzinho Não só o público de adolescentes e adultos experimentou a alegria de estar na presença de Deus. No Renascerzinho, mais de 600 crianças aprenderam sobre o amor de Deus com uma linguagem lúdica, própria para elas. O público-alvo tem entre 5 e 11 anos. “Muitos pais aderem a essa ideia, entendem que é melhor para eles porque sabem que aqui estão em segurança”, destacou a coordenadora do evento, Luciana Albuquerque. A Palavra de Deus, segundo ela, é ensinada com atividades lúdicas como teatro, brincadeiras, pintura, colagem. O tema geral do evento foi discutido de forma pedagógica, com auxílio de imagens que representam renovação. No primeiro dia, foi usada a figura da borboleta para mostrar que Deus faz mudanças em nossas vidas. No segundo dia, a imagem da www.edicoesshalom.com.br 27


“O Senhor tem um desígnio de amor e felicidade para a nossa vida. Ele nos ama como somos, mas nos ama demais para querer que fiquemos como estamos. O fato de saber que somos amados não significa que nós não precisamos de mudanças. Será que nada na nossa vida precisa ser transformado?” transformação da semente em árvore com a Parábola do Semeador (Mt 13,3-9). No último dia, foi a vez de lembrar a conversão de Paulo, mostrando a amizade entre o apóstolo e Jesus. Seminário Depois de dias intensos de oração, louvor e adoração, o Seminário de Vida no Espírito Santo, realizado no Renascer 2012, chega ao momento mais esperado pelos participantes: a Efusão do Espírito Santo. A quadra do ginásio Paulo Sarasate e parte das arquibancadas ficaram cheias de pessoas clamando pela bênção de Deus. “A efusão é a renovação da graça do Batismo. É o ponto alto do Seminário”, explicou o Assessor Missionário da Comunidade Católica Shalom, Padre Karlian Vale. Antes da imposição das mãos e das orações em cada um dos fiéis, Moysés Azevedo orientou que todos os presentes invocassem o Espírito Santo. “Deus derramará generosamente o seu Espírito. O recebimento dessa graça é a medida da abertura do seu coração”, disse. Padre Antonio Furtado também conduziu parte da oração e pediu a vinda do Espírito Santo sobre todos. “Vem, Espírito Santo. Esta é a tua hora. Cura-nos, transforma-nos”. 28

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A responsável pela missão da Comunidade Shalom em Fortaleza, Gabriella Dias, ressaltou que não há motivo para temer ou para desconfiar que Deus venha em seu auxílio quando invocado. “O Senhor te abraça e fala ao teu coração”. A Cofundadora da Comunidade, Emmir Nogueira, completou dizendo que o Senhor opera muitas libertações e expulsa o medo. “Eu vim tomar o meu lugar na tua vida, diz o Senhor”. A experiência foi única, segundo Jaqueline Holanda, 23. Pela primeira vez, ela viveu a graça de receber o Espírito Santo durante o Seminário. “Foi maravilhoso, inexplicável. É uma alegria muito grande que vem de Deus”. Alegria que se renova mesmo entre quem já participou do Seminário outras vezes. “No ano passado, Deus me deu o dom de línguas e agora, o repouso no Espírito. Uma pessoa me confirmou que eu estava recebendo um dom”, conta a estudante Juliana dos Santos, 21. Pela primeira vez como serva de seminário, a missionária da Comunidade de Aliança Shalom, Maria Lúcia Silva, sentiu sua experiência com Deus renovada. Segundo ela, Deus também age pelo serviço. “Deus renovou o meu Batismo, os meus dons”.

Por todo o país Além de muito louvor, oração e pregações, fizeram parte da programação do Renascer cursos, Seminário de Vida no Espírito Santo, atividades artísticas, Adoração ao Santíssimo Sacramento e Celebração Eucarística. O Renascer é um retiro de carnaval promovido pela Comunidade Católica Shalom desde 1986 - na época, os católicos promoviam retiros fechados durante as festas carnavalescas - quando surgiu a inspiração de fazer um retiro aberto ao público com o objetivo de oferecer aos participantes uma experiência pessoal com a pessoa de Jesus Cristo. Ao longo dos anos, os testemunhos de transformação de vida foram atraindo um número maior de participantes, que desejavam viver a experiência de um carnaval diferente, e os retiros multiplicaram-se por todo país. Também conhecido como Reviver, o evento aconteceu ainda em diferentes cidades do Interior do Ceará e de outros Estados do país: Aracati (CE), Crateús/Ipueiras (CE), Juazeiro do Norte (CE), Pacajus (CE), Quixadá (CE), Sobral (CE), Aracaju (SE), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campos (RJ), Chaves (PA), Florianópolis (SC), Garanhuns (PE), Guarulhos (SP), João Pessoa (PB), Macaé (RJ), Macapá (AP), Maceió (AL), Mossoró (RN), Palmas (TO), Parnaíba (PI), Patos (PB), Perdizes (SP), Propriá (SE), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Santo Amaro (SP), São Paulo (SP), Senhor do Bonfim (BA) e Teresina (PI).


a IGREJA CELEBRA

Santa Catarina de Sena: “Esposa de Cristo na fé” “Com o fogo do teu amor, acendes os nossos corações com o desejo de te amar e de te seguir na verdade. Só tu és o Amor, somente digno de ser amado!” (Santa Catarina de Sena)

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ascida no ano de 1347, na Itália, Catarina foi criada em uma família numerosa, com seus 25 irmãos, em meio a uma educação católica. A graça e eleição de Deus sob esta Santa já começariam cedo. Aos 7 anos de idade, ela consagrou sua virgindade a Cristo. Aos 16 anos, entrou na Ordem Terceira Dominicana. Apesar da sua grande simplicidade e recolhimento na sua vida de oração, ela foi sempre aberta ao serviço

caritativo por conta da realidade da sua época. Em uma Europa marcada por guerras e disputas entre reinos, no século XIV, surge Santa Catarina. O Papa Bento XVI, em catequese sobre esta Santa, nos diz: “Quando a fama de sua santidade espalhouse, foi protagonista de uma intensa atividade de aconselhamento espiritual na relação com todas as categorias de pessoas: nobres e políticos, artistas e gente do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, incluindo o Papa Gregório XI que, naquele

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Márcio André Teixeira Barradas Seminarista da Comunidade Católica Shalom em Aquiraz/CE

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período, residia em Avignon e ao qual Catarina exortou enérgica e eficazmente que retornasse para Roma. Viajou muito para solicitar a reforma interior da Igreja e promover a paz entre os Estados: também por esse motivo, o Venerável João Paulo II desejou declará-la copadroeira da Europa: o Velho Continente nunca poderá esquecer as raízes cristãs que formam a base de seu caminho e continua a desenhar, a partir do Evangelho, os valores fundamentais que asseguram a justiça e a harmonia.”1 Dentro da espiritualidade de Santa Catarina podemos destacar três pontos: intimidade com Deus, piedade e arrependimento e a Divina Providência. A intimidade com Deus Na sua obra “O Diálogo”, Santa Catarina preocupa-se com a busca do conhecimento da Verdade e do sumo Bem, que é Deus. É importante lembrar que esta obra de Santa Catarina, na verdade, foi organizada pelo Beato Raimundo de Cápua, e ditada por ela, a alguns ajudantes, que registravam as experiências místicas que a Santa tinha com Deus, ora reveladas por Deus Pai, ora por Deus Filho. Em uma das locuções, Jesus nos ensina que o passo inicial e fundamental para a busca da Verdade é o autoconhecimento: “O Caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência do meu ser – Vida eterna que eu sou – é este: nunca abandones o autoconhecimento! Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas.”2 Diante de tal conhecimento, o homem depara-se com o nada que é, e reconhece que o seu ego30

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ísmo é a fonte de todo o seu pecado. Por isso, há uma importância em reparar os nossos pecados. Para chegarmos à perfeição, existe o que a Santa chama de “degraus do amor”, que são três: amor servil, amor interesseiro e, por último, amor amizade. O amor amizade reflete o mais sublime estado que o nosso relacionamento com Deus pode chegar. O Senhor revela a Santa Catarina o que significa este amor amizade: “A amizade íntima consiste nisto: que são dois corpos, mas uma só alma no amor, pois o amor transforma (o amante) na coisa amada. E quando (os amigos) se tornam uma só alma, entre eles já não haverá segredo. Por isso dizia meu Filho: ‘Viverei e moraremos juntos.3’” Portanto, no amor amizade, aquele que alcança esse estado de graça, tem uma grande semelhança com os sentimentos de Cristo. Deseja estar constantemente em comunhão e escuta com o Pai: “Filha querida, convence-te de que na oração contínua, fiel e perseverante que todas as virtudes são adquiridas.”4 Ou ainda, fazendo um paralelo entre a vida de oração e o autoconhecimento: “Como é agradável ao orante e a mim a prece feita na cela do autoconhecimento.”5 Ademais, o Papa Bento XVI faz-nos lembrar do místico e profundo relacionamento que Santa Catarina tinha com Jesus: “Em

uma visão que jamais se apagou do coração e da mente de Catarina, Nossa Senhora apresentou-a a Jesus, que lhe deu um esplêndido anel de ouro, dizendo: ‘Eu, teu Criador e Salvador, esposo-te na fé, que conservarás sempre pura, até quando vieres celebrar comigo no céu as tuas núpcias eternas’ (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Sena, Legenda maior, n. 115, Sena, 1998). Aquele anel foi visível somente para ela.”6 Vale fazer a ressalva que, para Santa Catarina, a graça de deparar-se de forma humilde com os nossos pecados só é eficaz se estivermos com o olhar na paixão de Cristo, pois o erro ocorreria se formos falseados por nossos sentimentos de autocondenação: “Se não forem acompanhados pelo pensamento da paixão, o autoconhecimento e a reflexão sobre os próprios pecados, confundem a alma.”7 Esta Santa também soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante da vida virtuosa de Santa Catarina. “Maldita sejas tu, pois de nenhum modo consigo vencer-te! Se te rebaixo ao desespero, tu te elevas à misericórdia; se te engrandeço de vaidade, tu te rebaixas até o inferno pela humildade e aí me persegues. Não voltarei mais; tu combates com a lança da caridade”8, disse a ela o demônio.

“Ao deparar-nos com a nossa fraqueza e miséria, numa graça particular de arrependimento de coração, chegamos ao choro. As lágrimas, então, são os frutos externos de algo que acontece de forma intensa e verdadeira no nosso interior, que é o desejo de mudança de vida”


Dom das Lágrimas Percebemos o quanto estava aflorado no íntimo de Santa Catarina a busca constante e intensa do autoconhecimento, e isto era fruto da sua contínua e profunda vida de oração, já que quando nos aproximamos de Deus, conhecemos a Ele e a nós mesmos. Ora, o amor sincero leva-nos a uma reta postura diante de Deus e também dos homens. Ao deparar-nos com a nossa fraqueza e miséria, numa graça particular de arrependimento de coração, chegamos ao choro. As lágrimas, então, são os frutos externos de algo que acontece de forma intensa e verdadeira no nosso interior, que é o desejo de mudança de vida. Existem cinco tipos de lágrimas que se diferenciam pelo estado em que a pessoa se encontra. No primeiro, ocorrem as lágrimas por estarmos em estado mortal. No segundo, compreendemos os males dos nossos pecados e há uma busca de conversão. No terceiro tipo, há uma superação do temor servil e, em seguida, atingimos o amor e a esperança. O quarto tipo de lágrimas refere-se à prática das virtudes. Já no quinto, o Senhor fala a Santa Catarina das lágrimas de fogo do Espírito Santo: “Existe alguma lágrima que não saia dos olhos? Sim, existe um pranto de fogo, procedente do desejo santo e que faz consumar-se no amor por mim. (...) Ao que parece, foi quanto pretendia afirmar o glorioso apóstolo Paulo, ao dizer que o Espírito Santo chora em mim ‘com gemidos inenarráveis’ (Rm 8,26), a vosso favor.”9 Por isso, não se pode queixarse quem, por conta de seu tempo de caminhada com Deus, não tem o dom das lágrimas sim-

plesmente porque não derrama as lágrimas que deseja. A Deus não interessa se nós derramamos lágrimas externas ou lágrimas do Espírito: “Em todo estado de vida e ocasião, tais pessoas podem agradar-me. A menos que seu espírito se afaste de mim por falta de fé e de amor.”10 Providência Divina Para Santa Catarina, o amor a Deus e o desejo de conversão e santidade não ficavam parados apenas em um olhar em si mesma, mas ela tinha um olhar voltado para a humanidade, para o padecimento do homem diante da vida de pecado e engano. Santa Catarina olha para Deus, criador e redentor, e o vê à frente da história do homem. Não que Ele seja causador ou indiferente aos males do homem, mas ela vê Deus que intervém na história. A isto chamamos de Providência Divina. Pela Providência Divina, foi criado o homem. Este, no mau uso de sua liberdade, desobedece a Deus e peca, e todos os homens herdam, a partir do pecado original, a concupiscência e a culpa. O que restaria à humanidade? A separação eterna do homem de Deus. Mas Deus intervém, providenciando a Encarnação, vida, paixão e morte de Cruz do seu Filho, para que, em sua obediência, Ele salve e repare o pecado de toda a humanidade. Santa Catarina relaciona a Providência Divina como a verdadeira esperança do homem, como ensina Deus Pai: “Também dei à humanidade o conforto de uma esperança. Ao dar valor ao preço do sangue com que foi remido, o homem sente uma firme esperança e grande certeza de salvação. Se é verdade que

sempre me ofende com todos os sentidos, também foi com o corpo inteiro que meu Filho tolerou grandíssimos tormentos. Por sua obediência, ele cancelou vossa desobediência. Ainda mais: de sua obediência recebestes a graça, da mesma forma como da desobediência de Adão havíeis herdado a culpa.”11 Por último, é importante ressaltar a relação entre a experiência pessoal e o amor e a Providência de Deus. “A esperança humana é mais ou menos perfeita conforme o amor da pessoa; será igualmente nessa medida que cada um terá a experiência da minha Providência. Aqueles que me servem e só em mim confiam, experimentála-ão mais profundamente do que as almas cuja esperança se fundamenta em interesses e compensações.”12 Peçamos a Deus, por intercessão de Santa Catarina de Sena, a graça de termos Cristo como o Esposo de nossa fé, e, apaixonados e servos da Igreja, sejamos atentos ao que o Espírito Santo deseja de nós como discípulos e missionários de Cristo, servindo à Igreja e à humanidade. Shalom! 1. BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/ benedict_xvi/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20101124_ po.html. / 2. SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 33. / 3. Idem. p. 132. / 4. Idem. p. 139. / 5. Ibidem. / 6. BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: idem acima. / 7. SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 141. / 8. Idem. p. 142. / 9. Idem. p. 187. / 10. Idem. / 11. Idem. p. 305. / 12. Idem. www.edicoesshalom.com.br

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ESPECIAL

São José, lugar-tenente do Pai José é o novo Abraão, que exercita a sua fé velada em sonhos. Ele provavelmente nunca viu um milagre de seu Filho, mas acreditou na Imaculada Conceição, no seu parto virginal e que Ieshuah era Emanuel, Deus conosco Cassiano Rocha Azevedo

Missionário da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE

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uando o Senhor derrama o seu Espírito Santo, Ele nos conduz aos primórdios para realizar a sua obra de renovação, ao “illud tempus”, ao tempo do início da ação divina na humanidade. É o que chamamos vivências originárias ou vivências antropológicas fundantes. Estas vivências abrem possibilidades de sentido para a vida e ambientam a percepção da sacralidade. Elas podem ser afetivas, como a hospitalidade, e sensoriais, porque deixam uma inscrição interior. A primeira vivência primordial que experimentamos foi com a Trindade, pois saímos dela, na hora que à semente de nossa mãe se uniu a semente de nosso pai. Não viemos do acaso, saímos da Trindade. Isto faz uma grande diferença no processo de cura interior, no delinear da autoestima, na referência fundante de minha vida.

Saí das mãos de um Deus Uno e Trino que é família, onde cada pessoa tem uma missão diferente e complementar, numa mesma natureza, que é o amor. Esta vivência primordial Trinitária é: - Sensorial, pois deixou uma inscrição de amor em meu ser; - Interior, pois é uma inscrição arquétipa, do grego arqué (primordial) e typos (imagem). São imagens primordiais, estruturas simbólicas do inconsciente coletivo. Segundo Jung: “Símbolos chave de um patrimônio universal repousando sobre camadas mais profundas do psiquismo humano”; - Pré-conceitual, pois antecede os conceitos; - Sintética, pois unifica o homem inteiro; - Abridora de janelas na imagem figurativa de casa, porta, escada; - Memoriais, pois tocam na memória.


Temos uma saudade anterior à saudade do paraíso: a saudade da Trindade. A Trindade esteve presente em toda a obra de criação. “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). Ela foi hospedada por Abraão. Para o habitante do deserto, o dever de hospitalidade era sagrado e reinscrevia a vivência originária primordial Trinitária. Todo homem necessita de proteção, abrigo, nutrição e sustento. Nós, que já fomos hóspedes da Trindade, somos agora chamados como Abraão a hospedar a Trindade, que se manifesta no irmão que sou chamado a acolher e hospedar em minha casa. Abraão acolheu a Trindade e esta reacolheu Abraão, elegendo-o e escolhendo-o para ser pai de uma multidão. A Trindade é amor, abertura e serviço. Ela extrai o melhor das pessoas. E, ao pedir o melhor de Abraão, que era Isaac, ela o devolve de maneira nova, selando a sua promessa pela prova da oferta do que há de mais caro em mim. No ícone da Trindade de Adrej Rublev, cada uma das pessoas é designada por um sinal. Assim, sobre a cabeça do Pai está a tenda de Abraão, que é prefiguração da Igreja, atrás de Cristo está a árvore da cruz, e sobre a pessoa do Espírito Santo, a rocha onde Abraão ofereceu Isaac. Lugar-tenente do Pai No ícone da Sagrada Família da Igreja de Cecina (Itália), todos estes sinais estão sobre José, lugar-tenente do Pai. Ou seja, o imediato do Pai celeste aqui na Terra, no nosso caso, em relação à afeição, previdência e providência. José é o www.edicoesshalom.com.br 33


“Ser devoto de José não é só fazer novenas para conseguir os bens materiais, mas erguer uma tenda de fé em louvor a Iahweh, aceitar o que a Providência prepara para nós, no dia a dia, e cooperar com a ação divina sendo previdente, providente, guardando e conservando a criação”

novo Abraão, que exercita a sua fé velada em sonhos. Ele provavelmente nunca viu um milagre de seu Filho, mas acreditou na Imaculada Conceição, no seu parto virginal e que Ieshuah era Emanuel, Deus conosco. Ora, vemos que a Providência Divina age previdentemente quando a Trindade planta um jardim para acolher o homem, dando-lhe árvores frutíferas e formosas à vista. Ela também age providencialmente, conservando, mantendo, guardando sua criação. “O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a Oriente, tomou o homem e o estabeleceu no jardim de Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2,8.15). No Apocalipse, São João tem uma visão de um belo jardim com árvores cujas folhas servem para curar as nações. “Mostrou-me depois um rio de água da vida, límpido como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça, de um lado e do outro do rio há árvores da vida que frutificam doze meses, dando fruto a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 22,1-2). Se já estamos na glória, de que precisamos ser curados? “O 34

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homem será curado não de uma ferida ou do pecado, mas a árvore manterá o homem na sua condição de homem, ser finito que, não tendo vida em si mesmo, a recebe constantemente da cruz, e este dom não deve nem pode cessar. Precisamos ser curados e mantidos por Deus” (Pe. Jacques Marin). José não só é ecônomo da família de Nazaré, mas, como Abraão, ele constrói a sua tenda de fé entre Nazaré e Belém - com suas hospedarias lotadas - na fé de que Deus se manifestaria em meio ao esterco dos animais, de que o Menino Messias deveria encarnar o servo sofredor, que se nutriria de fazer com prazer a vontade de Adonai. Sim, a fé na Providência que Yeshua ha Massiah, Jesus é o Messias, o Emanuel, o Deus conosco. José sustenta a Sagrada Família com sua fé, que é previdente: ele faz o berço do Menino com carinho, mas se desapega quando sabe que deve ir a Belém, amplia o leque da Providência com o “Conservatio Fides”, a conservação da criação depende da conservação da fé. Ele não matará um novo cordeiro, como Abraão para ofertar a Deus, mas alimen-

tará com o suor do seu rosto o Cordeiro que será alimento para toda a humanidade e, qual seu ancestral, José do Egito, vê nos acontecimentos mais escabrosos, oportunidades de manifestação da Providência Divina. Por isso, ser devoto de José não é só fazer novenas para conseguir os bens materiais, mas erguer uma tenda de fé em louvor a Iahweh, aceitar o que a Providência prepara para nós, no dia a dia, e cooperar com a ação divina sendo previdente, providente, guardando e conservando a criação. Isto inclui todos aqueles que Adonai lhe confiou; pois eles são parte do corpo de Cristo que José, como lugar-tenente do Pai, protegeu, guardou, proveu, previu, planejou e confiou. Sim, Deus prevê amorosamente a nossa moradia, plantando um jardim antes de nos criar, e em Cristo Jesus vai preparar para nós um lugar. Ser devoto de José é cooperar para que emerja do fundo de nossa alma as marcas da Trindade, através de um matrimônio aberto em exercício da hospitalidade, construindo uma cultura de proteção, conservação, cuidado e amor à vida desde a concepção, quando saímos da Trindade, até os últimos instantes, quando retornaremos para Aquele que nos criou. Ser devoto de José é engajarse politicamente na luta pela vida contra os Herodes de hoje, que querem construir uma cultura de morte. Lugar-tenente, corresponsável por prover, guardar, cuidar e conservar a criação, os homens e a Igreja José, patrono da Igreja, fazei o nosso coração semelhante ao vosso!


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por José Ricardo Ferreira Bezerra

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VERTICAIS 1 - Esposo ganancioso e esposa dominadora e má (1Rs 21,1-27) 2 - Esposo pouco convertido e esposa conivente (At 5,1-10) 3 - Esposo vacilante e esposa que dá ouvidos ao Mal (Gn 3) 4 - Esposo chamado por Deus e esposa que era filha de sacerdote pagão (Ex 3,20;18,2) 5 - Esposo atencioso e esposa perseverante na oração (1Sm 1-2) 6 - Esposo justo e esposa cheia de graça (Mt 1,18; Lc 1,26) 7 - Esposo trabalhador e esposa fecunda (Gn 30,16) 8 - Esposo e esposa missionários evangelizadores (At 18,2.18.26; Rm 16,3) 9 - Esposo que morreu cedo e esposa temente a Deus (Jt 8,1-8) 10 - Esposo e esposa que rezam juntos (Tb 8) 11 - Esposo sedento de Deus, mas leviano e impulsivo e esposa cruel (Mc 6,17-29)

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O gato e os camundongos

Moral da história: “Os homens prudentes não se deixam enganar por velhos truques.”

indicamos

E agovra, para onde amos? Em um vilarejo libanês, cristãos e muçulmanos convivem pacificamente, isolados do resto do mundo, graças ao colapso providencial de uma ponte. Mas, de vez em quando, os ecos da guerra, que recomeçou no país, chegam a eles por meio de uma televisão improvisada, e as mulheres se reúnem em segredo para encontrar um modo de dissuadir os homens do revoltar-se novamente uns contra os outros. O filme “E agora, para onde vamos?” é um hino à paz e à harmonia entre as religiões sem qualquer retórica, porque é baseado na realidade de muitas comunidades multiétnicas do Oriente próximo. A ambientação num pequeno vilarejo isolado do resto do mundo por causa da guerra, em um tempo não especificado, dá ao filme características de uma história que pode falar-nos sobre um tema universal, a paz. Uma mistura de comédia, fábula, drama e musical com uma capacidade de fazer-nos sorrir com coisas muito sérias. Título Original: Et maintenant, on va où? País: França, Líbano, Itália, Egito Ano: 2011 Direção: Nadine Labaki

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Um gato que, enfraquecido pela idade e, por isto, já sem condições de caçar camundongos, pensou em um modo de atraí-los ao alcance de suas patas. Para tanto, pendurou-se pelas pernas traseiras em uma pequena estaca, achando que os camundongos o tomariam por uma sacola ou, no mínimo, por um gato morto, dele arriscando aproximar-se. O primeiro camundongo que apareceu para dar uma olhada foi suficientemente prudente para se manter à distância: - Vi muitas sacolas na minha vida – sussurrou ele a um amigo -, mas nenhuma com cabeça de gato! O outro camundongo, por sua parte, disse ao gato: - Fique pendurado aí o tempo que quiser, mas eu é que não vou chegar perto. Você não é esperto o bastante para nós.

DIVIRTA-SE

HORIZONTAIS 1 - Eposo firme na fé e esposa nem tanto (Gn 18,11;21,1) 2 - Esposo agradável a Deus e esposa que salva o marido da morte (1Sm 19,11-17) 3 - Esposo envelhecido e esposa manipuladora (Gn 27) 4 - Esposo temente a Deus e esposa filha de sacerdote pagão (Gn 39,7-23;41,4657) 5 - Esposo sábio e esposa pacificada (Ct 3,9;7,1) 4 6 - Esposo trabalhador e esposa insistente (Gn 29,10) 7 - Esposo seduzido pela beleza e esposa que cobra as promessas (2Sm 11-12;1Rs 1-2) 8 - Esposo que duvidou do anjo e esposa firme (Lc 1,5-23;59-80) 9 - Esposo rico e ostentador e esposa humilde e altruísta (Est 2,17; 7,1-3) 10 -Esposo pescador e esposa preocupada com os filhos (Mt 4,21;20,20;27,56) 11 - Esposo fiel e esposa infiel (Os 1-3)

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Horizontal 1. ABRAAOESARA| 2. DAVIEMICOL | 3. ISAACEREBECA | 4. JOSEEASENET | 5. SALOMAOESULAMITA | 6. JACOERAQUEL | 7. DAVIEBETSABEIA | 8. ZACARIASEISABEL| 9. ASSUEROEESTER| 10. ZEBEDEUESALOME | 11. OSEIASEGOMER VERTICAL 1. ACABEJEZABEL| 2. ANANIASESAFIRA| 3. ADAOEEVA| 4. MOISESESEFORA | 5. ELCANAEANA | 6. JOSEEMARIA | 7. JACOELIA | 8. AQUILAEPRISCILA| 9. MANASSESEJUDITE | 10. TOBIASESARA | 11. HERODESEHERODIADES

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Casais na Bíblia

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ACONTECE NO MUNDO

Bento XVI apresenta mensagem para o 49o Dia Mundial de Oração pelas Vocações

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Vaticano publicou no dia 13 de fevereiro a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado no dia 29 de abril. Com o tema “As vocações, dom do amor de Deus”, o Santo Padre explica qual o sentido da vocação e como ela acontece na vida de cada pessoa. “Neste terreno de um coração em oblação, na abertura ao amor de Deus e como fruto deste amor, nascem e crescem todas as vocações”, escreveu o Pontífice. Bento XVI também fez um convite para que cada cristão redescubra o amor de Deus e anuncie essa vivência, principalmente para as novas gerações: “Por isso é preciso anunciar de novo, especialmente às novas gerações, a beleza persuasiva deste amor divino, que precede e acompanha: este amor é a mola secreta, a causa que não falha, mesmo nas circunstâncias mais difíceis”, ressaltou. Por fim, o papa pediu que as Pastorais Vocacionais incentivem a descoberta de vocações. Segundo ele: “É tarefa da pastoral vocacional

oferecer os pontos de orientação para um percurso frutuoso”. Bento XVI também enfatizou o papel da Igreja na construção de diferentes vocações e encorajou os agentes de pastorais para que conduzam cada fiel a mergulhar na beleza do chamado de Deus. Fonte: CNBB

Jordânia: novo centro de cultura católica

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Ministério da Cultura da Jordânia aceitou o pedido do Vicariato Latino de Amã de mudar o nome da “House of Research and Studies” (Centro de Pesquisa e Estudos) para “Catholic Centre for Studies and Media” (Centro Católico de Estudos e Mídia), aceitando também a nomeação do Padre Rifat Bader, atual Porta-voz da Igreja Católica na Jordânia, como seu diretor. O novo Centro foi aberto oficialmente no mês de março pelo Patriarca latino de Jerusalém, sua beatitude Fouad Twal. A mudança do nome, explica Padre Bader, reflete a nova missão do Centro, que quer se tornar um ponto de referência para as Igrejas na Jordânia, mas também para os meios de comunicação locais, árabes e internacionais

através de publicações, pesquisas e estudos. Em particular, ele terá a tarefa de organizar encontros , debates, teses; destacar o papel da religião na promoção da paz, da concórdia, do sentido cívico e da convivência entre as pessoas de credos diferentes e participar, ativamente, dos diferentes fóruns de reflexões promovidos sobre este assuntos em nível local e internacional. “O Centro – esclareceu Padre Bader –, se ocupará também de supervisionar a seção jordaniana de Noursart, o primeiro e único canal via satélite cristão do Líbano, ativamente comprometido na promoção do diálogo entre cristãos e islâmicos no Oriente Médio e no mundo”. Fonte: Rádio Vaticano


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erca de cem especialistas e educadores jesuítas de todo o mundo tiveram encontro marcado, de 5 a 8 de março, na Universidade Regis de Denver, em Colorado (EUA), para debater o futuro do projeto “Educação superior às margens” (“Jesuit Commons – Higher Education at the Margins”). Trata-se de uma nova iniciativa do Serviço Jesuíta para Refugiados (SJR) para o ensino superior a distância, especialmente dirigido às pessoas refugiadas. Com a colaboração de 13 ateneus jesuítas, o projeto se inspira numa experiência já realizada pela Universidade Católica da Austrália em favor dos refugiados birmane-

ses e prevê cursos a distância sobre o uso de computadores e Internet. Até agora, os cursos chegaram a refugiados de três campos: no Quênia, (Kakuma) Malavi (Dzaleka) e Síria (Aleppo). A ideia é colocar à disposição dos refugiados a extraordinária rede de serviços sociais e educativos da Companhia de Jesus, presente em mais de 100 países no mundo. Os quatro dias de encontro na Regis University de Colorado serviram para estudar novos projetos com delegados do SJR, de institutos jesuítas estadunidenses de educação superior, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e de jesuítas dos cinco continentes.

ACONTECE NO MUNDO

Jesuítas oferecem cursos a distância para refugiados

Fonte: Rádio Vaticano

Consistório cria 22 novos cardeais

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Dom João Braz de Aviz é prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada desde janeiro de 2011. O arcebispo, que durante muito tempo esteve à frente da arquidiocese de Brasília, passa a integrar o grupo de cardeais brasileiros composto por Dom Eugênio Sales, Dom Evaristo Arns, Dom José Falcão, Dom Serafim Fernandes Araújo, Dom Claudio Hummes, Dom Geraldo Majella Agnelo, Dom Eusébio Sheid, Dom Odilo Pedro Sherer e Dom Raymundo Damasceno de Assis. Fontes: CNBB e Vaticano

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espanhol Dom Santos Abril y Castelló, decano papal da Basílica de Santa Maria Maggiore (Roma), além de Dom João Braz de Aviz, único brasileiro, compõem a lista dos 22 novos cardeais que foram criados no Consistório do dia 18 de fevereiro, no Vaticano. Dom Castelló é arcipreste da Basílica de Santa Maria Maggiore desde novembro de 2011. Foi nomeado também vice-camerlengo da Igreja, o segundo homem na hierarquia da Igreja, na eventualidade de uma vacância da Santa Sé. Antes de assumir esses cargos, Dom Castelló cumpriu carreira de diplomata do Vaticano como núncio em vários países da América Latina, África e Bálcãs. O Cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB, também participou das celebrações, que tiveram lugar na Basílica de São Pedro, e na Sala Paulo VI, quando o papa Bento XVI recebeu os novos cardeais e convidados.

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FÉ E RAZÃO

Viver bem “Viver bem não é outra coisa senão amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e em toda forma de agir” (Santo Agostinho)

Jussara Tuli Missionária da Comunidade Católica Shalom em Aquiraz/CE

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que é essencial à vida? O que é viver bem? As campanhas de publicidade hoje apresentam tantas coisas como essenciais – mas que na verdade não o são – que vamos nos acostumando com os slogans e com as facilidades, a ponto de esquecermos do verdadeiro bem. Dessa forma, caímos em verdadeiras armadilhas! É muito raro encontrarmos um ambiente onde o discurso sobre as virtudes e a sua prática seja considerado importante; normalmente se prega o imediatismo e o hedonismo, enfraquecendo a temperança, a justiça, a fortaleza e a prudência, além da fé, esperança e caridade. Ou seja, as virtudes necessárias para vivermos uma vida verdadeiramente feliz. Desta relação de virtudes, as quatro primeiras são chamadas “cardeais”. Este termo vem do latim cardines, ou seja, dobradiças, significando que todas as outras virtudes se agrupam em

torno delas. São, portanto, eixos em torno dos quais gira toda a nossa vida moral. Vejamos como o Catecismo da Igreja Católica as apresenta: A prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizálo. (1806) A justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. (1807) A fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. (1808) A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. (1809) Nos próximos artigos, veremos detalhadamente cada uma das virtudes cardeais; hoje nos deteremos numa visão do todo, mesmo sabendo que estas não se dão isoladamente, o faremos assim por uma questão de didática. Sobre as virtudes O Catecismo ensina no art. 1804 que “as virtudes humanas (...) regulam nossos


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atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem”. Continua dizendo no artigo 1810, onde trata das virtudes e a graça, que “o homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las”. Anteriormente, no art. 1083, lemos que a virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Para adquirir um determinado hábito é necessária a sua repetição frequente e determinada. Por exemplo, para aprender a tocar violão não basta apenas conhecer todas as teorias e partituras, é necessário fazer exercícios, praticar. Porém, não se trata deste tipo de hábito, porque não diremos que um bom violonista seja um violonista virtuoso. Os valores deste mundo são incompatíveis com os valores do Evangelho, mas os cristãos não podem deixar de semear os verdadeiros valores em todas as realidades. Isso lança um grande desafio: como viver neste mundo sem pertencer a ele? São Paulo, na Carta aos Colossenses, nos orienta: “Visto que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, lá onde se encontra Cristo, sentado à direita de Deus; é no alto que está a vossa meta, não na terra. (...) Fazei, pois, morrer

Os valores deste mundo são incompatíveis com os valores do Evangelho, mas os cristãos não podem deixar de semear os verdadeiros valores em todas as realidades” o que em vós pertence à terra: devassidão, impureza, paixão, mau desejo e a tal cupidez que é uma idolatria. (...) Agora, pois, vós também livrai-vos de tudo isso: cólera, irritação, malvadez, injúrias, grosseria saída de vossos lábios. Não haja mentiras entre vós, pois vos despojastes do homem velho, com suas práticas, e revestistes do homem novo, aquele que, para ter acesso ao conhecimento, não cessa de ser renovado à imagem do seu Criador” (3,1-10). As virtudes, portanto, precisam ser vivenciadas, praticadas! É assim que seremos o sal da terra e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Para que a nossa vida seja plena de sentido, de valor, de significado profundo, não podemos nos deixar levar pelo vento dos caprichos, e viver segundo os ditames das paixões, que após uma breve e falsa satisfação, deixam um imenso vazio existencial. Fomos criados para o alto! É próprio do homem transceder. Precisamos

“Quando buscamos as coisas do alto, quando transcendemos, quando crescemos na prática das virtudes, nos tornamos livres, verdadeiramente felizes e realizados” 40

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nos desvencilhar do engano de que o esforço para adquirir a virtude e escolher o bem é um peso ou um fardo. Quando buscamos as coisas do alto, quando transcendemos, quando crescemos na prática das virtudes, nos tornamos livres, verdadeiramente felizes e realizados. Para o homem ferido pelo pecado, não é fácil manter o equilíbrio moral, por isso vem em nosso auxílio a graça de Cristo Jesus, o dom da sua salvação, Ele “nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes” (cf. Cat. 1811). Todos nós devemos e podemos contar com esta graça, pedi-la e, ao mesmo tempo, cooperar com o Espírito Santo, seguindo os seus apelos para “amar o bem e evitar o mal”. Concluamos citando Santo Agostinho: “Viver bem não é outra coisa senão amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e em toda forma de agir. Dedicar-lhe um amor integral (pela temperança) que nenhum infortúnio poderá abalar (o que depende da fortaleza), que obedece exclusivamente a Ele (e nisto consiste a justiça), que vela para discernir todas as coisas com receio de deixar-se surpreender pelo ardil e pela mentira (e isto é a prudência)1”. Shalom! 1. Sto. Agostinho, Mor. Eccl. 1,25,46: PL 32, 1330-1331. in Catecismo da Igreja Católica, 1809.


Shalom Maná | Abril 2012

Qual o valor da vida humana? Quando ela tem início? Que direitos e deveres temos sobre ela? A missionária Germana Perdigão nos ajudará a encontrar respostas para estas e outras perguntas, apresentando aspectos importantes que revelam a grandeza e o valor precioso da vida humana. A partir desta edição, você poderá conferir artigos relacionados ao tema “Bioética”

ESPECIAL

O valor da vida humana e da sua inviolabilidade

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Germana Perdigão

Missionária da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE

Q

ue é o homem? Qual o sentido e a finalidade da vida humana? Alguma vez você já pensou que a vida não pode ser simplesmente viver um dia após o outro? A vida é muito mais do que isso! Ela é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações. A vida é um bem indivisível e faz parte de um plano divino. Deus Pai preparou um plano maravilhoso para a sua vida e deseja que você seja feliz. Quando nos damos conta de que Deus tem um plano para nós, entendemos o motivo de vivermos. Deus quer que todos os seus filhos progridam e se tornem mais semelhantes a Ele. A vida humana tem em si mesma um valor inestimável, é sempre um bem, mas, infelizmente, a maioria das pessoas não consegue reconhecê-lo. É imprescindível, para que o homem conduza de forma correta

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Shalom Maná | Abril 2012

a sua vida e a daqueles por quem é responsável, conhecer o valor da vida humana. Existem alguns aspectos importantes que revelam a grandeza e o valor precioso da vida. Por que motivos ela é um bem? Entre tantos, podemos falar sobre alguns: A vida humana é dom de Deus Só Deus é propriamente eterno, isto é, não tem princípio nem fim. Em Deus, não existe passado nem futuro, mas um presente imutável. Deus sempre existiu, mas em determinado momento quis criar o mundo sem utilizar nenhum material pré-existente. A criação inteira é fruto do amor e da onipotência de Deus. Deus é o autor da vida e criou o homem e a mulher do nada O autor da vida é Deus. Só Ele pode dar a vida. Criar é uma prerrogativa só de Deus. Criar quer dizer “fazer que exista algo que antes não existia, tirandoo do nada”. Por si só, o homem não é capaz de dar a

vida. O homem não pode criar; ele pode modificar, por exemplo, o curso de um rio, ou fabricar um tecido, um carro, construir uma casa. Deus cr iou o homem do nada: “Façamos o homem...”1. Deus fez o homem do barro, com o trabalho de suas mãos, com grande atenção, desvelo e ternura: “Então o Senhor Deus modelou o homem da argila do solo, soprou alento de vida em seu nariz, e o homem se transformou em ser vivo”2. Deus criou o homem do barro e da água, criaturas inanimadas, sem alma, e soprou sobre ele o “nefesh”, o sopro da vida. Deus deu ao homem uma alma só dele; alma bela, pura, santa, imaculada, feita para viver unida a Ele3. Deus criou a mulher, também do nada, apesar de tê-la criado a partir de um homem vivente, não precisava disso para criá-la, porque Deus é Deus e tudo criou a partir do nada. A origem da mulher também é Deus. Foi Ele quem decidiu criá-la, como o homem, do nada. É importante saber que quando Deus usou da metade do homem para criar a mulher, usou também seu desejo de ser feliz, os anseios mais sinceros do seu coração, sua vocação para cuidar e ser cuidado, para proteger e ser protegido, seu chamado para amar e ser amado, sua necessidade de ser complementado por alguém semelhante a ele, sua humilde e sincera abertura à felicidade que vem da complementação e da partilha de vida4.


A origem e o fim do homem é Deus Portanto, a origem do homem é Deus. O homem veio de Deus e seu destino é Deus. A vida do homem é dom e é o maior talento que Deus deu a ele; ela encerra uma infinidade de graças, de potencialidades. A partir da vida, o homem pode desenvolver-se, crescer, experimentar as suas capacidades, contribuir para o crescimento da humanidade e do mundo. Deus criou cada homem fazendo dele um prodígio5. Só pelo fato de a vida ser um dom de Deus já explica o valor inestimável da mesma. Por esta razão, o Beato João Paulo II conclama o homem a ter um olhar contemplativo diante da vida, “é o olhar de quem observa a vida em toda a sua profundidade, reconhecendo nela as dimensões de generosidade, beleza, apelo à liberdade e à responsabilidade. É o olhar de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas a acolhe como um dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do Criador e em cada pessoa a sua imagem viva”6. Deus é o único Senhor da vida e da morte A Bíblia afirma que Deus é o único Senhor da vida e da morte: “Só eu é que dou a vida e a morte”7; “Vós, Senhor, tendes o poder da vida e da morte, e conduzis os fortes à porta do Hades e de lá os tirais”8; “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor”9. O homem não tem o poder de apropriar-se da vida e da morte

para decidir sobre elas. O homem não pode reivindicar para si a mais completa autonomia moral de decisão sobre a vida e a morte; ele não pode dispor da própria vida nem da dos outros como quer, porque o valor da vida não é relativo, não é um “bem simplesmente relativo, confrontada e ponderada com outros bens, segundo uma lógica proporcionalista ou de puro cálculo”10.

“Ter a vida nas mãos de Deus jamais será um risco, como alguns pensam, porque Deus é ‘amor em atos’, ou seja, tudo o que realiza é por amor. Todas as ações de Deus são amor” Muitas pessoas afirmam que são “donas” de sua própria vida, portanto, podem fazer dela o que quiserem. O Beato João Paulo II afirma: “A vida do homem provém de Deus, é dom seu, é imagem e figura dele, participação do seu sopro vital. Desta vida, portanto, Deus é o único Senhor: o homem não pode dispor dela. Deus mesmo o confirma a Noé, depois do dilúvio: ‘Ao homem, pedirei contas da vida do homem, seu irmão’ (Gn 9,5). E o texto bíblico preocupa-se em sublinhar como a sacralidade da vida tem seu fundamento em Deus e na sua ação criadora: ‘Porque Deus fez o homem à sua imagem’ (Gn 9,6) Portanto, a vida e a morte do homem estão nas mãos de Deus, em seu poder.”11 Diante da sua própria vida e da dos seus irmãos, não raramente o homem se apossa da liberdade

que Deus deu a ele para fazer da vida, independente de Deus, o que deseja. Mas a liberdade do homem só é autêntica se for baseada na verdade sobre o homem e sobre o mundo; verdade esta que não pode ser aparente, portanto, “Cristo continua a aparecer-nos como aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que espedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência”12. O homem deve dispor a sua vida nas mãos de Deus Ter a vida nas mãos de Deus jamais será um risco, como alguns pensam, porque Deus é “amor em atos”, ou seja, tudo o que realiza é por amor. Todas as ações de Deus são amor. Deus age amando. Estar em suas mãos, em seu poder, é estar em lugar seguro, porque Deus não exerce esse poder como arbítrio ameaçador, mas, sim, como cuidado e solicitude amorosa pelas criaturas. Se é verdade que a vida do homem está nas mãos de Deus, não o é menos que estas são mãos amorosas como as de uma mãe que acolhe, nutre e toma conta do seu filho. Por isto o homem pode dizer: “Fico sossegado e tranquilo como criança deitada nos braços de sua mãe, como um menino deitado é a minha alma”13. 1. Gn 1,26. / 2. Gn 2,7. / 3. Cf. Nogueira, Emmir. Ao amor da minha vida, Fortaleza: Edições Shalom, 2004, p.13. / 4. cf. ibidem p.15. / 5. (cf. Sl 139(138),14) / 6. Carta Encíclica Evangelium Vitae, 83. / 7. Dt 32,39. 8. Sb 16,13; cf. Tb 13,2. / 9. Rm 14,78. / 10. Carta Encíclica Evangelium Vitae, 68. / 11. Ibidem, 39. / 12. Carta Encíclica O Redentor do Homem, p. 34 e 35, Edições Paulinas. / 13. Carta Encíclica Evangelium Vitae 39, p. 77 e 78, Edições Paulinas. www.edicoesshalom.com.br 43


ENTRELINHAS

Ressuscitar dos mortos?!? O que isso significa?!?

Shalom Maná | Abril 2012

Deixemos de “procurar entre os mortos aquele que vive.” (Lc 24,5). Ele dará sentido a tudo. Ele, que é a razão de tudo

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Maria Emmir Oquendo Nogueira Cofundadora da Comunidade Católica Shalom

padrões tão empíricos e científicos como seus predecessores, até bem pouco tidos como igualmente “mensuráveis, reais, comprovados e verdadeiros”. Pois é. Tudo passa. Até mesmo a comprovaçao empírica do que teimamos em considerar “verdade” e “realidade”. Mas, dessa frágil efemeridade, quem deseja lembrar-se? Duas realidades humanas jamais mudaram. Têm permanecido as mesmas desde o primeiro homem: a morte – visível, palpável, inexorável, inevitável – e a ressurreição dos mortos – invisível, intangível, mas igualmente inexorável e inevitável. A diferença crucial entre as duas é que a primeira é tangível e temível companheira de todos os dias, enquanto a segunda é intangível e desejável, mas também companheira de todos os dias. Creiamos ou não. Neste sentido, dizer que não se crê na ressurreiçao de Jesus e dos mortos equivaleria a dizer que não se crê na morte de Jesus e de todos os homens. Teria, então, a dificuldade de Pedro, Tiago e João advindo unicamente do fato de a ressurreição dos mortos ser invisível? O pior é que não! Os três haviam visto a ressurreição da filha de Jairo e, provavelmente, a do filho da viúva de Naim, assim como veriam a de

Shalom Maná | Abril 2012

Como tem afirmado a Igreja, ao longo dos séculos, fé e razão nao se excluem. Pelo contrário, se completam. A fé, entretanto, é superior à razão e a norteia, por definição e abrangência. A razão, autêntico e necessário auxílio para a fé, traz em si os limites de nossa humanidade

ENTRELINHAS

P

or que será que o homem, que tem tanta dificuldade de aceitar a realidade inexorável da morte, parece ter ainda maior dificuldade em acolher a ressurreição dos mortos, a de Cristo e a sua própria? Não seria essa dificuldade uma contradição? Não seria de se esperar que, diante da morte inevitável, os seres humanos acolhessem aliviados o fato de que Cristo ressuscitou e, com Ele, todo homem também voltará à vida? Essa postura é, de fato, contraditória, mas, infelizmente, não é novidade. Pedro, Tiago e João, os discípulos mais próximos de Jesus, que o haviam visto ressuscitar pelo menos a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim, não conseguiam entender o que seria ressuscitar dos mortos. Até para eles que, além dessas ressurreições, haviam visto Jesus em toda sua glória, o significado da ressurreição dos mortos permanecia oculto. Prova é que depois da transfiguração cochichavam entre si sobre o que seria “ser ressuscitado dentre os mortos” (cf. Mc 9,10). Alguém poderia argumentar que a morte nós tocamos todos os dias. Notícias e imagens de corpos exangues e desfigurados, filmes de suicídio e assassinatos são exibidos fartamente na mídia. Quanto à ressurreiçao dos mortos... bem, sobre ela alguns cristãos falam no domingo de Páscoa e, mesmo assim, em meio a metáforas herméticas para a maioria dos ouvintes: vida nova, recomeço, conversão. Como se o homem de hoje e aquele que só vai à Igreja no domingo de Páscoa soubessem o significado

exato dessas expressões. Espantoso que tendamos a restringir nosso testemunho da ressurreição de Jesus e de todos os homens a alguns breves momentos da vida litúrgica! Não é a ressurreição de Cristo mistério central de nossa fé? Não cabe a nós testemunhar a certeza da vida eterna, plena, ressuscitada, feliz? Jesus mesmo não se declara o Deus de vivos? O homem pós-moderno – nós, hoje! – teima em cometer dois erros: confiar mais em si mesmo do que em Deus e resumir sua noção de realidade ao que vê e prova cientificamente. Para nós, a comprovaçao científica tornou-se sinônimo de realidade e – pasme! – de verdade! Como se realidade empírica e verdade fossem a mesma coisa! A maior parte de nós, na verdade, confunde o que se comprova empiricamente com algo que é verdadeiro. Já aquilo que não se enquadra nas leis científicas descobertas até hoje, segundo muitos de nós, “não pode ser verdade!”, como a maioria exclama. O espantoso é que nessas ocasiões tendemos a nos esquecer de que a ciência supera a si mesma de forma contínua e cada vez mais acelerada. Muito do que hoje se afirma como “real” e “verdadeiro”, “mensurável” e “comprovado” pode ser questionado logo amanhã por novos

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ENTRELINHAS Shalom Maná | Abril 2012 46

“Fé é dom de Deus. Razão, também. Vida é dom de Deus. Ressurreição, também. A razão nos é dada sem que a peçamos. A fé também. Da mesma forma, a vida. Igualmente a ressurreição dos mortos. Todas são dom gratuito de Deus. Não as pedimos nem as merecemos. Apenas as acolhemos com humildade ou rejeitamos com soberba” Lázaro. Em que, então, residia a dificuldade desses três mais próximos a Jesus? Haveria muito a discutir aqui. Detenho-me em um único aspecto: a excessiva confiança em si próprios. O homem, todo homem, tende a crer que a realidade e a verdade se resumem ao seu pequeno mundo empírico e a seus esquemas mentais. Não é de admirar. Afinal, são raros os que têm humildade bastante para refletir e admitir que a realidade e a verdade ultrapassem seu entendimento e conhecimento. Preferem, em orgulho e autossuficiência risíveis, adaptar a imensa realidade e a infinita verdade a seus parâmetros e compreensão. Pior! Confiam no que conseguem controlar e loucamente negam o que escapa a seus parâmetros estreitos. Ora, a fé ultrapassa todos os esquemas de segurança pessoal e social que nossa cultura estabeleceu. Naturalmente, como tem afirmado a Igreja, ao longo dos séculos, fé e razão não se excluem. Pelo contrário, se completam. A fé, entretanto, é superior à razão e a norteia, por definição e abrangência. A razão, autêntico e necessário auxílio para a fé, traz em si os limites de

nossa humanidade. A fé traz em si o ilimitado da “lógica divina”, tão superior à nossa como o céu da terra. Pedro, Tiago e João tocaram por diversas veses a morte real e a ressurreição dos mortos. Ainda assim, não entenderam e só vieram a crer quando Jesus Ressuscitado os fez tocar suas chagas, mostroulhes que tinha músculos e ossos, afirmou que não era um fantasma e ainda por cima comeu com eles, como narram os Evangelhos. Correto? Não! Absolutamente não foi isso que os fez crer. Ver músculos e ossos, comer com ressuscitados era experiência que os discípulos haviam tido, no mínimo uma vez, quando Jesus mandou dar de comer à filha ressuscitada de Jairo (cf. Mc 5,43) e quando, segundo João, se hospedaram na casa de Lázaro ressuscitado. A diferença é que Jesus Ressuscitado lhes comunicou o Espírito Santo e, com Ele, o dom da fé, que os fez crer na realidade que desafiava sua razão. Fé é dom de Deus. Razão, também. Vida é dom de Deus. Ressurreição, também. A razão nos é dada sem que a peçamos. A fé também. Da mesma forma, a vida. Igualmente a ressurreição dos mortos. Todas são dom gratuito de Deus. Não as pedimos nem as

merecemos. Apenas as acolhemos com humildade ou rejeitamos com soberba. Se as acolhemos, nelas crescemos e em nós, com nossa colaboração, se desenvolvem, viscejam, dão frutos. Se as rejeitamos, nos tornamos irracionais, fechados em nosso orgulho e presunção e, literalmente, morremos. Morremos com nossa razão, nosso orgulho, nossa morte para a vida biológica, na qual depositamos tanta esperança. Rejeitar a vida e a razão é, literalmente, condenarse à morte. O problema surgirá depois dela quando a ressurreição dos mortos, dom de Deus, nos será dada de qualquer forma, quer entendamos ou não, quer creiamos ou não, quer a peçamos ou não. Aí, de fato, teremos um problema vivencial e incontornável. Com humildade, portanto, deixemos de confiar tanto em nós mesmos e em nossos próprios parâmetros, sempre estreitos diante dos de Deus. Assim como pedimos constantemente o dom da vida em suas manifestaçoes de saúde, crescimento, realizações e progressos, peçamos constantemente o dom da fé em suas manifestações de amor-caridade, humildade e confiança em Deus. Para nossa própria felicidade, não pretendamos entender, como tentaram Pedro, Tiago e João, o significado da ressurreição dos mortos. Especialmente, porque significa exatamente o que a expressão diz: estar morto e voltar a viver com o mesmo corpo, só que de forma imperecível, sadia, gloriosa. Peçamos, com humildade, que o Senhor aumente nossa fé e deixemos de “procurar entre os mortos aquele que vive.” (Lc 24,5). Ele dará sentido a tudo. Ele, que é a razão de tudo.


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